Cristina Frutuoso 1. CUIDADOS PRÉ-OPERATÓRIOS A adequada preparação da doente para a cirurgia é fundamental para o sucesso do procedimento cirúrgico e a realização da história clínica e do exame objectivo são os elementos chave da avaliação pré-operatória. Há, no entanto, dados que suportam a necessidade de utilizar também exames laboratoriais e de imagem adequados ao tipo de procedimento e de doente. Tem igual importância a explicação a dar à doente sobre o procedimento cirúrgico e a disponibilidade para esclarecer as dúvidas existentes. 1.1. HISTÓRIA CLÍNICA E EXAME OBJECTIVO A história clínica pré-operatória deve incluir as situações clínicas passíveis de serem agravadas pelo procedimento cirúrgico ou, por outro lado, de complicar quer o acto cirúrgico quer a anestesia e a recuperação pós-operatória. 1.1.1. DOENÇAS CRÓNICAS, ANTECEDENTES CIRÚRGICOS E HÁBITOS O risco de complicações cardíacas e pulmonares no pós-operatório foi associado a vários factores, a maioria dos quais podem ser identificados pela história clínica e exame físico. O quadro 1 mostra as condições mais frequentemente associadas a complicações cardíacas ou pulmonares no pós-operatório. Algumas situações requerem exames complementares específicos e consulta com especialista. Pode ser necessária a realização de ecocardiograma em situações de insuficiência cardíaca ou doença valvular ou de prova de esforço, se há suspeita de doença isquémica. Nas doentes com asma ou doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) pode ser necessário fazer estudo funcional respiratório. A suspensão do consumo de tabaco, pelo menos 4 semanas antes do acto cirúrgico, reduz para metade o risco de complicações respiratórias1. A diabetes associa-se a um acréscimo de risco de morbilidade e mortalidade de 50%, incluindo risco de enfarte agudo do miocárdio no perioperatório, complicações infecciosas, cicatrização da ferida operatória ou de insuficiência renal aguda2. O controlo da glicemia capilar no perioperatório diminui significativamente estes riscos. Se houver história de diabetes descompensada ou de doença de órgão deve ser consultado endocrinologista. Os antecedentes cirúrgicos são importantes por poderem alertar para algumas complicações anestésicas ou operatórias. Pode ter havido resposta anormal a determinados anestésicos ou técnica anestésica. Deve ser inquirido se houve problemas hemorrágicos, tromboembólicos, peritonite ou oclusão intestinal. A história de cirurgia pélvica alerta o cirurgião para maior probabilidade de aderências que envolvam o intestino ou de estenose ureteral. Pode haver indicação para estudo da anatomia ureteral e eventual colocação pré-operatória de cateter uretérico duplo J. 603 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 53 Cuidados pré-operatórios e pós-operatórios Cardiovasculares Pulmonares Enfarte miocárdio prévio Angina Insuficiência cardíaca congestiva Diabetes Hipertensão Idade > 70 Arritmia Doença valvular Tabaco Obesidade DPOC Asma ASA* > 2 Idade > 70 Cirurgia abdominal ou torácica Duração cirurgia > 3 h Adaptado de Gynecologic oncology2. *Sociedade Americana de Anestesia 1.1.2. MEDICAÇÃO CRÓNICA Deve ser conhecida toda a medicação que a doente faz e identificada a que se deve continuar e a que deve ser interrompida. A maioria dos medicamentos não necessitam de ser suspensos para que a doente seja operada e alguns devem mesmo ser administrados no dia da cirurgia de manhã, como os hipotensores ou substitutos hormonais. Mesmo a prática de suspender os contraceptivos orais 2-4 semanas antes da cirurgia não têm suporte em estudos prospectivos com grupo controlo e não se recomenda a sua descontinuação por rotina3. As alterações induzidas pela contracepção oral requerem interrupção durante 4-6 semanas para retoma da normalidade. Foi estimado um risco de complicações tromboembólicas (CTE) de 0,96% nas doentes que estão sob contracepção oral e de 0,5% nas não-utilizadoras, mas a suspensão implica risco de gravidez4. São excepção os medicamentos que interferem com a coagulação, os hipotensores inibidores da monoaminoxidase (IMAO) e os antidiabéticos orais (ADO) de longa duração de acção. Os IMAO devem ser suspensos 2 semanas antes da cirurgia, enquanto os ADO se suspendem apenas 2-3 dias antes. 604 O quadro 2 mostra os principais antiagregantes plaquetares (AAP) utilizados e tempo de suspensão prévio necessário. Se a condição clínica que levou à prescrição do AAP não permitir a sua suspensão, como por exemplo nas doentes que têm stent coronário, deve ser providenciada a sua substituição por triflusal 200 mg, 2/dia, dado poder ser interrompido 24-48 h antes da cirurgia. Nas doentes que estão sob dicumarínicos, estes tem de ser interrompidos 3-5 dias antes do acto cirúrgico e substituídos por heparina de baixo peso molecular (HBPM) ou heparina endovenosa, em função da condição médica subjacente. A heparina pode ser iniciada apenas quando a relação normalizada internacional (INR) for inferior a 2. Se for prescrita HBPM em dose terapêutica esta deve ser reduzida e passada a dose profiláctica na véspera da cirurgia. A heparina endovenosa deve ser interrompida 4-6 h antes da cirurgia. A acção anticoagulante da HBPM não se traduz no tempo de tromboplastina parcial activado (TTPa), ao contrário do que acontece com a heparina, para a qual o TTPa se usa na monitorização da dose (2x o tempo do controlo). A retoma da dose terapêutica da HBPM ou da heparina endovenosa é função do tipo de cirurgia e do risco tromboembólico da doente e se feita precocemente pode produzir Capítulo 53 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 Quadro 1. Situações associadas a complicações cardíacas ou pulmonares no pós-operatório Mecanismo de acção Suspensão antes da cirurgia Ácido acetilsalicílico Acetilsalicilato de lisina Inactivação irreversível da ciclooxigenase 7-10 dias Clopidogrel Ticlopidina Bloqueio do receptor ADP* nas plaquetas 7-10 dias Dipiridamol Aumento da concentração do cAMP† 24 h Triflusal Bloqueio da ciclooxigenase 24-48 h AINE não selectivos Inactivação reversível das ciclooxigenases Função da semivida *adenosina difosfato †adenosina monofosfato cíclico hemorragia, que complica o pós-operatório e atrasa a retoma da anticoagulação eficaz. A interrupção de hipotensores ou de ADO pressupõe a monitorização da tensão arterial (TA) ou da glicemia capilar e prescrição de hipotensor ou insulina para administração em SOS. No dia da cirurgia, deve ser avaliada a glicemia capilar e a doente ser puncionada com soro glicosado a 5% para evitar hipoglicemia. Após a cirurgia, a glicemia deve ser monitorizada cada 2-4 h e prescrito esquema insulínico adequado ao valor da glicemia capilar. Os ADO e a insulina no regime habitual devem ser retomados quando a doente iniciar dieta oral. 1.1.3. ALERGIAS A doente deve ser inquirida sobre passado de alergia a determinados fármacos ou produtos. São mais frequentes a alergia a produtos iodados, utilizados na desinfecção, e a derivados da penicilina, utilizados na profilaxia antibiótica. Nos dois casos devem ser usados produtos alternativos. A alergia ao látex é rara mas pressupõe substituição de material na prestação de cuidados e na sala de operações. Pelas importantes implicações, a alergia ao látex deve ser sempre confirmada. Cuidados pré-operatórios e pós-operatórios 1.1.4. EXAME OBJECTIVO O exame objectivo deve ser global. É certo que a maioria das doentes que se submetem a cirurgia ginecológica são saudáveis, mas não deve ser esquecida a avaliação de outros órgãos, além do exame pélvico, em particular a função cardíaca e respiratória. Por outro lado, restrições ao movimento nas articulações coxofemorais podem condicionar o posicionamento da doente nas cirurgias realizadas por via vaginal. O exame pélvico permite-nos optar pela melhor via de abordagem, vaginal ou abdominal e, se escolhida a via abdominal, pelo tipo de incisão a fazer. Se for identificada qualquer infecção vulvo-vaginal, deve ser tratada antes da cirurgia. As vaginoses podem ser tratadas com metronidazol 500 mg oral 2/dia ou por aplicação tópica de metronidazol ou de clindamicina, durante 7 dias. Também a atrofia da mucosa vaginal deve ser corrigida pela aplicação tópica de estrogénios, durante 4-6 semanas antes da cirurgia. 1.2. AVALIAÇÃO LABORATORIAL E POR IMAGEM Em Portugal é habitual a realização de exames de rotina pré-operatória, independen- 605 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 Quadro 2. Antiagregantes plaquetares5 patologia conhecida e assintomáticas, a escola americana recomenda a realização de história clínica e exame físico completo e a determinação da hemoglobina se a doente tem menos de 40 anos; depois desta idade passa a ser obrigatório o ECG. Só após os 65 anos se recomenda a determinação do azoto ureico e da glicemia. Recomenda-se a classificação do grupo sanguíneo se há potencial para uma perda moderada de sangue. Se a doente for submetida a cirurgia ginecológica complicada e sem outra patologia conhecida e assintomática, recomenda-se a realização de hemograma completo, o estudo da coagulação, da função renal e hepática e o pedido de classificação e de provas de compatibilidade para transfusão de GV. Recomenda-se consulta de anestesia neste grupo. Se a doente tem comorbilidades, do foro cardíaco, pulmonar, renal, endócrino, vascular, neurológico ou ortopédico com necessidade de medicação crónica, e independentemente do tipo de patologia ginecológica e procedimento cirúrgico, recomendam-se os mesmos exames referidos para as doentes com patologia ginecológica complicada e acrescentam o ECG e consulta da especialidade dirigida à comorbilidade. Quadro 3. Escala de condição física da ASA Classe 1 – Doente sem alterações orgânicas, fisiológicas ou psiquiátricas. O processo patológico a ser tratado é localizado e não envolve distúrbios sistémicos Classe 2 – Doente com alterações sistémicas ligeiras a moderadas, causadas pela situação a ser tratada cirurgicamente ou por outros processos fisiopatológicos Classe 3 – Doença sistémica grave de qualquer causa Classe 4 – Doença sistémica grave que coloca em risco a vida do doente e que poderá não ser tratável pelo procedimento a efectuar Classe 5 – Doente moribundo, com poucas hipóteses de sobreviver, mas que é submetido ao procedimento em desespero de causa Classe 6 – Dador de órgãos 606 Capítulo 53 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 temente do tipo de doente e do procedimento cirúrgico a realizar. É comum o pedido de hemograma e estudo da coagulação, glicemia e ionograma, da função renal e hepática, de radiografia do tórax e de electrocardiograma (ECG) e, por vezes, de análise da urina. Há um estudo americano que mostra que 72,5% dos testes pré-operatórios foram considerados desnecessários após revisão da história clínica e do exame físico do doente3. Munro concluiu que o poder dos testes realizados para avaliar o risco de complicações no pós-operatório nas doentes assintomáticas era fraco ou nulo6. Uma avaliação pré-operatória racional pressupõe o conhecimento da categoria de risco da doente e o tipo de procedimento cirúrgico. Para classificar a condição física da doente é habitualmente utilizada a classificação da Sociedade Americana de Anestesia (ASA) (Quadro 3). Roizen propõe três categorias para o procedimento cirúrgico (A, B, C) em função da probabilidade da doente necessitar de transfusão de glóbulos vermelhos (GV), de necessitar de monitorização invasiva ou de cuidados intensivos no pós-operatório3. Para as mulheres propostas para cirurgia ginecológica não complicada e sem outra 1.4. PROFILAXIA DA TROMBOEMBOLIA O período de internamento deve ser limitado ao tempo mínimo necessário por se associar a riscos acrescidos, em particular de infecção e também pelos custos que implica. No entanto, algumas doentes precisam de internamento antecipado para equilíbrio de condições médicas concomitantes ou ajuste terapêutico. Doenças crónicas graves, como a insuficiência cardíaca congestiva, as valvulopatias e a hipertensão pulmonar severa, a doença pulmonar obstrutiva crónica e a asma ou a diabetes descompensadas, requerem monitorização e podem precisar de ajuste terapêutico. As doentes que estão sob anticoagulação com dicumarínicos precisam, habitualmente, de internamento precoce para administração de heparina de baixo peso molecular ou heparina endovenosa. Para todos os procedimentos cirúrgicos deve ser dado consentimento da doente. Deve ser dada informação oral ou escrita sobre o procedimento a realizar, bem como sobre as complicações possíveis, e a doente deve assinar uma declaração de consentimento da intervenção cirúrgica. A doente submetida a cirurgia pélvica tem um risco de 2-45% de vir a ter uma trombose venosa dos membros inferiores. Destas, 20% são da região poplítea ou femoral, e destas, 40% vão ter tromboembolia pulmonar (TEP)7. As doentes de alto risco tem uma probabilidade de 80% de ter trombose da perna e um risco de TEP de 5%8. A indicação para fazer profilaxia das CTE, trombose venosa profunda e TEP relaciona-se com o tipo de procedimento cirúrgico e com as comorbilidades que a doente apresenta (Quadro 4). A cirurgia pélvica é por si só uma indicação para a profilaxia das CTE. A estase venosa é o principal factor desencadeante da trombose pós-operatória. Doran demonstrou que durante o procedimento cirúrgico o retorno venoso nos membros inferiores está reduzido em 50%, como consequência do relaxamento muscular induzido pela anestesia7. Esta diminuição do retorno venoso mantém-se durante as 2 semanas que se seguem à cirurgia. Por outro lado, também a compressão prolongada da veia cava inferior, que é produzida pelo Quadro 4. Factores de risco de trombose venosa profunda9 Obesidade (índice de massa corporal [IMC] > 30) Idade > 40 anos Gravidez Fumador Estase venosa crónica Imobilização Trauma Modeladores selectivos dos receptores de estrogénios Estrogénios Cirurgia abdominal e pélvica Cirurgia extensa* Trombofilia* Doença maligna* História de trombose venosa crónica* História de TEP* *Alto risco. Cuidados pré-operatórios e pós-operatórios 607 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 1.3. CUIDADOS GERAIS A mobilização precoce é outro factor de prevenção das CTE, que é facilmente aplicável e exequível em quase todos os procedimentos cirúrgicos ginecológicos (excepto na vulvectomia e na exenteração pélvica). O quadro 5 mostra as recomendações para prevenção dos acidentes tromboembólicos12. As doentes de muito alto risco, em particular as que tem antecedentes de CTE e que estão sob anticoagulação à data da cirurgia, têm indicação para colocação pré-operatória de filtro na veia cava inferior para prevenção da TEP2. Outros autores recomendam o uso simultâneo da HBPM, meias de compressão elástica ou compressão pneumática extrínseca8. 1.5. PROFILAXIA DA INFECÇÃO DE PÓS-OPERATÓRIO A utilização profiláctica de antibioterapia de largo espectro na cirurgia ginecológica foi proposta pelo risco de contaminação do campo operatório pela flora bacteriana da vagina. A eficácia da profilaxia baseia-se no princípio de que a proliferação bacteriana e infecção podem ser inibidas por acção do antibiótico, na altura da inoculação do agente infeccioso. Há dados que suportam o uso profiláctico de antibióticos de largo espectro na histerectomia abdominal e vaginal, dado que nestes procedimentos a antibioterapia profiláctica reduz significativamente o risco de abcessos pélvicos e da cúpula vaginal3. Não há, pelo Quadro 5. Recomendações para profilaxia das CTE12 Procedimentos breves, situações benignas, sem outra patologia, < 40 anos Mobilização precoce e persistente Intervenções em situações benignas, sem outra patologia 20-30 mg enoxaparina 2.500 U dalteparina Intervenções extensas, situações malignas, doentes com factores de risco 40 mg enoxaparina ou 5.000 U dalteparina (compressão pneumática extrínseca) Doentes com elevado risco hemorrágico Compressão pneumática extrínseca 608 Capítulo 53 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 intestino e pano ou compressas utilizados para preparar campo operatório, é facilitadora da estase venosa. O desnudamento dos vasos pélvicos realizado na linfadenectomia pélvica, por exemplo, induz a agregação plaquetar e a cascata da coagulação. O risco de CTE está directamente relacionado com a duração da intervenção7. A utilização profiláctica da heparina e a compressão pneumática extrínseca reduzem significativamente o risco de CTE nas doentes de moderado e alto risco10. Estima-se uma redução de risco de 75%11. A heparina actua por inibição da formação de trombina enquanto a compressão extrínseca evita a estase venosa e estimula o sistema fibrinolítico10. A HBPM é pelo menos tão eficaz quanto a heparina não-fraccionada na prevenção das CTE e tem maior semivida, permitindo administração única diária, e tem resultados mais reprodutíveis. É actualmente a forma de administração da heparina que é standard na profilaxia das CTE. A enoxaparina e a dalteparina são as mais frequentemente utilizadas7. A compressão pneumática extrínseca é favorecida pela escola americana por ter menor custo e menos efeitos colaterais que a HBPM, como a trombocitopenia e aumento da drenagem retroperitoneal após linfadenectomia2. Qualquer destes métodos deve ser mantido pelo menos 5-7 dias no pós-operatório, mas a duração da profilaxia deve ser individualizada. Cuidados pré-operatórios e pós-operatórios talidade, implicando elevados custos. É das três mais prevalentes no meio hospitalar. A contaminação do local da incisão é precursora da ILFC. Quando é colocado material de prótese, a quantidade de inoculum necessária para desencadear a infecção é menor. É consensual que a principal fonte de microrganismos é a flora endógena da doente (pele, mucosas, vísceras ocas), mas as fontes exógenas são também importantes (equipa cirúrgica, ambiente da sala de operações, instrumentos e material utilizado). Medidas que podem ser adoptadas para redução da ILFC: — Banho com agente anti-séptico na noite anterior à cirurgia. — A tricotomia abdominal e púbica associa-se a aumento do risco de infecção do local da cirurgia, sobretudo se realizada na véspera da cirurgia. Como tal, recomenda-se que seja restrita ao local da incisão, realizada imediatamente antes da cirurgia e com máquina eléctrica. — Preparação da vagina, vulva e períneo sistemática: pré-lavagem. — Preparação da pele abdominal, em círculos concêntricos do centro para a periferia, desde as últimas costelas a meio da coxa e, lateralmente, até à crista ilíaca anterior e linha axilar anterior. 1.6. PREPARAÇÃO INTESTINAL Nos casos de cirurgia ginecológica não complicada é habitualmente recomendada a limpeza do cólon baixo. Recomenda-se a realização de um clister de limpeza na véspera da cirurgia, que se pode repetir de manhã, se o primeiro não tiver sido eficaz. Em alternativa ou em associação, podem ser usados laxantes orais e microclisteres de citrato de sódio. Nas doentes em que se preveja ser necessária a ressecção intestinal ou haja risco de lesão do intestino, deve ser feita preparação intestinal total. Pode ser utilizada a preparação mecânica associada ou não a antibiótico. Recomenda-se a sua realização em situações de 609 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 contrário, dados que permitam recomendar a profilaxia antibiótica na cirurgia laparoscópica ou histeroscópica não infectada. Recomenda-se a administração única de 1-2 g de cefazolina, em função do peso inferior ou superior a 70 kg, 1-2 h antes do início da cirurgia, para que exista concentração bactericida do fármaco no momento da incisão. A dose deve ser repetida se a cirurgia tiver duração superior a 3 h, ou a perda de sangue for superior a 1.500 ml, permitindo manter os níveis séricos e nos tecidos do fármaco, durante o acto cirúrgico e algum tempo após encerramento da ferida operatória. As cefalosporinas de segunda e terceira geração, como o cefotetan e cefotaxima, são igualmente eficazes. Pode também ser administrado o metronidazol. No pós-operatório de cirurgia ginecológica ou outra, a doente tem também risco de infecção respiratória, urinária e da ferida operatória. A prevenção da infecção não se limita, como tal, à simples administração profiláctica de antibióticos e são necessárias outras medidas3. Cuidados gerais para diminuição do risco de infecção no pós-operatório: — Limitar o internamento pré-operatório ao tempo mínimo necessário. — Suspensão do tabaco, pelo menos 30 dias antes da cirurgia. — Adequado controlo da glicemia capilar, evitando valores superiores a 150 mg/dl. — Analgesia adequada e a mobilização precoce, para diminuição do risco de atelectasia no pulmão e de infecção respiratória. — Posicionamento no leito com a cabeça levantada a 30-45°, diminuindo o risco de microaspiração de bactérias residentes no estômago, prevenindo a infecção respiratória baixa. — Remoção precoce de dispositivos invasivos como a sonda nasogástrica, facilitadora da infecção respiratória ou do cateter vesical, facilitador da infecção urinária. A infecção no local da ferida cirúrgica (ILFC) é causa importante de morbilidade e mor- 2. CUIDADOS PÓS-OPERATÓRIOS Podemos dividir os cuidados no pós-operatório em três fases: imediata ou pós-anestésica, intermédia, correspondente ao internamento hospitalar, e a de convalescença. No pós-operatório imediato são preocupações dominantes a analgesia, a detecção precoce e tratamento de alterações cardiovasculares, pulmonares e do balanço de fluidos. 2.1. ANALGESIA A dor no pós-operatório é secundária ao procedimento cirúrgico e/ou anestésico e pode ser agravada com a mobilização, respiração, tosse, mobilização de drenos e realização de pensos. Há trabalhos que referem que 50% dos doentes têm medo da cirurgia por medo da dor e 82% dos doentes referem dor no pós-operatório14,15. 610 A dor influencia a resposta fisiológica no pós-operatório. O controlo da dor diminui as complicações no pós-operatório, permite uma mobilização mais precoce, encurta o período de hospitalização, diminui as readmissões hospitalares, diminui os custos e previne a ocorrência de dor crónica. Intra-operatoriamente e no pós-operatório imediato há dor forte e devem ser usados opióides fortes como a morfina, o fentanil ou a petidina. Devem ser associados a anti-inflamatórios não esteróides (AINE) e a paracetamol. Para a dor moderada, pode ser usado o tramadol, também em associação com AINE e paracetamol. O tramadol, em relação aos opióides fortes, tem menor risco de depressão respiratória e obstipação. O uso de pelo menos dois analgésicos com diferentes mecanismos de acção permite reduzir as doses e as reacções adversas dose-dependentes e está associada a maior eficácia analgésica15. Não devem ser esquecidos os efeitos secundários dos analgésicos, dado poderem ser tão mal tolerados quanto a dor: sedação (41%), náuseas (35%), cefaleias (30%), obstipação (26%), vómitos (14%), perturbações do sono (14%), tonturas (14%), prurido (10%)15. São igualmente eficazes na redução da dor pós-operatória o uso de anestésicos locais para infiltração na ferida operatória, bloqueio de nervos periféricos ou neuroaxiais16. A abordagem terapêutica da dor pós-operatória prevê iniciar a intervenção farmacológica antes do pico doloroso, preferir a via endovenosa e logo que possível passar a via oral, administrar em doses e intervalos posológicos adequados, ajustar doses até obtenção do efeito pretendido, rever esquema terapêutico após controlo da dor e aumentar a dose durante procedimentos dolorosos16. O recurso ao drug infusion ballon (DIB) e à patient controlled analgesia (PCA) permite a infusão endovenosa contínua de opióides, durante 24-48 h, e conferem uma analgesia mais eficaz do que a administração parentérica regular17. Capítulo 53 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 doença maligna, endometriose ou situação de risco de aderências, por cirurgia pélvica ou peritonite prévias. Há, no entanto, uma revisão Cochrane sobre preparação intestinal para cirurgia electiva do cólon, que não mostrou vantagem da preparação mecânica intestinal na redução das complicações habitualmente associadas à cirurgia do cólon13. No entanto, a preparação intestinal total continua a ser aconselhada na cirurgia do cólon. Podem ser utilizados regimes à base de polietilenoglicol (Klean-Prep®) ou de fosfato sódio por via oral (Fleet’s Phospha Soda®). Em Portugal, é mais frequente a utilização do primeiro, ainda que requeira ingestão de maior volume de água e se associe mais frequentemente a náuseas. O segundo só deve ser administrado a adultos saudáveis, pelo risco de desequilíbrio hidroelectrolítico e insuficiência cardíaca. Pode ser associado antibioterapia oral com neomicina 1 g e metronidazol 1 g, administrados na véspera da cirurgia às 14 e 23 h. 2.2. FLUIDOS E ELECTRÓLITOS A monitorização dos fluidos e electrólitos é muito importante na doente que é submetida a cirurgia. As doentes diferem na idade, estado nutricional basal e na complexidade dos problemas médicos. A maioria dos procedimentos cirúrgicos em ginecologia se decorrerem sem complica- ções, não implicam grande perturbação de volume nem de electrólitos. São sobretudo as doentes que são submetidas a cirurgia digestiva ou cirurgia complicada por hemorragia, com necessidade de reposição de volemia, que requerem maior atenção aos problemas de volume e electrólitos. O corpo humano é constituído por água em 60% do peso, e existe uma troca de aproximadamente 2 l de fluidos/dia, entre 1.5002.000 ml de ingestão alimentar e 750-1.500 ml de perda na urina, 300 ml nas fezes e 500 ml perdas insensíveis. Os componentes do balanço hídrico, que é a diferença entre a entrada e a saída de líquidos, que são habitualmente considerados na prática diária, são a ingestão de líquidos ou fluidos endovenosos, por um lado, e a diurese, as drenagens gástricas e do campo operatório, por outro. São difíceis de contabilizar as perdas insensíveis pela pele e respiração, as perdas de líquido nas fezes ou os líquidos da comida sólida. No doente febril, com taquipneia ou com diarreia, há perdas de líquidos habitualmente não contabilizadas (Quadro 6). Quadro 6. Entradas e saídas de sódio – Entradas de Na Dieta Parenteral 10 g NaCl/24 h (177 mEq Na+ e Cl–) 1.000 ml soro fisiológico = 9 g NaCl (155 mEq Na+ + 155 mEq Cl–) – Saídas de Na+ Urina Variável: quase todo o NaCl ingerido é eliminado pela urina Pele Secreções gastrointestinais Fezes normais Diarreia Secretora Malabsorção Vómitos Normais Acloridia Outras secreções 50-60 mEq/l 1 mEq/24 h 130 mEq/l 50 mEq/l 40 mEq/l 130 mEq/l 130 mEq/l Cuidados pré-operatórios e pós-operatórios 611 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 A PCA é preferida por 90% dos doentes, mas é caro e requer formação do doente e dos profissionais de saúde. A analgesia epidural permite um efeito mais prolongado, pela administração de opióides fortes e anestésicos locais, por via epidural, em doses mais baixas. Quer com a PCA ou DIB, quer com a epidural, devem ser associados AINE e/ou paracetamol e deve ser mantida a vigilância regular dos sinais vitais. Nas cirurgias abdominais extensas ou em casos de doença maligna, recomenda-se o uso de opióides fortes por PCA ou DIB ou analgesia epidural, com anestésicos locais e opióides fortes16,17. 612 plo por aumento da ingestão de água ou administração de solutos hipo-osmolares, ocorre diminuição da secreção de hormona antidiurética (HAD) e consequente aumento da permeabilidade à água nos ductos colectores no rim. Quando há défice de volume, acontece o contrário e há diminuição da permeabilidade dos ductos colectores. A ingestão de água ou a perfusão de dextrose a 5% (D5) resulta na expansão de todos os compartimentos líquidos: como a osmolaridade dos compartimentos intra e extracelular é igual, a distribuição da água é proporcional. Assim, 1.000 cc de soro glicosado a 5% resultam num aumento de LIC de 666 cc, de LEC de 333 ml, sendo o aumento de LIV de apenas 83 cc. A ingestão ou perfusão de solutos que entram devagar na célula, como a glicose, ou são activamente excretados da célula, como o sódio, obriga a água a manter-se junto destes solutos no compartimento LEC para não ser quebrado o equilíbrio osmolar entre os LIC e LEC. Se estes solutos são administrados em soluções hiperosmolares, há saída de líquido do LIC para o LEC e, consequentemente, contracção do LIC e expansão do LEC. As alterações electrolíticas do líquido extracelular são detectadas pela determinação da concentração sérica dos electrólitos, e o tratamento a efectuar pressupõe saber se há diminuição, aumento ou normal volume extracelular. Na avaliação do estado do volume do LEC deve ter-se em mente que o volume crítico é a porção do LIV que efectivamente mantém a pressão de enchimento do ventrículo esquerdo e assegura o débito cardíaco. O volume total pode ser avaliado a partir da medição da pressão venosa central (PVC), que é feita por intermédio de cateter colocado numa veia torácica de grande calibre, próxima da aurícula direita. No adulto normal situa-se entre os 5-12 cm H2O. Se inferior a 3 cm H2O pode assumir-se que há redução significativa do LIV. Capítulo 53 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 Na maior parte das situações clínicas, as alterações no balanço hídrico são secundárias a alterações no balanço de sódio e há retenção de líquidos por haver retenção de sódio. O líquido intracelular (LIC) corresponde a 66% dos fluidos totais do organismo. O compartimento extracelular (LEC) tem os restantes 33% e, destes, 25% correspondem ao líquido intravascular (LIV). A membrana celular é permeável à água, pelo que a osmolaridade do LEC é igual à do LIC. A osmolaridade do LEC é determinada fundamentalmente pelo sódio e aniões acompanhantes. Em situações clínicas específicas, algumas substâncias em elevadas concentrações como a glicose, o manitol, o álcool e a ureia contribuem para aumento da osmolaridade plasmática. A osmolaridade do LIC é determinada pelo potássio e aniões acompanhantes, em particular o fosfato e as proteínas. As forças oncóticas (albumina e globulinas) são fracas em relação às forças osmóticas (cristalóides Na e K+) na determinação da osmolaridade, mas são importantes nos sistemas biológicos, porque as proteínas são selectivamente mantidas no espaço intravascular. A concentração de água e electrólitos está selectivamente reduzida no LIV em relação ao espaço intersticial, produzindo uma deslocação de água e electrólitos do espaço intersticial para o LIC. A hipoalbuminemia produz diminuição da pressão oncótica plasmática e aumento efectivo da concentração de água e electrólitos e consequente movimento de água e electrólitos para o LEC. O volume intersticial aumenta e o volume intravascular diminui, ao que o rim responde retendo água e sódio. A hipoalbuminemia grave pode conduzir à diminuição do LIV e choque. Assim, a regulação da transferência de água e electrólitos entre os compartimentos intravascular e intersticial é determinada pelo balanço entre as forças oncóticas, forças hidrostáticas e também pela permeabilidade capilar às proteínas plasmáticas. Quando há sobrecarga hídrica, que se traduz na diminuição da osmolaridade, por exem- 2.2.1. CORRECÇÃO DE DISTÚRBIOS HIDROELECTROLÍTICOS Volume À doente que está em dieta zero prolongada deve ser feito o balanço hídrico diário e devem ser repostos a água e electrólitos perdidos. Na doente que não tem alterações da função renal nem perturbações do metabolismo da água ou dos electrólitos, recomenda-se a administração diária de 2 ml/kg/h de soro polielectrolítico. Se a doente tem perdas gástricas, estas devem ser substituídas, além do volume de manutenção. Se a doente tem perda de volume por febre ou hiperventilação, a reposição é feita com dextrose a 5%. Cuidados pré-operatórios e pós-operatórios Se a causa é a diarreia ou a drenagem gástrica, a reposição faz-se com cloreto de sódio 9%. Hipo e hipernatremia O sódio sérico reflecte o volume total de água e não o sódio total. Na maioria dos casos a hiponatremia representa um excesso relativo de água e a correcção faz-se por restrição de água. Só nos casos em que coexiste hiponatremia e depleção de volume é que há necessidade de repor sódio e volume, o que habitualmente se faz por administração de cloreto de sódio a 9%. Só há indicação para tratamento da hiponatremia, com reposição de sódio e independentemente do estado do LEC e da causa, se houver clínica. A hiponatremia manifesta-se por náuseas, vómitos, convulsões, alterações do estado de consciência e coma. Este quadro implica, habitualmente, valores de sódio inferiores a 125 mEq/l, e requer correcção rápida dos valores de natremia. Usa-se o cloreto de sódio hipertónico a 3%. Para calcular a quantidade de sódio a administrar usa-se a fórmula descrita no quadro 7. A hiponatremia pode ser uma complicação da histeroscopia cirúrgica, por absorção intra-operatória de quantidades significativas de líquido de irrigação. A hipernatremia é uniformemente hiperosmolar e acontece por perda de água ou por excessiva administração de soluções salinas. Valores de natremia superiores a 160 mEq podem associar-se a sintomas de letargia, astenia, podendo evoluir para fasciculações, convulsões e coma. Nestas situações, deve ser feita perfusão de 2-3 l de dextrose a 5% e administrado furosemido, de forma a obter um débito urinário de 10-20 ml/min. Se não há clínica, deve ser estimado o défice de volume e a correcção pode ser programada para 24-48 h. A fórmula a utilizar para determinar o défice de água está no quadro 7. 613 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 Do ponto de vista laboratorial, a creatinemia/azotemia e o hematócrito acima do valor normal são também indicadores de diminuição do LIV. A azotemia pode ser assumida como resultante da diminuição da perfusão renal se a creatinina está elevada, se a urina está concentrada (U osm/P osm > 1,5) e se o rim consegue preservar de sódio (U Na < 20 mEq/l). Há outros parâmetros clínicos não invasivos que podem ser usados para avaliação da volemia: a determinação do peso diário, a TA abaixo do normal numa doente com hipotensão ortostática, ou a diminuição da turgescência cutânea. O edema, a ascite e o derrame pleural estão associados a aumento do volume intravascular na insuficiência cardíaca congestiva. Contudo, se a causa destas alterações for a hipoalbuminemia, não se pode assumir que haja aumento do volume intravascular. De facto, o aumento de peso diário está normalmente associado ao aumento do LIV, excepto se há hipoalbuminemia, obstrução venosa ou desenvolvimento de terceiro espaço, como a oclusão ou isquemia intestinal. Défice de água (l) [(Na no plasma – 140)/140] × água corporal total Água corporal total 0,6 × peso Défice de sódio (mEq/l) (140 – Na actual) × 0,6 água corporal total Défice em potássio (mEq/l) (3,5 – K actual) × 0,4 × peso Cálculo da taxa de infusão (ml/min) Infusão pretendida (Mg/kg/min) × peso (kg)/ concentração (Mg/ml) Hipo e hipercaliemia As alterações na caliemia são frequentes e importantes pela importância que este ião tem na manutenção do potencial transmembranar da fibra muscular cardíaca. Como só 2% do potássio é extracelular, pequenas alterações na concentração do potássio reflectem grandes modificações no potássio total. As causas mais frequentes de hipocaliemia no doente cirúrgico são as perdas digestivas e a administração de diuréticos. Todos os diuréticos, excepto a espironolactona, triametereno e amiloride promovem a eliminação de potássio. Manifesta-se por fraqueza, ileus, cãibras e risco de arritmia cardíaca. A hipocaliemia inferior a 2 mEq/l requer tratamento urgente: 20 mEq em 100 cc de cloreto de sódio a perfundir em 1 h. As hipocaliemias não graves podem ser tratadas com correcção da causa e reposição endovenosa, usando 40 mEq em 1.000 cc de soro fisiológico (máximo 60-80 mEq/l). A utilização de concentrações superiores pode também ser cardiotóxica, e raramente são necessários mais do que 120-160 mEq/dia para corrigir hipocaliemia. A causa mais frequente de hipercaliemia é a insuficiência renal e a incapacidade para eliminar a produção diária de potássio, a destruição celular e também a mobilização de potássio do líquido intra para o extracelular em situações de acidemia. Pode haver pseudo-hipercaliemia associada à hemólise, produzida pelo traumatismo mecânico na 614 punção venosa. Os sinais electrocardiográficos incluem ondas T pontiagudas, prolongamento de PR e alargamento QRS. Valores superiores a 6,5 mEq/l e alterações no ECG requerem tratamento imediato. Pode ser utilizada 500 cc glicose a 10% com 15 U de insulina, em perfusão rápida; 5-10 ml de gluconato de cálcio a 10% e 1-2 ampolas de 50 ml de bicarbonato a 8,4%. O gluconato de cálcio e o bicarbonato revertem a acção do potássio na fibra muscular. A diurese deve ser forçada com furosemido. Em situações de insuficiência renal pode ser necessária diálise. Hipo e hipercalcemia Aproximadamente, 40% do cálcio circula ligado à proteínas, mas é a fracção livre que é activa. A calcemia reflecte o cálcio livre e ligado às proteínas. A hipoalbuminemia afecta a calcemia total de acordo com a seguinte fórmula: cálcio corrigido mg/dl = cálcio medido + [(4 – albumina g/dl) × 0,8]. A hipocalcemia manifesta-se por cãibras, parestesias, sinal de Chevostek e de Trosseaux. As doentes com hipocalcemia e hipoalbuminemia estão normalmente assintomáticas e não requerem terapêutica. A hipocalcemia sintomática pode ser tratada com 10 ml de gluconato de cálcio a 10%, por via endovenosa, durante 15 min. A hipercalcemia está normalmente associada a aumento da reabsorção óssea por lesões secundárias e diminuição da eliminaCapítulo 53 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 Quadro 7. Fórmulas usadas na correcção do distúrbio hidroelectrolítico Magnésio, fosfato O magnésio tem múltiplas funções no organismo, em particular na função neuromuscular. Apenas 1% está no líquido intersticial. O metabolismo do magnésio depende do sódio e do potássio. A hipomagnesiemia é mais comum do que a hipermagnesiemia, e resulta de perdas gastrointestinais ou défice alimentar. A clínica é inespecífica. A reposição pode ser feita por via oral com 240 mg, 1-4/dia. Se houver valores inferiores a 1 mEq/l pode ser feita reposição endovenosa com 4 g de magnésio em 50 ml de dextrose a 5%, em 30 min. A quase totalidade do fósforo está no osso e espaço intracelular, e apenas 1%, como acontece com o magnésio, se encontra no espaço extracelular. Os níveis de fósforo, cálcio, magnésio e potássio devem ser monitorizados em conjunto porque os seus metabolismos interagem. Também a clínica da hipofosfatemia é inespecífica, e apenas o nível de fósforo inferior a 1 mEq/l requer terapêutica endovenosa. Deve tratar-se com 2,5-5 mg/dl/kg de fósforo elementar, administrado em 6 h. Equilíbrio ácido-base Existem diversos sistemas tampão que permitem a manutenção do equilíbrio ácido-base no organismo, apesar do desenrolar constante de processos metabólicos produtores de carga ácida. O sistema mais importante e, também mais facilmente mensurável, é o equilíbrio bicarbonato - ácido carbónico. Este sistema tampão reflecte-se nos níveis de bicarbonato no plasma e na tensão de CO2, que está em Cuidados pré-operatórios e pós-operatórios equilíbrio com o ácido carbónico no plasma. Alterações nos valores de cada um dos elementos deste sistema tampão reflectem alterações no equilíbrio ácido-base. Alterações na tensão do CO2 (Pco2) reflectem quer uma alteração primária respiratória (hiper ou hipoventilação) e consequentes distúrbios respiratórios no equilíbrio ácido-base, quer uma tentativa respiratória de compensar alterações na concentração sérica de bicarbonato (distúrbio metabólico). A hiperventilação, como causa primária, resulta na diminuição da Pco2 no sangue e alcalemia respiratória. A hipoventilação, como causa primária, resulta na subida da Pco2 e produção de acidemia respiratória. Por outro lado, quando a causa primária não é respiratória, há uma tentativa ventilatória de manter o pH, que pode ser de hipo ou hiperventilação, criando assim alterações compensatórias na Pco2. Assim, avaliando o pH e as alterações na Pco2 e a concentração do bicarbonato, é habitualmente possível distinguir acidemia e alcalemia respiratória primária, bem com a sua duração, dos fenómenos de compensação secundária (Quadro 8). Alterações primárias na concentração de bicarbonato reflectem fenómenos menos óbvios que as alterações pulmonares primárias. A acidose metabólica é definida como a diminuição da concentração do bicarbonato, que surge como uma causa primária ou mecanismo compensatório de distúrbio metabólico. O primeiro passo na avaliação da acidose metabólica primária é a avaliação dos electrólitos séricos e o cálculo do anion-gap. A fórmula do anion-gap utilizando os electrólitos é a seguinte: anion-gap = (Na) – (Cl– + HCO3–). Um anion-gap normal tem valores de 10-14 mEq/l. As causas de acidose metabólica em função do valor do anion-gap estão no quadro 9. O segundo passo é a avaliação da eficácia da resposta ventilatória compensadora. O 615 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 ção renal. Ao contrário dos outros distúrbios electrolíticos, é raramente iatrogénica. O tratamento é feito por hidratação e diurético, associados a bifosfonatos: 2-3 l de soro polielectrolítico, furosemido endovenoso, ácido zoledrónico ou pamidronato de cálcio endovenoso. Pode haver necessidade de repetir o pamidronato. Distúrbio ácido-base Episódio inicial Episódio compensação Alteração no H+ e pH Acidose metabólica n HCO3– n Pco2 l H+ en pH Alcalose metabólica l HCO3– n Pco2 mínima e só com l HCO3– acentuada n H+ e l pH Acidose respiratória Aguda Crónica l Pco2 l Pco2 l HCO3– ligeira l HCO3– importante l H+ e n pH l H+ e n pH Alcalose respiratória n Pco2 l HCO3– n H+ e l pH Adaptada de Te Linde’s7. Quadro 9. Causa do distúrbio ácido-base em função do anion-gap Anion-gap elevado Anion-gap normal Anion-gap normal com hipercaliemia Falência renal Necrose tubular aguda Falência renal inicial Cetoacidose Diarreia Hidronefrose Acidose láctica Acidose pós-hipocapnia Derivação urinária Inibidores da anidrase carbónica Adição de HCL Toxicidade sulfúrica Adaptado de Practical Gynecological Oncologic3. mecanismo esperado é a hiperventilação com diminuição da Pco2, reduzindo os efeitos nefastos do n HCO3–. A fórmula utilizada para determinar a resposta respiratória esperada para a acidose metabólica é: Pco2 esperada = 1,5 × (HCO3– actual) + 8 (± 2). Nas doentes nas quais os níveis de Pco2 descem abaixo do esperado deve-se pensar que há um segunda causa para o distúrbio (alcalose respiratória). Nas doentes nas quais a Pco2 está mais elevada do que o esperado, deve-se pensar numa patologia respiratória, que não permite a compensação (acidose respiratória além do distúrbio metabólico). 616 O tratamento da acidose metabólica depende da causa. Habitualmente o tratamento da causa é suficiente. Nas doentes com HCO3– < 10 mEq/l ou pH < 7,2, sobretudo se há hipotensão e se espera agravamento do problema de base, deve ser considerada a terapia com bicarbonato. A terapia com bicarbonato deve ser ponderada dado o risco teórico de agravar transitoriamente o pH do líquido cefalorraquídeo, induzir sobrecarga de líquido ou induzir alcalose metabólica (rebound). A alcalose metabólica está mais frequentemente associada a hipovolemia: a reabsorção de sódio pelo rim arrasta a reabsorção de HCO3–. A resolução da situação passa pela Capítulo 53 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 Quadro 8. Distúrbio do equilíbrio ácido-base 2.3. NUTRIÇÃO A nutrição do doente cirúrgico é um componente essencial do suporte perioperatório. A maioria das doentes submetidas a procedimentos cirúrgicos apresentam reservas nutricionais suficientes para tolerar um curto período de jejum e catabolismo. No entanto, alguns indivíduos necessitam de suporte nutricional, principalmente aqueles que são submetidos a grande traumatismo cirúrgico ou apresentam infecção ou caquexia, relacionada com doença maligna. As doentes com carcinoma do ovário avançado têm prevalência mais alta de malnutrição, em relação aos outros cancros ginecológicos. A nutrição adequada mantém o metabolismo basal, a cicatrização da ferida operatória e a resposta imunológica. Donato2 et al., num trabalho com 104 doentes com cancro do ovário submetidas a cirurgia intestinal, relacionaram as complicações infecciosas com a proteinemia pré-operatória e perda de peso, e por outro lado não encontraram relação com a extensão da cirurgia de redução tumoral, nem com número de anastomoses intestinais. A doente que foi submetida a cirurgia ginecológica não complicada pode retomar alimentação oral no primeiro dia de pós-operatório. É importante avaliar o abdómen, o peristaltismo intestinal e averiguar se a doente está ou não nauseada. Há uma revisão Cochrane de 2007 que comparou o início de alimentação oral com comida ou fluidos nas Cuidados pré-operatórios e pós-operatórios primeiras 24 h, com o início tardio, depois das 24 h ou após restabelecimento do peristaltismo intestinal, em doentes submetidas a cirurgia ginecológica major. Concluíram que o início precoce é seguro e associado a internamento mais curto, ainda que com maior risco de produzir náuseas18. As doentes que são submetidas a cirurgia com extenso envolvimento intestinal podem beneficiar de alimentação parenteral pré- e pós-operatória. A decisão de iniciar alimentação parentérica deve ser baseada no número de dias de dieta zero, que se supõe serem necessários, e aquela deve ser iniciada antes que aconteça qualquer deterioração do estado nutricional. Deve ter-se em conta, no entanto, que a alimentação enteral é sempre preferível por proteger a doente de complicações gastrointestinais, hemorrágicas e infecciosas19. A alimentação parenteral requer habitualmente a colocação de cateter venoso central. Há um estudo realizado em doentes pós-cirúrgicos que mostrou que os riscos associados à alimentação parenteral só são excedidos pelos benefícios, se a alimentação se mantiver por via parentérica mais do que 14 dias20. No entanto, a maioria dos autores preconiza a via parenteral no pós--operatório, se a via oral ou enteral não puder ser utilizada durante 7-10 dias21,22. O cálculo das necessidades calóricas individuais deve ter em conta o peso, a altura, a idade e a condição clínica do doente, sendo que os indivíduos mais altos e em pior condição clínica tem maiores necessidades, enquanto os obesos e idosos tem menor necessidade calórica. De um modo geral, estima-se que as necessidades calóricas são de 35 kcal/kg/dia e de 1 g/kg/dia de proteínas. Se a doente estava malnutrida ou há aumento do metabolismo basal, por exemplo por infecção, o aporte calórico pode ser 45 kcal/kg peso e o aporte de proteínas ser de 1,5 g/kg/dia de proteínas. A doente obesa pode ter um aporte calórico de apenas 25 kcal/kg/dia. 617 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 reposição da volemia. O soluto a utilizar na reposição da volemia depende do valor do cloro na urina. As doentes que eliminam baixas quantidades de cloro tiveram provavelmente elevadas drenagens gástricas ou vómitos ou terapia diurética, e pode ser feita terapêutica com soro fisiológico. As doentes com elevada excreção da urina (> 15 mEq) não respondem a esta terapêutica e deve ser tratada a doença de base. No perioperatório é fundamental que sejam definidos os cuidados específicos do procedimento cirúrgico. Deve ser dada indicação sobre a monitorização dos sinais vitais, a necessidade de imobilização e a dieta. Os sinais que obrigam a contactar o médico são: hipotensão, taquicardia, taquipneia, diminuição do débito urinário e febre. 2.4.1. CHOQUE HEMORRÁGICO A monitorização dos sinais vitais com avaliação da TA, frequência cardíaca (FC) e respiratória (FR) e do débito urinário vão permitir o diagnóstico precoce de choque hipovolémico. Choque é definido como uma síndrome clínica em que a doente mostra sinais de hipo-perfusão de órgãos vitais, incluindo oligúria e alterações de consciência. Não são usados valores absolutos para definição de choque, mas há uma diminuição substancial da TA. A doente deve ter um débito urinário de 0,5 ml/kg/dia. A TA, FC e FR, o débito urinário e o estado de consciência sofrem evolução em função da quantidade de sangue perdido (Quadro 10). A clínica do choque é muito variável em função do volume total e por unidade de tempo, de sangue perdido. O valor da hemoglobina e o hematócrito não reflectem a volemia, e os doentes podem estar euvolémicos, hipovolémicos ou hipervolémicos. Há trabalhos que mostraram que há uma subida do hematócrito de 5% nas primeiras horas após cirurgia, por incapacidade de correcção do volume de plasma de acordo com o sangue perdido. O choque hipovolémico é tratado com reposição de cristalóides ou colóides. As soluções cristalóides contêm açúcares e electrólitos (Quadro 11). As soluções colóides incluem a albumina, as soluções de amido e as soluções de gelatina. As principais diferenças entre os tipos de colóides advêm dos efeitos colaterais associados, sendo as perturbações da coagulação mais frequentes nas soluções de amido e as reacções anafilácticas mais frequentes nas soluções de gelatina. A albumina é um derivado do sangue, mas está isenta de risco de transmissão de infecções virusais. O tratamento com cristalóides ou colóides permite melhorar o volume de ejecção ventricular e débito cardíaco, assegurando a perfusão adequada dos órgãos vitais. Não há evidência científica de que os colóides sejam melhores que os cristalóides para este fim. A melhor evidência disponível em relação a essa questão advém do estudo Saline versus albumin fluid evaluation (SAFE). É um estudo clínico, prospectivo, controlado, randomizado e duplamente cego, que comparou a administração de solução de albumina humana 4% Quadro 10. Choque Classe I Classe II Classe III Classe IV Volume perdido < 750 ml < 15% 750-1.500 ml 15-30% 1.500-2.000 ml 30-40% > 2.000 ml > 40% FC < 100 > 100 > 120 > 140 TA Normal Normal TA média < 60 mmHg nn FR 14-20 20-30 30-40 > 35 Debito urinário ml/h > 30 20-30 5-15 Anúria Estado consciência Normal Ansiosa Confusa Letargia 618 Capítulo 53 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 2.4. COMPLICAÇÕES NO PÓS-OPERATÓRIO Catiões* LEC Aniões* Na K Ca Mg Cl HCO3 Osmolaridade 142 4 5 3 103 27 280-310 † 273 Lactato ringer 130 4 3 - 109 28 NaCl a 9% 154 - - - 154 - 308 D5 com NaCl a 4,5% 77 - - - 77 - 407 D5 simples - - - - - - 253 NaCl a 3% 513 - - - 513 - 1.026 Polielectrolítico 140 4 2,5 1 127 304 *Electrólitos em mEq/l. Presente na solução como lactato que se converte em bicarbonato † com solução salina de cloreto de sódio 0,9%, em 7.000 pacientes graves que necessitavam de ressuscitação volémica. Os resultados mostraram mortalidade idêntica nos pacientes que receberam albumina ou solução salina. Os colóides estão indicados depois de terem sido transfundidas quantidades importantes de cristalóides e, em primeira linha, nas situações de baixa pressão oncótica, que se estima através da albuminemia. As doentes com perda significativa de proteínas por ascite neoplásica precisam de colóides numa fase precoce da reposição de volume. Por outro lado, tendo em conta que a distribuição do líquido extracelular é de dois terços no espaço intersticial e um terço no intravascular, em 24 h de perfusão de cristalóides, dois terços do volume vai estar no espaço intersticial e apenas um terço no espaço intravascular. A relação cristalóides/ colóides deve, assim, ser dois terços e um terço. Os colóides perfundidos não devem exceder 30 ml/kg/dia, dado o risco acrescido de alterações da coagulação, sobrecarga de volume e hipoproteinemia por diluição. A transfusão de glóbulos vermelhos é habitualmente necessária quando a perda de sangue foi superior a 20-30% da volemia mas, Cuidados pré-operatórios e pós-operatórios mesmo neste caso, a correcção da volemia começa por cristalóides. Apesar do valor da hemoglobina ser o principal determinante da adequada oxigenação dos tecidos, a oxigenação permanece suficiente com valores baixos de hemoglobina (> 7 g/dl), desde que o débito cardíaco seja mantido. Para perdas de sangue superiores a 30-40% do volume inicial, estes mecanismos de compensação começam a falhar (Quadro 12). O volume de cristalóides a perfundir em relação ao volume de sangue perdido é de 3 para 1; a relação é de 1 para 1 se se trata de colóides. 2.4.2. INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA Apesar da profilaxia dos acidentes tromboembólicos, a trombose venosa profunda e a tromboembolia pulmonar são causa frequente de morbilidade e mortalidade associadas a cirurgia ginecológica. É necessário monitorizar. A confirmação faz-se pela realização de cintigrama de V/P ou angiotomografia computarizada (angio-TC) torácica. O tratamento é mais frequentemente feito com HBPM em dose terapêutica (2 mg/kg, para a enoxaparina). 619 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 Quadro 11. Composição do LEC e dos principais cristalóides Componente Dose/volume Indicação Glóbulos vermelhos 1 U = 250-300 cc, l Hb 1 g/dl e l Hct 3% Hb < 8 g/dl Perda > 30% da volemia* Plaquetas 8-10 U, l 10 000 plaquetas < 50.000, se contagem normal em pré-operatório e hemorragia activa < 20.000 se contagem baixa em pré-operatório Plasma fresco 1 U = 225 ml tem 200 U dos factores VIII e V e outros factores Hemorragia por défice de factores, como insuficiência hepática ou perda hemática maciça Crioprecipitados 15 ml tem 80 U de factor VIII e 150 mg de fibrinogénio Doença de Von Willebrand, perda hemática maciça Adaptado de Gynecologic oncology2. *Volemia total = 75 cc/kg peso. 2.4.3. INFECÇÃO NO PÓS-OPERATÓRIO 2.4.4. ILEUS E OBSTRUÇÃO INTESTINAL É frequente a febre no pós-operatório na doente submetida a cirurgia ginecológica. Nas primeiras 48 h, a febre não está normalmente associada a infecção (Quadro 13) e, regra geral, é suficiente fazer exame físico à doente. À medida que passa o tempo em relação à cirurgia, aumenta a gravidade do quadro etiológico subjacente. Se a doente tiver quadro de sépsis são obrigatórias as culturas de sangue e urina. De outro modo, são mais importantes a avaliação da ferida operatória, a identificação de infecção respiratória e a pesquisa de infecção urinária. Se houver exsudado na ferida operatória, esta deve ser explorada para excluir infecção e deiscência e deve ser feito exame pélvico, para excluir abcesso da cúpula. Na febre tardia, deve ser pedida ecografia ou TC abdomino-pélvica para excluir abcesso pélvico, trombose, lesão do uréter ou deiscência de anastomose intestinal, se existir. Na maioria das infecções no pós-operatório, o antibiótico deve ser endovenoso até 48 h após a febre terminar e depois continuado por via oral (Quadro 14). No pós-operatório são frequentes as náuseas, vómitos, dor e distensão abdominal. A retoma da função intestinal normal depende do tipo e extensão da cirurgia realizada, mas é também influenciada pelos antecedentes da doente, cirurgias prévias e coexistência de outras patologias como a diabetes. O recurso a analgésicos opióides e o desequilíbrio hidroelectrolítico com hipocaliemia são causas de ileus paralítico. É fundamental o diagnóstico diferencial entre ileus e obstrução (Quadro 15). Em ambos os casos a radiografia do abdómen pode ser normal nas primeiras 48 h, mas pode ser importante a comparação de películas seriadas. Pode ser necessária uma TC abdomino-pélvica para determinar o nível de obstrução e a causa desta. O abcesso pélvico pode ser a causa do ileus. O tratamento obriga habitualmente a colocação de sonda nasogástrica e a correcção hidroelectrolítica. Podem ser colocados enemas. Se há obstrução é necessário proceder a exploração cirúrgica. 620 Capítulo 53 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 Quadro 12. Terapêutica com substitutos do sangue Tempo após cirurgia Diagnóstico diferencial 0-4 h Atelectasia, pneumonia por aspiração, tromboflebite 2-7 dias Infecção respiratória, infecção da ferida operatória, pneumonia nosocomial 7-21 dias Abcesso pélvico, lesão do ureter, deiscência de anastomose intestinal, abcesso da cúpula vaginal Quadro 14. Escolha do antibiótico na infecção no pós-operatório Local da infecção Agentes comuns Antibioterapia empírica Ferida operatória Staphylococci, Pneumococci Cefazolina ou vancomicina Infecção urinária Gram-negativos Enterococci Cefazolina, ciprofloxacina, trimetoprim/ sulfametoxazol Pneumonia Gram-negativos Ticarcilina + ácido clavulânico, ciprofloxacina Abcesso intra-abdominal ou pneumonia Gram-negativos entéricos e anaeróbios Cefotetan, imipenem, ampicilina + gentamicina, metronidazol Adaptado de Gynecologic oncology2. Quadro 15. Ileus e obstrução pós-operatória Ileus Obstrução Tempo após cirurgia 48-72 h 5-7 dias Sintomas Dor constante, da distensão Cólicas Exame físico Distensão abdominal e ausência de ruídos intestinais Distensão abdominal e ruídos intestinais aumentados Radiografia Distensão de ansas de delgado e cólon; ar no recto Distensão de ansas de delgado e cólon; sem ar no recto Adaptado de Gynecologic oncology2. Bibliografia 1. Nakagawa M, Tanaka H, Tsukuma H, et al. 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