OBSERVAÇÃO INTERPARES: ANÁLISE DE UMA PRÁTICA COLABORATIVA Lia Raquel Oliveira Universidade do Minho [email protected] Maria do Céu de Melo Universidade do Minho [email protected] Maria Alfredo Moreira Universidade do Minho [email protected] A observação de aulas foi uma das dimensões principais do projecto Transformar a Pedagogia na Universidade: experiências de investigação do ensino e da aprendizagem (2002-2004), e permanece no projecto que neste momento decorre: Transformar a pedagogia na Universidade: condições de (im)possibilidade (2004-2006), enquanto modalidade de colaboração interpares. Esta colaboração traduz-se em registos narrativos de natureza dialógica, frutos da auto/hetero observação das aulas dadas e observadas por vários elementos da equipa em disciplinas de Licenciatura e/ou Mestrado. A focalização nesta dimensão da colaboração deriva da relevância que lhe atribuímos para a construção de uma comunidade preocupada com a indagação crítica das suas práticas pedagógicas. Esta comunicação apresentará o contexto, finalidades, e a metodologia de um estudo, cujo objecto são os registos reflexivos escritos referidos. Apresentaremos ainda a análise de dois registos produzidos aquando da observação de uma aula, pelo professor observado e pelo professor observador. Palavras-chave: observação interpares; indagação crítica; prática pedagógica; estudo de caso. 1. Finalidades e contexto deste estudo Este estudo pretende analisar o potencial transformador da observação de aulas num contexto de colaboração interpares e que se consubstancia na troca de registos escritos sobre as aulas observadas, entre observador e observado. Considerar-se-á como corpus os textos reflexivos oriundos dos estudos de caso desenvolvidos por professores universitários em disciplinas da sua responsabilidade nos anos lectivos entre 2002-2006 (Quadro 1). Disciplinas 1. Ecologia e Educação (José Luís Silva) 2. Supervisão Pedagógica em Ensino do Inglês (Flávia Vieira) 3. Expressões Artísticas na Formação dos Professores (Maria do Céu de Melo) 4. Tecnologia Educativa (Lia Raquel Oliveira) 5. Inglês I (Manuel Sousa e João Paulo Silva) 6. Prática Pedagógica IV (Carlos Alberto Gomes) Contexto institucional Licenciatura em Educação, 1º ano Mestrado em Educação / Especialização em Supervisão Pedagógica do Ensino do Inglês Mestrado em Educação / Especialização em Supervisão Pedagógica do Ensino do Inglês/ História Licenciatura em Ensino do Português-Francês, PortuguêsAlemão, Inglês -Alemão, História, Biologia-Geologia, 3º ano Licenciatura em Ensino do Português-Inglês, Inglês-Alemão, 1º ano Licenciatura em Educação, 4º ano – Ramo de recursos Humanos e Gestão da Formação 2885 7. Metodologia do Ensino do Inglês Licenciatura em Ensino do Português-Inglês, 4º ano (Maria Alfredo Moreira) 8. Psicologia da Memória e Licenciatura em Psicologia, 1º ano Linguagem (Pedro Albuquerque) Nota: Encontram-se a decorrer outros estudos de caso, que originarão novos textos reflexivos (2004/2006) Quadro 1 - Contextualização dos estudos de caso Estes estudos foram desenvolvidos no âmbito dos seguintes projectos colectivos: Transformar a Pedagogia na Universidade: experiências de investigação do ensino e da aprendizagem (2002-2004), e Transformar a pedagogia na Universidade: condições de (im)possibilidade (2004-2006), financiados pelo Centro de Investigação em Educação da Universidade do Minho e coordenados por Flávia Vieira. Todos os estudos de caso têm um denominador comum, que reside no desenvolvimento de um ou mais dos seguintes princípios pedagógicos que enquadram a filosofia educacional das equipas de investigação (Vieira et al., 2002: 32-33): Intencionalidade: a acção pedagógica desenvolve-se numa direcção assente em pressupostos e finalidades relativos à educação formal e à relação entre esta e a sociedade, direccionando-se a uma formação integrada, de âmbito científico, cultural, técnico/profissionalizante, pessoal e social; Transparência: a acção pedagógica integra a explicitação dos pressupostos e finalidades de formação que a orientam, da natureza da metodologia seguida, dos processos/percursos de aprendizagem e dos parâmetros de avaliação adoptados; Coerência: a acção pedagógica é coerente com os pressupostos e finalidades de formação que a orientam, com a natureza dos conteúdos disciplinares e com os métodos de avaliação adoptados; Relevância: a acção pedagógica integra expectativas, necessidades, ritmos e interesses diferenciados, mobiliza e promove saberes, linguagens e experiências relevantes à futura profissão, promove o contacto com a realidade sócio-profissional e perspectiva o currículo de forma articulada; Reflexividade: a acção pedagógica promove o pensamento divergente e o espírito crítico, integrando uma reflexão crítica sobre os seus pressupostos e finalidades, os conteúdos, a metodologia seguida, os parâmetros e métodos de avaliação, os processos/percursos de aprendizagem, o papel das disciplinas no currículo e a relação deste com a realidade sócio-profissional; Democraticidade: a acção pedagógica assenta em valores de uma cidadania democrática – sentido de justiça, respeito pela diferença, liberdade de pensamento e expressão, comunicação e debate de ideias, negociação de decisões, colaboração e inter-ajuda; Autodirecção: a acção pedagógica desenvolve atitudes e capacidades de autogestão da aprendizagem – definição de metas e planos de trabalho autodeterminados, auto-avaliação e estudo independente, curiosidade intelectual e vontade de aprender, sentido de auto-estima e autoconfiança; Criatividade/Inovação: a acção pedagógica estimula processos de compreensão e intervenção, com implicações profissionais e sociais, promovendo uma interpretação pessoal e uma visão pluri/inter/transdisciplinar do conhecimento e da realidade, capacidades de pesquisa e de resolução de problemas, desenvolvimento de projectos pessoais, capacidades de intervenção no contexto profissional e atitudes de abertura à inovação. 2886 Nestes dois projectos colectivos, a colaboração interpares tem sido desenvolvida de três modos: pela partilha e discussão dos vários estudos de caso entre os elementos da equipa, pelas actividades de disseminação/publicação dos resultados dos projectos e pela observação de aulas, sendo a última o objecto do nosso estudo. Assim, os seus objectivos são: - Identificar os objectos eleitos pelos sujeitos envolvidos no processo de observação interpares; -Identificar os orientação de reflexão presente nos textos; -Reflectir sobre o potencial transformador da observação interpares. A observação interpares, geradora dos textos reflexivos, é assumida como uma estratégia primaz de transformação da pedagogia, já que desencadeia o diálogo entre pares, promovendo a elaboração e reconstrução das suas teorias e práticas, já não mais privadas. Ao centrar-se na acção e não no sujeito/ disciplina específica, ela valoriza as decisões e as experiências pedagógicas vividas e a democratização dos papéis, despoletando novas conceptualizações do papel da observação na investigação e renovação das práticas de ensino. A sua natureza não-estruturada e dialógica facilita a pluralidade dos processos de observação, permitindo uma reflexão multifacetada sobre a prática pedagógica, pela emergência de pontos de vista não esperados, mas pertinentes. A escrita assume-se como espaço de partilha de situações, problemas ou dilemas, condição que cremos necessária à transformação das práticas pedagógicas. O facto da observação de aulas poder ocorrer habitualmente em disciplinas onde não dominamos os seus saberes específicos facilita a sua implementação, aumentando a democraticidade e diminuindo o pendor avaliativo e ameaçador que habitualmente acompanha esta estratégia de desenvolvimento profissional. 2. Estratégia de observação interpares A estratégia de observação adoptada nestes projectos assume uma natureza cíclica, pois contempla vários registos com diferentes autorias, dependendo das relações estabelecidas entre os sujeitos envolvidos no ciclo de observação (Figura 1). 2887 1. Auto-observação (AO) 2. HeteroObservação (HO) Comentário (CTO) TROCA 3. Resposta à AutoObservação (RAO) 4. Resposta à HeteroObservação (RHO) Figura 1 - O ciclo de observação interpares Um primeiro tipo de registo, Auto-Observação (AO), é aquele que o professor (Observado) constrói após a leccionação da sua aula; um segundo tipo, Hetero-Observação (HO), é produzido pelo sujeito (Observador) que observou esta aula. Estes dois textos são trocados entre os sujeitos, de modo a gerar uma nova sequência de registos reflexivos que fecham o ciclo: um terceiro tipo, Resposta à Auto-observação (RAO), consiste numa reflexão feita pelo observador face ao primeiro registo do professor observado (que leccionou a aula), sendo que o quarto tipo, Resposta à Hetero-Observação (RHO), consiste numa reflexão feita pelo professor observado em resposta ao primeiro registo do observador. Podem ainda ocorrer registos que apelidámos de Comentário (CTO), produzidos por colegas que não tendo observado a aula foram consultados pelo professor observado, de modo a produzir um terceiro ponto de vista sobre a acção pedagógica do professor. Assim, cada ciclo referente a uma aula observada produz um conjunto de, pelo menos, quatro registos, embora este ciclo não tenha sido seguido em todas as ocasiões. 3. Metodologia de análise dos registos reflexivos De acordo com os objectivos referidos, elegemos dois tipos de análise: uma que privilegia os conteúdos substantivos da escrita reflexiva e outra que foca a orientação da reflexão. Com base num documento interno de reflexão sobre as práticas de colaboração no projecto e na leitura de alguns dos registos, elencámos várias dimensões e objectos presentes na actividade de observação de aulas e identificados pelos professores em três estudos de caso já concluídos (Vieira et al., 2005). As categorias referentes à orientação da reflexão foram retiradas da 2888 literatura sobre formação reflexiva de professores. As dimensões, objectos e orientação da reflexão deram depois origem a um sistema de categorias de análise dos textos. 3.1. Objectos de escrita Esta análise pretende fazer um levantamento do conteúdo da reflexão escrita, ou seja, dos tópicos considerados relevantes pelos professores (observados, observadores, comentadores) e que se tornam assim objectos da escrita (Quadro 2). Objectos Indicadores Situação pedagógica 1. Contexto Todos os enunciados que explicitem dados que referenciem o tempo e o espaço institucional. São considerados também elementos de natureza curricular generalista ou disciplinar (saber científico específico) que caracterizem a acção, ou elementos sobre situações vivenciadas em aulas anteriores. 2. Princípios Todos os enunciados que explicitem os princípios pedagógicos que nortearam todos os actos pedagógicos que enformaram a leccionação das aulas 3. Objectivos Todos os enunciados que explicitem os objectivos que norteiam a situação pedagógica específica, natureza didáctica ou investigativa. 4. Estratégias Todos os enunciados que explicitem as estratégias eleitas para a implementação da situação pedagógica específica, de natureza didáctica ou investigativa. 5. Materiais Todos os enunciados que explicitem os materiais e recursos eleitos para a /Recursos concretização das estratégias eleitas. 6. Avaliação Todos os enunciados que explicitem os tipos de avaliação escolhidos e os procedimentos de implementação. 7. Organização do Todos os enunciados que explicitem o tipo de organização do trabalho trabalho desenvolvido (individual, pares, grupo, turma, etc.) 8. Papéis Todos os enunciados que explicitem as escolhas feitas sobre os papéis dos pedagógicos professores e dos alunos, nas suas dimensões instrucional e didáctica Dimensão Professor 9. Traços Todos os enunciados que explicitem características pessoais do professor personalidade (cognitiva, afectiva, comunicativa). 10. Teorias práticas Todos os enunciados que explicitem valores, crenças e generalizações de ensino substantivas, e que enformam a prática pedagógica. /aprendizagem 11. Experiência de Todos os enunciados que convoquem experiências anteriores de ensino ou ensino/ aprendizagem, que tenham vivenciado enquanto discentes ou docentes. aprendizagem 12. Experiência de Todos os enunciados que explicitem elementos oriundos de experiências indagação das anteriores onde os professores tenham vivenciado momentos de indagação práticas sobre a sua prática docente ou discente. Dimensão Alunos 13. Traços Todos os enunciados que explicitem características pessoais do aluno personalidade (cognitiva, afectiva, comunicativa). 14. Teorias práticas Todos os enunciados que explicitem valores, crenças e generalizações de ensino substantivas, relativos ao processo de ensino/ aprendizagem. /aprendizagem 15. Experiência de Todos os enunciados que convoquem experiências anteriores de ensino ou ensino/ aprendizagem, que tenham vivenciado enquanto discentes. aprendizagem 16. Experiência de Todos os enunciados que explicitem elementos oriundos de experiências indagação das anteriores onde os alunos tenham vivenciado momentos de indagação sobre a práticas sua prática discente. 2889 Dimensão Observação Interpares 17. Olhar Todos os enunciados que refiram sentimentos e expectativas, gerados e/ou introspectivo desencadeados pela observação interpares. Incluem-se nesta categorias todos os enunciados de natureza pessoal privada 18. Saberes Todos os enunciados que explicitem ideias que abordem a presença ou ausência disciplinares de conhecimento sobre os saberes disciplinares específicos e que se mobilizam na situação pedagógica. 19. Processo de Todos os enunciados que falem do processo de escrita e suas implicações nos escrita formatos e nos conteúdos substantivos que os registos reflexivos expressam. 20. Relação entre Todos os enunciados que refiram a curiosidade face à presença do outro, e/ou observador e o ao papel das relações interpessoais na aceitação ou estranheza da presença do observado Outro. 21. Impacto Todos os enunciados que refiram o impacto de discussões e das observações no pensamento e na acção dos sujeitos. Quadro 2 – Sistema de categorias de análise dos textos de observação: objectos e indicadores 3.2. Orientação da reflexão A categorização dos registos face à orientação da reflexão fundamenta-se na necessidade de uma análise dos processos reflexivos evidenciados na escrita. As quatro categorias utilizadas advêm do conceito de reflexão crítica na acção pedagógica (Smyth, 1989; Smyth, 1991, cit. in Angulo Rasco, 1999), isto é, uma reflexão que envolve observadores e observados num processo de transformação do certo/ adquirido em problemático, aberto a novas perspectivas e leituras da realidade. Segundo Smyth, este processo de transformação passa por quatro momentos, que se iniciam na crescente tomada de consciência de valores e significados ideológicos implícitos na acção/ contextos de acção pedagógica, até chegarem a uma acção destinada a corrigir as incoerências/ limitações identificadas. Assim, os registos reflexivos serão analisados segundo as categorias presentes no Quadro 3. Categorias 1. Descrição Indicadores* Todos os enunciados que se organizam em torno das seguintes questões: O que faço? O que penso? Esta categoria contempla a identificação do quê, quem, onde, quando e como da acção pedagógica. 2. Interpretação Todos os enunciados que se organizam em torno das seguintes questões: O que significa aquilo que faço/penso? Que teorias emergem da minha acção? Que fundamentos/ justificações apresento? Como me posiciono face ao que faço/ penso? Esta categoria contempla a identificação do porquê e do para quê da acção pedagógica 2890 3. Confronto Todos os enunciados que se organizam em torno das seguintes questões: De onde vêm estas minhas teorias, valores, representações, pressupostos, convicções...? O que as sustenta? O que me limita? O que me emancipa? Que relações estabeleço entre o meu sistema apreciativo pessoal e o contexto (social) da acção? Que interesses servem a minha acção? Esta categoria contempla a identificação do potencial e limites da acção pedagógica 4. Reconstrução Todos os enunciados que se organizam em torno das seguintes questões: O que é para mim verdadeiramente relevante/essencial? Como posso mudar a minha prática/ o meu pensamento nessa direcção? O que tenho de/posso fazer para mudar? Que condições de (sustentação da) mudança tenho de assegurar? O que posso aprender com a acção de outrem? o que não posso mudar? Esta categoria contempla a identificação das condições de transformação ([im]possibilidade e[des]esperança) da acção pedagógica * Exemplos dados na primeira pessoa, assumindo o ponto de vista do observado; no caso do texto do observador, estes exemplos poderão ser expressos ora na primeira, ora na segunda pessoa. Quadro 3 - Categorias de análise dos textos de observação: orientação da reflexão Tomamos como unidade de análise a frase. Poder-se-ia ter adoptado uma unidade definida pelo teor do seu conteúdo substantivo, podendo esta não coincidir com uma frase mas com um seu segmento ou com uma sequência de frases. No entanto, e a nosso ver, essa opção traria maior subjectividade e segmentação do discurso, o que sobrecarregaria o trabalho de análise, trazendo maiores inconvenientes à validação do sistema de categorias no seio da equipa. O procedimento de validação foi o seguinte: as sucessivas versões foram sendo aplicadas a um único texto, seguindo-se a discussão e melhoramento constante, até a equipa considerar ter chegado a uma versão satisfatória. Uma vez que nos encontramos numa fase muito inicial da análise, é provável que as categorias presentes ainda venham a sofrer alguns reajustes. No que diz respeito às categorias propriamente ditas, a análise do primeiro texto permitiu um reajuste de alguns indicadores. Assim, e a título de exemplo, a categoria 1: Contexto foi objecto de reescrita clarificadora. Foram nela incluídos os enunciados cujo objecto eram conhecimentos versando saberes da disciplina específica, como por exemplo: "AO38: Esta intervenção ocorreu no momento em que o grupo parece querer promover a construção pelos alunos da posição da igreja Católica em relação ao desenvolvimento da engenharia genética através de um pequeno texto". Outra categoria alterada foi a categoria 21: Impacto. Os indicadores reportavam-se a enunciados que referissem o impacto da observação no pensamento e na acção dos sujeitos. Considerou-se que fixar a relação causa-consequência apenas na observação era limitador. 2891 Assim, e uma vez mais baseadas na análise dos textos, considerou-se que deviam ser contempladas as discussões prévias à leccionação das aulas: "AO04: A minha consciencialização para esse aspecto tornou-se mais evidente após a M.A. ter afirmado que não estaria particularmente interessada em assistir a uma aula de"apresentação" de trabalho de grupo pelos próprios alunos, pois desejava observar a actuação do docente e não a acção dos alunos". 4. Análise de dois registos reflexivos Encontramo-nos, neste momento, ainda a testar a grelha apresentada para validar as dimensões, os objectos eleitos e a orientação da reflexão e a sua operacionalidade face aos objectivos definidos. Todavia, a análise de dois tipos de textos diferentes permite-nos confirmar a relevância e aplicabilidade da grelha a este tipo de discurso, bem como retirar algumas implicações sobre o impacto da estratégia de observação interpares na transformação da pedagogia neste contexto. Assim elegemos um texto de Auto-Observação (AO/ J.S. 23/05/2003) e um texto de Hetero-Observação (HO/ F.V. 23/05/2003), incidentes na mesma aula, para aplicar a grelha de análise. Os resultados desta tarefa são apresentados, seguidos por algumas conclusões provisórias. Provisórias porque, embora baseadas nas evidências recolhidas e nas interpretações que a análise dos textos nos permitem formular, se revelam muito limitadas dado serem apenas suportadas na análise de dois textos. Começando pelo primeiro texto, produzido pelo professor observado, o Quadro 4 mostra a distribuição da ocorrência dos objectos de reflexão: Situação Pedagógica Ocorrências 1. Contexto 24 2. Princípios 1 3. Objectivos 14 4. Estratégias 13 5. Materiais /Recursos 3 6. Avaliação - 7. Organização do trabalho 5 8. Papéis pedagógicos 10 Dimensão Professor 9. Traços personalidade - 10. Teorias práticas de ensino /aprendizagem 1 11. Experiência de ensino/ aprendizagem - 2892 12. Experiência de indagação das práticas - Dimensão Alunos 13. Traços personalidade - 14. Teorias práticas de ensino /aprendizagem 3 15. Experiência de ensino/ aprendizagem - 16. Experiência de indagação das práticas - Observação interpares 17. Olhar introspectivo 1 18. Saberes disciplinares - 19. Processo de escrita - 20. Relação entre observador e o observado - 21. Impacto 3 Quadro 4 - Distribuição das ocorrências dos objectos de reflexão no registo AO/ J.S. 23/05/2003 (N=78) Assim, a presença elevada de frases na categoria Contexto (Categoria 1 – n=24) parece-nos corresponder a uma necessidade do autor em cartografar reconstrutivamente o seu trajecto didáctico, de modo a que sobre esta imagem possa, então sim, reflectir sobre o ocorrido. Seguem-se os objectos relacionados com Objectivos (Categoria 3), Estratégias (Categoria 4) e Papéis Pedagógicos (Categoria 8), respectivamente, 14, 13 e 10 ocorrências. Esta frequência decorre do facto das preocupações do professor se centrarem na seguinte questão: "AO6: Qual é o papel do docente numa aula de ‘apresentação’ do trabalho de grupo pelos respectivos alunos, especialmente quando esta ‘apresentação’ se traduz na exploração de um tema que implica a promoção do trabalho de grupo e a promoção da discussão entre os alunos?". Poder-se-á esperar que as frases versem as estratégias desenvolvidas e os papéis do professor e dos alunos concorrentes à consecução deste objectivo. Há que referir que as frases (3 ocorrências) alocadas na categoria Impacto (categoria 21) explicitam o modo como conversas anteriores com alguns colegas geraram, não apenas o desenho específico da aula e o modo de implementação do trajecto didáctico, como também os envolveram e comprometeram na observação da mesma. 2893 No que diz respeito à orientação da reflexão, observemos o Quadro 5: Categorias Ocorrências 1. Descrição 31 2. Interpretação 33 3. Confronto 2 4. Reconstrução 12 Quadro 5 - Distribuição das ocorrências da orientação da reflexão no registo AO/ J.S. 23/05/2003 (N=78) Estes dados são coerentes com as categorias dos objectos eleitos e com o conteúdo substantivo das frases. De facto, quando este texto apresenta uma natureza reconstrutiva do autor face ao vivido, seria plausivel esperar que os enunciados fossem maioritariamente descritivos (31 ocorrências) e interpretativos (33 ocorrências). Há que salientar, no entanto, que conseguindo adoptar uma distanciação crítica face ao seu comportamento pedagógico, o professor dedica alguns enunciados a propor hipóteses reconstrutivas de acção: "AO68: Talvez seja necessário dispender um maior período de tempo para discutir a estruturação da exploração dos temas, a forma de elaboração das fichas de trabalho e simultaneamente os objectivos que se pretende atingir com a sua implementação". É provável que em outros tipos de textos, nomeadamente no de Resposta à HeteroObservação (RHO), este tipo de enunciados seja mais recorrente. A presença de enunciados de Reconstrução no texto inicial (AO) do ciclo pode significar que o professor espera, nos momentos dialógicos seguintes, um reacção confirmatória às suas hipóteses alternativas de acção ou o aparecimento de outras. Vejamos agora o texto produzido pelo professor observador. Os objectos de incidência do registo revelam opções de reflexão algo distintas das do professor observado (Quadro 6). Situação Pedagógica Ocorrências 1. Contexto 2 2. Princípios 6 3. Objectivos 5 4. Estratégias 22 5. Materiais /Recursos - 6. Avaliação 1 2894 7. Organização do trabalho 8. Papéis pedagógicos 15 Dimensão Professor 9. Traços personalidade - 10. Teorias práticas de ensino /aprendizagem - 11. Experiência de ensino/ aprendizagem - 12. Experiência de indagação das práticas - Dimensão Alunos 13. Traços personalidade - 14. Teorias práticas de ensino /aprendizagem - 15. Experiência de ensino/ aprendizagem - 16. Experiência de indagação das práticas - Observação interpares 17. Olhar introspectivo 9 18. Saberes disciplinares - 19. Processo de escrita 1 20. Relação entre observador e o observado - 21. Impacto 1 Quadro 6 - Distribuição das ocorrências da orientação da reflexão no registo HO/ F.V. 23/05/2003 (N=62) O Contexto (categoria 1) diminui de relevância (2 ocorrências), assumindo as Estratégias (categoria 4, com 22 ocorrências) particular destaque, seguidas pelos Papéis Pedagógicos (categoria 8, com 15 ocorrências). Todavia, embora com 5 ocorrências apenas, os Princípios Pedagógicos (categoria 2) que subjazem a este estudo de caso saem salientados no olhar da observadora, uma vez que as categorias anteriores decorrem do seu alinhamento (ou não) face ao princípio pedagógico desenvolvido por este professor: a Reflexividade (crítica). Vejamos o seguinte exemplo: “HO12: Fiz muitos registos descritivos, mas em simultâneo, e considerando as finalidades do estudo de caso, fui centrando a minha atenção na questão da criticidade (desenvolvimento/ manifestação do espírito crítico), procurando anotar ‘indicadores’ da sua promoção e o que na altura chamei ‘contra-indicadores’, ou seja, aspectos que afastam a aula da criticidade desejada.” Previsivelmente, as dimensões referentes ao Professor e ao Aluno estão ausentes, na medida em que o olhar desta professora incide, tendencialmente, na situação pedagógica que observa, e 2895 não tanto no conhecimento que terá (ou não) do professor e dos seus alunos. Possivelmente por se tratar de uma experiência inovadora também para si (observação de uma aula de uma área disciplinar que não domina), aliada à sua experiência de observação noutros contextos, a observadora releva aspectos positivos da estratégia de observação interpares, instituindo-se esta dimensão como objecto privilegiado do seu discurso, como se pode verificar, nomeadamente, pela presença da categoria 17: Olhar introspectivo (9 ocorrências): “HO06: Uma das ‘advertências’ dele [o professor observado] antes do início da aula foi que eu não o iria ver ‘em acção’, uma vez que se tratava da apresentação de um trabalho pelos alunos”; “HO09: Estamos tão ‘formatados’ para encarar a observação de aulas como uma actividade centrada no professor (‘o actor principal’), que parece que desvalorizamos o papel dos alunos e da metodologia (o ‘guião’).” No que diz respeito à orientação da reflexão, tal como sucede com o texto de autoobservação, também aqui a maioria das frases são de natureza descritiva (23 ocorrências) e interpretativa (30 ocorrências) – v. Quadro 7. Embora em menor número, a categoria Reconstrução também se encontra presente no seu discurso (4 ocorrências), sendo que a ocorrência da categoria Confronto é superior face ao primeiro texto (5 ocorrências). Categorias Ocorrências 1. Descrição 23 2. Interpretação 30 3. Confronto 5 4. Reconstrução 4 Quadro 7 - Distribuição das ocorrências da orientação da reflexão no registo HO/ F.V. 23/05/2003 (N=62) Pensamos que o registo é largamente descritivo e interpretativo pela necessidade da observadora em recolher evidências de presença e/ou ausência de criticidade nas práticas pedagógicas do professor, como vimos acima. Esta recolha e sistematização é acompanhada pela problematização das estratégias e papéis pedagógicos que visa suscitar processos de reflexão mais profundos por parte do professor observado:“HO52: Se a ideia é tomar posições/decisões fundamentadas mas qualquer posição/decisão é refutável dum outro ponto de vista, que posição/decisão tomar?”; “HO54: Mas há posições mais aceitáveis do que outras?” A reconstrução está presente no seu discurso com a finalidade de levar o professor a equacionar alternativas de acção que expandam a criticidade das suas práticas (e dos alunos): 2896 “HO54: Talvez fosse interessante confrontar os alunos com posições/ decisões particulares e levá-los a analisá-las de diferentes perspectivas, no sentido de perceberem que interesses (económicos, políticos, religiosos, culturais, etc.) estão em jogo, que prioridades foram definidas e porquê, e com que implicações (éticas, sociais, etc.).” 5. Conclusões Assumindo a provisoriedade, assim como a incompletude desta análise, é-nos possível, não obstante, apresentar algumas conclusões. Os objectos de reflexão mais evidenciados são aqueles que privilegiam a Situação Pedagógica, pois incidem no Contexto, Objectivos, Estratégias e Papéis Pedagógicos. Este facto deriva logicamente das finalidades da estratégia de observação interpares. Estes objectos, de facto, são fontes onde o observador pode ver consubstanciados os princípios pedagógicos eleitos, ou pelo menos, numa dimensão mais restrita, as preocupações específicas do professor que pediu para ser observado. Salvaguardamos o facto da análise quantitativa da ocorrência das categorias de análise ser apenas relevante na medida em que nos dá uma percepção da valorização que a categoria assume para a reflexão do sujeito. Na dimensão da Observação Interpares, o Olhar Introspectivo e o Impacto são as categorias mais presentes, podendo-se inferir que decorrem directamente da adopção intencional dos sujeitos (observado e observador) desta estratégia colaborativa geradora de mudanças na acção pedagógica. A ocorrência das dimensões Alunos e Professor é quase negligenciável. Elaborar alguma reflexão sobre este facto exige que nos atamos aos seus itens. No que diz respeito ao item Traços de Personalidade, o facto dos observadores terem entre si relações de alguma familiaridade poderá ter provocado a ausência da necessidade de ocorrerem enunciados desta natureza. Quanto aos outros itens, Teorias práticas de ensino/aprendizagem, Experiência de ensino/aprendizagem e Experiência de indagação das práticas, não encontramos nenhuma explicação plausível para a sua ausência. Assim, e a manter-se esta situação em análises posteriores, será de eliminar estas dimensões? Quanto à orientação da reflexão, e tratando-se de registos retrospectivos, há uma grande necessidade de reviver a situação e de oferecer uma perspectiva experiencial da mesma. O modo como o sujeito se posiciona face ao vivido, por si e/ou pelo outro, e ao modo como se projecta no futuro permite-nos aceder ao pensamento prático do professor (Elbaz, 1991; Clandinin & Connelly, 1994). Ao conhecer o conhecimento profissional que deriva da experiência, criam-se quadros detalhados dos acontecimentos, passados e presentes, segundo o ponto de vista do seu autor, à semelhança do que faz o artista, ao criar imagens que reflectem a sua mundividência, 2897 enfatizando as mensagens que para si são relevantes (Griffiths, 1985). O “efeito de espelho” que a escrita resultante da observação fornece, pode constituir um primeiro passo do processo de consciencialização crítica da acção que, permitindo ao professor ver-se e rever-se na sua prática educativa e compreender(-se) melhor e à sua profissão, tem em vista a reconstrução dessa acção. Por outro lado, a escrita dialógica expande as potencialidades reflexivas da escrita solitária, pelo convite ao leitor à participação vicariante na experiência do autor e que enriquece o processo de construção de conhecimento profissional. Quando se constitui como fórum de reflexão colaborativa, a escrita aumenta a polivocalidade e multiplicidade de perspectivas no processo de construção do conhecimento profissional (Jungck, 2001), havendo lugar ao encontro sinergético de dois ‘diálogos interiores’, cujos resultados podem ser produtivos na compreensão dos respectivos ‘guiões’ pessoais (Knowles, 1993). A natureza colaborativa e situacional do processo de indagação da acção profissional pela via da observação interpares evidencia-se na emergência de um discurso no e para o objecto: há um aspecto seleccionado da acção pedagógica, cuja descrição/ interpretação/ confronto/ reconstrução integra uma relação dialética reflexiva entre pensamento e acção, teoria e prática. Sob esta perspectiva, a observação colaborativa interpares constitui-se uma condição facilitadora de processos de transformação e emancipação profissional. Referências bibliográficas ANGULO RASCO, J. Félix (1999). La supervisión docente: dimensiones, tendencias y modelos. In A. Pérez Goméz, J. Barquin Ruiz & J. F. Angulo Rasco (eds.), Desarollo profesional del docente: política, investigación y práctica. Madrid: Akal, pp. 553-597. CLANDININ, D. Jean & CONNELLY, F. Michael (1994). Personal experience methods. In N. K. Denzin & Y. S. Lincoln (eds.), Handbook of qualitative research. Thousand Oaks: Sage, pp. 413-427. 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