MINISTÉRIO DA DEFESA EXÉRCITO BRASILEIRO DECEx - DESMil - DEPA ESCOLA DE FORMAÇÃO COMPLEMENTAR DO EXÉRCITO E COLÉGIO MILITAR DE SALVADOR 1º TEN AL ISADORA ECKARDT DA SILVA O MUNDO DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO E MARTINS PENA NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA Salvador 2011 1º Ten Al ISADORA ECKARDT DA SILVA O MUNDO DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO E MARTINS PENA NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Comissão de Avaliação de Trabalhos Científicos da Divisão de Ensino da Escola de Formação Complementar do Exército, como exigência parcial para a obtenção do título de Especialista em Aplicações Complementares às Ciências Militares. Orientador: Maj QCO Selma Iara Salvador 2011 1º Ten Al ISADORA ECKARDT DA SILVA O MUNDO DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO E MARTINS PENA NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Comissão de Avaliação de Trabalhos Científicos da Divisão de Ensino da Escola de Formação Complementar do Exército, como exigência parcial para a obtenção do título de Especialista em Aplicações Complementares às Ciências Militares. Aprovado em: ______ / ________________ /2011 _____________________________________________________ SELMA IARA GOMES LOPESTAVARES – Major – Presidente Escola de Formação Complementar do Exército _________________________________________________ NADJA DE ASSIS MENDONÇA – Capitão – 1º Membro Escola de Formação Complementar do Exército ______________________________________________________ ALINE CRISTINA DE ARAÚJO – Capitão – 2º Membro Colégio Militar de Salvador 1 O MUNDO DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO E MARTINS PENA NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA Isadora Eckardt da Silva1 Resumo: Este trabalho tem como objetivo principal apresentar uma proposta lúdica e interdisciplinar de se trabalhar a leitura e a produção textual, e de se fazer uma ponte entre os ensinos de Literatura e de Gramática no sexto ano do Ensino Fundamental do Colégio Militar de Salvador, tendo em vista que o ensino de Língua Portuguesa no Sisitema Colégio Militar do Brasil, a fim de se atualizar, vem se voltando cada vez mais para leitura e produção textual e para a questão do letramento. Para tanto, são apresentadas as obras do cronista Luís Fernando Veríssimo e do dramaturgo Martins Pena e se apresentam algumas sugestões de atividades para se levar o referido plano de estudos a cabo. Os principais argumentos apresentados para se usar a Literatua no ensino de idiomas, neste caso, a Língua Portuguesa, são os seguintes: tendo em vista o aspecto pragmático da língua, ou seja, só há significado quando há contexto, a Literatura apresenta o uso do padrão culto da língua de forma contextualizada, sendo, portanto, uma poderosa ferramenta para o professor de idiomas; e o caráter questionador da Literatura está plenamente em consonância com o caráter questionador dos alunos de hoje em dia. Em seguida, é feita uma ponte entre os ensinos de Língua Portuguesa dos sexto e sétimo ano do Ensino Fundamental do Colégio Militar de Salvador, mostrando-se como a proposta de estudos deste trabalho pode servir para preparar o aluno e até mesmo auxiliá-lo naquilo que será estudado no sétimo ano. Por fim, sugere-se que o professor se comporte não apenas como um corretor dos textos de seus alunos, mas também como um interlocutor destes, a fim de tornar a atividade de produção textual mais natural e mais motivadora para seus pupilos. Com esta pesquisa, esperam-se aulas mais lúdicas e interessantes para os alunos, bem como pupilos destros não apenas em gramática pura, mas, acima de tudo, leitores mais críticos. Palavras-chave: Luís Fernando Veríssimo, Martins Pena, Interdisciplinaridade, Literatura. Abstract: The main objective of this article is to present a ludic and interdisciplinary proposal to work on reading and writing, and to make a link between Literature and Grammar in the sixth year of Elementary School at Colégio Militar de Salvador, considering that the teaching of Portuguese at the Sistema Colégio Militar do Brasil, in an attempt to follow current tendencies, has been focusing more and more to reading and writing and to the aspect of literacy. Therefore, the literary works of Luís Fernando Veríssimo and the ones of Martins Pena are presented to reach this objective; some suggestions of activities to put this proposal in practice are also presented. The main arguments this article reflects upon to use Literature when teaching Languages, in this case, Portuguese, are the following: considering the pragmatic aspect of language, that is, there is meaning only when there is context, Literature shows the use of the erudite facet of language in a contextualized manner, being, thus, a powerful tool for the language teacher; additionally, the controversial feature of Literature is totally in harmony with the controversial feature of the students nowadays. After this, a connection between the teaching of Portuguese in the sixth and in the seventh years of Elementary School at Colégio Militar de Salvador is made, showing how the proposal on this article can work as a preparation or even auxiliate the student in which will be studied in the seventh grade. Finally, there is a piece of advice for the teacher to behave not only as a text corrector for what the students produce, but to behave as an interlocutor of these pupils, to transform the activity of writing in something more natural and motivating, consequently. Through this research, it is expected to have more interesting and interactive classes, as well as students who are not only good at pure Grammar, but also more critical readers. Key words: Luís Fernando Veríssimo, Martins Pena, Interdisciplinarity, Literature. 1 Doutoranda em Teoria e História Literária. Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas/SP. [email protected] 2 2 1 Introdução O presente artigo tem como tema central a utilização das obras de Luís Fernando Veríssimo e Martins Pena para auxiliar o ensino de Língua Portuguesa no sexto ano do ensino fundamental do Sistema Colégio Militar do Brasil, a fim de se obter práticas de leitura lúdicas e interdisciplinares. O ensino de Língua Portuguesa na escola tende a ser maçante e demasiadamente focado nos trabalhos com gramática. Este tipo de metodologia, além de tornar o estudo uma tarefa desmotivadora para os alunos, também se mostra ineficaz no ensino, posto que, apenas o efetivo uso da língua, ou seja, ler e escrever de fato, faz com que um aluno se torne um usuário plenamente competente de um idioma. Nos Colégios Militares, o ensino de Português, além de ter uma carga horária maior, está voltado para o efetivo uso da língua com ênfase em leitura e produção textual. Logo, o intuito desta pesquisa é apresentar uma proposta interdisciplinar de leitura e produção textual, fazendo uma ponte entre os ensinos de Português e Literatura, bem como propor uma maneira lúdica de se fazer este trabalho. Esta pesquisa parte da hipótese de que as obras literárias de Luís Fernando Veríssimo e Martins Pena apresentam fatores tais como: tratarem-se de textos relativamente curtos (muitos deles com menos de vinte páginas), com estruturas linguísticas simples, temas humorísticos e que se prestam à dramatização. Por conseguinte, esses textos tendem a ser facilmente lidos e compreendidos pelos alunos, bem como o tom engraçado das histórias tende a prender a atenção deles. Assim sendo, será possível utilizar estes escritos para o ensino de determinados aspectos da Língua Portuguesa e por fim, dado o potencial de dramatização destas obras, também será possível utilizar técnicas de dramatização não só para divertir os alunos, mas também para fazê-los fixar os conteúdos aprendidos. O objetivo principal desta pesquisa é utilizar as obras dos escritores Luís Fernando Veríssimo e Martins Pena para auxiliar o ensino de Língua Portuguesa no sexto ano do ensino fundamental dos Colégios Militares, a fim de tornar o aprendizado da língua materna não só mais motivador, mas também mais dinâmico e contextualizado para os alunos. Tem-se como objetivos específicos analisar a prática de ensino de Português nas aulas do 6º ano do Colégio Militar de Salvador (CMS), comparando-a às instruções metodológicas prescritas no Plano de Áreas de Estudo (Plaest), bem como propor atividades lúdicas para a aula de português, empregando os textos de Martins Pena e de Luis Fernando Veríssimo. A presente proposta se torna pertinente ao se levar em conta a relevância do aspecto pragmático da língua, ou seja, só há significado de fato quando se considera o contexto no qual um enunciado foi produzido. Deste modo, a Literatura se apresenta como ferramenta eficaz ao mostrar a língua de modo contextualizado e dentro do padrão culto de uso do idioma, salvo alguns traços de oralidade presentes nas obras aqui consideradas, os quais também devem ser explorados pelo professor, pois o contraste entre os modos escrito e falado e os registros formal e informal da língua devem ser percebidos por todos os usuários de um dado idioma. Ademais, o aspecto lúdico do ensino é muito importante ao torná-lo mais motivador e prazeroso para os alunos. Por se tratarem de textos humorísticos e que se prestam à dramatização, as obras dos autores apresentados neste projeto trazem para a sala de aula o universo do riso e da brincadeira, tornando a aula mais interessante e com maior proveito por parte dos alunos. Primeiramente, será apresentada uma breve contextualização sobre o Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB) e como o 3 3 Colégio Militar de Salvador (CMS) e o ensino de Literaturas de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental do referido colégio se insere neste sistema. Logo após, será feita uma breve análise sobre o ensino de Língua Portuguesa no Sistema Colégio Militar do Brasil, apresentando, inclusive, algumas diretrizes de ensino seguidas por este sistema. Depois deste preâmbulo, haverá uma discussão sobre o afã questionador dos alunos de hoje em dia e de como este afã se assemelha ao afã questionador da Literatura, a qual tem a função de questionadora da linguagem por excelência. Por conseguinte, argumenta-se que mesmo muitas das obras literárias trabalhadas com os pupilos sendo mais antigas, não há nada mais atual do que a Literatura em sala de aula, considerada esta semelhança no potencial de questionar. Também se discorrerá brevemente sobre três assuntos muito em voga tanto na educação como nas mudanças implementadas atualmente no Sistema Colégio Militar do Brasil, bem como no Colégio Militar de Salvador, a saber: interdisciplinaridade, letramento e currículo. A seguir, será relatada uma aula de Língua Portuguesa observada no sexto ano do Ensino Fundamental do Colégio Militar de Salvador, sobre a qual se argumenta a pertinência de uma proposta de inserção de outros gêneros literários nas aulas, além daqueles já previstos no Plano de Estudos do Colégio. Sendo assim, será apresentada uma proposta, ainda que de maneira superficial, postas as limitações pelo tamanho de um artigo científico, de se usar o cronista Luís Fernando Veríssimo e o dramaturgo Martins Pena não só para auxiliar o ensino de Língua Portuguesa no sexto ano, mas também para torná-lo mais lúdico, mais interessante, e também para aproveitar a ponte entre Idiomas e Literatura, a qual se descortina quando se lança um olhar interdisciplinar sobre o ensino. Para fins de continuidade deste projeto, será lançado um rápido olhar para o sétimo ano do Ensino Fundamental para se fazer uma ponte entre os ensinos de Língua Portuguesa dos sexto e sétimo ano. São dicutidas algumas contribuições que a presente proposta pode fazer também para o ensino de Português no sétimo ano, atentando-se principalmente para o contraste como uma das maneiras de se fazer alguém (neste caso, os alunos) compreender alguma coisa. Por fim, a conclusão deste artigo ainda apresentará um conselho, talvez um pedido, aos professores de Língua Portuguesa: que sejam não apenas leitores e corretores dos trabalhos de seus pupilos, mas que sejam também interlocutores, que dialoguem e interajam com os textos produzidos por seus alunos, pois ninguém escreve para o nada, escreve-se, nem que seja para si mesmo, pois sempre se vislumbra um público leitor. Se o professor for um interlocutor e não apenas um corretor de textos, a produção textual em sala de aula ficará muito mais natural, relevante para os alunos e para o professor, e, consequentemente, mais prazerosa para todos. 2 O Sistema Colégio Militar do Brasil e o ensino de Literatura no Ensino Fundamental do Colégio Militar de Salvador 2.1 O Sistema Colégio Militar do Brasil e o Colégio Militar de Salvador O Sistema Colégio Militar do Brasil está subordinado ao Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx), que coordena as ações da Diretoria de Ensino Preparatório e Assistencial (DEPA), e é formado por 12 Colégios Militares, os quais oferecem o Ensino Fundamental (do 6º ao 9º ano) e o Ensino Médio (do 1º ao 3º ano) a jovens de vários estados do Brasil, propiciando educação de alta qualidade. O Colégio Militar de Salvador foi fundado em 1957, tendo suas instalações provisórias no bairro de Pitangueiras. Mais tarde, em 1961, foi transferido para o bairro da Pituba, onde permanece até hoje. O Colégio teve suas atividades interrompidas no ano de 1989, mas foi reativado em 1993 através de um convênio entre o Exército 4 4 Brasileiro e o Governo do Estado da Bahia, quando se iniciaram as obras de um novo Pavilhão de Aulas, o qual foi inaugurado em 1994. A missão do Colégio Militar de Salvador consiste em ministrar educação básica de qualidade nos níveis fundamental e médio, de acordo com a legislação federal da educação nacional, obedecendo às leis e aos regulamentos em vigor, segundo valores, costumes e tradições do Exército Brasileiro, tendo como principais focos uma educação para o conhecimento e para a cidadania e também despertar vocações para a carreira militar. O Colégio visa ser reconhecido, tanto no âmbito do Sistema Colégio Militar do Brasil quanto pela sociedade brasileira, como um estabelecimento de ensino de qualidade, devido à seriedade, qualidade dos serviços prestados e eficiência na educação de seus pupilos. 2.2 O ensino de Português no Sistema Colégio Militar do Brasil As práticas didático-pedagógicas dos Colégios Militares seguem as normas e prescrições do Sistema de Ensino do Exército e, ao mesmo tempo, obedecem à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), principal norte para a educação no Brasil. A proposta pedagógica preconizada pelo Regimento Interno dos Colégios Militares (RI/CM) prioriza, em seu Capítulo I, Artigo 4º, princípios e práticas de um ensino moderno e atual conforme se pode vislumbrar em alguns de seus incisos citados a seguir: I - oferecer ao aluno condições de acesso ao conhecimento sistemático universal, considerando a realidade de sua vida, proporcionando uma formação integral para o seu desenvolvimento, nas áreas cognitiva, afetiva e psicomotora; II - capacitar o aluno à absorção de conteúdos programáticos qualitativos e de pré-requisitos essenciais ao prosseguimento de seus estudos, com base no domínio da leitura, da escrita e das diversas linguagens utilizadas pelo homem, permitindo-lhe analisar, sintetizar e interpretar dados, fatos e cálculos, para resolver situaçõesproblema simples ou complexas, valorizando o seu desenvolvimento pessoal; (...) IV - estimular no aluno o desenvolvimento de atitudes críticoreflexivas, espírito de investigação, criatividade, iniciativa e respeito às diferenças individuais, conduzindo-os a aprender a aprender e aprender a pensar; Ao se considerar os pontos levantados nestes incisos, é possível ver o quanto a Literatura pode contribuir para a formação dos alunos proposta pelos Colégios Militares, posto que a leitura é um dos maiores (se não o maior) meio de se ter acesso ao conhecimento, e a Literatura enquanto prática é uma ferramenta poderosa para tornar o leitor mais crítico e capaz de ler nas entrelinhas as sutilezas de um texto. Além disto, se um bom escritor é antes de tudo sempre ser um bom leitor, a Literatura também pode contribuir no processo de formação da escrita dos alunos, não os tornando escritores literários propriamente ditos, mas escritores mais bem estruturados e preparados para usar a linguagem escrita para exercerem a sua cidadania. Finalmente, ao treinar leituras mais críticas e reflexivas, a Literatura pode também tornar seus leitores mais críticos e reflexivos diante do mundo a sua volta, pois um leitor mais afiado de textos escritos também é capaz de interpretar de maneira mais eficaz diversos tipos de linguagem e assim ser uma pessoa de capacidade crítico-analítica mais acurada em diversos aspectos de sua vida, objetivo primordial do ensino nos Colégios Militares brasileiros. 2.3 O afã questionador dos alunos e o afã questionador da Literatura: um convite ao crescimento 5 5 Ao longo dos estudos em Literatura, muito se discorre sobre sua função, apresentando-se aos olhos do pesquisador variadas hipóteses e respostas. Talvez uma das mais interessantes seja aquela que apresenta a Literatura com a função de questionar a linguagem, ou seja, apresentar novas e variadas formas de se usar e até mesmo de se brincar com a linguagem. Mote para incentivar a criatividade, este caráter questionador da Literatura instiga seus leitores a repensarem não só a língua, mas também a realidade a sua volta. A professora e pesquisadora em ensino de Língua Inglesa Maria da Graça Gomes Paiva, em seu artigo Os desafios (?) do ensinar a ler e a escrever em língua estrangeira, traz um ponto importante sobre os alunos de hoje, não mais condizentes com o ideal de aluno submisso e dócil do passado. Maria da Graça começa seu texto apontando que “Afinal de contas, como as crianças aprendem hoje?” Eis a questão primeira e instigante que nos colocamos antes de delimitar o tópico da leitura e da escrita em língua estrangeira. Teóricos como Haggerty (citado por Elias, 1997, p. 43) nos afirmam que os alunos da década de 90 diferem consideravelmente daqueles que os educadores veteranos com larga experiência docente estavam acostumados a ter em classe. A razão primordial se deve ao fato de que hoje nós, educadores, temos que “... ensinar os alunos que temos em sala de aula e não os alunos que gostaríamos que lá estivessem”. (PAIVA, 1998, p. 123) O que leva a pesquisadora Maria da Graça a fazer estas colocações nada mais é do que o caráter questionador dos alunos de hoje, que não prestam mais atenção em uma aula simplesmente porque isto é uma ordem a se cumprir, mas sim porque estão de fato interessados. Sendo assim, novos desafios se apresentam ao professor, o qual agora não tem apenas que ministrar uma aula, mas tem que prender a atenção de seus alunos com algo instigante e acima de tudo relevante para seus pupilos. Logo, o caráter ousado de a Literatura lidar com a língua tem tudo a ver com as mentes inquietas dos alunos do século XXI, os quais têm acesso a muita informação (especialmente através da Internet) e, principalmente, os quais não se encaixam mais na figura tranquila do aluno silencioso e obediente de dantes. Trazer a Literatura para a sala de aula, e especialmente para o ensino de Língua Portuguesa, proposta central deste estudo, mostra-se como uma maneira atual, lúdica e contextualizada de se levar a cabo o ensino de Português. Ademais, isto também contribui para o desenvolvimento de senso crítico por parte dos alunos, já que a prática de leitura, quanto mais rica e variada for, tende a produzir leitores mais afiados e capazes de lerem não apenas o óbvio, mas também aptos a captarem com destreza a mensagem nas entrelinhas e até mesmo desconfiarem do que leem, não acreditando de prontidão em todos os textos que se lhes apresentem. 2.4 Interdisciplinaridade, Letramento e Currículo: três assuntos em voga nas discussões em torno da educação, três assuntos interligados Quando se discute interdisciplinaridade, é preciso, antes de tudo, desfazerem-se alguns mal entendidos. Fazer um trabalho interdisciplinar não é uma questão de pluriformação, isto é, um único professor dominar mais de um assunto. A questão central na interdisciplinaridade é o trabalho em equipe do corpo docente, não obrigando um mesmo profissional a dominar mais de uma área do conhecimento, mas fazendo profissionais de diferentes áreas do conhecimento cooperarem entre si. O mesmo tema é tratado por diferentes disciplinas, em um planejamento integrado, trazendo assim uma perspectiva holística da realidade. Para fins ilustrativos, tem-se como exemplo uma fala do personagem John da 6 peça As casadas solteiras de autoria de Martins Pena: - Elas aqui estão desde manhã para assistirem à festa. Logo haverá fogo de artifício... Sempre há confusão... A falua estará na praia às nossas ordens, e mostraremos ao velho o que valem dois ingleses... (PENA, 1987, p. 32) Ao se trabalhar o texto sob a ótica da leitura e interpretação textual, o professor também pode apresentar de uma forma contextualizada e relevante para o aluno o uso do dicionário, ponto presente no Plano de Estudos do sexto ano do Colégio Militar de Salvador. Unindo Literatura e Gramática, é possível trabalhar a interpretação textual, pois, apesar de se saber que conhecer o significado de todas as palavras de um texto não é o suficiente para a interpretação deste, isto ainda assim é um fator relevante que ajuda na compreensão. Logo, cria-se no aluno a real necessidade de procurar palavras no dicionário, posto que Martins Pena, por ter redigido seus textos no século XIX, apresenta palavras que não são mais de uso corrente no Português falado no Brasil, como a palavra “falua” no trecho apresentado acima, só para citar um exemplo. Falando especificamente no uso do dicionário, os teóricos Paulo Coimbra Guedes e Jane Mari de Souza apresentam um bom exemplo deste trabalho em equipe e, por conseguinte, interdisciplinar, o qual a escola deve desempenhar: A que área, a que professor cabe ensinar os alunos a consultar o dicionário? É verdade que os princípios de construção e o funcionamento de um dicionário são saberes mais próprios do professor de português, mas ensinar não é apenas compor um discurso didático a respeito da importância de consultálo para resolver dúvidas e mostrar a técnica necessária para manejá-lo. Para levar o aluno a adotar diante do dicionário uma atitude de cidadão que reconhece como um direito seu o domínio das possibilidades de significado das palavras com que o seu mundo está sendo organizado, é preciso que a escola naturalize essa atitude mostrando como se faz e mostrando que se faz isso sistematicamente. E a escola é o conjunto dos professores e dos serviços; por isso, o uso do dicionário precisa ser, além de uma atividade multidisciplinar de leitura, uma atitude multidisciplinar da escola. (GUEDES e SOUZA, 2001, p. 145) Isto sem contar outras propostas que já não cabem no escopo deste trabalho, tais como o uso destes textos para melhor ilustrar o estilo de vida dos brasileiros no século XIX quando do estudo de História, ou o estudo de Língua Inglesa, já que a peça citada acima tem um personagem Inglês o qual tem várias falas no referido idioma ao longo do texto, só para citar alguns exemplos. Outra questão em voga nas discussões sobre educação, a qual possui estreita ligação com a interdisciplinaridade, é o letramento. Ou seja, o aluno não precisa saber ler e interpretar textos apenas nas disciplinas de Língua Portuguesa ou Língua Estrangeira. Saber compreender um texto e não apenas decodificá-lo é habilidade necessária a todas as matérias na escola, a todos os campos do conhecimento. Logo, todo o corpo docente deve trabalhar no sentido de desenvolver a capacidade de leitura de seus alunos dentro de suas respectivas áreas. Segundo Paulo Coimbra Guedes e Jane Mari de Souza, (...) a contextualização mais adequada para o entendimento de textos sobre cada área do conhecimento vai ser feita pelo professor da respectiva área, e isso não se refere apenas aos termos próprios da ciência em questão, mas também ao valor particular que nesse contexto assumem relações mais gerais de oposição, de causa e efeito, de condição (o que quer mesmo dizer “se” em matemática?) etc. Ensinar a ler é contextualizar o texto e explorar os seus possíveis sentidos; aprofundar a leitura é promover um diálogo da leitura feita pelo aluno com a leitura feita pela tradição, e essas tarefas são 7 de todas as áreas. (GUEDES e SOUZA, 2001, p. 139) Usando mais uma vez apenas como exemplo ilustrativo a peça As casadas solteiras do dramaturgo Martins Pena, o papel de questionadora por excelência da linguagem desempenhado pela Literatura pode ser usado para desenvolver cada vez mais a capacidade de entendimento dos textos por parte dos alunos ao treinar seu olhar para aspectos das entrelinhas dos textos, mais sutis, mas que ao mesmo tempo tornam o uso da linguagem mais rico e mais variado. Explorar questionamentos tais como o porquê do paradoxo do título da peça poderia ser um ótimo exercício para afiar o olhar do aluno leitor. O professor também poderia trabalhar com seus pupilos a maneira como o casamento é tratado no contexto da peça e questioná-los sobre isso, fazendo-os analisar as diferenças entre os enlaces amorosos no século XIX e os de hoje em dia. O contraponto entre o contemporâneo e o antigo é sempre pertinente para tornar o olhar dos alunos mais afiado ao se defrontarem com textos escritos em outras épocas, pois escritos mais antigos também certamente serão lidos não só em vários momentos das leituras na escola, mas também fora dela. Trazer para a escola questões como a interdisciplinaridade e o letramento são evidências de um terceiro ponto bastante discutido na educação atualmente: a crise no currículo. A tentativa e até mesmo a necessidade de se elaborar um currículo à luz destes dois pontos evidencia uma inquietação por parte dos educadores ao perceberem que a velha receita de disciplinas compartimentadas e com conteúdos imutáveis já não funciona tão bem como dantes. O pesquisador Alfredo Veiga Neto abre seu ensaio intitulado Currículo e cotidiano escolar: novos desafios fazendo ao leitor uma interessante provocação: O currículo parece condenado ao desaparecimento. Para nós, educadores, essa frase funciona como uma provocação. Ela é estranha e nos perturba. Afinal, se o currículo desaparecer, como se darão as práticas escolares? Como serão selecionados e organizados os conteúdos? Como serão executados os processos de ensinar e como poderá se efetivar a aprendizagem? Quais serão os novos mecanismos para o controle e a avaliação daquilo que é ensinado e (eventualmente...) aprendido? Ou será que até mesmo essas perguntas perderão a importância e o sentido que têm hoje? Afinal, pode-se pensar a educação escolar sem os nossos conhecidos processos curriculares de planejamento dos objetivos, seleção de conteúdos, modos de colocar tais conteúdos em ação na escola e avaliação? (NETO, 2008, p. 1) Se os alunos de hoje não são mais dóceis e plácidos como dantes, se hoje o são questionadores, espertos, rebeldes e até mesmo difíceis de lidar, também o currículo não pode mais ser como dantes, e mudanças se fazem pertinentes. O acesso rápido e fácil a incríveis quantidades de informação e um leque cada vez maior de possibilidades profissionais tornam urgente uma revolução no currículo escolar o qual deve se adequar à vida dos alunos de agora. Questões como interdisciplinaridade e letramento nada mais são do que diferentes facetas do currículo o qual deve ser adaptado a estes tempos de informação rápida e fluida, de liberdade e autonomia cada vez maior por parte de crianças e adolescentes em suas escolhas. A velha escola em que os alunos sentados, imóveis e silenciosos ouviam o professor “transmitir” conhecimento já não se aplica mais à realidade. Mais uma vez, a Literatura, mesmo aquela redigida nos antigos tempos dos “alunos que não existem mais” se torna mais atual do que nunca, pois assim como os alunos de hoje, a Literatura também é questionadora, esperta, rebelde e por vezes até mesmo difícil de lidar. 8 8 2.5 O sexto ano do Ensino Fundamental do Colégio Militar de Salvador em aula: um olhar, uma possibilidade, uma experiência No dia 20 de maio do corrente ano, uma aula de Língua Portuguesa do sexto ano do ensino fundamental do Colégio Militar de Salvador, em uma turma de dezoito alunos entre dez e doze anos de idade, foi observada. A aula assistida era especificamente de leitura e produção textual e os alunos estavam estudando o gênero lenda. Alguns textos deste gênero já haviam sido lidos e nesta aula a professora apresentou aos alunos a música Lenda, de autoria de Kiko, Nando e Ricardo Feghali, músicos do grupo Roupa Nova, interpretada pela dupla de cantores Sandy e Júnior. As digressões e o afluxo de ideias em torno da música se mostraram ricos e produtivos, pois se discutiram temas como a diferença entre amor e paixão, bem como o tema da música, a estrutura do poema e sua ligação com as lendas lidas anteriormente. Por fim, os próprios alunos puxaram o assunto em torno de mitologia e um aluno até contou para a turma uma lenda proveniente da mitologia grega. A partir da observação desta aula, já é possível se vislumbrar a pertinência da proposta de ensino apresentada neste artigo, posto que, apesar de os gêneros crônica e drama não fazerem parte oficialmente do Plano de estudos do sexto ano, uma maior variedade de textos apresentados tende a tornar o leitor mais preparado e eficiente. Além disto, seria interessante se atentar para alguns pontos da Unidade Didática I do referido Plano de estudos: 1. Textos orais – (Os alunos poderiam criar uma versão resumida das crônicas e peças dos autores propostos para este trabalho e poderiam representar suas histórias para os colegas, explorando todas as facetas da expressividade dos textos orais. Além disto, os alunos poderiam até mesmo criar novas histórias a partir daquelas trabalhadas, usando de sua criatividade também para a produção textual e posterior representação de suas próprias produções, explorando também a expressividade da oralidade da língua.) 2. Elementos da narrativa – (Elementos tais como personagens e narrador, por exemplo, podem ser explorados em todos os tipos de texto, inclusive naqueles que não estão diretamente presentes no Plano de estudos.) 3 Tipos de discurso – (Os estudantes poderiam reescrever os textos trabalhados em aula em forma de discurso indireto, contando para um amigo o que houve, já que as crônicas e peças de Luís Fernando Veríssimo e de Martins Pena têm muitos diálogos na forma de discurso direto.) Já na Unidade Didática II, o Plano de Estudos do sexto ano entra em pontos de gramática específicos de morfossemântica. A proposta de se usar textos literários para contextualizar o ensino de gramática, ponto no qual se insiste nesta pesquisa, está em consonância com este Plano de Estudos, o qual propõe que os textos trabalhados na Unidade Didática I sirvam também para se trabalhar os conteúdos da Unidade Didática II. As crônicas de Luís Fernando Veríssimo e as peças de Martins Pena, além de proporcionarem prazer e divertimento em suas leituras, treinar o senso crítico do leitor mirim ao apresentar aspectos mais sutis das entrelinhas de um texto tais como o humor, a ironia e comportamentos típicos da cultura brasileira, também podem ser uma excelente ferramenta para se trabalhar a gramática da Língua Portuguesa. Para fins ilustrativos, são apresentados a seguir alguns exemplos de atividades as quais poderiam ser desenvolvidas com uma crônica de Luís Fernando Veríssimo (Grande Edgar) considerando-se alguns pontos da Unidade Didática II do Plano de Estudos do sexto ano do Colégio Militar de Salvador: 2. Sinônimos e Antônimos: A crônica Grande Edgar se inicia colocando o drama do narrador: Já deve ter acontecido com você. - Não está se lembrando de mim? Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele está ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando a sua resposta. Lembra ou não lembra? Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir. Um, o curto, grosso e sincero. - Não. (...)2 (Grifos meus) Os sinônimos e antônimos dos adjetivos grifados ao final do trecho citado poderiam ser trabalhados, tais como “pequeno”, “espesso” e “honesto”, no caso dos sinônimos, ou “longo”, “fino”, e “falso”, no caso dos antônimos. No entanto, se for levado em consideração o contexto da crônica, estes sinônimos e antônimos não se aplicam necessariamente, nuance a qual poderia ser trabalhada com os estudantes. Por exemplo, o “grosso” do texto é, de fato, o antônimo de “fino” no sentido de educação e boas maneiras, contudo, não é sinônimo de “espesso”, no sentido de tamanho, mas é sinônimo de “brusco” no contexto de educação e boas maneiras, só para citar um exemplo. 4. Classes de palavras: artigo Ainda usando como base a crônica Grande Edgar, o drama do personagem entre definir pessoas de quem se lembra e de quem não se lembra poderia ser usado para se trabalhar a diferença entre artigos definidos e indefinidos já que ao pensar em pessoas as quais o narrador sabe de quem se trata, como em “É o Ademar! Não, o Ademar já morreu.”; e ao pensar em pessoas as quais o personagem não sabe quem são, o 9 narrador usa o artigo indefinido como em “Não tinha um Rezende na turma?”. Finalmente, como a proposta deste artigo também é uma abordagem lúdica da linguagem, todos estes exercícios com a 2 http://literal.terra.com.br/verissimo/porelemesmo/po relemesmo_grandeedgar.shtml?porelemesmo gramática podem ser em forma de jogos. Apenas um exemplo disto, a fim de ilustrar esta proposta, é a brincadeira da “batata quente” (toca uma música enquanto uma bola/balão/batata passa de mão em mão e quando a música para, a “batata” para na mão de quem a estiver segurando), a qual pode ser usada para escolher qual aluno irá responder à determinada questão de um 9 exercício. Estes são apenas alguns poucos exemplos ilustrativos, mas muitas outras atividades podem ser criadas e implementadas não só com os autores em questão, mas com tantos outros, ricos produtores da Literatura de Língua Portuguesa, quer sejam brasileiros, quer sejam de outros países também falantes de Português. 3 O Plano de Áreas de Estudo (Plaest) de Língua Portuguesa do Sétimo Ano do Ensino Fundamental do Colégio Militar de Salvador: a importância do contraste para a percepção não só do outro, mas também de si mesmo O Plano de Estudos em questão não prevê diretamente trabalhos com crônicas humorísticas, como é o caso de Luís Fernando Veríssimo, tão pouco o trabalho com textos dramáticos, como é o caso de Martins Pena (os gêneros literários previstos são os seguintes: diário e blog; narrativa policial; narrativa de aventura; narrativa de ficção científica; poesia; textos do cotidiano; textos argumentativos). Entretanto, este mesmo Plaest, entre outras coisas, dá bastante ênfase para três pontos, a saber: dramatização dos textos trabalhados, expressividade do tom de voz e da entonação nos textos orais e as diferenças entre os registros formal a informal da língua. Os textos dos dois autores em questão trabalhados no sexto ano podem servir como uma preparação (e também como um auxílio) para os alunos estudarem estes três pontos, pois, em primeiro lugar, como já foi dito anteriormente neste trabalho, os escritos de ambos se prestam perfeitamente à 10 10 dramatização, posto que Martins Pena escreveu peças de teatro propriamente ditas e Luís Fernando Veríssimo, apesar de ter escrito crônicas originalmente para serem apenas lidas, são textos com alto potencial para a dramatização, tendo em vista que possuem muitos diálogos e muitos trechos em discurso direto (inclusive, é interessante se atentar para o fato de que vários de seus textos já foram adaptados para a televisão, especialmente pela Rede Globo). Em segundo lugar, a ênfase dada ao potencial de expressividade dos textos orais está diretamente ligada à dramatização, bem como à constante presença de diálogos nos referidos textos. Por conseguinte, estas obras literárias se mostram extremamente pertinentes para se trabalhar a oralidade da língua, pois, apesar de se tratarem de textos escritos, eles possuem muitas características de língua falada. Esta mescla de modalidades da língua se apresenta como uma ferramenta preciosa para os professores fazerem seus alunos perceberem as diferenças entre as duas modalidades, posto que o contraste é um grande aliado para se fazer um ser humano entender muitas coisas. Em terceiro lugar, por trazerem consigo diversos traços de oralidade, os textos de Veríssimo e Martins Pena também apresentam diversos traços do registro informal da língua, pois é na oralidade que a informalidade se apresenta com mais frequência. Logo, novamente, o contraste entre o formal e o informal, utilizado com maestria por ambos os escritores, também pode ser utilizado pelo professor para mostrar aos seus alunos a diferença entre os dois registros e facilitar o entendimento acerca do assunto. Nada mais valioso para a sala de aula do que se aprender o que quer que seja tendo em mãos materiais produzidos por autores de alta qualidade como os apresentados para esta proposta. É sempre pertinente lembrar que um bom escritor é antes de tudo um bom leitor e, portanto, quanto mais textos de alta qualidade literária os alunos lerem, leitores mais afiados serão, e, consequentemente, escritores mais eficientes serão. Finalmente, fica aqui a lição primordial dos viajantes e da Literatura de Viagem, muitíssimo valiosa para a sala de aula: conhecer o outro ajuda a conhecer o eu, pois a alteridade, o contraste, ajuda o ser humano a ter uma melhor percepção das coisas. Logo, a questão do contraste entre o oral e o escrito, entre o formal e o informal, pode ajudar os estudantes a perceberem estas diferenças e serem usuários mais eficientes da Língua Portuguesa, sendo que o domínio da linguagem é um dos principais meios pelos quais uma pessoa exerce a sua cidadania. Ficam as palavras de Tzvetan Todorov em A conquista da América, segundo o qual o processo de descobrir e definir o eu e o outro é muito complexo, implicando infinitas direções a se seguir dentro dos momentos de identificação e estranheza entre este eu e este outro. Somente o meu ponto de vista, e nada mais, é que consegue distinguir a diferença entre o lá, onde estão os outros, e o aqui, onde estou eu. Afora isto, não existiria mais nada que definiria esta fronteira com precisão. Quero falar da descoberta que o eu faz do outro. O assunto é imenso. Mal acabamos de formulá-lo em linhas gerais já o vemos subdividir-se em categorias e direções múltiplas, infinitas. Pode-se descobrir os outros em si mesmo, e perceber que não se é uma substância homogênea, e radicalmente diferente de tudo o que não é si mesmo; eu é um outro. Mas cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu. Somente meu ponto de vista, segundo o qual todos estão lá e eu estou só aqui, pode realmente separá-los e distingui-los de mim. (TODOROV, 1988, p. 3) O eu e o outro, o formal e o informal, o oral e o escrito, os personagens das obras literárias e o leitor, o aqui do leitor e o lá da Literatura, o contraste vem de encontro ao professor como eficiente ferramenta para o ensino. 4 Conclusão 11 Tanto trabalho com leitura e interpretação textual deve formar não só bons leitores, mas também bons escritores, e como ninguém escreve ao léo, pois escrevemos, nem que seja para nós mesmos, escritores de agora, mas leitores de nossos próprios escritos amanhã, vem à tona a importância do professor ser um interlocutor para os escritos de seus alunos. Segundo a pesquisadora em Teoria Literária Suzi Frankl Sperber, a presença do interlocutor é muito mais palpável e visível na oralidade, contudo, esta presença pode (e deve) ser imitada na escrita: A presença do interlocutor faculta a audição do enunciado. Portanto, não só o corpo está presente, palpável, como também a voz é audível, emitindo vibrações sonoras e emotivas. “Todas as emoções se dão no tempo, mas o som tem uma relação especial com ele, diferente de todas as outras sensações” que se dão com e no tempo. “O som existe enquanto já está desaparecendo. Ele não só é perecível, como essencialmente evanescente e percebido enquanto evanescente”. Talvez por isso seja tão importante a figura do interlocutor, quer de verdade, no cotidiano, na oralidade real, quer na ficção, isto é, na oralidade ficcional, visto que é difícil falar a si mesmo durante horas a fio: o pensamento continuado pareceria estar ligado à comunicação com um interlocutor. Em resumo, ainda que a presença do interlocutor seja a marca mais palpável e evidente da oralidade, ela pode ser imitada na escrita (...). (SPERBER, 2009, p. 35) Ou seja, o professor deve ser este interlocutor da escrita, mostrando-se um leitor interessado nos escritos de seus alunos, importando-se muito mais em interpretar e interagir com as informações que seus alunos apresentam do que em ser apenas um “corretor” que aponta erros ou possíveis melhorias. 11 Referências GUEDES, Paulo Coimbra, SOUZA, Jane Mari de. Não apenas o texto mas o diálogo em língua escrita é o conteúdo da aula de português. In: NEVES, Iara Conceição Bitencourt. (org) et ali. Ler e escrever: compromisso de todas as áreas. Porto Alegre: UFRGS, 2001 NETO, Alfredo Veiga. Currículo e cotidiano escolar: novos desafios. Em http://www.grupalfa.com.br/arquivos/Congr esso_trabalhosII/palestras/Veiga.pdf PAIVA, Maria da Graça Gomes. “Os desafios (?) do ensinar a ler e a escrever em língua estrangeira”. In.: NEVES, I.B.; SOUZA, J. V. (Orgs.). Ler e escrever, compromisso de todos. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 1998. PENA, Luiz Carlos Martins. As melhores comédias de Martins Pena. Porto Alegre: Ed. Mercado Aberto, 1987. Plano de Estudos (Plaest) do sétimo ano do Ensino Fundamental do Colégio Militar de Salvador (CMS), 2009. Plano de Estudos (Plaest) do sexto ano do Ensino Fundamental do Colégio Militar de Salvador (CMS), 2010. Regimento Interno dos Colégios Militares (RI/CM). Em http://www.cmrj.ensino.eb.br/legislacao/reg ulamentos/ricm_2003.pdf http://www.cmrj.ensino.eb.br/legislacao/reg ulamentos/ricm_2003.pdf SPERBER, Suzi Frankl. Razão e Ficção: Uma retomada das formas simples. São Paulo: Ed. Hucitec, 2009. TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: a questão do outro. 2. ed. Tradução Beatriz Perrone Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 1988. 12 VERÍSSIMO, Luís Fernando. Grande Edgar. In: O suicida e o computador. Porto Alegre:L&PM, 1992 (p. 146 – 150). __________. Mais comédias para ler na escola. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2008.