MODELAGEM MATEMÁTICA: PRODUÇÃO E DISSOLUÇÃO DA REALIDADE Ademir Donizeti Caldeira Universidade Federal do Paraná CAPES/PRODOC Na literatura pertinente à Modelagem Matemática (MM) existem algumas idéias que são consensuais e outras que ainda precisam ser melhores discutidas. O principal consenso é que a aplicação da MM na aprendizagem da matemática está diretamente relacionada à realidade. Daquelas não consensuais, duas das mais citadas são se a MM é ou não um método de ensino e, finalmente, a mais polêmica é se é possível a aprendizagem da matemática através da MM nas escolas do Ensino Fundamental e Médio da maneira como estas estão estruturadas atualmente? Tentarei aqui discutir um pouco sobre estes três pontos fundamentais. Quanto à questão consensual a pergunta que se faz é: o que é a realidade? Esta é uma pergunta ao mesmo tempo fácil e difícil. Fácil quando nos limitamos a responder: realidade é a realidade. Difícil quando nos limitamos a questionar: realidade de quem? Uma boa discussão sobre a história da realidade e principalmente sobre os usos da realidade pode ser encontrada, dentre vários outros autores que discutem este tema, em um dos capítulos do livro de Jorge Larrosa1 e é baseado neste autor que vou me colocar quanto a esta questão e sua relação com a MM. A inserção da componente realidade nos pressupostos teóricos, mas principalmente nas suas ações práticas, da MM pode ser melhor compreendida quando nos colocamos diante da questão: a quem interessa a matemática apresentada nos currículos escolares? Isso e uma certa forma nos remete a uma reflexão sobre o currículo e suas várias dimensões, desde aquelas que denominamos de tradicionais até às mais recentes, tais como as 1 Larrosa, Jorge. “Argamenon e seu porqueiro” in Pedagogia Profana: danças, piruetas e mascaradas. 3. ed. Texto de Jorge Larrosa, tradução de Alfredo Veiga Neto. Belo Horizonte: Autentica, 2000. 208 p. Anais do VIII ENEM - Palestra 2 denominadas de multiculturalistas. Além disso, levanta-se também a discussão do novo papel do professor de matemática, discutidos por muitos autores da educação e também da educação matemática2. Larrosa nos remete a refletir sobre o “ser” da realidade e o “dizer” da realidade. O “ser” da realidade está formulado tautologicamente: “a realidade é a realidade”, como quem diz “a verdade é verdadeira” ou “o ser da verdade está em sua própria condição de verdadeira”. O “dizer” da realidade refere-se a dois personagens citados por ele: Agamenon e seu porqueiro. Agamenon manda nos homens e o porqueiro manda nos porcos. Apenas Agamenon tem nome próprio, enquanto que o porqueiro não é nem proprietário dos porcos, nem proprietário de si mesmo, nem sequer proprietário do seu nome. A afirmação “a realidade é a realidade, diga-a Agamenon ou seu porqueiro” – indica claramente que o “ser” da realidade e a “força” da realidade não tem nada a ver com o “dizer” da realidade, que a realidade é independentemente de quem a diga e, sobretudo, independente das diferenças entre os homens. Agamenon, o proprietário dos porcos, está de acordo com que a realidade é imperativa por si mesma. Mas o porqueiro, que não é ninguém porque não tem força, não se deixa enganar. Ele não se deixa convencer de que a realidade seja a realidade independentemente de quem a diga. O porqueiro não tem uma realidade distinta da realidade de Agamenon. O porqueiro sabe que a realidade do poder é a única realidade. Mas conserva, ao menos, a secreta dignidade de não deixar se convencer pelo poder da realidade. E é aí, como muito se sabe o porqueiro, que o jogo da realidade começa a ser um jogo marcado, um jogo no qual o poder da realidade está a serviço da realidade do poder. Uma tese formulada por um filósofo italiano, citado por Larrosa, chamado Gianni Vattimo3 consiste em uma determinada interpretação da sociedade em que ela pode ser caracterizada como uma sociedade da comunicação generalizada. Uma sociedade na qual os aparatos da comunicação de massa são determinantes para a produção, a reprodução e também, para a dissolução disso que chamamos realidade. O jogo da mentira e da denúncia da mentira têm, em nossos tempos, uma importância que dificilmente pode ser exagerada. Talvez, em nossos tempos, como em todos os tempos, a tarefa consista em “educar um ser 2 ver por exemplo o livro de Maria Cândida Moraes. O Paradigma Educacional Emergente. CampinasSP:Papirus 1997. 3 Vattimo, G. (1989). La sociedad transparente. Barcelona: Paidós 1990, p. 80. Anais do VIII ENEM - Palestra 3 que não se deixe enganar”. Vattino, segundo Larrosa, não fala de falsificação ou de manipulação da realidade, mas de sua produção e dissolução. Para ele, “o ocidente vive uma situação explosiva, uma pluralização que parece irrefreável e que torna impossível conceber o mundo e a história de acordo com pontos de vista utilitários”. Nosso porqueiro sabia muito bem que a “verdade é a verdade” e “a realidade é a realidade” são as palavras do amo, o único que fala. Graças à lógica imanente ao funcionamento da mídia é que o amo já não é o único que fala e que existem tantas realidades quantas são as suas definições. Como educadores, movemo-nos constantemente nesta tensão entre a produção e a imposição de uma realidade única e o surgimento de múltiplas realidades. Nós mesmos falamos em nome de uma realidade e enunciados imperativos como “a realidade é a realidade” são demasiados freqüentes em nossas bocas. Somos muitas vezes servidores de Agamenon. Mas, às vezes, nos sentimos também como o porqueiro e suspeitamos que, talvez, não seja verdadeira a verdade de Agamenon nem real a realidade. Talvez tenhamos que aprender a nos apresentar na sala de aula com uma cara humana, que não se endureça na autoridade e se desconfiamos da realidade como o nosso porqueiro, teremos talvez que aprender a viver de outro modo, a pensar de outro modo, a falar de outro modo, a ensinar de outro modo. É neste sentido que concordo com Larrosa e que a Modelagem Matemática tem me ajudado a compreender a educação de um outro modo. E para finalizar esta primeira questão reproduzo aqui um texto de Juan de Mairena, citado em Larrosa, para seus alunos: “não é fácil que eu lhes possa ensinar a falar, nem a escrever, nem a pensar corretamente, porque eu sou a incorreção mesma, uma alma sempre em rascunho, cheia de riscos, de vacilações e de arrependimentos. Levo comigo um diabo – não o demônio de Sócrates mas um diabinho que risca às vezes o que eu escrevo, para escrever em cima o contrário do riscado: que às vezes fala por mim e outras eu falo por ele, quando não falamos os dois em dueto, para dizer em coro coisas diferente”. A outra questão que ainda não se tem um consenso e que aparece na literatura é se a MM é uma metodologia; uma estratégia de ensino e aprendizagem; um ambiente de Anais do VIII ENEM - Palestra 4 aprendizagem ou até mesmo uma técnica de ensino. Algumas vezes já ouvi que MM é mais do que um método, mas o que será este algo mais? Na minha forma de entendimento coloco a Modelagem Matemática como um sistema de aprendizagem. Colocar a MM apenas como uma estratégia de ensino ou uma metodologia deixa muito aquém daquilo que realmente podemos aproveitar fazendo uso da MM nas salas de aula. Conceituar a MM como uma estratégia de ensino pode passar a idéia que a MM serve apenas para reproduzir, de uma maneira diferente, o que está posto como conhecimentos imutáveis a serviço de uma determinada concepção de educação, muitas vezes, ou na maioria das vezes, impregnada de uma única forma de pensamento. A MM está, ou deveria estar, muito além de uma simples metodologia. Isto não significa que ela não possa ser vista desta maneira, como veremos a seguir. Jonei4 cita os trabalhos de Franchi5 em que foi utilizada uma situação-problema “dirigida” para sistematizar conceitos de Cálculo Diferencial e Integral ou quando cita Jacobini (1999)6 quando problematizou um artigo de jornal com os alunos para abordar conteúdos programáticos de Estatística e eu citaria aqui também o trabalho de Borssoi 7em que ela organiza a proposta da sua dissertação de mestrado para desenvolver o conteúdo de Equações Diferenciais com uma turma do curso de Química da Universidade Estadual de Londrina, todos estes casos nos informam de como a MM pode ser interpretada como um método. O objetivo principal, como me parece, estava em ensinar um determinado conteúdo matemático previamente estabelecido pelo programa que deveria ser cumprido pelo professor. E como estes, temos na literatura, principalmente estudos de casos em que se tornaram dissertações de mestrados ou teses de doutorado, que nos mostram, de uma maneira muito clara, o aspecto metodológico da MM. Outros bons exemplos deste tipo de aplicação podem ser encontrados no livro do Rodnei Bassanezi8. Acredito que a MM possa 4 Barbosa, J.C. “Modelagem na Educação Matemática: contribuições para o debate teórico”.notas de mini curso apresentado na UFPR. 2004. 5 Franchi, R.H. de º A Modelagem Matemática como estratégia de Aprendizagem no Cálculo Diferencial e Integral nos cursos de Engenharia. Rio Claro: Universidade Estadual Paulista, 1993. 148p. (Dissertação de Mestrado) 6 Jacobini, ºR. A Modelação Matemática aplicada no ensino de estatística em cursos de graduação. Rio Claro: IGCE, 1999 (Dissertação de Mestrado). 7 Borssoi, A.H. A aprendizagem significativa em atividades de Modelagem matemática como estratégia de ensino. Universidade Estadual de Londrina, 2004. (Dissertação de Mestrado). 8 Rodney, Carlos Bassanezi. Ensino-aprendizagem com modelagem matemática: uma nova estratégia. São Paulo: Contexto, 2002. Anais do VIII ENEM - Palestra 5 ser definida como uma metodologia ou estratégia de ensino, quando apenas “construímos” determinados modelos para cumprirmos os programas pré-estabelecidos. Diferentemente desta postura, podemos também encontrar na literatura uma gama de exemplos em que situações problemas advindas de projetos, ou mesmo de situações apresentadas pelo professor, decorrentes da interação entre o professor, a realidade e seus alunos, sem, no entanto, ter a preocupação inicial de reproduzir os conteúdos que previamente foram estabelecidos, na maioria das vezes, pela realidade de Agamenon e, muito pouco, pela realidade do porqueiro. É nestas circunstâncias, desatrelando a aprendizagem da matemática às amarras de definições de conteúdos obsoletos, muitas vezes colocado no currículo para atender a determinadas correntes de pensamento, que acredito na eficácia da MM: ser capaz de oferecer aos professores e alunos um sistema de aprendizagem como uma nova forma de entendimento das questões educacionais da matemática. Não é simplesmente aceitar que a educação pode ser resumida em um currículo fundamentado cartesianamente na tríade conteúdos-objetivos-metodologia sem nenhum tipo de reflexão critica. Modelagem Matemática não é aceitar determinados conteúdos préestabelecidos por uma determinada concepção de educação e aplicar situações da realidade aos alunos para que estes conteúdos ganhem significados e se justifiquem perante a sociedade que acredita que tais concepções são as únicas possíveis dentro de um sistema maior. É, pelo contrário, questionar tais conteúdos e apresentar novas oportunidades no sentido de fazer com que as pessoas compreendam que devemos acreditar no processo dinâmico da realidade o que acarreta um currículo também dinâmico em que, professores e alunos, tenham que se atualizar de acordo com as necessidades prementes de cada sociedade e de cada época histórica. A literatura nos mostra também a possibilidade de usar a Modelagem Matemática na aprendizagem da matemática como alternativa ao chamado método tradicional9. Quando 9 Ver por exemplo os trabalhos de Bassanezi, R. Modeling as a teaching-learning estrategy. For the learning of mathematics.Vancouver, V. 14, n. 2, p.31-35, 1994; Biembengut, M. S. Modelagem Matemática & implicações no ensino-aprendizagem de Matemática. Blumenau: Editora FURB, 1999.; Blum W. & NISS, M. Applied mathematical problem solving, modelling, applications, and links to other subjects – state, trends and issues in mathematics instrction. Educational Studies in Mathematics. Dordrecht, V. 22, n.1, p.37-68, 1991. Anais do VIII ENEM - Palestra 6 vamos buscar no Aurélio10 o significado da palavra alternativa constatamos que ela pode ser interpretada como “sistema de proposições em que só uma é verdadeira”, mas também “sistema de duas ou mais proposições das quais pelo menos uma é verdadeira, e que, não se excluem necessariamente”. Posso, com isso, fazer uma interpretação de que a MM não irá substituir, por completo, o chamado método tradicional, mesmo porque a inserção da MM nos sistemas escolares não é nem uma questão de método. Repito, a MM não irá substituir o método tradicional, ela deverá questionar as concepções em que o conhecimento matemático é imposto nas nossas escolas. Mesmo porque negar completamente um sistema para colocar outro no lugar é usar das mesmas prerrogativas dominantes de achar que existe somente uma verdade. Aceitar a MM como uma nova forma de entendimento das questões educacionais da matemática é não cairmos no erro de achar que devemos fazer, na MM, tudo aquilo que acreditamos que não deva ser feito no sistema antigo. Isto nos faz cair na dualidade entre o certo e o errado, o que de uma certa maneira, é totalmente incoerente com a proposta de MM. No meu modo de ver, não se trata aqui em discutir se a MM vai dar ênfase somente à matemática útil a sociedade, mesmo porque o conceito de utilidade é muito relativo, além disso, teríamos que definir também de que sociedade estamos nos referindo11. Não se trata também em aplicar a MM para justificar a Matemática no sentido de estabelecer alguma relação com outras áreas de conhecimento, mas, trata-se em fazer da MM um instrumento capaz de educar alguém que não se deixe enganar. Que não se deixe enganar não somente por estes aparatos da mídia como o rádio, a TV, os jornais, mas que não se deixe enganar principalmente pelos aparatos educativos, que muitas vezes, como Larrosa nos informa, pretendendo imuniza-lo das mentiras da mídia, inculcam, talvez, outras formas de mentira, disfarçadas, desta vez, com o manto da realidade. Uso a denominação da MM como um sistema de aprendizagem quando tentamos obter um equilíbrio entre a concepção tecnocrática, a concepção progressista e o que muitos 10 Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. 11 Ver sobre este tema Burke, Peter. Uma História Social do Conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Trad. Plínio Dentzien – Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed. 2003. Anais do VIII ENEM - Palestra 7 educadores vem defendendo por uma concepção denominada de holística. Hutchison12 nos coloca sobre estas três concepções que resumidamente apresento para justificar minha proposta. Apresentarei, teoricamente, algumas características que sustentam as três concepções e iremos perceber que ideologicamente elas, em muitos pontos, se contrastam. No entanto, na prática, é possível, talvez até mesmo provável que elas se completem13. Aspecto Concepção Concepção Concepção Selecionado Tecnocrática Progressista Holística Principal Ajudar os objetivo desenvolver alunos a Ajudar os alunos o desenvolver conhecimento, a Além dos objetivos da o concepção progressista as conhecimento, as também avançar seu habilidades e os valores que habilidades e os valores que crescimento precisarão para garantir precisarão empregos produtivos e para participar participar em um mercado como de trabalho competitivo. a fim de além da escolarização efetivamente formal cidadãos pessoal e responder em uma efetivamente sociedade democrática. radicais às mudanças globais. E assim vamos encontrando vários aspectos que se diferenciam uma da outra, tais como: período de influência; visão básica de mundo; visão de mudança social; noção de desenvolvimento na infância; dentre outros. Irei destacar aqui três que considero estar intimamente relacionado com a MM: a orientação curricular; a integração entre as matérias e o sistema de avaliação. 12 Hutchinson, David. Educação ecológica: idéias sobre consciência ambiental. Trad. Dayse Batista, Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. 13 As tabelas abaixo foram adaptadas do livro citado na nota 12. Anais do VIII ENEM - Palestra Aspectos Concepção selecionados Tecnocrática Orientação do A aprendizagem ocorre Currículo principalmente pela transmissão unilateral do conhecimento, do professor para o aluno. Há um foco sobre a memorização o domínio do conteúdo e as habilidades de pensamento. Concepção Progressista A aprendizagem ocorre por meio de uma interação bilateral entre o aluno e o currículo, o professor e o grupo de colegas. Há um foco sobre habilidades de solução de problemas, estratégias de aprendizagem, aprendizagem cooperativa e construção de habilidades sociais e auto-estima. Integração matérias das O currículo é baseado nas disciplinas e não dá muito espaço ou não permite a integração das matérias ou a aprendizagem entre as disciplinas. A soberania das disciplinas separadas é crucial O currículo é baseado na disciplina, mas permite alguma integração interdisciplinar e baseada em temas, especialmente no nível fundamental. Métodos avaliação de A avaliação quantitativa padronizada (isto é, testes). Centra-se no produto (resultados). Apóia os testes comparativos entre as escolas e os países Observações qualitativas informais do aluno, especialmente no ensino fundamental. Focaliza-se sobre o processo (estratégias de aprendizagens). Também ocorre alguma autoavaliação e avaliação de grupo 8 Concepção Holística A aprendizagem ocorre por meio de um processo de desenvolvimento pessoal e social. Há um foco sobre o crescimento pessoal, os estilos de aprendizagem e as habilidades de pensamento crítico, levando à mudança social e à mudança de comportamento. O currículo é baseado em um tema e é transdisciplinar. Os limites tradicionais entre as matérias são considerados arbitrários, promovendo, supostamente, um programa fragmentado de instrução. É semelhante à educação progressista, mas há uma ênfase um pouco maior sobre formas não-formais de auto-avalição e de avaliação em grupo. Desta forma quando defendemos a MM como um sistema de aprendizagem em que se busque o equilíbrio entre estas três concepções não queremos acreditar que só existem estas formas de ver e entender os sistemas educacionais. Evidentemente outras formas de entendimento poderão também permear as nossas práticas de sala de aula, mas se buscarmos na aprendizagem da matemática elementos que contemplem estas três aqui apresentadas, estaremos dando um grande passo para o desequilíbrio que estamos vivendo nas nossas aulas de matemática. Anais do VIII ENEM - Palestra 9 A pergunta que se coloca é: como isso é possível nos sistemas escolares? E aí vamos comentar a última questão colocada no início deste texto: é possível a aprendizagem da matemática através da MM nas escolas do Ensino Fundamental e Médio da maneira como elas estão estruturadas atualmente? A minha resposta é evidente que sim, desde de que se faça, partindo dos professores, os ajustes necessários para adaptar os pressuposto teóricos que apresentei acima. Coloco partindo dos professores por uma razão simples: as mudanças devem partir das ações daqueles que sustentam um determinado sistema. Quero dizer com isso que para a incorporação da MM nas escolas não precisamos esperar que a escola, enquanto sistema, mude. As mudanças deverão ocorrer a partir da sua base de sustentação que são os professores e alunos. Trabalhar a MM, nas escolas, é buscar incorporar algumas características das três concepções, digamos de uma forma inclusiva. Enquanto a concepção tecnocrática trabalha essencialmente na valorização das formas cognitivas que estão intimamente relacionadas à disciplina matemática em si, o que não é de todo ruim, muito pelo contrário, traduzindo, na prática uma aprendizagem matemática para o domínio, para a aquisição de habilidades técnicas, perfeitamente adaptadas ainda nos dias de hoje em alguns aspecto, a posição progressista expande este entendimento, bastante limitado, diga-se de passagem, incluindo também o aspecto da experiência do aluno e sua inserção no mundo da pesquisa, tanto o aluno quanto o professor. Caracterizada pela forma de não só de aprender matemática nas formas técnicas mas fazer o aluno participar do processo, evidenciando suas necessidades individuais, incorporando assim não somente o cognitivo mas também o afetivo. No entanto, somente o cognitivo e o afetivo não bastam. Se faz necessário também incorporar os modos intuitivos e metafóricos14 do conhecimento matemático ao conceito lógico/analítico da cognição e introduzir uma dimensão espiritual15 à experiência matemática, que aflore a busca do significado da matemática no mundo dos alunos. 14 Veja o livro organizado por Eunice Pontes A metáfora. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990. Coloco aqui a palavra espiritual não no sentido religioso, mas como busca permanente de sentido para a vida, aproximando da idéia de transcendência que, juntamente com a sobrevivência constituem a essência do ser (verbo) humano defendido por Ubiratan D`Ambrosio ( ver D´ Ambrosio, U. Educação Matemática: da teoria à prática. Campinas. SP: Papirus, 1996. p. 17-28). 15 Anais do VIII ENEM - Palestra 10 O trabalho de sala de aula deverá abordar alguns aspectos da Modelagem Matemática que se enquadram no tipo16 em que aluno e professor fazem juntos: a formulação do problema, os dados, a simplificação e a resolução do problema evidentemente respeitando o papel de cada um deles no processo. No entanto o tema que vai gerar o problema é escolhido pelo professor. A escolha do tema pelo professor, não confundir o tema com as situações advindas do tema, esta deverá emergir do aluno, é exatamente para direcionar os trabalhos com uma intencionalidade: mudar as relações humanas, sociais e ambientais que temos hoje. Neste sentido os temas a serem trabalhados com os alunos deverão ser, preferencialmente, relacionados a sustentabilidade e qualidade da vida, relacionados com as condições humanas, sociais e ambientais. Nesse sentido, a Modelagem Matemática se aproxima no que Moacir Gadotti chama de ecopedagogia ou pedagogia da terra17. Uma pedagogia baseada nos princípios da ecologia social integral a qual se refere à qualidade de vida. A Matemática neste sentido faria o papel de levantar questionamentos de cunho quantitativo, de comparação, de previsão de futuro e, principalmente, de tomada de consciência da realidade do meio. Talvez, por isso, algumas pessoas achem que a Modelagem Matemática é algo mais que uma metodologia, ela propicia, através das abordagens dos temas, transitar por vários caminhos, mesmo aqueles que não são ligados à educação escolar, como é o caso da educação sustentável que vai além dos muros escolares e busca não somente uma relação saudável com o meio ambiente, mas um sentido mais profundo do que fazemos com a nossa existência no cotidiano fora da escola. A Modelagem Matemática vista sob este prisma nos possibilita transitar pelos chamados temas transversais apresentados no último PCN. Lá podemos discutir questões não só de ordem matemática, mas situações da realidade que nos permite identificar saberes de ordem ética, moral, de gênero e tantos outros, que no currículo tradicional acabamos por apresentar somente a matemática por ela mesma. Quando apresentamos um tema aos alunos em que sua discussão se pautará pela sustentabilidade da vida, necessariamente, passaremos por temas que nos permitirão 16 O trabalho de Jonei citado na nota 4 apresenta três “tipos” de como a MM tem sido apresentada na literatura. 17 Gadotti, M. Pedagogia da terra. São Paulo: Petrópolis, 2000. Anais do VIII ENEM - Palestra 11 incorporar novas idéias, passando da interdisciplinaridade para a transdisciplinaridade18, ou como nos coloca Gadotti “para uma etapa não apenas de interação entre as disciplinas, mas de superação das fronteiras entre as ciências, sem opor uma a outra”. Colocado dessa forma, aparece um elemento – pedagogia de projetos - que nos leva a identificar certos pressupostos que se diferenciam da chamada instrução sistemática ou comumente chamada de forma tradicional de ensino, calcada na filosofia tecnocrática. A Modelagem Matemática neste contexto, teoricamente, foge da perspectiva tecnocrata em quase todos os seus aspectos desde os objetivos, esferas de influência, visão de mundo, orientação curricular, métodos de avaliação, dentre outros, mas na prática não conseguimos e nem deveríamos fugir totalmente dela. Por outro lado, integra-se na filosofia progressista defendida, principalmente, por Dewey, e sua perspectiva de solução de problemas e, mais tarde, adaptada por Kilpatrick para o método de projeto de ensino/aprendizagem e sua abordagem investigativa19, formando assim o embasamento metodológico da filosofa progressista que se instaurou, principalmente, na América do Norte, no começo do século XX. O que queremos é algo mais, incorporar as dimensões do conteúdo matemático nas escolas, mas também dar voz aos alunos no sentido de fazer com que eles se apoderem do sentido em que a matemática faz às suas vidas. Para isso é preciso transcender a idéia de que a matemática é somente uma disciplina escolar, mas que está fortemente enraizada no seu cotidiano e na sua vida. Se aceitarmos os fatos de que a Modelagem Matemática aplicada à educação matemática apresenta tais características estaremos mudando completamente o paradigma educacional estabelecidos na maioria das nossas escolas e, com uma pontinha de esperança, de que dias melhores virão. 18 Para uma introdução à transdisciplinaridade, ver Pierre Weil, Ubiratan D´ Ambrósio e Roberto Crema: Rumo à nova transdisciplinaridade. São Paulo, Summus, 1993. 19 Ver Cardozo, D. T.M. A Pedagogia de Projetos aplicada ao ensino profissionalizante. 2004. Dissertação de Mestrado. Universidade de Uberaba.