PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DE SÃO JOSÉ CENTRO UNIVERSITÁRIO MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ - USJ CURSO DE GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA ALINE DINIZ WARKEN ANÁLISES SOBRE MEIO AMBIENTE E SEXUALIDADE SOB VIÉS TRANSDISCIPLINAR NA FORMAÇÃO DE EDUCADORES SÃO JOSÉ 2013 1 PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DE SÃO JOSÉ CENTRO UNIVERSITÁRIO MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ - USJ CURSO DE GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA ALINE DINIZ WARKEN ANÁLISES SOBRE MEIO AMBIENTE E SEXUALIDADE SOB VIÉS TRANSDISCIPLINAR NA FORMAÇÃO DE EDUCADORES Trabalho elaborado para a disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso (TCCII) do Curso de Graduação em Pedagogia do Centro Universitário Municipal de São José – USJ. Orientadora: Prof. Dra. Izabel Cristina Feijó de Andrade São José 2013 2 ALINE DINIZ WARKEN ANÁLISES SOBRE MEIO AMBIENTE E SEXUALIDADE SOB VIÉS TRANSDISCIPLINAR NA FORMAÇÃO DE EDUCADORES Trabalho de Conclusão de Curso elaborado como requisito final para a aprovação no Curso de Graduação em Pedagogia do Centro Universitário Municipal de São José – USJ avaliado pela seguinte banca examinadora: ____________________________________ Profª. Dra. Izabel Cristina Feijó de Andrade Orientadora ___________________________________________ Membro Examinador – Ma. Beatriz Casses Zoucas ______________________________________________ Membro Examinador – Ma. Wanderléa Pereira Damásio Maurício São José, 26 de junho de 2013 3 Dedico este Trabalho aos meus pais, Carlos e Bere, e a minha irmã, Dani. Meus amores incondicionais e eternos. 4 AGRADECIMENTOS Vejo este Trabalho de Conclusão de Curso como um processo, no qual nunca estive sozinha. Neste estão minhas crenças, sentimentos e percepções de toda uma vida. Pude unir e fazer o encontro entre a Aline da infância que queria ser professora ―das coisas da Natureza‖, a adolescente que se interessava pelas questões da Sexualidade, a Técnica em Meio Ambiente, a Pedagoga, e a pessoa que crê na Educação e que tudo está interligado neste Universo, pois compartilho do sentimento de Paulo Freire: “Eu gostaria de ser lembrado como alguém que amou o mundo, as pessoas, os bichos, as árvores, a terra, a água, a vida.‖ Agradeço a minha base, meu apoio, meus pilares: meu pai Carlos (in memoriam), minha mãe Berenice e minha irmã Daniele que, sempre presentes, doam seu amor incondicional por meio de olhares, conversas, gestos de carinho e energias positivas. Aos meus amores caninos: Fido (maninho) e Nala (filhota), que também foram companheiros nas noites de escrita deste Trabalho. Agradeço aos meus familiares pelos momentos de carinhosas conversas e de encorajamento para seguir em frente, acreditando no meu potencial: avós, tios e primos, em especial a tia Rozana Barcellos. Agradeço aos meus amigos e colegas que me engradeceram com troca de ideias e experiências, por meio de inúmeros diálogos e filosofias, em especial aos que sabem que, se eu não abordasse esta temática no TCC, não seria a ―Line‖ que eles conhecem, em especial: Jeanne Silveira, Bethise Adão, Ana Carolina Schmitz e Franscine Rubi. Agradeço a minha orientadora Izabel, que me mostrou os caminhos, que esteve ao meu lado me iluminando com ideias, pensando no melhor de mim e para mim como sua aprendiz. Agradeço aos mestres, que nas suas práticas diárias me inspiraram para ser um pouquinho como eles quando ―eu crescer‖, em especial: Beatriz Zoucas, Agnes Sanfelici, Jaqueline Zarbatto, Vera Lúcio, Rosângela da Silva, Marluci Ferreira, Keila Gonzalez, Roberta Buehring e Wanderléa Maurício. Agradeço aos graduandos em Pedagogia e as crianças e professoras do Colégio Alternativo Talismã, que deram suas visões, relatos e trouxeram discussões riquíssimas para a pesquisa deste TCC. 5 “Acreditar em algo e não vivê-lo é ser desonesto.” Gandhi 6 RESUMO Este Trabalho de Conclusão do Curso de Pedagogia tem como objetivo maior demonstrar por meio de uma pesquisa, utilizando a metodologia ecossistêmica, que os temas orientados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), Meio Ambiente e Sexualidade, podem e devem ser trabalhados, ensinados e aprendidos sob o viés da Transdisciplinaridade. Embasado pela crença que tudo está interligado, fazendo relações diversas com a realidade local e global, pensando assim na sobrevivência da Vida no Planeta e da sobrevivência do Ser Humano. Neste sentido, a formação de educadores é um indicador para a prática pedagógica significativa e para mudanças no cenário escolar, pois possibilita reflexões e discussões sobre diversos temas que, agregados às experiências de vida e visões de mundo, fazem a diferença no processo ensino-aprendizagem, atrelados a uma teoria discutida, embasada e encharcada de sentidos, crenças e sonhos. Foram realizadas pesquisas por meio de oficinas com graduandos em Pedagogia e com um grupo de crianças e educadoras de um Colégio transdisciplinar, em que seus depoimentos, expressões corporais, escritas e desenhos relacionados às temáticas Meio Ambiente e Sexualidade revelaram tabus e inseguranças, demonstrando a urgência e a importância do diálogo e discussão dia a dia na sociedade atual, bem como na educação escolar. Palavras-chave: Transdisciplinaridade. Meio Ambiente. Sexualidade. Formação do Educador. 7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.................................................................................................. 9 1.1 PROBLEMATIZAÇÃO.................................................................................... 9 1.2 QUESTÃO NORTEADORA........................................................................... 10 1.3 OBJETIVOS................................................................................................... 11 1.3.1. Objetivo Geral........................................................................................... 11 1.3.2. Objetivos Específicos............................................................................... 11 1.4 JUSTIFICATIVA............................................................................................. 12 1.5 PRESSUPOSTOS.......................................................................................... 13 2 METODOLOGIA E COLETA DE DADOS........................................................ 14 3 REFERENCIAL TEÓRICO............................................................................... 17 3.1 ENTENDENDO O VIÉS TRANSDISCIPLINAR: HISTÓRICO E CONCEITOS........................................................................................................ 17 3.2 PENSANDO A EDUCAÇÃO SIGNIFICATIVA: PARA E COM OS EDUCANDOS, NO E COM O MUNDO................................................................ 20 3.3 PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS E SEUS TEMAS TRANSVERSAIS.................................................................................................. 23 3.4 MEIO AMBIENTE NA ESCOLA: HISTÓRICO E OUTRAS QUESTÕES....... 25 3.5 SEXUALIDADE NA ESCOLA: HISTÓRICO E OUTRAS QUESTÕES.......... 32 3.6 INTERLIGANDO AS TEMÁTICAS MEIO AMBIENTE E SEXUALIDADE...... 36 3.7 A FORMAÇÃO DE EDUCADORES PENSANDO OS TEMAS MEIO AMBIENTE E SEXUALIDADE............................................................................. 40 4 ANÁLISE DE DADOS OBTIDOS..................................................................... 43 4.1 ANÁLISE DA OFICINA 1................................................................................ 46 4.2 ANÁLISE DA OFICINA 2................................................................................ 51 4.3 ANÁLISE DA OFICINA 3................................................................................ 52 4.4 ANÁLISE DA OFICINA 4................................................................................ 55 4.5 ANÁLISE DA OFICINA 5................................................................................ 57 8 4.6 RELAÇÃO ENTRE AS OFICINAS................................................................. 60 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................. 62 REFERÊNCIAS..................................................................................................... 66 APÊNDICE............................................................................................................ 71 APÊNDICE 1......................................................................................................... 72 APÊNDICE 2......................................................................................................... 76 APÊNDICE 3......................................................................................................... 77 ANEXO............................................................................................................ 78 ANEXO 1............................................................................................................ 79 9 1 INTRODUÇÃO Meio Ambiente e Sexualidade são temas transversais previstos nos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997). Esses temas atuais são polêmicos, desafiadores e sujeitos a subjetividades, na compreensão e na forma de repassá-los aos educandos. Na maioria das vezes, são propagados pelos educadores por meio daquilo que aprenderam em suas vivências com o Meio Ambiente e a preservação da vida, e com a visão de Sexualidade e reprodução da espécie. O que se percebe é que suas crenças e experiências pessoais são repassadas ao educando de forma fragmentada, limitada, com receios e fragilidades, não cumprindo papéis fundamentais como a discussão dos valores de cidadania e sujeito integral. Essa atitude frágil não agrega às potencialidades dessas discussões e ao desenvolvimento das múltiplas formas de expressão dos educandos. Neste contexto e em pleno século XXI se faz necessária a interconexão entre os saberes que, durante três séculos, foram fragmentados e excludentes, ao mesmo tempo em que proporcionaram um avanço tecnológico que vislumbrou a sociedade. Mas, agora, após a Era do Conhecimento, temos a Era Planetária de religação e da interconexão entre os saberes. Diante disso, é preciso abandonar as ―jaulas epistemológicas‖ (MATURANA, 1999 apud MORAES; LA TORRE, 2005) e ir ao encontro da inteireza do ser. Nesse sentido, propomos um diálogo interconectado entre o Meio Ambiente e a Sexualidade. Ressaltando que em determinados momentos deste Trabalho de Conclusão de Curso serão utilizados verbos na primeira pessoa. A pessoalidade se faz necessária para demonstrar as experiências e momentos vividos, bem como por se tratar de uma abordagem nova, não possuindo referências bibliográficas desta interligação entre Meio Ambiente e Sexualidade. 1.1 PROBLEMATIZAÇÃO A sociedade em crise coloca em risco a sua vida, seja na dimensão ambiental ou sexual, porque não está atenta às inúmeras relações existentes entre essas duas 10 dimensões (ambiental – sobrevivência do planeta – macro sobrevivência; e sexual – sobrevivência da espécie humana – micro sobrevivência). E, nesse contexto, percebe-se a falta de responsabilidade das políticas públicas que continuam a negar as evidências de uma catástrofe eminente da vida humana e planetária. Ao mesmo tempo, reflete-se sobre a falta de responsabilidade social da humanidade sobre a qualidade presente e futura do ambiente e da própria vida humana, enfim sobre o futuro do planeta e das gerações. Essa reflexão nos conduz a uma emergente forma de se encontrar uma saída dessa crise, de consolidar outro modelo de desenvolvimento sustentável com valores éticos integrais, ao mesmo tempo em que assumimos a constituição desse Trabalho de Conclusão de Curso sabendo de antemão que o solo é frágil e que as certezas que edificaram a fundamentação teórica dessa pesquisa não são absolutas, mas a interpretação de uma realidade, vivenciada durante o processo da formulação deste Trabalho e nas minhas experiências como Educadora. 1.2 QUESTÃO NORTEADORA A Figura 1 expressa a tríplice que é considerada fundamental neste Trabalho de Conclusão de Curso para que as temáticas Sexualidade e Meio Ambiente sejam discutidas e agregadas ao desenvolvimento pleno do educando: por meio da formação de educadores. Figura 1: Tríplice permeada pela Transdisciplinaridade Fonte: Elaborada pela autora 11 Diante disso, questiona-se: É possível discutir Meio Ambiente e Sexualidade sob o viés da Transdisciplinaridade, aplicada à formação dos educadores? Para tanto, serão abordados na fundamentação teórica deste trabalho os três eixos (Meio Ambiente / Sexualidade / Transdisciplinaridade), inicialmente separadamente. Depois, os embasamentos serão feitos articulando-se conexões e diálogos epistemológicos possíveis e viáveis sobre os temas. 1.3 OBJETIVOS 1.3.1 Objetivo Geral Apresentar uma abordagem integral da vida a partir das discussões sobre Meio Ambiente e Sexualidade no viés transdisciplinar. 1.3.2 Objetivos Específicos Reconhecer junto ao grupo de graduandos e graduados em Pedagogia suas principais inseguranças e expectativas sobre Meio Ambiente e Sexualidade na sua formação; Identificar junto a graduandos e graduados em Pedagogia e com o grupo de crianças as possíveis articulações entre Meio Ambiente e Sexualidade; Observar o processo de ensino-aprendizagem e o reconhecimento da interligação dos temas Meio Ambiente e Sexualidade com o grupo de educadoras e educandos; Analisar sobre a inserção dos temas Meio Ambiente e Sexualidade no currículo de formação dos educadores. 12 1.4 JUSTIFICATIVA Atualmente, aborda-se a temática Meio Ambiente, simplesmente sendo repassada como o montar de uma horta ou separação dos resíduos sólidos. E a Sexualidade é limitada ao se falar apenas sobre partes íntimas do corpo e métodos anticonceptivos. Acredito na Transdisciplinaridade, no poder do sujeito como criador de sua educação (e não somente como sujeitado a ela); de compartilhar seus interesses, vontades e ideias; de poder abordar na escola temas relacionados à Espiritualidade, História, Biologia, Sexualidade, Matemática, Comportamento, Mídias e Educação Ambiental. Por que não incluir tudo e transcender? Esta abordagem está presente na Carta da Terra quando enfatiza a responsabilidade universal do ser humano: Para realizar estas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade terrestre bem como com nossa comunidade local. Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual a dimensão local e global estão ligadas. Cada um compartilha da responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos. (BOFF, 2004, p.2 – grifo nosso). O ato de não transcender representa uma sociedade que ainda se vê ameaçada por problemas socioambientais que estão sendo amplamente debatidos nos movimentos sociais e nas conferências nacionais e internacionais, que discutem e avaliam a sustentabilidade do planeta. Verifica-se uma crise nestes últimos 30 anos; ideias e debates não foram traduzidos em ações e políticas que fossem efetivas para resolver os problemas socioambientais que envolvem o Meio Ambiente e a Sexualidade. Desde sempre, quando falo dos meus interesses sobre Meio Ambiente e Sexualidade, de uni-los, sou muito criticada, pois dizem que um tema não tem interligação com o outro e que eu não conseguiria ver relação e dar um sentido e significado à Educação que creio. Este Trabalho de Conclusão de Curso é um diferencial à Pedagogia e um desafio para mim, de dar sentido a tudo que acredito, de fazer a diferença, de querer mudar e deixar minha marca na Educação. 13 1.5 PRESSUPOSTOS Considero fundamental a tríplice Sexualidade, Meio Ambiente e Transdisciplinaridade para que os temas transversais sejam discutidos e agregados ao desenvolvimento pleno do educando. De acordo com minhas vivências no curso Técnico em Meio Ambiente, nas graduações em Pedagogia e em Ciências Biológicas Licenciatura, e nas experiências da atuação como Educadora, acredito que é por meio da formação de educadores, permeada pela Transdisciplinaridade, que a educação significativa, agregadora e completa acontecerá. Penso que o educador com suas experiências de vida, em suas aulas tornase um propagador do que já vivenciou e acredita. Sendo assim, temas polêmicos com necessidade atual de serem discutidos precisam de atenção. É por meio da formação do educador, sob o viés transdisciplinar, que se agregarão conhecimentos e formas diferenciadas para trabalhar com os educandos. 14 2 METODOLOGIA E COLETA DE DADOS Reconhece-se o comodismo e as amarras ao trabalhar com metodologias baseadas em pensamentos positivistas. Seria me contradizer se escolhesse qualquer outra metodologia que não fosse a abordagem ecossistêmica, optando por entrevistas com questões pontuais que me levassem a questionar o que eu gostaria de ouvir, induzindo este Trabalho ao erro e a um falso sucesso. Este Trabalho de Conclusão de Curso sai do conforto de temas banais, não temendo a complexidade da pesquisa e não acreditando em limitações ou visões compartimentadas. Vê-se o método ecossistêmico como um caminho em espiral, como uma travessia geradora de conhecimento que permite ao sujeito apreciá-lo como aprendiz (MORIN apud MORAES; LA TORRE, 2006). Compreende-se a metodologia de desenvolvimento ecossistêmico como um processo em construção, em que se retomam em diversos momentos os objetivos, as estratégias, as pesquisas e as avaliações. É uma metodologia aberta, dinâmica, adaptável, com processos sujeitos às mudanças e ao inesperado, requerendo desta maneira a pluralidade e diversidade de instrumentos para, da melhor forma, compreender o processo e seus resultados, já que ―somos seres inacabados em processo constante de vir a ser‖ (MORAES; LA TORRE, 2006, p. 157). A perspectiva ecossistêmica possui como princípios epistemológicos essenciais: a intersubjetividade, a interatividade, a complexidade, a mudança, o caráter autopoético, a incerteza e a multidimensionalidade (MORAES; LA TORRE, 2006). Sobre pesquisar em educação à luz da perspectiva ecossistêmica, Morin explica: Pesquisar em Educação, sob a perspectiva ecossistêmica, significa assumir princípios e pressupostos teóricos importantes e significativos, tais como: complexidade, subjetividade, intersubjetividade, incerteza, interatividade, mudança, auto-organização, emergência, inter e transdisciplinaridade, causalidade circular, multidimensionalidade. (...) Tais princípios, com suas implicações ontológicas, epistemológicas e metodológicas, nos levam a conceber a metodologia de pesquisa como estratégia de ação, como caminho que se vai construindo ao mesmo tempo em que se constroem o conhecimento. (MORIN et al, 2003 apud MORAES; LA TORRE, 2006, p.150 – grifo nosso). 15 A metodologia do desenvolvimento ecossistêmico compreende que o observador, o objeto observado e o processo de observação constituem uma totalidade. Com base nisso, a coleta de dados aconteceu com graduandos do curso de Pedagogia do Centro Universitário Municipal de São José - USJ e com educadoras e educandos, do 4º e 5º ano, do Colégio Alternativo Talismã por meio de três oficinas, realizando as análises de cada oficina, bem as relações e distinções entre as mesmas. Na primeira oficina dialogou-se sobre a formação de educadores; na segunda oficina pensou-se na aplicação das temáticas Meio Ambiente e Sexualidade globalizadas em uma aula; e em uma terceira oficina observou-se a interação na aplicação das temáticas entre educadores e educandos, bem como o processo de ensino-aprendizagem destes temas. Em um primeiro momento foi questionado: ―eu me sinto preparado para abordar os temas Meio Ambiente e Sexualidade em minhas aulas?‖. A partir do retorno do diálogo foram realizadas mais duas oficinas planejando e preparando materiais, conteúdos e atividades para oficina-aula, levando em conta a realidade dos educandos e a metodologia do educador. Aplicando as oficinas em um Colégio que tem como filosofia a Transdisciplinaridade, observou-se como a questão norteadora deste trabalho poderia ser respondida: ―É possível discutir Meio Ambiente e Sexualidade, sob o viés da Transdisciplinaridade, aplicada à formação dos educadores?‖ Moraes; La Torre (2006) conceituam este processo de totalidade da pesquisa e todas as interações: O observar, o aprender e o conhecer são fenômenos biológicos, que se confundem com a própria dinâmica da vida e, neste sentido, o sujeito cognoscente participa com toda a sua inteireza, com todas as suas emoções, sentimentos, intuições e afetos. Participa também com suas histórias de vida, sem separar o fato da fantasia e o passado do presente e do futuro. Todo conhecimento gerado na pesquisa depende sempre da relação sujeito-objeto, condição inaceitável para o paradigma tradicional, que concebia o sujeito separado do objeto do conhecimento. Assim, todo pesquisador está implicado no seu projeto de pesquisa. Consciente ou não, ele está estruturalmente acoplado em termos de energia, matéria e informação, o que certamente tem inúmeros outros desdobramentos importantes. (MORAES; LA TORRE, 2006, p.147). Sendo assim, a metodologia escolhida valoriza a riqueza dos processos vivenciados na pesquisa, compreendendo os fenômenos da vida e da educação de forma dinâmica e multidimensional; o diálogo e troca entre sujeito e objeto do conhecimento implicando a coconstrução, coprodução e cocriação do conhecimento 16 científico já que ―é preciso ir mais além do que está na superfície, procurar ver o objeto ou o sujeito inserido no seu contexto histórico, afetivo e sócio-cultural, buscando compreender a totalidade dos processos envolvidos‖ (MORAES; LA TORRE, 2006, p.152). Abordando a importância da Transdisciplinaridade (um dos temas que permeia a discussão deste trabalho) na pesquisa, Moraes; La Torre (2006) ressaltam que: Como seres multidimensionais, co-existem, dentro de cada um de nós, os pensamentos racional, empírico, técnico, intuitivo, bem como, os pensamentos simbólicos, míticos e mágicos desde a nossa pré-história. E todos esses pensamentos são influenciados pelas emoções e pelos sentimentos que circulam em nossa corporeidade, influenciando a qualidade de nossas ações e reflexões. A inter e a transdisciplinaridade são, hoje, dois pressupostos epistemológicos importantes presentes nos fundamentos do conhecimento a partir de uma dinâmica complexa. É a atitude do pesquisador diante do objeto do conhecimento que pode ser considerada como sendo o ponto de partida para que a inter e a transdisciplinaridade se apresentem no processo de investigação. É a atitude daquele que pensa, que raciocina e pesquisa que permite a emergência de um conhecimento inter e transdisciplinar na pesquisa, além, logicamente, da existência de um objeto, de disciplinas, de um problema ou de uma pergunta qualquer. (MORAES; LA TORRE, 2006, p.160). O pensamento ecossistêmico contempla as diversas dimensões do ser, pesquisa e conhecimento, sendo sua metodologia uma estratégia de ação ecologizada que ocorre nas interações entre sujeito e meio e entre sujeito e objeto do conhecimento (MORAES; LA TORRE, 2006). 17 3 REFERENCIAL TEÓRICO 3.1 ENTENDENDO O VIÉS TRANSDISCIPLINAR: HISTÓRICO E CONCEITOS A interdisciplinaridade foi idealizada pela premência de responder à fragmentação gerada pela epistemologia de cunho positivista. As ciências tinham sido divididas em diversas disciplinas, então por meio da interdisciplinaridade desejava-se restabelecê-las por meio de um ―diálogo‖ (INSTITUTO PAULO FREIRE, 2012). Segundo o Programa de Formação Continuada do Instituto Paulo Freire (2012), o conceito de interdisciplinaridade surgiu em 1912, com a fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, por Edward Claparède, mestre de Piaget. Discutiu-se a relação entre as ciências-mãe e as ciências aplicadas à educação, e novos conceitos e visões foram surgindo como intradisciplinaridade, pluridisciplinaridade e interdisciplinaridade. A intradisciplinaridade foi conceituada como a relação interna entre a disciplina "mãe" e a disciplina "aplicada". Já a pluridisciplinaridade foi denominada como uma superposição de disciplinas. Na interdisciplinaridade uma ciência complementa a outra. Piaget acreditava que a interdisciplinaridade seria uma forma de se chegar à transdisciplinaridade, ―método‖ este que não vê fronteiras entre as disciplinas, vai-se além delas (INSTITUTO PAULO FREIRE, 2012). A interdisciplinaridade passou de uma fase filosófica e explicitação terminológica, na década de 70, para uma fase de discussão do seu lugar nas ciências humanas e na educação, na década de 80. A interdisciplinaridade visa garantir a construção de um conhecimento globalizante e seu trabalho implica: integração de conteúdos; concepção unitária do conhecimento; integração de estudo e pesquisa; e pensar na ligação ensino-aprendizagem em todas as etapas da vida humana. A ação pedagógica interdisciplinar deve pensar na formação do sujeito social por meio de uma escola participativa, que valoriza as experiências do ser e trabalha de forma coletiva, seguindo o modelo construtivista que compreende o conhecimento como fruto da interação entre sujeito e meio (INSTITUTO PAULO FREIRE, 2012). 18 A transversalidade, assim como a transdisciplinaridade, é um princípio inovador para a educação significativa nos sistemas de ensino de vários países. Analisando o histórico desse princípio de ensino global, chega-se ao início do século passado com as visões pedagógicas de Decroly (centros de interesse), Freinet e Paulo Freire (temas geradores), Dewey (cidadão e ser humano integral), Kilpatrick (projetos) e Blonsky e Krupskaya (temas globalizados) (INSTITUTO PAULO FREIRE, 2012). Segundo o Programa de Formação Continuada do Instituto Paulo Freire (2012), a primeira experiência educacional com uma visão interdisciplinar foi realizada durante a gestão de Paulo Freire na Secretaria de Educação de São Paulo, sendo o projeto implantado com o auxílio de professores da Universidade de São Paulo. A intenção foi capacitar o professor para trabalhar nessa nova metodologia de ensino por meio do trabalho coletivo e do princípio de que as diversas ciências contribuem para o estudo de temáticas que orientam todo o trabalho escolar. Toda área do conhecimento possui sua especificidade, porém superando a fragmentação dos saberes, buscou-se compreender a relação entre a ―totalização em construção‖ e a colaboração integrada de especialistas que contribuíram para análise de um tema gerador determinado pelo estudo da realidade, antes da construção curricular. Dizer que o conhecimento está relacionado somente à razão é um mito. Nos dias de hoje, é impossível deixar de lado que o sentir o mundo que nos cerca também faz parte do conhecimento humano. Atualmente, a educação ainda está marcada por visões tradicionalistas que não contemplam o ser em sua plenitude, desejando uniformizar e formatar os educandos. Essas perspectivas estão enfraquecendo perante a humanidade que anseia por outros paradigmas para conviver, ver, ter, ser e agir. A transdisciplinaridade contempla estas questões, pois fundamenta a valorização de uma consciência social, ecológica, planetária e espiritual, própria da antropologia globalizante (PERES et al, 2007). O termo ‗transdisciplinaridade‘ surgiu em 1970, onde se acredita que Piaget, em um congresso sobre interdisciplinaridade, teria dito que podemos suceder as relações interdisciplinares a uma etapa superior ‗transdisciplinar‘, que encontraria ligações entre pesquisas no interior de um sistema total, sem fronteira estável entre as disciplinas. (PERES et al, 2007). 19 Andrade (apud PERES et AL, 2007, p.14) explica o significado de Transdisciplinaridade: ―o sufixo trans significa aquilo que está ao mesmo tempo entre, através e além de todas as disciplinas, remetendo à ideia de transcendência”, é uma arte, pois estimula o ser humano em sua essência, na sua capacidade de atuar, viver, ser e ter, articulando o conhecimento histórico acumulado ao potencial do homem moderno, idealizador de ações individuais e coletivas, globais e locais, enfim trabalha-se com o ser humano por inteiro. Logo, ―o retalhamento das disciplinas torna impossível apreender o que é tecido junto, isto é, o complexo‖ (MORIN, 2001, p.13-14 apud PERES et al, 2007, p.13). Já ―a Transdisciplinaridade engloba e transcende o que passa por todas as disciplinas, reconhecendo o desconhecido e o inesgotável que estão presentes em todas elas, buscando encontrar seus pontos de intersecção e um vetor comum‖ (PERES et al, 2007, p.58). A Transdisciplinaridade pensa na formação do ser integral e seus diferentes níveis: corporal (desejos corporais e cinco sentidos), psíquico (emoções e pensamentos), anímico (sentimentos, intuição e formas imaginais) e espiritual (amor e compaixão) (PERES et al 2007). Segundo Sommermann (2003, p.143 apud PERES et al, 2007, p. 25), a formação do sujeito é constituída da heteroformação (com os outros) e da ecoformação (com o Meio Ambiente), sendo que a autoformação caberia aos pais que deveriam remeter a criança do ser do seu ser, a partir de um certo momento da constituição da sua identidade, onde o sujeito tenderia a se abrir, sem exclusão dos dois polos, à autoformação e à ontoformação. Assim, para mudança na prática educacional é fundamental que o educando se aproprie de meios que o situem no mundo em que vive e nas relações que estabelece, tendo o poder de criticar e participar de sua transformação. 20 3.2 PENSANDO A EDUCAÇÃO SIGNIFICATIVA: PARA E COM OS EDUCANDOS, NO E COM O MUNDO Soares (2003) defende que educar é um processo dirigido a objetivos, um processo de transformação das pessoas. Já Peres (et al, 2007, p. 30) complementa tal ideia, pensando na Transdisciplinaridade, sinalizando que ―ensinar o diálogo entre e além das diversas ciências é a maior experiência interior que um sujeito pode vivenciar‖. Maturana (2002, p.13 apud BARCELOS, 2008, p.63) ainda nos faz refletir que ―a tarefa da educação escolar é permitir e facilitar o crescimento das crianças como seres humanos que respeitam a si próprios e os outros com consciência social e ecológica, de modo que possam atuar com responsabilidade e liberdade na comunidade a que pertencem‖ e, nesta relação ecológica no e com o mundo, é fundamental um viés pedagógico que valorize a cooperação, a amorosidade e o viver junto, não instigando a competição e a falta de respeito à diversidade. Smole (2002) avalia que quando os educadores se reúnem para discutir a educação há um consenso de que a educação básica deveria visar fundamentalmente à preparação para o exercício da cidadania, cabendo então à escola formar o educando em conhecimentos, habilidades, valores, atitudes, formas de pensar e atuar na sociedade por meio de uma aprendizagem que seja significativa. Os conteúdos escolares deveriam servir para desenvolver novas formas de compreender e interpretar a realidade, questionar, discordar, propor soluções, formar um leitor reflexivo do mundo que o rodeia. O educando deve ser sujeito e construtor de sua educação por meio de novas relações, da interação em grupo e de novos significados para expressar suas múltiplas inteligências: corporais, pictóricas, espaciais, musicais, inter e intrapessoais, linguísticas, lógico-matemática. Bocchetti (2010) instiga a uma reflexão de que para formar o cidadão autônomo e crítico deve-se repensar o espaço da sala de aula, que vai além de mudar a disposição de carteiras, e sim elaborar um espaço intelectualmente ativo já que, notoriamente com o processo de educação tradicionalista (ainda em ―vigor‖), há a produção de pessoas passivas e desinteressadas na arte de pensar. Desta forma, devem-se ter bem dispostos os objetivos do ensino, as formas de abordagem do 21 educando pelo educador, a relação com o saber e o papel do educador na dinâmica da sala de aula. Estamos na Era da Informação, porém de nada adianta ter múltiplas informações se não sabermos como usá-las, deve-se transformá-las em conhecimento rico para a educação significativa, aprendizados e criticidade. As aulas não podem mais ter um caráter de depositar informações gerando um sujeito que só aprende porque decorou fórmulas, regras e fatos históricos (BOCCHETTI, 2010). O educando deve ter contato com a realidade; precisa ser instigado a refletir, a problematizar, a investigar, a dialogar, a debater, a compartilhar. Sendo assim, o educador não deve ser um facilitador ou detentor de todo o conhecimento, mas sim um mediador que também está no processo de troca de conhecimentos e experiências, estando no ambiente sala de aula para problematizar, investigar, fazer refletir sobre perguntas e respostas, instigando as potencialidades individuais e a produção do saber em grupo (BOCCHETTI, 2010). Segundo a Carta aos Professores dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998a): O papel fundamental da educação no desenvolvimento das pessoas e das sociedades amplia-se ainda mais no despertar do novo milênio e aponta para a necessidade de se construir uma escola voltada para a formação de cidadãos. Vivemos numa era marcada pela competição e pela excelência, em que progressos científicos e avanços tecnológicos definem exigências novas para os jovens que ingressarão no mundo do trabalho. Tal demanda impõe uma revisão dos currículos, que orientam o trabalho cotidianamente realizado pelos professores e especialistas em educação do nosso país. (BRASIL, 1998a, p.5 – grifo nosso). A geração atual tem novas ambições e desejos, sendo assim, deve-se pensar uma educação significativa que contemple tais interesses, desta sociedade globalizada que tem à disposição informações múltiplas, tecnologias avançadas e imensas possibilidades para constituição de um ser pleno em todos os seus âmbitos: espiritual, educacional, familiar, social, econômico, cultural. ―Educandos e educandas precisam é de uma educação que os faça sentirem-se integrados à sociedade e não a serviço dela‖ (BARCELOS, 2008, p.31). Faz-se necessária uma educação que seja transformadora do ser, que o faça refletir, compreender e criticar 22 o seu meio, traçando ações de mudanças de sua vida e agregando à relação com o outro. Na justificativa do documento dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998a) aponto o que considero essencial para o processo de desenvolvimento do ser pleno no espaço escolar: A escola não muda a sociedade, mas pode, partilhando esse projeto com segmentos sociais que assumem os princípios democráticos, articulando-se a eles, constituir-se não apenas como espaço de reprodução, mas também como espaço de transformação. (...) A eleição de conteúdos, por exemplo, ao incluir questões que possibilitem a compreensão e a crítica da realidade, ao invés de tratá-los como dados abstratos a serem aprendidos apenas para ―passar de ano‖, oferece aos alunos a oportunidade de se apropriarem deles como instrumentos para refletir e mudar sua própria vida. Esse não é um processo simples: não existem receitas ou modelos prefixados. Trata-se de um fazer conjunto, um fazer-se na cumplicidade entre aprender e ensinar, orientado por um desejo de superação e transformação. (BRASIL, 1998a, p. 23 e 24 – grifo nosso). Barcelos (2008) cita a visão de Paulo Freire como uma das mais significativas para a formação do cidadão crítico e atuante na sociedade por meio da sua leitura de mundo, em um ato de ―viver junto‖. A palavra ―criança‖ pode ser pensada como ―educando‖, não alterando o significado e importância da citação e sim complementando a ideia: É esse viver em comunidade que faz da criança um ser integrante e construtor de mundos. Algo como aquilo que para Freire (1997:20) foi uma verdadeira causa de vida. Para esse educador as pessoas são mais que meros seres no mundo. Há que entender que somos uma presença particular no mundo, numa relação muito especial de pertencimento. Uma presença que, ao reconhecer o outro, ―como um „não-eu‟ se reconhece como „si própria‟. Presença que pensa a si mesma, que se sabe presença, que intervém, que transforma, que fala do que faz, mas também que sonha‖. Assim sendo, o processo de aprendizagem será tão intenso quanto mais interativa e ecológica for esta relação no e com o mundo. (BARCELOS, 2008, p.32 – grifo nosso). Assim, para uma prática educacional significativa para e com os educandos, no e com o mundo, necessita-se que as alternativas metodológicas estejam pautadas no envolvimento afetivo, lúdico, amoroso de todos os envolvidos na educação escolar. Ao envolver-se, comprometer-se, engajar-se no/com o processo de ensino-aprendizagem, criam-se raízes positivas, ações de mudança, práticas ricas que vão, então, nos representar no mundo, expressando nosso papel perante a sociedade e na construção dos seres planetários (BARCELOS, 2008). 23 3.3 PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS E SEUS TEMAS TRANSVERSAIS Mattos (2006) nos explica sobre a criação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e sua importância ao tratar a transversalidade, focando na questão da Educação Ambiental que retrata no seu artigo: (...) os PCNs se pautaram na Lei Nacional de Diretrizes e Bases nº 9.394/96, que, em seu art. 22, assegura o acesso à educação e propõe princípios pedagógicos e metodológicos a serem observados pelas instituições de ensino da rede pública, o que possibilitou a inclusão da temática ambiental e a conquista de trabalhar a Educação Ambiental de forma articulada às diversas áreas e não como uma disciplina. No que concerne aos objetivos fundamentais à temática ambiental, os PCNs foram elaborados para que o aluno, ao concluir o ensino fundamental, seja capaz de ―perceber-se integralmente do meio ambiente e agente transformador do mesmo, podendo contribuir para sua melhoria.‖ (MATTOS, 2006, p.3). Os Parâmetros Curriculares Nacionais, elaborados há dezesseis anos, com a intenção de ser uma referência de renovação e reelaboração da proposta curricular, possuem como temas transversais: Ética, Meio Ambiente, Saúde, Pluralidade Cultural e Orientação Sexual. Estes temas são fundamentais e devem ser trabalhados de forma globalizada por meio da transversalidade, visto as características e realidades da sociedade atual. Os temas transversais expressam valores e conhecimentos essenciais para vivência em grupo e desenvolvimento pleno do ser (HAMZE, 2010). A criação dos Parâmetros Curriculares Nacionais foi idealizada para contemplar as diversas áreas do conhecimento, para a formação do cidadão e desenvolvimento do ser sujeito e construtor de sua educação, respeitando e conhecendo a pluralidade cultural: Os Parâmetros Curriculares Nacionais foram elaborados procurando, de um lado, respeitar diversidades regionais, culturais, políticas existentes no país e, de outro, considerar a necessidade de construir referências nacionais comuns ao processo educativo em todas as regiões brasileiras. Com isso, pretende-se criar condições, nas escolas, que permitam aos nossos jovens ter acesso ao conjunto de conhecimentos socialmente elaborados e reconhecidos como necessários ao exercício da cidadania. (BRASIL, 1998a, p.5). 24 Os Parâmetros Curriculares Nacionais abordam a importância de trabalhar com os temas transversais reconhecendo primeiramente a realidade local, escola e moradia do educando, gerando assim um interesse e curiosidade, para depois ingressar no processo compreendendo a realidade global, motivando ações e comportamentos como cidadão crítico e ético (HAMZE, 2010). É por meio do tema transversal Meio Ambiente que o educando compreenderá as relações que condicionam a vida, se posicionará de forma crítica frente às questões polêmicas ao entender o mundo que nos cerca, agirá de forma a proteger o Meio e buscará qualidade de vida, afinal, é conhecendo e conscientizando-se que atitudes em prol o Meio Ambiente acontecerão por meio de atos locais diários com proporções globais (HAMZE, 2010; BRASIL, 1998b). A saúde é um direito de todo cidadão e é por meio da temática Orientação Sexual que o educando vai aprender a conhecer seu corpo, identificar riscos a este, adotará hábitos de autocuidado, respeitará a diversidade dos comportamentos sexuais e expressará seus sentimentos e vontades (HAMZE, 2010; BRASIL, 1998c). Sendo assim, nota-se a necessidade e relevância de trabalhar com os temas transversais de forma transdisciplinar na atual sociedade globalizada, que precisa de cidadãos éticos, engajados, conscientes, protetores do seu Meio Ambiente, íntegros e inteiros (não vê-lo como fragmentado e limitado) e conhecedores de si próprio e de sua Sexualidade, trabalhando de forma coletiva (educando, classe, educador, pais) com assuntos do cotidiano e realidade do grupo (HAMZE, 2010). Como bem sinaliza Amélia Hamze (2010, online, grifo nosso) sobre a importância de trabalhar com temas transversais: estes ―envolvem um aprender sobre a realidade, na realidade e da realidade, preocupando-se também em interferir na realidade para transformála‖. Por meio de um exemplo prático, o documento dos Parâmetros Curriculares Nacionais detalha a relação dos assuntos por meio dos temas transversais nas disciplinas escolares: As áreas convencionais devem acolher as questões dos Temas Transversais de forma que seus conteúdos as explicitem e que seus objetivos sejam contemplados. Por exemplo, a área de Ciências Naturais inclui a comparação entre os principais órgãos e funções do aparelho reprodutor masculino e feminino, relacionando seu amadurecimento às mudanças no corpo e no comportamento de meninos e meninas durante a puberdade e respeitando as diferenças individuais. Dessa forma, o estudo do corpo humano não se restringe à dimensão biológica, 25 mas coloca esse conhecimento a serviço da compreensão da diferença de gênero (conteúdo de Orientação Sexual) e do respeito à diferença (conteúdo de Ética). Assim, não se trata de que os professores das diferentes áreas devam ―parar‖ sua programação para trabalhar os temas, mas sim de que explicitem as relações entre ambos e as incluam como conteúdos de sua área, articulando a finalidade do estudo escolar com as questões sociais, possibilitando aos alunos o uso dos conhecimentos escolares em sua vida extraescolar. Não se trata, portanto, de trabalhá-los paralelamente, mas de trazer para os conteúdos e para a metodologia da área a perspectiva dos temas. (BRASIL, 1998a, p.27 – grifo nosso). Desta forma, os Parâmetros Curriculares Nacionais propõem que os temas transversais sejam trabalhados em todas as disciplinas, de maneira unificadora e agregadora, pensando na integração do aprendizado e de o educando sentir/observar significados no trabalho e no seu processo educacional. Para isso, então, deve-se ter o diálogo entre os educadores das distintas áreas do saber pensando juntos as aulas e atividades a ministrar, criando uma nova realidade contempladora do ensino como transformação social e não blocos rígidos de conhecimento, engessados em temáticas descontextualizadas (HAMZE, 2010). 3.4 MEIO AMBIENTE NA ESCOLA: HISTÓRICO E OUTRAS QUESTÕES Há inúmeros conceitos sobre ―o que é Meio Ambiente‖, porém, dentre os teóricos pesquisados, o que abrange uma visão planetária é o conceito de Neves e Tostes (1992): Meio Ambiente é tudo o que tem a ver com a vida de um ser ou de um grupo de seres vivos. Tudo o que tem a ver com a vida, sua manutenção e reprodução. Nesta definição estão: os elementos físicos (a terra, o ar, a água), o clima, os elementos vivos (as plantas, os animais, os homens), elementos culturais (os hábitos, os costumes, o saber, a história de cada grupo, de cada comunidade) e a maneira como estes elementos são tratados pela sociedade. Ou seja, como as atividades humanas interferem com estes elementos. Compõem também o meio ambiente as interações destes elementos entre si, e entre eles e as atividades humanas. Assim entendido, o meio ambiente não diz respeito apenas ao meio natural, mas também às vilas, cidades, todo o ambiente construído pelo homem. (Neves e Tostes, 1992, p. 17 apud ABRAMA, 2012, página virtual1 - grifo nosso). 1 ABRAMA (Associação Brasileira de Desenvolvimento Social de Cidadania e Proteção ao Meio Ambiente). Conceito disponível em: http://abrama.org.br/index.php/educacao-ambiental.html 26 Assim, entende-se que a temática Meio Ambiente não se limita as questões ambientais físicas e biológicas, pois abrange também as relações sociais, econômicas e culturais. A Lei Brasileira da Política Nacional de Educação Ambiental, nº 9.795/99, entende por Educação Ambiental, em seu primeiro artigo, que ―os processos dos quais o sujeito e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade‖. Vendo a Educação Ambiental como essencial e de carácter permanente na educação deste país, compreende que em todos os níveis e modalidades (educação básica que compreende Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio; Educação Superior; Educação Especial; Educação Profissional e Educação de Jovens e Adultos) a Educação Ambiental deve estar presente contemplando o pluralismo de ideias e sob a perceptiva da inter, multi e Transdisciplinaridade. O artigo 8º da Lei em questão, inciso 3, pontua as alternativas de estudos e pesquisas: ―(...) o desenvolvimento de instrumentos e metodologias, visando à incorporação da dimensão ambiental, de forma interdisciplinar, nos diferentes níveis e modalidades de ensino; busca de alternativas curriculares e metodológicas de capacitação na área ambiental‖. (DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO, 1999). Para corroborar com tal destaque do artigo e para enfocar a linha de pesquisa deste Trabalho de Conclusão de Curso, vale citar que: Art. 11. A dimensão ambiental deve constar dos currículos de formação de professores, em todos os níveis e em todas as disciplinas. Parágrafo único. Os professores em atividade devem receber formação complementar em suas áreas de atuação, com o propósito de atender adequadamente ao cumprimento dos princípios e objetivos da Política Nacional de Educação Ambiental. (DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO, 1999, grifo nosso). É válido ressaltar que a Constituição Federal refere-se ao Meio Ambiente como um direito de todo cidadão brasileiro: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as 27 presentes e futuras gerações. (Constituição da República Federativa do Brasil, 1988. Capítulo VI – Do Meio Ambiente, Art. 2252). Barcelos (2008) reflete sobre a importância da Educação Ambiental onde se pode interligar este direito, de um Meio Ambiente equilibrado do cidadão brasileiro: Inventar maneiras, criar possibilidades para vivermos todos juntos em paz, é uma das vontades que movem o movimento ecologista desde suas origens no final da década de 50 e início de 60 do século passado. A educação ambiental tem seu surgimento na esteira desse movimento político e social tendo, portanto, assumido também sua parcela de responsabilidade pela edificação de um mundo social e ecologicamente mais justo. (BARCELOS, 2008, p.20). Barcelos (2008) faz uma análise do histórico da Educação Ambiental e alguns rótulos que esta recebeu, como o fato da questão ambiental ser discutida nas aulas de Ciências, Biologia ou Geografia, com educadores ―especializados‖. O surgimento da discussão sobre Meio Ambiente no Brasil começa no início da década de 70. Na política vivia-se um regime decorrente do Golpe Militar de 1964; na economia estava-se no auge do famigerado milagre econômico, sustentado por financiamentos externos. Os problemas ecológicos agudizam com a urbanização desordenada e acelerada que tem forte relação com a implementação da agricultura brasileira, da monocultura e da criação de gado; também a industrialização acelera a degradação do Meio Ambiente com a poluição e devastação de áreas, como a implantação das hidrelétricas e produção da cana-de-açúcar para geração do combustível álcool. Como nós, como civilização, chegamos a uma crise ambiental de tamanhas proporções e, em função da mesma, como faremos para viver juntos neste planeta? De que maneira o sistema educativo escolar poderá contribuir para entender e diminuir esta crise ambiental? Considerando-se que o repertório de conhecimentos e de saberes sobre as questões ambientais e a educação ambiental já é relativamente vasto, como então transformar estes princípios e pressupostos em atitudes? (BARCELOS, 2008, p.11). Assim, a importância da Educação Ambiental se dá quando o Homem destrói o meio em que vive, pensando no ter, no seu capitalismo desenfreado, e utilizando ao máximo a natureza não (re)pensando no amanhã. Os recursos estão escassos, as consequências ambientais ocorrendo com rapidez, e repensar a forma como se 2 Artigo da Constituição da República Federativa do Brasil, disponível em: http://www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_225_.shtm 28 utilizam tais recursos, gerando uma conscientização, é uma das soluções para o desenvolvimento sustentável. (BARCELOS, 2008). Desta forma, a Educação Ambiental Escolar se torna essencial para a formação do cidadão e do ser integral: O crescente interesse das escolas em incorporar o meio ambiente como tema interdisciplinar é uma conquista de vários segmentos da sociedade. A educação ambiental aparece como um espaço de reencantamento com o mundo, abrindo caminhos para a articulação de conhecimentos tradicionais com a ciência, para metodologias diferentes, para a participação cidadã em políticas públicas e para o desenvolvimento de novas competências. (INEP, 2004 apud SOUZA, 2010, p.30 – grifo nosso). Já há 36 anos, a Conferência de Tblisi (1977) afirmou que a Educação Ambiental não deveria ser constituída como uma nova disciplina, mas sim incluída nas matérias existentes, pensando a questão ambiental na escola sob o viés interdisciplinar, congregando os profissionais das diversas áreas do conhecimento para que, por meio dos conhecimentos específicos das disciplinas, construa-se uma perspectiva global sobre Meio Ambiente, traçando ações de mudança (MATTOS, 2006). Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), sobre o tema transversal Meio Ambiente, ressalta que: A vida cresceu e se desenvolveu na Terra como uma trama, uma grande rede de seres interligados, interdependentes. Essa rede entrelaça de modo intenso e envolve conjuntos de seres vivos e elementos físicos. Para cada ser vivo que habita o planeta existe um espaço ao seu redor com todos os outros elementos e seres vivos que com ele interagem, por meio de relações de troca de energia: esse conjunto de elementos, seres e relações constitui o seu meio ambiente. Explicado dessa forma, pode parecer que, ao se tratar de meio ambiente, se está falando somente de aspectos físicos e biológicos. Ao contrário, o ser humano faz parte do meio ambiente e as relações que são estabelecidas — relações sociais, econômicas e culturais — também fazem parte desse meio e, portanto, são objetos da área ambiental. Ao longo da história, o homem transformouse pela modificação do meio ambiente, criou cultura, estabeleceu relações econômicas, modos de comunicação com a natureza e com os outros. Mas é preciso refletir sobre como devem ser essas relações socioeconômicas e ambientais, para se tomar decisões adequadas a cada passo, na direção das metas desejadas por todos: o crescimento cultural, a qualidade de vida e o equilíbrio ambiental. (BRASIL, 1997, p. 27 – grifo nosso). O cenário que se avista da Educação Ambiental na escola é que esta virou sinônimo de aulas extraclasse, com visitas orientadas e palestras proferidas por técnicos, com a intenção de conscientizar. Na grande maioria das vezes, as saídas 29 acontecem em locais de preservação, onde a natureza é intocada pelo Homem. Porém, é necessário sair da sala de aula ou da escola para fazer Educação Ambiental? Em uma área verde se tem uma natureza mais autêntica? (FERREIRA, GUIMARÃES E SAMPAIO, 2010). No artigo ―Olhares para práticas de Educação Ambiental endereçadas as escolas‖, os autores questionam se todas as marcas do Homem sobre a natureza são negativas. Refletindo que todo ser humano faz parte da natureza e que quando se decreta um local como unidade de conservação de proteção integral, impedindo a presença humana, coloca-se a natureza como inatingível, porém não seria uma natureza intocada ou natural, e sim uma natureza produzida pela cultura, artificial, formada pelo Homem (FERREIRA, GUIMARÃES E SAMPAIO, 2010). Sendo assim, nem toda a marca do Homem sobre a natureza é negativa e há naturezas intocadas, naturais, criadas pela cultura, protegidas, limitadas ao alcance do Homem atual, logo se tem várias formas de olhar para a natureza (FERREIRA, GUIMARÃES E SAMPAIO, 2010). Ferreira, Guimarães e Sampaio (2010) explanam sobre o discurso ecológico atrelado e as dificuldades dos educadores em contemplarem nas suas aulas o proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais: Entre os objetivos da educação, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, está a compreensão, por parte dos sujeitos, do desenvolvimento científico-tecnológico dos processos de produção, a partir do tratamento de questões que, cotidianamente, são postas como problemas, ora associados ao meio ambiente, ora aos cuidados com a saúde. Pode-se reconhecer esse discurso ecológico, tanto nos documentos oficiais de ensino, como também nas falas de professores e especialistas, quando põem em destaque ações educativas que incluem os problemas causados pelo acúmulo de lixo, pela contaminação das águas ou pela poluição do ar. Isso, muitas vezes, leva os professores a encontrar dificuldade em contemplar essas questões, considerando apenas o espaço escolar como educativo, vendo-se impelidos a buscar outras instituições que possam lhes auxiliar na realização de sua prática docente. (FERREIRA, GUIMARÃES E SAMPAIO, 2010, p.15 – grifo nosso). Os autores também abordam a importância da Transdisciplinaridade e do trabalho em conjunto dos educadores de diversas áreas ao tratar-se de Meio Ambiente na escola: (...) não podemos mais imaginar que sejam apenas os professores ligados à área de Ciências que se interessam por desenvolver práticas relacionadas às questões sobre o meio ambiente. O discurso que sustenta a importância 30 de uma abordagem interdisciplinar e transdisciplinar à educação ambiental já está fortemente incorporado às políticas educacionais; tanto que encontramos professores de Português, Filosofia, Geografia, Artes, História, etc, desenvolvendo atividades que tratam a partir de pontos de vista específicos de cada área, das questões ambientais. (FERREIRA, GUIMARÃES E SAMPAIO, 2010, p.19). Nesse sentido, encontra-se alguns educadores de diversas áreas do conhecimento conseguindo fazer relação de seus temas de aula com a questão ambiental. Porém, ainda é uma das maiores dificuldades e dúvidas dos educadores relacionar Educação Ambiental à prática docente, por considerar mais fácil e didático trabalhar Educação Ambiental em visitas a locais considerados preservados (FERREIRA, GUIMARÃES E SAMPAIO, 2010). Contextualizando a Educação Ambiental Escolar e seu histórico, Bueno e Oliveira (2009) concluem em seu artigo que: Tendo em vista o histórico que se pode realizar da EA a partir da década de 1960, verificou-se uma tendência em se entender a degradação ambiental e consequente problemática, não mais como natural, mas consequência da relação homem-natureza. A partir desta percepção, encontros, organizações e pesquisadores passaram a buscar meios para amenizar ou mesmo equacionar o rumo que esta relação havia tomado. Como instrumento frente à degradação ambiental propôs-se a educação, mais especificamente a educação ambiental, a qual tem por objetivo frear e mesmo retroceder o quadro ambiental instalado, tendo em vista uma sociedade sustentável, tanto ambientalmente como socialmente, ou seja, não visando apenas “salvar” na natureza, mas visionando uma melhora na qualidade de vida em nível social, político, econômico. (BUENO e OLIVEIRA, 2009, p.10 – grifo nosso). Segundo Bueno e Oliveira (2009), a Escola foi ao encontro do que estava sendo debatido na sociedade atual, com a implementação da Lei de Diretrizes e Bases, Lei nº 9.394 de 1996 e da Lei da Política Nacional de Educação Ambiental, nº 9.795/99. Houve então uma sistematização da questão ambiental para a sala de aula. Corroborando com tais leis, os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) abordam a educação ambiental e a sustentabilidade, que passam a fazer parte das discussões na comunidade escolar. Desta maneira, faz-se necessário, na sociedade atual, pensar o trabalho metodológico e pedagógico para abordar Meio Ambiente na escola de forma significativa e agregadora ao educando. Assim,Barcelos (2008) relata que: 31 O trabalho pedagógico e metodológico como as questões ambientais precisa estar atento para os aspectos subjetivos, éticos, estéticos. Enfim, culturais que envolvem os problemas ecológicos locais/globais. Com isso quero dizer que a educação ambiental como uma temática emergente está a exigir um novo processo de abordagem. Senão de todo novo, no mínimo teremos que adaptar os antigos. Aqueles que até então nos acostumamos a usar. Aqueles que nos foram familiares e, por isto, confiáveis. Para que isso ocorra é necessário que estejamos atentos para a permanente busca de familiarização daquilo que nos é estranho e não como nos portamos até agora: repelindo aquilo que não nos é familiar. Aquilo que não dominamos e/ou não conseguimos ―enquadrar‖ em nosso ―método de abordagem‖, em nossa ―metodologia de pesquisa científica‖. (BARCELOS, 2008, p.38). Barcelos (2008) também aborda a importância do ―viver juntos‖ e reflete sobre as novas metodologias para a Educação Ambiental (EA) escolar contribuir para o cidadão integral: Ao pensarmos na contribuição da educação ambiental, para a edificação de um mundo social e ecologicamente mais justo, nada mais oportuno e urgente que aceitarmos o desafio de inventar novas metodologias que nos auxiliem a edificar espaços de convivência a partir da solidariedade, da cooperação, da tolerância e do amor, não só como os demais seres humanos mas, sim, com todas as demais formas de vida existentes no planeta-terra. Ou por que não dizer no universo? (BARCELOS, 2008, p.20 e 21). Abordar o tema Meio Ambiente na escola é fundamental, pois para pensar a macro sobrevivência e a micro sobrevivência, o educando deve ser instigado a refletir e praticar ações locais com proporções globais para a sustentabilidade do Planeta. A sustentabilidade é um compromisso que deve ser assumido pelas gerações atuais para proteção dos recursos às gerações futuras, pois, agindo assim, pratica-se a solidariedade, reduzindo a indiferença humana que é a causa maior da degradação da Natureza e da violência nas comunidades. Pensar este ―viver em conjunto‖, usufruindo da Natureza, conhecendo-a e preservando-a, com o sentimento e ação de cooperação (co-operar-ação) para um mundo mais justo, pacífico e sustentável, resultará em indivíduos participantes, interessados, engajados e respeitadores (SILVA, 2008). 32 3.5 SEXUALIDADE NA ESCOLA: HISTÓRICO E OUTRAS QUESTÕES O termo ―Orientação Sexual‖ que dá título ao Tema Transversal dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998a) considero como inadequado atualmente, pois o termo ―Orientação Sexual‖ é discutido cientificamente e se refere a quem o sujeito é fisicamente e emocionalmente atraído, podendo definir-se como: homossexual, heterossexual, bissexual, assexual e pansexual. Atualmente, fala-se em heteroafetividade e homoafetividade3, pois o sufixo sexual refere-se unicamente a tal aspecto físico, já com o sufixo afetividade releva um caráter emocional à Orientação. Assim, neste Trabalho de Conclusão de Curso, será usado o termo ―Sexualidade‖, pois abrange o conceito de maneira ampla. Além disso, a descrição e conteúdo dos Parâmetros Curriculares Nacionais trata de Sexualidade, o que vai além da Orientação Sexual. Mesmo a palavra ―orientar‖, dando enfoque de ―guiar‖, ―aconselhar‖, ―encaminhar‖, não caberia para a Educação Sexual na escola e sociedade atual. Assim como a questão da conceituação de Meio Ambiente, a Sexualidade também recebe diversas interpretações e conceitos, sendo abrangida com uma visão totalitária pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998a): A sexualidade tem grande importância no desenvolvimento e na vida psíquica das pessoas, pois independentemente da potencialidade reprodutiva, relaciona-se com a busca do prazer, necessidade fundamental dos seres humanos. Nesse sentido, a sexualidade é entendida como algo inerente, que se manifesta desde o momento do nascimento até a morte, de formas diferentes a cada etapa do desenvolvimento. Além disso, sendo a sexualidade construída ao longo da vida, encontra-se necessariamente marcada pela história, cultura, ciência, assim como pelos afetos e sentimentos, expressando-se então com singularidade em cada sujeito. Indissociavelmente ligado a valores, o estudo da sexualidade reúne contribuições de diversas áreas, como Antropologia, História, Economia, Sociologia, Biologia, Medicina, Psicologia e outras mais. Se, por um lado, sexo é expressão biológica que define um conjunto de características anatômicas e funcionais (genitais e extragenitais), a sexualidade é, de forma bem mais ampla, expressão cultural. Cada sociedade cria conjuntos de regras que constituem parâmetros fundamentais para o comportamento sexual de cada indivíduo. (BRASIL, 1998a, p.81 – grifo nosso). 3 Artigo de ARAGUAIA na página virtual Brasil Escola. Disponível em: http://www.brasilescola.com/sexualidade/orientacao-sexual.htm 33 Diversos autores apontam que um dos direitos do cidadão é o direito sexual, já que a Sexualidade é uma parte integrante da personalidade de todo ser humano e é construída através da interação entre os indivíduos e as estruturas sociais, interferindo então no desenvolvimento individual, interpessoal e social do ser humano (BRASIL, 2006). Os direitos sexuais são direitos humanos universais baseados na liberdade inerente, dignidade e igualdade para todos os seres humanos. Saúde sexual é um direito fundamental, então saúde sexual deve ser um direito humano básico. Para assegurar que os seres humanos e a sociedade desenvolvam uma sexualidade saudável, os direitos sexuais devem ser reconhecidos, promovidos, respeitados, defendidos por todas as sociedades de todas as maneiras. Saúde sexual é o resultado de um ambiente que reconhece, respeita e exercita os direitos sexuais. (BRASIL, 2006, p.7). Estudos sinalizam o surgimento da temática Sexualidade nas escolas na metade do século XVIII na França, com o objetivo inicial de combater a masturbação, apoiados nas ideias de Rousseau que acreditava que a ignorância seria a melhor maneira de manter a inocência e pureza da criança. No século XIX, a Sexualidade nas escolas discutia sobre doenças venéreas, aborto clandestino e degenerescência das raças, assuntos preocupantes pela rápida ascensão e proliferação na época. Já no século XX, a intenção era orientar a juventude sobre a importância da reprodução da vida, relacionando instinto sexual e reprodução humana. É também neste período que se fala sobre aborto e métodos anticonceptivos (SANTOS, 2001). No Brasil, as discussões sobre Educação Sexual iniciaram em 1920, influenciadas pelas correntes médicas e higienistas francesas, pensando na preparação da mulher para o papel de esposa e mãe, com o discurso de alcançar a moral sadia e o direito à saúde pública, também visando à reprodução humana, combate a masturbação e doenças venéreas. Também em 1920, tentou-se a implantação da Educação Sexual escolar com o objetivo de proteger a infância e maternidade, idealizado pelo movimento feminista de Berta Lutz. Oito anos depois foi aprovado no Congresso Nacional de Educadores um programa de Educação Sexual escolar para crianças acima de 11 anos de idade (SANTOS, 2001). Em 1930, o Colégio Batista do Rio de Janeiro incluiu em seu currículo a Educação Sexual e o ensino da evolução das espécies, focando na análise do papel feminino na reprodução, sendo que cinco anos depois incluiu a análise do papel 34 masculino. De 1935 a 1950 não há registros de trabalhos ligados a Educação Sexual no Brasil (SANTOS, 2001). No Brasil, na década de 50, a educação era dominada pela Igreja Católica que repreendia a Educação Sexual. Já na década de 60, é marcada pela mudança política e Golpe Militar, sendo as tentativas de implementação de trabalhos envolvendo a Sexualidade na escola repreendidas por meio da exoneração de diretores, suspensão de educadores e expulsão de educandos (SANTOS, 2001). Em 1968, a deputada do Rio de Janeiro, Júlia Steimbruck, propôs a implementação obrigatória da Educação Sexual em todas as escolas brasileiras e em todos os níveis de ensino, por meio de um projeto de lei à Câmara dos Deputados. Dez anos depois, aconteceu em São Paulo o 1º Congresso Nacional sobre Educação Sexual nas escolas, reunindo 2000 mil educadores (SANTOS, 2001). A década de 80 é marcada pelas discussões nas mídias sobre Sexualidade, repercutindo no ambiente escolar, universidades e sociedade, devido a carência em debater sobre a temática. Marcando a década de 80 e 90, a Educação Sexual na escola se mostrou necessária em virtude do grande número de gravidez precoce entre adolescentes e o aparecimento da AIDS entre os jovens (SANTOS, 2001). Refletindo a formação de educadores atualmente, Santos (2001) sinaliza que: Dos anos 90 até os dias atuais, muitas discussões vêm sendo elaboradas com o objetivo de subsidiar os educadores a discutirem a sexualidade na escola. Contudo, as redes de ensino (pública e privada) ainda tropeçam na resolução do Conselho Nacional de Educação que lhes faculta a possibilidade de ministrar ―cursos‖ de Orientação Sexual aos alunos. O contexto atual expressa abertamente a necessidade da inclusão da Orientação Sexual na escola, onde esta seja abordada de forma clara e coesa. Resta nos saber se os professores estão preparados para atuar num campo tão complexo e cheio de questionamento. Afinal, os educadores de hoje, muitos foram os jovens de ontem que sofreram repressões sexuais e políticas e, que com certeza deixaram marcas profundas em seus modos de pensar, seus comportamentos, mitos e tabus. (SANTOS, 2001, p.19 – grifo nosso). Analisando este histórico da Sexualidade, Altmann (2001), baseada nos pensamentos do maior filósofo sobre Sexualidade, muito estudado no curso de Pedagogia, Foucalt, reflete sobre o papel e poder da Escola e do Estado sobre a Sexualidade dos indivíduos, lembrando que educar é um ato político: 35 Por que a sexualidade tornou-se um problema em franca expansão por todo o campo pedagógico, atravessando as fronteiras das diversas disciplinas? Por que o poder público busca constituir políticas para gerir esta questão? O que explica o fato de a sexualidade ter se constituído como importante foco de investimento político e excepcional instrumento de tecnologias de governo? A sexualidade é o que há de mais íntimo nos indivíduos e aquilo que os reúne globalmente como espécie humana. Está inserida entre as ―disciplinas do corpo‖ e participa da ―regulação das populações‖. A sexualidade é um ―negócio de Estado‖, tema de interesse público, pois a conduta sexual da população diz respeito à saúde pública, à natalidade, à vitalidade das descendências e da espécie, o que, por sua vez, está relacionado à produção de riquezas, à capacidade de trabalho, ao povoamento e à força de uma sociedade. (...) A sexualidade (...) suscita mecanismos heterogêneos de controle que se complementam, instituindo o indivíduo e a população como objetos de poder e saber. (ALTMANN, 2001, p.576). A educadora sexual Maria Helena Vilela (2013) faz uma colocação sobre os motivos pelos quais o tema Sexualidade é abordado nas escolas de forma frágil e distorcida: Quantas vezes não vemos nas salas de aula um caso de namoro que perturba a atenção dos alunos, beijos no pátio que deixam os inspetores encabulados, adolescentes que se masturbam na aula… Sem falar nos recorrentes casos de gravidez na adolescência? Todas essas situações são comuns às escolas, e como educadora sexual há mais de 20 anos atuando nas escolas públicas e particulares de São Paulo e outros estados, afirmo que não são novidades nas classes brasileiras. No entanto, as dúvidas sobre como agir diante destes casos ainda ficam sem respostas por medo, insegurança e, principalmente, a falta de convicção do professor sobre o que e como abordar essas temáticas na sala de aula com os alunos. Pensando nisso, em 1998, o eixo de Orientação Sexual foi inserido nos Novos Parâmetros Curriculares, mas não se tornou uma realidade até hoje por se tratar de um tema permeado por tabus e preconceitos, regido por valores culturais e de ordem pessoal, o qual a grande maioria dos professores, não adquiriu, durante sua graduação, o conhecimento e, muito menos, a naturalidade para conversar a respeito. Até bem pouco tempo, a nossa cultura judaico-cristã cultivava uma postura baseada na negação da sexualidade, com métodos educativos que induziam a vergonha, a culpa e a ignorância (VILELA, 2013, página virtual Nova Escola - grifo nisso). Na sociedade atual e com a necessidade de uma educação que forma o ser integral, novas visões de mundo relacionadas à Sexualidade aparecem no cenário educacional, dentre eles o termo ―queer‖ que, historicamente, era utilizado para humilhar indivíduos com orientação e identidade sexual vistos como fora dos padrões da sociedade. Hoje é um termo de respeito à diversidade, dando nome a Pedagogia e ao Currículo Queer, que são denominados como programas multiculturais onde as diferenças de gênero, sexuais ou étnicas são toleradas e 36 apreciadas como curiosidades exóticas, voltadas para o processo de produção das diferenças, trabalhando com a multiplicidade das identidades4. 3.6 INTERLIGANDO AS TEMÁTICAS MEIO AMBIENTE E SEXUALIDADE O documento do Rio+20 (CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, 2012) evidencia o que venho tratando neste Trabalho de Conclusão de Curso: tudo está interligado! Trata das diversas questões da vida humana para o desenvolvimento sustentável acontecer, trazendo vários âmbitos essenciais, do local para global, para a sua plena execução, como o social, econômico e ambiental, isso sim é abordar os temas Meio Ambiente e Sexualidade, compreender a rede que nos une a Vida, a ―Mãe Terra‖. No tópico 39 o documento aponta: Reconhecemos que o planeta Terra e seus ecossistemas são a nossa casa e que a expressão ―Mãe Terra‖ é comum em vários países e regiões e que alguns países reconhecem os direitos da natureza no contexto da promoção do desenvolvimento sustentável. Estamos convencidos de que, para alcançar o justo equilíbrio entre as necessidades econômicas, ambientais e sociais das gerações presentes e futuras, é necessário promover a harmonia com a natureza. (CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, 2012, p.9). Dentre as diversas pautas levantadas para o desenvolvimento sustentável ocorrer, para agregar a discussão deste Trabalho de Conclusão de Curso, está a total relevância da participação integral de todos os povos e o acesso à informação, gerando assim diálogo, conscientização e atitudes positivas de proteção ambiental por meio do intercâmbio de experiências e partilha de informações das distintas realidades. Realidade ambiental distinta essa a notar-se pelo nosso próprio País, com uma gama de diversidade biológica, cultural, etc. (CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, 2012) Focando no que o documento Rio+20 (CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, 2012) aborda sobre Educação, Meio Ambiente e Sexualidade, cito as questões: 4 Pedagogia Queer. Disponível em: http://pedagogiaqueer.blogspot.com.br/ 37 O acesso pleno e igualitário à educação de qualidade em todos os níveis como condição essencial para alcançar o desenvolvimento sustentável, erradicar a pobreza, concretizar a igualdade de gênero, o empoderamento das mulheres e o desenvolvimento humano (p.46); O reconhecimento das gerações mais jovens como guardiões do futuro, para tanto se faz necessário melhorar a qualidade e o acesso à educação para além do nível primário (p.46); Melhorar a formação de professores, o desenvolvimento dos currículos, dos programas escolares e dos programas de formação em torno da sustentabilidade (p.46); Utilizar com eficácia tecnologias de informação e comunicação para melhorar os resultados da aprendizagem (p.46); A questão da igualdade de gênero; da eliminação de todas as formas discriminatórias contra a Mulher; do acompanhamento de dados separados por sexo; o acesso igualitário à educação, serviços básicos, oportunidades econômicas e serviços de saúde, abordando a saúde sexual e reprodutiva das mulheres, assegurando o acesso a métodos seguros (p.47). Para o sucesso dos itens citados faz-se necessária a cooperação entre escolas, comunidades e autoridades, não medindo esforços para promover a Educação de qualidade em todos os níveis, visando o desenvolvimento sustentável. Completando a visão de que ―tudo está interligado‖, o item 234 sinaliza: Encorajamos fortemente as instituições de ensino a considerarem a adoção de boas práticas em gestão de sustentabilidade em seus campi e em suas comunidades, com a participação ativa dos alunos, professores e parceiros locais, e ensinando o desenvolvimento sustentável como um componente integrado a todas as disciplinas. (CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, 2012, p.47). Ferreira, Guimarães e Sampaio (2010, p. 26) apostam que um diferencial de se pensar Meio Ambiente na escola seria focar nos ―modos como os sujeitos foram constituindo-se historicamente na cultura, e modificando, instituindo modos diferentes de vida nas diversas territorialidades e agrupamentos humanos‖ e não somente no indivíduo, seus comportamentos e consciências. Compreender então as 38 formas ―como temos nos relacionado com as demais formas de vida, com os diferentes ambientes a que nos ligamos cotidianamente, talvez possa nos fazer atentos e criadores de outras possibilidades mais fraternas de vida.‖ (FERREIRA, GUIMARÃES E SAMPAIO, 2010, p.26). Assim, também se faz possível interligar a temática Sexualidade pensando nas relações humanas e suas construções históricas e culturais, refletindo para a construção do ser integral, pois somos seres com atitudes individuais, mas com origens sociais e culturais. (...) teremos de aceitar que a história da aventura humana neste planeta resulta daquilo que fazemos. Pois, não apenas fazemos a história. Somos ela própria. Uma história composta tanto pelos vivos quanto pelos mortos. Mais uma pergunta: Por acaso seríamos, também, responsáveis inclusive por aquilo que fizeram os nossos antepassados? De certa forma sim, somos. Pois deles descendemos e nós, por nosso lado, damos continuidade para suas criações. Tanto para as boas quanto para as más. (BARCELOS, 2008, p.17). Corroborando para esta formação do ser planetário e integral, Gadotti (2009) traz o conceito de Ecopedagogia, tratada inicialmente como uma pedagogia do desenvolvimento sustentável, visando o equilíbrio dinâmico entre ser humano e Natureza. Posteriormente, a Ecopedagogia foi traduzida como aquela que pensa a cidadania planetária que vai além da cidadania ambiental, sendo então aquela que promove a aprendizagem no ―sentido das coisas a partir da vida cotidiana‖, agregando depois ao conceito como ―biopedagogia, a pedagogia da vida‖. A Ecopedagogia pensa no modelo de sociedade sustentável por meio de uma perspectiva ecológica ―que implica uma mudança nas estruturas econômicas, sociais e culturais. Ela está ligada, portanto, a um projeto utópico: mudar as relações humanas, sociais e ambientais que temos hoje. (...) a Ecopedagogia parte de uma consciência planetária (gêneros, espécies, reinos, educação formal, informal e não-formal (...)‖ (GADOTTI, 2009, p.1, grifo nosso). A ecopedagogia é mais ampla: ela supera o antropocentrismo das pedagogias tradicionais e concebe o ser humano em sua diversidade e em relação com a complexidade da natureza. A Terra passa a ser considerada também como ser vivo, como Gaia. Por isso, seria melhor chamar a ecopedagogia de ―Pedagogia da Terra‖ (GADOTTI, 2001 apud GADOTTI, 2009,p.01). Para acontecer a educação da cidadania planetária, necessita-se rever nossos currículos nacionais, repensar nossa visão sobre educação e o papel do 39 sujeito que está inserido em uma comunidade local e global ao mesmo tempo, uma reflexão para a formação do sujeito que viaja do seu universo interior e no universo que o cerca (GADOTTI, 2009). A sobrevivência do planeta Terra, nossa morada, depende da consciência socioambiental e a formação da consciência depende da educação. A noção de cidadania planetária sustenta-se na visão unificadora do planeta e de uma sociedade mundial. Ela se manifesta em diferentes expressões: ―nossa comunidade comum‖, ―nosso futuro comum‖, ―nossa pátria comum‖. Cidadania planetária é uma expressão adotada para expressar um conjunto de princípios, valores, atitudes e comportamentos que demonstra uma nova percepção da Terra. Trata-se de um ponto de referência ético indissociável da civilização planetária. (...) Assim como nós, este planeta, como organismo vivo, tem uma história. Nossa história faz parte dele. Nós não estamos no mundo; nós somos parte dele. Não viemos ao mundo; viemos do mundo. Terra somos nós e tudo o que nela vive em harmonia dinâmica, compartilhando o mesmo espaço. Temos um destino comum. (GADOTTI, 2009, p.02) Para educarmos para a cidadania planetária deve-se entender que em nossa vida na Terra vivemos permanentes e complexas relações entre nós mesmos e outras formas de vida, deve-se perceber a Terra por meio da terra. Para romper com visões educacionais tradicionalistas que não repensam as problemáticas atuais precisa-se reeducar o sistema, pois ele faz parte do problema, mas ele é a também parte da solução para uma sociedade sustentável (GADOTTI, 2009). (...) por ser o homem produto da natureza biofísica e cósmica, essa mesma natureza que sempre se comportou de forma transdisciplinar, o homem traz na sua estrutura esse modo de se inserir e evoluir no ambiente peculiarmente constituído por essa conjuntura cósmica e planetária (SANTOS, 2005, p.1 apud PERES et al, 2007, p.11). Apresentando (mesmo que não intencionalmente) uma das interligações possíveis entre Sexualidade e Meio Ambiente, Barcelos (2008) traz em sua obra uma citação de Oiticica, inspirador do Movimento Tropicália na década de 60: ―o corpo como fonte renovável e sustentável de prazer, conceito maleável de extrema adaptabilidade aos lugares mais diferentes entre si. (...) o corpo é sua casa e sua casa seu corpo‖. Assim, o autor reflete que o espaço escolar deve ser um território de movimento, aberto a criação, a invenção, ao planejamento atento às experiências, conhecimentos e saberes do grupo de pessoas envolvidas no processo educativo. (BARCELOS, 2008, p.108) 40 Complementando as ideias dos teóricos citados, para a educação significativa acontecer, pensada sob o viés transdisciplinar, interligando temáticas como é a proposta deste Trabalho de Conclusão de Curso, complementa-se a ideia com os ―Os quatro pilares da educação‖ (1996), que são conceitos presentes no relatório para UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação no Século XXI que tem como embasamento: Aprender a conhecer (1), Aprender a fazer (2), Aprender a conviver (3) e Aprender a ser (4). Estes pilares compactuam com as ações de sustentabilidade, cooperação, solidariedade, autoconhecimento, conhecimento do Meio para protegê-lo e traçar atitudes positivas de mudança. Em suma, são eixos básicos para a construção de um novo ser, planetário, na sociedade atual, já que ―aprender a viver juntos se constitui, hoje, numa necessidade.‖ (BARCELOS, 2008, p.18). 3.7 A FORMAÇÃO DE EDUCADORES PENSANDO OS TEMAS MEIO AMBIENTE E SEXUALIDADE Mattos (2006) acredita que o distanciamento entre teoria e prática é uma das grandes problemáticas de se inserir a Educação Ambiental na escola. Um dos motivos seria a falta de disciplinas ligadas ao tema Meio Ambiente nas grades curriculares dos cursos de graduação, tanto nas universidades públicas como nas particulares. Pensando a formação de educadores e no papel da Educação Ambiental, Mattos (2006) analisa: Como agente educativo na formação de cidadãos responsáveis e ativos, pode, através da Educação Ambiental, resgatar valores essenciais como ética, fraternidade e respeito. Pode também se tornar um viés de mudanças de hábitos, comportamentos e atitudes, visando não apenas à proteção da vida, mas também à qualidade da vida. (MATTOS, 2006, p.4 – grifo nosso). Na grande maioria das vezes, temas relacionados ao Meio Ambiente não são abordados na escola pela falta de material pedagógico adequado, pela dificuldade conceitual e pela defasagem no currículo das instituições de Ensino Superior. Na 41 visão de Mattos (2006) deveria ser facultado às universidades o direito de optar e inserir, em cada curso, o ensino de disciplinas ligadas à Educação Ambiental. As disciplinas deveriam então contemplar as diversas áreas de atuação, pensando principalmente naqueles profissionais que atuam/atuarão nas Ciências Sociais, para tratarem o tema nas diferentes modalidades de ensino. Desta forma, se teria maior embasamento e interesse em interligar as diferentes disciplinas à Educação Ambiental, já que muitos educadores justificam que não abordam a questão ambiental em suas aulas por não se sentirem preparados, pela falta de tempo, pela inexistência de uma proposta curricular com temas transversais voltados à sua matéria específica ou até mesmo pelo seu desinteresse pelo tema Meio Ambiente, já que nunca discutiram e refletiram sobre tais questões na sua Educação Básica, Ensino Médio, e nem na graduação. Obviamente, que nem todos os educadores têm condições de cursar uma pósgraduação e se especializar na área de Educação Ambiental, logo cabe à universidade a formação destes educadores (MATTOS, 2008, p. 5). Já a Conferência de Tblisi (1977), traçava diretrizes para a formação de educadores: auxiliar os docentes dos centros de formação de professores na área de Educação Ambiental; facilitar aos futuros educadores uma formação ambiental apropriada à zonas urbanas ou rurais; e tomar medidas necessárias para que a formação em Educação Ambiental esteja ao alcance de todos os professores. Em geral, os educadores resistem ao abordarem qualquer assunto que não esteja diretamente ligado à sua formação básica, assim como a Educação Ambiental não está contemplada em seus currículos, isso vai, evidentemente, também ocorrer com esse tema transversal (MATTOS, 2008, p. 5 e 6). Aos professores são atribuídas as responsabilidades e as iniciativas com o sucesso nos projetos de Educação Ambiental, no qual o essencial seria um trabalho em conjunto com todo o corpo escolar, porém a Escola não se adequou para desenvolver projetos interdisciplinares previstos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, dependendo de um trabalho de capacitação e de treinamento dos educadores, visto que ―a escola implanta a interdisciplinaridade para cumprir a legislação em vigor (LDB/96) e a Educação Ambiental na escola está relacionada com uma prática baseada na repetição de conceitos ambientais.‖ (MATTOS, 2006, p.6) 42 Barcelos (2008), sobre a prática da Educação Ambiental escolar, analisa algumas inverdades que acabam gerando a falta de iniciativas às atividades diferenciadas e significativas que abordem Meio Ambiente para a construção do ser integral, são elas: Educação ambiental é coisa para educadores de Ciências, de Biologia ou de Geografia; é coisa prática para ser feita fora da sala de aula; pode substituir as diferentes disciplinas; é ―conscientização‖ das pessoas. Dentre as inverdades sobre Meio Ambiente pode-se comparar a questão da Sexualidade no ambiente escolar que também fica sob responsabilidade dos educadores de Ciências e Biologia, o seu conteúdo é expresso em laboratórios ou em palestras e a intenção do conteúdo é apenas para conscientizar as pessoas a se prevenirem contra doenças. Não vai ser só o ato de conhecer que dará a garantia que o sujeito irá se conscientizar e irá proteger o Meio Ambiente e sua Sexualidade, bem como respeitálos. Barcelos (2008) nos faz refletir isso dando como exemplos a consciência que os fumantes têm sobre os malefícios do uso do cigarro e mesmo assim fumam; e do motorista que, mesmo sabendo dos riscos em dirigir em alta velocidade, para si e para o outro, chega a 140km/hora em uma rodovia. (...) não basta estarmos cientes ou conscientes do que é ou não adequado fazer. Para além disto, é necessário construirmos espaços de convivência em valores tais como a solidariedade, a cooperação, a participação, a responsabilidade, o cuidado, o reconhecimento do outro como legítimo outro na sua diferença. Enfim, mais que ―ensinarmos‖ e/ou transmitirmos conhecimentos e técnicas há que criarmos espaços de exercício de atitudes que sejam mais coerentes com nossos princípios, fundamentos, teses, teorias ou pressupostos de mundo, bem como de formar de ser e de estar nesse mundo. (BARCELOS, 2008, p.54) . Assim, deve-se superar as visões tradicionalistas que compartimentam e fragmentam o saber com o viés interdisciplinar na educação e discutir as questões ambientais de maneira conjunta (todo o corpo discente, docente e dirigente da escola, bem como a família e a comunidade), já que uma das características básicas da Educação Ambiental significativa para a formação do sujeito integral é a participação. Deve-se ―preparar as pessoas informando-as, sensibilizando-as e conscientizando-as na busca da reflexão de um modo de vida mais equilibrado e saudável‖ (MATTOS, 2006). 43 4 ANÁLISE DOS DADOS OBTIDOS Este Trabalho de Conclusão de Curso, bem como as oficinas de pesquisa, foi elaborado pelas inquietações, reflexões e experiências desta graduanda em sala de aula no curso Técnico em Meio Ambiente, nos estágios curriculares da graduação em Pedagogia e como educadora no PDE+Educação, bem como nos diálogos com colegas e professores, nas aulas da graduação em Pedagogia e Ciências Biológicas Licenciatura. Sabe-se que o educador repassa aos educandos seu conhecimento, baseando-se na sua própria história de vida e experiências. Tal prática, por vezes fragmenta e limita os assuntos, sendo repassados com receios, ocultações ou até mentiras, pelo fato do docente não saber a forma adequada de tratar uma temática, por exemplo: ―Professora, de onde vêm os bebês?‖ Quantas educadoras não responderam a uma criança falando em cegonha, pé de alface ou sementinha? Assim, Barcelos (2008) pontua que as representações e concepções que os educadores têm sobre o que é Meio Ambiente e Educação Ambiental, acabam influenciando de forma decisiva nas práticas didáticas e metodológicas do seu trabalho no ambiente escolar. Para tal, sabemos que o mesmo acontece com Sexualidade e todas as outras temáticas. Por isso, se faz necessário refletir a formação desse educador, desde sua graduação até a continuidade após sua graduação em Licenciatura. Para compreender a importância de repensar a questão dos temas transversais, Meio Ambiente e Sexualidade, devemos fazer alguns questionamentos como: Por que Meio Ambiente é um tema abordado somente ou com foco nas aulas de Ciências no Ensino Fundamental? Por que Sexualidade continua sendo abordada somente no 8º ano (antiga 7ª série) e depois em raras aulas de Biologia no Ensino Médio? Por que, por diversas vezes, ainda ouvimos frases como ―Guardem o caderno de Geografia e peguem o de Ciências‖? Outro estranhamento da fragmentação das temáticas é aprender sobre corpo humano por partes: só o sistema urinário, depois o sistema reprodutor, seguido pelo digestivo. Ou ainda aprender sobre flora, fauna, água, rochas, e dentro destes temas terem mais e mais subdivisões. Como o educando fará a relação com o todo? Desde assimilar que uma dor de cabeça pode estar vinculada a um problema digestivo ou que não se pode jogar lixo no chão, pois poluirá as águas e intervirá negativamente na biota marinha. Sendo assim, deve-se refletir sobre novas metodologias e práticas 44 significativas para a formação do educando desta sociedade que clama por mudanças, como aponta Peres et al (2007): A organização curricular está baseada em disciplinas fragmentadas, compondo-se de conteúdos obrigatórios, muitas vezes, descontextualizados e até irrelevantes para a vida do aluno. Isto parece representar o esquartejamento do conhecimento em disciplinas que, muitas vezes, não se comunicam. Se, por um lado, como afirma Demo (2002), o aluno é um pesquisador perspicaz e compulsivo, por outro, a escola, na maioria das vezes, impede a expansão do conhecimento, privilegiando em excesso a disciplina, a ordem, a atenção subserviente e a imitação do comportamento adulto. Diante disto, questiona-se: como pensar em uma escola que ofereça espaço para a reconstrução do conhecimento? Como almejar o desenvolvimento da autonomia do aluno em um lugar onde ele não tem voz nem vez; onde seu currículo é desenhado sem considerar seus interesses e expectativas? (PERES et at, 2007, p.19 – grifo nosso). Uma das possibilidades exposta neste Trabalho é a Transdisciplinaridade, pois com a educação transdisciplinar perguntas como ―Para quê estudar Matemática? Para quê estudar Química?‖ não existirão, afinal a forma fragmentada que incomoda ou os assuntos sem relação que deixam as dúvidas, serão pensados de forma completa, agregadora e integral, desenvolvendo as múltiplas formas de expressão do educando. Pode-se citar a questão também fragmentada e limitada do tempo na escola, com aulas de 45 em 45 minutos. Tal sistema não condiz para a formação do educando, pois quando começa a compreender ou se interessar pela temática tem que mudar radicalmente de assunto. Outra inquietação observada no atual sistema educacional é como a responsabilidade de abordar as temáticas Sexualidade e Meio Ambiente é deixada ―mais para frente‖, no final do Ensino Fundamental ou no Ensino Médio. Afinal, ecoa na mente do educador: O quê falar? Como falar? Como lidar com as curiosidades e comentários dos educandos sobre esses temas polêmicos ou tabus? No curso de Pedagogia USJ, quando pensamos a prática em Educação Infantil, Séries Iniciais e Educação de Jovens e Adultos, ouvi relatos de educadores, pós-graduados, com anos de prática educacional, receosos em falar sobre Sexualidade com seus educandos. Deste modo, reafirmo a importância do diálogo e das reflexões de suas vivências na formação do educador, já que este será o mediador da construção do ser integral. Jacques Delors (UNESCO, 2003, p. 89), mostra em seus estudos os quatro pilares da educação: ―aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a 45 viver junto e aprender a ser‖. Esses pilares sugerem uma prática pedagógica transdisciplinar nas escolas por meio de vivência e conscientização da importância do ―viver junto‖, assim as temáticas ambientais e sexuais estariam interligadas a sobrevivência da humanidade no planeta. Outro ponto a ser discutido sobre a prática pedagógica é a questão da escolha de muitos educadores por saídas de campo para práticas de Educação Ambiental. Optar pela saída de campo pode ser perigoso se não há objetivos bem definidos e continuidade do trabalho, podendo ser sentido pelos educandos como um passeio. Jamais tal recurso deve ser escolhido pelo educador como uma estratégia para contemplar a aplicação do ―conteúdo‖ sobre Meio Ambiente exigido pela escola, bem como a ida a um laboratório ou palestra sobre Sexualidade sem posteriormente discutir e contextualizar o assunto com a realidade dos educandos. As atividades fora do ambiente sala de aula devem ser encharcadas de significados, citado pelo pedagogo francês Freinet (1896-1966) como ―aula passeio‖, com objetivos delimitados pensando na formação do cidadão integral, conforme citado por Valezi e Ito (2011): (...) a aula passeio proposta por Freinet apresenta-se como possibilidade de enriquecimento das atividades e ações pedagógicas. Sua metodologia permite que a criança alcance três objetivos principais: Autonomia – vivendo situações reais, assumindo novas responsabilidades e descobrindo capacidades; Pesquisa- ampliar o campo das investigações, chegando a descobertas inesperadas e interessantes e; Integração- privilegia o encontro com o outro (colega, monitor ou professor) em ambiente fora do cotidiano, incentivando o desenvolvimento do vínculo afetivo. (VALEZI e ITO, 2011, p.79). Mesmo com a disponibilidade dos Parâmetros Curriculares Nacionais e de diversos outros materiais de apoio, até hoje é comum observar a divisão das disciplinas e dos assuntos, bem como o enquadramento do que se pode falar em cada ano e semestre. Falta sair da teoria e ir para a prática, caminho este necessário por meio da formação diferenciada e no estudo continuado do profissional da Educação. Os Parâmetros Curriculares Nacionais foram criados com a intenção de subsidiar as reflexões sobre as práticas pedagógicas, pensando no cidadão integral, porém nota-se que ainda as delimitações dos temas de aulas ficam por conta do que o livro didático apresenta e/ou o que o Projeto Político-Pedagógico da Escola aborda como essencial para aplicar em cada ano escolar. Os temas 46 transversais não permeiam as disciplinas, sendo dialogados em projetos com estagiários ou em momentos específicos durante o semestre, de acordo com os conteúdos de cada ano escolar. 4.1 ANÁLISE DA OFICINA 1 A primeira oficina, realizada em 5 de abril de 2013, aconteceu com os graduandos em Pedagogia da 7ª e 8ª fases, com o apoio e a participação da professora de Docência em Ciências I e II do Curso de Pedagogia do USJ. Participaram 33 graduandos, sendo que dentre todos os presentes, somente um homem, característica esta histórica do curso de Pedagogia, que tem a forte presença das mulheres no seu corpo discente. Aponto este dado, pois ele foi importante em certas falas e expressões durante a oficina. Vale relatar que duas semanas antes desta oficina foi construída uma tabela para questionar o interesse dos graduandos em participar da oficina, bem como saber qual seria o melhor dia e horário para o grupo. De vinte pessoas presentes, somente duas mostraram interesse, escrevendo seu nome na tabela. Os colegas que não tinham sinalizado sua presença na tabela, mas participaram da oficina, comentaram que estavam com pré-conceitos sobre a discussão das temáticas, que não viam interligação, até então, sobre as mesmas, achando que se falaria somente de sustentabilidade ou como falar sobre sexo para crianças, questões estas que viram no curso de Pedagogia e vivenciam em suas práticas nos estágios curriculares ou como auxiliares de sala ou educadores de Educação Infantil e Séries Iniciais. Refletindo a importância da formação do educador nesta sociedade que clama por mudanças educacionais com práticas significativas para construção do ser integral, espera-se que os profissionais da educação consigam realizar: [...] uma práxis educativa e social que tem por definição a construção de valores, conceitos, habilidades e atitudes que possibilitem o entendimento da realidade de vida e a atuação lúcida e responsável dos atores sociais e coletivos no ambiente. Nesse sentido, contribui para a tentativa de implementação de um padrão civilizacional e societário distinto do vigente, pautado numa nova ética da relação sociedade-natureza (LOUREIRO, 2005, p. 69). 47 Seguindo o relato da coleta de dados da pesquisa, foi explicado para todos os participantes a linha de pesquisa deste Trabalho de Conclusão de Curso, justificando suas intenções e as suas relações com os Parâmetros Curriculares Nacionais. Para instigar o diálogo, bem como valorizar o conhecimento prévio dos graduandos, foi distribuída uma folha A4 onde por meio de tópicos, frases ou desenhos cada graduando expressou o que entendia por Meio Ambiente e por Sexualidade. A maioria das respostas (Apêndice 1) contemplaram que Meio Ambiente é a Natureza e Sexualidade são os gêneros masculino e feminino. Posteriormente, fez-se alguns questionamentos para estimular os relatos e reflexões: O que é abordado nas escolas sobre estas temáticas? Você se sente a vontade para falar sobre tais temáticas? Em sua graduação teve experiências e aulas sobre as temáticas? Você se sente preparado para abordar tais temáticas em sala de aula? Os graduandos relataram que, pelas suas experiências tanto em escolas públicas como particulares, o tema Meio Ambiente é abordado em atividades de reutilização de materiais recicláveis, montagem de horta e saídas de campo para conhecer projetos como o TAMAR. O tema Sexualidade é raramente abordado e os graduandos reconhecem que na maioria das vezes o tema é omitido, ―fazendo de conta‖ que não se vê ou dando pouca atenção a certas cenas dos seus educandos relacionados à Sexualidade pelos educadores não saberem como lidar com as situações e temer a visão da direção e pais. Algumas das situações citadas pelos graduandos foram falas ―inapropriadas‖ de seus ―pequenos‖ educandos sobre namoro e sexo, que acompanham pelas mídias e reações dos adultos, bem como apelidos aos colegas como ―bichinha‖ e ―boiola‖, além de crianças tocando-se uma nas outras, fazendo observações sobre suas partes íntimas. A visão totalitária de Sexualidade para composição do ser integral é exposta pelo documento ―Direitos Sexuais são Direitos Humanos‖ (2006) que aborda que o conhecimento e a compreensão da sexualidade devem envolver todas as suas dimensões: social, cultural, biológica e psicológica. Somos biofisiologicamente sexuados, pois somos totalizados pelos desejos, comportamentos hormonais e a figura corporal. Nossa sexualidade é muito mais que ato sexual. Somos reprodução e somos também prazer. Somos seres psicossocialmente sexuados. O que somos define a nossa sexualidade: se somos homens ou se somos mulheres, como chegamos a sê-lo, a nossa aprendizagem, as experiências, os valores, a história de 48 vida, as vivências, entre outros. A sexualidade, mais do que mera função biológica de reprodução, tem uma dimensão maior como fonte de prazer, de bem-estar psicofísico, de troca, de comunicação e de afeto. A sexualidade é também um comportamento social e está sujeita às normas, aos costumes, à moral e aos códigos definidos. As normas e valores que regem o exercício da sexualidade surgem num determinado contexto social, político e econômico e se desenvolvem historicamente como as questões de virgindade, relacionamentos sexuais, casamento, fecundidade, tabus, entre outros (BRASIL, 2006, p.11 e 12). Todos os graduandos relataram a dificuldade de falar sobre os temas Meio Ambiente e Sexualidade, pois não se sentem preparados para discutir em sala de aula temas tão polêmicos e atuais, possuindo várias dúvidas e tabus, revelando que em suas histórias de vida passaram por situações constrangedoras e traumatizantes, principalmente no que é relacionado à Sexualidade. Sobre uma das dificuldades de tratar questões ambientais, uma graduanda relatou: ―como vou ensinar como proteger o Meio Ambiente, falando em economizar água, separar o lixo, não usar sacola plástica, se eu não faço isso na minha casa? Preciso mudar minhas ações, eu sei, mas é muito difícil. E na escola não tem lixeiras para separação de lixo, as luzes ficam ligadas, escovamos os dentes das crianças com a torneira aberta. Trabalhar Meio Ambiente na Escola tem que ser uma ação de todos!‖. Os colegas relataram que na graduação em Pedagogia sobre Meio Ambiente sempre é discutida a questão da sustentabilidade aplicada à reutilização de materiais recicláveis, pensando materiais pedagógicos, e Sexualidade é abordada nos livros de Foucalt, História da Sexualidade, que foram lidos para disciplina Filosofia da Educação, porém com discussão mais filosófica. Os graduandos relataram que sentem a necessidade de dialogar sobre a realidade do dia a dia da escola, repensando também a sua história de vida, bem como desmistificando assuntos para diminuir certos preconceitos. Reconhecem que é por meio do diálogo e no compartilhamento de visões de mundo que a reflexão e as ações de mudança acontecem. Algumas falas que chamaram mais atenção foi o constante uso da palavra Homossexualismo, atualmente convencionado o seu não uso, já que o sufixo ismo está relacionado a doença. O diálogo de graduandas que são mães, mediado pela professora de Docência em Ciências, discutindo que nenhuma mãe quer ter um filho 49 homossexual. Uma delas comentou que impediu que a filha brincasse de carrinho ou jogasse futebol por medo que ela se ―tornasse gay‖. As falas dominantes sobre relatos do dia a dia da Escola foram sobre as questões de gênero, relacionadas a cores (azul é de menino e rosa é de menina), a brinquedos (carrinho é de menino e boneca é de menina) e a brincadeiras (meninas não devem jogar futebol porque são delicadas). Apresentando então questões sociais e culturais, que ainda hoje geram preconceitos, não sabendo por vezes este educador como agir diante dos comentários dos educandos. Muraro e Boff (2002) agregam ao entendimento trazendo toda uma abordagem explicativa que relaciona a questão de gênero e a humanidade, e sua essência com o contexto ontológico da Sexualidade, afirmando que: (...) pode faltar nem algo meramente histórico-social que, como foi um dia socialmente construído, pode ser desconstruído (...). Essa essência não é simples, mas complexa, por isso se dá a conhecer sob duas parições reais e distintas. Nelas se revela, também se vela, se trai e também se retrai sob aquilo que chamamos humanidade ou natureza humana concretizada em dois modos de ser, masculino e feminino. (MURARO e BOFF, 2002 , p. 70). E, refletimos: como se localiza esse masculino e feminino na natureza diante do Meio Ambiente? Diante destes relatos, instiguei o grupo para testá-los quanto aos preconceitos e tabus relacionados à Sexualidade: se o graduando R. (único representante do sexo masculino presente na oficina) estivesse auxiliando na higiene bucal dos educandos da Educação Infantil e uma menina o chamasse para fazer sua higiene íntima, qual deveria ser a atitude de R.? Fazer a menina aguardar por uma professora ou realizar a higiene da criança mesmo sabendo dos preconceitos enraizados entre professores e pais? A maioria do grupo relatou que acharia ―estranho‖ R. realizar a higiene da menina, pois com tantos relatos nas mídias sobre violência infantil pensa-se que os homens devem afastar-se de crianças do sexo feminino. Também questionei como acontece quando no Dia dos Pais e Dia das Mães na Escola quando uma criança que tenha duas mães ou dois pais (casais homoafetivos) e os graduandos relataram que nas escolas públicas acontece o Dia da Família, justamente pelas diferenciações ao longo dos anos na constituição familiar. Duas graduandas relataram que em suas turmas de Educação Infantil têm educandos com pais homoafetivos e que todas as crianças sabem e 50 agem naturalmente com a questão, não demonstrando nenhum estranhamento quanto à família ―diferenciada‖ dos amigos. Diante do exposto, refletimos sobre a importância da Educação Sexual Escolar através do documento ―Direitos Sexuais são Direitos Humanos‖ (2006): (...) propõe-se que a Educação Sexual oferecida pela escola aborde as repercussões das mensagens transmitidas pela família, pela mídia e pelas demais instituições da sociedade. Para tanto não estão sendo criadas novas disciplinas ou novas áreas de estudo, mas foram incluídos, nas áreas já existentes e no trabalho educativo da escola, temas amplos e indispensáveis para a convivência em sociedade e para a formação de cidadãos conscientes, que são os chamados ―Temas Transversais‖, instituídos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. (BRASIL, 2006, p.15). Por fim, o último questionamento desta oficina foi se os graduandos achavam possível interligar os temas Meio Ambiente e Sexualidade, fornecendo exemplos de aulas utilizando as temáticas interligadas (Apêndice 1). Os mesmos revelaram que a discussão foi agregadora no conhecimento e reflexão, pois todos os graduandos acharam possível interligar as temáticas com aulas sobre identidade, valores humanos, reprodução e higiene. A formação do educador no curso de graduação abordando de forma transdisciplinar os temas Meio Ambiente e Sexualidade se faz urgente, visto as fragilidades ao tratá-los na sala de aula. Sobre a formação do educador, o Programa dos Parâmetros em Ação Meio Ambiente na Escola (2001) sinaliza: O conhecimento profissional do professor deve ser construído fundamentalmente no curso de formação inicial, para ir se ampliando depois, à medida que ele participa de ações de formação em serviço. O conhecimento do mundo e as formas de se relacionar com o outro– que para todas as pessoas são situações formativas – assumem papel particularmente importante no repertório dos professores. É certo que a qualidade da formação dos professores não garante por si. (BRASIL, 2001, p.21). Ao final da oficina, vários colegas relataram que adoraram como os temas foram conduzidos pelo diálogo, valorizando conhecimento prévio e não expondo ninguém. Toda fala e relato de experiência foi espontâneo, refletindo a carência de discussões sobre as temáticas na graduação e em cursos de formação continuada. Tais relatos nos provocam a repensar sobre a Sexualidade e o Meio Ambiente, enquanto componentes de uma educação de valores, não só na Educação Fundamental, mas sua urgência no Ensino Superior por meio de discussões para 51 ações de mudanças em uma sociedade que tem sede de conhecimentos, não de meras informações, demonstrando que o compartilhar olhares e experiências constitui o ―viver juntos‖ e o ―aprender com as diferenças‖, agregando na construção do ser integral. Durante a oficina, a professora de Docência em Ciências, que também participava da coleta de dados, pôde investigar, ouvir e notar o interesse e a necessidade de incluir atividades em sua disciplina que contemplem as temáticas Meio Ambiente e Sexualidade. Também vale a pena ressaltar que o curso de Pedagogia USJ ofereceu, neste primeiro semestre de 2013, palestras diversas sobre Sexualidade, onde a presença dos acadêmicos foi significativa, mostrando o interesse e a necessidade de se tratar a temática no curso de formação de educadores. Yus (1998) nos alerta para o fato de que os temas transversais sugerem uma nova escola, assim definida: Uma escola mais centrada na educação para a vida, recuperando o valor da educação para a escola, uma educação necessariamente laica na escola pública, mais nem por isso isenta de valores humanistas. Uma escola que permite o desenvolvimento de indivíduos autônomos, críticos e solidários. (YUS, 1998, p. 18). Assim, novamente, afirma-se a importância da construção do ser planetário agregada a uma educação de valores que pense o coletivo, respeitando as diferenças entre cada sujeito. 4.2 ANÁLISE DA OFICINA 2 A segunda oficina, realizada no dia 8 de abril de 2013, foi uma conversa inicial com as educadoras do Colégio Alternativo Talismã, para que estas conhecessem a pesquisa deste Trabalho, bem como para investigar, por meio do diálogo, as percepções e compreensões das educadoras sobre as temáticas. Notei que as educadoras têm uma visão global das temáticas e de que tudo está interligado. Inicialmente demonstraram um pouco de dificuldade em interligar Meio Ambiente e Sexualidade para uma aula, achando que falar em reprodução e no ambiente em que vivemos está contemplado, porém foi notória a tranquilidade em 52 lidar com os temas, evidenciando-a por meio do relato de experiências sobre Sexualidade e sobre Meio Ambiente. Almeida (1999) retrata que a noção de desenvolvimento sustentável está relacionada muitas vezes, ao desenvolvimento econômico, político, social e ambiental insustentável da sociedade contemporânea. No entanto, as educadoras que participaram da pesquisa conseguem relacionar de forma tranquila e saudável, podemos assim dizer, os temas Meio Ambiente e Sexualidade. Ter essa consciência e fazer relações dos conteúdos demonstra criticidade e ciência dos aspectos de macro e micro sobrevivência. Necessita-se de educadores que instiguem a apropriação do conhecimento e de ações de mudanças positivas para a proteção do Meio Ambiente, bem como da saúde da espécie humana. (...) ―nova ideia‖ introduz elementos econômicos, sociais e ambientais que são desafiadores do ponto de vista de muitas áreas do conhecimento. A noção de sustentabilidade, tomada como ponto de partida para uma reinterpretação dos processos sociais e econômicos e de suas relações com o equilíbrio dos ecossistemas, parece enriquecedora, demandando a construção de um aparato conceitual capaz de dar conta de seus múltiplos aspectos. Essa ideia de um ―novo desenvolvimento‖ pode remeter à sociedade a capacidade de produzir o novo, redimensionando suas relações com a natureza e com os indivíduos (ALMEIDA, 1999, p. 22-23). Como o planejamento demanda tempo, resolvemos realizar mais um encontro para dialogar sobre ideias de ―oficina-aula‖ embasada por uma oficina com o diálogo com as crianças, ouvindo suas indagações e inquietações sobre Meio Ambiente e Sexualidade. 4.3 ANÁLISE DA OFICINA 3 A terceira oficina, realizada em 11 de abril de 2013, foi uma conversa com dezoito crianças, do 4º e 5º ano, com faixa etária entre nove e onze anos. Essa foi uma oficina incluída ao processo de pesquisa, visto a necessidade de ir à sala e dialogar com as crianças para perceber seus conhecimentos e visões sobre as temáticas, bem como observar quais seriam suas principais dúvidas, para assim agregar visões ainda mais a este Trabalho de Conclusão de Curso. Sendo assim, resolvemos acrescentar este momento para tornar a pesquisa mais significativa para todos os envolvidos. Citando os quatros pilares da educação (UNESCO, 1996), que 53 foi uma das concepções para idealizar tais oficinas de pesquisa deste Trabalho, o Programa Parâmetros em Ação Meio Ambiente na Escola (2001) reflete o significado da Escola na formação do ser integral: O espaço escolar é um espaço privilegiado para a formação do cidadão, tendo em vista o convívio social e a possibilidade de viver experiências educativas exclusivas desse ambiente, conduzida por profissionais que receberam formação específica para isso. Quando se pensa na formação integral do cidadão, é necessário considerar em sua totalidade os conteúdos da educação escolar, que incluem: fatos e conceitos: o que os alunos devem aprender a conhecer; procedimentos: o que os alunos devem aprender a fazer; valores, atitudes e normas: o que os alunos devem aprender a ser e de que necessitam para aprender a viver juntos. (BRASIL, 2001, p. 23 e 24). Durante as oficinas, enquanto se esperava o retorno dos educandos do recreio, houve uma curiosidade inicial pela minha presença. Uma das educandas do 5º ano questionou meu nome e o que eu faria no colégio. Contei que iria realizar uma oficina sobre Meio Ambiente e Sexualidade. A educanda contou aos colegas, chamou todos de sua sala e foram se apresentando e demonstrando sua reação ao saber das temáticas. Ao ouvir a palavra Sexualidade as meninas davam um berro e os meninos faziam um ―Xiii‖ e riam. As crianças, por esta atitude, demonstram a fragilidade de se abordar Sexualidade na Escola ou em casa. Marluce Alves dos Santos (2001), em seu trabalho sobre ―Orientação Sexual no 1º e 2º ciclos do Ensino Fundamental‖, desmitifica que estudar Orientação Sexual instiga as crianças e adolescentes ao sexo precoce e inconsciente: Estudos científicos realizados nessa área demonstraram que o trabalho de Orientação Sexual, ao contrário do que se propaga, não estimula a atividade sexual, não antecipa a idade do primeiro contato sexual, nem tão pouco aumenta a incidência de gravidez ou aborto entre os adolescentes. E, sim, as crianças/adolescentes, que foram orientados sexualmente na escola, tornaram-se mais responsáveis e conscientes. É notória, a importância de se discutir a sexualidade na escola, uma vez que cresce a cada dia o número de abuso sexual, gravidez precoce, contaminação das DST/AIDS, principalmente entre os adolescentes, dentre outros temas fundamentais para essa discussão, que se faz necessária e inadiável. (SANTOS, 2001, p. 8 e 9). Durante a execução das oficinas, as crianças relataram e expressaram seu interesse maior por Sexualidade, porque ninguém falava com elas sobre assunto, não sabiam exatamente o que era o termo ―Sexualidade‖, tinham dúvidas diversas, 54 vergonha em falar o que pensavam sobre suas reais dúvidas. Algumas das falas mais interessantes foram: "Se não fosse pelo sexo nenhum de nós estaríamos aqui hoje!"; "Sexualidade não é assunto de criança!"; "Planta faz sexo? E água?‖; ―Mas os peixes fazem sexo na água?"; "A natureza já está poluída, o que podemos fazer? Nada né?!"; ―Meio ambiente é a metade de um ambiente?‖. A criança vive um mundo de descoberta e de questionamentos, logo sua curiosidade é evidente, diante do que não conhece e do que não se fala. Werebe (1998), afirma que: (...) educar para sexualidade é educar para a vida, se baseia em um processo de reflexão e revisão de atitudes contextualizado em vivências, saberes e emoções. Promove o exercício de uma sexualidade autônoma, responsável e plena. A sexualidade humana tem um sentido que transcende a simples reprodução e deve ser compreendida em função de todas as suas dimensões e em função de abordagens diversas. (WEREBE, 1998, p. 156). Acrescentamos que educar para a riqueza da natureza e do Meio Ambiente é também educar para a vida. Logo, os dois temas estão visivelmente relacionados com as experiências de vida de cada criança, de cada pessoa, de cada ser humano. Neste diálogo, eu e as educadoras respondemos a maioria das dúvidas e instigamos algumas reflexões acerca do que as crianças vivenciam sobre Meio Ambiente e Sexualidade, sinalizando a interligação através da macro e micro sobrevivência, já que ―a saúde da Terra é, no fundo, a saúde do homem‖ (BATISTA e RÔÇAS, 2009, p. 125). Para ter um maior embasamento do que tratar na oficina-aula, pediu-se que as crianças escrevessem em um papel suas principais dúvidas sobre os temas, sinalizando o que gostariam de saber sobre Meio Ambiente e Sexualidade. (Apêndice 2) Posteriormente à conversa com as crianças, dialogamos com as educadoras para saber como elas se sentiram e quais foram às percepções sobre as falas, dúvidas e reações das crianças. Elas se mostraram surpresas com as dúvidas sobre ―o que é sexo anal?‖, ―existe sexo a três?‖, ―o que é masturbação?‖, considerando que eram palavras e dúvidas inadequadas para aquela idade, supondo que, pelo que conhecem dos educandos que fizeram os questionamentos, tais falas se deram pelo relacionamento com pessoas mais velhas (pais, amigos e irmãos mais velhos). 55 Nesse contexto, ressaltamos a necessidade dos órgãos formadores na preparação ou formação continuada dos educadores, conforme considera Camargo e Ribeiro (1999): Os currículos dos cursos de formação de professores e professoras deveriam conter falas e vivências sobre a sexualidade humana, despertando as possibilidades do corpo e das emoções. Conhecer a sexualidade não significa aprender a estrutura dos genitais. Educação sexual centrada na genitalidade advém de uma educação que disciplina, organiza e concentra o prazer nos genitais; assim procedendo, anestesia o resto do corpo... A formação de educadores e educadoras tem de ser considerada não apenas quanto à produção teórico-científica que embasa o conhecimento sobre a criança, mas também quanto ao autoconhecimento. O preparo dos educadores e educadoras implica o despertar de suas potencialidades, favorecendo a impressão de sua criatividade, de sua sensibilidade. (CAMARGO e RIBEIRO, 1999, p. 50 – grifo nosso). Deste modo, reforçamos a ideia de pensar em propostas para os currículos na formação de educadores pensando em todas as dimensões do ser humano, contemplando as questões ambientais e sexuais. 4.4 ANÁLISE DA OFICINA 4 A quarta oficina, realizada em 19 de abril de 2013, foi um encontro com as educadoras do Colégio Alternativo Talismã com a intenção de somente planejar a oficina-aula, já com o embasamentos das ideias e discussões das oficinas 2 e 3. As educadoras trouxeram a ideia de trabalhar a reprodução das plantas por meio de um teatro com materiais recicláveis. Apresentei minha ideia e os motivos para tal, e as educadoras agregaram dando alternativas de trabalho, já que conhecem a turma e possuem alguns métodos para chamar mais atenção e tornar significativo o processo. Refletindo sobre a ação pedagógica agregadora ao ser humano e ao educador repensar suas crenças, Morin (2003b) nos instiga quanto ao ―ser docente‖: Para ensinar é preciso o Eros. O Eros não é somente, o prazer de ensinar, comunicar ou dar: é também o amor por aquilo que se diz e do que se pensa ser verdadeiro. É o amor que introduz a profissão pedagógica, a verdadeira missão do educador. (MORIN, 2003b, p. 69). 56 Essa ideia vem ao encontro do que os Parâmetros Curriculares Nacionais incorporam a função do educador (ARROYO, 2000) destacando inclusive a Sexualidade e o Meio Ambiente como eixos fundamentais da formação da cidadania e do desenvolvimento das capacidades intelectuais, éticas, afetivas e humanas. Deste modo, o educador necessita ser um formador ultrapassando e indo além da transmissão da matéria e da avaliação do que foi aprendido, mediando a construção do ser integral em uma educação planetária que envolva valores para o ―aprender juntos‖ e transcender. Ao dar continuidade a oficina, produzimos uma folha com esquema (Apêndice 3) de ação e reação, demonstrando que tudo está interligado e interdependente. Para a oficina-aula ter uma abrangência maior agregando as temáticas com as falas e inquietações das crianças, expressei por meio das imagens: 1. A interligação entre alguém que joga lixo na rua este lixo acabará indo para o mar um animal pode se alimentar dele pensando que é seu alimento natural o mar ficará poluído e perderá sua biodiversidade logo, o Planeta ficará doente, sendo então prejudicial para a sobrevivência de todas as formas de vida da Terra. 2. O ciclo de ação e reação onde, ao protegermos o Meio Ambiente por meio de ações onde uma pessoa joga o lixo na lixeira do seu material correto e havendo profissionais que recolhem e fazem a reciclagem o lixo não irá para o mar, logo não o poluirá a biodiversidade marinha será preservada bem como as paisagens e os mares estarão limpos para passeios em barcos e navios, e a pesca para captação do nosso alimento. 3. O ciclo de ação e reação das abelhas realizando a polinização (reprodução das plantas, produção de flores e frutos - alimento) a comunidade das abelhas na colmeia produzindo o mel (que também utilizamos como alimentos) a árvore representando o local que esta colmeia vai estar, bem como a relação da árvore e com flores, frutos e respiração sendo assim, este processo acontecerá com a proteção do Meio pelos humanos. Pensando na conversa e nos questionamentos das crianças, elaborei outras ideias de ―oficina-aula‖ integrando Meio Ambiente e Sexualidade: 57 Mostrar o ciclo da vida, utilizando as plantas como protagonistas e abordar a importância da proteção ambiental para sobrevivência das espécies; Abordar a questão dos Valores Humanos (respeito, ajuda, carinho), focando na parte comportamental das ações locais com proporções globais (economia da água, armazenamento do lixo, etc.); Trabalhar a identidade pensando no sujeito e como ele se expressa para os grupos, observando semelhanças e diferenças (físicas, comportamentais, atitudinais). Neste dia acabei encontrando com os educandos no intervalo. Dois deles falaram sobre a opinião dos pais quanto à oficina Meio Ambiente e Sexualidade. Uma educanda do 5º ano relatou que ―o pai disse que é melhor aprender na escola do que na televisão sobre Sexualidade!‖. Já um educando do 4º ano espontaneamente relatou: ―agora não tenho mais vergonha depois do que conversamos. Eu aprendi coisas diferentes, e nem pro meu pai tenho vergonha de conversar mais estes assuntos!‖. Segundo Kageyama (2008), a educação deve contribuir para o desenvolvimento do ser humano, levando em conta os aspectos sociais, econômicos e ambientais, além dos sexuais, ou seja, a educação deve pensar o ser em sua plenitude e inteireza. Considerar este ser integral é uma das concepções da perspectiva transdisciplinar. Nas oficinas foi observada esta perspectiva como uma prática significativa para a educação e construção do sujeito planetário. 4.5 ANÁLISE DA OFICINA 5 A quinta e última oficina foi realizada em 29 de abril de 2013. Neste momento, a intenção era perceber as visões das crianças sobre a interligação dos temas, bem como as relações educando-educando e educando-educadora para o processo de ensino-aprendizagem. Pensando nesta importância do processo de ensinar e aprender, Sobral (2003) aponta um dos papéis essenciais da Escola e da prática pedagógica significativa: 58 A escola, enquanto espaço de (re)construção social, tem uma dimensão que é estruturada pela sociedade, ao mesmo tempo em que é também estruturante desta mesma sociedade. E para que ela seja um espaço significativo de aprendizagem, mais do que modificar atividades, é preciso mudar a maneira de compreender e construir o processo de ensino/aprendizagem. (SOBRAL, 2003, p.1038 – grifo nosso). Fomos até o local de refeição do colégio, já que o pátio era usado para Educação Física, e queríamos sair da sala de aula para dar movimentação maior às crianças. Criei um cartaz para exposição, colei no espelho e as crianças já foram fazendo a leitura do exposto. O cartaz possuía o mesmo esquema valorizando ciclos de ação e reação do material que elaborei baseado nas falas das crianças na oficina 3 (Apêndice 3). Com esse material, trabalhamos a questão de valores humanos, comportamentos globais e locais, visando à sobrevivência das espécies, visualizando que a Sexualidade está interligada ao Meio Ambiente. Uso a palavra ―trabalhamos‖, pois eu e as educadoras fomos mediadoras do diálogo com as crianças, fazendo um trabalho de pesquisa em conjunto, respondendo seus questionamentos e fazendo-as refletir sobre as imagens expostas. Creio que um dos pontos essenciais para a formação do ser integral é o educando ver-se como participante ativo de sua educação, sendo assim: É preciso, então, refletir sobre o aluno, sobre a relação que se quer construir com ele, o que ele representa para o professor. Ao permitir que ele seja um sujeito ativo em seu processo de aprendizagem, os significados que constrói são resultado da complexa rede de interações, intermediadas pela ação do professor (SOBRAL, 2003, p.1038). Em um ―saco surpresa‖ depositei as imagens e, em duplas, as crianças explicaram o que entendiam pela imagem selecionada e a colocaram no local que acharam mais adequado no cartaz com setas, expressando a ideia de ciclo de ações e reações. Após essa dinâmica, fizemos diversos questionamentos, dentre eles o considerado principal: Qual a ligação destas imagens com Meio Ambiente e Sexualidade? As crianças relataram que Meio Ambiente estava representado em todas as imagens já que é o meio que vivemos e que Sexualidade estava representada nas pessoas, na diversidade das espécies marinhas e na reprodução das plantas. Todas as crianças se demonstraram conscientes em relação as suas atitudes locais com proporções globais, citando suas ações em casa e no Colégio, sinalizando os 59 cartazes que estavam espalhados no refeitório e banheiros abordando a importância de economizar a água e a luz, e a separação dos resíduos sólidos. Nesta oficina, as dúvidas foram raras, já que as crianças se motivaram a refletir as imagens e citar suas ações, sinalizando a importância de proteger o Meio Ambiente. Um dos educandos chamou minha atenção: ―Aline a gente falou mais de Meio Ambiente, mas a Sexualidade está em tudo, até na escolha da roupa que vestimos para ir a cada local né? É o jeito que nos mostramos no mundo então!‖. As educadoras relataram que darão continuidade ao debate dos temas nas aulas e pediram que a folha com material elaborado fosse colada no caderno e o cartaz ficasse para exposição no colégio. Os educandos se despediram com um caloroso abraço e pediram que eu fosse mais vezes ao Colégio para falar sobre esses assuntos, que como relatou uma educanda ―quase nenhum adulto fala querendo saber nossa opinião e dúvida‖. A maioria finalizou dizendo que adorou a forma como o diálogo foi realizado, que sabem que temos que proteger o Meio Ambiente, mas que falar sobre Sexualidade é muito ―legal‖. Refletindo sobre este compartilhamento de visões, onde todos aprenderam durante o processo de pesquisa e oficina, aponto uma rica visão sobre educação: ―Toda educação é educação ambiental [...] com a qual por inclusão ou exclusão ensinamos aos jovens que somos parte integral ou separada do mundo natural.‖ (BATISTA e RÔÇAS, 2009, p. 124). Sendo assim, sobre esta fase das oficinas podemos considerar que as crianças estão carentes de informações e diálogos que as façam sentir como parte integrante deste mundo globalizado, de forma integral, crítica e plena. Os educandos estão recebendo uma considerável carga de informações que pouco contribui com a sua formação para a vida, e que não há um processo comunicativo, sensitivo e cognitivo presente na vida delas que envolva as discussões sobre Sexualidade e Meio Ambiente, fragilizando assim sua formação. Isto faz lembrar Morin (2003a), quando nos alerta sobre a importância da cabeça bem feita, no lugar da cabeça cheia. 60 4.6 RELAÇÕES ENTRE AS OFICINAS Pensando nas relações entre as oficinas e analisando suas diferenças e semelhanças, aponto o que as oficinas apresentaram em comum: Preocupação dos graduandos em Pedagogia e educadoras do Colégio com o pensamento dos pais e da escola; Preocupação dos graduandos em Pedagogia e educadoras do Colégio em saber o que dizer e como dizer sobre os temas, principalmente sobre Sexualidade; As crianças querem saber, imaginam, mas têm vergonha, o mesmo sentido inicialmente com os graduandos em Pedagogia; Crianças se sentem mais seguras ao falar e dialogar sobre os temas na escola, graduandos também relataram seus sentimentos para discussão da temática na graduação. Dentre as principais diferenças entre as oficinas ou pontos isolados em cada uma, as que chamaram mais atenção estão: Pais acham importante a escola falar sobre as temáticas; Educadoras do Colégio têm uma visão planetária sobre as temáticas, mas têm um pouco de dificuldade em mesclá-las sem se distanciarem do já estipulado: Sustentabilidade, Identidade, Corpo Humano. Confessaram que nunca tinham pensado no ângulo de unir as temáticas, relacionando-as com diversos assuntos; Num primeiro momento, os Graduandos em Pedagogia não viram ligação entre as temáticas, mas depois, notaram a ligação e começaram a relatar experiências e pensar em aulas. A questão discutida nas oficinas foi a relação entre Educação Ambiental e Educação Sexual. Loureiro (2005) tem demonstrado a importância da Educação Ambiental para atingir este ―modelo‖ de desenvolvimento mais sustentável para a vida do ser humano: 61 A educação ambiental é uma práxis educativa e social que tem por finalidade a construção de valores, conceitos, habilidades e atitudes que possibilitem o entendimento da realidade da vida e a atuação lúcida e responsável de atores sociais, individuais e coletivos no ambiente. Nesse sentido, contribui para a implantação de um padrão civilizacional e societário distinto do vigente, pautando uma nova ética da relação sociedade-natureza. (LOUREIRO, 2005, p. 69). Já a questão da Educação Sexual, Camargo e Ribeiro (1999) acrescentam: Hoje, a discussão da necessidade da Educação Sexual na escola deveria estar superada, uma vez que as conseqüências da ausência de informações sobre a sexualidade podem ser claramente sentidas em nossa sociedade, em que a liberdade de expressão é exercida quase na totalidade e a sexualidade mostrada na televisão e em folhetins de forma fragmentada e freqüentemente deturpada. Assim, é inconcebível que o tema não seja tratado de forma sistemática, consciente e responsável na escola (CAMARGO e RIBEIRO, 1999, p. 40). Os teóricos Loureiro (2005), Camargo e Ribeiro (1999) revelam a necessidade da Escola investir numa concepção transversal ou transdisciplinar, culminando em um diálogo aberto, rigoroso e científico sobre as temáticas Meio Ambiente e Sexualidade. 62 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Há mais de uma década o Brasil possui documentos que transmitem a importância da Educação Ambiental Escolar e Educação Sexual Escolar, ambas sob o viés Transdisciplinar, e abordando a emergência da formação de educadores repensando tais temáticas. Leis e literaturas pesquisadas abordam a necessidade de disciplinas ligadas principalmente à Educação Ambiental nos currículos dos cursos de graduação em Licenciatura. Creio que um dos erros para falta da prática da teorização está neste ponto. Proponho que os cursos de Licenciatura abordem em suas disciplinas de docência a questão ambiental e sexual, não deixando a cargo somente da Docência em Ciências ou Docência em Geografia para dialogar sobre problemas e impactos ambientais ou métodos de proteção sexual, levando os futuros educadores a propagar tais rótulos em suas aulas. Já na graduação, as disciplinas de docência em Matemática, Língua Portuguesa, Alfabetização devem trazer os temas Meio Ambiente e Sexualidade, apoiados nos Parâmetros Curriculares Nacionais e nos fundamentos da Transdisciplinaridade, estimulando os graduandos a pensarem em projetos para uma educação significativa que forme o cidadão em sua totalidade e um ser humano apoiado nos valores para a preservação das diversas formas de vida. Creio que trazendo diálogos à formação de educadores que os façam pensarem sua história de vida, seus valores e vivências com as questões sexuais e ambientais; refletindo por meio do compartilhamento de ideias, experiências e pesquisas; e idealizando projetos, planejando aulas e elaborando materiais para que as temáticas tão essenciais e urgentes de serem discutidas tornam-se um pontochave na educação significativa na construção do conhecimento do ser integral. Assim, sinalizo a Transdisciplinaridade como viés metodológico de ensino para a formação de educadores e para aplicação das temáticas para constituição do ser planetário, lembrando que a lei 9.795/99 já sinaliza a Transdisciplinaridade como viés fundamental para a Educação Ambiental acontecer. Durante as oito fases do curso de Pedagogia discutiu-se Sexualidade nas aulas de Filosofia da Educação com as leituras de obras de Foucalt, e em alguns momentos quando se falou sobre adultocentrismo nas aulas de Fundamentos da Educação Infantil e rapidamente em Psicologia quando se falou em 63 Desenvolvimento Psicossexual. Percebe-se também na graduação que a Sexualidade na educação é mais vista como uma questão limitada ao gênero e descontextualizada do desenvolvimento humano. Na disciplina de Psicologia, ficouse mais atrelada aos problemas de aprender e conviver (deficiências, bullying), esquecendo-se por vezes da questão sexual e ambiental. Falas limitadas, contradizendo teoria e prática, de educadores que acreditam estar ensinando Educação Ambiental ao trabalhar com materiais recicláveis, sem discutirem as problemáticas dos resíduos sólidos na realidade (escola, casa, cidade), onde os educandos continuam jogando papel de bala no chão da sala de aula, bem como visões fragmentadas e receios ao tratar da Sexualidade dos educandos, restringindo ao final das Séries Iniciais o diálogo sobre corpo humano e doenças sexuais, levando a uma omissão da Sexualidade da criança e adolescente, por não saber como lidar com tal questão. É mais do que fundamental pensar a formação dos educadores, pois ―são os professores que, na sua ação teórico-prática (na sua práxis), operam as possíveis mudanças, fazendo do processo educacional um processo humanizado e significativo‖ (PERES et al, 2007, p.70). Mudar as atitudes dos professores é um processo lento, que exige mudanças profundas em posturas e em paradigmas internos. Isso é difícil? Realmente é! São grandes as transformações, desde o currículo escolar, metodologia, infraestrutura física, um trabalho anterior de sensibilização com a equipe técnica, com os pais, com os professores disponíveis para esse processo, dando com disponibilidade a esses profissionais de boas condições de trabalho, salários justos e com possibilidade de participarem de projetos de formação continuada, a fim de promover um trabalho em parceria e com qualidade. A partir daí, quem sabe, outros caminhos poderão ser possíveis, refletindo uma sociedade bem melhor. (PERES et al, 2007, p.71 e 72). Isso tudo nos leva a pensar em um programa de formação de educadores por meio de oficinas pedagógicas estimulando a reflexão e o diálogo para construção integral deste profissional da Educação. Mesmo reconhecendo as dificuldades em modificar os programas já constituídos na formação do profissional da Educação, delimito como essenciais estudos posteriores refletindo e propondo ações de mudanças nos currículos dos cursos de graduação em Pedagogia e Licenciaturas, para que os temas Meio Ambiente e Sexualidade sejam abordados em sala de aula de forma lúdica, natural e sem preconceitos, pensando na formação do ser integral. 64 Vale ressaltar que este Trabalho não tem a intenção de ser contra ou a favor dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Este foi o documento escolhido para pensar e discutir Meio Ambiente e Sexualidade, por possuir entre seus tópicos os Temas Transversais que entraram no cenário educacional abordando Meio Ambiente e Sexualidade, demonstrando suas reais importâncias para a educação escolar e sociedade atual. Também não se tem como objetivo resgatar qualquer ―coisa‖ ou assunto de aula, como fui questionada e ―desafiada‖ quando expunha sobre o tema deste Trabalho de Conclusão de Curso, e identificar se esta tem relação com Meio Ambiente e Sexualidade, mas sim de quebrar o paradigma da fragmentação dos assuntos e disciplinas, refletindo e observando que tudo está interligado na Teia da Vida. Por meio das oficinas comprovou-se a ligação entre Educação Ambiental e Educação Sexual. Esta interligação dos temas Meio Ambiente e Sexualidade é possível, pois se olharmos com cuidado uma está inserida na outra desde sempre, na constituição da Vida e na formação do indivíduo, e como este se mostra para a sociedade e age no meio. Profissionais da educação como o Ph.D. Genebaldo Freire Dias nos apresentam as inúmeras possibilidades de se trabalhar a questão ambiental e sexual na sala de aula, de forma transdisciplinar, por meio de práticas pedagógicas riquíssimas que trabalham com o ideal da formação do ser integral. (...) trata-se de encantar – talvez re-encantar – estes homens e mulheres que já andam desacreditando na possibilidade de edificação de um mundo social e ecologicamente mais justo. Uma educação em geral, e uma educação ambiental em particular, que estejam sinceramente comprometidas com a construção da cidadania planetária e de um mundo mais apaziguado não poderá deixar de ouvir e refletir, sobre as diferentes vozes e silêncios, venham eles de onde vierem. Por mais ―estranhos‖ que nos possam parecer, merecem ser discutidos a partir de critérios de paz, solidariedade, justiça social, fraternidade, democracia, amor e ecologia.(...) aceitar o desafio de ensinarmos/aprendermos em comunhão. Valorizando, radicalmente, nossas experiências, subjetividades, histórias, memórias, trajetórias e individualidades. (BARCELOS, 2008, p.112 e 113). Finalizo este Trabalho de Conclusão de Curso afirmando que acredito ser possível interligar as temáticas Meio Ambiente e Sexualidade, pensando a formação de educadores, sob viés transdisciplinar, para acontecer uma educação significativa na construção do conhecimento e aprendizagem de um cidadão crítico e integral, 65 trazendo um texto (Anexo 1) denominado “Carta escrita em 2090”, onde se pode notar como a questão da Sexualidade está inserida na questão do Meio Ambiente, e vice-versa, demonstrando a macro e micro sobrevivência. 66 REFERÊNCIAS ALMEIDA, J. A. Problemática do desenvolvimento sustentável. In: BECKER, D. F. (org.). Desenvolvimento sustentável: necessidade e/ ou possibilidade? 2. ed. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 1999. p. 17-26. ALTMANN, Helena. Orientação sexual nos Parâmetros Curriculares Nacionais. 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Desenho menino e menina em um gramado com flores: Meio ambiente é tudo que está ligado a natureza, vida, homem em um mesmo espaço e movimento. Sexualidade é natural, físico e humano. 73 Entendo por meio ambiente quase tudo que está ao nosso redor, plantas, animais, a ave, a água. Por sexualidade entendo como parte do comportamento humano, suas necessidades. Meio ambiente penso ser o todo que está ligado a natureza, animais (fauna), plantas, e o que o prejudica. Sexualidade se volta para o ser, sua sexualidade, suas necessidades. Meio ambiente é uma parte do nosso planeta, a natureza, o homem e a vida. Sexualidade: respeito, toque, descoberta da criança. Desenho menino e menina com árvore e flores ao redor. Desenho árvore, sol, menino e menina com as frases: Ambiente o meio em que vivo. Sexualidade: como me expresso e vivo. Desenho de um rio com peixe onde um homem retira uma lata do rio para jogar no lixo. E uma menina passando batom na frente de um espelho. Desenho Planeta Terra, árvore, sol, pássaro, borboleta, rio, pedras, coqueiro. Meio ambiente é um conjunto onde envolve a natureza e todos os seres que nela vivem. Sexualidade, tudo que envolve as ações humanas, ou animais, relacionadas com o corpo próprio e do outro. Entendo por meio ambiente o lugar que vivemos, a natureza, todas as coisas que no cercam, as relações sociais e a relação do homem com a natureza. Entendo por sexualidade algo natural, com diferentes manifestações durante as fases do desenvolvimento (infância, adolescência, adulto, terceira idade) humano. Meio ambiente: o ambiente em que vivemos, as matas, as cidades, entre outros. Sexualidade, o nosso corpo, nosso comportamento sexual. Meio ambiente é o local onde nós moramos, também é a própria natureza isso forma o meio ambiente. Cada lugar é um meio ambiente. Sexualidade para mim é a divisão de dois sexos, de todos os seres vivos. Comportamento sexual. Não podemos achar que sexualidade é uma coisa normal. A criança não tem malícia, mas o adulto tem. Temos que cuidar para não incitar nossas crianças para a sexualidade, deixar a natureza agir normalmente. O corpo da criança é um templo. Meio ambiente entende-se o meio onde estamos inseridos da natureza. Por sexualidade entende –se como se dá a procriação humano, seu sexo, órgãos. Meio ambiente para mim é a natureza que está ao nosso redor, algo maravilhoso que aos poucos o homem destrói. Sexualidade envolve além do prazer, o amor, a reprodução da espécie. Desenho com três bonecos. E frases: Sexualidade: respeitar as diferenças. Ambiente: uma política pública voltada para deter o processo de urbanização sem controle. Meio ambiente: espaço onde vivemos e que devemos cultivar e cuidar, em sentido de preservação, higiene, reciclagem, de modo a ser um ambiente social, de todos e para todos. A sexualidade é uma vontade, comportamento, 74 desejo, que é interagido com o outro, tem intencionalidade pessoal e social, que em nosso cotidiano é presente. Desenho menino e menina, árvores, lagoa com patos, sol, pássaros: VOCÊ CONSIDERA POSSÍVEL INTERLIGAR AS TEMÁTICAS MEIO AMBIENTE E SEXUALIDADE? CONSEGUE DAR EXEMPLOS DE TEMAS DE AULAS? Sim, podemos trabalhar os dois conteúdos. Em todas as disciplinas, desde que se tenha claro o que é Meio Ambiente e o que é Sexualidade! Assim, podemos discutir os temas em uma aula de História, Geografia, como a formação da sociedade, das culturas, etc. É possível, pode ser proposta uma aula que aborde temas como valores humanos, reprodução sexual, reprodução social, culturas, entre outro. Mas acredito que pode=se trabalhar muitas coisas é preciso somente aprender e se aperfeiçoar mais sobre isso. Eu concordo que é possível interligar se você tiver uma mentalidade aberta. Hoje temos na sociedade muitos casos de lindas famílias de pai e mãe que vivem só de aparência, nós temos que quebrar este tabu. Sim. Sociedade, do que ela é formada. Trabalhar o ―mundo atual‖ (relação com meio ambiente/natureza‖ o preconceito, gênero (homem tem feito pela natureza) e a sexualidade (tolerância as diferenças). Tolerância, diferenças, homem, valores humanos. 75 Meio Ambiente: as mudanças na natureza. Ex: clima, poluição e as mudanças na sociedade. Sexualidade ex: dois pais, duas mães. Interligar os dois temas abordando as mudanças Penso ser possível interligar os temas, no entanto me colocar no papel do docente planejando uma aula assim me causa muitas dúvidas. Identidade e o meio em que vivem, o corpo e a natureza. Sim, acho possível interligar os temas. Quanto ao exemplo, penso que poderia ser trabalhando as relações entre as pessoas, umas com as outras e as pessoas com o Meio Ambiente. Sim. Valores humanos, educação para a mídia. É possível porque na 7ª série tive aula de puericultura, cuidados com o recém-nascido. E aprendemos a cuidar do bebê, uma das coisas que levo até hoje na minha vida é que aprendi que quando for dar o banho num bebê, ver a temperatura com o cotovelo. Uma experiência que faz parte da higiene e segurança. Poderíamos trabalhar uma aula sobre higiene corporal e em paralelo sobre os órgãos sexuais, higiene do corpo e a relação sexual. Ambiente e Sexualidade são temas que fazem parte do cotidiano de todos, ambos precisam ser bem trabalhados nas escolas com as crianças. O ambiente influi sim na sexualidade, pois depende de onde vem essa criança, onde ela vive e com quem ela convive. Exemplos de temas de aula: ciências (animais, macho, fêmea), corpo humano, higiene( partes do corpo), plantas (planta tem sexo? Questionar as crianças) Sim. O cuidado com o corpo (higiene), valores humanos, relações humanas. Eu acredito sim que os temas possam ser trabalhados juntos. Através da ligação entre animais e humanos como eles se diferenciam sexualmente. Sexualidade = animais e seu sexo e como reproduzem no meio ambiente. Trabalhar homem x mulher, como se reproduzem sexualmente. Trabalhando o meio ambiente com os seres vivos, falar que os seres vivos dependem do meio ambiente. Sim. Podemos trabalhar animais e identidade da criança. 76 APÊNDICE 2: RESPOSTAS DOS EDUCANDOS DO 4º E 5º ANO AOS QUESTIONAMENTO DA OFICINA 3 O QUE VOCÊ QUER SABER SOBRE SEXUALIDADE E MEIO AMBIENTE? 4º ANO: Por que sexualidade existe? Por que existe isso? Por que as plantas fazem sexo? O que é bem legal, mas porque se a agente joga lixo no chão e polui a natureza. Eu quero aprender um pouco mais porque as plantas fazem sexualidade. Os animais que voam fazem sexo? Por que a planta faz sexo? Como as aranhas fazem sexo? Como as árvores transmitem oxigênio? Como a planta cruza com outra? A minha curiosidade é sobre qual é o jeito mais educado de falar: cruzar, sexo ou transar? E como os animais transam e as plantas também? O que se pode fazer para cuidar do Meio Ambiente? 5º ANO: Depois de quanto tempo o útero se desmancha? É só a abelha que ajuda a flor? O que é o orgasmo? Ele é a mesma coisa que masturbação? E como ele acontece? Quero saber a mesma coisa que falamos na primeira oficina (sexo), e coisas relacionadas a isso. Se quando a mulher está grávida e o neném vai nascer e não tem como ter um parto normal e não tem ninguém para atender, o que faz? As plantas podem ficar diferentes no contato com lixo tóxico? 77 APÊNDICE 3: MATERIAL ELABORADO PARA OFICINA 5 Elaborado por Aline Diniz Warken como material para pesquisa TCC “Meio Ambiente e Sexualidade” com 4º ano e 5º ano - Colégio Alternativo Talismã | Abril/2013 78 ANEXO 79 ANEXO 1: ―CARTA ESCRITA EM 2090‖ Escrevo esta carta com uma profunda amargura e arrependimento. Estou sobrevivendo em condições precárias, em um mundo caótico, dominado pela fome, miséria, crime e desespero. Hoje sou uma das pessoas mais idosa da minha comunidade, e tenho apenas 55 anos, mas a minha aparência é de alguém de 90 anos. A média de idade é de apenas 35 anos. Respiramos um ar envenenado e nosso alimento é 90% sintético. Muitas crianças jamais viram uma fruta. Recordo quando tinha 10 anos. Tudo era muito diferente. Havia muitas florestas, rios e vales verdejantes. As casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um longo banho de chuveiro. Agora usamos toalhas embebidas em azeite mineral para limpar a pele. Antes, as mulheres mostravam as suas formosas cabeleiras. Agora, raspamos a cabeça para mantê-la limpa sem água. Antes, meu pai lavava o carro com água que saia de uma mangueira. Hoje as crianças não acreditam que utilizávamos a água dessa forma. Duvidam quando dizemos que algumas pessoas varriam calçadas e davam descargas em vasos sanitários com água potável. As piscinas são uma mentira, para elas. Recordo que os ambientalistas diziam para CUIDAR DA ÁGUA, só que ninguém lhes dava atenção. Eram chamados de ecochatos, impediam o “progresso”. Agora, todos os rios, barragens, lagoas, e lençóis subterrâneos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados. Por falta de água, a rede de esgoto não funciona. O ar atmosférico é pútrido e nauseante. As doenças renais, as infecções gastrointestinais e as enfermidades da pele são as principais causas de morte. Com ressecamento da pele, uma jovem de 20 anos parece ter 50. A indústria está paralisada e o desemprego é dramático. As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam os empregados com água potável em vez de salário. Antes, a quantidade indicada como ideal para se beber era oito copos por dia, por pessoa adulta. 80 Hoje só posso beber meio copo. Os cientistas investigam, mas não há solução possível. Não se pode fabricar água. O oxigênio disponível na atmosfera foi drasticamente reduzido por falta de árvores. As novas gerações tem baixo coeficiente intelectual devido à escassez de oxigênio e alimentos. Alterou-se a morfologia dos espermatozoides de muitos indivíduos. Como consequência, há muitas crianças com deformações e insuficiências. O governo até nos cobra pelo ar que respiramos: 137m³ por dia por habitante adulto. Quem não pode pagar é retirado das zonas ―ventiladas‖, dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia solar. Não são de boa qualidade, mas se pode respirar. Em alguns países restam manchas de vegetação com seu respectivo rio que é fortemente vigiado pelo exército A água tornou-se um tesouro muito cobiçado, mais do que o ouro e os diamantes. Com frequência há violência pela posse da água. Aqui não há árvores porque quase nunca chove. E, quando chega a ocorrer uma precipitação, é de chuva ácida. As estações do ano foram severamente transformadas pelas provas atômicas e pela poluição das cidades e das indústrias do século XX. Imensos desertos constituem as paisagens que nos cercam. Advertiam que era preciso cuidar do meio ambiente, mas ninguém ouviu. A prioridade era ganhar dinheiro e comprar coisas. Destruíam as florestas, dizendo que era para criar emprego e trazer o progresso. Quando minha filha me pede que lhe fale de quando era jovem, descrevo como eram belas as paisagens. Falo das chuvas e das flores, do ar puro, da água cristalina, do prazer de tomar um banho em uma cachoeira e poder pescar nos rios e lagos, beber toda água que quisesse. O quanto nós éramos saudáveis! Ela pergunta-me: - Papai! Por que a água acabou? Então, sinto um nó na garganta! Não posso deixar de me sentir culpado porque pertenço à geração que destruiu o meio ambiente, sem prestar atenção a tantos apelos. Sinceramente, creio que a vida na Terra já não será possível dentro de muito pouco tempo, porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível. 81 Como gostaria de voltar no tempo e fazer com que toda humanidade entendesse isso. Deixasse de ser tão ignorante e pudesse mudar as coisas, enquanto ainda é possível... Texto, adaptado, de domínio público, publicado na revista Crónicas de los Tiempos, Chile, abril de 2002. In: DIAS, Genebaldo Freire. Atividades I interdisciplinares de educação ambiental. 2006. p. 126 e 127 82