ISSN 1982 - 0283 QUALIDADE DA EDUCAÇÃO: ACESSO E PERMANÊNCIA Ano XXIII - SETEMBRO 2013 Qualidade da Educação: acesso e permanência SUMÁRIO Apresentação........................................................................................................................... 3 Rosa Helena Mendonça Introdução............................................................................................................................... 4 Karine Nunes de Moraes Texto 1 - Qualidade da Educação: concepções e dimensões..................................................... 8 Luiz Fernandes Dourado Texto 2 -A Qualidade da Educação Superior........................................................................... 15 Edward Madureira Texto 3: Da Educação Básica: expansão e melhoria da qualidade........................................... 19 Karine Nunes de Moraes Qualidade da Educação: acesso e permanência Apresentação A publicação Salto para o Futuro comple- A edição 16 de 2013 traz como tema Quali- menta as edições televisivas do programa dade da Educação: acesso e permanência e de mesmo nome da TV Escola (MEC). Este conta com a consultoria de Karine Nunes de aspecto não significa, no entanto, uma sim- Moraes, Professora Adjunta da Faculdade de ples dependência entre as duas versões. Ao Educação da Universidade Federal de Goiás, contrário, os leitores e os telespectadores Doutora em Educação pela Universidade – professores e gestores da Educação Bási- Federal de Pernambuco, Membro do Núcleo ca, em sua maioria, além de estudantes de de Estudos e Documentação Educação, So- cursos de formação de professores, de Fa- ciedade e Cultura/FE/UFG e Consultora de- culdades de Pedagogia e de diferentes licen- sta Edição Temática. ciaturas – poderão perceber que existe uma interlocução entre textos e programas, pre- Os textos que integram essa publicação são: servadas as especificidades dessas formas distintas de apresentar e debater temáticas 1. Qualidade da Educação: concepções e di- variadas no campo da educação. Na página mensões eletrônica do programa, encontrarão ainda outras funcionalidades que compõem uma 2. A Qualidade da Educação Superior rede de conhecimentos e significados que se efetiva nos diversos usos desses recursos nas 3. Da Educação Básica: expansão e melhoria escolas e nas instituições de formação. Os da qualidade textos que integram cada edição temática, além de constituírem material de pesquisa e Boa leitura! estudo para professores, servem também de base para a produção dos programas. 1 Rosa Helena Mendonça1 Supervisora Pedagógica do programa Salto para o Futuro (TV Escola/MEC). 3 Introdução Qualidade da Educação: democratização acesso, permanência, avaliação, condições do de participação e aprendizagem Karine Nunes de Moraes1 A educação hoje se apresenta como um resultando na melhoria dos indicadores direito social – fundamental, universal e educacionais no país; por outro, as políticas, inalienável – de cada cidadão e cidadã do programas e ações educacionais implemen- nosso país. Na última década, uma expan- tadas neste período também apontaram são significativa foi registrada quanto ao para desafios ainda a serem superados. Den- atendimento da demanda por educação, em tre eles, a melhoria da qualidade em todos todos os seus níveis, etapas e modalidades. os níveis, etapas e modalidades. Em grande medida, essa expansão tem refletido os impactos das políticas educacio- A qualidade da educação é um termo que nais e sociais implementadas nesse período, pode expressar diferentes sentidos e concep- somados às pressões oriundas da população ções. Consiste em um conceito que se modi- brasileira, organizada em prol da ampliação fica com as transformações da sociedade e a da garantia do direito à educação a todos e emergência de novas necessidades. Portan- todas, independentemente das condições to, garantir a qualidade da educação é uma sociais, econômicas e/ou geográficas. meta a ser buscada incessantemente, envolvendo identificação e análise constantes dos Se por um lado, a garantia do direito à fatores inerentes às condições de oferta do educação avançou (Constituição Federal – ensino que mais interferem no processo de CF/1988, Lei de Diretrizes e Bases – LDB/1996, construção de uma educação de qualidade: Emenda Constitucional – EC no 14/1996, no os elementos relativos à gestão e organiza- 53/2006, no 59/2009, Plano Nacional de Edu- ção do trabalho escolar em cada município, cação, Conferência Nacional de Educação), bem como seus impactos na qualidade da 1 Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco. Membro do Núcleo de Estudos e Documentação Educação, Sociedade e Cultura/FE/UFG e Consultora desta Edição Temática. 4 educação; as políticas e ações de formação poderiam ser melhor equacionadas a fim inicial e continuada, profissionalização e de atender efetivamente às necessidades e ação pedagógica do docente em cada siste- especificidades dos sistemas de ensino, das ma de ensino, por nível, etapa e modalida- instituições educacionais e, principalmente, de da educação; e as condições de acesso, da população, na garantia de uma educação permanência e desempenho escolar e suas de qualidade, socialmente referenciada. vinculações com a qualidade da educação. Esta garantia somente poderá ser adequadaAo falarmos sobre qualidade da educação mente alcançada quando da articulação do precisamos considerar que a compreensão Sistema Nacional de Educação (SNE), com acerca do que vem a ser o processo edu- as políticas de outros setores, de modo a cativo e sobre qual seja sua função, se al- reverter o quadro de assimetrias regionais teram ao longo dos anos, assim como as e locais e promover maior participação po- políticas e ações que visam produzir sua implementação, intimamente relacionadas às expectativas sobre o processo formativo, de aprendizagem e de socialização do educando. Neste sentido, o debate precisa ser sempre atualizado, considerando tanto o caráter cumulativo do conhecimento, quanto as circunstâncias histórias que o produzem e condicionam. pular nos processos de formulação, implementação, controle e avaliação das políticas públicas, particularmente as educacionais. No horizonte dessa articulação, há que se considerar o Plano Nacional de Educação e os demais planos decenais, a realização das Conferências de educação e a alteração na legislação brasileira de modo a estabelecer padrões mínimos de qualidade iniciais para reduzir as assimetrias regionais e locais, na Conhecer melhor a realidade da educação nas diferentes regiões, estados e municí- tentativa de garantir uma educação de qualidade para todos os cidadãos brasileiros. pios, bem como suas necessidades específicas, certamente contribui para a formula- Assim, as políticas de acesso deverão tam- ção e implementação de políticas públicas bém articular-se às políticas afirmativas e de adequadas, de modo a garantir a oferta de permanência na educação básica e superior, educação de qualidade social à população. garantindo que os segmentos menos incluí- A redução das barreiras geopolíticas, so- dos da sociedade possam realizar e concluir ciais, econômicas e culturais, bem como as a formação com êxito e com alto padrão de fronteiras invisíveis entre educação do cam- qualidade, como fator efetivo e decisivo no po e da cidade, na capital e no interior, no exercício da plena cidadania e na inserção turno matutino e noturno, dentre outros, no mundo do trabalho. 5 Objetivando abordar essa temática foram de qualidade para a educação superior. Nes- elaborados três textos para essa série, a sa- te texto, o autor também aponta alguns in- ber: dicadores que podem servir de sinalização sobre a qualidade da educação superior e 1) Qualidade da Educação: concepções e di- indica, ainda, a necessidade “de construir mensões – de autoria de Luiz Fernandes uma metodologia com indicadores quanti- Dourado, em que o autor nos convida a uma tativos e qualitativos, constituídos de forma reflexão conceitual sobre as diferentes con- discutida e ‘concensuada’ no meio acadêmi- cepções e dimensões da qualidade da edu- co, e que seja capaz de, além de demonstrar cação. Ao mesmo tempo em que destaca a determinado nível de qualidade, permitir a polissemia do termo qualidade e a dificulda- inferência de comparação de qualidade en- de em sua definição, não se furta a marcar tre as diversas instituições de educação su- posição, enquanto intelectual orgânico, de perior”. que uma educação de qualidade, socialmente referenciada, é “aquela que busca afirmar 3) Da Educação Básica: expansão e melhoria a formação ampla dos indivíduos e contri- da qualidade, de autoria de Karine Nunes de buir para a cidadania, ou seja, como prática Moraes, aborda o cenário atual de expansão resultante de processos coletivos, do exercí- da educação básica brasileira e o desafio de cio da participação e da vivência da gestão garantir a melhoria de sua qualidade em democrática”. todas as etapas e modalidades, de modo a contemplar todos os estudantes brasileiros, 2) A Qualidade da Educação Superior, de au- independentemente da região, estado, cida- toria de Edward Madureira, no qual o autor de e/ou sistema de ensino. Partindo da refle- discute a complexidade e as subjetividades xão sobre a educação enquanto um direito da qualidade da educação superior a partir social e sobre a dificuldade de se definirem de sua vivência como reitor em uma uni- “padrões mínimos de qualidade”, a autora versidade federal brasileira. Sem descuidar sinaliza os principais desafios a serem en- das questões de ordem mais conceitual, o frentados nos próximos anos. autor aborda a complexidade das múltiplas demandas apresentadas à universidade, as O texto destaca ainda que, dada a enverga- principais dificuldades para atender, simul- dura dos desafios para a garantia de uma tânea e completamente, a todas as reivin- educação de qualidade, seu enfrentamento dicações, oriundas dos diversos setores so- deve ser fruto de esforços coletivos, plane- ciais, bem como as subjetividades presentes jados e coordenados, envolvendo a articula- na discussão sobre a definição de um padrão ção de todos os entes federados e seus res- 6 pectivos sistemas de ensino, bem como não perder de vista as obrigações e as garantias do Estado para com a oferta de uma educação pública, gratuita, obrigatória e de qualidade social para todos(as), o que significa tratá-la como bem público e direito social. Esperamos que os textos articulados à temática Qualidade da Educação: democratização do acesso, permanência, avaliação, condições de participação e aprendizagem forneçam elementos para discussão e análise do Documento-Referência da Conae/ 2014, no sentido de avançarmos na construção de uma educação de qualidade como direito de todos(as) os cidadãos brasileiros, rumo a um país socialmente mais justo, democrático e de direito. 7 texto 1 Qualidade da Educação: concepções e dimensões Luiz Fernandes Dourado1 A qualidade da educação tem sido envolve dimensões extra e intraescolares objeto de muitas disputas, as quais tradu- e, nessa ótica, devem se considerar os di- zem concepções diferentes de educação, ferentes atores, a dinâmica pedagógica, aprendizagem, avaliação, entre outros. Quer ou seja, os processos de ensino-aprendi- isto dizer que não existe a qualidade da edu- zagem, os currículos, as expectativas de cação como atributo intrínseco, ela é sem- aprendizagem, bem como os diferentes pre expressão e resultado de um conjunto fatores extraescolares que interferem de fatores e insumos que podem se articular, direta ou indiretamente nos resultados ou não, traduzindo concepção, valores, prio- educativos.” ridades e discursos específicos. Ao discutir essa temática, Dourado, Oliveira e Santos (2007) afirmam que: Tal concepção é reforçada no Docu- mento-Referência da Conae 2014, que afirma que : “A qualidade da educação é um fenôme- “(…) Na condição de um atributo, a qua- no complexo, abrangente, que envolve lidade e seus parâmetros integram sem- múltiplas dimensões, não podendo ser pre o sistema de valores da sociedade, apreendido apenas por um reconheci- sofrem variações de acordo com cada mento da variedade e das quantidades momento histórico, de acordo com as mínimas de insumos indispensáveis ao circunstâncias temporais e espaciais. desenvolvimento do processo de ensino- Por ser uma construção humana, o con- -aprendizagem; nem, muito menos, pode teúdo conferido à qualidade está dire- ser apreendido sem tais insumos. Em tamente vinculado ao projeto de socie- outros termos, a qualidade da educação dade, relacionando-se com o modo pelo 1 Professor Titular de Políticas Educacionais da UFG, Membro da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação e dos Conselhos Superior e Técnico Científico da Educação Básica da Capes. 8 qual se processam as relações sociais, de mundo, sociedade e educação que a produto dos confrontos e acordos dos escola procura desenvolver conhecimen- grupos e classes que dão concretude ao tos, habilidades e atitudes para encami- tecido social em cada realidade.” nhar a forma pela qual o indivíduo vai se relacionar com a sociedade, com a natu- Considerando essa concepção, é pos- reza e consigo mesmo. A “educação de sível afirmar que qualidade é um conceito qualidade” é aquela que contribui com polissêmico e que, no campo educacional, a formação dos estudantes nos aspectos se traduz a partir de perspectivas distintas. culturais, antropológicos, econômicos e políticos, para o desempenho de seu pa- Com base no complexo papel da edu- pel de cidadão no mundo, tornando-se, cação, buscamos situar a concepção de qua- assim, uma qualidade referenciada no lidade socialmente referenciada como aque- social. Nesse sentido, o ensino de qua- la que busca afirmar a formação ampla dos lidade está intimamente ligado à trans- indivíduos e contribuir para a cidadania, ou formação da realidade.” seja, como prática resultante de processos coletivos, do exercício da participação e da vivência da gestão democrática. Segundo o documento da CONAE/2014: “Numa educação emancipadora, o sentido de “qualidade” é decorrente do desenvolvimento das relações sociais (políticas, econômicas e culturais) e sua gestão deve contribuir para o fortalecimento da educação pública e privada, construindo uma relação efetivamente democrática.” Nessa direção, o documento avança e afirma que: Como articular esse conceito à edu- cação entendida como prática social? Primeiramente, é preciso ter claro que a educação se efetiva em vários espaços sociais e tem, nas instituições educativas de educação básica e superior, espaços cada vez mais demandados de garantia de direitos do cidadão. É por isso que a sociedade reivindica a educação para todos e a Constituição Federal garante a educação como um direito social. Em nosso país, o direito à educação tem avançado historicamente, e, mais recentemente, com a aprovação da Emenda “A educação de qualidade visa à emancipação dos sujeitos sociais e não guarda em si mesma um conjunto de critérios que a delimite. É a partir da concepção 59/2009 à Constituição Federal, foi ampliada a educação obrigatória para a educação de 04 a 17 anos, antes restrita somente ao ensino fundamental. Isto significa dizer que, 9 no Brasil, a pré-escola (4-5 anos), o ensino do reconhecimento e respeito à diversi- fundamental (6-14 anos) e o ensino médio dade.” (15 a 17 anos), passaram, a partir de 2009, a ser obrigatórios e sua universalização deve Assim, a qualidade da educação deve ser ocorrer até 2016. Para que esse avanço cons- entendida num contexto amplo. Nessa dire- titucional se materialize, é preciso melhorar ção, Dourado e Oliveira (2009), ao discutirem o acesso à educação básica que, atualmente, qualidade, sinalizam para a importância da é marcado por assimetrias regionais, esta- análise das dimensões intra e extraescola- duais e municipais, bem como melhorar a res. qualidade do ensino oferecido. Inicialmente, definem o horizonte Mas é preciso avançar para além da das dimensões extraescolares envolvendo garantia da educação básica obrigatória, de- dois níveis: o espaço social e as obrigações mocratizando o acesso a toda a educação do Estado. O primeiro refere-se, sobretudo, básica e superior. à dimensão socioeconômica e cultural dos entes envolvidos (influência do acúmulo de O Documento-Referência da CONAE capital econômico, social e cultural das fa- 2014 avança ao problematizar essa questão mílias e dos estudantes no processo de en- e ao defender uma concepção de democrati- sino-aprendizagem); a necessidade do esta- zação do acesso à educação como direito so- belecimento de políticas públicas e projetos cial, que se articule à melhoria da formação escolares para o enfrentamento de questões oferecida para todos/as, ao afirmar que: como fome, drogas, violência, sexualidade, famílias, raça e etnia, acesso à cultura, saú- “Como direito social, avulta, de um lado, de etc.; gestão e organização adequadas da a defesa da educação pública, gratuita, escola, visando lidar com a situação de he- laica, democrática, inclusiva e de quali- terogeneidade sociocultural dos estudantes; dade social para todos/as e, de outro, a a consideração efetiva da trajetória e identi- universalização do acesso, a ampliação dade individual e social dos estudantes, ten- da jornada escolar e a garantia da per- do em vista o seu desenvolvimento integral manência bem-sucedida para crianças, e, portanto, uma aprendizagem significati- adolescentes, jovens, adultos e idosos, va; o estabelecimento de ações e programas em todas as etapas e modalidades, bem voltados para a dimensão econômica e cul- como a regulação da educação privada. tural, bem como aos aspectos motivacionais Este direito se realiza no contexto desa- que contribuem para a escolha e permanên- fiador de superação das desigualdades e cia dos estudantes no espaço escolar, assim 10 como para o engajamento em um processo culturais, reuniões com a comunidade, etc.; de ensino e aprendizagem exitoso. equipamentos em quantidade, qualidade e condições de uso adequadas às ativida- O segundo diz respeito à dimensão des escolares; biblioteca com espaço físico dos direitos dos cidadãos e das obrigações apropriado para leitura, consulta ao acervo, do Estado, cabendo, a este último, ampliar estudo individual e/ou em grupo, pesquisa a obrigatoriedade da educação básica; defi- online, entre outros; acervo com quantidade nir e garantir padrões de qualidade, incluin- e qualidade para atender ao trabalho peda- do a igualdade de condições para o acesso gógico e ao número de alunos existentes na e permanência na escola; definir e efetivar escola; laboratórios de ensino, informática, diretrizes nacionais para os níveis, ciclos e brinquedoteca, entre outros, em condições modalidades de educação ou ensino; imple- adequadas de uso; serviços de apoio e orien- mentar sistema de avaliação voltado para tação aos estudantes; condições de acessi- subsidiar o processo de gestão educativa e bilidade e atendimento para portadores de para garantir a melhoria da aprendizagem; e necessidades especiais; ambiente escolar implementar programas suplementares, de dotado de condições de segurança para alu- acordo com as especificidades de cada es- nos, professores, funcionários, pais e comu- tado e município, tais como: livro didático, nidade em geral; programas que contribuam merenda escolar, saúde do escolar, transpor- para uma cultura de paz na escola; e defi- te escolar, recursos tecnológicos e seguran- nição de custo-aluno anual adequado, que ça nas escolas. assegure condições de oferta de ensino de qualidade. Em seguida, os autores apresentam as dimensões intraescolares em quatro pla- nos, destacando os elementos que devem tão e organização do trabalho escolar - trata compor cada uma delas. da estrutura organizacional compatível com O plano da instituição educativa - ges- a finalidade do trabalho pedagógico; plane O plano do sistema - condições de ofer- jamento, monitoramento e avaliação dos ta do ensino - refere-se à garantia de insta- programas e projetos; organização do tra- lações gerais, adequadas aos padrões de balho escolar compatível com os objetivos qualidade definidos pelo sistema nacional educativos estabelecidos pela instituição, de educação, em consonância com a avalia- tendo em vista a garantia da aprendizagem ção positiva dos usuários; ambiente escolar dos alunos; mecanismos adequados de in- adequado à realização de atividades de ensi- formação e de comunicação entre todos os no, lazer e recreação, práticas desportivas e segmentos da escola; gestão democrático- 11 -participativa, incluindo condições adminis- ca - relaciona-se ao perfil docente: titulação/ trativas, financeiras e pedagógicas; meca- qualificação adequada ao exercício profis- nismos de integração e de participação dos sional; vínculo efetivo de trabalho; dedica- diferentes grupos e pessoas nas atividades e ção a uma só escola; formas de ingresso e espaços escolares; perfil adequado do diri- condições de trabalho adequadas; valoriza- gente da escola, incluindo formação em ní- ção da experiência docente; progressão na vel superior, forma de provimento ao cargo carreira por meio da qualificação permanen- e experiência; projeto pedagógico coletivo te e outros requisitos; políticas de formação da escola que contemple os fins sociais e e valorização do pessoal docente: plano de pedagógicos da mesma, a atuação e autono- carreira, incentivos, benefícios; definição da mia escolar, as atividades pedagógicas e cur- relação alunos/docente adequada ao nível, riculares, os tempos e espaços de formação; ciclo ou etapa de escolarização; garantia de disponibilidade de docentes na escola para carga horária para a realização de atividades todas as atividades curriculares; definição de planejamento, estudo, reuniões pedagó- de programas curriculares relevantes aos gicas, atendimento a pais; ambiente profí- diferentes níveis, ciclos e etapas do proces- cuo ao estabelecimento de relações inter- so de aprendizagem; métodos pedagógicos pessoais que valorizem atitudes e práticas apropriados ao desenvolvimento dos conte- educativas que contribuam para a motiva- údos; processos avaliativos voltados para a ção e solidariedade no trabalho; e atenção/ identificação, monitoramento e solução dos atendimento aos alunos no ambiente esco- problemas de aprendizagem e para o desen- lar. volvimento da instituição escolar; tecnologias educacionais e recursos pedagógicos O plano do estudante - acesso, per- apropriados ao processo de aprendizagem; manência e desempenho escolar - refere-se planejamento e gestão coletiva do trabalho ao acesso e às condições de permanência, pedagógico; jornada escolar ampliada ou adequadas à diversidade socioeconômica e integrada, visando à garantia de espaços e cultural e à garantia de desempenho satisfa- tempos apropriados às atividades educati- tório dos estudantes; à consideração efetiva vas; mecanismos de participação do aluno da visão de qualidade que os pais e estudan- na escola; valoração adequada dos usuários tes têm da escola e que levam os estudantes no tocante aos serviços prestados pela esco- a valorarem-na positivamente; aos colegas la. e professores, bem como à aprendizagem e ao modo como aprendem, engajando-se no O plano do profissional da educação - processo educativo; aos processos avaliati- formação, profissionalização e ação pedagógi- vos centrados na melhoria das condições 12 de aprendizagem, permitindo a definição expansão e democratização da educa- de padrões adequados de qualidade educa- ção básica e superior deverão superar tiva e, focados, portanto, no desenvolvi- as assimetrias e desigualdades regio- mento dos estudantes; à percepção positiva nais que historicamente têm marcado dos alunos quanto ao processo de ensino- os processos expansionistas, sobretudo -aprendizagem, às condições educativas e à por meio de políticas de interiorização projeção de sucesso no tocante à trajetória e de educação do campo. As políticas de acadêmico-profissional. acesso deverão também articular-se às políticas afirmativas e de permanência Pensar a qualidade articulada à de- mocratização da educação é, portanto, um grande desafio. Segundo o documento da Conae/2014: “O Brasil tem como desafios educacionais ampliar e qualificar a educação em todos os níveis, etapas e modalidades. Na educação básica, a ampliação da oferta da educação de zero a três anos, a universalização da educação de quatro a 17 anos e a garantia de oferta das modalidades educativas devem ser objeto de ação planejada, coordenada, envolvendo os diferentes entes federados, em consonância com o PNE e demais políticas e planos decenais. No que diz respeito à educação superior, várias ações e políticas devem ser efetivadas, visando à ampliação e democratização do acesso a esse nível educacional, destacando-se a garantia de matrícula à população de 18 a 24 anos em instituições de ensino superior, de modo a ampliar (atingir mais de 30% de taxa líquida) e universalizar o acesso a esse nível de ensino (atingir mais de 50% de taxa líquida). A na educação básica e superior, garantindo que os segmentos menos favorecidos da sociedade possam realizar e concluir a formação com êxito e com alto padrão de qualidade. Para tanto, faz-se necessário assegurar processos de regulação, avaliação e supervisão da educação básica, em todas as etapas e modalidades, e dos cursos, programas e instituições superiores e tecnológicas, como garantia de que a formação será fator efetivo e decisivo no exercício da cidadania, na inserção no mundo do trabalho e na melhoria da qualidade de vida e ampliação da renda.Outro aspecto fundamental para a promoção e garantia da educação de qualidade é a avaliação, não apenas da aprendizagem, mas também dos fatores que a viabilizam, tais como: políticas, programas, ações, de modo que a avaliação da educação esteja embasada por uma concepção de avaliação formativa que considere os diferentes espaços e atores, envolvendo o desenvolvimento institucional e profissional, articulada com indicadores de qualidade. É preciso pensar em processos avaliativos mais 13 amplos, vinculados a projetos educa- cação nacional, isto é, ao mesmo tempo em tivos democráticos e emancipatórios, que é necessário expandir o acesso à educa- contrapondo-se à centralidade conferida ção, é preciso fazê-lo com qualidade. Temos, à avaliação como medida de resultado e portanto, como desafio, articular quanti- que se traduz em instrumento de con- dade e qualidade, ou seja, ampliar o acesso trole e competição institucional.” à educação básica e superior e melhorar a qualidade da educação que temos, o que im- CONSIDERAÇÕES FINAIS plica fomentar, expandir e promover a qualidade da educação em todos os níveis, etapas Ao longo do texto discorremos sobre e modalidades; garantir projetos pedagógi- a relação entre educação e qualidade, identificamos dimensões intra e extra escolares e buscamos articular essa discussão à democratização e a um novo patamar para a reflexão da avaliação. Esses desafios se impõem à agenda da edu- cos que contribuam “Temos, portanto, como desafio, articular quantidade e qualidade, ou seja, ampliar o acesso à educação básica e superior e melhorar a qualidade da educação (...)” para a permanência dos estudantes com qualidade na aprendizagem e instituir um subsistema de avaliação que seja indutor de desenvolvimento das instituições educativas. REFERÊNCIAS BRASIL. CONAE 2014. Conferência Nacional de Educação: Documento-Referência. FNE: Brasília: Ministério da Educação, SEA, 2013. DOURADO, L. F.; OLIVEIRA, J. F.; SANTOS, C. A. A qualidade da educação: conceitos e definições. Série Documental: Textos para Discussão, Brasília, DF, v. 24, n. 22, p. 5-34, 2007. DOURADO, L.F .; OLIVEIRA, J. F. A qualidade da educação: perspectivas e desafios. Caderno CEDES, 2009, v. 29, n. 78, p. 201-15. 14 texto 2 A Qualidade da Educação Superior Edward Madureira Brasil1 RESUMO tores da sociedade para discutir a atuação da Universidade – e isso, os reitores das uni- O artigo discute a qualidade da edu- versidades federais o fazem constantemen- cação superior, explicitando a vivência de te – ouvimos as mais diversas avaliações e um reitor de uma universidade federal bra- sugestões de como a instituição atuou ou sileira, em constante processo de interação deveria atuar. Em geral, mesmo que a temá- com diversos setores da sociedade. O estu- tica em discussão não seja a qualidade da do constata a complexidade das demandas instituição, esses diversos setores da socie- apresentadas à Universidade, o que implica dade, direta ou indiretamente, emitem as grande dificuldade para atender, simultâ- suas visões sobre a qualidade institucional. nea e completamente, a todas as reivindica- Nessas diversas ocasiões, saltam aos olhos çãoes dos diversos setores sociais e conclui o fato de que, em geral, os setores da socie- com a apresentação de alguns indicadores dade expressam alguma insatisfação com as que podem aferir a qualidade da educação ações que a Universidade desenvolve. Ilus- superior. traremos essas ocasiões com alguns exem- plos de situações vivenciadas em reuniões A COMPLEXA QUALIDADE DA EDUCAÇÃO SUPERIOR com empresários, governantes e lideranças Existe uma complexidade intrínseca científicas. Se estivermos reunidos com um gru- à discussão sobre a qualidade da educação po de empresários, não raro escutamos que superior, pois não há uma qualidade abso- a Universidade deveria formar seus estudan- luta nesse nível educacional (CRUB, 1996). tes preparando-os melhor para satisfazer as Quando nos reunimos com os diversos se- necessidades das empresas no desempenho de suas atividades. 1 Reitor da UFG, Vice-Presidente da ANDIFES. Doutor em Agronomia pela UFG. 15 Em reuniões com governantes, em Além disso, o ambiente universitá- âmbito estadual ou municipal, eles esperam rio, ao desenvolver suas atividades de en- que os formandos já possuam habilidades sino, pesquisa e extensão, deve respeitar a para aplicar os conhecimentos teóricos às diversidade existente na sociedade e a plura- necessidades da população, encontrando lidade de ideias, o que aumenta ainda mais soluções para os problemas sociais existen- a sua dificuldade para estabelecer, em seus tes. Conselhos e Fóruns de discussões, os “pilares” da qualidade institucional. Em reuniões com lideranças de labo- ratórios e centros de pesquisa – externos à INDICADORES DE QUALIDADE Universidade – há, sempre, a reivindicação de que os estudantes formados possuam forte base teórica para integrar grupos de vidade, são diversos os indicadores que po- Entretanto, em meio a tanta subjeti- pesquisa já estruturados e contribuir, com criatividade, nos estudos desenvolvidos. Percebe-se, por- tanto, que as avaliações permeiam os mais diversos campos de atuação estruturados na sociedade, o que nos impede de conseguir atender, integralmen- dem dar uma sinaliza- “O ambiente universitário, ao desenvolver suas atividades de ensino, pesquisa e extensão, deve respeitar a diversidade existente na sociedade e a pluralidade de ideias (...)” ção sobre a qualidade da educação superior e que são quase consensuais no ambiente acadêmico (AMARAL, 2013): - existe uma relação entre titulação dos professores e qualidade institucional na educação superior. Dessa te, a todos eles, (CRUB, forma, os indicadores 1996). É certo que se a de qualidade seriam o Universidade formar um profissional que sa- percentual de docentes que possuem a ti- tisfaça completamente os anseios dos em- tulação de mestres, junto ao percentual dos presários, estará gerando total desconten- que possuem a de doutores; tamento entre os líderes de laboratórios e centros de pesquisa, e vice-versa. - sinaliza melhores condições para que as atividades institucionais sejam realizadas com maior qualidade mediante o percen- 16 tual de docentes que trabalham em tempo ma, o conceito Capes constitui-se também integral – este seria um outro indicador de em um importante indicador da qualidade qualidade; da educação superior. - o percentual dos trabalhadores dos setores técnicos e administrativos da instituição, grande quantitativo de indicadores que se que possuam titulação como especialistas, relacionariam a diversos ângulos das insti- mestres ou doutores, é um outro indicador tuições e que poderiam indicar aspectos re- de que uma instituição possui mais qualida- lativos à qualidade institucional (BERTOLIN, de que outra; 2013): o valor dos recursos financeiros, por Seria possível, ainda, elencar um estudante em idade educacional de 18 a 24 - os programas de pós-graduação stricto anos, tecendo comparações com diversos sensu constituem um elo importante entre países; o valor dos recursos financeiros apli- a instituição e o desenvolvimento de seus cados no desenvolvimento da ciência, tecno- projetos de pesquisa, que “fluem” por meio logia e inovação; o percentual de recursos fi- dos orientadores e de seus orientandos; nanceiros aplicados nas instituições, que se além disso, os projetos de pesquisa formam dirijam às despesas correntes e investimen- um elo forte entre as instituições e suas ati- tos, em relação à folha de pagamento de vidades de extensão – daí a constituição de pessoal e encargos sociais; o número de pro- uma sólida base para o tripé ensino, pesqui- jetos de pesquisa e atividades de extensão sa e extensão. Um indicador a ser examina- que possuam ligações institucionais com o do que pode indicar qualidade institucional mundo do trabalho; o percentual do quadro nesse tripé é o percentual de alunos da ins- docente que participa de eventos interna- tituição que se encontram matriculados no cionais, tanto no país quanto no interior; mestrado ou doutorado; o percentual de estudantes que participam de programas assinados com as instituições - um indicador interligado com o anterior e estrangeiras; e o percentual de recursos ins- que já está estabilizado no Brasil, possuin- titucionais aplicados em tecnologias da in- do grande credibilidade acadêmica, é o con- formação e comunicação etc. ceito Capes da pós-graduação stricto sensu, que é constituído por uma série de informações, presentes em cinco quesitos: Proposta do Programa; Corpo Docente; Corpo Discente; Teses e Dissertações; Produção Intelectual; e Inserção Social e Relevância. Dessa for- 17 CONSIDERAÇÕES FINAIS: COMO ANALISAR O COMPORTAMENTO DA QUALIDADE DA EDUCAÇÃO SUPERIOR? Um outro complicador nesse contex- to é o fato de que nas pesquisas realizadas em nível superior discutem-se os problemas propostos na fronteira do conhecimento e que, para estes, exatamente por constituí- Considerando que há uma grande rem o desconhecido, não se podem estabe- subjetividade quando se discute a qualidade lecer, de forma absoluta, padrões de quali- da educação superior, há ainda que se definir dade. uma metodologia que consiga examinar se, num determinado período de sua história, houve ampliação ou diminuição no nível de qualidade das instituições. Acreditamos que não existirá uma metodologia que consiga, na educação superior, responder plenamente a esta questão – a diversidade de visões sobre o que é qualidade nesse nível educacional justifica esta posição extremada. Dessa forma, devemos trabalhar para construir uma metodologia com indicadores quantitativos e qualitativos, constituídos de forma discutida e “consensual” no meio acadêmico, que possam indicar um determinado nível de qualidade e, além disso, permitir a inferência de comparação de qualidade entre as diversas instituições de educação superior. REFERÊNCIAS AMARAL, N. C. Os recursos financeiros aplicados nas universidades federais nos governos FHC e LULA e um olhar sobre a qualidade. No prelo, 2013. BERTOLIN, J. C. G. Indicadores em Nível de Sistema para Avaliar o Desenvolvimento e a Qualidade da Educação Superior Brasileira. Avaliação – Revista de Avaliação da educação Superior. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/aval/v12n2/a07v12n2.pdf>. Acesso em 22 mai. 2013. CRUB. Avaliação Externa da Qualidade do Ensino Superior. Série Estudos e Debates. Brasília-DF, 1996. 18 texto 3 Da Educação Básica: expansão e melhoria da qualidade Karine Nunes de Moraes1 A garantia do direito à educação de a essa educação. Na sociedade contemporâ- qualidade é um princípio fundamental e nea isso se expressa, se forem consideradas deve ser balizadora para as políticas e gestão as suas transformações mais prementes, as da educação, seus processos de organização reformas e políticas educacionais das últi- e regulação e regulamentação. Tomar a edu- mas décadas e, ainda, os programas e proje- cação como uma prática social, intrinseca- tos político-pedagógicos definidos e imple- mente articulada às relações sociais mais mentados nos diferentes sistemas de ensino amplas, significa compreendê-la como bem e instituições educacionais do país. público e direito social. Ou seja, é reconhecer que a educação está diretamente vincu- Dada a envergadura dos desafios lada ao projeto de sociedade, relacionando- para a garantia de uma educação de quali- -se com o modo pelo qual se processam as dade social a todos(as), como um direito de relações sociais, produto dos confrontos e cidadania universal, fundamental e inaliená- acordos dos grupos e classes que dão con- vel, seu enfrentamento deve ser fruto de es- cretude ao tecido social em cada realidade. forços coletivos planejados e coordenados, Desse modo, podemos inferir que a designa- envolvendo a articulação de todos os entes ção quanto à sua “qualidade” é carregada de federados e de seus respectivos sistemas de sentido e situada histórica e socialmente. ensino. Contudo, não podemos perder de vista as obrigações e garantias do Estado Segundo Silva e Moraes (2007), as para com a oferta de uma educação públi- concepções e as representações sobre o que ca, gratuita, obrigatória e de qualidade so- seja uma educação de qualidade alteram-se cial para todos, o que significa tratá-la como no tempo e no espaço, assim como as po- bem público e direito social. líticas e ações que visam produzir o acesso 1 Professora Adjunta da Faculdade de Educação, da Universidade Federal de Goiás. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco. Membro do Núcleo de Estudos e Documentação Educação, Sociedade e Cultura/FE/UFG. 19 O dever do Estado com a educação, de da autoridade competente. § 3o - Compe- segundo o art. 208 da CF/1988, será efetivado te ao Poder Público recensear os educandos mediante a garantia de: I - educação básica no ensino fundamental, fazer-lhes a chama- obrigatória e gratuita dos quatro aos 17 anos da e zelar, junto aos pais ou responsáveis, de idade, assegurada inclusive sua oferta pela frequência à escola. gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria; (EC no 59/2009); A qualidade do ensino consiste em II - progressiva universalização do ensino um conceito que se modifica com as trans- médio gratuito; (EC no 14/1996); III - aten- formações da sociedade e a emergência de educacional novas necessidades. Se- especializado aos por- gundo a Unesco (2007), dimento tadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; IV - educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até cinco anos de idade (EC no 53/2006); V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade “A discussão sobre qualidade da educação implica o mapeamento dos diversos elementos necessários para qualificar, avaliar e precisar a natureza, as propriedades e os atributos desejáveis ao processo educativo (...)” a qualidade da educação é um conceito com grande diversidade de significados, com frequência não coincidente entre os diferentes atores, porque implica um juízo de valor concernente ao tipo de educação que se queira para formar um ideal de pessoa e de socieda- de cada um; VI - oferta de. E completa dizendo de ensino noturno re- que: gular, adequado às condições do educando; VII - atendimento ao educando, em todas as As qualidades que se exigem do ensino etapas da educação básica, por meio de pro- estão condicionadas por fatores ideoló- gramas suplementares de material didático gicos e políticos, pelos sentidos que se escolar, transporte, alimentação e assistên- atribuem à educação num momento cia à saúde (EC no 59/2009); § 1o - O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo. § 2o - O não oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público ou sua oferta irregular importa responsabilida- dado e em uma sociedade concreta, pelas diferentes concepções sobre o desenvolvimento humano e a aprendizagem, ou pelos valores predominantes em uma determinada cultura. Esses fatores são 20 dinâmicos e mutantes, razão por que a Assim, garantir a melhoria da qua- definição de uma educação de qualidade lidade à educação é um objetivo que deve também vaira em diferentes períodos, ser buscado constante e incessantemente. de uma sociedade para outra e de al- Segundo Silva, Oliveira e Loureiro (2009), en- guns grupos ou indivíduos para outros. volve a identificação e análise constantes: (UNESCO, 2007, p. 29) a) da dimensão socioeconômica e cultural A discussão sobre qualidade da edu- dos entes envolvidos; cação implica o mapeamento dos diversos elementos necessários para qualificar, ava- b) do papel do Estado e suas obrigações na liar e precisar a natureza, as propriedades e garantia dos direitos à educação pública, os atributos desejáveis ao processo educati- gratuita e de qualidade; vo, tendo em vista a produção, a organização, a gestão e a disseminação de saberes c) dos fatores inerentes às condições de e conhecimentos fundamentais ao exercício oferta do ensino que mais interferem no da cidadania e a melhoria do processo en- processo de construção de uma educação sino-aprendizagem dos estudantes. Segundo de qualidade; 21 Dourado (2007, p. 940): d) dos elementos relativos à gestão e organiO conceito de qualidade (...) não pode ser zação do trabalho escolar; reduzido a rendimento escolar, nem tomado como referência para o estabele- e) das políticas e ações de formação inicial cimento de mero ranking entre as insti- e continuada, profissionalização e ação pe- tuições de ensino. Assim, uma educação dagógica do docente em cada sistema de com qualidade social é caracterizada por ensino, por nível, etapa e modalidade da um conjunto de fatores intra e extra-es- educação; colares que se referem às condições de vida dos alunos e de suas famílias, ao seu f) das condições de acesso, permanência e contexto social, cultural e econômico e desempenho escolar e suas vinculações com à própria escola – professores, diretores, a qualidade da educação. projeto pedagógico, recursos, instalações, estrutura organizacional, ambien- A garantia de uma educação de qua- te escolar e relações intersubjetivas no lidade e a ampliação e democratização do cotidiano escolar. acesso a todos(as) os(as) brasileiros(as) se apresenta, ainda, como um direito ainda em processo de consolidação. Dentre os desa- Sistema Nacional de Avaliação da Educação fios a serem superados, considerando, prin- Básica como fonte de informação para a cipalmente, a população entre 04 e 17 anos, avaliação da qualidade da educação básica e o Documento-Referência da Conae/ 2014 para a orientação das políticas educacionais apresenta como metas e/ou proposições: do Estado brasileiro e respectivos sistemas de ensino; a) democratização do acesso: universalizar a Educação Básica de 04 a 17 anos; ampliar a d) condições de participação: criação de me- oferta da educação de crianças de 0 a 3 anos; canismos de participação colegiada nas ins- universalizar, preferencialmente na rede re- tituições educativas; garantir a participação gular de ensino, o atendimento escolar aos da comunidade escolar e local nas ativida- alunos e alunas com deficiência, transtor- des de planejamento pedagógico e nas dinâ- nos globais do desenvolvimento e altas ha- micas de avaliação do projeto pedagógico e bilidades ou superdotação, assegurado o do trabalho escolar; estimular a participa- atendimento educacional; ampliar a taxa de ção da família na vida escolar dos estudan- matrícula bruta e líquida no Ensino Médio; tes; garantir piso salarial, plano de carreira e realização de concursos públicos para os b) permanência: promover a oferta de edu- profissionais da educação; tempo remunera- cação básica pública em tempo integral; do de trabalho para o desenvolvimento das garantir a oferta de diferentes modalidades atividades de planejamento e orientação educativas e formas organizativas do ensino, extra-classe; de modo a atender a população também em suas singularidades e especificidades; insti- e) aprendizagem: elevar as taxas de alfabeti- tuir currículos adequados às especificidades zação e de escolaridade média da população dos educandos; produção e disponibilização brasileira; garantir alfabetização de todas de material didático, desenvolvimento de as crianças nos três anos iniciais do ensino currículos e metodologias específicos para fundamental; elevar a escolaridade média cada etapa e/ou modalidade da educação da população de 18 a 29 anos, de modo a básica; alcançar o mínimo de 12 anos de estudo; igualar a escolaridade média entre negros e c) avaliação: estabelecer padrões de quali- não negros declarados ao IBGE; garantir es- dade da educação em todos os níveis, eta- paços, tempos e materiais didático-pedagó- pas e modalidades; desenvolver indicadores gicos apropriados às atividades educativas; e mecanismos específicos de avaliação da garantir profissionais habilitados/as para o qualidade para a educação básica; criar um exercício do magistério e demais funções 22 nas instituições educativas; promover for- meio de provas estandardizadas, mas uma mação inicial e continuada de profissionais capaz de favorecer a análise do desenvolvi- da educação das redes públicas mento e da apreensão dos saberes científicos, artísticos, tecnológicos, sociais e histó- Para a efetivação do direito à educa- ricos, compreendendo as necessidades do ção de qualidade social se faz imprescindível mundo do trabalho, os elementos materiais o financiamento adequado, em cada um dos e a subjetividade humana (BRASIL, 2013, p. seus respectivos níveis, etapas e modalida- 94). Nesse sentido, a avaliação é parte cons- des. O Documento-Referência da Conae 2014 tituinte e constitutiva do processo. aponta como horizonte o estabelecimento de um custo aluno-qualidade inicial, basea- O cenário atual de expansão da edu- do no inciso IX do artigo quarto da LDB, que cação básica torna imprescindível a criação determina a vigência de “padrões mínimos de um Sistema Nacional de Educação visan- de qualidade de ensino, definidos como a va- do à articulação dos entes federados e de- riedade e quantidade mínimas, por aluno, de mais setores da sociedade civil para a oferta insumos indispensáveis ao desenvolvimento de uma educação básica de melhor quali- do processo de ensino-aprendizagem. dade social. Também sinaliza para a neces- É necessária a vinculação de recur- sidade da criação de um Sistema Nacional sos financeiros suficientes para a implanta- de Avaliação da Educação Básica de modo a ção de políticas, programas e ações capazes assegurar a constante melhoria de sua qua- de elevar a qualidade da educação, expandi- lidade, contemplando todos os estudantes -la e promover a redução das assimetrias brasileiros, independentemente da região, educacionais entre as regiões, estados e estado, cidade e/ou sistema de ensino em respectivos sistemas de ensino, bem como que estejam matriculados. Neste sentido, para o cumprimento das metas dos planos a participação da sociedade brasileira neste nacionais, estaduais, distrital e municipais momento de discussão do Plano Nacional de de educação. Educação e de realização das Conferências municipais, estaduais, distrital, intermunici- A melhoria da qualidade social da pais, livres preparatórias para a Conferência educação e sua democratização também im- Nacional de Educação – Conae/2014 – é im- plicam constantes processos de avaliação. prescindível à garantia de uma educação de Não a avaliação compreendida no sentido qualidade, assegurando a democratização estrito da análise de resultados de desempe- do acesso, permanência, avaliação, condi- nho dos estudantes, instituições educacio- ções de participação e aprendizagem. nais e/ou sistemas de ensino medidos por 23 REFERÊNCIAS BRASIL. CONAE 2014. Conferência Nacional de Educação: Documento-Referência. FNE: Brasília: Ministério da Educação, SEA, 2013. DOURADO, Luiz Fernandes. Políticas e gestão da educação básica no Brasil: limites e perspectivas. Educação e Sociedade, Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 921-946, out. 2007. DOURADO, L. F.; OLIVEIRA, J.F.; SANTOS, C.A. A qualidade da educação: conceitos e definições. Série Documental: Textos para Discussão, Brasília, DF, v. 24, n. 22, p. 5-34, 2007. SILVA, A. F.; OLIVEIRA, J. F.; LOUREIRO, W. N. (Orgs). A qualidade da educação municipal: sistemas e escolas em Goiás. São Paulo: Xamã, 2009, p. 273. UNESCO. Educação de qualidade para todos: um assunto de direitos humanos. Brasília: Unesco, Orealc, 2007. 24 SILVA, A. F.; MORAES, K. N. A qualidade na educacao basica municipal: os sistemas de ensino e as escolas municipais - reflexões preliminares de uma pesquisa. Anais do 23o Simpósio Brasilerio de Política e Administração da Educação, V Congresso Luso-Brasileiro e Colóquio Ibero-Americano de Política e Administração, da Associação Nacional de Política e Administração da Educação (Anpae). Cadernos Anpae n 4, 2007, ISSN 1677-3802. Disponível em: http://www.anpae.org.br/congressos_antigos/simposio2007/32.pdf Presidência da República Ministério da Educação Secretaria de Educação Básica TV ESCOLA/ SALTO PARA O FUTURO Supervisão Pedagógica Rosa Helena Mendonça Acompanhamento pedagógico Soraia Bruno Coordenação de Utilização e Avaliação Mônica Mufarrej Fernanda Braga Copidesque e Revisão Milena Campos Eich Diagramação e Editoração Bruno Nin Valeska Mendes Consultora especialmente convidada Karine Nunes de Moraes Coordenação de Conteúdo das Unidades 13 a 19 (referentes à CONAE 2014) Luiz Fernandes Dourado E-mail: [email protected] Home page: www.tvbrasil.org.br/salto Rua da Relação, 18, 4o andar – Centro. CEP: 20231-110 – Rio de Janeiro (RJ) Setembro 2013 25