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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO”
VERÔNICA MARIA ALVES LIMA
As consequências das relações socioculturais no jornalismo da revista Ocas
Bauru
2011
2
VERÔNICA MARIA ALVES LIMA
As consequências das relações socioculturais no jornalismo da revista Ocas
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em
Comunicação, Área de concentração: Comunicação Midiática,
Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da
Universidade Estadual Paulista, campus de Bauru, para a
obtenção do título de Mestre em Comunicação.
Orientador: prof. Dr. Maximiliano Martin Vicente
Bauru
2011
3
Verônica Maria Alves Lima
Programa de Pós-Graduação em Comunicação/ FAAC-UNESP
Área de Concentração: Comunicação Midiática
Linha de Pesquisa: Processos Midiáticos e Práticas Socioculturais
Banca Examinadora
_____________________________
Presidente: Maximiliano Martin Vicente
Instituição: FAAC/UNESP – Bauru/SP
_____________________________
Titular: Mauro de Souza Ventura
Instituição: FAAC/UNESP – Bauru/SP
______________________________
Titular: Emilio Sáez Soro
Instituição: Universitat Jaume I/Espanha
4
Dedico este trabalho às pessoas que encontram apenas nas ruas um refúgio para vida.
5
AGRADECIMENTOS
Primeiramente, agradeço a Deus e a minha família. Em especial àqueles que são minha base:
Aulizete e Assis, meus pais, e minha irmã Fernanda. Obrigada por me ensinarem a amar.
Ao meu orientador, Maximiliano Martin Vicente, que me acompanha desde os primeiros
passos na graduação. Obrigada pela paciência, pelo exemplo de profissional, por me ensinar a
autonomia, por entender os meus atrasos, por me passar tranquilidade, por acreditar em mim e
em meu trabalho. Você será para sempre uma inspiração em minha vida.
A Cláudio Bongiovani, ex-vendedor da revista Ocas, que me apresentou o projeto e se tornou
um grande amigo, exemplo de carisma e vida. Mesmo distante, sempre será lembrado com
muito carinho e admiração por mim.
Aos queridos Lilian e Antonio, por partilharem o cotidiano e a vida e por serem
compreensivos. Aos outros amigos que, de alguma, forma também acompanharam e/ou
contribuíram com este trabalho: Alessandra, André, Cláudio, Emilla, Graciane, Kelly, Luana,
Luiz Marcos, Pedro, Silvia.
Aos amigos que passaram e aos que ficaram na minha vida, de tantos lugares, obrigada por
partilharem momentos e por me ensinarem tanto.
Aos funcionários da Seção de Pós-Graduação da FAAC/Unesp, em nome dos quais agradeço
a todos os servidores da Unesp que de forma direta ou indireta contribuíram com minha
formação.
Finalmente à Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e à
Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), agências financiadoras
desta pesquisa.
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RESUMO
Esta dissertação tem por finalidade discutir a configuração jornalística da revista Ocas, e suas
imbricações com as relações sociais que delineiam o projeto social que a sustenta, a
Organização Civil de Ação Social (OCAS). Para atingir tal objetivo a dissertação parte do
estudo da configuração do espaço urbano e as contradições e tensões inerentes ao seu
desenvolvimento, buscando pontuar o papel da comunicação nesse contexto e a sua relação
com as principais características do fenômeno da urbanização. Em seguida, são apresentadas
as principais discussões em torno da conceituação de experiências comunicativas que se
pretendem críticas ou “alternativas” no contexto social na contemporaneidade, buscando
localizar, dentre os vários conceitos apresentados, o objeto deste estudo. Por fim, utilizandose os recursos metodológicos da análise de conteúdo, complementada pela análise de
enquadramento, são analisadas duas seções específicas da revista Ocas – as reportagens de
capa e a seção ‘Cabeça sem teto’ – nas edições que circularam nos anos de 2009 e 2010. A
partir da leitura e descrição dos textos analisados, este estudo faz uma caracterização da
prática jornalística em questão, revelando as estratégias que a publicação utiliza para
estruturar sua atuação social, cujo principal objetivo é oferecer à população em situação de
rua e/ou risco social possibilidades de obtenção de renda e superação da exclusão, além de
configurar uma forma de visibilidade para tal conjuntura.
Palavras-chave: Comunicação alternativa. Exclusão social. Revista Ocas. Urbanização.
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ABSTRACT
This dissertation aims to discuss the journalistic settings in Ocas magazine and its connections
with the social relations that shape the social project which supports it – the Civil
Organization for Social Action (OCAS). To achieve this goal, we study the urban space
configuration and the contradictions and tensions inherent to its development, in order to
measure the role of communications in this context and its relations to the main features of the
urbanization phenomenon. Then, we present the main discussions on publications that have
experienced a kind communication based on criticism, also named "alternative", in the
contemporary social context, to define, among the many concepts presented, this object of
study. Eventually, using the content analysis methodology, complemented by the framework
analysis, two specific sections of Ocas magazine are analyzed – the cover stories and that one
named 'Cabeça sem teto' ('Homeless Head', in a free translation) – throughout the editions that
circulated in 2009 and 2010. From the reading and description of the texts analyzed, this
study presents a characterization of the journalistic practices found on them, showing the
strategies that the publication uses for structuring its social performance. Its main goal is to
offer, to the homeless people and/or people at social risk, opportunities to obtain incomes,
overcome exclusion and raise visibility to their situation.
Keywords: Alternative communications. Social exclusion. Ocas magazine. Urbanization.
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SUMÁRIO
1 Introdução
2 A revista Ocas e o contexto da urbanização
2.1 A urbanização como exclusão social
2.2 A pobreza nas grandes cidades
2.3 Intervenções urbanas: sujeitos, movimentos sociais e comunicação
2.4 Movimentos sociais urbanos a partir década de 90
2.5 As metrópoles e seus códigos
2.6 O projeto social – OCAS
2.6.1 Histórico e origem
2.6.2 Estrutura da revista
2.6.3 “Capa” e “Cabeça sem teto”: as seções estudadas
2.7 Considerações sobre o capítulo
3 Comunicação alternativa: discussões e aproximações com a revista Ocas
3.1 As controvérsias em torno do termo “alternativo”
3.2 Correntes tradicionais e contemporâneas no estudo da comunicação
alternativa
3.3 As novas faces do conceito “alternativo”: comunicação e sociedade no
século XXI
3.4 O projeto OCAS e a apropriação do jornalismo
3.5 Considerações sobre o capítulo
4 Estudo do jornalismo praticado na revista Ocas
4.1 A revista Ocas como objeto de estudo
4.2 Análise de Conteúdo
4.2.1 Organização, análise e interpretação dos dados
4.3 Análise de Enquadramento: metodologia complementar
4.4 Unidades de registro na amostragem estudada
4.5 Jornalismo: configurações contemporâneas
4.6 Peculiaridades da revista Ocas: contexto de estudo
4.7 Categorias analíticas
4.7.1 Consciência Cultural
4.7.2 “Saindo das Ruas”
4.7.3 A ‘voz’ do jornalismo na revista Ocas
4.7.4 Vozes contra a exclusão
4.8 Considerações sobre o capítulo: o jornalismo da revista Ocas
5 Considerações finais
6 Referências
Apêndice: Descrição do material – observação para análise
Anexos
8
12
12
18
22
27
30
35
37
38
41
41
43
43
46
52
57
63
65
65
66
67
72
74
76
80
83
83
86
89
93
96
98
101
106
132
8
1 Introdução
Partindo da ideia inicial de pesquisar um produto jornalístico de configurações
‘diferenciadas’ no interior da sociedade contemporânea, este estudo buscou elucidar as
implicações resultantes dos processos socioculturais de um projeto social para a conformação
de tais configurações que determinam o caráter específico do objeto de estudos. Para isso, esta
dissertação se estruturou de forma a permitir um percurso teórico-descritivo condizente com a
intenção de se compreender as implicações entre as relações societárias e o próprio sentido
requerido pela revista estudada no interior da sociedade.
Desse modo, o primeiro capítulo deste trabalho se dedica à discussão sobre as relações
entre
comunicação,
urbanização
e
movimentos
reivindicatórios
no
contexto
do
desenvolvimento urbano. Entende-se que tal questão se caracteriza como indispensável para a
contextualização do objeto de estudos desta pesquisa, tendo em vista o seu vínculo com a
latente questão da desigualdade e exclusão sociais na dinâmica das grandes cidades. Nesta
primeira parte da dissertação, também é feita uma descrição geral da revista estudada, com o
objetivo de apresentar suas principais características.
A partir de tal apresentação estrutural da revista, o segundo capítulo introduz a
discussão do conceito “alternativo” para designar experiências comunicativas, em especial o
jornalismo. A intenção do capítulo é, justamente, buscar uma possível caracterização da
revista Ocas no contexto das controvérsias em torno da discussão do conceito no que se refere
aos estudos comunicacionais, apontando as características da revista que a aproximam ou não
das discussões contemporâneas sobre a comunicação alternativa.
O terceiro e último capítulo se detém à discussão e análise específica sobre o
jornalismo praticado na publicação a partir das configurações contemporâneas da prática
jornalística e sua significação na construção das realidades apreendidas no cotidiano. Nesta
última parte também são apresentadas as metodologias que nortearam o estudo, bem como os
resultados das análises realizadas, à luz das reflexões teóricas apresentadas ao longo de todo o
trabalho.
O cenário delineado por esta dissertação tem como pano de fundo, portanto, a ideia de
que não é possível apreender as configurações da sociedade contemporânea sem se considerar
as características que a comunicação assume na dinâmica da sociedade, bem como as
peculiaridades que o contexto da comunicação – tal como se configura na contemporaneidade
– confere às sociabilidades. Essa afirmação é guiada em sua essência pelos estudos que
apontam a centralidade da comunicação como imperativo decisivo na atualidade, no que se
refere às relações entre sujeitos e instituições, como apontam Martino (2007) e Sodré (2010 e
9
2006). Pensar a comunicação na sociedade atual é pensar na própria constituição societária. O
estatuto comunicativo não se restringe aos meios de comunicação enquanto difusores de
informações, mas amplia-se para o conceito de mediações engendradas pela comunicação
com base nos dispositivos tecnológicos que pautam a natureza comunicativa na atualidade
(SANTOS, 1982, 1993; MARTÍN-BARBERO, 2006).
A conjuntura se torna ainda mais complexa quando se consideram as dimensões
socioeconômicas que também costuram o tecido social na atualidade. A cada dia mais as
relações capitalistas se ampliam sobre bases conceituais que determinam a naturalização de
situações de pobreza, exclusão e ampla desigualdade sociais, inversão de valores éticos – ao
transferir unicamente para o consumo as lógicas relacionais da sociedade, redução de
perspectivas de mudança social, entre outras características que delineiam um cenário nefasto
que fragiliza as relações sociais e a própria construção dos sujeitos sociais.
O fenômeno da urbanização parece abarcar todo esse contexto, em suas características
mais latentes, tendo em vista a dinâmica que se estabelece em seu desenvolvimento
(GOTTDIENER, 1997). Ao mesmo tempo em que concentra o que é possível denominar
“novidades” da realidade urbana, em sua maioria atreladas aos dispositivos tecnológicos, o
ambiente das metrópoles e grandes cidades são os que mais revelam a contradição do
movimento de expansão capitalista, com seus problemas estruturais e sociais. Na metrópole,
são superlativas as consequências do desenvolvimento cujo objetivo final é sempre e
unicamente a obtenção de lucros; quais sejam, a exclusão social, a desintegração da dimensão
coletiva da sociabilidade, o esvaziamento da cidadania como parâmetro social, o preconceito
contra outras formas de organização social que não estimulem o consumo e o lucro como
formas de conferir sentido às sociabilidades.
Essas características se codificam na sociedade por meio de aparatos simbólicos que,
para além de fazerem parte do cotidiano das pessoas, passam a ser centrais na constituição das
subjetividades e estruturas sociais (TOURAINE, 2009; SODRÉ, 2001). E é através dessa
estratégia simbólica que os problemas inerentes à forma de produção capitalista descritos
acima são naturalizados (JAGUARIBE, 2007; SOUZA, 2006).
Nesse contexto, a atuação de movimentos sociais e iniciativas similares de ação na
sociedade se deparam com a necessidade estratégica e conceitual de considerar as
experiências comunicativas em suas trajetórias. Assim como se transformam as possibilidades
de questionamento das estruturas sociais e das atuações das instituições tradicionais, em
especial o Estado, na sociedade (GOHN, 2007), também se modificam as configurações
comunicativas que visam atuar no combate aos problemas sociais (PERUZZO, 1998, 2006).
10
Reconfigura-se, hoje, as formas da chamada comunicação alternativa, mesmo porque
também se modifica atualmente a ideia de contra-hegemonia e de movimento social. Por isso,
é importante se considerar as abordagens contemporâneas para o conceito de comunicação
alternativa, a fim de explicitar as nuanças que a diferenciem de abordagens anteriores da
mesma prática, mas principalmente por definirem a comunicação alternativa a partir das
características que norteiam as relações sociais (e comunicativas) contemporâneas, como por
exemplo, a naturalização das relações de consumo, que oferecem o risco de instrumentalizar
as experiências alternativas. Dentre as diversas abordagens possíveis, destaca-se neste
trabalho as reflexões de Paiva (2007, 2008), Dornelles (2007), Kaplún (2007), Amaral Filho
(2008), Martín-Barbero (2003), Sodré (2005, 2008).
O vínculo entre os sujeitos e as formas de expressão comunicativas se torna cada vez
mais importante na definição dessas novas formas de atuação alternativa. Por isso, a dimensão
comunitária também é evocada quando se fala de comunicação alternativa. Em face dos
ditames do chamado ‘globalitarismo’ (SANTOS, 2001), as características que ligam os
sujeitos aos seus territórios de atuação, ou seja, as mediações simbólico-comunicacionais
decisivas para as subjetividades em relação em determinados espaços, assumem um papel
fundamental por delinearem as brechas possíveis de superações de problemas advindos das
contradições capitalistas.
Nessa perspectiva, inspirada e complementada com as reflexões que apontam para
inevitabilidade da existência de tais brechas na dinâmica capitalista (MESZÁROS, 2009;
BRITTOS, 2010), é que se localiza o objeto de estudos desta dissertação, a revista Ocas, que
busca ser uma alternativa de renda para a população em situação de risco social. As
configurações que a publicação assume enquanto produto simbólico no interior da sociedade,
e sua projeção no ambiente urbano com o qual se relaciona e onde circula, parecem ser
reveladoras da importância que a comunicação assume no contexto do desenvolvimento
contemporâneo,
não
apenas
por
suas
contribuições
e
engendramentos
para
tal
desenvolvimento, mas também para o questionamento dos rumos que a sociedade atual tem
tomado.
A partir desta visão, a apreensão do objeto desta pesquisa por meio de metodologias
de abordagem qualitativa e quantitativa – análises de conteúdo e enquadramento (BARDIN,
2008; PORTO, 2004; SOARES, 2006) – se justificam, justamente por contribuírem para um
olhar específico e detalhado para o exemplo em questão, mas sem restringi-lo a números e
permitindo que se faça interpretações e inferências qualitativas à luz da bibliografia
selecionada. Para tal feito, foram escolhidas duas seções emblemáticas da revista estudada: a
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matéria de capa, cujas abordagens são responsáveis pelo que podemos chamar de “identidade”
do projeto social que dá origem ao produto editorial, e a seção “Cabeça sem teto”, que se
dedica a expressar e refletir sobre a situação de risco social que acomete milhares de pessoas
nas grandes cidades.
O jornalismo, entendido como a atividade por excelência na qual se constrói a
realidade mediada pela tecnologia (meios de comunicação), sobretudo no que tange às ideias
sobre as relações societárias entre sujeitos e instituições, se caracteriza por ainda cultivar
valores e conceitos não condizentes com a complexidade cada vez mais latente na sociedade.
Por seu papel central na disputa simbólica que se trava cotidianamente, sobretudo nos
contextos dos grandes centros urbanos, a prática jornalística também é apropriada por grupos
que se pretendem contra-hegemônicos, ou mesmo por projetos que buscam chamar atenção,
dando visibilidade, a grupos sociais invisibilizados pelo sistema de exploração que resulta na
exclusão social sistemática e em expansão.
A partir de tais reflexões sobre o jornalismo, este estudo pretendeu apreender a revista
Ocas, por meio de seu conteúdo, compreendendo-a como um produto simbólico engendrador
de conceitos e relações na sociedade, com objetivo de elucidar as marcas que caracterizam o
jornalismo praticado em tal periódico.
12
2 A revista Ocas e o contexto da urbanização
A proposta de estudo desta dissertação traz como desafio a complexidade das relações
que se estabelecem no ambiente das metrópoles, enredadas por uma trama na qual a
comunicação, ocupando lugar central, perpassa não apenas as configurações das instituições,
sujeitos e outras instâncias em relação, mas também as tensões sociais e, até mesmo, as
formas alternativas para negação ou questionamento das relações sociais. Nesse sentido, é
premente contextualizar o próprio objeto de estudo, a fim de delinear o entendimento que se
tem do mesmo.
O exercício de situar o objeto desta pesquisa, a revista Ocas, em seu contexto de
surgimento e circulação torna necessária a discussão sobre o fenômeno da urbanização
brasileira. Isso porque o periódico nasce de um projeto que visa, por meio de sua intervenção
social, oferecer saídas para que pessoas em situação de rua ou risco social encontrem novas
perspectivas de vida e reinserção na sociedade.
Por isso, a seguir, serão destacados alguns aspectos que refletem a forma como a
desigualdade social se expressa e se relaciona no ambiente urbano, em suas diversas
dimensões. Por último, serão esmiuçadas as características da revista estudada.
2.1 A urbanização como exclusão social
A exclusão social1 é um problema que parece já fazer parte do cenário dos grandes
centros urbanos. E, nesse sentido, é indispensável refletir sobre quais bases se configurou a
urbanização brasileira, a fim de melhor entender suas consequências – em especial seus
problemas – e analisar as possibilidades apresentadas para amenizar as dificuldades cotidianas
do contexto urbano.
O desenvolvimento urbano das cidades brasileiras, assim como da maioria das cidades
latino-americanas, é marcado não apenas pela falta de planejamento e organização de seus
processos, mas também por sua determinante exploração financeira. Entende-se aqui por
exploração financeira o desenvolvimento de um espaço urbano a partir de pressupostos
norteados pelo capitalismo e seus mecanismos de reprodução do capital, conforme as
1
A expressão “exclusão social” pode ser alvo de questionamentos no que se refere aos valores embutidos nas
palavras que a compõem, tendo em vista uma possível desconsideração dos direitos sociais (ou da cidadania) da
população excluída (ver artigo de Jailson Souza e Silva em RAMOS, Silvia; PAIVA, Anabela. Mídia e
Violência – novas tendências na cobertura de criminalidade e segurança no Brasil. Rio de Janeiro: IUPERJ,
2007, p. 93-97). No entanto, a expressão será utilizada nesta dissertação de forma a indicar justamente a
condição urgente das pessoas que estão privadas de seus direitos sociais, de maneira especial no que se refere o
direito à moradia.
13
abordagens marxistas para os estudos sobre a urbanização e ocupação do espaço.
(GOTTDIENER, 1997).
Ao analisar as dinâmicas que culminaram nas configurações específicas do espaço
urbano norte-americano, Gottdiener (1997) retoma as diversas formas de abordagem
marxistas para a análise do desenvolvimento urbano, promovendo especial comparação entre
Manuel Castells e Henri Lefebvre, que buscaram com suas obras uma análise mais profunda
sobre a relação entre a produção do espaço e a sociedade. E é essa perspectiva de discussão
que interessa para a reflexão que se propõe neste primeiro capítulo.
Como diferença substancial entre os dois principais autores citados, Gottdiener destaca
a forma como enxergam o urbano – sua construção, sua essência. Segundo ele, Lefebvre
enxerga o fenômeno urbano como essencial para o capitalismo e seu desenvolvimento, ou
seja, para o movimento de reprodução do capital; enquanto Castells vê o urbano como
expressão do capitalismo, ou seja, a essência seria a própria reprodução da força de trabalho e
do capital, cuja manifestação espacial é o ambiente urbano. A diferenciação das duas teorias é
importante porque implica na reflexão sobre o papel do fenômeno da urbanização enquanto
interface do sistema capitalista.
Ao aproximar-se da abordagem de Lefebvre, o autor oferece os subsídios para a
valorização do espaço urbano não apenas como local geográfico de desenvolvimento do
capitalismo, mas também como expressiva força produtiva, ou seja, dotado de força social
que, assim como o capital e o trabalho, é fundamental no processo de reprodução capitalista.
Nessa perspectiva, o espaço passa a ser, além de ambiente, também objeto de consumo, bem
como ativo instrumento político – que reproduz e sustenta o sistema produtivo. Daí o papel
estratégico de normatização do ambiente urbano historicamente exercido pelo Estado.
A hierarquia espacial se explica e se expressa, portanto, na forma pela qual grupos
subordinados e dominantes ocupam o espaço urbano. Por isso, a inclusão ou segregação
espacial se relacionam estreitamente com a influência e atuação das políticas e instituições
estatais nas dinâmicas de ocupação do espaço das cidades. Não à toa, a intervenção do Estado
foi operacionalizada de forma a utilizar o conhecimento técnico-científico não apenas para
organizar a ocupação do espaço – evitando problemas de saúde pública, por exemplo – mas
para garantir a manutenção do poderio econômico e político, ao segregar as camadas
populares, reprimindo demandas coletivas e valorizando apenas as necessidades de
reprodução do sistema capitalista, que sustenta as estruturas de poder. Assim, o espaço urbano
é desenvolvido a partir de pressupostos higienistas, que sempre buscaram evitar a ocupação
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popular dos espaços das cidades, atribuindo funções específicas (normatizadas) e prédeterminadas para as presenças no ambiente comum das cidades2.
No caso específico do Brasil, terra passa a ser legalmente alvo de especulação
comercial – organizada em propriedades privadas – somente na segunda metade do século
XIX. No entanto, a ocupação elitizada dos principais espaços de sociabilidade das cidades
rudimentares já se estabelecera como uma regra. Nesse movimento, as leis de regulamentação
do espaço urbano são estabelecidas de forma a garantir a manutenção do poder político e, em
especial, dos poderes econômico e cultural, das elites3. Ter o domínio sobre o espaço
representa o poder de gerenciar a circulação de pessoas, produtos e saberes no ambiente da
cidade. Em última instância, dominar o espaço urbano é o mesmo que controlar as
sociabilidades e os termos nos quais elas se estabelecem, sempre tendo em vista a necessidade
de sustentação e reprodução do capitalismo.
Como resume Gottdiener (1997), a organização espacial é “uma conseqüência direta
das relações entre processos econômicos, políticos e culturais, na medida em que se vinculam
à geografia regional de áreas metropolitanas” (GOTTDIENER, 1997, p.196). As relações
contraditórias do capitalismo, portanto, também marcam a ocupação do espaço e o
desenvolvimento urbano das metrópoles. Na América Latina, e em especial no Brasil, a
expressão urbana das relações do processo capitalista toma dimensões específicas, tendo em
vista as marcas deixadas pela colonização estrangeira.
O poderio dos países que dominavam os territórios da América Latina foi
determinante na constituição das classes urbanas latino-americanas, inclusive para moldar
seus comportamentos sociais; assim como para o desenvolvimento das cidades e para o
estabelecimento de maior ou menor influência das mesmas em suas regiões. Toda essa
dinâmica se configurou a partir das relações estabelecidas entre as regiões dominadas e os
interesses, sobretudo comerciais, dos países dominantes (SANTOS, 1982). Outra
característica da urbanização nos países da América Latina é o fato de o fenômeno relacionarse mais com o crescimento demográfico que com a industrialização. Essa característica
também é responsável pelo fato de as atividades urbanas nesses países se desenvolverem na
mesma medida que o setor de serviços – formais e informais (SANTOS, 1980).
Nesse contexto, a distribuição desse contingente demográfico no espaço urbano
também foi marcada por contradições e informalidade. Ao discutir as especificidades dos
2
PECHMAN, Robert Moses. Os excluídos da rua: ordem urbana e cultura popular. In: BRESCIANI, Stella
(org.). Imagens da cidade – séculos XIX e XX. São Paulo: Marco Zero/Fapesp, 1994, p. 29-34.
3
ROLNIK, Raquel. A Cidade e a Lei. Legislação, Política Urbana e Territórios na cidade de São Paulo. 2.ed.
São Paulo: Studio Nobel/Fapesp, 1997.
15
movimentos sociais urbanos latino-americanos, Maria da Glória Gohn (1982) ressalta que ao
Estado coube o papel de equilibrar as demandas sociais tanto do sistema capitalista quanto da
população. Sob a responsabilidade estatal ficam as necessidades infra-estruturais de
reprodução social e técnica do trabalho e, portanto, do capital, assim como as necessidades
sócio-culturais da população.
Devido à heterogeneidade de interesses que se condensam em torno do Estado, a ele
competirá, como resposta, dar coesão político-ideológica à sociedade. Ele não é
meramente o comitê executivo da burguesia, mas o organismo onde se condensam
as lutas sociais e políticas. Nem que seja meramente ao nível ideológico, compete ao
Estado dar a aparência de igualdade social. (GOHN, 1982, p. 23)
Essa reflexão revela, portanto, a contradição inerente ao papel do Estado, que está na
base dos problemas de ocupação do espaço urbano, sobretudo em grandes cidades. A privação
de certos grupos das condições dignas para usufruir do espaço, seja no contexto de moradia,
transporte ou lazer, se consolida por essa aparente igualdade promovida pelo Estado. No
entanto, essa aparência não se sustenta, porque é incapaz de impedir as reivindicações da
população em suas diversas expressões, ou de reprimir as novas formas de ocupação do
espaço. Nesse sentido, vale ressaltar a perspectiva de Lefebvre sobre o Estado.
Para Lefebvre, o Estado está aliado não só contra a classe trabalhadora ou mesmo
contra frações do capital, ele é inimigo da própria vida cotidiana – pois produz o
espaço abstrato que nega o espaço social que suporta a vida cotidiana e a reprodução
e suas relações sociais. (GOTTDIENER, 1997, p.148)
A contribuição dessa perspectiva mais radical de Lefebvre está na identificação da
contradição como essência constitutiva do Estado e não apenas como resultado de suas ações.
Somente nesse sentido é possível compreender de forma mais estrutural os permanentes
problemas de ocupação do espaço expressos na exclusão de diversos grupos nas dinâmicas
urbanas, sobretudo nas metrópoles.
A partir desse contexto, a ocupação informal dos espaços periféricos das cidades,
sobretudo na América Latina, configura-se como marca da organização do ambiente urbano.
Para reproduzir-se, o espaço urbano – local de reprodução por excelência do capital –, assim
como o próprio sistema capitalista, dá origem a sua própria forma contraditória, expondo suas
fragilidades que, de maneira mais contundente, se expressam de forma perversa nas periferias,
onde a presença (ou ausência) do Estado se dá de forma estratégica, tendo em vista o interesse
estatal histórico de contribuir com a manutenção do sistema capitalista.
16
Consumo e ocupação dos espaços urbanos, sobretudo nas grandes cidades, se tornam
atividades interdependentes, tendo em vista a hierarquia estabelecida pelo capitalismo.
Conforme explica Canclini (2006),
Há uma coerência entre os lugares onde os membros de uma classe e até de uma
fração de classe se alimentam, estudam, habitam, passam as férias, naquilo que lêem
e desfrutam, e como se informam e no que transmitem aos outros. Essa coerência
emerge quando a visão socioantropológica busca compreender em conjunto tais
cenários. A lógica que rege a apropriação dos bens como objetos de distinção não é
a da satisfação de necessidades, mas sim a da escassez desses bens e da
impossibilidade de que os outros os possuam. (...) Logo, devemos admitir que no
consumo se constrói parte da racionalidade integrativa e comunicativa de uma
sociedade. (CANCLINI, 2006, pp. 62-63, grifos no original).
É a partir dessa reflexão que se delineia a compreensão sobre como os dispositivos de
consumo presentes (ou ausentes) nos diferentes espaços das cidades, e que nem sempre se
concentram para satisfazerem demandas reais, se transformam em fatores determinantes para
a inclusão ou exclusão de pessoas e grupos. Nas metrópoles, essa diferenciação resultante da
apropriação ou inacessibilidade de dispositivos de consumo, sejam eles de necessidades
básicas – como redes de distribuição de água ou energia –, ou de necessidades possivelmente
consideradas secundárias – como cinemas e shopping centers –, é ainda mais latente.
Os fluxos sempre superlativos das grandes cidades – de pessoas e informações,
sobretudo – são o contexto onde “tudo se dissolve”, o ambiente de fluidez que traz a falsa
percepção de que o território da metrópole é ampliado e democrático, com a redução das
distâncias e das noções de tempo/espaço, ou seja, concentrando por excelência os benefícios
da globalização. No entanto, essa percepção da metrópole serve apenas para velar seu
ambiente extremamente desagregador e desigual. Conforme mostra Milton Santos (2001), há
uma diferença substancial entre o mundo que é apresentado e aquilo que é, cotidianamente,
sensível às pessoas que povoam as grandes cidades. A globalização caracteriza-se, assim,
muito mais como uma ideia construída, que uma conjuntura realmente sensível.
Nesse sentido, as observações de Canclini (2006) acerca da expansão demográfica na
Cidade do México, contribuem para a compreensão de como tal ideia se constroi no contexto
urbano.
A expansão territorial e a massificação da cidade, que reduziram as interações entre
os bairros, ocorreram dos anos 1950 para cá, ou seja, no mesmo lapso em que se
difundiram por toda a cidade o rádio, a televisão e o vídeo, novos vínculos
eletrônicos, invisíveis, que reconstroem de modo mais abstrato e despersonalizado
os nexos entre os habitantes, ao mesmo tempo em que nos conectam com a
simbologia transnacional. (CANCLINI, 2006, p. 108).
17
Ora, o mesmo se observa no contexto brasileiro, onde os meios de comunicação, sobretudo a
televisão (com destaque especial para o caráter político das concessões de licenças para
televisões), sempre mantiveram relações estreitas com os governos. Assim, grupos políticos
buscaram difundir, por meio do poder simbólico dos produtos veiculados na mídia, um
projeto de sociedade na qual as desigualdades foram apresentadas como naturais e as
possibilidades de contestação ou mudança foram condenadas à ilegalidade.
Não se trata, aqui, de forçar uma oposição entre as características do desenvolvimento
urbano das metrópoles e as configurações mais tradicionais de relacionamento das pequenas
comunidades. Tal maniqueísmo seria reduzir a questão a uma visão ingênua das dinâmicas
urbanas. Por meio dessa reflexão, pretende-se, sim, enxergar a complexidade do fenômeno
urbano, desmistificando-o e identificando suas contradições e, sobretudo, a sua natureza
excludente e desigual.
Ou seja, a partir das observações de Canclini (2006) no México, em consonância com
as indicações feitas por Milton Santos (2001), é possível observar que os próprios dispositivos
que consolidam a urbanização em grandes cidades no Brasil e no mundo, em especial os
meios de comunicação, contribuem, ao mesmo tempo, tanto para o delineamento de uma
sociedade desigual, quanto para a construção da falsa imagem benéfica das “metrópoles
cosmopolitas”.
Como já apresentado inicialmente, essa contradição está no cerne do desenvolvimento
urbano, tendo em vista a ligação direta e intrínseca da urbanização com a reprodução do
capitalismo. Em seus contextos nacionais, as metrópoles passam a reproduzir o discurso da
globalização, conferindo sentido a ele, de forma a corroborar com os padrões estabelecidos
nas relações internacionais. Nesse sentido, são válidas as reflexões acerca da configuração
contemporânea do capitalismo, por elucidarem os modos encontrados pelo capital para a
própria reprodução, que se complexifica a cada dia, sobretudo no que diz respeito a suas
formas expressivas na cultura e nos valores sociais. Dessa forma, a ideia de globalização é
corolário do imperialismo capitalista não apenas em escala global, mas também com
expressividade local.
Segundo Meszáros (2009), essa conjuntura contemporânea tende a reproduzir e
fortalecer as forças político-econômicas que ditam as regras no mundo.
Ademais, uma vez que se divorcia o “global” de sua inserção nos múltiplos
ambientes nacionais, desviando a atenção das relações contraditórias que entrelaçam
18
os Estados, também o “local”, dentro do qual se espera agir, torna-se absolutamente
míope e em última análise sem significado. (MESZÁROS, 2009, p.48)
Sob a marca do consumo, da velocidade e da competição, engendrados pelo ambiente técnicoinformacional e pelo próprio sistema financeiro, como destaca Meszáros (2009), o cotidiano
urbano se produz e reproduz conforme as regras ditadas pela ideia construída de globalização,
cuja expressão social resulta em contextos de extrema exclusão social, pobreza e falta de
condições dignas de vida para parcelas significativas da população. Essa conjuntura perversa
do capitalismo tem sua expressividade máxima nas grandes cidades, sobretudo em países de
desenvolvimento tardio, como na América Latina, e como é o caso do Brasil.
Milton Santos (2001) observa que tais características se tornam parte (nefasta) da
estrutura societária.
Ao nosso ver, a violência estrutural resulta da presença e das manifestações
conjuntas, nessa era da globalização, do dinheiro em estado puro, da
competitividade em estado puro e da potência em estado puro, cuja associação
conduz à emergência de novos totalitarismos e permite pensar que vivemos numa
época de globalitarismo muito mais que de globalização. (SANTOS, 2001, p.55)
O globalitarismo é o que impõe, portanto, não apenas as balizas que regem a sociabilidade
contemporânea, exigindo pactuação com o sistema capitalista e suas regras. O autoritarismo
global também exige que as consequências perversas do sistema sejam tomadas como
naturais, perpetuando a competitividade, o consumo, e o lucro a qualquer custo como valores
fundamentais da sociedade contemporânea.
Nesse contexto, vale ressaltar que a pobreza, a exclusão social, a desigualdade se
tornam parte do cenário urbano das metrópoles, inserindo-se no que Milton Santos (2001)
chama de “perversidade sistêmica”. E é esse aspecto que será detalhado a partir de agora.
2.2 A pobreza nas grandes cidades
As contradições inerentes ao desenvolvimento urbano resultam em um processo no
qual a desigualdade social, sobretudo no que se refere aos padrões de fixação de moradia, se
estabelece como regra no espaço das metrópoles. No Brasil, a explosão demográfica é marca
do desenvolvimento das grandes cidades, tendo em vista que estas se tornam pólos de atração
por concentrarem os dispositivos e novidades da expansão urbana, dando origem a
oportunidades de emprego, sobretudo no setor terciário (serviços), o que também dá margem
ao desenvolvimento da informalidade (SANTOS, 1980).
19
Tendo em vista a precária atuação do Estado na dinâmica de expansão das metrópoles,
a estrutura urbanística dessas cidades é decisivamente marcada pela periferização urbana ou,
conforme aponta Grostein (2001), por um “padrão periférico de urbanização”, na qual é
possível identificar a “ilegalidade como fator estrutural na dinâmica de expansão urbana”
(2001, p.15). Segundo a autora, a exclusão social e a pobreza estão na essência desse padrão
de desenvolvimento, que institucionaliza os espaços de desigualdade e exclusão social como
componentes naturais da expansão da metrópole.
A significativa concentração da pobreza nas metrópoles brasileiras tem como
expressão um espaço dual: de um lado, a cidade formal, que concentra os
investimentos públicos e, de outro, o seu contraponto absoluto, a cidade informal
relegada dos benefícios equivalentes e que cresce exponencialmente na ilegalidade
urbana que a constitui, exacerbando as diferenças socioambientais. A precariedade e
a ilegalidade são seus componentes genéticos e contribuem para a formação de
espaços urbanos sem atributos de urbanidade. (GROSTEIN, 2001, p.14, grifos da
autora)
Ou seja, o próprio processo de urbanização é responsável pelo surgimento de espaços que
desafiam o desenvolvimento urbano no que se refere à ausência dos dispositivos básicos para
o crescimento da cidade. Assim, a dualidade identificada pela autora marca decisivamente o
desenvolvimento das grandes cidades no Brasil.
O forte poder atrativo exercido pelas grandes cidades sobre outras regiões do país,
fenômeno comum nos países subdesenvolvidos (SANTOS, 1980), não é acompanhado por
um planejamento por parte do poder público para o recebimento dos contingentes migrantes
elevados. O processo resulta na falta de acesso de parcela da população aos dispositivos
básicos da urbanização o que, nesse contexto, pode ser considerado causa e consequência do
recrudescimento da desigualdade social no cotidiano dessa parte da população.
A pobreza, manifestação concreta da desigualdade, acaba, portanto, por marcar a vida
de parcela significativa da população nas grandes cidades. Milton Santos (2001) caracteriza a
pobreza em três fases diferentes. A primeira, denominada “pobreza incluída”, faz referência
ao período em que o consumo não era socialmente determinante e a situação de pobreza
poderia ser considerada como um problema circunstancial da sociedade e de âmbito local,
passível de soluções assistencialistas. A segunda forma de pobreza é denominada pelo autor
como “marginalidade”, que caracteriza o momento em que a pobreza é vista como fenômeno
inerente ao desenvolvimento econômico, o qual traz o consumo como imperativo social.
Neste caso, considera-se tanto a pobreza absoluta, quanto a pobreza relativa, identificando-se
20
índices de pobreza e miséria que distinguem situações que acometem os pobres – ou
marginais. Tentar superar as formas de miséria passa a ser um esforço do Estado.
A terceira definição de pobreza aproxima-se do contexto atual e é denominada por
Milton Santos (2001) como “pobreza estrutural globalizada”. Trata-se do estágio em que a
pobreza é vista como inevitável e como resultado natural do processo socioeconômico atual,
produzida politicamente em escala global. Além disso, a existência dos pobres – que nesta
fase são denominados ‘excluídos sociais’ – é reproduzida pelo abandono do Estado de suas
obrigações para com a garantia de direitos civis, assim como pela institucionalização da
desigualdade até mesmo em âmbito científico.
A evolução dessas três formas de pobreza coincide com o desenvolvimento urbano,
sobretudo nos países subdesenvolvidos (ou em desenvolvimento), tendo em vista a relação
desses contingentes de “pobres incluídos, marginais ou excluídos” com as dinâmicas de
ocupação dos espaços das cidades, sobretudo nas metrópoles. É com vistas na relação entre a
pobreza e sua expressão espacial em duas importantes metrópoles brasileiras – São Paulo e
Rio de Janeiro – que a revista Ocas, objeto de estudos desta dissertação, vai moldar suas
intenções de atuação social, cujo alvo inicial são os moradores de rua e pessoas consideradas
em situação de risco social, ou seja, destituídas em algum aspecto de seus direitos sociais de
cidadãos.
Neste caso específico, interessa ressaltar a exclusão de ordem urbana. Isso porque, as
alternativas para estabelecimento de moradia e sobrevivência urbana encontradas pelos
excluídos desses direitos sociais dão origem às periferias e a espaços precários dentro das
cidades, como as favelas e as ocupações de construções públicas, entre outras formas de
estabelecimentos clandestinos e ilegais. Como apontado anteriormente, o desenvolvimento
urbano em todas as suas dimensões, desde a ocupação do espaço até o acesso aos dispositivos
da urbanização, se inserem dinâmica de exploração capitalista, ou seja, na dinâmica do
consumo e posse de bens intrinsecamente relacionados com o acúmulo de capitais.
Diante desse cenário, a tentativa de invisibilização das periferias – espaço de
expressão das contradições urbanas – torna-se estratégia para a negação dos problemas
advindos com o próprio processo de urbanização. Cabe aqui ressaltar que a questão não se
resume às dinâmicas infraestruturais da cidade e, por isso mesmo, a referência feita neste
estudo são as configurações da urbanização, ou seja, relações que envolvem o componente da
sociabilidade dos indivíduos, as formas de expressão e reconhecimento da cidadania, a
circulação e formas de apropriação dos territórios e espaços citadinos pelas pessoas que
compõem a sociedade.
21
Nesse sentido, a condição das zonas periféricas das grandes cidades é a expressão da
exclusão e desigualdade sociais das quais são vítimas parte significativa de seus moradores.
Em síntese, ignorar os pobres e as formas por eles encontradas para resolver seus problemas
de moradia, é uma forma de negar as contradições do próprio capitalismo, reforçando-o como
sistema eficiente de desenvolvimento.
Jessé de Souza (2006) traz importante reflexão acerca das formas de legitimação e
naturalização das desigualdades no contexto contemporâneo. O autor apropria-se do conceito
de “habitus”, de Bourdieu, entendendo-o como um “aprendizado não intencional de
disposições, inclinações e esquemas avaliativos” (SOUZA, 2006, p.34), a partir do qual chega
ao conceito de “habitus precário”, que seria o parâmetro para o não reconhecimento social de
um indivíduo ou grupo, por certa “inutilidade” de sua inserção na sociedade.
Tal conceito é baseado pelo autor na chamada “ideologia do desempenho”, que reduz
as relações dos indivíduos com a dinâmica social à questões meritocráticas, escamoteando e
desconsiderando os contextos desiguais de acesso a oportunidades. Desse modo, conjunturas
totalmente díspares são equiparadas pelos parâmetros dominantes, com o objetivo de
legitimar a desigualdade social no mundo contemporâneo.
Souza (2006) destaca que tal contexto é sempre pensado em relação às questões de
trabalho e acesso a bens materiais e de consumo. Assim, as individualidades se constituem e
se definem socialmente em função de tais parâmetros.
A tríade [qualificação, posição e salário] torna também compreensível porque
apenas através da categoria "trabalho" é possível se assegurar de identidade, autoestima e reconhecimento social. Nesse sentido, o desempenho diferencial no
trabalho tem que se referir a um indivíduo e só pode ser conquistado por ele próprio.
Apenas quando essas pré-condições estão dadas pode o indivíduo obter sua
identidade pessoal e social de forma completa. (SOUZA, 2006, p. 40)
Esse imperativo da inserção no mercado de trabalho e, portanto, na dinâmica estabelecida pela
urbanização (e o capitalismo) acaba por ser supra latente nas metrópoles, tendo em vista o já
citado poder atrativo dessas cidades no contexto regional. No entanto, as promessas de
oportunidades nem sempre se concretizam e nem sempre se configuram como formas
satisfatórias e dignas de trabalho. O resultado é um contingente de desamparados e excluídos
que, na falta das pré-condições citadas por Souza (2006), se veem destituídos de suas
identidades e, em última instância, de suas cidadanias, seus direitos.
Essa seria a base da falta de reconhecimento social de parcela significativa da
população que, com a impossibilidade de acessar as oportunidades e dispositivos urbanos,
22
termina destinada à própria sorte, sobretudo nas metrópoles. Aliado a essa realidade,
acrescenta-se a globalização como uma ideia construída e que, por sua dinâmica, dá origem a
grupos de pessoas que só têm as marquises, os viadutos ou a própria rua para se abrigarem.
Nesse sentido, esse processo é o pano de fundo para a compreensão do objeto desta
dissertação, que passa a fazer sentido para o entendimento da sociedade contemporânea,
sobretudo no que tange à utilização do jornalismo e da comunicação como instrumentos de
intervenção social. Por isso, é interessante observar como se configuram, no contexto de
urbanização, os movimentos de reivindicações e intervenções sociais, em resposta à decisiva
marca da sociedade contemporânea: a exclusão social. Tais movimentos lançam as bases para
formas de intervenção contemporâneas como a estudada nesta dissertação, por meio da revista
Ocas.
2.3 Intervenções urbanas: sujeitos, movimentos sociais e comunicação
As configurações da urbanização, tais como apresentadas inicialmente neste capítulo,
são decisivamente marcadas pelo papel dúbio do Estado, que reveza a eficácia de suas
decisões entre os interesses de classes dominantes e grupos dominados.
No entanto, o
interesse econômico faz com que as diretrizes do desenvolvimento urbano sejam dadas a
partir de interesses da classe dominante, que não representa a maioria da população.
Segundo Gohn (1982), a equivalência entre as contradições urbanas e as contradições
de classe é uma especificidade que marca o histórico dos movimentos sociais brasileiros. Ou
seja, no Brasil, as marcas do clássico conflito entre capital e trabalho se manifestam de forma
latente no tecido social urbano das grandes cidades. Assim, historicamente, as classes
dominadas se comportaram em contraposição aos interesses defendidos pelo Estado,
principalmente no sentido de reivindicar políticas infra-estruturais urbanas, pressionando
contra o aparelhamento classista do Estado.
Além disso, a própria formação do ambiente urbano das metrópoles brasileiras,
decisivamente marcada pela migração interna – num contexto de desenvolvimento pautado
pela concentração de renda – faz com que a expressão popular das periferias seja uma peculiar
forma de reivindicação de direitos encontrada pela população, até como alternativa à
conjuntura de repressão que marca a constituição dos órgãos clássicos de reivindicação, em
especial partidos e sindicatos (GOHN, 1982, pp. 30-31).
O posicionamento oposto ao Estado, em contraposição às decisões governamentais, no
entanto, não explica ou resume a complexidade dos movimentos sociais urbanos e as nuances
que eles estabelecem no cotidiano social. O duplo papel exercido pelo Estado – ora
23
depositário de oposições e reivindicações, ora aliado na promoção das mudanças sociais
necessárias –, e cuja função de equilíbrio já foi aqui destacada, revela a complexidade que, em
última instância, exige especial atenção ao contexto no qual emergem e se expressam os
movimentos sociais.
Desse modo, interessa muito menos elencar os movimentos sociais que fazem parte da
história do desenvolvimento urbano brasileiro, e muito mais entender a relação que se
estabelece, a partir da organização cotidiana de tais movimentos, em torno da reivindicação
por direitos civis, em especial os ligados à questão do acesso aos dispositivos urbanos. Nesse
sentido, a interface entre tais reivindicações e suas formas de expressão no ambiente urbano é
reveladora da importância de tais movimentos para a própria urbanização.
Para isso, destacam-se as reflexões trazidas por Gohn (2001) acerca da gênese das
demandas populares no Brasil. Para a autora, a configuração das relações povo-poder ao
longo da história brasileira foi responsável pelo processo de aprendizagem de uma cultura
política que culmina nas noções atuais de cidadania, participação e direitos. Desde o século
XVI, ou seja, desde as primeiras aglomerações urbanas do país, as demandas populares
resultaram em um acúmulo de experiências que moldaram o desenvolvimento urbano, sejam
elas reivindicações ou formas encontradas pelo povo de burlar leis e determinações do
governo.
Duas características são importantes na gênese do desenvolvimento e planejamento
urbano. A primeira se refere ao fato de que o governo sempre assume um papel explorador do
espaço urbano – inicialmente, obrigando colonos a pagar o fisco e a manter o território
ocupado e conservado; depois, tomando o controle da conservação, mas também da
circulação territorial, taxando transportes e passagens pelos caminhos coloniais; chegando às
contratações de empresas (terceirizações) para a exploração do desenvolvimento da
infraestrutura urbana.
Desse modo, a espoliação popular passa a ser um valor culturalmente ligado à noção
do Estado (e não apenas especificamente de um governo), contra o qual a necessidade de
reação ou resistência se torna praticamente inevitável. Burlar o fisco colonial, as taxas de
circulação, reivindicar melhorias nos locais mais afastados do comercio, lutar por melhores
instalações de trabalhadores da incipiente indústria (especialmente depois abertura para
imigrantes), enfim, todas as formas de resposta aos governos, ao longo da história, tinham
uma relação com os aparatos urbanos.
A segunda característica refere-se à noção historicamente construída de público e
privado. Segundo Gohn (2001), tal noção evolui da percepção de “bem comum” criada nos
24
dois primeiros séculos de governo da coroa português, período em que detinham as
responsabilidades do fisco e dos aparatos urbanos as câmaras provinciais. A autora ressalta
que a noção de “bem comum”, muito presa ao entendimento do uso comum de determinados
territórios, além de legitimar o poder do Estado como sendo provedor e, portanto, situado em
patamar acima da população, também resulta em formas espúrias de sociabilidade.
As áreas de bem comum foram se tornando também formas de apropriação e de
dominação, gerando aprendizado para gananciosos, que delas se apoderavam por
meio do suborno ou poder nas Câmaras, e aprendizado de resistência para a
população, à medida que ela procurava fugir das áreas demandadas pela Coroa, para
evitar de seus encargos (...) (GOHN, 2001, p.182)
A partir dessas primeiras relações, acrescidas da constância do papel repressor
assumido pelo Estado, foram gerados o medo e a desconfiança contra tudo o que é público,
sendo que o caráter coletivo da noção do público não ficava claro para a população.
A autora apresenta tais características como sendo fundamentais para a formação dos
comportamentos observados no século XX – que podemos estender para o XXI – em especial
aos que são observados nas relações políticas dentro do contexto urbano, ou seja, demandas e
regulações no desenvolvimento das cidades. Destacamos aqui a exploração (mercadológica)
urbana pelo Estado e as confusões geradas em torno dos conceitos de público e privado
porque, justamente, esses fundamentos têm especial valor nas relações urbanas
contemporâneas.
É a partir desses fundamentos que, por exemplo, os movimentos de associações de
bairros vão enxergar um papel dúbio para o Estado4, que ao mesmo tempo explora o espaço,
mas também é o provedor dos direitos coletivos urbanos, sobretudo os relacionados às
questões de infraestrutura. É também o Estado o responsável por garantir moradia aos
cidadãos, mas ao mesmo tempo manter as ruas “limpas” dos mendigos e de moradores de rua.
Ou seja, as intervenções no ambiente urbano são complexas nos dois extremos que as
tensionam. De um lado, ao Estado cabe, ao mesmo tempo, regular e garantir o uso do espaço
urbano, mas no interior de um contexto de circulação e acúmulo de capital. Nesse sentido,
vale lembrar que, historicamente, o espaço urbano foi uma das principais fontes de renda do
Estado. Do outro lado, a população assume seu papel reivindicatório, ao exigir o direito de
usufruir os aparatos de infraestrutura, com maior ou menor grau de noção de coletividade,
além de se posicionar contra abusos de taxas e outras formas exploratórias por parte do
4
Ver, por exemplo, o estudo e mapeamento feito por Gohn (1982).
25
Estado. No entanto, vale destacar que o povo oscila sua compreensão, ora com visível
tendência ao público, ora com visível tendência ao privado.
Essa complexa configuração dos movimentos de intervenção urbana influencia, em
última instância, na relação que os indivíduos estabelecem na e com a urbanidade, origem
também da noção de cidadania das pessoas que vivem nas cidades. No caso das metrópoles,
onde a constituição dos espaços de maneira geral é especialmente moldada pelo consumo e
individualidade, a relação sujeito-urbano toma proporções ainda mais significativas.
O intuito de trazer essa discussão aqui é, justamente, elucidar a forma como os sujeitos
constroem a própria imagem no contexto de desenvolvimento urbano no país, tomando como
pressuposto que o comportamento dos sujeitos – e suas consciências sociais – é importante
constitutivo das dinâmicas de reivindicação coletivas.
Essa interpretação advém do parâmetro estabelecido por Alain Touraine (2009) sobre
a subjetividade, para o qual “O Sujeito só existe como movimento social, como contestação da
lógica da ordem, tome esta uma forma utilitarista ou seja simplesmente a busca da integração
social” (TOURAINE, 2009, p.249). Para o autor, o papel dos sujeitos na sociedade moderna
consiste justamente em opor-se à racionalidade (racionalização) intrínseca ao sistema
econômico-cultural que rege as relações cotidianas e, por isso, assumem significativo papel
nas intervenções implementadas nos espaços públicos.
Segundo Touraine (2009), essa configuração dos movimentos sociais se inicia e se
consolida com a chamada sociedade pós-industrial, a modernidade, denominada pelo próprio
autor como “sociedade programada”, já que o poder na sociedade moderna equivale à
capacidade de influenciar os valores culturais (comportamentos, opiniões, personalidades) dos
grupos sociais, ou seja, a capacidade de ‘programar’ a cultura com vistas de controle social
(TOURAINE, 2009, p.259). O autor explica que, nesse contexto, as formas de resistências ao
poder na sociedade programada só podem estar estabelecidas em torno da defesa do sujeito.
(...) as novas contestações não visam criar um novo tipo de sociedade, menos ainda
libertar as forças de progresso e de futuro, mas “mudar a vida”, defender os direitos
do homem, assim como o direito à vida para os que estão ameaçados pela fome em
pelo extermínio, e também o direito à livre expressão ou à livre escolha de um estilo
e de uma história de vida pessoais (TOURAINE, 2009, p.262).
Nesse sentido, como afirma o autor, interessa na contemporaneidade observar os
sujeitos em relação, ou seja, enxergar que o sujeito só se constitui como tal numa dinâmica
relacional na sociedade. É nas relações sociais, no contexto do consumismo capitalista, que o
26
sujeito vai se delinear e buscar sua própria afirmação, com vistas de ir além da
mercantilização de suas demandas.
A discussão sobre a comunicação se coloca em centralidade, desse modo, porque é
principalmente através dos meios de comunicação que hoje são discutidos os principais temas
relacionados aos valores/cultura da sociedade, assim como as noções de cidadania/direitos no
contexto político atual.
Muniz Sodré (2001), ao discutir a subjetividade que sustenta a lógica comunicacional
contemporânea, destaca que o papel da imprensa (e da mídia) na modernidade tem relação
direta com o pressuposto republicano de comunicação entre os cidadãos e as livres
manifestações das subjetividades garantidas nesta forma de governo. Com os benefícios dos
recursos tecnológicos, a informação circularia de forma a contribuir com a disseminação de
valores morais e culturais, ou seja, sustentando a lógica moderna.
Desse modo, considerando o imperativo da técnica nas relações comunicacionais –
confundidas com a simples circulação mecânica de informações na sociedade – a anulação
das subjetividades no processo comunicativo se dá em favor da ideia de “comunicação em
estado puro”, fonte de utopias que ultrapassam a questão da garantia de direitos no que se
refere às possibilidades comunicacionais5.
O autor explica, porém, que o imperativo do mercado global que, como já explicitado,
visa a própria reprodução e o lucro, com especial expressão no contexto de desenvolvimento
urbano, impõe sobre as atividades e veículos comunicacionais a necessidade de assimilação
cultural, em face do culto e do triunfo do consumo como valor social. A perspectiva ética da
comunicação se esvai, diluindo as individualidades dos sujeitos sob a aparência de uma maior
autonomia pela possibilidade de escolha no ato de consumo.
No interior desse processo, tem papel fundamental e estratégico a tecnologia, que
incide diretamente na dinâmica de socialização, sendo os meios de comunicação de a
expressão máxima desse movimento, onde a excessiva reprodução do código informacional
reconfigura e atualiza o conceito de “massa”. Os comportamentos sociais são contaminados
pelos supostos valores tecnológicos da objetividade e neutralidade, instaurando uma nova
forma de individualidade.
As clássicas práticas de sujeito (expressão, emancipação, cidadania) são
contraditadas por “práticas de objeto” ou de “massa” que, reguladas pelo código da
sociedade neoliberal de mercado, acenam com a resignação confortável do consumo.
5
O autor faz uma referência às teorias universalistas da comunicação, que traçam caminhos similares aos das as
teorias holísticas, como, por exemplo, Maturana e Bateson (SODRÉ, 2001, p.49).
27
A histórica realização social do homem pela atividade política é trocada pela
liberação adulatória e auto-erótica dos desejos (SODRÉ, 2001, p.53).
É nesses termos que se constroi o sujeito que se encontra hoje em contato com as diversas
demandas urbanas nas grandes cidades. A comunicação engendra essa nova individualidade
com vistas de corroborar com ela, reforçando-a, pois, reafirmá-la significa estar em
consonância com o capitalismo globalizado, que dita as regras e valores da sociedade atual.
Interessa, portanto, observar como se dá a oposição entre a afirmação do sujeito, com
suas reivindicações e o sistema financeiro que transformou o consumo e a posse em valores,
ao capitalizar as demandas sociais e considerar como único sentido da sociedade
contemporânea a lógica do mercado e da tecnologia.
É pertinente para tal reflexão valer-se da indagação feita por Touraine (2009), ao
questionar os valores determinantes na constituição cultural da sociedade.
Quanto tempo será necessário ainda para que encontremos seres humanos e relações
sociais por trás das técnicas, e que compreendamos que em toda parte se confrontam
maneiras socialmente opostas de utilizar a informação e de organizar a
comunicação, seja “abstratamente” para reforçar os fluxos de informação que são
também fluxos de dinheiro e de poder, seja “concretamente” para reforçar o diálogo
entre os locutores em posições desiguais nas relações de poder ou de autoridade?
(TOURAINE, 2009, p.265).
Tendo em vista que é a partir da década de 90 que o imperativo tecnológico e
financeiro atinge seu ápice no cotidiano social, sobretudo no ocidente, cabe elucidar como as
demandas se configuraram – a partir dos sujeitos, em especial no que se refere ao
desenvolvimento urbano das metrópoles, onde se concentram os aparatos tecnofinanceiros
regidos pelo capital.
2.4 Movimentos sociais urbanos a partir década de 90
A redemocratização marca a última década da do século XX no Brasil, e as conquistas
democráticas representam importante aspecto da vida política brasileira no início do século
XXI. Na esteira do processo de amadurecimentos da democracia, observa-se também uma
reconfiguração dos movimentos sociais, modificando também a relação entre os sujeitos no
interior desses movimentos.
Como mostra Gohn (2007), a compreensão sobre a reivindicação e a estratégia para se
obter êxito se modificam substancialmente, por influência de diversos fatores. A oposição ao
Estado já não é característica tão presente nos movimentos; as estratégias se voltam para um
trabalho que se aproxima das ferramentas estatais, por meio de planos, projetos e outras
28
formas propositivas de ação. A ideia de universalizar as demandas, baseada no humanitarismo
e na diversidade cultural, é acompanhada pelo entendimento mais contextualizado e amplo
dos conceitos de cidadania e participação.
Ainda de acordo com a autora, na década de 90 e início do século XXI emergiram ou
se reorganizaram movimentos de defesa de direitos de grupos específicos na sociedade – um
exemplo é o movimento de mulheres que passou à luta política por seus direitos, ampliando e
estreitando o diálogo com os governos, contra a discriminação de gênero. Outros movimentos
podem ser destacados por suas lutas na transição para o século XX, os quais obtiveram maior
ou menor êxito, como os movimentos de indígenas, de funcionários públicos, de aposentados,
de homossexuais, de sem-teto, movimentos culturais e das periferias, enfim, uma gama de
grupos sociais passaram, a partir da década de 90, a se organizar em torno de suas demandas
democráticas, no sentido de trabalhar estrategicamente com o Estado a fim de ter garantidos a
execução e implementação de seus direitos, pelos quais os movimentos ditos mais ideológicos
e tradicionais já haviam lutado e, em alguma medida, obtido certas conquistas, como a própria
constituição de 1988.
É importante ressaltar que o redesenho dos movimentos sociais – em última instância,
das formas de vinculação dos sujeitos que os protagonizam entre si e com suas demandas –,
não anula ou supera os movimentos sociais ditos ideológicos, que tiveram importante atuação
durante o período de recessão democrática no Brasil. Estes passam a constituir importantes
aliados das novas formas de reivindicação, ou mesmo se adaptam ao novo contexto
sociopolítico. De acordo com Samira Kauchakje (2008),
“Uma das razões para a existência, neste país, do agregado identitário dos
movimentos ligados às diferenças e à universalidade de demandas com os
movimentos mais tradicionais seria a perenidade do conflito referente à terra e ao
trabalho no campo, associada à persistente desigualdade socioeconômica e à
segregação urbana” (KAUCHAKJE, 2008, p.677)
Nesse cenário de reconfiguração dos movimentos, ganham expressividade as ONGs
(organizações não-governamentais), como significativo ator na interface entre os sujeitos
sociais, o Estado e as relações socioculturais da sociedade. Isso porque, conforme destacado
por Kauchakje (2008), as ONGs podem imprimir, nessa interface que engendra,
características distantes ou desfigurantes do contexto sociocultural de atuação, sobretudo no
que se refere às organizações de caráter global; além de também promoverem, em alguns
casos, ações despolitizadas (e despolitizantes), reduzidas à solidariedade filantrópica.
29
Apesar dessa ressalva, no entanto, a autora destaca o papel estratégico das ONGs para
a qualificação do vínculo dos sujeitos nos movimentos sociais, tendo em vista que são
importantes espaços para o desenvolvimento da compreensão dos direitos sociais e da
cidadania.
(...) no âmbito dos direitos de cidadania, uma estratégia seria o fortalecimento das
articulações entre movimentos sociais com as outras formas de participação
sociopolítica – por exemplo, fóruns, audiência pública, conferências e conselhos de
políticas e ONGs – e destas entre si. (...) A centralidade dos movimentos sociais, na
atualidade, parece decorrer do fato de eles serem uma matriz da democratização e da
solidariedade política (...) (KAUCHAKJE, 2008, p. 686-687)
Ou seja, no advento do novo milênio, as ONGs podem se configurar como
dispositivos tanto de fortalecimento dos laços democráticos dos sujeitos sociais, quanto de
fragilidade no que se refere à compreensão do papel político dos sujeitos na sociedade em que
atuam.
O destaque aqui dado às relações constituídas em torno das ONGs não se justifica
somente pelo fato de estas organizações se tornarem atores importantes para a configuração
dos movimentos sociais. Vale destacar também que este tipo de organização forma a base
estrutural para o objeto desta dissertação – uma publicação jornalística que se caracteriza
como principal instrumento para a consolidação da organização social que a implementa,
denominada Organização Civil de Ação Social – OCAS6.
Na perspectiva da intervenção social, a revista estudada e as relações sociais em seu
entorno são expressão das novas e complexas relações inauguradas com o advento do
imperativo tecnológico e da crise dos paradigmas que nortearam a modernidade, num
contexto de recrudescimento das doutrinas neoliberais. Sendo assim, o sentido das relações
estudadas no projeto da OCAS não se liga especificamente às questões de luta e
reivindicações junto ao Estado. Por meio da difusão, através da revista, de temas relacionados
às mazelas sociais enfrentadas por aqueles destituídos de seus direitos à moradia e à dignidade
social, a revista exerce o papel concomitante de alternativa de renda para parcela da
população em risco social, bem como de um significativo espaço para publicização de
problemas que, embora cotidianos, são pouco discutidos e até mesmo naturalizados.
6
Para se diferenciar da sigla da organização (OCAS), a identidade da revista foi definida como Ocas” (com
aspas apenas no final), seguida do slogan: “Saindo das ruas”. Neste trabalho, optou-se pela grafia sem aspas, que
foge da definição da logomarca da revista, mas que facilita a escrita e a leitura. Para se fazer referência ao
projeto social, optou-se pela grafia em caixa alta.
30
O projeto OCAS procura incidir diretamente no âmbito da cultura, tendo em vista ser
um produto jornalístico, com reflexo na questão socioeconômica. Nesse sentido, caracterizase como uma organização que introjeta na sociedade uma forma alternativa7 de difundir a
questão dos problemas sociais inerentes à urbanização. Ou seja, ainda que não esteja
vinculado a um determinado movimento social, busca com seu conteúdo e sua venda
solidificar discussões e percepções acerca de problemas que, embora já naturalizados, fazem
parte do cotidiano das demandas urbanas das grandes metrópoles.
Nos termos que ressalta Gohn (2007), “O projeto social de cada movimento/grupo
tem que contemplar a dimensão da cultura e da institucionalidade. Ao fazerem isso, eles
demarcam o campo de como irão participar, negociar, confrontar ou defrontar com a estrutura
estatal” (GOHN, 2007, p.29-30). Nesse sentido, o campo de atuação do projeto OCAS é
demarcado de forma significativa na sociedade por meio da revista, com objetivo de discutir e
difundir, através da organização e venda de um produto cultural (e seu conteúdo), as
consequências das contradições inerentes à estrutura urbana implementada pelo Estado e por
parcela da sociedade.
Sendo assim, é importante compreender as dinâmicas socioculturais que constituem o
cenário das metrópoles urbanas, pois é a partir dos códigos da metrópole que se determina não
apenas o local e as formas de circulação da revista estudada, mas também se delineiam os
mecanismos com os quais a organização vai elaborar suas estratégias de ação e inserção
social.
A seguir, serão destacados quatro códigos urbanos – violência, noção de realidade,
consumo e comunicação –, os quais são considerados imprescindíveis ao entendimento do
contexto urbano excludente que caracteriza as bases para o surgimento da revista Ocas, objeto
de estudo desta dissertação.
2.5 As metrópoles e seus códigos
Uma das primeiras características marcantes das grandes cidades e que, portanto,
acaba por consistir um dos seus códigos essenciais é a violência. Ela passa a ser, a cada dia
mais, naturalmente vista como parte do cenário da globalização, da qual as metrópoles são
expressão máxima. A violência – física, social, moral – é um componente necessário na lógica
imposta pelo modelo capitalista de desenvolvimento econômico, tendo em vista que este se
baseia na chamada “perversidade sistêmica” (SANTOS, 2001), ou seja, na nefasta maneira de
7
A questão do “alternativo” será tratada de forma mais minuciosa no próximo capítulo, quando será discutido o
conceito de comunicação alternativa.
31
legitimação da competitividade que visa o lucro, a acumulação, ou seja, a perpetuação do
capital e do consumo como valores fundamentais da sociedade contemporânea.
Essa estruturação contemporânea das relações sociais, que naturaliza conjunturas de
exclusão e subjugação de determinados grupos sociais, é pressuposto e causa para a existência
do projeto Ocas, que visa minimizar o contexto de violência simbólica que se impõe
cotidianamente nas metrópoles. O medo social, as alternativas ilegais de inserção social
(como o crime e o tráfico), ou mesmo a negação da sociabilidade (como nos casos dos
moradores de rua), são decorrentes dessa violência simbólica intrínseca ao desenvolvimento
capitalista.
Bauman (2001) explica que ameaça da violência, personificada em determinados tipos
e concretizada em determinados locais, faz com que se consagrem os espaços em que as
diferenças se diluem e as individualidades se reforçam pelo consumo, por exemplo, os
shoppings centers. Assim se constroi uma nova configuração para o conceito de
“comunidade” que, amparada pela militarização e vigilância constante dos espaços, confere
tranquilidade às existências pessoais – no sentido oposto às coletividades ou formas de
engajamento. A “realidade” que o ambiente da metrópole impõe, embora marcada
decisivamente pela violência, também oferece saídas. No entanto, “O projeto de esconder-se
do impacto enervante da multivocalidade urbana nos abrigos da conformidade, monotonia e
repetitividade comunitárias é um projeto que se auto-alimenta, mas que está fadado à derrota”
(BAUMAN, 2001, p.123).
Por isso, partilhar desse primeiro código urbano – a violência – é inerente à
compreensão de um segundo código que, ao mesmo tempo, constrói e reafirma as
configurações do ambiente urbano, ao conferir mais ou menos sentido a grupos sociais,
instituições e práticas no cotidiano das metrópoles. Este segundo código é o conceito de
“real”, ou seja, a noção da realidade societária que representa as estruturas que norteiam o dia
a dia das grandes cidades. Beatriz Jaguaribe (2007) mostra que as definições de realidade que
permeiam a contemporaneidade se baseiam em narrativas da realidade que buscam o maior
apelo possível ao realismo, em especial nos meios de comunicação – com suas configurações
específicas no modelo midiatizado –, num contexto onde produção se torna mais real que a
própria realidade, noção que vai nortear as interpretações que os indivíduos têm do mundo
(JAGUARIBE, 2007, pp.26-41).
Entende-se por real, como apresenta a autora, a fatia da existência que se processa
conscientemente a partir dos filtros culturais de representação, principalmente por meio da
linguagem. Explica a autora:
32
Enquanto existência do mundo além e fora do nosso ser, o real tanto ultrapassa
quanto permeia nossa experiência. Se, nestes termos, o real é a existência de mundos
que independem de nós, a realidade social, em contraste, é uma fatia do real que foi
culturalmente engendrada, processada e fabricada por uma variedade de discursos,
perspectivas dialógicas e pontos de vista contraditórios. (JAGUARIBE, 2007, p.101)
Segundo a autora, o realismo estético que protagoniza as disputas por representação na
contemporaneidade brasileira utiliza-se menos de um “efeito do real” – entendido como a
busca de veracidade e objetividade, quase como um simulacro do real, na relação com os
valores culturais de uma sociedade – e mais de um “choque do real”, que consiste no efeito
catártico a partir da representação dramática de situações extremas decorrentes das
contradições do ambiente urbano (JAGUARIBE, 2007, p.103). A consequência é uma
sensibilização mais intensa acerca dos problemas relacionados à desigualdade social, num
contexto que mescla e a espetacularização e conscientização política.
A instituição do “real” se dá, portanto, por meio da construção social da “realidade”
através de mecanismos políticos, institucionais e, especialmente, comunicacionais, fazendo
com que tal dinâmica se configure como importante fenômeno constituinte do tecido social
urbano das metrópoles. Tais mecanismos são engendrados no contexto do imperativo
tecnocientífico, estruturado e estruturante do modelo de desenvolvimento capitalistafinanceiro que perpassa todas as relações sociais na contemporaneidade, principalmente por
meio do consumo, já transformado em valor sociocultural e, portanto, como importante
aspecto para a definição dos sujeitos/identidades.
Sendo assim, o consumo se caracteriza como o terceiro código urbano a ser destacado.
Isso porque, como já pontuado neste capítulo, a própria configuração urbana, desenvolvida
sob as bases do capitalismo financeiro, tem no consumo um de seus pilares sustentadores.
Além disso, conforme pontua Canclini (2006), o consumo passa a ser um importante fator
para a constituição das subjetividades, sendo parâmetro corroborado ou refutado para a
(re)definição das mesmas.
A sociedade globalizada descrita por Milton Santos (2001), de natureza caótica e
estruturalmente contraditória, violenta e perversa, é também o lugar e o tempo da crise da
modernidade se expressar. É na metrópole que a modernidade se liquefaz (BAUMAN, 2001).
O fim das narrativas que ancoram o sentido das relações e da própria existência humana e o
imperativo do consumo, expressos pelo individualismo exacerbado, ocupam e moldam os
espaços públicos de convivência, sobretudo nos grandes centros urbanos.
33
Nesse sentido, consumir passa a ser um valor perpetrado pelas formas simbólicas de
representação e sociabilidade, cujas expressões mais importantes estão ancoradas nos meios
de comunicação e na própria urbanização, em escala não apenas nacional, mas também
global. Milton Santos (1993), ao discutir os sustentáculos da urbanização brasileira no final
do século XX, mostra que, no interior do movimento de expansão do capitalismo financeiro, o
fenômeno do consumo (e a decorrente demanda por comunicação) se comporta de forma
circular, pois ao ser resultado do desenvolvimento urbano-capitalista, passa a demandar
conexões comunicativas que, por sua vez, estimulam a própria urbanização.
Enquanto o País melhora sua fluidez e conhece uma expansão do capitalismo, bom
número de bens que eram produzidos apenas como bens de consumo local, ou outros
que tinham apenas valor de uso, transformam-se em valores de troca. A
possibilidade concreta de consumir tem como paralelo a criação de um maior
número de bens de troca, isto é, de mercadorias. (...) A necessidade de
intercomunicação é assim exaltada com a complementação recíproca entre regiões
levando à ampliação quantitativa e qualitativa da urbanização (SANTOS, 1993,
p.43).
Segundo o autor, essa dinâmica é baseada no tripé formado por técnica, ciência e informação,
que culmina no surgimento do que ele denomina ‘tecnoesfera’ e ‘psicoesfera’. Ambas, ao
articularem os âmbitos da economia e cultura, atuam diretamente nos comportamentos dos
indivíduos, incidindo, portanto, nos valores sociais e na própria configuração do território
urbano, por meio dos dispositivos técnico-científicos (re)produzidos pela lógica econômicocomunicacional que predomina na sociedade contemporânea.
Essa teia que sustenta o consumo como fenômeno significativo e simbólico tanto para
a constituição social quanto para a construção dos sujeitos, introduz o último código a ser
destacado no ambiente urbano das metrópoles: a comunicação.
A referência é feita ao conceito de comunicação e não ao conceito de informação,
justamente para evitar o entendimento desse processo como uma reprodução mecânica da
realidade, dita “objetiva” – com a simples circulação supostamente isenta de informações
recebidas passivamente –, reafirmando a concepção de um processo socialmente construído
nas interfaces complexas entre sujeitos, cultura, tecnologia e modo de produção
(TRAQUINA, 2005, v. I; SODRÉ, 2001, WOLF, 1987).
A discussão sobre o ambiente da metrópole traz como necessidade a atenção especial
aos processos comunicacionais, tendo em vista que tal contexto se consolida por meio desses
processos, ao mesmo tempo em que os demanda. Engendrados no fenômeno identificado
34
como midiatização8 (SODRÉ, 2001, 2006, 2010), tais processos se caracterizam pelo fato de
que a incidência simbólica dos meios de comunicação (mídia) passa a ditar valores sociais,
para além do papel mediador da comunicação, através de aparatos tecnológicos cada vez mais
intrínsecos a essa atuação.
A midiatização se coloca como um novo pressuposto de socialização, uma
nova esfera existencial denominada por Muniz Sodré (2010) de “bios midiático”, que impõe
novos valores morais, um novo ethos específico, que se torna imperativo nas relações sociais.
“Ela [a mídia] se torna uma espécie de suporte da consciência prática na medida em que os
fluxos informativos fazem interface, reorganizam ou mesmo inventam rotinas inscritas no
espaço-tempo existencial” (SODRÉ, 2006, pág. 29). O tempo veloz, já tornado indispensável
no cotidiano da metrópole, é o tempo coincidente da circulação em tempo real das
informações em todos os âmbitos da sociabilidade, que faz a metrópole estar em todos os
lugares e ao mesmo tempo, alinhada ao fluxo global da comunicação. Conforme aponta
Milton Santos (1993),
Nenhuma cidade, além da metrópole, “chega” a outra cidade com a mesma
celeridade. Nenhuma dispõe da mesma quantidade e qualidade de informações que a
metrópole. Informações virtualmente de igual valor em toda a rede urbana não estão
igualmente disponíveis em termos de tempo. Sua inserção no sistema mais global de
informações de que depende seu próprio significado depende da metrópole, na maior
parte das vezes. Está aí o novo princípio da hierarquia, pela hierarquia das
informações... e um novo obstáculo a uma inter-relação mais frutuosa entre
aglomerações do mesmo nível, e, pois, uma nova realidade do sistema urbano”
(SANTOS, 1993, p. 91)
Ou seja, todo o processo comunicacional que se impõe às sociabilidades e aos sujeitos passa
pelo ambiente da metrópole, ao mesmo tempo em que também a constitui. Nesse sentido, o
código comunicacional é o que perpassa todos os códigos do desenvolvimento urbano das
grandes cidades.
Portanto, partilhar dos códigos urbanos da metrópole significa necessariamente passar
pela apropriação da comunicação como forma de disputa simbólica nesse ambiente. E é nesse
contexto que se configuram os grupos sociais que compõem a complexa estrutura social das
metrópoles. É, portanto, a partir dessa indicação, e do contexto delineado a partir dos códigos
urbanos e das características do desenvolvimento urbano, que será caracterizado o objeto de
estudo desta dissertação – a revista Ocas.
8
Esse fenômeno será discutido com mais detalhes na análise do objeto de estudos desta dissertação.
35
2.6 O projeto social – OCAS
A revista Ocas é uma publicação impressa originada e organizada pela Organização
Civil de Ação Social – OCAS, uma organização cujo objetivo geral é, por meio de uma
revista de conteúdo diferenciado, oferecer uma alternativa de renda para a população em
situação de rua e/ou de risco social. A revista é feita por jornalistas, publicitários e outros
profissionais colaboradores, ou seja, que não recebem nada pelo trabalho dedicado ao projeto.
A venda é, então, feita por pessoas em situação de risco social que se interessem pelo projeto
e pela alternativa de renda oferecida, já que parte do valor obtido com a venda fica com o
vendedor9, significando um lucro que lhes permite iniciar um processo de reinserção social. A
publicação, portanto, é sustentada pela própria venda da revista, por anunciantes e por
colaborações em geral.
A revista, desse modo, é encontrada quase exclusivamente com vendedores
identificados e que se localizam em pontos estratégicos, sobretudo em torno de espaços
relacionados a atividades culturais ou universidades, nas cidades-alvo do projeto: São Paulo e
Rio de Janeiro. A revista também pode ser adquirida à distância, por meio de pedidos por
email ou assinaturas via internet; nesses casos, a publicação é enviada por correio, e o preço
passa a incluir o valor da postagem. No entanto, a venda preferencial é feita pelos
beneficiários do projeto.
Para colocar em prática o projeto de atuação social da organização, possíveis
vendedores são recrutados por voluntários da organização, seja de forma ativa – por meio de
abordagens de pessoas em situação de risco, com o objetivo de difundir o projeto –, ou de
forma passiva – com o atendimento de interessados na sede da revista ou por pessoas já
envolvidas no projeto. A partir desse recrutamento, os vendedores devem obedecer a um
código de conduta, que busca normatizar a forma como os vendedores se apresentam e
abordam os possíveis compradores, a fim de manter coerência entre o projeto OCAS e as
relações que se estabelecem no dia a dia dos vendedores. O código enumera possíveis
situações que causariam o desligamento de vendedores do projeto, como a utilização de
linguagem racista, sexista ou ofensiva; comportamentos agressivos; a utilização de álcool e
drogas ilícitas; a venda das edições por valor superior ao estipulado ou a venda de outros
produtos não vinculados à revista, entre outras ações não condizentes com a proposta de
OCAS.
9
Atualmente, o preço de venda da revista é R$ 4,00. Os vendedores compram a revista por R$ 1,00, e lucram R$
3,00. Além disso, podem trocar gratuitamente edições antigas por mais recentes, nos casos de dificuldade de
venda.
36
O projeto busca ressignificar as consequências do problema da exclusão social,
inserindo-as de uma forma diferenciada no cotidiano urbano. Os vendedores personificam o
projeto OCAS em todas as suas dimensões, por suas histórias de vida e pela própria atividade
– a venda de um produto com conteúdo que pretende refletir os problemas relacionados à
exclusão social.
Apresentar a revista de tal maneira poderia, no entanto, encontrar certa resistência
social, tendo em vista o destaque dado para os temas que rotineiramente incomodam a
experiência urbana, ao dar destaque às consequências da exclusão e desigualdade sociais,
explicitando as fragilidades e contradições estruturais da própria metrópole e do modelo
individual-consumista que influencia as sociabilidades. No entanto, a estratégia da OCAS
consiste, justamente, em ‘re’-apresentar o que é considerado estranho à condição de
civilidade, garantida pelo desenvolvimento urbano, evitando o possível incômodo, ao traduzir
as condições adversas advindas da exclusão social em códigos aceitáveis, que não destoem do
cenário da metrópole.
Ou seja, a reinserção social pretendida pelo projeto não se resume apenas a uma
possível fonte de renda, mas também inclui a possibilidade de novas configurações da
sociabilidade dos vendedores da revista. A própria revista, em todas as suas edições, e
também em seu site na internet10, traz um texto que resume os objetivos e a proposta da
OCAS, ressaltando as diretrizes do trabalho realizado:
A revista é uma chance de mudança efetiva na vida das pessoas em situação de rua.
A interação decorrente da compra e da venda da publicação permite que os
vendedores estabeleçam contatos e deem novos e autônomos passos de reintegração.
O objetivo da organização é fornecer instrumentos de resgate da autoestima dos
vendedores, criando mecanismos para que o indivíduo se torne seu próprio agente de
transformação, de forma que Ocas” seja um ponto de passagem, e não o destino
definitivo.
Tanto o conteúdo da revista quanto as condições dadas para sua circulação, assim
como as projeções das consequências de suas intervenções sociais, originam-se, portanto, da
intenção de minimizar os efeitos nefastos das relações de exclusão e desigualdade sociais nas
metrópoles – São Paulo e Rio de Janeiro – onde circula o periódico.
A intenção de fazer da venda da revista um diferencial e uma potencial oportunidade
de mudança social acaba sendo uma ação considerada pontual e isolada, tendo em vista que
contribui de forma tímida para mudanças estruturais e políticas no contexto social de atuação.
Ao mesmo tempo, o lançamento da revista na cidade de Santo André, em parceria com a
10
Ver o canal “A revista”, em www.ocas.org.br
37
prefeitura, abre uma nova frente de interpretação: a de que o projeto social pode ser também
considerado um complemento das políticas existentes nas grandes cidades11. No entanto, o
que interessa para este estudo é a forma como se configura e se expressa o projeto de atuação
social e, consequentemente, os benefícios sociais decorrentes dele.
Atualmente, a Organização Civil de Ação Social contabiliza cerca de 1700
beneficiados com a iniciativa até o ano de 200612, com uma estimativa de transferência de
renda para os vendedores que se aproxima de R$ 660 mil. O número médio de vendedores
presentes hoje nas duas cidades de circulação da revista é de 30, tendo em vista que esse dado
é flutuante, pois os beneficiados não são obrigados a permanecer no projeto por tempo
determinado.
2.6.1 Histórico e origem
Inspirada em um exemplo inglês chamado “The Big Issue”, revista que também tem o
objetivo de ser uma alternativa de renda e ressocialização para moradores de rua e pessoas em
situação de risco, a revista Ocas surge das iniciativas do publicitário carioca Luciano Rocco –
que estava interessado em implantar uma publicação do mesmo caráter da revista inglesa,
após conhecê-la em Londres – e dos editores do jornal paulista “O Trecheiro”, em especial o
jornalista e fotógrafo Alderón Costa, que já estava em contato com representantes da
publicação italiana Terre di Mezzo, que tem a mesma atuação social, e cuja intenção era
apoiar uma versão brasileira a ser comercializada nas ruas. A implantação do periódico no
Brasil foi mediada pela INSP – International Network of Street Papers –, organização que
congrega as publicações dessa natureza em todo o mundo13.
A aproximação entre os interessados das duas capitais – São Paulo e Rio de Janeiro –
foi o movimento necessário para que surgisse o projeto da revista e do consequente trabalho
social promovido pela organização. Após conversas e a adesão de vários outros profissionais,
a revista Ocas é lançada no mês de julho de 2002 nas duas capitais, onde circula até hoje. No
mês de abril de 2011 a revista Ocas também foi lançada na cidade de Santo André14, na região
11
Ainda assim, consideramos que essa possível complementação tem pouca ressonância na consolidação de
políticas estruturantes que visam resolver o problema da população em risco social nas metrópoles.
12
Últimos dados mais recentes da própria organização.
13
A organização congrega 114 periódicos de 40 países, todos com o mesmo objetivo e dinâmica de circulação –
pessoas em situação de vulnerabilidade pagam menos que 50% do valor das revistas, obtendo uma fonte de
renda que vai auxiliar na superação do risco social. Os chamados “street papers” estão organizados desde 1994,
mas as primeiras experiências de veículos com tal objetivo datam do final da década de 1980.
14
Por se tratar de uma cidade da região metropolitana de São Paulo, quando se referir aos locais de circulação da
revista este estudo tratará como “grande cidade”, “metrópole”, ou mesmo se reduzir a citar apenas “São Paulo”,
numa compreensão ampla da extensão territorial das configurações do ambiente urbano paulistano.
38
metropolitana de São Paulo, em parceria com os programas de assistência social da prefeitura
municipal.
Inicialmente, a periodicidade da publicação era mensal, mas desde 200515 a revista
passou a circular bimensalmente devido, principalmente, a problemas de financiamento da
revista. A tiragem da revista também mudou, desde o lançamento: inicialmente, eram
impressos 15 mil exemplares mensais, número que se reduziu pela metade ainda no período
recente de publicação da revista, quando ainda circulava mensalmente. A tiragem atual da
revista é de 5 mil exemplares totais, que abrangem as duas cidades de circulação da revista –
São Paulo e Rio de Janeiro.
Todo o conteúdo é produzido e organizado por colaboradores fixos ou eventuais, que
não recebem nenhuma remuneração pelo trabalho e também colaboram com a expansão do
projeto, buscando parcerias e novos vendedores a serem beneficiados com a proposta.
2.6.2 Estrutura da revista
Do ponto de vista da estrutura gráfica, a revista não apresentou grandes mudanças
desde o seu lançamento. Em formato de 21cm X 28cm – um pouco maior que a dimensão de
20,3cm X 26,5cm comumente encontrada na maioria das revistas –, a distribuição do texto em
três colunas a aproxima das revistas de grande circulação, por manter o padrão facilmente
identificado pelos leitores, mas ao mesmo tempo a destaca dentre outras publicações por
permitir colunas maiores e de diagramação diferenciada, que facilitam e tornam a leitura mais
agradável. O conteúdo é distribuído em seções que organizam a forma de apresentação dos
temas na revista.
Além versão impressa, a organização ainda conta com um site e um blog para a
divulgação de conteúdos relacionados ao projeto, além de reforçarem a atuação social e
promoverem a venda da revista impressa. Em um de seus canais, o site reproduz o texto que
também circula em todas as edições impressas, que faz um resumo da estrutura da publicação:
Ocas” promove a responsabilidade social e publica seções dedicadas a notícias
nacionais e internacionais, comportamento, lançamentos artísticos e intelectuais e
ensaios. Além disso, a publicação reserva espaço para a expressão dos vendedores e
aborda problemáticas relacionadas à exclusão social. A revista é produzida por
jornalistas e não depende de grupos de comunicação, nem está vinculada a interesses
comerciais e políticos16.
15
Algumas informações adicionais, como a mudança da periodicidade, a tiragem, entre outros detalhes, foram
obtidas pela autora desta dissertação em entrevista (por telefone) com o jornalista Márcio Seidenberg, que está
no projeto OCAS desde 2004, e é o atual presidente do Conselho Executivo da OCAS. A entrevista ocorreu no
dia 29/06 e foi gravada (o registro está em posse da pesquisadora).
16
Ver o canal “A revista”, em www.ocas.org.br
39
O editorial, presente em todas as edições, como em outras publicações periódicas,
reflete o posicionamento da revista e dos participantes do projeto sobre os temas que figuram
as edições da revista, quase sempre os temas que estampam a sua capa. Entendendo a
definição de “seção” como sendo partes que compõem a revista identificadas por uma
retranca com nome específico, é possível definir as seguintes seções17 na revista Ocas:
Filosofia de esquina: nesta seção fixa18, a revista dá espaço para a opinião de ‘pessoas
comuns’ sobre algum tema, geralmente sugerido por meio de uma pergunta à qual os
entrevistados têm de responder em poucas palavras. São publicadas as fotos dos entrevistados
juntamente com uma frase que resume a opinião de cada um deles.
Palanque: espaço também fixo reservado para a publicação de frases que se destacam dentro
de um contexto, geralmente ditas por figuras públicas, ou por pessoas com representatividade
em relação a uma situação ou contexto.
Cabeça sem teto: seção que se dedica a falar exclusivamente de temas relacionados à
população de rua e/ou à situação de risco social da vivência nas ruas. Por ser um espaço
permanente e que se preocupa diretamente com o assunto “chave” para a existência do
projeto, esta seção será estudada nesta dissertação. Muitas vezes, os textos publicados nesta
seção são resultado de oficinas realizadas com os vendedores, sendo de autoria dos mesmos.
Delírios urbanos: seção que se iniciou na edição de janeiro/fevereiro de 2009 (n. 63) dentro da
seção “O país”, foi denominada pela própria publicação como uma “série”, e permaneceu na
revista até a edição de janeiro/fevereiro de 2010 (n. 69), com exceção da edição de
julho/agosto de 2009 (n. 66), que não traz a retranca “Delírios urbanos”. O objetivo da seção
foi explorar o tema da saúde mental a partir de projetos e experiências “em que pessoas, em
experiência de sofrimento psíquico ou não, buscam a convivência em harmonia, mostrando
que é possível construir uma sociedade livre dos antigos hospitais psiquiátricos19”(pág. 20).
Capa: por reproduzir a matéria jornalística que confere visibilidade à publicação, esta seção
também será estudada nesta dissertação. Os textos principais da revista variam entre
17
As seções aqui descritas não contemplam a mudança ocorrida na edição nº 78 (julho/agosto 2011), que passou
a publicar novas seções, em novo layout da revista. O slogan “Saindo das ruas”, também não aparece mais na
capa da revista a partir desta mudança.
18
Nas edições que compõem a amostragem estudada por esta dissertação, a seção “Filosofia de esquina” deixou
de aparecer em apenas uma delas (n. 63), a qual tratava de maneira especial da Copa de Mundo de Futebol de
Rua, um dos eventos que faz parte do projeto da organização e que envolve todos os países onde existem
projetos da mesma natureza que o projeto OCAS.
19
SEIDENBERG, Márcio. Tarde de Delírio. Revista Ocas. SP: n. 63, p.18-20, jan/fev 2009.
40
entrevistas com personagens renomados no cenário cultural brasileiro e também matérias que
tenham relação com a questão da desigualdade e exclusão social20.
Carrossel: seção fixa com pautas variadas, geralmente ligadas à questão da arte e da cultura.
O país: seção que não aparece em todas as edições da revista e que trata de temas relacionados
à política e a ações sociais que intervenham nas condições de vida de pessoas em
vulnerabilidade, como a questão das políticas públicas, sempre em consonância com a
proposta da revista.
Foco: espaço reservado para a publicação de ensaios fotográficos e fotografias expressivas,
cujos temas podem ou não ter relação com o tema principal da edição.
Carrossel 1 uns: seção destinada à publicação de pequenas resenhas com dicas sobre livros,
peças teatrais, discos, filmes, sites, entre outros produtos culturais.
Jazz: espaço fixo reservado para a publicação de crônicas e textos de temas variados do
escritor Fernando Bonassi, que geralmente se relaciona direta ou indiretamente com o tema
principal da edição.
Cartum: espaço reservado para a publicação de ilustrações, charges, quadrinhos, desenhos,
cartuns e expressões gráficas afins de colaboradores, com temas variados.
Cartas: seção que não aparece com frequência na revista, e que publica comentários de
leitores sobre a proposta e os textos da revista.
Cranianas: espaço reservado para a publicação de artigos de colaboradores sobre temas
variados e relacionados à questão da desigualdade e exclusão social.
Além disso, nas páginas finais de cada edição é publicado o código de conduta que
norteia o comportamento dos vendedores.
Vale ressaltar que o próprio nome da revista, “Ocas”, referencia o nome da
organização que a origina (Organização Civil de Ação Social – OCAS), seguido de um slogan
que resume a atuação social da publicação: “Saindo das Ruas”. Tal slogan faz uma dupla
referência: tanto à oportunidade criada aos vendedores da revista, que passam a contar com a
possibilidade de sair da situação de risco social, quanto aos próprios temas que constroem a
revista, que mesclam pautas mais genéricas, sobretudo relacionas às questões culturais, com
outras que relatam os problemas e as experiências de risco social, destacando em seus
personagens e histórias as narrativas que vão ao encontro da ideia de superação das
conseqüências nefastas das desigualdades sociais.
20
Das 12 publicações estudadas nesta dissertação, 7 tiveram capas com entrevistas e as outras 5 publicaram
temas relacionados à desigualdade e exclusão social como tema central das matérias.
41
2.6.3 “Capa” e “Cabeça sem teto”: as seções estudadas
Para esta dissertação foram selecionadas duas seções específicas para análise: “Capa”
e “Cabeça sem teto”. A escolha se deu pelo fato de que as duas seções se ligam
intrinsecamente tanto ao conceito do projeto social, quanto aos seus desdobramentos práticos,
ou seja, as seções podem revelar nuanças sobre a questão da exclusão social, problema
essencial para o surgimento da OCAS, bem como dos temas pelos quais a revista busca a sua
inserção social, efetivada pela compra da revista.
A seção “Cabeça Sem Teto”, além de fazer referência especificamente à condição de
risco social já em seu título, ainda se caracteriza como operação autorreferencial-didática, ao
apresentar situações e histórias que relatam ao leitor um pouco das formas de expressão da
exclusão social, que é o próprio motivo da existência da revista.
A segunda seção estudada é a matéria de capa, denominada na estrutura da revista
apenas como “Capa”. Nela destaca-se a estratégia discursiva que a revista Ocas utiliza para
construir o próprio contexto em que se insere e também que a origina. As entrevistas e
matérias temáticas apresentadas nesta seção procuram refletir não apenas a situação social que
é problematizada pela OCAS, mas também por construir discursivamente seu ambiente de
circulação, ao escolher personagens e temas com bom trânsito no cenário cultural das grandes
cidades onde a publicação circula. O tratamento dado às matérias ou entrevistas que figuram a
seção conduzem a narrativas que, geralmente, por intermédio de reflexões acerca das
dinâmicas culturais urbanas, buscam, em maior ou menor medida, certa preocupação com o
contexto de desigualdade social.
2.7 Considerações sobre o capítulo
A desigualdade e exclusão sociais são problemas que, embora reconhecidos como
inimigos do desenvolvimento urbano, por atingirem parcelas significativas da sociedade, são
também consequências da própria urbanização, na medida em que esta se dá a partir dos
pressupostos econômico-financeiros de exploração do território das cidades, visando o lucro e
a acumulação, ou seja, trazendo em seu cerne a dinâmica excludente e desigual. Dessa forma,
as metrópoles se configuram como ambiente da contradição por natureza, embora concentre,
ao mesmo tempo, os dispositivos do desenvolvimento de tal forma a atrair significativos
contingentes e investimentos.
Assim, o ciclo da urbanização acaba sendo marcado pela pobreza, se impõe como uma
situação social comum a grande parcela da sociedade. No entanto, os grupos dominantes – no
que se refere a governos e poder econômico – buscam, por meio dos aparatos simbólicos e
42
políticos, naturalizar e/ou invisibilizar essa conjuntura, de acordo com os interesses que uma
ou outra atitude possam oferecer à manutenção do poder.
Em interface com esse contexto, o imperativo da tecnologia, intrínseco ao
desenvolvimento socioeconômico baseado nas relações capitalistas, constituem novas
configurações dos sujeitos e dos movimentos sociais urbanos, que contam agora com novos
códigos que influenciam e determinam a sociabilidade. Mas um código, em especial, se
estabelece como imprescindível para as relações sociais contemporâneas: a comunicação, com
papel central das mídias (meios de comunicação).
O entendimento dessas nuanças que constroem o tecido urbano das metrópoles,
decisivamente pautadas pela midiatização, desempenha papel indispensável para localizar o
objeto de estudos desta dissertação em seu contexto social de atuação. No entanto, esse
contexto não é suficiente para a compreensão do referido objeto – a revista Ocas. Por isso, o
próximo capítulo vai se dedicar a localizar o periódico em função dos próprios conceitos
comunicacionais, sobretudo em relação ao conceito de “alternativo”, por se tratar de um
produto que circula fora dos espaços hegemônicos da comunicação.
43
3 Comunicação alternativa: discussões e aproximações com a revista Ocas
Cabe, neste momento, atentar para uma possível conceituação da revista Ocas no que
se refere à prática jornalística que promove. Isso porque, a partir dos padrões hegemônicos,
este estudo parte do pressuposto que o jornalismo praticado pela publicação estudada seria
uma forma alternativa de atuação no cenário do periodismo brasileiro.
No entanto, esse pressuposto fica vazio sem a problematização do conceito de
comunicação alternativa, tendo em vista as configurações sociais cada vez mais fluidas que
ancoram tal conceito na contemporaneidade.
3.1 As controvérsias em torno do termo “alternativo”.
A palavra “alternativo” tem origem latina, do prefixo alter, que significa “outro” ou
“colocar-se no lugar de outrem”. A acepção utilizada pela comunicação, em especial pelo
jornalismo, tem exatamente o sentido estrito do prefixo, por ser atribuído a meios de
comunicação com diferentes perspectivas em relação aos meios de comunicação tradicionais,
oficiais ou hegemônicos. Os meios alternativos seriam, portanto, outras opções tanto no que
se refere ao conteúdo apresentado, quanto à plataforma estrutural do meio dito alternativo,
mas sempre em contraponto a uma estrutura de poder dominante, em especial o Estado, a fim
de reduzir o histórico monopólio na difusão de discursos por parte dos detentores do poder.
Grinberg (1987), ao discutir o conceito de comunicação alternativa naquele momento
na América Latina, resume o que seria a proposta de comunicação alternativa no contexto em
que esta imerso:
(...) não propomos uma alternativa aos media como tais, mas enquanto instrumentos
do poder; e, inversamente, o meio não é em si o alternativo (ou não o é
necessariamente) mas o instrumento de uma opção promovida por um grupo de
pessoas ou por um setor social. (GRINBERG, 1987, pp. 19-20, grifos no original)
O autor faz uma interessante ressalva no que diz respeito às formas de tratamento das
informações veiculadas como sendo “alternativas”, em especial ao que se refere às estratégias
discursivas das experiências ditas alternativas, alertando sobre os problemas de uso autoritário
dos discursos. O autor defende uma posição crítica contra os poderes, em suas vaiadas
configurações existentes, já que estas pressupõem formas de dominação prejudiciais à
sociedade. Nesse sentido, os meios de comunicação alternativos teriam essa posição crítica
como norteadora. Define o autor:
44
Em que contextos, então, surge um meio alternativo? Surge da própria práxis social,
quando se faz necessário para gerar mensagens que encarnem concepções diferentes
ou opostas às difundidas pelos meios dominantes. Aparece então como parte de uma
atividade que o transcende, vinculado sempre ao propósito de modificar em algum
sentido a realidade, ainda que este propósito se encontre com os limites que o
próprio contexto lhe impõe. (GRINBERG, 1987, p. 24, grifos no original)
A histórica definição de comunicação alternativa como sendo um contraponto aos
grupos dominantes também pode ser observada nas discussões feitas especificamente no
contexto brasileiro, conforme os apontamentos feitos no livro organizado por Regina Festa e
Carlos Eduardo Lins da Silva (1986). Ou seja, como afirma Grinberg (1987), a imprensa
alternativa em toda a América Latina, conserva sua essência na oposição aos meios de
comunicação predominantes, enfrentando com sua própria circulação as informações e
discursos hegemonicamente veiculados.
A íntima relação com os movimentos sociais e populares de reivindicação e pressão
por mudanças sociais foi, portanto, uma marca da comunicação alternativa em toda a América
Latina, fato que torna historicamente estreitos os laços que unem os conceitos “alternativo” e
“popular”. No entanto esse delineamento não fica claro na literatura que versa sobre as
diferentes experiências alternativas e/ou populares em comunicação.
Cicilia Peruzzo (1998) utiliza a ideia de popular como conceito-chave na definição das
formas comunicativas configuradas na sociedade, dentre as quais a comunicação “popular
alternativa” seria uma das correntes21 identificáveis em tal conceituação. Tal corrente estaria
estreitamente ligada sob uma perspectiva aos movimentos sociais de reivindicação e
resistência, opondo-se à comunicação de massa; e sob outro aspecto aos movimentos mais
dialéticos da sociedade civil da última década do século XX, com atuação mais voltada a
interferências na cultura e na democratização da comunicação.
Para diferenciar os termos “popular” e “alternativo”, a autora destaca o entendimento
que tem sobre “imprensa alternativa”, baseada na conceituação de Festa e Silva (1986),
segundo o qual a prática da comunicação alternativa se restringiu à oposição crítica ao
governo ditatorial brasileiro a partir da década de 60, em defesa de interesses do país e
também de grupos sociais específicos liderados por trabalhadores e/ou por parcela da
burguesia que se opunham com ideias ao regime militar. De acordo com essa perspectiva, em
21
As outras correntes seriam a “popular-folclórica” e a “popular-massiva”, entendendo a primeira como
manifestação culturais tradicionais (folclore), e a segunda como expressão da indústria cultural, como os
programas populares nas redes de televisão, ou a apropriação da cultura popular (linguagem, religiosidade) pelos
meios de comunicação massivos. Ver: PERUZZO, 1998, p. 118
45
determinada acepção a imprensa alternativa já teria deixado de existir, reconfigurando-se mais
contemporaneamente no contexto popular e dos partidos políticos em disputa na sociedade.
No entanto, ao descrever essa nova prática comunicativa, a própria autora acaba por
retomar conceitos utilizados anteriormente para caracterizar a chamada imprensa alternativa,
como a preocupação com os interesses de grupos sociais alijados de seus direitos, por
exemplo. Essa observação interessa num principal sentido: a conceituação da comunicação
alternativa se situa em terreno essencialmente polissêmico, e está centrada no eixo da luta por
mudanças estruturais da sociedade, tornando-a mais equalizada e efetivamente democrática.
Ao fazer uma radiografia dos estudos latino-americanos que se dedicam a refletir
sobre as experiências alternativas e populares no contexto da comunicação, Beatriz Dornelles
(2007) contribui para uma indicação sobre um possível parâmetro em meio a tantas definições
no cenário polifônico da elaboração de conceitos de comunicação alternativa. Mesmo
ressaltando a impossibilidade de generalizações, a construção feita pela autora leva à
inferência sobre a importância de se localizar a comunicação alternativa a partir dos vínculos
que estabelece socialmente com os sujeitos: “Propõe-se que sejam feitos estudos em maior
profundidade, a partir dos jornais existentes em circulação, considerando a intenção dos
produtores e dos receptores das diferentes publicações, além, é claro, do conteúdo divulgado”
(DORNELLES, 2007, p.15).
A autora destaca, ainda, que um dos consensos que está se construindo em torno do
conceito de comunicação alternativa é o fato de esta ser um contraponto à comunicação
engendrada pelos meios de comunicação tradicionais e hegemônicos, a chamada grande
mídia. Assim os meios alternativos representariam outras opções, alternativas a mais, em
circulação na sociedade (DORNELLES, 2007, p.15). No entanto, essa segunda indicação de
parâmetro para a comunicação alternativa, para além de ser uma simples aferição de um
contexto de circulação dos veículos de comunicação, se caracteriza por reduzir a questão –
que é complexa em sua origem, e se complexifica a cada dia pela ligação orgânica com a
cultura e as estruturas sociais – ao entendimento liberal de livre concorrência de mercado,
ignorando as relações desiguais que também pautam o contexto de circulação de informações
e a existência dos meios de comunicação.
Ou seja, todo o dissenso em relação à conceituação de comunicação alternativa
poderia ser transformado em consenso na medida em que as definições mantenham em sua
perspectiva a ação da prática comunicativa em questão – alternativa – em sua relação com as
práticas simbólicas hegemônicas na sociedade. E é a partir desse ponto de vista que se
estabelecem na contemporaneidade novos delineamentos para a comunicação alternativa.
46
3.2 Correntes tradicionais e contemporâneas no estudo da comunicação alternativa
Como já indicado, os estudos em comunicação alternativa na América Latina e no
Brasil foram marcados pela estreita relação entre os movimentos sociais e o surgimento e
prática da comunicação alternativa. Nesse sentido, identifica-se na literatura existente sobre o
assunto uma significativa e recorrente referência aos termos popular, bem como o
comunitário, tendo em vista os vínculos sociais estabelecidos pelos movimentos
reivindicatórios e pela comunicação, considerando a importância e centralidade desta na
configuração dos espaços.
A confusão que se identifica nas citações dos três termos – alternativo, popular e
comunitário – parece refletir a complexa natureza da prática comunicativa que põe em relação
os diversos atores e subjetividades nos territórios. A conceituação de “comunicação popular”
feita por Peruzzo (1998), que faz um resgate das acepções mais tradicionais sobre
comunicação popular/alternativa/comunitária, se baseia em um entendimento que não
distingue claramente as acepções de “popular” e “comunitário” quando ligados à
comunicação. Como exemplo, ao discutir a contraposição entre comunicação popular e
comunicação massiva, a autora lança a seguinte questão: “Quem, mesmo lendo o jornalzinho
da “comunidade”, não acompanha o noticiário da televisão? Ou quem deixa de ver a “novela
das oito” para assistir um (sic) programa da tevê educativa ou cultural?” (PERUZZO, 1998,
p.131).
Essa questão, num contexto de debate sobre comunicação popular, não apenas indica
uma brecha na ideia que se tem sobre comunidade e comunicação comunitária, como também
sugere certa fragilidade na discussão sobre uma possível perspectiva popular para o
entendimento dos meios de comunicação – sejam de massa ou comunitários. Isso porque, é
necessário ponderar que nem sempre um “jornalzinho da comunidade” pode ter uma
perspectiva que leve em conta os interesses populares. Ao mesmo tempo, falar de “interesses
populares” pode se referir a demandas diametralmente opostas a “interesses comunitários”. A
própria autora sugere tal ponderação, ao apresentar a natureza polissêmica do conceito de
“povo”:
O povo é composto por classes subalternas, mas não necessariamente só por elas. Há
momentos em que ele engloba quase toda a nação. (...) Povo não tem estatuto teórico
universal, não se podendo, portanto, vê-lo sob uma categoria de análise prefixada. É
preciso apanhá-lo em seu contexto, como uma realização histórica, cuja composição
e cujos interesses variam em função de fatores determinantes, estruturais e
47
conjunturais, constituindo-se sempre num todo plural e contraditório. (PERUZZO,
1998, pp. 117-118)
Além disso, ao se considerar o contexto em que se inserem tais conceitos, como
sugerido pela autora, a própria definição dos mesmos se torna relativa, sobretudo no que diz
respeito às formas em que tais práticas comunicativas se instituem social, política e
culturalmente.
Sendo assim, as diferentes abordagens bibliográficas mais tradicionais da área da
comunicação que destacam em maior ou menor medida cada um dos três conceitos aqui
referidos (alternativo, popular e comunitário) são passíveis de fragilidades em suas definições.
A opção pela primazia do conceito “alternativo” pode, como já indicado anteriormente,
reduzir a questão à mera opção por mais uma forma de comunicação no mercado, ignorando
possíveis atuações na esfera social, bem como os vínculos que podem representar com e entre
os sujeitos.
Já a perspectiva popular, como já indicado anteriormente, é carregada de distintos
significados, que se confundem entre si, originando uma realidade para a comunicação
popular em que a polissemia se impõe como determinante para a relativização das diferentes
experiências relacionadas a esse tipo de prática comunicativa: por exemplo, em diferentes
situações, podem ser chamados populares tanto um programa televisivo de massa, que pouco
ou nada tem de conteúdo crítico, quanto um jornal organizado por um grupo de discussões
sobre problemas de um determinado bairro de uma grande cidade.
As referências à comunicação comunitária também estão sujeitas a definições frágeis.
Especialmente no que diz respeito ao sentido que toma em suas expressões na sociedade, a
comunicação comunitária pode se caracterizar por ser uma forma de manutenção das
estruturas e conjunturas marcadas pela desigualdade e violação de direitos. Como afirma
Yamamoto (2007), ao concluir discussão sobre as acepções das pesquisas em comunicação
popular e comunitária,
o sentimento de comunidade se manifesta numa perspectiva sedutora, uma espécie
de fuga da sociedade ocasionada pelas contradições do sistema. Este, por outro lado,
se mantém intacto devido à perpetuação dos valores e dos mecanismos funcionais da
sociedade capitalistas, como estratégia de manutenção da estrutura social
(YAMAMOTO, 2007, p.197)
Dessa forma, reforça-se a constatação que a literatura tradicional que discute o
conceito de comunicação alternativa – e, por extensão, comunitária e popular– sofre da falta
48
do delineamento de parâmetros que possam nortear as discussões sobre o tema, fazendo com
que a polissemia e a confusão conceitual se tornem uma marca nos estudos na área.
Neste trabalho, a manutenção da denominação “alternativo” terá o sentido de
alternativas encontradas pelas práticas comunicativas de vincular-se num contexto,
apropriando-se de seus instrumentos simbólicos de forma crítica e significativa para
transformar tal contexto, o que se aproximaria do conceito de comunidade. Isso porque, ao
falar de vinculação, entende-se a importância da comunicação nas relações entre sujeitos,
instituições e práticas culturais, ou seja, das dinâmicas que se desenvolvem em nível
comunitário.
Conforme já apontado no primeiro capítulo desta dissertação, a comunicação assume
na contemporaneidade um papel central no desenvolvimento urbano, o que instiga a reflexão
sobre como essa posição central da comunicação influencia na configuração dos territórios,
palcos para os acontecimentos cotidianos. Martín-Barbero (2003) destaca que é em âmbito
local que se estabelecem sentidos para as subjetividades em relação, e no território é que a
comunicação estabelece os sentidos sociais.
A comunicação é percebida, em todo caso, como o cenário cotidiano do
reconhecimento social, da constituição e expressão dos imaginários a partir dos
quais as pessoas representam aquilo que temem ou que têm direito de esperar, seus
medos e esperanças. (MARTÍN-BARBERO, 2003, p.63).
Considerando as novas configurações que se impõem às sociabilidades no advento do
século XXI – sobretudo as modificações impostas pelas tecnologias digitais, além do avanço
da democracia, no caso brasileiro – faz-se premente ponderar, no estudo de práticas
comunicativas não-hegemônicas, as formas como estas se expressam e se colocam diante das
relações estabelecidas socialmente. Isso porque, a compreensão das interfaces estabelecidas
em torno e em relação às práticas simbólicas predominantes contribui para o estabelecimento
de um parâmetro contemporâneo das práticas de comunicação alternativas na atualidade.
Entende-se, portanto, a perspectiva alternativa não como outra opção, uma
possibilidade a mais de escolha frente às diversas práticas comunicativas na sociedade, mas
sim como um contraponto às práticas hegemônicas no sentido de construírem e representarem
outras formas possíveis de engendramento comunicativo no interior da dinâmica da
sociedade, partindo sempre dos vínculos estabelecidos entre os sujeitos no cotidiano.
Nesse sentido, é válido destacar o sentido que as minorias sociais (e sua ação)
assumem no contexto social contemporâneo. Ao discutir a fluidez que caracteriza as
49
definições de “comunidade”, o que determina um perigoso cenário para a comunicação,
Nemézio Amaral Filho (2008) ressalta que a própria crítica em nome da preservação dos
vínculos sociais (comunidade) pode acabar contribuindo para a manutenção do mesmo
contexto de desenvolvimento excludente, que é diariamente reforçado pela mídia hegemônica
e outras instituições e formas simbólicas de dominação.
Para que as comunidades, por outro lado, tenham acesso a esse modelo (o do
desenvolvimento) de relacionamento com o mundo, elas teriam, argumentam
puristas e seus adversários – os representantes da ordem econômica vigente – que
deixar de ser o que são agora. (...) dito de outro modo, é negada a possibilidade de
inserção desses grupos na sociedade envolvente que não seja por meio de sua
própria destruição. É por isso que elas devem permanecer como estão: à margem.
(AMARAL FILHO, 2008, pp.85-86)
Na contramão dessa conjuntura que leva ao imobilismo das estruturas societárias, com
a manutenção de situações de perversidade (SANTOS, 2001), as minorias sociais se
constroem na contemporaneidade em ligação direta com a crise das instituições sociais e do
próprio espaço público, conforme ressalta Muniz Sodré (2005), ao discutir a definição atual
do conceito de “minoria”.
Pois bem, minoria é uma recusa de consentimento, é uma voz de dissenso em busca
de uma abertura contra-hegemônica no círculo fechado das determinações
societárias. É no capítulo da reinvenção das formas democráticas que se deve
inscrever o conceito de minoria. (SODRÉ, 2005, p.14)
A definição apresentada pelo autor contribui para a reflexão aqui feita sobre a face
contemporânea da comunicação alternativa na medida em que identifica no interior das
práticas sociais (hegemônicas) o lugar de atuação das minorias, que têm como características
básicas a vulnerabilidade social, a constante construção social de sua identidade, a luta contra
os pressupostos e conceitos que guiam as perspectivas hegemônicas, e a utilização de
estratégias discursivas para seu reconhecimento. Nesse sentido, o conceito de minoria se
aproxima da definição e ideia de comunicação alternativa contemporânea por ser “um
dispositivo simbólico com uma intencionalidade ético-política dentro da luta contrahegemônica” (SODRÉ, 2005, p.12).
Ao
discutir
os
novos
delineamentos
da
comunicação
comunitária
na
contemporaneidade, Raquel Paiva (2007) também destaca a questão do contraponto à
hegemonia como sendo importante delineamento para tal prática comunicativa, que a própria
autora, em determinado trecho do texto considera como sendo uma “alternativa
comunicacional” (PAIVA, 2007, p.145). A partir desse contexto de contraposição às
50
estruturas hegemônicas, a autora ainda elenca outras características que definem as práticas
comunicativas comunitárias, no caso, coincidentes com o conceito atual de comunicação
alternativa: busca de maior polifonia na dinâmica societária, experimentação de novas formas
de linguagens e posturas sociais, possibilidade de interferência no sistema produtivo da
sociedade, maior aproximação entre consumidores e produtores das informações que
circulam,
proposta
educativa
(com
frequente
existência
de
projetos
paralelos),
desenvolvimento de novas tecnologias, e finalmente a possibilidade de novas reflexões sobre
o conceito de comunicação.
Ora, as manifestações comunicacionais da perspectiva contra hegemônica se
configuram, portanto, como sendo componentes importantes para o entendimento das relações
que estabelecem na contemporaneidade, tendo em vista o papel central que a comunicação –
seja em sua acepção hegemônica ou alternativa – exerce no delineamento das estruturas
urbanas e do desenvolvimento social. Ao propor uma revisão dos conceitos de “alternativo”,
“comunitário” e “popular”, na perspectiva das características da comunicação contemporânea,
Cicilia Peruzzo (2006) destaca que as experiências atuais passam a considerar mais outras
formas de manifestação simbólicas que ultrapassam a resistência político-ideológica
característica das expressões alternativas da comunicação no século XX.
Neste contexto, o caráter mais combativo das comunicações populares – no sentido
político-ideológico, de contestação e projeto de sociedade – foi cedendo espaço a
discursos e experiências mais realistas e plurais (no nível do tratamento da
informação, abertura à negociação) e incorporando o lúdico, a cultura e o
divertimento com mais desenvoltura, o que não significa dizer que a combatividade
tenha desaparecido. Houve também a apropriação de novas tecnologias da
comunicação e incorporação da noção do acesso à comunicação como direito
humano. (PERUZZO, 2006, pág.06)
A autora afirma ainda que, atualmente, não apenas os conteúdos, mas também as
formas como se configuram os processos produtivos e de difusão dos meios de comunicação
podem contribuir para uma perspectiva social mais democrática. Assim, os meios de
comunicação que se estabelecem a partir de uma vertente comunitária (com vínculo social e
territorial entre os sujeitos), que se pode chamar atualmente – e no contexto da discussão aqui
apresentada – de alternativos, são os principais representantes dessa contribuição (PERUZZO,
2006, p.10).
Peruzzo (2006) elenca as novas formas de organização dos grupos sociais que passam
a ser protagonistas de experiências alternativas no que diz respeito às práticas comunicativas
na sociedade contemporânea, o que incluiria os movimentos relacionados às questões de
51
gênero, etnia, ambientais, violência, além de cooperativas, associações, ONGs, e outros tipos
de organização do chamado terceiro setor (PERUZZO, 2006, p.14). Para a autora, a despeito
de um contexto no qual se estimula a competitividade, tais grupos superariam o peso da
individualidade em favor da busca por direitos cidadãos e por um contexto social justo.
Entretanto, ressalta-se que nem sempre tais grupos (reconfigurados na atualidade)
sejam representativos ou tenham a lógica das minorias caracterizadas por Muniz Sodré
(2005), conforme já descrito anteriormente. Nessa linha de pensamento, Gabriel Kaplún
(2007) destaca que o imperativo do desenvolvimento contemporâneo, que se impõe para os
diversos grupos (sobretudo as ONGs) que se organizam em busca de pretensas mudanças
estruturais na sociedade, pode, na verdade, determinar vínculos e ações estritamente
instrumentais e pouco eficazes na promoção de alternativas e contextos propícios às
mudanças necessárias.
Para Kaplún (2007), a conjuntura que mais revela tal fragilidade é o que ele chama de
“lógica dos projetos”, caracterizada pela profusão de ações planejadas para grupos
específicos, com atuação pontual e, em última instância, inócua diante da dinâmica social.
Planejar pode ser, assim, um modo de aplanar: aplanar as diferenças e conflitos,
aplanar as complexidades e processos para fazê-los mais manejáveis. Quando esta
engenharia se expande no campo especificamente comunicacional, converte-se em
coisas como o marketing social: a mudança pode vender-se como um produto a
mais. (KAPLÚN, 2007, p.184)
Tal constatação desafia a comunicação alternativa não apenas enquanto possível
estatuto contra-hegemônico no contexto do imperativo midiático que se impõe às
sociabilidades, mas também em relação aos parâmetros que sustentam as relações sociais
engendradas pela comunicação – e também determinantes nas configurações das esferas
comunicativas. A concretização dos projetos de comunicação alternativa corre o risco de ser
um fim em si mesma, afastando-se do sentido de sua inserção e vínculo sociais, ou seja,
apartando-se de seu necessário diálogo ativo com os sujeitos e as dinâmicas territoriais
cotidianas. E não se trata, neste caso, somente de uma discussão sobre a eficácia social da
comunicação alternativa, mas também sobre sua própria sustentação e reconhecimento,
entendendo-a em disputa simbólica cotidiana na sociedade.
Nesse sentido, vale destacar que o entendimento de contra-hegemonia defendido aqui
se aproxima do conceito de disputa apenas no que se refere aos dispositivos simbólicos que
hoje são determinantes para as sociabilidades. Ou seja, não se trata aqui de travar uma disputa
52
pela hegemonia, mas sim de superar os ditames hegemônicos, raiz das desigualdades e
injustiças sociais, em busca de uma nova ética social. Conforme ressalta Raquel Paiva (2008):
A radicalidade do que pode se configurar como contra-hegemonia talvez resida no
fato de não se desejar nunca o lugar de sujeito hegemônico, no fato de a contrahegemonia se orientar por uma razão fundamental que se configure de modo
contrário e oposto à hegemonia. (PAIVA, 2008, p.165)
A comunicação alternativa pode se sustentar socialmente na medida em que atue com
o objetivo de promover um olhar crítico às estruturas dominantes, de modo a não se apropriar
destas mantendo a mesma lógica, mas configurando outras formas possíveis de relações
sociais. E, sobretudo, criando novos sentidos à própria prática comunicativa, mais vinculados
ao cotidiano dos sujeitos e à construção da cidadania22 nas comunidades onde se desenvolve.
Tendo em vista o horizonte delineado por essa reflexão, faz-se necessário pontuar
algumas características que marcam o contexto da comunicação alternativa na
contemporaneidade, com especial olhar para o cenário social configurado pelos dispositivos
simbólicos, e as consequências de tal configuração.
3.3 As novas faces do conceito “alternativo”: comunicação e sociedade no século XXI
Como já pontuado no primeiro capítulo desta dissertação, a comunicação assume, a
cada dia mais, um papel central na configuração da sociedade urbana – que se impõe como
modelo de desenvolvimento social, segundo os padrões estipulados pelo capitalismo e suas
consequências, quase sempre nefastas para grande parte da população.
Vale destacar que, neste contexto, a comunicação torna-se fundamental para o
capitalismo, num duplo sentido relacional: ao mesmo tempo em que a comunicação se
configura como um instrumento de valorização do sistema econômico (e cultural), ao
favorecer a livre circulação de informações e capitalização de produtos e relações sociais, ela
também se caracteriza como uma forma possível de questionamento e até superação das
contradições do mesmo capitalismo. Conforme afirma Valério Brittos (2010):
É inegável que os processos midiáticos constituem a essência das operações de
dilatação do consumo, que sustentam a difusão e reprodução do sistema. Mas a
produção simbólico-tecnológica, o firmamento da midiatização, não é só um anel de
passagem da condição de cidadão ao de consumidor (ou de indivíduo a consumidorcidadão), tornando pleno um modo de vida específico, o capitalismo, que se
22
O papel da comunicação na construção da cidadania demanda ampla e profunda discussão acerca das variáveis
envolvidas nessa dinâmica. Por não ser o foco desta dissertação, a questão não foi desenvolvida no texto, mas se
fez necessário deixar indicada a importância do contexto comunicacional na construção dos sujeitos sociais.
53
transforma no modo natural de estar no mundo. É ainda um lócus de relação com a
diversidade, transmissão de visões distintas e dos desmandos do próprio mundo
capitalista. Isso não ocorre por deliberação do sistema e seus agentes; é apesar deles,
por dinâmicas concorrenciais entre corporações, fissões no interior das classes,
necessidade de incorporação de elementos distintos para garantir a adesão de outros
setores sociais (construindo permanentemente a hegemonia) e ações específicas de
seus trabalhadores. (BRITTOS, 2010, p. 54)
A utilização dos produtos midiáticos pode ser, assim, ressignificada no interior do
sistema que sustenta e é sustentado pela midiatização, caracterizando lógicas que se
diferenciam em relação aos processos comunicacionais dominantes, ainda que localizadas no
interior do mesmo sistema. Tal dinâmica coincide com o contexto contraditório do
desenvolvimento do capital (capitalismo), que acaba por gerar, em sua própria expansão,
conjunturas contraditórias à sua existência (MESZÁROS, 2009).
Vale destacar que a globalização, forma atual assumida pelo capitalismo como
expressão máxima da busca pela expansão do capital, é responsável, também, pela
exacerbação da contradição inerente ao sistema capitalista. Por isso, vários autores
prenunciaram no advento do século XXI e ainda hoje identificam o contexto contemporâneo
como sendo a fase mais crítica do capitalismo (MESZÁROS, 2009; MARTÍN-BARBERO,
2006).
A discussão dessa pretensa expansão capitalista se faz necessária no contexto da
comunicação justamente por ser esta a principal forma simbólica que o capital se apropria na
contemporaneidade a fim de implementar o objetivo principal do sistema que é manter o
lucro, sem perder de vista novas possibilidades para tal reprodução do capital. Ou seja, falar
de globalização é compreender, em última instância, o delineamento da comunicação
enquanto expressão cultural na sociedade, mas sempre em face das disputas econômicopolíticas que permeiam esse delineamento.
E essa estreita inter-relação social entre comunicação e a cultura só faz sentido se
entendida como processo inerente à constituição dos territórios, ou seja, entende-se que é nas
dimensões locais que as exigências advindas com o globalismo capitalista, também chamado
de transnacionalização do capital, se expressam, como já indicado neste capítulo (MARTÍNBARBERO, 2003). A colonização das formas simbólicas – em especial da comunicação –
pelo capitalismo, bem como o movimento que se opõe a essa dinâmica, só é observável
quando se atenta para as configurações culturais no interior das comunidades, a partir dos
vínculos estabelecidos entre os sujeitos e os códigos que compartilham.
54
É no cotidiano dos sujeitos que o capital se reproduz e que a hegemonia se perpetua 23,
mas é também no cotidiano que as formas de superação são descobertas, reinventadas e
implementadas. Dênis de Moraes (2010) mostra, a partir do pensamento gramsciano, como os
veículos midiáticos em geral, por trabalharem as instâncias simbólicas de construção de ideias
e verdades, são utilizados estrategicamente como um dispositivo de manutenção da
hegemonia. No entanto, o autor destaca que o próprio Gramsci enxergava possibilidades
dentro do próprio sistema hegemônico, tendo em vista as possibilidades de os mesmos
dispositivos servirem para a difusão de outras perspectivas e ideias – contra-hegemônicas,
com o objetivo de conformar lógicas sociais alternativas que sejam capazes de instaurar uma
nova hegemonia capaz de promover maior justiça social.
A contra-hegemonia institui o contraditório e a tensão no que até então parecia
uníssono e estável. Trata-se de apresentar argumentações alternativas para vergar o
senso comum, aprofundando e aperfeiçoando o conhecimento crítico da realidade
para transformá-la (...). Significa reorientar as percepções sobre o mundo vivido e
combater as racionalidades hegemônicas, concebendo o presente como passível de
ser alterado por ações concatenadas e convincentes.” (MORAES, 2010, p. 104)
Baseando-se em Gramsci, Moraes (2010) mostra, no contexto da esfera simbólicocomunicativa, as possibilidades de superação da perversa dinâmica do capital, que é sensível
material e simbolicamente no cotidiano da maioria da população, privada de seus direitos
básicos de dignidade, como moradia, alimentação, educação e cultura.
Assim como a expansão capitalista, também a promoção de uma hegemonia simbólica
se dá em escala planetária, tendo em vista a estratégia de padronização dos comportamentos
(gostos, preferências, formas de lazer, estilos) com vistas ao incremento e estímulo constante
do consumo e da demanda por novos produtos.
Segundo Martín-Barbero (2003), a globalização representa para as expressões
simbólico-culturais o desafio da definição da própria identidade, processo mediado pelos
meios de comunicação não de forma isenta, mas de forma em que a tradução do conceito de
diversidade é utilizada mais para confundir que para esclarecer. Desse modo, a pluralidade se
torna cada vez mais superficial e menos efetiva. Por isso, o autor defende o sentido de
23
Evoca-se, aqui, a compreensão de hegemonia defendida por Raquel Paiva (2007), segundo a qual “pode-se
considerar que o conceito de hegemonia inclui o de cultura, de ideologia e de direção moral. O conceito, assim
entendido, desloca-se do plano político para o da supremacia da formação econômico-social, isto é, da sociedade
como totalidade” (PAIVA, 2007, p.138). Na mesma linha de raciocínio, Dênis de Moraes (2010) apresenta
definição que complementa a abordagem deste trabalho: “Além de congregar as bases econômicas, a hegemonia
tem a ver com entrechoques de percepções, juízos de valor e princípios entre sujeitos da ação política”
(MORAES, 2010, p.78). Ambas as definições são baseadas nos estudos do filósofo italiano Antonio Gramsci.
55
“fragmentação” para definir a suposta diversidade promovida pelo contexto da globalização,
que ele denomina de “vertigem do ecletismo” (MARTÍN-BARBERO, 2003, p.72).
Para Martín-Barbero (2003), a confusão entre pluralismo e fragmentação, no entanto, é
superável nas experiências culturais latino-americanas, com a possibilidade de articulação de
novas formas de coletividade e solidariedade
(...) pois, enquanto nos países centrais o elogio da diferença tende a significar
dissolução da sociabilidade, na América Latina, como afirma L. Lechner, “a
heterogeneidade só produzirá dinâmica social ligada a alguma noção de
comunidade”. Não certamente a uma idéia de comunidade “resgatada” de algum
passado idealizado, mas àquela que assuma as ambíguas formas e modalidades do
presente. (MARTÍN-BARBERO, 2003, p.73)
O autor destaca que as formas organizativas dessas comunidades, nas quais a
comunicação assume sempre um papel decisivo e central, os sujeitos buscam não
simplesmente a representação de suas culturas e características, mas sim o reconhecimento
das mesmas.
A ideia de reconhecimento que supere a representação traz em seu bojo a discussão
sobre a diversidade como conceito-chave para a construção mais democrática e justa da
sociedade, entendendo que a construção dos sujeitos sociais (seus direitos e deveres) se dá nas
relações sociopolíticas mediadas pelos aparatos comunicacionais no cotidiano. Vale, aqui,
trazer à luz as reflexões de Muniz Sodré (2008) sobre a dimensão contra-hegemônica
assumida pelo “diverso” na sociedade.
O autor introduz a reflexão a partir da advertência do filósofo Kant, ao destacar que
“uma questão é distinguir as coisas uma das outras, outra questão é conhecer a diferença das
coisas” (SODRÉ, 2008, p.31). Nesse sentido, conhecer o outro em tempos de globalização
significa compreendê-lo em função de seu contexto espaço-temporal, estimulando as
sensibilidades e comportamentos em relação tanto à alteridade quanto à identidade. Segundo
Sodré (2008), também a própria identidade, a própria cultura é composta pela diversidade de
repertórios, e por isso mesmo, somente a partir da diversidade que se conhece uma cultura.
No entanto, imuniza-se uma cultura de determinadas dimensões da diversidade justamente
pela negação da complexidade e sensibilidades das relações espaço-temporais, com o objetivo
único da hegemonia de um ponto de vista. Resta apenas o restrito conceito de pluralidade, que
pouco tem de reconhecimento da diversidade, mas apenas de representação.
Sodré (2008) reforça que a simples expressão cultural não é capaz de engendrar uma
situação realmente contra-hegemônica. Segundo ele, somente pela intervenção do diverso no
56
âmbito simbólico, pensada como estratégia política, é que a contra-hegemonia se produz
efetivamente (SODRÉ, 2008, p.35).
O âmbito simbólico – com especial destaque para a comunicação –, portanto, se
configura como sendo a arena estratégica para as dinâmicas que buscam mudanças sociais que
passem a vislumbrar a urgência de uma sociedade mais justa e democrática. Essa indicação,
aparentemente otimista, no entanto, traz consigo pelo menos dois questionamentos,
destacados aqui em função do desafio que representam para a comunicação alternativa.
O primeiro se refere às seduções exercidas pelos discursos sociais, e a disparidade
inerente à natureza dos diferentes discursos em disputa simbólica. Ramonet (2003), ao refletir
especificamente sobre os padrões reproduzidos pela mídia na contemporaneidade, ressalta que
a informação, por estar sujeita às questões do mercado e do lucro, da velocidade e
instantaneidade, e da relação estrutural com a publicidade – reduzindo leitores e espectadores
à “função” de consumidores de notícias, é captada na sociedade por meio de um discurso
contra o qual qualquer forma de resistência ou proposta de mudança se torna muito difícil.
O autor descreve a retórica comum do discurso informativo contemporâneo: rapidez,
que é obtida com textos, períodos e títulos curtos; simplicidade de linguagem e vocabulário,
capaz de ser compreendido por todos, sem esforços; e, por fim, a espetacularização da
informação, com incidência direta nas emoções dos sujeitos (dramaticidade, euforia).
Ramonet (2003) denomina essa retórica de “discurso infantilizante”, por se aproximar muito
do discurso utilizado para se dirigir às crianças: linguagem emocional, simples e rápida
(RAMONET, 2003, p. 249).
É por meio dessa infantilização discursiva que se mantêm as estruturas hegemônicas
do poder livres de questionamentos e críticas. Por isso, as ações contra-hegemônicas passam
necessariamente pela superação da retórica infantil que se impõe atualmente, fazendo com
que as experiências em comunicação alternativa também se caracterizem como sendo
didáticas, no sentido de instaurarem formas mais complexas de apreensão dos fatos.
Nesse sentido, a perspectiva que se delineia se mostra pouco otimista. Além da difícil
tarefa de incidir sobre as formas de sensibilidade social, alterando-as, a perspectiva contrahegemônica da comunicação alternativa também tem que lidar com a fluidez das relações
sociais contemporâneas, engendradas pelo imperativo da tecnologia e do consumo, o que
caracteriza o segundo questionamento envolvendo a arena simbólica de disputa para as
mudanças sociais. O próprio desenvolvimento social se dá reforçando um contexto de
superficialidades e transitoriedade de relações. Conforme ressalva Raquel Paiva (2008):
57
Entretanto, é preciso também admitir a hipótese de que toda a discussão em torno do
conceito de hegemonia e contra-hegemonia não faça sentido algum para o senso
comum das sociedades atuais (...). Em sociedades marcadas pelo consumo, pelo
capitalismo disseminado como ordem social, é pouco provável que se desenhem
com nitidez grupos hegemônicos, uma vez que a diluição é a marca dessa ordem.
Não se identificam, nem mesmo na ordem do consumo, as imbricações de poder do
sistema produtivo. (...) Apenas sobressaem, magnificados, os produtos. (PAIVA,
2008, p.172)
Ou seja, o imperativo do sistema produtivo capitalista, ao contaminar todas as
instâncias das relações sociais com a ditadura do consumo, expressas pela e na midiatização
(tecnológica) das sociabilidades, parece impor também certo pessimismo às ações que visam
difundir na sociedade outras lógicas relacionais (contra-hegemônicas), mais éticas e
democráticas. Por isso, se faz necessário a reinterpretação dessas práticas alternativas à luz do
contexto que se delineia com essas novas mediações que se desenvolve na sociedade (PAIVA,
2008, p.174)
Ou seja, mais que definir com rigidez a linha fronteiriça que delineia o caráter
alternativo de um determinado veículo de comunicação, se mostra mais profícuo refletir
acerca das relações socioculturais que estabelece – especialmente em seu próprio conteúdo,
mas também em seu entorno –, com vistas a compreender em que medida a prática
comunicacional em questão pode contribuir para a construção de novos parâmetros éticos
para as relações sociais contemporâneas.
Este é, portanto, o esforço deste trabalho, ao longo do qual se pretende revelar o
contexto que permite a configuração de uma revista como a Ocas, tal como se encontra hoje.
O próximo item dedica-se, então, a compreender a estratégia comunicacional do periódico
estudado.
3.4 O projeto OCAS e a apropriação do jornalismo
Como já descrito no capítulo anterior, a revista Ocas, inspirada em exemplos de outros
países, não é uma iniciativa inédita. Mesmo no Brasil, antes do lançamento de Ocas, já existia
na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a publicação “Boca de Rua”, projeto que
existe desde 2000, organizado pela ONG Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e
Educação), e que circula até hoje. Também na capital da Bahia, Salvador, o jornal bimestral
“Aurora da Rua”, cujo objetivo também é oferecer uma fonte de renda a pessoas em situação
de risco social, é produzido e vendido desde 2006.
Esta dissertação faz a opção pela análise específica pela revista Ocas não apenas pela
facilidade de acesso da pesquisadora às edições da revista, mas também por ser a publicação
58
que circula em duas regiões onde o fenômeno da urbanização assume proporções intensas –
São Paulo e Rio de Janeiro; além de ter grande parte de seu conteúdo organizado por
jornalistas colaboradores, caracterizando uma ação mais ativa dos profissionais de jornalismo
na configuração final da revista24.
Ou seja, o jornalismo25 enquanto ofício está presente não apenas diretamente na
confecção prática da revista, mas também indiretamente nas perspectivas trazidas pelos
jornalistas colaboradores da publicação. Nesse sentido, a elucidação do caráter da prática
comunicativa praticada na revista Ocas é importante porque norteia o conteúdo produzido, e
também a visão e a motivação das pessoas envolvidas no projeto em questão.
No entanto, a partir das reflexões apresentadas por Sandra Massoni (2007), destaca-se
que, mesmo com a profícua, didática e necessária categorização ou identificação das
especificidades da prática comunicacional realizada no periódico estudado, o sentido de sua
existência social se dá a partir da própria singularidade da sua concretização no ambiente
urbano, sua circulação, divulgação e também com vínculos por ela estabelecidos socialmente,
entendendo “as interações socioculturais como articulação das relações da comunicação e da
cultura” (MASSONI, 2007, p.92).
Nesse sentido, destaca-se uma possível caracterização da revista Ocas como
jornalismo alternativo, menos por conteúdos contra-hegemônicos ou por sua vinculação
territorial (comunitária) com os sujeitos, colaboradores ou beneficiados, e mais por suas
características estruturais: ausência de preocupação com a obtenção de lucros, objetivo de
mudança de parcela da realidade social (exclusão social), disputa simbólica na difusão de
perspectivas diferentes sobre as relações sociais (com vistas a desnaturalizar a conjuntura de
desigualdade social) e, por fim, circulação condicionada a uma ação com objetivo
transformador.
Assumindo um formato com características que buscam sensibilizar e disputar o
contexto midiático no qual está inserida, a revista Ocas, ao mesmo tempo, se afasta e se
aproxima da ideia de ser um produto midiático, tal como é reconhecido atualmente. Dênis de
Moares (2010) resume a constituição da mídia na contemporaneidade:
Um dos traços predominantes da mídia, enquanto sistema de produção de sentido, é
a capacidade de processar certas demandas da audiência, sejam elas massivas,
segmentadas ou hipersegmentadas. Os meios não vivem na estratosfera; pelo
24
Nos outros periódicos aqui citados, o conteúdo final das publicações recebe maior influência de seus
vendedores, ou seja, das pessoas em situação de rua ou risco social beneficiadas pelos projetos.
25
O próximo capítulo irá se dedicar à discussão mais detalhada sobre as questões jornalísticas.
59
contrário, estão entranhados no mercado e dele dependem para dar vazão a suas
ambições monopólicas. (MORAES, 2010, p. 97)
No caso da revista Ocas, aqui estudada, a segmentação é difusa, com uma clara
compreensão ampliada do conceito de jornalismo cultural, em comparação simples com
outros veículos midiáticos considerados do mesmo segmento26. Essa afirmação se baseia na
diversidade de abordagens propostas pela própria estruturação das seções da revista: ao
mesmo tempo em que há uma preocupação em escolher personalidades e temas comuns ao
contexto cultural urbano como temas para a matéria de capa, seções como “Cabeça Sem Teto”
e “O País” revelam outros aspectos que compõem a cultura urbana, fortalecendo e expandindo
o próprio conceito da revista.
Especificamente na seção “Cabeça sem teto” que, juntamente com a matéria de capa,
será especificamente estudada neste trabalho, o tema da exclusão social é tratado como parte
constituinte do cotidiano urbano, além de colocar em primeiro plano – seja como personagens
ou como jornalistas, por meio de oficinas para a produção dos textos – os sujeitos
beneficiados com o projeto OCAS, ou seja, as pessoas em situação de risco social que
também participam, em certa medida, da construção do conteúdo da revista.
Vale destacar, ainda, que as matérias de capa revelam uma concepção da cultura
urbana que, apesar de alinhada ao jornalismo cultural praticado em outras revistas no que se
refere às pautas escolhidas, se mostra aberta para temas ou abordagens que apresentem
perspectivas de discussão sobre a cultura, sob a óptica do combate à exclusão social. Como
exemplo, é possível citar a edição que dedicou sua matéria principal à Copa do Mundo de
Futebol de Rua, a Homeless World Cup, e também a edição que tratou das discussões
levantadas a partir do filme “Topografia de um desnudo”, cujo roteiro se baseia na história
real da política higienista que resultou no assassinato de moradores de rua do Rio de Janeiro
nos anos 196027.
Nesse sentido, observa-se que a publicação se esforça para partilhar os códigos do
contexto midiático, a fim de disputar espaço na construção simbólica da sociedade; no
entanto, tal esforço não é guiado por “ambições monopólicas”, conforme apresenta Moraes
(2010), justamente porque as motivações que justificam a própria existência da revista Ocas
não têm como pretensão o monopólio mercadológico, nem tampouco lucros. Como já
26
Evoca-se aqui, algumas experiências em jornalismo dito cultural no contexto midiático brasileiro
contemporâneo, como as revistas Bravo, Piauí, Cult, além dos cadernos de cultura dos maiores jornais em
circulação no Brasil.
27
As edições citadas como exemplo, respectivamente, são: nº 68 (novembro/dezembro de 2009) e nº 70
(março/abril de 2010).
60
indicado anteriormente, os profissionais que produzem a revista, o fazem voluntariamente,
sem receber remunerações, e todo o dinheiro envolvido no processo de circulação da revista
se destinam ao projeto, de alguma maneira: ou se transformam em fonte de renda para os
vendedores, ou são utilizados para os gastos de confecção da publicação.
É evidente que conteúdo da Ocas pressupõe um tipo de público leitor, e que a revista
depende da circulação de dinheiro, o que a aproxima das estratégias do mercado midiático.
No entanto, ressalta-se que não há restrições do ponto de vista de uma segmentação de um
público específico, pelo contrário, o projeto se consolida por meio de sua circulação e
inserção na sociedade. Sob a mirada econômica, que como já ressaltado, apesar do vínculo
com o fluxo financeiro (compra/venda), o dinheiro circulante no processo de circulação do
periódico assume um papel decisivo na ressignificação da dinâmica econômica do mercado
comunicacional promovida pelo projeto OCAS, ao criar novas formas de relação nessa
dinâmica, com a inclusão de diferentes atores, anteriormente colocados à margem dos
processos econômicos sociais.
Nesse sentido, a revista, ao mesmo tempo em que nasce especificamente porque
existem exclusão e desigualdade sociais – construindo uma ideia sobre o problema –, também
age como instrumento de intervenção na realidade, ao lançar nova significação para o ato de
comprar a publicação. É de forma intervencionista que a prática jornalística se faz em Ocas,
desde sua concepção, que mescla denúncia e construção da realidade, até a venda e a busca
por amenizar os problemas sociais.
Meyer (2007), ao caracterizar a crise do jornalismo impresso (enquanto instituições
empresariais), identifica as contradições dos jornais de grande circulação que, ao mesmo
tempo, têm de responder como empresas lucrativas, com uma estrutura que se insira na lógica
do menor custo, e também como fonte de informações de qualidade, essenciais para o debate
público sobre temas caros às comunidades em que estão inseridos. O autor pondera que até
jornais sem fins lucrativos necessitam de orçamento para existir, tendo em vista, por exemplo,
custos com a impressão (MEYER, 2007, p. 219).
A partir desse raciocínio, destacam-se as iniciativas que se reconfiguram nesse
contexto de crise institucional do mercado da comunicação. Assim, pode-se, também,
caracterizar a revista Ocas como um exemplo diferenciado no que se refere à sua organização
estrutural, enquanto instituição comunicativa, caracterizando-se como um veículo alternativo
também nesse sentido. A lucratividade não rege a existência do periódico, que localiza no
próprio processo de produção e circulação (suas relações socioculturais) a sua importância
social. A concepção de mercado aqui levantada se aproxima da ideia ampliada de mercado,
61
pressupondo complexas relações de apropriação socioculturais de bens que extrapolam a
dimensão física, incidindo sobre o âmbito simbólico, conforme destaca García Canclini
(2006), em obra decisiva sobre as questões relacionadas ao consumo na sociedade.
No entanto, a estratégia de inserção da revista Ocas na sociedade é passível de
questionamento na medida em que se consideram algumas reflexões já apresentadas neste
capítulo. Ao retomar as reflexões de Yamamoto (2007), atenta-se para um contexto em que a
prática comunicativa pode caracterizar não como problematizadora dos contextos em que
estão inseridas a fim de qualificar os debates sobre os problemas sociais, mas como uma
forma de amenizar as contradições inerentes à sociedade e, em especial, ao processo
comunicativo. No caso da revista Ocas, vale destacar que a perspectiva crítica acerca das
contradições do processo social não fica clara no dia a dia da revista, ou seja, em suas relações
sociais para além do conteúdo. A específica análise que será realizada nesta disssertação
também poderá indicar como essa perspectiva se consolida (ou não) no conteúdo da revista.
Amaral Filho (2008) ainda destaca que, os exemplos de práticas comunicativas
contemporâneas ditas alternativas, ao buscarem a “inclusão” de determinados grupos sociais
marginalizados, seriam responsáveis, segundo uma perspectiva de estudo, por perdas
substanciais de características identitárias de tais grupos, descaracterizando-os em suas
essências. Essa ideia justificaria a conformação com um contexto de exclusão e marginalidade
social, em nome de certo purismo pensado utilitariamente para compor o cenário social
contemporâneo. Esse apontamento leva ao questionamento do projeto OCAS no que diz
respeito à relação com os vendedores: um primeiro olhar sobre o excluído, o exótico, e
posteriormente o olhar inclusivo não superam a posição de marginalidade social em que se
encontram os beneficiados pelo projeto. Assim, é possível questionar até que ponto o
conteúdo da revista reflete essa fragilidade conceitual sobre a atuação do projeto social na
mudança de perspectiva dos grupos marginalizados, o que deverá também ser explicitado na
análise específica das seções da publicação.
Mesmo sendo uma voz pretensamente dissonante no contexto comunicativo, que
busca desnaturalizar as situações em que ficam explícitos os problemas decorrentes da
exclusão social, o vínculo social estabelecido pela revista Ocas parece ser pouco intenso, no
que se refere aos jornalistas e profissionais colaboradores, e de certo modo com os
beneficiados pelo projeto, que aparentemente têm poucas possibilidades de influenciar a
dinâmica produtiva – fazendo sugestão de pautas, e especificamente na seção “Cabeça sem
62
teto”. Apesar das diversas oficinas e atividades paralelas à venda da Ocas28, corre-se o risco
de, como apontado por Kaplún (2007), fazer da própria revista um fim em si mesma,
reduzindo as relações com os vendedores apenas ao próprio processo de circulação da
publicação, por uma fragilidade do próprio vínculo social do projeto com os sujeitos
envolvidos nos processos estabelecidos em seu entorno.
Esse possível questionamento acerca dos vínculos sociais da revista Ocas leva também
à questão de como encarar, no caso do projeto OCAS, a utilização do jornalismo impresso
como formato para discutir o tema da exclusão social, ignorado e invisibilizado socialmente.
O jornalismo, historicamente ligado às lógicas burguesas dominantes e hegemônicas
(TRAQUINA, 2005-I e II), traz em sua essência liberal-burguesa a estreita relação com o
mercado informacional e de entretenimento (RAMONET, 1999), o que o afastaria em seu
cerne de uma perspectiva crítica de olhar sobre o mundo, em especial para a exclusão social.
É necessário, portanto, considerar uma possível abordagem “tuteladora” do problema da
exclusão social, tendo em vista que as demandas decorrentes dessa contradição da
urbanização passam pela “mediação” dos profissionais que, mesmo em busca de alternativas,
possuem formação na matriz burguesa predominante nos cursos de comunicação.
Em última instância, há que se considerar, conforme indicações de Paiva (2008) já
destacadas neste capítulo: em que medida a inserção social da revista Ocas como um produto
que concorre na dinâmica do consumo, que se delineia cada vez mais incisiva sobre as
sociabilidades na contemporaneidade (com a supremacia do produto), não tornaria o próprio
projeto social – e o periódico – uma experiência inócua?
Compreendem-se os questionamentos aqui feitos numa perspectiva em que podem
contribuir para um olhar mais complexo do objeto de estudos desta dissertação. Por isso,
muitas das questões serão retomadas na análise específica da revista, bem como nas
discussões específicas acerca da configuração do jornalismo na contemporaneidade, tendo em
vista as características da prática jornalística observada na revista Ocas, conforme serão
discutidos posteriormente por esta dissertação.
No entanto, as reflexões que levaram a esses questionamentos permitem a afirmação
de que o objeto de estudos desta dissertação se caracterizaria por ser um veículo alternativo
justamente quando considerado seu contexto de atuação, a partir das inferências obtidas por
meio do método de observação proposto neste estudo – com seus recortes específicos e
28
São oferecidas periodicamente aos vendedores oficinas de textos (que muitas vezes dão origem ao conteúdo da
seção “Cabeça sem teto”), terapia coletiva, entre outras atividades que complementariam o projetos OCAS.
63
limitações inerentes29. Nesse sentido, considera-se a revista Ocas como um veículo
alternativo, no que tange a dois eixos principais: de um lado, a sua forma de organização
estrutural e o sentido que dá a sua circulação – base do projeto de destinação de renda aos
moradores de rua; de outro, os assuntos que apresenta em seu conteúdo, em especial na seção
“Cabeça sem teto”, mas também nas preocupações que permeiam os temas e também o
tratamento dado às reportagens de capa. Tendo em vista que a análise feita nesta dissertação
se restringe aos textos publicados pela revista Ocas, bem como as informações
disponibilizadas acerca do projeto social que sustenta a publicação, não é possível estender a
classificação “alternativa” no que diz respeito às relações com leitores e/ou vendedores.
No entanto, ressalta-se que, a partir da análise, que será feita na próxima etapa desta
dissertação, as inferências acerca do conteúdo da revista poderão oferecer algumas indicações
de características que aproximem a revista estudada das discussões mais contemporâneas
sobre a comunicação alternativa, como as consequências de seus pressupostos para os
vínculos comunitários que estabelece.
3.5 Considerações sobre o capítulo
Definir a comunicação alternativa no contexto atual da comunicação torna-se um
desafio complexo, além de perigoso, justamente devido aos riscos de se abordar o conceito de
forma simplória e pouco condizente com a conjuntura de fluidez e delineamentos cada vez
mais provisórios das relações sociais. Por isso, também este capítulo se tornou um desafio:
além de discutir o conceito, também aplicá-lo ao objeto desta dissertação.
No entanto, ao se ancorar a linha de pensamento aqui desenvolvida nas discussões
iniciadas pela ideia de contra-hegemonia comunicativa, a partir de sua perspectiva de vínculo
territorial de busca por sentido, trouxe luz ao debate: uma revista que se estabelece de forma a
engendrar outras lógicas comunicativas no interior do ambiente urbano, chamando atenção
para a realidade de desigualdade e exclusão sociais, com vistas a desnaturalizar tal conjuntura
nefasta, parece ser um exemplo claro não apenas de uma forma de comunicação alternativa
possível na atualidade. O objeto aqui estudado parece condensar em sua experiência toda a
complexidade das relações sociais fluidas inerentes ao ambiente urbano, tal como está
configurado.
O risco da relativização extrema se esvai quando se pensa a importância de todas as
nuanças estabelecidas em torno dos processos comunicativos num contexto de disputas
29
As reflexões sobre a metodologia escolhida estarão presentes no próximo item desta dissertação.
64
simbólicas cada vez mais centrais na sociedade. Nesse sentido, as reflexões apresentadas
neste capítulo são basilares para se pensar a prática jornalística que se observa em Ocas, bem
como as características de seu conteúdo, preocupações que vão nortear as próximas
discussões a serem feitas nesta dissertação.
65
4 Estudo do jornalismo praticado na revista Ocas
De acordo com a proposta desta dissertação, nesta parte será apresentada a análise dos
textos publicados em duas seções específicas do periódico estudado: a seção “Cabeça sem
teto” e a reportagem de capa, denominada simplesmente como “Capa” no layout da revista.
As matérias foram avaliadas à luz da metodologia da análise de conteúdo, complementada por
aportes encontrados na análise de enquadramento. Tais métodos se justificam por permitirem
explorar os textos apresentados na revista de forma a elucidar pressupostos, conceitos e outros
indicativos que permeiam a produção e organização do texto jornalístico da revista.
Tal exercício se alinha, portanto, às pretensões do estudo: elucidar como se configura
o texto jornalístico da revista Ocas, tendo em vista as relações socioculturais do projeto que
dá origem ao periódico, a Organização Civil de Ação Social (OCAS). Vale, portanto, discutir
o objeto desta pesquisa no contexto da estudos em comunicação e a sua relação com as
metodologias utilizadas, bem como as formas de apropriação de tais metodologias.
4.1 A revista Ocas como objeto de estudo
Caracterizar um objeto no contexto da pesquisa em comunicação é, antes de tudo,
compreender os desafios do próprio campo de estudo e as controvérsias em torno de seus
limites e delineamentos. As dificuldades de se afirmar o campo da comunicação como espaço
autônomo de investigação relacionam-se com o caráter transdisciplinar da natureza
comunicativa, conforme diversos autores apontam e discutem (FRANÇA, HOHLFELDT,
MARTINO, 2001; LOPES, 2003; MARTINO, 2007)
Dentre as diferentes defesas em torno do que caracterizaria o campo científico
comunicacional, optou-se por destacar neste estudo a abordagem desenvolvida por Muniz
Sodré (2007). Segundo o autor, o objeto conceitual dos estudos em comunicação se
caracterizaria pelo imperativo tecnológico – não apenas em termos concretos, mas também
transformando a consciência dos indivíduos – nas relações comunicativas, na conformação da
realidade sensível na qual se desenvolvem as interações comunicacionais, o que tornaria as
ações dos sujeitos cada vez mais deslocadas de seus contextos socioculturais (SODRÉ, 2007,
pág. 22).
O autor segue, a partir dessa linha de raciocínio, a explicar o que caracterizaria uma
ciência da comunicação em termos práticos. Traçando um paralelo com a antropologia, Sodré
(2007) mostra que o exercício hermenêutico da pesquisa em comunicação poderia ser
dividido em três partes. A primeira parte seria a descrição do dispositivo comunicacional,
correspondente à etnografia na antropologia. A interpretação das relações estabelecida por
66
esse dispositivo nos diversos âmbitos societários corresponderia à etnologia, considerada
segunda etapa pelo autor. A terceira parte seria, então, a chave para a ciência da comunicação,
por implicar um exercício de interpretação e explicação do fenômeno ou dispositivo da
comunicação em função do imperativo midiático (estreitamente ligado aos avanços
tecnológicos), responsável, neste contexto, por influenciar a consciência dos indivíduos na
sociedade. Em resumo,
(...) avançamos a hipótese de que a ciência da comunicação se dá, na crise do
paradigma vigente das ciências sociais, como uma espécie de “acontecimento” a
partir de uma oportuna “intervenção” do pensamento e da pesquisa numa situação
que problematize, no interior das mutações culturais da sociedade contemporânea, as
contingências da imbricação ou da tensão entre a relação societária e o vínculo
comunitário. (SODRÉ, 2007, pág. 25)
É a partir dessa discussão sobre a pesquisa em comunicação que se pretende nortear a
análise proposta por esta dissertação, bem como a apreensão da metodologia da qual se vale.
Nesse sentido, a seguir, serão apresentados e discutidos os métodos de abordagem que
orientaram este estudo, bem como justificada a pertinência das opções metodológicas feitas.
Vale ressaltar que a escolha dos métodos se deu em uma perspectiva que visou
garantir uma coleta de dados não apenas quantitativa, mas também qualitativa, a fim de obter
uma compreensão mais completa dos textos analisados, permitindo interpretações mais
pertinentes e coerentes com as discussões teóricas deste trabalho, bem como o contexto social
contemporâneo.
4.2 Análise de Conteúdo
O método de análise de conteúdo, embora tenha em sua gênese traços da rigidez
positivista30, que o levavam à obtenção de dados prioritariamente quantitativos,
comprometendo a possibilidade de interpretações mais qualificadas e críticas, foi ganhando
dimensões mais qualitativas, na medida em que também manteve e ampliou sua eficácia na
análise de conteúdos comunicativos.
Segundo Fonseca Júnior (2006), os primeiros registros da utilização da análise de
conteúdo datam do século XVIII, mas seu uso passa a ser significativo no século XX em
várias áreas – ciências políticas, psicologia, crítica literária, sociologia. Na comunicação,
30
Segundo Fonseca Júnior (2006, p. 281), a análise de conteúdo, em sua origem, se inspira no paradigma das
ciências exatas como parâmetro para cientificidade e para a construção e elevação do espírito humano, o que era
válido até mesmo para a compreensão da vida social, significando a supremacia dos dados quantitativos e
quantificáveis.
67
especificamente, passa a se desenvolver nos Estados Unidos, no início do mesmo século
(BARDIN, 2009, p.17), em análises quantitativas, especialmente as organizadas por Lasswell
– cujo modelo de estudos de conteúdos das propagandas se tornou um marco para as
pesquisas em comunicação, caracterizando, juntamente com outras teorias informacionais, o
primeiro principal paradigma da teoria da comunicação31.
Sendo assim, a análise de conteúdo foi se consagrando como importante método nos
estudos em Comunicação, por ter como objetivo a elucidação dos sentidos expressos nos
textos e mensagens por ela estudados. Segundo Laurence Bardin (2009), a intenção deste
método é “a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção (ou,
eventualmente, de recepção), inferência esta que recorre a indicadores (quantitativos ou
não)” (BARDIN, 2009, p.40, grifos no original). Por tal objetivo, que ao longo da história da
pesquisa em comunicação vem se adaptando a novos contextos, este se revela como sendo o
mais adequado método32 para se atingir as metas propostas nesta pesquisa. Isso porque,
considera-se, ainda, conforme Heloiza Herscovitz (2008) que tal método tende a elucidar as
características explícitas (quantitativas) e implícitas (qualitativas) nos textos, a partir da
abordagem que propõe atualmente.
A seguir serão apresentadas as características específicas do método de análise de
conteúdo, relacionando-as com o objeto de análise desta dissertação, a fim de elucidar como a
abordagem do mesmo vai contribuir para os resultados esperados para esta pesquisa.
4.2.1 Organização, análise e interpretação dos dados
Segundo Bardin (2009), a constituição e abordagem do corpus da pesquisa, ou seja, a
definição dos documentos a serem analisados, é uma das importantes fases da organização do
material pesquisado, com vistas a uma investigação fértil. A autora destaca algumas regras a
serem consideradas em tal processo:
ƒ Exaustividade: é necessário que o objeto seja “esgotado” em suas possibilidades de
fornecer dados pertinentes à pesquisa. De acordo com a explicação da autora, tal regra
diz respeito muito mais a uma questão de acesso aos materiais de pesquisa (não
ignorar nenhum elemento do corpus, por nenhum motivo), que necessariamente a uma
questão de abordagem teórica do objeto.
31
Ver: WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa, Presença, 1987
A seguir também será apresentado como método complementar a análise de enquadramento, tendo em vista a
contribuição prática dessa metodologia para o delineamento dos dados a serem interpretados.
32
68
ƒ Representatividade: a amostra escolhida deve ser representativa do objeto como um
todo, de acordo com as características específicas do mesmo.
ƒ Homogeneidade: a amostra escolhida deve ser coesa no que tange a critérios de
escolha, sem grandes especificidades em cada elemento que a compõe.
ƒ Pertinência: os elementos de estudos selecionados devem condizer com o objetivo da
pesquisa, sendo capazes de fornecer informações necessárias para que a investigação
atinja suas metas.
Transpondo tais regras ao objeto estudado nesta dissertação, a revista Ocas, mais
especificamente a matéria de capa e a seção “Cabeça sem teto”, foram escolhidas 12
edições33, que correspondem às publicações dos anos de 2009 e 2010, tendo em vista que se
trata de uma revista bimensal. A escolha se justifica por se tratar de uma amostra que permite
observações sobre temas contemporâneos, bem como sobre a forma de tratamento da
publicação para com tais assuntos, em período relativamente recente.
A partir de uma observação prévia, é possível afirmar que as informações trazidas
pelas edições estudadas são capazes de embasar interpretações e generalizações que
ultrapassam o âmbito da revista em si, mas também a relacione com o contexto de produção
jornalística que se insere, sobretudo no que se refere às nuanças do desenvolvimento urbano e
a desigualdade social inerente a ele, bem como do papel do jornalismo – em especial, a
vertente alternativa – enquanto construção social simbólica.
A exploração sistemática do corpus de pesquisa definido para este estudo busca, em
última instância, chegar a inferências que sirvam como indicadores para novas hipóteses e
questões a serem trabalhadas acerca do tipo de jornalismo praticado na revista Ocas, tendo em
vista que se pretende não restringir a análise da mesma à simples e funcional experimentação
de hipóteses. Isso porque a própria natureza do objeto comunicativo impõe às pesquisas em
Comunicação uma abordagem, sistematização e interpretação de forma mais complexa,
dinâmica e flexível, tendo em vista o contexto contemporâneo engendrador e engendrado
pelas dinâmicas comunicativas.
Essa é, portanto, a perspectiva que vai emoldurar a observação dos indicadores
observáveis no objeto desta pesquisa. Segundo Bardin (2009, p.126) a identificação dos
índices é etapa transversal à organização do material pesquisado, e se torna importante na
medida em que oferece já as primeiras orientações que vão nortear e caracterizar a análise
propriamente dita, ou seja, as interpretações e inferências às quais se espera chegar.
33
Todos os textos das edições estudadas, bem como as capas das revistas, estão em anexo a esta dissertação.
69
A partir da primeira organização e tratamento do corpus da pesquisa, juntamente com
a identificação dos indicadores que sobressaem da amostra, passa-se então às etapas que
caracterizam a análise propriamente dita do material selecionado, as quais serão explicitadas
especificamente nos itens a seguir, conforme os apontamentos de Bardin (2009).
ƒ Codificação:
Resgata os objetivos e hipóteses da pesquisa, definindo a técnica de abordagem dos dados
obtidos, bem como o contexto teórico que os embasa. Para isso, define as chamadas “unidades
de registro”, que são os segmentos destacáveis do conteúdo, a partir de critério semântico. A
unidade de registro mais comum é o tema que, assim como outras unidades – por exemplo,
palavras-chave e adjetivos – é posteriormente agregado e classificado em categorias;
ƒ Regras de enumeração:
A partir da identificação dos temas (unidades de registro), algumas regras são utilizadas para
orientar a construção do texto de análise propriamente dito. As principais regras observadas
nos estudos que utilizam a análise de conteúdo são: presença/ausência, frequência,
intensidade, direção (de acordo com a natureza do objeto), ordem, co-ocorrência
(distribuição/associação/contingência).
ƒ Categorização:
Classificação dos dados obtidos a partir de características em comum observáveis, sob critério
semântico, o mais utilizado. Outros critérios também podem ser utilizados, como sintético,
léxico, entre outros.
ƒ Inferência:
Trata-se da interpretação, propriamente dita, e pode priorizar algum dos elementos da
estrutura comunicativa – emissor, receptor, mensagem, condições de produção, etc. Essa
etapa pressupõe não apenas a clareza de todas as outras etapas metodológicas – desde a préanálise, até a categorização – mas também a maturidade no reconhecimento das hipóteses e
objetivos iniciais do projeto de pesquisa, no contexto do desenvolvimento teórico levantado
ao longo da investigação, culminando na própria inferência acerca das características
observadas no objeto de estudos.
Admite-se, nesta pesquisa, um possível esquema que exemplificaria a relação de
interdependência estabelecida entre os resultados da pesquisa assentada na análise de
conteúdo, as hipóteses e objetivos advindos do objeto, a metodologia em específico, e as
teorias utilizadas:
70
Sistematização
metodológica
Objeto> hipóteses e
objetivos
Inferências/Resultados
Marcos teóricos
Compreende-se que somente com a observância do fluxo constante e dinâmico entre
as diversas possibilidades de caminhos indicadas pelas setas é que se pode garantir resultados
condizentes com a complexidade que impõem os objetos comunicacionais, dadas as
configurações da trama societária na qual estão inseridos.
No caso específico do objeto estudado nesta dissertação, parte-se do entendimento que
a produção da revista Ocas, enquanto prática jornalística, é decisivamente influenciada pelas
compreensões que delineiam o projeto social que sustenta e dá origem à publicação. Sendo
assim, o objetivo da pesquisa é, justamente, elucidar como se dá essa influência em termos de
apresentação do texto jornalístico, relacionando as características observadas com a
conjuntura sociocultural na qual a revista está inserida.
Dentro das possíveis abordagens metodológicas possíveis a partir desses objetivos,
permeados pelo entendimento contextual do objeto de estudos, a análise de conteúdo se
mostrou a mais adequada para sanar as propostas desta pesquisa. Isso porque o método, por
excelência, permite a extração das sutilezas do texto, oferecendo condições, instrumentos e
argumentos capazes de revelar não apenas significado léxico dos textos, mas também o
sentido destes na conjuntura social.
No que se refere aos marcos teóricos em que se assentam os resultados da pesquisa,
identificam-se quatro principais eixos34. O primeiro, diz respeito às características do
ambiente urbano tal como se configura na contemporaneidade, inerentes às relações do
capitalismo e da modernidade que se impõem às sociabilidades. O segundo, estritamente
34
Tais eixos permeiam todo o texto ao longo desta dissertação, envolvendo de forma direta ou indireta todos os
autores selecionados para a pesquisa e listados nas referências.
71
ligado à questão da urbanização, consiste na questão da desigualdade social – consequência
direta e intrínseca do desenvolvimento urbano e fenômeno já naturalizado no cotidiano.
Já o terceiro eixo se liga diretamente à natureza do objeto estudado e,
consequentemente, à natureza da própria pesquisa, ao considerar a comunicação – e os meios
de comunicação – como elemento estruturante da sociedade contemporânea. Tal ideia
introduz, por conseguinte, o quarto e último eixo teórico deste estudo: as diferentes
possibilidades de apropriação da comunicação, oferecendo alternativas simbólicas frente às
perspectivas socialmente predominantes, especialmente o jornalismo, em suas configurações
contemporâneas.
Assim, e considerando também as características essenciais do objeto de estudo, bem
como a metodologia da pesquisa, buscou-se assentar as inferências e resultados finais em
bases teórico-metodológicas pertinentes e apropriadas para a natureza do objeto estudado e
para o campo da comunicação.
No entanto, entende-se também que a própria análise de conteúdo acaba por se adaptar
às características dos objetos os quais estuda, em especial, o objeto da comunicação e suas
especificidades no contexto contemporâneo. Nesse sentido, a aplicação da metodologia ao
objeto estudado nesta dissertação se faz pertinente, tendo em vista que, do ponto de vista
investigativo, os procedimentos adotados incidem diretamente na elucidação dos valoresnotícia (TRAQUINA, 2005, v. II) nos conteúdos analisados. Assim, a conformação do
método aplicado se deu em consonância com os resultados pretendidos pela pesquisa: a
discussão das consequências das relações socioculturais do projeto OCAS (Organização Civil
de Ação Social) no conteúdo jornalístico da revista Ocas.
Parte-se do entendimento do jornalismo, em especial da construção da notícia como a
organização singular da dinâmica social (GENRO FILHO, 1987), numa compreensão da
disputa por significação em que se localiza o jornalismo no interior da sociedade. No caso das
matérias analisadas nesta dissertação, ainda que não escrita por jornalistas formados35,
considera-se o sempre presente filtro jornalístico36 aplicado aos textos. Ou seja, a partir das
premissas jornalísticas, tais como os critérios de relevância e pertinência na abordagem
específica de um assunto, entende-se que os editores da revista Ocas buscaram imprimir nos
35
Alguns textos publicados na revista, sobretudo na seção “Cabeça Sem Teto” são resultantes de oficinas de
textos realizadas por voluntários com vendedores (pessoas em situação de rua).
36
Em entrevista que objetivou complementar o estudo realizado nesta dissertação, um dos editores da revista
afirmou que todos os textos são analisados e adequados aos critérios e linguagem jornalísticos.
72
textos publicados as perspectivas e conceitos que permeiam o projeto social em que se baseia
a própria revista.
Nesse sentido, a partir da leitura inicial dos textos analisados, uma estratégia
específica da revista estudada chama atenção: a perenidade dos textos. Por ser um periódico
vendido continuamente, o que significa que, mesmo com uma data de publicação as edições
continuam sendo oferecidas pelos vendedores nas ruas, a revista Ocas se preocupa em editar
textos que, mesmo com a marca de um período temporal de publicação, possam ser atrativos
para possíveis leitores de forma atemporal.
A busca pela perenidade das ideias organizadas no conteúdo da revista Ocas, portanto,
é fundamental para determinar o caráter e a natureza do texto jornalístico que se pretende
elucidar nesta dissertação. Por isso, a opção pela análise de conteúdo se mostrou como a mais
adequada. No entanto, optou-se por uma metodologia complementar, a análise de
enquadramento, justamente por se tratar de um periódico cuja construção do texto leva
sempre em conta sua gênese estritamente ligada a um projeto social. Sendo assim, vale
também entender como o enquadramento proposto pela organização social que sustenta a
revista Ocas se configura nos textos. A seguir, serão desenvolvidos os aspectos da análise de
enquadramento que serão utilizados na análise proposta nesta dissertação.
4.3 Análise de Enquadramento: metodologia complementar
A análise de enquadramento, caracterizada por ser uma metodologia cujo objetivo
principal é elucidar as intenções veladas de um discurso, em especial do jornalismo, tem
significativas semelhanças com a análise de conteúdo, sobretudo, o objetivo de elucidar
sentidos e intenções implícitos (ou mesmo explícitos) nos textos.
No entanto, a especificidade da análise de enquadramento, também conhecida como
framing (SOARES, 2006), consiste em elucidar as inclinações que guiam os jornalistas na
construção dos textos e, por conseguinte, as características específicas do texto jornalístico
analisado. Soares (2006) afirma que o método de análise de enquadramento é geralmente
utilizado para a comparação de jornais diferentes no que se refere aos enquadramentos
conferidos à cobertura de um mesmo assunto ou evento, buscando elucidar as inclinações dos
jornalistas de um e outro periódico, e como tais inclinações são determinantes para a
construção do texto jornalístico – os critérios de noticiabilidade, valores-notícia, pressupostos,
metáforas e outros conceitos que permeiam tal construção.
No caso do estudo aqui proposto, não se trata de uma comparação e, por isso mesmo,
o método de análise de enquadramento é utilizado de forma complementar. Isso porque as
73
intenções e inclinações que vão determinar as características do texto jornalístico publicado
na revista já são conhecidas e amplamente explícitas no projeto social da revista. A própria
forma de veiculação da revista – venda feita fora das bancas, por pessoas identificadas e
declaradamente em situação de risco social – já indica uma direção específica para o
enquadramento que vai caracterizar o conteúdo da revista.
Por isso, a utilização desta metodologia se relaciona diretamente com a hipótese de
que o conteúdo da revista Ocas poderia revelar pressupostos e conceitos que não apenas
busquem questionar a estrutura societária ou próprio papel do jornalismo nesse contexto, mas
que também exponham perspectivas veladas que se alinhem ao status quo, com abordagens
possivelmente superficiais e não necessariamente relacionadas a mudanças sociais.
Essa hipótese tem como base teórica a ideia de que os enquadramentos conferidos aos
textos são capazes de influenciar as pessoas não apenas no que se refere aos temas em debate,
mas sobretudo à maneira como são tratados e pensados tais assuntos, ou seja, aos sentidos que
os textos dão à realidade a partir de seus enquadramentos (PORTO, 2004). No caso específico
do objeto de estudos desta dissertação, o interesse é observar e revelar de que forma se
concretizam nos textos publicados pela revista os conceitos, ideias e perspectivas defendidas e
enquadrados pelo projeto social OCAS – Organização Civil de Ação Social.
Dentro das técnicas que compõem o método de análise de enquadramento, conforme
apresentado por Soares (2006) e Porto (2004), interessa identificar neste estudo o tipo de
enquadramento observável nas matérias analisada, entendendo tal identificação como sendo
um exercício metodológico que compreende o cruzamento de informações obtidas na
observação/coleta de dados com as discussões teóricas acerca do assunto trabalhado.
Para isso, será utilizada a proposta de Porto (2004, p. 91) de distinguir
“enquadramentos noticiosos” dos “enquadramentos interpretativos”. Segundo o autor, os
primeiros se referem às angulações das matérias jornalísticas, a partir da organização dos
elementos textuais, sejam eles a utilização de determinadas palavras, escolha de fontes,
seleção e priorização de fatos e informações. Já os segundos, os chamados enquadramentos
interpretativos, se caracterizam como as inclinações e conceitos que estão presentes na
estrutura textual, mas que transcendem a prática jornalística, como as formas de avaliação dos
assuntos, análises e interpretações conjunturais, ou seja, posicionamentos mais amplos,
geralmente políticos, que podem ou não ser corroborados e compartilhados pelo veículo de
comunicação.
Vale destacar que Porto (2004) chama atenção para o fato de que, mesmo sendo
caracterizados por estarem presentes em sujeitos relativamente independentes do exercício do
74
jornalismo, os profissionais jornalistas também contam com enquadramentos interpretativos.
Estes são mais ou menos decisivos no processo produtivo das matérias: ora na construção do
texto propriamente dito, ora na montagem dos enquadramentos noticiosos – como na escolha
de fontes que muitas vezes “falam” pelos jornalistas, expressando opiniões as quais
defendem.
O complemento metodológico da análise de enquadramento que interessa a esta
pesquisa se encontra, justamente, no aporte que tal método oferece para a identificação e
discussão dos enquadramentos interpretativos envolvidos no processo de produção e
expressos nos textos da revista Ocas. Para isso, a exploração do material estudado nesta
dissertação também busca considerar elementos ou unidades de registro que, em conjunto
com as informações que vão mediar a abstração de categorias a serem discutidas por meio da
análise de conteúdo, permitam inferências acerca dos conceitos e inclinações que norteiam a
interpretação que a publicação confere aos problemas sociais de exclusão social, que são a
base para a existência do projeto social OCAS.
Nesse sentido, apresenta-se a seguir as principais unidades de registro que se
identificam nas matérias estudadas nesta dissertação. A partir delas é que serão descritas as
edições que compõem a amostragem desta investigação.
4.4 Unidades de registro na amostragem estudada
A análise dos textos promovida nesta dissertação centrou o olhar, conforme orientação
das metodologias utilizadas, em determinadas unidades de registro que, em diálogo direto
com a discussão teórica, norteiam a descrição e interpretação das informações apreendidas, a
fim de se chegar a inferências significativas. A seguir, será explicada a utilização de cada
unidade de registro em destaque neste estudo.
ƒ Temas: estes são observados nas matérias com vistas a elucidar a intensidade de
vinculação com o tema da exclusão social, bem como a abordagem e pertinência do
assunto, do ponto de vista jornalístico. Também é observado o formato de abordagem
de cada tema, ou seja, de que forma cada assunto é organizado textualmente.
ƒ Tipos de perguntas: observadas nos casos em que a matéria de capa se tratar de
entrevistas com personalidades, o que ocorre em 7 das 12 edições estudadas nesta
dissertação. Podem ser classificadas em diferentes tipos, de acordo com a condução
dada a entrevista. No entanto, é possível destacar que foram observados aspectos
75
referentes à pessoalidade do assunto abordado, à conscientização do artista para o
problema da exclusão social, ao trabalho profissional do entrevistado, às novidades
culturais possivelmente inauguradas pelo entrevistado.
ƒ Informações em destaque: também observadas especialmente quando se tratar de uma
entrevista, referem-se às informações da carreira do artista destacados no texto de
abertura da entrevista, ou ao longo do texto. Ao chamar atenção somente para alguns
dados, fatos ou características do artista, o texto pode revelar determinadas angulações
e intenções sobre a própria escolha do entrevistado no contexto do projeto da revista.
ƒ Fontes: foram observadas nas matérias em função do cargo e vinculação que exercem,
dividindo-se entre as oficiais e não oficiais, e o que cada uma representava no contexto
do tema abordado pela matéria jornalística, ou seja, em que “posição” são colocadas as
fontes – ações, movimentos sociais, ou apenas como fontes “estáticas” de informação.
Além disso, também se observaram as falas selecionadas de cada fonte, e seu papel na
construção do texto jornalístico.
ƒ ‘Narrador’ do discurso: também se observou o sentido da utilização da terceira pessoa
e/ou primeira pessoa nos textos da revista. Sobretudo na utilização da primeira pessoa,
a escolha do “narrador” dos textos (identificado ou oculto) pode revelar uma estratégia
específica de enunciação das ideias defendidas pela revista, partindo-se da ideia
compartilhada pela sociedade contemporânea do discurso jornalístico como sendo
isento e objetivo.
A leitura dos textos selecionados para este estudo e a observação das unidades de
registro destacadas na apropriação das metodologias utilizadas foi o ponto de partida para a
discussão sobre o jornalismo praticado na revista Ocas. Foram analisadas as reportagens de
capa e as matérias da seção “Cabeça sem teto” de 12 edições da publicação, correspondente às
edições que circularam entre os anos de 2009 e 2010. As descrições das matérias estudadas,
feitas à luz das unidades de registro, bem como as cópias dos textos que compõem a amostra
estão em anexo a este relatório.
Antes de apresentar, tratar e interpretar as categorias inferidas a partir do material
analisado é necessário discutir a configuração e o papel do jornalismo no contexto
contemporâneo, conforme será feito a seguir.
76
4.5 Jornalismo: configurações contemporâneas
A produção noticiosa, resultado dos processos que constituem a prática jornalística,
pressupõe o entendimento sobre o jornalismo enquanto atividade social cotidiana, responsável
por registrar os fatos de maneira que seja legítima, reconhecida. Os jornalistas “narram” o
cotidiano e a eles lhes é conferida a legitimidade para tal feito (TRAQUINA, 2008; SODRÉ,
2009).
Segundo Nelson Traquina (2008), o processo de legitimação do jornalismo
compreende a própria consolidação dos jornalistas enquanto atores sociais ou, segundo a
denominação defendida pelo autor, uma “comunidade interpretativa”. Ou seja, a “cultura
profissional” acaba por definir os delineamentos da atividade e a sua forma de inserção na
sociedade. Nesse sentido, destaca-se que a comunidade dos jornalistas se define por alguns
fatores específicos, dentro os quais o autor ressalta o imperativo do imediatismo (o fator
tempo) e os processos de seleção que levam à construção da notícia propriamente dita (os
acontecimentos relevantes, as novidades).
A cultura jornalística é, pois, determinante para a conformação da estrutura da notícia,
tendo em vista que é a partir do entendimento que se tem sobre o exercício do jornalismo no
interior da sociedade que se estabelecem os sentidos para a apreensão dos fatos e a sua
apresentação textual em forma da notícia. Traquina (2008) desenvolve essa afirmação no
primeiro capítulo de sua obra, chamando atenção para os mitos criados em torno da figura do
jornalista, que se aproxima de conhecidos arquétipos conhecidos: o herói, o detetive, o
caçador – por possuir de um “dom” especial também chamado de “faro” para notícia, o
aventureiro, o guardião, o justiceiro, o mártir, entre outros modelos mitológicos que
contribuem para uma ideia quase imaculada da função do jornalista.
Em outra perspectiva, que igualmente compõe a cultura jornalística, os profissionais
do jornalismo também são vistos como “cães”: ora os ‘cães de guarda’ (watchdogs) da
democracia (TRAQUINA, 2005), mas também como os ‘cães perdidos’, reféns de um
contexto de precarização da atividade jornalística, em meio a um contexto de incertezas frente
ao avanço da tecnologia (MARCONDES FILHO, 2009).
Tais ideias e mitos construídos em torno da atividade jornalística remetem a sua
gênese, estreitamente relacionada com os valores liberais e burgueses, e sintetizada pela
imprensa norte-americana, conforme destacam diversos autores (SODRÉ, 2009; GENRO
FILHO, 1987, MEDINA, 2008-II). Assim, ancorado nos valores de objetividade, clareza e
77
imparcialidade, marcos do positivismo na atividade jornalística (MEDINA, 2008-II), os
jornais reivindicaram um papel de defensores neutros da democracia nas sociedades.
No entanto, conforme as teorias que encaram o jornalismo como mais uma atividade
que contribui para a construção social da realidade vivida, sabe-se que a compreensão em
torno do significado da atividade jornalística é mais complexa, estabelecendo relações que
ultrapassam a simples apreensão técnica dos fenômenos cotidianos e a difusão de notícias.
Sodré (2010-II) ressalta que, atualmente, o jornalismo tampouco pode ser estudado e
interpretado separadamente do fenômeno denominado midiatização, ou seja, do que o próprio
Sodré (2010) identificou como sendo o bios midiático, por caracterizar um novo âmbito para a
socialização e existência humana, a partir do imperativo da tecnologia nas relações
socioculturais contemporâneas, que passam a ser virtualizadas pelo que ele denomina como
“medium”, que
Trata-se de dispositivo cultural historicamente emergente no momento em que o
processo de comunicação é técnica e industrialmente redefinido pela informação,
isto é, por um regime posto quase que exclusivamente a serviço da lei estrutural do
valor, o capital, e que constitui propriamente uma nova tecnologia societal (e não
uma neutra “tecnologia da inteligência”) empenhada num outro tipo de hegemonia
eticopolítica (SODRÉ, 2010, p. 22, grifos no original).
Esse novo bios e o estatuto comunicacional que passa a representar se caracterizam como o
contexto em que se insere a “construção social da realidade” promovida pelo jornalismo.
Nesse sentido, a singularidade que, segundo Genro Filho (1987), constituiria o ponto
central da produção jornalística – essencialmente simbólica e naturalmente efêmera, tende a
se reconfigurar no contexto de novas sensibilidades, novas relações temporais, enfim, novas
formas de sociabilidades contemporâneas. Segundo o autor, o jornalismo produz significados
a partir de dois eixos centrais: “1) as relações objetivas do evento, o grau de amplitude e
radicalidade do acontecimento em relação a uma totalidade social considerada; 2) as relações
e significações que são constituídas no ato de sua produção e comunicação” (GENRO
FILHO, 1987, s/p, grifos no original). Desse modo, o jornalismo se caracterizaria como
prática responsável pela seleção dinâmica e cotidiana das singularidades dos fatos nos
contextos desses dois eixos e das relações societárias que pressupõe.
Ora, levando-se em conta tal definição da prática jornalística, no contexto de
desenvolvimento das técnicas de mediação das sociabilidades – e seu impacto social, a síntese
de singularidades factuais assume outros sentidos na sociedade. Todo o processo de
construção das notícias jornalísticas – apreensão, seleção de fontes, edição do texto – é
78
entendido também a partir de fatos e circunstâncias que extrapolam o acontecimento
propriamente dito. Gadini (2007) sintetiza como seria o processo construtivo do jornalismo na
contemporaneidade:
Ao estabelecer uma (inter) conexão com o mundo, o produto jornalístico presentifica
a simultaneidade de uma enorme variedade de fenômenos, desenhando um mapa do
universo social onde são recortados os acontecimentos noticiados pela mídia. Esse
ato de produção social imaginária (e, pois, histórica) capacita o indivíduo a projetar
novas relações e compreensões, possibilitando – pelo olhar singular do
acontecimento pautado e discursivamente estruturado – outras noções da realidade,
materializadas em uma forma de produção singular do conhecimento humano.
(GADINI, 2007, p.87)
Por isso, a essência do fato jornalístico não mais poderia ser traduzida como “
singular”, conforme explica Sodré (2009)
Não se trata, portanto, de um mero singular (...) e sim de uma “singularização” (uma
vez que notícia de jornal não é “reflexo” automático de uma realidade singular), ou
seja, a construção de um singular pela interpretação de um grupo profissional (...).
Não raro, a determinação de um fato se deve a avaliações de natureza extrafactual
(do tipo de análises jurídicas, políticas ou tecnológicas da situação em causa) e não a
um “singular” supostamente inscrito no real-histórico. (SODRÉ, 2009, p.59)
O autor ressalta ainda que tal singularização se dá em função da “atualidade”,
preocupação que se relaciona diretamente com as mudanças nas definições e percepções de
temporalidades típicas da Modernidade. Segundo Sodré (2009, p. 63), o jornalismo se
consolida profissional e socialmente como prática por excelência de conhecimento do “atual”
– e sua relação no tempo e no espaço (uma abordagem histórico-contextual), por meio de sua
capacidade e desenvolvimento de suas formas narrativas.
Nessa linha de raciocínio, o autor sugere que a compreensão do acontecimento se dá
“para além do registro simbólico, no registro afetivo do mundo” (SODRÉ, 2009, p.68, grifos
no original), fazendo com que a conformação de uma realidade apreensível se dê no âmbito
das sensibilidades dos indivíduos, e consequentemente as relações estabelecidas a partir daí.
“Assim, em vez da mera transmissão de um conteúdo factual, se trata da conformação
socialmente estética de uma atitude” (SODRÉ, 2009, p.68, grifos no original).
A colonização da vida cotidiana por parte das instâncias tecnológicas de mediação, nas
quais a informação assume papel central, também inclui as percepções sensíveis da vida, que
também passam pelo filtro da chamada midiatização. Desse modo, também a produção
jornalística se vê compelida a refletir sobre essas novas configurações do acontecimento e do
79
sentido da atualidade. As narrativas dos fatos – a construção noticiosa – não passa isenta das
influências do imperativo midiático.
Em estudo sobre o efeito da midiatização nos processos de produção jornalística,
Fausto Neto (2010) identifica a autorreferencialidade como a principal característica
resultante de tal processo. Segundo ele, a autorreferência é a principal estratégia
contemporânea de busca por autonomia do jornalismo no contexto midiático, chamando
atenção para a própria prática de construção de sentidos, identificada pelo autor como
“realidade da construção”, numa referência a Luhmann37.
Tal aspecto remonta aos mitos e crenças em torno da cultura jornalística, tendo em
vista o papel de protagonistas assumido pelos profissionais da área nesse contexto
autorreferencial. Os jornalistas são, em última instância, a face dos processos de produção que
compõem o jornalismo enquanto atividade. É na prática dos profissionais que se processam as
narrativas jornalísticas sobre o cotidiano.
E cada vez mais o jornalismo se consagra como um lugar de expressão das tensões em
torno da estrutura social que compõe o dia a dia.
A prática da complexidade nesse jogo de forças conflituosas – que sempre
representam interesses e poder – se realiza na complementaridade da política,
diplomacia, intervenção jurídica e comunicacional. Daí que os comunicadores,
produtores das narrativas da contemporaneidade, são parceiros e não coadjuvantes
na dialogia dos diferentes, dos opositores, dos que carecem de voz perante as vozes
oficiais. (MEDINA, 2008-I, p.85)
Cremilda Medina (2008-I) destaca esse papel significativo dos comunicadores – em
especial os jornalistas – para a compreensão das complexas relações que sustentam e
configuram a estrutura societária, sobretudo no contexto democrático. No entanto, é em tom
de crítica que localiza esse papel, ao discorrer sobre a defasagem entre as narrativas
contemporâneas e a própria configuração do desenvolvimento social das relações humanas.
Essa defasagem, que a autora denomina “deficit de abrangência”, é apontada como uma
deficiência da prática jornalística contemporânea – superada apenas por alguns destacados
exemplos de produções autorais. Tal deficiência torna o jornalismo incapaz de apresentar
narrativas que se aproximem do amplo espectro de variáveis que compõem o cotidiano, em
suas diversas relações.
Em outra obra, Medina (2008-II) ajuda compreender que, esse déficit identificado na
prática do jornalismo na atualidade, se relaciona estreitamente com a gênese da atividade
37
LUHMANN, Niklas. La realidad de los medios de masas. Rubi/Cidade do México: Anthropos Editorial/
Universidade Iberoamericana, 2000.
80
jornalística, que sempre foi alinhada às teorias positivistas, além de refletir os valores liberais
da burguesia. Assim sendo, ainda hoje é comum a defesa de valores como a verdade, a
objetividade e a imparcialidade como sendo pilares do jornalismo. Segundo a autora,
Os profissionais atravessaram o século XX e ingressaram no novo século vendendo
essa platitude para a sociedade. Mesmo os mais sofisticados, que professam o
jornalismo investigativo, pavimentam as técnicas de trabalho com o duro cimento da
busca objetiva da verdade. Nem sequer consideram as sombras, as rugosidades e a
ambigüidade tanto no acontecimento social quanto na experiência dos protagonistas
no cotidiano. (MEDINA, 2008-II, p.61)
A pergunta que se faz é em que medida esses valores já descartáveis para o jornalismo
– porque não condizentes com a estrutura societária em que se insere – ainda permanecem
“cimentando” o caminho para o exercício do jornalismo na contemporaneidade.
Neste estudo, pretende-se apontar como o objeto desta pesquisa, a revista Ocas, se
insere no contexto do jornalismo contemporâneo, identificando por meio de seu conteúdo as
características que o definem. Para isso, destaca-se a seguir algumas peculiaridades no
processo de produção da revista.
4.6 Peculiaridades da revista Ocas: contexto de estudo
A revista Ocas, como já apresentado no início deste trabalho, circula nas cidades de
São Paulo e Rio de Janeiro, por meio exclusivamente de seus vendedores – moradores de rua
e pessoas em situação de risco social. No entanto, tal distribuição não é feita de forma
indistinta. Os pontos de venda escolhidos estão geralmente ligados a espaços de difusão
cultural, artística e/ou educacional.
Essa estratégia de difusão revela e se relaciona com o público-alvo da revista, que é
composto justamente pelo grupo de pessoas que frequenta tais espaços e, portanto, já
compartilharia de um conhecimento simbólico-cultural prévio. Segundo Márcio Seidenberg,
atual presidente do Conselho Executivo da revista Ocas38, a publicação é vendida em “pontos
estratégicos e visados”, onde circulam pessoas que estão “em busca de cultura”. Nesse
sentido, parte-se do pressuposto que o conteúdo editado pelo periódico leva tal fato em
consideração.
Para além da influência na edição dos textos publicados, Seidenberg também chama
atenção para a questão da visibilidade da revista Ocas no contexto dos locais onde circula, já
que não há concorrência visual, como ocorreria nas convencionais bancas de revistas.
38
Em entrevista concedida com a finalidade de contribuir com esta pesquisa, no dia 29/06. A conversa foi
gravada, e o registro está em posse da pesquisadora.
81
Acrescenta-se o fato de que a revista não é apenas oferecida aos possíveis leitores, mas
apresentada como parte de um projeto social, aproximando vendedores e leitores, o que pode
representar uma visibilidade mais “qualitativa” que quantitativa.
Tal observação remete à questão da publicidade na revista. O financiamento por meio
de anúncios publicitários sempre foi bem aceito no projeto. No entanto, segundo Seidenberg,
há certa dificuldade de encontrar empresas dispostas a vincular suas marcas a segmentos
marginalizados da sociedade, sobretudo adultos – alguns com problemas que ultrapassam a
falta de moradia e emprego, pela presença de sofrimentos psíquicos. O preconceito é
especialmente latente no que se refere à faixa etária dos adultos, quase sempre estereotipados
como sendo “vagabundos”.
A publicidade da revista Ocas não é o foco desta pesquisa, no entanto, acredita-se ser
ressaltado por trazer à tona a questão do preconceito pelo qual também passa a revista. A
questão do preconceito e da invisibilidade perpassa todas as edições estudadas, tendo em vista
que são abordagens inerentes à discussão sobre a exclusão social, conforme já apontado no
primeiro capítulo deste trabalho.
A própria proposta da revista procura suprir tal realidade: o projeto busca, em primeiro
lugar, ser uma fonte de renda para quem está fora do mercado de trabalho, além de também
servir como forma de expressão para as pessoas em situação de risco social – seja de forma
direta, ao publicar textos propostos pelos próprios vendedores, seja por meio da temática dos
textos publicados, dos quais as pessoas em situação de risco social podem ser fontes.
Nesse sentido, vale ressaltar o papel dos jornalistas como filtros dos textos que
compõem a revista. Segundo Seidenberg, quando se tratam de textos escritos por pessoas não
especializadas – em geral os vendedores da revista, os jornalistas atuam como orientadores da
construção do texto, comumente por meio de oficinas textuais organizadas pelo próprio
projeto. A preocupação é sempre por manter a qualidade condizente com o produto
jornalístico, daí a relação de orientação dos jornalistas no processo.
Além disso, o olhar dos jornalistas para o trabalho (voluntário) que exercem também
é, de certa maneira, “orientado” a partir dos pressupostos do projeto OCAS, de maneira geral,
a preocupação com a exclusão social e suas formas de expressão no cotidiano. “Não temos a
pretensão de abranger o universo da rua, que é muito complexo, mas temos como norte a
possibilidade de apresentar uma faceta desse grande mosaico que é a realidade da rua”,
ressalta o presidente do Conselho Executivo da Ocas. Ele lembra que essa preocupação é
constante, principalmente na seção “Cabeça sem teto”, mas acaba por perpassar toda a
82
publicação, já que a equipe da Ocas busca encarar as edições como unidades, e não como
mosaicos de matérias jornalísticas reunidas em um número.
Tal visão mais global das edições da revista se relaciona com uma característica da
publicação que, dentre todas as peculiaridades observáveis, se destaca por distanciar a revista
Ocas de outras publicações jornalísticas, em um aspecto: a perenidade das notícias. Segundo
Seidenberg, as matérias publicadas pela Ocas procuram fugir do perfil noticioso, tendo em
vista que os números são feitos para serem vendidos também posteriormente, sem um vínculo
seminal indispensável com a data da publicação.
As revistas são muito mais identificadas – pelos envolvidos no projeto, sejam
colaboradores ou vendedores – com seu tema principal (suas capas) que necessariamente com
a data da publicação. Esse fato revela a importância das matérias de capa para a venda da
revista – por isso, com certa freqüência, as matérias de capa se caracterizam por serem
entrevistas com personalidades reconhecidas no círculo midiático, capazes de despertar
interesse em possíveis leitores de forma atemporal.
Ou seja, mesmo compartilhando dos mesmos códigos que historicamente
acompanharam e nutriram a concepção do jornalismo na sociedade, a busca por editar
números cuja circulação possa se dar independentemente da data de publicação acaba por ser
uma singularidade na experiência da revista Ocas, em relação a outras formas reconhecidas de
periodismo de revista.
Pressupõe-se, portanto, que tal característica também tenha um reflexo na estruturação
dos conteúdos publicados pelo periódico. Isso porque tal fato seria um contexto favorável
para a possibilidade de existência de um trabalho jornalístico mais livre no que tange às suas
configurações textuais, com mais chances de se distanciar dos ultrapassados preceitos de
“verdade, imparcialidade e objetividade” que ainda circundam a atividade jornalística. Assim,
o jornalismo da revista Ocas teria mais chances de se aproximar de abordagens mais
contextuais e abrangentes que consideram as sensibilidades, os afetos em sua apuração e
estruturação de sua narrativa, conforme ressaltam Sodré (2009) e Medina (2008-I; 2008-II).
É, portanto, a partir desses elementos e pressupostos trazidos pelo contexto de
produção e circulação da revista Ocas, por meio da metodologia já apresentada, que se
observou a amostra estudada nesta dissertação: as seções “Cabeça sem teto” e “Capa” das
edições que circularam nos anos de 2009 e 2010, o que compreende as edições do número 63
83
até o número 74, totalizando 24 textos analisados, entre matérias, entrevistas e reportagens39.
A seguir, serão abordadas as categorias identificadas no estudo.
4.7 Categorias analíticas
Conforme apresentado na discussão acerca da metodologia utilizada por esta pesquisa,
cinco unidades de registro principais nortearam a observação feita das matérias estudadas40,
permitindo a formulação de categorias que permitam uma interpretação profícua sobre o
jornalismo praticado pela revista Ocas: suas características, peculiaridades, preocupações,
formas de abordagem.
Vale ressaltar que tais categorias se basearam em critérios que ultrapassam a
perspectiva simplesmente quantitativa, tendo em vista a necessidade de um olhar mais
qualitativo para que se possa fazer inferências sobre a configuração do jornalismo na
sociedade contemporânea, conforme os aspectos que determinam as características da prática
jornalística, já discorridos neste capítulo.
Para a caracterização do periódico estudado foram escolhidas cinco categorias, que
serão apresentadas e discutidas a seguir, em função das matérias analisadas e dos aportes
teóricos já apresentados.
4.7.1 Consciência Cultural
A primeira categoria observada relaciona-se com um aspecto que permeia todo o
projeto da revista Ocas, tanto no que se refere às escolhas das pautas das matérias e suas
abordagens, até mesmo a circulação da revista. A cultura é o eixo central e inicial para a
própria existência da revista como estratégia de renda para a população em risco social. A
principal evidência desta questão é, como já foi apresentado ao longo desta dissertação, a
busca por locais de intenso fluxo cultural – já consagrados nas cidades onde circula – como
pontos de venda estratégicos.
Nas 12 edições estudadas, a presença do tema cultura é constante, sobretudo nas
matérias de capa. Durante os dois anos que abrangem este estudo, todas as reportagens e
entrevistas que foram destacadas na capa da publicação refletiam alguma faceta da cultura
urbana, conforme quadro a seguir:
39
Neste estudo há referências a matérias e reportagens quase indistintamente. No entanto, para a análise
propriamente dita, diferenciam-se matérias de reportagens no que se refere à estrutura: considera-se a reportagem
como sendo o texto jornalístico composto de duas ou mais matérias, ou o texto de maior extensão. No caso
específico da revista Ocas, as reportagens se concentram especialmente na seção “Capa”.
40
Ver descrição do material estudado em função das unidades de registro em “Apêndice”.
84
Ano/número
Capa
Tema
2009/ nº 63
2009/ nº 64
2009/ nº 65
2009/ nº 66
2009/ nº 67
2009/ nº 68
Entrevista: Zizi Possi
Música
Reportagem: Vik Muniz
Artes plásticas
Entrevista: Fernando Bonassi
Literatura/Cinema
Entrevista: Milton Nascimento
Música
Entrevista: Drauzio Varella
Saúde/Literatura
Reportagem: Copa do Mundo Esporte
de Futebol de Rua
2010/ nº 69
Entrevista: Marcelo Tas
Mídia/literatura
2010/ nº 70
Reportagem: filme Topografia Cinema
de um desnudo
2010/ nº 71
Entrevista: Paulo Betti
Arte/Televisão/Cinema
2010/ nº 72
Entrevista: Paulo Caruso
Artes/Mídia
2010/ nº 73
Reportagem: Esporte Social Esporte
Clube
2010/ nº 74
Reportagem: Cinema e Direitos Cinema
Humanos
Quadro1: A cultura como tema constante – Capas da Revista Ocas 2009/2010. Fonte: pesquisadora
Ora, esse destaque aos temas culturais se relaciona estreitamente com a estratégia de
circulação da revista, vendida em espaços essencialmente ligados à cultura. Em São Paulo, a
revista é encontrada em locais como MASP (Museu de Arte de São Paulo), Espaço Cultural
Unibanco (cinema, localizado na Rua Augusta, referência da cultura urbana paulistana), Itaú
Cultural, universidades, entre outros espaços vinculados à questão cultural. No Rio de Janeiro
o mesmo se repete, com os pontos de venda como Cine Odeon, Centro Cultural Banco do
Brasil, Cine Estação Botafogo, Espaço Unibanco e universidades. Fica evidente a relação
estratégica entre os temas “centrais” da revista, as reportagens de capa, que conferem
visibilidade às edições, e os locais onde é vendida a publicação.
Mesmo na seção “Cabeça sem teto”, dedicada exclusivamente a temas que reflitam
sobre a condição da rua e exclusão social, muitas vezes o tema é introduzido por meio de
fatos relacionados à cultura. Na amostragem estudada nesta pesquisa, tal fato ocorre em três
edições específicas. Na edição número 66 (julho/agosto 2009), a seção se dedica a divulgar o
trabalho da cineasta e psicanalista Miriam Chnaiderman, que trata em seus documentários
sobre a realidade das pessoas em situação de sofrimento psíquico, o que, muitas vezes,
também é a realidade de quem vive na rua. Já na edição número 70 (março/abril 2010), é
destaque da seção o tema dos artistas de rua – desde as dificuldades, até a paixão por exercer a
arte, em especial a música, na rua. A edição número 72 (julho/agosto 2010) fala sobre a
85
Virada Cultural, fazendo um paralelo entre a questão da ocupação das ruas pela população por
ocasião do evento e a realidade da vida na rua, vivenciada por mais de 13 mil pessoas na
cidade de São Paulo, segundo dados da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas),
divulgados no texto da seção. Nesta última edição o texto termina com curta, mas reflexiva
pergunta, que sintetiza o paralelo feito ao longo do texto: “Ele [morador de rua] não fala
muito sobre o assunto, mas diz ter fé numa virada. Virada Social?” (São Paulo “em situação
de rua” por 24 horas. Revista Ocas, n. 72, pp. 08-09).
As abordagens da questão cultural na seção “Cabeça sem teto” demonstram uma
preocupação mais qualitativa com a questão cultural que também perpassa as reportagens de
capa, ou seja, é pressuposto para o jornalismo da Ocas que a cultura é componente social com
grande poder transformador. Por isso, muitas das fontes ouvidas pela revista para suas
reportagens de capa são apresentadas a partir de seus posicionamentos – profissionais,
políticos e sociais em geral – diante das questões culturais com que lidam no dia a dia.
No ano de 2009, quatro edições dedicaram a seção “Capa” para entrevistas com
personalidades. Zizi Possi (edição número 63) é apontada como cantora que busca
independência das gravadoras. Fernando Bonassi (edição número 65), numa entrevista-perfil,
é destacado como artista de personalidade marcante, preocupado com as questões
relacionadas à marginalização de pessoas, e muito fiel os valores que preza – capaz até de
abandonar trabalhos por não concordar com os rumos tomados. Em curta entrevista, Milton
Nascimento é abordado como ícone da música brasileira, mas também é arguido acerca de seu
posicionamento sobre os rumos do país, em uma única pergunta genérica (“Como vê o Brasil
de hoje?). Por fim, a entrevista com o médico e escritor Drauzio Varella revela, para além de
um profissional preocupado com as questões de saúde pública e saúde nas instituições estatais
de prisão, um escritor sensível com relação às questões da finitude da vida e da felicidade,
além de um comunicador atento à importância da informação (e a comunicação) para a
prevenção e tratamento de doenças.
Em 2010, foram três edições com entrevistas de personalidades. Marcelo Tas é
apresentado como destacado jornalista com atuação voltada às denúncias políticas, utilizando
o humor para informar. Paulo Betti surge como exemplo de ator com consciência, penetração
e ativismo no que se refere à política, com destaque a sua relação com o partido ao qual é
filiado, bem como os trabalhos sociais que realiza na área artístico-cultural. Na última
entrevista publicada com destaque de capa em 2010, Paulo Caruso é apontado como
importante observador e crítico da política brasileira, o que seria a base para o seu humor
traduzido nos cartuns.
86
As reportagens de capa da revista Ocas também apresentam fontes relacionadas à
cultura. Nas duas reportagens de 2009 foram consultadas 08 fontes sob um viés cultural: Vik
Muniz, que transforma lixo reciclável em arte; Sebastião Santos, Carlos Santiago e Leidi
Laurentina da Silva, catadores de recicláveis que tiveram a vida modificada por meio do
trabalho com as artes plásticas; Pupo Fernandes, técnico da seleção brasileira de futebol de
rua; José Santana Augusto Santos, Ronaldo Gonçalves dos Santos Filho e Jeferson Ferreira
dos Santos Almeida, jogadores de futebol de rua, que transformaram suas vidas pela atuação
no esporte.
Em 2010, as três reportagens publicadas deram voz a 30 fontes ligadas à cultura,
sempre num contexto em que a cultura aparece como potência transformadora ou
contestadora de realidades, em especial da exclusão, desigualdade e injustiça sociais. Das
fontes ouvidas, 17 eram cineastas que apontavam a importância da produção cinematográfica
para levantar discussões substanciais na sociedade; uma fonte era institucional – no caso, o
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – que informa sobre o precário número
de salas de cinema nas cidades brasileiras; outras oito pessoas consultadas falaram sobre o
esporte como alternativa para superar os problemas da exclusão social; e quatro outras fontes
ressaltaram a importância do tema de um filme como instigador da discussão sobre as
políticas higienistas promovida pelos governos.
Assim, observa-se que a revista procura imprimir como marca a abordagem da questão
da exclusão e desigualdade sociais por meio de temas culturais. Além de destacar os
posicionamentos diferenciados de pessoas que atuam com a cultura, por exemplo, trabalhos
ditos “independentes”, o periódico estudado ainda ressalta as ações ligadas à cultura como
iniciativas importantes para retratar, discutir e superar os problemas sociais urbanos.
4.7.2 “Saindo das Ruas”
A situação de exclusão e desigualdade sociais é a segunda categoria destacada neste
estudo, justamente por se tratar do tema crucial para o projeto da revista. Para o assunto, é
reservada uma seção especial em todas as edições da revista, dada a posição central que o
tema para a construção identitária do próprio projeto OCAS.
A própria denominação da categoria – “Saindo das ruas” – repete o slogan que a
revista traz estampado em suas capas41 desde seu surgimento, em 2002. A frase, como já
apontado na primeira apresentação da revista neste trabalho, remete tanto ao projeto social em
41
A partir da edição número 78 (julho/agosto 2011), em que há uma reformulação gráfica na revista, o slogan
não aparece mais na capa. Por não ser o foco desta pesquisa, a questão não é abordada.
87
si – que visa oferecer alternativas para que pessoas deixem de viver nas ruas –, mas também à
influência que a questão da desigualdade e exclusão social exercem sobre o conteúdo da
revista, que de certa maneira também é “retirado” das ruas.
A proposta da seção “Cabeça sem teto”42 é justamente ser um canal de expressão das
questões relacionadas à exclusão social, em especial as situações de rua e risco social. Tal fato
fica evidente na presença de textos escritos por vendedores da Ocas, pessoas em situação de
rua, bem como ex-moradores de rua. No quadro abaixo, além dos temas abordados pela seção,
também são elencados os autores dos textos: dos 23 envolvidos com a confecção dos textos,
apenas oito pessoas não têm experiências pessoais de vivência de situações de risco social, ou
de rua.
Além disso, todos os temas, como relatados a seguir, se dedicam a explorar um
aspecto que se relacione com a questão da situação de rua ou, de maneira mais genérica, da
exclusão social.
Ano/número
Cabeça sem teto: tema
Autor
2009/ nº 63
Realização de seminário do
Fórum
Permanente
sobre
População Adulta em Situação
de Rua
Projeto de alfabetização da
população adulta em situação
de rua. O segundo texto fala
sobre os problemas da operação
“Choque de Ordem” para
atendimento aos moradores de
rua
Difícil
enfrentamento
das
baixas temperaturas pelo qual
passa a população de rua nas
estações frias
Entrevista com a cineasta e
psicanalista Miriam
Chnaiderman, que trabalha em
documentários com a população
em sofrimento psíquico
Lançamento
do
Instituto
Vladimir Herzog e a luta por
justiça, direitos humanos e
democracia
Contexto de negligências e
Luciano Rocco
2009/ nº 64
2009/ nº 65
2009/ nº 66
2009/ nº 67
2009/ nº 68
42
Márcio Seidenberg (texto1)/
Sebastião Nicomedes (texto2)
Sebastião Nicomedes
Márcio
Seidenberg,
com
colaboração
de
Antonio
Brasiliano
Ana Otília Soares, Debora
Galvani, José Fernandes Junior
e Tula Pilar Ferreira
Alderón Costa
Conforme Márcio Seidenberg, jornalista e presidente do Conselho Executivo da Ocas, em entrevista já citada
neste trabalho.
88
2010/ nº 69
2010/ nº 70
preconceitos em torno da morte
do morador de rua José Pereira
Ribeiro
Troca de cartas e a manutenção
da amizade entre ex-vendedor e
um leitor da Ocas (que também
é escritor)
As dificuldades e peculiaridades
da vida dos artistas de rua
Arlindo Gonçalves (leitor)/
Carlos Donizete Duarte (exvendedor)
Debora
Galvani,
João
Rodrigues da Rocha (Montreal),
Jovenil Ribeiro e Marília
Nascimento
2010/ nº 71
A realidade das ocupações de Ricardo Senra
prédios urbanos
2010/ nº 72
A Virada Cultural sob a Bob Neto, Edmar Gonçalves,
perspectiva de quem mora na Sidney Cardoso e Valter
rua
Machado
2010/ nº 73
Depoimento de moradores de Alexandre Machado e Wallace
rua sobre a inadequação do Rosa
tratamento
oferecido
pelo
sistema de albergues
2010/ nº 74
A importância da solidariedade Sidney Cardoso e Salvador
para a superação de situações de D’Acolá
exclusão
Quadro 2: Situação de rua publicada na seção Cabeça sem teto. Fonte: pesquisadora
Nas reportagens de capa o tema da exclusão e desigualdade sociais também aparece de
forma direta ou indireta. Na amostra estudada, destacam-se as seis edições seguintes no
tratamento da questão:
ƒ Edição número 65: na entrevista com Fernando Bonassi o tema da exclusão social é
abordado de forma indireta, ao serem citadas as obras do autor que tratam da
marginalização social, além de ser abordada a dificuldade pela qual o escritor passou
até obter reconhecimento, já que o mesmo tem origem na classe operária, sendo
considerado um caso de “ascensão social”.
ƒ Edição número 67: na entrevista com o médico Drauzio Varella, várias perguntas
faziam referência à saúde da população de rua. Além disso, a própria atuação do
entrevistado como voluntário em presídios, levanta a questão da qualidade de vida de
pessoas em situação de risco social, no caso, a institucionalização estatal para pagar
um crime.
ƒ Edição número 68: na reportagem sobre a Copa de Mundo de Futebol de Rua, que
seria realizada no Rio de Janeiro, é destacada justamente a questão da importância da
modalidade para a superação da condição de exclusão e desigualdade social. A
89
reportagem acaba por se configurar quase como uma “propaganda insititucional” do
projeto “Futebol Social”, que busca alternativas para a situação do risco social através
do futebol.
ƒ Edição número 70: a divulgação do filme “Topografia de um desnudo” é pano de
fundo para tratar da questão das políticas higienistas para o tratamento da população
de rua e em risco social.
ƒ Edição número 73: a reportagem reúne experiências de superação da exclusão de
qualquer tipo por meio de variados esportes, desde o futebol passando também pelo
boxe e natação.
ƒ Edição número 74: edição dá destaque à produção cinematográfica de documentários
latinoamericanos que tratam de questões relativas aos Direitos Humanos, por ocasião
da Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul.
Vale ressaltar que, nos dois anos estudados, todas as vezes que a revista publicou
reportagens e não entrevistas na seção “Capa” – o que ocorreu precisamente cinco vezes, nas
edições números 64, 68, 70, 73 e 74 – os temas tratados sempre faziam referência à questão
da necessidade de ações efetivas para superar a exclusão social.
Os dados reforçam a atuação da revista como fonte de visibilidade para as situações que
envolvam risco, sofrimento, desigualdade e exclusão social. Mas não só: a presença dessas
preocupações também na reportagem de capa – o que ocorre em exatamente 50% da amostra
escolhida para este estudo – demonstra a busca de uma harmonia entre os temas tratados
numa mesma edição43, ou seja, uma coesão editorial em cada número publicado pela revista,
assim como uma coerência com o projeto social responsável pelo periódico.
4.7.3 A ‘voz’ do jornalismo na revista Ocas
Por se tratar de um produto essencialmente jornalístico, chama atenção também as
formas como se conformam o texto à linguagem tipicamente do ofício. Historicamente tida
como uma forma narrativa “imparcial, objetiva e clara”, a linguagem jornalística sempre se
identificou com a utilização da terceira pessoa e as formas impessoais de narração. No
entanto, como já discutido neste capítulo, as configurações do jornalismo contemporâneo
levam ao questionamento da “imparcialidade jornalística”, justamente pela incompatibilidade
43
Mesmo quando se tratam de entrevistas, os posicionamentos destacados dos entrevistados também buscam
apresentar perspectivas “diferenciadas” em relação ao assunto tratado, como já descrito na primeira categoria.
Assim, segundo Márcio Seidenberg, cada número da revista é tido como uma unidade.
90
de tal preceito com a complexidade cada vez maior observada nas relações sociais
contemporâneas.
Tendo em vista a peculiaridade do que se pode denominar uma “atemporalidade” das
edições publicadas pela Ocas, a questão da (im)pessoalidade no periódico aqui estudado toma
significativa importância, já que a estrutura de produção jornalística da Ocas permitiria
experiências mas “livres” das atribuições tradicionais da produção jornalística – busca da
verdade, objetividade e imparcialidade.
Ressalta-se que, a simples utilização da primeira pessoa em uma abordagem
jornalística não seria garantia para a obtenção de uma cobertura mais contextualizada e
condizente com a complexidade da estrutura societária. No entanto, considera-se que, ao
registrar as impressões pessoais dos narradores jornalísticos44 com o recurso da primeira
pessoa, a possibilidade de busca por uma abrangência mais qualitativa dos fatos,
contextualizando-os, se torne mais latente que em outros textos. Essa questão da abrangência
qualitativa dos textos também será abordada na discussão da categoria a seguir.
No ano de 2009, nos textos45 publicados na seção “Cabeça sem teto” a utilização de
primeira e terceira pessoas da narrativa foi equilibrada: quatro textos em terceira pessoa, e três
em primeira. Já nas reportagens de capa foram observadas seis matérias em terceira pessoa, e
apenas uma em primeira pessoa. Inicialmente, esse panorama oferece um retrato quantitativo
que distancia o jornalismo praticado na revista Ocas de experiências mais sutis nas narrativas
contemporâneas.
No entanto, em quatro textos específicos, há trechos em que se recorre à pessoalidade
(primeira pessoa): seja para descrever o ambiente de entrevistas e o contato estabelecido com
os entrevistados nas entrevistas “Zizi integral” (nº63, janeiro/fevereiro 2009, “Capa”) e “No
consultório do Dr. Drauzio” (nº67, setembro/outubro 2009, “Capa”), ou para descrever o
contexto de apuração dos fatos e a relação do narrador com o fato na matéria “Roteiro de um
funeral” (nº68, novembro/dezembro 2009, “Cabeça sem teto”), e até mesmo para se referir à
equipe Ocas e ao trabalho da revista com as pessoas em situação de risco social na entrevista
“Travessias” (nº66, julho/agosto 2009, “Cabeça sem teto”).
44
Utiliza-se aqui tal denominação, porque nem sempre os autores dos textos são jornalistas por formação. No
entanto, como já ressaltado neste capítulo, o filtro jornalístico para as matérias e reportagens publicadas está
sempre presente.
45
Na discussão desta categoria, foi considerado cada texto publicado nas seções, ou seja, podem ter sido
publicados dois textos numa mesma seção, mas que foram aqui abordados em suas formas unitárias. Para mais
detalhes, ver apêndice e anexos.
91
Dentre os textos que utilizam a primeira pessoa destaca-se o texto “Antes que o frio
doa...” (nº65, maio/junho 2009, “Cabeça sem teto”)46, no qual o narrador em primeira pessoa
passa informações sobre a dificuldade de enfrentamento das baixas temperaturas para quem
mora nas ruas, a partir da própria experiência, já que o autor é um ex-morador de rua e
vendedor de Ocas. O texto mescla o relato com as informações dos principais problemas que
acometem os moradores de rua em função do frio. A matéria ainda publica depoimentos de
moradores de rua sobre a questão, nos quais são destacadas as relações que estabelecem com
o ambiente – outros moradores de rua, animais de estimação, o próprio preconceito – para
enfrentar o frio. No texto observa-se o que se pode denominar como “narrador-fonte”, o qual
fornece informações a partir da experiência sensível do fato, conferindo legitimidade à
narrativa, ao oferecer ao leitor uma espécie de “pacto” a partir da experimentação prática da
informação.
Os outros dois textos em primeira pessoa publicados em 2009 na seção “Cabeça sem
teto” têm em comum o tom de relato. Intitulados “Quanto vale ou é por quilo?” (nº64
março/abril 2009) e “A conversa que não terminou” (nº67 setembro/outubro 2009), ambos
foram escritos por vendedores ou ex-vendedores da revista Ocas, ou seja, por pessoas que têm
a experiência de estar em risco social como pano de fundo para opinar sobre as formas de
tratamento da população de rua pelo operações do governo – no caso do primeiro texto, bem
como para achar pontos em comum entre a luta por democracia e liberdade que a figura de
Vladimir Herzog enfrentou e a luta diária por direitos das pessoas em situação de risco social
– como ocorre no segundo texto.
O único texto em primeira pessoa publicada na seção “Capa” em 2009 foi a entrevista
com Fernando Bonassi, feita pelo jornalista Sérgio Vilas Boas, reconhecido por escrever
perfis e biografias jornalísticas. No próprio texto o jornalista identifica o tipo entrevista que
está desenvolvendo como sendo inspirado nas experiências do chamado “novo jornalismo”,
em especial nas matérias produzidas por Gay Talese, em que são destacadas as impressões do
jornalista/narrador na narrativa informativa que se constrói.
Já no ano de 2010, há apenas dois textos em primeira pessoa nos seis números que
contabilizam todas as edições do ano. Ambos foram publicados na seção “Cabeça sem teto”, e
também se reduzem a relatos sobre situações. O primeiro texto, intitulado “Reencontros em
papel” (nº69 janeiro/fevereiro 2010), trata-se dos relatos de um ex-vendedor de Ocas e de um
fotógrafo-escritor que passaram a ser amigos e trocar cartas depois do contato por meio da
46
O texto recebeu o prêmio da categoria “Melhor Artigo de Vendedor” na 16ª Conferência Anual da INSP (Rede
Internacional de Publicações de Rua), ocorrida em 2011 em Glasgow, na Escócia.
92
venda da revista Ocas. O segundo texto, “Relato do descaso” (nº73 setembro/outubro 2010),
apenas reproduz o relato escrito por dois moradores de rua, e que serviu como denúncia ao
Ministério Público, sobre inadequação e descaso dos serviços de abrigo e acolhimento
oferecidos pela prefeitura do Rio de Janeiro. Ou seja, ambos os textos em primeira pessoa
publicados em 2010 pouco têm de jornalístico enquanto estrutura textual, apesar de
apresentarem aspectos importantes sobre a realidade da rua – a construção de uma amizade
por meio da venda da revista Ocas, e as formas de tratamento pessoais recebidas em albergues
e abrigos da prefeitura.
Ressalta-se que em quatro textos do ano de 2010 o recurso à primeira pessoa aparece
de forma pontual, à semelhança das utilizações observadas no ano de 2009. Na matéria “Nas
ruas, onde o povo está...” (nº70, março/abril 2010), são publicados depoimentos (em primeira
pessoa) de artistas de rua, além de haver referência, também em primeira pessoa, ao contexto
de produção da matéria, e o encontro com os artistas. No texto “Luta pela dignidade”, que
compõe a reportagem “Esporte transformador” (nº73, setembro/outubro 2010), há uma
pequena contextualização da produção da matéria, que utiliza a primeira pessoa para mostrar
que a produção do texto se deu por meio de uma visita ao local a que faz referência
(“Estivemos presentes [...] no Viaduto”). Já o texto “Medalhistas de honra” (nº74, novembro e
dezembro 2010), são publicados dois textos de albergados, resultantes de oficinas de criação
de texto, nos quais o recurso à primeira pessoa ocorre para ressaltar a ideia dos autores sobre a
importância da solidariedade no contexto da desigualdade e exclusão sociais. Por fim, na
reportagem de capa composta pelas matérias “O cinema das ‘Veias Abertas’”, “O cinema de
‘garimpo’” e “O cinema de resistência” (nº74, novembro e dezembro 2010), são publicados
depoimentos, em primeira pessoa, de doze cineastas participantes da Mostra de Cinema e
Direitos Humanos sobre seus filmes.
Ao se fazer um balanço dos dois anos estudados, as reportagens de capa mantiveram
praticamente 100% de textos em terceira pessoa – a única exceção foi o texto do reconhecido
perfilador Sérgio Vilas Boas, convidado para entrevistar o escritor e diretor Fernando
Bonassi. Mesmo com as ponderações feitas, esse fato demonstra que, experiências que
contemplem uma abrangência mais complexa dos fatos não se dará, na publicação estudada,
pela via de uma estruturação diferenciada do texto jornalística.
Em última instância, a abordagem dos fatos feita pela revista Ocas, ainda que partindo
de pautas que buscam refletir uma realidade de exclusão e desigualdade sociais, não se
desvincula da linguagem jornalística já reconhecida e reproduzida na contemporaneidade.
93
Mesmo buscando alguma valorização de depoimentos das experiências pessoais, tal destaque
não é feito por meio de novas abordagens jornalísticas, mas por meio de relatos.
4.7.4 Vozes contra a exclusão
Na busca de uma caracterização mais qualitativa das abordagens feitas pela revista
Ocas no período compreendido pela amostragem estudada nesta dissertação, buscou-se uma
observação mais cuidadosa sobre a utilização das fontes nas matérias e entrevistas feitas
ressaltando os vínculos e os contextos de apresentação das fontes. Foram consideradas, para
esta categoria, apenas as fontes que têm posicionamentos claros acerca de questões
relacionadas à desigualdade e à exclusão sociais 47. Os relatos, opiniões e depoimentos sobre
situações de risco sociais também estão sendo considerados nesta categoria, ao se considerar
os narradores desse tipo de texto também fontes.
Destaca-se que todas as matérias publicadas na seção “Cabeça sem teto”, por tratarem
exclusivamente de situações que envolvem a questão da vulnerabilidade social, apresentaram
fontes que abordavam a questão. Já nas reportagens e entrevistas de capa, o tema não faz parte
de sua estrutura editorial. No entanto, das 12 edições estudadas, apenas quatro não abordavam
de maneira direta ou indireta a questão da vulnerabilidade social na reportagem/entrevista da
capa. São elas: edição número 63, que traz entrevista com a cantora Zizi Possi; edição número
66, que publica entrevista com Milton Nascimento; edição número 69, referente à entrevista
com Marcelo Tas; e edição número 72, que traz a entrevista com o cartunista Paulo Caruso.
Em todas as outras edições, o tema da desigualdade aparece de forma direta ou indireta: seja
por meio de perguntas feitas a entrevistados, ou pelo próprio tema da reportagem48.
Identificou-se três tipos de fontes nas seções estudadas: 1) fontes favoráveis à linha
editorial da revista; 2) fontes que contextualizavam a linha editorial, fornecendo dados; 3)
fontes em contraposição à linha editorial. Os dados quantitativos mostram que a utilização de
fontes é desequilibrada, numa clara tendência a priorizar as vozes que buscavam reproduzir e
refletir sobre perspectivas críticas em relação à exclusão e desigualdade sociais.
ANO 2009
Tipos de fontes
1) fontes favoráveis
47
Número
24
O detalhamento do contexto de fala de todas as fontes que aparecem na revista se encontra na “Descrição do
material analisado” na seção “Apêndice”.
48
Em todas as cinco reportagens publicadas nas capas das edições da revista Ocas ao longo dos dois anos
estudados, a questão da vulnerabilidade social estava no cerne do tema central das reportagens.
94
2) fontes de dados
6
3) fontes de contraposição
1
Quadro 3: Tipos de fontes na revista Ocas: 2009. Fonte: pesquisadora
A única fonte que foi utilizada de forma a se contrapor uma perspectiva apresentada
pela revista ocorre apenas na matéria “Antes que o frio doa...” (nº65, maio/junho 2009,
“Cabeça sem teto”), em que uma representante da Secretaria Municipal de Assistência e
Desenvolvimento Social (SMADS) de São Paulo fala sobre as expectativas da “Operação
Frentes Frias”, defendendo e explicando a estratégia adotada pela prefeitura para o contexto
em questão (o enfrentamento das baixas temperaturas por parte da população em situação de
rua). Mesmo buscando o contraponto da prefeitura municipal, o texto ressalta as lacunas da
operação, tanto ao selecionar seis depoimentos de moradores de rua – reforçado pelo relato do
próprio autor do texto, quanto ao ponderar a eficácia da operação no penúltimo parágrafo do
texto explicativo complementar:
Não há, entretanto, como garantir o atendimento em todos os casos, mesmo nos dias
de frio intenso: ‘Se for avaliado risco de morte pelo profissional durante a
abordagem e houver recusa de ajuda, a pessoa assinará um termo de
responsabilidade’, explica a funcionária da SMADS. (“Antes que o frio doa...”,
Revista Ocas, nº65, maio/junho 2009, seção “Cabeça sem teto”)
As fontes favoráveis foram também identificadas em função de suas inclinações no
contexto em que foram ouvidas: numa perspectiva de denúncia da exclusão e desigualdade
sociais ou pelo viés do destaque de contextos de superação de tais conjunturas. Em 2009
houve um equilíbrio: das 24 fontes favoráveis ouvidas, 12 buscavam destacar exemplos de
superação por meio de ações assistenciais, e as outras 12 assumiram um tom mais denuncista.
Já em 2010, o número de fontes aumentou, e o cenário também teve uma leve
modificação conforme o quadro:
ANO 2010
Tipos de fontes
1) fontes favoráveis
Número
37
2) fontes de dados
5
3) fontes de contraposição
3
Quadro 4: Tipos de fontes na revista Ocas: 2010. Fonte: pesquisadora
95
As três fontes consultadas como contraposição aparecem numa mesma matéria que
compõe a reportagem de capa da edição número 70 (março/abril 2010). A matéria, intitulada
“A história se repete” denuncia a inadequação do tratamento recebido por moradores de rua.
A primeira fonte ouvida em contraposição a essa denúncia é a Secretaria Especial da Ordem
Pública (Seop), que nega a acusação de violência e preconceitos no tratamento dos moradores
de rua. A segunda fonte é o site da própria prefeitura municipal, que mesmo representando o
governo – portanto, apoiador das medidas tomadas – é utilizado para destacar relatos
presentes em releases oficiais que confirmam a falta de cuidados no tratamento com a
população em situação de rua, como a informação sobre apoio recebido da polícia na
abordagem e a apreensão dos pertences dos moradores de rua. Por fim, a terceira fonte é
Fernando William, secretário municipal de Assistência Social, que defende as operações e
oferece informações sobre investimentos em projetos que buscam atender a população de rua;
no entanto, o texto sugere que o posicionamento do secretário é duvidoso, ao questionar
implicitamente, no final do texto, a postura do secretário ao longo da entrevista: “Durante a
entrevista por telefone, William diversas vezes chamou de hipócritas os que criticam as ações
do “Choque de Ordem”. Segundo ele, as mesmas pessoas que dizem discordar da iniciativa
reclamam quando tem alguém morando na sua rua” (“Outro lado”, texto complementar de “A
história se repete”, Revista Ocas, nº70, março/abril 2010, seção “Capa”).
Ou seja, a utilização de fontes que potencialmente poderiam trazer à tona
complexidade do que seria o combate à exclusão social se dá a partir de um pressuposto já
consolidado na linha editorial da revista, ou seja, a inoperância dos governos frente à questão
das pessoas em situação de risco social. Esse pressuposto pode até se basear em experiências
muito latentes no dia a dia de quem vive nas ruas, e de quem acompanha tal realidade, no
entanto, leva à condenação dos aparatos estatais para enfrentar o problema, depositando
implicitamente as expectativas de superação em programas e entidades assistenciais, o que,
apesar de ter sua validade na experiência sensível, não garante a existência (ou, antes, a
cobrança) de medidas estruturantes que façam parte do cotidiano das pessoas, por meio
principalmente, de ações estatais.
E é nesse contexto que também as fontes favoráveis se apresentam nas matérias do ano
de 2010. Das 37 contabilizadas, 19 estavam relacionadas a relatos de superação da condição
de risco social por meio de ações de assistência, e 18 faziam referência a contextos de
denúncia.
Ao se observar a utilização das fontes na revista Ocas de uma forma genérica, pode-se
inferir que a publicação se preocupa menos em fornecer um panorama amplo do que
96
representa o problema da exclusão e desigualdade sociais nas grandes cidades onde circula –
São Paulo e Rio de Janeiro, do que simplesmente dar visibilidade a tal problema sob a
perspectiva de ações de assistência e voluntariado, a exemplo do próprio projeto que sustenta
o periódico, a OCAS – Organização Civil de Ação Social. Isso distancia a Ocas do exercício
jornalístico clássico, de apresentação das várias facetas oponentes de um fato de forma
“imparcial”, mas também a afasta da possibilidade de uma construção narrativa mais
complexa sobre a realidade. No entanto, a forma como se utiliza das fontes aproxima a revista
Ocas das caracterizações de um produto jornalístico midiático, que busca a autorreferência –
no caso, o projeto de voluntariado e assistência OCAS – como estratégia para lidar com as
novas configurações societárias que se impõem na contemporaneidade.
4.8 Considerações sobre o capítulo: o jornalismo da revista Ocas
O fato de a iniciativa de OCAS se centrar em editar uma revista, ou seja, um produto
jornalístico, vai além da simples justificativa de seguir os moldes de outras experiências
internacionais que a inspiraram. No desenvolvimento da sociedade contemporânea, o
jornalismo ainda carrega o status de credibilidade narrativa, pois se consolida – até pelas
influências do desenvolvimento tecnológico para a informação e comunicação – como a
atividade por excelência da construção de uma ideia sobre a própria sociedade, sobretudo no
que tange as relações burguesas (SODRÉ, 2009).
Ao se observar mais demoradamente as configurações do tipo de jornalismo publicado
pela revista Ocas, compreende-se que, entendendo essa centralidade da atividade jornalística,
o periódico procura chamar atenção para um tema recorrentemente invisibilizado na
sociedade, no sentido de não se destacar as contradições do próprio sistema capitalista. No
entanto, essa busca pela introdução de um tema de pouca visibilidade não se dá,
necessariamente, a partir da objetivação do assunto, abordando a complexidade do fenômeno
e as relações que se estabelecem a partir dele. Como explica Sodré (2009):
Assim, pode muito bem acontecer que a midiatização de aspectos críticos de uma
determinada realidade social deixe o público em geral pouco informado sobre o que
realmente está ocorrendo (e isto é cada vez mais frequente em virtude das flutuações
da atenção e da memória coletivas sob o influxo da mídia), mas ainda assim essa
precária memória midiática é capaz de fazer emergirem novos atores sociais no
espaço público, sejam eles os imigrantes ou os favelados nas periferias das
megalópoles ocidentais. Ou seja, o que avulta como socialmente crítico não é o
conteúdo racional e argumentativo dos textos sobre a realidade em questão, mas o
“sensível” de vozes antes silenciadas. (SODRÉ, 2009, p.70)
97
Ora, a visibilidade dos problemas decorrentes da exclusão social, o destaque para a
situação de risco social a qual enfrentam milhares de brasileiros, não deixa de ser uma atitude
louvável em meio às disputas simbólicas no contexto urbano. No entanto, a forma como tal
destaque se dá na revista Ocas – por meio de, quase exclusivamente, experiências
assistenciais e de voluntariado, também diluídas em textos que abordam questões culturais,
não supera o maniqueísmo típico no tratamento de questões sociais. É evidente que a
realidade de exclusão e desigualdade sociais se caracteriza por ser uma conjuntura totalmente
nefasta para milhares de pessoas nas grandes cidades, e sua reprodução está certamente ligada
às estruturas institucionais do governo. No entanto, a questão não se resume a esse aspecto, já
que o fenômeno passa por outras instituições e fatores centrais na sociedade, entre eles, o
próprio voluntariado e assistencialismo.
Enquanto produto jornalístico, que se propõe a apreender os fatos cotidianos a partir
dos conhecimentos inerentes a essa atividade, a revista Ocas ainda apresenta uma grande
lacuna. Mas, do ponto de vista da circulação de perspectivas, sobretudo no ambiente urbano, é
inegável a importância de seu papel alternativo, como contraponto às ideias e conceitos
hegemonicamente predominantes nas discussões da sociedade.
98
5 Considerações finais
Num percurso do olhar que parte de um ponto de vista macro, enxergamos o grande
fenômeno da urbanização e sua expressão máxima na realidade das metrópoles. No caso do
estudo traçado nesta dissertação, em especial as cidades brasileiras de São Paulo e Rio de
Janeiro. Nesse contexto, saltam aos olhos o mosaico de informações que advêm da urbe:
avanços tecnológicos, transações financeiras, desenvolvimento infraestrutural, movimentos de
reivindicação, expressões culturais e artísticas; mas também miséria, exclusão e desigualdade
sociais, trabalho informal, periferias desestruturadas, pessoas sem oportunidades, e sem o
mínimo para garantir a dignidade da vida.
A contradição é latente no cotidiano social, e sua percepção se dá, sobretudo, por meio
do mosaico de informações que predomina na contemporaneidade – a circulação de dados e
informações nunca foi tão intensa. A mediação tecnológica é responsável por sustentar a
dinâmica informacional, sob a marca da velocidade (imediatista) e também da
superficialidade. E as consequências dessa dinâmica extrapolam e se manifestam na própria
constituição dos sujeitos sociais, bem como as relações que estabelecem na sociedade.
As experiências urbanas são as primeiras a sentir esses impactos, concentrando, ao
mesmo tempo, as características nefastas do desenvolvimento – ancorado nos competitivos
preceitos capitalistas; as novidades tecnológicas, renovadas em velocidade cada vez maior, e
por isso mesmo estimulantes do consumo; e as experiências de resistência e reivindicação da
garantia de direitos sociais e dignidade humana, que estão sob progressiva ameaça no
contexto de uma estrutura social cada vez mais individualizante.
Nesse macro cenário composto nesta dissertação, de forma geral, a partir das reflexões
de Muniz Sodré (2001, 2007, 2010), Milton Santos (1993, 2001), Jessé de Souza (2006),
Beatriz Jaguaribe (2007), interessou ao estudo enxergar e compreender uma específica
experiência, a partir da qual seria possível enxergar e compreender como se revelam, no
exercício do jornalismo, tais macroconfigurações descritas. Entende-se, numa perspectiva
construcionista, que é no desenvolvimento das microrrelações que se estabelecem as
configurações do que se interpreta como sendo a própria estrutura societária.
É no terreno das trocas simbólicas que tais relações são balizadas, a partir dos valores
e ideias dos grupos dominantes na sociedade, que buscam a reprodução e a consolidação de
seus mecanismos de poder, em consonância com o sistema capitalista de produção. Ou seja, a
hegemonia não se exerce apenas por meio das tradicionais instituições, mas também nas
estruturas mais subjetivas que determinam as relações sociais, como gostos, crenças,
99
pressupostos, conceitos. Tal conjuntura se reforça pela destacada influência do binômio
tecnologia/consumo no cotidiano dos indivíduos.
A comunicação, portanto, assume papel significativo na dinâmica social, ao ser a
principal atividade a engendrar as relações simbólicas – e também de consumo. E justamente
por ocupar esse destacado lugar, a comunicação também é terreno fértil para o
desenvolvimento
de
iniciativas
que
apresentem
perspectivas
críticas
às
formas
contemporâneas de desenvolvimento social.
Numa perspectiva dialética, as experiências comunicacionais que buscam fazer um
contraponto aos grupos hegemônicos, além de apresentarem outras formas possíveis de
vínculo da comunicação na sociedade, também configuram importantes facetas da sociedade,
importantes para a própria compreensão das dinâmicas sociais contemporâneas. Justamente
pela complexidade que marca tais dinâmicas, a questão é controversa no que diz respeito à
conceituação do termo “alternativo”, amplamente utilizado para se referir a perspectivas
comunicacionais que se contrapõem aos grupos hegemônicos. A bibliografia sobre o tema é
vasta, no entanto, sofre de carências que se justificam pela própria indefinição das ações
alternativas diante das consolidadas estruturas societárias.
Para entender tal processo, evoca-se neste estudo as reflexões de Paiva (2007, 2008),
Sodré (2005, 2006, 2008), Moraes (2010), Martín-Barbero (2006, 2003), entre outros, que
auxiliam na compreensão de que a busca por experiências alternativas se localiza no âmbito
simbólico, o que, apesar de se relacionar com certa fluidez de uma constante redefinição, faz
com que o alternativo assuma papel estratégico para as mudanças sociais necessárias,
sobretudo a superação da desigualdade e exclusão sociais.
No entanto, os câmbios sociais só têm efetividade se abrangerem ações estruturantes
na sociedade, o que passa pelo reposicionamento também em relação a instituições e práticas
consagradas no contexto do desenvolvimento social. Desse modo, compreende-se que os
modelos alternativos na comunicação podem oferecer contrapontos sob dois aspectos
específicos: disputando simbolicamente espaço na circulação quase frenética de informações
cotidianas; ou buscando desenvolver novos formatos para sua própria existência,
estabelecendo novos vínculos, estruturando novas relações.
No caso do objeto de estudos desta dissertação, conclui-se que a perspectiva contrahegemônica se encontra em medidas diferentes nos aspectos acima relacionados. Do ponto de
vista simbólico, a revista assume um significativo papel de disputa no contexto urbano das
cidades em que circula, por se caracterizar como um veículo de comunicação, em formato
reconhecido e compartilhado pelos integrantes da sociedade, uma revista, que apresenta um
100
tema geralmente evitado e invisibilizado de maneira estrategicamente atrativa – a
possibilidade de contribuição com um projeto social por meio da compra da revista,
chamando atenção para o problema da exclusão social.
A revista Ocas parte da legitimidade construída em torno da atividade jornalística para
se estruturar, buscando a persuasão dos leitores por meio do uso estratégico de suas fontes,
pela apresentação “atrativa” dos temas que se relacionam com o projeto social que a sustenta,
pela racionalidade do discurso impessoal, pela exaltação de experiências de superação e dos
fatos que denunciam uma realidade que exclui milhares de pessoas.
Do ponto de vista estrutural, portanto, a revista utiliza os mesmos formatos
reconhecidos, e os mesmos pressupostos que delineiam a própria atividade jornalística,
mantendo uma estrutura textual que prioriza a denúncia e a publicização de casos de exclusão
social, ou a exaltação de projetos sociais que igualmente ao projeto OCAS também procuram
minimizar os problemas decorrentes da desigualdade social. Tal estratégia de dar visibilidade,
no entanto, não questiona a própria existência da exclusão social. Nas páginas da revista não
há uma problematização essencial do problema da exclusão social, que culmina na existência
de pessoas em situação de rua e/ou risco social – justamente o grupo ao qual se dedica a ação
social que sustenta a publicação.
No entanto, há que se ponderar que apresentação jornalística de discussões mais
estruturantes talvez não seja mesmo a intenção da revista Ocas. Nesse sentido, a principal
contribuição da revista Ocas seria mesmo representar um espaço para a visibilidade de uma
faceta do cotidiano que é geralmente naturalizada no cenário urbano. Mesmo sob uma
configuração utilitária do jornalismo, a publicação atenta para a necessidade de se enxergar e
considerar a realidade de exclusão que atinge milhares de pessoas.
Não se trata, portanto, de julgar o mérito da atuação da revista. Mas localizar a
publicação no seu contexto cultural, entendendo-a como uma manifestação que contribui, mas
também é influenciada, pela complexa estruturação das relações sociais contemporâneas.
101
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Vozes, 2001.
105
_______. Sobre a Episteme Comunicacional. Revista MATRIZes. São Paulo: n. 01, p. 1526, out. 2007.
_______. Eticidade, campo comunicacional e midiatização. In: MORAES, Dênis de, (org.)
Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.
_______. Por um conceito de minoria. In: BARBALHO, Alexandre, PAIVA, Raquel (orgs.)
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_______. O jogo contra-hegemônico do diverso. In: COUTINHO, Eduardo Granja (org.)
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_______. Jornalismo como campo de pesquisa. Brazilian Journalism Research. vol. 6 n. 2,
2010-II. Disponível em: http://bjr.sbpjor.org.br/index.php/bjr/article/view/13/13
SOUZA, Jessé. A gramática social da desigualdade brasileira. In: ______ (org.). A
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TOURAINE, Alain. Crítica da Modernidade. 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo – Porque as notícias são como são. 2 ed.
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transnacional. 2 ed. Florianópolis: Insular, 2008. Volume II
WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa, Presença, 1987.
www.street-papers.org
www.ocas.org.br
106
APÊNDICE
Descrição do material – observação para análise
Edição número 63 (janeiro/fevereiro 2009)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 3 (de 9 a 11).
Título: Por mais voz e ação
Autor: Luciano Rocco
Tema central: realização de seminário promovido pelo Fórum Permanente sobre População
Adulta em Situação de Rua, com vistas a pensar as diretrizes para a política pública para a
população de rua.
Fontes e contextos de fala:
- Maria Margarida Pressburger, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Assistência
Judiciária da OAB/RJ: fala do interesse pessoal e institucional (OAB) no assunto; a matéria
praticamente coloca os cumprimentos dados pela presidente como uma fala da matéria, para
reforçar o seu interesse e compartilhamento da consciência da necessidade de se discutir tal
tema.
- Jorge Muñoz, pesquisador da Nova Pesquisa e Assessoria em Educação: fala das intenções
do fórum – que se mantiveram desde sua gênese –, ressaltando a presença/ausência de
pessoas, instituições e do poder público no fórum, sobretudo deste último.
- Valéria Gonelli, diretora do Departamento de Proteção Social Especial do Ministério de
Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS): não tem uma fala específica, mas é citada
de forma a personificar as informações relacionadas às ações do governo federal no que se
refere à população de rua, em especial a Política Nacional para Inclusão Social da População
em Situação de Rua, que estava sendo anunciada para o mês de março 49, seguinte à
publicação.
- pesquisa sobre a saúde da população em situação de rua: a matéria não diz exatamente o
nome de quem apresentou os dados da pesquisa, mas alguns resultados são explicitados, de
forma pontual.
49
A lei só entraria em vigor em dezembro de 2009.
107
Narrador: obedece à linguagem jornalística com terceira pessoa, mas vale destacar que a
matéria se constitui quase como um relato da reunião do fórum, trazendo até mesmo um
quadro, que ocupa a última página inteira destinada à seção, com um resumo das resoluções
de cada grupo temático do fórum.
Reportagem de capa.
Número de páginas: 6 (de 12 a 17)
Título: Zizi integral
Autor: Márcio Seidenberg
Tema central: entrevista com a cantora Zizi Possi, no formato perguntas e respostas.
Informações em destaque: o texto de abertura se inicia com um destaque especial para a
própria fala de Zizi Possi sobre o projeto “Cantos e Contos”, no qual a cantora se apresenta
com a presença de outros músicos. O texto destaca o grande repertório de 220 músicas,
apresentando as características das músicas escolhidas para dois momentos dos encontros. A
seguir, o texto passa a destacar o profissionalismo da cantora, que estudou piano, composição
e regência, em especial a capacidade de inovação de Zizi, bem como o cuidado no tratamento
das canções escolhidas. O texto ainda dá um destaque especial para a parceria feita pela
cantora com a Orquestra Sinfônica de Heliópolis, da comunidade da periferia de São Paulo.
Fontes e contextos de fala:
- Jether Garotti Jr., pianista, clarinetista, arranjador e maestro, e também voluntário na
Orquestra Sinfônica de Heliópolis: por trabalhar com Zizi Possi há 18 anos, informação
pontuada pelo texto de abertura, o músico é a fonte escolhida para apresentar detalhes do
trabalho da cantora. Além disso, também é destacada a opinião de Jether sobre o projeto da
Orquestra de Heliópolis, no qual trabalha como voluntário.
- Abel Rocha, maestro da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo: escolhido também por ter
trabalhado com a cantora, destaca o refinamento do trabalho de Zizi.
- José Fernandes Júnior (Zé Caradípia), compositor de “Asa Morena”, um dos principais
sucessos de Zizi Possi: o compositor é convidado a contar a história que o levou a compor a
música que se tornou o grande sucesso de Zizi Possi na década de 1980. O texto é apresentado
em um quadro separado do restante da entrevista.
Tipos de perguntas: as perguntas giram em torno de questões sobre o posicionamento de Zizi
Possi diante de seu trabalho, e do mercado musical. Destaque para duas perguntas específicas
108
sobre a carreira da cantora, em que é abordado o posicionamento independente adotado por
Zizi em sua carreira (p.16).
Narrador: o narrador em terceira pessoa só é abandonado em parágrafo anterior ao início da
entrevista, apresentada em forma de perguntas e respostas. O jornalista contextualiza, em um
período em que utiliza primeira pessoa, como se dá a entrevista com a cantora, que acontece
logo após um show dela.
Edição número 64 (março/abril 2009)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 4 (de 8 a 11)
Título 1: Escola da Rua: ensinando e aprendendo
Autor: Márcio Seidenberg
Tema central: a matéria descreve as características do Projeto Caminho Novo, que se destina
a alfabetizar, bem como a oferecer cursos extras (informática, artes, supletivos) à população
adulta em situação de rua atendida pela instituição “Arsenal da Esperança”. A matéria chama
atenção para o número de analfabetos entre os moradores de rua, mas também destaca que os
alunos do projeto (na ocasião relatada pela matéria, 230 pessoas) compartilham ensinamentos
com os envolvidos no projeto. Em um pequeno texto separado (o que, porém, não
caracterizaria a matéria como uma “reportagem”), com breve entrevista com o vice-presidente
da instituição, também é dado destaque ao histórico do projeto e à questão da permanência
dos acolhidos no projeto. Uma página inteira é destinada à publicação de duas listas com itens
elencados por 10 dos atendidos no projeto (os nomes são publicados no alto da página), que
durante encontros promovidos pela Ocas refletiram (e organizaram as listas) sobre a
sobrevivência na rua e as experiências que têm para compartilhar, bem como os anseios e
expectativas que cultivam.
Fontes e contextos de fala:
- Sônia Maria de Freitas Altomar, diretora da Associação pela Família, entidade que organiza
os projetos educacionais do Arsenal da Esperança: é citada pontualmente, e a fala selecionada
relaciona-se com a especificidade no atendimento de cada aluno, por conta da individualidade
no processo de aprendizagem de cada pessoa.
- Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua: a pesquisa é mencionada
enquanto fonte de dados sobre os níveis de alfabetização de moradores de rua no Brasil.
109
- FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas): a matéria faz referência muito breve a
um estudo que levanta números sobre a alfabetização entre os atendidos em albergues.
- Sandra Regina Fernandes Westin, professora do projeto: também citada pontualmente, tem
uma fala selecionada que destaca a construção processual da alfabetização.
- Zé Carlito, um dos alunos do projeto: tem uma pequena fala selecionada, um depoimento
sobre seu aprendizado.
Observação: a matéria ainda conta com pequenos depoimentos de outros dois atendidos pelo
projeto, mas que não são identificados com nomes.
- Antonio Palladino, missionário e vice-presidente do Arsenal da Esperança: fonte da pequena
entrevista complementar à matéria, que está estruturada em forma de perguntas e respostas,
fala sobre a estruturação do projeto e da instituição, reforçando a importância da educação na
sociedade. Chama atenção a identificação da fonte como “missionário” e um tom quase
religioso às respostas, destacando a questão do acolhimento, ainda que a permanência dos
atendidos tenha um prazo definido. O título do texto, no entanto, reforça a perspectiva do
entrevistado: “Cada um faz o seu tempo”.
Narrador: terceira pessoa, obedecendo as regras do discurso jornalístico.
Título 2: Quanto vale ou é por quilo?
Autor: Sebastião Nicomedes.
Tema: excepcionalmente, a seção “Cabeça sem teto” apresenta dois textos independentes.
Isso porque este texto é uma continuação do relato iniciado no editorial da revista. Em
primeira pessoa, Sebastião Nicomedes, morador de rua, apresenta um relato de como se dá a
operação “Choque de Ordem”, promovida pela prefeitura do Rio de Janeiro. Na operação, a
população em situação de rua é “acolhida” por meio de um veículo, passa por uma triagem, e
depois é encaminhada a abrigos e/ou hotéis credenciados. O depoimento mostra as
contradições da operação, sobretudo as inadequações de instalações e atendimento (apesar da
atratividade exercida pela ideia de ser hospede – o que poderia atrair até mesmo pessoas que
não necessariamente estejam em situação de rua), destacando a dificuldade que os acolhidos
enfrentam – as principais delas, a discriminação e falta de diálogo e de atendimento
profissional, o que leva a uma falta de perspectiva que os afasta dos locais de acolhimento,
restando a rua novamente como alternativa. No final, o autor questiona o formato de
credenciamento dos hotéis, que geraria lucro ‘per capita’ de atendidos aos estabelecimentos, e
termina com a pergunta que intitula o texto, uma explícita referência ao filme de Sérgio
110
Bianchi com o mesmo título, que aborda as questões da credibilidade das formas de
solidariedade e assistência social atuais e a exploração da miséria e do marketing social.
Narrador: texto em primeira pessoa, bem estruturado no formato de depoimento.
Reportagem de capa
Número de páginas: 6 (de 20 a 25)
Título 1: A arte que emerge do lixo
Autora: Mariana Schreiber
Tema: a primeira matéria que compõe a reportagem utiliza como ponto de partida a
exposição de obras do artista plástico Vik Muniz, tanto em São Paulo, quanto no Rio de
Janeiro, para apresentar as características, influências e conceitos que dão origem à obra do
artista. Vik Muniz compõe seus trabalhos a partir de materiais inusitados, inclusive o lixo, o
que fez com que ele se aproximasse do universo dos catadores de recicláveis.
Fontes e contextos de fala:
- Vik Muniz, artista plástico: nessa primeira matéria, a única fonte é o próprio artista plástico.
As falas selecionadas se relacionam ao caminho percorrido pelo autor até chegar ao
reconhecimento representado pela exposição. Duas falas significativas reportam a relação
entre o artista (sua ideia, sua obra) e o universo dos catadores de lixo.
Narrador: terceira pessoa, obedecendo as regras do discurso jornalístico.
Título 2: O lixo que vai ao museu
Autor: Luciano Rocco
Tema: a matéria se dedica a retratar a relação dos catadores de lixo reciclável com a produção
da série “Lixo”, do artista Vik Muniz. Ao longo do texto, o autor mostra como a produção
artística influenciou a vida dos catadores de recicláveis, e como a exposição e venda das obras
também modificou a vida dos envolvidos na produção.
Fontes e contextos de fala:
- Sebastião Santos (Tião), catador de recicláveis e um dos personagens da obra de Vik Muniz:
fala de sua relação com a obra e também de como a participação foi importante para
contribuir com melhorias para a associação de catadores de recicláveis e mais auto-confiança
para quem se envolveu com o trabalho do artista. Também fala sobre a própria trajetória
pessoal, que o levou a ser um catador.
111
- Rosimeire Ferreira de Sousa, catadora e esposa de Carlão, que também se tornou
personagem de um trabalho do artista, e integrante da diretoria da Coopercamjg, braço
empresarial da Acamjg (Associação de Catadores de Gramacho): é selecionada pontualmente
na matéria, e fala sobre a timidez inicial do marido em participar e também dos esforços
empreendidos pelos catadores para contribuir com o artista.
- Carlos Santiago (Carlão), catador e personagem de uma das obras de Vik Muniz: fala sobre
a trajetória pessoal, e sobre como o trabalho no aterro onde recolhe os recicláveis é pesado,
difícil. Uma das falas selecionadas, a mais significativa, diz respeito às expectativas de sair do
trabalho com os recicláveis e conseguir um emprego formal.
- Leidi Laurentina da Silva (Irmã), também catadora e personagem da obra do artista plástico:
também fala do contexto difícil e duro do trabalho dos catadores, através das reflexões sobre
sua trajetória pessoal. A última fala selecionada da matéria é de Irmã, na qual ela revela a
emoção de ter sua identidade valorizada por meio da obra de Viz Muniz.
Narrador: terceira pessoa, obedecendo as regras do discurso jornalístico.
Edição número 65 (maio/junho 2009)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 3 (de 9 a 11).
Título: Antes que o frio doa...
Autor: Sebastião Nicomedes
Tema central: fala da situação da população de rua no contexto de enfrentamento das baixas
temperaturas, antecipando um problema que atormenta a população em situação de rua e/ou
risco social em cada chegada do inverno. A matéria procura dar destaque à difícil realidade de
sobrevivência nas ruas durante as baixas temperaturas. Um parte do texto é dedicada aos
depoimentos de moradores de rua, que falaram com a equipe da Ocas em uma abordagem
noturna. Um pequeno texto complementar fala sobre as estratégias da Operação Frentes Frias,
da prefeitura de São Paulo, que visa atender e acolher os moradores de rua na época mais fria
do ano, evitando os problemas recorrentes a essa população no inverno, principalmente as
mortes.
Fontes e contextos de fala:
112
- Maraísa de Oliveira, moradora de uma ocupação urbana, mãe de quatro filhos: fala como é
difícil a situação da família no inverno, mesmo morando em um prédio ocupado, por conta da
falta de estrutura que acomete a vida em uma ocupação urbana.
- Gilson, morador de rua: fala da dificuldade de enfrentar o frio, destaca que muitos
moradores de rua se embebedam para enfrentar as baixas temperaturas, e destaca que o frio
causa mortes.
- Genivaldo da Silva Jatobá: fala da dificuldade ainda maior de suportar o frio quando chove,
relata o perigo de morte. Denuncia que pessoas jogam água nos moradores de rua para que
não deitem nas marquises das lojas.
- Carlos Rodrigues Silva, Walter Luis Jeremias, Alex Sandro da Silva e Anderson Alex
Gomes, moradores de rua: “reunidos” em um único depoimento, também denunciam a prática
de jogar água para espantar os moradores de rua, bem como o esquema de exploração de
atendimento dos albergues.
- Maria, moradora de rua: o depoimento selecionado revela o comportamento relativamente
arredio de Maria durante a conversa com a equipe da Ocas, com a justificativa da exploração
da estética da miséria e da situação de rua, principalmente por meio de fotografias não
autorizadas (ela cita os casos das fotos que estrangeiros insistem em fazer).
- Pedro Jorge, morador de rua: fala da dificuldade de suportar o frio e de como o seu cachorro
ajuda a enfrentar as noites frias, por ter bastante pelos.
- Isabel Cristina Bueno da Silva, funcionária do departamento de Proteção Social Especial da
SMADS (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social): explica o
procedimento da Operação Frentes Frias e informa que nova proposta estava sendo formulada
para aperfeiçoar o atendimento aos moradores de rua.
Narrador: texto escrito em primeira pessoa. O autor, por ser ex-morador de rua, também
oferece informações sobre o contexto de dificuldades em se viver nas ruas. Por isso, podemos
considerá-lo um “narrador-fonte”. Mas essa situação só ocorre no texto inicial: nos
depoimentos e texto complementar, a linguagem é em terceira pessoa, jornalística.
Reportagem de capa
Número de páginas: 6 (de 14 a 19).
Título: Para fugir da repetição
Autor: Sergio Villas Boas
113
Tema central: entrevista-perfil com Fernando Bonassi. O autor do texto, já consagrado
perfilador no jornalismo, utiliza o seu estilo de texto para entrevistar Fernando Bonassi,
revelando não apenas aspectos da obra do escritor, diretor e roteirista, mas também
características de seu perfil – personalidade forte, fiel a seus valores, “desbocado”. O texto é
estruturado de forma mais livre – o próprio autor cita Gay Talese, representativo do chamado
“Novo Jornalismo” – com registros das impressões do jornalista. Em citação, o autor revela
como encara o contexto diferenciado da produção jornalística da revista Ocas: “é uma
garimpagem diferente daquela dos noticiários” (p.18).
Tipos de perguntas: apesar de não apontar literalmente no texto as perguntas feitas, o texto
revela que a estratégia do jornalista foi formular perguntas que estimulassem o fluxo de
pensamentos do entrevistado, bem como detalhes de sua personalidade, seus posicionamentos
em relação às coisas mais triviais, como as formas de resolver problemas cotidianos das
filhas, até valores substanciais da carreira do escritor, que permitiram com que hoje ele
pudesse fazer escolhas sempre coerentes com seus valores. Além das perguntas, o jornalista
tira informações que o autor apresentou numa palestra posterior ao encontro para a entrevista
(especificamente, no dia seguinte), e outras obtidas em trocas de emails, também posteriores.
As falas selecionadas do entrevistado, recorrentemente impactantes, seguem uma impressão
revelada pelo autor da matéria no próprio texto: “ele parece acreditar que as suas frases de
efeito têm efeito efetivo” (p.18). Nesse caso, a própria construção do jornalista também
parece ser “de efeito”.
Narrador: texto escrito em primeira pessoa, com estilo livre e registro das impressões e
opiniões do jornalista. Conforme o próprio autor, ao estilo do “Novo Jornalismo”,
representado pelo autor Gay Talese.
Observação: não há a unidade de registro “informações em destaque”, justamente por não se
tratar de uma entrevista direta, em formato de perguntas e respostas. As informações, o perfil,
e as respostas do entrevistado são apresentados ao longo do texto.
Edição número 66 (julho/agosto 2009)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 6 (de 8 a 13)
Título: Travessias
Autor: Márcio Seidenberg, com colaboração de Antonio Brasiliano
114
Tema central: excepcionalmente, a seção apresenta uma entrevista, nos moldes das que
figuram as capas da revista. A entrevistada é Miriam Chnaiderman, psicanalista que se tornou
cineasta, e que retrata em seus filmes as pessoas em situação de sofrimento psíquico, em tom
que preza pela esperança de melhoria de vida de tais pessoas. Há uma identificação clara do
tema trabalhado pela cineasta/psicanalista com a abordagem do projeto OCAS, que também
pretende tratar com pessoas em sofrimento material, e muitas vezes, psíquicos, por conta da
situação de rua. Na ocasião a revista ainda se dedicava à seção “Delírios Urbanos (não
aparece na edição em questão, mas na anterior e em posteriores), sobre projetos inovadores na
perspectiva da qualidade de vida de pessoas em situação de sofrimento mental.
Informações em destaque: o texto começa destacando dois dos documentários da
entrevistada, “Procura-se Janaína” e “Sobreviventes”. Em relação a este último, é destacada a
participação de Sebastião Nicomedes, colaborador da Ocas, escritor e ex-morador de rua.
Também é destacada a relação do projeto OCAS com a entrevistada: Miriam Chnaiderman foi
uma das convidadas do evento de primeiro aniversário da revista, denominado “Excluídos. De
onde?”, em 2003. O texto ainda ressalta que os documentários de Miriam têm o efeito
“antídoto” contra a intolerância, transmitindo sensações de esperança e compreensão. Por
último, chama atenção para a dificuldade de distribuição de documentários no contexto
brasileiro.
Tipos de perguntas: as perguntas revelam a preocupação em explorar o lado psicanalítico da
entrevista, e como isso se revela em seus documentários. Também há perguntas que exploram
a questão da exclusão social e situação de rua, sempre buscando correlacionar tais problemas
ao trabalho da entrevistada, reforçando a identificação com o olhar dela (em uma delas o
entrevistador cita novamente a participação de Miriam no evento da Ocas). Destaque para
duas perguntas (pp. 12 e 13) que foram respondidas com outras perguntas: a entrevistada
parece questionar o projeto Ocas, a sua abordagem, e as perspectivas que apresenta para os
moradores de rua que se interessam em integrar o projeto. Chnaiderman afirma que a questão
da autonomia financeira (de sobrevivência) pode não ser válida para todas as pessoas que
estão nas ruas, defendendo a especificidade no olhar para cada história de vida das pessoas em
situação de risco social, sobretudo das ruas.
Narrador: terceira pessoa, em texto jornalístico. No entanto, nas perguntas em que é citado o
projeto OCAS, é utilizada a primeira pessoa, numa referência direta à estreita relação entre o
trabalho da entrevistada e os valores e atividades da revista.
Reportagem de capa
115
Número de páginas: 5 (de 14 a 18)
Título: As novas do Milton
Autora: Denise Mota, com colaboração de Márcio Seidenberg e Rosi Rico
Tema: entrevista com o cantor Milton Nascimento, em formato de perguntas e respostas.
Informações em destaque: o pequeno texto de introdução destaca a relevância do trabalho de
Milton, fonte do seu reconhecimento. Ainda destaca que o cantor prepara um novo disco, e
faz um breve resumo da entrevista.
Tipos de perguntas: em apenas seis perguntas, a entrevistadora explora aspectos do novo
disco que o cantor está preparando, especialmente a participação de músicos novos de Três
Pontas-MG (cidade onde Milton viveu) e a produção do amigo e parceiro Wagner Tiso (que
também viveu na cidade). Ainda fala da inspiração do compositor, sua relação com o Brasil e
o balanço da carreira.
Narrador: terceira pessoa, obedecendo as regras do discurso jornalístico.
Edição número 67 (setembro/outubro 2009)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 2 (8 e 9)
Título: A conversa que não terminou
Autores: Ana Otília Soares, Debora Galvani, José Fernandes Junior e Tula Pilar Ferreira
Tema central: o texto fala sobre o encontro dos participantes do Ponto de Encontro e Cultura
da OCAS50 com o jornalista Sérgio Gomes, acerca do documentário sobre a vida de Vladimir
Herzog, bem como a participação dos vendedores de Ocas no lançamento do Instituto
Vladimir Herzog, e a conversa feita com Ivo Herzog, filho do jornalista assassinado. A
matéria publica em formato de “perguntas e respostas” três das perguntas feitas no encontro
com Ivo, além do depoimento de um dos vendedores sobre a participação no lançamento do
Instituto. Dentre os temas que permeiam a matéria, estão os direitos humanos e a liberdade de
expressão, o papel das ONGs e a democracia.
50
De acordo com a própria revista, “um espaço de articulação entre diversos saberes e linguagens de expressão,
construído e parceria entre a OCAS e o Projeto METUIA – vinculado ao curso de Terapia Ocupacional da USP –
com a participação de vendedores e voluntários da OCAS, lideranças do movimento da população em situação
de rua, artistas, estudantes e a comunidade local” (p. 9 do texto).
116
Fontes e contextos de fala:
- Tula Pilar, vendedora de Ocas e integrante do projeto Ponto de Encontro e Cultura: pequena
opinião da vendedora sobre o encontro com Ivo Herzog e a postura do entrevistado (“simples
e democrático”, p. 8).
- Ivo Herzog, filho de Vladimir Herzog e membro do conselho do Instituto lançado: são
selecionadas falas de Ivo em resposta a três perguntas que abordavam a ditadura, a liberdade
de expressão e o papel das organizações não-governamentais.
- José Fernandes Junior (Zeca), vendedor da Ocas: fala sobre a participação dos vendedores
da revista no lançamento do Instituto Vladimir Herzog, destacando a presença de instituições
estatais na constituição do Instituto, como a ouvidoria da Polícia Militar, que foi ligada à
ditadura, reforçando o princípio democrático.
Narrador: texto escrito em primeira pessoa (plural, por representar todos os participantes do
projeto Ponto de Encontro e Cultura), inclusive o depoimento.
Reportagem de capa
Número de páginas: 6 (de 14 a 19)
Título: No consultório do Dr. Drauzio
Autor: Márcio Seidenberg, com colaboração de Cristiana A. Zulli, Rosi Rico e Sheila Silva
Tema central: entrevista com o médico e escritor Drauzio Varella, em formato de perguntas e
respostas.
Informações em destaque: a entrevista é introduzida com destaque para a atuação do médico
no trabalho em penitenciárias, desde o conhecido trabalho no Carandiru, até o trabalho em
penitenciárias femininas, onde estava atendendo voluntariamente à época da entrevista. O
texto ainda cita o projeto do novo livro do médico-escritor, além de contextualizar o decorrer
da entrevista – marcada por interrupções.
Tipos de perguntas: as perguntas giram em torno da questão social da medicina praticada por
Drauzio Varella, principalmente sua atuação em penitenciárias. Destaque para perguntas
sugeridas: pela editora da revista e pelos vendedores de Ocas, sendo uma delas (feita por um
vendedor) relacionada à saúde da população de rua. Além disso, são abordados temas como a
educação para a saúde, a importância da informação na prevenção de doenças, a gripe “suína”
(que estava no auge de sua epidemia), lei antifumo, a finitude da vida e a morte, bem como
aspectos da produção literária do médico.
117
Narrador: a primeira pessoa aparece apenas no parágrafo que antecede as perguntas, na
contextualização da entrevista.
Edição número 68 (novembro/dezembro 2009)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 2 (8 e 9)
Título: Roteiro de um funeral
Texto: Alderon Costa
Tema central: o texto relata a morte de José Pereira Ribeiro, morador de uma praça na Vila
Maria, zona norte de São Paulo, em meio a denúncias de negligências e preconceitos nos
atendimentos prestados ao morador de rua. No final da matéria, há uma nota informando que
o texto também foi publicado no jornal “O Trecheiro”.
Fontes e contextos de fala:
- Pedro Luiz Pereira, morador de rua: relata algumas situações de negligência no atendimento
a José, em especial a dificuldade de acionar a Polícia Militar para avisar da morte do colega,
morador da mesma praça. Segundo a fala selecionada no texto, a abordagem da polícia foi
intimidante.
- Frederico Chaves (Fred), morador de rua: dá detalhes do histórico de negligências que
envolveu a morte de José, por também morar na mesma praça. É por meio de Fred que são
destacadas o preconceito e negligência do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência
(SAMU), as passagens sempre pontuais pelo albergues – mesmo com a demonstração do
interesse por permanecer abrigado –, o que levou José a recusar atendimentos sociais, até o
descaso no recolhimento do corpo de José, já morto.
- Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS): o texto recorre a
relatório da SMADS para confirmar informações como a falta de estrutura de atendimento dos
albergues – somente vagas de pernoite em atendimento de emergência – mesmo sendo casos
de idosos, como o personagem principal da matéria. Além disso, também reproduz o relato
feito pela Secretaria da recusa dos atendimentos socioassistenciais por parte de José.
- Movimento Nacional da População de Rua (comissão paulista): a matéria reproduz trecho da
nota que reproduz a opinião da entidade sobre o caso, em que é questionada a atuação da
prefeitura de São Paulo no combate às situações de morte e violência nas ruas.
118
Narrador: primeira pessoa no início da matéria, mas ao longo do texto é privilegiado o relato
em terceira pessoa, típico dos textos jornalísticos.
Reportagem de capa
Número de páginas: 5 (de 14 a 18)
Título: Rio 2010: a festa já vai começar
Autor: Guilherme Araujo
Tema central: o texto anuncia que o Brasil seria sede, no ano seguinte, da “Copa do Mundo
de Futebol de Rua” (Homeless World Cup), graças aos esforços do projeto OCAS, por meio
do programa de Futebol Social, que foi criado em 2008 a partir das ideias trazidas das
participações nas copas. O texto se estrutura quase como um release de divulgação,
explicando todos os detalhes envolvidos na preparação para recebimento do evento. A matéria
ainda descreve, em tom estritamente de relato, a atuação do Brasil na copa de 2009, em que
terminou em terceiro lugar. Ao longo da reportagem, seis textos explicativos, apresentados em
quadros separados, falam de aspectos específicos do tema. O primeiro, explica o surgimento
do programa Futebol Social, dentro do projeto OCAS. Outro texto explica as regras básicas e
específicas do futebol de rua. Um terceiro texto, além de destacar outras características da
Copa, fala ainda das especificidades das três melhores seleções do torneio de 2009, ocorrido
na Itália: são organizadas por entidades ligadas à INSP – International, Networking Street
Papers. Os três outros textos resumem a história de vida de três jogadores da seleção
brasileira, apresentando as dificuldades que enfrentaram para chegar à seleção de Futebol de
Rua, mas também os planos futuros de cada um deles.
Fontes e contextos de fala:
- Alessandro Dell’Orto, responsável pela edição da Homeless World Cup ocorrida na Itália: a
fala selecionada, logo no início da reportagem, tem como objetivo reforçar as expectativas da
realização da copa no “país do futebol”.
- Pupo Fernandes, técnico da seleção brasileira de Futebol de Rua: fala da importância da
concentração e do entrosamento entre os jogadores, selecionados a partir de criteriosos testes.
- Jeferson Ferreira dos Santos Almeida, jogador da seleção: é colocado como fonte da própria
história, que é destacada como exemplo de superação de integrantes do time.
- Ronaldo Gonçalves dos Santos Filho, jogador da seleção: também é fonte de sua própria
história, descrita como exemplar de superação.
119
- José Santana Augusto Santos, jogador da seleção: também é fonte de sua própria história,
descrita como exemplar de superação.
Narrador: terceira pessoa, alinhado à linguagem jornalística.
Edição número 69 (janeiro/fevereiro 2010)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 2 (páginas 8 e 9)
Título: Reencontros em papel
Autores: Carlos Donizete Duarte e Arlindo Gonçalves
Tema: a seção se dedica a publicar os relatos de um ex-vendedor e um comprador que se
conheceram por causa da revista e se tornaram amigos. Os dois passaram a trocar cartas e
publicam dois textos distintos, sob o mesmo título, falando da relação que estabeleceram.
Fontes e contextos de fala:
- Carlos Donizate Duarte, ex-vendedor de Ocas, ativista ambiental: relata a experiência de ter
sido vendedor da Ocas, a importância da passagem pelo projeto para definir a vida como
ativista, e os detalhes da amizade com Arlindo.
- Arlindo Gonçalves, escritor e fotógrafo e leitor de Ocas: conta como nasceu a amizade com
Carlos, destaca os detalhes das trocas de cartas (a escrita manual).
Narrador: primeira pessoa.
Reportagem de capa
Número de páginas: 6 (páginas 12 a 17)
Título: “O humor só perde para o sexo”
Autores: Márcio Seidenberg e Rosi Rico
Tema: entrevista, em formato de “perguntas e respostas” com o jornalista e apresentador
Marcelo Tas.
Informações em destaque: o texto destaca a trajetória do jornalista, destacando seus
trabalhos na área da comunicação, em especial a TV. Ao contextualizar o ambiente da
entrevista, os jornalistas fazem questão de ressaltar o perfil “workaholic” do entrevistado.
Tipos de perguntas: inicialmente, as perguntas destacam a atuação de Tas no programa CQC
(Custe o que Custar). A questão do limiar entre humor e comunicação/informação é bastante
120
explorada também, destacando o jornalismo feito pelo entrevistado ao longo de sua carreira,
bem como a relação desta prática com a política. Ainda são abordadas as questões sobre a
tecnologia (internet), tendo em vista o destacado papel de Tas nas redes sociais, além da
incursão do jornalista na área literária, com a publicação de livros.
Narrador: 3ª pessoa/linguagem jornalística.
Edição número 70 (março/abril 2010)
Seção ‘Cabeça sem teto’
Número de páginas: 2 (8 e 9)
Título: Nas ruas, aonde o povo está...
Autores: Debora Galvani, João Rodrigues da Rocha (Montreal), Jovenil Ribeiro e Marília
Nascimento.
Tema: o texto, resultado de uma pesquisa informal realizada pelo projeto “Ponto de Encontro
e Cultura”, fala sobre a situação das pessoas que vivem da arte de rua, sobretudo músicos.
Para complementar o texto de apresentação, a matéria traz depoimentos dos artistas de rua
abordados pelos integrantes do projeto.
Fontes e contextos de fala
- João Rodrigues da Rocha (Montreal): fala sobre a dificuldade e responsabilidade do trabalho
da arte nas ruas.
- “Piauí da Sanfona”: fala do prazer de ser artista de rua, e também das dificuldades das
proibições por parte do poder público.
- João Nogueira: em depoimento, conta a trajetória de vida pessoal, até chegar ao trabalho
como artista de rua.
- Joaquim: fala sobre o dia a dia do trabalho como artista de rua e das motivações pessoais de
continuar no ofício.
Narrador: 3ª pessoa, em linguagem jornalística; se utiliza da referência à 1ª pessoa para
contextualizar a observação feita e relatada.
Reportagem de capa
Número de páginas: 7 (de 15 a 21)
Título 1: Ainda desnudos
121
Autor: Maria Ligia Pagenotto
Tema: a partir de uma abordagem sobre o filme “Topografia de um desnudo”, da cineasta
brasileira Teresa Aguiar, que retrata um episódio de extermínio de moradores de rua na cidade
do Rio de Janeiro, o texto introduz o tema da higienização no contexto atual, falando das
discussões que o filme suscitou, destacando a opinião de algumas personalidades sobre o
assunto.
Fontes e contextos de fala:
- Atila Pinheiro, coordenador do Movimento Nacional da População de Rua: fala da
naturalização do problema da exclusão social. Em um quadro separado (Box), um pequeno
texto intitulado “Comoção e indignação” discorre sobre a opinião específica do coordenador
sobre o filme, que destaca a forma tocante do filme e a importância de se falar sobre o
assunto.
- Teresa Aguiar, cineasta: apesar de ser a diretora do filme, sem ligação direta com
movimentos sociais, o texto seleciona falas da cineasta que a caracterizam quase como uma
ativista, falando sobre as dificuldades de se fazer o filme, mas também sobre o grande
problema da exclusão social, demonstrando preocupação sobre as políticas para a população
de rua, e o histórico posicionamento higienista dos governos.
- Ariane Porto, produtora do filme: fala sobre a importância e as dificuldades da pesquisa
documental feita para o filme, bem como os depoimentos registrados. Também opina sobre a
importância da obra, que busca revisitar os problemas da exclusão social, incitando um debate
na atualidade.
- Ney Latorraca, ator do filme: em um quadro separado do texto da matéria, é publicado um
pequeno texto, intitulado “Menos retórica, mais ação”, com a opinião do ator sobre o assunto
tratado pelo filme. Interessante observar que ele é quase forçado a se colocar como uma
pessoa preocupada e ativa no combate a situações de desigualdade social. O ator elenca os
movimentos sociais que apóia, mas afirma não ter participado de discussões específicas sobre
o filme.
Narrador: 3ª pessoa, discurso jornalístico.
Título 2: A história se repete
Autores: Mariana Schreiber e Luciano Rocco
Tema: o texto “atualiza” a questão das políticas higienistas implementadas pelos governos,
falando especificamente sobre como se dá a “Operação Choque de Ordem”, realizada no
município do Rio de Janeiro.
122
Fontes e contextos de fala:
- Claudia/Arthur, nomes fictícios de um casal de moradores de rua: falam da truculência e do
fracasso da “Operação Choque de Ordem”, relatando problemas e preconceitos na abordagem
feita pelos agentes da operação, fazendo um retrato do tratamento precário que oferecem.
- Secretaria Especial de Ordem Pública, da prefeitura: por meio da assessoria de imprensa,
defende a operação e a abordagem feita pelos agentes.
- site da prefeitura: a matéria recorre a releases sobre a operação, selecionando trechos que
contradizem a própria secretaria consultada, por exemplo, relatando a utilização do auxílio da
polícia militar na operação.
- site do jornal “O Globo”: a matéria consulta o site do jornal apenas para destacar um relato
de Marcelo Maywald, coordenador da referida operação, que fala sobre a apreensão de
pertences dos moradores de rua, confirmando a inadequação das atividades da operação.
- Jorge Muñoz, integrante da coordenação executiva do Fórum Permanente sobre População
Adulta em Situação de Rua do RJ: opina sobre o problema das atitudes inadequadas das
operações e outras ações sobre a população de rua, destacando a Política Nacional para a
População de Rua, que na ocasião tinha sido sancionada há poucos meses.
- Secretaria Especial de Direitos Humanos do governo federal: é relatado no texto que a
secretaria tinha sido consultada, mas se recusou a se pronunciar por se tratar de um contexto
muito recente da sanção da política nacional.
- Dario Sousa, sociólogo da UERJ: também condena a operação, sobretudo no que se refere
ao constrangimento da população de rua nas abordagens. Além disso, chama atenção para a
necessidade de criação de postos de trabalho para reinserir a população de rua na sociedade.
- Marcia Gatto, coordenadora da Rede Rio Criança: destaca a necessidade de preocupação
com a proximidade de eventos de grande visibilidade, especificamente a Copa do Mundo de
2014 e as Olimpíadas em 2016, o que pode recrudescer as políticas e ações higienistas dos
governos.
- Fernando Willian, secretário municipal de assistência social: em pequeno texto separado,
sob o título “Outro lado”, o secretário é ouvido para defender e justificar a operação. Ele
aproveita para falar sobre os investimentos na área, bem como as perspectivas futuras para o
atendimento da população em situação de rua. No entanto, a própria construção do texto
“ameniza” a defesa feita pelo secretário, colocando suas falas em contextos de
“desconfiança”, como no trecho: “(...) William diversas vezes chamou de hipócritas os que
criticam as ações do “Choque de Ordem”. Segundo ele, as mesmas pessoas que dizem
discordar da iniciativa reclamam quando tem alguém morando na sua rua”.
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Narrador: 3ª pessoa, discurso jornalístico.
Edição número 71 (maio/junho 2010)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 5 (de 8 a 12)
Título: Cidade de todos
Autor: Ricardo Senra
Tema: discorre sobre o cotidiano das ocupações de prédios ociosos dos centros urbanos.
Fontes e contextos de fala:
- Eduardo Rodrigues Filho, morador da ocupação Chiquinha Gonzaga: fala sobre a
necessidade de as edificações terem uma função social, como determina a constituição, e
também ressalta a diferença (e a diferenciação necessária) entre ocupação e invasão.
- Ticianne Ribeiro, arquiteta e assessora técnica do Núcleo de Assessoria, Planejamento e
Pesquisa da ocupação “Manoel Congo”: fala sobre escolha de prédios públicos para se fazer
as ocupações, por ser dever do Estado a garantia do direito à moradia. Também é ouvida
sobre a questão do papel dos arquitetos no apoio às ocupações.
- Fundação João Ribeiro: a matéria publica os dados de uma pesquisa da referida fundação,
sobre o déficit habitacional. Segundo o texto, o número deficitário no Brasil chega a ser de 8
milhões de lares em 2005, sobretudo em áreas urbanas.
- Dossiê do Fórum Centro Vivo (SP): fornece dados sobre violações de Direitos Humanos no
centro de São Paulo, e destaca que no local existem mais prédios vazios que famílias sem teto.
- Rosilene Campos, moradora de ocupação: relata as dificuldades iniciais de adaptação nas
ocupações, devido ao mau estado de conservação do prédio público.
- Joel Valentim, morador de ocupação: fala sobre a dificuldade de estabelecimento da
ocupação, relatando o embate com a justiça e a necessidade de manifestações públicas.
Também relata aspectos do dia a dia da ocupação.
- Elizete, coordenadora de ocupação: destaca a moradia e a cidade como direitos aos cidadãos,
ressaltando que o movimento de ocupação não tem interesse na propriedade dos prédios
ocupados.
- Daniel Wagner, arquiteto que contribui com a ocupação Chiquinha Gonzaga: explica como
se dá a necessária conexão entre as reformas do prédio ocupado e o seu entorno (vizinhos,
124
outras construções). Também destaca o trabalho dos arquitetos nas ocupações, contribuindo
para a construção de um espaço de difusão de informações sobre as questões urbanas.
- “uma residente” (fonte não identificada): fala sobre o cotidiano da ocupação,
especificamente o uso coletivo de máquinas de lavar, o esquema de escalas de limpeza e
outras atividades coletivas.
- “um morador” (fonte não identificada): fala da importância (e exigência) de não haver
vinculação entre a ocupação (coletivamente) e partidos políticos; ele relata a proibição das
visitas “políticas” às ocupações.
Narrador: 3ª pessoa, linguagem jornalística.
Reportagem de capa
Número de páginas: 5 (de 13 a 17)
Título: Pela sinergia entre arte e política
Autor: Eduardo Lang
Tema: entrevista com o ator Paulo Betti, em formato de perguntas e respostas
Informações em destaque: é destacada a atuação política do ator e diretor Paulo Betti,
sobretudo a sinergia (como diz o título) entre a atividade artística e a política. Também é
ressaltado o contexto do convite para a entrevista, já que, ao ser abordado por um vendedor, o
ator respondeu com simpatia à possibilidade de ser entrevistado.
Tipos de perguntas: abordam desde a atuação do ator em projetos artísticos de destaque na
televisão brasileira, até o trabalho em projetos alternativos, como o teatro experimental ao ar
livre. Além disso, destaca como o engajamento político se reflete nas produções e atividades
do artista, destacando exemplo de atuações, direção de filmes e o posicionamento em relação
ao momento da dramaturgia no país. Também é destacado o vínculo do ator com o PT
(Partido dos Trabalhadores), além de abordar outros projetos profissionais e sociais com os
quais se relaciona.
Narrador: 3ª pessoa, linguagem jornalística.
Edição número 72 (julho/agosto 2010)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 2 (8 e 9)
125
Título: São Paulo “em situação de rua” por 24 horas.
Autores: Bob Neto, Edmar Gonçalves, Sidney Cardoso e Valter Machado
Tema: por meio da oficina de criação de texto realizada pela Equipe Ocas com os moradores
de rua, a questão da Virada Cultural é tratada a partir da perspectiva da população em situação
de rua.
Fontes e contextos de fala:
- Edvaldo, segurança: fala sobre o movimento de pessoas no Cine Arouche, ressaltando ser
um público diferente do que costuma frequentar o local.
- Pedro, estudante e atendente de lanhouse: fala sobre como a Virada Cultural se caracteriza
com sendo uma oportunidade de maior faturamento (cobrança pelo uso do banheiro, no caso).
- Paulo Roberto Akio, técnico em informática: se coloca em posição crítica em relação ao
evento, que não considera como sendo cultural, fazendo referência ao uso de drogas (lícitas e
ilícitas também).
- Nezito Reis, iluminador cênico: defende a importância do evento, que segundo ele deveria
acontecer em todas as cidades.
- Klemens Lima, segurança: chama atenção para a diversidade que se vê refletida no evento.
- Renato Ávila, jornalista: fala sobre o prazer de morar em São Paulo, que proporciona
momentos como a Virada Cultural.
- FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas): o texto publica os dados de uma
pesquisa da fundação, que revela que em São Paulo a população em situação de rua ultrapassa
as 13 mil pessoas, o que representa um número 57% maior que há 10 anos.
- Clayton, morador de rua: fala sobre a tensão que é viver nas ruas, mas ressaltando a
esperança numa “virada”. A fala cria o contexto para a pergunta final do texto: “Virada
Social?”.
Narrador: 3ª pessoa, linguagem jornalística.
Reportagem de capa
Número de páginas: 6 (de 10 a 15)
Título: O Brasil de lápis, tinta, nanquim – e Humor.
Autor: Gonçalo Júnior
Tema: entrevista, em formato de perguntas e respostas, como o cartunista Paulo Caruso.
Informações em destaque: a entrevista é apresentada destacando a relação do cartunista
com a cidade em vive, em especial o bairro paulista da Vila Madalena. Além disso, também
126
ressalta a relação do entrevistado com o irmão gêmeo, o também cartunista Chico Caruso, e a
expressividade do trabalho que realiza para a cultura e a política no Brasil. O final do texto de
apresentação ainda revela traços da personalidade de Caruso, “o falador, o prolixo, o tagarela,
o porta-voz da família Caruso” (p.11).
Tipos de perguntas: as perguntas giram se relacionam, sobretudo, com as características do
trabalho de Paulo Caruso, tanto no que se refere à participação na TV, quanto aos temas
políticos que sempre aborda – e se tornaram marca do trabalho do artista. Além disso, também
abordam as influências do cartunista, o seu posicionamento em relação à digitalização do
trabalho do desenho, as proximidades e distinções com o trabalho do irmão, bem como as
opiniões pessoais do cartunista sobre a política nacional.
Narrador: 3ª pessoa, linguagem jornalística.
Edição número 73 (setembro/outubro 2010)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 1 (p.8)
Título: Relato do descaso
Autores: Alexandre Machado e Wallace Rosa
Tema: a seção reproduz o texto de dois moradores de rua, que denunciam maus tratos e
inadequação no serviço prestado em albergues. O texto informa que o depoimento, tinha sido
protocolado como denúncia no Ministério Público do estado do Rio de Janeiro.
Fontes: os próprios autores são as fontes, relatando situações pela qual passaram.
Narrador: 1ª pessoa.
Reportagem de Capa
Número de páginas: 12 (de 10 a 21)
Título geral: Esporte transformador
(sem autor indicado)
Um pequeno texto de apresentação resume o que se encontrará nas matérias seguintes: relatos
de como algumas pessoas superaram a situação de exclusão ou risco social por meio do
esporte.
127
Título 1: Quando a praia é para todos
Autor: Eduardo Lang
Tema: fala sobre a dificuldade de portadores de deficiências físicas em realizarem tarefas
consideradas básicas, como ir à praia.
Fontes e contextos de fala:
- Organização Mundial de Saúde: a matéria se inicia com um dado da organização que mostra
que 10% da população mundial apresenta algum tipo de deficiência, sendo que no Brasil o
número chega a 26,4 milhões de pessoas.
- Ricardo Gonzalez, biólogo e idealizador do projeto “Praia para todos – lazer e desporto
adaptado nas praias cariocas”: conta das dificuldades que tinha para tomar banho de mar, por
ser cadeirante, e conta sobre a idealização do projeto e a importância de estruturas adaptadas
para deficientes e também para idosos com dificuldade de locomoção.
- Danielle Gilson, advogada e voluntária do projeto: fala sobre a importância do trabalho
voluntário para a própria superação, já que se tornou uma competidora profissional de natação
depois que perdeu os movimentos das pernas. Ela conta do trabalho que realiza nos finais de
semana no projeto, e conta como o projeto ajuda para que ela participe das competições.
Título 2: Luta pela dignidade
Autor: Alex Anunciato
Tema: a matéria fala sobre o projeto Garrido, que desde 2004 oferece a formação do boxe
como alternativa para situações de risco social, como a vida nas ruas, as drogas e outras
atividades ilícitas. O projeto se concretiza com a revitalização de viadutos antes abandonados,
que se tornam academias a céu aberto para os interessados no esporte.
Fontes e contextos de fala:
- Aleksandro do Rosário, um dos coordenadores do projeto: conta sobre o dia a dia do projeto,
destacando as diversas atividades realizadas (que vão além do boxe), bem como os
frequentadores do projeto, em sua maioria, albergados. Ele conta sobre a trajetória pessoal, já
que saiu das ruas por conta do projeto (mora no próprio viaduto transformado em academia),
e também revela os planos pro futuro, que incluem fazer uma faculdade.
- Roms da Leste, rapper: conta sua trajetória pessoal, já que por meio do projeto,
especificamente do boxe, largou o vício nas drogas, o que impulsionou o trabalho como
rapper.
Narrador: 3ª pessoa, linguagem jornalística. Recorre à 1ª pessoa para contextualizar a
apuração da matéria: “Estivemos presentes em um sábado, de manhã, no Viaduto...” (p. 16).
128
Título 3: A copa da inclusão
Autora: Ana Lígia Scachetti
Tema: realização da Copa do Mundo de Futebol de Rua ou Futebol Social (Homeless World
Cup) no Brasil.
Fontes e contextos de fala:
- Mel Young, fundador e presidente da Homeless World Cup: destaca as expectativas de
realização do torneio no Brasil, por ser um destaque mundial no futebol. Ressalta ainda que a
Copa deixará legados sociais no país, destacando as iniciativas implementadas, que
resultariam em geração de renda e a construção de um centro esportivo.
- Pupo Fernandes, técnico da seleção brasileira de Futebol Social: explica as regras
específicas do Futebol Social, destacando que se aproxima das regras do conhecido
“showbol”.
- Guilherme Araújo, presidente do Futebol Social e diretor da OCAS: destaca a iniciativa do
Futebol Social como uma importante oportunidade para inclusão social de jovens de
comunidades periféricas, aumentando a autoestima dos mesmos, e oferecendo saídas para o
contexto de desigualdade social. Ainda fala sobre as dificuldades de patrocínio não só para o
Brasil, mas também para outras delegações do mundo.
Narrador: 3ª pessoa, linguagem jornalística.
Título 4: Vitória de Virada
Autora: Ana Lígia Scachetti
Tema: a matéria de dedica, de forma mais específica, a falar sobre como o projeto Futebol
Social pode mudar a vida de pessoas, relatando os exemplos da brasileira Michele Cristina
Gomes da Silva e do escocês David Duke. Também destaca a iniciativa da Copa do Mundo de
Crianças de Rua, em pequeno texto separado e intitulado “Crianças em campo”.
Fontes e contextos de fala:
- Michele Cristina Gomes da Silva, jogadora da seleção brasileira de Futebol Social: fala
sobre a importância da oportunidade na vida, já que abriu as portas para se tornar uma atleta
profissional.
- Aliana Monodee, gerente de projetos da ABC Trust: fala dos pressupostos do projeto de
Futebol Social com as crianças, ressaltando que as beneficiadas têm que demonstrar um bom
desempenho e perspectiva para participarem do projeto.
Narrador: 3ª pessoa, linguagem jornalística.
129
Edição número 74 (novembro/dezembro 2010)
Seção “Cabeça sem teto”
Número de páginas: 2 (8 e 9)
Título: Medalhistas de honra
Autores: Sidney Cardoso e Salvador D’Acolá
Tema: a seção publica dois textos confeccionados por albergados durante a Oficina de
Criação de Texto do Ponto Cultural Ocas. Os textos têm como tema a importância da
solidariedade na sociedade.
Observação: os textos não possuem fontes, mas estão estruturados em 3ª pessoa, de acordo
com as orientações da oficina de texto. Ambos foram inspirados nas reflexões após a exibição
do documentário “Tobias 700 – histórias de uma ocupação”.
Reportagem de capa
Número de páginas: 8 (de 12 a 19)
Título1: O cinema das “Veias Abertas”
Autor: Márcio Seidenberg
Tema: o texto fala sobre as especificidades da produção cinematográfica da América Latina,
destacando as significativas produções contemporâneas, que passam a contar com temas antes
ocultos, como as ditaduras, resultado da própria proliferação da produção em todos os países.
O texto ainda destaca que tal produção fazia parte da 5ª Mostra de Cinema e Direitos
Humanos. São selecionados os relatos de 12 cineastas, sobre suas produções:
- Jorge Oliveira, brasileiro
- Miguel Vassy, uruguaio
- Daniel Bustamante, argentino
- Renate Costa, paraguaia
- Juan Darío Almagro, argentino
- Claudia Priscilla, brasileira
- Yerko Ravlic, chileno
- David Rubio, equatoriano
- Viviana Saavedra, boliviana
130
- Alessandro Acito, colombiano
- Héctor Gálvez, peruano
- Evaldo Mocarzel, brasileiro
Narrador: 3ª pessoa, linguagem jornalística.
Título 2: O cinema de “garimpo”
Autor: Márcio Seidenberg
Tema: o texto discorre sobre a transformação da produção cinematográfica da América
Latina nos últimos anos, com destaque para as melhorias tecnologias e de fomento. A
discussão é apresentada em meio à divulgação da Mostra de Cinema e Direitos Humanos.
Fontes e contextos de fala:
- Francisco Cesar Filho, cineasta, agitador cultural e curador da mostra: as falas de Francisco
permeiam todo o texto, tendo em vista que ele faz uma radiografia sobre a produção
cinematográfica na América Latina. Para ele, as mudanças na produção cinematográfica são,
em grande parte, resultado de um maior entrosamento entre os cineastas da região sul do
continente, favorecendo a circulação de informações e técnicas. Ele ainda destaca a
importância dos festivais e mostras para a visibilidade do cinema regional, ainda pouco
prestigiado internacionalmente, e que ainda sofre com as dificuldades na distribuição.
- Marcel Gonnet Wainmayer, cineasta argentino: fala da dificuldade de se fazer cinema em
alguns países, pela falta de apoio e incentivos estatais. Defende a necessidade de
democratização e enfrentamento aos monopólios.
- Saskia Sá, cineasta e diretora de memória do CNC (Conselho Nacional de Cineclubes): fala
sobre a dificuldade de incentivo à produção de documentários e curtas-metragens no país.
- Enrique Buchichio, cineasta uruguaio: lamenta o monopólio de distribuição cinematográfica,
o que faz com que ainda seja difícil o compartilhamento da produção recente do cinema
latino-americano, mas ressalta que o cenário está mudando.
- IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): a partir da pesquisa “Perfil dos
Municípios Brasileiros”, a matéria destaca que as salas de cinema estão presentes em apenas
9,2% das cidades brasileiras.
- Miriam Chnaiderman, psicanalista e cineasta independente: fala da dificuldade de
distribuição e a necessidade de investimentos nesta etapa da produção cinematográfica.
Narrador: 3ª pessoa, linguagem jornalística.
Título 3: O cinema de resistência
131
Autor: Márcio Seidenberg
Tema: pequeno texto que conta a história e a importância dos cineclubes para o contexto
cinematográfico, ressaltando as formas de financiamento e organização dos mesmos. Também
cita a existência de jornadas cineclubistas.
Fonte:
- Saskia Sá, cineasta e diretora de memória do CNC (Conselho Nacional de Cineclubes):
explica o objetivo e a organização dos cineclubes, destacando o viés independente, além de
ressaltar o grande número de cineclubes possivelmente existentes no país, o que inclui os não
quantificados pelo conselho.
Narrador: 3ª pessoa, linguagem jornalística.
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As consequências das relações socioculturais no jornalismo da