EXPEDITO ALVES DE LIMA A VALORIZAÇÃO DA CARREIRA MILITAR NO BRASIL Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. Orientador: Cel Inf R/1 HELENO MOREIRA Rio de Janeiro 2011 DIREITO AUTORAL E FICHA CATALOGRÁFICA C2011 ESG Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitido a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG _________________________________ Gen Bda EXPEDITO ALVES DE LIMA Biblioteca General Cordeiro de Farias Lima, Expedito Alves de. A Valorização da Carreira Militar no Brasil / Expedito Alves de Lima.- Rio de Janeiro: ESG, 2011. 42f.: il. Orientador: Cel Heleno Moreira. Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2011. 1. Assuntos Militares 2. Carreira Militar no Brasil 3. Valorização da Carreira I. Título. AGRADECIMENTOS À minha Família, pelo apoio e compreensão, principalmente nos meus momentos de maiores apuros e involuntárias ausências, tornando mais facilitado o cumprimento desta importante missão. Aos Orientadores e Amigos, Coronel Inf R/1 Heleno Moreira e Coronel Com R/1 Paulo Roberto Vilela Antunes, pela colaboração, solidariedade e paciência demonstradas em todas as fases de elaboração do presente trabalho. À Turma Segurança e Desenvolvimento, pelas sobejas demonstrações de amizade, respeito e consideração, em todas as atividades do CAEPE/2011. A Deus, o maior dos Orientadores, fonte de sabedoria e infinita bondade, por ter-me possibilitado saúde, inteligência e capacidade para vencer mais este desafio. RESUMO O presente trabalho tem por propósito apresentar um estudo de aspectos concernentes à Valorização da Carreira Militar no Brasil. Focando especialmente a trajetória profissional do Oficial oriundo das tradicionais escolas de formação militar das três Forças Singulares, após rápidas considerações alusivas a gestão de carreiras em geral e às especificidades da profissão militar, reconhece nessa parcela representativa da classe militar as principais dificuldades existentes para a valorização da aludida carreira. Utiliza o autor, como metodologia, a pesquisa qualitativa bibliográfica e documental, na busca de referenciais teóricos, valendo-se também da sua vivência militar de quase quatro décadas na ativa do Exército Brasileiro. Da análise da carreira militar, depreende a existência de atrativos e frustrações, que passam fundamentalmente pela situação remuneratória e pela carência de orçamento para aplicação nos equipamentos e no adestramento das três Forças. A prevalência dessas frustrações significa graves ameaças para as motivações, facilmente explicitadas nos resultados das pesquisas e entrevistas realizadas. Sugere, no ensejo, abertura de debates sobre o tema, que deverão evoluir para estudos mais aprofundados, visando atrair atenções para solução desse grave problema. Uma vez constatadas e analisadas, possibilitam fundamentação para propostas de modificações substanciais que, efetivamente, poderão trazer melhorias para a valorização do capital humano das Forças Armadas brasileiras, em perfeita sintonia com o que estabelece a Estratégia Nacional de Defesa, com as implicações decorrentes para o fortalecimento da Expressão Militar do Poder Nacional. Palavras chave: Assuntos Militares. Carreira Militar no Brasil. Valorização da Carreira. AGRADECIMENTOS À minha Família, pelo apoio e compreensão, principalmente nos meus momentos de maiores apuros e involuntárias ausências, tornando mais facilitado o cumprimento desta importante missão. Aos Orientadores e Amigos, Coronel Inf R/1 Heleno Moreira e Coronel Com R/1 Paulo Roberto Vilela Antunes, pela colaboração, solidariedade e paciência demonstradas em todas as fases de elaboração do presente trabalho. À Turma Segurança e Desenvolvimento, pelas sobejas demonstrações de amizade, respeito e consideração, em todas as atividades do CAEPE/2011. A Deus, o maior dos Orientadores, fonte de sabedoria e infinita bondade, por ter-me possibilitado saúde, inteligência e capacidade para vencer mais este desafio. Onde quer que estejam, minha eterna gratidão a todas as pessoas que, em algum momento da minha trajetória de vida, me incentivaram, me apoiaram e, acima de tudo, souberam acreditar em mim. DIREITO AUTORAL E FICHA CATALOGRÁFICA C2011 ESG Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitido a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG _________________________________ Gen Bda EXPEDITO ALVES DE LIMA Biblioteca General Cordeiro de Farias Lima, Expedito Alves de. A Valorização da Carreira Militar no Brasil / Expedito Alves de Lima.- Rio de Janeiro: ESG, 2011. 42f.: il. Orientador: Cel Heleno Moreira. Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2011. 1. Assuntos Militares 2. Carreira Militar no Brasil 3. Valorização da Carreira I. Título. EXPEDITO ALVES DE LIMA A VALORIZAÇÃO DA CARREIRA MILITAR NO BRASIL Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. Orientador: Cel Inf R/1 HELENO MOREIRA Rio de Janeiro 2011 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Tabela 1 Demonstrativo de Efetivos matriculados e Evasões (2002 a 2010) ..............16 Tabela 2 Demonstrativo da situação socioeconômica dos Efetivos matriculados na EsPCEx, nos anos de 2002 a 2010 ..........................................................17 Gráfico 1 Situação da motivação atual pela carreira ....................................................25 Gráfico 2 Incidência da vontade de mudar de carreira ..................................................26 Gráfico 3 Situação da oferta de emprego civil recebida.................................................26 Gráfico 4 Situação da expectativa de colocação no Mercado de Trabalho Civil ...........27 Gráfico 5 Situação da realização profissional na carreira militar ...................................27 40 REFERÊNCIAS BRASIL. Lei n° 6.880, de 9 de dezembro de 1980. Dispõe sobre o Estatuto dos Militares. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 dez.1980. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6880.htm>. Acesso em: 22 jul. 2011. ______. Decreto n. 5.484, de 30 de junho de 2005. Aprova a Política de Defesa Nacional e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 01 jul. 2005. Seção 1, p.5. ______. Decreto n. 6.703, de 18 de dezembro de 2008. Aprova a Estratégia Nacional de Defesa, e dá outras providências. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 19 dez. 2008. Seção 1, p.4. ______. Ministério da Defesa. Comando da Aeronáutica. Centro de Comunicação Social da Aeronáutica. Guia de Profissões da Força Aérea Brasileira. Brasília, DF, 2011. ______. ______. ______. ______. Missão da Força Aérea Brasileira. Brasília, DF, 2011. Disponível em <http://www.fab.mil.br/portal/capa/index.php?page=missao>. Acesso em 22 set. 2011. ______. ______. ______. ______. Plano Estratégico Militar da Aeronáutica 20102031. Brasília, DF, 2011. ______. ______. 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Plano de Carreira de Oficiais da Marinha – PCOM. 8. rev. Brasília, DF, 2007. ______. Constituição (1988). Constituição da República Federativa. ed. adm. Brasília: Secretaria Especial de Editoração e Publicações do Senado Federal, 2010. 41 ______. Portaria Interministerial n. 1.874-A, de 8 de julho de 2011. Constitui Grupo de Trabalho Interministerial com o objetivo de analisar os currículos dos cursos de formação de oficiais, e dá outras providências. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 21 jul. 2011. Seção 2. CARDOSO, José Orlando Ribeiro. Novas Ameaças: reflexos para a defesa e segurança no Continente Sul-Americano. 2010. 59 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia).- Escola Superior de Guerra, Rio de Janeiro, 2010. CAVAGNARI, Geraldo. Em que os militares miram. Revista Veja, São Paulo: 2007, v.40, n.47, p. 134, nov. 2007. COSTA, Octávio. O Ofício de Oficial do Exército Brasileiro. Resende, 1982. Aula inaugural na Academia Militar das Agulhas Negras. CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de Pessoas. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (Brasil). Manual Básico. Rev. Rio de Janeiro, 2009. 2v. ______. ______. Manual para elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso: monografia. Rio de Janeiro, 2011. Hecksher NETO, Mario. As Forças Armadas e o Futuro [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por < [email protected]> em 28 jul. 2011. HERZBERG, Frederick. Novamente como se faz para motivar funcionários? São Paulo: v.1, n.13, Biblioteca Harvard de Administração de Empresas, 1975. HUNTINGTON, Samuel P. O Soldado e o Estado. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1996. LAMOUNIER, Renato Paiva. A Estratificação Social nas Forças Armadas. Air and Space Power Journal, Alabama (USA), 1999, v.XI, n.4, p. 58-60, abr, 1999. Disponível em http://www.airpower.maxwell.af.mil/apjinternational/apjipor.html. Acesso em: 30 jun. 2011. MASLOW, Abraham H. 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Con especial atención al Oficial de carrera graduados en las escuelas de formación militar tradicional de las tres Fuerzas Armadas, después de unas breves palabras alusivas a la gestión de la carrera en general y las específicas de la profesión militar, reconoce que parte de la clase representativa militar de las principales dificultades para la valorización de la carrera antes mencionada. El autor utiliza como metodología, la literatura de investigación cualitativa y documentos públicos en la búsqueda de marcos teóricos, basándose en su experiencia militar durante casi cuatro décadas en activo del Ejército Brasileño. Un análisis de las Fuerzas Armadas, inferir la existencia de frustraciones y atractivos, que pasan fundamentalmente por la situación remunerativa y la falta de presupuesto para la implementación de equipos y entrenamiento de las trés Fuerzas. La prevalencia de estas frustraciones significa serias amenazas a las motivaciones, fácilmente explicadas en los resultados de encuestas y entrevistas realizadas. Se sugiere abrir debate sobre el tema, profundizándolos para atraer la atención a la solución de este grave problema. Una vez detectados y analizados, sustentaran las propuestas de cambios sustanciales que aportaran mejoras en el capital humano de las Fuerzas Armadas Brasileñas, en armonía con el establecimiento de la Estrategia de Defensa Nacional, con implicancias para la expresión del fortalecimiento militar del Poder Nacional. Palabras clave: Asuntos Militares. Carrera militar en Brasil. Valorar Carrera. RESUMO O presente trabalho tem por propósito apresentar um estudo de aspectos concernentes à Valorização da Carreira Militar no Brasil. Focando especialmente a trajetória profissional do Oficial oriundo das tradicionais escolas de formação militar das três Forças Singulares, após rápidas considerações alusivas a gestão de carreiras em geral e às especificidades da profissão militar, reconhece nessa parcela representativa da classe militar as principais dificuldades existentes para a valorização da aludida carreira. Utiliza o autor, como metodologia, a pesquisa qualitativa bibliográfica e documental, na busca de referenciais teóricos, valendo-se também da sua vivência militar de quase quatro décadas na ativa do Exército Brasileiro. Da análise da carreira militar, depreende a existência de atrativos e frustrações, que passam fundamentalmente pela situação remuneratória e pela carência de orçamento para aplicação nos equipamentos e no adestramento das três Forças. A prevalência dessas frustrações significa graves ameaças para as motivações, facilmente explicitadas nos resultados das pesquisas e entrevistas realizadas. Sugere, no ensejo, abertura de debates sobre o tema, que deverão evoluir para estudos mais aprofundados, visando atrair atenções para solução desse grave problema. Uma vez constatadas e analisadas, possibilitam fundamentação para propostas de modificações substanciais que, efetivamente, poderão trazer melhorias para a valorização do capital humano das Forças Armadas brasileiras, em perfeita sintonia com o que estabelece a Estratégia Nacional de Defesa, com as implicações decorrentes para o fortalecimento da Expressão Militar do Poder Nacional. Palavras chave: Assuntos Militares. Carreira Militar no Brasil. Valorização da Carreira. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 8 2 2.1 2.2 2.3 2.4 A PROFISSÃO MILITAR................................................................................... CONSIDERAÇÕES GERAIS............................................................................. ESPECIFICIDADES DA CARREIRA MILITAR ................................................. A CARREIRA DO OFICIAL DAS FORÇAS ARMADAS.................................... ATRATIVOS E FRUSTRAÇÕES....................................................................... 12 12 12 15 21 3 3.1 3.2 MOTIVAÇÕES AMEAÇADAS.......................................................................... TEORIAS E PRÁTICA....................................................................................... A PESQUISA E OS RESULTADOS.................................................................. 23 23 24 4 4.1 4.2 VALORIZAÇÃO DO CAPITAL HUMANO DAS FORÇAS ARMADAS............ OS VALORES EM AÇÃO.................................................................................. PLANEJAMENTOS, DIRETRIZES E EXPECTATIVAS.................................... 30 30 32 5 CONCLUSÃO.................................................................................................... 36 REFERÊNCIAS................................................................................................. 40 8 1 INTRODUÇÃO É graças aos soldados, e não aos sacerdotes, que podemos ter a religião que desejamos. É graças aos soldados, e não aos jornalistas, que temos liberdade de imprensa. É graças aos soldados, e não aos poetas, que podemos falar em público. É graças aos soldados, e não aos professores, que existe liberdade de ensino. É graças aos soldados, e não aos advogados, que existe o direito a um julgamento justo. É graças aos soldados, e não aos políticos, que podemos votar... Presidente BARACK OBAMA, em discurso no Memorial Day (30 de maio de 2011). De forma vibrante e entusiástica, o líder da Nação mais poderosa do mundo atual manifesta publicamente reconhecimento, gratidão e apreço pelos seus Soldados e pelo que representam para o País, nas mais variadas situações, como defensores dos interesses da superpotência hegemônica, onde quer que estes sejam visualizados. Diferentemente, vozes que se dizem representativas de grupos da sociedade e mesmo de setores da esfera governamental de países emergentes, inclusive o Brasil, em impatrióticas cantilenas, surgem volta e meia a entoar questionamentos a respeito da necessidade de existência de suas Forças Armadas. Para muitos, o ideário de País pacífico e os interesses não imperialistas causam a falsa sensação de que o Brasil esteja livre de sofrer agressões ou de verse diante de uma variada gama de situações de risco para sua soberania ou integridade territorial. Por outro lado, com o fim da Guerra Fria, novos temas e ameaças difusas tais como narcotráfico, lavagem de dinheiro, contrabando e tráfico de armas, imigração clandestina, terrorismo, crime organizado e corrupção, dentre outras, passaram a fazer parte do cenário internacional, com acentuada incidência sobre o continente Sul-Americano, o que implica na compulsória adoção de medidas emergenciais de segurança e defesa por parte dos países, inclusive o Brasil, no propósito de neutralizar ou reduzir seus efeitos. Vigente a partir de 2008, a Estratégia Nacional de Defesa (END) tem o propósito precípuo de compatibilizar as Forças Singulares com a estatura políticoestratégica da Nação brasileira, evidenciando a necessidade de modernização das mesmas, focada em ações estratégicas de médio e longo prazo, com atuação em três eixos estruturantes: reorganização das Forças Armadas, reestruturação da indústria brasileira de material de defesa e política de composição dos efetivos. O tema A Valorização da Carreira Militar no Brasil, objeto do presente estudo, identifica-se preponderantemente com a política de composição dos efetivos, 9 uma vez que diz respeito ao que as três Forças têm de mais importante: seus Recursos Humanos. São eles que, prontamente, tem respondido em todas as situações, sempre fiéis à sua destinação Constitucional, conseguindo atuações exitosas, não obstante as dificuldades conjunturais de toda ordem a que são submetidos. Obviamente, não são menos importantes os outros dois eixos estruturantes mencionados, mormente por definirem diretrizes concernentes aos setores cibernético, espacial e nuclear, bem como ao desenvolvimento de tecnologias sob domínio nacional para o atendimento às necessidades de equipamentos, ora influenciando ora sendo influenciados sobremaneira pela atuação dos Recursos Humanos das três Forças. Os planejamentos e alocação de recursos de toda ordem, para os investimentos e suas melhorias decorrentes, devem suceder aqueles diretamente relacionados ao capital humano das Instituições, mais especificamente os quadros profissionais. É fato inquestionável que os novos tempos impõem mudanças, as quais necessitam ser adequadamente diagnosticadas, para sua correta e efetiva implementação. Conforme destaca Porto (2010, p. 8): “há uma série de fatores atuando de forma conjugada e sistêmica que, pela dinâmica das forças envolvidas, geram imprevisibilidade e incerteza para as organizações[...]”. São fatores que relacionam-se às mudanças econômicas, tecnológicas, sociais, culturais, legais e políticas, entre outras. Nesse enfoque, depreende-se que as Forças Armadas também estão passando por transformações, com inevitáveis reflexos diretamente sobre os seus Recursos Humanos e questões deles decorrentes, as quais devem ser adequadamente identificadas para que possam ser tratadas com oportunidade. Feitas essas considerações de natureza introdutória, cabe aqui destacar que se pretende com o presente estudo evidenciar a existência de graves motivos que, atingindo diretamente a classe militar, desgostam e desgastam seus integrantes, empalidecendo-lhes o entusiasmo profissional, com reflexos desfavoráveis para as próprias Instituições. A carência de atrativos e de oportunidades compatíveis com as características peculiares da profissão militar, num ambiente de descaso e apatia da sociedade e das três esferas dos Poderes constituídos, em relação ao estamento militar, frustram e prejudicam intensamente sua realização profissional e pessoal, 10 refletindo negativamente no desempenho das atividades e até mesmo na escolha da carreira. Nesse contexto, buscar-se-á uma breve análise de aspectos concernentes ao assunto, com enfoque especialmente para a Carreira do Oficial da linha bélica, no intuito de destacar sua importância e seus valores, bem como identificar problemas existentes, considerando a relevância e complexidade do mesmo. Pretende-se, no ensejo, fomentar discussão a respeito de medidas para melhoria no aproveitamento dos Recursos Humanos nas diferentes Instituições Militares regulares, alertando para que seja dada prioridade a estudos para aperfeiçoamento de projetos e ações em curso destinados à obtenção da adequada Valorização da Carreira Militar no Brasil, o que, seguramente, trará significativos resultados para o fortalecimento da Expressão Militar1 do Poder Nacional2. Dentre as muitas indagações relacionadas ao tema proposto, foram selecionadas duas delas, consideradas pela sua elevada relevância: - por que a efetiva e justa Valorização da Carreira Militar no Brasil tem sido tão difícil? - como poderá ser obtida a adequada valorização para a mencionada Carreira, conforme preconizado dentre as medidas estabelecidas pela Estratégia Nacional de Defesa? Entende-se que, pela sua importância, os aspectos ora propostos não poderão ser revestidos de puro formalismo e cortesia. Ao contrário, precisarão ser alvos de uma abordagem franca e sincera, sugerindo ainda a abertura de vasta frente de debates, que devem ser transformados em plataforma para estudos mais aprofundados, visando atrair atenções para solucionar tão grave problema. Para servir de esteio ao que se pretende expor, serão preliminarmente identificados os caminhos que se descortinam para a preparação intelectual e profissional daqueles que fazem a opção pela carreira do Oficial, passando por uma das três escolas de Formação de Oficiais (Escola Naval, Academia Militar das Agulhas Negras ou Academia da Força Aérea), e realizando os imprescindíveis 1 Segundo a Doutrina da ESG, Expressão Militar do Poder Nacional é a manifestação de natureza preponderantemente militar do Poder Nacional, que contribui para alcançar e manter os Objetivos Nacionais.(Manual Básico da ESG, Volume II, 2009, p.69). 2 Segundo a Doutrina da ESG, Poder Nacional é a capacidade que tem o conjunto de Homens e Meios que constituem a Nação para alcançar e manter os Objetivos Nacionais, em conformidade com a Vontade Nacional. (Manual Básico da ESG, Volume I, 2009, p.31). 11 cursos de Especialização, Aperfeiçoamento e Altos Estudos Militares, cada um no seu adequado momento, tanto da profissão quanto da vida. Assim é que, nos tópicos que se sucedem, o autor discorrerá sobre o assunto, valendo-se de pesquisa realizada, de informações constantes das referências bibliográficas e, principalmente, da sua vivência militar de quase quatro décadas, a partir do seu ingresso na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), no ano de 1972. Além dos aspectos levantados da própria experiência profissional, foram também aproveitadas considerações e opiniões obtidas em entrevistas informais com Oficiais das Forças Singulares, cujas contribuições foram de grande valia para a consecução do presente trabalho. 12 2 A PROFISSÃO MILITAR Senhor, umas casas existem, no vosso reino onde homens vivem em comum, comendo do mesmo alimento, dormindo em leitos iguais. De manhã, a um toque de corneta, se levantam para obedecer. De noite, a outro toque de corneta, se deitam obedecendo. Da vontade fizeram renúncia como da vida[...]. A gente conhece-os por militares[...]. (MONIZ BARRETO - Carta a El-Rei de Portugal, 1893). 2.1 CONSIDERAÇÕES GERAIS Do significado da palavra carreira depreende-se o sentido de profissão, denominação genérica para atividade humana qualquer. Ao longo do tempo, o conceito de carreira, tido como um dos mais complexos de se caracterizar, tem sofrido fortes transformações, notadamente a partir da Revolução Industrial. Atualmente, as concepções de carreira associam-se tanto para a área de formação acadêmica, quanto para as organizações. Na primeira, mais conhecida como carreira profissional, identifica-se a trajetória profissional de cada indivíduo, qualquer que seja sua área de formação. Na segunda, a carreira organizacional, caracteriza-se a trajetória profissional dentro das instituições, sejam elas de direito público ou privado. No entendimento prévio do significado de profissão como um tipo peculiar de grupo funcional com características altamente especializadas, de forma inequívoca nele se enquadram os militares. A Profissão Militar é uma das quatro profissões consideradas clássicas, assim como o Direito, a Medicina e o Ministério Religioso, por terem sido as primeiras a reunir o conjunto de características que até hoje identificam uma profissão verdadeiramente reconhecida, sendo que a história da Profissão Militar se confunde com a criação do Estado moderno, de quem é ao mesmo tempo ferramenta e produto (Silva, 2010, p.5). 2.2 ESPECIFICIDADES DA CARREIRA MILITAR Da análise da expressão carreira militar, surge a constatação de que esta não é uma atividade puramente profissional como as outras, um emprego ou ocupação comum, mas acima de tudo um ofício absorvente e exclusivista, que exige dedicação integral de todas as horas, impondo destinos ao militar e a toda sua família, em uma abrangente vivência nacional. 13 Dentro da carreira militar aduz-se que existem na verdade várias carreiras, surgidas a partir da criação das Instituições Militares permanentes. Cada uma delas significa um caminho a ser percorrido por aqueles que as escolheram e define a vida militar desde o seu ingresso, num dos centros de formação, passando pelo aprimoramento com a realização de cursos de especialização, aperfeiçoamento e altos estudos, bem como na permanente aquisição de conhecimentos e experiências do dia a dia, até chegar à inatividade. Independente de eventuais atrativos materiais, geralmente de pouca expressão, a condição essencial para ser um bom profissional militar é a vocação, que, na definição de Oliveira (2009, p. 202), significa: “o ato de explicitar uma predestinação de um talento ou aptidão para uma atividade de maior ou menor abrangência, e que proporciona sustentação para o desenvolvimento profissional, com qualidade de vida”. Essa é a característica maior que difere os militares, externamente semelhantes pelo uso de uniformes padronizados no âmbito da Força a que pertencem. O assunto permite lembrar a célebre consideração de que, para os verdadeiros profissionais vocacionados “a farda não é uma veste - que se despe com facilidade e até com indiferença - mas uma outra pele que, uma vez definitivamente incorporada, pelos compromissos assumidos, dificilmente se arrancará do fundo da alma daqueles que por ela optaram3”. Em face das peculiares atividades que desenvolvem no contexto de uma dentre as poucas carreiras específicas de Estado, os integrantes das Forças Armadas, por força de lei, estão sujeitos a um regime jurídico diferenciado. Necessário também se torna assinalar a relevância dada às suas experiências de vida, associadas primordialmente à vivência profissional e nacional, determinantes para a assunção de funções com elevado grau de responsabilidade. A recém-implantada Estratégia Nacional de Defesa foi balizada no contexto de uma moderna política de defesa nacional, em busca de sintonia com o desenvolvimento do País. Ao tratar dos Recursos Humanos, evidencia a necessidade de promover a valorização da profissão militar de forma compatível com seu papel na Sociedade brasileira, o que traz à baila uma realidade hoje muito 3 Palavras de iniciação, proferidas pelo Gen OCTÁVIO COSTA, Vice-Chefe do DEP, na aula inaugural da AMAN/82. 14 diferente e desconfortante para aqueles que dedicam parcela significativa de suas vidas ao serviço da Pátria. Duas décadas antes, a importância das Forças Armadas já se fazia constar na nova Carta Magna, com nítidas inspirações nas questões históricas e culturais. A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 1988, assim estabeleceu: Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem[...]. (BRASIL, 1988). Destaca-se, sobretudo, o papel desempenhado pelas Forças Armadas, de vital importância para o desenvolvimento do Estado, considerando sua missão precípua de defender a Pátria, garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem. No cumprimento efetivo dessas relevantes missões, proporcionam a sustentação necessária à preservação do Estado Democrático de Direito, o que por si só justifica a razão da sua existência e as torna essenciais para que o Brasil, com segurança e paz social, possa prosseguir na sua trajetória de evolução e desenvolvimento. As bases fundamentais das Instituições Militares permanentes são a hierarquia e a disciplina, razão pela qual são estas tão significativamente valorizadas por aquelas. A Lei nº 6.880, de 9 de dezembro de 1980, tradicionalmente conhecida como Estatuto dos Militares, assim estabelece: Art. 3° Os membros das Forças Armadas, em razão de sua destinação constitucional, formam uma categoria especial de servidores da Pátria e são denominados militares[...]. (BRASIL, 1980). No desempenho da sua atividade, o militar está sujeito a situações específicas que, no seu conjunto, não se verificam nas demais profissões. Em síntese, as características mais marcantes da profissão militar, destacadas pelo Exército Brasileiro e comuns para as três Forças, são as seguintes: a. Risco de vida; b. Sujeição a preceitos rígidos de disciplina e hierarquia; c. Dedicação exclusiva; d. Disponibilidade permanente; 15 e. Mobilidade geográfica; f. Vigor físico; g. Proibição de participar de atividades políticas; h. Proibição de sindicalizar-se e de participação em greves ou em qualquer movimento reivindicatório; i. Restrições a direitos sociais; j. Vínculo com a profissão; e k. Consequências para a família. 2.3 A CARREIRA DO OFICIAL DAS FORÇAS ARMADAS Considerando as muitas áreas de atuação e níveis de hierarquia existentes nas três Forças Singulares, aliadas à exiguidade do prazo estabelecido para o presente trabalho, empreender a análise completa da carreira militar de todos os postos e graduações, nas diferentes atividades da Marinha, Exército e Força Aérea, resultaria em exaustivo compêndio, que traria consigo um repertório de informações similares e pontos coincidentes, em geral. Para fins de delimitação, priorizou-se focalizar aspectos comuns, identificados na carreira do Oficial oriundo da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), os quais se verificam também com relação aos procedentes das demais Instituições de Ensino Militar congêneres, a Escola Naval (EN) e a Academia da Força Aérea (AFA), como grupos representativos de elevada expressão da carreira militar das Forças Armadas brasileiras. De maneira intencional, o presente estudo detém-se e dá maior enfoque aos dois extremos da carreira: o seu início (mais precisamente o período da formação do futuro Oficial, realizada numa das escolas militares), e o último posto de Oficial Superior (Capitão-de-Mar-e-Guerra e Coronel). Procura, também, caracterizar aspectos comuns da trajetória profissional da maioria dos Oficiais, considerando que, face a estrutura piramidal das Instituições Militares, poucos dentro de cada Turma terão a possibilidade de ser promovidos ao Generalato. A formação militar bélica, para a maioria da Oficialidade, tem início ainda em plena adolescência. Abrindo suas portas, a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira contam, respectivamente, com o Colégio Naval (Angra dos Reis-RJ) e a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Barbacena-MG), onde são matriculados anualmente centenas de jovens concludentes do ensino fundamental, aprovados em 16 concurso público a nível nacional, para ali cursarem os três anos do ensino médio e darem início à sua formação militar, após o que ingressam nas escolas militares de nível superior, quais sejam, a Escola Naval (Rio de Janeiro-RJ) e a Academia da Força Aérea (Pirassununga-SP). O ingresso diretamente nessas escolas é possibilitado também, anualmente, para candidatos civis concludentes do ensino médio, mediante aprovação em concurso público nacional. No caso do Exército, até o presente ano o pretendente à carreira de Oficial prestava concurso para realização da 3ª série do ensino médio na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), sediada em Campinas-SP, tida como porta de entrada exclusiva para o subsequente acesso à Academia Militar das Agulhas Negras (Resende-RJ). Por ocasião de palestra proferida durante a visita da Comitiva da ESG, ocorrida em 05 de agosto último, o comandante da EsPCEx informou a respeito da implementação de modificações a partir de 2012, segundo as quais passará a ser requerido o ensino médio completo para aqueles que desejarem ingressar na referida Escola, a qual assimilará encargos de escola de nível superior, com currículo integrado para prosseguimento no 1º ano do curso da AMAN e sua continuidade até o final do 4º ano naquela Academia Militar, após o que serão declarados Aspirantes-a-Oficial do Exército Brasileiro. Por oportuno, cabe aqui apresentar como referência a situação correspondente às Turmas de Aspirantes-a-Oficial egressos da AMAN nos últimos cinco anos (de 2006 a 2010), que ingressaram na EsPCEx nos anos de 2002 a 2006, conforme demonstrado na tabela que se segue. Tabela 1 – Demonstrativo de Efetivos matriculados e Evasões (2002 a 2010) EsPCEx MATRICULADOS ANO 2002 2003 2004 2005 2006 EFETIVO 472 506 492 514 475 CONCLUDENTES EFETIVO 446 477 448 493 432 AMAN EVASÃO (durante o Curso EsPCEx) EFETIVO 26 29 44 21 43 MATRICULADOS % ANO 5,51% 5,73% 8,94% 4,09% 9,05% 2003 2004 2005 2006 2007 EFETIVO 428 455 434 491 418 CONCLUDENTES ANO 2006 2007 2008 2009 2010 EFETIVO (AspOf) 382 434 378 444 359 EVASÃO (durante o Curso AMAN) EFETIVO 46 21 56 47 59 % 10,75% 4,62% 12,90% 9,57% 14,11% Fonte: Divisão de Ensino/EsPCEx. Da análise do quadro apresentado constata-se, por exemplo, que a mais recente turma formada, composta por 359 Aspirantes-a-Oficial declarados em 27 de 17 novembro de 2010, teve o alvorecer da carreira militar em 2006, ocasião em que foram matriculados na EsPCEx 475 alunos, dos quais 418 ingressaram no 1º ano da AMAN em 2007. Daquele efetivo de 475 jovens iniciantes, ocorreram até a declaração de Aspirantes-a-Oficial 116 evasões, correspondentes ao percentual geral de 24,42% (maior percentual geral de evasões desde 2000), por motivos variados (desistências, inadaptações à carreira, falta de aproveitamento escolar, problemas de saúde). Outro aspecto julgado pertinente ao assunto diz respeito ao perfil socioeconômico dos jovens que ingressam anualmente nas escolas militares. Tomando por referência as turmas que ingressaram na EsPCEx de 2007 a 2010, observa-se a expressiva parcela dos seus integrantes, oriundos de famílias com renda mensal de até R$ 3.000,00 (classes “C” e “D”), conforme apresentado na tabela abaixo. Tabela 2 – Demonstrativo da situação socioeconômica dos Efetivos matriculados na EsPCEx, nos anos de 2002 a 2010. Ano Renda Familiar Até R$ 1.000,00 De R$ 1.001,00 a R$ 3.000,00 2007 De R$ 3.001,00 a R$ 5.000,00 A partir de R$ 5.001,00 Efetivo Total Até R$ 1.000,00 De R$ 1.001,00 a R$ 3.000,00 2008 De R$ 3.001,00 a R$ 5.000,00 A partir de R$ 5.001,00 Efetivo Total Até R$ 1.000,00 De R$ 1.001,00 a R$ 3.000,00 2009 De R$ 3.001,00 a R$ 5.000,00 A partir de R$ 5.001,00 Efetivo Total Até R$ 1.000,00 De R$ 1.001,00 a R$ 3.000,00 2010 De R$ 3.001,00 a R$ 5.000,00 A partir de R$ 5.001,00 Efetivo Total Fonte: Divisão de Ensino/EsPCEx. Qtde 67 199 152 84 502 % 13,37 39,72 30,34 16,57 100,00 42 213 166 81 502 36 199 174 96 505 24 202 173 129 528 8,37 42,43 33,07 16,14 100,00 7,13 39,41 34,46 19,01 100,00 4,55 38,26 32,77 24,43 100,00 Com base nas informações acima, verifica-se a existência de um percentual médio de aproximadamente 50% em relação aos efetivos totais matriculados, de 18 alunos oriundos de famílias que se sustentam com as rendas mais baixas, o que significa, sob outro enfoque, procedência das classes sociais que exercem atividades profissionais de menores remunerações. O baixo poder aquisitivo dessas famílias coaduna-se com o fato de que, em sua maioria, as mesmas residem em bairros de periferia ou nos subúrbios dos grandes centros, principalmente na região sudeste, tributária dos maiores efetivos que ingressam anualmente nas escolas militares. Os cursos realizados na EN, AMAN e AFA têm por objetivo não só formar o Oficial subalterno, como também, e, principalmente, forjar o líder - futuro chefe militar, uma vez que, segundo Hecksher (2011, não paginado), “Forças Armadas que possuam fortes lideranças, em todos os escalões, poderão superar, no todo ou em parte, as desvantagens geradas por uma deficiente capacidade econômica ou tecnológica”. Desde os primórdios de sua formação militar, o jovem iniciante recebe estímulos que reforçam seu idealismo, vibração e entusiasmo profissional. É bem verdade que, nessas Escolas, os Cadetes (Aspirantes, no caso da Escola Naval) ainda não conhecem com profundidade as realidades de suas Instituições, no tocante às dificuldades estruturais das mesmas. Começarão, porém, a conhecê-las gradativamente, à medida que iniciam suas atividades nos Corpos de Tropas, Bases, Navios e demais Organizações Militares das respectivas Forças. Lamentavelmente, alguns desses Oficiais cedo demonstram perda do entusiasmo e sentimento de frustração preocupantes, ao imaginarem-se no início de suas trajetórias, com uma carreira árdua e que tanta renúncia lhes exige, ao mesmo tempo em que vislumbram, no meio civil, tentadoras oportunidades, seja em empresas privadas ou noutros órgãos públicos. Necessário se torna, portanto, identificar e interferir nas causas desestimuladoras incidentes, a fim de evitar o desinteresse pela profissão militar e reduzir a quantidade de evasões. Dentro do natural processo evolutivo e de transformação do Ensino Militar, planeja-se a revisão nos currículos da EN, AMAN e AFA, para o que foi recentemente editada a Portaria Interministerial Nº 1.874-A de 8 de julho de 2011, assinada pelo Ministro de Estado da Defesa, Interino, e pelo Ministro de Estado Chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, cuja finalidade consta do Art.1º, conforme exposto: 19 Art.1º Constituir Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) com o objetivo de analisar os currículos dos cursos de formação de oficiais e apresentar proposta de aperfeiçoamento das seguintes Instituições Militares de Ensino Superior das Forças Armadas Brasileiras: Escola Naval, Academia Militar das Agulhas Negras e Academia da Força Aérea [...]. (BRASIL, 2011). A oportunidade é propícia para avaliação da pertinência do estabelecimento de currículos que possibilitem maior integração entre as Forças, e que se estendam também para as demais Escolas de Aperfeiçoamento e de Altos Estudos Militares, ressalvando-se que os valores, virtudes e tradições militares, quaisquer que sejam as mudanças propostas, devem ser preservados, assim como aspectos próprios da identidade de cada Força. As Forças Armadas têm pleno conhecimento da necessidade de manterem seus quadros em constante evolução, no que tange ao conhecimento. Para tanto, todos os Oficiais são relacionados para frequentarem Cursos de Aperfeiçoamento, sem os quais ficam impossibilitados de acesso aos postos superiores, a partir de Major. A Marinha do Brasil aperfeiçoa os Oficiais Subalternos no Centro de Instrução Almirante Wandenkolk – CIAW (Ilha das Enxadas - Rio de Janeiro – RJ), bem como realiza na Escola de Guerra Naval – EGN (Urca – Rio de Janeiro – RJ) Cursos de Estado-Maior para Oficiais Intermediários (C-EMOI), para o desempenho de comissões de caráter operativo e administrativo, com ênfase no Processo de Planejamento Militar e Operações Navais. O Exército Brasileiro aperfeiçoa seus Capitães na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais – EsAO (Vila Militar – Rio de Janeiro – RJ), e a Força Aérea Brasileira na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais da Aeronáutica – EAOAR (Campo dos Afonsos – Rio de Janeiro – RJ). De modo geral, tais cursos têm o propósito de atualizar e ampliar conhecimentos, capacitando os Oficiais que os realizam ao desempenho de funções dos postos superiores (administrativas, operacionais ou de assessoramento), previstas nas Organizações Militares das suas respectivas Forças. A oportunidade de realização dos Cursos de Aperfeiçoamento significa, para muitos Oficiais, importante ponto de inflexão na carreira, uma vez que, com maior amadurecimento na vida e na profissão, selecionam metas em função das quais passarão a concentrar seus esforços em áreas de atuação onde melhor se identificam, sejam estas ligadas ou não às lides da caserna. Outros importantes cursos de elevados graus de profissionalismo, chamados Cursos de Especialização, funcionam em Escolas específicas, sendo oferecidos ou 20 requeridos pelos interessados, porém muitos são os militares que deixam de ter a oportunidade de realizá-los, na maioria das vezes por falta de vagas. Visando o exercício das funções de Estado-Maior e de assessoria de alto nível, bem como as de comando, chefia e direção de Organizações Militares, os Oficiais Superiores (Capitães-de-Corveta e Capitães-de-Fragata da MB, Majores e Tenentes-Coronéis do EB e da Aer) realizam Cursos de Altos Estudos Militares, que funcionam na já mencionada Escola de Guerra Naval, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército – ECEME (Praia Vermelha – Rio de Janeiro – RJ) e na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica – ECEMAR (Campo dos Afonsos – Rio de Janeiro – RJ). Funcionam também nessas Escolas os cursos militares de mais elevado nível, destinados a capacitar os Oficiais Superiores do último posto (Capitães-deMar-e-Guerra e Coronéis) ao desempenho de funções de assessoramento de alto nível nas respectivas Forças. São eles: o Curso de Política e Estratégia Marítimas (C-PEM) da EGN, o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército (CPEAEx) da ECEME e o Curso de Política e Estratégia Aeroespaciais da ECEMAR. De mesmo nível e equivalência desses cursos mencionados, no âmbito do Ministério da Defesa, funciona na Escola Superior de Guerra – ESG (Urca - Rio de Janeiro – RJ) o Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), para o qual são selecionados anualmente Oficiais das três Forças, das Forças Auxiliares, de civis representantes dos diversos setores da Sociedade, bem como de Oficiais de Nações Amigas, objetivando sua preparação para o exercício de funções de direção e assessoramento de alto nível na administração pública, em especial na área Defesa Nacional, desenvolvendo planejamentos estratégicos nas expressões do Poder Nacional. A realização dos Cursos de Altos Estudos Militares e dos Cursos de alto nível da EGN, ECEME, ECEMAR e ESG habilitam os Oficiais Superiores, mediante processo de escolha, à ascensão ao Generalato. A ênfase propositadamente atribuída aos aspectos da formação do Oficial, constantes dos parágrafos iniciais e quadros do presente tópico, possibilitará a necessária reflexão a respeito da situação da carreira militar no seu início, evidenciando por si só a necessidade de aprofundamento de estudos específicos para elaboração de propostas que eliminem ou minimizem os problemas, no tocante 21 ao percentual de evasões iniciais, à regionalização e à inadequada representatividade pelas diferentes classes sociais. Como sugestão, as três Forças poderiam desencadear de forma incisiva, em todo o País, ações de comunicação social integrada, para fazer chegar a todas as classes sociais o conhecimento de suas mais relevantes atividades. Também, a intensificação nos Colégios Militares, da preparação para os concursos das Escolas Preparatórias, do Colégio Naval, da Escola Naval, da AMAN e da AFA, poderiam ser alternativas para reduzir o problema da falta de representatividade de todos os níveis da Sociedade e da concentração geográfica, anteriormente apontados. 2.4 ATRATIVOS E FRUSTRAÇÕES No cumprimento das especificidades da carreira militar, são vivenciadas situações que servem de atrativos e outras que desestimulam seus quadros. Se, por um lado, a realização profissional e o sentimento do dever cumprido agigantam o moral e são fortalecidos pelos elevados índices de credibilidade repetidamente apontados pela população em pesquisas de opinião, por outro, o distanciamento e apatia da Sociedade, nas classes mais elevadas, e de segmentos das esferas dos três Poderes constituídos, caracterizam-se nos maiores óbices para a obtenção da valorização da carreira em estudo. É notório que, para a obtenção da justa valorização profissional das Forças Armadas, ainda falta o reconhecimento, por parte de algumas pessoas, da necessidade de superação de posturas discordantes da época da participação direta dos militares nos assuntos de governo, ocorrida a partir do momento histórico em que a Sociedade brasileira, ameaçada nos seus legítimos ideais e verdadeiras aspirações nacionais, compeliu-os à adoção de atitudes e ações para dar cabo à situação de caos e desordem reinante no País em 31 de março de 1964, assim como posteriormente, na atuação em defesa interna, contrapondo-se às diferentes formas, preponderantemente violentas, pelas quais agiram grupos seguidores de correntes ideológicas totalitárias, notadamente contrárias aos anseios democráticos do povo brasileiro. Ao que parece, a memória da Sociedade esvai-se com o passar do tempo. Por isso, os militares continuam sendo alvos permanentes de desgaste e sofrem o ônus do descaso, perda de espaço, influência, consideração e reconhecimento, não obstante o fato de que, com extremada renúncia e disciplina, agindo como 22 verdadeiros profissionais frente às adversidades, tenham aprendido a conviver e ajustar-se diante de novas situações. Segundo Cavagnari (2007, p. 134): “[...]a mais séria crise da história das Forças Armadas está em curso desde 1995 e é causada pela falta de prioridade e pelo desconhecimento do que as Forças Armadas representam para o Estado[...]”. O verdadeiro profissional militar frustra-se ante o imobilismo decorrente da falta de meios para praticar seus conhecimentos, adquiridos por vezes com riscos da própria vida, nos difíceis cursos de Especialização ou mesmo nas atividades quotidianas da instrução militar. Material indisponível, equipamentos obsoletos e adestramento prejudicado fatalmente levam o homem à perda da motivação, uma vez que percebe que o produto do seu trabalho - a Segurança - de extrema necessidade para a Sociedade, está comprometido. Os frequentes contingenciamentos e reduções no orçamento da Defesa tem retardado o desenvolvimento dos Programas “PróSub” (construção de cinco submarinos pela Marinha do Brasil, sendo um deles de propulsão nuclear, com tecnologia nacional), “FX-2” (compra de aviões-caça pela FAB, com transferência de tecnologia) e “SISFRON” (Programa do Exército que prevê a aquisição de modernos equipamentos para monitoramento das fronteiras do País), além de tantos outros importantes projetos das três Forças; medidas efetivas para a redução da defasagem salarial (que atualmente ultrapassa o percentual de 47%, considerando a perda do poder aquisitivo e a desigualdade em relação à remuneração da Administração Direta) ficam sempre relegadas, à espera de “momento oportuno”. Ao desenvolver estudos a respeito das recentes e expressivas evasões de pessoal da Marinha do Brasil, notadamente de jovens Oficiais, em grande parte decorrentes de aprovações em concursos para os cargos do serviço público, concluiu Porto (2010, p. 3) que “orçamentos em patamares compatíveis para o adequado preparo e emprego da Força exercem influência direta na motivação de seus quadros, que, por sua vez, repercutem decisivamente nos índices de evasão”. Se, por um lado, os atrativos reforçam e estimulam as vocações para a carreira militar, por outro, as frustrações minam e enfraquecem-nas, atuando cumulativamente ao longo do tempo, de forma prejudicial ao desempenho e à realização profissional dos indivíduos. 23 3 MOTIVAÇÕES AMEAÇADAS 3.1 TEORIAS E PRÁTICA Muitos são os estudos a respeito de gestão de pessoas, com suas variadas nuances ou especificidades, uma das áreas que mais tem sofrido mudanças e transformações nos últimos anos. Direcionado o foco dos estudos para carreira ou profissão, invariavelmente a ela se associa, dentre outros, um aspecto altamente relevante: a motivação. Segundo Oliveira (2009, p. 200), “motivação é o conjunto de energias e forças internas controláveis pelo indivíduo e que o mantém, permanentemente, direcionado para os objetivos e metas específicos e concretos estabelecidos em seu plano de carreira”. Na concepção desse mesmo autor, plano de carreira significa a explicitação formal de um conjunto planejado, estruturado, sustentado e sequencial de estágios que consolidam a realidade evolutiva de cada indivíduo, de forma interativa com as necessidades das empresas e das comunidades onde estas atuam. Em se tratando de motivação, o presente trabalho não poderia deixar também de tomar como referência duas importantes Teorias Motivacionais: a da Hierarquia de Necessidades, de Abraham H. Maslow (1970) e a dos Dois Fatores, de Frederick Herzberg (1975). Pela primeira delas, as necessidades humanas, classificadas em primárias (fisiológicas e de segurança) e secundárias (afetivosociais, estima e auto-realização) estão organizadas hierarquicamente, sendo a busca pela sua satisfação o que motiva o indivíduo, ou seja, apenas as necessidades não satisfeitas são fontes de motivação. Considera que as necessidades primárias formam a base da hierarquia, podendo ser de natureza fisiológica (fome, sede, sono, sexo) ou de segurança (proteção contra ameaça real ou imaginária, como, por exemplo: necessidade de salário, de casa própria, de seguro-saúde, de aposentadoria e emprego). Pela Teoria dos Dois Fatores, Herzberg (1975) focalizou as fontes de motivação, relacionando-as ao trabalho e às realizações do indivíduo no trabalho, considerando que o comportamento das pessoas se explica pela existência de dois fatores: os fatores higiênicos (que procuram satisfazer necessidades fisiológicas, de segurança e social) e os fatores motivacionais (que buscam satisfação das necessidades de estima e auto-realização). Em síntese, considera que os fatores 24 higiênicos são extrínsecos às pessoas e localizam-se no ambiente de trabalho, podendo-se citar como exemplos o salário, benefícios sociais, condições físicas de trabalho, modelo de gestão e relacionamento com os colegas. Além das duas teorias motivacionais mencionadas (a da Hierarquia de Necessidades e a dos Dois Fatores) existem várias outras teorias que procuram explicar a motivação humana, porém nenhuma delas é capaz de explicá-la de modo final e definitivo, nem existem quaisquer tipos de abordagens ou técnicas amplas com as quais se possa obter a motivação no trabalho. Na prática, o importante é saber como funciona o processo de motivação e os mecanismos que conduzam à valorização profissional contidos em cada uma das Teorias Motivacionais e aplicá-los no ambiente de trabalho das organizações, no caso específico as Instituições Militares, visando estimular a satisfação, a produtividade e a ascensão individual dentro da carreira militar, bem como fortalecer o desempenho e a imagem da Organização Militar no seu conjunto. Destaca Oliveira Junior (2009, p. 40) a importância de se considerar os militares parceiros da Instituição, uma vez que os mesmos nela investem competência, esforço, dedicação, responsabilidade, envolvimento com o trabalho e comprometimento organizacional, esperando que haja como contrapartida bons salários, adequadas condições de trabalho, reconhecimento e possibilidade de ascensão a postos mais elevados na carreira, entre outros. 3.2 A PESQUISA E OS RESULTADOS A fim de possibilitar maior embasamento e, simultaneamente, fugir do lugarcomum que, não raro, se constata em estudos dessa espécie, foi aplicada pesquisa em um grupo de 35 (trinta e cinco) Oficiais Superiores do último posto (Coronéis e Capitães-de-Mar-e-Guerra), todos da ativa das três Forças. Para tanto, foi empregada a técnica de amostragem, com utilização de amostras do tipo nãoprobabilísticas intencionais. Cabe assinalar que o grupo de Oficiais em tela, todos Estagiários do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE)/2011 da Escola Superior de Guerra, representa importante parcela do que existe de melhor nas Forças, no seu mais elevado nível, no que diz respeito aos méritos e à experiência profissional, considerando que todos possuem mais de 25 anos de serviço, já desempenharam relevantes funções no País e no exterior, exerceram comando, chefia ou direção de 25 Organização Militar, e são extremamente competitivos para ascensão ao Generalato. Como instrumento de coleta de dados para a pesquisa, foi distribuído um formulário para preenchimento de quesitos segundo as formas indicadas (marcar “x”, citar aspectos ou sugerir medidas, em ordem decrescente de importância), sendo o último, de um total de 10(dez) quesitos, aberto e facultativo para outras considerações ou sugestões associadas ao tema, julgadas pertinentes pelos pesquisados, cuja identificação não foi obrigatória. No primeiro quesito, os 35 (trinta e cinco) Oficiais pesquisados identificaram suas respectivas Forças, sendo 10 (dez) Capitães-de-Mar-e-Guerra da Marinha do Brasil, 15 (quinze) Coronéis do Exército Brasileiro e 10 (dez) Coronéis da Força Aérea Brasileira. No segundo quesito, cada pesquisado assinalou se considerava alta, média ou baixa sua motivação atual pela carreira, sendo atingido o percentual de cerca de 89% para a soma dos grupos que se consideraram de média e alta motivação e de 11% para os de baixa motivação. A representação desse resultado consta do gráfico abaixo. Gráfico 1 – Situação da motivação atual pela carreira Fonte: O autor (2011) O terceiro quesito destinou-se a identificar se os pesquisados já tiveram em algum momento vontade de mudar de carreira, bem como se tal vontade ocorreu uma ou várias vezes, tendo-se chegado ao percentual de aproximadamente 46% para os que nunca tiveram tal vontade e de 54% para quem a teve uma ou mais 26 vezes, o que ensejou a representação por intermédio do gráfico que adiante se insere. Gráfico 2 – Incidência da vontade de mudar de carreira Fonte: O autor (2011) No quarto quesito, os pesquisados assinalaram com “x” se tiveram, no decorrer da carreira, oferta de emprego no meio civil, identificando se tal oferta foi feita uma ou mais de uma vez, tendo sido constatado o percentual de 34% para quem nunca teve e de 66% para quem teve uma ou mais das citadas ofertas, sendo o resultado representado conforme gráfico seguinte. Gráfico 3 – Situação da oferta de emprego civil recebida Fonte: O autor (2011) O quinto quesito teve por propósito levantar junto aos pesquisados informações quanto às suas expectativas atuais de colocação no mercado de trabalho civil, classificadas dentre três gradações (baixa, média ou alta), chegando- 27 se ao percentual de cerca de 23% para baixa expectativa e da soma de 77% para média e alta, cuja representação gráfica transcreve-se a seguir. Gráfico 4 – Situação da expectativa de colocação no Mercado de Trabalho Civil Fonte: O autor (2011) O sexto quesito teve por finalidade verificar como os pesquisados consideram sua realização profissional na carreira militar, dentre as gradações baixa, média ou alta realização, cujo resultado foi de somente 3% para baixa realização e de 97% para média e alta, o que graficamente foi exposto da forma abaixo. Gráfico 5 – Situação da realização profissional na carreira militar Fonte: O autor (2011) Em prosseguimento, por intermédio do sétimo quesito, foi solicitado aos pesquisados para que citassem, em ordem decrescente de importância, pelo menos cinco aspectos positivos mais relevantes, identificados ao longo da carreira militar. Dentre os muitos aspectos levantados, julga-se importante aqui destacar os 10(dez) 28 mais citados, independentemente do seu posicionamento no grupo ordenado por cada um dos pesquisados: a. Estabilidade; b. Valores; c. Organização; d. Disciplina; e. Relacionamento interpessoal; f. Vivência nacional; g. Aposentadoria integral; h. Ascensão hierárquica; i. Atividade militar; e j. Formação profissional de qualidade. De forma semelhante, no oitavo quesito foi solicitado aos pesquisados para que citassem, também em ordem decrescente de importância, pelo menos cinco aspectos negativos de maior relevância, identificados no decorrer da carreira militar. Da relação de aspectos levantados, merecem destaque os 10(dez) mais citados, a saber: a. Baixa remuneração; b. Restrições orçamentárias; c. Operacionalidade prejudicada; d. Desvalorização pelo Governo; e. Movimentações excessivas; f. Sacrifício familiar; g. Reduzidas possibilidades de missões no exterior; h. Falta de Próprios Nacionais Residenciais; i. Poucas oportunidades para especialização; e j. Critérios para designações e promoções. Em sequência, os pesquisados foram instados a sugerir, em ordem decrescente de prioridade, pelo menos cinco medidas para melhoria da Valorização da Carreira Militar do Oficial, merecendo destacar, dentre as várias propostas apresentadas, as 10(dez) mais citadas, a saber: a. Melhoria dos Vencimentos; b. Reaparelhamento e modernização das FA; 29 c. Orçamentos compatíveis com as reais necessidades das Forças; d. Maiores oportunidades para missões e cursos no exterior; e. Gestão por competências; f. Maiores oportunidades para Cursos de Especialização; g. Maior apoio e mais possibilidade de aproveitamento do Militar ao passar para a Reserva; h. Aumento da oferta de Próprios Nacionais Residenciais; i. Maior conscientização da Sociedade e da Comunidade Acadêmica para Assuntos de Defesa; e j. Aperfeiçoamento dos critérios para promoções e designações para cursos e missões no exterior. Sintetizando as informações apresentadas pelo grupo pesquisado, depreende-se que parcela significativa do mesmo (cerca de 89%) possui atualmente motivação média ou alta pela carreira que desempenha, embora pouco mais da metade (54%) já tenha tido, ao menos uma vez, vontade de mudar de profissão. Cerca de 66% dos pesquisados já recebeu uma ou mais ofertas de emprego no meio civil e aproximadamente 77% tem expectativa média ou alta com relação a possibilidades atuais de colocação no mercado de trabalho civil, bem como a quase totalidade (97%) considera média ou alta sua realização na carreira militar. Dentre os principais aspectos positivos da carreira assinalados como mais relevantes, ressaltam-se os seguintes: estabilidade, valores, organização, disciplina e atividade militar. Com relação aos aspectos negativos, foram destacados a baixa remuneração, as restrições orçamentárias, a operacionalidade prejudicada, o sacrifício familiar e as reduzidas oportunidades para realização de cursos de especialização, dentre outros. Tendo sido instados a opinar a respeito de medidas para melhoria da valorização da Carreira Militar, colocaram em destaque: melhoria dos vencimentos, reaparelhamento e modernização das FA, orçamentos compatíveis com as reais necessidades das Forças, aumento da oferta de Próprios Nacionais Residenciais e maior conscientização da Sociedade e da Comunidade Acadêmica para Assuntos de Defesa, dentre outras. 30 4 A VALORIZAÇÃO DO CAPITAL HUMANO DAS FORÇAS ARMADAS 4.1 OS VALORES EM AÇÃO Da análise do significado do vocábulo substantivo “valorização” que, segundo alguns dicionários, relaciona-se ao sentido de “dar valor ou valores a” ou “aumentar de valor”, é lícito inferir que, não havendo quaisquer tipo de ação, não se pode considerar que haja a valorização. Dessa forma, ao tratar do tema em foco, há que se raciocinar com medidas que representem ações para que, efetivamente, seja valorizada a Carreira Militar no Brasil. No passado não muito distante, as preocupações com o desenvolvimento de carreiras voltavam-se unicamente para as necessidades organizacionais, tendo como objetivo a preparação prévia dos funcionários para expansão, novos mercados e outras mudanças da organização. Segundo Chiavenato (2010, p. 414): “os planos de desenvolvimento de carreiras deixaram de ser unilaterais e passaram a abranger tanto as necessidades da organização como das pessoas envolvidas”. O mais valioso patrimônio que uma organização pode reunir para ter competitividade e sucesso, ainda segundo Chiavenato (2010, p. 53), “é o seu capital humano, composto por dois aspectos principais: os talentos (conhecimentos, habilidades e competências) e o contexto (ambiente interno, onde os talentos se desenvolvem)”. Surge, daí, o grande desafio de se obter a adequada valorização para o capital humano, dentro da Carreira Militar, conforme preconizado dentre as medidas estabelecidas pela Estratégia Nacional de Defesa. Esta, por sua vez, reconhece a necessidade de reestruturação das Forças Armadas para atendimento às demandas do atual cenário mundial, incerto e complexo, que determina reflexões sobre a missão e relacionamento das Instituições Militares com os demais componentes do Poder Nacional. Uma análise dos cenários nacionais e internacionais, com relação às possibilidades de atuação futura das Forças Armadas brasileiras, pressupõe a necessidade de substanciais modificações nas diretrizes estratégicas, doutrinárias, tecnológicas e de gestão vigentes, e exige o desenvolvimento de novas capacitações operacionais dos Recursos Humanos. Dentre outros aspectos a considerar, ganha relevância como fundamento da atuação unificada das três 31 Forças a mobilidade estratégica, o que realça a importância da interoperabilidade no contexto da profissionalização dos militares. Em artigo versando sobre estratificação nas Forças Armadas, Lamounier (1999, p. 58-60) assim escreveu: [...]No tempo em que os reis iam às guerras os vassalos defendiam o feudo porque à sua frente combatia, e às vezes morria, o seu senhor. Dentre muitos exemplos ao longo dos tempos, a História Contemporânea nos oferece alguns diários de destaque: no mais desenvolvido país do mundo atual, os Estados Unidos da América, é difícil uma família que não tenha participado ou perdido um seu integrante numa guerra. O ex-presidente John Kennedy, como comandante de um “Patrol Boat” na Segunda Guerra Mundial, teve o seu barco afundado e foi condecorado por ter salvo a vida de alguns de seus marinheiros. Sua aristocrática e rica família perdeu um de seus filhos naquela mesma guerra. O também ex-presidente George Bush foi piloto naval destacado [...]. No decorrer da análise das informações levantadas, aduz-se que no Brasil, via de regra, poucos jovens de famílias das elites da Sociedade se interessam pela profissão militar, talvez por falta de estímulos, associada às exigências e especificidades da carreira. Se houvesse na caserna filhos de Senadores, Deputados, Juízes ou mesmo Ministros, nossas Forças Armadas seriam melhor conhecidas e, certamente, mais prestigiadas, pois, como é sabido, não se valoriza aquilo que não se conhece. De maneira oportuna, a Estratégia Nacional de Defesa se preocupa em anunciar a valorização da profissão militar, incrementando as carreiras e tornando o oficialato atrativo para todas as classes sociais, conforme extrato abaixo transcrito: 6. É importante para a defesa nacional que o oficialato seja representativo de todos os setores da sociedade brasileira. É bom que os filhos de trabalhadores ingressem nas academias militares. Entretanto, a ampla representação de todas as classes sociais nas academias militares é imperativo de segurança nacional. Duas condições são indispensáveis para que se alcance esse objetivo. A primeira é que a carreira militar seja remunerada com vencimentos competitivos com outras valorizadas carreiras do Estado. A segunda condição é que a Nação abrace a causa da defesa e nela identifique requisito para o engrandecimento do povo brasileiro[...] (BRASIL, 2008, p. 20). Resta, por ora, o alento de que nossas Instituições prosseguem em ação no País e no exterior, cumprindo valorosamente importantes missões de segurança, defesa e ações humanitárias, em proveito do Estado, do povo brasileiro e da humanidade em geral, conforme definido nas respectivas missões abaixo transcritas: a. Marinha do Brasil: Preparar e empregar o Poder Naval, a fim de contribuir para a defesa da Pátria. Estar pronta para atuar na garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem; atuar em ações sob a 32 égide de organismos internacionais e em apoio à política externa do País; e cumprir as atribuições subsidiárias previstas em Lei[...] a fim de contribuir para a salvaguarda dos interesses nacionais[...]. (BRASIL, 2011). b. Exército Brasileiro: - Preparar a Força Terrestre para defender a Pátria, garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem. - Participar de operações internacionais. - Cumprir atribuições subsidiárias. - Apoiar a política externa do País (BRASIL, 2011). c. Força Aérea Brasileira: -Defender a Pátria; garantir os poderes constitucionais; e garantir a lei e a ordem, por iniciativa de qualquer dos poderes constitucionais. - Cabe à Aeronáutica, como atribuição subsidiária geral, cooperar com o desenvolvimento nacional e a defesa civil, na forma determinada pelo Presidente da República. -Manter a soberania no espaço aéreo nacional, com vistas á defesa da Pátria (Missão-Síntese). (BRASIL, 2011). 4.2 PLANEJAMENTOS, DIRETRIZES E EXPECTATIVAS Após exaustiva pesquisa nas mais variadas fontes, sedimenta-se o entendimento de que a Marinha, o Exército e a Aeronáutica, desde longa data, já vêm trabalhando em múltiplas frentes, no propósito de conseguir a desejada Valorização da Carreira Militar. Significa também dizer que os muitos aspectos inquietantes que tanto afligem o pessoal e ameaçam as motivações, conforme mostrado nos diferentes quadros do capítulo 3, já são sobejamente conhecidos, não trazem fatos novos e tem sido trabalhados pelos mais altos escalões militares e pelos Comandantes de Forças junto ao Ministério da Defesa e outros órgãos governamentais. A prova dessa assertiva é clara, bastando uma simples consulta aos diferentes planos, programas, estratégias, ordens e diretrizes vigentes no âmbito das Forças. Nas Orientações Gerais que compõem as Orientações do Comandante da Marinha (ORCOM) para 2011, consta o seguinte texto: [..]As riquezas existentes em nosso território, tais como as jazidas de minerais estratégicos, de petróleo e de gás; as reservas de água doce; o clima e o solo fértil para a produção de alimentos; e a longa tradição de buscar soluções pacíficas para as controvérsias, podem gerar atitudes indesejáveis às nossas pretensões, caso não estejamos suficientemente preparados para dissuadi-las. Temos, portanto, que enfrentar o desafio de ser grande [...]. (BRASIL, 2011, p. 4). 33 A preocupação daquela autoridade, com relação ao valioso patrimônio da Nação brasileira, é plenamente fundamentada e enfeixa o pensamento daqueles que tem sob seus ombros o peso da responsabilidade de zelar pela segurança e pela integridade desse pujante País. Específicamente na área de pessoal, tratam as ORCOM/2011, dentre outros aspectos, dos seguintes: - medidas para ampliação do acesso ao financiamento da casa própria para o pessoal da MB; - aquisição de Próprios Nacionais Residenciais; - gestões visando a correção da remuneração para patamares aceitáveis; - defesa dos interesses do pessoal militar no que tange a sistemas previdenciários e de pensões; - incremento do nível de satisfação profissional; - ampliação dos instrumentos e desenvolvimento de programas que valorizem o profissional militar; e - ampliação das oportunidades de aperfeiçoamento profissional e formação complementar, quer no País, quer no exterior. O Exército Brasileiro e seu Sistema de Educação e Cultura, em sintonia com a END, deram início à implantação de conceitos da Educação por Competências para a formação dos Oficiais da AMAN, inserida no contexto da Diretriz do Processo de Transformação do Exército Brasileiro (DPTEB). Capitaneado pelo Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias (CEP/FDC), o Projeto Competências integra, juntamente com outros cinco projetos, o Programa intitulado “O Profissional Militar do Século XXI”. Torna-se oportuno aqui apresentar a modelagem do conceito de “competência” para a educação militar, elaborada pelo Centro de Estudos Estratégicos Educacionais do CEP/FDC, da forma que se segue: “capacidade de mobilizar, ao mesmo tempo e de maneira inter-relacionada, conhecimentos, habilidades, valores e atitudes, para decidir e atuar em situações diversas”. No que concerne a pessoal, dentre os mais importantes aspectos estabelecidos pelo Comandante do Exército em sua Diretriz Geral para 2011-2014, cabe assinalar os seguintes: 34 a. deve ser um processo contínuo o aprimoramento da assistência aos militares e civis do EB, seus familiares e pensionistas, com ênfase nas seguintes ações: - atendimento dos serviços de saúde à família militar; - oferta de planos especiais para facilitar a aquisição da moradia própria; - apoio à família militar, em especial nas OM em localidades remotas; - oferta de ensino de qualidade, por intermédio dos Colégios Militares; - programas de apoio no retorno dos militares temporários à vida civil; - preparação dos militares e servidores civis para a passagem à inatividade; - especialização do tratamento dispensado aos inativos e pensionistas; e - apoio à família dos designados para missões de paz e humanitárias. b. Serão, permanentemente, efetuadas gestões junto ao Ministério da Defesa, para que a remuneração seja compatível com as especificidades da profissão militar, isonômica em relação a outras carreiras de Estado e mantidas a paridade e a integralidade ativa-reserva. A Força Aérea Brasileira, no seu Plano Estratégico Militar da Aeronáutica 2010-2031 (PEMAER), trata, dentre vários objetivos, os de aprimorar o apoio aos militares e civis do Comando da Aeronáutica e de modernizar os sistemas de formação e de pós-formação de recursos humanos, consubstanciados nas seguintes Medidas Estratégicas: - Incrementar a disponibilidade de próprios nacionais residenciais; - Implementar programa de preparação para a reserva e aposentadoria; - Modernizar a gestão alimentar na Aeronáutica; - Otimizar o processo de atendimento do serviço de saúde da Aeronáutica; - Otimizar os programas assistenciais da Aeronáutica; - Modernizar a estrutura física e os métodos pedagógicos das organizações de ensino; - Adequar a capacitação profissional às necessidades funcionais da Aeronáutica; - Apoiar a participação em cursos de pós-graduação em instituições de ensino públicas e privadas, no País e no exterior; e - Desenvolver programas de aprimoramento técnico-profissional e de elevação de nível intelectual e cultural. 35 Resta apresentar, como proposta, que alguns dos procedimentos de interesse comum previstos nos planejamentos, diretrizes e ordens existentes (afetos a moradia, saúde, ensino, remuneração, dentre outros), sejam reunidos e trabalhados centralizadamente, no intuito de obtenção de maior expressão, argumentação e consenso nas apresentações dos pleitos e prioridades, para facilitar nas decisões. Ainda, permanecem as Forças Armadas com as expectativas de que se consiga urgentemente o convencimento e a sensibilização daqueles que detém o poder da decisão e dos orçamentos, para solucionar ou pelo menos minimizar os efeitos dos problemas que vem se cronificando ao longo do tempo. 36 5 CONCLUSÃO O Brasil não está livre de sofrer agressões ou ameaças à sua soberania ou integridade territorial, não obstante a postura de País pacífico e os interesses não imperialistas bem definidos. Diante de novos temas e ameaças difusas (narcotráfico, contrabando e tráfico de armas, terrorismo, crime organizado e corrupção, dentre outros) surgidos no cenário internacional com o fim da Guerra Fria, há necessidade da adoção de medidas emergenciais de segurança e defesa, para as quais as Forças Armadas brasileiras têm que estar permanentemente preparadas. A Estratégia Nacional de Defesa, estabelecida em 2008, evidencia a necessidade de modernização das Forças Singulares, com foco em ações estratégicas de médio e longo prazo, atuando em três eixos estruturantes, dentre eles o da política de composição dos efetivos. A esse eixo associa-se o tema do presente trabalho - A Valorização da Carreira Militar no Brasil - dizendo respeito aos Recursos Humanos, patrimônio mais caro que as Instituições Militares possuem. Para sua delimitação, necessária face a exiguidade do tempo, buscou-se focalizar aspectos comuns da carreira do Oficial da linha bélica, formado pela Escola Naval (EN), pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e pela Academia da Força Aérea (AFA), atualmente pontilhados por frustrações que decorrem, principalmente, dos reduzidos atrativos e perspectivas de oportunidades, com reflexos desfavoráveis para os militares e para suas respectivas Instituições. A existência e atuação das Forças Armadas tem sua fundamentação legal prevista na Constituição Federal de 1988, e a carreira de seus integrantes, regidos pelo Estatuto dos Militares, tem por características mais marcantes o risco de vida, a sujeição a preceitos rígidos de disciplina e hierarquia, a dedicação exclusiva, a mobilidade geográfica e o vigor físico, dentre outras. Tratando especificamente da carreira do Oficial das Forças Armadas, o Colégio Naval e a EPCAr, Instituições de Ensino de Nível médio, são atualmente as principais portas de acesso à Escola Naval e AFA, enquanto que o ingresso na EsPCEx é condicionante para a posterior entrada na AMAN, com o fato novo de que, para tal, a EsPCEx passará a exigir dos seus candidatos o Ensino Médio completo, a partir de 2012. Merece também destaque a incidência do maior percentual geral de evasões dos últimos dez anos (24,42%), verificado junto à Turma de Aspirantes formados 37 pela AMAN em 2010, bem como a baixa representatividade dos jovens de famílias de perfil socioeconômico mais elevado da Sociedade, tendo como contrapartida o maior número de matriculados oriundos de famílias da periferia urbana ou dos subúrbios, aliado ao aspecto da concentração dos maiores efetivos, que ingressam nas Escolas Militares, procedentes dos grandes centros da Região Sudeste. A mobilização integrada das estruturas de comunicação social, a nível nacional, para incisivas campanhas de divulgação das atividades das Forças Armadas, bem como a intensificação nos Colégios Militares, da preparação para os concursos das Escolas Preparatórias, do Colégio Naval, da Escola Naval, da AMAN e da AFA, são alternativas que poderão reduzir o problema da falta de representatividade de todos os níveis da Sociedade e da concentração geográfica, acima apontados. A análise dos currículos da EN, AMAN e AFA, cumprindo determinação da Portaria Interministerial nº 1.874-A de 8 de julho de 2011, constitui-se em oportunidade propícia para ajustes necessários à maior integração entre as Forças, ressalvando-se a necessidade de preservação dos valores, virtudes e tradições e desde que não haja quebra da identidade individual de cada uma delas. Tal medida, se empreendida também nas Escolas de Aperfeiçoamento e de Altos Estudos Militares congêneres, fomentará significativamente a integração e a interoperabilidade desejadas, além do que servirá para reduzir as deficiências táticooperacionais no emprego em conjunto dos elementos de combate das Forças Singulares. Para a formação do Oficial da AMAN, por exemplo, o Exército, desencadeou o Programa intitulado “O Profissional Militar do Século XXI”, dentro do qual se insere o “Projeto Competências”, a cargo do Centro de Estudos de Pessoal/Forte Duque de Caxias, tendo por objetivo a implantação de conceitos da Educação por Competências, em perfeita sintonia com os ditames da END. Ao longo da carreira militar, as Forças Armadas procuram oferecer aos Oficiais, ressalvadas as limitações estruturais e orçamentárias, oportunidades para novos aprendizados e aprimoramento dos seus conhecimentos, bem como para obtenção de especializações, realização de cursos de aperfeiçoamentos e de altos estudos militares, num contínuo processo ensino-aprendizagem. A obtenção da Valorização da Carreira Militar passa, obrigatoriamente, pela implementação de 38 medidas junto aos sistemas de ensino respectivos, visando à preservação do interesse dos seus integrantes pela carreira. A falta de oportunidades para realização de Cursos de Especialização, aspecto desmotivante apontado por muitos militares, pode ser compensada pelo aumento das designações para realização de cursos no exterior ou mesmo em Instituições civis do País. Por se tratar de tema ligado à gestão de carreiras, avulta de importância a motivação como predisposição positiva do indivíduo para crescer e fazer crescer sua Instituição, destacando que torna-se difícil obtê-la ou elevá-la se não houver valorização da carreira. O estudo das Teorias Motivacionais mais importantes, dentre as quais se destacam a da Hierarquia de Necessidades (Maslow) e a dos Dois Fatores (Herzberg), fornece o embasamento teórico-científico pertinente. Detendo-se em outra fase da carreira do Oficial, da mesma forma com que foi dada ênfase para seu início nas Escolas de Formação, cabe assinalar dentre os principais resultados de pesquisa feita junto ao seleto grupo de 35 (trinta e cinco) Oficiais Superiores do último posto da ativa das três Forças (Capitães-de-Mar-eGuerra e Coronéis), que pouco mais da metade (54%) já teve, ao menos uma vez, vontade de mudar de profissão, assim como cerca de 66% já recebeu uma ou mais ofertas de emprego no meio civil e aproximadamente 77% tem expectativa média ou alta com relação a possibilidades atuais de colocação no mercado de trabalho civil. Dentre os principais aspectos positivos que motivam a carreira do Oficial cabe assinalar, como mais relevantes, a estabilidade, os valores, a organização, a disciplina e a atividade militar. Como aspectos negativos, deve-se considerar a defasagem salarial em relação a outras carreiras, as restrições orçamentárias, a operacionalidade prejudicada e o sacrifício imposto à família, entre outras. A Sociedade brasileira e a Comunidade Acadêmica necessitam de maior conscientização e envolvimento nos assuntos de segurança e defesa, devendo participar ativamente na busca de soluções que sejam as melhores para o País, ante as possíveis ameaças que venham a acarretar a necessidade de atuação das Forças Armadas brasileiras. Para tanto, avulta de importância a Valorização da Carreira Militar, pela Sociedade em geral, como uma das formas pelas quais, investindo-se no capital humano das Instituições Militares permanentes, obter-se-á o fortalecimento da Expressão Militar do Poder Nacional. 39 Por sua vez, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica têm plena ciência dos muitos aspectos inquietantes que tanto afligem o pessoal e ameaçam suas motivações, e já vem trabalhando desde longa data em múltiplas frentes, em busca de soluções junto ao Ministerio da Defesa e outros órgãos governamentais. A esse respeito, cabe apresentar a sugestão de que algumas das demandas de interesse comum das três Forças (moradia, saúde, ensino, remuneração, dentre outras), sejam reunidas e trabalhadas centralizadamente, no propósito de obtenção de maior expressão, argumentação e consenso nas apresentações dos pleitos e prioridades, para o convencimento dos detentores do poder de decisão e dos orçamentos, objetivando eliminar ou minimizar os problemas que vem se cronificando desde longa data. Pela sua relevância, o presente assunto deve ser objeto de estudos aprofundados, partindo da consideração de que, no processo de Valorização da Carreira Militar no Brasil, torna-se imperativa a obtenção de orçamentos que possibilitem a necessária modernização e adestramento das três Forças, bem como a recomposição da remuneração do pessoal, tudo isso num contexto de participação efetiva da Sociedade nas discussões dos assuntos de Defesa. O Brasil necessita, em síntese, investir mais na Carreira Militar, para proporcionar às Forças Armadas melhores condições para obtenção da necessária motivação e entusiasmo profissional de seus quadros, fortalecendo-os à altura de suas responsabilidades e da grandeza de sua missão perante a Pátria e o Povo brasileiro. 40 REFERÊNCIAS BRASIL. Lei n° 6.880, de 9 de dezembro de 1980. Dispõe sobre o Estatuto dos Militares. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 dez.1980. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6880.htm>. Acesso em: 22 jul. 2011. ______. Decreto n. 5.484, de 30 de junho de 2005. Aprova a Política de Defesa Nacional e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 01 jul. 2005. Seção 1, p.5. ______. Decreto n. 6.703, de 18 de dezembro de 2008. Aprova a Estratégia Nacional de Defesa, e dá outras providências. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 19 dez. 2008. Seção 1, p.4. ______. Ministério da Defesa. Comando da Aeronáutica. 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