OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA A escultura de Bernini O Extase de Santa Tereza, de 1652, é um dos melhores exemplos da escultura barroca. Para analisá-la basta nos prendermos às características marcantes da pintura: exagero, drama, teatralidade, ornamentação e marcantes contrastes. A obra representa a experiência mística vivida pela santa que, em seus relatos, falava dos sonhos que tinha e do momento em que um anjo lhe aparecia e perfurava seu peito com uma flecha, conduzindo-a a uma experiência transcendental, a um estado de êxtase. O exagero e emotividade barroca foram os motivos de contestação e recusa da escultura por parte dos religiosos que viram um apelo excessivamente sensual na imagem, tanto que somente anos após sua conclusão foi transferida para o interior da Igreja de Santa Maria da Vitória, em Roma. Análise: a obra possui características típicas do Barroco, quais sejam: exagero, dramaticidade e teatralidade. Somado a estas, destacamos também linhas diagonais e curvas que acentuam o movimento e o conseqüente dinamismo da cena. O contraste de direção existente entre a flecha e o corpo da santa faz com que essa área desperte o interesse do público, pois constitui o clímax da narração, sendo a região onde reside a tensão espacial da imagem. As dobras das roupas das personagens fogem do padrão linear da arte clássica e caracterizam o lado pictórico do Barroco. Localizado em Congonhas – MG e devotada ao Senhor Bom Jesus de Matozinhos (tradição secular em Portugal), o conjunto é composto pela igreja e casas baixas destinadas a abrigar romeiros nas épocas de festas. A Basílica começou a ser construída em 1757, como pagamento de uma promessa feita pelo português Feliciano Mendes, sendo as referências de melhorias a partir de 1871, com obras de Mestre Ataíde e Aleijadinho. Antonio Francisco Lisboa (o Aleijadinho) teria vivido até por volta de 1814 e é considerado o maior representante do Barroco no Brasil. Seus trabalhos diferenciam-se dos demais por diversos motivos, entre eles o expressionismo das formas nas esculturas, gerando um forte apelo emotivo e popular, bem como as linhas que conferem grande dinamismo às mesmas. A precisão de suas talhas também é marcante, o que pode ser verificado nos trabalhos em Subida ao Calvário, madeira policromada madeira e pedra sabão, repletos de motivos orgânicos que denunciam a influência Rococó em suas produções. Seus projetos arquitetônicos também são diferenciados, com formas circulares ou ovais, simétricas e ricas em ousadia para a época. Análise: No Santuário de Matozinhos, os elementos arquitetônicos obedecem rígida simetria, algo um tanto incomum para os padrões barrocos, enquanto sua distribuição confere ritmo regular ao conjunto. Já as esculturas de Aleijadinho apresentam características peculiares, como o exagero e a deformação propositais, típicas do expressionismo formal presente nos trabalhos do artista. É comum também o colorido das roupas das personagens e o uso de coloração na pele, olhos, cabelos e carne, o que denominamos de “figuras encarnadas”, recurso utilizado para conferir maior emotividade, dramaticidade e realismo às representações. 1 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA Debret, Enterro de Uma Mulher Negra, litografia aquarelada, séc XIX. Debret, O Jantar, litografia Pedra com desenho de Daumier, Séc. XIX Ex-votos são imagens representativas de uma graça alcançada. Costume herdado dos portugueses, é ainda muito presente na atualidade, como testemunham as salas dos milagres das igrejas católicas, como na Basílica de Nsª Srª Aparecida, em São Paulo (imagem ao lado). Um ex-voto pode ser construído por meio de pintura ou uma fotografia, mas o modo mais conhecido é feito por meio da escultura, principalmente de madeira e cera, embora hoje muito fieis façam uso de recursos como partes bonecos, como braços, pernas e cabeças. Debret produziu com sua Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839), nosso principal cartão de visita na Europa do século XIX, e importante fonte iconográfica para a formação do nosso olhar e da nossa identidade nacional. Vindo com a chamada Missão Francesa de 1816 foi responsável pela fiel reprodução dos tipos nacionais da época, demonstrando a vida dos negros, índios e mestiços e sua relação com os senhores de escravo no campo e nas cidades de maneira realista, não mais idealizada e presa a padrões acadêmicos como foram Eckhout e Franz Post. A obra Enterro de uma Mulher Negra demonstra a diferença entre negros e brancos até mesmo no tratamento oferecido pela Igreja Católica. Note que tudo acontece do lado de fora do templo. Do mesmo modo, em O Jantar Debret mostra de modo realista o modo como se organizava a sociedade escravocrata brasileira. Os negros de pé a cuidar da tranqüila refeição de seus senhores traduz uma desigualdade não muito distante, enquanto as crianças são tratadas como bichinhos de estimação a despertarem a atenção da senhora que os dispensa algumas migalhas do farto almoço. A técnica utilizada foi a litografia, típica da Revolução Industrial, cuja reprodução em escala e a qualidade da imagem eram adequadas à sua pesquisa científica. Lembrese que, embora favorecesse o uso de cores, a obra foi colorida por meio de aquarela, dando uma melhor resolução e variação de cores. A litografia foi desenvolvida na Alemanha em 1790, por Alois Senefelder (1771-1834). Seu uso se difundiu rapidamente no século XIX como técnica de reprodução, contribuindo decisivamente na divulgação e popularização de imagens em rótulos, jornais, revistas e cartazes. A fixação da imagem na pedra não vem do encavo característico de toda gravura, mas de um processo químico de repelência entre água e óleo e do uso de produtos como o ácido nítrico. Embora exigisse um trabalho em equipe, a litografia mostrou-se eficiente e versátil, pois, além da qualidade visual, os desenhos eram executados sobre a pedra de modo semelhante ao papel. Análise: as duas obras de Debret seguem os padrões clássicos de representação no tocante ao uso comedido das cores e da luz difusa iluminando por inteiro os ambientes, no entanto, por se tratarem de ilustrações científicas, têm por obrigação a representação fiel aos modelos utilizados. Na primeira predominam as cores quentes, o ritmo intenso das formas e a assimetria na distribuição dos elementos, porém, embora a igreja à direita faça do lado direito uma área de grande destaque, o tamanho das personagens em primeiro plano e a profundidade espacial da paisagem ao fundo no lado esquerdo equilibram a imagem. Na segunda obra, o jogo entre luz e sombra é mais harmônico e a simetria é mais visível, prejudicada levemente pela diferença numérica de elementos entre um lado e outro, 2 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA Modesto Broccos, A Redenção de Can, 1895, óleo sobre tela A questão da identidade nacional começou a despertar o interesse dos governantes a partir de 1822 com a independência do Brasil, no entanto essa identidade era tratada de maneira totalmente voltada para os interesses da Coroa, tendo o Romantismo surgido no seio do IHGB (1838) exercendo o importante papel de promotor dos símbolos e ícones da nova ordem. O problema é que as teses naturalistas que norteavam as produções da época na literatura e nas demais artes um enaltecimento ao branco europeu, uma mitificação do nativo e uma forte negação aos negros e mestiços. Para conferir isso basta procurar o negro na pintura da época e verificar a idealização do índio (branco e clássico), desprovido de sua forma natural e de valores também distorcidos. O determinismo biológico, cruel com negros e mestiços é o objeto dessa obra de Modesto Broccos intitulada A Redenção de Can, na qual o artista faz uso de um tema bíblico como uma metáfora para representar as condições decorrentes da mestiçagem no Brasil, época em que estudiosos procuravam demonstrar que o país passaria por um processo de embranquecimento em função da superioridade do sangue europeu, como na tese apresentada por João Batista Lacerda, no I Congresso Internacional das Raças, realizado em Londres, em julho de 1911, na qual a tela foi utilizada como ilustração de suas idéias. Note como a avó negra agradece aos céus pelo fato da criança, filha de uma mestiça com um pai luso, ter nascido branca. A obra A Redenção de Can foi considerada por Olavo Bilac o maior símbolo do preconceito no Brasil. Análise: a obra possui características realistas, o que é ratificado pela ênfase dada aos detalhes que enfatizam a busca pela representação o mais verossímel possível ao ambiente pobre que cercava negros, índios e mestiços no Brasil. A criança branca, personagem principal, ocupa o centro geométrico da imagem, estabilizando a cena e compensando a leve assimetria presente. A porta ao fundo emoldura e destaca a figura masculina, enquanto a escuridão da casa compensa o tamanho da mulher negra e da árvore à esquerda. Predomina a luz difusa a iluminar a cena. O termo “raças” somente foi substituído por “etnias” no Brasil a partir de 1955 com o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), no entanto a valorização dos tipos nacionais já havia ganhado forma com o Realismo de pintores como Almeida Jr e seus caipiras e mestiços, tendo os modernistas, como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, valorizado e enaltecido o índio, o negro, o mulato... Na segunda fase do modernismo brasileiro, Cândido Portinari veio trazendo a denúncia do sofrimento dos retirantes, operários, marginalizados. Atualmente alguns artistas continuam a retratar o negro e o mestiço e a analisar suas condições sociais. É o caso de Rosana Paulino que, por meio de uma linguagem contemporânea e conceitual, busca levantar questões como o papel da mulher negra na sociedade, observando sua posição na mídia, no mercado, na política, no lar; sua relação com os padrões de beleza. Em parede da memória ela faz uso de materiais tidos como típicos do universo feminino: a agulha e a linha unindo, distorcendo e criando novos significados para eles, numa linguagem típica da arte conceitual. 3 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA Os Kayabi habitam o Parque do Xingu, no Estado do Mato Grosso. Conhecidos historicamente como guerreiros ferozes, Têm como língua falada a Kayabi, da família TupiGuarani, e dominam bem o português. As primeiras referências étnicas são encontradas em relatos de índios de outras tribos da região, transcritos por expedicionários que percorreram o Brasil Central a partir do século XVIII e mais intensamente no século XIX. O contato com seringueiros, mineradores e colonos a partir do séc XIX foi um desastre para os Kayabi. Muitas são as histórias de massacres, expulsão das terras e doenças adquiridas que contribuíram sobremaneira para a quase extinção do grupo. Embora tenham vivido o inevitável processo de aculturação, comum a partir do contato entre povos tão diferentes no Brasil, os Kaybi conseguiram preservar de modo praticamente inalterado importantes tradições como as festas, os cânticos, as danças, a pintura corporal e o artesanato de caráter funcional, com arcos, flechas, ranhadeiras, peneiras, ritualístico, com instrumentos e cerâmica, e ornamental, como colares de tucum lisos ou com figuras antropomórficas. Nos objetos é bastante comum a presença de padrões gráficos que remetem à mitologia. Um importante testemunho dos hábitos e da aculturação pela qual passaram os Kayabi, é a realização de um ritual chamado Ywaci ou Djawasi que, originalmente, seguia à captura de inimigo que era decapitado, o crânio exibido como troféu e quebrado posteriormente. Essa festa acontece hoje em homenagem a um visitante, ou nos encontros de grupos Kayabi. O inimigo morto agora é substituído por um boneco, o añangI. A tradição é preservada, porém a violência abolida. WANGECHI MUTU A keniana usa o recurso da colagem para representar as condições da mulher africana. Os temas incomodam, a começar pelos títulos associados a exploração sexual, desigualdade e doenças venéreas. Suas obras parecem oscilar entre o pesadelo, a fantasia e a realidade, lembrando movimentos como o Surrealismo. A obra A Ascensão da Borboleta nos Campos da Matança, é construída de símbolos e ícones africanos, são animais e plantas a formarem uma imagem feminina que remete ao materialismo, ao mundo da moda, mas que também alude às chacinas ocorridas em várias nações do continente. Análise: na obra é possível percebermos elementos visuais como segregação e unificação. Primeiro segregamos, desconstruímos a forma a partir do momento em percebemos os elementos individuais, como animais, flores e outros objetos; depois unificamos tudo por meio da proximidade e da semelhança entre estes de modo a reconstruir a imagem feminina. O ritmo é regular e harmônico e o movimento é dado pela presença de linhas e formas diagonais e curvas. Na mesma linha conceitual, o irreverente e provocativo Nelson Leirner faz uso de objetos cotidianos e kitsch, trabalhando com uma iconografia que permite várias interpretações, uma vez que abraça grupos diversos. É a própria massificação da cultura e dos indivíduos. Aqui religiões, procissões, festejos, etnias, miscigenados, mídia e indústria cultural fundem-se para representar a própria Nelson Leirner, Missamóvel, instalação mistura que é o Brasil. 4 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA Nelson Screnci, Metamorfose dos Excluídos, 1999, técnica mista Lembram da obra Caipira Picando Fumo, de Almeida Jr? Pois bem, nesta releitura de Nelson Screnci a temática dos marginalizados, excluídos, retorna, porém agora com uma roupagem atualizada. O uso de múltiplos gera o ritmo da imagem que traz diversos tipos nacionais negados por autoridades, pelos diversos sistemas de governo, pela mídia e setores da sociedade. São trabalhadores braçais, ambulantes, engraxates, pedintes, enfim, frutos de uma desigualdade histórica em nosso país. Sua metamorfose está apenas nas roupas, no visual, na região ou local em que se encontram, mas a situação é a mesma. Na segunda versão, metamorfose cultural, de 2000, a figura do caipira vem fundida à imagem da negra, da obra de Tarsila do Amaral. Novamente o artista faz uso da repetição rítmica de imagens para transmitir sua mensagem. Nelson Screnci, Metamorfose dos Excluídos, 2000, técnica mista Eldorado Uma importante característica dos trabalhos de Screnci é o uso de uma linguagem cotidiana, praticamente em forma de tirinhas, dos quadrinhos, que remetem às películas cinematográficas. Suas obras decorrem de lembranças pessoais e das informações captadas no dia-a-dia. O recurso da repetição de formas pode ser entendido como uma alusão ao próprio ritmo intenso da vida moderna e à condição humana em meio a um universo de tantas informações. Obras como Eldorado, em que casas e pequenos edifícios amontoam-se, espremem-se no pequeno espaço da tela (por que não no espaço urbano dos grandes centros?) aborda de maneira metafórica a esperança por uma vida melhor, a busca pelo “ouro” das capitais, a grande migração que gera desigualdade e perda de identidade. Análise: a principal característica das três imagens é o ritmo regular gerado pela repetição das formas que proporcionam um belo dinamismo visual às obras, com uma intensidade maior em Eldorado. É possível percebermos também a ausência de sombras e a harmonia decorrente de fatores como clareza e pouco contraste entre as cores, o que, em certos momentos chega a prejudicar a relação figura/fundo. A pintura da sagração, o momento da assunção do poder dos monarcas, foi um tema da arte neoclássica que visava tornar épico aquele momento. Um dos maiores exemplos é a Sagração de Napoleão, de David. Observe as semelhanças entre as duas, como os imperadores ocupam a área de maior peso visual que é o canto inferior direito, finalizando a narrativa da cena. Vale lembrar que Debret vem da academia francesa, chegou ao Brasil com a Missão Artística de 1816, convidada Debret, Sagração de Dom Pedro I, óleo sobre tela, por Dom João VI para modernizar a colônia, pondo-a em 1822 sintonia com o que estava em voga na Europa, nesse caso o Neoclassicismo, movimento artístico que simbolizou a rebeldia iluminista que culminou na mais importante revolução burguesa, a Revolução Francesa. É interessante notar como um movimento que teve sua origem na revolta anticlérica e antimonárquica tornou-se, após a desilusão com Robespierre, a arte oficial dos regimes absolutistas, como o de Bonaparte e de tantos outros governantes, inclusive no Brasil, até ser confrontado pelo Romantismo e, Jacques-Louis David, Sagração de Napoleão, óleo radicalmente, pelo Realismo. sobre tela, 1808 Na obra Sagração de Dom Pedro I o ambiente monumental reforça a grandiosidade e o poder do 5 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA representado. As linhas de perspectiva convergem para um ponto de fuga próximo ao centro da imagem, o que contribui para sua estabilidade, característica que é acentuada pela distribuição quase que simétrica dos elementos, traço típico da arte clássica. Embora a repetição de figuras humanas acentue o ritmo da obra, o movimento é contido, uma vez que o momento é um tanto sereno. A cena segue uma narrativa tradicional da esquerda para a direita, encerrando a narrativa justamente na imponente figura do novo regente Análise: Sagração de Dom Pedro I apresenta estrutura fiel à tradição clássico/acadêmica valorizada pelos artistas neoclássicos. Nela predomina a simetria, a simplicidade, a regularidade, a clareza e a harmonia. As linhas de perspectiva convergem para um ponto de fuga localizado no centro geométrico da imagem, o aumenta a estabilidade da obra; a narrativa acompanha o modelo tradicional de leitura, da esquerda para a direita, encerrando-se na figura do imperador. A obra de Chardin é representante do estilo ROCOCÓ, cujo rebuscamento e requinte caracterizavam a arte oficial da aristocracia do século XVIII. O Rococó teve sua origem associada a ornamentação barroca, porém de modo mais contido no uso das cores e dos motivos ornamentais. Um princípio ideológico dos mecenas aristocráticos, grandes consumidores desse estilo era o uso da arte para diferenciá-los da classe burguesa e da massa popular. Assim, as cenas retratavam o universo da nobreza, seus hábitos, seu dia-a-dia, seus valores, com cenas como essa de Chardin, A Boa Educação, em que uma jovem é submetida aos ensinamentos que iam da Chardin, A Boa Educação, séc XVII literatura ao bom comportamento. Análise: Na obra de Chardin prevalece a instabilidade, fato decorrente da maior concentração de elementos visuais e, sobretudo, pela luz à esquerda que resulta em área de grande peso visual. O artista segue a tendência do estilo Rococó em valorizar o ambiente, o requinte e a aura de sobriedade distinta da nobreza de modo objetivo. Por falar em Neoclassicismo, vamos lembrar que, quando surgiu, por volta de 1874, veio representando a racionalidade e o humanismo iluministas, reagindo ao exagero do barroco católico e à frivolidade do Rococó aristocrata. A arte neoclássica resgatou a estrutura e os padrões estéticos renascentistas associados aos temas mitológicos gregos, trazendo ainda temas históricos, cenas épicas, retratos, e a natureza-morta. A escultura de Canova representa esse estilo, cuja origem burguesa, depois redirecionada à monarquia, sempre esteve ao lado de uma Canova, Eros e Psique, 1793, mármore elite, sendo marcada pelo apelo estético e pelo refinamento. Análise: os valores clássicos mostram-se presentes mais uma vez, agora numa escultura. Primeiro atentemos para a temática de origem mitológica grega, segundo o material nobre utilizado, o mármore, terceiro a suavidade, leveza e padrões estéticos voltados para a beleza material e transcendental e, por fim, o movimento controlado e a harmonia do conjunto. O Romantismo teve em Goya seu grande precursor. Seus trabalhos produzidos quando da ocasião da invasão napoleônica à Espanha trouxeram pela primeira vez o horror da guerra a público, sem a glória ou o heroísmo do classicismo. Tudo transpira horror, morte, crueldade, é a guerra igual em todos os cantos; ao fundo a igreja, a cidade dorme, enquanto os revoltosos são cruelmente massacrados. A série de gravuras intitulada Desastres da Guerra causaram sentimentos diversos na época devido à veracidade e realismo das cenas. Era se como o autor Goya, Fuzilamento de 03 de Maio, 1814, óleo sobre tela tivesse assistido a todas aquelas cenas (o que não é improvável). As obras de Goya trazem consigo uma marca 6 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA do Romantismo: o nacionalismo. Sentimento que marcará esse movimento em todos os países. *nota: lembre-se de que as gravuras foram reproduzidas a partir de uma placa de metal (ouro, cobre ou bronze), a chamada calcogravura. Goya fazia uso tanto da ponta seca, gravação feita pelo uso de uma haste de metal sobre a placa, desenhando como se usasse um lápis, e da água forte ou maneira negra, que consistia na fixação da imagem na placa de metal por meio do uso de ácido. Goya, Desastres da Guerra, litografia, 1814 Análise: As duas imagens apresentam composição estruturada em duas faixas diagonais (herança do Barroco) que, de imediato, dinamizam as cenas. Na primeira a distinção entre figura e fundo é imediata, fato decorrente do contraste intenso entre luz e sombra. A luz também segue o modelo Barroco, sendo seca, de foco direto e objetivo a destacar as personagens principais e a conferir dramaticidade à cena. Embora notoriamente assimétrica, possui certo equilíbrio visual dado em razão da compensação de pesos. As personagens são dispostas em dois grupos distintos: à esquerda as vítimas, dispostas em ritmo alternado, intenso e irregular; à direita os soldados, perfilados em ritmo calmo, regular e ordenado. Seus rostos ocultos são uma alusão á violência presente em todo o mundo. O contraste de direção entre as armas dos soldados e a personagem de branco faz dessa área ponto de maior tensão espacial. Na segunda imagem as formas diagonais dão a tônica de todo o movimento presente, enquanto a linha maior que liga o canto superior esquerdo ao inferior direito prende o olhar do espectador à grotesca cena. A pintura de Delacroix, exposta em 1831, é um marco do Romantismo – estrutura diagonal herdada do Barroco e a temática social são destaques. Observe a semelhança com a composição de Goya. O tema é uma alusão à vitória da Revolução Liberal de 1830 frente à vitória efêmera do conservadorismo promotor do Congresso de Viena. A bandeira com os ideais da Revolução Francesa está novamente tremulando, triunfante após a proibição imposta pela restauração Bourbon. O artista que não pegou em armas lutando pela pátria, como ele mesmo ressaltou, armou-se com pincéis pintando por ela. Esse patriotismo é a força do Romantismo Delacroix, A Liberdade Guiando o Povo, 1831, óleo sobre tela Análise: a mesma leitura feita nas obras de Goya aplica-se nesta de Delacroix: predomínio da divisão diagonal entre os planos, ritmo intenso e alternado com as personagens verticais a romper com as posições das demais, movimento e dramaticidade O outro lado do Romantismo está em sua associação à natureza, talvez pela influência de pensadores como Rousseau. Graças aos românticos a pintura de paisagem firmou-se como gênero nas artes, surgindo como uma reação a artificialidade promovida pela indústria e ao crescimento das cidades. William Turner diferenciase dos demais paisagistas pelo realismo das imagens e pelo modo como explora a relação entre os elementos como o vento, a água e a luz, buscando captar a atmosfera de maneira dinâmica, contrariando o caráter estático comum a esse gênero, como pode ser percebido na tela Naufrágio em que a intensidade e dramaticidade do momento é claramente perceptível. William Turner, Naufrágio, 1808, óleo sobre tela Nesta outra obra de Turner temos o início do trabalho fora dos ateliês que tanto impulsionaria o futuro Impressionismo de 1874. O ambiente é apenas desculpa para o artista retratar a força da luz do dia, a maneira como se integra às formas, alterando-as, numa composição calma que logo se tornaria dinâmica em obras do mesmo período, como Vapor e Velocidade ou Vapor em Meio à Tempestade. Embora seja possível perceber a claridade vinda de modo frontal, a luz difusa ilumina todo o ambiente. Nela, a grande diagonal que margeia o rio contrasta com o ritmo cadenciado e com a verticalidade das árvores que a acompanham. William Turner, Mortlake Terrace, 1826, óleo sobre tela 7 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA Millet, Angelus, 1857, óleo sobre tela A obra Angelus, de Millet constitui uma verdadeira ferramenta do socialismo do século XIX, cuja principal corrente artística foi o Realismo, movimento engajado social e politicamente. O cenário paradisíaco, cuja luz difusa promove um dourado resplandecente, gera uma cena idílica, no entanto, se observarmos bem as personagens em primeiro plano, podemos verificar a pobreza e o sofrimento oculto. É como se quisesse dizer que por traz de toda beleza há alguém pagando o preço. É a síntese da desigualdade entre as classes na era da Revolução Industrial. A arte realista nega o exagero e a dramaticidade do Romantismo, mas reage principalmente à frieza e ao descompromisso dos neoclássicos com a verdade. O Angelus na verdade é uma oração feita pelos camponeses ao entardecer e nessa imagem, há uma introspecção tamanha que intrigou artistas de gerações posteriores. Definir ou classificar as obras de Rodin não é tarefa fácil tampouco recomendada. Adepto do que ele denomina “obra não finita”, tem como característica marcante a captação do momento da criação artística. Suas figuras são congeladas em meio a uma ação, parecem brotar do mármore ou do bronze, como na obra O Torso de Adele, cuja falta dos membros superiores e inferiores geram um incômodo e uma certa expectativa em relação ao devir. Rodin está mais próximo da corrente REALISTA, embora possua certa ligação aos simbolistas. Rodin, O Torso de Adele A obra O Quarto Estado, de Giuseppe Pellizza, 1901, foi inicialmente planejada como uma homenagem à Revolução Francesa e ascensão da burguesia, no entanto o autor a conduziu para a realidade da época da transição do séc. XIX para o XX. O tema passou a representar a classe operária, os trabalhadores e a luta de classes incentivada pelo pensamento socialista em desenvolvimento. Os outros três estados são: o clero, a nobreza e a burguesia. O estilo de pintura é o Realismo, caracterizado pelo engajamento político e social. Eduard Manet foi um dos inspiradores do Impressionismo e, mesmo sem chegar a se declarar como tal, participou de várias exposições do grupo de artistas formado a partir do Salão dos Recusados, de 1874. Na obra Bar em Folies-Bergére, de 1882, é possível notar o trabalho executado com pinceladas largas ao estilo impressionista. Nota-se também a curiosidade despertada pelas luzes. A grande crítica a essa obra pelo suposto erro de perspectiva presente no reflexo da atendente e do senhor no espelho ao fundo. Na verdade, não se trata de um erro em si, mas de uma licença artística do pintor no intuito de reproduzir uma imagem que brinca com visões simultâneas de um mesmo lugar. Degas, Mulher Passando a Ferro, 1885, Giz pastel seco O Realismo e o Romantismo influenciaram diretamente o Impressionismo, corrente firmada a partir do “Salão dos Recusados” de 1874, cuja principal característica era seu caráter essencialmente científico, voltado para o estudo acerca dos efeitos da luz sobre as formas e, consequentemente, sobre os objetos, alterando-os diante do olhar. Os impressionistas romperam com os padrões acadêmicos, direcionaram seus trabalhos para a física, estudando a fusão óptica e o contraste mútuo das cores. A fotografia desenvolvida na época promoveu a liberdade do artista em relação a ideologias ou padrões estabelecidos, influenciou trabalhos como a pintura de Degas e suas bailarinas. A resolução fotográfica da época norteou sua produção; a fragmentação típica do impressionismo é claramente verificada nesta imagem. A luz difusa ilumina a cena. 8 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA Degas, O Ensaio de Balé Degas, A Pequena Bailarina de 14 anos. Eliseu Visconti, Golfo de Nápoles com o Vesúvio ao Fundo Assim como Manet, Edgar Degas nunca se manifestou um impressionista, no entanto também expôs com o grupo e carrega características dessa corrente em suas pinturas. Difere-se por trabalhar mais em ambientes fechados e iluminados artificialmente. Sua pintura também não possuía a instantaneidade impressionista, embora pareça. Na verdade, o enquadramento e aparente “congelamento das cenas eram resultantes (em muitos casos) do uso da fotografia como base de seus trabalhos. Diferentemente da frieza impressionista, apresentava certa temática social em suas obras, como no interesse pelos freqüentadores da noite parisiense e pelos novos trabalhadores da revolução industrial, como na pintura Mulher Passando Ferro. A Pequena Bailarina de 14 Anos, 1881, cera e tecido. Essa pequena escultura causou verdadeiro furor ao ser apresentada pela primeira vez ao público. As reações foram as mais variadas, chegando inclusive à indignação. A feiúra e indiferença da pequena menina diante do olhar dos espectadores incomodavam os tradicionalistas que afirmavam que a obra deveria ser exposta não numa galeria de arte, mas em um museu de antropologia. Degas a exibiu dentro de uma caixa de vidro, isolando-a mesmo dos observadores, como se fosse em uma jaula. Na verdade, ele demonstra sua indignação com a realidade vivida pelas jovens dançarinas. Amante do bale, acompanhava o ingresso das meninas, grande parte de origem humilde a buscar melhores condições, um futuro promissor. O artista conhecia os bastidores dos teatros, via os homens inescrupulosos e seus encontros furtivos com essas garotas. Em suas pinturas é comum percebermos vultos ou figuras masculinas vestidas com trajes escuros, sombrios, como que na espreita. Degas deforma propositadamente o rosto da pequena bailarina, como numa referência aos pensamentos deterministas do século XIX, entre eles o cultural e o biológico, assim, a adolescente parece mesmo um objeto a ser analisado, não como um se humano, mas um ser desprovido de sentimentos, pois isso não interessava aos homens da época. É interessante que a menina Anne, que serviu de modelo, de origem pobre, chegou a obter certa fama, no entanto desapareceu misteriosamente ainda muito jovem, como se confirmasse a visão melancólica de Degas. A escultura é feita de cera e tecido, a estrutura interna é composta de pincéis do artista. Quando questionamento sobre o porquê de não utilizar o bronze, comum na época, Degas respondeu que aquele metal era perigoso, pois poderia durar para sempre. Pense nisso. Eliseu Visconti desenvolveu seus trabalhos entre 1885 e 1944, sendo um dos precursores do modernismo no Brasil. Dotado de genialidade e criatividade ímpares, sofreu influências diversas em sua arte, principalmente do Romantismo e do Impressionismo, como pode ser percebido na obra Golfo de Nápoles com Vesúvio ao Fundo, em que predomina o brilho propiciado pela luz difusa. Ness obra em que predomina a calma e o repouso das linhas horizontais, a diagonalidade da praia e verticalidade das pequenas figuras proporcionam suave dinamismo. Além de pintor, atuou como designer, momento em vivenciou a ornamentação e a beleza da Art Nouveau. 9 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA Nu Feminino Deitado, 1896, Rafael Frederico Vincent Van Gogh, O Semeador, 1885 O Semeadador, feito por Millet em 1850 Rafael Frederico (1865 - 1934) foi um pintor, desenhista e professor.nascido no Rio de Janeiro. Em 1893 ganhou o pręmio de viagem àEuropa, oferecido pela Escola Nacional de Belas Artes. Lá, entrou em contato com a arte tradicional e com as produções de artistas impressionistas e pós-impressionistas, fato que influenciou sua trajetória e sua linguagem, libertando-o das amarras acadêmicas e conduzindo-o rumo ao modernismo. As influências impressionistas podem ser percebidas na obra Nu Feminino Deitado, de 1896, na qual pinceladas vigorosas são alternadas com o uso de espátulas e a luz difusa predomina no ambiente. A frieza e a racionalidade impressionista logo encontraram reações quanto à maneira de trabalhar dos artistas e também quanto ao próprio resultado realista, fotográfico das imagens. O mais expressivo nome foi Vincent Van Gogh, cuja vida e obra se misturam. O desejo de tornar-se pastor fez com que este tivesse contato com os mineiros, despertando nele a vontade de expressar seus sentimentos por meio da arte. Autodidata, seus primeiros esboços trazem as pessoas comuns, simples, como modelos. Além da influência religiosa que fez da bíblia sua companhia, Van Gogh tinha na leitura de autores como Victor Hugo e Emille Zola elementos norteadores de seus trabalhos. O livro “O Germinal” de Zola, a narrativa das condições dos mineiros certamente, o realismo tocante da desigualdade social na sociedade capitalista, certamente induziu a realização de pinturas como Os Comedores de Batatas, em que o ambiente mal iluminado e claustrofóbico casa-se com a pobreza das personagens à mesa; as mãos e os traços marcantes, quase deformados, são de uma expressividade que marcaria todo o trabalho do artista. A idéia de pintar o que sentia e não o que via, carregava sua obra de sentimentos; a trajetória de sua vida, repleta de sofrimento e drama e suas imagens foram determinantes para o surgimento do Expressionismo (1904), uma das mais importantes correntes da vanguarda européia. Outra grande influência sobre Van Gogh veio do realismo de MILLET, como pode ser observado na comparação entre as duas imagens do semeador aqui apresentadas. Os dois artistas comungavam da beleza que enxergavam o ofício do lavrador, lembrando a parábola presente em textos cristãos. Análise: a obra é dividida em duas faixas horizontais que são cortadas vigorosamente pela diagonalidade da árvore e pela verticalidade da personagem, dois elementos que servem para promover a distinção entre figura e fundo em uma composição tão iluminada e marcada pelo contraste gerado pelas cores complementares. A despreocupação de Van Gogh com princípios acadêmicos, como cor local e perspectiva é notada de imediato. Esta obra foi reproduzida mais duas vezes por ele, representa sua solidão e espera ansiosa pelo amigo Paul Gauguin (o que é representado pela cadeira à esquerda). Em carta escrita ao seu irmão Théo, o pintor destaca a intenção de retratar um ambiente calmo, aconchegante, organizado, destinado ao descanso. No entanto, quando o analisamos, vemos um ambiente instável, observe a Vincent Van Gogh, O Quarto do Artista 1889 desordem dos objetos, dos quadros (de sua autoria) como são “organizados” na parede. A cor vermelha da colcha sobre a cama constitui área de grande peso visual, como se 10 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA ressaltasse o leito como a parte mais importante da composição. Paul Gauguin, Quem Somos Nós? De Onde Viemos? Para Onde Vamos? 1897, óleo sobre tela Se Van Gogh reagiu de maneira expressiva ao impressionismo, seu amigo Paul Gauguin promoveu uma arte de reação focada no instinto, valorizando o primitivismo da forma e da cor. Influenciado pelas idéias de Rousseau, Gauguin fugiu dos grandes centros para morar no Taiti, desenvolvendo uma arte com vasta iconografia e simbologia carregadas de subjetividade. As cores puras saltam das telas, regras acadêmicas são veementemente negadas, assim como as propostas impressionistas. Nesta obra o artista nos deixa um testemunho, um testamento visual. Toda sua vida, o mundo e os questionamentos que o cercavam – assim como nos cercam – são dispostos de maneira quase que narrativa. Ícones religiosos misturam-se às suas memórias. A obra é construída explorando os planos verticais e horizontais, foi executada em seus últimos dias de vida. É uma obra aberta visualmente e expressivamente. O tema foi dado quando o artista a concluiu. As respostas quem pode dar? A ciência com o evolucionismo de Darwin, em divulgação na época? As diversas religiões? A filosofia? Análise: as imagens foram criadas diretamente na tela, sem esboços, dispostas de modo quase aleatório de acordo com a memória do artista. A personagem ao centro, de pé, serve como suporte e elemento estabilizador da obra caracterizada pelo equilíbrio obtido pela distribuição homogênea dos elementos e pelo ritmo alternado e intenso dos elementos. Os cantos superiores em dourado servem como moldura para o restante da composição. Seurat foi o mais significante nome do Pontilhismo ou Divisionismo. Seguidor das propostas impressionistas, interessou-se especificamente pela fusão óptica e pelo contraste mútuo das cores. A sistematização e o processo de criação pontilhista fez com que o artista rompesse com o Impressionismo. Contrário a essa corrente, Seurat executava seus esboços ao ar livre, no entanto as obras eram construídas em ateliê de modo calmo e controlado. As cores eram dispostas em Seurat, Uma Tarde de Dimingo na Grande Jatte, 1886 pequenas manchas ou pontos de tintas justapostos. Seurat, contrariando os impressionistas, buscava uma arte decorativa e que valorizasse a base geométrica das formas, o que pode ser percebido pela estrutura cilíndrica e cônicas das personagens e das arvores. Os trabalhos desenvolvidos pelo artista Andy Wahrol Andy Warhol, (1928 – 1987), um dos principais expoentes da Pop Art, Retrato de Pelé movimento de origem inglesa iniciado por volta de 1949 e e triptico de Merilyn que ganhou força nos Estados Unidos, são caracterizados serigrafia pela crítica à sociedade de consumo firmada a partir da Segunda Guerra Mundial e o que era ofertado por meio do poder dos veículos de comunicação. Andy reproduzia as imagens das celebridades alterando somente as cores utilizadas, de maneira a deixar a escolha de uma ou outra peça a cargo do público, como se estivesse escolhendo uma revista ou um outro produto qualquer em 11 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA uma prateleira. Para ele não interessava a vida pessoal da celebridade, mas a maneira como ela era vendida e consumida pelo público. O curioso é que, de certo modo, embora representassem celebridades de sua época, suas imagens remetem a um passado, a um clima nostálgico, fato provavelmente decorrente de sua ideia acerca da instantaneidade da fama alcançada em razão da promoção midiática e sua fragilidade. Seu ateliê, ou fábrica, conforme ele denominava, recebia todos os tipos de personagens de relevância social. Após trabalhar com celebridades da música, cinema, política, esportes, e outras áreas, passou a retratar anônimos abastados, ricos dispostos a gastarem quantias substanciais na autopromoção. Andy abordava a questão da repetição exaustiva das imagens na mídia como forma de fixação destas diante do público. Já nos idos dos anos 60 do século passado insistiu na máxima de que no futuro todos teriam seus 15 minutos de fama, frase que fez dele um visionário quanto à realidade dos novos tempos. Vik Muniz é na atualidade o artista de brasileiro de maior projeção mundial. Ganhou fama por suas fotografias criadas a partir de um processo de construção de imagens a partir da intervenção com materiais diversos ou de estruturas formais a partir desses materiais que vão do lixo ao luxo. Entre seus trabalhos destacam-se as séries em representa celebridades do mundo pop, como a atriz Beth Davis, em que realça seu estrelato por meio do brilho dos diamantes; Vik Muniz, Valentina, retrato construído com acçúcar Crianças de Açúcar, de 1996, que denuncia a exploração do trabalho infantil nas lavouras de cana-de-açúcar no Caribe e, recentemente, a série de criações executadas com catadores de lixo de Gramacho, na região de Duque de Caxias – RJ, um dos maiores da América Latina, que resultou no aclamado documentário Lixo Extraordinário. Em seus trabalhos, materiais são reapresentados e ganham novos significados ou então ressaltam o tema abordado. Vik Muniz, retrato de Beth Davis Frans Krajcberg nasceu na Polônia, 1921. Entre 1941 e 1945 participa da Segunda Guerra Mundial, lutando como soldado da Polônia, tendo perdido sua família no holocausto. Em 1948 imigrou para o Brasil, fixando-se inicialmente em São Paulo. Naturalizou-se brasileiro e em 1952, realizando sua primeira individual no MAM-SP. Mudou-se para o Paraná, onde trabalhou como engenheiro de uma fábrica de papel, porém, abandona o emprego e isola-se na floresta Krajkberg, Flor do Mangue, escultura com 12 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA madeira reaproveitada Emendabili, Ausência, túmulo da família Forte, Cemitério da Consolação – SP Brecheret, Sepultamento, túmulo de Olívia Penteado, Cemitério da Consolação - SP para pintar. Em 1968 instala ateliê em Itabira, Minas Gerais, executando suas primeiras esculturas com troncos de árvores mortas. Realiza diversas viagens para a Amazônia e para o Pantanal Mato-grossense, fotografando e documentando os desmatamentos. Em 1978, durante viagem no Rio Negro, elabora com Pierre Restany e Seep Baendereck a teoria do Naturalismo, baseada no contato direto do homem com a natureza, observando suas formas, cores e texturas. Krajcberg é um ativista, faz uso de troncos de árvore mortas naturalmente ou pela ação do homem em instalações e esculturas gigantescas, interferindo no ambiente, chamando a atenção do público para um tema cada vez mais freqüente: a necessidade de preservação da natureza. Aqui, em Flor do Mangue, faz uso de uma metáfora para representar não uma espécie nativa, mas todas. ARTE TUMULAR – o hábito de ornamentar túmulos acompanha o homem há muito tempo. No antigo Egito, por exemplo, os sepulcros dos faraós, sacerdotes e pessoas de prestígio era uma maneira de ressaltar sua importância, tendo caráter simbólico, mas predominantemente religioso. Na idade média os túmulos diferenciavam nobres, papas e cavaleiros dos simples mortais. A partir do Renascimento, a nova classe representada pela burguesia, ávida por arte e cultura, o que os aproximaria da aristocracia, também viu na arte tumular uma maneira de eternização e demonstração de poder. O desenvolvimento e até certa popularização desse tipo de manifestação ocorreu, no entanto, em função da racionalidade científica iluminista que, na transição do século XVIII para o XX demonstrou o grau de insalubridade no interior de templos religiosos em função da prática do sepultamento, da venda de jazigos nas igrejas, o que era acrescido por fungos e microorganismos diversos que cobriam as paredes mal iluminadas e arejadas dessas edificações. Logo, a elite acostumada a garantir seu lugar em solo sagrado viu-se obrigada a ter seus entes enterrados juntos aos indivíduos comuns, a arte veio para promover a diferenciação na “última das vaidades”, o túmulo. No Brasil essa prática desenvolveu-se com os imigrantes, principalmente italianos, que vieram substituir a mão-de-obra escrava. Eles prosperaram, tornaramse abastados e contrataram grandes escultores, como Emendabili, autor da obra Ausência, Victor Brecheret criador de Sepultamento, e outros modernistas como, incumbidos de ornamentarem, representarem sua importância mesmo após a vida, permanecendo sua memória. O interessante é observarmos a relação entre arte e espaço público. É notória a modificação que uma obra de arte promove no ambiente – casa, galeria, rua, museu – mas e o contrário, também acontece? A resposta é sim. O que pode ser verificado principalmente com a arte tumular. Todas as obras mudam seu sentido ou ressaltam este quando colocadas em um ambiente de tamanha emotividade como os cemitérios. Para confirmar isso, observe a obra acima, cujo título Ausência traduz o mais sofrido dos sentimentos: a perda. Na verdade, se olharmos com atenção, todas os objetos, esculturas, obras diversas nesses ambientes exprimem tal sentimento. 13 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA ARTE, INDÚSTRIA E DESIGN: O MOVIMENTO DE ARTES E OFÍCIOS No início do século XIX, bens como móveis e utensílios ainda seguiam a produção nas oficinas manufatureiras, onde o cuidado e o toque do artista-artesão despertavam o interesse do consumidor. Essa característica começou a mudar a partir do desenvolvimento de maquinário e moldes industriais associados a novos materiais que imitavam o trabalho e o acabamento do artesão em objetos que logo caíram no gosto popular. O fator preço final do produto foi determinante para a superação do artesanato. A indústria mostrava seu lado perverso: várias oficinas foram fechadas, uma máquina executava o trabalho de vários artífices, o desemprego logo veio à tona. Foi nesse cenário de conflito entre artesão e operário, trabalho manual e mecânico que surgiu o movimento inglês Arts and Crafts (artes e ofícios) idealizado por nomes como o pintor e designer William Morris (1834 – 1896), conhecido pelos móveis (dir.) e papéis de parede em floral que projeto (esq.) e o escritor crítico de arte John Ruskin (1819 – 1900). Essa corrente surgiu impulsionada pelas propostas socialistas de Karl Marx e significou uma importante reação ao capitalismo e a industrialização. Os idealizadores do movimento pregavam o retorno das grandes oficinas medievais e a valorização do artesão em uma arte feita pelo povo e para o povo. Como forma de reação á indústria, desprezava os novos materiais e fazia uso de formas e linhas orgânicas – flores, cipós, folhas e frutos – numa clara rejeição ao artificial. O preço final dos produtos eram elevados quando comparados aos industriais, o que foi determinante para o fim do movimento. Vaso projetado por Gallet Casa Mila, projeto de Antonio Gaudi • ART NOUVEAU - O movimento francês denominado Art Nouveau decorreu das propostas do movimento inglês, no entanto com ideias distintas, que podem ser percebidas pela relação estabelecida com a indústria, pois a produção Nouveau coloca-se no interior do processo industrial, fazendo uso dos novos materiais (ferro fundido, vidro e cimento), e das inovações no campo da ciência. Entre as características dessa corrente temos: • Rompimento com padrões clássicos de construção; • Uso intenso de ferro, cimento e vidro; • Uso de transparências com o vidro ou formas vasadas; • Linhas onduladas e leves; • Formas orgânicas (flora e fauna); • Influência das formas e curvas pré-rafaelitas • Influência de padrões orientais • Valorização da natureza • Assim como ocorreu com o Arts and Crafts, a Art Nouveau também encontrou barreiras devido ao alto custo dos objetos, mesmo assim vigorou durante a primeira metado do séc. XX, sendo substituída pelas propostas modernistas, como a Art Deco, o Purismo e a Bauhaus. 14 OBRAS INDICADAS PARA O PAS SEGUNDA ETAPA Professor RIVA Gustav Klimt foi um dos mais importantes nomes da Secessão Vienense. Sua arte denuncia a forte influência da ornamentação da típica da Art Nouveau. Considerado também um importante artista do Simbolismo, em suas obras podemos perceber figuras criadas a partir do realismo figurativo do retrato com a abstração e o lirismo da fantasia,da imaginação, como no Retrato de Adele Block Bauer. A atração de Klimt pela figura feminina fez com se tornasse precursor da concepção da femme fatale, a mulher sedutora e cercada de mistérios. O dourado comumente presente em seus trabalhos enaltecem as figuras representadas e o próprio momento vivido. Como é comum nas propostas simbolistas, aqui Klimt mantém a ideia de despertar a imaginação do público, de evitar a gratuidade da cena - característica do teatro em que informações visuais, como cenário eram abolidos - o que é confirmado pela ausência de ambiente material na cena. Análise: O fundo dividido em duas faixas horizontais é cortado pela estática figura vertical em primeiro plano. A repetição dos padrões visuais nas roupas e ao redor da personagem geram certa fusão óptica dos elementos que provocam uma sensação de confusão entre figura e fundo e de fusão das partes com o todo. A disposição da personagem no canto direito e a ausência de elementos no lado esquerdo gera desequilíbrio na imagem. 15