1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO ANA FLÁVIA TEODORO DE MENDONÇA OLIVEIRA A REPRESENTAÇÃO CULTURAL DA DEFICIÊNCIA NOS DISCURSOS MIDIÁTICOS DO PORTAL DO PROFESSOR DO MEC RECIFE 2014 2 ANA FLÁVIA TEODORO DE MENDONÇA OLIVEIRA A REPRESENTAÇÃO CULTURAL DA DEFICIÊNCIA NOS DISCURSOS MIDIÁTICOS DO PORTAL DO PROFESSOR DO MEC Tese apresentada ao Programa de Pósgraduação em Educação, da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Educação. Orientadora: Profa. Dra. Clarissa Martins Araújo RECIFE 2014 3 Catalogação na fonte Bibliotecária Katia Tavares, CRB-4/1431 O48r Oliveira, Ana Flávia Teodoro de Mendonça. A representação cultural da deficiência nos discursos midiáticos do Portal do Professor do MEC/ Ana Flávia Teodoro de Mendonça Oliveira. – Recife: O autor, 2014. 222 f.: il. ; 30 cm. Orientadora: Clarissa Martins Araújo. Tese (Doutorado) - Universidade Federal de Pernambuco, CE. Programa de Pós-graduação em Educação, 2014. Inclui Referências. 1. Inclusão escolar. 2. Deficiência. 3. Representação cultural. 4. UFPE - Pós-graduação. I. Araújo, Clarissa Martins. II. Título. 371. 9 CDD (22. ed.) UFPE (CE2014-11) 4 UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO TÍTULO: A REPRESENTAÇÃO CULTURAL DA DEFICIÊNCIA NOS DISCURSOS MIDIÁTICOS DO PORTAL DO PROFESSOR DO MEC COMISSÃO EXAMINADORA ____________________________________________________ Prof. Dra. Clarissa Martins de Araújo 1ª examinadora/presidente ____________________________________________________ Prof. Dra. Lúcia de Araújo Ramos Martins 2ª examinadora ____________________________________________________ Prof. Dra. Rosângela Tenório de Carvalho 3ª examinadora ____________________________________________________ Prof. Dra. Fabiele Stockmans de Nardi 4ª examinadora ____________________________________________________ Prof. Dra. Aída Maria Monteiro Silva 5ª examinadora MENÇÃO DE APROVAÇÃO: APROVADA Recife, 24 de fevereiro de 2014 5 Dedico este trabalho, ao meu marido Lincoln e aos meus filhos Davi e Gabriel. Obrigada por sonharmos juntos e por fazermos desse sonho uma possibilidade de vitória. 6 AGRADECIMENTOS Embora a escrita de uma tese seja um trabalho um tanto quanto solitário, pude contar com a presença de pessoas que fizeram com que essa jornada fosse menos solitária e pesada e, nesse momento tão desejado, faço dessas poucas palavras uma forma de agradecer a todos aqueles que perto ou longe contribuíram com gestos simples, como um olhar, uma palavra de estímulo, com uma oração, com um gesto de amparo em momentos de desânimo, com um sorriso largo nos momentos de desespero e com um abraço apertado nas horas difíceis dessa caminhada. A Jesus, por ser o meu amigo fiel, por ser a voz presente nos momentos de angústia, por ser a presença suave nas horas em que me sentia sozinha, por ser a direção certa nos momentos incertos, por ser aquele que verdadeiramente, esteve e está ao meu lado em todas as situações. Agradeço-lhe por continuar crendo e por fazer de tantas leituras uma forma de ressignificar a minha fé. Agradeço especialmente ao meu amado marido Lincoln, presença tão importante nesses quatro anos de doutorado. Agradeço suas palavras generosas, seu estímulo, seu amparo, seus abraços acolhedores, ingredientes indispensáveis para conclusão desta tese. Agradeço muito, por ter sido sempre e, incondicionalmente, aquele que acreditou e acredita nos meus projetos, nos meus sonhos e no meu trabalho. Agradeço pelas muitas ações que fizeram possível a concretização do sonho de tornar-me doutora – pelas incontáveis vezes em que ficou cuidando dos nossos filhos, pelas inúmeras cópias de textos que teve que tirar, pelos problemas de computador que teve que arrumar, por ter suportado ficar em casa nos feriados, nos finais de semana, nas férias – por ser esse marido, esse parceiro maravilhoso, que fez com que essa caminhada se tornasse mais leve e prazerosa. Aos meus filhinhos queridos, Davi e Gabriel. Meus amores, o que dizer a vocês que desde a barriga já partilhavam dos momentos de estudo da mamãe, que deram os seus primeiros passinhos, que falaram as suas primeiras palavras vendo a mamãe sentada diante da tela do computador. O que responder a vocês quando agora, usando um repertório vasto de palavras perguntam-me – mamãe quando é que você vai parar de estudar, quando você termina o doutorado? Imagino que vocês ainda não consigam compreender tanto esforço e tanta dedicação, tantas 7 horas que a mamãe teve que ficar longe de vocês, tantos momentos em que a mamãe teve que gritar – façam silêncio, eu preciso estudar! Talvez não compreendam nunca, ou quem sabe, quando estiverem maiores, quando forem adultos e fizerem os seus mestrados e doutorados, possam entender e perdoar as ausências, as impaciências e as muitas horas de estudo da mamãe. Saibam que vocês sempre foram a minha maior fonte de inspiração, e que os beijinhos e abraços diante da tela do computador foi o ―açúcar‖ que adoçou os momentos difíceis dessa jornada. Ao meu pai Nicanor e a minha mãe Maria das Graças, pois, sem dúvida, chegar a um doutorado foi resultado de todo investimento de vocês na minha vida e por isso agradeço muito o empenho na minha formação, pela preocupação em verme estudando e, em especial, por sempre e incondicionalmente estarem ao meu lado, torcendo pelo meu sucesso. Sinto, sinceramente, o tamanho do privilégio de ter tido um Pai, que é para mim exemplo de honra, de perseverança, de determinação, de honestidade, e por ter tido uma mãe guerreira, forte, capaz de dedicar os melhores anos de sua vida para cuidar dos filhos. As minhas irmãs Tina e Flá, e ao meu irmão Cleiton presentes preciosos de Deus na minha vida. Nesse caminho tão árduo, quantas vezes desejei estar pertinho de vocês, perto apenas para rir, brincar, chorar as mágoas, simplesmente pelo prazer da companhia das minhas irmãs queridas e do meu irmãozinho lindo. Perdoeme se nesse tempo não pude estar por perto quando vocês precisavam, não pude falar tanto no Skype e não pude acompanhar de perto o crescimento das minhas sobrinhas. Quero que saibam que vocês são fonte de inspiração para minha vida, são parte de mim e sempre foram exemplo de determinação, de força, de desapego, de coragem e, principalmente, de alegria. A minha irmã-cunhada Viviane Braga, que me ajudou a aliviar o cansaço e os momentos de desânimo. Obrigada por me escutar, por me lembrar o tempo todo que eu preciso ser menos preocupada, e por ter sempre uma palavra carregada de doçura, de ânimo e, principalmente, de fé. Sem dúvida, você foi parte importante desse trabalho, foi o meu descanso nos momentos de intervalo e a minha ajuda nas horas de desespero. À minha querida amiga Geise, e ao meu amigo Valde, pelo incentivo, pela companhia, pela torcida constante, pela amizade, pela prestatividade e por ser o meu porto seguro nessa terra tão distante. 8 À minha querida amiga de infância Larissa, pelas palavras de conforto, pelas sábias colocações, e por esses quase trinta anos de amizade sincera. Sinto não poder estar mais perto e dividir com você esse momento tão importante da minha vida, mas quero que saiba que você foi parte importante desse processo. Agradeço aos meus amigos do grupo familiar, pelos momentos preciosos na presença de Deus, por podermos partilhar das dificuldades, dos problemas e juntos sustentarmos uns aos outros em oração. O meu agradecimento especial ao Wagner e Taciana, pela amizade, pelo carinho e por abrir de forma tão generosa a porta de sua casa e possibilitar-nos momentos tão agradáveis na presença de Deus. À querida Sílvia e ao Ricardo, meus sinceros agradecimentos por ensinar-me a olhar para dentro de mim e por me ajudar a transformar as minhas fragilidades em ―pontes‖ para caminhar em direção ao término desta tese. Agradeço a CAPES, pelo apoio financeiro desde o início desta pesquisa. Agradeço a minha orientadora, Clarissa Martins Araújo por todos esses anos de orientação respeitosa, pela amizade, pela serenidade com que me acompanhou durante todo o meu percurso acadêmico e, sobretudo, por compreender, confiar e acreditar no meu trabalho de pesquisadora. Sou grata por indicar caminhos, por respeitar as minhas escolhas, os meus desejos de mudança e pela liberdade dada para condução deste trabalho. Agradeço ao grupo de pesquisa GEFAI, especialmente às queridas amigas Fabiana Vidal e Magna pelas sugestões, ideias, pelo compartilhamento de materiais, pelos debates acalorados e pelas torcidas mútuas. À professora Rosângela Tenório, pelas diversas contribuições teóricas na banca de qualificação, pelas aulas desafiadoras que possibilitaram viajar pelo universo foucaultiano e dos Estudos Culturais, pelas inúmeras indicações de leitura que foram imprescindíveis para realização desta tese e pela disponibilidade em abrir a porta da sua sala e me ajudar sempre que precisei. Às professoras Rosa Hessel Silveira e Fabiele Stockmans de Nardi, por aceitar o convite para participação na banca de qualificação, pelas observações e correções válidas, indicações de leitura e valiosas contribuições apresentadas; Aos professores/as do Programa de Pós-Graduação em Educação e, em especial, às queridas professoras Márcia Mello e Kátia Mello, por terem marcado de forma tão intensa minha formação profissional. Jamais esquecerei as aulas 9 prazerosas, as discussões instigantes e a possibilidade de olhar para vocês e desejar continuar exercendo a docência. À amiga Patrícia Ignácio, pelo apoio, empréstimo de tantos materiais, pelas discussões foucaultianas e ajuda sempre presente. À querida amiga Niege, pela sua generosidade e por ajudar-me na correção do projeto de qualificação. À minha querida amiga Neulia, por ensinar-me tanto sobre educação especial, por ser uma professora tão comprometida com a inclusão, por dar voz às pessoas com deficiência em sua sala de aula e, acima de tudo, por ser essa amiga tão dedicada, verdadeira e atenciosa. À querida amiga Roberta por ter me proporcionado tantas experiências profissionais valiosas, pelos anos que trabalhamos juntas, de forma tão prazerosa, pelo muito que aprendi com a sua simplicidade e generosidade. À querida amiga Rosângela pela correção cuidadosa do meu projeto de qualificação, pelas importantes contribuições, por ajudar-me de forma tão despretensiosa e pela amizade valiosa tecida ao longo dessa trajetória. Aos meus queridos alunos da graduação em Pedagogia e pós-graduação em Educação Especial, por terem sido a minha fonte de inspiração e problematização. Agradeço especialmente a minha ―eterna‖ aluna Dinah, por responder rapidamente a todos os meus pedidos de socorro, por ajudar-me em todas as minhas dificuldades com a informática, e por ser parte importante desta tese. À Universidade Salgado de Oliveira, onde trabalhei durante doze anos da minha vida, lugar importante onde dei os meus primeiros passos na carreira do magistério, em que pude ensinar e aprender de forma tão prazerosa. Às queridas Morgana e Shirley, obrigada pela solução de tantas dúvidas e questões burocráticas. 10 A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto. (Provérbios, 18:21) 11 RESUMO A partir do entendimento de que a deficiência é também produzida pela linguagem, buscamos, nesta tese, investigar qual a representação cultural da deficiência nos discursos midiáticos do Portal do Professor do MEC, especificando suas articulações com os saberes e poderes que operam na constituição desses sujeitos. O suporte teórico foi buscado em Michel Foucault e em autores ligados ao campo teórico dos Estudos Culturais de vertente pós-estruturalista, como Silva, Costa, Veiga - Neto, Wortmann, Silveira, entre outros. Michel Foucault oferece-nos as ferramentas teóricas e metodológicas com as quais podemos analisar os discursos, valendo-nos, também, das noções de saber, poder e objetivação. O corpus de análise consiste em um conjunto de documentos que vão desde as aulas produzidas no ―espaço da aula‖, passando pelas publicações no ―jornal do professor‖, em que se encontram artigos ligados à deficiência, aos discursos dos profissionais da educação veiculados nos vídeos institucionais, até músicas, artigos de revistas, histórias em quadrinhos (HQs), vídeos do youtube, textos da literatura infantil, que tomaram a deficiência por tema e a constituíram como objeto de conhecimento e de arte. Os achados da pesquisa mostram que a produção da deficiência, no espaço formativo do Portal, acontece por meio da articulação de diferentes discursos, evidenciando que esses sujeitos são construídos através dos saberes e poderes de diversas ciências, levando-nos a reconhecer que a deficiência nada mais é que a regularidade de certos temas, imagens e falas que se repetem em diferentes discursos. Em outras palavras, podemos dizer que os sujeitos que enunciam no Portal se apropriam e fazem circular discursos sobre a deficiência oriunda do campo da medicina, da psicologia, da pedagogia, do discurso da diversidade, da inclusão, além do discurso religioso, que se ocupam em nomear e narrar essas pessoas, fazendo surgir múltiplas representações culturais. Constatamos também que o discurso sobre a deficiência apresenta-se híbrido, pois, ao mesmo tempo em que se fundamenta num discurso inclusivo, afirmando o direito de ser diferente e enfatizando tudo aquilo que torna as pessoas com deficiência indivíduos verdadeiramente individuais, em contrapartida, atacam essa individualidade, fazendo aparecer um sujeito universal, reduzido nas conceitualizações médicas e psicológicas da deficiência. Outros achados revelam que a representação da deficiência fundamenta-se em um discurso antagônico, evidenciando que esses sujeitos vão sendo constituídos e significados 12 de maneiras múltiplas, mas nem sempre de maneira harmônica ou linear. Assim, se por um lado temos a produção do herói deficiente, representado por discursos que enaltecem as capacidades sobre-humanas desses sujeitos, por outro lado temos os discursos que apresentam os sujeitos com deficiência a partir de suas incapacidades, de suas limitações e supostas ―faltas‖. Assim, poderíamos dizer que a pessoa com deficiência é, ao mesmo tempo, selvagem (monstro), e ainda o mais obediente e puro dos seres; ele é a encarnação do herói e, todavia, incapaz de realizar as tarefas mais simples; ele é inocente como uma criança e, todavia, é incitado a falar dos detalhes mais íntimos de sua vida amorosa e sexual. Nesse sentido, esperamos que nossa tese contribua de alguma forma para questionar as lentes com que as pessoas com deficiência são vistas, e com que enunciados esses indivíduos com deficiência são falados nos processos formativos virtuais, como aqueles que acontecem no Portal do Professor do MEC. Palavras-chave: Inclusão; Deficiência; Saber-Poder; Representação cultural; 13 ABSTRACT The understanding that disability is produced by language is the premise of this thesis, which aims at investigating what is the cultural representation of disability in the media discourses posted at the website ―Portal do Professor do MEC‖( Teacher`s website of MEC), whilst specifying their connections with knowledge and power that form those individuals. This thesis is based on Michel Foucault‘s theory and in some other authors related to Cultural Studies of the post-structuralist theory, for example, Silva, Costa, Veiga - Neto, Wortmann, and Silveira. Michel Foucault provided us with the theoretical and methodological tools that enabled us to analyze the discourses, baring in mind his definition of knowledge, power and objectivation. The corpus of analyses consists of a set of documents that range from classes posted at the ―espaços de aula‖(rooms of class) to articles at the ―jornal do professor‖ (teacher´s newspaper). It is possible to find, at the jornal do professor, articles about disability, educational professional discourses presented on the institutional videos, or even songs, magazines essays, comics, youtube videos, texts of children´s literature, all of them had disability as their theme and object of knowledge and art. The research shows that the production of disability is the result of the articulation of the different discourses on the formative ―Portal‖ (Website). They give evidence that these individuals are formed by the knowledge and power of the variety of sciences, which lead us to acknowledge that disability is the regularity of certain themes, images and speeches which repeat themselves in different discourses. In other words, the individuals, that enunciate on the ―Portal‖ (Website), own and spread discourses about disability from the field of medicine, psychology, pedagogy, diversity, inclusion, and religious discourse. They name and narrate the people from which multiple cultural representation arise. This research also identified the hybrid aspect of the disability discourse, it is grounded on the inclusive discourse which asserts one rights to be different and emphasizes all that make people with disability truly individuals, however, they attack this very individuality to make a universal individual who is belittled by medical and psychological conceptualizations of disability. Some other findings have found out that what grounds the disability representation is an antagonist discourse. This points out that these individuals are both formed and understood in multiple ways, but neither in a balanced nor linear way. So, if, on the one hand there is the creation of a hero with disability, represented by discourses 14 that praise the super-human abilities of these individuals, on the other hand, there is the discourse that show individuals with disability derived from their incapacities, their limitations and alleged ―absences‖. Therefore, we can conclude that someone with disability is both a salvage (monster), and the most obedient and pure of all beings; They are the incarnation of a hero, and nonetheless, unable, to fulfill simple tasks; they are as naive as a child, but they are obliged to provide the most intimacy details about their sex and love life. We hope that our thesis may contribute to question both the lenses that see, and, the utterances that are made to someone with disability in the virtual formative processes, as it happens at the Portal do Professor do MEC. Key words: disability; knowledge and power; cultural representation 15 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Home page do Portal do Professor do MEC............................................. 47 Figura 2 – Vídeo do Youtube ―A diversidade‖...........................................................122 Figura 3 – livro infantil ―Diversidade‖........................................................................ 133 Figura 4 – Livro infantil ―Um amigo diferente‖...........................................................133 Figura 5 – Livro infantil ―A felicidade das borboletas‖...............................................133 Figura 6 – História em quadrinhos da turma da Mônica...........................................134 Figura 7 – Conceito de Deficiência Mental............................................................... 140 Figura 8 - Música ―Nada Impede que eu seja feliz‖.................................................. 147 Figura 9 – Vídeo youtube ―Tocando o céu sem braços‖...........................................154 Figura 10 – Imagem do site ―Amputados Vencedores‖............................................ 155 Figura 11 – Imagem de um cadeirante.....................................................................156 Figura 12 – Irmãos Giacomo e Giovanni Batista Tocci............................................ 159 Figura 13 – Revista ―Turma da Mônica‖................................................................... 164 Figura 14 – Vídeo ―Os três porquinhos em Libras‖.................................................. 173 Figura 15 – Nome escrito em alfabeto dactilológico.................................................173 Figura 16 – Caça – palavras em Libras................................................................... 174 Figura 17 – Vídeo ―Informática na Educação: Números em Libras‖........................ 174 Figura 18 – Reportagem ―Aulas de Libras mudam comportamento de alunos ouvintes.................................................................................................................... 175 Figura 19 - Reportagem ―Língua de Sinais ajuda escola a melhorar rendimento de estudantes‖............................................................................................................... 175 Figura 20 – Charges produzidas por surdos............................................................ 177 Figura 21 – Imagem da aula ―A deficiência Visual na escola/Espaço da aula......... 182 Figura 22 – Reportagem ―A deficiência Visual e o Mercado de trabalho‖................ 183 Figura 23 – Vídeo do MEC ―Deficiência visual e o Mercado de trabalhoMassoterapia‖.......................................................................................................... 183 Figura 24 – Fotografia de Evgen Bavcar.................................................................. 185 Figura 25 – Texto do livro ―Atendimento Educacional Especializado – Deficiência. Mental‖..................................................................................................................... 187 Figura 26 – Música ―É tão lindo‖...............................................................................190 Figura 27 – Reportagem da ―Mamãe é Down‖......................................................... 193 Figura 28 – Entrevista sobre namoro e deficiência................................................ 193 16 Figura 29 – Imagem do blog ―Cadeirantes também amam‖................................... 194 17 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Aulas selecionadas................................................................................ 100 Quadro 2 – Arquivo de análise................................................................................. 102 Quadro 3 – Enunciados sobre a deficiência nos discursos do Portal do Professor do MEC..........................................................................................................................151 18 SUMÁRIO INTRODUÇÃO........................................................................................................... 18 PARTE I – PODER E POLÍTICA DE REPRESENTAÇÃO........................................ 35 CAPÍTULO 1 – A PEDAGOGIA CULTURAL NO PORTAL DO PROFESSOR DO MEC: PRODUZINDO SIGNIFICADOS SOBRE A DEFICIÊNCIA............................ 36 1.1 A formação de professores para a Educação Inclusiva....................................... 37 1.2 O Portal do Professor do MEC e a produção cultural da deficiência................... 46 1.3 Pedagogia Cultural: ensinando sobre a deficiência............................................. 52 CAPÍTULO 2 – A REPRESENTAÇÃO CULTURAL DA DEFICIÊNCIA................... 57 2.1 Estabelecendo vínculos: um olhar pós-estruturalista sobre a diferença.............. 58 2.2 A Representação Cultural da deficiência............................................................. 64 2.3 Desnaturalizando os estereótipos: para além das evidências............................ 70 CAPÍTULO 3 – A DEFICIÊNCIA NAS TEIAS DO PODER-SABER......................... 76 3.1 A Questão do poder e sua relação com o saber na produção da deficiência...... 77 3.2 O poder disciplinar e a objetivação do Outro....................................................... 81 PARTE II – A PERSPECTIVA METODOLÓGICA.................................................... 85 CAPÍTULO 4 – CAMINHOS INVESTIGATIVOS DA PESQUISA............................. 86 4.1 A abordagem arqueológica de Michel Foucault................................................... 87 4.2 O arquivo.............................................................................................................. 96 4.2.1. A Seleção das Aulas........................................................................................ 97 4.2.2. A Seleção do Jornal do Professor e dos Recursos Multimídia...................... 101 PARTE III – A ANÁLISE DA PRODUÇÃO CULTURAL DA DEFICIÊNCIA....................... 103 CAPÍTULO 5 – A PRODUÇÃO CULTURAL DO OUTRO COM DEFICIÊNCIA NAS RELAÇOES DE PODER-SABER............................................................................ 104 5.1 Os discursos sobre a deficiência na região discursiva do Portal do Professor do MEC: descrição da função enunciativa................................................................... 104 5.2 Análise das coexistências discursivas............................................................. 111 5.2.1 O discurso da Pedagogia Inclusiva............................................................... 111 5.2.2 O discurso da diversidade: celebrando as diferenças................................... 120 5.2.3 O Discurso Clínico-Patológico e objetivação da deficiência.......................... 136 5.2.4 O Discurso Psicológico: instituindo a média, o potencial e o ritmo................ 144 19 CAPÍTULO 6 – A REPRESENTAÇÃO CULTURAL DA DEFICIÊNCIA: DESVELANDO ESTEREÓTIPOS E AS ESSENCIALIZAÇÕES............................ 153 6.1. A Espetacularização da deficiência e a produção do herói............................... 153 6.2. O bom ―moço‖ e o ―exemplo‖ a ser seguido...................................................... 162 6.3. Dependentes da proteção e ajuda dos ―normais‖............................................. 166 6.4. A surdez como sinônimo de mudez, de limitação e falta...................................170 6.5. O Cego é o tato ou o tato é o Cego?................................................................ 180 6.6. A deficiência Intelectual x Monstruosidade: relações possíveis?...................... 187 6.7. A sexualidade da pessoa com deficiência: revelando prazeres e poderes....... 193 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................. 201 REFERÊNCIAS..................................................................................................... 214 18 INTRODUÇÃO De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e, não de certa maneira e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? (FOUCAULT, 1993). A questão das diferenças sempre nos mobilizou, marcou e marca nossas escolhas acadêmicas e profissionais. O envolvimento com a problemática da deficiência permeou todo o nosso processo de formação e delineou, também, nossos primeiros passos no campo da Pesquisa, disso resultando na dissertação de Mestrado intitulada ―A construção de uma identidade docente inclusiva e os desafios ao professor-formador‖, defendida em setembro de 2006, na Universidade Federal de Pernambuco. A preocupação com a formação de professores também deu a tônica a todo esse processo, pois em nossa atuação docente, nos cursos de graduação em Pedagogia e também do curso de Especialização na área de Educação Especial, ministrando disciplinas relacionadas com a inclusão das pessoas com deficiência, pudemos observar e perceber, por meio dos diálogos estabelecidos com os alunosdocentes, em sala de aula, a enorme dificuldade e resistência destes em ensinar alunos com deficiência. No discurso desses alunos-docentes, havia sempre algumas concepções cristalizadas sobre a inclusão. Delas, duas se destacam. Primeiro, a inclusão da pessoa com deficiência era e é considerada ainda uma utopia que se apresenta ―bonita no discurso‖ mas, na realidade prática, não é viável e possível de realização. Ainda, de acordo com esse discurso pré-concebido, o indivíduo com deficiência é colocado em sala de aula regular, porém continua sem aprender, não consegue acompanhar a turma e acaba por se tornar um entrave para a aprendizagem dos alunos ―normais‖. Segundo, a presença do aluno com deficiência, em sala de aula regular, dificultaria o trabalho do professor, porque este se vê impossibilitado de ensinar a turma toda, uma vez que é necessário dispensar uma atenção, mais cuidadosa, ao aluno com deficiência. Contudo, é preciso considerar que a educação inclusiva constitui-se num paradigma educacional fundamentado na concepção de direitos humanos que 19 conjuga igualdade e diferença como valores indissociáveis, e que avança em relação à ideia de equidade formal ao contextualizar as circunstâncias históricas da produção da exclusão dentro e fora da escola. Nesse sentido, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pela ONU em 2006 e da qual o Brasil é signatário, estabelece que os Estados – Partes devem assegurar um sistema de educação inclusiva em todos os níveis de ensino, em ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social compatível com a meta da plena participação e inclusão, adotando medidas para garantir que: As pessoas com deficiência não sejam excluídas do sistema educacional geral sob alegação de deficiência e que crianças com deficiência não sejam excluídas do ensino fundamental gratuito e compulsório, sob alegação de deficiência. As pessoas com deficiência possam ter acesso ao ensino fundamental inclusivo, de qualidade e gratuito, em igualdade de condições com as demais pessoas na comunidade em que vivem. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2006, art.24) Diante disso, priorizamos a investigação do processo formativo do professor, tendo em vista que as demandas de formação, em uma perspectiva inclusiva, têm se tornado exigências de cunho político e social acentuadas no cenário brasileiro. Sem dúvida, muitas pesquisas vêm evidenciando a necessidade da formação de professores para educação inclusiva. Estudos realizados por Carvalho (1998), Garcia (1999), Martins (2003), Mantoan (2005), entre outros salientam que, para que a inclusão se concretize, na plenitude de sua proposta, é necessário pensar na formação do professor. Como aponta Carvalho (1998), sem que haja uma formação desse educador, corre-se o risco de apenas inserir a pessoa com deficiência no convívio com outros alunos, promovendo uma forma de inclusão excludente. As pesquisas realizadas pela referida autora revelam ainda que [...] a maioria dos nossos professores do ensino fundamental alegam (sic) que não se sentem ―preparados‖ e motivados para a docência de grupos tão diversificados, consideram-na difícil, pois ganham muito mal, não tendo recursos para compra de livros, ou para fazerem cursos de atualização, além de que as condições em que trabalham são muito adversas (1998, p. 164). Nesse sentido, Garcia (1999) ressalta que, cada vez mais, afirma-se a necessidade de incorporar conteúdos para aquisição de conhecimentos, competências e atitudes nos programas de formação de professores. O teor 20 essencial das disciplinas deve permitir aos professores a compreensão das complexas situações de ensino cuja ênfase direcione-se especialmente para as atitudes de abertura e de reflexão sobre as diferenças individuais e grupais. Por sua vez, Martins (2003) reafirma o que diz Garcia (1999), quando ela considera de extrema importância a inserção de, ao menos, uma disciplina obrigatória destinada a preparar educadores nos cursos de formação para o magistério e nos cursos de graduação (Pedagogia e Licenciaturas). Martins considera que, nessa disciplina, deve ser bastante enfatizada a questão da inclusão escolar dos alunos com necessidades especiais, possibilitando uma visão básica sobre o tema, sobre a necessidade de adaptar os conteúdos de estudo e as metodologias à necessidade dos alunos (...). Isso, ao mesmo tempo, cria neles uma visão mais aberta, menos preconceituosa sobre esses educandos (2003, p. 96). Portanto, entre a maioria dos profissionais e pesquisadores ligados à área educacional, há certa compreensão de que o processo de formação docente é matéria relevante no sentido de garantir uma Educação Inclusiva para todos aqueles que dela necessitem. Quanto à prática efetiva de uma Educação Inclusiva, indubitavelmente, uma das barreiras a ser superada situa-se no campo da formação inicial do professor. Contudo, temos observado, ao longo de nossa trajetória acadêmica, que os discentes continuamente buscam saberes em espaços não formais de aprendizagem. Nesse caso, os ambientes digitais são destacáveis. Em suma, algumas das várias situações por nós vivenciadas, no âmbito da docência, fizeram-nos perceber uma mudança no lócus de formação para Educação Inclusiva. É comum ver os estudantes usando vídeos do youtube para preparar seminários; fazendo pesquisa em diferentes sites em ambientes virtuais ou, até mesmo, fazendo cursos de formação em Portais e outros espaços formativos online. Nesse aspecto, tudo leva a crer que os alunos estão em busca de enriquecer suas práticas pedagógicas por outras maneiras, sobretudo na rede de informação digital, tornando-a suporte básico no momento de fazer os trabalhos acadêmicos, de 21 diversão, de relacionamento, entre outros casos. Sendo assim, a Internet passou a ser, também, um lugar de construção de conhecimento sobre a deficiência. Não há dúvida que a nova geração de alunos universitários está se formando através das tecnologias digitais, dos blogs, dos chats, fotologs, MSN Messenger, Orkut, Facebook. Como salienta Barbero (2002, p.12), quem se senta em frente aos professores, nos dias de hoje, são alunos que, ―por osmose com o meio ambiente comunicativo (sic) se encontram impregnados de outras linguagens, de outros saberes e de outras formas de escrita que circulam na sociedade‖. Diante disso, vemos que a Internet tem se constituído em um espaço importante e privilegiado no contexto atual, o que nos leva a pensar que os nossos alunos estão, com mais frequência, diante da tela do computador, aprendendo sobre a inclusão da pessoa com deficiência em outros espaços, além da Universidade. Isso nos coloca frente ao fato de que essas novas formas de apropriação do real devem ser consideradas, sempre lembrando que os novos alunos do curso de Pedagogia são, cada vez mais, ―alienígenas na sala de aula‖, como nos fala Green e Bigun (1995, p.208). Por isso, educacionalmente, não podemos negligenciar as importantes relações entre a cultura veiculada no ciberespaço, a produção de significados e a construção de representações sobre a deficiência. Então, se a educação inclusiva aponta para a necessidade da formação de professores, e se essa formação está se expandindo para outros espaços, é preciso fazer uma reflexão sobre esse novo lócus formativo que é a internet. Nesse ambiente, um espaço formativo, em especial, chamou-nos atenção: o Portal do Professor do MEC. Constatamos que muitos dos nossos alunos utilizavam-no para construir conhecimentos acerca da Educação das pessoas com deficiência. Enquanto uns acessavam-no para ter acesso a conteúdos multimídia sobre a deficiência, outros utilizavam o Portal como auxílio no planejamento de suas aulas, além de recorrerem a materiais didático-pedagógicos produzidos naquele ambiente, sobretudo aqueles relacionados com a deficiência. A partir dessa observação, passamos a fazer algumas incursões no Portal do Professor do MEC. O primeiro fato a nos chamar atenção deve-se, inicialmente, ao acentuado número de acessos, conforme os dados fornecidos pelo próprio MEC. São quase dois milhões de visitas desde o período de sua criação (2008), até o momento, contando hoje com aproximadamente 11 mil usuários. 22 O Portal é um espaço formativo permanente, que busca apoiar os cursos de capacitação do ProInfo Integrado (atualmente com cerca de 320 professores); oferecer aos professores um ambiente para que estes, após a conclusão do curso, sintam-se incluídos em uma comunidade de pessoas que utilizam TIC na Educação; disseminar experiências educacionais das e nas diferentes regiões do Brasil; oferecer recursos multimídia em diferentes formatos, assim como fornece materiais de estudo, dicas e trocas de experiências entre professores de diferentes locais, formação e interesses. Ademais, ele busca oferecer um jornal eletrônico para atender a divulgação de eventos, ideias dos educadores, bem como uma revista eletrônica que permita aos professores a divulgação de suas ideias e experiências. Alem disso, chamou-nos atenção o fato de que, no referido portal, o professor poderia ter acesso a uma série de conteúdos a respeito da inclusão das pessoas com deficiência, levando-nos a inferir que esse espaço formativo, além de assumir um lugar importante na produção de ―verdades‖ sobre os referidos sujeitos, também atua instituindo práticas e definindo decisões pedagógicas de muitos professores. No entanto, em nossas incursões pelo Portal, observamos que os discursos ali veiculados enfatizam ainda os aspectos médicos da deficiência, tais como: o diagnóstico, o desenvolvimento e o tratamento daquele sujeito. conteúdos multimídias ainda se embasam fortemente em Alguns dos um discurso multiculturalista liberal, que recomenda respeito e tolerância para com as pessoas com deficiência. Vale ressaltar que a forma como a diferença é apresentada nos discursos do Portal, pode fazer com que ela passe a ser evidenciada apenas sob o ponto de vista do discurso médico, do discurso patológico, como se a diferença se resumisse apenas ao que está faltando ao sujeito com deficiência. Existe aí o perigo de que a diferença seja explicitada como algo categorial, estático, o que poderia nos levar a não pensar nas dimensões sociais e políticas, nas lutas de poder, definidoras de categorias sociais, de grupos minoritários que vivem numa relação de força com os grupos majoritários e hegemônicos. Burbules (2006) apresenta alguns desses perigos. Vejamo-los: (...) há o perigo da concentração em diferenças particulares a expensas de outras diferenças (ou similaridades) que ficam obscurecidas no processo. Mas existe também o perigo simultâneo de nivelar todas as diferenças, ou de ―celebrar‖ a diferença, como se 23 algumas dessas diferenças não tivessem uma história – história de danos e privações reais de discriminação e até de genocídio. (...) há o perigo de que a diferença só se torne definida como diversidade, como algo externo; e que as diferenças no interior acabem submergindo. Mas há o perigo simultâneo de se considerar a diferença algo puramente voluntarista ou pessoal, e não como algo implicado na dinâmica social e política (como a diferença contra). (...) há o perigo de que as discussões da diferença só ocorram pautadas no pressuposto de elementos comuns; que ―todos somos diferentes, mas basicamente somos todos iguais.‖ No entanto, há o perigo simultâneo de se ―tornar exótica‖ a diferença; de se considerar o estranho como curioso e fascinante, exagerando-se a diferença entre o Eu e o Outro. (p. 79-180). Ao acessarmos os textos midiáticos do Portal, deparamo-nos com outra questão preocupante: muitos são os sujeitos autorizados a narrar a deficiência. Entre eles estão médicos, psicólogos, professores, especialistas de diversas áreas, além de outros. Essa realidade, naturalmente é propícia à construção de uma variedade de concepções e de definições relativas ao assunto. Por isso, faz-se necessária uma profunda investigação dos discursos emergentes dos artefatos culturais, uma vez que a deficiência pode ser fabricada a partir da ótica subjetiva de quem a narra. É, justamente nesse sentido que há o perigo iminente de o indivíduo com deficiência ser visto e narrado como derrotado, ou imbecil, ou vítima, ou frágil, ou herói, ou, simplesmente, como pessoa doente. Uma boa alusão sobre isso pode ser encontrada na afirmação de Costa (2005): (...) quem tem o poder de narrar o outro, dizendo como está constituído, como funciona, que atributos possui, é quem dá as cartas da representação, ou seja, é quem estabelece o que tem ou não tem ―estatuto de realidade‖. (...) Não há realidade intrinsecamente verdadeira, pois os enunciados tomados como verdades são construídos discursivamente segundo um regime ditado por relações de poder. Representar é produzir significados segundo um jogo de correlação de forças, no qual grupos mais poderosos (...) atribuem significado aos mais fracos e, além disso, impõem a estes seus significados sobre outros grupos. (p.42-43). Além disso, várias pesquisas têm mostrado que a relação entre cultura e deficiência é bastante conflituosa. Nesse aspecto, a pesquisa de Thoma (2002), por exemplo, investiga a alteridade surda e como ela é narrada, produzida, inventada, incluída ou excluída em filmes direcionados ao tema da surdez, bem como analisa o os modos interpelativos de um grupo de sujeitos surdos universitários. Nas discussões dos resultados, a autora verifica a incidência pejorativa dos discursos 24 cinematográficos quanto àqueles sujeitos. Na maioria dos casos, os indivíduos surdos são considerados incapazes, incorrigíveis, anormais, ignorantes e, até mesmo, primitivos. Além disso, as discussões de Thoma tratam, em contrapartida, de situações em que os surdos, apesar da deficiência, são recompensados por outros sentidos que os tornam capazes, corrigíveis, normalizáveis, inteligentes, civilizados. Por seu turno, Dall‘Agnol (2008), em sua pesquisa intitulada ―Educação e Representações da Deficiência na turma da Mônica, de Maurício de Souza‖, investiga as representações da deficiência a partir das personagens Luca (cadeirante) e Dorinha (cega)1. Ao expor os resultados de seu trabalho, a autora demonstra a existência de uma efetiva retórica da compensação nos quadrinhos de Maurício de Souza, tendo em vista que as personagens com deficiência são altamente admiradas por apresentarem características compensatórias excepcionais, como, por exemplo, beleza, charme, alto senso moral, esportividade e simpatia. No trabalho de Dall‘Agnol, as histórias de Maurício de Souza parecem corroborar uma concepção normalizadora acerca da diferença, fazendo com que os problemas derivados da deficiência apareçam de forma minimizada ou nem sejam notados, pois, nos quadrinhos, veicula-se um discurso pedagógico marcado pelo apagamento da deficiência. Em O "Outro” nos textos da literatura infantil, das estudiosas Klein e Von Mühlen (2008), a análise respalda-se na produção dos ―jeitos de ver e jeitos de ser‖. Em foco, priorizam-se as representações sobre o ―outro‖ nos livros de literatura infantil e os modos como aquele é produzido nos espaços escolares por professores e alunos. No estudo dos enredos infantis, as autoras constataram que a diferença é demarcada como desvio, sendo a pessoa com deficiência considerada como aquela que se distingue ou é diferente da maioria. Além dessas constatações, Klein e Von Múhlen evidenciam que, naqueles contextos específicos, descrevem-se situações de estranhamento provocadas pela presença do ―outro‖, além de ser atribuído ao indivíduo com deficiência o papel de vítima, herói ou de vilão. 1 As personagens Dorinha (cega) e Luca (cadeirante) foram criadas e introduzidas nas histórias da Turma da Mônica no ano de 2004. 25 Por outro lado, no artigo Ensinando sobre a diferença na literatura para crianças: paratextos, discurso científico e discurso multicultural, as pesquisadoras Silveira, Ripoll e Bonin (2010) tiveram como objetivo analisar como os paratextos 2 ensinam e buscam influenciar condutas e atitudes em relação à diferença. Foram analisados paratextos de 21 títulos e esquadrinharam-se dois discursos neles presentes: o multiculturalista e o discurso científico-informativo. Conclui-se, nesse estudo, que as diferenças constituem-se e são significadas de maneiras múltiplas, como próximas ou exóticas, ou como experiências a serem feitas, e que em boa parte, os argumentos utilizados para informar, persuadir e cativar o leitor entrelaçam os discursos citados. Nos paratextos, aparecem determinadas maneiras de falar dos sujeitos diferentes, alinhadas à preocupação de autores e editores em atuar numa certa educação para a diferença. Campos (2006), em sua pesquisa intitulada, Nem anjos, nem demônios: discursos e representações de corpo e de sexualidade de pessoas com deficiências na internet, analisou os recorrentes discursos sobre a sexualidade das pessoas com deficiência, inspirando-se em alguns dos pressupostos dos Disability Studies, dos Estudos Culturais e Estudos de Gênero. A pesquisadora analisou reportagens e entrevistas do site Sentidos, na seção Talento. Deste site foram selecionados materiais em que as próprias pessoas falavam de sua deficiência, seu corpo, sua sexualidade ou, mesmo, de sua vida particular. Assim, entre outras coisas, esta pesquisa demonstra as seguintes conclusões: Primeiro, a sexualidade das pessoas com deficiência é enfatizada e representada por elas próprias como algo fora dos padrões de normalidade, embora haja uma mudança nos últimos tempos, desse tipo de discurso e representatividade; Segundo, a sociedade parece não se importar muito com a opção sexual do sujeito com deficiência, mas sim com o seu desempenho e satisfação física; Terceiro, demais temas são considerados secundários em relação à sexualidade. Neste caso, as particularidades físicas da pessoa com deficiência são as prioridades discursivas. O estudo de Silva (2010), intitulado ―Movimentos Identitários e Políticas de Inclusão na Mídia‖, objetiva compreender a forma com que a governamentalidade – 2 Paratexto é “o conjunto de fragmentos verbais que acompanham o texto propriamente dito; pode se tratar de unidades amplas (prefácios, textos figurando na capa etc.) ou de unidades reduzidas: um título, uma assinatura, uma data, um intertítulo, uma rubrica [...], comentários na margem”. (MAINGUENEAU, 2001, p.81 apud SILVEIRA et alli, 2010, p. 99) 26 inscrita nas práticas discursivas da mídia televisiva e nas relações entre saberpoder e verdade – possibilita o funcionamento da normalização do deficiente como resistência à exclusão. A autora levanta um amplo quadro representativo de materialidades midiáticas, veiculadas tanto na mídia impressa quanto televisiva, entre 2003 e 2009, com o fim de demonstrar os mecanismos e estratégias linguístico-discursivas, empregados na produção de sentidos, nas materialidades que compõem o corpus da pesquisa. Silva (2010) verifica que o sujeito com deficiência encontra-se incluso nos diversos campos sociais e que tanto a infraestrutura quanto o relacionamento entre os cidadãos são perfeitos. Isso indica que o discurso de normalização da deficiência funciona a partir do apagamento das dificuldades e da promoção dos aspectos positivos. Em determinados enunciados, torna-se evidente a necessidade de alterar a conduta da sociedade, em geral, a fim de que o respeito aos mecanismos de acessibilidade promova o efetivo exercício da cidadania. Já em outro tipo de enunciado, enaltece-se a superação dos limites. Esse enaltecimento decorre do apelo à emoção entrevisto nas histórias de vida das pessoas com deficiência, quer os relatos sejam delas próprias, quer sejam feitos por quem as acompanha em suas trajetórias. Tais pesquisas apontam os diferentes sentidos e significados atribuídos à deficiência em artefatos culturais midiáticos distintos, por exemplo, livros, revistas, televisão, cinema, histórias em quadrinhos (Hqs), entre outros, evidenciando que, nem sempre, as imagens e representações atribuídas à pessoa com deficiência, pela cultura, têm sido positivas. Por nossa parte, preocupamo-nos eminentemente com os discursos emergentes daqueles artefatos culturais midiáticos destinados à formação de professores para educação inclusiva. O leitor poderia indagar por que elegemos os discursos sobre a deficiência numa formação docente on-line como enfoque analítico? Além das razões já explicitadas, consideramos que o Portal do Professor do MEC, como local de produção sociopolítica e de formação, em suas formas peculiares de realização, transita e negocia significados sobre a deficiência, o que excede em muito à sua pragmática de veículo informativo. Nesse sentido, os discursos direcionados aos professores e referentes ao tema da deficiência não podem ser considerados comuns, banais ou puras terminologias. Como nos aponta Larrosa (2002): 27 as palavras com que nomeamos o que somos, o que fazemos, o que pensamos, o que percebemos ou o que sentimos são mais que simplesmente palavras. (...) as lutas por palavras, pela imposição de certas palavras e pelo silenciamento ou desativação de outras palavras são lutas em que se joga algo mais do que simplesmente palavras, algo mais que somente palavras. (p.21). Diante disso, vale ressaltar que a nossa análise fundamenta-se no pósestruturalismo. Dessa prerrogativa teórica, inferimos que os ―os modos de dizer‖ sobre a deficiência, nos processos formativos, são práticas culturais cuja permanência deve ser interrogada, pois ensinam ao professor o que é ser ―deficiente‖. Visto dessa forma, o Portal pode se configurar em um espaço narrativo privilegiado para as pessoas com deficiência, como também se constituir em um lugar em que se reforça a desigualdade e a subordinação daqueles sujeitos. Contribui conosco o pensamento de Bujes (2009) ao salientar que: as ―verdades‖ expressas pela linguagem da formação docente, por exemplo, são coisas deste mundo, modos de dizer que o campo do conhecimento pedagógico cunhou e que, portanto não estão acima de qualquer possibilidade de dúvida. Assim, tais verdades vistas como não tendo correspondência com a realidade, precisam ser questionadas, desnaturalizadas, ―desarmadas‖. (p.270). Nessa direção, pretendemos examinar alguns dos discursos do Portal do Professor do MEC, que tratam especificamente da deficiência e que são veiculados através dos diversos artefatos culturais midiáticos disponibilizados ao professor, por meio do Jornal do Professor, dos vídeos institucionais e das aulas oferecidas no Espaço da aula. O jornal do professor reside na disseminação de experiências educacionais desenvolvidas em todo o país, bem como na socialização de práticas e orientações aos professores. Na seção espaço da aula, por exemplo, há um banco de sugestões de aulas onde o professor pode acessar roteiros já organizados. Esses funcionam como um planejamento prescritivo e configuram-se como uma espécie de receituário de uma aula. Entre os inúmeros roteiros temáticos destaca-se a inclusão da pessoa com deficiência. É importante ressaltar que, nessa seção, o professor tem acesso a uma quantidade considerável de artefatos culturais midiáticos, localizados em diferentes 28 mídias, desde vídeos, animações, simulações, áudios, hipertextos, imagens até experimentos práticos, além de conteúdos e informações da TV Escola, programas jornalísticos, propagandas, publicações, entrevistas, dicas, estratégias pedagógicas entre outros. Sob essa ótica, interessa-nos investigar tanto os discursos circulantes nos artefatos culturais midiáticos provenientes da chamada ―cultura de massa‖ quanto aqueles discursos considerados eminentemente ―pedagógicos‖, tendo em vista que ambos os discursos são produtores de significados, que acabam por legitimar determinadas representações de deficiência. Além disso, a opção por analisar os discursos emergentes da ―cultura popular‖ deve-se ao fato de entendermos que a educação ou a formação dos professores também acontece em outras ambientações. Nesse momento, valemonos do conceito de ―pedagogia cultural‖ assinalado por Steinberg (1997). Essa conceituação revela que educação pode ocorrer numa variedade de locais sociais em que se incluem as instituições de ensino formais, como a escola ou a universidade, porém não se limitam a ela. Na perspectiva assumida pela autora, ―lugares pedagógicos são aqueles onde o poder se organiza e se exercita, tais como bibliotecas, TV, filmes, jornais, revistas, brinquedos, anúncios, videogames, livros, esportes, etc.‖ (1997, p.102). Assim, utilizamos diversas fontes, que vão desde os discursos dos professores que enunciam no espaço da aula, passando pelas publicações no jornal do professor em que se encontram artigos ligados à deficiência, aos discursos dos profissionais da educação veiculados nos vídeos institucionais, até músicas, artigos de revistas, histórias em quadrinhos, vídeos do youtube, textos da literatura infantil, que tomaram a deficiência por tema e a constituíram como objeto de conhecimento. Dessa maneira, ao esquadrinhar esses discursos, pretendemos investigar as representações potencializadas e as que são excluídas, na emergência de uma trama discursiva em que se coloca a deficiência como foco central nos artefatos culturais do Portal do Professor do MEC No entanto, faz-se necessário destacar que concebemos ―representação‖ de acordo com a abordagem construcionista de Hall (1997b). Nesse caso, ―a representação é a produção de significados através da linguagem‖, (p.28). A representação é, assim, entendida como 29 [...] o processo pelo qual os membros de uma cultura utilizam a língua (amplamente definida como qualquer sistema que empregue signos, qualquer sistema significante) para produzir significados. Esta definição já carrega a importante premissa de que as coisas – objetos, pessoas, eventos do mundo – não têm em si qualquer significado estabelecido, final ou verdadeiro. Somos nós – na sociedade, nas culturas humanas – que fazemos as coisas significarem, que significamos. (HALL, 1997b, p.61). Os significados produzidos através dos processos de representação cultural auxiliam os professores a pensar a deficiência, a interpretarem-na, a atribuir sentido a ela, a dar-lhe um significado. Tais saberes são práticas reguladoras e reguladas, ou seja, os significados produzidos culturalmente regulam ―nossas condutas e ações sociais e práticas e, assim, a maneira como agimos no âmbito das instituições e na sociedade mais ampla.‖ (HALL, 1997a, p.18). Tais proposições colocam-nos diante da urgência de analisar os discursos dos processos formativos, no sentido de desvelar os possíveis ―essencialismos‖ existentes na produção dos sujeitos com deficiência. Sobre isso, Weeks explica que: é o ponto de vista que tenta explicar as propriedades de um todo complexo por referência a uma suposta verdade ou essência interior. Essa abordagem reduz a complexidade do mundo à suposta simplicidade imaginada de suas partes constituintes e procura explicar os indivíduos como produtos automáticos de impulsos internos. (2001, p. 43). Analisar os discursos, nesse registro, implica atentar não somente para os essencialismos, mas também para as estratégias de estereotipização utilizadas na produção da deficiência no Portal do Professor do MEC, tendo em vista que ―o discurso da estereotipia é um discurso assertivo, repetitivo, é uma fala arrogante, uma linguagem que leva à estabilidade acrítica‖ (ALBUQUERQUE JR., 2011, p.30). Todavia, é importante ressaltar que não pretendemos desnaturalizar os discursos para revelar seus equívocos ou para submeter suas representações a um julgamento normatizante. Não nos interessa dizer se as imagens ou as representações culturais da deficiência são boas ou ruins. Ao contrário, queremos revelar os mecanismos de poder e saber que lhes são correspondentes. Sobre essa perspectiva, concordamos com a afirmação de Bhabha (1998) que diz: o ponto de intervenção deveria ser deslocado do imediato reconhecimento das imagens como positivas ou negativas para uma compreensão dos processos de subjetivação tornados possíveis (e 30 plausíveis) através do discurso do estereótipo. Julgar a imagem estereotipada com base em uma normatividade política prévia é descartá-la, não deslocá-la, o que só é possível ao se lidar com sua eficácia, com o repertório de posições de poder e resistência, dominação e dependência, que constrói o sujeito da dominação colonial (tanto colonizador como colonizado). (p.106). Em face destas pressuposições, pensamos na importância de não nos restringirmos a uma análise que priorize apenas a identificação das representações culturais da deficiência. Mais do que isso, consideramos relevante destacar os jogos de correlação de forças e as relações de poder-saber que estabelecem critérios de validade e legitimidade acerca da deficiência, partindo do entendimento de que ―todas as práticas de significação que produzem significados envolvem relações de poder, incluindo o poder para definir quem é incluído e quem é excluído‖. (WOODWARD, 2009, p.18). Assim, ao reconhecer a deficiência como objeto cultural e ao definir as relações entre deficiência e poder como elementos centrais de nosso estudo, valemo-nos do pensamento de Michel Foucault. Essa perspectiva teórica ajuda-nos a entender que o poder ―incita, induz, desvia, facilita ou torna mais difícil, amplia ou limita, torna mais ou menos provável; no limite, ele coage ou impede absolutamente, mas é sempre uma maneira de agir sobre um ou vários sujeitos ativos‖ (FOUCAULT, 1995, p. 243). Outrossim, para entendermos como as relações de poder e de saber ―perpassam‖ o sujeito com deficiência, devemos considerar o pensamento do autor. temos que admitir que o poder produz saber ( e não simplesmente favorecendo-o porque o serve ou aplicando-o porque é útil); que poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder.(...) Resumindo, não é a atividade do sujeito do conhecimento que produziria um saber, útil ou arredio ao poder, mas o saber-poder, os processos e as lutas que o atravessam e que o constituem, que determinam as formas e os campos possíveis de conhecimento. (FOUCAULT, 2009, p.30). A partir desse raciocínio, interessa-nos examinar os discursos para saber até que ponto estes estão imbuídos de narrativas que constroem o Outro com deficiência, enquanto objeto de conhecimento, num processo de objetivação científica. Em outras palavras, importa-nos saber em que medida os sujeitos com 31 deficiência são posicionados como objetos silenciosos, como objetos examinados, como objetos classificados e, ainda como objetos comparados e divididos em si mesmos ou divididos a respeito dos outros considerados ―normais‖. Sobre esse processo de objetivação, Larrosa nos diz que: é no momento em que se objetivam certos aspectos do humano que torna possível a manipulação técnica institucionalizada dos indivíduos. E, inversamente, é no momento em que se desdobra sobre o social um conjunto de práticas institucionalizadas de manipulação dos indivíduos que se torna possível sua objetivação ―científica‖. (1994, p.50). Dessa forma, acreditamos que, ao definir as unidades de análise do discurso: saber, poder e objetivação, poderemos de alguma maneira esmiuçar como se manifesta, nos discursos do Portal, uma ―vontade de saber‖ sobre as pessoas com deficiência, uma vez que partimos do pressuposto de que tanto a invenção da deficiência quanto sua manutenção é resultado de uma ―vontade de saber‖ sobre os sujeitos com deficiência, que teve e tem, por sua vez, correlação com uma ―vontade de poder‖ sobre esses indivíduos. Dessa maneira, quando olhamos para os artefatos culturais midiáticos do Portal do Professor do MEC, algumas questões inquietam-nos, entre elas, enumeramos: 1. Como os Outros com deficiência são representados e narrados nesses ―artefatos midiáticos‖? 2. Será que os discursos veiculados nos artefatos culturais midiáticos do Portal têm servido para reforçar os estereótipos a respeito da pessoa com deficiência ou têm atuado no sentido de subvertê-los? 3. Será que os discursos que emergem dos textos culturais apresentam apenas uma visão essencialista da pessoa com deficiência, ou será que eles têm conseguido perturbar a naturalização, ou as convenções fixas? 4. Em que medida os discursos emergentes dos artefatos culturais midiáticos busca normalizar o sujeito com deficiência? 5. Que saberes e poderes estão envolvidos na produção da deficiência? 6. Em que medida os discursos emergentes dos artefatos culturais midiáticos posicionam os sujeitos com deficiência como objeto de conhecimento? 32 Diante do exposto, objetivamos investigar qual a representação cultural da deficiência nos discursos midiáticos do Portal do Professor do MEC, especificando suas articulações com os saberes e poderes que operam na constituição desses sujeitos. Para tanto, estabelecemos três objetivos específicos, a saber: 1. identificar que representações são potencializadas e que representações são excluídas, na emergência de uma trama discursiva que coloca a deficiência como foco nos artefatos culturais midiáticos do Portal do Professor do MEC; 2. identificar os estereótipos e possíveis essencializações existentes nos discursos produtores da deficiência; 3. analisar as relações de poder-saber produtoras da deficiência nesse espaço formativo; Com efeito, pensamos ser possível desnaturalizar a deficiência, rompendo com as transparências da linguagem. E, mais do que isso, ao desvelar a representação cultural da deficiência, pretendemos contribuir para a ruptura de certezas, verdades e crenças preestabelecidas a respeito dos sujeitos com deficiência, visando à problematização dos discursos formativos na área da educação inclusiva. Portanto, nesse aspecto, interessa-nos prioritariamente ampliar as discussões educacionais em relação à importância da cultura nos processos formativos. Desse modo, poder-se-á alterar, de alguma maneira, aquele antigo pensamento de que as diferenças são construídas em sala de aula, apenas. Assim, as diferenças podem e devem ser percebidas como construções e invenções culturalmente instituídas pelos discursos e práticas docentes, dentro e fora das Universidades. Por isso, devemos nos ater à forma como o Outro com deficiência está sendo produzido e significado nos ambientes on-line que se destinam a formar professores para educação inclusiva, tendo em vista que a forma como esse Outro é significado pode contribuir para que o professor em formação construa significados diversos sobre as pessoas com deficiência, favorecendo ou não o questionamento das relações de poder produtoras da deficiência . No entanto, pensar a deficiência, como produção cultural é uma tarefa complexa a exigir sensibilidade e disposição de pesquisa. 33 Conforme nos aponta Louro, para (...) assumir que todos os sujeitos são constituídos socialmente, que a diferença (seja ela qual for) é uma construção feita – sempre a partir de um dado lugar (que se toma como norma ou como centro). É preciso, pois, pôr a norma em questão, discutir o centro, duvidar do natural... (1997, p.141). Finalmente, reconhecer os espaços virtuais como instâncias formativas relevantes e evidenciar a importância do Portal do MEC não é suficiente para justificar epistemologicamente nossa opção investigativa, tendo em vista que há desconfianças epistemológicas da viabilidade de se fazer uma pesquisa na internet. Destarte, coloca-se generalizadamente toda e qualquer pesquisa - cujo objeto de análise seja internet - sob a suspeita do cientificismo anacrônico. Postura de desconfiança com a qual não podemos concordar. Para tanto, corrobora Canclini (2009, p.188), no que diz respeito às pesquisas realizadas na rede, ao propor a seguinte questão: ―Como deixar fora da análise este amplo pedaço do real que é o virtual?‖ Para o pesquisador, devem-se modificar as exigências quanto ao controle do conhecimento por ter se modificado a noção clássica de sujeito e o modo de estudá-lo. Mesmo sem mergulharmos nas incertezas do virtual, o problema é agudo (...) por causa dos múltiplos pertencimentos dos sujeitos em tempos de migração massiva, bem como do fácil acesso a signos de identificação de muitas sociedades. Dado que milhões de pessoas não mais são sujeitos em tempo integral de uma só cultura, devemos admitir que a versatilidade das identificações e das formas de tomar posições requer metodologias híbridas. (2009, p.189). Partindo desses pressupostos, este trabalho subdivide-se em três partes principais. Na primeira, temos três capítulos, a saber: Em primeiro lugar, destacamos os princípios e diretrizes que regem a formação de professores para Educação Inclusiva. Em seguida, evidenciamos o modo pelo qual o Portal do Professor do MEC insere-se no contexto de formação de professores, não só como um ambiente digital de aprendizagem, ou como um ambiente de formação on-line, mas também como um novo espaço de produção e circulação cultural que produz significados sobre a deficiência. Na sequência, priorizamos os conceitos de Cultura e pedagogias(s); discorremos sobre os 34 princípios que engendram as pedagogias culturais e como elas estão envolvidas na produção da deficiência. No segundo capítulo, apresentamos um diálogo entre o campo teórico do pósestruturalismo e a questão da diferença com o fim de delinear nossas escolhas teóricas, a princípio. Logo após isso, problematizamos as relações entre representação cultural e deficiência e demos ênfase a algumas noções de representação cultural, distinguindo-a de outras formas representativas. Ainda nesta etapa, tratamos da construção da deficiência a partir dos estereótipos e demonstramos a relevância de se observar, pensar e analisar as imagens estereotipadas da deficiência nos discursos dos processos formativos. No terceiro capítulo, tratamos especificamente das questões concernentes ao poder-saber e a produção dos sujeitos com deficiência. Para tanto, o capítulo dividese em dois eixos básicos. No primeiro, refletimos acerca das relações entre podersaber; enquanto, no segundo, trabalhamos as formas de exercício de poder no processo de objetivação do sujeito com deficiência, tendo como enfoque principal o ―poder disciplinar‖. O contexto da segunda parte integra apenas o quarto capítulo, em que estabelecemos algumas considerações a respeito da arqueologia foucaultiana. Nessa fase, operacionalizamos, entre outros conceitos básicos: o enunciado, a formação e prática discursivas, além das relações entre o discursivo e o não discursivo, uma vez que, por eles (conceitos) podemos observar e descrever o nosso objeto. Ainda, apresentamos o arquivo de pesquisa e explicitamos os critérios seletivos. Já, na terceira parte, no quinto e no sexto capítulos, cuidamos especialmente da análise integral dos artefatos culturais midiáticos. Se no quinto capítulo, apresentamos a função enunciativa do discurso sobre a deficiência inserta no Portal do Professor do MEC; no sexto e último capítulo, procuramos descrever a representação cultural da deficiência apreendida naquele espaço discursivo a partir dos produtos culturais analisados. Por fim, chegamos à conclusão sobre a multiplicidade discursiva existente em relação à deficiência, no espaço formativo do Portal do Professor do MEC. Para tanto, elaboramos uma breve síntese dos principais achados analíticos. 35 PARTE I – PODER E POLÍTICA DE REPRESENTAÇÃO 36 CAPÍTULO 1 – A PEDAGOGIA CULTURAL NO PORTAL DO PROFESSOR DO MEC: PRODUZINDO SIGNIFICADOS SOBRE A DEFICIÊNCIA As escolas de formação de professores necessitam ser reconcebidas como contra-esferas públicas. Por essa razão, é necessário desenvolver programas que eduquem os futuros professores como intelectuais críticos capazes de ratificar e praticar o discurso da liberdade e da democracia. (GIROUX, 1985). As últimas décadas têm sido marcadas por um investimento exponencial na formação de professores para Educação Inclusiva, quer em termos das práticas, quer em termos da reflexão teórica em diferentes domínios do conhecimento. A importância crescente atribuída à formação encontra-se fortemente vinculada à crença de que essa formação atualiza os conhecimentos e, sobretudo, as competências necessárias às mudanças exigidas pelo processo de inclusão dos alunos com deficiência na escola regular. Com efeito, o tema formação de professores para educação inclusiva tem se tornado uma das prioridades das agendas internacional e nacional, sendo muitas as ações realizadas no sentido de preparar o professor para lidar com a questão das diferenças. Em consequência disso, cursos de capacitação, de reciclagem, oficinas de formação, cursos de aperfeiçoamento, cursos de especialização, cursos on-line entre outros, surgem em vários contextos de aprendizagem. Essa tendência, em prol da formação de professores para Educação Inclusiva, tem feito com que várias instâncias formativas, sobretudo as governamentais, mobilizem-se para formar profissionais especializados nessa área. No contexto hodierno, o Portal do Professor do MEC configura-se um desses espaços formativos importantes, com um de seus objetivos direcionado para o apoio aos processos de formação dos professores brasileiros e enriquecimento da sua prática pedagógica. Portanto, esse espaço digital constitui-se em um lócus público acessível a todos os interessados em Educação. Desse modo, o referido Portal busca envolver professores em comunidades virtuais em que se visa à troca de experiências e de ideias, ao compartilhamento de conteúdos e atividades, ao fomento à produção 37 individual e coletiva de metodologias e materiais, além de favorecer o acesso a informações específicas na área de Educação Inclusiva. Nesse sentido, a Internet constitui-se um novo espaço de formação de professores. Assim, este capítulo objetiva reconhecer os espaços digitais de aprendizagem como lugares de produção de significados, de sentidos e de representações sobre a deficiência, uma vez que, ao descrever ou ao falar sobre os sujeitos com deficiência, os discursos acabam inventando-os. Com efeito, destacamos a priori os princípios e diretrizes que regem a formação de professores para Educação Inclusiva. Num segundo momento, sublinhamos a importância do Portal do Professor do MEC, como um lócus privilegiado de produção cultural da deficiência, uma vez que se trata de um lugar privilegiado de compartilhamento, distribuição e apropriação de bens simbólicos. A seguir, dirigimo-nos para as pedagogias culturais. Estas, de forma entrelaçada, com a Educação fornecem-nos subsídios para que entendamos um aspecto de suma relevância: os discursos subtraídos da ―cultura de massa‖ também produzem significados sobre a deficiência e contribuem para a formação dos professores. . 1.1 A formação de professores para Educação Inclusiva A discussão sobre a representação cultural da deficiência nos discursos do Portal induz-nos, de imediato, a algumas reflexões sobre a formação de professores para Educação Inclusiva. Inicialmente, é importante salientar que a Inclusão social e a Educação Inclusiva são expressões que ganham importância no discurso de diferentes correntes político-ideológicas ao longo dos últimos anos. Vários são os debates em que as chamadas ―minorias‖ ou ―grupos excluídos‖ figuram como matéria de pauta. Não é excessivo relembrar que esses grupos minoritários representam uma acentuada parcela da população mundial, o que, por si só, já é razão suficiente para se pensar em uma educação inclusiva. Nesse contexto, a inclusão consiste em uma luta travada por sujeitos sociais dentro de um contexto histórico-social. Em boa verdade, trata-se de uma prática cultural, complexa e paradoxal, com sentido de luta, de embate, que convive necessariamente com o seu contrário – a exclusão –, mas que se estabelece na direção de questionar e superar práticas sociais baseadas na desigualdade. Nesse 38 enfoque, compartilhamos das ideias de Lopes (2007, p.23), quando afirma que ―pensar a inclusão como campo de luta possibilita-nos entender que todos que fazem parte desse campo têm o que dizer, o que propor e com o que discordar‖. Além disso, importa ressaltar que é um grande equívoco pensar na inclusão como um processo cujo único objetivo é retirar as crianças das escolas especiais ou das salas integradoras, e colocá-las na sala de aula regular. Sobre isso, Ainscow (1997) esclarece: (...) a inclusão é freqüentemente vista apenas como envolvendo o movimento de alunos das escolas especiais para o contexto das escolas regulares, com a implicação de que eles estão ―incluídos‖, uma vez que fazem parte daquele contexto. Em contrapartida, eu vejo inclusão como um processo que nunca termina, pois é mais do que um simples estado de mudança, e como dependente de um desenvolvimento organizacional e pedagógico contínuo no sistema regular de ensino. (p. 218). Carvalho (2001), por sua vez, enfatiza que as discussões sobre a inclusão escolar implicam necessariamente debates sobre a exclusão escolar. Isso não significa a restrição do assunto em detrimento das pessoas com deficiência, mas também assegurar e dar voz (social e cultural) a outros grupos minoritários e em situação de desvantagem. As concepções sobre inclusão, ao serem direcionadas para a área da educação das pessoas com deficiência, ganham um novo contorno, como o que vemos na proposta de Mantoan (2005), ao considerar que a inclusão é produto de uma educação plural, democrática e transgressora; dessa forma, o direito à diferença nas escolas desconstrói o sistema atual de significação escolar excludente, normativo, elitista, com suas medidas e seus mecanismos de produção da identidade e da diferença. Convém sublinhar, inicialmente, que a educação inclusiva, conforme nos aponta Mendes (2002), é uma proposta de aplicação prática ao campo da educação de um movimento mundial, denominado de inclusão social, que está atrelado à construção de uma sociedade democrática, em que todos conquistam a sua cidadania e onde há um reconhecimento político das diferenças. Trata-se de um movimento de resistência contra a exclusão social que, historicamente, vem afetando grupos minoritários, caracterizado por movimentos sociais que visam à conquista do exercício do direito ao acesso a recursos e serviços da sociedade. 39 Assim, embora o debate sobre a educação inclusiva não tenha nascido no contexto da educação especial, aplica-se também a ela, na medida em que os alunos com deficiência também fazem parte daquela população historicamente excluída da escola e da sociedade. Entretanto, segundo Mendes (2002), a educação inclusiva não pode ser reduzida à errônea crença de que para implementá-la basta colocar crianças, jovens e adultos com deficiência em escolas comuns. Mittler (2003) complementa a ideia de Mendes (2002), esclarecendo que a inclusão não diz respeito a colocar as crianças nas escolas regulares, mas a mudar a escola para torná-las mais responsivas às necessidades de todos os alunos; diz respeito a ajudar todos os professores a aceitarem a responsabilidade quanto à aprendizagem de todas as crianças que estão - atual e correntemente - excluídas das escolas por qualquer razão. A inclusão diz respeito a cada pessoa ser capaz de ter oportunidades de escolha e autodeterminação. Sem dúvida, entendemos que a educação inclusiva representa um avanço considerável se comparada às práticas segregacionistas, integracionistas e excludentes que, historicamente, marcaram a educação das pessoas com deficiência. Todavia, embora haja mudança significativa no que se refere à educação das pessoas com deficiência, entendemos que é preciso pensar ou mesmo questionar as formas com que a pedagogia inclusiva tem posicionado esses sujeitos, ou ainda a forma como as diferenças têm sido vistas nesse contexto. Nesse sentido, compartilhamos com as ideias de Skliar (2003, p.46) quando questiona as formas com que a pedagogia tem posicionado esse Outro com deficiência, a saber: como o ―Outro que deve ser anulado‖, ou como o ―Outro que deve ser hóspede da nossa hospitalidade‖, ou ainda como o ―Outro que reverbera permanentemente‖. No que tange à pedagogia do ―Outro que deve ser anulado‖, o autor esclarece que é aquela que diz ao outro que está mal ser o que ele é, ou ainda que está mal ser surdo, ser mulher, ser negro, menino de rua ou jovem. Uma pedagogia, que adota como mensagem para o Outro ―está bem ser alguma coisa que nunca poderás ser‖. (SKLIAR, 2003, p.46). Nesse contexto, Skliar (2003) salienta que a pedagogia do ―outro como hospede‖ é aquela cujo corpo deve ser reformado ou autorreformado, ou aquela pedagogia que tenta alcançar o Outro, capturar o Outro, domesticando-o, buscando nomeá-lo, confeccioná-lo, uma pedagogia que hospeda, que abriga, mas à qual não 40 importa quem é seu hóspede, mas que se interessa pela própria estética de hospedar, de alojar. Por último, a pedagogia do outro que reverbera permanentemente é aquela que contraria as duas mensagens da pedagogia do Outro que deve ser anulado, e que diz com sua voz suave, ―não está mal ser o que és‖, mas também ―não está mal ser outras coisas além do que já és. (SKLIAR, 2003, p.47). As considerações anteriores colocam-nos diante da necessidade de repensarmos a relação com o Outro no processo de educação inclusiva, possibilitando-nos a compreensão de que a inclusão é mais do que ―alojar‖ ou ―hospedar‖ os sujeitos com deficiência, mas é um processo que pressupõe uma mudança nas próprias representações de deficiência e na própria relação estabelecida com esses sujeitos. Essas mudanças envolvem também um questionamento das propostas de educação inclusiva fundamentadas em uma perspectiva normalizadora da deficiência, em que ―as diferenças são disfarçadas, mascaradas e obscurecidas por um conjunto de acepções que entendem as políticas de diferenças culturais como pluralidades e diversidades.‖ (LUNARDI, 2001, p.7). Obviamente contrapomo-nos aos modelos de educação inclusiva que buscam fixar determinada identidade como a norma ou como o padrão de referência, em relação à qual a identidade dos sujeitos com deficiência são sempre avaliadas como hierarquicamente inferiores. Portanto, não compactuamos com a ideia de uma educação inclusiva baseada em mecanismos disciplinares de padronização, punição e correção dos supostos desvios dos alunos com deficiência, e é por isso que entendemos que a inclusão coloca-nos diante do desafio de pensar a diferença a partir de outra perspectiva. Como afirma Lopes, tratar a questão da inclusão pela diferença não significa anular a diferença ou não; pelo contrário, pode significar, entre outras coisas, redimensioná-la. Significa pensar a diferença dentro de um campo político, no qual as experiências culturais e comunitárias e práticas sociais são colocadas como integrantes da produção dessas diferenças. A diferença não pode ser entendida como um estado indesejável ou impróprio. Ela inscreve-se na história e é produzida com ela. Sendo uma condição necessária para a própria ideia de inclusão, a diferença surge como possibilidade de resistência a políticas excludentes e a práticas classificatórias e hierárquicas. (2007,p.21). 41 Todavia, quando se fala em educação inclusiva, uma das principais questões que se apresentam diz respeito à formação de professores. Sobre a formação, Mittler (2003) salienta que assegurar aos professores uma compreensão básica do ensino inclusivo e de escolas inclusivas é o melhor investimento a ser feito em longo prazo. Segundo ele, (...) isto assenta os alicerces para uma ―boa prática‖ sobre as quais as gerações mais jovens poderão basear-se e oferece condições para o surgimento de uma ―massa crítica‖ de professores jovens que tiveram um pouco de compreensão e experiência da prática inclusiva. (p. 189). Na mesma perspectiva, González (2002) salienta que em sua formação, o aluno deve receber uma adequada preparação básica, no sentido de utilizar estratégias para desenvolver seu trabalho com alunos que apresentam deficiência, de modo a poder oferecer-lhes respostas adequadas em situações cotidianas. Essa formação deve incluir conhecimentos, habilidades e atitudes relacionadas com a diversidade dos alunos. Os saberes e as competências necessários à formação de professores para educação inclusiva estão presentes também nos documentos, como o Parecer CNE/CP n. 0009/01, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de professores da educação básica, em nível superior, curso de licenciatura e de graduação plena. 1. orientar e mediar o ensino para a aprendizagem dos alunos; 2. comprometer-se com o sucesso da aprendizagem dos alunos; 3. assumir e saber lidar com a diversidade existente entre os alunos; 4. incentivar atividades de enriquecimento cultural; 5. desenvolver práticas investigativas; 6. elaborar e executar projetos para desenvolver conteúdos curriculares; 7. utilizar novas metodologias, estratégias e materiais de apoio; 8. desenvolver hábitos de colaboração e trabalho em equipe. (BRASIL, 2001, p. 4). O que se percebe no debate sobre a formação de professores para a educação inclusiva, apresentada neste capítulo, é que há certa concordância sobre o fato de que o professor deve receber preparação adequada para trabalhar com 42 alunos com deficiência, uma vez que a inclusão implica, inevitavelmente, mudanças na prática pedagógica, na organização e gestão da sala de aula. Dessa forma, como vimos, são elencadas uma série de competências, presentes até mesmo nos documentos oficiais, que devem ser desenvolvidas por esse aluno em formação, entre elas, é preciso que os cursos de formação incluam conteúdos em seus currículos que possibilitem ao aluno-docente trabalhar com a questão das diferenças. Entretanto, pretendemos chamar atenção para o fato de que a inserção de conteúdos relacionados à educação inclusiva, nos cursos de formação de professores, não garante a esse aluno-docente os saberes que lhe possibilitem trabalhar com os alunos com deficiência. Ainda que se considere a necessidade da inserção desses conteúdos, os cursos de formação não podem se limitar apenas a esse aspecto, mas é preciso promover um sério questionamento das próprias representações culturais de deficiência nesses espaços formativos. O conceito ou o entendimento acerca da deficiência precisa ser criticamente interrogado nos referidos processos formativos levando-se à percepção estudantil de que a deficiência é uma invenção, constantemente atravessada por outros marcadores como, por exemplo, gênero, classe social, sexualidade, raça/etnia, religião, nacionalidade. Nesse sentido, acreditamos que o campo teórico pós-estruturalista fornecenos importantes subsídios para o debate sobre a formação de professores para educação inclusiva, principalmente nas questões concernentes aos discursos produtores de significados sobre os sujeitos com deficiência. Sendo assim, apresentamos a seguir algumas das contribuições desse campo, para pensarmos o processo formativo. Em primeiro lugar, o pós-estruturalismo permite-nos conceber a formação para Educação Inclusiva como campo de luta em torno da significação sobre a deficiência. Entretanto, não podemos negar que a formação de professores é um território irregular por onde transitam discursos produtores da deficiência, havendo uma disputa de poder em torno desses significados. Desse modo, uma análise da formação baseada na perspectiva teórica pósestruturalista permite-nos conceber a sala de aula como o local de corporificação teórico-discursiva do professor e de seu posicionamento como trabalhador cultural. Todavia, este trabalho cultural deve ser realizado de maneira a desestabilizar 43 verdades preconcebidas, no sentido de que professor possa interrogar, perturbar, desmistificar criticamente estereótipos, e assim, possibilitar experimentar outras formas de compreender a deficiência. ao estudante Em relação a isso, MacLaren (1997) adverte: como educadoras, precisamos ser excessivamente cautelosas em nossas tentativas de falar pelos outros, questionando como os nossos discursos nos posicionam, enquanto autoridades capacitadas por um poder, de maneira que desatenciosamente constituem uma reinscrição dos discursos de colonização, patriarcado, racismo e da conquista. (p.97). Nessa perspectiva, seria inconcebível uma formação que, ao apresentar a pessoa com deficiência, se a fizesse a partir de dados clínicos ou de parâmetros médicos, universalizando-a. Nesse caso, concordamos com Lopes (2007) quando ele salienta que os professores estão enredados em discursos redutores em que as pessoas com deficiência estão relacionadas com a anormalidade e com a deformação. Assim, como docentes, precisamos ver o outro, também sujeito da educação, o que significa vê-lo como um sujeito possuidor de múltiplas identidades, ser ―fragmentado‖, que significa e é significado a partir dos lugares que ocupa na rede social. Nesse enfoque, uma formação apoiada nos pressupostos pós-estruturalistas, caminha na direção de desmistificar a ideia preconcebida de que existe uma essência ou uma forma única de ser ―deficiente‖. Sobre esse prisma, a deficiência não seria tratada apenas como um reflexo da natureza, mas como resultado de um processo de construção social. Por conseguinte, toda construção não poderia ser entendida, dessa forma, sem uma análise das relações de poder. Outra possibilidade advinda do encontro com a teoria pós-Estruturalista é a contraposição às estratégias pedagógicas que buscam formar o professor na perspectiva de ―normalizar‖ a pessoa com deficiência, partindo da hipótese que existe uma identidade ―normal‖ a ser imitada. Sobre isso, Silva (2009) ressalta que a normalização é um dos processos mais sutis pelos quais o poder se manifesta no campo da identidade e da diferença. O autor destaca que: normalizar significa eleger – arbitrariamente – uma identidade específica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas. Normalizar significa 44 atribuir a essa identidade todas as características positivas possíveis, em relação às quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. (p.83). Portanto, o pressuposto básico é o de desvincular a formação de professores de uma pedagogia corretiva e compensatória, fundamentada na ideia de que existe o que é certo e o que é errado, que há comportamentos aceitáveis ou não para o sujeito com deficiência, ou mesmo que existe um modelo de deficiência que deve ser estandardizado. Outra contribuição desse campo teórico reside no fato de que não podemos formar os professores para adotarem, sem a devida sensibilidade e análise crítica, comportamentos didático-pedagógicos instituídos de aceitação, de tolerância ou mesmo de respeito ao aluno com deficiência em sala de aula. Nesse sentido, é preciso dizer que nos contrapomos a uma formação baseada num ―multiculturalismo liberal de esquerda‖, uma vez que, essa concepção teórica ―trata a diferença como uma ‗essência‘ que existe independentemente da história, cultura e poder.‖ (MACLAREN, 1997, p.120). Entendemos que, ao formar os docentes na perspectiva de estimular e cultivar os bons sentimentos e a boa vontade para com as pessoas com deficiência, podemos criar desde sentimentos paternalista e superior até uma noção de que a deficiência é uma essência, que pode ser entendida apenas sob o ponto de vista biológico. Silva (2009), adverte-nos que o problema central de uma abordagem, centrada num multiculturalismo liberal, é o de que essa interpretação deixa de questionar as relações de poder e os processos de diferenciação, produtoras da identidade e da diferença. Para o autor, o resultado desse tipo de abordagem é a produção de novas dicotomias, como a do dominante tolerante e do dominado tolerado, ou a da identidade hegemônica mais benevolente e da identidade subalterna mais respeitada. Outro aspecto relevante de uma concepção formativa inspirada no pósestruturalismo diz respeito às diferentes vozes perpassadas no espaço na sala de aula, uma vez que essa teoria aponta para a necessidade de promover um espaço narrativo em que as pessoas com deficiência possam contar as suas próprias histórias. Por conseguinte, torna-se de suma importância pensar ainda nas possibilidades existentes nesse espaço e nas suas condições de uso para que seja assegurado às pessoas com deficiência o direito a falar e de produzir contra- 45 representações nos processos formativos. MacLaren (1997) trata dessa questão salientando que: (...) as educadoras precisam dar aos marginalizados e aos sempoder uma opção preferencial. (...) é preciso reconhecer a importância de espaços de encorajamento para a multiplicidade de vozes em nossas salas de aulas e de se criar uma pedagogia dialógica na qual as pessoas vejam a si e aos outros como sujeitos e não como objetos. (p.146). Dessa forma, talvez possamos dizer, em linhas gerais, que acreditamos na importância de uma formação de professores para educação inclusiva que represente algum questionamento não apenas à identidade da pessoa com deficiência, mas também ao poder a que ela está estreitamente associada. Tais considerações convocam-nos a pensar que, se a deficiência é produzida na e pela linguagem, instaura-se o desafio de refletir sobre os discursos que estão formando os professores e como a deficiência está sendo inventada nesses mesmos discursos. Ratifica, essa nossa linha de pensamento, Silva (2009) ao atestar que: a pedagogia e o currículo tratariam a identidade e a diferença como questões de política. Em seu centro, estaria uma discussão da identidade e da diferença como produção. A diversidade biológica é um produto da natureza; o mesmo não se pode dizer da diversidade cultural. (p.100). Destarte, é possível perceber que a formação de professores para educação inclusiva está se expandindo para outros espaços além daqueles formalmente instituídos, como as Universidades, levando-nos a constatar que os discursos sobre a deficiência circulam também em outras instâncias formativas, como aquelas que acontecem na internet ou mais precisamente nos ambientes de formação de professores on-line, como o Portal do Professor do MEC. Essas considerações levam-nos à necessidade de sublinhar a importância do Portal do Professor do MEC tanto no contexto formativo dos alunos como também no sentido de ser um local de produção de significados, de sentidos e de representações sobre a deficiência, uma vez que é, sobretudo, um lugar privilegiado de compartilhamento, distribuição e apropriação de bens simbólicos. 46 1.2 O Portal do Professor do MEC e a produção cultural da deficiência O entendimento de que o Portal do Professor do MEC é um lócus importante de produção de significados sobre a deficiência, conduz-nos, inicialmente, para a necessidade de traçar um mapa do território de onde parte a pesquisa. Portanto, baseando-nos nos próprios documentos disponibilizados pelo MEC, apresentaremos, a seguir, sua estrutura básica, suas diferentes funcionalidades e os principais objetivos que envolveram a criação do Portal3. Visando fomentar a participação dos professores em comunidades educacionais, com a oferta de conteúdos digitais, espaços de comunicação e outros elementos, foi criado em 2007 o Portal do Professor. Todavia sua operação efetiva deu-se em 2008. Dentre os objetivos do respectivo Portal, destacam-se os principais: apoiar os cursos de capacitação do ProInfo Integrado (atualmente com cerca de 320 professores); oferecer aos professores um ambiente para que, após a conclusão do curso, sintam-se incluídos em uma comunidade de pessoas que utilizam TIC na educação; disseminar experiências educacionais das e nas diferentes regiões do Brasil; Oferecer recursos multimídia em diferentes formatos, assim como materiais de estudo, dicas pedagógicas, links para outros portais, ferramentas de autoria, dentre outros; favorecer a interação com o objetivo para reflexão crítica e trocas de experiências entre professores de diferentes locais, formação e interesses; oferecer um jornal eletrônico para atender a divulgação de eventos, ideias de nossos educadores, bem como uma revista eletrônica que permita aos professores exercer, de forma crítica, a divulgação de suas ideias e experiência. Em relação à estrutura, o portal constitui-se através de seis grandes áreas: Recursos Educacionais; Espaço da Aula; Jornal do Professor, Área de 3 As informações apresentadas neste capítulo sobre o Portal do Professor do MEC estão disponíveis em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/materiais/0000013441.pdf. 47 Cursos e Materiais e Links. A figura abaixo mostra a página de entrada do portal, com acesso imediato a esses seis elementos principais acima mencionados. Vejamo-la: FIGURA 1- Home Page do Portal do Professor do MEC Fonte: site www.portaldoprofessordomec.gov.br O professor pode ter acesso aos Recursos Educacionais filtrando por: Nível de ensino (Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio, Ensino Profissional) e modalidades (Educação de Jovens e Adultos e Educação escolar Indígena); Componente curricular (Física, Química, Matemática, Língua portuguesa, Biologia, Artes, Filosofia, etc.); Subcomponente Curricular (por exemplo, no caso de Física, ele poderá optar por Mecânica, Ótica, Ondas, Termodinâmica, etc.); Classe de objetos educacionais: (vídeos, simuladores, áudios, imagens ou experimentos práticos). É importante ressaltar que todos os objetos selecionados passam por um comitê, composto por professores especialistas, que os validam, no sistema. Quando os respectivos objetos são aprovados pela equipe docente, autoriza-se a publicação no banco de dados do Portal. Quanto ao Espaço da aula, este foi criado para que os professores possam oferecer aulas mais dinâmicas, mais coloridas, contendo objetos educacionais e 48 desafios pedagógicos, que superam o quadro negro e o livro didático impresso. Esta área do Portal possibilita ao professor a utilização de ferramenta de edição em que ele possa construir individual ou coletivamente seu(s) roteiro(s) para uma determinada aula a partir dos objetos educacionais disponibilizados no próprio portal, ou de quaisquer outras fontes; o encontro com roteiros multimidiáticos de aulas e cursos para utilização em sua sala de aula; ter um espaço para publicação de seus roteiros e discussão de outros roteiros; O portal apresenta ao professor algumas sugestões na preparação das aulas, tais como: privilegiar estratégias em que os alunos sejam os atores principais, propondo pesquisas e colaboração debates, para que ocorra construção, entre colegas, registros e divulgação dos novos conhecimentos; propor atividades que contribuam com o desenvolvimento dos alunos nos diversos aspectos: conceituais, procedimentais e comportamentais; sugerir atividades relevantes para envolver os alunos em temas de impacto social, na melhoria da própria escola, ou da comunidade em que vivem; evitar elaborar metodologias simplesmente para o uso de recursos multimídia (vídeo, simuladores e outros), e sim, propor o uso das TIC de forma integrada no currículo e enriquecer a dinâmica de trabalho dos alunos. Nesse aspecto, o MEC considera a constituição de um banco de sugestões de aulas produzidas pelos professores e socializadas por eles na área pública do portal. O espaço da aula consta também de um conjunto de aulas produzidas pelas equipes das universidades que participam do projeto. As aulas são localizadas por 49 palavras-chave, nível de ensino, componente curricular, tema ou pelo resultado da busca feita pelos próprios professores (mais acessadas, mais comentadas, melhor classificadas por eles). Além de conhecerem as sugestões, os professores poderão também comentar, baixar, destacar, criar uma nova aula a partir da aula modelo, alterando-a, adaptando-a de acordo com o seu desejo e publicando como uma nova aula, numa proposta de construção colaborativa. Outro recurso disponibilizado no Portal é o Jornal do Professor, que tem uma edição quinzenal, com prioridade na disseminação de experiências educacionais desenvolvidas em todo o país, bem como a socialização de práticas e orientações a temas selecionados pelos professores, via enquete no Portal. Assim sendo, quinzenalmente, é possível acessar novas entrevistas com diferentes personalidades da educação, conteúdos multimídia, experiências educacionais, indicações de leituras, além de notícias educacionais do MEC, estados e municípios, eventos e outros. Nessa área, os professores, não só podem divulgar suas experiências e enviar informações; como também, podem conhecer a realidade de escolas de outros locais, as boas práticas, o resultado de projetos e outras ações educacionais. Todas as edições do respectivo jornal estão disponíveis para acesso. Por sua vez, a área de Cursos e Materiais apresenta links para sites contendo informações dos cursos ofertados pelo MEC via universidades e outros. Essa janela virtual disponibiliza materiais de estudos contendo informações categorizadas como: cursos realizados pelo MEC e parceiros, publicações, entrevistas, dicas, todos os conteúdos e informações da TV Escola, programas jornalísticos, avaliações educacionais, parâmetros e diretrizes curriculares, estratégias pedagógicas e outros. Essa coleção agrega, inclusive, indicações feitas pela comunidade de professores usuários do portal. Aqui, faz-se necessário ressaltar que os conteúdos sobre a deficiência estão presentes em todas as seções referidas anteriormente, pois, efetuando uma busca através da palavra inclusão da pessoa com deficiência encontramos duas edições do Jornal do Professor, 33 recursos educacionais, além de 769 aulas, no espaço da aula, com a referida temática, evidenciando que há uma grande produtividade de saberes sobre esse sujeito, circulando no espaço formativo do Portal. Todavia, essa breve apresentação dos aspectos estruturais do referido espaço formativo permite-nos afirmar que este constitui-se como um espaço de enunciação da cultura e, por conseguinte, um espaço importante na enunciação da 50 deficiência. No entanto, ao assumir que o Portal do Professor do MEC é um espaço de produção cultural da deficiência, devemos inicialmente esclarecer o que entendemos por cultura, sendo assim, assumimos um entendimento de cultura que se alia à concepção defendida pelos Estudos Culturais. De acordo com Raymond Williams (2011), um dos fundadores do Centro de Estudos Culturais Contemporâneos, a cultura deve ser entendida como o modo de vida global de uma sociedade, como a experiência vivida por qualquer grupamento humano. Nessa visão, não há nenhuma diferença qualitativa entre, de um lado, as ―grandes obras‖ da literatura; e, de outro, as variadas formas pelas quais qualquer grupamento humano resolve suas necessidades de sobrevivência. Hall (1997a) esclarece que para os Estudos Culturais o termo cultura passa a ser expandido, estendendo-se a uma cadeia ampla e abrangente de instituições e práticas, que incluem as atividades rotineiras e próprias do dia a dia dos sujeitos (culinária, compras, vestuário, compromissos, preferências, entre outras) e, também, as análises do desenvolvimento de corporações e instituições, corporações e do lugar de trabalho, da masculinidade, da maternidade, da família e até da cultura da magreza. Nessa mesma linha teórica, Canclini (2009, p.43) propõe a ―abordagem sociossemiótica da cultura‖, em que a cultura é definida como ―o processo de produção, circulação e consumo de significações na vida social‖. O autor salienta ainda que conceituar a cultura, a partir de uma abordagem sociossemiótica, é entender que, (...) a cultura não é apenas um conjunto de obras de arte ou de livros e muito menos uma soma de objetos materiais carregados de signos e símbolos. A cultura apresenta-se como processos sociais, e parte da dificuldade de falar dela deriva do fato de que se produz, circula e se consome na história social. (p.41). A partir da compreensão de cultura, acreditamos que, na mesma medida em que o Portal do Professor do MEC redimensiona as práticas educacionais e formativas, fazendo surgir diferentes formas de se comunicar, de ensinar, de aprender, de ler o mundo, tais ambientes funcionam como espaços de grande efervescência cultural, uma vez que neles confluem diversas mídias, sons, fotos, vídeos, entre outras. 51 Lemos (2004) argumenta que o ciberespaço deve ser visto como uma incubadora midiática onde formas comunicativas (como chats, ICQs, fóruns, e-mails, blogs, web...) surgem a cada dia. Para o autor, ―o ciberespaço é, ao mesmo tempo, forma e conteúdo cultural, modelador de novas identidades e formas culturais‖ (p.5). O autor esclarece que, sendo meio, a Internet problematiza a forma midiática massiva de divulgação cultural, passando a ser o foco de irradiação de informação, de conhecimento e de troca de mensagens entre pessoas ao redor do mundo, abrindo o polo da emissão. Isso coloca em destaque a relevância de se considerar os espaços de formação on-line como espaços de grande circulação cultural, o que implica considerar os eventuais efeitos das diferentes produções da cultura sobre a constituição dos sujeitos professores, bem como o de suas compreensões acerca da deficiência, assinalando a necessidade de problematizarmos a Internet, como instância formativa importante em cujo âmago pode possibilitar a construção de significados e representações culturais sobre os referidos sujeitos. Diante disso, consideramos que o Portal do Professor do MEC, ao promover novos processos formativos, que possibilitam aos professores o envolvimento em comunidades virtuais, facilitando a troca de experiências, ideias, o compartilhamento de conteúdos e de atividades, além do acesso a informações específicas acerca da deficiência, as quais potencializam o seu desenvolvimento profissional, também promovem o acesso a um conjunto de verdades sobre a pessoa com deficiência, que são difundidas através dos diferentes artefatos culturais midiáticos que integram esse espaço formativo. Mas, cabe ressaltar que as ―verdades‖ sobre os sujeitos com deficiência não estão restritas apenas aos discursos institucionais ou aos textos científicos que integram o Portal, visto que esses sujeitos são fabricados também pelos discursos emergentes da ―cultura popular‖ ou da ―cultura de massa‖ inseridos no referido espaço formativo, através dos diferentes artefatos culturais disponibilizados no ―Espaço da Aula‖. O entendimento de que tanto o conhecimento acadêmico produzido no referido Portal, por especialistas e profissionais ligados à área da educação, quanto o conhecimento da cultura de massa inserida nesse espaço formativo, através de diferentes artefatos culturais midiáticos (revistas, histórias em quadrinhos, charges, 52 vídeos, blogs, etc) constitui-se num sistema de significação, é cultural, e revela nosso compromisso com o campo teórico dos Estudos Culturais. Os Estudos Culturais nos propiciam a compreensão de que, assim como a educação, as outras instâncias culturais também são pedagógicas, também tem uma pedagogia e também ensinam alguma coisa (SILVA, 2010). Nessa direção as conexões entre cultura(s) e pedagogia(s), fazem-nos perceber que a pedagogia não acontece apenas na escola ou nas Universidades, pois devemos considerar a atuação de pedagogias muito peculiares operadas por múltiplos artefatos da cultura. Dessa forma, entendemos que não podemos prosseguir na nossa discussão teórica sem ao menos definir ou problematizar o conceito de pedagogias culturais, pois, mesmo entendendo que todas as pedagogias são culturais, faz-se necessário, neste estudo, o uso dessa denominação com o fim de distinguir das pedagogias escolares, sob a afirmação de que as pedagogias culturais contemporâneas dizem respeito às pedagogias praticadas para além do espaço escolar ou acadêmico. 1.3 A pedagogia cultural: ensinando sobre a deficiência Então, se quisermos entender como a pessoa com deficiência está sendo produzida no Portal do Professor do MEC, precisamos atentar para outras pedagogias que operam no sentido de produzir identidades e subjetividades. Sobre essas pedagogias, Albuquerque Jr. (2010) afirma que: vivemos em sociedades e culturas em que uma multiplicidade de pedagogias opera no cotidiano visando elaborar subjetividades, produzir identidades, adestrar e dirigir corpos e gestos, interditar, permitir e incitar ou ensinar hábitos, costumes e habilidades, traçar interditos, marcar diferenças entre o admitido e o excluído, valorar diferencialmente e hierarquicamente gostos, preferências, opções, pertencimentos, etc. (p.22). No caso da formação de professores para Educação Inclusiva, esse deslocamento é importante, e nesse sentido, os Estudos Culturais muito têm contribuído para desmantelar antigas referências e práticas teóricas e pedagógicas consolidadas, além de facilitar os ―esforços para examinar as práticas culturais pelas quais os indivíduos vêm a entender a si mesmo e ao mundo que os cerca‖. (STEINBERG, 1997, p.15) Esses estudos, ancorados na ideia de uma ―pedagogia 53 cultural‖, levam-nos a inferir que espaços educativos: as escolas, as universidades e outras instituições deixaram de ser os únicos locais de legitimação de saberes. Ou seja, há outras instâncias culturais cujo papel educativo torna-se também de relevância social. Por sua vez, Simon (1995) utiliza o termo ―tecnologias culturais‖, para ampliar a noção de pedagogia, referindo-se a essas como ―conjuntos de arranjos e práticas institucionais intencionais, no interior dos quais várias formas de imagens, som, texto e fala são construídas e apresentadas e com as quais, ademais, interagimos‖ (p.71). O autor indica que essas tecnologias implicam a produção de significados, regulando identidades e desejos, podendo ser manifestas em outros locais além das escolas ou de outros lugares especificamente educacionais. Em suma, o autor compreende que, estas tecnologias podem se manifestar em locais diversos como o cinema, o teatro, a televisão, a publicidade, a arquitetura, os fóruns de saúde pública, o jornal impresso, a música popular, os festivais onde se contam histórias e os estudos e rituais religiosos. (p.72). Nessa relação entre Pedagogia e cultura, Giroux (1995a) evidencia a necessidade de os professores ampliarem a definição de pedagogia, indo além da ênfase no domínio de técnicas e metodologias. Para o autor, a Pedagogia representa um modo de produção cultural implicado na forma como o poder e o significado são utilizados na construção e na organização de conhecimento, desejos, valores. A pedagogia, neste sentido, não está reduzida ao domínio de habilidades ou técnicas. Em vez disso, ela é definida como uma prática cultural que deve ser responsabilizada ética e politicamente pelas estórias que produz, pelas asserções que faz sobre as memórias sociais e pelas imagens do futuro que considera legítimas. (p. 100). Os estudos de Giroux (1995b) vêm apresentando o cinema como uma das instâncias educativas importantes no cenário atual. Ao analisar os filmes da Disney como Bom dia, Vietnã (1987) e Uma linda mulher (1990), o autor evidencia que tais produções culturais não apenas produzem entretenimento, mas operam na produção de identidades e de significados, que fazem com que o os espectadores produzam a si próprios, influenciando nas suas relações com outras pessoas. 54 Kellner (1995, p. 112) por sua vez, através da análise de diversos anúncios de cigarro, traz uma contribuição importante para a ampliação da noção de pedagogia, afirmando que ―a própria publicidade é uma pedagogia que ensina os indivíduos o que eles precisam e devem desejar, pensar e fazer para serem felizes, bemsucedidos e genuinamente americanos‖. Para o autor, a publicidade é um texto social importante, que ensina uma visão de mundo, ensina valores, podendo ser uma das principais forças de moldagem do pensamento e do comportamento. As considerações de Kellner (2001) sobre os artefatos midiáticos se faz oportuna para sublinharmos a importância da mídia na produção de significados sobre o Outro. De acordo com o autor: Há uma cultura veiculada pela mídia cujas imagens, sons e espetáculos ajudam a urdir o tecido da vida cotidiana, dominando o tempo de lazer, modelando opiniões políticas e comportamentos sociais, e fornecendo o material com que as pessoas forjam sua identidade. O rádio, a televisão, o cinema e os outros produtos da indústria cultural fornecem os modelos daquilo que significa ser homem ou mulher, bem-sucedido ou fracassado, poderoso ou impotente. A cultura da mídia também fornece o material com que muitas pessoas constroem o seu senso de classe, de etnia e raça, de nacionalidade, de sexualidade, de ―nós‘‘ e ―eles‖. Ajuda a modelar a visão prevalecente de mundo e os valores mais profundos: define o que é considerado bom, mau, positivo e negativo, moral ou imoral. As narrativas e as imagens veiculadas pela mídia fornecem os símbolos, os mitos e os recursos que ajudam a constituir uma cultura comum para a maioria dos indivíduos em muitas regiões do mundo de hoje. A cultura veiculada pela mídia fornece o material que cria as identidades através das quais os indivíduos se inserem nas sociedades tecnocapitalistas contemporâneas, produzindo uma nova forma de cultura global. (p.9). A ―pedagogia cultural‖ amplia a nossa noção de pedagogia, mas amplia também o nosso entendimento sobre a formação de professores, possibilitando-nos compreender que o trabalho que ocorre nas Universidades (e em outros locais convencionalmente pensados como educacionais) está articulado a outras formas de trabalho cultural, que atuam em uma dimensão pedagógica. Em outras palavras, o professor pode estar se formando em locais especificamente educacionais, mas, também através de outras instâncias culturais, como cinema, teatro, televisão, entre tantos outros espaços em que se produzam significados sobre a deficiência. O próprio sentido da formação de professores é alargado, fazendo-nos pensar que precisamos atentar para as outras instâncias culturais, situadas além das 55 fronteiras da sala de aula das Universidades, dos cursos de graduação ou pósgraduação, pois os professores também estão sendo ―educados por imagens, filmes, textos escritos, pela propaganda, pelas charges, pelos jornais e pela televisão, seja onde for que estes artefatos se exponham‖. (COSTA, SILVEIRA E SOMMER, 2003, p.56). Essa nova possibilidade de olhar a pedagogia faz com que, ao investigarmos os discursos do Portal, estejamos atentos aos variados textos culturais que integram esse espaço formativo, contemplando em nossas análises não só os artefatos culturais midiáticos considerados ―científicos‖ produzidos pelos especialistas em educação, mas também atentando-nos para os produtos de entretenimento, tais como filmes, artigos de revistas, charges, histórias em quadrinhos, que são usados como recursos didáticos no Espaço da aula, atuando na construção de representações e significados sobre a deficiência. É preciso considerar que, quando os professores, na tentativa de ilustrar a deficiência, lançam mão de artefatos culturais diversos como - filmes, jornais, revistas, músicas, charges, histórias em quadrinhos, entre outros- (re)significando-os para as práticas pedagógicas formativas, no espaço da aula, estão utilizando textos culturais produtores de significados, instituindo modos de olhar, de falar e, sobretudo, de atuar pedagogicamente sobre os sujeitos com deficiência. Por fim, em nosso percurso pelas movimentações dos Estudos Culturais e por seus cruzamentos com a educação e a pedagogia, encontramos subsídios para afirmar que a deficiência está sendo inventada pelos discursos que circulam nos diferentes artefatos culturais midiáticos do Portal do Professor do MEC. Por essa razão, devemos interrogar esses discursos, na medida em que eles constroem representações, atribuem sentidos e significados sobre os sujeitos com deficiência. Em consonância com as ideias de Giroux (1999) acreditamos que, (...) uma pedagogia da diferença deve lidar com a questão de como as representações e práticas que nomeiam e marginalizam e definem a diferença como o Outro desvalorizado são ativamente aprendidas, internalizadas, desafiadas ou transformadas. (...) É também imperativo reconhecer e criticamente interrogar como a colonização das diferenças pelos grupos dominantes é expressada e mantida através das representações: em como o outro é visto como um déficit, em que a humanidade do Outro é posicionada como cinicamente problemática ou grosseiramente negada. (p.123). 56 Nesse âmbito, é necessário atentarmos para os processos de representação cultural da deficiência no referido espaço formativo. Como expõe Silva (2009), para questionar a identidade e a diferença é preciso questionar os sistemas de representação que lhe dão suporte e sustentação, pois é por meio da representação que a identidade e a diferença adquirem sentido e passam a existir. Dito isso, no próximo capítulo tentamos mostrar como uma função de representação cultural opera produzindo significados sobre a deficiência. 57 CAPÍTULO 2 – A REPRESENTAÇÃO CULTURAL DA DEFICIÊNCIA O anormal não é aquilo que não é normal, e sim aquilo que é um normal diferente (CANGUILHEM, 1995) A opção pela análise dos discursos midiáticos do Portal do Professor do MEC supõe mostrar que os modos de falar sobre deficiência são formas de dizer inventadas, formas de dizer que se vale de determinados léxicos, de certas formas de argumentar e modos específicos de dizer que têm a pretensão de expressaremse como verdades. Sendo assim, neste ponto da pesquisa procuramos pensar em como, os artefatos culturais midiáticos do Portal do Professor do MEC produzem a deficiência num processo de representação cultural. Consideramos que essa é uma discussão relevante para o nosso trabalho, uma vez que, os artefatos culturais midiáticos do referido espaço formativo, são lugares privilegiados através dos quais os professores são ensinados sobre as ―verdades‖ a respeito dos sujeitos com deficiência: verdades que podem narrar o outro com deficiência como diferente, inferior, primitivo, exótico, estranho, anormal, constituindo uma política de representação que inclui e exclui os sujeitos através dos discursos. Nesse sentido, o debate sobre a representação cultural nos processos formativos faz-se necessário, uma vez que os significados culturais organizam e regulam práticas sociais, influenciando a forma de o professor entender a deficiência e atuar sobre ela, haja vista que, os significados culturais ―nos auxilia a interpretar o mundo, a classificá-lo de modo significativo, a atribuir sentido às coisas e eventos‖. (DU GAY et al, 1997, p.5). Neste capítulo, pretendemos problematizar as relações entre representação cultural e deficiência. Dito isso, fazemos um primeiro movimento no sentido de apresentar o nosso entendimento a respeito da diferença, a partir do diálogo estabelecido com o campo teórico pós-estruturalista. Num segundo momento, tentamos mostrar como uma função de representação opera produzindo significados sobre a deficiência. Num terceiro momento, tratamos da construção de modos de olhar a deficiência a partir dos estereótipos, apontando para a importância de refletir sobre as imagens estereotipadas da deficiência nos discursos dos processos formativos. 58 2.1 Estabelecendo vínculos: um olhar pós-estruturalista sobre a diferença A nossa aproximação do campo teórico do pós-estruturalismo está particularmente ligada ao fato de que esse quadro teórico oferece-nos perspectiva, modos de ver e de pensar, que permitem compreender a questão da diferença e da produção do ―Outro‖ com deficiência, a partir dos processos discursivos. Diante disso, cabe esclarecer que uma das características centrais dos estudos pós-estruturalistas é a ênfase que neles é dada à linguagem. Afirma-se nessa perspectiva, que os objetos do mundo social são construídos discursivamente, para isso lançamos mão da linguagem falada ou escrita, mas utilizamos também sistemas de representação que nos permitem usar signos e símbolos para representar o que existe à nossa volta, seja um conceito, uma ideia ou imagem. (DU GAY et al., 1997). Nas palavras de Silva (2010) o pós-estruturalismo pode ser definido como uma continuidade e, ao mesmo tempo, como uma transformação em relação ao estruturalismo. Sobre isso, o autor esclarece que o pós-estruturalismo partilha com o estruturalismo a mesma ênfase na linguagem como um sistema de significação. Contudo, essa proposta teórica efetua um afrouxamento na rigidez estabelecida pelo Estruturalismo. O autor aponta ainda que, apesar de considerar o processo de significação como central, o pós-estruturalismo difere do Estruturalismo, na medida em que a fixidez do significado transforma-se em indeterminação e incerteza. Esse entendimento sobre a linguagem está intimamente ligado ao movimento da virada lingüística empreendido especialmente por Wittgenstein (2009) em que se modifica o entendimento tradicional da linguagem, assumindo, assim, a impossibilidade de fundamentá-la lógica e ontologicamente fora dela mesma. Nesse contexto de discussão e evolução acerca da compreensão da linguagem, Wittgenstein (2009) chama atenção para o jogo da linguagem, abrangendo com isso, o aspecto pragmático presente na linguagem. Dessa forma, o autor evidencia as distintas possibilidades de utilização da linguagem e os diferentes processos de denominação pelos quais podemos constituir a compreensão de algo. Em outras palavras, para Wittgenstein, a linguagem é sempre contingente, e é por isso que existe uma margem de indeterminação nas coisas ditas (e pensadas) que não compromete a possibilidade do discurso significativo. 59 Como salienta Costa (2010), a movimentação filosófica denominada de virada lingüística diz respeito à concepção de que os discursos estão inexoravelmente implicados naquilo que as coisas são, ou seja, as sociedades e culturas em que vivemos são dirigidas por poderosas ordens discursivas regidas pelo que deve ser dito e o que deve ser calado, e os próprios sujeitos não estão isentos desses efeitos. Para a autora, o que se denomina de realidade é o resultado desse processo, no qual a linguagem tem um papel constitutivo. Para Bujes (2003), a virada lingüística põe em relevo um modo de conceber a linguagem, mostrando o papel fundamental que esta desempenha na instituição dos sentidos que damos às coisas. A autora ressalta que, segundo essa perspectiva, os significados não estão dados para sempre, eles são sempre transitórios, passageiros, superáveis, porque são constituídos na trama cotidiana da história. Sobre essa perspectiva, os significados não correspondem a uma qualidade essencial do objeto que temos que desvelar; a essência das coisas nada mais é do que uma invenção humana, instituída nas trocas e negociações de sentido que estabelecemos intersubjetivamente. Deste modo, a linguagem não faz a mediação entre o que vemos e o pensamento, ela constitui o próprio pensamento. (p.3). Em relação à virada lingüística, Veiga - Neto (2003) salienta também que as consequências dessa virada são imensas, pois ela estilhaça aos cacos, não apenas, a linguagem, mas também a cultura, possibilitando falar em linguagens e em culturas. Segundo ele, ao deslocar o entendimento da linguagem, a virada lingüística resolveu o problema da incompletude das linguagens, dissolveu a questão da impossibilidade da tradução suficiente e nos colocou novos desafios. Isso equivale a dizer que a virada lingüística nos mostra que o babelismo – lingüístico ou cultural,– não é propriamente um problema, mas é, sim, o nome que atribuímos ao estado em que a linguagem se dá para nós. E ela se dá assim porque não temos um lugar fora dela para falar, estamos sempre mergulhados na linguagem e numa cultura, de modo que aquilo que dizemos sobre elas não está jamais isento delas mesmas. Para Hall (1997a, p.10) a virada cultural está intimamente ligada a essa nova atitude em relação à linguagem, pois, ―a cultura não é nada mais do que a soma de diferentes sistemas de classificação e diferentes tipos de formações discursivas aos quais a língua recorre a fim de dar significado às coisas‖. Essa ―virada‖ envolve: 60 (...) uma inversão da relação que tradicionalmente tem se pensado que exista entre as palavras que usamos para descrever as coisas e as próprias coisas. A suposição usual do senso comum é a de que os objetos existem ―objetivamente‖, como tal, ―no mundo‖ e, assim, seriam anteriores às descrições que deles fazemos. Em outras palavras, parece normal presumirmos que as ―moléculas‖ e os ―genes‖ precedam e sejam independentes dos seus modelos científicos; ou que a ―sociedade‖ exista independentemente das descrições sociológicas que dela se fazem. O que estes exemplos salientam é o modo como a linguagem é presumivelmente subordinada e está a serviço do mundo do ―fato‖. Entretanto, nos últimos anos, a relação entre a linguagem e os objetos descritos por ela tem sido radicalmente revista. A linguagem passou a ter um papel mais importante. Teóricos de diversos campos — filosofia, literatura, feminismo, antropologia cultural, sociologia — têm declarado que a linguagem constitui os fatos e não apenas os relata. (DU GAY, 1994, apud HALL 1997a, p.9). De acordo com Hall (1997a), o trabalho de Foucault, nos anos de 1970 e 1980 foi de uma influência crucial para a virada cultural, tendo como consequência a necessidade de repensar radicalmente a centralidade do cultural e a articulação entre os fatores materiais e culturais ou simbólicos na análise social. Nessa direção, Silva (2010) destaca que as obras de Michel Foucault e de Derrida tiveram grande importância na definição do que hoje se entende por pósestruturalismo. O autor destaca que a contribuição fundamental de Foucault pode ser sintetizada na transformação que ele efetuou na noção de poder, em que concebia o poder como uma relação, como algo móvel e fluido, como capilar e estando em toda parte. É o poder que - para Foucault - está na origem do processo pelo qual nos tornamos sujeitos de um determinado tipo. O louco, o prisioneiro, o homossexual não são expressões de um estado prévio, original, mas eles recebem sua identidade a partir dos aparatos discursivos e institucionais que os definem como tais. O sujeito é o resultado dos dispositivos que os constroem como tal. As considerações de Silva (2010, p.120) apontam também para o fato de que o conceito de diferença, central ao estruturalismo, torna-se radicalizado no pósestruturalismo, uma vez que, essa corrente teórica ―estende consideravelmente o alcance do conceito de diferença a ponto de parecer que não existe nada que não seja diferença‖. O autor salienta que o discurso pós-estruturalista, ao colocar-se como uma transformação em relação ao discurso estruturalista, vai fazer rupturas em alguns aspectos importantes: amplia a centralidade da linguagem com a noção de discurso desenvolvida por Foucault e a noção de texto em Derrida; radicaliza o 61 conceito de diferença, reforça a crítica do sujeito do humanismo, defendendo que o sujeito é uma invenção cultural, social e histórica. Com efeito, para a concepção pós-estruturalista, a diferença é essencialmente um processo linguístico e discursivo. Nesse contexto, conforme Silva (2010), a diferença não pode ser concebida fora dos processos linguísticos de significação. Portanto, aquela não é uma característica natural, mas é discursivamente produzida. Segundo o autor, (...) a diferença é sempre uma relação: não se pode ser ―diferente‖ de forma absoluta; é-se diferente relativamente a alguma outra coisa, considerada precisamente como ―não-diferente‖. (...) Na medida em que é uma relação social, o processo de significação que produz a ―diferença‖ se dá em conexão com relações de poder. São as relações de poder que fazem com que a ―diferença‖ adquira um sinal, que o ―diferente‖ seja avaliado negativamente relativamente ao ―nãodiferente‖. Inversamente, se há sinal, se um dos termos da diferença é avaliado positivamente (o ―não-diferente‖) e o outro, negativamente (o ―diferente‖), é porque há poder. (p.87). Em relação à linguagem e à produção das diferenças, Louro (1997) afirma que dentre os múltiplos espaços e os muitos lugares onde se pode observar a instituição das distinções e das desigualdades, a linguagem é o campo mais eficaz e persistente, tanto porque ela atravessa e constitui a maioria de nossas práticas, como porque ela nos parece, quase sempre, muito ―natural‖. Seguindo regras definidas por gramáticas e dicionários, sem questionar o uso que fazemos de expressões consagradas, supomos que ela é, apenas um eficiente veículo de comunicação. No entanto, a linguagem não apenas expressa relações, poderes, lugares, ela os institui; ela não apenas veicula, mas produz e pretende fixar diferenças. (p.65) Por sua vez, Skliar (2001a) evidencia que os ―diferentes‖ respondem a uma construção e são reflexo de um largo processo de ―diferencialismos‖, que se expressa através de uma atitude racista de categorização, separação e diminuição de alguns traços de algumas marcas, de alguns sujeitos, em relação ao vasto e caótico conjunto de diferenças humanas. Segundo o autor, 1. as diferenças não são uma obviedade cultural nem uma marca de ―pluralidade‖; 2. as diferenças se constroem histórica, social e politicamente; 62 3. não podem caracterizar-se como totalidades fixas, essenciais e inalteráveis; 4. as diferenças são sempre diferenças; 5. não devem ser entendidas como um estado não desejável, impróprio, de algo que cedo ou tarde voltará à normalidade; 6. as diferenças dentro de uma cultura devem ser definidas como diferenças políticas – e não simplesmente como diferenças formais, textuais ou lingüísticas; 7. as diferenças, ainda que vistas como totalidades ou colocadas em relação com outras diferenças, não são facilmente permeáveis nem perdem de vista suas próprias fronteiras. 8. a existência de diferenças existe independentemente da autorização, da aceitação, do respeito ou da permissão outorgada da normalidade. (p.98). A diferença é também objeto de preocupação de Burbules (2006). Para esse autor, a diferença precisa ser vista como um discurso relacional, que sempre ultrapassa nossas tentativas de classificá-la ou defini-la. Diferença é uma relação e não uma distinção. Daí a rejeição do autor à visão da diferença como simples diversidade, como decorrente de categorizações aceitas sem questionamento. O autor propõe, então, uma concepção em que seja incluído, em primeiro lugar, o estranhamento em relação a situações em que nos faltam padrões de comparação. O outro, ainda que pareça conosco, apresenta-nos uma alteridade, além do nosso entendimento. Em segundo lugar, Burbules (2006) sugere que se questione a estabilidade das categorias usualmente empregadas para definir a diferença. Em terceiro lugar, ele recomenda que, na visão de diferença se incorpore a oposição a normas e aos valores dos grupos dominantes por outro discurso, a ele estranho. O ato de tradução, nesse caso, implica apreender a diferença de uma perspectiva estrangeira, o que faz com que a linguagem da tradução se confronte sempre com o intraduzível. Burbules (2006) insiste ainda que se reconheça que cada ―um‖ implica o ―outro‖, contém-no e o desafia, estimulando-nos a conviver com uma permanente tensão. Nesse enfoque, a diferença é um desafio constante à nossa compreensão, um desafio de binarismos, um desafio a perspectivas do tipo ―ou isso ou aquilo‖. Para Bhabha (1998), a diferença se constitui como o processo de enunciação da cultura. Trata-se de ―um processo de significação através do qual afirmações da cultura e sobre a cultura diferenciam, discriminam e autorizam a produção de 63 campos de força, referência, aplicabilidade e capacidade‖ (p.63). A diferença se constitui na tensão entre os enunciados (atos, palavras) por eles sustentados e, a partir do qual, cada ato e cada palavra adquirem significados. Em síntese, para a perspectiva pós-estruturalista, a diferença é sempre um produto da história, cultura e poder, devendo ser compreendida em termos das especificidades de sua produção. Sem dúvida, essa perspectiva teórica possibilitanos entender a deficiência, como uma produção discursiva, colocando-nos diante de uma realidade em que esses sujeitos não devem mais ser compreendidos apenas sob o ponto de vista biológico, ou sob a perspectiva daquilo que lhes falta. Sob esse crivo, Skliar (1999) salienta que é preciso: compreender o discurso da deficiência, para logo revelar que o objeto desse discurso não é a pessoa que está em uma cadeira de rodas ou que usa um aparelho auditivo ou o que não aprende segundo o ritmo e a forma como a norma espera, senão os processos sociais, históricos, econômicos e culturais que regulam e controlam a forma acerca de como são pensados e inventados os corpos e as mentes dos outros. (p.18, grifos do autor). Todavia, essa maneira de conceber a deficiência pressupõe uma mudança ou um deslocamento na maneira de olhar e significar esses sujeitos, sendo assim, para além de uma compreensão estereotípica, rígida, hierarquizante, disciplinar, normalizadora, emerge um entendimento da deficiência que se constitui a partir dos processos de significação. Portanto, a deficiência de que falamos em nossa investigação não é qualquer uma; ela é fruto de ―jogos de linguagem‖ que estabelecem o que sobre ela pode ser falado, em que circunstâncias, com que limites, por quem. Esse outro olhar demanda o reconhecimento da complexidade que envolve a identidade desses sujeitos, fazendo-se necessário ultrapassar as descrições deterministas e teleológicas (universal) que, por muito tempo, marcou a história das pessoas com deficiência. Portanto, a filiação ao campo teórico do pósestruturalismo, faz-nos perceber que é preciso tornar problemáticas nossas formas de conceber as coisas da realidade e, neste caso em especial, aquelas que se relacionam com a deficiência. Se as verdades são coisas deste mundo, se elas são sempre provisórias e problemáticas, precisam ser constantemente inquiridas, submetidas a uma dúvida sistemática. O que é preciso pôr em questão são os regimes de verdade 64 estabelecidos, os raciocínios amplamente aceitos, os modos de falar corriqueiros sobre a deficiência, tornando a linguagem um alvo de problematização. Sobre esse prisma, ao investigarmos a produção da deficiência no espaço formativo on-line do Portal do Professor do MEC, buscamos desterritorializar, desfamiliarizar, levar ao estranhamento, produzindo um questionamento que deve centrar-se não no que esses sujeitos são, mas como têm se constituído de tal maneira, considerando o processo de construção social, o que implica a necessidade de uma discussão sobre os processos de representação cultural. 2.2 A Representação cultural da deficiência Primeiramente é importante pensar no quanto a formação de professores para educação inclusiva encontra-se imbricada numa relação de representação. Ou seja: a formação relaciona-se com formas de representar os seus objetos e sujeitos, sendo esta mesma representação um modo de produzi-los. É justamente por entender que a representação não é uma cópia da ―realidade‖, nem é fixa, que precisamos atentar para as várias formas de representar os sujeitos com deficiência nos processos formativos. Essa noção de representação, à qual nos referimos, ampara-se no interior das discussões pós-estruturalistas, no entanto, é preciso esclarecer que a ―Representação‖, tem sido um tema pensado tanto pela Filosofia quanto pela Psicologia Social, fazendo-se necessário distinguir a representação cultural de outras formas de representação como a social e a mental, tendo em vista que, cada um desses campos a entende de formas distintas. Inicialmente, é preciso esclarecer que o termo representação tem uma longa história, a qual lhe confere uma multiplicidade de significados. O relato de Silva (2009) preconiza que, na história da filosofia ocidental, a ideia de representação ligase à busca de formas apropriadas de tornar o ―real‖ presente – de apreendê-lo o mais fielmente possível por meio de sistemas de significação. Nessa história, a representação tem se apresentado em suas duas dimensões – a representação externa, por meio de sistemas de signos como a pintura, por exemplo, ou a própria linguagem; e a representação interna ou mental – a representação do ―real‖ na consciência. Em relação às representações mentais, Wortmann (2001) esclarece que tais representações corresponderiam a estruturas mentais que os sujeitos colocariam em 65 ação frente a situações-problema. Entretanto, essa forma de abordar a questão da representação centra-se na ideia de que se pode chegar a uma representação do mundo real. Nessa proposição, o sujeito pode expor suas concepções, para, a partir delas ir-se chegando às ―concepções verdadeiras‖. Outra conceituação dada ao termo representação advém do campo da Psicologia Social, cujos principais representantes são Moscovici (2009) e Jodelet (2005). A teoria das representações sociais foi desenvolvida por Sérge Moscovici, a partir da obra La Psycanálise: son image et son public (1961), onde ele introduziu o conceito de representação social. Nessa pesquisa, o autor propõe a noção de ―representação social‖ para analisar a relação entre os conhecimentos produzidos pela psicanálise como ciência, e a maneira como ela foi apreendida por várias camadas da população francesa em meados dos anos 50. Moscovici (2009) define representação social como: um sistema de valores, idéias e práticas, com uma dupla função: primeiro, estabelecer uma ordem que possibilitará às pessoas orientar-se em seu mundo material e social e controlá-lo; e, em segundo lugar, possibilitar que a comunicação seja possível entre os membros de uma comunidade, fornecendo-lhes um código para nomear e classificar, sem ambigüidade, os vários aspectos de seu mundo e da sua história individual e social. (p.21). Dessa forma, Moscovici (2009, p.55) propôs que se considerasse a representação como ―um processo que torna o conceito e a percepção de algum modo intercambiáveis, visto que se engendram reciprocamente‖. A representação seguiria, por um lado, a linha do pensamento conceptual, capaz de se aplicar a um objeto não presente, de concebê-lo, dar-lhe um sentido, simbolizá-lo. Por outro lado, à maneira da atividade perceptiva, trataria de recuperar esse objeto, dar-lhe uma concretude icônica, figurá-lo, torná-lo tangível. Para o autor representar uma coisa (...) não é com efeito simplesmente duplicá-la, repeti-la ou reproduzi-la; é reconstituí-la, retocá-la, modificar-lhe o texto. A comunicação que se estabelece entre o conceito e a percepção, um penetrando no outro, transformando a substância concreta comum, cria a impressão de realismo(...). Essas constelações intelectuais uma vez fixadas nos fazem esquecer que são obra nossa, que tiveram um começo e que terão um fim, que sua existência no exterior leva a marca de uma passagem pelo psiquismo individual e social. (MOSCOVICI, 2009, p.56-57). 66 Nas palavras de Moscovici (2009) as representações são sempre um produto de interação e de comunicação. Ou seja, as representações são um sistema de valores, de ideias e de práticas cuja função é dupla. Enquanto, na primeira, estabelece-se uma ordem possível de as pessoas se orientarem em seu mundo material e social e a controlá-lo; na segunda, visa-se a uma comunicação viável entre os membros de uma comunidade, fornecendo-lhes um código para nomear e classificar, sem ambiguidade, os vários aspectos de seu mundo e da sua história individual e social. Nesse sentido, o autor confere um grande destaque à influência da comunicação no processo de representação social, uma vez que as representações se tornam senso comum através da viabilidade comunicacional. Desse modo, as representações entram para o mundo comum e cotidiano através do que discutimos com nossos amigos e colegas, além daquilo que circula na mídia e do que lemos e vemos. Jodelet (2005), outra importante pesquisadora da área, considera as representações sociais como um processo de apropriação da realidade externa, pelo pensamento, e à elaboração psicológica (cognitiva e afetiva) e social (contexto ideológico, histórico, pertença de classe do indivíduo) dessa realidade. Para a autora, as representações sociais são sistemas de interpretação, que regem nossa relação com o mundo e com os outros, orientam-nos e organizam nossas condutas. Com efeito, as representações ligam-se, por assim dizer, a sistemas de pensamento mais amplos, ideológicos ou culturais, a um estado de conhecimentos científicos, à condição social, assim como à esfera da experiência privada e afetiva dos indivíduos. Por seu turno, Silva (2009) esclarece que o pós-estruturalismo e a chamada ―filosofia da diferença‖ se contrapõem à ideia clássica de representação, principalmente por conceber a linguagem como um sistema de significação com uma estrutura instável e indeterminada. Nesse contexto, a representação é concebida como um sistema de significação, descartando os pressupostos realistas e miméticos associados com sua concepção filosófica clássica, o que significa que numa representação pós-estruturalista, se rejeitam, sobretudo, quaisquer conotações mentalistas ou qualquer associação com uma suposta interioridade psicológica. No 67 registro pós-estruturalista, a representação é concebida unicamente em sua dimensão de significante, isto é, como sistema de signos, como pura marca material. A representação expressa-se por meio de uma pintura, de uma fotografia, de um filme, de um texto, de uma expressão oral. A representação não é, nessa concepção, nunca, representação mental ou interior. A representação é, aqui, sempre marca ou traço visível, exterior. Em segundo lugar, na perspectiva pós-estruturalista, o conceito de representação incorpora todas as características de indeterminação, ambigüidade e instabilidade atribuídas à linguagem. (...) a representação não é simplesmente um meio transparente de expressão de algum suposto referente. Em vez disso, a representação é como qualquer sistema de significação, uma forma de atribuição de sentido. (p.91) Assim, para os Estudos Culturais as representações não espelham uma realidade, ou seja, a representação cultural não é a ―coisa‖ em si nem um espelho dessa realidade, mas uma construção operada a partir de uma rede de significações instituída e posta em circulação através da linguagem. Como nos diz Hall (1997b): a língua falada utiliza sons, a escrita usa palavras, a musical usa as notas de uma escala, a ―linguagem corporal‖ utiliza gestos, a indústria da moda utiliza artigos do vestuário, a linguagem das expressões faciais utiliza maneiras de dispor nossas feições, a televisão utiliza pontos produzidos digital ou eletronicamente em uma tela, as sinaleiras, usam o vermelho, o verde e o amarelo – para ―dizerem algo‖. Estes elementos – sons, palavras, notas, gestos, expressões, roupas – fazem parte de nosso mundo natural e material; mas sua importância para a linguagem não é o que são mas o que fazem, sua função. Eles constroem o significado e o transmitem. Elas significam. (p.50). O debate sobre a representação cultural sugere que todas as práticas e linguagens constituíam e constituem os sujeitos com deficiência, contrapondo-se à ideia de deficiência como ―naturalmente‖ constituída, fazendo-nos entender que a produção da deficiência envolve rituais, linguagens, símbolos e convenções, sendo marcadas, sobretudo, pela indeterminação e instabilidade. Dizer, por sua vez que a deficiência é resultado de uma criação linguística, ou de algo produzido através do discurso, não significa negar a existência da deficiência, uma vez que as deficiências existem e podem ser visivelmente percebidas. Todavia, é preciso considerar que ―quando se descrevem, explicam, desenham ou contam coisas, quando variadas textualidades falam sobre pessoas, lugares ou práticas, estes estão sendo inventados conforme a lógica, o léxico e a semântica vigentes no domínio que produz o discurso.‖ (COSTA, 2010, p.133-134). 68 Quando imagens de pessoas com deficiência e de práticas pedagógicas relacionadas a esses indivíduos, circulam nas aulas do espaço da aula, no jornal do professor, nos recursos educacionais midiáticos, podemos pensar num processo de invenção de modos de ser, processo de associar, pela representação, significados a determinados sujeitos e objetos. O grande problema é que as tentativas de produzir significados sobre a deficiência é marcada pela indeterminação e pela impossibilidade de associar o que se diz e o que se vê. Sendo assim, nem sempre os sujeitos com deficiência – ao serem nomeados, descritos e classificados – correspondem plenamente ao processo de imposição de significados que os processos formativos para educação inclusiva constroem e tentam, a todo custo fazer funcionar. Então é preciso desconfiar dessas verdades, considerando que os significados não permanecem intactos em sua passagem pela representação, mudando e se adaptando conforme o contexto, às circunstâncias históricas e ao uso que deles se faz, adiando sempre o seu encontro com a verdade absoluta, o que equivale a dizer que o significado está sendo sempre negociado e inflectido nas práticas sociais para ressoar em novas situações. (HALL, 1997b, p.33). É imprescindível colocar sob suspeita as verdades sobre a deficiência nos processos formativos, uma vez que o que ―dizemos sobre as coisas nem são as próprias coisas (como imagina o pensamento mágico), nem são uma representação das coisas (como imagina o pensamento moderno); ao falarmos sobre as coisas, nós as constituímos‖. (VEIGA-NETO, 2007b, p.31). Em outras palavras ao falar sobre a deficiência, os enunciados fazem mais do que uma representação desses sujeitos, mas eles os produzem. Podemos dizer que, é a partir dessas práticas de significação que o professor constrói os sentidos que os auxilia a interpretar a deficiência e a atuar sobre ela, ou seja, os significados culturais produzidos sobre a deficiência nas instâncias formativas capacitam os professores a dar sentido à deficiência, criando realidades, uma vez que ―usamos linguagem e conceitos para entender o que acontece, o que é novo para nós, tentando compreender o mundo, fazê-lo ter sentido‖.(DU GAY et al, 1997, p.6). Disso decorre a necessidade de prestarmos atenção às práticas culturais produtoras de significados sobre os sujeitos com deficiência, pois, estas têm uma dimensão concreta, atuam ―dirigindo condutas, produzindo determinados tipos de 69 subjetividades e identidades, sintonizados com a realidade que as palavras compõem‖, ou seja, atuam no sentido de codificar, organizar e regular as ações docentes em relação a esses sujeitos. (COSTA, SILVEIRA E SOMMER, 2003, p.58). No entanto, é preciso considerar que a produção desses significados sobre a deficiência envolve relações de poder, que definem quem é ―normal‖ ou quem é ―anormal‖, quem pertence a um determinado grupo, ou é dele excluído. Sobre isso, Woodward (2009, p.19) ressalta que ―os sistemas simbólicos fornecem novas formas de dar sentido à experiência das divisões e desigualdades sociais e aos meios pelos quais alguns grupos são excluídos e estigmatizados‖. Frente a esse processo de indeterminação que marca a produção da deficiência e a constatação de que existe uma fluidez dos significados, é que precisamos estar atentos às múltiplas representações que circulam nos espaços de formação de professores para educação inclusiva, sejam elas virtuais ou não. Acreditamos que, ao problematizar o modo de funcionamento da representação nos processos formativos, estamos criando frestas para que possamos adotar uma atitude de suspeita frente ao que vemos e falamos, frente ao que assumimos como verdadeiro sobre a deficiência. Além disso, em consonância com Skliar (2001b, p.13), entendemos que ―a/s mudança/s em educação começa/m com a/s mudança/s nas identidades e nas representações e pode/m, ou não, alterar profundamente o texto e os códigos educativos‖. Desvelar ou inquirir as verdades sobre a produção da deficiência, no Portal do Professor do MEC, pressupõe tornar visíveis as estratégias de estereotipização existentes no discurso acerca desses sujeitos. Portanto, ao examinar os textos culturais do referido espaço formativo, interessamo-nos em saber se os enunciados que orientam, aconselham e instituem uma forma de atuação docente, fundamentam-se numa visão estereotipada da deficiência. Problematizar a estereotipização da deficiência numa formação de professores para educação inclusiva tem sua importância, uma vez que o estereótipo pode criar para o sujeito, no caso o professor em formação, a ilusão de dominar o outro com deficiência e sua verdade, ―porque ao simplificá-lo, ao reduzi-lo a umas poucas marcas constantes e facilmente identificáveis, forja-se a ilusão de que lhe é permitido conhecê-lo por inteiro e, portanto, dominá-lo, dizê-lo‖ (DE NARDI, 2007, p.68). 70 2.3 Desnaturalizando os estereótipos: para além das evidências Em relação aos estereótipos, Larossa (1994, p.83), afirma que ―são os lugares comuns do discurso, o que todo mundo diz, o que todo mundo sabe‖. Sendo assim, algo é um estereótipo quando é imediatamente compreendido e quando não há nem o que dizer. O autor salienta que é grande o poder dos estereótipos, tão evidentes e tão convincentes ao mesmo tempo. Os preconceitos são os tópicos da moral, o que todo mundo valoriza igualmente, as formas do dever que se impõem como óbvias e indubitáveis. É grande também o poder dos preconceitos. Os procedimentos que fabricam os estereótipos de nosso discurso, os preconceitos de nossa moral e os hábitos de nossa maneira de conduzir-nos nos mostram que somos menos livres do que pensamos, quando falamos, julgamos ou fazemos coisas. (p.75). Bhabha afirma que o estereótipo é uma forma de conhecimento e identificação que vacila entre o que está sempre no lugar, já conhecido, e algo que deve ser ansiosamente repetido. O autor enfatiza ainda que o estereótipo não é uma simplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade. É uma simplificação porque é uma forma presa, fixa, de representação que, ao negar o jogo da diferença (que a negação através do Outro permite), constitui um problema para a representação do sujeito em significações de relações psíquicas e sociais. (1998, p.117) Essa afirmação nos faz pensar que o estereótipo produz ou põe em funcionamento um repertório conceitual capaz de fixar e engessar a identidade dos sujeitos com deficiência, reduzindo-os a um conjunto de traços reconhecíveis. É por isso, que a estereotipização no processo de formação de professores, para educação inclusiva preocupa-nos, uma vez que pode promover tanto o apagamento da multiplicidade e das diferenças individuais desses sujeitos, quanto também contribuir para uma estabilidade acrítica dos professores em relação ao grupo de pessoas com deficiência. Além do que, é preciso considerar que esse modo de representação tem uma dimensão concreta, pois ―além de lançar mão de matérias e formas de expressão do sublunar, ele se materializa ao ser subjetivado por quem é estereotipado, ao criar uma realidade para o que toma como objeto‖. (ALBUQUERQUE JR, 2011, p.30) 71 O que há de se ter em mente, então, é que a representação estereotipada da deficiência pode direcionar o comportamento e as atitudes dos professores em relação a esses sujeitos, uma vez que ―esse estereótipo será o alvo das ações subseqüentes e, ao mesmo tempo, o biombo que estará interposto entre o agente da ação e a pessoa real à sua frente‖. (AMARAL, 1998, p.18) É preciso, então, romper com as transparências da linguagem, questionando os possíveis essencialismos existentes na representação das pessoas com deficiência. Uma definição essencialista da deficiência sugere que existe um conjunto cristalino, autêntico, de características que todas as pessoas com deficiência partilham e que não se altera ao longo do tempo. Esse universalismo falso, nega aos professores em formação a possibilidade de abrir-se para alteridade de maneira que as particularidades das pessoas com deficiência possam ser percebidas nas relações de poder e privilégio. Desse modo, é preciso questionar os discursos em que a pessoa com deficiência não é visto como um ser único, mas sim, como um dado de uma realidade maior, que é a categoria a que pertence. Por exemplo, uma pessoa com deficiência mental será sempre igual a todos os demais que possuem esse tipo de deficiência, isto é, apresentará sempre as características das pessoas com deficiência mental. É fundamental prestarmos atenção aos discursos que costumam impor significados aos Outros com deficiência, partindo do pressuposto da presença de uma correspondência adequada entre o sujeito e os significados que estão sendo atribuídos, de forma que possam ser vistos como naturais, como parte deles. Para ilustrar, poderíamos citar aqueles discursos que mostram as pessoas com deficiência como sujeitos dotados de características específicas e essenciais, de forma que pareça que somente esses sujeitos as possuam. Por exemplo, se a audição é um sentido privilegiado para o cego, então os cegos são excelentes músicos; ou as pessoas com Síndrome de Down são sempre carinhosas e amáveis; ou ainda, os surdos são desprovidos da audição, mas possuem uma excelente percepção visual; ou os surdos são sempre impacientes e inquietos. Essas marcas identitárias – entendidas aqui como significados culturalmente inventados – são usadas com a finalidade de diferenciar e classificar os sujeitos, sendo inscritas no corpo para assinalar a diferença, o pertencimento a determinada categoria de deficiência. Assim, ao mostrar a deficiência valorizando 72 tais aspectos, alem de essencializarem tais características, estruturam o modo como o professor vai olhar esses sujeitos. É preciso interrogar também os discursos sobre a deficiência, cuja única matriz representacional é a biológica, os quais apelam para os diagnósticos, para as causas da deficiência, para a descrição das características e das possíveis formas de tratamento desses sujeitos. Certamente, esses enunciados embasados num saber médico produzem os sujeitos com deficiência a partir de um olhar patologizante, naturalizando-os, fixando suas identidades, construindo ou demarcando a diferença como desvio, como algo que se distingue ou se difere da maioria, o que em nada contribui na formação do professor para Educação Inclusiva. De forma similar, é preciso questionar os discursos que buscam fixar uma determinada identidade como sendo a norma, atribuindo-lhe todas as características positivas possíveis, em relação ao quais as outras identidades, dentre elas a deficiente, passa a ser a identidade anormal. Em relação à norma, Larrosa (1994) esclarece que diferentemente da lei, a norma pretende ser um conceito descritivo, que evidencia a média estatística, a regularidade o hábito, sendo assim, o normal é um descritivo que se torna normativo. O normal se converte em um critério que julga e que valoriza negativa ou positivamente. E no princípio de um conjunto de práticas de normalização cujo objetivo é a produção da norma. Assim da divisão simples e binária da inclusão – exclusão, do patológico, do anormal e do desviado, do normal ou do que excede ou não chega à norma. Por isso, a norma está ancorada no saber; na medida em que fixa critérios racionais que aparecem como objetivos e, ao mesmo tempo, está ancorada no poder, na medida em que constitui os princípios de regulação da conduta segundo os quais funcionam as práticas sociais da disciplina. (p.69). Nesse eixo, é indispensável questionar os discursos classificatórios, produtores de diferenciações do tipo que demarca fronteiras (―nós normais‖ e ―eles‖ deficientes); ou do tipo que categoriza (desenvolvidos e primitivos; bons e maus; racionais e irracionais; inteligentes e limítrofes; espertos e imbecis; deficiente leve, moderado, severo, profundo); ou ainda do tipo que normaliza (nós somos normais e eles são anormais). Para Woodward (2009, p.82), essa demarcação de fronteiras, supõe e reafirma relações de poder, uma vez que, dividir e classificar significa também hierarquizar. Segundo a autora, ―deter o privilégio de classificar significa 73 também deter o privilégio de atribuir diferentes valores aos grupos assim classificados‖ Os discursos que apresentam os sujeitos com deficiência a partir de uma visão superficial, sob a rubrica do curioso e exótico também precisam ser inquiridos. É imprescindível desconfiar dos enunciados que constrói o Outro com deficiência como uma fonte de fascinação e perigo, como estranho e, ao mesmo tempo, ameaçador. Essas representações tendem a universalizar atributos do tipo: as pessoas com deficiência são verdadeiros heróis, podendo ser considerados como ídolos, semideuses, campeões, corajosos; ou por outro lado, os indivíduos com deficiência são agressivos, possuem uma sexualidade exacerbada; têm instintos animalescos, entre outros. Essas designações são carregadas de um tom pejorativo, na medida em que ora apresentam esses sujeitos como superiores aos demais considerados ―normais‖ ou ora apresentam essas pessoas de forma que pareçam inferiores, de modo que a diferença seja percebida como algo negativo. Narrar o Outro com deficiência nessa perspectiva, é reforçar a ideia de que eles são pessoas raras, inusitadas, diferentes e em nada parecidos com os ditos ―normais‖. É importante dizer que, quando criticamos os discursos acima, muitas vezes recorrentes nos processos formativos, não o fazemos por entendê-los como uma representação falsa desses sujeitos. Fazemo-los porque por meio desses discursos produz-se um apagamento do jogo das diferenças, produzindo-se uma maneira simplista, redutora e perigosa de representar as pessoas com deficiência. Nesse sentido, cabe esclarecer que em nossa análise não estamos preocupados em dizer se os discursos sobre a deficiência são discursos falsos ou verdadeiros, pois como nos diz Larrosa (1994, p.63), ―não se trata, então, de diferenciar o que há de verdadeiro, de fictício ou de ideológico no discurso, mas de determinar as regras discursivas nas quais se estabelece o que é verdadeiro, o que é fictício ou o que é ideológico‖. Ao examinar os textos culturais do Portal, não tentamos mostrar quem fala a verdade ou quem está mentindo, pois, certamente, estabelecer valor de juízo não contribui em nada para extinguir os discursos discriminatórios contra as pessoas com deficiência. Sobre isso, Albuquerque Jr (2011), salienta que: 74 não se combate a discriminação simplesmente tentando inverter de direção o discurso discriminatório. Não é procurando mostrar quem mente ou quem diz a verdade, pois se passa a formular um discurso que parte da premissa de que o discriminado tem uma verdade a ser revelada. (p.31). Mas, compreendemos que desvelar os estereótipos discursivos acerca da deficiência, passa pela procura das relações de poder e saber envolvidos na produção desses sujeitos. Sobre isso, Bhabha (1998, p.106), sugere que, para se efetuar uma analise produtiva do estereótipo, é preciso analisar o repertório de posições de poder e resistência, dominação e dependência, que constrói o sujeito colonizado. O autor esclarece que: o estereótipo é um modo de representação complexo, ambivalente e contraditório, ansioso na mesma proporção em que é afirmativo, exigindo não apenas que ampliemos nossos objetivos críticos e políticos mas que mudemos o próprio objeto da análise. (p.110) Bhabha (1998) propõe-nos, então, uma leitura do estereótipo em termos de fetichismo ou fobia, um tipo de representação que leva, ao mesmo tempo, ao reconhecimento e ao repúdio da diferença, duplo movimento que vai erigir uma possibilidade de apreensão do outro e de suas diferenças como algo a ser identificado, controlado e normalizado. Sobre isso, o autor explica que: dentro do discurso, o fetiche representa o jogo simultâneo entre a metáfora como substituição (mascarando a ausência e a diferença) e a metonímia (que registra continguamente a falta percebida). O fetiche ou estereótipo dá acesso a uma ―identidade‖ baseada tanto na dominação e no prazer quanto na ansiedade e na defesa, pois é uma forma de crença múltipla e contraditória em seu reconhecimento da diferença e recusa da mesma. (BHABHA, 1998, p.116) Enfim, toda essa conversa anterior sobre representação cultural, coloca-nos diante do esforço ou do propósito explícito de questionar os estereótipos existentes nos discursos do Portal, perguntando-nos sobre que relações de poder e saber têm produzido as imagens e enunciados clichês, que inventam a pessoa com deficiência. No entanto, o entendimento de que a pessoa com deficiência é uma invenção de determinadas relações de poder e do saber a elas correspondente nos aproxima dos estudos de Michel Foucault sobre a questão do poder-saber e dos processos de objetivação do sujeito. 75 Assim, ao analisarmos a representação cultural da deficiência, estamos centralmente preocupados em expor os modos de funcionamento do poder, revelando as suas estratégias, os seus mecanismos e as suas táticas na produção desses sujeitos. Nessa perspectiva, consideramos apropriado apresentar no próximo capítulo, as complexas conexões entre saber e poder estabelecidas na produção da deficiência. 76 CAPÍTULO 3 – A DEFICIÊNCIA NAS TEIAS DO PODER-SABER Quando as pessoas seguem Foucault, quando têm paixão por ele, é porque têm algo a ver e a fazer com ele, em seu próprio trabalho, na sua existência autônoma. Não é apenas uma questão de compreensão, mas de intensidade de ressonância, de acorde musical.(GILLES DELEUZE) Como anunciamos nos capítulos anteriores, partimos do pressuposto que as concepções sobre a deficiência são reflexos da sua realidade histórico-social e dos discursos que se enunciam sobre ela. Nesse sentido, as formulações de Foucault nos trazem suporte para questionar os ―discursos‖, os rituais e ideias sobre a deficiência que recebemos e aceitamos sem questionamentos, de uma forma acrítica, como se fossem verdades absolutas. Essa compreensão de que as palavras, com seus significados, adquirem sentidos, obriga-nos a desnaturalizar os modos de dizer sobre a deficiência, tendo em vista que os discursos que atravessam esses processos formativos resultam de um conjunto de práticas discursivas estabelecidas socialmente e, portanto, a partir de relações de poder. Dessa forma, não podemos perder de vista que a formação de professores no Portal do Professor do MEC, como um campo de produção de saber, é também um campo de luta, recortado por relações de poder, haja vista que o exercício do poder é intrínseco ao saber, e vice-versa. Portanto, ao admitirmos que os artefatos culturais do referido espaço formativo não apenas transmitem uma variedade de conhecimentos, mas que eles também fabricam sujeitos, produzindo identidades, e se reconhecermos que essas identidades estão sendo produzidas através de relações de poder, então precisamos nos ater a essa fabricação nesse espaço formativo. Nesse sentido, concordamos com Louro (1997, p.121) quando diz que ―as desigualdades só poderão ser percebidas – e desestabilizadas e subvertidas – na medida em que estivermos atentos/as para suas formas de produção e reprodução‖. Assim, nesse capítulo buscamos problematizar a relação entre deficiência e poder – o que implica analisar os modos pelos quais os sujeitos com deficiência vêm sendo posicionados como objetos de um saber, que os captam e os fixam. 77 Tal relação interessa-nos, pois acreditamos que os discursos do Portal – ao dizer coisas sobre os sujeitos com deficiência (objetivando-os), e ao definir modelos para conduzir a ação pedagógica a eles dirigida, possibilitam também o domínio dos corpos desses sujeitos, colocando-os como alvo de tecnologias disciplinares que visam a controlá-los e normalizá-los. Nessa direção, delimitamos inicialmente aquilo que Foucault concebe como poder e suas relações com o saber, evidenciando as possíveis implicações para produção dos sujeitos com deficiência. 3.1 A Questão do poder e sua relação com o saber na produção da deficiência Face às considerações anteriores a respeito das ―diferenças‖, podemos afirmar com segurança que a deficiência é uma invenção da linguagem, o que veementemente contrapõe-se à maneira idealista de pensar a deficiência. Aliás, pensamos de uma maneira idealista a respeito da deficiência, não porque nos acostumamos, mas porque fomos constituindo as nossas maneiras de concebê-las numa perspectiva moderna, pensando-a como um dado universal e atemporal, realizando-se para todos da mesma maneira, seguindo os mesmos passos, comportando problemáticas semelhantes para todos os indivíduos que a possuem. Diante disso, o diálogo com a perspectiva teórica Foucaultiana, permite-nos uma compreensão das malhas de poder e de um corpo de saberes que acabam constituindo um significado hegemônico na compreensão desse constructo que é a deficiência. Sendo assim, na perspectiva pós-estruturalista em que se inscreve esse trabalho, devemos nos perguntar sobre onde, quando e por quem as pessoas com deficiência estão sendo inventadas nos processos formativos para Educação Inclusiva? Nesse sentido, os estudos de Foucault, servem-nos como caixa de ferramenta para analisarmos o processo de objetivação do sujeito através dos procedimentos disciplinares, uma vez que os escritos iniciais desse autor buscam exatamente compreender os discursos em que o próprio sujeito é colocado como objeto de saber possível, compreender quais são, diz Foucault (2004, p.236), ―os processos de subjetivação e de objetivação que fazem com que o sujeito possa se tornar, na qualidade de sujeito, objeto de conhecimento‖. 78 Em relação aos processos de objetivação, Foucault (2004) esclarece que os processos de objetivação, por sua vez, dizem respeito ao modo como o sujeito pôde se tornar um objeto para o conhecimento. Todavia, para o autor, os processos de subjetivação referem-se ao modo como o próprio homem se compreende como sujeito legítimo de determinado tipo de conhecimento, ou melhor, como o sujeito percebe a si mesmo na relação sujeito-objeto. O filósofo destaca que a objetivação e subjetivação são, portanto, processos complementares que se relacionam por meio de jogos de verdade. Por jogos de verdade o autor compreende ―não a descoberta das coisas verdadeiras, mas as regras segundo as quais, a respeito de certas coisas, aquilo que um sujeito pode dizer decorre da questão do verdadeiro e do falso.‖ (FOUCAULT, 2004, p.235). Isso significa dizer que os jogos de verdade são os modos pelos quais os discursos podem ou não se tornar verdadeiros de acordo com as circunstâncias em que são ditos; a maneira pela qual um determinado tipo de objeto se relaciona com o sujeito. No caso do aparecimento das ciências humanas deparamo-nos com práticas discursivas em que o sujeito torna-se o objeto privilegiado de investigação e de discursos que podem ser verdadeiros ou falsos. Temos, deste modo, o sujeito compreendido como objeto de conhecimento e, ao mesmo tempo, sujeito detentor deste conhecimento. Foucault (1995) ressalta que em seu trabalho lidou com três modos de objetivação que transformam os seres humanos em sujeitos. O primeiro é a objetivação do sujeito do discurso na gramaire génerale, na filologia e na linguística; a objetivação do sujeito produtivo, do sujeito que trabalha na análise das riquezas e na economia; o terceiro consiste na objetivação do sujeito nas práticas divisoras em que ―o sujeito é dividido no seu interior e em relação aos outros‖ (p.231), citando como exemplos o louco e o são, o doente e o sadio, os criminosos e os bons meninos4. Mas, para tratar da objetivação do sujeito com deficiência é preciso uma análise mais aprofundada das relações de poder, uma vez que, Foucault, ao examinar a relação entre os jogos de verdade e a objetivação do sujeito nas ciências humanas, foi conduzido às relações de poder. Para o autor, as relações de poder 4 Paul Veyne (2008) esclarece que para Foucault, o método consiste em “compreender que as coisas não passam das objetivações de práticas determinadas, cujas determinações devem ser expostas à luz, já que a consciência não as concebe” (p.254) 79 são importantes já que na sociedade os discursos das ciências humanas funcionam não apenas como práticas discursivas, mas, sobretudo, como práticas coercitivas. Como diz Foucault (1995, p.232), é ―necessário estender as dimensões de uma definição de poder se quisermos usá-la ao estudar a objetivação do sujeito‖. Sobre o exercício do poder, Foucault (1995), esclarece que não acontece simplesmente como uma relação entre parceiros individuais ou coletivos, mas é um modo de ação de alguns sobre outros, destacando que ―só há poder exercido por ‗uns‘ sobre os ‗outros‘. No entanto, Foucault (1995) salienta que para o estabelecimento de uma relação de poder existem dois elementos indispensáveis, primeiro que o ―outro‖ (aquele sobre o qual ela se exerce) seja inteiramente reconhecido e mantido até o fim como o sujeito de ação, e também que se abra, diante da relação de poder, todo um campo de respostas, reações, efeitos, invenções possíveis. Nesse contexto, para Foucault o poder pode ser compreendido como, um conjunto de ações sobre ações possíveis, ele opera sobre o campo de possibilidade, onde se inscreve o comportamento dos sujeitos ativos; ele incita, induz, desvia, facilita ou torna mais difícil, amplia ou limita, torna mais ou menos provável; no limite, ele coage ou impede absolutamente, mas é sempre uma maneira de agir sobre um ou vários sujeitos ativos, e o quanto eles agem ou são suscetíveis de agir. Uma ação sobre ações. (1995, p.243). Foucault (2009), ressalta também que o poder se exerce mais que se possui, que não é privilégio adquirido da classe dominante, mas o efeito de conjunto de suas posições estratégicas, efeito manifestado e às vezes reconduzido pela posição dos que são dominados. Segundo o filósofo, esse poder não se aplica pura e simplesmente como uma obrigação ou uma proibição, aos que não têm, mas ele os investe, passa por eles e através deles; apoia-se neles, do mesmo modo que eles, em sua luta contra esse poder, apoiam-se por sua vez nos pontos em que ele os alcança. Para Foucault (2009), é importante admitir que o poder produz saber, que poder e saber estão diretamente implicados e que não há relação de poder sem constituição correlata de um campo do saber. No entanto, o autor salienta que não é a atividade do sujeito de conhecimento que produziria um saber útil ou arredio ao 80 poder, mas o poder-saber, os processos e as lutas que o atravessam e que o constituem, que determinam as formas e os campos possíveis do conhecimento. Para Veiga-Neto (2007a), o fato de Foucault aproximar saber de poder, não significa que para o filósofo eles são a mesma coisa, mas significa, antes de tudo, que poder e saber são dois lados de um mesmo processo. O autor esclarece que, as relações de força constituem o poder, ao passo que as relações de forma constituem o saber; mas aquele que tem o primado sobre este. O poder se dá numa relação flutuante, isso é, não se ancora numa instituição, não se apóia em nada fora de si mesmo, (...) por isso, o poder é fugaz, evanescente, singular e pontual. O saber, bem ao contrário, se estabelece e se sustenta nas matérias/conteúdos e em elementos formais que lhe são exteriores: luz e linguagem, olhar e fala. (p.130, grifos do autor) A perspectiva de análise foucaultiana sobre poder-saber, faz-nos olhar para os processos de formação de professores para a educação inclusiva e perguntar sobre os mecanismos de poder e saber que reserva ao sujeito com deficiência o lugar de objeto no discurso. O que nos preocupa, é que, ao mesmo tempo em que os processos formativos podem ser usados para, supostamente, propor formas mais libertárias e atualizadas para ação docente junto aos alunos com deficiência, por outro lado, podem estar fabricando um sujeito com deficiência como objeto descritível, analisável, reduzido a traços biológicos específicos de sua deficiência. É preciso considerar que o saber produzido sobre esses sujeitos tem dois efeitos complementares e que se reforçam mutuamente: Os corpos e as mentes das pessoas com deficiência ao tornarem-se objeto de um saber científico, no processo de formação de professores, passam a ter o seu desenvolvimento monitorado (descrevendo o que é normal ou o que é anormal), suas ações esquadrinhadas, descritas de forma detalhada. Ao mesmo tempo, serve de referência para que tais processos, assim descritos, tornem-se centrais para a definição de esquemas e formas de ensino e de aprendizagem que guiarão a conduta dos professores em formação. Pois, como nos diz Paul Veyne (2008, p.249), ―os objetos parecem determinar nossa conduta, mas primeiramente, nossa prática determina esses objetos‖. É por isso que devemos colocar em permanente crítica os estreitos laços entre o saber – que é tecido sobre os sujeitos com deficiência – nos processos formativos e o tipo de poder que esse saber quer ter sobre eles. Para isso, é preciso 81 interrogar as narrativas acerca da deficiência, examinando as relações de poder que conferem a esses sujeitos o lugar de ―objeto‖ no discurso. No entanto, em nossa análise, interessa-nos especificamente os processos de objetivação do sujeito nas práticas disciplinares, uma vez que, segundo Foucault (2009, p.164) ―a disciplina ‗fabrica‘ indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício‖. 3.2 O poder disciplinar e a objetivação do Outro Tendo considerações em vista acerca o exposto, do poder faz-se necessário disciplinar, no tecermos entanto, algumas interessa-nos particularmente, os aspectos relacionados às formas de controle e de exercício do poder que visa normalizar e normatizar os indivíduos. Foucault (2009, p.164) apresenta aquilo que ele conceitua como ―os recursos para o bom adestramento‖, o conjunto de procedimentos sobre o sujeito que possibilitam ―adestrar para retirar e se apropriar mais e melhor‖ (idem) da capacidade do sujeito ao utilizar-se de instrumentos como o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e o exame. Ao iniciarmos pela descrição da vigilância hierárquica, é importante pensarmos que esse dispositivo age na ordem do olhar, na ordem da visibilidade. Desse modo, o exercício do poder, nessa modalidade, funciona como ―um aparelho onde as técnicas que permitem ver induzem a efeitos de poder, e onde, em troca, os meios de coerção tornem claramente visíveis aqueles sobre quem se aplicam‖ (FOUCAULT, 2009, p.114). Para controlar os sujeitos de forma a normatizar e normalizar o comportamento destes, lança-se mão de toda uma arquitetura que, pelo olhar, exerce vigilância sobre os sujeitos, docilizando-os e tornando-os produtivos à maquinaria capitalista. Assim, o exercício do poder, na ordem do olhar, age sobre o corpo dos sujeitos na instância da estrutura física das instituições para alcançar o corpo dos indivíduos pela vigilância. Como apresentado anteriormente, o segundo aspecto relacionado à normalização é a sanção normalizadora. No âmbito dessa discussão, Foucault (2009) atesta ser a ―sanção normalizadora‖, um mecanismo disciplinar que busca 82 diferenciar os indivíduos em relação uns aos outros, medindo em termos quantitativos e hierarquizando, em termos de valor, as capacidades, o nível dos indivíduos. Para o pesquisador, esse processo busca, [...] traçar o limite que definirá a diferença em relação a todas as diferenças, a fronteira externa do anormal (a ―classe vergonhosa‖ da Escola Militar). A penalidade perpétua que atravessa todos os pontos e controla todos os instantes das instituições disciplinares compara, diferencia, hierarquiza, homogeniza, exclui. Em uma palavra, ela normaliza. (FOUCAULT, 2009, p.176). Assim, a disciplina visa punir aquilo que se desvia do padrão, do que é concebido como regra e, dessa forma, pela punição, corrige aqueles que se desviam do sistema para reduzir esses desvios por meio do exercício, haja vista que ―os sistemas disciplinares privilegiam as punições que são da ordem do exercício – aprendizado intensificado, multiplicado, muitas vezes repetido‖. No processo de punição ocorre a dicotomia gratificação-sanção, em que os indivíduos são separados em dois polos distintos, conforme suas ações: o bem e o mal. Nessa dicotomia, os sujeitos são divididos e hierarquizados, em especial, segundo suas virtudes e seu comportamento; portanto, caso a avaliação seja positiva, o sujeito será recompensado; mas, se ela for negativa, ele será apenado. Como salienta Foucault (2009, p.174), ―a disciplina recompensa unicamente pelo jogo das promoções que permitem hierarquias e lugares; pune rebaixando e degradando‖. É nesse processo disciplinar de diferenciação, hierarquização, comparação, homogeneização e exclusão que ocorre a normalização dos indivíduos, observada a constituição de um status de normalidade e de homogeneidade no qual aquilo que foge a esses parâmetros dá margem ao poder da norma que, ―dentro de uma homogeneidade, que é a regra, ele introduz, como um imperativo útil e resultado de uma medida, toda a gradação das diferenças individuais‖. (FOUCAULT, 2009, p.177). Finalmente, o último recurso elencado por Foucault para o bom adestramento diz respeito ao exame, procedimento que se constitui na combinação de técnicas de hierarquia, que vigia, e as da sanção, que normaliza. O exame, neste sentido, é um dispositivo disciplinar precedido de ritos que congregam o poder, a força e a verdade; portanto, nessa perspectiva, esse mecanismo ―é um controle normalizante, 83 uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir, estabelecendo sobre os indivíduos uma visibilidade através da qual eles são diferenciados e sancionados‖. O exame congrega o saber e o poder, uma vez que convoca as instituições para o seu exercício. Assim, ―o exame supõe um mecanismo que liga um certo tipo de formação de saber a uma certa forma de exercício do poder‖ (FOUCAULT, 2009, p. 179). Nessa perspectiva, a primeira característica do exame é que este objetiva os indivíduos por meio da invisibilidade do poder disciplinar, o que possibilita o exercício do poder nas menores relações cotidianas: ―o exame é a técnica pela qual o poder, ao invés de emitir sinais de poderio, ao invés de impor sua marca a seus súditos, capta-os num mecanismo de objetivação‖. (FOUCAULT, 2009, p.179) A segunda característica do exame é tornar a existência de um indivíduo em um documento, formado com base num banco de dados composto por registros desse sujeito, os quais podem ser de ordem médica, econômica ou de outras formas que possam recorrer ao uso do poder da escrita, ―fazer de maneira que a partir de qualquer registro geral se possa encontrar um indivíduo e que inversamente cada dado do exame individual possa repercutir nos cálculos de conjunto‖ (FOUCAULT, 2009, p.182). A terceira e última característica do exame diz respeito à individualização do sujeito como efeito de poder, efeito e objeto de saber. Assim, no exame como exercício da disciplina, os sujeitos são comparados entre si, de modo que sejam hierarquizados e classificados e passem pelas instâncias de normalização e da normatização, caso se desviem daquilo que lhe é posto como regra, como homogeneidade. As considerações anteriores sobre o poder disciplinar, faz-nos entender que o sujeito com deficiência é produzido no interior das articulações poder-saber, sendo assim, poderíamos dizer que a disciplina, através de seus variados instrumentos, possibilita relações de poder que permitem obter e constituir saberes sobre a deficiência. Todavia, a produção de saberes sobre os referidos sujeitos está diretamente conectada à regulação de suas condutas e à instituição de práticas educacionais voltadas para eles. Em outras palavras, poderíamos dizer que o poder disciplinar, ao mesmo tempo em que opera, colocando o indivíduo com deficiência na posição de objeto classificado, individualizado, descrito, mensurado, comparado a outros, detalhados 84 em sua individualidade, faz desses mesmos mecanismos um meio de controle e um método de dominação desses sujeitos. É por essa razão que a objetivação da deficiência - nos processos formativos - preocupa-nos, pois, ao mesmo tempo em que torna possível uma forma de saber ou de conhecimentos sobre esses sujeitos, através da produção de todo um estoque de ―verdades‖ científicas sobre a deficiência, esse saber pode dar lugar a um poder que visa controlar, dominar e normalizar esses sujeitos. Desse modo, ao empreender o registro analítico dos enunciados que conformam as práticas discursivas do Portal do Professor do MEC, tentaremos evidenciar os mecanismos dessa engrenagem pela qual ―as relações de poder dão lugar a um saber possível, e o saber reconduz e reforça os efeitos de poder‖ (FOUCAULT, 2009, p.32). Assim, no próximo capítulo, apresentamos as estratégias que colocamos em operação para trabalhar com os materiais empíricos e, igualmente, sobre as ferramentas teórico-metodológicas. Expomos os critérios de seleção do corpus de pesquisa e os modos de operar com eles. 85 PARTE II – A PERSPECTIVA METODOLÓGICA 86 CAPÍTULO 4 – CAMINHOS INVESTIGATIVOS DA PESQUISA Uma prática de pesquisa é um modo de pensar, sentir, desejar, amar e odiar; uma forma de interrogar, de suscitar acontecimentos, de exercitar a capacidade de resistência e de submissão ao controle; uma maneira de fazer amigos/as e cultivar inimigos/as; de merecer ter tal vontade de verdade e não outra. (CORAZZA, 2007) Neste capítulo, apresentamos o aporte teórico-metodológico que contribuiu para o desenvolvimento analítico do nosso trabalho, especificamente os que se relacionam com a Análise arqueológica do discurso. Todavia, em decorrência das especificidades da análise proposta, apresentamos alguns conceitos desenvolvidos por Foucault, destacando aqueles que podem subsidiar as reflexões acerca do discurso emergente dos ―artefatos culturais midiáticos‖, do Portal do Professor do MEC, acerca das pessoas com deficiência, entre os quais: enunciado, formação discursiva, prática discursiva, relações entre o discursivo e o não discursivo, interdiscurso, entre outros. Sobre essa abordagem, Carvalho (2004) salienta que a arqueologia foucaultiana é um caminho metodológico importante para análise de questões que permeiam a ação educativa, particularmente das questões que focam os problemas culturais, posto que, o campo educativo, como lugar de normalização da cultura, como potencial para qualificar ou desqualificar pessoas a partir de um tipo ideal de normalidade, é um campo que está relacionado com o processo de construção/produção de identidades sociais e culturais. Dessa forma, acreditamos que a análise arqueológica do discurso é aquela que nos possibilita penetrar nas linguagens, garimpando os significados da deficiência em uma multiplicidade de textos culturais. Em relação aos critérios para se fazer essa escolha metodológica, podemos dizer em consonância com as ideias de Corazza (2007), que: não escolhemos, de um arsenal de métodos aquele que melhor nos atende, mas somos ―escolhidas/os‖ (esta expressão tem, na maioria das vezes, um sabor amargo) pelo que foi historicamente possível de 87 ser enunciado; que para nós adquiriu sentidos; e que também nos significou, nos subjetivou, nos (as) sujeitou. (p.121). Dessa forma, nas seções seguintes, apresentamos primeiramente os pressupostos teórico-metodológicos da abordagem arqueológica foucaultiana, evidenciando os principais conceitos colocados em operação para trabalhar sobre o material empírico. Em seguida, apresentamos o nosso arquivo de pesquisa, evidenciando os critérios de seleção dos artefatos culturais midiáticos e os modos de operar sobre estes. 4.1 A abordagem arqueológica de Michel Foucault Ao tomar o projeto foucaultiano como abordagem metodológica, esta pesquisa lança-se ao desafio de afastar-se da ideia de modelo ou de um método que pode ser aplicado a qualquer objeto. Sobre a questão metodológica, Veiga-Neto (2007a) salienta que não existe um método foucaultiano, a menos que se tome a palavra ―método‖ num sentido bem mais livre do que os sentidos que lhe deu o pensamento moderno, sendo assim, o autor sugere que: se tome o sentido de método bem mais próximo ao sentido que lhe dava a escolástica medieval: algo como um conjunto de procedimentos de investigação e análise quase prazerosos, sem maiores preocupações com regras práticas aplicáveis e problemas técnicos, concretos. (p.17). Filiar-se a Foucault significa utilizar-se de seus pressupostos para refletir sobre os discursos acerca da pessoa com deficiência nos processos formativos, mantendo, segundo a proposta do próprio filósofo, a liberdade de pensar e problematizar as revoltas concretas e cotidianas. Sendo assim, concordamos com Veiga-Neto (2007a) quando afirma que: se quisermos adotar uma perspectiva foucaultiana, não devemos partir de conceitos, nem devemos nos preocupar em chegar a conceitos estáveis e seguros em nossas pesquisas, já que acreditar que eles tenham tais propriedades é acreditar que a própria linguagem possa ser estável e segura, uma suposição que não faz o mínimo sentido nessa perspectiva. Muito mais interessante e produtivo é perguntarmos e examinarmos como as coisas funcionam e acontecem e ensaiarmos alternativas para que elas venham a funcionar e acontecer de outras maneiras. (p.19). 88 De um lado, ao analisar os diferentes discursos que produzem a deficiência, na trama discursiva do Portal do Professor do MEC, procuramos ―admitir um jogo complexo e instável em que o discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito de poder, e também obstáculo, escora, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta‖ (FOUCAULT, 2005, p.96 ). Partimos do pressuposto que: não existe um discurso de poder de um lado e, em face dele, um outro contraposto. Os discursos são elementos. Os discursos são elementos ou blocos táticos no campo da correlação de força; podem existir discursos diferentes e mesmo contraditórios dentro de uma mesma estratégia; podem, ao contrário, circular sem mudar de forma entre estratégias opostas. (2005, p.96). Por outro lado, escolhemos a abordagem foucaultiana, porque ela nos ajuda a interrogar os discursos sobre a deficiência e as relações de poder que dela se apoderam. Assim, ao nos debruçarmos sobre o arquivo a ser analisado, buscaremos interrogar os discursos, atendo-nos ao nível de existência das coisas ditas, trabalhando com o próprio discurso, procurando as suas regularidades. No que tange aos procedimentos de análise, apoiamo-nos em Meyer (2012), para quem: aceitar que duvidar do instituído é uma estratégia de multiplicação, localização e relativização daquilo que se apresenta como verdadeiro; abrir mão de sentidos e conceitos homogêneos e fixos para explorar sua multiplicidade e provisoriedade. (...) abrir mão dos enfoques teóricos que priorizam o caráter explicativo e prescritivo do conhecimento para assumir enfoques que estimulem a desnaturalização e problematização das coisas que aprendemos a tomar como dadas; abrir mão da preocupação de localizar relações de causa e efeito, origens e processos de evolução (...); tomar o exame do poder como elemento relevante e central dos textos sob análise e perguntar-se: que jogos de poder estão envolvidos com a produção desses sujeitos e/ou objetos? delimitar quem define a diferença, como a diferença em foco é definida e apresentada (...); (p.57). Diante das considerações anteriores, cumpre destacar, inicialmente, que o discurso, para Foucault (2013, p.59), não é, ―como se poderia esperar, um puro e simples entrecruzamento de coisas e de palavras‖, mas é uma prática discursiva constituída por uma gama de enunciados produzidos por um sujeito, em um lugar 89 institucional determinado por regras sócio-históricas que definem e possibilitem que ele seja enunciado. Nesse sentido, Foucault expõe o caráter atributivo da linguagem; ou seja, o sujeito, ao utilizar a linguagem, dá sentido ao mundo, e é por meio da materialidade da língua que o discurso constrói os objetos de que fala – no caso aqui analisado, o sujeito com deficiência. É valido lembrar que o discurso é objeto de desejo e poder, uma vez que este precisa corresponder aos seus procedimentos externos de controle e delimitação. Segundo Foucault (1996), em toda sociedade, a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm como função conjurar seus poderes e perigos, dominar seus acontecimentos aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade. (p.9). Nesse âmbito, a abordagem arqueológica proposto pelo filósofo, mostra-nos que ao descrever a formação de objetos de um discurso, nesse caso, o discurso sobre a deficiência, temos que nos afastar da pura determinação léxica ou do campo semântico, buscando identificar as relações caracterizadoras de uma prática discursiva. Como ensina Foucault (2013), certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os tornam irredutíveis à língua e ao ato de fala. É esse ―mais‖ que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever. (p.60). Assim, no trabalho de descrição e interpretação do discurso sobre a deficiência, no Portal do Professor do MEC, temos como primeira tarefa desprendernos ―de um longo e eficaz aprendizado que ainda nos faz olhar os discursos apenas como um conjunto de signos, como significantes que se referem a determinados conteúdos, carregando tal ou qual significado, quase sempre oculto, dissimulado‖ (FISCHER, 2001, p.198). Portanto, ao empreender a análise dos discursos emergentes dos artefatos culturais, do referido espaço formativo, não procuraremos as reais intenções escondidas por trás dos documentos, mas tentaremos explorar ao máximo os materiais, escapando da fácil interpretação, ancorados na compreensão de os documentos são uma produção histórica e política, e que a linguagem veiculada ali 90 também é constitutiva de práticas. Pois, conforme nos mostra Foucault (2013, p.60), os discursos devem ser tratados ―como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam‖. Para tanto, ao realizar a leitura dos textos culturais do Portal do Professor do MEC, pretendemos tomar as fontes não como documentos, nem como fonte de prova, mas tomá-las como material de trabalho, como monumentos a serem desconstruídos e reconstruídos. Portanto, não tomamos os discursos sobre a deficiência como uma verdade sobre esses sujeitos, mas como monumentos de sua construção. Tal análise refere-se a uma leitura que: não trata o discurso como documento, como signo de outra coisa, como elemento que deveria ser transparente, mas cuja opacidade importuna é preciso atravessar freqüentemente para reencontrar, enfim, aí onde se mantém a parte, a profundidade do essencial; ela se dirige ao discurso em seu volume próprio, na qualidade de monumento. (FOUCAULT, 2013, p.169-170). No tocante a isso, pensamos na necessidade de apresentar algumas das características da análise arqueológica, estabelecendo os princípios fundamentais dessa abordagem, uma vez que é a partir dela que analisamos o nosso objeto de pesquisa. Foucault (2013) apresenta algumas características da análise arqueológica, a saber: 1. 2. 3. 4. A arqueologia busca definir não os pensamentos, as representações, as imagens, os temas obsessões que se ocultam ou se manifestam nos discursos, mas os próprios discursos, enquanto práticas que obedecem a regras. A arqueologia não procura encontrar a transição contínua e insensível que liga, em declive suave, os discursos ao que os precede, envolve ou segue. (...) O problema dela é, pelo contrário, definir os discursos em sua especificidade; mostrar em que sentido o jogo das regras que utilizam é irredutível a qualquer outro; segui-los ao longo de suas arestas exteriores para melhor salientá-los. A arqueologia não é ordenada pela figura soberana da obra; não busca compreender o momento em que esta se destacou do horizonte anônimo. (...) Ela define tipos e regras de práticas discursivas que atravessam obras individuais, às vezes as comandam inteiramente e as dominam sem que nada lhes escape; mas às vezes, também, só lhes regem uma parte. Finalmente, a arqueologia não procura reconstituir o que pôde ser pensado, desejado, visado, experimentado, almejado pelos homens no próprio instante em que proferiram o discurso; (...) 91 Não é o retorno ao próprio segredo da origem; é a descrição sistemática de um discurso-objeto. (p.169-170). Nessa perspectiva, o filósofo propõe-nos analisar o discurso como um acontecimento discursivo, a fim de buscar as unidades do discurso constituídas por enunciados dispersos e heterogêneos, que coexistem, que se supõem, transformam-se ou se excluem. A respeito da noção de acontecimento discursivo, Foucault (2013) afirma que: a análise do campo discursivo é orientada de forma inteiramente diferente; trata-se de compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de sua situação; de determinar as condições de sua existência, de fixar seus limites de forma mais justa, de estabelecer suas correlações com os outros enunciados a que pode estar ligado, de mostrar que outras formas de enunciação exclui. Não se busca, sob o que está manifesto, a conversa semi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar por que não poderia ser outro, como exclui qualquer outro, como ocupa, no meio dos outros e relacionado a eles, um lugar que nenhum outro poderia ocupar. A questão pertinente a tal análise poderia ser assim formulada: que singular existência é esta que vem à tona no que se diz e em nenhuma outra parte? (p.34). Tendo em vista o exposto acerca do discurso e do acontecimento discursivo, observamos a importância desses conceitos na composição da empreitada arqueológica empreendia por nós, ao longo da pesquisa. Esses conceitos nos orientam a partir da noção de relação, uma vez que, conscientes do enunciado enquanto unidade mínima do discurso, tomamo-lo em sua singularidade de emergência. Para Foucault (2013), o enunciado por ser definido como: a modalidade de existência própria desse conjunto de signos: modalidade que lhe permite ser algo diferente de uma série de traços, algo diferente de uma sucessão de marcas em uma substância, algo diferente de um objeto qualquer fabricado por um ser humano; modalidade que lhe permite estar em relação com um domínio de objetos, prescrever uma posição definida a qualquer sujeito possível, estar situado entre outras performances verbais, estar dotado, enfim, de uma materialidade repetível. (p.130-131). Na acepção de Foucault (2013), não há enunciado que não esteja apoiado em um conjunto de signos, mas o que importa é o fato dessa função caracterizar-se por quatro elementos básicos: um referente (ou seja, um princípio de diferenciação), 92 um sujeito (no sentido de posição a ser ocupada), um campo associado (isto é, coexistir com outros enunciados), e uma materialidade específica – por tratar de coisas efetivamente ditas, escritas, gravadas em algum tipo de material, passíveis de repetição ou reprodução, ativadas através de técnicas, práticas e relações sociais. O enunciado foge à conceituação gramatical do que poderia compará-lo à frase ou ao ato de fala, porquanto está no plano discursivo, não se reduzindo a uma estrutura lingüística, nem correspondendo à intencionalidade do falante que o enuncia. Sobre o enunciado, Fischer (2001) esclarece que para Foucault o que interessa é a sua condição mesma de enunciado, em seus quatro elementos básicos: 1. a referência a algo que identificamos [...] 2. o fato de ter um sujeito, alguém que pode efetivamente afirmar aquilo [...] 3. o fato de o enunciado não existir isolado, mas sempre em associação e correlação com outros enunciados, do mesmo discurso [...], ou de outros discursos [...] 4. finalmente, a materialidade do enunciado, as formas muito concretas com que ele aparece, nas enunciações que aparecem em textos pedagógicos, em falas de professores, nas mais diferentes situações, em diferentes épocas [...]. (p.202). Por isso, procuramos, ao longo deste trabalho, separar os enunciados que tratam da questão do sujeito com deficiência em sua instância de acontecimento, tentando dar conta das especificidades acima referidas. Todavia, entendemos que, quando falamos de um discurso sobre a deficiência, estamos afirmando que esse discurso compreende um conjunto de enunciados, apoiados num determinado sistema de formação ou formação discursiva. Por formação discursiva ou sistema de formação compreende-se: [...] um feixe complexo de relações que funcionam como regra: ele prescreve o que deve ser correlacionado em uma prática discursiva, para que esta se refira a tal ou tal objeto, para que empregue tal ou tal enunciação, para que utilize tal ou tal conceito, para que organize tal ou tal estratégia. Definir em sua individualidade singular um sistema de formação é, assim, caracterizar um discurso ou um grupo de enunciados pela regularidade de uma prática. (FOUCAULT, 2013, p.88). 93 Isso significa que as coisas ditas sobre a deficiência se inscrevem no interior de algumas formações discursivas e de acordo com um certo regime de verdade, e denota que ao enunciar sobre a deficiência os sujeitos estão sempre obedecendo a um conjunto de regras, dadas historicamente e afirmando verdades de um tempo. Esse entendimento coloca-nos diante da necessidade de trazer algumas considerações acerca da formação das modalidades enunciativas, uma vez que, sob o viés arqueológico, as modalidades enunciativas estão imbricadas com as questões das práticas discursivas e não discursivas, e das relações de saber e poder que as constituem, pois a arqueologia faz também com que apareçam relações entre as formações discursivas e os domínios não discursivos. Para introduzir o tema das modalidades enunciativas, precisamos primeiramente conceituar a noção de prática discursiva. Para Lecourt (2006, p.51), ―por prática discursiva não se entende a atividade de um sujeito, e sim a existência objetiva e material de certas regras às quais o sujeito tem que obedecer quando participa do discurso‖. Compreendemos, então, por prática discursiva o conjunto de relações estabelecidas entre diferentes domínios, resultantes de uma complexa combinação, ―cuja compreensão exige a referência a práticas de outras naturezas‖. (LECOURT, 2006, p.53). Nesse sentido, Foucault (2013) ao desenvolver o conceito de prática discursiva, esclarece que as coisas ditas são amarradas às dinâmicas de poder e saber de seu tempo, definindo-a como: um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística, as condições de exercício da função enunciativa. ( p.144). A noção de prática discursiva mostra-nos que, para fazer a descrição arqueológica dos discursos sobre a deficiência no espaço formativo do Portal, devemos ver o nível de interferência destas muitas práticas, na instituição e no deslocamento da ideia de deficiência. Sobre isso, Foucault (2013) assinala que na descrição arqueológica deve-se procurar fazer com que apareçam relações entre as formações discursivas e domínios não discursivos (instituições, acontecimentos políticos, práticas e processos econômicos). Tais aproximações não têm por finalidade 94 revelar grandes continuidades culturais ou isolar mecanismos de causalidade. [...] ela tenta determinar como as regras de formação de que depende – e que caracterizam a positividade a que pertence – podem estar ligadas a sistemas não discursivos: procura definir formas específicas de articulação. (p.198). Pensando no discurso como prática discursiva realizada no interior das instituições, trazemos o exemplo do que ocorre com os discursos que têm por objeto o aluno com deficiência. Para a prática discursiva médica, o sujeito em questão é tido como um doente, devido aos problemas de ordem física e mental; para a escola, na prática discursiva da educação, por vezes ele é marginalizado, devido ao comportamento que apresenta ou as dificuldades de aprendizagem; e para a mídia ele é objetivado e subjetivado com base nas práticas discursivas médica e escolar. Nesses termos, uma de nossas preocupações centrais é colocar em evidência as regras que possibilitam tornar-se possível enunciar a respeito desses sujeitos, atentando-nos para as relações estabelecidas entre instituições, processos econômicos e sociais, sistema de normas, técnicas, tipos de classificação, modos de caracterização, entre outras. Obviamente, ao dar visibilidade a essas regras, não estamos buscando isolar mecanismos de causalidade, pelo contrário, queremos fazer aparecer uma dispersão de práticas e enunciados coexistentes, laterais, ―como fios soltos de diferentes cores que vão se encontrando em determinados pontos e vão dando origem a um desenho sem que para isso seja necessária a convergência de todos para o mesmo ponto.‖ (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2011, p.43). Dessa forma, para realizar a análise das modalidades enunciativas de um discurso sobre a deficiência procuramos, inicialmente, responder à pergunta: – quem fala? – ou seja, ―quem, no conjunto de todos os sujeitos falantes, tem boas razões para ter esta espécie de linguagem acerca da deficiência.‖ (FOUCAULT, 2013, p.61). Todavia, para responder a essa pergunta, foi necessário responder a outras tantas, uma vez que a pergunta quem fala desdobra-se em muitas outras, a saber: Qual o status do enunciador? Qual a sua competência? Em que campo de saber se insere? Qual seu lugar institucional? Como seu papel se constitui juridicamente? Como se relaciona com outros poderes além do seu? Qual o lugar de onde fala? No que concerne ao lugar de onde se fala, buscamos, em nossa pesquisa evidenciar o local institucional de onde os sujeitos discursivos objetivam o sujeito com deficiência, bem como aquilo que é possível ser enunciado por esses sujeitos, pois o médico enuncia do campo da biologia, o professor enuncia da área da 95 pedagogia e mídia congrega estes dois campos. O espaço discursivo - por nós delimitado na pesquisa em questão - foi selecionado do interior do campo discursivo da educação, particularmente do Portal do Professor do MEC, considerando ser esse um local institucional importante, que tem o desejo e o poder de enunciação, e, portanto, de produzir efeitos de vontade, de verdade, no campo educativo, sobre os referidos sujeitos. Um segundo elemento importante a ser analisado, presente na instância de quem é autorizado a falar, está relacionado aos sistemas de diferenciação e de relações, no caso, do saber pedagógico com o de outras áreas ou instituições. Assim, o sujeito discursivo legitimado a falar sobre o sujeito aluno com deficiência, seja esse sujeito o médico, o professor, o psicólogo, o psiquiatra ou qualquer outro, deve corresponder aos procedimentos da ordem dos saberes que perpassam a instituição onde esse sujeito circula, para assumir a posição-sujeito que lhe cabe. Nesse ponto, tentamos em nossa pesquisa determinar o status dos indivíduos que têm o direito regulamentar ou tradicional para proferir os discursos sobre a deficiência, intentando colocar em destaque os sistemas de diferenciação e de relações com outros indivíduos ou outros grupos que têm eles próprios seus status na enunciação desses sujeitos. Um terceiro elemento importante a ser analisado, presente na instância de quem é autorizado a falar, versa sobre a posição-sujeito. No exercício da função enunciativa, o sujeito discursivo e a posição adotada por ele estão interrelacionados, uma vez que a posição-sujeito ―é um lugar determinado e vazio que pode ser efetivamente ocupado por indivíduos diferentes.‖ (FOUCAULT, 2013, p.115). Assim, ao se fazer funcionar o conceito de função enunciativa, no trabalho de descrição do enunciado sobre a deficiência, atentamos para a posição que pode e deve ocupar todo indivíduo para ser sujeito do discurso sobre esses sujeitos. Ainda nesse movimento de descrição do discurso sobre a deficiência, consideramos a importância de complexificá-los evidenciando a sua configuração interdiscursiva. Sobre isso, Foucault (2013) salienta que: [...] não há enunciado em geral, enunciado livre, neutro e independente; mas sempre um enunciado fazendo parte de uma série ou de um conjunto, desempenhando um papel no meio dos outros, neles se apoiando e deles se distinguindo: ele se integra sempre em um jogo enunciativo, onde tem sua participação, por ligeira e ínfima que seja [...]. Não há enunciado que não suponha 96 outros; não há nenhum que não tenha em torno de si, um campo de coexistências, efeitos de série e de sucessão, uma distribuição de funções e de papéis. (p.121). Acreditamos que tal modo de investigar, tomando a abordagem foucaultiana como fundamento para a nossa análise, pode levar-nos a compreender alguns dos modos de operar do poder, identificando suas estratégias e táticas, tendo em vista que, na produção da deficiência, entra em jogo a luta entre vários discursos e a luta pela imposição de sentidos sobre esses sujeitos. É a partir dessa leitura que passamos agora a apresentar o nosso arquivo de pesquisa. 4.2 O arquivo Ao adotar a abordagem arqueológica como instrumento de análise, queremos salientar que não construímos um corpus de pesquisa, mas sim um arquivo. O arquivo, para Foucault (2013), não diz respeito às relações discursivas estabelecidas em determinado momento em que se atribua um fundo de verdade, como se estas fossem tomadas na perspectiva de um documento, como se fosse possível o desvelamento total e primeiro de um determinado acontecimento discursivo. Para o referido autor, a noção de arquivo consiste na lei ―do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares.‖ (FOUCAULT, 2013, p. 158). A respeito dessa noção, cabe ainda considerarmos que o arquivo é o responsável pelos sistemas de enunciabilidade e de funcionamento dos discursos, haja vista que, em vez de vermos alinharem-se, no grande livro mítico da história, palavras que traduzem, em caracteres visíveis, pensamentos constituídos antes e em outro lugar, temos na densidade das práticas discursivas sistemas que instauram os enunciados como acontecimentos (tendo suas condições e seu domínio de aparecimento) e coisas (compreendendo suas possibilidades e seu campo de utilização). (FOUCAULT, 2013, p.157). Assim, numa perspectiva foucaultiana, procuramos pensar quais relações podem ser estabelecidas entre as diferentes materialidades presentes em nosso arquivo, dada a sua constituição heterogênea, composta por sujeitos discursivos que falam de posições variadas. Assim procedemos por causa de nossa preocupação em procurar compreender os efeitos de sentido desses diferentes discursos, bem 97 como as condições de emergência, de existência e de possibilidade dos referidos textos. A partir dessas considerações iniciais, consideramos necessário apresentar o nosso percurso para seleção do material empírico, tendo em vista que, por estar realizando nossa investigação num espaço de formação on-line, deparamo-nos com uma multiplicidade de textos culturais, distribuídos nos espaços denominados Espaço da aula, Jornal do professor, Recursos Educacionais, ―Cursos e Materiais‖, que tratavam da temática deficiência, fazendo-se necessário, para efeito de análise, limitar o material. Ao fazer uma análise prévia dos textos culturais, percebemos que o conteúdo sobre a deficiência estava presente em todas as seções referidas anteriormente, pois efetuando uma busca através da expressão inclusão da pessoa com deficiência encontramos duas edições do Jornal do professor; 33 recursos educacionais e 769 sugestões de aulas com esta temática, como explicitamos no primeiro capítulo. Essa primeira exploração levou-nos a constatar a relevância de escolher discursos representativos de vários campos de poder que investem esforços em definir verdades sobre as pessoas com deficiência, tendo em vista que os enunciados devem ser vistos relacionalmente, ou seja, em relação com o que Foucault chamou de ―espaços de diferenciação‖, dentro de uma relação mais geral de formulações. Ao fazer essa opção, já estamos afirmando que temos a intenção de ver como a pessoa com deficiência é narrada no espaço da aula, no jornal do professor e também mídias institucionais disponibilizadas aos docentes através dos recursos multimídias. Embora correndo o risco de nos debruçar sobre materiais tão diversos, entendemos que é exatamente esse entrelaçamento das mídias, essa plena e permanente circularidade de textos, que permitirá capturar os diferentes sentidos e significados da deficiência. No entanto, devido à grande quantidade de materiais disponibilizados nesse espaço virtual, achamos pertinente apresentar alguns critérios para a seleção do material a ser analisado. 4.2.1 A seleção das aulas Para a seleção das aulas, nossa primeira preocupação foi efetuar uma catalogação prévia das aulas disponibilizadas no Espaço da aula. Privilegiamos 98 aquelas relacionadas com a temática ―deficiência‖, tendo em vista a multiplicidade e heterogeneidade do material em análise. Com efeito, inventariamos 121 aulas, as quais agrupamos em três blocos, sendo o primeiro relacionado com a Educação, o segundo com aspectos do cotidiano (Lazer, trabalho, sexualidade, etc.), e o terceiro e último bloco concentramse as aulas destinadas ao ensino do respeito, amizade e acolhimento do Outro com deficiência. A distribuição das aulas nesses três grandes grupos justifica-se por algumas razões, a saber: Em primeiro lugar, se pretendemos identificar que relações de poder-saber estão produzindo a deficiência nesse espaço formativo, faz-se necessário selecionar aulas que falem sobre a educação desses sujeitos; Em segundo lugar, para compreender como as pessoas com deficiência estão representadas nos discursos que circulam no espaço da aula, faz-se necessário selecionar aulas que narrem esses sujeitos nos diversos aspectos de sua vida, como sexualidade, trabalho, lazer, entre outras; Por último, a opção por selecionar, no terceiro grupo, aulas sobre respeito, amizade, acolhimento, deve-se ao entendimento de que esse tipo de estratégia pode acabar por não fornecer aos professores os instrumentos para questionar os mecanismos e as instituições envolvidas na criação das diferenças. Como nos diz Silva (2009), uma estratégia que simplesmente admita e reconheça o fato da diversidade torna-se incapaz de fornecer os instrumentos para questionar precisamente os mecanismos e as instituições que fixam as pessoas em determinadas identidades culturais e que as separam por meio da diferença. Antes de tolerar, respeitar e admitir a diferença é preciso explicar como ela é ativamente produzida. (p.100101). Assim, no primeiro grupo de aulas, que se referiam à ―Inclusão e Educação‖ percebemos uma preocupação dos professores em tratar da inclusão para os diferentes tipos de deficiência. Encontramos aulas que falavam sobre a deficiência mental, a deficiência visual, a deficiência física e a deficiência múltipla na escola. Esse conjunto de aulas, se comparadas às outras aulas sobre inclusão, possuíam uma grande número de acessos, levando-nos a perceber que inclusão para os 99 diferentes tipos de deficiência, parece ser uma preocupação de grande parte dos professores que acessavam o Portal. No entanto, inquietou-nos a constatação de que todas as aulas tinham como objetivo conceituar a deficiência física, a deficiência mental e a deficiência intelectual. A aula intitulada ―A deficiência auditiva na escola‖, por exemplo, trouxe como objetivo: trabalhar o conceito de Deficiência Auditiva (DA) no contexto escolar, de forma a proporcionar a compreensão da importância de se conviver com as diferenças, sendo que a pluralidade favorece que aprendamos uns com os outros, independentemente das nossas características peculiares. Além disso, será trabalhada a Língua Brasileira de Sinais e a sua importância para os alunos com DA. Ainda, esta aula pode contribuir para aprimorar as capacidades crítica, analítica e argumentativa dos alunos relacionadas às temáticas de deficiência Auditiva e Inclusão Escolar. Esse aspecto observado nos objetivos propostos trouxe-nos certa inquietação acerca do sentido da diferença, uma vez que esse tipo de proposta pode contribuir para a construção de uma percepção essencializada da deficiência, como se houvesse uma identidade única para a pessoa com deficiência mental, com deficiência física ou para o surdo. Assim, elegemos no primeiro grupo as seguintes aulas: a) A deficiência visual na escola; b) A deficiência auditiva na escola; c) A deficiência mental na escola; d) A deficiência física na escola; e) As deficiências Múltiplas na escola; f) Diferentes leituras para pessoas com necessidades especiais: Braille, Libras e leitura labial. No segundo grupo, estão as aulas referentes à ―Vida da pessoa com deficiência nos seus diversos aspectos‖. Nesse grupo, três aulas chamaram-nos atenção, duas relacionadas com a sexualidade da pessoa com deficiência e uma relacionada com o trabalho. O que nos surpreendeu inicialmente foi o fato de que, num quantitativo de 121 aulas, encontramos apenas três referentes a essas temáticas, indicando-nos que esse quase silenciamento sobre o assunto tem como razão o fato de que muitos professores não vislumbram a conexão possível entre a alteridade deficiente e a sexualidade, ou ainda a sua capacidade para o mundo do trabalho. Sobre isso, Pérez de Lara (1999 apud SKLIAR, 2001a, p.104) afirma que a alteridade deficiente raras vezes é vista como pertencendo a uma nação, como cidadãos e sujeitos políticos, articulando-se em movimentos sociais, possuidores de sexualidade, religião, etnia, classe social, idade, gênero e atores. 100 Assim, a partir dessa observação selecionamos nesse grupo as seguintes aulas: a) A pessoa com deficiência pode namorar? b) A pessoa com deficiência pode ter relações sexuais? c) A deficiência e o mercado de trabalho. No terceiro grupo, encontram-se aulas sobre respeito, amizade, acolhimento, convivência. Ao explorá-las verificamos que tratavam do tema diversidade, relacionando-o com questões étnicas, religiosas, de gênero, dentre outras, excluindo as questões ligadas à deficiência. No entanto, nesse conjunto nos deparamos com algumas aulas que, embora tratando da questão da diversidade, faziam referência às pessoas com deficiência. Sob esse enfoque, selecionamos no terceiro grupo quatro propostas de aulas: a) iguais ou diferentes: somos especiais; b) desigualdade e diversidade: o outro lado da moeda; c) somos todos iguais? d) pensando sobre a convivência na escola. Em síntese, segue a tabela abaixo em que destacamos as aulas selecionadas no Espaço da Aula5. QUADRO 1 – Aulas selecionadas no Espaço da Aula AULAS SELECIONADAS PARA ANÁLISE Aulas que abordam Inclusão e Aulas que abordam a vida Aulas que ensinam sobre Educação da pessoa com deficiência respeito, amizade, nos acolhimento seus diferentes aspectos A deficiência visual na escola A deficiência auditiva na escola A deficiência mental na escola A pessoa com deficiência Iguais ou diferentes: somos pode namorar? especiais A pessoa com deficiência Desigualdade e diversidade: pode ter relações sexuais? o outro lado da moeda. A deficiência e o mercado de Somos todos iguais? trabalho A deficiência física na escola Pensando sobre a convivência na escola. A deficiência múltipla na escola Diferentes leituras para pessoas com necessidades especiais: Braille, Libras e leitura labial 5 As aulas selecionadas para análise estão disponíveis no Portal do Professor do MEC em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/buscarAulas.html 101 4.2.2 A seleção do Jornal do Professor e dos Recursos Multimídia Após a definição das aulas, iniciamos outra etapa, em que selecionamos as matérias veiculadas no Jornal do professor com a temática deficiência. Ao explorar esse espaço, constatamos que duas edições desse jornal tratavam dessa temática, portanto, selecionamos a edição ―Libras na escola‖ e ―Acessibilidade e Inclusão‖6. Em relação aos recursos multimídia, fizemos uma busca com a palavra deficiência, encontrando trinta e três recursos multimídia com a respectiva temática. A partir dessa busca, selecionamos aqueles recursos que falam sobre a pessoa com deficiência, excluindo os destinados a ensinar sobre Libras, Braille ou até mesmo recurso que ensinam a fazer materiais adaptados. Portanto, selecionamos os seguintes recursos multimídia: bem além dos limites (deficiência física); o esporte como fator de inclusão na escola; deficiência Mental: ameaça ou oportunidade; escola e inclusão social; escola a primeira aventura7. Assim, consideramos a importância de selecionar para o nosso arquivo de pesquisa textos culturais diversos, uma vez que, ao examinar esse material constatamos que as pessoas com deficiência que falam ou são faladas no Portal do Professor do MEC dispersavam-se de inúmeras formas e através das diversas modalidades enunciativas, como: no discurso dos vídeos institucionais, das matérias veiculadas no jornal, na entrevista com profissionais, nas reportagens, nas imagens e nos discurso das aulas destinadas a formar o professor. Portanto, tal composição do arquivo justifica-se, na medida em que investigar e refletir sobre a representação cultural da deficiência, especificando suas articulações com os saberes e poderes, não é algo a ser realizado sob uma narrativa linear, mas algo que pode ser possível quando se opera sobre exemplos dispares que se interconectam. Ou, como Foucault (2013) salienta, trata-se de, numa dispersão, conseguir estabelecer as regularidades. Esse é o principal critério para que o arquivo seja composto por materiais variados. Feitas essas considerações, passamos a apresentar as componentes do nosso arquivo de análise, explicitando-os no quadro abaixo: 6 As edições do Jornal do Professor selecionadas para análise estão disponíveis no Portal do Professor do MEC em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/jornal.html 7 Os recursos multimídia selecionados para análise estão disponíveis no Portal do Professor do MEC em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/jornal.htmlhttp://portaldoprofessor.mec.gov.br/recursos.html 102 QUADRO 2 – Arquivo para análise ARQUIVO DE ANÁLISE Aulas selecionadas Jornal do Professor Recursos Multimídia A deficiência visual na escola Libras na Escola A deficiência auditiva na escola A deficiência mental na escola Acessibilidade e Inclusão Bem além dos limites (deficiência física) O esporte como fator de inclusão Deficiência Mental: ameaça ou oportunidade Escola e Inclusão social. Escola, a primeira aventura. A deficiência física na escola A deficiência múltipla na escola A pessoa com deficiência pode namorar? A pessoa com deficiência pode ter relações sexuais? A deficiência e o mercado de trabalho Iguais ou diferentes: somos especiais Desigualdade e diversidade: o outro lado da moeda. Somos todos iguais? Pensando sobre a convivência na escola. Diferentes Leituras para pessoas com necessidades especiais: Braille, libras e leitura labial Por último, gostaríamos de esclarecer que, na análise do material selecionado, não faremos nenhuma diferença entre um filme, uma música, um artigo de jornal ou uma aula produzida pelos professores, pois entendemos que todos os discursos são produtores de significados sobre a deficiência. O que queremos é apenas problematizar o estatuto de verdade de cada um, sendo assim, de forma análoga a Albuquerque Jr. (2011, p.45), ―não nos preocuparemos em usar os documentos como prova, mas como matérias de expressão, como material a ser trabalhado, despedaçado em sua inteireza de sentido‖. Assim, no próximo capítulo, nos deteremos a analisar os discursos emergentes das mídias que integram o Portal do Professor do MEC. 103 PARTE III – A ANÁLISE DA PRODUÇÃO CULTURAL DA DEFICIÊNCIA 104 CAPÍTULO 5 – A PRODUÇÃO CULTURAL DO OUTRO COM DEFICIÊNCIA NAS RELAÇÕES DE PODER-SABER A resistência que podemos exercer é dentro desta própria rede de poder, não fora dela, com seu desabamento completo. (ALBUQUERQUE JR,2011). A proposta de análise que se apresenta nesta seção está fundamentada na abordagem arqueológico de análise de discursos proposto por Michel Foucault, e nos pressupostos teóricos dos Estudos Culturais. Para realizar o movimento de descrição e interpretação das relações de saber e poder, produtoras da deficiência no espaço formativo do Portal do Professor do MEC, iniciamos pela análise dos enunciados a partir da descrição da função enunciativa. A análise da função enunciativa constitui uma reescrita dos discursos sobre a deficiência no Portal do Professor do MEC, considerando os seguintes aspectos: descrição das relações entre os enunciados e os espaços de diferenciação, a função e a determinação da função autor, o domínio de coexistência entre os enunciados, e destes, na materialidade8. 5.1 Os discursos sobre a deficiência na região discursiva do Portal do Professor do MEC: descrição da função enunciativa Para discutir a produção do sujeito com deficiência no Portal do Professor do MEC, e sua imersão no jogo do poder-saber; apresentamos, inicialmente, uma análise do lugar de enunciação da deficiência. Na realização de tal análise, não pretendemos nos ater a descrição da estrutura física do Portal, pois já o fizemos anteriormente, mas interessa-nos, sobretudo, evidenciar o poder de enunciação desse espaço formativo. 8 As aulas analisadas estão disponíveis no http://portaldoprofessor.mec.gov.br/buscarAulas.html Portal do Professor do MEC em: As edições do Jornal do Professor analisadas estão disponíveis no Portal do Professor do MEC em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/jornal.html Os recursos multimídia analisados estão disponíveis http://portaldoprofessor.mec.gov.br/recursos.html no Portal do Professor do MEC em: 105 Nesse sentido, cabe esclarecer que os lugares de enunciação são instituições que reconhecem tantos os autores quanto os discursos produzidos por estes, sendo também o lugar em que se estabelecem as regras para pronunciação do discurso. Pode ser considerado também como o lugar em que se legitima, interdita e, de acordo com suas próprias regras, faz os discursos reaparecerem. Assim, o lugar de onde os sujeitos enunciam a deficiência é o Portal do Professor do MEC9. Como expresso anteriormente, o referido espaço formativo foi criado em 2007, e vem sendo executado desde 2008, com o objetivo de fomentar a participação dos professores em comunidades educacionais, possibilitando a troca de experiências, ideias, o compartilhamento de conteúdos digitais e espaços de comunicação para que os docentes possam disseminar experiências educacionais das e nas diferentes regiões do Brasil. Inicialmente, é preciso destacar que o referido espaço formativo, enquanto instituição destinada à capacitação docente, através das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), recebe o seu estatuto de enunciador privilegiado no âmbito da educação, por estar intimamente vinculado ao Ministério da Educação (MEC). Isso significa que as formas de narrar e representar a deficiência são potencializadas pela própria autoridade conferida a esse lugar institucional pelo Ministério da Educação (MEC), haja vista que, o espaço formativo do Portal recebe a colaboração direta desse órgão governamental. O Ministério da Educação (MEC) como organismo vinculado ao Poder executivo, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia e com a Universidade de Brasília (UNB) são os responsáveis pela construção técnica e por parte do acervo do Banco de dados do referido espaço formativo, atuando no sentido de coordenar uma série de ações para produção e catalogação dos recursos que abastecem o Portal. Mas o poder de enunciação do Portal do Professor do MEC está relacionado também à materialidade discursiva produzida a respeito da deficiência e ao poder de circulação dos seus discursos. São exemplos dessa materialidade discursiva os recursos multimídias (vídeos, áudios, animações, simulações, imagens, outros); as notícias educacionais colocadas em circulação através do Jornal do professor; as 9 As informações apresentadas neste capítulo sobre o Portal do Professor do MEC estão disponíveis em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/materiais/0000013441.pdf. 106 sugestões de aulas através do Espaço da Aula; além da promoção de intercâmbio de conhecimentos e informações através de cursos, links e materiais de estudo; Além disso, o uso das ferramentas interativas, como a sala de bate-papo e os fóruns, permite o contato de professores de todo o país, oportunizando a essa comunidade docente o compartilhamento de suas experiências educativas, a ajuda mútua e a participação em novos processos formativos. Os dados do Portal revelam que, atualmente, há cerca de 60.000 professores de diferentes níveis de ensino (educação infantil, educação básica, profissional e superior) inscritos para a interação nos fóruns e para produção de aulas, conferindo a esse organismo o estatuto de discurso negociado e compartilhado por diferentes sujeitos da área da educação. Uma questão importante a salientar é a heterogeneidade dos parceiros encarregados de produzir a materialidade discursiva do referido espaço formativo, haja vista que os recursos utilizados no Portal são oriundos do Banco Internacional de Objetos Educacionais, produzidos e catalogados por meio de diversos programas como: TV Escola; Portal do Domínio Público; Programa Rived (MEC); Conteúdos digitais da chamada pública número 01/2007 (chamada publica MEC e MCT)15 que estão sendo produzidos nas áreas de física, química, matemática, biologia e língua portuguesa, do ensino médio, por 13 diferentes Instituições; conteúdos obtidos em acordos com instituições de ensino internacionais; além de conteúdos obtidos por equipes das universidades, por meio de pesquisa na internet ou de conhecimento pessoal e institucional, seguido de solicitação de autorização para uso. A heterogeneidade dos parceiros encarregados de produzir a materialidade discursiva do Portal do Professor do MEC, como explicitado anteriormente, denuncia a complexidade da articulação discursiva desse espaço formativo. Essa complexidade evidencia-se também nas inúmeras contribuições advindas de parceiros múltiplos, tais como os das secretarias do Ministério da Educação (MEC), das Secretarias Estaduais e Municipais de educação, representadas pelos coordenadores de programas de TIC nas escolas, de multiplicadores dos Núcleos de Tecnologia Educacional - NTE11 e de professores isoladamente. Nesse contexto, é importante registrar as formas de poder-saber na função enunciativa do Portal do Professor do MEC, uma vez que, como sujeito enunciador é conferido a esse espaço a legitimidade do saber intelectual ou do saber científico, pelas inúmeras parcerias estabelecidas com as Universidades públicas, por meio de 107 seus institutos, faculdades e colégios de aplicação. Sobre isso, os dados disponibilizados no Portal revelam que, para alcançar os conteúdos pesquisados na internet, constituímos uma parceria com as universidades federais do Ceará, de São Carlos, do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, a Federal Fluminense, a UNB e a Unespe de Presidente Prudente com equipes capazes de localizar repositórios, sites e portais com materiais em qualquer parte do mundo, contemplando a avaliação do seu potencial pedagógico, identificando o tipo de mídia, catalogando esses objetos e, no caso de não ser de domínio público, solicitando as licenças de uso. No momento, são cerca de 300 alunos e professores de nossas universidades envolvidos no projeto. (Portal do Professor). É interessante sublinhar que o Portal do Professor do MEC funciona também como produtor de um discurso que acolhe proposições educativas no âmbito internacional, tendo em vista que, o referido espaço virtual estabelece parcerias com várias universidades de diferentes lugares do mundo. De acordo com o Portal, vários dos seus conteúdos são obtidos por meio de acordos de colaboração entre instituições como as Universidades do Colorado, Califórnia e Utah (USA), Universidade de Alicante (Espanha), Instituto de Tecnologia da Califórnia (USA), Skoool (Irlanda), Howard Hughes Medical Institute (USA), IOP - Institute of Physics (Inglaterra), NASA, Universidade de Hong Kong, dentre tantos outros;(Portal do Professor) Além das parcerias com universidades nacionais e internacionais, o Portal recebe também a colaboração de organismos financeiros internacionais como a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura), e de algumas instituições privadas e públicas como ―Fundação Telefônica (Educarede), Bradesco, Vivo, Oi Futuro, Claro, OEI, Cezar, Instituto Algar e empresas como Intel, Corel, Cisco, Adobe, Microsoft; Agência Espacial Brasileira, Embrapa‖. (PORTAL DO PROFESSOR DO MEC, 2010). O comprometimento ou a articulação do Portal com esse conjunto de forças discursivas, advindas de lugares heterogêneos, demonstra que os discursos sobre a deficiência, que circulam nesse espaço formativo, estão abertos a diferentes autorias e a afiliações diversas. Tal constatação direciona-nos a evidenciar o status dos sujeitos autorizados a narrar a deficiência no referido espaço formativo, colocando 108 em evidência os sujeitos em sua função autor. Cabe esclarecer que, para Foucault (2013), o autor não é entendido como um indivíduo falante que pronunciou ou escreveu um texto, nem funciona como um nome próprio, mas o autor como princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de suas significações, como foco de coerência. Assim, no Jornal do Professor, nas aulas do Espaço da aula e nos vídeos que integram os Conteúdos multimídias, a deficiência foi narrada por docentes com formação em diferentes áreas; por profissionais que atuam na escola, como diretores e coordenadores pedagógicos; por profissionais ligados à gerência da Educação Especial, além de especialistas, como fonoaudiólogos, psicopedagogos, fisioterapeutas e médicos. Indubitavelmente, o discurso do médico, do fisioterapeuta e de outros profissionais da área da saúde, produz significados sobre a deficiência, assumindo um valor de verdade, tendo em vista que, a hegemonia ou o poder do médico de narrar a deficiência, deve-se ao status conferido a esse sujeito no decorrer da própria história da deficiência. É preciso considerar que, por muito tempo, foram os profissionais da área médica os sujeitos autorizados a explicar a deficiência, a fazer os diagnósticos e a fornecer os laudos que versavam sobre a capacidade ou incapacidade desses sujeitos. Sobre o status desse profissional, Foucault (1996) salienta que: esse status dos médicos é, em geral, bastante singular em todas as formas de sociedade e de civilização: ele não é, quase nunca um personagem indiferenciado ou intercambiável. [....] sua existência como fala médica não são dissociáveis do personagem, definido por status, que tem o direito de articulá-lo, reivindicando para si o poder de conjurar o sofrimento e a morte. (p.57). Além dos profissionais da área médica, observa-se também uma recorrência da figura dos Psicopedagogos e Psicólogos, sendo estes consultados a respeito de diversos aspectos relativos à vida e à aprendizagem das pessoas com deficiência. Ao indicarmos que o referente psicológico é um dos discursos que sustenta as propostas de formação do Portal do MEC, reforçamos a constatação, que vem se ampliando, nas análises contemporâneas de inspiração pós-estruturalista, de que o campo da Psicologia colonizou a Pedagogia, oferecendo-lhes a chancela de que precisavam para auto outorgar-se um status científico. 109 Para Bujes (2009, p.275), os saberes da área ―psi‖ têm se constituído como uma forma de inteligibilidade e um regime de enunciação mostrando que para se exercer a prática da pedagogia são necessários diagnósticos, formas de classificação, categorias e definições fornecidas pelos saberes teórico-práticos das ciências psicológicas. Sobre os saberes da área da psicologia, Ó (2003) nos diz que: Apontando para as capacidades e aptidões, a saúde e as doenças, as virtudes e as perversões, a normalidade e as patologias do escolar, a Psicologia está na base, de facto, de todas as técnicas e dispositivos relativos à identidade e à conduta. ( p.9). Mas não são apenas os profissionais da área médica e da área da Psicologia os sujeitos que narram a deficiência no Portal. Os professores, coordenadores pedagógicos e diretores, em sua função autor constituem-se como enunciadores privilegiados da deficiência, com competência técnica e poder de orientar a prática pedagógica dos docentes e produzir saberes sobre a deficiência. Em relação ao status do educador, Carvalho (2004), sublinha que o Educador(a) detém um status que compreende: saberes específicos relativos ao domínio da educação (fundamentos sociofilosóficos e socioantropológicos da educação, psicologia da educação, didáctica geral e didácticas específicas; saberes sobre avaliação, saberes disciplinares, saberes acadêmicos, saberes da prática pedagógica) e não é demais dizer ao domínio de outros campos, fruto das intersecções do campo educacional com outros domínios do saber. (p.297). Outrossim, além dos profissionais de diversas áreas, verificamos também a participação dos familiares narrando a deficiência, levando-nos a constatar que a instituição familiar, entre tantas outras, destaca-se como aquela que detém o poder de dizibilidade sobre os diversos aspectos da vida dessas pessoas. Aos familiares é outorgado o direito de narrar a existência, os problemas, as dificuldades e até mesmo a própria sexualidade dos sujeitos com deficiência, confirmando o seu poder consagrado historicamente. Em contrapartida, é curioso constatar que, diante das diversas pessoas que discursam a respeito dos indivíduos com deficiência, observamos o fato de que esses sujeitos encontram-se quase sempre na posição de serem narrados pelos outros, fazendo com que, na maioria dos registros a voz deles seja silenciada. 110 Quando dizemos que a pessoa com deficiência tem um lugar de enunciação secundário nas materialidades analisadas, queremos esclarecer que suas enunciações muitas vezes não são reconhecidas, principalmente quando são enunciadas por pessoas surdas ou por pessoas com deficiência intelectual, levandonos a depreender que os processos discursivos o silenciam enquanto sujeito e o fazem significar enquanto objeto. No entanto, esse silenciamento ou a reduzida possibilidade de falar sobre suas vidas estão diretamente implicadas com as próprias relações de poder, que historicamente foram legitimando o poder de médicos, pais, professores, psicólogos de dar voz às pessoas com deficiência. Essa observação leva-nos a atentar para o que Foucault (1996) fala sobre as interdições ao discurso. desde a alta Idade Média, o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros: pode ocorrer que sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância, não podendo testemunhar na justiça, não podendo autenticar um ato ou um contrato, não podendo nem mesmo, no sacrifício da missa, permitir a transubstanciação. (p.10-11) Isso nos faz considerar que, de forma similar aos ―loucos‖, a interdição às pessoas com deficiência também representa uma forma de poder silenciador, um poder cerceador das palavras. Sobre isso, Tomasini (1998) afirma que: àqueles indivíduos marcados por uma distinção, efetivamente não é dada a palavra. Não lhes perguntamos o que querem ou não, o que precisam e o que realmente lhes interessa. Seu saber é desqualificado, considerado não competente ou insuficientemente elaborado: saber ingênuo, hierarquicamente inferior, abaixo do nível requerido de conhecimento e de cientificidade. (p.125). Tais considerações mostram-nos que não há uma função unificante na produção da deficiência no espaço formativo do Portal, mas há uma luta pelo poder de dizer sobre esses sujeitos. Essa luta revela-se por meio dos vários campos de saber (medicina, psicologia, educação, dentre outros) envolvidos nesse processo, mediante a diversidade de sujeitos, com status diferenciados, vindos de lugares diversos, disputando a hegemonia de uma discursividade sobre a deficiência. Essas constatações colocam-nos diante da necessidade de analisar o domínio de coexistência entre os enunciados, indicando que os discursos produzidos sobre a deficiência, no espaço formativo do Portal, conectam-se com 111 outros discursos. Fazemos isso, seguindo as orientações sugeridas por Foucault (2013), de que para proceder à análise dos enunciados, devemos complexificá-los no sentido de indagar a respeito de seus espaços colaterais. 5.2 Análise das Coexistências discursivas A análise das coexistências discursivas pressupõe mostrar que a construção da deficiência, nos artefatos culturais midiáticos do Portal do MEC supõe a presença de um texto em outro, uma intertextualidade ou um conjunto de relações implícitas ou explícitas que um texto ou vários textos mantêm com outros. Conforme nos sugere Fischer (2001), buscar a configuração interdiscursiva nos textos culturais que produzem a deficiência, não remete à tentativa de explicar tudo, mas remete a um rico e duro trabalho de multiplicação dos discursos. Para a autora ―considerar a interdiscursividade significa deixar que aflorem as contradições, as diferenças, inclusive os apagamentos, os esquecimentos; enfim deixar aflorar a heterogeneidade que subjaz a todo discurso‖ (p.212) A partir desse entendimento, procuramos analisar práticas discursivas dos artefatos midiáticos a partir do entrecruzar de diferentes discursos em que ressoam vozes advindas de diferentes saberes e contextos em torno da noção de deficiência, interessando-nos, portanto, fazer aparecer as relações interdiscursivas que instituem o funcionamento do discurso da deficiência no Portal do Professor do MEC. 5.2.1 O Discurso da Pedagogia Inclusiva Os discursos sobre a deficiência, no Portal do Professor do MEC, são constituídos ou atravessados por enunciados que falam sobre a inclusão desses sujeitos. Portanto, é possível identificar na materialidade textual uma variedade de enunciados em que o tema inclusão da pessoa com deficiência ganha visibilidade, fazendo circular discursos que falam sobre adaptações curriculares, ofertas de atendimento educacional especializado, didática, avaliações, dentre outras. A compreensão de que a inclusão é um direito de todos configurando-se como uma medida necessária para que os alunos possam aprender a lidar com as diferenças, presentifica-se nos discursos dos sujeitos enunciadores. Portanto, o conjunto das narrativas dos professores e outros profissionais da educação, 112 revelaram o entendimento de que a educação inclusiva é uma das formas de possibilitar a convivência entre o ―normal‖ e o ―diferente‖, como condição necessária para que as diferenças sejam reconhecidas e respeitadas. Como podemos ver no excerto abaixo: Na visão da psicopedagoga Marilda Nepomuceno da Silva, que trabalha há 11 anos na sala de recursos multifuncionais da Escola Classe 316 Norte, em Brasília (DF), a inclusão é um direito de todos e todos saem ganhando com a interação que ela proporciona. (Em sua opinião, quando as crianças começam a conviver, muito cedo, com as diferenças, aprendem a lidar com isso, naturalmente.) (Jornal do Professor-Inclusão eleva número de alunos especiais em classes comuns) Fica claro que a sociedade precisar rever a questão da diferença e ampliar as suas idéias sobre cidadania e responsabilidade social, para que todos sejam incluídos e compartilhem do desenvolvimento global. (Vídeo – Esporte como fator de inclusão) Que alegria olhar para os meus alunos e vê-los começando uma história de vida diferente, selada pelo gosto da inclusão social com arte, envolvimento e ação, destaca a professor (Jornal do Professor Aulas de libras mudam o comportamento de alunos na escola) Tornou-se visível nos discursos dos docentes a preocupação com a reestruturação da escola, com a formação de professores e com a oferta de atendimento educacional especializado. Para os profissionais da educação, essas são condições necessárias para que os alunos com deficiência possam ter acesso às oportunidades educacionais e sociais oferecidas pelas instituições de ensino. A escola fez algumas reformas para garantir a acessibilidade: construiu rampas, banheiro especial, e alargou portas. Também se preocupou em garantir a presença de profissionais capacitados para o atendimento de alunos com necessidades educacionais especiais, entre eles, intérpretes da linguagem de sinais (Libras), para auxiliar no aprendizado. Além disso, segundo Jaqueline, muitos professores têm curso de pós-graduação na área de educação especial. (Jornal do Professor – Escola do Paraná está comprometida com a inclusão) A próxima meta de Maria de Fátima é montar uma sala de atendimento especializado com equipamentos e jogos que possam contribuir para a melhoria do aprendizado e a inclusão de alunos com diferentes deficiências e necessidades. (Jornal do Professor – Escola do Recife atrai estudantes excluídos) Examinando as formulações dos professores podemos perceber que, ao enunciar a respeito da inclusão, os referidos profissionais obedecem a um conjunto 113 básico de regras que governam a produção do discurso acerca da deficiência, ou seja, ao discursar sobre a deficiência, os professores ―crêem falar de maneira livre, enquanto ignoram que dizem coisas acanhadas, limitadas por uma gramática imprópria‖. (PAUL VEYNE, 2008, p.252). Em outras palavras, é possível dizer que os enunciados sobre a inclusão engendrados nas materialidades discursivas do Portal, encontram na própria Lei constitucional Brasileira de 1988; na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996), e também nos documentos internacionais como a Declaração Mundial de Educação para Todos (1990); a Declaração de Salamanca (1994), dentre outros, as condições de possibilidade para enunciação da deficiência. Considerando que os discursos sobre a deficiência são engendrados a partir dos documentos anteriores, parece-nos bastante significativo destacar alguns deles, com o objetivo de caracterizar as relações entre o discursivo e o não discursivo na produção desses sujeitos. Sobre esse enfoque, seguem-se algumas considerações a respeito dos marcos políticos e sociais em defesa de uma educação inclusiva, com a pretensão de determinar as regras do discurso sobre a inclusão da pessoa com deficiência no Portal do Professor do MEC. Nesse âmbito, cabe salientar que a Organização das Nações Unidas, estimulada por movimentos sociais cada vez mais veementes e organizados em prol do tema deficiência, elegeu o ano de 1981 como a Ano Internacional das Pessoas Deficientes, com o tema ―Participação Plena e Igualdade‖. O Ano Internacional da Pessoa Deficiente foi entendido, assim, como um programa de ação mundial que permitiria a tomada de medidas que visassem à participação plena, das pessoas com deficiência na vida social. (SILVA, 1987) Podemos afirmar que o discurso em defesa da educação inclusiva, fundamenta-se em uma série de dizeres que é propagado através de documentos como a ―Declaração Mundial de Educação para Todos‖, elaborada na Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em Jomtien-Tailândia. O documento preceitua que: a educação é um direito fundamental de todos, mulheres e homens, de todas as idades, no mundo inteiro; Entendendo que a educação pode contribuir para conquistar um mundo mais seguro, mais sadio, mais próspero e ambientalmente mais puro, que, ao mesmo tempo, favoreça o progresso social, econômico e cultural, a tolerância e a cooperação internacional. (UNESCO, 1990, p..02). 114 A Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre Necessidades Educativas especiais, aprovada na Conferência Mundial de Educação Especial, na cidade de Salamanca – Espanha, no ano de 1994, é outro marco importante em relação ao conceito de inclusão, apontando alguns princípios básicos no sentido de promover uma educação para todos. A partir desse marco histórico, passou-se a considerar a inclusão dos alunos com deficiência em classes regulares como a forma mais avançada de democratização das oportunidades educacionais, como se pode observar em alguns trechos desse documento: o princípio da inclusão consiste no ―reconhecimento da necessidade de se caminhar rumo à ‗escola para todos‘ – um lugar que inclua todos os alunos, que celebre a diferença, apóie a aprendizagem e responda às necessidades individuais. [...] reafirmamos, pela presente declaração, nosso compromisso com a educação para todos, reconhecendo a necessidade e a urgência de ser o ensino ministrado, no sistema comum de educação, a todas as crianças, jovens e adultos com necessidades educativas especiais, e apoiamos, além disso, a Linha de Ação para as Necessidades Educativas Especiais cujo espírito, refletido em suas disposições e recomendações, deve orientar organizações e governos. o princípio fundamental dessa Linha de Ação é de que as escolas devem acolher todas as crianças, independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, lingüísticas ou outras. Devem acolher crianças com deficiência e crianças bem dotadas; crianças que vivem nas ruas e que trabalham; crianças de populações distantes ou nômades; crianças de minorias lingüísticas, étnicas ou culturais e crianças de outros grupos ou zonas desfavorecidos ou marginalizados.(UNESCO, 1994, p. 9-18). Os enunciados sobre a inclusão da pessoa com deficiência engendrados nos textos culturais do Portal, encontram também nas políticas públicas sua forma social de regulação. Tendo em vista que, a partir da década de 90, mudanças substantivas acontecem na legislação, contribuindo para emergência do discurso pela inclusão das pessoas com deficiência tanto no campo da educação como em outros domínios. Na Constituição de 1988, vários capítulos, artigos e incisos do Título VIII, da Ordem Social, dispõem sobre a habilitação e reabilitação das pessoas com deficiência e sobre a promoção de sua integração à vida comunitária. No artigo 208 da Constituição Federal, consta que: 115 III – Atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. IV – O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público e subjetivo. V – Acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um. (BRASIL, 1988, p.35). Mas a Educação Especial torna-se mais explicita na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96). No capítulo V, organizado em torno da Educação Especial, consta que: Art. 58. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino para educandos que apresentam necessidades especiais. & 1 Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular para atender às peculiaridades da clientela da educação especial. & 2 O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função de condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular. & 3 A oferta de educação especial, dever constitucional do Estado, tem início na faixa etária de zero aos seis anos, durante a educação infantil. (BRASIL, 1996, p.21) O Plano Nacional de Educação – Lei n. 10.172, de 9 de janeiro de 2001, também coloca-se como um marco político importante na educação das pessoas com deficiência, ao estabelecer vinte e oito objetivos e metas para a educação desses sujeitos. Sinteticamente, essas metas tratam: 1. do desenvolvimento de programas educacionais em todos os municípios, visando à ampliação da oferta de atendimento desde a educação infantil até a qualificação profissional dos alunos; 2. das ações preventivas nas áreas da deficiência visual e auditiva até a generalização do atendimento aos alunos na educação infantil e no ensino fundamental; 3. do atendimento extraordinário em classes e escolas especiais ao atendimento preferencial na rede regular de ensino; 4. da educação continuada dos professores que estão em exercício à formação em instituições de ensino superior. (MACHADO E LABEGALINI, 2007, p.56). Os documentos apresentados anteriormente servem-nos de mote para afirmar que, ao discursar sobre a deficiência, o professor está submetido a todo um conjunto de regras (políticas, econômicas, sociais) que nesse dado período histórico, 116 controla aquilo que pode ser dito sobre a deficiência, em termos de seus conteúdos, seus limites e suas formas de se manifestar. Sobre essas regras de controle do discurso, Carvalho (2004) esclarece que: os processos econômicos, políticos, culturais e demográficos, ao mesmo tempo em que permitem uma maior visibilidade da diversidade das culturas, dos incluídos e dos excluídos, incidem na formação de regras de controle do que pode ou não ser dito no que se refere às diferenças sociais e desigualdades sociais. (p.399). Isso significa que o professor ao enunciar a respeito da inclusão da pessoa com deficiência, evidenciando sua adesão a esse ideário, está obedecendo a certo regime de verdade de sua época. São justamente essas regras que determinam o feixe de relações que o discurso deve efetuar para poder falar, abordar, analisar, classificar e explicar a deficiência. É por isso que Foucault (2013), nos diz que a linguagem nem sempre traduz o querer fundamental daqueles que falam, isto significa que não se pode falar de qualquer coisa em qualquer época; não é fácil dizer alguma coisa nova; não basta abrir os olhos, prestar atenção ou tomar consciência, para que novos objetos logo se iluminem e, na superfície do solo, lancem sua primeira claridade. (p.54). É preciso destacar que os enunciados ao harmonizar-se com esse regime de verdade, que é a educação inclusiva, estabelecem certas regras, sancionando alguns enunciados e interditando outros tantos, decorrendo disso, que apenas o que compatibiliza com esse discurso é o que pode ser anunciado. Presumimos que seja essa uma das razões pelas quais os professores e outros profissionais ligados à área da educação, expressam ou revelam uma realidade em que a inclusão das pessoas com deficiência acontece de forma tranquila, natural, sem maiores dificuldades ou entraves. Essa preparação ela foi feita de forma muito natural, a escola, à medida que ficou sabendo que faria parte deste projeto, ela naturalmente começou a se preparar para receber esse portadores de necessidades especiais e como a escola já tinha um trabalho com inclusão, isso foi extremamente fácil, eles aceitaram com naturalidade, foi algo muito natural para a comunidade escolar. (Vídeo – Escola e Inclusão Social) 117 A chegada do Anderson, o aluno com paralisia cerebral, levou o colégio a construir um triciclo para que ele pudesse se movimentar facilmente de um ambiente para o outro. (...) ―Todo mundo ajuda o Anderson‖, diz a professora de matemática, Neide Carneiro do Nascimento Silva. Lecionando em oito turmas diferentes, Neide dá aulas para turma do Anderson há três anos. E diz que o trabalho não é difícil. (Jornal do Professor – Escola do Paraná está comprometida com a inclusão) Depreende-se, portanto, que as regras do discurso pela inclusão, enquanto definidoras do regime de verdade desses enunciados, promove interdições no seio da própria formação discursiva. Sendo assim, dentro do conjunto de palavras interditadas pela ordem discursiva dominante, estão ―discriminação‖, ―preconceito‖, e ―intolerância‖. Contudo, a pretensão de tornar evidente apenas os aspectos positivos da inclusão, enunciando somente o que está compatível com esse ideário, podem ter como consequência o encobrimento de situações de discriminação ou preconceitos vividas pelas pessoas com deficiência em sala de aula regular, além de esconder ou dissimular as lutas de poder existentes no espaço escolar. Em contrapartida, quando as pessoas com deficiência são autorizadas a narrar a sua própria história de inclusão, delineia-se outro cenário, aparece outra escola, bem distinta daquela enunciada no discurso dos professores, coordenadores pedagógicos e de outros profissionais da educação. Como nos alertou Said (1995 apud COSTA, 2005, p. 61), ―parece que entre os meandros das histórias para dominar sempre se cria um espaço para algum tipo de escape, alimentado por histórias de contestação e emancipação‖. Dentre essas histórias de contestação, encontra-se a de um aluno cadeirante, que explicita em seu discurso o total despreparo da escola, não somente diante das condições de acessibilidade, mas também no que diz respeito ao próprio direito de pertencer, de fazer parte do grupo e de poder ir ao recreio como qualquer outro aluno. Na hora do recreio eu não posso ir para o pátio por causa da escada e tenho que ficar na mesa da inspetora. Eu falo gente eu não vou cair, eu se eu cair o problema não é eu me machucar, o problema é me levantar, o importante é que eu estou indo com vocês, estou querendo participar também. Eu quero participar. (Portal do Professor) O exame breve e pontual do discurso acima coloca-nos diante da necessidade de questionarmos as práticas denominadas inclusivas, que estão sob a 118 égide do discurso da igualdade de oportunidades para todos, uma vez que esse discurso, de certa forma, pode acabar mascarando um processo de inclusão – excludente. Essa inclusão-excludente se traduz na fala de outra aluna cadeirante, quando revela as difíceis condições de acessibilidade nas escolas que estudou, denunciando a precariedade no atendimento às necessidades desses sujeitos, fazendo-nos perceber que, embora nas últimas décadas tenha havido um grande debate político e social em relação à inclusão e aos direitos das pessoas com deficiência, este não tem sido acompanhado por práticas ou ações mais significativas nesse âmbito. Claro que pra mim e para crianças com deficiência física como eu, o ideal é encontrar uma escola com rampas, porta largas, banheiros adaptados. Claro que nas escolas que eu estudei não tinha nada disso, algumas não tinha adaptações (…). Em outras, mesmo eu sendo aluna, ninguém pensou em adaptar nada para facilitar minha vida, e muitos outros lugares, não estão preparados para pessoas deficientes físicas, então eu comecei a entender, que tenho que enfrentar muitas barreiras, para chegar meus objetivos. (Portal do Professor- Vídeo – Bem além dos limites) De fato, os enunciados acima revelam outro olhar sobre a Educação Inclusiva e faz-nos pensar que precisamos estar atentos às vozes dos sujeitos com deficiência, pois não podemos continuar silenciando-os a respeito desse processo que lhes diz respeito diretamente. Portanto, concordamos com Skliar e Souza (2000), quando afirmam que tratamos as falas das pessoas com deficiência como produções marginais e desarticuladas, silenciando-as para que se possa continuar falando por elas e produzindo saberes a respeito delas. Com o propósito explicito de questionar o conteúdo desses discursos, tanto pelo que revela quanto pelo que escamoteia, nossa indignação se faz no sentido de colocar em questão a forma com que essa inclusão está se dando. Nosso argumento é que o regime de verdade, ao qual se filiam os professores, pode acabar obscurecendo questões importantes que precisam ser problematizadas nos processos formativos como, por exemplo, as práticas excludentes, a não garantia das condições favoráveis para aprendizagem e desenvolvimento dos alunos com deficiência. 119 No entanto, é interessante sublinhar que, embora o discurso dos professores sejam atravessados pelo discurso da inclusão e pelos ideais de igualdade de oportunidades, baseia-se muitas vezes na ideia de que basta estar inserido em sala de aula regular para estar incluso, traduzindo-se numa concepção integradora em relação à educação da pessoa com deficiência. Vejamos o fragmento abaixo, em que a professora relata a sua prática pedagógica, com alunas surdas na sala de aula regular: Na escola de Educação Básica Governador Freitas Neto, também de Teresina, a professora Carmem Alves Marques tem duas alunas surdas em sua turma de 5º ano. Formada em Pedagogia, há dois anos no magistério, Carmem conta que a experiência da inclusão tem sido muito positiva. ―No início do ano, as duas estavam muito tristes, muitos quietinhas, mas agora estão mais alegres e participativas‖. Quando querem se comunicar com a professora elas mandam mensagens, via celular. ―É muito gratificante, diz‖. A escola também tem uma sala de recursos e as duas alunas participam no contraturno. (Portal do Professor - Piauí Incentiva a inclusão em suas escolas / Jornal do Professor). Parece-nos que o discurso da professora é sustentado pela crença de que para estar incluso basta estar inserido na sala de aula regular, desrespeitando ou desconsiderando a importância das condições mínimas para a aprendizagem dos alunos, neste caso das alunas surdas. Sobre isso, Carvalho (2005) chama atenção para o fato de que inserir os alunos nas escolas comuns, distribuindo-os pelas turmas do ensino regular, como figurante, além de injusto, não corresponde ao que se propõe no paradigma da educação inclusiva. Segundo a autora, a proposta de inclusão é muito mais abrangente e significativa do que o simples fazer parte (de qualquer aluno), e implica, sobretudo, a necessidade de garantir a ativa participação dos alunos com deficiência em todas as atividades do processo de ensinoaprendizagem, principalmente em sala de aula. Logo, por um gesto de interpretação, entendemos que se fosse dado a estas alunas surdas o poder de narrarem, ou de falar por si mesmas, possivelmente elas não demonstrariam tanta ―alegria‖ em estar numa sala de aula regular, tendo em vista que a necessidade de usar um celular como único meio de comunicação entre professor e aluno, usurpa um direito básico da pessoa surda, que consiste na garantia de um intérprete em sala de aula, para assegurar as condições mínimas de aprendizagem e de comunicação entre aluno e professor. 120 Obviamente, ao fazermos referência à existência de uma inclusão-excludente não estamos de maneira alguma posicionando-nos contra a inclusão da pessoa com deficiência, pelo contrário, queremos apenas problematizar que apesar da existência de um discurso comprometido com os valores da inclusão, existe uma incongruência ou uma contradição, entre aquilo que o discurso dos profissionais da educação enuncia e o que realmente está acontecendo na escola denominada inclusiva. Além disso, ao ler os discursos da formação de professores para educação inclusiva, no espaço formativo do Portal, evidenciando os ditos e os não-ditos, tentamos mostrar que os docentes ao enunciarem, trazem, em si, uma instituição, e manifesta, por si, uma ordem que lhe é anterior e em que está imerso. Em resumo, nessa época atual, o conjunto de práticas não-discursivas engendram o que se diz e o que se faz a respeito da deficiência, demonstrando que não há nada de natural nesse campo. Em consonância com Paul Veyne (2008) acreditamos que: Aí está, pois, um universo material, feito de referentes prédiscursivos que são virtualidades ainda sem rosto; práticas sempre diversas engendram nele, em pontos diferentes, objetivações sempre diversas, rostos; cada prática depende de todas as outras e de suas transformações, tudo é histórico e tudo depende de tudo; nada é inerte, nada é indeterminado e, como veremos, nada é inexplicável; longe de depender de nossa consciência, esse mundo a determina. (p.268). O que interessa então é perguntar qual o significado da inclusão hoje, tornando problemáticos os discursos dos professores, mostrando que esses discursos estão diretamente implicados com os regimes de saber e poder de sua época e que, exatamente por isso, precisam ser problematizados e desnaturalizados. Mas do ponto de vista epistemológico, é preponderante nos enunciados do Portal do Professor do MEC, um entendimento da diferença a partir de uma concepção fundamentada no multiculturalismo liberal, em que se celebra a diversidade e enfatiza a tolerância, o respeito e a convivência pacífica entre as diferentes culturas, como veremos a seguir. 5.2.2 O discurso da diversidade: celebrando as diferenças Na análise dos textos culturais, salta aos olhos o recorrente uso da palavra ―diversidade‖. São várias as formulações e muitos os contextos em que essa 121 expressão aparece, estabelecendo maneiras de olhar e significar a deficiência. Foi possível perceber nas materialidades analisadas a concepção de que o aluno precisa aprender a conviver e a refletir sobre a diversidade, como vemos abaixo: Deseja-se que os alunos sejam instigados a refletir sobre o assunto da diversidade, em especial da inclusão social e educacional das pessoas com Necessidades Educacionais Especiais (NEE). (Aula – Somo todos iguais? Espaço da Aula) O grande desafio da escola é reconhecer a diversidade como parte inseparável da identidade nacional e dar a conhecer a riqueza representada por essa diversidade etnocultural que compõe o patrimônio sociocultural brasileiro, investindo na superação de qualquer tipo de discriminação e valorizando a trajetória particular dos grupos que compõem a sociedade. (Aula – O direito de ser diferente / Espaço da Aula) Refletir sobre a escola e a diversidade cultural, significa reconhecer as diferenças, pensando na relação entre eu e o outro. A escola é o espaço multicultural, multirracial, espaço de encontro de diferentes presenças. (Vídeo – Escola e Inclusão social) Bhabha critica a noção de diversidade, pois segundo ele, o termo ―diversidade‖ é um legado de tradições colonialistas ou relativistas que se aproximam dos discursos liberais. Para o autor, a afirmação da diversidade está calcada num entendimento de culturas como totalidades, sendo útil para a produção e atualização de uma identidade única e estável – tal como a nação – constituída como resultado de um encontro entre distintas culturas, pois, a diversidade cultural é o reconhecimento de conteúdos e costumes culturais pré-dados; mantida em um enquadramento temporal relativista, ela dá origem a noções liberais de multiculturalismo, de intercâmbio cultural ou da cultura da humanidade. A diversidade cultural é também a representação de uma retórica radical da separação de culturas totalizadas que existem intocadas pela intertextualidade de seus locais históricos, protegidas pela utopia de uma memória mítica de uma identidade coletiva única. (1998, p.63). Por certo, em consonância com as ideias de Bhabha (1998), consideramos que tratar a diferença como diversidade nos processos formativos para educação inclusiva é um enorme equívoco, pois não se dá atenção suficiente ao caráter dinâmico da diferença ou da deficiência. Tratar da deficiência a partir do discurso da diversidade é situá-la dentro de uma determinada categoria, dentro de um 122 determinado quadro de referência, desconsiderando que essas diferenças mudam com o tempo e que estão relacionadas a determinadas estruturas de significação. De fato, parece que a forma de abordar a questão da deficiência, no Portal do Professor do MEC, a partir da perspectiva da diversidade, fundamenta-se numa compreensão de que as diferenças devem ser celebradas, no entanto, retira-se o foco das relações de poder, dos conflitos, das violências históricas praticadas contra esses sujeitos. O próprio vídeo utilizado como recurso didático na aula ―Desigualdade e diversidade: o outro lado da moeda‖ traduz a concepção de que as diferenças devem ser festejadas, fazendo parecer que o gesto ou o movimento de dar as mãos seja entendido como suficientes para que as diferenças sejam minimizadas. FIGURA 2 - Vídeo do youtube "A diversidade" veiculado na Aula "Desigualdade e diversidade: o outro lado da moeda‖. Discutir o vídeo: Vocês acreditam que para minimizar as diferenças é preciso que todos dêem as mãos? Qual o significado atribuído a dar as mãos? Solicitar que escrevam um pequeno texto, a partir da seguinte questão: Na sua percepção o que é possível fazer para que as pessoas respeitem a diversidade cultural? (Aula - ―Desigualdade e diversidade: o outro lado da moeda‖ / Espaço da aula) Sobre essa perspectiva, Skliar (2006) sugere uma compreensão da diferença como experiências de alteridade, e que, por isso a educação não deveria estar 123 preocupada em caracterizar o que é a diversidade e quem a compõe, mas deveria estar comprometida em compreender como as diferenças nos constituem como humanos e como somos feitos de diferenças. Ao tratar da deficiência sobre a perspectiva da diversidade, os professores sustentam-se em um discurso multiculturalista liberal, marcado pelas ideias sobre tolerância e respeito ao Outro com deficiência. Como podemos verificar nos excertos abaixo: É importante que o professor perceba ao final das aulas se os alunos compreenderam a importância de conviver com uma pessoa que possui Deficiência Mental buscando valorizar e respeitar as diferenças existentes entre todos. (Aula – A Deficiência Mental na Escola / Espaço da Aula) Será trabalhado nesta aula o conceito de Deficiência Mental no contexto escolar, bem como a importância de se conviver com as diferenças, visto que a pluralidade favorece que aprendamos uns com os outros, independente de nossas características peculiares. (Aula – A Deficiência Mental na Escola / Espaço da Aula) Essa aula tem o propósito de sensibilizar os/as alunos/as para a temática da inclusão, enfatizando o respeito às diferenças e o compromisso de toda a comunidade escolar na luta por uma sociedade mais justa e solidária. (Aula – A Iguais ou Diferentes? Somos Especiais / Espaço da Aula) A comunidade escolar deve dar o exemplo e integrar os alunos, que historicamente vêm sendo excluídos e isso exige crescimento pessoal e humano, tolerância, compreensão, solidariedade e cooperação. (Vídeo – Esporte como fator de inclusão) O discurso da diversidade, que apela para tolerância e o respeito às pessoas com deficiência, é considerado por Skliar (2006, p.30) um discurso problemático, pois, nesse tipo de enunciado, ―a diversidade, o outro, os outros assim pensados, parecem depender de nossa aceitação, do nosso respeito, para ser aquilo que já são, aquilo que já estão sendo‖. Para o autor, tolerar o outro supõe pôr em evidência ―nossas‖ virtudes – quase que religiosas, quase que estóicas -, mais do que uma mudança na ética relacional, de atenção e de acolhida, para com a alteridade. Tolerar o outro é deixar claro que ele é moralmente censurável, detestável, e que nós somos generosos ao lhe permitir continuar vivendo – ou sobrevivendo – nessa ―condição‖ de diversidade, de alteridade. (p.30). 124 Numa análise pós-estruturalista, entendemos que as noções de tolerância e respeito deixam intactas as relações de poder que estão na base da produção da deficiência. Portanto, concordamos com a afirmação de Silva (2010) sobre a utilização desses termos: apesar de seu impulso aparentemente generoso, a ideia de tolerância, por exemplo, implica também uma certa superioridade por parte de quem mostra ―tolerância‖. Por outro lado, a noção de ―respeito‖ implica um certo essencialismo cultural, pelo qual as diferenças culturais são vistas como fixas, como já definitivamente estabelecidas, restando apenas ―respeitá-las‖. (p.88). Outro aspecto que se destaca, nos discursos analisados, é a necessidade de mostrar a positividade do contato permanente entre as pessoas ditas ―normais‖ e as pessoas ―diferentes‖. Como observamos no trecho abaixo: Professor, ao explorar as produções, sugere-se que você discuta a diversidade humana e o quanto o fato de estarmos em contato permanente com pessoas diferentes amplia o nosso universo cultural e as nossas possibilidades de conhecimento do mundo. (Aula – A Iguais ou Diferentes? Somos Especiais / Espaço da Aula) Numa sociedade onde aprendemos a conviver com o diferente, cada um pode contribuir com o melhor de si e todos podemos usufruir juntos desta conquista. (Portal do Professor - Vídeo – Esporte como fator de inclusão) Divergimos desse tipo de discurso, por considerá-lo um discurso binário, pois estabelece a clara distinção entre nós, os ditos ―normais‖, e os outros ditos ―diferentes‖, sendo a diferença julgada contra um padrão primário de autenticidade, de normalidade, fazendo parecer que a diferença é sempre do Outro, o Outro que tem alguma deficiência, ou o Outro que apresenta alguma excentricidade, ou ainda o Outro que em nada se parece comigo. Sobre esse tipo de discurso, Skliar (2006) adverte que, ao falar das diferenças em educação, seria interessante não fazer essa distinção entre ―nós‖ e ―eles‖; pois, segundo ele, a diferença seja ela qual for, envolve a todos, implica todos, ―tudo é diferença, todas são diferenças‖ (p.30). Assim, vemos nos discursos do Portal o perigo de nivelar as diferenças, ou de ―celebrar‖ a deficiência, como se essa deficiência não tivesse uma história – história de danos e privações reais, de discriminação, e, principalmente, de exclusão. Uma das consequências educacionais desse tipo de discurso é a de levar o professor em 125 formação, a ver a deficiência como essência, ignorando a situacionalidade histórica e cultural de produção desses sujeitos. Portanto, concordamos com Bhabha (1998), quando afirma que o multiculturalismo ressalta o que há de superficial nas culturas, descrevendo-as genericamente, além de celebrar e acolher uma diversidade que, de certa forma, é ordenada pelos discursos da cultura modelar e também por considerar as diferenças como fragmentos de uma totalidade mais ampla. Por isso, ao adotar o discurso da diversidade nos processos formativos, estamos, de certa forma, criando uma ilusão de uma harmonia pluralista ou ainda criando a ilusão de consenso. No entanto, consideramos que esse tipo de enunciado não possibilita ao professor em formação os instrumentos para questionar as relações de poder e os processos de diferenciação produtores da deficiência. Tratar a deficiência como diversidade nos processos formativos, pode traduzir-se como uma forma de ―domesticar a diferença, permitindo-lhe ‗livre expressão‘, mas em um âmbito que é implícito, e que não se abre facilmente à renegociação ou à contestação. (BURBULES, 2006, p.173). À vista disso, consideramos que, ensinar os docentes a tolerar e celebrar a diferença não deve ser o resultado educacional que devemos ter como meta nos processos formativos. Pelo contrário, devemos ter como objetivo possibilitar aos professores em formação um reexame crítico da diferença, o questionamento dos seus próprios sistemas de diferença, ajudando-os a construir uma ―gramática da diferença‖. Sobre essa gramática da diferença, Burbules (2006) afirma que: poderia ser vista como um tipo de mapa, ou guia, ou concordância, ou tradução, ou chave de um código. Deve nos ajudar a reconhecer diferenças significativas onde não víamos diferenças antes. Deve nos ajudar a ver que a forma pela qual as diferenças são construídas ou interpretadas segundo um ponto de vista é apenas isso, e que outros pontos de vista são possíveis. Deve nos ajudar a perguntar quem de quem são as caracterizações ou categorias de diferenças que estão tendo preferência em determinadas circunstâncias. Deve nos ajudar a ver formas mais profundas, nas quais a diferença e a similaridade implicam e informam uma à outra. (p.181). Diante disso, acreditamos que é preciso ir além dos debates sobre a ―diferença‖ em si e explorar tipos diferentes de diferença, estimulando os professores a perceberem a arbitrariedade de, pelo menos, parte do que aceitam sem questionamento em relação à deficiência, explorando o impensado sobre esses sujeitos, ao invés de explorar o assegurado e o já conhecido sobre essas pessoas. 126 Uma forma de dar início a essa mudança de orientação é levar os docentes a tomar consciência do quanto, na verdade, são diferentes as distintas formas de falar sobre a deficiência e que não há um conjunto unificado de definições e categorias capazes de enquadrá-las. Mas, a discussão a respeito dos enunciados sobre a diversidade no Portal, exige que façamos também uma análise das condições de produção desse discurso, dando visibilidade à articulação entre o discursivo e o não-discursivo. Em outras palavras, interessa-nos, aqui, compreender as regras do discurso pela diversidade, evidenciando sua articulação com domínios não-discursivos, como acontecimentos sociais, políticos, culturais e econômicos. Nessa análise, cabe ressaltar inicialmente que a questão da diversidade ganhou proeminência, sobretudo a partir dos anos 90, explicitadas nos conceitos de pluralidade cultural, pluriculturalidade, multiculturalidade e interculturalidade. Com o fenômeno multicultural no contexto pós Segunda Guerra Mundial, principalmente nos Estados Unidos, observou-se uma preocupação crescente com a inclusão social dos grupos culturais minoritários. Silva (2010) esclarece que o multiculturalismo é um movimento legítimo de reivindicação dos grupos culturais dominados para terem suas formas culturais reconhecidas e representadas na cultura nacional. O autor, ressalta ainda que esse movimento também pode ser visto como uma solução para os problemas que a presença de grupos raciais e étnicos coloca para a cultura nacional dominante. Para o autor, o multiculturalismo não pode ser separado das relações de poder que, antes de mais nada, obrigaram essas diferentes culturas raciais, étnicas e nacionais a viverem no mesmo espaço. [...] o multiculturalismo representa um importante instrumento de luta política. (p.86). Os movimentos multiculturalistas engendram mudanças sociais e políticas, adquirindo relevância na luta contra a discriminação e na defesa dos direitos sociais, sendo respaldados por políticas públicas em âmbito nacional e internacional. Diante disso, é possível afirmar que os discursos veiculados nos artefatos culturais do Portal do MEC, que versam sobre a diferença numa perspectiva multiculturalista liberal, e que, por sua vez, celebram o discurso da diversidade, estão diretamente implicados ou relacionados com as regras do discurso no campo político e social. 127 Em outras palavras, esses discursos multiculturais que aparecem nos artefatos mantêm um diálogo com os documentos nacionais e internacionais que versam sobre a educação da pessoa com deficiência. Assim, os enunciados sobre a diversidade engendrados nos artefatos culturais do Portal do Professor do MEC, apoiam-se dentre outros, no próprio discurso da Comissão Internacional da Educação para o século XXI da UNESCO, realizada em 1996, em que assevera: A Educação para o pluralismo é, não só, uma barreira contra a violência, mas um princípio activo de enriquecimento cultural e cívico das sociedades contemporâneas. Entre o universalismo abstracto e redutor e o relativismo, para o qual nada mais existe para além do horizonte da cultura particular de cada um, há que afirmar que o direito à diferença, quer a abertura ao universal. (DELORS, et al., 1996 apud CARVALHO, 2004, p.68). O discurso sobre a diversidade no Portal aproxima-se também dos princípios elencados na Declaração Mundial sobre Educação para Todos, realizada em Jomtien no ano de 1990, em que se afirma a necessidade de um plano de ação para satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem de Todos os alunos. Cada pessoa – criança, jovem ou adulto – deve estar em condições de aproveitar as oportunidades educativas voltadas para satisfazer suas necessidades básicas de aprendizagem. (...) A satisfação dessas necessidades confere aos membros de uma sociedade a possibilidade e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de respeitar e desenvolver sua herança cultural, lingüística e espiritual, de promover a educação de outros, de defender a causa da justiça social, de proteger o meio-ambiente e de ser tolerante com os sistemas sociais, políticos e religiosos que difiram dos seus, assegurando respeito aos valores humanistas e aos direitos humanos comumente aceitos, bem como de trabalhar pela paz e pela solidariedade internacionais em um mundo interdependente. (UNESCO, 1990) As questões concernentes à diversidade e à instituição do discurso multiculturalista sobre a deficiência, tem também no campo das políticas públicas sua forma de regulação social, uma vez que, a partir dos anos 90 e início dos anos 2000, foram registradas mudanças substantivas na legislação contribuindo para a emergência desse discurso no campo da educação. As legislações por ações de afirmação cultural surgem no contexto educacional brasileiro contribuindo para o entendimento de que as pessoas com 128 deficiência têm os mesmos direitos humanos e liberdades fundamentais que as demais pessoas. Entre essas legislações destaca-se o Decreto N. 4.228 que institui no âmbito da Administração Pública Federal, o Programa Nacional de Ações Afirmativas sob a coordenação da Secretaria de Estados dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça. Esse programa contempla, entre outras medidas, duas que são de grande importância para a inclusão das pessoas com deficiência, a saber: I - Observância, pelos órgãos da Administração Pública Federal, de requisito que garanta a realização de metas percentuais de participação de afrodescendentes, mulheres e pessoas portadoras de deficiência no preenchimento de cargos em comissão do Grupo – Direção e Assessoramento Superiores – DAS: IV – Inclusão, nas contratações de empresas prestadoras de serviços, bem como de técnicos e consultores no âmbito de projetos desenvolvidos em parceria com organismos internacionais, de dispositivo estabelecendo metas percentuais de participação de afrodescendentes, mulheres e pessoas portadoras de deficiência. (BRASIL, 2002) O Programa de ―Educação Inclusiva: direito à diversidade‖ implementado pelo MEC em 2003, com vistas a apoiar a transformação dos sistemas de ensino em sistemas educacionais inclusivos, promoveu um amplo processo de formação de gestores e educadores nos municípios brasileiros para a garantia do direito de acesso de todos à escolarização, à oferta do atendimento educacional especializado e à garantida da acessibilidade. Mas não são apenas as ações afirmativas, as políticas de acessibilidade, as redefinições das políticas de educação especial, entre outras, que, no seu conjunto apontam para um momento de visibilidade e dizibilidade da diversidade nos processos educativos. Entretanto, é possível afirmar que o discurso da diversidade ou da diferença tem também suas motivações mercadológicas ou econômicas. Sobre isso, Silveira, Ripoll e Bonin (2010) afirmam que: A eclosão e a visibilidade das diferenças também têm sido apropriadas pelas redes de consumo, produzindo-se, por um lado, toda uma pletora de produtos e serviços destinados aos ―diferentes‖, em uma estratégia de segmentação (e proliferação) de mercados, e, por outro, todo um amplo leque de textos comunicacionais abordando os grupos minoritários. (p.100). 129 Nesse âmbito, Yúdice (2006, p.14) argumenta que a diferença tem sido um dos conceitos que opera como vara mágica da cultura. Para o autor, a questão da diferença subjaz tanto à comercialização da cultura quanto ao uso da cultura como instrumento de coesão social (por exemplo, a tolerância pela diferença ou o compromisso de interagir com a diferença como princípio fundamental dos direitos culturais). De acordo com o autor, a circulação da diferença tem muito a ver com a crescente comercialização da experiência e o desejo na atualidade. Nessa lógica, é importante colocar sob suspeita os discursos educacionais que versam sobre a questão da diversidade numa perspectiva multiculturalista liberal, perguntando-nos a serviço de quem está esse discurso, ou seja, quando o discurso da diversidade aparece no Portal do Professor do MEC, precisamos interrogar-nos sobre que tipos de identidades esses discursos querem produzir, e de que forma essas identidades podem estar ligadas a uma política de mercado. Sobre essa questão, Carvalho (2004), ressalta a importância de se desenvolver um olhar sobre o processo educativo não diretamente desenvolvido pelo sistema educacional, mas que está relacionado mais fortemente com a economia global. A autora assevera que o processo de globalização, em seu aspecto econômico, privilegia um mercado global preparado para a produção, distribuição e consumo, sendo que, essa forma de conceber a economia tem uma repercussão singular no campo da educação e da cultura. Curiosamente, é interessante perceber o interesse imediato do mercado, em relação à diferença, facilmente constatado através de toda a publicidade em torno da pessoa com deficiência e do incremento da produção de bens de todos os tipos, além de produtos e serviços destinados a esse segmento. Sem dúvida, o mercado atento aos movimentos pela inclusão da pessoa com deficiência, e percebendo que essa é uma parcela da população economicamente ativa, tem investido em produtos para atender às demandas sociais e culturais desse grupo específico. Em relação ao lugar da diferença na economia de mercado, Carvalho (2004) salienta que: certamente pode-se dizer que no campo das práticas hegemônicas das globalizações, no qual a economia de mercado é o esteio, o lugar da diferença cultural está garantido. Este lugar é conquistado tanto porque as lutas culturais, quando expressas por grupos específicos, podem significar uma ruptura nas lutas políticas em particular, a ―luta de classes‖ como também pelo fato de poderem ser transformadas em mercadorias de consumo. As diferenças culturais 130 ao serem utilizadas como mercadorias garantem aos mercados, além dos lucros, um atestado de civilidade por adopção de práticas ditas ―politicamente correctas‖. (p.426). Assim, nesse processo de globalização, marcado também pelo avanço das discussões acerca da inclusão das pessoas com deficiência e da melhoria da qualidade de vida desse segmento, o turismo é um dos setores que começa a perceber que esse segmento é um novo nicho que precisa ser explorado, o que faz com que apresente cada vez mais novas opções de destino, de equipamentos específicos e de propostas de diversão que atendam a essa nova demanda. Essa percepção fez com que o mercado editorial investisse também num guia de turismo dedicado a pessoas com deficiência, com informações para esse público planejar suas viagens, contando com informações sobre acessibilidade A indústria da moda também percebeu essa demanda, fazendo surgir a moda inclusiva, com a criação de roupas para pessoas que têm dificuldades para se vestir e para se despir. Peças que facilitam o ato de vestir, como um deslocamento de costura, recorte nas costas, aviamentos mais fáceis e confortáveis, como botões de plástico ao invés de ferro, entre outras novidades, o que marca uma nova tendência no mercado da moda. Em meio às semanas de moda do Rio de Janeiro e de São Paulo, o Governo promoveu o Concurso de Moda Inclusiva para pessoas com deficiência, realizando um desfile com os melhores looks, criados por jovens estilistas para esse público. O número de feiras de Tecnologia, Inclusão e acessibilidade, tem crescido no Brasil. O leque de produtos e serviços é impressionante, fazendo movimentar bilhões, trazendo desde aparelhos eletroeletrônicos e adaptações em diversas áreas, até novidades na área da medicina, na área da educação, entre outras. Esses eventos reúnem profissionais de medicina de diversas áreas, educadores, engenheiros, arquitetos e designers e uma gama de fornecedores de aparelhos ortopédicos. Além dos produtos, alguns estabelecimentos comerciais, como shoppings Centers também estão se adaptando a esses novos consumidores através de treinamento de pessoal, programas de acessibilidade, o que inclui sanitários, rampas, elevadores exclusivos, espaço suficiente para cadeirantes. Em sites de vendas na internet é possível encontrar até mesmo bonecas que possuem diferentes tipos de deficiência como, boneca com deficiência visual e seu cão guia, boneca 131 cadeirante, boneca que faz fisioterapia, boneca com muletas, além de bonecas com Síndrome de Down. Além dos serviços destinados a atender às necessidades das pessoas com deficiência, podemos constatar que a indústria cultural também tem se apropriado da questão da diferença, produzindo um leque de produtos culturais (telenovelas, filmes, documentários, histórias em quadrinhos, literatura infanto-juvenil, entre outros) cuja temática envolve esses sujeitos. As telenovelas brasileiras são exemplos de inserção de narrativas sobre a deficiência. Exibidas em horário nobre, as novelas ―Páginas da Vida‖ e ―Viver a Vida‖ transmitidas pela Rede Globo de Televisão nos anos de (2006) e de (2009) respectivamente, trataram da temática da inclusão das pessoas com deficiência. Mais recentemente, a novela Carrossel, do SBT, trouxe a discussão sobre a deficiência, através de um personagem cadeirante. Na mídia impressa, também encontramos revistas destinadas a públicos variados e com temas diversos envolvendo a pessoa com deficiência. A revista Cláudia Educar para Crescer, por exemplo, exibiu em setembro de 2009, uma reportagem de capa, com a matéria ―Escola para todos‖‘, em que se veiculou a imagem de uma sala de aula com cadeiras vazias, sendo o chão desta mesma sala utilizado como símbolo universal da acessibilidade de pessoas com deficiência física. O tema ―deficiência‖ tem sido recorrente até mesmo em revistas voltadas ao mundo das celebridades. A Revista Caras, a título breve de ilustração, exibiu vários artistas posando para as lentes dos fotógrafos, acompanhados de crianças com Síndrome de Down. A referida matéria foi veiculada na edição de dezembro de 2006 e, segundo a própria revista, ―unidos pela solidariedade e amor ao próximo, o time de estrelas posou para as lentes do fotógrafo Leonardo luz para compor o emocionante calendário Happy Down 2011‖. Cabe registrar também, a apropriação do discurso da diferença pela publicidade, como podemos verificar através da campanha publicitária da companhia telefônica ―Oi‖, produzida pela agência NBS, em que a criança que aparece no final dizendo ―Oi‖, marca registrada da operadora, é uma garotinha com Síndrome de Down. O Instituto Meta Nacional, também veiculou em 2008 a campanha ―Ser diferente é normal‖, onde uma adolescente com Síndrome de Down vai ao longo do 132 comercial, mudando de cores, indicando o preconceito existente ao se relacionar com diferentes pessoas. Nas obras que tematizam a diferença, encontramos também as histórias em quadrinhos, como é o caso da Turma da Mônica, de Maurício de Souza. O cartunista inseriu dois novos personagens com deficiência em suas histórias: Dorinha e o Paralaminha . A Dorinha é uma personagem cega, e o Paralaminha um personagem cadeirante, criados, segundo o próprio autor, para ―promover a inclusão e ensinar muita coisa à Turminha principalmente na área do relacionamento humano‖. Essa tendência pode ser notada em relação à Literatura Infanto-Juvenil, que tem sido invadida pela temática da diferença, especialmente em relação à deficiência, sendo comum encontrarmos nos livros personagens com a Síndrome de Down, cegos, cadeirantes tendo como eixo central das narrativas a educação para a diferença. Encontramos livros diversos com variados títulos e abordagens, ―Nós falamos com as mãos, ―Meus pés são a cadeira de rodas‖, ―Nós enxergamos longe‖, ―Uma formiga especial‖, ―Nem todas as girafas são iguais‖, entre outros. No Brasil, tem crescido a produção de filmes e documentários, abordando diversos assuntos relacionados à temática da deficiência. Em 2005, foi lançado o documentário ―Do luto à luta‖, em que pais e filhos com deficiência relatam histórias de superação, enfocando a inserção cultural e social dessas pessoas. Recentemente, em 2013, o filme ―Colegas‖, premiado no festival de Gramado e aclamado pela crítica, abordou a discussão sobre a deficiência, trazendo para as telas de cinemas atores com Síndrome de Down. Do ponto de vista educacional, é preciso considerar que o interesse mercadológico em relação à diferença também tem seus reflexos no panorama educativo, o que pode ser facilmente comprovado ao identificarmos o discurso da diversidade e da diferença, sendo difundidos no Portal do Professor do MEC por meio de uma infinidade de produtos culturais que versam sobre a questão da diferença. Assim, vemos inseridos no Espaço da Aula, desenhos animados, histórias em quadrinhos (Turma da Mônica), livros infantis (Um amigo diferente; A felicidade das borboletas; peças publicitárias, entre outros artefatos), que se tornam veículos para a abordagem da diferença. 133 FIGURA 3 - Livro infantil Diversidade veiculado na aula outro lado da moeda" ―Desigualdade e diversidade: o FIGURA 4- Livro infantil Um amigo diferente veiculado na aula Iguais ou diferentes - Somos Especiais FIGURA 5 – Livro infantil ―A felicidade das Borboleta‖ veiculado na aula Iguais ou diferentes somos especiais. 134 FIGURA 6 - História em quadrinho veiculada na aula Desigualdade e diversidade: o outro lado da moeda O breve panorama apresentado anteriormente permite-nos constatar a presença expressiva e crescente da temática deficiência no cenário cultural, mostrando-nos que a visibilidade dada à pessoa com deficiência tem também suas razões econômicas. Obviamente, os comentários feitos não expressam oposição ao fato de as pessoas com deficiência alcançarem uma maior visibilidade no cenário cultural ou estarem incluídas em diferentes espaços sociais, através de toda uma gama de serviços oferecidos a elas. Entendemos que os espaços conquistados no campo da deficiência são legítimos e positivos, sendo resultado dos impactos produzidos pelos movimentos sociais de reivindicação de direitos dos grupos tradicionalmente reprimidos, representando uma nova etapa na luta pela inclusão social. Contudo, o que queremos problematizar é que os artefatos culturais produzidos para dar visibilidade a uma ordem do discurso sobre a diversidade, também constituem/produzem os saberes e as práticas dos docentes envolvidos na educação dos sujeitos com deficiência. Por isso, de modo análogo a Carvalho (2004), acreditamos que é preciso manter uma vigilância nas formas de regulação no campo da diferença, pois o aumento dos fluxos de artefactos culturais diversos, num cenário de intensificação dos processos de globalização, evidencia, para 135 além de lutas internas entre grupos ou indivíduos, lutas que estão vinculadas a formas de vivencias ao que está nomeado como ―comunidades imaginadas‖. Processos de lutas pela governação das diferenças culturais e sociais. Estão em jogo, portanto, forças sociais e culturais que utilizam diversas faces do poder de dizer: o poder econômico, o poder de dizer da indústria cultural, os poderes dos discursos políticos, acadêmico, transnacional, educacional, de entre outros. (p.436-437). O fato da diferença ou da diversidade ser cada vez mais comercializável, exige dos processos formativos para educação inclusiva uma maior atenção aos saberes e poderes dos novos atores sociais que entram em cena na produção da deficiência. Ao confrontar essa capitalização da deficiência operada pela indústria cultural, devemos atentar para a necessidade de munir os professores em formação de instrumentos capazes de questionar os mecanismos e as instituições culturais produtoras dos discursos sobre a deficiência. Em suma, a partir da análise realizada, que contemplou tanto o nível do discurso quanto o do não-discursivo, temos argumentos para defender que os enunciados da diversidade cultural - engendrados nos discursos do Portal do Professor do MEC - têm relações com acontecimentos políticos, sociais e também com eventos de ordem econômica. Como apresentado anteriormente, o discurso sobre a diversidade no Portal apoia-se no discurso da Comissão Internacional da Educação para o século XXI, da UNESCO, na Declaração Mundial sobre Educação para Todos (1990), nas legislações por ações de afirmação cultural; no Programa de Educação Inclusiva: direito à diversidade; apoia-se na própria luta histórica pelo reconhecimento formal da natureza multicultural das sociedades e também pela ordem econômica mundial, que elege a diferença como objeto de comercialização. Queremos enfatizar que essas relações de poder produzem regimes de verdade sobre a deficiência, estabelecendo regras para a enunciação desses sujeitos no espaço formativo do Portal. Em outras palavras, as formas de ver e dizer a deficiência no referido espaço formativo estão relacionadas, portanto, com essas séries de práticas, que se conectam, afastam-se ou se aproximam, formando relações de força e sentido, que permitem a emergência de novos conceitos, novos temas, novos objetos, que possibilitam ver e falar de forma diferenciada sobre a deficiência. 136 Em contrapartida, é interessante sublinhar que o discurso sobre a deficiência no Portal, é um discurso multifacetado, que não mantêm uma homogeneidade na forma de dizer sobre esses indivíduos. Por conseguinte, ao mesmo tempo em que o discurso da deficiência afilia-se ao multiculturalismo liberal de esquerda, que apregoa a diversidade e a pluralidade, também se fundamenta fortemente em um discurso médico, que essencializa e universaliza esses sujeitos. Assim, na enunciação da deficiência, os textos culturais que formam os professores põem em ação maneiras específicas de significar, posicionar e nomear esses sujeitos a partir de uma perspectiva organicista, promovendo uma espécie de tensão nesse discurso. 5.2.3 O Discurso Clínico-Patológico e a objetivação da deficiência Como apontado anteriormente, os enunciados sobre a deficiência, embora estejam em textos predominantemente constituídos pelo discurso educacional, o sujeito discursivo na ordem do discurso apaga o saber escolar e evidencia o saber médico, de forma a caracterizar a deficiência. Assim, parece-nos que os discursos que orientam os professores, articulam-se com todo um aparato conceitual advindo de um saber médico, constituindo a ideia de deficiência intimamente relacionada ao biológico, promovendo-se a objetivação desses sujeitos. O processo de objetivação do sujeito com deficiência acontece por meio da utilização recorrente de explicações de caráter biológico para descrever e analisar os fenômenos relacionados à deficiência. Isso implica, por certo, em reconhecer que o discurso médico, historicamente hegemônico na autoridade de um dizer sobre a deficiência, reaparece no discurso pedagógico, manifestando uma vontade de verdade, estreitamente associada a estruturas de poder e dominação, marcadores da própria história da pessoa com deficiência. Ao analisar os textos culturais, percebemos que, para se falar ou para se compreender a deficiência, é preciso primeiramente apresentar de forma sumária um exame de suas causas. De maneira quase ritualística, a ênfase nas causas da deficiência, parece fazer parte de um ritual de exploração da patologia, como podemos verificar nos fragmentos abaixo: 137 Como uma pessoa se torna deficiente visual? Ela nasce com a Deficiência, ou seja, é hereditária ou ela pode ser adquirida? (Espaço da Aula – Aula ―A deficiência visual na escola‖) Roteiro da pesquisa – Nome da deficiência; esta deficiência é de causa congênita ou adquirida; quais os tipos de tratamento que a pessoa pode fazer; busque dicas para conviver de forma inclusiva com esta pessoa ((Espaço da Aula – Aula ―As deficiências múltiplas na escola‖) (...) O professor poderá apresentar uma imagem do cantor Herbert Vianna, que após sofrer um acidente se tornou um cadeirante, ou seja, um deficiente físico. O professor poderá aproveitar a ocasião e perguntar aos alunos se existem deficiências que podem ser adquiridas ou não. (Espaço da Aula – Aula ―A deficiência física na escola‖) Esta atividade possui o objetivo de proporcionar aos alunos reflexão sobre a deficiência física, bem como o conhecimento de alguns fatores que causam esta deficiência. (Espaço da Aula – Aula ―A deficiência física na escola‖) A deficiência foi adquirida, como por exemplo, por meio de um acidente, ou é congênita, de nascença? (Espaço da Aula – Aula ―A pessoa com deficiência pode namorar?‖) A preocupação em delinear ou esclarecer as causas da deficiência são marcadas por palavras advindas do repertório médico, como: hereditárias, congênitas, adquiridas, entre outras. Parece-nos que as inquisições sobre as causas da deficiência, tão recorrentes nos discursos que integram o portal, fundamentam-se nas próprias práticas dos exames ou anamneses realizadas pela medicina, ao longo dos séculos. Vemos o ritual da anamnese na sugestão do professor. Sugerimos que, caso haja na sala de aula algum aluno com deficiência visual, o professor convide este aluno para relatar para a classe se ele nasceu com a deficiência visual (hereditária) ou se a mesma foi adquirida (acidente entre outros), e como ele faz para se locomover etc. (Espaço da Aula – Aula ―A deficiência visual na escola‖) Nesse aspecto, Carvalho (2005) sublinha que a importância dada as causas da deficiência, e a ênfase aos fatores orgânicos, podem gerar uma rede de significações promovendo a associação da deficiência à ideia de doença. Essa associação obedece a estereótipos sociais muito estruturados em torno da normalidade como sinônimo de saúde, e da deficiência como desvio, estigma, decorrente de patologias. 138 As preocupações dos professores em elucidar as causas da deficiência podem construir uma visão estanque e fragmentada desta, fazendo com que a diferença seja percebida apenas como algo inato, produto da natureza e não como uma construção social. Uma boa alusão sobre isso pode ser encontrada na afirmação de Tomasini (1998): (...) a localização do mal no individuo, como fenômeno de causas endógenas, não mobiliza os mecanismos socioculturais na identificação da diferença. Se mudássemos o eixo de visibilidade, a questão seria remetida ao contexto social, à verificação das condições que conferem a determinados comportamentos a significação de desvio, e reconhecer nos atos ―doentes‖, ―marginais‖, ―desadaptados‖, a marca sociocultural. (p.115). Nesses enunciados, a pessoa com deficiência passa a ser construída através de um saber clínico que os tornam alvos de um poder objetivante, culminando com a produção de conceitos, com a determinação de regras, expectativas, limites e possibilidades acerca desses sujeitos. É possível ver o funcionamento desse tipo de poder nos enunciados produzidos pela fonoaudióloga. A criança portadora de uma deficiência física não necessariamente vai ter um comprometimento intelectual. Muitas vezes elas apresentam uma fala rudimentar baseadas em gestos, gritos, choros, tentativas de tocar o interlocutor como possibilidade motora de desenvolver a fala. Qualquer que seja o grau de comprometimento desta criança é necessário o convívio social, principalmente o escolar, onde ela não vai ter mais a proteção familiar e vai ter que desenvolver sua comunicação própria, tendo cada vez mais meios de expressar suas ideias, emoções e seus pensamentos. (Vídeo ―Escola a primeira aventura‖) É interessante observar que, nesse saber médico, ―o corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe‖ (FOUCAULT, 2009, p.133). O corpo aqui é objeto de um discurso que, ao enunciar a doença, diz quem é esse sujeito, quais as suas características e como pode reagir em sua condição de doente. A perspectiva clínica se materializa também, através de todo um conjunto de enunciados que buscam conceituar a deficiência, fazendo parecer que só se pode conhecer a pessoa ou o aluno, se soubermos compreender ou conceituar sua deficiência. A estratégia utilizada pelos enunciadores do Portal configura-se como 139 uma tentativa de definir a deficiência a partir de padrões pré-estabelecidos definidos pelo discurso científico, como veremos abaixo: Antes de assistirem ao vídeo, vocês já tinham ouvido falar de Deficiência visual? Vocês sabem o que é isso? (Espaço da Aula – Aula ―A deficiência visual na escola‖) Nessa aula será trabalhado o conceito de Deficiência visual no contexto escolar, visando proporcionar a compreensão, por parte do aluno, da necessidade de inclusão escolar e social dos alunos com Deficiência visual (DV) (Espaço da Aula – Aula ―A deficiência visual na escola‖) Nessa aula será trabalhado o conceito de Deficiência auditiva (DA) no contexto escolar, de forma a proporcionar a compreensão da importância de se conviver com as diferenças, sendo que a pluralidade favorece que aprendamos uns com os outros, independente de nossas características peculiares. (Espaço da Aula – Aula ―A deficiência auditiva na escola) Será trabalhado nesta aula o conceito de Deficiência Mental no contexto escolar, bem como a importância de se conviver com as diferenças [...] (Espaço da Aula – Aula ―A deficiência Mental na escola) Tomemos como exemplo o conceito de deficiência mental apresentado pela Organização Mundial de Saúde e utilizado pela professora na aula ―A deficiência mental na escola‖. Primeiramente, entendemos que a conceituação da deficiência, corresponde ou funciona como um processo de objetivação desse sujeito, ou seja, o sujeito com deficiência mental torna-se um objeto para o conhecimento. Consideramos que a conceituação da deficiência pode ser entendida como uma forma de exame, uma vez que, nessa técnica específica estão comprometidos todo um campo de saber, todo um tipo de poder que permite obter e constituir saber sobre os sujeitos com deficiência, estabelecendo sobre estes ―um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir‖ (FOUCAULT, 2009, p. 177) Assim, acreditamos que através do conceito opera-se um poder disciplinar que impõe às pessoas com deficiência uma visibilidade obrigatória e faz com que estas sejam transformados em peças de um dispositivo estratégico, podendo ser descritos, mensurados, classificados e comparados aos ditos ―normais‖, como podemos observar no conceito de deficiência mental apresentado na aula ―A deficiência Mental na escola‖. 140 FIGURA 7 - Conceito de Deficiência Mental veiculado na aula "A deficiência Mental na escola" Por isso, acreditamos que a conceituação da deficiência, através da técnica documentária, acaba fixando as diferenças individuais desses sujeitos, dando a impressão que eles são uma massa amorfa, destituídos de identidade e individualidade. Sendo assim, a pessoa com deficiência deixa de ser um indivíduo e se transforma num ―caso‖ que, ao mesmo tempo, constitui um objeto para o conhecimento e uma tomada para o poder. Em relação ao ―caso‖, Foucault (2009) salienta que: o caso não é mais, como na casuística ou na jurisprudência, um conjunto de circunstâncias que qualificam um ato e podem modificar a aplicação de uma regra, é o indivíduo tal como pode ser descrito, mensurado, medido, comparado a outros e isso em sua própria individualidade; e é também o indivíduo que tem que ser treinado ou retreinado, tem que ser classificado, normalizado, excluído, etc. (p.183). Em contrapartida, ao mesmo tempo em que o conceito é utilizado para, supostamente, propor formas de se conhecer a deficiência, ele também acaba produzindo esse sujeito com deficiência, capturando-o, fazendo com que ele se veja através de um mecanismo ótico patologizante. Como nos diz Foucault (2009, p.177), o exame no coração dos processos de disciplina, ―manifesta a sujeição dos que são percebidos como objetos e a objetivação dos que se sujeitam‖. 141 O fragmento a seguir ilustra bem tal processo, tendo em vista que, ao narrarse a aluna com deficiência, percebe-se como um ―caso‖, evidenciando que esta acaba se vendo pela ótica da anormalidade ou da patologia. Osteogênese imperfeita é um daqueles casos raros que acontece no momento da concepção do bebê, dois genes que não deveriam se combinar, se combinam e o resultado é que a pessoa nasce com os ossos frágeis, tão frágeis que na hora do parto, se quebram. Foi o que aconteceu comigo, após o meu nascimento, os médicos constataram que eu era um caso de Osteogênese imperfecta, uma doença tão rara que a medicina não teve muito tempo de se dedicar a ela. (Portal do Professor - Vídeo Bem além dos limites). Destarte, o grande perigo da conceituação é que, ao esmerar-se em descrever as pessoas com deficiência, institui-se também o olhar do professor em formação, que pode começar a ver esses sujeitos a partir de um mecanismo ótico patologizante. Assim, compreendemos que o conceito de deficiência funciona como um dispositivo de visibilidade que estabelece, ao mesmo tempo, o que é a pessoa com deficiência enquanto objeto visível, e também determina a visão do professor em relação a esse aluno. Sobre essa questão, Larossa (1994) esclarece que: Um regime de visibilidade composto por um conjunto específico de máquinas óticas abre o objeto ao olhar e abre, ao mesmo tempo, o olho que observa. Determina aquilo que se vê ou se faz ver, e o alguém que vê ou que faz ver. Por isso o sujeito é uma função da visibilidade, dos dispositivos que o fazem ver e orientam seu olhar. E esses são históricos e contingentes. (p.58). Sendo assim, acreditamos que o aparato conceitual - construído especialmente pelo campo da medicina - fornece a máquina ótica utilizada pelos professores para enxergar a deficiência. Em outras palavras, os professores em formação, ao serem regidos pelos conceitos médicos da deficiência acabam por serem regulados e disciplinados na forma de pensar os sujeitos com deficiência, bem como na maneira de agir com relação a/sobre eles. Assim, no desejo de conhecer os sujeitos com deficiência pela lente da cientificidade, o professor conhece a deficiência, suas causas, seu tratamento, seu desenvolvimento; no entanto, deixa de conhecer a pessoa com deficiência. Caio Donato, um aluno com Síndrome de Down, mostra-nos sagazmente, que não precisamos de todo um aparato científico para conhecer as pessoas com deficiência. 142 As pessoas como eu, que desafiam a deficiência mental aprendem a conviver com as inseguranças das pessoas. As pessoas ficam acomodadas, não sabem o que fazer, o que dizer. Eu percebo que algumas sofrem com isso, a melhor maneira de superar este sentimento é enfrentar a deficiência procurando conhecer as pessoas com deficiências, vivendo as novas ideias sobre a deficiência mental. (Portal do Professor - Vídeo – Deficiência Mental: ameaça ou oportunidade). Torna-se, portanto, de grande importância refletir sobre as conceituações médicas da deficiência encontradas nos textos culturais do Portal do Professor do MEC, tendo em vista que essas conceituações, o conceito ou a definição da deficiência é contingente, provisório, e por sua vez, datado. Sobre isso, Amaral (1998) esclarece que: (...) o conjunto formado por conceitos/definição da deficiência aponta, inexoravelmente, para os contextos em que tem sido engendrado. Desejo, portanto frisar que, ao nos debruçarmos sobre um conjunto conceito/definição, é imprescindível lembrar que essa díade é sempre historicamente datada. (...) penso que o conceito de deficiência e sua definição passam por dimensões descritivas e por dimensões valorativas, tendo sempre um caráter histórico concreto: um determinado momento, num contexto socioeconômico-cultural específico. (p.24). Tais considerações evidenciam a necessidade de repensar as propostas para a formação dos professores no Portal, em cujo horizonte encontra-se o sujeito com deficiência. Tais propostas devem ser questionadas, uma vez que se produz um verdadeiro jogo de objetivação da deficiência, estabelecendo-se uma separação entre os normais e anormais, levando os docentes a pensar o sujeito com deficiência segundo parâmetros médicos – causas, tratamento, capacidades cognitivas, relação interpessoal e inserção social, habilidades acadêmicas e de comunicação – conferindo a estes o status de doente, contribuindo para a construção de uma visão totalizadora e essencializada da deficiência. O grande problema desse tipo de abordagem é o perigo de que a deficiência se torne categorial, estática, que não possibilitemos aos professores em formação repensar dimensões particulares da deficiência à medida que os contextos e as circunstâncias mudam. Ao objetivar a deficiência através de um saber médico, tomando-a como objeto natural, corremos o risco de considerá-la como algo puramente voluntarista ou pessoal, e não como algo implicado na dinâmica social e política vigente. 143 Ademais, é importante sublinhar que não encontramos nos enunciados do Portal, acerca da deficiência, questionamentos sobre a prática pedagógica do professor ou ainda sobre as condições sociais e materiais que limitam ou impedem a inclusão das pessoas com deficiência. Logo, concordamos com Collares e Moysés (1994) quando afirmam que: O espaço escolar, voltado para a aprendizagem, para a normalidade, para o saudável, transforma-se em espaço clínico, voltado para os erros e distúrbios. Sem qualquer melhoria dos índices de fracasso escolar. Porém as crianças continuam não aprendendo, a isto agrega-se, em taxas alarmantes, a incorporação da doença, uma doença inexistente. (p.31) Isso significa que a presença do saber médico naquilo que diz respeito às pessoas com deficiência pode obscurecer questões importantes a serem discutidas nos processos formativos, a saber: aquelas que dizem respeito ao próprio processo de inclusão desses sujeitos, as questões referentes à acessibilidade, ao uso das tecnologias assistivas, à prática pedagógica, as questões relativas à empregabilidade dos sujeitos com deficiência, entre tantas outras. De fato, concordamos com Skliar (2006) quando ele afirma não compactuar com as ideias atuais de formação que conservem intactas as mesmas estratégias e os mesmos textos criticados desde sempre, pois os consideram como invenções, estereótipos, traduções e fixações da alteridade. Para ele, esses são modos coloniais referentes ao outro, seja quem fosse esse outro, tido como outro incompleto, insuficiente, o qual deve ser corrigido. Dessa maneira, faz-se necessária uma reformulação das relações com os outros na pedagogia. O autor ressalta que: se o (a) professor (a) se dispusesse a me ouvir, eu lhe diria que não há mudança educativa num sentido amplo, significativo, sem um movimento da comunidade educativa que lhe outorgue sentidos e sensibilidades. (...) O (A) professor (a), na sua vontade de incluir o outro, não deveria se perder nos labirintos dos nomes, das técnicas e dos saberes inventados. Eu lhe diria que se aproxime das experiências que são dos outros, mas não o reduza na mesmice egocêntrica e hegemônica da educação. (p.33). Concluímos, nesse ponto, que é preciso reformular a própria relação com esse Outro com deficiência nos processos formativos, desvencilhando-nos dos discursos que buscam colonizar a deficiência, exercendo uma lógica perversa em 144 que esses sujeitos devem ser apresentados em detalhes, contados em seus desvios patológicos e medidos em suas capacidades. Isso significa que não podemos mais continuar entrando numa relação com o Outro de forma fetichista, tornando-o um objeto do conhecimento, pois tal postura, além de provocar compreensões equivocadas acerca da deficiência, pode também contribuir para a instauração de mecanismos de controle e dominação desses sujeitos. Todavia, no espaço formativo do Portal, ao mesmo tempo em que o saber médico é utilizado para produzir a deficiência, articula-se a este um saber psicológico, que institui a média, o potencial e o ritmo. 5.2.4 O discurso Psicológico: instituindo a média, o potencial e o ritmo O discurso da Psicologia se revela como um dos discursos instituidores da deficiência no Portal do Professor do MEC, dessarte, encontramos figurando nos enunciados uma série de expressões intimamente associadas a esse campo científico - desenvolvimento psicomotor, grau da deficiência, potencial, atraso, ritmo de aprendizagem - estabelecendo um jogo de verdade acerca do desenvolvimento e da aprendizagem desses sujeitos. É interessante notar, nos discursos do Portal, a persistência do pensamento do psicólogo Alfred Binet, que no início do século XIX criou os testes e instrumentos para medir a idade mental e classificá-la, estabelecendo o normal ou anormal em termos de desenvolvimento mental. Essa conceituação, tão criticada pela estigmatização e cristalização da deficiência, através dos rótulos de deficiente mental leve, severo, moderado e profundo, reaparece nos discursos desse espaço formativo, produzindo uma verdadeira classificação das pessoas com deficiência pelo nível ou grau de inteligência. O roteiro de pesquisa proposto pela professora, na aula ―As deficiências múltiplas na escola‖ permite-nos vislumbrar, através da terminologia ―leve e severa‖, o enquadramento da deficiência em níveis de desenvolvimento. Sugestão de tópicos para a pesquisa: Surdocegueira; Surdez com deficiência mental leve ou severa; Surdez com distúrbios neurológicos, de conduta emocionais; Surdez com deficiência física (leve ou severa); Baixa visão com deficiência mental leve ou severa; 145 Baixa visão com distúrbios neurológicos, emocionais e de linguagem e conduta; Baixa visão com deficiência física (leve ou severa); Cegueira com deficiência física (leve ou severa); Cegueira com deficiência mental (leve ou severa); Cegueira com distúrbios emocionais, neurológicos, conduta e linguagem. (Portal do Professor - Aula – As deficiências múltiplas na escola / Espaço da Aula) No discurso do médico, também fica visível a definição da deficiência em termos de grau de desenvolvimento, enfatizando-se a importância de diferenciar o potencial dos indivíduos em termos quantitativos. É importante que todas as pessoas que trabalham com um indivíduo com algum grau de deficiência conheçam o potencial deste indivíduo, para que possam diferenciar dentro do mesmo tipo de deficiência indivíduos que tenham potencial maior ou menor, pois a pessoa é deficiente em uma área, mas pode ser extremamente eficiente na outra área. (Vídeo – Deficiência Mental: ameaça ou oportunidade) Essa interpretação ou essa forma de pensar baseia-se num modelo universal de desenvolvimento em que se utiliza a medida do coeficiente de inteligência (QI) como parâmetro de classificação da deficiência. Entretanto, na definição da deficiência, a partir desses parâmetros quantitativos, estabelece-se sobre esses sujeitos um poder disciplinar da norma, que ―funciona dentro de um sistema de igualdade formal, pois dentro de uma homogeneidade, que é a regra, ele introduz, como um imperativo útil e resultado de uma medida, toda a gradação das diferenças individuais‖. (FOUCAULT, 2009, p.176) Ocorre, desse modo, que a pessoa com deficiência passa a ser classificada como desvio de um modelo, tendo o seu nome, a sua identidade, o seu status substituídos por um conjunto de graus de normalidade. No entanto, essa visão quantitativa da deficiência ou da divisão segundo os graus de normalidade tem um duplo papel, a saber: ―marcar os desvios, hierarquizar as qualidades, as competências e as aptidões; mas também castigar e recompensar‖ (FOUCAULT, 2009, p.174). O fato de não encaixar-se num padrão ou numa medida, é determinante para se instaurar sobre a pessoa com deficiência toda uma penalidade da norma ou uma sansão normalizadora. Os discursos abaixo revelam a atuação desse poder normalizador sobre os sujeitos com deficiência, indicando que a repetência tem sido 146 uma das formas utilizadas para penalizar os alunos que não se encaixam num padrão determinado pela escola regular. Eu queria fazer uma pergunta professora, os alunos que têm necessidades especiais, até onde eles vão dentro da escolaridade, chegam ao ensino médio? A maioria não chega ao ensino médio. Os jovens com necessidades especiais muitas vezes são retidos nas primeiras séries porque não conseguem atingir o conteúdo curricular que é esperado. Então eles vão sendo retidos. (...) os que conseguem acessar são os alunos que têm deficiência visual ou deficiência física que conseguem mais sucesso. (Vídeo – Inclusão Social) Há casos de deficiência física que atrasa o desenvolvimento psicomotor da criança, são os casos de paralisia cerebral e outros problemas de origem neurológica, com dificuldades para realizar determinados movimentos necessários ao aprendizado, a criança acaba tendo de repetir algumas vezes o período escolar. (Vídeo – Bem Além dos limites) Desse modo, o discurso dos professores - fundamentados numa noção psicologizada - acaba posicionando os sujeitos com deficiência na condição de seres que têm um desenvolvimento atrasado em relação ao padrão de normalidade ou em relação à média, e que, portanto, merecem a devida punição por não se ajustar ao modelo. Mas, ao mesmo tempo em que o discurso psicológico estabelece um exercício de classificação e nomeação das capacidades dos sujeitos com deficiência, ele propicia também um olhar sobre a deficiência a partir daquilo que está faltando ou da incompletude desses sujeitos. Examinando a formulação dos professores sobre a deficiência, é possível observar a grande ênfase que se dá à falta, à carência ou à insuficiência desses sujeitos, sendo assim, o que vemos é um discurso povoado pela palavra ―limitação‖. Conhecendo as limitações humanas A professora conversará com os alunos sobre as pessoas cegas e suas limitações. Eles observarão na gravura do cérebro a região onde se realiza a visão (Espaço da Aula – Aula: Diferentes leituras para pessoas com necessidades especiais: Braille, Libras e leitura labial) Continuando a aula, a atividade a ser desenvolvida neste momento, tem como objetivo favorecer a reflexão do aluno sobre a inclusão social das pessoas com deficiência física, de forma que eles possam compreender que estas pessoas, apesar das limitações que a condição física impõe, elas podem desempenhar diversas 147 atividades (trabalhar, estudar, namorar etc.) como qualquer outra pessoa! (Espaço da Aula – Aula: A deficiência Física na Escola) O vídeo relata que a pessoa com deficiência pode ter relações sexuais de acordo com suas limitações, o que vocês acham? ( Espaço da Aula – Aula ―A pessoa com deficiência pode ter relações sexuais?) Vocês acham que as pessoas com deficiência, apesar de sua limitação em função da deficiência, podem trabalhar? Por quê? (Espaço da Aula – Deficiência e Mercado de trabalho) O recurso pedagógico utilizado na aula ―As deficiências Múltiplas na escola‖, também são suficientemente representativos desse discurso que posiciona a pessoa com deficiência a partir da falta e da incompletude, evidenciando que aquilo que é proposto como uma abordagem pedagógica criativa acaba por reforçar essa representação. Outrossim, chama atenção nos excertos da música a recorrência da expressão ―não posso‖, ilustrando as capacidades e incapacidades desses sujeitos. FIGURA 8 – Música ―Nada Impede que eu seja feliz‖ veiculada na aula ―As deficiências Múltiplas na Escola‖ A reiteração desse tipo de discurso, que enfatiza a falta ou a incompletude do sujeito com deficiência, a partir dos inúmeros ―não posso‖, reflete a atuação de um poder disciplinar que opera marcando os desvios e as anormalidades, assinalando a 148 falta, efetuando o que Foucault (2009) chamou de troca do eixo político da individualização, em que a individualização, ao contrário, é ―descendente‖ à medida que o poder se torna mais anônimo e mais funcional, aqueles sobre os quais se exerce tendem a ser mais fortemente individualizados; e por fiscalizações mais que por cerimônias, por observações mais que por relatos comemorativos, por medidas comparativas que têm a ―norma‖ como referência (...); por ―desvios‖ mais que por proezas. (p.184). Nesse caso, concordamos com Skliar (2006), quando diz que essas representações são obsessivas com aquilo que é pensado e produzido como ―anormal‖, vigiando cada um dos desvios, descrevendo cada detalhe do patológico, cada vestígio da normalidade, suspeitando de toda deficiência e afirmando que algo está errado, que há alguma coisa equivocada no sujeito, e que possuir uma deficiência é um problema. Dessa forma, é interessante observar que o discurso da psicologia, expresso através das classificações e categorizações acaba por capturar a pessoa com deficiência, subjetivando-a. No excerto a seguir, cujos enunciadores são pessoas com deficiência, é possível verificar a comparação que estes estabelecem com os padrões de normalidade ou a média. É difícil para uma criança, que tem algum comprometimento sério nas pernas, andar na mesma época que as outras crianças, mesmo tendo sido estimulado desde cedo, o processo é lento, são muitos obstáculos que ela tem que enfrentar até dá os seus primeiros passos. (Vídeo – Escola a primeira aventura) [...] crianças com deficiência física geralmente tem inteligência igual a média dos colegas da mesma idade. Mas a criança deficiente física precisa mais de apoio e atenção dos professores e pessoas próximas do que as outras crianças, algo criativo, que ajude as crianças a fazer os que outras fazem, de uma maneira diferente. (Portal do Professor - Vídeo – Bem Além dos limites) Por isso, acreditamos que as classificações da deficiência, a partir de uma visão psicométrica, expressam uma concepção que desconsidera as interações sociais constituidoras dos sujeitos. Sendo assim, ao tratar apenas com características individuais, como se a deficiência estivesse localizada nas pessoas, desconsidera-se as questões culturais, sociais, linguísticas, familiares e 149 educacionais, tão importantes na formação dessas pessoas. Concordamos com a afirmação de Mantoan (2005), de que nessas abordagens entende-se as deficiências como ―fixadas‖ no indivíduo, como se fossem marcas indeléveis, as quais só nos cabe aceitá-las, passivamente, pois pensa-se que nada poderá evoluir, além do previsto no quadro geral das especificações estáticas: os níveis de comprometimento, as categorias educacionais, os quocientes de inteligência, as predisposições para o trabalho e tantas outras. (p.30) Todavia, ao mesmo tempo em que os saberes da psicologia produzem discursos que classificam e nomeiam as capacidades e incapacidades dos sujeitos com deficiência, fornecem todo um aparato conceitual que institui uma forma de inteligibilidade sobre a deficiência. Disso se pode depreender que a pessoa com deficiência pode ser vista pelos professores como um conjunto de domínios expressos em termos de capacidades observáveis, passíveis de serem medidas e quantificadas. Nesse âmbito, ―o foco do problema é colocado no aluno, no seu desempenho, consolidando o atraso cognitivo como característica individual e contribuindo para uma baixa expectativa dos professores em relação a estes alunos‖ (CARNEIRO, 2006, p.141) Além disso, a predominância da visão psicológica da deficiência coloca esses sujeitos sempre na posição de serem olhados, observados, contados detalhadamente nos seus desvios e incapacidades. Nesse sentido, é preciso sublinhar que os princípios psicológicos, transpostos para o campo da educação, devem ser questionados, uma vez que, estes contribuem para uma inversão histórica nos processos de individualização do sujeito com deficiência. Sobre isso, Foucault (2009) salienta que: todas as ciências, análises ou práticas com radical ―psico‖ têm seu lugar na troca histórica dos processos de individualização. O momento em que passamos de mecanismos histórico-rituais de formação da individualidade a mecanismos científico-disciplinares, em que o normal tomou o lugar do ancestral, e a medida o lugar do status, substituindo assim a individualidade do homem memorável pela do homem calculável (...) (p.184). Por isso, entendemos que estereotipar as pessoas com deficiência, a partir de graus de ―anormalidade‖, rotulando-as como incompletas e incapacitadas, reafirma a concepção normalizadora da deficiência, tendo como consequência a culpabilização 150 desses sujeitos pelo seu fracasso, como se eles fossem os causadoras do problema e os responsáveis solitários por seu insucesso. Segundo Mittler (2003), quando a deficiência é vista como um problema ou um defeito, e se assume que a origem das dificuldades está localizada na pessoa com deficiência, não se assume que a escola precisa mudar para acomodar ou para responder a necessidade desses sujeitos. Assim, ao invés de formar o professor na perspectiva de manter o indivíduo com deficiência sob o controle de um saber permanente, constituindo-os como objeto descritível, quantificável, seria interessante formá-lo para pensar a deficiência como uma possibilidade e não como uma falta. Por fim, a leitura dos enunciados sobre a deficiência, na região discursiva do Portal do Professor do MEC, revela-nos uma coexistência com diferentes campos disciplinares, a saber: com o campo da pedagogia inclusiva; com o discurso da diversidade fundamentado no multiculturalismo liberal de esquerda; com o discurso médico fundamentado numa noção biológica da deficiência e ainda com o discurso da psicologia embasado numa concepção quantitativa e normalizadora da deficiência. Para uma melhor visualização dos discursos sobre a deficiência, no referido espaço formativo, construímos um quadro-síntese, apresentado a seguir. 151 QUADRO 3 – Enunciados sobre a deficiência no Portal do Professor do MEC10 LUGAR DE ENUNCIAÇÃO SISTEMA DE DIFERENCIAÇÃO Implantação de Tecnologias de Informação e Comunicação a serviço da melhoria dos processos educacionais nas escolas públicas brasileiras; Capacitação docente através das Tecnologias de Informação e Comunicação; Discurso sobre a deficiência no Portal do Professor do MEC ARTICULAÇÃO COM OUTRAS MARGENS DISCURISVAS Secretarias do Ministério da Educação (MEC); Secretarias Estaduais e Municipais de Educação; Universidades públicas; Produção de conteúdos digitais; Fomento à produção individual e coletiva de metodologias e materiais; UNESCO; Especialistas da área psico (psicólogos e psicopedagogos) Pessoas com deficiência e familiares 10 Discurso da pedagogia inclusiva; Instituições privadas e públicas (Bradesco,Vivo, Oi, Futuro, Claro, OEI, Cezar, Instituto Algar, Intel, Corel, Agência Espacial Brasileira, Embrapa) MATERIALIDADE DISCURSIVA Vídeos educativos; Jornal do professor; Discurso da diversidade (multiculturalismo liberal de esquerda) Discurso da Psicologia; Discurso Médico; Universidades internacionais; Educadores Especialistas da área da saúde (médicos, fonoaudiólogos) COEXISTÊNCIAS DISCURSIVAS Aulas produzidas para o ―Espaço da Aula‖; Programas de capacitação; Fóruns de debates sobre questões educacionais; Conferências eletrônicas; Página Web; Quadro baseado no de Carvalho (2004), em sua tese intitulada “Discursos pela Interculturalidade no campo curricular da Educação de Jovens e Adultos no Brasil nos anos 1990”. 152 Assim, como pudemos observar no quadro acima, existe uma negociação com diferentes campos do conhecimento para dizer da deficiência, evidenciando que os discursos destinados à formação docente para educação inclusiva, valem-se da contribuição de vários campos de saber – que entram em sintonia, superpõe-se, muitas vezes se chocam, outras tantas, contrapõe-se – fazendo funcionar um poder disciplinar que ―fabrica‖ o indivíduo com deficiência, tomando-os, ao mesmo tempo, como objetos e como instrumentos do seu exercício. Nessa luta de poderes, temos como resultado diferentes formas de dizer sobre a deficiência. Essas maneiras de narrar a pessoa com deficiência dependem do lugar que se ocupa na sociedade, da teia de poder que a atravessa e da rede de saberes que a esta se vincula, fazendo aparecer diferentes representações culturais desses sujeitos. No próximo capítulo buscaremos dar visibilidade às representações emergentes dos diferentes discursos produtores da deficiência, procurando capturar os múltiplos sentidos e significados produzidos nesse espaço cultural, acerca da deficiência. 153 CAPÍTULO 6 – A REPRESENTAÇÃO CULTURAL DA DEFICIÊNCIA: DESVELANDO ESTEREÓTIPOS E ESSENCIALIZAÇÕES O discurso colonial produz o colonizado como uma realidade social que é ao mesmo tempo um “outro” e ainda assim inteiramente apreensível e visível. (HOMI BHABHA, 1998) Ao empreender esta análise, que se ocupa em apontar ou desvelar algumas das representações culturais da deficiência no espaço formativo do Portal do Professor do MEC, queremos tornar evidente que não estamos mobilizados pelo desejo de dizer se as representações são boas ou ruins, se são verdadeiras ou falsas, pois de modo análogo a Skliar (2001a, p.94), entendemos não haver ―representações corretas ou incorretas, melhores ou piores e, ainda mais, que elas podem ser limitadas a categorias de verdadeiras e falsas‖. Dessa forma, pela perspectiva em que se inscreve esta análise, não estaremos procurando desvendar as intenções daqueles que são responsáveis pela veiculação de verdades sobre os Outros com deficiência nesse espaço formativo on-line, tampouco estamos preocupados em submeter as representações a um julgamento normatizante, mas estamos interessados, principalmente, em desnaturalizar os discursos, questionado o seu regime de verdade e a rede de poder-saber produtores de imagens e enunciados clichês, que inventam os sujeitos com deficiência. 6.1 A Espetacularização da deficiência e a produção do herói Nos arquivos analisados, constatamos a existência da construção e disseminação de uma representação da deficiência atrelada à ideia de heroísmo e superação. Encontramos, nos textos culturais analisados, um enaltecimento das capacidades dos sujeitos com deficiência, estabelecendo-se a construção de um personagem heróico que, apesar de todo sofrimento, consegue superar as adversidades. Tal discurso confirma os estudos de Amaral (1998, p.18) que, ao analisar vários estereótipos em relação à pessoa com deficiência observou que a imagem de herói é uma das mais empregadas para se falar sobre esses sujeitos. De acordo com a autora, o estereótipo do herói está ligado à imagem ―daquele que supera 154 todos os obstáculos, ultrapassa todas as barreiras, é o bom – corporificação do bem – e até mesmo o melhor‖ O vídeo abaixo, utilizado como recurso pedagógico, na aula ―Deficiências Múltiplas na escola‖, retrata bem o enaltecimento das capacidades heróicas dos sujeitos com deficiência. O filme apresenta a história de uma garota com deficiências múltiplas realizando atividades diversas, como: a participação em esportes variados, a realização de uma série de atividades sem o apoio das mãos, entre elas dirigir, secar o cabelo, trocar as lentes de contato, abastecer o carro com o apoio dos pés, digitar vinte e cinco palavras por minuto. O ápice do filme se dá quando Jessica aparece pilotando uma aeronave com os pés, sendo que, aliado ao discurso imagético, vão surgindo no discurso textual palavras de exaltação aos feitos heróicos da garota com deficiência, como podemos observar nos excertos abaixo: Esta mulher inspiradora e heroína para muitos, irradia felicidade e um grande senso de humor. É a primeira mulher piloto na história da aviação que pilota sem os braços; Até a data tinha contabilizado 130 horas de vôo sozinha. (Aula deficiências múltiplas na escola / Espaço da Aula / vídeo ―Tocando o céu sem braços). FIGURA 9 – Vídeo do youtube ―Tocando o céu sem braços‖ veiculado na aula ―As deficiências múltiplas na escola‖ Dessa forma, na aula sobre deficiências múltiplas, parece essencial expor a pessoa com deficiência como modelo de superação, levando os alunos ditos ―normais‖ a refletirem a respeito das inúmeras potencialidades desses sujeitos, como podemos observar no roteiro de pesquisa proposto pela professora. 155 O que vocês acharam da pessoa que está realizando tal atividade (mencionar a atividade realizada)? Em algum momento de suas vidas, vocês acharam que uma pessoa com Deficiência não poderia realizar tal atividade? Por quê? Vocês acreditam que essa pessoa é feliz? Por quê? (Espaço da Aula – Aula ―Deficiências Múltiplas na escola‖) No discurso imagético extraído das aulas ―Somos todos iguais‖ e ―Pensando sobre a Convivência na Escola‖ a imagem de comemoração e de vitória, associadas ao enunciado ―Amputados vencedores‖, reforça a imagem da deficiência atrelada à superação e à vitória. Nesse contexto, torna-se evidente a estratégia de ―espetacularização‖ da deficiência, em que essas pessoas são consideradas como seres com capacidades quase sobrenaturais, dando a impressão de que podem ultrapassar qualquer limite, que são verdadeiros heróis. FIGURA 10 – Imagem do site ―Amputados Vencedores‖ veiculados na Aula ―Somos Todos iguais‖ 156 FIGURA 11 – Imagem veiculada na aula ―Pensando sobre a Convivência na Escola‖ Nesse momento, é importante fazer referência aos escritos de Goffman (2004), em que esse autor opera com o conceito de estigma. O autor destaca que o estigmatizado (que nesse estudo refere-se à pessoa com deficiência), apresenta-se como se estivesse em exibição, de modo que suas condutas são inalcançáveis pelas outras pessoas, sobretudo se considerar que os outros não passaram por todas as provações que eles, já que não possuem nenhum tipo de deficiência. Assim, ―seus menores atos, ele sente, podem ser avaliados como sinais de capacidades notáveis e extraordinárias nessas circunstâncias‖ (GOFFMAN, 2004, p.16). Nos enunciados analisados, enfatiza-se a proeminência ou quase superioridade das pessoas com deficiência em relação aos ditos ―normais‖, dandonos a impressão que, ao enaltecer as habilidades e capacidades dessas pessoas, atenua-se a imagem da invalidez e incapacidade. Tanto eu quanto o Brasil inteiro ficamos muito satisfeitos com eles (as pessoas com deficiência), na verdade, eles conseguiram provar que são tão capazes e até mais capazes que os supostos normais (vídeo – esporte como fator de inclusão) Apesar destas pessoas apresentarem algumas características diferentes das demais, todas elas são inteligentes, capazes de aprender e realizar inúmeras atividades que, às vezes, nem mesmo pessoas sem NEE conseguem fazer! Um exemplo disso é que não são todas as pessoas que têm o dom de tocar piano como RayCharles tocava – e ele era cego! Todos nós temos características únicas e nem por isso somos melhores ou piores que outra pessoa! Assim, podemos afirmar que todas as pessoas têm uma potencialidade e é importante que a descubra (Portal do Professor Espaço da Aula – Aula ―Somos Todos iguais‖). 157 Em contrapartida, o discurso que fixa a deficiência, colocando-a como sinônimo de heroísmo ou a partir da retórica da compensação, também constrói esse sujeito, subjetivando-o. No fragmento abaixo, torna-se evidente que a pessoa com deficiência assumiu o discurso veiculado sobre si, demonstrando uma preocupação em compensar a deficiência por meio de atitudes de superação. estudava no primeiro colegial, tinha muita dificuldade de me aceitar como deficiente, tinha medo de que as pessoas não aceitassem, tinha consciência das diferenças, mas não quis encará-la com responsabilidade, tinha muito medo de crescer e ao mesmo tempo de não crescer, quis ser alguém especial, para me proteger e ser querida pelas pessoas, achava que tinha obrigação de ser diferente e muito inteligente para ter que compensar a deficiência. (Vídeo – Bem além dos limites, grifo nosso) Contudo, a espetacularização da deficiência ou o interesse pela encenação pública das diferenças é reflexo de um passado histórico ainda bastante atual, encoberto, muitas vezes, pelo discurso da inclusão, da oportunização e da acessibilidade. Por isso, importa destacar que os sujeitos enunciadores do Portal, encontram na própria história as condições de possibilidade para a produção do héroi ou para espetacularização da deficiência. Nesse contexto, cabe trazer para a discussão, ainda que brevemente, os estudos de Courtine (2008) sobre a história e antropologia culturais da deformidade, em que o autor evidencia o modo como a deficiência foi alvo dos grandes espetáculos originários da segunda metade do século XIX. A curiosidade pelo bizarro e pelas catástrofes anatômicas se principia com a instalação por Barnum do seu Museu norte-americano em Nova York, por volta de 1840, fazendo da monstruosidade humana um objeto comercial como qualquer outro. Essa perturbadora diversão comercial produzida por Barnum tem nas apresentações teratológicas o seu apogeu, estabelecendo-se uma perturbadora diversão e paradoxal espetáculo, denominado por Courtine (2008) de Disneylândia da teratologia. Em relação às apresentações teratológicas, o autor destaca: dois irmãos siameses, uma mulher barbada, um homem elefante, um negro branco: essas curiosidades humanas mesclam identidades, confundem os sexos, condensam as espécies, misturam as raças. O teatro dos monstros apresentava uma transgressão – real ou imitada – das leis da natureza. Exceção às normas biológicas, instabilidade do processo vital, falhas de geração; irregularidades das formas 158 humanas, precariedade de sua estrutura física, fragilidade de seus envoltórios: os curiosos que ocorriam para fazerem a experiência do monstro viam surgir diante de si o inventário de uma desordem radical do corpo humano e assistiam, na cena do entra-e-sai, ao drama da ordem diante da vida. (COURTINE, 2008, p.272). A cultura visual de massa, que tinha na exibição do anormal seu ponto máximo, não se limitava aos espetáculos dos parques de diversão e dos museus de curiosidades. Nas palavras de Courtine (2008), a curiosidade pelas bizarrices do corpo humano vai ultrapassar os parques de diversão e os museus para funcionar em cadeia. Nessa perspectiva, os cartões postais exibindo as monstruosidades, tornaram-se um dos modos privilegiados de exibição das anormalidades. O autor ressalta que: a estranheza anatômica, o atraso no desenvolvimento mental, a aparência grosseira são elementos esperados do pitoresco rural, ao qual vão trazer seu toque indispensável de autenticidade humana. A curiosidade por essas representações fotográficas de enfermidades, de patologias, ou muito simplesmente da postura corporal ―teratologizada‖ era legítima, ordinária, amplamente compartilhada, e o gesto banal que consistia em mostrar tudo isso aos amigos ou enviá-las aos parentes. Os amantes dos cartões postais assumiam assim, em face de seus vizinhos, uma atitude no fim de contas muito parecida com a do expositor de curiosidades em face dos seus clientes. (p.281). A imagem dos irmãos siameses Giacomo e Giovanni Batista Tocci, nascidos na Itália, em 1978, é um dos exemplos de cartão postal que ilustram a exploração comercial da enfermidade. Courtine (2008) salienta que essa forma de apresentar a monstruosidade rompe com as ficções selvagens, sendo assim, o uso das convenções do retrato de estúdio vai se tornar cada vez mais frequente na exibição fotográfica das deformidades, no decorrer das duas últimas décadas do século XIX e das duas primeiras do seguinte. 159 FIGURA 12- Irmãos Giacomo e Giovanni Batista Tocci Em relação à fotografia apresentada acima, Courtine (2008) diz que para os olhares daquela época, a fatura da exibição proposta por Tocci era clássica, sendo o modo como os empresários de espetáculos revestiam os monstros com seu valor comercial. Para o autor, aquilo que hoje vemos como uma forma obscena de apresentação da ―anormalidade‖ ou aquilo que choca nossa sensibilidade atual, foi justamente o que atraiu os parisienses à procura de distração. Ainda sobre a imagem dos irmãos Tocci, Courtine (2008) diz que: hoje não se pode mais contemplá-lo sem repugnância nem tampouco escrever a seu respeito sem experimentar desconforto. Sua natureza, a nossos olhos, deixa pouco espaço à dúvida: uma exploração comercial da enfermidade, monstruoso strip-tease, uma verdadeira pornografia do handicap. (p.285). Dessa maneira, todo esse panorama histórico nos ajuda a compreender a existência de uma nova conjuntura em relação ao corpo ―anormal‖, revelando que o ―espetáculo‖ da deficiência ainda permanece. Contudo, as regras do discurso pela inclusão promovem um deslocamento de poder que não mais se caracteriza pela exposição das deformidades ou monstruosidades, mas organiza-se sob novas bases, colocando o corpo ―deficiente‖ a serviço de uma maquinaria de poder cuja função é a exibição de corpos heróicos e úteis para garantir sua inclusão nos sistemas sociais. Pois, ao que nos parece, a espetacularização da deficiência, na atualidade, justifica-se pela necessidade de arrancar o disforme, o mutilado, a pessoa com deficiência da alteridade monstruosa, e garantir sua inclusão na confraria dos corpos 160 ―normais‖. A impressão que temos é que a espetacularização da deficiência, diferentemente do século XIX, ao revelar as potencialidades desses sujeitos, através da exibição dos seus atos heroicos, tem por objetivo a normalização da deficiência, ou seja, fazer da pessoa com deficiência um indivíduo igual aos outros, transformando o corpo anormal em um corpo ordinário, comum, corriqueiro. Sob sua forma mais extrema, essa tendência à normalização visa estabelecer uma correção no olhar que deixa a pessoa cega para os aspectos exteriores do outro, bem como reivindicam uma proibição das palavras, que manda falar através dos eufemismos, e bane da linguagem qualquer traço de discriminação verbal. Segundo Courtine (2008), a norma exige, nos dias de hoje, que o olhar renuncie a se demorar sobre a anomalia física, que o termo ―monstro‖ já não se aplique mais a não ser metaforicamente a uma pessoa, que o anão principie uma segunda existência lingüística, recebendo agora a denominação de ―pessoa de baixa estatura‖: onde quer que se pouse o olhar, a deformidade deve passar despercebida. (p.335). Mas, ao ressaltar as competências das pessoas com deficiência, nos espetáculos das ―capacidades‖ e não mais das ―monstruosidades‖, produz-se o que Courtine (2008) chamou de uma espécie de conflito entre razão política e visão singular, em que a primeira requer que se trate de modo igual os indivíduos, independente de sua aparência, enquanto a segunda registra a perturbação do olhar diante dos desvios do corpo. Para o autor, os meios que elas aplicam para fazer do deficiente ―um indivíduo como os outros‖, ou mesmo ―um trabalhador plenamente capaz‖ – o discurso da readaptação, as tecnologias médicas de restauração protética, o arsenal de regulamentos e das leis, a multiplicação dos serviços especializados – só conseguiriam chegar a uma eliminação paradoxal do estigma corporal, simultaneamente percebido e apagado, lembrado e negado, reconhecido e recalcado. (p.335) Em contrapartida, acreditamos que a dissolução da deficiência na multiplicação das diferenças tende a mergulhar os sujeitos com deficiência em um universo de indistinção e ambiguidade. Portanto, essa forma de narrar a deficiência, promovendo o apagamento das diferenças, confirma os pressupostos de Bhabha (1998, p.119) de que o estereótipo, como uma forma de crença múltipla e contraditória, ―reconhece a diferença e simultaneamente a recusa e a mascara‖. 161 Por um lado, entendemos que esse tipo de discurso é em si problemático, pois ao negar a deficiência, mascarando-a através do excesso de atributos afirmativos, corremos o risco de transformar esses sujeitos em figuras grotescas, excêntricas ou caricatas. Como nos diz Bhabha (1998, p.117) ―a recusa da diferença transforma o sujeito colonial em um desajustado – uma mímica grotesca ou uma ‗duplicação‘ que ameaça dividir a alma e a pele não diferenciada, completa, do ego‖. Por outro lado, entendemos que os discursos do Portal ao realçarem as capacidades e atos heroicos das pessoas com deficiência, podem, de alguma forma, retirar a dimensão de humanidade desses sujeitos, descaracterizando-os e construindo-se uma ideia falsa que, por vezes, não corresponde à realidade. Por isso, concordamos com Carvalho (2005) quando adverte que negar a deficiência (sensorial, mental, física, motora, múltipla e outras) é tão perverso quanto lhes negar a possibilidade de acesso, ingresso e permanência bem-sucedida no processo educacional escolar, configurando-se como uma forma de exclusão mais grave do que a física, que segrega pessoas em espaços restritivos, pois revela a sua exclusão dentro de nós, num movimento inconsciente de rejeição às suas diferenças. Apesar de parecerem bem intencionadas, as estratégias pedagógicas de abordagem da diferença, por meio de atributos heroicos, podem ser danosas tanto para o professor quanto para o aluno com deficiência. Pois, apagar as diferenças por meio de uma série de atributos afirmativos, a fim de inserir os sujeitos com deficiência na sociedade inclusiva, pode levar o professor em formação a acreditar que a superação da diferença depende apenas de um esforço próprio do aluno com deficiência e de sua capacidade para vencer as adversidades que lhe são impostas pelos sistemas sociais. Entretanto, esses estereótipos ao serem subjetivados pelos alunos com deficiência, podem levá-los a abandonar, reprimir, ou mascarar suas diferenças em nome da conformidade e da adaptação às normas ou aos padrões da sociedade dos ditos ―normais‖. Mas, ao lado do mito do herói encontramos também os discursos que representam a deficiência a partir de uma estreita correlação com qualidades morais, éticas e sociais, reforçando o mito da ―pureza‖, da ―bondade‖ e da ―ingenuidade‖ desses sujeitos. 162 6.2 O bom “moço” e o “exemplo” a ser seguido As narrativas sobre a deficiência desdobram-se também em discursos que buscam evidenciar as qualidades de caráter desses sujeitos, fazendo parecer que são pessoas quase perfeitas, o que pode ser constatado através da utilização de uma série de adjetivos para referir-se a eles. Nos enunciados abaixo se destacam palavras como ―esforçados‖, ―dedicados‖, ―ótima aluna‖, ―inteligente‖, ―simpático‖, fazendo parecer que a deficiência pode ser, de alguma forma, compensada pelas supostas qualidades do sujeito. De acordo com Ana, os alunos com deficiência demonstram um interesse muito maior por aprender, do que os demais. ―Eles têm esforço, dedicação e vontade de participar.‖ (...) Para ela, nenhum aluno especial é problema. ―Eles ajudam a contribuir‖ destaca a professora, que também tem uma cadeirante entre seus alunos, desde 2008. ―Ela é ótima aluna garante‖. (Ensinar alunos especiais é uma lição de vida / Jornal do Professor) A escola fez algumas reformas para garantir a acessibilidade: construiu rampas, banheiro especial, e alargou portas. (...) inteligente e simpático, o garoto que está hoje no primeiro ano do ensino médio não enfrenta problemas de falta de aceitação. (Escola do Paraná está comprometida com a inclusão / Jornal do Professor) O enaltecimento ou a adjetivação da deficiência, que culmina na representação que poderíamos chamar de ―bom moço‖, ou o exemplar, contribui para a construção de uma imagem mitológica dessas pessoas, como se estivessem acima do bem e do mal. Gonçalves, Albino e Vaz (2009), destacam que esse tipo de discurso pode acabar em alguma medida, retirando a dimensão de humanidade desses sujeitos, fazendo com que o fato de alguém ter determinada deficiência, por esse único motivo, é tomado como suficiente para que esse seja apresentado às pessoas como moralmente correto, incapaz de cometer equívocos ou atos de crueldade. Novamente emerge a perspectiva de compensação – essa sempre associada ao mas -, expressando que é deficiente, mas é um excelente sujeito. (p.164). Nessa perspectiva, Dall‘Agnol (2008) salienta que a deficiência ao ser representada a partir da retórica da compensação, em que as pessoas com deficiência são admiradas por apresentarem características compensatórias 163 excepcionais, marcado pelo apagamento da deficiência, pode corroborar para uma concepção normalizadora acerca da diferença, fazendo com que os problemas derivados da deficiência apareçam de forma minimizada ou não apareçam. Em consonância com a representação do ―bom moço‖ encontramos aquelas representações em que o Outro com deficiência é sempre visto como um exemplo, como alguém que pode ensinar alguma coisa de bom para alguém, ou ainda, alguém que tem sempre que dar uma ―lição de vida‖ para aqueles que não têm nenhuma deficiência. A repetição da palavra ―lição‖ em muitos dos dizeres sobre a deficiência, legitima a representação de que as pessoas com deficiência têm sempre algo de bom a ensinar às outras pessoas, ou seja, elas sempre devem ser vistas como exemplos para a sociedade. Quando foi comunicada, no início de 2009, que teria quatro alunos surdos na mesma turma, a professora Ana Lima Cordeiro Gomes sentiu um impacto: ―falei que ia embora da escola.‖ Ela não se sentia preparada para trabalhar com eles, pois nunca tinha feito curso de libras. Mas, já na primeira semana de aulas, modificou sua opinião. Se tivesse abandonado meu trabalho, estaria arrependida. ―Tem sido uma lição de vida‖, conta a professora de português da Escola São José, no município de Cruzeiro do Sul, no Acre, que tem 21 anos de experiência no magistério. Segundo ela, desde o início das aulas os estudantes surdos procuravam ensinar algumas coisas aos professores, de modo a facilitar a comunicação: ―a gente colocava no papel o que queria dizer e eles traduziam para a linguagem de sinais.‖. (Jornal do Professor – Reportagem ―Ensinar alunos especiais é uma lição de vida) [...] a inclusão desses alunos podem trazer muito benefícios para todos. Para os deficientes, ela significa oportunidade preciosa para o desenvolvimento afetivo e inserção social, para o resto da turma, com certeza será uma experiência enriquecedora, uma lição de amizade, solidariedade, respeito a diversidade. (vídeo – Esporte como fator de inclusão) Com esse jogo, a professora Neusa e seus alunos estão, ao mesmo tempo, dando e recebendo uma lição de companheirismo, amizade, respeito e solidariedade. (Portal do Professor - vídeo Esporte com fator de inclusão) Na aula ―A deficiência física na escola‖, novamente constatamos que o estereótipo do ―exemplo‖, também evidencia-se no recurso didático sugerido pela professora. Na história em quadrinhos, ao apresentar o personagem Paralaminha (cadeirante) da Turma da Mônica, os dizeres sobre a deficiência se materializam através do enaltecimento das qualidades e capacidades do garoto cadeirante, 164 havendo ênfase na lição que os outros podem aprender ao relacionar-se com um coleguinha com deficiência. FIGURA 13 – Texto da estória infantil ―Turma da Mônica‖ veiculada na aula ―A deficiência física na escola‖. Além disso, a professora - ao abordar o texto cultural com a turma - através de um roteiro para pesquisa, faz novamente referência ao fato de que ―Luca‖, o personagem cadeirante, tem algo a ensinar para os outros colegas da turma, reforçando o estereótipo do ―exemplo‖ a ser seguido. Essa observação leva-nos a constatar a manutenção de uma estreita correlação entre deficiência e qualidades morais, éticas e sociais. Portanto, nesse quadro de referência associa-se a deficiência a ideia de pureza e bondade. Sobre qual assunto trata o texto? O novo membro da Turma da Mônica pratica que tipo de esporte no seu cotidiano? O que o novo personagem “Luca” ensina para os demais integrantes da Turma? O que o Luca e o cantor Herbert Viana (Fig. 3) possuem em comum? Qual o tipo de Deficiência que Luca possui? 165 O que o Luca utiliza para se locomover? (Espaço da Aula – A deficiência Física na Escola) É preciso considerar, no entanto, que nos textos culturais analisados excluem-se as representações ou as narrativas em que a deficiência pode aparecer atrelada a comportamentos transgressores ou a qualquer outro tipo de conduta que desabone essas pessoas. Não encontramos nenhuma referência dos professores ao fato de que existem alunos com deficiência que não são tão bons alunos, nem tão comportados, nem tão inteligentes ou esforçados. De fato, entendemos que o estereótipo do ―herói‖, do ―bom moço‖ ou do ―exemplo a ser seguido‖ parece ser também compatível com o discurso proclamado pela inclusão, em que vigora a lógica de que o professor deve trabalhar com as potencialidades dos alunos com deficiência e não com as suas dificuldades. Essas considerações reforçam o argumento de Foucault (1996) sobre os princípios de exclusão no discurso: suponho que em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente controlada, selecionada, organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos que têm por papel exorcizar-lhe os poderes e os perigos, refrear-lhe o acontecimento aleatório, disfarçar a sua pesada, temível materialidade. (p. 2). Dessa forma, pressupomos que o interdito ao discurso que revela as fragilidades e a própria humanidade da pessoa com deficiência, encontra-se diretamente vinculado às regras do discurso pela inclusão, portanto, ao narrar a deficiência os docentes estão obedecendo às relações de poder e saber do seu tempo. No entanto, esse posicionamento é, em si, problemático, pois, ao colocar as pessoas com deficiência como ―modelo de conduta‖ ou ainda apresentá-los como pessoas supostamente superiores às ditas ―normais‖, damos lugar tanto a fixidez como a fantasia. E isso é particularmente questionável, pois ao celebrar a singularidade do grupo com deficiência, através da marcação simbólica de traços positivos de caráter, corremos o risco de essencializar esses sujeitos, fazendo parecer que existe algo de fixo e imutável em sua personalidade. Além disso, ao estabelecermos essas marcas de caráter como inerentes às pessoas com deficiência afastamos da noção de diferença como algo que é múltiplo ou como algo que está em permanente ação, 166 ―que se dissemina e prolifera e que se recusa a fundir-se com o idêntico para aproximar-se daquela idéia do diverso, do estático, do dado, daquilo que reafirma o identifico no apagamento das diferenças‖. (LUNARDI, 2004, p.14). Diante disso, pensamos que ao invés de listar as características positivas desses sujeitos, evidenciando que todos esses indivíduos têm uma inclinação inata para fazer o bem, ostentando suas qualidades de caráter, procurando explicar os indivíduos com deficiência como produtos automáticos de impulsos internos, poderíamos reconhecer que a deficiência não é um domínio unificado, que há muitas formas de ser ―deficiente‖, e que as formas de se comportarem diante das situações da vida, também são socialmente estabelecidas e codificadas. Logo, não podemos mais continuar formando os professores através de uma visão reducionista do Outro com deficiência, reduzindo a complexidade desses sujeitos a uma suposta simplicidade biológica, mas é preciso formá-los para compreender a deficiência em seu contexto histórico, compreendendo as várias relações de poder que modelam o que vem a ser visto como um comportamento normal ou anormal; aceitável ou inaceitável sobre a deficiência. Em contrapartida, é interessante constatar como a produção dos sujeitos com deficiência é um processo plural, marcado por constantes tensões no discurso. No caso do Portal, essas tensões revelam-se em práticas discursivas contraditórias, pois ao mesmo tempo em que os sujeitos com deficiência são representados culturalmente a partir dos modelos de ―superação‖ ou da quase ―perfeição‖, também são representados como pessoas dependentes e carecedoras da ajuda de outrem. 6.3 Dependentes da proteção e da ajuda dos “normais” Nas formulações do Portal, encontramos a concepção de que a pessoa com deficiência precisa ser ajudada e protegida, subjazendo efeitos de sentido que conduzem à ideia de que todos os esforços devem ser feitos no sentido de ajudá-los a incluir-se na escola regular. Isso fica evidente, inclusive, no emprego das palavras, cuidar, proteger, ajudar, cuja discursividade remetem a uma compreensão assistencialista e filantrópica da deficiência. Os alunos recebem bem os especiais. Eles cuidam e protegem. É muito boa a interação entre eles. (Ensinar alunos especiais é uma lição de vida/ Jornal do Professor) 167 Os estudantes cegos são bem aceitos pelos demais estudantes, que procuram ser amáveis e ajudar, quando necessário. (Portal do Professor - Piauí incentiva a inclusão em suas escolas/Jornal do Professor) Por sua vez, o entendimento de que a escola deve ―ajudar‖ as pessoas com deficiência é uma preocupação que permeia a educação desde a época de Comênio. Freitas (2006) destaca que, se retomarmos a obra de Comênio (15921670), ―Didática Magna‖, veremos que sua defesa no ―Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos‖ traz a preocupação em relação às pessoas com deficiência. No capítulo IX da Didática Magna, os estúpidos e os débeis por natureza devem ser ajudados: [...] com efeito, quando mais alguém é de natureza lenta ou rude, tanto mais tem necessidade de ser ajudado, para que, quando possível, se liberte da sua debilidade e estupidez brutal. Não é possível encontrar um espírito tão infeliz, a que a cultura não possa trazer alguma melhoria. (...) Por que é que, então, no jardim das letras, apenas queremos tolerar as inteligências de uma só espécie, as precoces e ágeis? Ninguém, por conseguinte, seja excluído, a não ser a quem Deus negou a sensibilidade e a inteligência. (COMÊNIO, 1957, p.33 apud FREITAS, 2006, p.163) Assim, podemos afirmar que os sujeitos ao enunciarem a respeito da deficiência se inscrevem num pré-construído do discurso da caridade, tão difundidos pelos pressupostos religiosos, tendo como efeito de sentido a perpetuação do discurso filantrópico e autoritário, dominante na área da educação da pessoa com deficiência, como podemos verificar no fragmento abaixo: O garoto se adaptou à escola e a escola se adaptou a ele: ―todos os professores já se acostumaram com o Anderson, e mesmo que a professora de apoio não esteja, eles sabem o que fazer para ajudálo? (Jornal do Professor, Escola do Paraná está comprometida com a inclusão) Muitas vezes falta informação aos professores sobre cuidados e atitudes que se devem tomar para incluir os alunos portadores de necessidades especiais. (Vídeo – Esporte como fator de inclusão) Nessa forma de abordar a deficiência está implícita uma relação paternalista e assistencialista, que não contribui para o desenvolvimento e inclusão efetiva das pessoas com deficiência. Souza (2006) salienta que o discurso da filantropia está 168 ligado a um paternalismo que visa atender aos que não conseguem se integrar à sociedade, sendo que, no decorrer da história, a filantropia tem sido usada como recurso desmobilizador pelo estado capitalista a fim de facilitar a administração das desigualdades sociais, buscando manter as pessoas em lugares próprios à sua condição, perpetuando assim a discriminação e a exclusão. No entanto, o discurso da ―ajuda‖ ou da ―benevolência‖ reforça o estereótipo de vítima, tendo em vista que, para muitos, a deficiência está intimamente relacionada à ideia de invalidez ou incapacidade. Amaral (1998, p.18), sublinha que o estereótipo da vítima é muito empregado quando se fala da pessoa com deficiência, em que subjaz o ―papel de impotente, de coitadinho‖. Esse tipo de enunciado, ao figurar nos textos culturais do Portal pode fortalecer os sentimentos de comiseração diante dos que apresentam algum tipo de deficiência, sentimentos, historicamente construídos ao longo dos séculos. Sobre isso, Carvalho (2005), enfatiza que as pessoas significativamente diferentes, geram impacto no olhar do outro, dito normal, provocando sentimentos de comiseração, com diversas manifestações de piedade, caridade, tolerância, seja porque o ―diferente‖ é cego, surdo, deficiente mental, deficiente físico, autista, ou porque tem uma deficiência múltipla. Além disso, o discurso da caridade posiciona os sujeitos com deficiência, sempre a partir da representação cristalizada de que são pessoas que precisam eternamente da ajuda dos outros, dando-nos a impressão de que esta ajuda é sempre unilateral, ou seja, somente a pessoa com deficiência é que precisa do auxílio e da benevolência do Outro dito ―normal‖, nunca o contrário. No entanto, o discurso de uma aluna cadeirante possibilita uma revisão desse tipo de estereótipo, como vemos no excerto abaixo: (...) eu sempre gostei de estudar e escrever, sempre tirei notas boas. Quando algum amigo não entendia a lição de casa eu ajudava. (Portal do Professor - Vídeo – Bem além dos limites). Assim, nota-se que dos recortes destacados, em que os ecos do discurso paternalista se fazem ouvir, evidenciam-se discursos de resistência contra as atitudes paternalistas existentes na relação entre ―deficientes‖ e não deficientes no espaço escolar. Para exemplificar tal questão, apresentamos o discurso de um aluno 169 com deficiência, que estuda numa escola regular, e de uma professora do ensino regular, como vemos abaixo: Ninguém aqui na escola, os alunos e os professores não me fazem de coitadinho, não vive assim me ajudando, mas me deixa solto, livre para fazer as coisas. (Vídeo – Escola e Inclusão social) A primeira coisa que ele (o aluno com deficiência) espera é ser respeitado nas suas particularidades, ele também não quer ser tratado com paternalismo, ele quer receber tratamento igual ao que todo mundo recebe, e é o que nós fazemos aqui, não os privilegiamos, simplesmente tratamos os alunos dentre das possibilidades e necessidades que eles têm. (Vídeo – Escola e Inclusão social) O discurso da aluna cadeirante também coloca sob suspeita o excesso de proteção aos sujeitos com deficiência, evidenciando a importância de ter os seus direitos de acessibilidade garantidos. Levei algum tempo para entender que adaptar uma instalação não era coisa de outro mundo, pelo contrario, na maioria das vezes é uma coisa simples. Descobri depois uma coisa interessante, as pessoas preferem fazer tudo para a pessoa deficiente física, menos criar condições para que ela faça tudo sozinhas. Cheias de pena e dó, as pessoas acham que assim elas estão ajudando o deficiente, na verdade é que custa bem mais barato do que se pensa, facilitar a vida do deficiente físico adaptando os lugares para eles. (Vídeo – Bem além dos limites) Dessa forma, acreditamos que mais do que estabelecer laços de solidariedade ou de caridade entre os ditos ―normais‖ e aqueles que têm alguma deficiência, a escola precisa estar atenta aos direitos da pessoa com deficiência, para que a sua inclusão, em sala de aula regular, não fique a cargo da benevolência de Outros. Em consonância com a afirmação de Carvalho (2004), acreditamos que os movimentos de cunho filantrópico e assistencialista não contribuem para emancipação das pessoas com deficiência, pois não lhes confere independência e autonomia. Não estamos tentando, com tal argumentação, sugerir uma não solidariedade entre os sujeitos com deficiência e aqueles que não têm deficiência, mas queremos enfatizar que, se continuarmos formando os docentes para desenvolver atitudes de benevolência e assistencialismo para com as pessoas com deficiência, perpetuando as ações de cunho filantrópico, o panorama continuará obscuro e esses outros 170 seguirão sendo pensados como ―coitadinhos‖, como ―incapacitados‖, que devem ser controlados e ajudados pelos considerados ―normais‖. Por isso, pensamos que ao invés de apresentar os sujeitos com deficiência como incapacitados, poderíamos colocar uma atenção redobrada sobre as estruturas de desigualdade e injustiça que, tão frequentemente, restringe, dificulta e até impede o acesso ao conhecimento e à escolarização desses sujeitos. Mas, como temos percebido em nossa análise, há muitos embates na forma de representar culturalmente o outro com deficiência. Isso indica o quanto as múltiplas enunciações sobre esses sujeitos apontam para as diferentes formas de concebê-los, compreendê-los e dizê-los. No caso do sujeito surdo, é possível observar uma ênfase nos déficits, na limitação e na falta, predominando uma visão clínica da deficiência, como podemos constatar na seção seguinte. 6.4 A surdez como sinônimo de mudez, de limitação e falta A surdez - como falta ou como limitação - é uma das representações que aparecem nos discursos encontrados no Portal, e que podem ser ilustradas pelo próprio texto sugerido para debate numa das aulas desse espaço formativo, cujo título é ―os surdos-mudos e suas limitações‖, em que mais uma vez, num jogo de objetivação, ressalta-se a incapacidade dessas pessoas de interagir com o mundo, devido às limitações decorrentes da perda da audição. Os Surdos-mudos e suas limitações Os órgãos dos sentidos são responsáveis por estabelecer a comunicação do homem com o meio ambiente. As pessoas surdomudas estão desprovidas de sua fala e de sua audição. Por esse motivo, a sua interação com o mundo está seriamente comprometida. Esse fato torna limitado o seu convívio social, tornando-as mais dependentes e dificultando-as de exercerem a sua cidadania. (Portal do Professor - Aula – Diferentes Leituras para pessoas com necessidades especiais: Braille, Libras e leitura labial / Espaço da Aula) Obviamente, não podemos desvincular a surdez da falta da audição, contudo, afirmar que os surdos são limitados, que não conseguem interagir com o mundo social ou exercer a sua cidadania, é um grande equívoco que tem como consequência a construção de significados que colocam os surdos numa posição de subalternidade em relação à comunidade ouvinte. Sobre a representação da surdez como falta, Thoma (2002) esclarece que: 171 A leitura da surdez como falta está presente na história da surdez e dos surdos, contada a partir dos que ouvem: na literatura especializada, nos jornais, na televisão, no cinema etc. Nomeando, narrando, descrevendo a alteridade surda a partir de um viés ―faltante‖, os significados da normalidade mantêm e ampliam a fixação dos surdos como sujeitos inferiores aos que ouvem. (p.244). Associar a surdez à mudez ou ao silêncio é também uma das representações que aparecem nos discursos que integram esse espaço formativo, no entanto, é curioso constatar que tal representação foi encontrada justamente numa aula cuja proposta é abordar as diferentes leituras para pessoas com deficiência, entre elas, o Braille, a Libras e a leitura labial. O excerto abaixo revela essa associação. O que o aluno poderá aprender com esta aula Identificar a importância do sentido da visão e da audição para a interação do homem com o mundo que o cerca. Descobrir de quais maneiras as pessoas surdas e/ ou mudas podem estabelecer uma interlocução social, através da utilização do sistema LIBRAS e da leitura labial. (Portal do Professor - Aula – Diferentes Leituras para pessoas com necessidades especiais: Braille, Libras e leitura labial / Espaço da Aula) A associação da mudez à surdez é um grande equívoco, consequência muitas vezes, do desconhecimento do que realmente significa a surdez. Sobre isso, Thoma (2002) salienta que nem no sentido biológico nem antropológico-social os surdos podem ser considerados como mudos, primeiramente porque não têm lesões nos órgãos fonadores e, segundo, porque falam, porém em outra modalidade. Sobre a associação entre surdez e silêncio a autora sublinha que ―enquanto para os ouvintes o silêncio é uma condição de isolamento ou uma recusa decorrente da falta do som, para os surdos/as o silêncio não é mais do que uma condição de existência como sujeitos visuais.‖ (p.243). Outro aspecto que nos chama atenção nos discursos do Portal é a utilização da terminologia ―deficiente auditivo‖ para fazer referência às pessoas surdas, como verificamos nos excertos abaixo. Nesta aula será trabalhado o conceito de Deficiência Auditiva (DA) no contexto escolar, de forma a proporcionar a compreensão da importância de se conviver com as diferenças, sendo que a pluralidade favorece que aprendamos uns com os outros, independentemente das nossas características peculiares. (Aula ―A deficiência auditiva na escola/espaço da aula) 172 Por meio da Libras, as pessoas com Deficiência Auditiva (DA) conseguem se comunicar, conversar com amigos etc., mas como elas conseguem expressar os números? (Portal do Professor - Aula ―A deficiência auditiva na escola/espaço da aula). Contudo, o uso dessa terminologia reflete uma concepção da surdez centrada numa perspectiva patológica, amparada numa visão médico-organicista da deficiência. Behares (1993) critica o uso dessa expressão, porque considera que nela o surdo é visto como portador de uma patologia localizada, uma deficiência que precisa ser tratada, para que seus efeitos sejam debelados. Nesse contexto, Behares (1993) chama a atenção para a necessidade de ver os surdos sob uma perspectiva sóciocultural, considerando-se que o surdo difere do ouvinte, não apenas porque não ouve, mas porque desenvolve potencialidades psicoculturais próprias. Para o autor, o uso da expressão surdo revela uma amplitude social que situa a perda auditiva apenas como um fator, aos níveis médico e terapêutico, no contexto de vida da pessoa surda, sem ocupar uma posição tão significativa para o seu desenvolvimento individual e grupal. Indubitavelmente, o emprego do termo deficiente auditivo coincide com a utilização de procedimentos que visam ajustar os surdos aos padrões linguísticos mais aceitos e valorizados na sociedade, envolvendo tratamentos e/ou atendimentos sistemáticos de fala oral ou de oralização. Consequentemente, acreditamos que a terminologia ―deficiência auditiva‖, tão recorrente nos discursos midiáticos do Portal, acaba em alguma medida reforçando os discursos históricos a respeito da surdez, discursos aficionados por uma visão médica ou patológica da deficiência. Em relação a essa questão Skliar (2001a) esclarece que: a ideologia dominante na educação e na escolarização dos surdos, no último século, parece estar sendo incomodada, desajustada e inclusive contestada, a partir de novos olhares sobre a surdez. Ela já não é pensada unicamente como deficiência, mas como uma questão epistemológica. (p.105). Outro aspecto a ressaltar é que, nos significados atribuídos à surdez nos artefatos culturais midiáticos do Portal, a questão linguística toma uma proporção assustadora, sustentada por discursos que buscam estabelecer ou evidenciar a importância dessa língua para a criança surda. Embora reconheçamos a importância da Libras para a inclusão e desenvolvimento desses sujeitos, questionamos a representação da surdez apenas sob o aspecto linguístico, como se não houvesse 173 mais nada além da língua, ou como se a surdez se limitasse apenas ao aspecto lingüístico. É interessante observar que, embora as aulas tenham como objetivo discutir a inclusão do surdo na escola, a insistência em trazer apenas a discussão sobre Libras, evidencia o quanto para o professor parece que o domínio dessa língua é suficiente para compreender o surdo e promover sua inclusão. Na análise dos artefatos culturais, fica evidente que o eixo central da discussão sobre a surdez localiza-se na ideia da língua de Sinais, como vemos através dos próprios recursos utilizados pelo professor nas aulas sobre essa temática. FIGURA 14 - Vídeo do MEC ―Os três porquinhos em Libras‖ veiculado na aula ―A deficiência Auditiva na Escola‖ FIGURA 15 - Imagem veiculada na aula ―A deficiência Auditiva na Escola‖ 174 FIGURA 16 - Caça-palavras em Libras veiculado na aula ―A deficiência auditiva na escola‖ FIGURA 17 - Vídeo "Informática na Educação: Números em Libras" veiculado na aula ―A deficiência auditiva na escola‖ São dignas de atenção também, as matérias veiculadas no Jornal do Professor, em uma edição intitulada ―O ensino de Libras na Escola‖, em que mais uma vez o único aspecto explorado é a libras, reiterando-se a preocupação com o ensino dessa língua nas instituições de ensino regular. 175 FIGURA 18 - Matéria veiculada no Jornal do Professor - Aulas de Libras mudam comportamento de alunos ouvintes FIGURA 19 – Matéria veiculada no Jornal do Professor - Língua de sinais ajuda escola a melhorar rendimento de estudantes. Provavelmente o discurso que enfatiza a utilização da Língua Brasileira de Sinais está atrelada à repercussão social e política da proposta bilíngue na escola, contudo, ao enfatizar apenas o uso da Libras como condição necessária para inclusão, deixa-se de lado ou desconsidera-se outros aspectos tão importantes em relação à pessoa surda. Aqui cabe recorrermos a Skliar (2001a) quando afirma que: se a tendência contemporânea é fugir – intencional e/ou ingenuamente – de todo debate que exceda o plano estrito das línguas, corre-se o risco de transformar a proposta bilíngüe em mais um dispositivo pedagógico da educação especial, em mais uma grande narrativa educacional que conserva as mesmas representações sobre a surdez e os surdos; em síntese, a educação 176 bilíngüe pode se transformar numa ―metodologia‖ positivista, não histórica e despolitizada. (p.91). A partir do exposto, vale questionar a proposta de formação de professores do Portal, em que a educação das pessoas surdas é vista apenas sob o enfoque do desenvolvimento de habilidades linguísticas em duas ou mais línguas. Como nos diz Skliar (2001a): Os múltiplos projetos chamados de educação bilíngüe para surdos não têm que contentar-se simplesmente em definir formalmente a utilização de duas línguas dentro da educação de surdos. A aceitação – como ―tolerância‖ – da língua de sinais não supõe uma reconversão significativa dos problemas. Ainda existindo um espaço para as duas línguas em questão, cada uma pode perfeitamente corresponder a dois grupos diferentes e duas representações antagônicas sobre o mundo. Deste modo, a educação dos surdos continuará sendo um projeto assimétrico de poderes e saberes. (p.93). É preciso ressaltar, no entanto, que a ênfase na utilização da libras faz com outras questões sobre a surdez sejam esquecidas, entre elas o papel social desempenhado pelas pessoas surdas, a própria luta da comunidade surda para ter os seus direitos reconhecidos, as relações assimétricas de poder entre a comunidade de surdos e a comunidade ouvinte, os movimentos de resistência dos surdos, entre tantos outros aspectos que poderiam ser explorados nesse espaço formativo. Nesse âmbito vemos que a centralidade da língua nas discussões sobre a surdez faz com que muitas representações sejam excluídas desse espaço formativo, entre elas, as representações da pessoa surda como produtora de cultura, principalmente, porque é preciso considerar que a experiência visual dos surdos envolve vários tipos de significações comunitárias e culturais. Sobre isso, Perlin e Miranda (2003) afirmam que: A experiência visual significa a utilização da visão, em (substituição total à audição), como meio de comunicação. Desta experiência visual surge a cultura surda representada pela língua de sinais, pelo modo diferente de ser, de se expressar e de conhecer o mundo, de entrar nas artes, no conhecimento científico e acadêmico. A cultura surda comporta a língua de sinais, a necessidade do intérprete, de tecnologia de leitura. (p.218). 177 Por isso, consideramos importante trazer para as formações de professores outros discursos reveladores da cultura surda, como por exemplo, discursos que mostrem como os surdos produzem humor nas comunidades virtuais ou que insiram no debate sobre a inclusão, as próprias produções culturais desses sujeitos, como por exemplo, o humor visual manifesto, por exemplo, através das charges, como vemos abaixo. FIGURA 20 – Charges produzidas por pessoas surdas Assim, seria importante inserir nos processos formativos diferentes artefatos culturais produzidos pelas comunidades surdas, dando destaque, por exemplo, para a literatura surda, que tem a língua de sinais, a questão da identidade e da cultura surda presentes nas narrativas. Sobre a literatura surda, Strobel (2008), salienta que ela se multiplica em diferentes gêneros (poesia, história de surdos, piadas, literatura infantil, clássicos, fábulas, contos, romances, lendas e outras manifestações culturais) e versam sobre assuntos diversos, envolvendo em suas narrativas a comunidade surda e o mundo dos ouvintes, retratando as opressões dos sujeitos ouvintes, testemunhando as ações de grandes lideres e militantes surdos. Nesse sentido, acreditamos que, ao trazer a produção cultural do surdo para os espaços formativos sejam eles virtuais ou não, estaremos, de alguma forma, dando voz a esses sujeitos, além de desvincular a surdez das narrativas hegemônicas que a reduzem à falta ou à limitação. Sob essa perspectiva, pensamos que dar visibilidades à produção cultural dos surdos pode ser uma forma de colocar 178 sob suspeita as narrativas ouvintes sobre sua língua, sua comunidade e sua própria cultura. Aliás, é preciso explicitar que na análise dos artefatos culturais do Portal, percebemos um total silenciamento das pessoas surdas, evidenciando que a alteridade surda é narrada através da voz dos ouvintes. É intrigante perceber, que nesse espaço formativo, pessoas com diferentes deficiências se fizeram ouvir, no entanto, não houve a menor possibilidade dos surdos falarem por si mesmos. Cremos que esse silenciamento pode estar diretamente implicado com a própria representação cultural de que a surdez estaria relacionada também à mudez ou incapacidade para comunicar-se. Outra questão que merece atenção é a forma como a Língua Brasileira de Sinais é apresentada nos artefatos que discursam a respeito da surdez, evidenciando um conceito de Libras totalmente errôneo, uma vez que, tal língua é apresentada como linguagem, e os sinais utilizados para se comunicar são denominados de gestos, como podemos verificar nos excertos abaixo Em seguida, o professor deverá pedir para que cada aluno fale para a classe, utilizando a Linguagem Brasileira de Sinais, o seu primeiro nome, como demonstra a figura 3. (Aula – A deficiência auditiva na escola / Espaço da Aula) Para isto, o professor deverá, inicialmente, fazer junto com os alunos os numerais na Linguagem Brasileira dos Sinais (Libras), e depois pedir para que eles repitam o processo (os numerais em Libras). (Aula – A deficiência auditiva na escola / Espaço da Aula) Vamos conhecer agora três maneiras de os surdos-mudos se comunicarem: O MÉTODO LIBRAS - A sigla LIBRAS significa: Linguagem Brasileira de Sinais. É uma linguagem gestual codificada. Cada letra tem um gesto manual específico. (Aula – Diferentes Leituras para pessoas com necessidades especiais: Braille, Libras e leitura labial / Espaço da Aula). Presume-se pela análise dos artefatos culturais midiáticos que a Libras é considerada como uma linguagem, contrariando as pesquisas que revelam que a Língua de Sinais possui status linguístico. Um dos primeiros estudiosos a desenvolver pesquisas acerca das línguas de sinais e a constatar seu status linguístico, Stokoe (apud QUADROS & KARNOPP, 2004) comprovou a complexidade dessa língua, afirmando que assim como línguas orais, as línguas de sinais possuem regras gramaticais, léxico, e permitem a expressão conceitos abstratos, e a produção de uma quantidade infinita de sentenças. Essa constatação 179 derruba o mito de que os sinais são apenas representações miméticas, totalmente icônicas sem nenhuma estrutura interna formativa. Nesse contexto, Quadros e Karnopp (2004) ressaltam que os estudos realizados mostram que as propriedades das línguas de sinais são muito semelhantes às das línguas orais, apresentando o mesmo tipo de princípios organizacionais e parâmetros que formam a gramática das línguas. Além disso, existe uma legislação que regulamenta oficialmente a Língua Brasileira de Sinais, datada de 24 de abril de 2002, essa lei n. 10436, institui que: É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais – Libras e outros recursos de expressão a ela associados. Parágrafo único – Entende-se como Língua Brasileira de Sinais Libras – a forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema lingüístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas no Brasil (artigo 1). Dessa forma, podemos afirmar que a representação da surdez nos discursos do Portal continua presa a uma concepção clínica da deficiência, reforçando uma série de mitos ouvintes sobre os surdos, fazendo parecer que esses sujeitos possuem uma identidade fixa, estável, estática e permanente. Na análise discursiva, parece-nos que o surdo pode ser conhecido através da conceituação da ―deficiência auditiva‖ ou através do próprio domínio da ―língua de Sinais‖, resultando numa leitura que produz o surdo a partir de uma concepção deficitária. Portanto, em que pesem todas as fragilidades dos significados, a sociedade ou o poder colonial (dos ouvintes/professores) busca constantemente estratégias e táticas para fixar certos sentidos sobre a surdez, produzindo-se uma visão estereotipada desses sujeitos, impedindo-se uma reflexão sobre o impacto das formas específicas de poder e dominação que se exerce sobre os surdos. Poderíamos dizer então que, nos enunciados do referido espaço formativo, o surdo acaba sendo fixado a partir do referente maior ou do mais visível que é ―a falta da audição‖, negando-se a esses sujeitos ―colonizados‖ a possibilidade de serem pensados a partir de outras referências e de outros significados. Em contrapartida, não é privilégio apenas dos sujeitos surdos serem fixados a partir do significante da ―falta‖ ou do olhar ―clínico‖, pois em nossas análises 180 constatamos que as pessoas cegas também são produzidas a partir desses significados. 6.5 O cego é o tato ou o tato é o cego? As formulações expressas nos artefatos culturais midiáticos do Portal, que fazem referência as pessoas cegas, parecem ter uma fixação pela relação entre a cegueira e o tato, dando-nos a impressão que a cegueira está localizada apenas dentro dessa ordem particular. Os fragmentos abaixo ilustram essa relação. Nesta aula será trabalhado o conceito de Deficiência Visual no contexto escolar, visando proporcionar a compreensão, por parte do aluno, da necessidade da inclusão escolar e social de alunos com Deficiência Visual (DV). Também será abordada a utilização do Braille pelo aluno com DV, bem como outros sentidos, como audição, tato e paladar. (Aula - A deficiência visual na escola / Espaço da Aula) Além disso, o professor poderá perguntar aos alunos: Por que para a pessoa com Deficiência Visual (DV) é importante utilizar o Tato? Por que muitas pessoas utilizam a expressão ―Eles enxergam com as mãos‖? É possível ler um livro, uma revista, com as mãos? Como as pessoas com Deficiência Visual (DV) fazem para ler textos? Como elas são alfabetizadas se não enxergam? (Aula - A deficiência visual na escola / Espaço da Aula) Obviamente não podemos negar as relações entre cegueira e tato, no entanto, o problema central é que esse tipo de abordagem apresenta a pessoa cega apenas sob a perspectiva da falta da visão, fixando esses sujeitos unicamente sob a ótica daquilo que está faltando e pode ser compensado pelo uso do tato. Cremos que essas associações, recorrentes nos discursos dos artefatos culturais midiáticos reforçam apenas o já conhecido da cegueira e não contribuem para desestabilizar as verdades a respeito desses sujeitos. Em consonância com Silva (2009), pensamos que seria mais interessante estimular os estudantes e as estudantes a explorar as possibilidades de perturbação, transgressão e subversão das identidades existentes. (...) Estimular em matéria de identidade, o impensado e o arriscado, o inexplorado e o ambíguo, em vez do consensual e do assegurado, do conhecido e do assentado. (p.100) 181 A relação entre cegueira e tato permeia quase todas as atividades propostas pelo Portal do Professor do MEC. Nesse contexto, os alunos são convidados a participar de atividades de vivência emocional das diferenças, sendo incitados a colocar-se no lugar da pessoa cega para perceberem melhor as dificuldades, os embaraços e contratempos vividos por aqueles que apresentam tal deficiência. Para a realização desta atividade, o professor deverá previamente pedir que os alunos tragam de casa algum objeto que seja importante (brinquedos, porta-retratos entre outros), destacando que estes objetos não poderão ser mostrados para nenhum colega da classe até que seja solicitado. Além disso, o professor deverá levar pedaços de pano escuro, em número suficiente, para vendar os olhos dos alunos na atividade. Em seguida, o professor deverá fazer os seguintes questionamentos, para os alunos do grupo ―A‖ (os que estão vendados): Tateiem o objeto e digam o que estão sentido. Qual é a forma do objeto? Qual sentido você está usando neste momento? Como você está se sentindo sem enxergar o objeto? (Aula - A deficiência visual na escola / Espaço da Aula) Sugerimos que o professor peça para que os alunos imaginem-se como se tivessem alguma NEE, isto é, que tentem se colocar no lugar de uma pessoa com tais necessidades. Este é um tipo de exercício que todo ser humano deveria fazer e, começar desde pequeno pode fazer a diferença! Para tanto, o professor poderá fazer uma dinâmica onde alguns alunos deverão estar vendados e realizar alguma tarefa simples, de sala de aula, como, por exemplo, levar o caderno até o professor. Após a experiência, os alunos poderão se sentar em roda para contarem o que sentiram durante o momento em que estavam vendados. Assim, o professor deverá levar seus alunos a compreender que é muito importante dar apoio às pessoas que têm alguma NEE e que elas têm o direito de estudar, de trabalhar, etc. (Portal do Professor - Aula – Somos todos iguais / Espaço da Aula) 182 FIGURA 21 – Imagem veiculada na aula ―A deficiência visual na escola‖ Com o objetivo de mostrar para os alunos que as pessoas com Deficiência Visual (DV) desenvolvem atividades esportivas como correr, nadar, jogar futebol entre outras, o professor deverá levar os alunos para a quadra de esportes da escola, e explicar que eles jogarão futebol de salão ou futsal (Fig.5) como as pessoas que possuem Deficiência Visual jogam! O professor deverá dizer que, para isso, eles terão os olhos vendados com um pedaço de pano e que a bola, que jogarão futsal, estará envolta por um saco plástico, para que possam ouvir o barulho dela quando estiverem jogando. (Portal do Professor - Aula – A deficiência visual na escola / Espaço da Aula). A possibilidade de viver a ―deficiência do outro‖ é abordada nesses artefatos culturais e nesses tipos de atividades como uma forma de minimizar ou evitar os possíveis atos de rejeição e discriminação para com as pessoas com deficiência. Essa atividade pode ser considerada como uma estratégia terapêutica fundamentada nos pressupostos de que a diferença é fruto de sentimentos de discriminação, de preconceitos, de imagens do outro fundamentalmente errôneas, atribuindo-se a rejeição do outro a distúrbios psicológicos. Sobre esse tipo de abordagem, Silva (2009) esclarece que: Como o tratamento preconceituoso e discriminatório do outro é um desvio de conduta, a pedagogia e o currículo deveriam proporcionar atividades, exercícios e processos de conscientização que permitissem que as estudantes e os estudantes mudassem suas atitudes. Para essa abordagem, a discriminação e o preconceito são atitudes psicológicas inapropriadas e devem receber um tratamento que as corrija. Dinâmicas de grupo, exercícios corporais, dramatizações são estratégias comuns nesse tipo de abordagem. (p. 98-99) 183 Contudo, esse tipo de estratégia pedagógica comumente adotada no espaço formativo do Portal, acaba apresentando aos docentes em formação uma visão superficial e distante da deficiência, podendo produzir novas dicotomias como a do ―dominante tolerante e do dominado tolerado ou da identidade hegemônica, mas benevolente e da identidade subalterna mas respeitada‖ (SILVA, 2009, p.98) Chamam-nos atenção também as proposições de atividade para os alunos debaterem a questão do trabalho e da deficiência; pois, curiosamente, nos artefatos selecionados para compor a aula sobre a referida temática, novamente privilegia-se apenas os ofícios em que se utiliza o tato, enfatizando-se a profissão de ―massoterapeuta‖. FIGURA 22 – Reportagem da Revista Incluir veiculada na aula ―A deficiência e o Mercado de trabalho‖ FIGURA 23 – Vídeo do MEC ―A deficiência Visual e Mercado de Trabalho - Massoterapia Parte 1‖ veiculada na aula ―A deficiência e o mercado de trabalho‖. 184 Assim, na tentativa de mostrar a importância da pessoa com deficiência exercer uma profissão, apela-se mais uma vez para um discurso que confirma que tal escolha é biologicamente determinada, fazendo parecer que esses sujeitos estão impossibilitados de exercer qualquer tipo de ofício que não aqueles diretamente relacionados ao uso das mãos ou do tato. No entanto, esses tipos de enunciados precisam ser questionados, pois podem contribuir para a construção de um essencialismo identitário que apela para uma visão desses sujeitos a partir dos determinantes biológicos. Em relação ao essencialismo identitário, Woodward (2009) argumenta que, uma de suas versões é aquela que relaciona a identidade a uma categoria natural, fixa, em que a verdade está enraizada na biologia, partindo-se de uma crença na existência de uma identidade verdadeira ou numa concepção unificada de identidade. Além disso, consideramos que esse discurso é problemático, uma vez que promove um verdadeiro silenciamento em relação aos inúmeros problemas enfrentados pelas pessoas com deficiência para inserção no mercado de trabalho, a saber: a exploração das pessoas com deficiência, as dificuldades de acessibilidade, as barreiras atitudinais, as barreiras físicas e tantos outros entraves que as pessoas cegas encontram para ingressar e permanecer no mundo do trabalho. Nesse sentido, acreditamos que seria muito mais interessante possibilitar aos professores em formação conhecer o inesperado sobre a pessoa cega, experimentando perspectivas desconhecidas e desafiadoras sobre a deficiência, ajudando os docentes em formação a reconhecer as diferenças como significativas, sem vê-las como essenciais ou imutáveis. Por isso, no que tange à questão do trabalho, entendemos que a formação docente, ao invés de fixar a identidade da pessoa cega, poderia possibilitar uma reflexão crítica sobre a arbitrariedade de relacionarmos a deficiência a trabalhos que exigem somente habilidades manuais, inserindo nos processos formativos, outras representações culturais desses sujeitos, como por exemplo, aquelas em que as pessoas cegas exercem ofícios inusitados, ofícios que nem de longe dependem do uso do tato. É nessa possibilidade de abertura, que sugerimos a apresentação das fotografias do premiado artista cego Evgen Bavcar. Acreditamos que essa produção cultural pode, de alguma forma questionar o estatuto de verdade dos discursos que 185 relacionam a deficiência ao uso do tato e, além disso, pode promover uma reinterpretação da cegueira. FIGURA 24 - fotografia de Evgen Bavcar, fotógrafo cego nascido na Eslovência No nosso entendimento, ao invés de desenvolver nos processos formativos toda uma argumentação que relaciona a cegueira ao tato, poderíamos trazer as discussões sobre as barreiras de ordem social, política, comunicacional e instrumental que impedem o desenvolvimento e a inserção social das pessoas com deficiência. Por isso, ao tratar da educação da pessoa cega, poderíamos incluir no debate questões referentes à acessibilidade e cidadania – as tecnologias assistivas para pessoas cegas, as máquinas de escrever em Braille, os livros sonoros, os ledores, os computadores com linha Braille ou softwares com síntese de voz, leitores de tela e ampliadores, as impressoras em Braille, os auxílios ópticos, entre outros tão pertinentes para inclusão desses sujeitos na sociedade e na escola. Sobre a questão comunicacional, seria relavante trazer para os processos formativos a discussão sobre a importância do recurso de audiodescrição para pessoas cegas. Esse recurso de acessibilidade comunicacional possibilita a compreensão de produtos audiovisuais pelo público com deficiência visual, permitindo o detalhamento em áudio de informações veiculadas visualmente, mas 186 que não estão contidas nos diálogos de um filme, programa de televisão, peça de teatro, ou tudo mais que envolva imagem. Segundo Vilaronga (2013) a audiodescrição é o áudio extra, integrado ao som original do produto audiovisual, contendo descrições tais como: cenários, expressões faciais e corporais de personagens, conteúdo de texto, figurinos, entradas e saídas de personagens, indicação de tempo e espaço, movimentação em geral e demais elementos relevantes para a captação e compreensão da obra por pessoas impossibilitadas de usufruir total ou parcialmente dos recursos visuais. (p.3). A respeito da audiodescrição, Lima (2011) salienta que o foco dessa técnica tradutória é oferecer ferramentas para tornar o mundo das imagens acessível àqueles que não as veem, tornando tais imagens significativas e igualmente relevantes para as pessoas com deficiência visual, tanto quanto para os indivíduos que enxergam. Na audiodescrição, as imagens falam aos sujeitos que não as veem (com a mesma magnitude e beleza), agora, por meio da voz ou da escrita do audiodescritor. Diante disso, consideramos mais importante inserir no debate sobre a deficiência visual, reflexões que possibilitem aos docentes em formação o entendimento sobre as relações de poder, sobre os arranjos sociais e institucionais que incapacitam esses sujeitos e promovem sua exclusão. Acreditamos que a análise crítica das situações de desvantagem vividas pelas pessoas cegas, pode, de alguma forma, deslocar o foco de atenção das ―incapacidades‖ para as ―necessidades‖ desses sujeitos. Nesse âmbito, concordamos com Carvalho (2005), quando diz que precisamos expandir nosso foco, desconcentrando-o do aluno, apenas para situá-lo e situar-nos compreensivamente, reconhecendo todas as variáveis extrínsecas aos alunos e que os levam ao fracasso escolar. Por isso, não podemos continuar utilizando o uso do tato como única representação da cegueira, pois acabaremos encobrindo as diferenças de gênero, classe, raça, entre outras, que, por sua vez, também constituem a identidade desses sujeitos. Nessa perspectiva, argumentamos em favor de uma proposta formativa que subverta a estabilidade das categorias biológicas, possibilitando ao professor reconhecer a complexidade que envolve o ser ―deficiente‖ ou mais precisamente o 187 ser cego, mostrando que as identidades são fluidas, que não são essências fixas ou universais. No entanto, enquanto a pessoa cega é fixada a partir do uso do ―tato‖ ou dos ―sentidos‖, as narrativas que se produzem a respeito da deficiência mental acabam por localizar ou definir esses sujeitos a partir do referente ―monstruosidade‖. Vale ressaltar que o aparecimento desse modo de dizer sobre a deficiência diverge do modo de conceber a deficiência a partir da ideia de heroísmo, bondade e ingenuidade vistos anteriormente, revelando novamente as tensões existentes nos discursos acerca desses sujeitos. 6.6 A deficiência Intelectual X Monstruosidade: relações possíveis? A invenção do sujeito com deficiência intelectual ou os significados atribuídos a essas pessoas, nesse espaço formativo, aproximam-nos da ―monstruosidade‖, dando-nos a impressão de que estes continuam sendo vistos como uma coisa, quase como animais. Essa relação pode ser percebida na própria atividade proposta na aula intitulada ―A deficiência Mental na Escola‖, em que a professora propõe a leitura do texto ―Uma história de Terror‖11. FIGURA 25 – Texto do livro ―Atendimento Educacional Especializado: deficiência mental‖ veiculado na aula ―A deficiência mental na escola‖. 11 O texto Uma história de Terror foi extraído do livro Atendimento Educacional Especializado: deficiência mental e curiosamente foi produzido por alunos com deficiência intelectual. 188 No texto proposto pela docente para discussão da deficiência intelectual, a palavra ―monstro‖ aparece de forma recorrente, evidenciando-se as marcas da diferença física e das deformidades, bem como os sentimentos de medo vividos por aqueles que se aproximam do suposto personagem ―anormal‖. Esses sentidos são marcados no discurso, através dos enunciados abaixo: Em uma montanha perto da cidade, havia um castelo assombrado. Nele morava um homem que tinha o rosto marcado por cicatrizes, três olhos, um rabo de macaco. Ele não tinha nome, mas todos na cidade o chamavam ―Biruto da Meia Noite‖ por causa do barulho que ele fazia à meia noite. Todos os dias ele uivava de noite para assustar as pessoas e afastá-las do seu castelo. A mãe e a filha foram colocadas no sofá rasgado para repousar muito nervosas, com medo e tremendo. Lilita gritou de medo quando o monstro levantou e saiu correndo com ódio, porque elas ficaram com medo dele. (Uma história de Terror – Atendimento Educacional Especializado – Def. Mental) Além disso, as narrativas sobre a monstruosidade encontram suporte também na imagem exibida no texto a ser consultado. A imagem retrata a figura da fera, um ser primitivo, com uma espécie de ―três olhos‖ na face, os dentes pontiagudos, dando a impressão de uma fera pronta a se revelar, uma fera que nem parece ―gente‖. Portanto, em face dos enunciados acima, pressupomos que o objetivo da atividade proposta pela docente foi a de levar os alunos a refletirem sobre a deficiência intelectual, relacionando-as a desvios físicos e psíquicos. No entanto, ao produzir um discurso sobre a deficiência a partir de um referencial de monstruosidade, a professora está resgatando e ressignificando os elementos da memória social, histórica e mítica sobre esses sujeitos. Neste caso, cabe esclarecer que para Foucault (2002), a noção de monstro é essencialmente uma noção jurídica – jurídica, claro, no sentido lato do termo, pois o que define o monstro é o fato de que ele constitui, em sua existência mesma e em sua forma, não apenas uma violação das leis da sociedade, mas uma violação das leis da natureza. Ele é um registro duplo, infração às leis em sua existência mesma. (p.69). Nas palavras de Courtine (2008, p.259), o modelo do monstro reinou sobre as percepções da anomalia corporal, apagando toda outra distinção – o ―homem elefante‖, a ―mulher camelo‖, a criança sem braços, o ―negro branco‖ deixam de ser 189 vistos segundo o seu sexo, sua idade, sua enfermidade ou sua raça – ficando todos confundidos na monstruosidade. Para o autor, o monstro servia para ensinar a norma, sendo assim, por trás das grades do zoológico humano ou no cercado das aldeias indígenas das exposições universais, o selvagem serve para ensinar a civilização, para lhe demonstrar os benefícios, ao mesmo tempo que funda esta hierarquia ―natural‖ das raças, reclamada pela expansão colonial. (...) Na penumbra do museu dos moldes anatômicos de cera, os moldes de carnes devastadas pela sífilis hereditária inculcam o perigo da promiscuidade sexual, a prática da higiene e as virtudes da profilaxia. (COURTINE, 2008, p.260-261) Dessa forma, a analogia entre ―monstruosidade‖ e deficiência intelectual, traz consigo relações sócio-históricas, produzindo-se narrativas em que o sujeito com deficiência é adjetivado o mais pejorativamente possível, aproximando-os da animalidade (o monstro possuía sentimentos bons ou maus?), fazendo parecer que a deficiência intelectual é produto de um instinto quase animalesco que pode causar temor àqueles que aproximam de tais pessoas (Por que eles sentiram medo do monstro?). No roteiro de discussão proposto pela professora tornam-se evidentes tais relações: Roteiro de Discussão: O monstro possuía sentimentos bons ou maus? Vocês acham que o monstro gostava de viver isolado e sem amigos? Por que as pessoas não falavam com ele? A mãe e a filha se tornaram amigas do monstro, apesar das diferenças? O monstro queria ajudar a mãe e a filha? Por que elas sentiram medo do "monstro"? Se vocês fossem Titico, na história, seriam amigas (o) do monstro? Vocês acham que devemos isolar as pessoas que são diferentes, seja por causa de uma característica (exemplos: cor de pele, aparência física etc.) ou devido a uma deficiência (física, auditiva, mental etc.)? Por quê? Vocês são iguais a todos os seus amigos? Em algum momento vocês isolaram alguém por que era diferente? As categorias de exotismo também estão presentes na música ―É tão lindo‖, utilizada como estratégia pedagógica para trabalhar a temática deficiência intelectual, na aula ―A deficiência mental na escola‖. 190 FIGURA 26 – Música ―É tão lindo‖ veiculada na aula ―A deficiência mental na escola ‖ A escolha dessa canção, como recurso pedagógico, reforça a monstruosidade da pessoa com deficiência mental, corroborando com a ideia de que esses sujeitos embora sejam pessoas comuns, são, ao mesmo tempo, constituídos de uma animalidade ou bestialidade comum aos monstros. Sendo assim, acreditamos que todo o conjunto dos enunciados apresentados anteriormente sobre a deficiência intelectual deve ser questionado, pois expressam ou reforçam a representação da deficiência intelectual intimamente ligada à imagem de uma coisa descomunal, extraordinária, de uma espécie de anomalia. Nesse tipo de discurso, a diferença é constrangedora, perturbadora da ordem, pois o que fica em exibição é sempre a contradição, a desconformidade do outro em relação ao um, ou melhor, ser diferente marca o lugar do outro e do um. Nessa mesma matriz, a diferença passa a ser representada como algo indesejável, incomum, devido ao seu tom de anormalidade, estranheza e exotismo. (LUNARDI, 2004, p.10). 191 Pelas razões até aqui expostas, reafirmamos contrapor-nos a esse tipo de estratégia pedagógica em que as pessoas com deficiência intelectual estão sendo apresentadas sob a rubrica do curioso e do exótico, uma vez que, tal tática estabelece um processo de diferencialismo que consiste em separar, em distinguir da diferença algumas marcas diferentes, fazendo-o a partir de uma conotação pejorativa. Em consonância com Skliar (2006), acreditamos que o fato de traduzir algumas dessas diferenças como ―diferentes‖ – e já não simplesmente como diferenças – volta a posicionar essas marcas, essas identidades, esse ―ser diferença‖ como contrárias, como opostas e negativas à ideia da ―norma‖, do ―normal‖ e, então, daquilo que é pensado e fabricado como o ―correto‖, o ―positivo‖, o ―melhor‖ etc. (p.23, grifos do autor). Por isso, consideramos inapropriadas uma prática pedagógica ou uma aula que estabeleça em seu conteúdo programático a relação entre deficiência mental e monstruosidade, pois essas narrativas inventivas sobre a deficiência podem perpetuar o estigma da desumanidade ou da perversidade desses sujeitos. Sobre esse tipo de estratégia, Silva (2009) alerta-nos para o quanto elas podem ser danosas, pois se resumem a apresentar aos estudantes formas superficiais e distantes das diferentes culturas, tornando o outro um dado exótico e curioso, não questionando as relações de poder envolvidas na produção da identidade e da diferença. Para esse autor, esse tipo de abordagem, ―é sempre o suficientemente distante, tanto no espaço quanto no tempo, para não apresentar nenhum risco de confronto e dissonância‖ (p.99). Entretanto, ao posicionarem os sujeitos com deficiência intelectual como estranhos ou exóticos corre-se o risco de fortalecer nos professores em formação o sentimento de rejeição, repulsa e medo em relação a esses alunos e, mais do que isso, pode fortalecer no professor o desejo de normalizar esses sujeitos, enquadrando-os ―numa normativa que seja capaz de fazer diluir e desaparecer suas diferenças, tornando-o extremamente conhecido e familiar, a ponto de inferiorizá-lo e diminuí-lo‖ (LUNARDI, 2004, p.15) Logo, parece-nos crucial suspeitar dessas traduções pedagógicas que, por meio dos estereótipos, banalizam as diferenças e constroem o Outro com deficiência intelectual como seres maléficos ou como alguém que só resta à escola tolerar. Supomos que, ao invés de apresentar a deficiência, apontando o dedo para aquilo 192 que esses sujeitos apresentam de ―diferente‖, de exótico, de estranho, seria muito mais produtivo e ético formar os professores para acolher o outro em sua irredutível diferença, para entender a diferença como experiências de alteridade e, por fim, para compreender que esse outro com deficiência é múltiplo; e por ser múltiplo torna-se, portanto, intraduzível. Mas, na formação de professores para ―acolher‖ o outro, somos desafiados a refletir sobre os discursos acerca da sexualidade das pessoas com deficiência, tendo em vista que, ―o comportamento sexual dessas pessoas constitui um dos principais temores dos professores ao realizar a inclusão nas classes regulares‖ (PRIOSTE et al, 2006, p.79). 6.7 A sexualidade da pessoa com deficiência – revelando prazeres e poderes Na investigação atenta das narrativas desenvolvidas nos artefatos culturais do Portal acerca da sexualidade das pessoas com deficiência, foi possível constatar primeiramente que, na construção desse discurso, ganha proeminência a voz dos sujeitos com deficiência. Dessa forma, ao trabalhar com a temática da sexualidade em duas aulas intituladas ―A pessoa com deficiência pode namorar?‖ e a ―A pessoa com deficiência pode ter relações sexuais‖, os sujeitos autorizados a falar da sexualidade são as próprias pessoas com deficiência, embora exista a convocação de alguns especialistas para discursar a respeito do assunto. Assim, os programas de televisão, as revistas, os blogs, utilizados como recursos didáticos nessas aulas, vão dando voz aos sujeitos com deficiência, possibilitando as narrativas a respeito da sua própria sexualidade. 193 FIGURA 27 - Reportagem da Revista Época veiculada na aula ―A pessoa com deficiência pode namorar?‖ FIGURA 28 - Entrevista sobre Namoro e Deficiência veiculada na aula ―A pessoa com deficiência pode namorar?‖ 194 FIGURA 29 – Reportagem do blog ―Cadeirantes também amam‖ veiculada na aula ―A pessoa com deficiência pode ter relações sexuais?‖ Dentro dessa estratégia de apresentar, de discutir e de discursar a respeito da deficiência, surgem representações que acabam subvertendo e desestabilizando as certezas em relação à sexualidade das pessoas com deficiência. Os conflitos do namoro, a capacidade de manter um relacionamento amoroso e a possibilidade de viver uma vida a dois, desvinculam a deficiência do discurso hegemônico que a associa a dor e ao sofrimento, como vemos nos excertos a seguir: O primeiro eleito de Gabriela foi Eric, um colega Down da Apae. O namoro correu bem durante anos. Até que Fábio, um amigo de infância que voltou a freqüentar a instituição embaralhou a cabeça dela. (....) Durante dois meses, Gabriela levou os dois namorados em 195 banho-maria. O triângulo amoroso terminou quando Laurinda exigiu virar uma fera. Os dois rapazes chegaram a se pegar numa festa de aniversário que a filha tomasse uma decisão. A opção dela por Fábio fez Eric. Fábio ainda sente ciúmes quando Gabriela encontra antigos colegas da Apae. Eric faz cara feia quando cruza o rival. Em pouco tempo Fábio e Gabriela estariam morando juntos. (Aula – A pessoa com deficiência pode namorar? / reportagem da revista Época) As declarações, também contribuem, a nosso ver, para desmistificar e desconstruir a ideia de que as pessoas com deficiência são dotadas de uma pureza quase angelical. De certa forma, os depoimentos rompem com os essencialismos, evidenciando que essas pessoas podem ter uma vida afetiva e sexual ativa, como vemos no depoimento de um cadeirante, a seguir: E o sexo? Todo mundo pergunta. Uma vez, antes de ser paraplégico, vi um cadeirante chegando no boteco de carro, tirando a cadeira e sentando com amigos. Pensei: "não é tão ruim assim, o difícil mesmo deve ser ficar sem sexo, pois o cara tá paralisado da cintura pra baixo." Essa foi a melhor surpresa pra mim: nem tudo fica paralisado. Na primeira semana depois do meu acidente já tive ereções, e no Sarah aprendi que são duas vias para que elas aconteçam, a mental e a física. Ou seja, a ereção tem duas fontes de "alimentação". Portanto, só o toque, carinho, ou "fricção" já é suficiente para que aconteça. Como minha via mental estava bloqueada, o toque ainda resolvia. Hoje, com a evolução do meu quadro, já tenho sensibilidade na área e contato mental. A limitação que realmente há são as posições. Mas a criatividade e o kama sutra estão aí pra isso... (Aula – A pessoa com deficiência pode ter relação sexual? Blog cadeirantes também amam) Por outro lado, os discursos produzidos pelas pessoas com deficiência, em relato biográfico e memorialista, revelam a desinformação acerca de questões como gravidez, métodos contraceptivos e outros assuntos referentes à capacidade reprodutiva. Tais discursos fazem-nos inferir que embora a gravidez de pessoas com deficiência seja uma possibilidade, ela é também um tabu para a sociedade e para os próprios pais, principalmente quando se trata da deficiência intelectual. Maria Gabriela Andrade Demate, a dona da barriga, também de 28 anos, não fazia idéia de que estava grávida. Embora estivessem juntos havia três anos, dividindo o mesmo teto e a mesma cama, Fábio e Gabriela acreditavam que o sexo entre eles fosse proibido. Seus pais nunca tinham dito, de maneira explícita, que permitiam esse tipo de intimidade. (Aula – A pessoa com deficiência pode namorar? / reportagem da revista Época) 196 A crença de que a pessoa com deficiência não possui sexualidade ou não possui desejo sexual faz com que essas pessoas sejam vistas como eternas crianças, no entanto, ―ao considerar a pessoa com deficiência como alguém não dotado de sexualidade, negligenciam-se os cuidados contra situações de abuso e se omitem a essas pessoas o direito de acesso a orientação/educação sexual‖ (MAIA E RIBEIRO, 2010, p.3) Em contrapartida, apesar do discurso apresentando anteriormente revelar a desinformação da pessoa com deficiência em relação às consequências do ato sexual, ele explícita também que a suposta inocência atribuída a esses sujeitos talvez possa ser deslocada para o contexto familiar, visto que, a ingenuidade parece ser uma característica dos familiares da pessoa com deficiência. Nessa direção, o discurso da mãe revela a crença na incapacidade da filha para o sexo e para a reprodução, como verificamos a seguir: Mesmo vendo as duas listrinhas do exame, não acreditava que a minha filha estivesse grávida, afirma Laurinda Ferreira de Andrade. (...) percebi que estava ficando mais gordinha. Mas achei que fosse por comer demais. A gestação avançada, descoberta aos seis meses, gerou pânico e encheu a família de dúvidas. (Aula – A pessoa com deficiência pode namorar? / reportagem da revista Época) Dessa forma, o discurso materno posiciona a pessoa com deficiência como um sujeito desprovido de sexualidade, reforçando um estereótipo ou o mito de que essas pessoas são assexuadas. Em relação a esse estereótipo Pinel (1993) salienta que: Um dos mitos mais comuns é pensar que as pessoas deficientes são assexuadas. Esta idéia geralmente surge a partir de uma combinação entre a limitada definição de sexualidade e a noção de que o deficiente é neutro, não tem as mesmas necessidades, desejos e capacidades do não-deficiente. (p.310). Outro aspecto a evidenciar é que parece haver uma incitação para que as pessoas com deficiência falem da sua sexualidade, revelando os detalhes, sendo assim, não basta dizer que têm uma vida sexual ativa, mas é preciso revelar o ―como‖ isso acontece. Ao falar de si e da sua sexualidade, esses sujeitos são incentivados a expor os pormenores de sua vida íntima, mostrando em que medida 197 a manifestação de sua sexualidade é diferente das outras pessoas, como constatamos no discurso abaixo. E o sexo? Todo mundo pergunta. (...) Essa foi a melhor surpresa pra mim: nem tudo fica paralisado. Na primeira semana depois do meu acidente já tive ereções, e no Sarah aprendi que são duas vias para que elas aconteçam, a mental e a física. (Aula – A pessoa com deficiência pode ter relação sexual? (Blog Cadeirantes também amam). Para Foucault (2005), a experiência ocidental da sexualidade não é a da repressão do discurso, não podendo ser caracterizada como um regime de silêncio; mas, ao contrário, como um constante e historicamente cambiante incitamento ao discurso sobre sexo. Para o autor, essa explosão discursiva sempre em expansão é parte de um complexo aumento do controle sobre os indivíduos, controle não através da negação ou da proibição, mas através da produção, pela imposição de uma grade de definição sobre as possibilidades do corpo, através do aparato da sexualidade. Em relação à exibição pública, Campos (2006) sublinha que a exposição dos corpos e da sexualidade das pessoas com deficiência não acontece apenas para servir de exemplo a outras na mesma situação, ou para reivindicar seus direitos à sexualidade, mas talvez para mostrar às pessoas ditas normais, ou para a sociedade, que elas conseguem manter relações sexuais. Para a autora, quando algo é considerado normal, tudo aquilo que foge a tal padrão será, conseqüentemente, o anormal, pois infringe a norma. Isso pode ser observado quando o assunto é a sexualidade das pessoas com deficiência, as quais parecem, sempre, precisar provar as suas ―performances‖ sexuais. (p.95). Nesse sentido, evidencia-se a existência de relações de força, dos ditos ―normais‖ sobre aqueles que têm deficiência, onde se exerce um poder que afeta, e ―traz a luz, fala e obriga a falar e julga‖. (LARROSA, 1994, p.71). Mas, ao mesmo tempo em que as pessoas com deficiência são incitadas a contar os detalhes de sua vida íntima, são também governados em sua sexualidade, tendo em vista que, a decisão sobre a possibilidade de exercê-la é outorgado aos pais, aos familiares, aos médicos ou até mesmo aos sujeitos ditos ―normais‖. Ao serem vistas como pessoas 198 frágeis e incompletas, os indivíduos com deficiência, terão ―para o seu bem‖ a tutela dos mais experientes, que decidirão sua vida sexual e amorosa, como podemos ver nos fragmentos abaixo. As famílias de Fábio e Gabriela acharam prudente não separar o casal. (Aulas – A pessoa com deficiência pode namorar?/Espaço da Aula – reportagem Mamãe é Down). Para a lei, os direitos reprodutivos dos deficientes intelectuais são os mesmos de qualquer cidadão. A justiça, no entanto, costuma presumir que nas relações sexuais de não-deficientes com deficientes está embutido algum tipo de abuso. Mesmo quando o sexo é ―consentido‖, a interpretação freqüente é que a permissão pode ter sido dada por ingenuidade. ―Para grande parte da população, a deficiência intelectual justifica a imposição de outros limites‖, diz Mustacchi. De acordo com o médico, por trás dos questionamentos sobre os direitos sexuais e reprodutivos dos deficientes há duas perguntas: ―Quem vai cuidar do bebê? E ―E se ele também for deficiente?‖. (Portal do Professor - Aulas – A pessoa com deficiência pode namorar?/Espaço da Aula – reportagem Mamãe é Down). Desse modo, parece haver sempre uma relação desigual, marcada pelo poder colonial dos ditos ―normais‖ sobre aqueles que têm alguma deficiência. Nesse sentido, concordamos com Bhabha (1998, p.111) quando afirma que o discurso colonial exerce uma forma de ―governamentalidade que, ao delimitar uma nação sujeita, apropria, dirige e domina suas várias esferas de atividade‖. Nessa direção, acreditamos que a discussão sobre a sexualidade da pessoa com deficiência, no espaço formativo do Portal, possibilita o entendimento de que a sexualidade não é puramente uma questão biológica, algo dado pela natureza, inerente ao ser humano, mas que são processos profundamente culturais e plurais. Portanto, nessa intrincada rede discursiva, constatamos que, ao mesmo tempo em que circula representações da deficiência a partir de padrões estigmatizados, veicula-se também outras representações que acabam por subverter os estereótipos a respeito da sexualidade das pessoas com deficiência, desestabilizando alguns mitos e crenças equivocadas a respeito desse assunto. De modo que poderíamos dizer, em consonância com Campos (2006), que as pessoas com deficiência, não são, (...) nem anjos, nem demônios, nem assexuadas, nem hipersexualizadas, mas pessoas, com alguma ou outra diferença – tal como todos nós – que têm 199 desejos, dúvidas, medos, emoções e que querem também viver os seus corpos e sexualidades. (p.95). Assim, as múltiplas narrativas acerca da deficiência vão tecendo diferentes formas de representar os sujeitos com deficiência, diferentes formas de dizê-los, formas nem sempre harmônicas, mas que em suas contradições produzem e aspiram produzir um conhecimento objetivante da deficiência. Dessa forma, nossas análises mostram que a pessoa com deficiência é ao mesmo tempo produzida como selvagem (monstro) e também como mais honesto e íntegro dos seres; ela é a encarnação do herói e, todavia, incapaz de realizar tarefas corriqueiras; ela é inocente como uma criança e, todavia, é incitada a falar dos detalhes mais íntimos de sua vida amorosa e sexual. Essa ambivalência na produção do sujeito com deficiência faz-nos concordar com Bhabha (1998, p.126), quando afirma ser ―reconhecidamente verdade que a cadeia de significação estereotípica é curiosamente misturada e dividida, polimorfa e perversa, uma articulação de crença múltipla‖. Diante disso, entendemos que todas as representações antes enumeradas correspondem, a narrativas culturais reveladoras de uma luta pelo poder de dizer sobre a deficiência. Contudo, tais significados não são estáveis nem únicos e as linguagens utilizadas para fazer referência às pessoas com deficiência, mudam constantemente, indicando a fluidez e a mutabilidade dos significados. Nessa direção, podemos dizer que a linguagem é constantemente cerceada, controlada, para operar de modo a ser útil nas estratégias políticas de marcação e definição da diferença. Isso significa que, ao enunciar a deficiência, existe um repertório limitado pelas regras de significação existentes nesse dado momento histórico, dispersando a deficiência através de múltiplos sentidos. Por isso, não podemos deixar de considerar que os significados atribuídos à deficiência atendem a determinadas demandas, implicam certas práticas e fazem funcionar fecundas relações de poder. Ou seja, para atender a determinadas condições históricas se estabelecem e se fabricam novos conceitos, novas formas de falar da deficiência, realizam-se novos embates em torno da significação, embates esses que não acontecem sem o crivo da ciência. Tais considerações marcam a importância de sublinharmos que nossas análises não contemplam a infinidade de sentidos possíveis de constituírem-se a partir da leitura dos textos culturais disponibilizados no espaço formativo do Portal, 200 pois, é preciso admitir que, quando essas histórias chegam ao seu público de destino, os professores que acessam o Portal do Professor do MEC, os sentidos podem ser reafirmados, mas também podem ser criadas novas configurações, contribuindo para atitudes favoráveis ou desfavoráveis diante daqueles que possuem uma deficiência. Concordamos, com Amaral (2001) quando defende que: (...) as emoções (principalmente o medo, a repulsa, a atração, etc.) e as diferentes mensagens culturais que recebemos diuturnamente incidem sobre nossa percepção de fenômenos ou pessoas, traduzindo-se em atitudes favoráveis ou desfavoráveis a estas ou àqueles. Essas atitudes são, então, a ―matéria-prima‖ dos preconceitos (favoráveis ou desfavoráveis) que passamos a abrigar em nós e a, com freqüência, exibir em nossas ações. (p.136). Embora, reconheçamos as dificuldade ou impossibilidades de identificar todos os sentidos sobre a deficiência que circulam no Portal, esperamos que as discussões e análises apresentadas neste capítulo, possam, de alguma maneira, convidar-nos a prestar atenção às formas de narrar a deficiência nos processos formativos, atentando-nos para as histórias que são contadas, para as maneiras como esses sujeitos são posicionados e, principalmente, para as relações de podersaber produtoras de significados sobre essas pessoas. 201 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como salientamos na introdução desta tese, buscamos neste trabalho investigar qual a representação cultural da deficiência nos discursos do Portal do Professor do MEC, especificando suas articulações com os saberes e poderes que operam na constituição desses sujeitos. Portanto, tomamos como material de análise alguns artefatos culturais midiáticos, disponibilizados no espaço formativo do Portal, descrevendo como se constrói uma rede de poder sobre os sujeitos com deficiência e como, no interior desse processo, produzem-se e circulam vários saberes correspondentes. Inicialmente, o nosso trabalho permitiu-nos considerar que a ―Deficiência‖ é uma invenção, não podendo ser tomada como objeto natural, sob pena de reduzi-la apenas aos aspectos biológicos, desconsiderando sua historicidade. Mas podemos dizer, a partir dos discursos analisados, que a deficiência é concebida no cruzamento de diferentes discursos, evidenciando a existência de um jogo de poder que coloca em destaque uma correlação de forças, ora solidárias, ora divergentes – que disputam o poder de narrá-la. Assim, ao discutir a produção do sujeito com deficiência, no Portal do Professor do MEC, e sua imersão no jogo entre deficiência e poder, constatamos que sobre a deficiência incidem forças advindas de vários campos de saber, poderes capilarizados e formas de condução que recaem sobre todos os âmbitos da vida dos sujeitos com deficiência. Dessa forma, os enunciados produzidos a respeito da educação, da aprendizagem e até da sexualidade das pessoas com deficiência são respaldados, de um lado, pelos textos dos psicólogos ou dos psicopedagogos e; de outro, pela fala dos médicos especialistas e de outros profissionais da saúde, além dos profissionais da área da educação, dos próprios sujeitos com deficiência e de seus familiares. A partir dessa constatação, podemos dizer que os sujeitos com deficiência não são vistos a partir de uma única relação, ou de um único campo de saber. Pelo contrário, constatamos que a deficiência é produzida na multiplicidade e complexidade de diferentes campos teóricos, comprovando-se que os discursos funcionam como elementos ou blocos táticos no campo das correlações de forças, tendo como consequência a presença de enunciados diferentes e mesmo 202 contraditórios, dentro de uma mesma estratégia discursiva, revelando-se um discurso híbrido. Nossa análise permite-nos constatar que as aulas, os vídeos, as músicas, as histórias em quadrinhos, os artigos de jornais e de revistas insertas no espaço formativo do Portal, vão tecendo, em sua materialidade diferentes maneiras de ―dizer‖ a deficiência, fazendo aparecer discursos por vezes antagônicos, enunciados nem sempre lineares, mas que em seu conjunto e em sua dispersão, produzem diferentes maneiras de captar a verdade sobre os sujeitos com deficiência. Nessas diferentes maneiras de narrar a deficiência, observamos inicialmente que os docentes, efetivamente, demonstram uma adesão ao discurso da inclusão, mostrando-se engajados ao projeto educacional e às propostas de uma educação para Todos. Sendo assim, observamos nitidamente a conformação docente a um conjunto de regras, aos sistemas de pensamento, às diretrizes, aos estatutos e às leis que apregoam a educação inclusiva, demonstrando que, ao narrarem a deficiência, os docentes obedecem a um conjunto de práticas discursivas e não discursivas que compõem jogos de verdade sobre as pessoas com deficiência. Nessa perspectiva, as regras do discurso pela inclusão, como definidoras do regime de verdade dos discursos docentes, promovem interdições no seio da própria formação discursiva, organizando a maneira dos professores falarem, o que coloca em ação uma gramática própria, fazendo com que apenas aquilo que harmoniza com os enunciados, em prol de uma educação inclusiva seja o que pode efetivamente ser dito, tendo como uma de suas consequências a produção da deficiência através do apagamento das diferenças, promovendo-se a normalização desses sujeitos. Esse processo de normalização pode ser constatado através dos enunciados que representam o sujeito com deficiência através do heroismo, enaltecendo as capacidades sobre-humanas desses sujeitos, posicionando-os como valentes, destemidos e corajosos, capazes de enfrentar as adversidades da vida por meio do esforço próprio, marcados por enunciados que minimizam ou subestimam as dificuldades inerentes à deficiência. Dentre os discursos normalizadores estão também aqueles que buscam evidenciar as qualidades de caráter dos sujeitos com deficiência, fazendo parecer que são pessoas quase perfeitas, culminando na representação que poderíamos 203 chamar de ―bom moço‖, ou do ―exemplo a ser seguido‖, ou ainda daquele que tem sempre uma ―lição de vida‖ para ensinar àqueles que não têm deficiência. No discurso pela inclusão, há toda uma preocupação em marcar a deficiência através de atributos positivos, excluindo-se as representações ou narrativas em que a deficiência pode aparecer atrelada a comportamentos transgressores ou a condutas morais reprováveis. Esse é um discurso particularmente questionável, pois o excesso de atributos afirmativos pode, por um lado, apagar as diferenças, mergulhando os sujeitos com deficiência num universo de indistinção; e por outro lado, produzí-los como figuras grotescas, caricatas, podendo fazer com que o professor em formação acredite que a superação da diferença depende apenas de um esforço próprio do aluno e de sua capacidade para vencer as barreiras que lhe são impostas através dos sistemas políticos e sociais. Mas, ao mesmo tempo em que as regras pelo discurso da inclusão possibilitam falar da deficiência através de atributos afirmativos, também interdita enunciados que não harmonizam com essa perspectiva. Uma das consequências disso, é que ao enunciar as ―verdades‖ a respeito da deficiência, os docentes não problematizam as situações de preconceitos, as intolerâncias vividas em sala de aula e, até mesmo, as fragilidades do processo de educação inclusiva. Pelo contrário, os professores tornam evidentes apenas os aspectos positivos da inclusão, demonstrando que a educação inclusiva tem acontecido de forma natural, sem grandes tensões e entraves. Destarte, nesse jogo de poder-saber quando os sujeitos com deficiência são autorizados a narrar sua própria história inclusão, delineia-se outro cenário, completamente distinto do que foi enunciado pelos docentes, tornando-se perceptível a existência de uma inclusão por vezes excludente. Essa inclusãoexcludente torna-se explicita através das narrativas discentes, que colocam em evidencia as situações de falta de acessibilidade, as situações de descaso em relação à importância do intérprete na sala de aula regular e de tantas outras circunstâncias que põem em xeque o despreparo da escola e do professor para, efetivamente, promoverem uma educação inclusiva de qualidade. As histórias de contestação tecidas pelos sujeitos com deficiência, e o silenciamento dos professores em relações às dificuldades enfrentadas na realização do processo educacional inclusivo, evidenciam o quanto os docentes estão regulados em seu poder de dizer sobre a deficiência, e o quanto os seus 204 enunciados estão permeados por relações de controle e dominação, ajustando-se, portanto, às dinâmicas de poder e saber de seu tempo. Isso tem implicações profundas na formação de professores para educação inclusiva, entre elas, a suposição de que a inclusão se faz apenas pela inserção dos sujeitos com deficiencia na sala de aula regular, simplificação que pode imobilizar e impossibilitar reflexões sobre alternativas para as situações de desigualdade e exclusão desses sujeitos na escola regular. Com efeito, as questões explicitadas anteriormente, mostram-nos que precisamos ter um olhar crítico sobre os discursos dos professores acerca da inclusão, considerando que eles estão domados em seu poder de corte, podendo fazer com que a realidade polimorfa da inclusão dos sujeitos com deficiência não seja vista em toda sua complexidade. Mas, outra questão preocupante é o fato de que os professores, ao enunciar acerca da necessidade de uma educação para Todos, apoiam ou fundamentam suas argumentações em um discurso multiculturalista liberal de esquerda. Essa escolha epistemológica traduz-se na ênfase da pluralidade, da convivência, do respeito e da tolerância para com as pessoas com deficiência, na perspectiva de que se deve tolerar e respeitar a diferença porque, sob a aparente diferença há uma mesma humanidade. O discurso multiculturalista, como demonstra nossas análises, emerge primordialmente da luta histórica pelo reconhecimento formal da natureza multicultural da sociedade e apoia-se nas legislações de afirmação cultural, nas políticas públicas de apoio a diversidade, bem como na ordem econômica mundial, que elegeu a diferença cultural como objeto de comercialização. O grande problema é que, no contexto desse debate, em que se celebra a diversidade, não se questionam as relações de força e de poder a partir das quais as diferenças são produzidas. Além do mais, ao se falar em tolerar e respeitar a deficiência, parece sempre haver uma hegemonia dos que toleram, nesse caso, os ―normais‖, sobre aqueles que são tolerados, as pessoas com deficiência. Configura-se, então, uma relação assimétrica de poder, em que os ditos normais são posicionados como ―bonzinhos‖ por tolerar aqueles que têm deficiência, reafirmando-se a inferioridade destes. Sendo assim, contrapomo-nos a tais noções, na medida em que ignoram a situacionalidade histórica e cultural da diferença, contribuindo para camuflar as desigualdades sociais. 205 É justamente por isso, que consideramos oportuna a problematização do discurso da diversidade tão recorrente nos artefatos do Portal do Professor do MEC, salientando que seria mais produtivo formar os professores para questionar as relações de poder e os processos de diferenciação produtores da deficiência. Em outras palavras, ao invés de formar o docente para pensar a deficiência como um dado estático, como uma essência, seria mais interessante formá-los para ver a deficiência em sua multiplicidade, ajudando-os a compreender que as diferenças estão sempre em movimento e que não há um conjunto unificado de definições e categorias capazes de enquadrá-las. Em contrapartida, ao mesmo tempo em que os docentes fundamentam-se num discurso inclusivo pautado no multiculturalismo liberal de esquerda, apregoando a diversidade, o direito de ser diferente contrapõe-se a essa individualidade, produzindo-se um sujeito universal, reduzido nas conceituações médicas da deficiência. Tal constatação deixa claro que a deficiência não é fabricada de forma sequencial, mas envolve articulações, relações e cruzamentos de fronteiras e faznos perceber ainda que o poder disciplinar, imbricado no processo de objetivação do aluno com deficiência, não está restrito apenas ao sujeito médico, mas também, a outros sujeitos discursivos que buscam nessa prática discursiva a legitimação para a produção da deficiência. Nesse âmbito, observamos que os discursos que orientam os professores articulam-se também com todo um aparato conceitual advindo de um saber médico, constituindo a ideia de deficiência intimamente relacionada com o biológico. Nesse jogo de forças, o professor assume o discurso médico sobre a deficiência, apresentando as causas, o diagnóstico e os possíveis tratamentos. Nas aulas do Espaço da Aula, por exemplo, vemos a prescrição de práticas muito semelhantes àquelas utilizadas nos consultórios médicos, como a anamnese, que consiste numa entrevista realizada pelo profissional de saúde com seu paciente, com a intenção de ser um ponto inicial no diagnóstico de uma doença. Reproduzemse práticas e, mais do que isso, reproduz-se uma linguagem clínica, evidenciada através de palavras como ―hereditárias‖, ―congênitas‖ e ―adquiridas‖, mostrando a incorporação de um discurso médico que tem por finalidade descrever a deficiência, em seus detalhes patológicos. No discurso médico, os sujeitos com deficiência são significados a partir de suas incapacidades, de suas limitações e supostas ―faltas‖. Tais discursos são 206 presos à lógica da vitimização, marcados pelos inúmeros ―não podem‖ ou ―não conseguem‖, realimentando a imagem das pessoas com deficiência como eternos sofredores ou vítimas de seu destino biológico. A surdez, por exemplo, é representada nos discursos do Portal como sinônimo de falta e limitação, ressaltando-se a incapacidade desses sujeitos de interagir com o mundo, devido às limitações decorrentes da perda da audição e dos problemas decorrentes da linguagem. Nesses discursos, os sujeitos com deficiência são representados através de uma visão essencialista, naturalizando-se a deficiência, fixando-a e apresentando-a a partir de uma verdade que está enraizada na biologia. É essa verdade biológica, que faz com que as pessoas cegas sejam representadas no espaço formativo do Portal, unicamente sob a ótica daquilo que está faltando e pode ser compensado pelo uso do tato. Nessa forma de significar a cegueira, privilegiam-se apenas os aspectos biológicos, desconsiderando-se outras variáveis, promovendo uma leitura da deficiência independente do tempo, do lugar e das relações sociais, operando-se uma ritualização que apaga a surpresa e impede o estranhamento, esterilizando a possibilidade de invenção de novas configurações sobre as pessoas cegas. Essas novas configurações também são impedidas pela forte ênfase na conceituação dos sujeitos com deficiência, no espaço formativo do Portal. No ato de conceituar, de descrever as pessoas com deficiência, acaba posicionando-os como objetos legítimos da ciência e dos aparatos de normalização, isto é, o corpo desses sujeitos se presta à observação, ao mesmo tempo em que nessa forma de ―exame‖ produzem quem ele é, como agem e como devem ser tratados. Nesse procedimento disciplinar, estão comprometidos todo um campo de saber e todo um tipo de poder que estabelecem sobre os indivíduos com deficiência uma visibilidade obrigatória, através da qual eles são diferenciados e sancionados. Em outras palavras, ao conceituar a deficiência, colocam-se aqueles indivíduos num campo de vigilância, situando-os numa rede de anotações escritas que os captam, que vigiam, registram, individualizam e buscam produzir saberes sobre o indivíduo com deficiência, concebendo-os como um produto da biologia, fixando sua identidade. Não obstante, essa forma de tratar a deficiência corresponde a uma visão moderna a respeito dos sujeitos com deficiência, uma vez que eles são tomados como seres universais e a-históricos, encobrindo-se as diferenças de gênero, classe, 207 raça, servindo apenas para justificar um corpo de conhecimentos especializado e práticas de vigilância e controle sobre aquelas pessoas. Tal discurso é problemático, pois no afã de significar a deficiência através das conceituações, descrevendo-os e procurando-se por universais no comportamento da pessoa com deficiência, reduz-se a historicidade desses sujeitos em todas as suas dimensões, fazendo parecer que existe uma suposta essência verdadeira desses sujeitos. Sob esse enfoque, devemos considerar que os professores em formação, ao serem regidos pelos conceitos médicos da deficiência, num jogo de objetivação, acabam regulados e disciplinados na forma de pensar os sujeitos com deficiência, bem como na maneira de agir com relação a e sobre eles, contribuindo para que o docente construa um diagnóstico prévio das ―competências‖ e ―incompetências‖ ou das ―capacidades‖ e ―incapacidades‖ das pessoas com deficiência. Além disso, o discurso médico acaba por culpabilizar o aluno com deficiência pela sua não aprendizagem ou pelo seu insucesso, indo na direção de uma concepção integradora em relação à educação da pessoa com deficiência, fundamentada na crença de que o problema está centrado na pessoa com deficiência, e não na escola ou no sistema de ensino que não tem garantido a estes uma educação de qualidade. Portanto, se por um lado, esse discurso reforça a patologia; por outro lado, desvia a atenção dos reais problemas existentes na escola que contribuem para não aprendizagem dos alunos com deficiência. Diante disso, acreditamos que os enunciados fundamentados no saber médico devem ser colocados em suspeita permanente, pois os professores em formação, ao tomá-los como verdades, podem pensar que a sua atuação profissional se resume na correção ou normalização dos sujeitos com deficiência, ignorando seus potenciais no processo de ensino-aprendizagem. Mais do que isso, o olhar médico pode legitimar a ideia de deficiência como doença, contribuindo para que os docentes continuem perpetuando a prática dos encaminhamentos para os diferentes atendimentos especializados fora da escola, na concepção de que esses sujeitos devem receber tratamento para ajustar-se ao modelo ou padrão estabelecido pela escola. Outra constatação importante, é que nos discursos sobre a deficiência veiculados nos artefatos culturais endereçados aos professores no Portal do Professor do MEC, reforça-se a ideia do desvio e da anormalidade, produzindo-se 208 uma verdadeira valoração desses indivíduos pelo jogo da quantificação, classificadoos e hierarquizado-os de acordo com o seu nível de inteligência (QI). Assim, no discurso psicológico acerca da deficiência, enfatiza-se a ideia de defasagem, tornando clara a comparação existente entre os padrões de desempenho do aluno dito ―normal‖ e do aluno com ―deficiência‖, patologizando tudo que não se encaixa dentro dos parâmetros da suposta normalidade. Essa concepção tem implicações para a vida do aluno com deficiência, que passa a ser submetido aos mecanismos disciplinares de normalização e padronização. A esse respeito, observamos o exercício do que Foucault (2009) concebe por ―sanção normalizadora‖, mecanismo disciplinar que visa punir tudo o que está inadequado ou que se afasta da regra, todos os desvios. Essa sanção normalizadora torna-se evidente quando observamos que os alunos com deficiência, que não se ajustam ao modelo, ou que não conseguem alcançar o conteúdo curricular proposto pela escola, acabam sofrendo as penalidades da norma, cujos mecanismos normalizadores vão desde a repetência ou reprovação escolar, até as estratégias de correção dos possíveis desvios através da proposição de ―tratamentos‖ corretivos. Além disso, a imposição das narrativas psicológicas e das narrativas médicas tem os seus desdobramentos na própria forma como pessoa com deficiência se vê, tendo em vista que, ao narrar a sua história de vida, os sujeitos com deficiência assumem um modo de pensar sobre si intimamente associadas à noção de defasagem e anormalidade. Depreende-se, portanto, que discurso da psicologia fornece os exercícios e os modos de operar sobre os indivíduos com deficiência e suas almas, subjetivando-os. Sendo assim, a identidade do aluno com deficiência constitui-se mediante a afirmação de suas diferenças em relação à outra identidade, representada pelos sujeitos que se encontram dentro dos padrões de ―normalidade‖. Isso nos faz pensar que os efeitos de verdade provenientes do discurso da psicologia podem, de certa forma, obliterar o trabalho do professor, tendo em vista que, ao estabelecer a comparação entre a deficiência e um padrão cristalizado de desenvolvimento normal, a deficiência será sempre encarada como um déficit, como falta ou carência, havendo sempre a necessidade de ―correção‖ e suprimento, deixando-se de lado os demais fatores geradores de fracasso escolar, tais como as barreiras de ordem política, as barreiras de ordem comunicacional, as barreiras de 209 ordem física e tantas outras barreiras sociais que impedem o desenvolvimento e a inclusão social dos sujeitos com deficiência. Ademais, ao apresentar os alunos com deficiência, segundo classificações ou graus, marcando os desvios, hierarquizando as qualidades, as competências e aptidões, tomando como referência um ―aluno-padrão‖ idealizado, acaba-se por reforçar os estereótipos de incapacidade e inferioridades dos sujeitos com deficiência, além de posicioná-los como causadores dos seus próprios problemas, contribuindo assim para a reprodução de práticas pedagógicas segregadoras e excludentes no contexto escolar. Diante de tais constatações e ao identificar as múltiplas representações culturais da deficiência, no espaço formativo do Portal, podemos afirmar, com segurança, que a deficiência é produzida ou construída na repetição de textos e de imagens que alcança um nível de consenso ao ser enunciada por diferentes sujeitos, produzindo-se efeitos de verdade. Reconhecemos, portanto, que a deficiência nada mais é que a incidência regular de certos temas, imagens e falas produzidas por sujeitos que ocupam posições distintas e que enunciam no Portal. O problema é que o Portal do Professor do MEC, ao colocar ao dispor dos professores metodologias variadas, ao mostrar as condutas desejáveis, ao prescrever práticas pedagógicas que cumpram as metas educacionais propostas pelo Estado Brasileiro, para educação das pessoas com deficiência, numa perspectiva inclusiva, podem acabar produzindo um efeito contrário, tendo em vista que muito do que é proposto nesse espaço formativo está atrelado a uma concepção de educação normalizadora e patologizante, contrariando os pressupostos básicos de uma educação inclusiva. Ao disponibilizar diferentes artefatos culturais pedagógicos, circunscrevendo direções e limites para a prática pedagógica do professor, os enunciadores do Portal operam através de estereótipos, demonstrando a presunção ou o anseio de deter um saber prévio sobre o Outro com deficiência. Um saber que, por vezes, revela-se atento apenas às diferenças externas ou superficiais, um saber que, ao invés de questionar as identidades cristalizadas, reafirma a imagem já estabelecida historicamente, reforçando aquilo que já se conhece a respeito dos sujeitos com deficiência, fazendo aparecer as mesmas vozes que há tempos vêm narrando e ocupando-se de objetivar a deficiência. 210 Podemos dizer então que, embora o discurso do Portal atraia pelas possibilidades de intervenção, de transformação que oferece; apesar de interpelar pelo conjunto heterogêneo de técnicas que utiliza; a despeito de seduzir porque produz a identificação com as metas, desejos, anseios e vontade de transformação em relação à educação das pessoas com deficiência; conquanto seja subsidiado pelo Ministério da Educação e receba legitimidade no seu poder de enunciação, por estabelecer acordos colaborativos com Universidades públicas nacionais e internacionais, continua persistindo na produção da deficiência de uma maneira pejorativa e estereotipada, fazendo com que o sujeito com deficiência, na sua multiplicidade e diferença, seja substituído por uma construção imaginária que, por vezes, não tem nenhuma relação com a realidade. Essa maneira de narrar a deficiência, através de estereótipos, pode trazer sérias implicações para a formação de professores para educação inclusiva, visto que, as narrativas estereotipadas produzem não só o aluno com deficiência, mas também e, sobretudo, os professores em formação, subjetivando-os. Isso significa que as narrativas produzidas sobre a deficiência no espaço formativo do Portal nomeiam, simplificam, enquadram a deficiência, mas também regulam, coordenam e governam as ações dos professores, estruturando a sua forma de ver e pensar a realidade. É exatamente por isso que não podemos continuar produzindo - nas formações de professores virtuais ou presenciais - conhecimentos sobre a deficiência que encerrem ou aprisionem esses sujeitos nos discursos da estereotipia e dos essencialismos. Portanto, acreditamos ser necessário produzir uma reflexão permanente sobre as condições de produção do conhecimento sobre a deficiência nos espaços formativos, possibilitando aos alunos em formação a construção de um olhar crítico sobre os sentidos, as imagens e os enunciados que falam sobre esses sujeitos, problematizando-os. Por isso, acreditamos que nas discussões sobre a deficiência, nos cursos de formação de professores para educação inclusiva, deve-se tornar evidente que não existe uma relação direta entre as palavras e as coisas, e que os discursos científicos, que se ocupam em narrar a deficiência, representam apenas uma ―vontade de verdade‖, que pode funcionar tanto como obstáculo para a possibilidade de novas configurações sobre os sujeitos com deficiência quanto pode permitir outras invenções da deficiência. 211 Isso implica, por certo, em possibilitar aos docentes em formação o entendimento de que as pessoas com deficiência não podem mais ser vistas como meros objetos a serem descritos, traduzidos e textualizados. Para além de conhecer ―textual‖ ou ―cientificamente‖ o outro com deficiência, devemos promover uma formação em que os docentes tenham acesso às narrativas insurgentes sobre a deficiência, narrativas que os possibilite contestar as regras convencionais de definição das pessoas com deficiência a partir de uma visão totalizadora. Por conseguinte, com base nas problematizações aqui apresentadas, assinalamos que a transformação nas relações com o sujeito que apresenta deficiência e a promoção de práticas pedagógicas mais humanas passam necessariamente, pelo entendimento de que não existe uma identidade ―deficiente‖ essencial, ou seja, não existe uma narrativa universal sobre a deficiência que não pode ou não deve estar aberta à contestação. É preciso, então formar os docentes para duvidar das evidências, para interrogar o óbvio, para suspeitar daquilo que parece tão convincente acerca da deficiência, para perceber o processo de fabricação do outro através da linguagem e, mais ainda, para perceber que a linguagem não é apenas um reflexo passivo da realidade, mas ativamente constitutiva desta. Por tal razão, consideramos a importância de se promover, nos processos formativos, virtuais ou presenciais, um espaço narrativo para que as pessoas com deficiência possam contar suas próprias histórias, assegurando-lhes o direito de falar e de produzir contra–representações, que compliquem ou desestabilizem as certezas, que destrua as abstrações preconceituosas e estereotipadas, mostrando que existem diferentes formas de ser ―deficiente‖. Em consonância com Costa (2005), acreditamos que devemos reivindicar o direito dos grupos e dos indivíduos excluídos de descreverem a si próprios, de falar do lugar que ocupam e, sobretudo, de ―inventarem as narrativas que os definem como participantes da história‖. (p. 50) Ao mesmo tempo em que precisamos garantir o direito de voz aos sujeitos com deficiência nos processos formativos, devemos também estar atentos às diversas forças sociais que se utilizam do poder econômico, do poder político, do poder da própria indústria cultural, do poder acadêmico, entre outros, para dizer ou narrar a deficiência nos espaços de formação. O aumento do número de artefatos culturais midiáticos que versam sobre a deficiência e que ensinam aos professores 212 que acessam o Portal do Professor do MEC, através de uma ―pedagogia cultural‖ coloca-nos frente ao desafio de interrogar esses discursos. Num momento em que se fala tanto de inclusão, em que se salienta a inclusão como forma de transposição de barreiras sociais e segregadoras, em que se discute a importância de uma sociedade que considera todos os seus membros como cidadãos legítimos, em que se discute a questão da diferença, faz-se necessário atentar para as vozes que continuam tendo o poder de narrar a deficiência, mantendo um olhar vigilante em relação aos saberes e poderes dos novos atores sociais que entram em cena na produção dos sujeitos com deficiência. Isso significa que nas discussões sobre a formação de professores para educação inclusiva, como a que é proposta no Portal, precisamos perguntar sobre como a alteridade tem sido representada nesses espaços de formação, precisamos atentar para a linguagem, para as palavras que nomeiam as pessoas com deficiência, para as formas de tradução, para os enunciados que descrevem a vida, as formas de se comportar e as maneiras de aprender desses indivíduos, precisamos duvidar das certezas a respeito dos sujeitos com deficiência. E foi exatamente com o desejo de colocar em suspeita aquilo que considerávamos uma certeza sobre a deficiência, que buscamos neste trabalho desvelar os vários sentidos em que foi lida e vista a deficiência nos discursos midiáticos do espaço formativo do Portal, evidenciando como esses sentidos se cruzam, harmonizam-se ou se distanciam, e como a deficiência vai sendo desenhada de diferentes maneiras, através de diferentes vozes que tentam construir uma verdade definitiva sobre os sujeitos com deficiência. Certamente, não buscamos neste estudo, um sentido ou uma verdade dos discursos sobre a deficiência; mas ao identificar as múltiplas representações culturais da deficiência, nos discursos do Portal do Professor do MEC, esperamos possibilitar um novo olhar sobre os mecanismos aprisionadores da deficiência, denunciando as artimanhas de dominação e poder produtoras de sentidos e significados acerca das pessoas com deficiência nos processos formativos. Por fim, esperamos que esta tese contribua para questionar os processos de homogeneização, normalização e simplificação da deficiência, possibilitando a contestação das formas de poder que transformam os sujeitos com deficiência, em ―outros‖ deficitários, exóticos, incapazes e incompletos. Além disso, esperamos que este trabalho possibilite aos docentes uma reflexão profunda sobre a deficiência, 213 considerando-a em sua multiplicidade e diferença, corroborando, assim, para a mudança de pensamento desses profissionais e seus modos de atuação. 214 REFERÊNCIAS AINSCOW, Mel. Necesidades especiales en el aula. Madrid: UNESCO, 1997. ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz. A invenção do nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011. ______. Pedagogia: a arte de erigir fronteiras. In: BUJES, Maria Isabel Edelweiss; BONIN, Iara Tatiana (Org.). Pedagogias sem fronteiras. Canoas, RS: Ed. Ulbra, 2010. AMARAL, Lígia Assunpção. A diferença corporal na literatura: um convite a ―segundas leituras‖. 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