INTERNATIONAL JOURNAL ON WORKING CONDITIONS
ISSN 2182-9535
Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas
cobertas
Filipe Teixeira, Pedro Arezes
DPS, Escola de Engenharia da Universidade do Minho, Guimarães, Portugal,[email protected]
Resumo: Nas piscinas cobertas desenvolvem-se atividades, que pela sua dinâmica, contribuem para
a existência de ruido nesses locais, o qual pode constituir um fator de risco para as pessoas aí
expostas. Os profissionais de Educação Física que desenvolvem a atividade nestes locais estão,
indubitavelmente, expostos a situações ruidosas. A pertinência deste estudo relaciona-se com a
necessidade de avaliar e caracterizar os níveis de pressão sonora nas piscinas cobertas em contexto
ocupacional, fornecendo indicações para melhorar as condições de trabalho desses recintos
desportivos. A pertinência é ainda maior se atendermos ao fato de praticamente não existirem
estudos sobre este tema. O estudo foi desenvolvido em duas etapas, a aplicação de um questionário
aos professores/treinadores (N=61) e a medição dos níveis de pressão sonora existente em piscinas
cobertas (N=4) de dois concelhos com realidades distintas. Os resultados demostraram que os níveis
médios de pressão sonora nas piscinas cobertas são muito elevados, situados entre os 83 dB(A) e os
90 dB(A), indiciando também que estas são estruturas com condições acústicas pobres. Os
resultados dos questionários aplicados permitiram mostrar que a maioria dos professores/treinadores
não é sensível ao ruído (52,5%), permitindo ainda verificar que existe uma relação estatisticamente
significativa entre perda auditiva reportada e os anos de atividade. Por fim constatou-se que as
piscinas são locais onde existem elevados níveis de pressão sonora, os quais poderão ser
potencialmente prejudiciais à saúde dos profissionais que lá trabalham.
Palavras-chave: Ruído, Piscinas, Risco, Saúde, Ruído Ocupacional.
Evaluation and characterization of occupational noise exposure in indoors
swimming pools
Abstract: The develop activities in indoor swimming pools, by its dynamic, can contribute to the
existence of noise on such places, which can constitutes a risk factor for worker’s of those places.
Physical Education Teachers that develop the activity at these spaces are expose to noise. The
relevance of this study is focused in the need to evaluate and characterize sound pressure levels in
indoor swimming pools in occupational context, providing information to improve the working conditions
at those type of buildings. This relevance is also visible through the almost inexistence of previous
studies on this topic. The study was developed in two stages, an application of a questionnaire to
teachers/coaches (N=61), and the measurement of existing sound pressure levels in swimming pools
(N=4) of two different municipalities. The obtained results show that the average sound pressure levels
in indoor pools are very high, between 83 dB(A) and 90 dB(A), indicating that these buildings have
poor acoustic conditions. The results obtained in the questionnaires indicated that most
teachers/coaches are not sensitive to noise (52.5%), and that there is a statistical significant
relationship between reported hearing loss and the years of activity. Finally it was also found that the
indoor swimming pools present high levels of noise, which are potentially harmful to professionals who
working at those places.
Keywords: Noise, Swimming pools, Risk, Health, Occupational Noise.
Publicação editada pela RICOT (Rede de Investigação sobre Condições de Trabalho)
Instituto
deeditada
Sociologia
da Universidade
do Porto
Publicação
pela RICOT
(Rede de Investigação
sobre Condições de Trabalho)
Instituto de Sociologia da Universidade do Porto
Publication edited by RICOT (Working Conditions Research Network)
Publication
by RICOT
(Working Conditions
Institute
ofedited
Sociology,
University
of Porto Research Network)
Institute of Sociology, University of Porto
http://ricot.com.pt
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International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
A atividade física regular é um elemento importante na melhoria da qualidade de
vida, sendo um estimulador para uma vida saudável, o que acaba por contribuir para que
se tenha verificado um incremento do número de pessoas a frequentar locais de prática
desportiva tais como as piscinas cobertas. Contudo, estas piscinas podem também ser,
simultaneamente, potenciais locais indutores de riscos para a saúde de todos os que
frequentam aqueles espaços. Os riscos para a saúde poderão ser diversos, desde os
relacionados com as atividades físicas aos relativos à exposição a vários fatores de risco
como ambientes térmicos extremos, riscos biológicos ou a exposição ao ruído.
É de conhecimento geral, que o ruído representa um importante fator de risco. A
exposição constante ao ruído pode ter efeitos negativos, quer do ponto de vista
fisiológicos, quer do ponto de vista psicológico e psiquiátrico. A sistémica exposição a
níveis de pressão sonora (NPS) nomeadamente acima de 80 dB(A) representa
claramente uma situação de risco para as pessoas expostas (Prashanth & Sridhar, 2008).
Existem vários estudos (como por exemplo, Arezes et al., 2010; Palma et al., 2009;
Gasparini et al., 2006; Libardi et al., 2006; Servilha, 2005) que referem que valores de
exposição acima dos valores de ação e limite estabelecidos na legislação, aumentam o
risco de perda de audição, estimulam o aumento do stress, das patologias
cardiovasculares, das enxaquecas, provocam distúrbios do sono e até alterações
gástricas, entre outros sintomas relacionadas com a saúde do indivíduo, referindo ainda
que poderá diminuir o desempenho e a produtividade dos indivíduos expostos.
Os efeitos do ruído no indivíduo não está só dependente das características do
ruído, como a intensidade, a duração, o espectro, a intermitência do estímulo e o nível de
ambiente do intervalo, mas também à percepção e sensibilidade de cada sujeito e à forma
como este entende o ruído. Esta subjetividade origina reações diversas, sendo que o que
para uns pode ser um ruído, para outros já não o seja. Na realidade, diversos fatores
interferem na análise que o indivíduo faz da situação, como por exemplo a analogia de
lugar e social (Bento, 2011), a noção de espaço sonoro e a associação a estados de
espírito ou a vivências experienciadas (Azevedo, 2007).
Os profissionais da área da Educação Física (Treinadores, Professores, Monitores e
Personal Trainers-PT) que trabalham em piscinas cobertas estão expostos a ruído que é
provocado por várias fontes, desde o originado pelo constante movimento da água até à
música que é utilizada nas aulas, passando pelos tradicionais apitos que servem para
controlar as aulas ou a transmissão verbal de informação, necessária para passar
informação aos alunos e utilizadores, entre outros.
Este conjunto de sons quando conjugados em simultâneo poderá representar níveis
de pressão sonora elevados que, se assim for, podem ser prejudiciais à saúde dos
profissionais que ali desenvolvem a sua atividade, nomeadamente danos do ponto de
vista auditivo. Num dos poucos estudos realizados neste contexto, intitulado “Perda
auditiva ocupacional em instrutores de natação” da autoria de Schriemer et al., (2010), os
autores referem que uma exposição continuada ao ruído em piscinas cobertas pode
originar lesões e consequentemente diminuir a acuidade auditiva das pessoas expostas.
Pode-se ainda constatar que a maioria das piscinas cobertas são estruturas onde as
condições acústicas não são as mais adequadas. Maffei et al. (2009), por exemplo,
referem as piscinas como espaços que possuem condições acústicas pobres. Sendo por
demais óbvio da ausência de materiais de absorção sonora na concepção e construção
162
Filipe Teixeira, Pedro Arezes
1. Introdução
destes espaços. Esta falha, faz com que, os Professores de Educação Física /
Treinadores Professores de Natação (PEF/TPN), e demais profissionais, possam ter uma
exposição ao ruído que venha a ter consequências negativas para a saúde. Para além
dos problemas de saúde física, psíquica, e psiquiátrica das pessoas expostas, os níveis
de pressão sonora elevados podem ainda influenciar a ocorrência de acidentes de
trabalho bem como diminuir o desempenho, eficiência e produtividade dos indivíduos
expostos (Souza & Lemos, 2012; Dias et al., 2006; Libardi et al., 2006; Cordeiro et al.,
2005).
O Decreto-Lei nº 182/2006, de 6 de Setembro, estabelece o quadro legal da
proteção dos trabalhadores contra os riscos decorrentes da exposição aos níveis de
pressão sonora durante o trabalho. Este diploma estabelece, entre outras coisas, os
limites para exposição diária ao ruído, referindo os valores de ação 80 dB(A) e 85 dB(A)
respetivamente para o valor inferior e superior, bem como o valor limite de exposição que
é 87 dB(A). Este documento legal aplica-se a todas as empresas, estabelecimentos e
serviços do setor da administração pública e do setor privado.
A realização deste trabalho tem como objetivo principal avaliar e caracterizar o nível
de pressão sonora existente em piscinas cobertas usadas para aulas, assim como
perceber, até que ponto, a exposição ao ruído existente é ou não percepcionada pelos
professores e treinadores que desenvolvem aí a sua atividade profissional. Dada a
escassez de trabalhos existentes neste domínio, este artigo tem a dupla função de
também alertar para a problemática da exposição ocupacional ao ruído em piscinas
cobertas.
2. Ruído em piscinas
Pode-se definir o ruído, como sendo um som ou conjunto de sons desagradáveis e
geralmente incomodativos que, uma vez ultrapassando um determinado nível de
intensidade pode impossibilitar a verbalização, ser potenciador de situações de fadiga,
provocar alterações do foro psicológico e psiquiátrico, estimular alterações fisiológicas no
sistema nervoso, metabólico e provocar traumas auditivos, possibilitando o aparecimento
da surdez, com capacidade de alterar o bem-estar do individuo e prejudicando a
qualidade e quantidade do trabalho por ele realizado (Angelo, 2013; Barbosa, 2009;
Palma et al., 2009; Mahendra & Sridhar, 2008; Arezes, 2002).
O ruído ou som desperta no ser humano sensações de inquietação ou satisfação,
mas também de bem-estar. As particularidades próprias de cada individuo e os diferentes
fatores que completam o ambiente de trabalho, podem causar várias consequências na
saúde. A ligação entre o ruído e os efeitos na saúde do homem é realizada
transversalmente por mecanismos fisiológicos, os danos causados em cada indivíduo
dependerão da sua suscetibilidade individual, uma vez que existem diferentes reações
para a mesma exposição.
Uma das consequências da exposição a ruído é o stress resultante do trabalho que
habitualmente é ativado pela interação de variados fatores de risco. Mesmo a níveis de
intensidade considerados não muito altos, o ruído no ambiente laboral pode ser stressante
e provocar perturbações do sono, risco de doenças cardiovasculares, distúrbios
psicológicos e psiquiátricos, metabólicos, etc., para além dos relacionados com o aparelho
auditivo (Angelo, 2013; Prashanth & Sridhar, 2008).
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Filipe Teixeira, Pedro Arezes
Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
As piscinas cobertas, são locais de recreação cujo principal fim é a prática de
desporto e/ou de atividades desportivas. O desporto é a prática de atividades de
características informais sem imposição de regulamentos definidos, ou seja, os
regulamentos adaptam-se em conformidade com o pretendido, tornando-se mais lúdico e
recreativo. As atividades desportivas estão mais direcionadas para o rendimento das
modalidades desportivas, isto é, para a competição, obedecendo a regras e normas
impostas pelas organizações que as tutelam, são, por isso, uma área do rendimento do
desporto. Estas duas atividades, desporto e desportivas, são tendencialmente propensas
para a criação de ruído, uma pela dinâmica que é implementada nas aulas (componente
lúdica e recreativa) e a outra pela persistente estimulação e incentivo para que o atleta se
possa superar. Em ambas as situações esta prática implicará que as piscinas sejam
espaços potencialmente ruidosos dadas as diversas atividades que aí se praticam, com
fontes de ruído como os sistemas de ventilação, crianças em circulação, aulas (apitos,
música, batimento de material didático na água etc.) verbalização (gritos e assobios) ou
simples ruído da água em movimento entre outros, temporariamente e/ou permanentes.
Por outro lado as piscinas são estruturas edificadas que, praticamente, não tiveram
qualquer cuidado de ordem acústica aquando do seu projeto de construção, ou seja em
termos acústicos são muito pobres, caracterizadas pela inexistência de materiais
absorventes e pela utilização de materiais de construção pobres do ponto de vista de
isolamento acústico.
A música é um dos elementos usados em certas atividades desenvolvidas nas
piscinas cobertas, nomeadamente nas atividades de grupo fitness, auxiliando na dinâmica
das aulas marcando ritmos e impondo intensidade nos exercícios. Esta deve ser
apropriada para o exercício aplicado funcionando como um libertador e orientador dos
movimentos incutindo estimulo, motivação, direção e ritmos (Braga & Oliveira, 2009).
Contudo, é necessário ter um controlo sobre a intensidade com que se apresenta a
música e perceber qual a localização das fontes de emissão, principalmente em recintos
fechados, como as piscinas cobertas, para que seja audível mas sem dar origem a danos
na acuidade auditiva das pessoas expostas.
A música emitida a níveis sonoros elevados é tipicamente assumida pelos PEF/TPN
com a justificação de aumentar e melhorar o rendimento dos praticantes. Os PEF/TPN
que, no desenvolvimento das suas aulas, usam som elevado e/ou apitos intensos creem
que o rendimento da aula melhora e, por isso, negligenciam os riscos da exposição ao
ruído. Estes elevados níveis de pressão sonora quando acrescentados ao ruído de fundo
típico da piscina, proporcionam condições para um incremento do ruído em geral existente
nas piscinas cobertas.
Um outro aspeto importante a referir é o facto do ruído existente nas piscinas
cobertas obrigar forçosamente um esforço enorme para garantir uma boa inteligibilidade
da comunicação verbal. Quando o nível da voz é superior a 65 dB(A) já é considerado
esforço vocal (Gaudreau et al., 2011). A fala é transmitida do professor (emissor) para o
praticante ou outro (recetor) num plano de sobreposição com o ruído de fundo, reduzindo
substancialmente as capacidades de audição e de entendimento da mensagem.
Os PEF/TPN muitas vezes manifestam fadiga e disfonia vocal originada pela
inevitabilidade de ter que suplantar a fraca acústica ou a distância, a reverberação ou o
ruído (Ryan & Mendel, 2010). O nível de pressão sonora em que a mensagem é enviada
em relação ao nível de ruído ambiente (relação sinal / ruído) é um critério muito
importante para quantificar a inteligibilidade da mensagem. Para a mensagem ser
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Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
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entendida totalmente, a relação sinal / ruído deve ser 15 a 18 dB. Para além da relação
sinal / ruído, a reverberação influencia de forma evidente a capacidade de compreender
uma mensagem. De uma forma geral, quanto maior for a reverberação, menor será a
compreensão da mensagem (Gaudreau et al., 2011).
A reverberação é um dos problemas dos edifícios que é também originado e
potenciado pelo ruído. No estudo “Perda auditiva ocupacional em professores de natação”
realizado na Holanda (Schriemer et al., 2010), o resultado do questionário efetuado a
funcionários de piscinas demonstra que 26% deles assinalaram que têm reverberação
irritante sempre ou muitas vezes e 32% dizem que acabam por sofrer com a exposição ao
ruído. Em algumas piscinas realizaram-se medições do ruído e os níveis encontrados
foram quase sempre superiores a 85dB (A) (Schriemer et al., 2010).
Maffei et al. (2009), referindo um estudo de Shield e Dockrell, (2004) efetuado em
salas de aula de 18 alunos e salas de aula com 32 alunos, indicam que o nível médio de
LAeq pode aumentar em mais de 10 dB(A) e que o de ruído de fundo (LA90) pode chegar
a 20 dB(A), sugerindo que, as atividades desenvolvidas em sala podem ser relevantes no
incremento do ruído. O aumento de ruído em dB(A) de atividades silenciosas (ler ou
testes) para atividades mais ruidosas (trabalhos em grupo, movimentação e / ou ligeira
conversação) pode ser de 20 dB(A) no LAeq e de 22 dB(A) no ruído de fundo.
No estudo em ginásios escolares e piscinas, desenvolvido por Maffei et al. (2009), os
autores relatam que o ruído excessivo em contexto de aula leva a que professores e
alunos estejam de acordo, ao indicar que o ruído afeta o desempenho escolar,
evidenciando ainda outros problemas como irritação, zumbido, distúrbios do sono e
stress. A grande maioria dos professores (80% da amostra) relaciona ainda o aumento da
frequência cardíaca com o aumento do ruído.
Schriemer et al. (2010) no estudo “Perda auditiva ocupacional em professores de
natação” evidenciam ainda que a exposição ao ruído prolongada em piscinas cobertas
pode originar danos auditivos, relacionando a atividade profissional com a perda auditiva.
3. Metodologia
Pelo exposto nas secções anteriores parece ser necessário avaliar e caracterizar a
exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas. Este estudo é desenvolvido no
sentido de avaliar o ruído em contexto de aula, procurando deixar indicações que possam
melhorar as condições de exposição ao ruído a todos quantos trabalham e utilizam as
piscinas cobertas.
O estudo realizou-se em piscinas cobertas de dois concelhos do norte de Portugal,
na região do Minho e na sub-região do Tâmega, sendo o universo do estudo composto
por quatro piscinas e respetivos Professores de Educação Física/Treinadores Professores
de Natação (PEF/TPN) que nelas laboram, abrangendo uma amostra de 61 PEF/TPN.
As piscinas estudadas foram edificadas há mais de 10 anos, estando em
funcionamento desde a sua conclusão. São de configuração retangular e de diferentes
volumetrias, variando o volume entre os 2500m³ para a piscina de menores dimensões e
os 25,200m³ para a de maior volume.
Para o desenvolvimento deste trabalho, consideram-se duas fases, uma primeira
fase de elaboração e a aplicação de um questionário efetuado aos professores que
desenvolviam atividades nas piscinas estudadas e uma segunda fase com a medição dos
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níveis de pressão sonora das mesmas. No tratamento estatístico dos dados recolhidos do
questionário, foi utilizado o IBM® SPSS® Statistics versão 22.0.
O questionário foi desenvolvido com o objetivo de recolher um conjunto alargado de
opiniões dos PEF/TPN, relativamente às condições existentes quanto à exposição ao
ruído. Da estrutura do questionário constavam três áreas:
o Elementos sociodemográficos, que incluía a indicação da formação académica e
localização de residência, para perceber qual a relação com o ruído fora do ambiente
laboral;
o A caracterização da atividade profissional, com questões respeitantes ao tempo de
exposição, horas de trabalho, locais onde trabalha, função profissional, permitindo
que se entendesse há quanto tempo estariam expostos ao ruído e qual a duração
dessa exposição;
o A percepção e a relação com o fenómeno de exposição ao ruído, avaliada através de
cinco dimensões: a percetibilidade ao ruído, a sensibilidade ao ruído, a exposição e
desempenho, o ruído na saúde e a redução ao ruído. O objetivo seria saber qual a
noção que os PEF/TPN têm sobre o ruído, incluindo o saber se têm maior ou menor
sensibilidade ao ruído, bem como os efeitos do ruído no desempenho.
Previamente foi efetuado um teste para validação do questionário, tendo sido
distribuídos por seis pessoas de outras zonas demográficas e piscinas fora do âmbito do
estudo. A estas pessoas foi solicitado que respondessem ao questionário, identificassem
questões ambíguas, analisassem e aferissem a clareza e coerência das questões, assim
como a sequência das mesmas. Após a análise das respostas e de outros comentários
foram efetuadas as alterações sugeridas e, reescritas, algumas questões para evitar
quaisquer dúvidas.
Para a análise da sensibilidade recorreu-se a uma adaptação da escala de
Wernstein ou Weinestein’s Noise Sensitivity Scale. Normalmente para a avaliação da
sensibilidade individual ao ruído utiliza-se um questionário aplicado em contexto laboral,
sendo que a escala de Weinestein’s Noise Sensitivity Scale é usualmente a mais utilizada
(Arezes et al., 2010; Kishikawa et al., 2006; Luz et al, 2005).
O questionário era composto por 12 questões genéricas como por exemplo, “Sentese incomodado pelo ruído?” e “desperta facilmente ao mínimo ruído?” às quais os
PEF/TPN respondiam unicamente afirmativamente assinalando “sim” ou negativamente
sinalizando “não”, a escala adotada foi composta por 3 itens (0 – não resposta; 1 –
resposta não; 2 – resposta sim), sendo que em algumas situações foi alterada o sentido
da pontuação das respostas para garantir a coerência das questões. Somados todos os
itens, a pontuação máxima obtida seria de 24 pontos e a mínima de 0 pontos.
A medição dos níveis de pressão sonora foi realizada com as aulas a decorrer entre
Março e Abril de 2014, durante cinco dias seguidos, no período de tempo de 2h30mn
(18h30mn às 21h00). Em cada piscina foram selecionados cinco pontos de registo (Pr).
Relativamente à distância dos pontos de registo para a fonte de mais ruído, nas três
piscinas de maior dimensão, a distância do Pr1 foi de 2,0 metros, o Pr2 e o Pr4
encontravam-se à distância de 10 metros dessa fonte, o Pr3 distava da fonte de ruído 17
metros e o Pr5 ficava distante da fonte de ruído 32 metros. Na piscina de menores
dimensões o distanciamento dos Pr para a principal fonte de ruído foi de 2 metros para o
Pr1, de 6 metros para o Pr2, o Pr3 e o Pr4 estavam distanciados da fonte de ruído 12
metros e o Pr5 estava à distância de 22 metros. Quanto ao tempo de medição para cada
Pr foi considerado um tempo de 15 minutos, sendo definidos 5 minutos para cada
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parâmetro, respetivamente LAeq, LPico e análise espectral. A adopção de um período de
medição desta duração prende.se com duas razões, a primeira pelas aulas serem
contínuas e durante o tempo de aula não se verifica uma significativa variação dos níveis
de pressão sonora independentemente do momento da aula (inicial, fundamental ou final),
ou seja, o registo contínuo não apresentava diferenças significativas. A segunda razão é o
facto do tempo médio de uma faixa musical utilizada em aula ser de aproximadamente 5
minutos. Deste modo, minimizou-se as variações que pudessem existir da mudança de
faixa musical, fossem estas de características das músicas ou pelo modo de como é
efetuado o processo de gravação das mesmas.
Para a medição dos níveis de pressão sonora foi utilizado o sonómetro da marca
Quest Technologies, modelo 2800 Impulse Integrating Sound Level Meter. O sonómetro
foi colocado à distância de 1,0 metro dos PEF/TPN, a uma altura 1,20 metros do solo e
afastado de paredes ou outras superfícies de reflexão, de acordo com a NP ISSO 1996 2.
Os níveis de exposição sonora diários obtidos foram calculados tendo por base uma
exposição diária de 6 horas, por este motivo o parâmetro LEX,8h reflete já essa exposição
a 6 horas de exposição diária, sendo determinado de seguida o valor médio de cada
piscina. Para melhor se perceber, após efetuado os registos, determinou-se o LEX,8h para
6 horas para cada Pr em cada dia e posteriormente o valor médio de LEX,8h em cada
piscina.
A frequência de utilizadores/hora (alunos + PEF/TPN) era variável consoante o tipo
de aulas (bebés, aprendizagem, treino, fitness grupo) que decorriam em simultâneo,
sendo que o número de sujeitos em três das piscinas situava-se entre as 80 e as 100
pessoas / hora, atingindo um pico máximo de 120 pessoas. Numa outra piscina o número
de presentes oscilava entre 30 e 45 pessoas / hora, tendo como registo mais elevado
cerca de 50 pessoas numa hora.
4. Resultados e Discussão
Relativamente aos níveis de pressão sonora nas 4 piscinas do estudo, verificou-se
que o valor mais baixo de LAeq registado foi de 75,5 dB(A) e o mais elevado de 101,2
dB(A), como se pode constatar na tabela 1. Esta tabela monstra também os valores
mínimos e máximos de cada Pr em cada piscina. Registe-se que estes valores são
similares aos estudos efetuados por Gaudreau et al., (2011), Maffei et al., (2009) e
Iannace et al., (2006).
Os valores médios de exposição pessoal diária, variam entre os 74,3 dB(A) e os
100,0 dB(A) e os valores LEX,8h médio semanal estão compreendidos entre os 83,4 dB(A)
e os 89,4 dB(A), sendo o valor médio das piscinas 84,8 dB(A) com um desvio padrão de
5,7. Da análise estatística não se verifica diferenças significativas (p>0,05) entre os
valores de pressão sonora das piscinas e o tipo de piscina, ou seja, tudo parece indicar
que a presença de valores elevados de pressão sonora represente uma característica das
piscinas, conforme também revelam os estudos de Gaudreau et al., (2011), Schriemer et
al., (2010) e Maffei et al., (2009).
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Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
LAeq
Pr1
Pr2
Pr3
Pr4
Pr5
Mínimo
79,5
78,7
78,3
75,8
77,8
Máximo
101,2
89,6
89,2
96,9
87,6
Mínimo
75,5
77,4
75,5
81,4
81,5
Máximo
92,0
81,1
80,4
89,5
87,8
Mínimo
79,3
77,0
80,3
81,5
83,0
Máximo
91,8
83,2
86,2
85,6
86,5
Mínimo
77,9
81,0
83,8
86,6
82,2
Máximo
87,1
85,5
87,8
91,4
892,1
Piscinas
1
2
3
4
Na tabela 2 pode-se observar a distribuição dos valores corrigidos, mínimos,
máximos e média diária (Md dia), registados nas piscinas. Quanto aos valores de Lpico
estão situados entre 95,9 dB(C) e os 119,9 dB(C).
LEx,8h
semn
1
Piscinas
Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
Tabela 2 – Distribuição dos valores LEX,8h das 4 piscinas estudadas
2
3
4
89,4
83,5
83,9
86,7
Dias
1º
2º
3º
4º
5º
Min
85,7
79,3
74,6
79,5
78,6
Max
95,7
100,0
79,4
90,0
83,3
Md dia
92,4
93,2
77,4
85,3
82,1
Min
75,9
74,3
74,3
75,2
79,2
Max
86,6
86.2
88,3
90,8
90,4
Md dia
82,9
81,3
81,0
84,7
85,8
Min
75,8
80,8
78,1
76,1
80,9
Max
90,6
85,3
84,2
88,7
88,0
Md dia
84,6
83,8
81,6
83,9
85,0
Min
82.5
77,9
81,0
82,2
79,1
Max
87,8
89,9
91,0
89,0
91,4
Md dia
85,4
85,2
88,3
86,0
87,5
Min – Mínimo; Max – Máximo; Md dia – Média do dia
Consegue-se perceber a partir da distribuição, que em todas as piscinas, a grande
maioria dos valores é muito superior ao valor de ação inferior e que um número elevado
de registos estão acima do valor limite de exposição permitidos na legislação portuguesa,
nomeadamente ao valor de ação inferior que é de 80dB(A) para o caso do LEX,8h ou seja,
valores prejudiciais para o aparelho auditivo, aumentando significativamente o risco de
perda auditiva por indução do ruído (PAIR).
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Tabela 1 – Distribuição de valores mínimo e máximo do LAeq das piscinas estudas
A existência de registos abaixo do valor de ação inferior referido no anterior
parágrafo, podem ser considerados elevados se levarmos em conta que se está num
ambiente fechado, logo um ambiente potencialmente reverberante. Saliente-se que a
literatura refere para espaços confinados, os valores de conforto acústico considerados
toleráveis estendem-se até aos 65 dB(A), sendo que acima deste valor considera-se que
já acontece esforço vocal (Gaudreau et al., 2011; Ryan & Mendel, 2010; Palma et al.,
2009). Este ambiente propicia um aumento significativo dos índices de ruído de fundo e
prejudica a inteligibilidade da comunicação oral, o que obriga a um esforço acrescido da
voz quando os PEF/TPN pretendem passar a informação e esta seja inteligível. Como já
referido este esforço pode expor o elevar da voz a níveis em 15 dB a 20 dB superior
aquele valor, o que pode representar valores de ruído acima dos 90 dB (A) (Gaudreau et
al., 2011; Gonçalves et al, 2009; Maffei et al., 2009), provocando o aparecimento de
problemas de disfonia vocal, dor de garganta, stress ao ruído, perda auditiva entre outras
(Schriemer et al., 2010; Maffei et al., 2009; Iannace et al., 2006).
Verificou-se ainda que existem oscilações acentuadas nos valores registados nos
diversos pontos de registo, estas alterações acontecem sempre que se iniciam as aulas
fitness de grupo, provocando um incremento substancial nos níveis de pressão sonora.
Em diversos casos estas variações apresentam diferenças superiores a 3 dB(A),
chegando a atingir 10 dB(A), pelo que se pode entender que a atividade tem influência
nos elevados níveis de pressão sonora. É de notar que para uma boa comunicação a
relação sinal-rácio deve ser de 15 dB (Maffei et al, 2009).
Dos dados obtidos do questionário, a amostra dos PEF/TPN que responderam ao
questionário desenvolvido para o efeito era constituído por 61 participantes e representa a
totalidade dos professores / treinadores que trabalham nas piscinas em estudo.
A amostra é constituída por 44,3% participantes do género feminino e 55,7% do
género masculino, dos quais 60,7% são casados. As idades estão compreendidas entre
os 23 e os 50 anos, com uma média de idades de 33,7 anos (dp=5,8 anos), situando-se a
maioria (63,3%) no escalão etário dos 30 e os 40 anos. Cerca de 80% da amostra
reportou residir em local não ruidoso. Profissionalmente 76,6% dos participantes tem de 6
a 20 anos de atividade profissional.
Na análise que se efetuou da relação entre os níveis de pressão sonora obtidos e o
tempo de exposição, verificou-se que não existia uma relação estatística significativa
(p=0,09). Contudo pôde-se constatar que um elevado número de PEF/TPN estão
expostos a valores elevados de pressão sonora até 6 horas e que 34,4% deste grupo está
sujeito a estes valores por um período superior a 6 horas, como se pode ver na figura 1.
Esta ocorrência é originada por diversos fatores, por um lado a discrepância do
número de PEF/TPN que trabalham menos de 6 horas e os que laboram mais de 6 horas,
pode-se justificar com o número muito baixo de professores / treinadores que
desenvolvem a sua atividade vinculados a uma só piscina. A precariedade de trabalho a
que estes profissionais estão sujeitos, pode obrigar a que a maioria dos PEF/TPN tenham
menos horas de aulas e por consequência os seus horários contemplarem os momentos
de mais ruído, podendo ser agravado ainda por poderem desenvolver a sua atividade
noutros locais similares, por outro, pelo facto do cronograma de funcionamento e
distribuição das aulas não observar períodos de alternância entre aulas ruidosas e aulas
menos ruidosas. Outro fator pode ser pelo facto do horário de trabalho atribuído aos
PEF/TPN não contemplar os momentos que possam existir de valores de pressão sonora
inferiores. Saliente-se que esta alternância iria possibilitar algum “repouso” auditivo,
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Filipe Teixeira, Pedro Arezes
Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
Figura 1 – Relação entre pressão sonora e tempo de exposição
Os PEF/TPN foram questionados quanto à percepção que tem sobre o fenómeno do
ruído e quais as fontes que mais interferem, perturbam e contribuem para o fomento do
ruído nas piscinas. Os resultados demonstram que 40,4% dos PEF/TPN têm perceção do
ruído nas piscinas e 35,1% tem consciência da influência do ruído o que indica que nem
todos estão sensibilizados para o problema do ruído e dos seus efeitos. Tal é confirmado
pelo fato de só 11,9% dos PEF/TPN terem feito anteriormente um audiograma. De
salientar que nenhum dos PEF/TPN utiliza qualquer tipo proteção auditiva, o que por um
lado poderá revelar algum descuido e desconhecimento dos efeitos do ruído, por outro
uma atitude de desvalorização relativamente à problemática do ruído (figura 2). Apesar da
proteção auditiva poder representar um constrangimento para o bom desempenho dos
PEF/TPN, esta solução poderá ser aplicada por períodos curtos de tempo.
Frequentemente, os professores / treinadores queixam-se do ruído existente nas
piscinas, classificando-o sistematicamente de ensurdecedor, e tendo como consequência
uma fraca inteligibilidade, a dificuldade de concentração e baixo desempenho.
Relativamente às fontes de ruído perturbantes, os PEF/TPN indicam como as mais
influentes a música, os apitos e a verbalização, apresentando como fundamentação o
volume de som das músicas nas aulas fitness de grupo (hidroginástica, hidrobike, etc)
excessivamente elevado, o que provoca na ação de apitar maior intensidade e frequência
de apitos e, a necessidade de elevar o som da fala para que possa ser audível. Por vezes
os professores / treinadores têm de elevar a voz atingindo 75 a 80 dB(A), o que lhes pode
provocar problemas de disfonia (Maffei et al., 2009). É considerado esforço vocal sempre
170
Filipe Teixeira, Pedro Arezes
permitindo retardar o aparecimento de fadiga auditiva. Esta fadiga é provocada pela
constante exposição diária e prolongada no tempo proporcionando o surgimento da PAIR
(Palma, et al, 2009; Araújo e Regazzi, 2002; Palma, 1999). Contudo é necessário ter em
conta que estes períodos de alternância podem não ser suficientes. De acordo com a
literatura o período de recuperação do limiar auditivo é superior ao tempo que leva a
aparecer a fadiga auditiva, podendo chegar até 16 horas a recuperar (Conceição, 2009;
Palma et al., 2009).
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Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
Figura 2 – Distribuição das respostas dos PEF/TPN relativas à perceção
Um estudo recente realizado em ginásios em Portugal refere que mais de 50% dos
professores nas suas aulas atinge níveis de pressão sonora superior a 80 dB(A) sendo
em vários casos registados valores de 84,2 dB(A) (Seco et al, 2014). Outros estudos
apresentam ainda registos mais elevados entre 80 e 91,4 dB(A) (Palma et al., 2009). No
estudo efetuado quanto à exposição ao ruído em piscinas e ginásios (Maffei et al., 2009),
foram inquiridos 75 professores que desenvolvem ali atividades num horário semanal
médio de 20 horas, 80% está exposto a valores superiores a 75 dB(A) e 25% a valores
superiores a 80 dB(A). Os professores / treinadores que ministram aulas com música cujo
volume de som é muito elevado, não têm presente os riscos acrescidos a que estão
expostos, assim como os alunos / atletas e demais utilizadores das piscinas.
Nas atividades fitness de grupo a música é importante pela liberdade de movimentos
que pode originar, mas também pela predisposição e estimulo incutidos (Braga e Oliveira,
2009). No entanto, não se pode assumir que o rendimento dos praticantes será melhor
nas aulas onde o som é muito elevado. Este é um erro frequente e uma justificação
apresentada por muitos professores / treinadores. Quem incute a motivação e incentiva ao
melhor desempenho são os PEF/TPN, sendo a música o acessório que auxilia para atingir
o fim. Constata-se que a música tem uma grande influência para o aumento considerável
nos níveis de pressão sonora existentes nas piscinas.
Como se pode verificar, na figura 3, existe um sentido crescente da influência das
fontes na exposição à pressão sonora. A música com 49,5% das respostas surge como
sendo a principal fonte de ruído, podendo observar-se que 28,4% dos inquiridos indicam
os apitos. De salientar que apenas 2,1 % dos professores indicam a ventilação como fonte
influente na produção de ruído, situação que não se passava num passado relativamente
recente. Este acontecimento sucede muito provavelmente pela evolução e modernização
existente nos sistemas de ventilação. No entanto apenas 5,3% dos PEF/TPN consideram
171
Filipe Teixeira, Pedro Arezes
que se eleva a voz a um nível superior a 65 dB(A) e quando se está em ambientes com
níveis de pressão sonora de 80 dB(A) tem-se de falar alto e de gritar quando os níveis de
pressão sonora são de 85 dB(A) (Gaudreau, et al., 2011).
International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
Figura 3 - Ordenação por influência das fontes de ruído
No atual estudo, quando analisada a relação da perda auditiva e o tempo de
atividade profissional dos PEF/TPN, verificou-se que existe uma relação direta, ou seja
existe uma correspondência estatisticamente significativa entre perda auditiva e o tempo
de atividade profissional (p=0,01). Este resultado vem de alguma forma confirmar o
resultado do estudo de Schriemer et al. (2010), no qual se confirma que o ruído das
piscinas pode provocar perda auditiva. Na figura 4 podemos constatar que 10% dos
professores / treinadores reportam já ter algum tipo de perda auditiva e que aqueles que
desenvolvem a sua atividade há mais anos (>10 anos) representam quase 7% dos
professores / treinadores, sendo que neste universo um em cada 3 tem menos de 10 anos
de atividade profissional. A identificação da existência de alguns casos vem alertar para a
probabilidade da presença de um problema que pode acarretar maiores complicações.
Como se constatou anteriormente, a limitação da amostra não permite tirar conclusões
mais abrangente e precisas, mas vem alertar as entidades gestoras das piscinas sobre o
facto de terem um problema para resolver que passa muito por proporcionar e solicitar
aos seus colaboradores exames audiométricos referidos na legislação portuguesa e atuar
em conformidade com os resultados obtidos nestes exames.
A análise da sensibilidade através de questionário pretende quantificar e corporizar a
subjetividade da mesma, por estar geralmente articulada às fontes de emissão de ruído
relativo à incomodidade que podem produzir (Job et al., 1999). No entanto, tem de se
172
Filipe Teixeira, Pedro Arezes
todas as fontes de ruído como perturbadoras, o que pode indiciar a existência de alguma
habituação a alguns ruídos, pelo que os professores / treinadores poderão não dar a
devida importância. Outro motivo poderá estar relacionado com a idade dos professores,
pois maioritariamente são um grupo etário jovem (até 35 anos) e, ainda, com a variável
ligada aos anos em que os PEF/TPN desenvolvem a sua atividade.
O estudo efetuado na Holanda com professores de natação indicou com clareza, que
a exposição prolongada a níveis de pressão sonora elevada em piscinas cobertas pode
originar danos auditivos (Schriemer et al., 2010), relacionando a perda auditiva com a
atividade profissional desenvolvida nas piscinas cobertas.
International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
Figura 4 – Identificação de perda auditiva
Quanto à sensibilidade dos PEF/TPN, numa divisão entre não sensíveis ao ruído
(NSR) e sensível ao ruído (SR), a tabela 3 demonstra os valores explicativos obtidos no
questionário relativos à sensibilidade, onde se constata que as medidas de tendência
central são muito próximas.
Tabela 3 – Estatística descritiva dos resultados da sensibilidade
Parâmetros estatísticos
Valores
N
61
Média
17,48,
Mediana
17,00
Dp
1,911
Máximo
21
Mínimo
14
Desta análise, como se pode observar na figura 5, conclui-se que existe uma divisão
muito equivalente entre os NSR e os SR. Sendo que a maioria, 52,5% dos PEF/TPN não
são sensíveis ao ruído, este fator pode explicar o comportamento existente relativamente
à exposição ao ruído. Os 47,5% que são sensíveis ao ruído justificam o motivo pelo qual
se verificam queixas sistemáticas relativamente ao ruído nas piscinas cobertas.
173
Filipe Teixeira, Pedro Arezes
perceber que a sensibilidade aqui reportada é subjetiva e não deve ser manipulada pela
exposição ao ruído sob o critério de uma avaliação de riscos (Kishikawa et al., 2006).
International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
Figura 5 – Distribuição dos PEF/TPN quanto à sensibilidade
5. Conclusões
As piscinas cobertas são estruturas muito solicitadas pelas populações para a
prática de atividade física e desportiva em particular com o objetivo de poderem melhorar
a sua qualidade de vida através de melhor saúde e bem-estar, mas também o são como
uma solução profissional. Este desenvolvimento profissionalizante faz com que os
PEF/TPN passem mais tempo nas piscinas, em regra mais de 6 horas diárias com aulas
de atividade física.
Como se sabe as piscinas cobertas incluem várias atividades e, como consequência,
os trabalhadores que desenvolvem aí a sua atividade profissional ficam expostos ao ruído.
Com este trabalho procurou-se avaliar e caracterizar o nível de pressão sonora nas
piscinas e verificar se a atividade dos professores / treinadores podia estar associada a
algum nível de perda auditiva. Porém, pela escassez de trabalhos e pelo facto deste
estudo, tanto quanto se sabe, ser pioneiro na temática do ruído em piscinas cobertas em
174
Filipe Teixeira, Pedro Arezes
A sensibilidade ao ruído é muito subjetiva, não é unânime quanto ao seu conceito.
Reporta-se à circunstância do ser humano ter diferentes reações quanto ao incómodo
provocado por diferentes fontes de ruído, às características físicas do ruído e as
particularidades de cada indivíduo, que reagem de forma diferenciada em semelhantes
condições acústicas (Branco, 2013; Barbosa, 2009; Smith, 2003). Vários fatores podem
interferir na avaliação da sensibilidade ao ruído desde a idade, estado de saúde, estado
de espírito (tristeza, alegria, etc.) até à identificação de um lugar ou social (Negrão &
Moraes, 2009; Belojevic et al, 1992;).
A explicação poderá estar nos anos que os PEF/TPN já desenvolvem a sua
atividade profissional, nomeadamente naqueles que o fazem há mais de 10 anos. Apesar
dos resultados não serem conclusivos quando analisada a relação da perda auditiva com
o ruído, pois outros fatores interferem nesta relação, como o tempo de exposição, os
professores e treinadores que desenvolvem a sua atividade há mais 10 anos (48,3%) é
muito próximo dos que são sensíveis ao ruído. Estes podem ter desenvolvido uma maior
sensibilidade ao ruído ao longo do tempo.
Portugal, pretendeu-se também que o mesmo pudesse servir para alertar para a
problemática da exposição ao ruído nestes locais.
De alguma forma ao encontro do que seria esperado, os resultados obtidos não são
muito positivos, quer relativamente aos níveis de pressão sonora registados, quer quanto
ao comportamento dos atores destes locais, e as próprias entidades gestoras das
piscinas.
As condições acústicas nas piscinas cobertas são na maior parte das vezes, pobres,
em geral, de baixa qualidade, uma vez que na sua conceção não é tido em consideração
o problema da acústica. Os registos obtidos dos níveis de pressão sonora demonstram a
existência de valores excessivamente elevados para média semanal de LEx,8h, situandose entre os 83 dB(A) e os 90 dB(A), idênticos aos que se encontram em ambientes
industriais. Estes valores são claramente insalubres para locais que são procurados para
a obtenção de melhor saúde e bem-estar.
Por outro lado os professores e treinadores parecem não ver o ruído como um
problema, pois o seu comportamento não vai no sentido de diminuir a sua exposição. As
entidades e os gestores das piscinas não apresentam a preocupação de controlo dos
níveis de pressão sonora, não solicitam exames audiométricos aos seus profissionais bem
como não têm em conta este problema na elaboração e atribuição dos cronogramas de
aulas.
A percepção dos PEF/TPN quanto ao ruído é, apesar disso, positiva. Os professores
/ treinadores têm noção da existência de ruído nas piscinas e da sua influência, porém
muito poucos realizaram testes audiométricos. No entanto, é de estranhar o
comportamento adotado por estes, pois parecem dar pouca importância à exposição ao
ruído, negligenciando os cuidados necessários para a saúde do aparelho auditivo como
da saúde em geral. Na maioria, os PEF/TPN não são sensíveis ao ruído embora sintam
necessidade de momentos de silêncio. A música é o elemento que mais influência tem no
ruído nas piscinas, contribuindo em grande escala para os níveis de pressão sonora, já de
si elevados. O ruído ambiente das piscinas com o acrescento de fontes ruidosas como a
música e apitos incrementa os níveis de ruído, pode resultar em efeitos nocivos para a
saúde.
Para a redução dos níveis de pressão sonora é fundamental que se desenvolvam
ações de controlo e sensibilização no tocante ao tema da exposição ocupacional ao ruído.
Neste contexto, será importante que se implementem de regras que estimulem a
minimização dos níveis de ruído. Adicionalmente, podem também adoptar medidas que
induzam à diminuição do volume de som em aulas fitness de grupo, tais como limitar o
volume de som com um índice máximo pré-definido, melhor qualidade das gravações das
faixas de música e sistemas de som (colunas e amplificação), apitar com menos
frequência e de menor intensidade para não criar momentos de picos de intensidade,
estimular a aplicação de metodologias de ensino com menor verbalização. Contudo,
medidas mais estruturais também devem ser implementadas para melhoramento das
condições acústicas, especialmente, ao nível dos materiais utilizados para absorção de
ruído nas piscinas.
Como conclusão final pode dizer-se que as piscinas apresentam níveis de pressão
sonora muito elevados, que são edifícios que apresentam, normalmente, deficientes
condições acústicas, o que proporciona um aumento dos níveis de pressão sonora. Os
professores e treinadores estão expostos a níveis de pressão sonora que podem ser
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Filipe Teixeira, Pedro Arezes
Avaliação e caracterização da exposição ocupacional ao ruído em piscinas cobertas
International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
International Journal on Working Conditions, No.9, June 2015
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176
Filipe Teixeira, Pedro Arezes
prejudiciais à sua saúde, sendo que na sua maioria não são sensíveis ao ruído e têm uma
postura negligente quanto à sua exposição aos níveis de pressão sonora.
Como perspetivas de trabalhos futuros, pretende-se alargar o presente estudo a
outras regiões do país, tentando que o estudo passe a ter um âmbito nacional. Este
levantamento pode vir a resultar em dados úteis que permitam evidenciar a necessidade
de introduzir regulamentação para estes espaços relativamente ao ruído. Por fim, parece
também importante avaliar as condições acústicas das piscinas cobertas, que apesar de
se saber que são fracas, não se tem conhecimento consistente da real influência destas
nos níveis de pressão sonora verificados.
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