578
PERCEPÇÃO DE GESTANTES QUANTO O ÁCIDO FÓLICO E SULFATO
FERROSO DURANTE O PRÉ-NATAL
PERCEPTION OF PREGNANT WOMEN FOR FOLIC ACID AND FERROUS
SULFATE DURING THE PRENATAL
Gedeon Alves Ferreira
Graduado em enfermagem pelo Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – UnilesteMG.
[email protected]
Fernanda Nunes Gama
Enfermeira. Mestre em Meio Ambiente e Sustentabilidade. Pós-graduada em Administração
Hospitalar e Gestão de Projetos de Investimentos em Saúde. Docente do Curso de Enfermagem do
Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – UnilesteMG. [email protected]
RESUMO
O ácido fólico e o sulfato ferroso são medicamentos essenciais durante o período gestacional. Eles
atuam no desenvolvimento embrionário e na saúde da gestante. Realizou-se uma pesquisa com
abordagem qualitativa de caráter descritivo a fim de analisar a percepção das gestantes quanto ao
uso de ácido fólico e sulfato ferroso durante o atendimento de pré-natal no serviço público de saúde
no município de Coronel Fabriciano, MG, identificando, junto às gestantes, quais as ações educativas
dos enfermeiros para que as mesmas fizessem uso desses medicamentos. Os dados foram
coletados mediante um roteiro de entrevista entre os dias 11 de dezembro de 2009 a 31 de janeiro
2010 e submetidos à análise de conteúdo. Verificou-se que o desconhecimento sobre os
medicamentos essenciais utilizados durante a gestação, principalmente a respeito do ácido fólico, é
significante e que existe uma falha no processo educativo das gestantes durante o pré-natal.
PALAVRAS-CHAVE: Ácido Fólico. Sulfato Ferroso. Cuidado Pré-natal. Gestante. Enfermagem.
ABSTRACT
Folic acid and ferrous sulfate are essential drugs during pregnancy. They act in embryonic
development and health of pregnant women. We carried out a survey with a qualitative and descriptive
in order to analyze the perception of women regarding the use of folic acid and ferrous sulfate in the
treatment of antenatal care in public health service in the city of Coronel Fabriciano, MG, identifying
with the women, which the educational activities of nurses so that they make use of these drugs. Data
were collected through a structured interview days between December 11, 2009 to 31 January 2010
and submitted to content analysis. It was found that the lack of essential drugs used during pregnancy,
especially about the folic acid is significant and there is a gap in the education of pregnant women
during prenatal care.
KEY WORDS: Folic Acid. Ferrous Sulfate. Prenatal Care. Pregnant Women. Nursing.
INTRODUÇÃO
O ácido fólico e o sulfato ferroso são complementos vitamínico-alimentares
importantes na prevenção de doenças carenciais, na formação de tecidos essenciais
na gestação - onde ocorre o aumento de produção de hemácias por parte materna
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
579
e nos tecidos que vão constituir o feto (THAME et al., 1998). A falta ou o uso
irregular desses complementos por gestantes durante processo gestacional, e os
efeitos que a insuficiência desses proporciona ao feto, é algo que vem sendo
discutido por vários especialistas de saúde. A presença de manifestações de
alterações congênitas relacionada à carência desses complementos durante a
gestação tem sido alvo de preocupações (FONSECA; FONSECA; BERGSTENMENDES, 2002).
Em 2002 o Ministério da Saúde definiu que esses complementos são
considerados medicamentos essenciais durante o pré-natal (BRASIL, 2002).
Pode-se definir o ácido fólico como uma vitamina do complexo B, também
conhecida como folato. Essa vitamina é indispensável para o indivíduo em qualquer
idade e/ou faixa etária, porém a carência desta vitamina torna-se maior em mulheres
em idade fértil (BRASIL, 2002).
A deficiência alimentar de ácido fólico é mais frequente em mulheres grávidas.
Considera-se que mais de um terço de mulheres no mundo são deficientes de ácido
fólico. A concentração de ácido fólico diminui durante a gravidez devido a expansão
do volume plasmático. O ácido fólico tem como principal função prevenir a
malformação do tubo neural (TN) no feto. Essas malformações do TN são
caracterizadas por deformações como anencefália1, espinha bífida2 e meningocele3.
Tais anomalias podem causar a morte, paralisia dos membros inferiores e, em
alguns casos, retardo mental (BRASIL, 2002; NOGUEIRA; PARENTE; COZZOLINO,
2003).
Malformações congênitas predominam entre os óbitos, devido uma ineficácia
prévia de medidas promocionais a saúde. A maior taxa de mortalidade perinatal está
associada à ausência de assistência pré-natal (LORENZI, 1999).
As ações do Enfermeiro no acompanhamento pré-natal trazem benefícios
contínuos para a saúde das gestantes, dos recém-nascidos, redução significativa da
mortalidade materna, baixo peso ao nascer e mortalidade perinatal (COSTA;
GUILHERM; TELLES, 2005; GAMA et al., 2004).
Os profissionais da saúde possuem papel importante na orientação das
mulheres e na prescrição do ácido fólico periconcepcional, visando resultados
preventivos. Observa-se ainda que no Brasil, o baixo nível educacional e
socioeconômico, a menor idade materna, a ausência de um parceiro e a falta de
planejamento na gestação, são fatores preditores do uso reduzido de ácido fólico
durante o período periconcepcional (MEZZOMO et al., 2007).
Em relação à necessidade da suplementação do sulfato ferroso durante a
gestação, se faz importante, pois reconhece-se que a deficiência de ferro e a anemia
ferropriva é o problema mais comum durante esse período, porém sua prevalência é
desconhecida (SANTOS, 2007). O sulfato ferroso, em sua composição, contém 20%
de ferro elementar, sendo o restante constituído de sais hidratados. É indicado para
prevenir e corrigir as deficiências de ferro, por exemplo, as anemias ferroprivas
etiológicas ou idiopáticas (FERREIRA et al., 2003).
1
Malformação caracterizada pela ausência parcial do encéfalo e da calota craniana.
Anormalidade congênita do sistema nervoso. Ocorre um fechamento incompleto da coluna vertebral.
3
Protusão congênita ou adquirida das meninges, desacompanhadas de tecido neural, devido a um
defeito ósseo no crânio ou na coluna vertebral.
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
2
580
Segundo Silva, Silva e Viana (2009, p. 117), a anemia ferropriva:
é uma anemia causada em decorrência da deficiência de ingestão ou de
absorção de ferro, caracterizada por diminuição da concentração copuslar
média de hemoglobina e do ferro sérico. Ocorre quando o fornecimento de
ferro é insuficiente para atingir as necessidades de diferentes tecidos,
incluindo a formação das hemoglobinas e dos glóbulos vermelhos.
Segundo a OMS (1972 apud FERREIRA, 2003), a deficiência de ferro está
associada à restrição alimentar do mineral, tanto quantitativa como qualitativamente,
bem como aos elevados requerimentos dos grupos biológicos mais suscetíveis à
anemia, como os menores de cinco anos e as mulheres no período gestacional.
Fujimore et al. (2000) acrescenta que, a ausência de sulfato ferroso no organismo
promove a redução da capacidade física, resistência às infecções, além da anemia
nutricional. A anemia durante o período gestacional acarreta problemas no
crescimento do feto, ocasionando um bebê, ao nascer, de pequena estatura e de
baixo peso.
A anemia nutricional por carência de ferro já vem sendo debatida por todo o
mundo. No Brasil, 30% das gestantes são acometidas pela anemia nutricional
devido a carência de ferro. Nas gestantes, essa anemia está relacionada com baixo
peso da criança ao nascer e as ocorrências da mortalidade perinatal. No entanto,
com projetos de prevenção da anemia ferropriva, o Ministério da Saúde criou em
2005 a Portaria Ministerial nº. 730 que regulamenta o Programa Nacional de
Suplementação de Ferro, onde se trata os cuidados às gestantes a partir da 20ª
semana gestacional e mulheres até os três primeiros meses pós-parto (BRASIL,
2005).
Em dados recentes da Organização Mundial de Saúde, que envolveu 93
países, inclusive o Brasil, concluiu-se que 1,6 bilhões de pessoas – 24,8% da
população mundial - são acometidas pela anemia, sendo de maior prevalência,
respectivamente, no continente africano e asiático. Neste estudo a anemia no Brasil
foi apresentada como um caso de saúde pública de intensidade moderada a grave
para gestantes (VITOLO, 2008).
O desenvolvimento desta pesquisa possibilitará identificar o conhecimento que
as gestantes possuem sobre a importância do ácido fólico e do sulfato ferroso
durante o processo gestacional. Possibilitando assim aos Enfermeiros compreender
a necessidade de instruir um processo educacional quanto à utilização desses
medicamentos. Visto que possa haver um uso irregular, ou até mesmo o desuso do
mesmo por falta de conhecimento.
O objetivo principal dessa pesquisa foi analisar a percepção das gestantes
quanto ao uso de ácido fólico e sulfato ferroso durante o pré-natal no serviço público
de saúde no município de Coronel Fabriciano, MG, identificando, junto às mesmas,
as ações educativas abordadas pelos Enfermeiros para que fizessem uso desses
medicamentos.
METODOLOGIA
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
581
A pesquisa teve uma abordagem qualitativa de caráter descritivo. A abordagem
qualitativa foi desenvolvida nesta pesquisa por fundamentar possibilidades
pertinentes e adequadas para a interpretação dos aspectos complexos do ser
humano.
Segundo Ludke e André (2001), a pesquisa qualitativa se forma de uma
situação natural, enriquecida em tópicos descritivos, possui uma estratégia de
pesquisa aberta e flexível, focalizando a realidade de forma contextualizada e
complexa. Conforme Minayo (2004), a pesquisa qualitativa abrange de forma
concentrada vários aspectos sociais incorporados nos aspectos individuais de cada
amostra. Não se configura em números e nem variáveis, mas em atos, relações e
estruturas sociais.
A população do estudo foi constituída por 29 gestantes sendo que a amostra foi
constituída de 21 gestantes que tiveram desejo para responder ao instrumento de
coleta de dados. Para critério de inclusão foram selecionadas todas as gestantes
regularmente cadastradas no SIS-Pré-natal na Unidade de Atenção Primária à
Saúde (UAPS) do bairro Floresta em Coronel Fabriciano/MG no mês de dezembro
de 2009 e que estavam no 3º trimestre gestacional.
O município de Coronel Fabriciano situa-se na microrregião do Vale do Aço ao
leste do estado de Minas Gerais, possui cerca de 110.000 habitantes. A rede de
saúde do município é garantida por meio de 12 Unidades Básicas de Saúde, três
Equipes de Saúde da Família e uma equipe de Programa de Agentes Comunitários
de Saúde. Possui um Serviço de Fisioterapia, um Centro Psicossocial, um
Laboratório de Análises Clínicas, um Centro de Especialidades Médicas e
Programas de Saúde, um Centro de Especialidades Odontológicas e uma Farmácia
Popular do Brasil. O nível terciário é garantido por meio de convênio com hospital da
rede privada, com 88 leitos para internação credenciados pelo Sistema Único de
Saúde (SUS).
O instrumento utilizado para a coleta de dados foi uma entrevista estruturada,
individual, orientada por um roteiro com perguntas abertas com caracterização dos
aspectos descritivos dos sujeitos envolvidos. Foi utilizado um MP5 PLAYER da
marca Ilkon® com a finalidade de gravar as respostas.
A entrevista estruturada, segundo Marconi e Lakatos (2005), também
conhecida como controlada e planejada. É um tipo de pesquisa que utiliza
instrumento para a coleta de dados. Atua de forma controlada para a fim de
responder os objetivos previamente planejados. Neste tipo de entrevista o
pesquisador sabe o que busca e o que é importante, delimitando o seu campo
usando de instrumentos próprios que lhe é necessário.
A coleta de dados foi realizada no período de 11 dezembro de 2009 a 31 de
janeiro de 2010, onde o pesquisador dirigiu-se as residências das pesquisadas para
abordagem - endereço no qual foi adquirido através dos cadastros da UAPS - e
aplicação das entrevistas para aquelas que aceitaram participar. Cada entrevista
teve duração de aproximadamente 15 minutos.
Para análise dos dados foi realizado um método de análise de categorias que
correspondeu a um conjunto de técnicas de análise de comunicação, onde permitiu
a interferência de conhecimentos relativos às condições de confecção das
mensagens com base em literaturas cientificas. Para preservar o anonimato das
participantes, utilizou-se nomes de pedras preciosas para identificá-las.
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
582
O projeto da pesquisa foi aprovado pelo Secretário Municipal de Saúde de
Coronel de Fabriciano mediante a assinatura do Termo de Autorização para
realização da pesquisa. As participantes que aceitaram participar da pesquisa
assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). As participantes
menores de 18 anos tiveram seu TCLE assinado pelos pais e/ou responsáveis.
A pesquisa foi desenvolvida de acordo com a Resolução 196/96, que descreve
os padrões éticos e morais de pesquisa envolvendo seres humanos, garantindo os
direitos dos sujeitos da pesquisa e deveres da comunidade científica (BRASIL,
1996).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Com a intenção de favorecer a caracterização dos sujeitos de pesquisa, os
dados foram apresentados distribuídos por freqüência e percentagem, sendo idade,
estado civil, número de filhos e escolaridade, de acordo com a TAB.1.
TABELA 1 Distribuição dos participantes por faixa etária e estado civil, número de filhos e
escolaridade.
Identificadores
Frequência
Percentagem
Faixa Etária
< 18 anos
4
19,05
18 a 29 anos
13
61,90
> 29 anos
4
19,05
Estado Cívil
Solteiro
8
38,10
Casada/unida
12
57,14
Divorciada/separada
1
4,76
Número de Filhos
1a2
14
66,67
>2
2
9,52
Sem filhos
5
23,81
Escolaridade
Ensino fundamental incompleto
7
33,33
Ensino fundamental completo
7
33,33
Ensino médio incompleto
3
14,29
Ensino médio completo
4
19,05
Com os dados apresentados na TAB.1, verifica-se que 61,9% das gestantes
possuem idade entre 18 e 29 anos, 57,14% delas são casadas ou vivem em união
estável, 66,67% já tiveram um ou dois filhos(as) e 66,67% não ingressaram no
ensino médio.
Segundo Vitolo, Boscaini e Bortolini (2006) é importante obter características
tais como escolaridade materna, idade e quantidades de pessoas no domicílio,
englobando filhos e conjugues, pois essas condições podem influenciar diretamente
no entendimento quanto ao uso dos medicamentos essenciais durante a gestação.
As mulheres de baixa escolaridade revelam desconhecimento quanto aos benefícios
destes medicamentos; as de maior idade não vêem necessidade para o uso dos
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
583
mesmos, buscando tão somente fontes alimentares para ingestão de seus
suplementos; já a convivência familiar, assim como o número de componentes na
família pode interferir de forma indireta ao uso dos mesmos.
Na intenção de analisar a percepção das gestantes quanto ao ácido fólico
foram realizadas perguntas pertinentes ao mesmo. Quando perguntadas sobre os
benefícios que o ácido fólico proporciona ao feto durante a gestação, foram obtidas
as seguintes respostas:
Num tenho conhecimento do que acontece com o bebê não. Eu sei que o
médico pede pra gente tomar, o, os comprimidos e mais explicação assim
do que acontece, do que pode vir acontecer com a criança, não fala não.
Turqueza, 27 anos.
Olha! Eu não sei te dizer, que eu não fiz o uso né! Na minha gravidez eu só
usei a vitamina, que é uma preta! Um comprimidão! Ágata, 35 anos.
Sabe que eu não sei? Rubi, 32 anos.
Ah! Eu tô bem lembrada não. Você pode me falar sobre ele? Ou não?
Topázio, 22 anos.
Não sei! Não faço a mínima idéia. Quatzo, 22 anos.
[...] pra não vomitar [...] Berilo, 19 anos.
Das entrevistadas, verificou-se que 15 (71,43%) gestantes desconheciam a real
função do ácido fólico durante a gestação e que seis (28,57%) tinham um
conhecimento parcial quanto aos benefícios do uso do ácido fólico, citando em seus
relatos somente a formação dos ossos do feto.
Em um estudo realizado no Brasil em 2005, em uma universidade federal do
estado de São Paulo, observou-se a falta de informação das gestantes quanto ao
uso dessa vitamina, a importância e a sua distribuição na rede pública. A 53% das
gestantes nunca tinha ouvido falar da vitamina, não sabendo sua importância e nem
sua distribuição. Das mulheres que pretendiam engravidar, mais da metade não foi
orientada pelo profissional de saúde a tomar o medicamento (NASSER et al., 2005)
Borrelli et al. (2005), em sua análise sobre a incidência de malformações no
tubo neural, constatou que há falta de informação no pré-natal associado ao
desconhecimento da importância da suplementação de ácido fólico por parte das
gestantes, fazendo assim o desuso dessa vitamina. Das 100 mulheres
entrevistadas, 91% delas desconheciam os benefícios dessa vitamina.
Segundo Nasser et al. (2005), é necessário que políticas públicas intervenham
em programas sociais levando informações a respeito das consequências da
carência dessa vitamina em gestantes, informações essas que não atinjam só as
mulheres, mas também familiares e profissionais que prestam atendimento, e que
atuam das Unidades de Saúde. De acordo com Trevisan et al. (2002), a falta de
informação a cerca da importância do uso desses medicamentos essenciais está
associada à falta de qualidade da assistência pré-natal e à falta de desenvolvimento
de atividades educativas por parte das equipes de saúde responsáveis pela atenção
pré-natal.
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
584
Ao serem questionadas a respeito dos benefícios do sulfato ferroso, verificouse que mesmo com as dificuldades de expressão, 18 (80,95%) gestantes foram
concisas nas respostas e demonstraram algum conhecimento.
Para anemia né? Não deixar nascer com anemia. Nascer saudável.
Granada, 29 anos.
Pra num dá anemia [pausa] pra fortalecer também. Espinélio, 17 anos.
Num deixa ter anemia né? A gestante ter anemia, né? Citrino, 20 anos.
Ah! [pausa] Eh! [pausa] Eu acho que é por causa da anemia. Esmeralda, 28
anos.
Ah! Num ter anemia? Alguma coisa assim? Opala, 20 anos.
Pra mim durante a gestação? Pra não dá anemia. Isso que eles fala. Pro
bebe eu não sei. Rubi, 32 anos.
Principalmente para dar saúde pra mulher, o médico me deu ele, porque eu
tive anemia. Topázio, 22 anos.
Das entrevistadas, apenas três (14,29%) não souberam relatar à importância
do sulfato ferroso, sendo que uma delas usou o silêncio como forma de resposta,
demonstrando total desconhecimento ao mesmo.
Mesmo reconhecendo que todas as gestantes devem receber suplementação
com ferro e consequentemente saber da importância do mesmo, outras fatores
devem ser priorizados no intuito de se alcançar patamares de paises desenvolvidos
quanto à anemia ferropriva, entre tudo à melhoria de processos educativos. No
Brasil houve um avanço radical na prevenção da anemia ferropriva, sendo
estabelecida em políticas de saúde a fortificação da farinha de trigo com ferro e
ácido fólico (VITOLO; BOSCAINI; BORTOLINI, 2006).
As outras duas entrevistadas (9,52%) que não souberam relatar nenhum
beneficio do sulfato ferroso, demonstraram-se confusas confundindo o ácido fólico
com o sulfato ferroso, não sabendo distinguir cada um deles, respondendo de forma
incerta a entrevista, como pode ser demonstrado nas falas:
... pra mim eles falaram que é para fortalecer os ossos da criança... Pérola,
35 anos.
Pros ossos, né? Para o crescimento do bebê. Ágata, 34 anos.
Conhecer os medicamentos utilizados durante a gravidez conduz ao
planejamento e a aceitação aos propósitos designados, garantindo um processo
saudável mediante a utilização dos medicamentos essenciais durante o pré-natal
(FONSECA; FONSECA; BERGSTEN-MENDES, 2002).
A Lei nº. 7.498/86 regulamenta o exercício de enfermagem, cabendo ao
enfermeiro se responsabilizar pela consulta de enfermagem e a prescrição da
assistência de enfermagem. Cabe ainda a este profissional, como membro da
equipe de saúde prescrever os medicamentos, desde que esses sejam aprovados
pela Instituição de Saúde e estabelecidos em Protocolos dos Programas de Saúde
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
585
Pública. De acordo com o Decreto n.º 94.406/87 desta mesma lei, o pré-natal de
baixo risco pode ser realizado pelo Enfermeiro, bem como a prescrição de
medicamentos e solicitação de exames (COFEN, 2002).
As gestantes quando foram perguntadas sobre as orientações repassadas pelo
enfermeiro(a), durante o pré-natal, quanto o uso do ácido fólico e o sulfato ferroso,
obtive-se os seguintes resultados: três (14,29%) gestantes receberam orientações,
uma (4,76%) não se lembrava e 17 (80,95%) alegaram que não receberam
nenhuma orientação do(a) enfermeiro(a).
Este fato pode esta associado a um conhecimento ineficaz do profissional
sobre o uso destes medicamentos e aos benefícios dos mesmos, viabilizando uma
necessidade de orientações e capacitação desses profissionais
Das gestantes que receberam as orientações, obtiveram-se os seguintes
depoimentos:
Ela falô assim: que tinha que tomar porque é uma vitamina tanto para mim
quanto para o neném. Esmeralda, 28 anos.
Que era pra mim tomar direitinho. Ta sempre tomando direito, porque pode
prejudicar o bebê e eu. Eu até fiz exames pra vê se eu precisava tomar uma
quantidade maior. Espinélio, 17 anos.
Eles falaram [pausa] só sim! Explicaram pra tomar direitinho antes das
refeições. Outro a noite e o resto não me lembro mais. Diamante, 23 anos.
O diálogo entre a equipe de enfermagem e a gestante, além de contribuir para
que a gestante enfrente esse período com mais tranqüilidade, torna-a capaz de lidar
com diversas situações do seu dia-a-dia. As ações educativas ministrada por essa
equipe incluem orientações de diversos temas, inclusive as formas de lidar com
medicamentos, uma forma preventiva de validar a promoção da saúde e a
prevenção de doenças (SHIMIZU; LIMA, 2009).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Baseado em um conjunto de análises verificou-se que, a partir dos relatos das
gestantes, o desconhecimento sobre os medicamentos essenciais utilizados durante
a gestação, principalmente a respeito do ácido fólico, é significante. Mediante essa
situação observa-se que há extrema necessidade de conduzir uma ampliação nos
esforços para realização continua de uma assistência educativa, objetivando a
melhoria continua de ações de saúde durante o pré-natal, sendo ele em caráter
individual e coletivo.
Constatou-se que existe uma falha no processo educativo das gestantes
durante o pré-natal. Processo no qual o enfermeiro deve se incumbir de realizar,
visando uma função preventiva relacionada a possíveis doenças ocasionadas por
uso irregular, e até mesmo o desuso, do ácido fólico e do sulfato ferroso. O
desconhecimento leva a gestante a não se importar com a funcionalidade do
medicamento, abrindo mão da necessidade da utilização dos mesmos, levando
consigo os riscos carenciais desses medicamentos.
A visão mecanicista deve ser revertida no processo de enfermagem e a forma
dialogada deve ser incluída nesse processo, pois a troca de informações essenciais
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
586
e práticas entre o enfermeiro e a gestante geram maior conhecimento entre as
partes.
Atividades que possam produzir melhorias nas ações educativas durante o prénatal devem ser implantadas por enfermeiros continuamente. Mas para isso deve
haver intervenção de uma equipe comprometida e capacitada com a saúde da
gestante. Uma equipe que desempenha seu verdadeiro papel: o cuidar.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 196 de 10
de Outubro de 1996. Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa
com seres humanos. Diário Oficial da União. Brasília, 16 de outubro de 1996.
______.Ministério da Saúde. Secretária de Atenção à Saúde. Departamento de
Ações Programadas e Estratégicas. Assistência pré-natal e puerpério atenção
qualificada e humanizada: manual técnico. Brasília: Ministério da Saúde, 2005.
Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno5_saude
_mulher.pdf>. Acesso em: 20 de out. 2009.
______.Ministério da Saúde. Secretária de Atenção à Saúde. Secretária de Políticas
da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos essenciais: RENAME. Brasília:
Ministério da Saúde, 2002. Disponível em:
<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/relacao_nac_med_essenciais.pdf>.
Acesso em: 12 out. 2009.
BORRELLI, Milton et al. Prevenção de defeitos de fechamento do tubo neural pela
administração de ácido fólico- desafio da saúde pública. Arquivo de Medicina do
ABC, São Paulo, v. 30, n. 1, p. 44-7, jan./jun. 2005. Disponível em:
<http://www.fmabc.br/admin/files/revistas/30amabc044.pdf>. Acesso em: 03 fev.
2010.
COFEN. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução n. 271, de 12 de
julho de 2002. Dispõe sobre a regulamentação das ações dos enfermeiros na
consulta, prescrição de medicamentos e requisição de exames. Rio de Janeiro.
Legislação e normas. Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais, 2005.
COSTA, Ana Maria; GUILHEM, Dirce; WALTER, Maria Inêz Machado Telles.
Atendimento a gestantes no Sistema Único de Saúde. Revista de Saúde Pública,
São Paulo, v. 39, n. 5, p. 768-74, out. 2005. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102005000500011
&lng=p t&nrm=iso>. Acesso em: 12 out. 2009.
FERREIRA, Maria Lúcia Matias et al. Efetividade da aplicação do sulfato ferroso em
doses semanais no Programa Saúde da Família em Caruaru, Pernambuco, Brasil.
Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 19, n. 2, p. 375-81, abr. 2003.
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102311X2003000200004 &lng= pt&nrm=iso>. Acesso em: 06 out. 2009.
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
587
FONSECA, Márcia Regina Campos Costa da; FONSECA, Edson da; BERGSTENMENDES, Gun. Prevalência do uso de medicamentos na gravidez: uma abordagem
farmacoepidemiológica. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 36, n. 2, p. 205-12,
abr. 2002. Disponível em:
<http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S003489102002000200013&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 12 out. 2009.
FUJIMORI, Elizabeth et al. Anemia e deficiência de ferro em gestantes
adolescentes. Revista de Nutrição, Campinas, v. 13, n. 3, p. 177-84, dez. 2000.
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141552732000000 300004&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 14 out. 2009.
GAMA, Silvana Granado Nogueira da et al. Fatores associados à assistência prénatal precária em uma amostra de puérperas adolescentes em maternidades do
Município do Rio de Janeiro, 1999-2000. Caderno de Saúde Pública, Rio de
Janeiro, v. 20, n. 1, p. 101-11, mar. 2004. Disponível em:
<http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2004000700
011&l ng=en&nrm=iso>. Acesso em: 13 out. 2009.
GUERRA, Elvira Maria et al. Prevalência de deficiência de ferro em gestantes de
primeira consulta em centros de saúde de área metropolitana, Brasil: etiologia da
anemia. Revista de. Saúde Pública, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 88-95, abr. 1992.
Disponível em: <http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S003489101992000200005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 24 mar. 2010.
LORENZI, Dino Roberto Soares de. Perfil epidemiológico da natimortalidade em
Caxias do Sul. Revista Brasileira de Ginecologia Obstétrica, Rio de Janeiro, v. 21, n.
8, p. 488-92, jul./dez. 1999. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S010072031999000800013&lng=em&nrm=iso>. Acesso em: 12 out. 2009.
LÜDKE, Menga, ANDRÉ, Marli E.D.A. Pesquisa em educação: abordagens
qualitativas. São Paulo: EPU, 2001.
MARCONI, Maria de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de Metodologia
Científica. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2005.
MEZZOMO, Cíntia Leal Sclowitz et al. Prevenção de defeitos do tubo neural:
prevalência do uso da suplementação de ácido fólico e fatores associados em
gestantes na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil. Caderno de Saúde
Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 11, p. 2716-26, nov. 2007. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2007001100019
&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 06 out. 2009.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa
em saúde. 8. ed. São Paulo: Hucitec, 2004.
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
588
NASSER, Carina et al . Semana da conscientização sobre a importância do ácido
fólico. Jornal de Epilepsia e clínica neuropsicológica, Porto Alegre, v. 11, n. 4, p.
199-203, dez. 2005. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S167626492005000400009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 04 fev. 2010.
NOGUEIRA, Nadir do Nascimento; PARENTE, Joaquim Vaz; COZZOLINO, Sílvia
Maria Franciscato. Mudanças na concentração plasmática de zinco e ácido fólico em
adolescentes grávidas submetidas a diferentes esquemas de suplementação.
Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 19, n. 1, p. 155-60, fev. 2003.
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102311X2003000100017 &lng= pt&nrm=iso>. Acesso em: 06 out. 2009.
SANTOS, Leonor Maria Pacheco; PEREIRA, Michelle Zanon. Efeito da fortificação
com ácido fólico na redução dos defeitos do tubo neural. Caderno de Saúde
Pública, Rio de Janeiro, v. 23, n. 1, p. 17-24, jan. 2007. Disponível em:
<http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2007000100
003&ln g=pt&nrm=iso>. Acesso em: 12 out. 2009.
SHIMIZU, Helena Eri; LIMA, Maria Goreti de. As dimensões do cuidado pré-natal na
consulta de enfermagem. Revista brasileira de enfermagem, Brasília, v. 62, n. 3, p.
387-92, jun. 2009. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672009000300009
&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 13 out. 2009
SILVA, Carlos Roberto Lyra da; SILVA, Roberto Carlos Lyra da; VIANA, Dirce La
Placa. Compacto dicionário ilustrado de saúde. 4. ed. São Caetano do Sul: Yendis,
2009.
THAME, Gizele et al. Folato, vitamina B12 e ferritina sérica e defeitos do tubo neural.
Revista Brasileira de Ginecologia Obstétrica, Rio de Janeiro, v. 20, n. 8, p. 449-53,
set. 1998. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-72031998000800004
&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 13 out. 2009.
TREVISAN, Maria do Rosário et al. Perfil da Assistência Pré-Natal entre Usuárias do
Sistema Único de Saúde em Caxias do Sul. Revista Brasileira de Ginecologia
Obstétrica, Rio de Janeiro, v. 24, n. 5, p. 293-99, jun. 2002. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010072032002000500002&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 03 jan. 2010.
VITOLO, Márcia Regina; BOSCAINI, Camile; BORTOLINI, Gisele Ane. Baixa
escolaridade como fator limitante para o combate à anemia entre gestantes. Revista
Brasileira de Ginecologia Obstétrica, Rio de Janeiro, v. 28, n. 6, p. 33139, jun. 2006. Disponível em:
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
589
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010072032006000600003&lng=p t&nrm=iso>. Acesso em: 06 out. 2009.
VITOLO, Márcia Regina; BOSCAINI. Anemia no Brasil: até quando. Revista
Brasileira de Ginecologia Obstétrica, Rio de Janeiro, v. 30, n. 9, p. 42931, set. 2008. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/rbgo/v30n9/v30n9a01.pdf>.
Acesso em: 18 out. 2010.
Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.3 - N.2 - Nov./Dez. 2010.
Download

percepção de gestantes quanto o ácido fólico e sulfato