UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO RURAL CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO RURAL E AGROECOLOGIA IDEOLOGIA INDIVIDUALISTA E COOPERATIVISMO RURAL NA GRANDE SANTA ROSA JOSÉ CARLOS BERTHOLDI Porto Alegre, novembro de 2001 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO RURAL CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO RURAL E AGROECOLOGIA IDEOLOGIA INDIVIDUALISTA E COOPERATIVISMO RURAL NA GRANDE SANTA ROSA JOSÉ CARLOS BERTHOLDI Monografia apresentada como requisito para obtenção do título de Especialista em Desenvolvimento Rural e Agroecologia Orientador: Prof. Dr. Ivaldo Gehlen Porto Alegre, novembro de 2001 AGRADECIMENTO Este momento é ímpar e não poderia passar sem registro. Agradeço à Direção da EMATER pela oportunidade. Assim como ela, também compreendo a reciclagem qualitativa como necessária para suprir deficiências, enquanto profissional da extensão rural. Agradeço ao professor Ivaldo Gelhen, pois sem sua humildade e enorme sabedoria, impossível seria a realização deste estudo. Aos demais professores e funcionários do PGDR, meu agradecimento, pois nos acolheram com respeito, presteza e responsabilidade. Aos meus colegas, obrigado pela boa convivência e relação de estudos. SUMÁRIO INTRODUÇÃO.......................................................................................................6 1 – CAPITALISMO E INDIVIDUALISMO.........................................................16 1.1 Gênese ......................................................................................................16 1.2 Princípios gerais ......................................................................................21 1.2.1 Individualismo.......................................................................................21 1.2.2 Liberdade..............................................................................................23 1.2.3 Propriedade privada............................................................................25 1.2.4 Igualdade ..............................................................................................26 2 - APARELHOS IDEOLÓGICOS DE MANUTENÇÃO E DE REPRODUÇÃO DA SOCIEDADE....................................................................29 2.1 Cooperativas ............................................................................................30 2.1.1 Cooperativismo, agricultura familiar e desenvolvimento rural......31 2.1.2 A escola e a qualificação profissional..............................................40 2.1.3 Difusão, comunicação.........................................................................42 3 – COOPERATIVISMO.....................................................................................43 3.1 História – origem, evolução e crise ......................................................43 3.2 A região da Grande Santa Rosa, hoje .................................................54 3.3 Individualismo e cooperativismo na região de Santa Rosa..............60 3.3.1 Cooperativas mistas municipais de produtores e consumidores agroecológicos na Grande Santa Rosa ...........................................................65 3.3.2 Análise reflexiva do contexto histórico do cooperativismo, no modelo capitalista ................................................................................................66 3.3.3 Associação e cooperativas mistas agroecológicas de produtores e consumidores....................................................................................................72 4 - DILEMA DO COOPERATIVISMO AGRÍCOLA FAMILIAR: AGRICULTURA CONVENCIONAL X AGRICULTURA AGROECOLÓGICA ................................................................................................................................76 CONCLUSÃO.......................................................................................................85 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................97 RESUMO A formação do indivíduo cooperado pressupõe a construção em cooperação de um “novo” agricultor familiar como forma de viabilizar o desenvolvimento rural sustentável e de formas diferenciadas de associativismo, a partir do conhecimento e da compreensão da sociedade do individualismo. A finalidade desta monografia é resgatar o individualismo através da história – desde sua gênese até os dias de hoje –; suas formas de manutenção, reprodução e perpetuação através dos aparelhos ideológicos; sua inserção no inconsciente das pessoas de forma subjetiva; sua disseminação na relação entre pessoas, nas famílias, nas instituições e no Estado como forma de conhecimento. Outrossim, visa a entender outras alternativas não-reducionistas que contemplem o coletivo, novas tecnologias e formas cooperativistas que possibilitem a viabilização da agricultura familiar e do desenvolvimento rural sustentável, dentro de uma visão sistêmica e holística. INTRODUÇÃO O empobrecimento do meio rural, hoje, na região da Grande Santa Rosa, e o individualismo existente têm acentuado e dificultado a viabilidade da agricultura familiar. Devido a isso, as dificuldades são crescentes na obtenção de resultados positivos no desenvolvimento rural sustentável com base nos princípios da agroecologia e, principalmente, em organizações associativas. Ao considerar o modelo de sociedade, baseado no individualismo, no egoísmo, na concentração e acumulação da riqueza, o que fazer para minimizar as conseqüências negativas desse modelo? Diminuir custos de produção, criar empregos e renda, melhorar as condições sociais e ambientais (a partir do desenvolvimento rural sustentável e do conhecimento e saber dos atores locais, enquanto possibilidades)? viabilizar a dinamização, tanto da agricultura familiar como de formas associativas (cooperativas)? Os objetivos propostos para este estudo são: discernir as contradições e formas de dominação do capitalismo, que prejudicam as mudanças de postura (do individualismo ao coletivo), na busca do desenvolvimento sustentável dos agricultores familiares; compreender o surgimento do capitalismo e sua história nos aspectos que reforçam o individualismo que gera acumulação; analisar as formas de perpetuação do individualismo, através do aparelho ideológico de dominação e alienação que é o cooperativismo; identificar as dificuldades e resistências para adoção de inovações em agroecologia, tanto nas formas associativas, como nas relações entre os agricultores familiares; produzir subsídios para/com as escolas e grupos de produtores formais e nãoformais, e processos de construção da cidadania, através da compreensão das estruturas de dominação como forma de conseguir a liberdade. Para tanto, trabalhar-se-á – hipótese – a ideologia do individualismo como fator restritivo de forte presença junto aos agricultores familiares para trabalhos em agroecologia e organizações associativas (cooperativas), sendo assim uma pré-condição a ser superada para o desenvolvimento rural sustentável. A ideologia do individualismo caracteriza-se por ser o principal fundamento do liberalismo, o qual se apresenta como libertador do homem através da valorização do trabalho que na realidade o escraviza. Com o fim do feudalismo e o início de um novo modelo social, o burguês individualista, egoísta e ganancioso passa a prevalecer nessa nova sociedade. Nos dias atuais, vive-se a globalização com o neoliberalismo, com a abertura política e econômica supranacional, ou seja, acima dos interesses políticos nacionais. O capitalismo não tem mais fronteiras, corre à revelia no mercado globalizado, que passa a ser o grande sujeito da história, tendo como função estimular e regular as relações sociais e econômicas na sociedade. Portanto, esse liberalismo passa a constituir um novo modelo de sociedade denominado capitalismo, que tem na cultura do individualismo, na concentração e na acumulação de renda (riquezas) sua alma, seu poder e perpetuação. Essa cultura do individualismo tem propiciado muitas dificuldades, especialmente no desenvolvimento sustentável, nas diversas formas associativas e na agricultura. Na região da Grande Santa Rosa, os acontecimentos históricos, desde sua colonização, são ricos em exemplos que demonstram a força do individualismo e seu poder de perpetuação. As cooperativas na região manifestam problemas de cooperação, desde suas origens. O espírito da cooperação entre pessoas cede lugar ao espírito do individualismo, do egoísmo. Como reverter tal situação para que a cooperação prevaleça nas relações sociais entre as pessoas, com mudanças no significado dos agricultores familiares, no desenvolvimento rural sustentável, especialmente nas cooperativas? Para esta monografia, fez-se uso de pesquisa bibliográfica com enfoque teórico abrangente e crítico1. O referencial empírico – o desenvolvimento da Região do Santa Rosa (RS) é o cooperativismo rural – foi levantado através de consulta bibliográfica e observações do autor2. A formação do indivíduo cooperado pressupõe, primeiro, compreender a sociedade atual do individualismo e suas conseqüências econômicas, sociais, ambientais, culturais e históricas e, após, determinar, em cooperação, possibilidades de sustentabilidade no modelo vigente (com mudança de postura dos cooperados), ou fazer a transição para um novo modelo (por exemplo, agricultura agroecológica), que favoreça e viabilize a cooperação solidária entre as pessoas e a construção da cidadania através do respeito ao outro e à natureza. Considerando a atual sociedade de trabalho, de consumo, de lazer e recreação como altamente informada e com conhecimentos, é que se procurou desenvolver uma metodologia de análise dialética. Segundo Manfred MAX-NEEF: 1 Os principais autores são: Marx, Locke e Rousseau. A experiência do autor está fundada na atividade profissional de 30 anos de prática extensionista junto à EMATER/RS, na Região de Santa Rosa. 2 “(...) evidências que confirmam, cada vez mais, que estamos metidos num conceito de normalidade que não passa de uma gigantesca loucura coletiva. (...) como humanidade, estamos gravemente doentes. (...) o essencial desta mega-crise de pseudo ou de completa e inconsciente demência coletiva, diria que se trata de um mundo em que aprendemos a acumular muitíssimos conhecimentos, sabemos muito, mas compreendemos muito pouco” (Max - Neef, 1992, p. 19). Atualmente, nossa sociedade detém os mais variados tipos de informações e conhecimentos. Porém, a qualidade da informação, sua veracidade, sua forma de ser, a que interesses serve e a maneira estilhaçada ou atomizada como é veiculada pertencem, muitas vezes, a fontes duvidosas. Sempre existe algo não revelado que está por traz e que, por isso, esconde a realidade na sua essência. Se as pessoas são determinadas ou influenciadas pelo ensino e por informações pontuais – voltadas para o individualismo – fragmentadas, como fazer para libertá-las? Seria manter o mesmo tipo de ensino e informações fragmentadas ou uma educação voltada para um contexto holístico, de modo que, ao conhecer o todo, a pessoa estaria capacitada a compreender, a determinar, a discernir o fato real, a verdade? Uma das coisas que se percebe é a dificuldade do trabalho em grupo. Por quê? Por que as pessoas são "treinadas" ao trabalho individual? O que está por traz desse simples fato? A verdade é que a sociedade capitalista está estruturada e direcionada ao individualismo, à competição, à ganância, à acumulação e à concentração de riquezas, ao poder e ao egoísmo em ter. Se uma sociedade está centrada no individualismo, o ensino contempla o indivíduo em detrimento do grupo, do coletivo e outras formas de cooperação. Quanto mais as pessoas se dividirem e competirem entre si, maior será o poder daquelas que já usufruem desse poder. Como diria WEBER: dividir ao máximo para manter o poder. O ensino é um dos principais instrumentos ideológicos para a manutenção do poder no atual contexto. Para tanto, a sociedade deve ser entendida como algo estático, como se outro modelo fosse impossível. É o que aí está. As pessoas, quando fracassam, (conforme valores dessa sociedade capitalista) são levadas a crer que o fracasso deve-se a elas e não ao modelo de sociedade. Desde os primeiros anos escolares, elas são ' treinadas'' nas escolas a comportarem-se de acordo com as necessidades dessa sociedade capitalista industrial. Elas devem ser obedientes, cumpridoras de horários, repetitivas e resistentes para a realização do mesmo trabalho por longos períodos. A sociedade atual em que se vive representa 200 anos de alienação, proveniente da 1° e 2º Revolução Industrial. Como conseqüência, o ensino é conduzido à semelhança dos processos industriais pertinentes à época. O ensino é para reproduzir modelos repetitivos e alienantes à semelhança dos escravos, a serviço dos senhores. A sociedade atual seria, nessa perspectiva, uma sociedade intelectualmente escrava. O ensino e a educação devem continuar atrelados ao interesse das minorias ou estar voltados aos interesses da maioria? As informações e conhecimentos transmitem-se de maneira atomizada, pulverizada. Por isso, o homem não consegue compreender, discernir o real. O homem contemporâneo convive com uma sociedade consumista e individualista, somente vê possibilidade de viver nesse sistema desenvolvendo trabalhos alienantes, assim como o conforto, o descanso, o lúdico e o prazer, também alienantes. A cada dia as transformações são mais rápidas, levando o homem a buscar as informações e o conhecimento de maneira mais e mais intensa. O dinamismo e o domínio dessas transformações acontecem através de poucas pessoas (individualismo), que constroem a realidade e modificam a vida da coletividade, atingindo umas de forma direta e consciente, e outras de forma indireta e inconsciente. Na esfera econômica, tem-se o neoliberalismo, fundamentado em interesses de poucos países ricos, em detrimento de muitos países pobres. O Estado retira-se completamente da economia, deixa-a para a iniciativa privada, a qual ocupa todos os espaços sociais. O grande sujeito passa a ser o mercado, que determina tudo: a vida das pessoas, sucessos, fracassos. O que importa é o lucro, como determinante do valor egoísta das pessoas e de seu individualismo. Como conseqüência à lógica do processo do individualismo tem-se, de um lado, concentração e acumulação de poder e de riqueza; do outro, concentração e acumulação de miséria. Na esfera política, a globalização e a mundialização da economia produz oligopólios transnacionais, que tencionam a formação de fortes blocos econômicos entre países ricos, que dominam outros países unificados, em blocos de menor importância econômica. A moeda forte é o dólar, os preços dos produtos internos, nos países dependentes, são determinados pelos países dominantes. A isso se denomina “socialização dos mercados”. Na esfera ideológica que se fundamenta em um único pensamento: o mercado único como capaz de regular as ações entre pessoas e países, considerado como a única possibilidade de regular, controlar e proporcionar a justiça social, privilegiando a livre iniciativa e a concorrência de preços, a concepção do Estado de Bem-Estar Social é trocada pela de Estado "Mínimo", sem poder de regular o mercado. Essa lógica é imposta aos países dependentes, enquanto que os países dominantes – através de benefícios e incentivos especiais às exportações e importações – beneficiam produtos e produtores, compram empresas estatais desses países dominados. Com a perda de suas estatais, esses dependem cada vez mais dos países dominantes que regulam a economia através dos mecanismos mundiais como OMC (Organização Mundial do Comércio), FMI. (Fundo Monetário Internacional). É a concentração e acumulação de riquezas dos países centrais, caracterizando uma forma de individualismo, uma vez que, no interior dessas economias, o individualismo apodera-se dos lucros e do poder. Considerando a crença no "fim da história", em que o capitalismo é o único modo de produção possível para a humanidade, em detrimento ou com a decadência do socialismo real, dentro dos determinantes da pós-modernidade, pode-se dizer que os jovens não têm preocupação com o passado e nem com o futuro; o que interessa é o presente, o imediato, o prazer, os quais podem ser saciados pelo consumismo e pelo individualismo do ter. Os jovens apresentam o signo do ''ter'', do prazer, do ser igual ou superior aos outros. A sociedade exige, determina, sufoca e aliena os jovens (as pessoas), instiga-os ao prazer, ao consumo e ao individualismo através das determinações da informação social massificadora. Ao mesmo tempo em que a sociedade exige dos jovens conhecimento e informações, lança obstáculos através de infindáveis exigências burocráticas estereotipadas. Por isso, ao invés de jovens interessados, buscando conhecimento, formam-se jovens para o desânimo e para a apatia quase generalizada. Nos países de terceiro mundo, os meios de comunicação de massa são importantes instrumentos de dominação ideológica. A elite utiliza-os para alienar, desviar a atenção, estimular a violência, e para a acomodação do povo através de mensagens decifradas ao consumismo, ao individualismo e ao lazer. Nesse contexto – de contradições e interesses de minorias – a escola se encontra e desenvolve suas práticas pedagógicas como forma de dominação e de reprodução da sociedade. As relações de poder, de contradição, de ganância, de acumulação e concentração de renda, próprios do individualismo, somente serão suplantadas por novas propostas e soluções se questionadas na sua essência. A proposta deste trabalho parte do pressuposto de a educação ter como objetivo a formação do indivíduo cooperado através do conhecimento da realidade que o circunda (sociedade do individualismo) e da construção em cooperação da liberdade e cidadania. A idéia não é desenvolver receitas de como proceder nessa construção de um novo cidadão, mas procurar compreender (conforme descrito anteriormente) o que deve ser evitado na busca de um novo modelo de sociedade. A construção do novo modelo pressupõe que seja uma construção social e em cooperação. O capítulo I caracteriza a gênese do capitalismo e seu fundamento maior, o individualismo, complementado pelo direito à liberdade, à igualdade e à propriedade privada. A abordagem é precedida por considerações sobre o que gerou as bases da sociedade contemporânea. Esta produziu efeitos contraditórios, tais como: a pobreza, a riqueza, a ganância, o egoísmo, a acumulação, a concentração e o individualismo nas relações sociais. Estas contradições permeiam a sociedade como um todo. O capítulo II trata questões referentes aos aparelhos ideológicos de manutenção e de reprodução da sociedade, fazendo referências e análises aos que possibilitam e fundamentam o continuísmo do modelo egoísta e individualista, tais como: as cooperativas; o cooperativismo, a agricultura familiar e o desenvolvimento rural; a escola e a qualificação profissional; e a difusão e comunicação. O capítulo III faz um resgate histórico da origem, evolução e crise do cooperativismo enquanto possibilidade de um modelo alternativo ao capitalismo. Na região da Grande Santa Rosa, o início da colonização é caracterizado por momentos difíceis, tornando a cooperação uma constante. Depois de vencidas as dificuldades dos pioneiros e com a modernidade a partir da Revolução Verde, o espírito do individualismo latente nos colonizadores vem à tona. A agricultura diversificada cede espaço à agricultura especializada, as cooperativas mistas deixam de existir ou são absorvidas pelas cooperativas tritícolas e a cooperação então consolidada é suplantada pelo individualismo. O modelo concentrador e excludente tem seu auge na década de 70. Os anos 80 e 90 caracterizam momentos de estagnação e de aumento da miserabilidade, tanto na cidade quanto no ambiente rural. Como forma de contornar os problemas e as conseqüências do individualismo, hoje, na região da Grande Santa Rosa, geram-se alternativas para a agricultura familiar através do desenvolvimento rural sustentável de novas formas associativas que contrapõem o individualismo ao indivíduo coletivo. O capítulo IV trata do dilema agricultura convencional x agricultura agroecológica, vivido pelo cooperativismo agrícola familiar. Aborda as dificuldades e as contradições inerentes ao cooperativismo, atrelado entre o individualismo e as formas de cooperação. As cooperativas atuam em um contexto capitalista, disputando e competindo entre si e outras empresas preços, produtos, clientes e tecnologias reducionistas e excludentes (agricultura convencional). Essas contradições, na realidade, são o dilema do cooperativismo agrícola familiar. A proposta é de mudança, transição para uma nova matriz tecnológica (agricultura agroecológica), que viabilize a agricultura familiar e suas formas de cooperação. 1 – CAPITALISMO E INDIVIDUALISMO 1.1 GÊNESE A gênese do capitalismo e individualismo reporta a uma leitura da Questão Judaica, de Karl Marx, que caracteriza o fim de um modelo – ou período – e o início de outro. O modelo que finda é o feudal e o que inicia é o capitalismo. O feudalismo vinha sendo minado por dentro desde o século XV, ocasionando mudanças nas relações sociais. A riqueza e o poder então se concentrava nas mãos da nobreza fundiária (junto com o clero, eram os donos das terras). Surgem as vilas (hoje cidades). Os grandes descobrimentos marítimos e o desenvolvimento do comércio caracterizam uma forma pré-capitalista. É o período de grande expansão do comércio, da acumulação, concentração e exploração de outros povos sob a denominação colonial. Esses movimentos enfraquecem o Estado cristão, que passa a ser pressionado pela burguesia (comerciantes). Surge o dinheiro (entre o século XII e XV) e as riquezas passam às mãos da burguesia. Segundo SALINAS: ''Pela contínua penetração no aparelho produtivo (que ajudou a criar), manobrou política e ideologicamente entre as classes, firmando-se definitivamente como expressão não só econômica, mas política '' (Salinas, 1994, p. 43). O Estado Feudal que caracterizava uma organização da vida do povo não considerava a possessão e o trabalho no nível social, mas a sua separação do Estado, e os constituía em sociedades especiais dentro da sociedade. No seu interior, desenvolvem-se, no final do período feudal, novas formas de organização e vida próprios da burguesia, como a possessão, a família, o tipo e o modo de trabalho que se equiparam ao nível de elementos de vida estatal feudal, no que se refere à forma de propriedade territorial de estamento ou de comunidade. Estes elementos determinavam, por sua vez, as relações entre o indivíduo e o conjunto do Estado, logo, as relações políticas de separação e exclusão das outras partes integrantes da sociedade. Entretanto, as funções e condições de vida da sociedade civil continuavam a ser políticas, mas no sentido feudal. Os indivíduos eram excluídos "do conjunto do Estado e convertiam a relação especial de sua comunidade com o conjunto do Estado em sua própria relação geral com a vida do povo, do mesmo modo que convertiam determinadas atividades e situações burguesas em sua atividade e situação gerais" (Marx,1991, p. 48). Esta organização leva a unidade do Estado através do poder geral manifestado como incumbência especial de um rei dissociado do povo e de seus servidores enquanto consciência e vontade. Com a emancipação política e queda do poder da igreja, dissolvese a sociedade feudal em que repousa o Estado. Tem-se o fim e a dissolução do poder senhorial. É a revolução política provocada pela sociedade civil (sociedade burguesa) que busca novas formas de organização de produção e de sociedade. A revolução política acaba com o poder senhorial, torna os assuntos do Estado os assuntos do povo (sociedade civil), constitui e torna o Estado político de caráter geral em Estado real, com o desmantelamento de toda a organização da velha sociedade formada por estamentos, corporações, grêmios e privilégios que são outras das tantas separações entre o povo e sua comunidade. Conforme MARX: "A revolução política suprimiu, com ele, o caráter político da sociedade civil" (Marx, 1991, p. 48). A sociedade civil passa a constituir, de um lado, os indivíduos e, do outro, os elementos materiais (propriedade privada) e espirituais (religião e cultura) que formam o conteúdo de vida civil destes indivíduos. A revolução política liberta das cadeias o espírito político, que estava cindido, dividido e detido nos vários compartimentos da sociedade feudal, unindo o espírito político desses compartimentos e constituindo uma esfera da comunidade, tornando os elementos especiais da vida civil de responsabilidade geral do povo e com vistas à independência ideal. Deixa de existir a representação da relação do geral entre o indivíduo e o conjunto do Estado. Passa a valer a responsabilidade pública que se converte em responsabilidade geral de todo indivíduo e a função pública em sua função geral. O idealismo do Estado é simultâneo à consagração do materialismo da sociedade civil. Sacode-se o jugo político e rompem-se, ao mesmo tempo, as cadeias que aprisionavam o espírito egoísta (e individualista) da sociedade civil. Logo, a emancipação política é a emancipação da sociedade civil em relação à política. A Europa feudal apresentava, de região para região, características intrínsecas e peculiares no que se refere às articulações e alianças entre as distintas classes sociais. SALINAS faz a seguinte colocação: "Na Inglaterra, para exemplificar, esse jogo cristalizava alianças entre a burguesia e a nobreza, desempenhando esse importante papel político. Na França, as lutas entre a burguesia e a nobreza não associavam combinações desse tipo – o tecido social e político era mais complexo, se considerarmos o papel desempenhado pelos camponeses, pequenos proprietários rurais, etc" (Salinas, 1994, p. 42). Com o fim do feudalismo, tem-se a constituição do Estado político e a dissolução da sociedade burguesa em indivíduos independentes (Marx, 1991), cuja relação tem como base o direito, ao contrário das relações de privilégios que caracterizavam os homens no feudalismo (sociedade dividida em estamentos e grêmios). O homem da sociedade civil, o homem não-político, surge como homem natural. Os direitos do homem surgem como direitos naturais, decorrente de a atividade consciente de si mesma se concentrar no ato político. O homem egoísta (e individualista) é o resultado passivo localizado na sociedade dissolvida, objeto de certeza imediata, logo, objeto natural. A revolução política que conduz à emancipação política dissolve a vida burguesa em partes, sem criticá-la. A revolução política, que não deixa de ser uma revolução da sociedade burguesa, conduz-se em relação ao mundo das necessidades, do trabalho, dos interesses particulares (do individualismo), do direito privado, como estando frente à sua base de existência, frente à sua base natural, portanto. De acordo com Marx (1991), o homem membro da sociedade burguesa é considerado como homem (natural) na sua existência sensível e individual imediata (individualismo), ao passo que o homem político é apenas o homem abstrato, artificial, alegórico, moral. O homem real é reconhecido sob a forma de indivíduo egoísta, enquanto que o homem verdadeiro é reconhecido sob a forma de cidadão abstrato (cidadão do Estado). Portanto, é fundamental compreender o processo de transição do modelo Feudal para o modelo Capitalista e as mudanças decorrentes na organização da sociedade e na vida econômica das pessoas. Esse processo de transição, convém caracterizar de forma explícita, é o momento da passagem do homem egoísta e individualista de um modelo a outro. Hoje, esse homem é o arquétipo (padrão) do neoliberalismo. Para MARX: “A liberdade do egoísta e o reconhecimento desta liberdade são a expressão do reconhecimento do movimento desenfreado dos elementos espirituais e materiais que formam seu conteúdo de vida” (Marx, 1991, pp. 49-50). 1.2 PRINCÍPIOS GERAIS 1.2.1 Individualismo A emancipação política caracteriza a emancipação religiosa que passa do direito público ao privado. A religião, que antes congregava, unia os homens de forma genérica e em comunidade, formando o que Frederiq Hegel veio a denominar o espírito do Estado – essa mesma religião, ao ser banida para o direito privado, se converte no espírito da sociedade burguesa, e as manifestações decorrentes são o egoísmo, no espírito do "bellum omnium contra omnes" (Guerra de todos contra todos). A religião deixa de ser a essência da comunidade para transformar-se na essência da diferença. Ela é a manifestação da separação do homem de sua comunidade (o espírito do Estado) e da separação entre os homens (no espírito da sociedade burguesa). O fim da sociedade feudal abre a passagem da religião para a vida privada, quando acontece também a cisão entre o público e o privado. Esse homem que passa a constituir a vida privada dá origem à sociedade civil, e é nessa sociedade, nessa esfera, que surge o homem egoísta e individualista. No que se refere à sociedade feudal e a esse homem egoísta (e individualista), MARX faz a seguinte observação: "A sociedade feudal estava dividida, em seu fundamento, no homem. Mas no homem, tal qual ele se apresentava como fundamento, no homem egoísta. Este homem, membro da sociedade burguesa, é agora a base, a premissa do Estado político. E, como tal, é reconhecido nos direitos humanos" (Marx, 1991, p. 49). Esse homem forma um novo Estado denominado Estado liberal, cuja função é permitir a cada indivíduo possibilidades de desenvolver talentos e capacidades em competição com os demais. O individualismo tem por princípio acreditar que cada sujeito tem atributos diferentes e que, portanto, pode atingir situações sociais específicas de acordo com suas idiossincrasias. O individualismo pressupõe que cada indivíduo é responsável pela escolha voluntária que faz, sobre o que mais lhe interessa e aquilo de que é capaz, bem como pelo estágio de pobreza ou riqueza que alcança em sua vida. Para tanto, é importante que a autoridade não limite e sim que permita aos indivíduos desenvolverem suas potencialidades, de modo que cada um seja responsável pelo fracasso ou sucesso social e não da organização social. A doutrina liberal aceita a divisão da sociedade em classes; no entanto, rejeita os estratos sociais congelados (por exemplo, a sociedade estamental que inviabiliza a dinâmica de classes). Para John Locke, o progresso individual resultaria benéfico para a sociedade; conforme Jean-Jack-Rousseau, pensador e teórico liberal da democracia, esta visava à proteção dos direitos da maioria através da proteção do indivíduo coletivo. Enfim, o cidadão político. Ao analisar o pensamento de Locke e de Rousseau, e ao confrontar com o contexto capitalista (doutrina liberal) percebe-se claramente que desde sua origem até os dias de hoje, com a globalização, os governos, responsáveis pela organização social, optam pelo progresso individual ou de grupos privilegiados em detrimento da proteção dos direitos da maioria, gerando problemas sociais e ambientais generalizados. 1.2.2 Liberdade A liberdade é um princípio que empresta seu nome à doutrina liberal e está intimamente ligada ao individualismo. Quem não luta por sua liberdade individual? A partir da liberdade individual decorrem outras formas de liberdade: econômica, religiosa, política e cultural. A liberdade é um direito natural para a defesa da ação e das potencialidades individuais. Por outro lado, a não-liberdade é um desrespeito à personalidade (modo de ser, pensar) do indivíduo. O liberalismo usa do princípio da liberdade total entre os indivíduos. Por isso não considera privilégios conferidos a certos indivíduos em virtude do nascimento ou credo (o que faz a diferença não é o nascer rico ou pobre ou o credo que o indivíduo professa e, sim, os seus talentos e aptidões). O princípio da liberdade confere direitos iguais a cada indivíduo, de tal maneira que cada um possa atingir a melhor posição social em decorrência de seus talentos, aptidões e esforços. O progresso da sociedade como um todo condiciona cada indivíduo ao progresso econômico, ou grupos de indivíduos. Assim, Adam Smith acreditava que, se cada indivíduo conseguisse o máximo de bens para si, redundaria em uma sociedade melhor para todos. Para Cox, também, a: "Liberdade para o indivíduo significa que a este deveria ser permitido, ao menos em teoria, conseguir, para si próprio, o maior progresso, e que este progresso redundaria no maior benefício para a sociedade" (COX, 1973, p. 29). No que se refere às liberdades intelectual, religiosa e política, o liberalismo, “(...) sempre viu com maus olhos e desconfiança o controle sobre o pensamento e, na verdade, todo e qualquer esforço da autoridade do governo para impedir a livre atividade do indivíduo" (Laski, 1973, p.30). O liberalismo prega um Estado com menos poder; sua interferência na vida das pessoas será menor e maior será a liberdade do indivíduo e entre os indivíduos (o Estado intervém entre os indivíduos, está entre o homem e sua liberdade). Isto pode ser constatado na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e na Constituição Francesa de 1793, artigo 6: “A liberdade é o poder próprio do homem de fazer tudo aquilo que não conflite com os direitos do outro. A liberdade consiste em poder fazer tudo aquilo que não prejudique a ninguém”.3 A liberdade não aproxima o homem, não une, e, sim, o contrário, separa o homem de seu semelhante. Logo, a liberdade é o direito a esta dissociação do indivíduo delimitado. De acordo com MARX, esta concepção vê: “a liberdade do homem como de uma mônada isolada, dobrada sobre si mesmo" Em termos práticos: "A aplicação prática do direito humano da liberdade é o direito humano à propriedade privada" (Marx, 1991, p 42). Neste caso, a mônada (substância simples, uma ameba) isolada e dobrada sobre si, é o homem egoísta (e preocupado apenas consigo); enfim, é o homem individualista. Portanto, se todo homem se comportasse como uma mônada e em sua liberdade conseguisse o máximo do progresso econômico, toda a sociedade seria beneficiada pelo progresso. Considerando essa idéia de 3 Marx faz referência à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, no livro A Questão Judaica, 1991, p.42. liberdade, baseada na livre iniciativa, sem considerar outros elementos que estabelecem diferenças entre os indivíduos como, por exemplo, o nascimento, é possível estabelecer a cidadania no atual contexto liberal? 1.2.3 Propriedade privada A propriedade privada, enquanto princípio, é o fim de todo o indivíduo e também elemento fundamental da doutrina liberal entendida como direito natural de todo e qualquer indivíduo. Com a Revolução Francesa, a maioria dos representantes do povo reclamou o confisco e a redistribuição da propriedade. Devido à ilegalidade do ato em si, eles estariam desrespeitando o princípio da liberdade individual. Essa ação ilegal, por outro lado, justificaria a adoção de medidas de resistência por parte dos proprietários. Devido a esse tipo de circunstâncias, o liberalismo “(...) quase desde o primeiro momento de sua história, almejou limitar o âmbito da autoridade política, confinar os negócios do governo ao quadro dos princípios constitucionais e, portanto, tentou sistematicamente descobrir um sistema de direitos fundamentais que o Estado não fosse autorizado a violar. Tentou, sempre que pôde, impor aos governos o dever de proceder, em suas ações, pelo espírito da lei e não do arbítrio" (Laski, 1973, p.30). Alguns pensadores como Locke acreditam que o Estado existe para proteger os interesses do homem. Aquele homem que, pelo esforço, por suas aptidões e talentos, acumulou bens e propriedades, pois Deus fizera o mundo para "uso dos industriosos e racionais". (Locke, 1973, p.31) Logo, o Estado existe para proteger esse tipo de homem em sua exploração do mundo. Para a doutrina liberal (direito à propriedade é ter o direito de adquirir tantas propriedades quanto lhes convier), todo o indivíduo que trabalhe e tenha aptidões e talentos possui os elementos básicos e legítimos de progresso e ascensão social e de aquisição de riquezas. Para os liberais, é falsa a idéia da riqueza proveniente do nascimento. A declaração dos direitos do homem e do cidadão, em seu artigo 16, descreve sobre a propriedade privada. "O direito à propriedade é o direito assegurado a todo cidadão de gozar e dispor de seus bens, rendas, dos frutos de seu trabalho e de sua indústria como melhor lhe convier" (Marx, 1991, p. 43). Em outras palavras, o direito humano, nesta concepção liberal, é o direito que é respaldado ao homem egoísta de ter, de usufruir e de dispor de sua liberdade individual, de forma arbitrária, de seus bens, posses e propriedades em geral, mesmo que venha em prejuízo de outros homens. Na sociedade burguesa, não existe a comunhão entre os homens, mas sua disposição respaldada na liberdade individual e no interesse de cada um, na busca da riqueza, mesmo em detrimento da miséria do outro. 1.2.4 Igualdade A igualdade não significa, na doutrina liberal, igualdade de condições materiais, uma vez que os homens não são iguais em talentos e capacidades, também necessariamente não devem ser iguais em sua propriedade e riquezas. Para os liberais, como os homens não são indivíduos iguais, é impossível querer igualdade social entre eles. Para estes, a igualdade social não respeita a individualidade de cada um, e produz uma padronização nociva entre os indivíduos. São da opinião que este mundo é constituído de duas classes sociais: os ricos e os pobres. Os liberais acreditam que a igualdade social seria possível apenas com a intervenção autoritária. O que a doutrina liberal defende é a ''igualdade perante a lei" (Rousseau, 1973, p. 31). Essa igualdade defende que todos têm, por lei, iguais direitos à vida, à liberdade, à propriedade e à proteção das leis. Enfim, igualdade de direitos e igualdade civil entre os homens. De acordo com ROUSSEAU: “(...) em lugar de destruir a igualdade natural, o pacto fundamental (o Estado) substitui, ao contrário, por uma igualdade moral e legítima, o que a natureza tinha podido pôr de desigualdade física entre os homens, para que, podendo ser desiguais em força e em gênio, todos se tornassem iguais por convenção e de direitos" (Rousseau, 1973, pp. 31-32). Não se deve concluir daí que o princípio da igualdade é a eliminação das desigualdades sociais entre os homens e das diferenças de riqueza. Para Rousseau, é preciso entender que os graus de poder e riquezas não sejam absolutamente os mesmos e que o poder se encontre abaixo de toda violência, e que seja exercido conforme a posição social e das leis. Quanto à riqueza, o filósofo é da opinião que nenhum cidadão seja rico o suficiente para poder comprar o outro, e que nenhum seja tão pobre que seja obrigado a vender-se. A sociedade pensada por Rousseau caracteriza-se por ser uma luta entre uma tendência espontânea à desigualdade entre os homens, em virtude da própria "força das coisas" (Rousseau, 1973, p. 32), e o Estado, enquanto força regulamentadora que aponta na direção oposta, que busca a estabelecer a equalização. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, artigo 3, é um exemplo de regulamentação e equalização por parte do Estado. Segundo a declaração: "A igualdade consiste na aplicação da mesma lei para todos, quando protege e quando castiga”.4 Verifica-se, hoje, com o neoliberalismo e a globalização, o desemprego, a miséria e a degradação ambiental. Na época da promulgação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a pobreza era uma realidade que preocupava, hoje preocupa muito mais. O Estado antes era o agente de regulamentação e equalização social. Hoje, o mercado é o agente regulador. 4 Marx faz referência à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, no livro A Questão Judaica, 1991, p. 44. 2 - APARELHOS IDEOLÓGICOS DE MANUTENÇÃO E DE REPRODUÇÃO DA SOCIEDADE Toda sociedade ou agrupamento humano sobrevive em virtude da organização efetiva da produção para suprir necessidades básicas (vestir, comer, morar...). Esse modelo de vida necessita, para sua permanência, manutenção e reprodução de vários mecanismos ou aparelhos, com a finalidade de fortalecer, legitimar e consolidar toda e qualquer forma de organização social. Todos os mecanismos ou aparelhos passam a denominar-se aparelhos de manutenção e “aparelhos de reprodução da sociedade” (MARX), ou grupo social. Os aparelhos de manutenção e de reprodução são classificados em duas categorias básicas e fundamentais: aparelhos repressivos e aparelhos ideológicos. Os aparelhos repressivos têm a finalidade de manutenção e reprodução da sociedade e recorrem à força e à violência. São estruturados para manterem a ordem social vigente. Destaque para: as polícias, as prisões, os tribunais e o exército. Esses aparelhos, apesar de sua função, não são objetos de estudo neste trabalho. Os aparelhos ideológicos usam da persuasão e da sutileza como formas de manutenção e reprodução do sistema social estabelecido. Entre os aparelhos ideológicos, destacam-se: a família, a escola, as igrejas, as leis (o direito), os meios de comunicação social (m.c.s.), os sindicatos (ligados ao poder dominante), as cooperativas, os partidos políticos, as entidades assistenciais, e outros. Neste capítulo, será analisado o aparelho “cooperativas”. 2.1 COOPERATIVAS As cooperativas, pela sua estrutura, organização e filosofia, representam um importante instrumento para o desenvolvimento dos municípios, principalmente daqueles em que o perfil econômico é rural, atingindo com isso a grande maioria no Rio Grande do Sul. Porém, devido à enorme eficiência e eficácia que o sistema cooperativo dispõe, de congregar numa mesma organização trabalho, capital, administração, tecnologia e natureza, e o perigo que representa aos donos do capital, é que se fazem necessárias algumas medidas para evitar a eficiência do sistema. Para tanto, os donos do capital interferem, através do Estado, com uma série de medidas, em diversas esferas: jurídica, política e ideológica. O maior problema ocorre na esfera jurídica devido ao fato de a legislação cooperativista não ser realizada por seus associados. A legislação é feita por um órgão nomeado pelo governo. Quando a interferência das cooperativas no mercado não agrada aos donos do capital, por meio do Estado, tratam de dificultar a ação das cooperativas. Na esfera política, o Estado interfere para tirar vantagens políticopartidárias, nomeando pessoas para atuar nos órgãos controladores das cooperativas. Essa interferência decorre de troca de favores e apoio político; por isso, as cooperativas frustram seus fins e princípios fundamentais de neutralidade político - partidária. Na esfera ideológica, ocorre a principal interferência do Estado. Os meios de comunicação são utilizados para a divulgação e transferência das relações dominantes do modo de produção capitalista para as cooperativas. Dessa maneira, os sócios que contribuem mais se julgam no direito de tomar decisões em nome da cooperativa. Os que movimentam menos produção acham que os sócios que movimentam mais devem mandar mais. A idéia capitalista está implantada. É a da dominação: manda quem tem mais. A constatação da perpetuação dos dirigentes no poder constitui uma forma de perpetuar formas de gestão, não necessariamente as mais eficientes. Outro problema, o mais grave de todos, é a falta de uma educação cooperativa. A educação é relegada em favor de saberes práticos mais suscetíveis à dominação. Uma cooperativa com a devida orientação pode possibilitar, efetivamente, transformações sociais. Para isso, conta com uma base econômica própria – são donos do capital, de sua mão-de-obra, da gestão administrativa e tecnológica – que, por sua vez, lhe dá certa autonomia em relação ao Estado. 2.1.1 Cooperativismo, agricultura familiar e desenvolvimento rural A agricultura familiar no Brasil é um segmento que representa aproximadamente 2,5 milhões de estabelecimentos familiares consolidados, responsáveis pela produção de 70% do alimento no país. Outros quatro milhões desse tipo de estabelecimento são periféricos, de subsistência, onde os locais são mais de residência e com mão-de-obra desempregada ou sub-empregada. A estrutura da agricultura familiar, especificamente a unidade familiar de produção, recebe, de forma direta ou indireta, influência das relações básicas da sociedade (modo de produção). Tanto na família como na escola percebe-se a influência das práticas educativas básicas. Uma é condicionadora e forma indivíduos para a dominação. A outra é dialogal e prepara as pessoas para a liberdade. Assim, na família, o pai é o chefe e à mulher cabe a submissão. Entre os filhos, à semelhança da sociedade, está implícita uma hierarquia de poder, do mais velho sobre o mais novo. O mais velho sabe mais. No critério gênero, ao masculino é permitido certos comportamentos e regalias que são negados ao feminino. A agricultura familiar tem passado por inúmeras crises, tendo inclusive seu desaparecimento anunciado por Marx no século XIX. No momento atual, ela passa por uma crise. As transformações atingem a sociedade como um todo, porém a agricultura é o setor que mais sofre, devido à incumbência de produzir alimentos baratos, por não possuir mecanismos próprios de comercialização e também por não dispor de política de preços mínimos. Os agricultores pobres são prejudicados, são os primeiros a não se viabilizar e a perder a posse da terra. O relatório da FAO, de 1995, indica a existência de três tipos de agricultores familiares na região sul do Brasil: os agricultores consolidados; os em transição e os periféricos (em exclusão). Os agricultores consolidados representam 30% desses. Estão incorporados e consolidados ao sistema através da adoção de novas tecnologias e na racionalidade da gestão da unidade produtiva. Estão aptos a impelir seus próprios empreendimentos e a sobreviver. Para tanto, deve existir uma política de preços e financiamentos de médio e longo prazo. Essa categoria tem, em média, 90 salários mínimos de renda anual por unidade familiar. Os agricultores de transição correspondem a 30% do total. Acompanham a evolução tecnológica de maneira parcial e apresentam dificuldades de competir no mercado nas condições atuais neoliberais. Estão sem condições, descapitalizados, necessitam de recursos externos à propriedade, com juros subsidiados, assistência técnica gratuita, seguridade agrícola, política de preços mínimos compatíveis com custos de produção e garantia de renda. Essa categoria de agricultores tem uma renda média de 22 salários mínimos anuais, por unidade familiar. Os agricultores periféricos correspondem aos outros 40%. Eles não conseguem acompanhar o processo evolutivo de novas tecnologias e não possuem condições de manter uma vida digna. O estado de miséria absoluta é tão grande que não conseguem produzir por conta própria. Essa categoria possui uma renda média anual de dois salários mínimos por unidade produtiva. Esses agricultores necessitam de assistência técnica na área da saúde, educação e agricultura. O planejamento, o acompanhamento e o crédito subsidiado devem contemplar um programa nacional que possibilite a essas famílias recuperarem a dignidade e a cidadania. No início dos anos 60, a Revolução Verde é implantada no país através da difusão dos pacotes tecnológicos. O processo é articulado pelo capital internacional aliado ao capital nacional, entre os quais destaca-se a oligarquia rural. O complexo industrial internacional tem seus mercados ampliados e a oligarquia rural consegue amenizar a ebulição dos movimentos sociais. O pacote tecnológico é constituído e organizado através: da mecanização agrícola; insumos químicos e biológicos; sementes melhoradas; crédito rural subsidiado; estrutura de ensino; pesquisa e extensão rural. De acordo com BRACAGIOLI, o "(...) modelo mecânico, a engrenagem, funcionaria da seguinte forma: o produtor produz matérias primas alimentares e consome bens de capital; o extensionista difunde inovações e viabiliza o crédito rural; a pesquisa testa pacotes, dosagens, aplicações e controles; o Estado financia e o complexo industrial produz insumos químicos, biológicos e mecânicos. Como resultado desta máquina, teríamos aumento do número de empregos, da produção e produtividade agrícola e, conseqüentemente, auto-suficiência alimentar e excedentes agrícolas negociáveis no mercado externo, gerando diminuição da miséria e pobreza e, portanto, desenvolvimento sócioeconômico" (Bracagioli, 2000, p.3). A modernização da agricultura ocasionou problemas sociais, econômicos, fundiários, tecnológicos e ambientais. Os problemas constatados têm sua origem no modelo de desenvolvimento adotado no país. Por um lado, tem-se acumulação de renda e riquezas e, por outro, aumento desmedido da pobreza e miséria. Basta ver o êxodo rural: 40 milhões abandonam o campo e vão para as cidades. Nas cidades há o declínio dos salários em virtude do excesso da oferta de mão de obra, proveniente do campo. Essa pobreza gerada em virtude – em decorrência da acumulação e concentração de riquezas em mãos de uma minoria – dá ineficiente distribuição dos benefícios do desenvolvimento gerando subdesenvolvimento. A Revolução Verde, em seu auge, anos 70, era entendida como a salvação da lavoura que levaria ao desenvolvimento agrícola. A idéia de desenvolvimento agrícola (indicadores de crescimento, tais como: mais tecnologia; aumento de produção e produtividade; aumento de competitividade e renda) tinha embutido a idéia de “progresso técnico como se fosse desenvolvimento rural”. (Graziano da Silva). No período de 1940 -1970, a discussão teórica e conceitual foi em torno do crescimento econômico (crescimento interno do PIB e renda média per capita nacional), indicadores que determinavam o nível de bem-estar da população. A idéia de desenvolvimento passa a ser idéia de crescimento econômico. No final desse período percebe-se que o tão desejado crescimento foi apenas para uma minoria. Esse modelo capitalista, ao contrário de sua doutrina – fundamentada no individualismo para promover a riqueza, posto que essa riqueza ou progresso social resultaria benéfico a todos – possibilita concentração e acumulação de rendas e propriedades privadas nas mãos de poucos indivíduos. Na realidade, os recursos naturais, as propriedades e os meios de produção são finitos e não infinitos como pensa o homem capitalista (CASTORIADES). Então, a propalada riqueza de cada um que, devido a seu esforço, seria a riqueza de todos, não acontece. O que ocorre é o egoísmo e o individualismo que acumula e concentra cada vez mais riquezas em detrimento do restante da sociedade. Na década de 80, a discussão teórica – que antes era em torno do conceito de crescimento – passa a ser sobre desenvolvimento rural (maior importância ao social). A partir de 1990, a crise alastra-se em virtude da abertura dos mercados (modelo neoliberal) e concorrência internacional nos custos de produção, nos preços e nos produtos ofertados. Esse período caracterizase fortemente pela globalização e o neoliberalismo da economia e da sociedade. No Brasil, tem-se a ascensão e queda de Collor (política de abertura, intervenção e desmonte do aparato público; extinção da EMBRATER e promoção alfandegária para a produção estrangeira). O crédito público é escasso e caro, os custos de produção são altos, os preços dos produtos agrícolas, baixos. O produtor, como na década de 80, continua a se descapitalizar. Surge a venda antecipada das produções agrícolas. Atividades não-agrícolas (pluriatividade) de manifestação tímida, na década de 80, intensificam-se devido ao aumento de dificuldades no atual contexto, como forma de manutenção da unidade familiar. O crédito (de maneira geral) continua escasso e caro. Surgem fontes privadas de crédito agrícolas; as cooperativas e os complexos agroindustriais passam a financiar os agricultores. A situação é difícil e uma das soluções encontradas foi a venda antecipada da produção agrícola. Nesse período – assim como nos anos 80 – o governo apenas estabelece políticas públicas de crédito rural (PRONAF; política de estoques e preços mínimos e estoques AGF – Aquisição do Governo Federal), para sustentação e manutenção do modelo produtivista dos anos 60 e 70. A terminologia agricultura familiar é uma novidade conceitual sobre o ponto de vista político, cultural e social. Em termos empíricos, a agricultura familiar (trabalho, terra – própria ou não – e unidade familiar) de hoje é a mesma que tinha no passado outras denominações. O desenvolvimento rural sustentável é a preocupação e responsabilidade – sob o ponto de vista conceitual – para com a melhoria do bem-estar social das populações rurais e com o ambiente, possibilitando que as próximas gerações tenham e possam repassar as mesmas, ou melhores, condições sociais, econômicas, ambientais e culturais. Em outubro de 1996, fruto do trabalho de reivindicação e organização sindical, é criado o PRONAF – Programa Nacional de Agricultura Familiar – a fim de beneficiar agricultores familiares em transição. Como resultados da ação sindical, a partir de meados dos anos 90, outros benefícios são conseguidos e estendidos – do setor urbano ao rural. Entre os principais, destacam-se os direitos à aposentadoria e à saúde. A agricultura familiar deve ser encarada sob o ponto de vista estratégico, como forma de propiciar vantagens para o desenvolvimento rural, tanto aos agricultores como à sociedade em geral. Ao tratar a questão da agricultura familiar, é impossível não fazer referência aos aspectos culturais, históricos, sociais e econômicos, deste que é um importante segmento de vida da humanidade. Desde os primórdios da humanidade, até hoje, a questão alimentar acompanhou o homem em sua trajetória através dos tempos. O adágio de que a natureza sempre foi pródiga para com o homem e o homem não foi pródigo com a natureza se verifica no modelo atual de agricultura, centrado no produtivismo, na busca de vantagens individualizadas. Em nome da "ciência e da tecnologia", em nome de uma "economia de mercado" e em nome de "falsas necessidades", o homem não foi sábio o suficiente, até o momento, para perceber essas contradições e, a partir daí, estabelecer novas relações morais e éticas de convivência entre os homens e a natureza. Quando o homem perceber como interagir com uma parte desse maravilhoso todo que é a natureza, saberá respeitá-la, valorizando-a e criando condições para que a ciência e a tecnologia não estejam em confronto com a natureza e, sim, passem a entender e a somar, possibilitando vida digna a toda a humanidade. LINO chama a atenção que: "Autores vêm alertando para a necessidade de uma nova postura científica, que chamam de 'nova aliança' e busca integrar a cultura científica tecnológica com a cultura científica de caráter humanista" (Lino, 1996, p.21). Por outro lado, há a problemática da degradação social e ambiental. A social através da contaminação dos alimentos com reflexos diretos sobre a saúde da população e o êxodo rural como forma de exclusão dos agricultores familiares do campo; a degradação ambiental, devido aos desequilíbrios da natureza provocados pela poluição (da água, ar e terra) trazendo, com isso, reflexos em todas as áreas da economia e da sociedade. Dá-se continuidade ao desequilíbrio da natureza, com aplicações maciças de venenos e adubos sintéticos, ou inicia-se imediatamente a caminhada da sustentabilidade econômica, social e ambiental, com produção de alimentos limpos, ecológicos, com reflexos na saúde dos consumidores. Para tanto, é importante que o fim de todo processo, ou de qualquer processo, seja o homem e não o mercado como o grande condutor das relações humanas. Esse processo dialético, meio e fim, segundo WEBER (1944): "Prevê que à medida que mais e mais pessoas orientem suas ações no sentido de fazerem coisas mais eficientemente, de atingirem seus fins pelos meios mais econômicos e precisamente calculados, ocorre que o que era um meio, acaba se constituindo num fim. Ou seja, as ações das pessoas, cada vez mais deixam de ser orientadas por valores" (Weber, 1944 apud Miranda, 1997, p. 12). Ao tratar da agricultura familiar, é impossível não relacioná-la aos novos tempos e a essa nova conjuntura que assola o país e o mundo. É dentro desse novo contexto econômico-mundial, de globalização, que se deve procurar espaço para esta atividade, que acompanha o homem, desde os mais remotos tempos. Após o processo de agricultura convencional (para alguns, industrial), dita científica, reducionista, que demarcou nosso território com o maior êxodo rural acontecido no mundo, 40 milhões de agricultores abandonaram o campo nos últimos 40 anos, transformando os centros urbanos em cinturões de miséria. Essa mesma agricultura convencional (industrial), através da biotecnologia, na ânsia de produzir alimentos em quantidade e qualidade, mas dentro de uma ótica de maximização capitalista, parece ter conseguido acumular problemas nessa área. Como resultado, têm-se alimentos aviltados em termos nutritivos, (podendo provocar danos à saúde) por possuírem valores nutricionais muito acima dos valores normais de cada cultura. Os alimentos produzidos pelos agricultores familiares em suas unidades produtivas respeitam a natureza de cada cultura. O mundo, através do Continente Europeu, já deu sinais mais do que evidentes na busca, na demanda por produtos naturais, em detrimento dos chamados alimentos de origem biotecnológica. A seguir, algumas das conseqüências dessa tecnologia de ponta: "(...) a população ainda aponta uma outra razão para a redução do consumo: o medo do mal da vaca louca, doença mais antiga, que atinge o gado britânico desde os anos 80, provocando degenerações no cérebro do animal. Em 1996, cientistas descobriram que o consumo de carne contaminada pelo mal da vaca louca pode provocar a doença de Creutzfeldt-JaKob, que afeta o cérebro do homem e mata (...) se espalhou pela Europa durante os anos 90." 5 5 Jornal A Folha de São Paulo, ÍNDICE GERAL, CADERNO ESPECIAL, 13 de maio de 2001. No Brasil, os sinais também são evidentes. O povo quer alimentos sadios, produzidos com tecnologias simples, eficazes, em equilíbrio com a natureza e dentro dos pressupostos de sustentabilidade econômica, social e ambiental. Por isso, a agricultura familiar deve ter seu espaço garantido enquanto produtor de alimentos. O que se constata, no momento, são prejuízos causados ao ambiente pela alta tecnologia de alimentos, com aplicações maciças de adubos e venenos químicos, causando problemas de toda ordem ao equilíbrio da natureza, afetando de maneira substancial o próprio homem, com uma infinidade de doenças degenerativas e até teratogênicas. A sociedade deve determinar que tipo de agricultura e de alimento quer para si, para suprir suas necessidades básicas. Aos poucos, percebe-se que a sociedade posiciona-se a favor da produção de alimentos com embasamento técnico e cientifico, respeitando o homem, a sociedade e o ambiente. Esta preocupação da sociedade é justa e procede no que se refere à produção e qualidade dos alimentos. Essas questões passam a preocupar a sociedade, que passa a exigir seus direitos através de suas organizações e representações, quer sejam: ONGs, instituições, órgãos oficiais, associações e cooperativas de consumidores. 2.1.2 A escola e a qualificação profissional A escola foi organizada e estruturada para funcionar semelhante a uma fábrica, para reproduzir e manter o capital. Logo, a escola é um aparelho criado e desenvolvido pela classe dominante, como forma de preservar o seu domínio e poder. Quando a escola não executar a política pela qual foi instituída, ou seja, de reprodução do capital, ela é fechada, mudada, ou reformada, porém não muda a estrutura. Então a função da escola é preparar mão de obra e reproduzir relações de dominação e de exploração. Muitas são as teorias de aprendizagem, no entanto apenas duas serão explicitadas por sua importância: a teoria comportamental e a teoria dialogal. A teoria comportamental, ou dos condicionamentos, como também é conhecida, parte do princípio que a aprendizagem se processa através de estímulo-resposta, no qual o conteúdo é aprendido pela imitação e repetição. A maioria das escolas adota essa metodologia. Ao professor cabe o saber e o ensinar, ao aluno o aprender. Essa metodologia não ensina o aluno a pensar e é justamente isto que o capitalismo quer. Por esse motivo, alunos e professores que não possuem esta compreensão são, de certa forma, alienados. A matriz dialogal, de Piaget, valoriza o saber do educando. Para ele, o contato da pessoa com o mundo possibilita organizar esquemas cognitivos ou lógicos, que possibilitam compreender a realidade dentro de um contexto maior. Esse contato com o mundo é o que Piaget denomina de processo dialético composto de assimilação e acomodação. A assimilação é o que vem de fora para dentro. A acomodação é o que vai de dentro para fora. É nesse momento que se dá o processo dialético de acomodação e assimilação. Esse é o momento em que se cria o esquema mental cognitivo e lógico. O processo é subjetivo e varia de pessoa para pessoa. No primeiro caso, a resposta é dada, enquanto que no segundo se faz a pergunta e é a pessoa que tem que procurar a resposta. Cada qual tem que buscar a resposta e construir seu próprio conhecimento. 2.1.3 Difusão, comunicação A comunicação é o principal aparelho ideológico de manutenção e reprodução da sociedade. Ela tem o poder de fazer a realidade e, ao construir a realidade, não o faz de maneira neutra. Essa construção virtual da realidade pressupõe serviços prestados a pessoas ou a grupos de interesse. O capitalista, se não controla os meios de comunicação, controla o conteúdo (notícias, filmes, enlatados para TV, artigos de revista); se não controla o conteúdo, controla a divulgação e a distribuição desse conteúdo (as agências de notícias, as distribuidoras de filmes e de material de comunicação); se não controla a divulgação e a distribuição, controla a publicidade e propaganda (comerciais de firmas internacionais que favorecem os meios de comunicação que estão a serviço de seus interesses); e, por fim, se nenhum dos controles funcionar, sobra o controle político através do governo. Na realidade, a comunicação é controlada tanto dentro como fora do país. A comunicação e o poder andam juntos. A cultura de um povo é sua própria existência, sua razão de ser, sua base e fundamentação. Ao perdê-la, este povo perde sua identidade e sucumbe perante os donos do poder (os capitalistas). Para os capitalistas ou seus representantes, é importante acabar com esse muro de proteção cultural como forma de estabelecer a dominação e a dependência do povo. Essa dependência, além de cultural, é também econômica e política. Elas andam sempre juntas. 3 – COOPERATIVISMO 3.1 HISTÓRIA – ORIGEM, EVOLUÇÃO E CRISE O cooperativismo surge num momento de extrema dificuldade, para os 28 tecelões de Rochdale e suas famílias que enfrentavam o desemprego e os baixos salários, em decorrência da introdução de máquinas na produção industrial. As relações capitalistas eram de supremacia em relação ao trabalho e de predomínio do privado sobre o coletivo e comunitário, ocasionando concentração de poder e de riqueza. Aos capitalistas, pouco importa a fome e a pobreza como decorrência do desemprego de seus operários. Para eles, o que interessa é o lucro, seu egoísmo e individualismo, não importando o outro. Diante dessas dificuldades, os tecelões e suas famílias – formando uma espécie de indivíduo coletivo – resolveram criar uma cooperativa de consumo, para adquirir alimentos e conseguir melhores preços. O capitalismo tem seu ser centrado no individualismo, enquanto que, no cooperativismo – entendido como um sistema econômico e social alternativo (e não de enfrentamento) ao sistema capitalista – o ser está centrado na família (entendendo família como indivíduo). A cooperativa caracteriza-se dessa forma por ser um indivíduo coletivo (formado por várias famílias). O reconhecimento oficial mundial do cooperativismo ocorreu em 1844, no povoado de Manchester, Inglaterra, a partir das "experiências de Rochdale" onde 28 operários de uma tecelagem organizaram uma cooperativa de consumo, a qual passou a ser modelo de cooperativismo no mundo. Anteriormente, havia existido outras formas de cooperação, como forma de sobrevivência, em virtude das vicissitudes hostis do ambiente. O homem precisava viver em comunhão como forma de manter a vida e garantir a evolução da espécie humana. Com a Revolução Industrial, na Europa, e a vigência do modelo capitalista, ocorre desemprego em massa e conseqüente aumento da miséria populacional. Nesse contexto, um grupo de pensadores busca solucionar problemas para uma realidade de fome, miséria e violência. Esse grupo tornou-se pioneiro ou precursor da teoria do cooperativismo. Foram, na época, chamados de socialistas utópicos, por proporem um modelo de difícil concretização. Robert Owen, Philppe Buchez, Charles Fourier, William King, Louis Blanc, Proudhom, Plockboy e Saint Simon tornaram-se os precursores do cooperativismo formal. A experiência de Rochdale passa a se caracterizar como uma referência ao cooperativismo moderno por elaborar os princípios do cooperativismo, os quais são conhecidos como princípios de Rochdale. Os princípios de Rochdale são: adesão livre e voluntária, controle democrático, distribuição das sobras, taxas limitadas de juros ao capital, cooperação entre as cooperativas, e educação dos cooperadores. A Revolução Industrial propiciou a polarização da sociedade em duas classe antagônicas: a dos capitalistas proprietários dos meios de produção e a dos proletários, vendedores de sua força de trabalho (mão de obra). Dessa oposição, gera-se uma exploração do capital sobre o trabalho. Dessa hegemonia e confronto, resultam reações por parte da classe operária (explorados), através de movimentos socialistas do século XIX e estrategicamente através do movimento cooperativista. Para Büttenbender, o cooperativismo passou a ocupar um posicionamento mais ameno. Para tanto, faz referência a SCHNEIDER: "Por superar o capitalismo, não através da luta do enfrentamento direto, mas mediante a mobilização do proletariado em torno das cooperativas de consumo, produção e trabalho, aspirando a substituir o modelo explorador pelo futuro conjunto cooperativo, onde a classe operária passaria a ser dona de seus meios de produção e dos excedentes gerados no processo produtivo" (Schneider, 1991, p. 28). O contexto capitalista é de extremo predomínio do interesse privado sobre o coletivo e comunitário, resultando em concentração, acumulação, poder e riqueza. Como contraponto, surge o cooperativismo para superar o interesse privado e suas conseqüências, e como forma de resgatar e reforçar o interesse coletivo e comunitário. MLADENATZ é um dos primeiros historiadores e precursores do cooperativismo, sendo um dos mais importantes contribuintes na reprodução do cooperativismo, na sua evolução e história. Destaca sete características fundamentais do pensamento cooperativo MLADENATZ, inspirado no modelo de Rochdale: “1) A idéia da associação e a ênfase na união dos fracos e explorados na atividade econômica, lutando por objetivos comuns. 2) A cooperação é uma ação emancipadora das classes trabalhadoras de uma nação, através da organização dos interesses do trabalho. de 3) A organização do trabalho realiza o seu caráter emancipador através da própria iniciativa dos interessados. Trata-se de uma ação de auto-ajuda, bem distinta da ajuda de caráter filantrópico e de ajuda do Poder Público, em defesa dos interesses dos mais fracos. Cabe ao Poder Público apoiar as iniciativas da auto-ajuda, sem interferir na sua administração interna. 4) A cooperação, que é um apelo para os homens se associarem entre iguais, transforma o capital num meio para a realização dos objetivos da ação cooperativa. A cooperação, através de suas organizações, não visa gerar lucros, mas prestar serviços a seus associados. 5) A cooperativa representa uma economia coletiva. Todas as funções econômicas dos aderentes, como nas cooperativas de produção, ou somente parte delas, como nas cooperativas de produtores rurais, de consumo, etc., passam a formar parte de uma empresa comum. 6) Cada cooperativa não é célula isolada, mas integrada em um todo maior, que articula de maneira federativa, para dar-lhe maior força. 7) Esta organização deve ter um caráter permanente para que os fundos, formados e acumulados através das poupanças dos sócios, sirvam não só para os cooperativistas contemporâneos, mas também para as gerações futuras e para a expansão do cooperativismo. (MLADENATZ, 1969, pp. 6162)” Büttenbender recupera também a contribuição que Schneider acrescenta às sete contribuições dos precursores mencionados por Mladenatz: "8) Com exceção de Owen, todas os demais dão muita importância ao caráter democrático das novas organizações. Os operários, com plena igualdade de direitos, definirão os objetivos de sua organização, fixarão seus limites, escolherão seus dirigentes e decidirão sobre a apropriação dos excedentes gerados no processo produtivo. 9) Todos praticamente coincidem em propor um sistema econômico e social alternativo ao sistema capitalista, que aos seus olhos, tanto avilta a dignidade dos operários de sua época. Ao projetarem as suas obrigações baseadas na cooperação, sonham com a cooperação não apenas a nível interno às organizações, ou apenas a nível interpessoal, mas também como uma cooperação entre as diversas organizações associativocomunitárias. Através da cooperação interinstitucional, se chegaria à força e representatividade necessária, para propor à sociedade um sistema sócio-econômico predominante, baseado na cooperação e na igualdade de direitos e oportunidades. Anteciparam assim em várias décadas o que seria a meta proposta por tantos cooperativistas franceses, inspirados em Charles Gide e na Escola de Nimes, que é a ‘República Cooperativista’, ou também a meta final sonhada pelos cooperativistas britânicos, que através da crescente articulação e federalização das cooperativas dos mais diversos segmentos pretendiam e ainda pretendem chegar à ‘Commonwealth Cooperativa’. A última é uma proposta um pouco diversa da ‘República Cooperativa’, na medida em que pretendiam unir as organizações cooperativas nacionais numa poderosa e articulada Confederação Internacional, com funções bem mais amplas do que as meras funções representativas desempenhadas hoje pela Aliança Cooperativa Internacional – ACI” (Schneider,1991, p. 30). A experiência rochdaleana propaga-se no mundo e manifesta a sua maneira de ser: seus propósitos, seus valores, sua ética e sua organização em todos os continentes e países, como forma e possibilidades de afirmação, como sendo uma nova realidade e modelo de organização econômico-social. O eixo central do modelo de Rochdale apresenta princípios, valores, idéias, normas e métodos permanentes, universais e flexíveis, contrários ao modelo capitalista. A flexibilidade decorre da possibilidade de adequar-se a cada novo contexto social, econômico, político, cultural e histórico. Precisa de autonomia para consolidar-se de maneira efetiva, como força econômica e como um sistema econômico e social. Apesar dos diversos momentos de conflito, o cooperativismo expandia-se pelo mundo, surgindo tanto nos sistemas capitalistas como socialistas. Alguns autores e estudiosos do assunto, como Telmo Adams (1989) chegam a classificá-lo como a "Terceira via", e outros como Charles Gide o classificam como "República Cooperativa"6. O cooperativismo na América Latina e Brasil tem importante contribuição do professor Udo Hehner (1981), ao afirmar – durante a realização do IV Seminário Regional do Cone Sul sobre Promoção Humana através do Cooperativismo, em 1981 – que o passado indígena possui antecedentes histórico-culturais que caracterizam uma identidade cooperativista latino-americana (não se entenda aqui como sendo o cooperativismo europeu herdado no Brasil). Cita as várias culturas indígenas pré-colombianas na América, cujas organizações sociais eram baseadas em estruturas agrícolas cooperativas. No México, entre tantas comunidades indígenas de ação solidária destacam-se os Astecas, que constituíram uma grande comunidade cooperativada. Eles construíram, de forma coletiva, sistemas de irrigação, obras de defesa e embelezamento, formas de combate às pragas, e ajuda 6 Charles Gide é citado por Telmo Adams em Perspectiva Econômica (Cooperativismo 27), vol. 24, nº 67. mútua em caso de perdas de sementes devido a problemas de colheita por parte de alguns de seus membros. As celebrações eram coletivas. No Peru, a experiência mais importante é a dos Incas, comunidade indígena que realizava em comum a semeadura e a colheita de suas lavouras e repartia os resultados de forma proporcional ao trabalho e às necessidades de cada um. Os recursos eram redistribuídos anualmente de acordo com o número de pessoas na família. O trabalho era feito por todos em condições de trabalhar. Nas bacias do Rio Uruguai, Paraná e Paraguai, em 1610, aproximadamente, organizam-se reduções dos povos guaraníticos, sob a ação dos jesuítas. Alguns autores e historiadores chamam-nas de "República Cooperativa dos Guaranis". Esses autores, de forte apelo teórico-ideológico, lembram os utopistas europeus. A modalidade de vida, trabalho e produção era própria dos índios. No Brasil, devido à fuga dos escravos das senzalas, surgem vários Quilombos, como forma de organização de comunidades negras, na forma de cooperativas. Como exemplo, no Rio Grande do Sul, há os quilombos de Rio Grande e Canguçu, do ano de 1823 (Andrioli e Gielh,1997). Durante certo período, os negros viveram de forma mutualista, organizando o trabalho e reproduzindo costumes e valores de sua terra de origem. A idéia de cooperativismo, no entanto, não se deve atrelar única e exclusivamente à idéia das cooperativas modernas, iniciadas com as experiências de Rochdale. Existem outras formas de cooperação, tais como: mutirão, parcerias, APSATs e condomínios, círculo de máquinas, cooperativas de produção agropecuária, associações ou cooperativas municipais, cooperativa de consumo, cooperativas de produção industrial, cooperativas de trabalho, cooperativas habitacionais, cooperativas de venda em comum, cooperativas de compra em comum, cooperativas de beneficiamento e/ou industrialização, cooperativas de crédito rural, cooperativas de eletrificação rural e cooperativas mistas. Na América Latina, o que motivou o surgimento delas foi a busca de soluções para os problemas sócio-econômicos, originários nos setores da população de média e baixa renda que necessitavam formas diferenciadas de organização para atender e suprir suas necessidades básicas imediatas. No Brasil, o cooperativismo desenvolve-se em épocas e locais diferentes, mas possui sua história ligada de forma direta à agropecuária. No início do século XIX, várias colônias organizaram-se, na área rural, com inspiração anarquista e fourierista (influência de Fourier). No começo do século XX, em Nova Petrópolis (RS), no ano de 1902, é criada a cooperativa de crédito na área rural, sob a orientação do jesuíta suíço Theodor Amstadt. Mais tarde, esse modelo estende-se à área urbana – modelo Luzzatti – com envolvimento e participação de comerciantes e artesãos. Em 1905 –1906, surge a primeira cooperativa agrícola mista, em Panambi (RS), tendo como fundador o pastor luterano Faulhaber. Segundo o professor José Odelso Schneider, o cooperativismo na área urbana surge no século XIX, com a Associação Cooperativista dos Empregados da Companhia Telefônica de Limeira (SP), no ano de 1891. No Rio Grande do Sul, no início do século XX, surgem várias cooperativas agrícolas. Elas eram identificadas por historiadores como integrantes do cooperativismo colonial. Algumas permanecem até hoje, outras desapareceram em função de vários fatores, tais como: atual conjuntura; dissolução, ou por incorporação às cooperativas tritícolas. O início das cooperativas tritícolas deu-se nos anos 50, com a Revolução Verde e a conseqüente industrialização do campo. Os imigrantes europeus se estabelecem, inicialmente, nas colônias velhas: Vale do Rio dos Sinos, Vale do Rio Caí e Serra Gaúcha 7. Em 1930, estendem-se para outras regiões, como a de Santa Rosa. Eles necessitam de instituições – como igreja, escola – as quais preservem e contemplem seus costumes, crenças, tradições e necessidades básicas. Na área do laser, os imigrantes criaram as sociedades esportivas, recreativas e culturais, com associação de pessoas. Noutras comunidades, surgem espaços privados de lazer, originando a figura dos donos de salões, com organização de bailes e festas visando ao lucro. Na esfera econômica, havia as comunidades, onde predominava o bolicheiro, o qual comercializava a produção dos colonos – vinho, feijão, milho, fumo e suínos – e colocava à venda produtos que não eram produzidos nas propriedades agrícolas – sal, tecido e querosene. Em algumas comunidades, surgiam as cooperativas mistas que disputavam espaços com os bolicheiros. Suas características eram a reação dos colonos frente aos intermediários, principais agentes de acumulação e concentração do capital mercantil nas colônias, contra a desvalorização dos produtos coloniais que eram canalizados aos centros urbanos. Entre 1920-1950, surgem inúmeras cooperativas. Em 1936, eram 174; em 1950, afirma-se a existência de 600, as quais destinavam-se à comercialização de produtos agrícolas, principalmente banha e vinho. São instrumentos de modernização da produção e também com tarefa de processar o produto em escala industrial, eliminando os comerciantes que industrializavam de forma rudimentar, em suas casas, os produtos coloniais. O Brasil, a partir de 1950, adere ao plano do Grupo Rockefeller e passa a modernizar sua agricultura através da Revolução Verde, com novas tecnologias para orientar a agricultura para o mercado externo. A 7 Entendo que os imigrantes traziam em seu inconsciente a racionalidade moderna (científica, reducionista), ou seja, individualista, inclusive de relação autoritária sobre a natureza. estratégia utilizada por parte do Estado é usar o cooperativismo de forma a garantir o processo de industrialização do campo com importação maciça de insumos tecnológicos, proporcionando maior produtividade, maior geração de divisas e o abastecimento do mercado interno, com produtos industrializados, dos países desenvolvidos. O mesmo grupo tem muita influência na criação da ASCAR – Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural –, na década de 50, hoje EMATER, e a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária –, na década de 70, ambas especializadas em assistência técnica e pesquisa. "O grupo Rockefeller passa a estruturarse de forma gigantesca no mundo, mantendo além da EMA, Cargill e Agroceres o controle de 2 das 7 maiores petrolíferas do mundo; o Chase Manhattam Bank, um dos maiores credores do Brasil; e a produção de fertilizantes, defensivos e pesticidas" (Andrioli e Giehl, 1997, p.70). Para as grandes produções de trigo e soja, faz-se necessária a modernização da infra-estrutura de armazenagem e comercialização, e cria-se, em 1950, o CIBRAZEM – Companhia Brasileira de Armazenagem – nos principais centros de produção do estado. Em 1956, o governo repassa às cooperativas a responsabilidade de criar condições de armazenagem aos agricultores. Para tanto, crédito fácil e com baixos juros não faltaram por parte do Banco do Brasil e BNCC – Banco Nacional de Crédito Cooperativo – para a expansão da lavoura do trigo. A cultura da soja começa sua expansão a partir de 1960, tendo seu auge em 70, aproveitando, para isso, a estrutura do trigo. As cooperativas expandem-se rapidamente pelas principais áreas produtoras do Estado. Formam-se grandes cooperativas, tendo, cada uma, sua área delimitada. As cooperativas coloniais – em sua grande maioria – devido às mudanças conjunturais ocorridas no contexto da época, transformam-se em entidades empresariais. Questões como a mudança na matriz produtiva exigem alterações na organização, recursos disponíveis para as cooperativas tritícolas em detrimentos de outras, um modelo de cooperativas voltadas ao mercado externo (grãos). A burguesia urbana (os granjeiros) somada à elite rural, consolidada pela modernização capitalista e retirada dos subsídios governamentais, com frustração de safras e descapitalização das cooperativas empresariais, levou as cooperativas mistas a quase desaparecerem. A partir de 1978 ocorrem mudanças no cenário econômico internacional, coincidindo com a era Ronald Reagan. O preço do petróleo sobe no mercado internacional e, em 1982, o México vai à falência. O dólar é supervalorizado e as taxas de juros – antes baixas – vão a 12% ao ano. Nesse momento, acabam os juros baixos e a dívida externa brasileira aumenta abruptamente. Esses fatores passam a influenciar a vida social e econômica das pessoas e instituições. As cooperativas empresariais passam a ter dificuldades e, como forma de solucionar o problema, aumentam seu quadro social, principalmente para aumentar o volume de produção e diminuir a descapitalização. Em decorrência, ocorre a associação de pequenos produtores, que hoje são aproximadamente 70% (Andrioli e Gielh, 1997) dos associados dessas cooperativas. O que, para as cooperativas, era uma solução para amenizar a crise, para os pequenos produtores era um desejo de associar-se às cooperativas empresariais, com a finalidade de ter acesso fácil aos recursos oficiais e para beneficiar-se dos serviços de assistência técnica e comercialização de produtos disponíveis pelas cooperativas. Esses fatos mostram a desvirtuação doutrinária do cooperativismo, no qual os associados são ao mesmo tempo "donos e usuários" da empresa. Na prática, o cooperativismo empresarial transforma o cooperativado (o pequeno produtor) em usuário, eliminando, com isso, seu papel de dono. 3.2 A REGIÃO DA GRANDE SANTA ROSA, HOJE A finalidade do presente tópico tem por objetivo levantar dados que possibilitem uma visão geral do que representa a Região da Grande Santa Rosa. A Grande Santa Rosa é formada por 20 municípios8, está situada no Noroeste do estado do Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina. A origem de sua ocupação é colonial e acontece através da Colônia Santa Rosa (criada em 1915 – Sede 14 de Julho), Colônia Boa Vista (criada em 1912) e parte da Colônia Guarani (criada em 1891). A denominação se deve ao fato de a região abranger quase a totalidade do território (ficando de fora a área dos municípios de Giruá e Ubiretama) pertencente ao distrito de Santa Rosa, criado em 1876 e emancipado de Santo Ângelo em 1931. Essa região recebe também a denominação de Fronteira Noroeste, por sua localização geográfica no mapa do estado e segundo a constituição dos conselhos regionais de desenvolvimento, realizada pelo governo do estado do Rio Grande do Sul em 1991. 8 Alecrim, Alegria, Boa Vista do Buricá, Campina das Missões, Cândido Godói, Doutor Maurício Cardoso, Horizontina, Independência, Nova Candelária, Novo Machado, Porto Lucena, Porto Mauá, Porto Vera Cruz, Santa Rosa, Senador Salgado Filho, Santo Cristo, São José do Inhacorá, Três de Maio, Tucunduva e Tuparendi. A região da Grande Santa Rosa até 1801 tem sua posse e domínio sendo exercida pelos espanhóis. Os jesuítas, desde 1626, faziam trabalho de catequese dos índios nessa região que era conhecida por Missões Orientais. Essa região foi a última a ser incorporada à província de São Pedro, atual Rio Grande do Sul. A partir de 1801, os portugueses conquistaram em definitivo o território e quase destruíram por completo a civilização dos Sete Povos das Missões. Conforme ROTTA: "(...) a evolução político-administrativa da Grande Santa Rosa, antiga área pertencente aos ervais dos Sete Povos das Missões, definitivamente incorporada ao território português em 1801, passando sucessivamente a integrar os municípios de Rio Pardo (18091819), (...) Cruz Alta (1834 - 1873) e Santo Ângelo (1873 - 1931), até a emancipação de Santa Rosa em 1931" (Rotta, 1999, p. 42). Rotta não concebe o período de 1819-1834 como pertencente a Cachoeira do Sul, por acreditar que nesse período o território pertencia ainda a Rio Pardo e que o conflito pelo território se situava entre Cruz Alta e São Borja (entre 1834 e 1862), os quais se emanciparam de Rio Pardo em 1834. Os vinte municípios contam com uma área total abrangendo 4721,29 km2 e população total de 209.913 habitantes. Desses, 128.100 residem nas cidades (61%). A área rural, com 81.813 habitantes, corresponde a (39%). 9 9 Jornal Noroeste. Censo 2000, Região Diminuiu. Santa Rosa, 3 de novembro de 2000. Na região habitavam, em 1996, um total de 209.967 pessoas. Após quatro anos, o Censo 2000 apurou uma população de 209.913 habitantes. Esse número, descontando a população de Salgado Filho e Nova Candelária – que não faziam parte da região – baixa para 204.104 pessoas. A redução populacional na região nos últimos quatro anos é visível, são 5863 pessoas (-2,79%), ou seja, em termos médios, 1465,75 pessoas a menos por ano, o que corresponde a uma evasão de 81,43 pessoas por município ao ano. 10 Segundo o Censo 2000, dos vinte municípios que compõem a Grande Santa Rosa, apenas dois tiveram crescimento populacional (população urbana mais população rural): Santa Rosa e Horizontina. Os demais municípios (18) viram o número de suas populações diminuir em relação ao Censo de 96. A redução populacional na região deve-se ao êxodo rural. Todos os vinte municípios da região apresentaram, nesse período, densidade demográfica menor no meio rural. Outra constatação do IBGE é a população rural envelhecida. No atual contexto, os jovens têm saído do meio rural e os pais têm permanecido. A região, nos últimos dez anos, tem apresentado uma taxa de crescimento demográfico negativa. De 91 a 96, a taxa de crescimento média dos vinte municípios é igual a -0,91485% de pessoas. Dos vinte municípios, apenas cinco tiveram crescimento populacional positivo nesse período. Santa Rosa, 1,328%; Três de Maio, 0,633%; Porto Lucena, 0,34%; Independência, 0,272%; e Santo Cristo, 0,238%. No período de 96 a 2000, dois municípios tiveram crescimento positivo: em Santa Rosa, a população total em 96 era de 62.553 pessoas e passa para 64.717 em 2000; Horizontina, no mesmo período, apresenta uma variação de 16.993 para 17.670 pessoas. 11 10 11 Idem 9. Jornal Zero Hora. ALMANAQUE DAS REGIÕES. Porto Alegre, 31 de julho de 2000. Quanto ao índice de mortalidade infantil, a média regional é bastante alta. Em 96, esse índice (para mil vivos) apresenta uma mortalidade média de 16,5065. Os maiores índices pertencem aos municípios de: Campina das Missões, com 34,78; Porto Lucena, com 33,71; Boa Vista do Buricá, com 33,11; Tucunduva, com 32,26; e Novo Machado, com 30,3. Os menores índices pertencem aos municípios de Cândido Godói, Nova Candelária, Porto Mauá e Senador Salgado Filho, com índice zero. Santa Rosa, que é município pólo, apresenta um índice de 6,94. 12 A média regional de famílias indigentes no ano de 91 é de 712,65 por município, com uma média que corresponde a 18,5258%. Porto Lucena tem 851 famílias indigentes, o que corresponde a 34,791%; Alecrim, 871 famílias indigentes para 34,01% de indigência; Três de Maio 2.216 para 31,558%; e Horizontina, 1.434 para 30,693%. Os municípios com indigência zero são: Novo Machado, Porto Mauá, Porto Vera Cruz e São José do Inhacorá. 13 O produto interno bruto (PIB) per capita médio para a região no ano de 98 é de US$ 3.195,542. A maior concentração de riqueza per capita corresponde aos municípios de: Horizontina, US$10.584,52; Santa Rosa, US$ 4.556,68; Tuparendi, US$ 3.866,64; Tucunduva, US$ 3.817,28; e Boa Vista do Buricá, US$ 3.716,72. Os menores PIB per capita são referentes aos municípios de: Porto Vera Cruz, US$ 698,99; Alecrim, US$ 1.133,04; Porto Lucena, US$ 1.390,86; Alegria, US$ 1.915,05; e Campina das Missões US$ 1.978,86. 14 O PIB agropecuário médio para a região no ano de 97 é de R$ 14.929,402. A maior concentração do PIB agropecuário corresponde aos municípios de: Santa Rosa, R$ 33.509.481,00 (FEE); Santo Cristo, R$ 12 13 14 idem 11. idem 11. 31.008.165,00 (FEE); Cândido Godói, R$ 27.933.299,00 (FEE); Três de Maio, R$ 25.142.521,00 (FEE); Tuparendi, R$ 18.342.139,00 (FEE); Campina das Missões, R$ 17.542.064,00 (FEE). Os menores PIB agropecuários referem-se aos municípios de: Porto Mauá, R$ 4.805.785,00 (FEE); Senador Salgado Filho, R$ 5.433.457,00 (FEE); São José do Inhacorá, R$ 6.476.681,00 (FEE); Porto Vera Cruz, R$ 7.155.118,00 (FEE); e Nova Candelária R$ 7.443.550,00 (FEE). 15 O PIB-indústria médio para a região, no ano de 97, é de R$ 17.838.161,055. A maior concentração do PIB -indústria refere-se aos municípios de: Santa Rosa, R$ 172.692.428,00 (FEE); Horizontina, R$ 115.990.163,00 (FEE); Três de Maio, R$ 29.501.765,00 (FEE); Boa Vista do Buricá, R$ 8.228.707,00 (FEE); Santo Cristo, R$ 8.226.139,00 (FEE); e Tuparendi, R$ 7.267.118,00. Os menores PIB-indústria referem-se aos municípios de: Novo Machado, R$ 6.419,00 (FEE); Porto Vera Cruz, R$ 24.393,00 (FEE); Porto Mauá, R$ 28.244,00 (FEE); Alegria, R$ 143.789,00 (FEE); e Doutor Maurício Cardoso, R$ 238.792,00 (FEE).16 O PIB-comércio médio para a região, no ano de 97, é de R$ 9.371.984,65. A maior concentração do PIB -comércio refere-se aos municípios de: Santa Rosa, R$ 80.266.411,00 (FEE); Três de Maio, R$ 28.931.868,00 (FEE); Santo Cristo, R$ 23.126.128,00 (FEE); Horizontina, R$ 13.252.277,00 (FEE); e Tucunduva, R$ 8.877.565,00 (FEE). Os menores PIB-comércio referem-se aos municípios de: Senador Salgado Filho, R$ 181.143,00 (FEE); Porto Vera Cruz, R$ 181.590,00 (FEE); Nova Candelária, R$ 234.815,00 (FEE); São José do Inhacorá, R$ 278.423,00 (FEE); e Alecrim, R$ 1.324.356,00 (FEE). 17 O PIB-serviços médio para a região, no ano de 97, é de R$ 20.691.937,00. A maior concentração do PIB -serviços refere-se aos 15 Jornal Zero Hora. Almanaque das Regiões. Porto Alegre, 31 de julho de 2000. idem 15 17 idem 15 16 municípios de: Santa Rosa, R$ 140.973.742,00 (FEE); Três de Maio, R$ 51.377.775,00 (FEE); Horizontina, R$ 46.743.729,00 (FEE); Santo Cristo, R$ 26.481.327,00 (FEE); e Tuparendi, R$ 18.616.609,00 (FEE). Os menores PIB-serviços referem-se aos municípios de: Porto Vera Cruz, R$ 3.884.078,00 (FEE); São José do Inhacorá, R$ 3.923.710,00 (FEE); Nova Candelária, R$ 4.575.904,00 (FEE); Senador Salgado Filho, R$ 4.589.733,00 (FEE); e Porto Mauá, R$ 5.011.049,00 (FEE). 18 O perfil setorial-econômico da região, em 97, apresenta as seguintes características predominantes: 65% rural; 25% serviços e 10% indústria. Os municípios com perfil econômico industrial são Santa Rosa e Horizontina. O município de Santa Rosa destaca-se por possuir duas empresas de destaque: a Fábrica de Colheitadeiras ACGO do BRASIL e o FRIGORÍFICO PRENDA (um dos maiores frigoríficos de suínos do estado). Apresenta um pólo metal-mecânico estruturado, desenvolvido e que exporta para outros estados. O município de Horizontina destaca-se através da Fábrica de Colheitadeiras e de Tratores JOHN DEERE. A fábrica de colheitadeiras é a maior da América. O número de pessoas ocupadas na região, em 97, no setor de produção primária, é da ordem de 76.710, de um total de 209.913 moradores, o que equivale a 36,54% de pessoas ligadas em suas atividades à área primária de produção. O índice de desenvolvimento social médio na região, no ano de 96, é de 0,492 (entendendo qualidade de vida como um índice para medir o desenvolvimento humano, através de três variáveis: esperança de vida, nível educacional e PIB real per capita) (FEE)19. A Grande Santa Rosa tem um número médio de propriedades rurais por município de 1.434,95. A área média é de 15,7545 hectares por município. 18 19 Jornal Zero Hora. Almanaque das Regiões. Porto Alegre, 31 de julho de 2000. Jornal Zero Hora. Almanaque das Regiões. Porto Alegre, 31 de julho de 2000. 3.3 INDIVIDUALISMO E COOPERATIVISMO NA REGIÃO DE SANTA ROSA O cooperativismo no Rio Grande do Sul caracteriza-se por sua atuação em áreas definidas, sendo que em cada região ou município atua uma única cooperativa. A Região da Grande Santa Rosa é diferente em relação ao resto do Estado. Aqui, as cooperativas de produção e comercialização atuam em áreas comuns ou sobrepostas. Em virtude do enfoque do trabalho estar voltado ao setor agrícola, far-se-á especificação dessas cooperativas em detrimento das demais cooperativas, quais sejam as de: serviços, industrialização, consumo, comercialização e trabalho informal. As maiores cooperativas de produção, comercialização, de crédito e de eletrificação na área agrícola são: a COTRIROSA (cooperativa de produção e comercialização), com unidades instaladas em oito municípios e sede em Santa Rosa; a COOPERMIL (cooperativa de produção e comercialização), com unidades instaladas em cinco municípios e sede em Santa Rosa; a COOPERLUZ (cooperativa de eletrificação), com unidades instaladas em seis municípios e sede em Santa Rosa; a CREDIROSA (cooperativa de crédito), com unidades instaladas em cinco municípios e sede em Santa Rosa; a Certhil (cooperativa de eletrificação), com unidades instaladas em dois municípios e sede em Três de Maio, e a COOPERCAND (cooperativa de produção e comercialização), com unidades instaladas em dois municípios e sede em Santa Rosa. As demais cooperativas caracterizamse por serem cooperativas COOPERAGRÍCOLA e municipais. COMTUL Dessas, (cooperativas de destacam-se: produção e comercialização), cada uma com uma unidade de instalação em Tucunduva; a COOPERMAIO (cooperativa de produção e comercialização), com uma unidade de instalação em Campina das Missões; a CREDITUVA (cooperativa de eletrificação), com uma unidade de instalação em Tucunduva. (Fonte: As cooperativas da Região, Santa Rosa, 1994.) O Estado, na década de 50, cria as Cooperativas Tritícolas, que mais tarde transformam-se comercialização em (cooperativas cooperativas empresariais). de Essas produção e cooperativas empresariais, apesar do crescimento físico, passam a constituir entidades representativas de reprodução do modelo constituído, enquanto instrumento a serviço do capitalismo. Na realidade, são absorvidas pelo modelo dentro dos princípios do individualismo e do lucro e não do coletivo e das sobras. Prevalece o modelo do egoísmo e não o da cooperação e solidariedade. Na Região da Grande Santa Rosa – em virtude da falta de recursos para iniciar as lavouras, construir e manter as estradas e mesmo a construção das casas – a cooperação acontece desde o início de sua colonização, quando aqui chegaram os primeiros colonizadores vindos da Colônia Velha, Caxias do Sul e Bento Gonçalves (alemães, poloneses, russos e italianos). O início da migração dá-se em 1900 e se intensifica a partir de 1930. As dificuldades eram intensas, as famílias colaboravam umas com as outras através de mutirões, tanto no corte das árvores para estabelecer lavouras, na produção agrícola, quanto na organização do trabalho e na construção das casas. As práticas mutualistas eram o cotidiano entre as pessoas daquela época. As manifestações ocorriam entre as famílias de maneira solidária, como forma de subsistência e de enfrentamento às dificuldades inerentes à época (cooperação por necessidades prementes à época, uma vez que o individualismo era uma herança herdada de seus ascendentes europeus). Comunidades, igrejas e escolas foram construídas com o trabalho e recursos dessas famílias pioneiras. As comunidades caracterizavam-se por sua coesão étnica, religiosa e cultural. A educação era de responsabilidade das comunidades, que tinham a missão de manter a escolaridade por conta própria, mantendo ou preservando o patrimônio cultural (a língua) e a preparação das pessoas para o trabalho. No decorrer da evolução histórica regional, muito contribuiu este espírito e essa maneira de ser desses desbravadores na organização das pessoas e das comunidades. Porém, muitos fatos externos e alheios à vontade das comunidades foram decisivos na mudança de rumos. Cita-se o período de 1938, do governo de Getúlio Vargas, e em 1947, com o fim da segunda Guerra Mundial. A partir desse momento, acontece a estatização das escolas comunitárias e a proibição da fala de idiomas estrangeiros como o alemão, o italiano, o polonês e outros. O período é de perseguições e repressões. Desde a colonização até a década de 50, são inúmeros os exemplos e as formas de organização comunitária. As pequenas cooperativas mistas são citadas por sua importância na organização comunitária. Para BÜTTENBENDER, "Organizadas principalmente à luz do cunho religioso, estas pequenas cooperativas mistas, com atuação limitada, efetuavam a comercialização dos produtos diversificados dos associados. Segundo um estudo, não formalizado, existiam na região mais de 27 pequenas cooperativas mistas, que no decorrer dos anos foram desaparecendo, por incorporações às outras, ou por liquidação" (Bittenbender, 1994, pp. 118-119). Nas décadas de 60 e 70, as ações para intensificação na adoção do novo modelo produtivo são agilizadas através de seu principal instrumento, a Revolução Verde. Os produtores que organizaram o trabalho social sobre uma produção diversificada de culturas são obrigados, devido às novas circunstâncias, a readequar a dinâmica da organização produtiva. Esta nova estrutura é contemplada pelo binômio trigo e soja. O binômio trigo e soja influi na organização dos produtores, de suas comunidades e nas pequenas cooperativas mistas, devido à introdução de novos valores. Os novos valores seriam a possibilidade de salvação para os produtores. Com as mudanças da matriz produtiva, as cooperativas mistas são obrigadas – por não terem acesso aos recursos oficiais e subsídios – a estabelecer medidas de sobrevivência de suas organizações, enquanto as cooperativas que representam o binômio trigo e soja em acelerada expansão representam novas formas de organização social do trabalho. Devido às dificuldades no atual contexto, as cooperativas mistas ou foram sendo incorporadas pelo novo modelo de cooperativas, ou, simplesmente, entraram em liquidação. Hoje são poucas que ainda subsistem. Apesar dessa nova estrutura de cooperativas determinar a organização econômica da produção e dos agricultores, elas e os cooperados, na realidade, estavam mais atrelados às políticas oficiais e muito dependentes na gestão dos recursos subsidiados, fato que passa a mascarar a verdadeira função das cooperativas, que é o planejamento, a organização da produção e dos produtores. As cooperativas, em vez de intervir, passam a reproduzir o modelo dominante de sociedade; como conseqüência, não acrescentam mudanças significativas aos cooperados. Sua atuação no mercado é igual à de qualquer outra empresa capitalista – o lucro. A década de 80 representa o fim de um período e o início de outro. Acaba a política agrícola de juros subsidiados. Acaba o modelo de produção agrícola baseado no trigo e na soja. As dificuldades para o setor agrícola são enormes. O momento é de crise. As novas formas de organização da produção estão necessariamente conjugadas a uma mudança na matriz produtiva, que contempla o retorno da diversificação de culturas e o conseqüente desenvolvimento integrado da propriedade. As culturas como o leite, os suínos, o milho e os pequenos cereais passam a dinamizar e representar novas fontes de renda para as famílias rurais. Esse é um período em que há uma integração vertical dos produtores aos Complexos Agroindustriais - CAIs. Se, por um lado, existe a composição de novas alternativas de produção e o fortalecimento econômico e social para a Região, por outro acontece a dependência do agricultor a esse modelo. As dificuldades sentidas pelos agricultores no período contribuíram na formação, composição e estruturação de novas formas de organização social da produção e dos produtores. As experiências dos agricultores em trabalhos coletivos difundem-se na região. Surgem as associações de produtores que mais tarde passam a ter estímulo de políticas oficiais do governo do Rio Grande do Sul. As associações, na realidade, representam uma nova possibilidade de organização social do trabalho no campo – de forma coletiva. As associações, somadas à reestruturação da matriz produtiva, provocam mudanças positivas nas cooperativas tradicionais – sentem-se ameaçadas – e passam a desenvolver trabalhos integrados entre seus associados. A região desenvolve-se na área do associativismo e condomínios, e passa a ser referência no estado. De acordo com Büttenbender, os municípios de Tuparendi, Tucunduva, Santo Cristo, Santa Rosa, Porto Lucena, Cândido Godói, Alecrim e Campina das Missões caracterizaram-se pela distribuição em conjunto de 87 associações para 1944 associados.20 As cooperativas como a COTRIROSA e a COOPERMIL possuem redes de supermercados nos municípios de sua abrangência. Algumas 20 Emater Regional de Santa Rosa, RS, 1992. cooperativas municipais possuem supermercados em sua área de atuação. 3.3.1 Cooperativas mistas municipais de produtores e consumidores agroecológicos na Grande Santa Rosa Na Região da Grande Santa Rosa, um grupo de pessoas e entidades formado por agricultores familiares, consumidores e técnicos pretende reverter tal processo com a "construção" de uma cooperativa embasada na solidariedade e na valorização do trabalho em detrimento do capital. Há dois anos, esse grupo vem trabalhando para a formação e criação de uma Cooperativa Central Mista de Produtores e Consumidores Agroecológicos, com a função de integrar e congregar cooperativas municipais e mistas de produtores e consumidores, associações, APSATs, condomínios e outras formas organizativas que desenvolvam atividades rurais sustentáveis de acordo com os princípios da agroecologia. A idéia central que norteia esse grupo é a agricultura familiar, o consumidor e a produção de alimentos agroecológicos. A estrutura dessa Central prevê um mínimo de despesas, uma vez que a sua função é assessorar, orientar, interligar e prestar serviços a essa rede regional entre cooperativas, associações, condomínios, APSATs e outros grupos organizados. Várias são as funções dessa cooperativa central mista de produtores e consumidores: eliminar dessa cadeia os intermediários; proporcionar cursos de formação e capacitação técnica na área da agroecologia, tanto na área animal como vegetal; incentivar a troca de experiência entre produtores e suas organizações; proporcionar e organizar viagens de estudo e observação como forma de incentivar e estimular a adoção de práticas agroecológicas; mostrar a possibilidade e a importância na verticalização da produção como forma de agregação de valor à produção; propor e incentivar a organização de feiras, tanto municipais como regionais; transformar as feiras em espaços para trocas de experiências, informações, lazer e cultura entre os produtores e consumidores; propor e colaborar em encontros, seminários e na realização de almoços ou jantares nos municípios – sob a coordenação das Cooperativas Mistas Municipais de Produtores e Consumidores, em parceria com os demais grupos organizados – com produtos limpos, oriundos dos próprios agricultores, com o objetivo de difundir e estimular a adesão de novos adeptos ao consumo de alimentos livres de agrotóxicos; proporcionar, preparar e incentivar, através da própria cooperativa, o desenvolvimento da economia solidária entre seus associados produtores e consumidores; e facilitar na compra e na venda de produtos de outras regiões, de forma a proporcionar a complementação e o equilíbrio alimentar entre as regiões. A Cooperativa Central deverá ter uma estrutura mínima: quatro pessoas, cada uma com telefone e computador, e uma sala (a estrutura citada é hipotética). A idéia é a construção de uma consciência crítica, com a participação de todos os atores sociais, com vistas à formação de uma cooperativa em que os cooperados sejam donos e usuários. 3.3.2 Análise reflexiva do contexto cooperativismo, no modelo capitalista histórico do Os povos ditos primitivos organizavam-se através da cooperação solidária para conseguir um nível de vida digno, estável e feliz para todos. Hoje, os povos ditos modernos desenvolvem intensos debates acadêmicos na busca de soluções para os problemas da miséria que se alastra sobre os povos de todos os continentes. Segundo publicações de revistas e jornais, 50% da humanidade estariam sofrendo de desnutrição. Isso equivale a um número em torno de 3 bilhões de pessoas. Na Região da Grande Santa Rosa, 18,5% das famílias que ocupam esse território são famílias de indigentes. Num ambiente desses, como resgatar a dignidade e a cidadania das pessoas? Como construir estratégias de desenvolvimento para todos de forma justa, igualitária, e preservando o meio ambiente e a vida? Marx diria que o modelo capitalista se perpetua através de um Estado que existe em decorrência dessas diferenças. Uma vez não existindo mais essas diferenças de classes – pobres e ricos – não haveria mais a necessidade da existência de um Estado (ontologia do Estado). A pobreza, a riqueza, o bem e o mal são reflexos das relações sociais de produção que determinam o modelo econômico e social para que a sociedade satisfaça suas necessidades básicas. O modelo adotado é o capitalista (industrial), que se caracteriza por ser de dominação. O mal da civilização industrial – que inicia na modernidade – é ela estar alicerçada em dois eixos fundamentais, que são a concentração e a especialização com o fim de aumentar a produção e o lucro. "Concentração dos homens na cidade, da produção nas grandes unidades, do poder em poucas mãos. Especialização, fragmentação das tarefas para o operário, proliferação de especialistas em todos os níveis. Os feiticeiros de hoje são aqueles que possuem o saber: os engenheiros, os tecnocratas de linguagem hermética e inacessível..." (Tévoédjré,1982, p.32, apud Adams, p. 16). O modelo capitalista, pela sua simplicidade, por sua estreiteza política, pelo seu reducionismo, necessita recorrer a ideologias como forma de justificar o acúmulo e a expansão de riquezas nas mãos de poucos e o aumento desmedido da pobreza no mundo, principalmente nos países subdesenvolvidos. Para tanto, como forma de manter-se o capitalismo, utiliza as superestruturas, tais como, a família, a igreja, a educação, os meios de comunicação social (m.m.c.) e outros meios, como a própria ciência e a tecnologia. Pode-se afirmar que a ciência não é neutra como quer fazer crer a ideologia capitalista materialista. A ciência, assim como a tecnologia, está a serviço do homem, que determina sua utilização através das relações sociais de produção. Portanto, se as relações sociais de produção no capitalismo caracterizam-se por relações de dominação, logo, a ciência está a serviço da dominação. A técnica acompanha o homem desde os mais remotos tempos, desde o início rudimentar até a sofisticação dos dias atuais. A técnica determina e interfere na relação do trabalhador com o trabalho, do produtor com o produto, nas relações entre os homens e do homem com o ambiente. À medida que a ciência e a tecnologia evoluem a serviço do capitalismo, aumenta o desemprego estrutural, concentrando renda e poder nas mãos de cada vez menos pessoas. A leitura que se faz: aumenta o desemprego no comércio, na indústria e na agricultura. Há um aumento na produção devido à alta tecnologia, com isso há uma baixa nos preços dos produtos e uma baixa geral dos salários. Para aqueles que recebem os menores salários, lhes é possível a reprodução social do trabalho. Aos melhores salários, lhes é reservado o consumo dos produtos considerados nobres. Segundo alguns autores, o mundo, com a globalização, está sendo organizado e planejado – considerar os recursos energéticos não-renováveis – em termos de vida digna, para 20% da população. Aos demais, é reservado o sub-emprego, a outros, o laissezfair e, aos demais, a prestação de serviços. O capitalismo encontra formas e fórmulas para sua reprodução mesmo na crise. Apesar dessa capacidade de metamorfose, CASTORIADIS pensa que: "Entramos numa época de ilimitação e é nisso que temos o desejo de infinito (...) A sociedade capitalista é uma sociedade que caminha para o abismo, sob todos os pontos de vista, por não saber se autolimitar. E uma sociedade realmente livre, uma sociedade autônoma, deve saber se autolimitar, saber que há coisas que não se pode fazer, que não se deve nem tentar fazer, ou que não se deve desejar. Vivemos neste planeta que estamos destruindo (...) Tantas maravilhas em via de extinção. Penso que deveríamos ser os jardineiros deste planeta. Teríamos que cultiválo. Cultivá-lo como ele é e pelo que é (...) A tarefa é enorme (...) Só que isto está muito longe não só do atual sistema quanto da imaginação dominante. O imaginário de nossa época é o da expansão ilimitada (...) Isso é que é preciso destruir. É nesse imaginário que o sistema se apóia”. (Castoriadis apud Caporal & Costabeber, 2000). Considerando a ciência e a tecnologia a serviço da exclusão de enormes quantidades de trabalhadores do mercado de trabalho, a "expansão ilimitada" do "imaginário dominante", segundo Castoriadis, nos levará: à destruição do nosso planeta, pela exploração desmedida dos recursos naturais não-renováveis; à contaminação dos alimentos por venenos; ao alto custo dos alimentos aos consumidores; à insustentabilidade do modelo tecnológico para os agricultores familiares, pelos altos custos dos insumos de produção; à contaminação ambiental. Devido à concepção dominante é que se opta por uma Cooperativa Mista de Produtores e Consumidores, pelas unidades familiares de produção e por uma agricultura sustentável com base em princípios agroecológicos. A ideologia proposta – contrária às tecnologias da modernidade, não a “oposição pela oposição”, mas como filosofia de vida – propõe a geração de emprego e renda através de tecnologias que maximizam necessidades em aumentos na oferta de mão de obra para a realização dos trabalhos. A unidade familiar rural, ao direcionar suas atividades para a produção de alimentos básicos, mas dentro dos princípios que regem a agroecologia, necessariamente precisará de mais mão de obra. As famílias rurais organizadas sob as mais variadas formas e modelos de organizações municipais, somadas a uma organização central, pressupõem novas frentes de trabalho, contratação e capacitação de pessoal. A demanda crescente da sociedade por alimentos naturais sem venenos – no Brasil, a demanda está em torno de 10%, enquanto que na Europa o índice é de 40% – determina uma expansão em áreas, em produção e em mão de obra. Os alimentos devem ser selecionados, lavados, acondicionados, embalados e transportados do local de origem até as feiras-livres municipais e regionais, gerando necessidades em mão de obra. As cooperativas são instrumentos importantes na organização, dinamização e regulação do mercado, na circulação de mercadorias e na expansão da mão de obra em todo processo, desde: o produtor com sua produção de alimentos naturais ou agregação na própria propriedade com alimentos processados pela indústria caseira de alimentos; a industrialização de produtos – como matérias primas – e alimentos; até a conscientização e integração de novos consumidores de produtos naturais agroecológicos. Dessa maneira fecha-se um ciclo, organiza-se um sistema de redes, mas dentro de uma visão holística em que o homem é o fim de todo processo. Outro fator de geração de renda e emprego é a verticalização da produção através da agroindústria rural e de outros processos como limpeza, secagem, armazenagem e beneficiamento dos produtos com agregação de valor aos mesmos. A agroindústria rural deve se diferenciar dos moldes preconizados pela modernidade, que utiliza uma gama ampla de produtos químicos para a conservação dos alimentos. Ela deve estar ligada aos mesmos princípios que regem a agroecologia, e tem que estar de acordo com os preceitos de higiene e saúde, porém mantendo processos de produção agroindustrial conforme as normas técnicas para a produção de alimentos naturais livres de aditivos químicos. A ênfase na agroecologia está ligada a questões: de saúde (tanto do produtor como do consumidor); da manutenção da agricultura familiar, tendo como axioma a sustentabilidade; de preservação do meio ambiente; e de ampliação no mercado de trabalho. Apesar dos inúmeros problemas enfrentados até o momento, pensa-se que o desenvolvimento rural sustentável é possível através da construção e cooperação, tendo como base a solidariedade e o respeito aos preceitos que regem os princípios agroecológicos. Para Telmo Adams, a solidariedade sendo a base do desenvolvimento tem que partir de três critérios básicos: "a) deve contar com as próprias forças; b) deve contar com os próprios recursos; e c) deve contar com a capacidade criativa do seu povo" 21 Por motivo dessas conceituações teóricas, ele é da opinião que: "A mudança que depende de um grupo de intelectuais e é levada ao povo ‘de bandeja’, para ele usufruí-la, caracteriza-se como uma nova forma de dominação de um grupo sobre a maioria" 22 Faz-se necessário reproduzir a citação de Tévoédjé feita por Telmo Adams: "Desenvolvimento é aquilo que favorece em nós satisfação de todas as necessidades essenciais, inclusive as da razão, e portanto do espírito" 23 21 Perspectiva econômica. COOPERATIVISMO 27, v. 24. n. 67, p.18., São Leopoldo/RS, Unisinos, 1989. 22 idem 21. 23 idem 21. 3.3.3 Associação e cooperativas mistas agroecológicas de produtores e consumidores A região tem vivenciado processos de construção de cooperativas e de associações voltadas a um novo modelo de agricultura, no qual os agricultores, em especial, junto com os demais parceiros, passam a ser protagonistas do desenvolvimento rural sustentável com base em princípios agroecológicos. Os exemplos mais visíveis de trabalhos e atividades associativas desenvolvidos, na região, no campo da agroecologia, pertencem à APRA, à COOPASC e à COOPERAE. A APRA – Associação de Produtores Rurais de Alecrim – no momento, passa por intensa discussão entre seus associados, tendo em vista a possibilidade de transformação e formação de uma cooperativa agroecológica. Para tanto, organiza-se em 7 grupos de produtores, envolvendo um total de 82 famílias que estudam, analisam e debatem as vantagens e desvantagens de uma nova estrutura de produção e comercialização. Caso haja aprovação na formação da cooperativa, a APRA passa a ser incorporada pela cooperativa. A APRA mantém um local próprio para a comercialização de produtos da colônia, na cidade de Alecrim, durante todos os dias da semana. Esse local permanente de venda de produtos coloniais tradicionais (entenda-se agricultura industrial), dispõe de uma área reservada denominada de espaço ecológico. É nesse espaço ecológico que se dão as inter-relações entre consumidores e agricultores na construção de uma agricultura livre de venenos e que saiba preservar a saúde e o ambiente. Uma das obrigações da APRA é a responsabilidade de administrar a farinheira e a construção em anexo de uma polvilhadeira. Em Cândido Godói, existe uma cooperativa de agricultores ecológicos denominada COOPERAE, constituída de 29 sócios, dos quais 27 são produtores ecológicos e 2 são consumidores. Dos dois consumidores, um é o que faz a ponte com a ARCO-ÍRIS e, inclusive, é o atendente de uma banca própria que a COOPERAE mantém em Porto Alegre, para venda de seus produtos nas feiras-livres ecológicas. O outro é sócio-consumidor. A COOPERAE é associada à ARCO-ÍRIS e vice-versa. Com isso, fundamenta o Ato Cooperativo através da lei 5764 / 71, artigo 79. Através desse dispositivo, essas cooperativas associadas não pagam encargos sociais e tributação, quando o negócio é entre elas. A COOPERAE administra um moinho que produz farinha de trigo, milho e soja. Possui um descascador de arroz. Na área dos alimentos limpos, a COOPERAE é responsável pela produção de 3 hectares de soja orgânica; uma parte é destinada à farinha e a outra é ensacada em grãos, em pacotes de 1 quilo. Produzem-se: mel, amendoim, rapadura (400 unidades/mês), verduras e legumes que são vendidos no município, laranja e bergamota vendidos em Porto Alegre, pêssego em Santa Rosa e outro produtos. No município de Santo Cristo, existe uma cooperativa de agricultores ecológicos denominada Cooperativa dos Agricultores de Santo Cristo Ltda – COOPASC. Após inúmeras discussões realizadas entre agricultores e apoiados pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santo Cristo e EMATER, RS, foi fundada a COOPASC em 9 de setembro de 1993. A cooperativa é o fato resultante em decorrência na criação da Associação Santocristense de Cooperação Agrícola – ASCA, constituída em 12 de junho de 1991, possuindo 142 associados entre mulheres e homens. A associação é o resultado do trabalho de 13 núcleos de agricultores familiares, distribuídos entre várias comunidades do município. A finalidade da associação é a organização das unidades familiares de produção e comercialização como forma de enfrentar os desafios da agricultura empresarial excludente. Os objetivos da COOPASC são: valorizar o cooperativismo e as unidades familiares rurais como contraponto às cooperativas empresariais; resgatar a dignidade e a independência dos agricultores familiares com a produção de alimentos limpos, para si e para os consumidores, de forma sustentável e de acordo com princípios agroecológicos; agregar valor aos produtos através da secagem, limpeza, armazenagem, beneficiamento, transformações e agroindustrialização. Hoje, a COOPASC conta com 200 associados, todos agricultores familiares, beneficiando de forma direta 800 pessoas e clientes consumidores. Atualmente, a COOPASC organiza as seguintes atividades e ações: possui um supermercado no qual são vendidos todos os produtos provenientes da agricultura familiar; realiza semanalmente uma feira ambulante, utilizando um ônibus, vendendo produtos coloniais dos associados; incentiva as agroindústrias, dando apoio na implantação, comercialização da produção e assistência técnica; viabiliza uma alternativa comercial para o leite, através da COORLAC, com implantação de uma rota de recolhimento para 100 produtores; oportuniza para um funcionário a formação de Técnico em Agropecuária Ecológica em convênios com a EMATER, Prefeitura Municipal e AGROCAMPO. Vários grupos de produtores estão organizando sua produção como forma de industrializar. Algumas evidências: Agroindústria de Derivados de Cana de Açúcar – um grupo de 11 famílias associadas à COOPASC implanta uma agroindústria para a produção de melado, açúcar mascavo e rapaduras; Agroindústria de Derivados de Mandioca – um grupo de duas famílias industrializa mandioca e produz polvilho e farinha; Moinho e Descascador – uma família industrializa farinha orgânica (trigo, milho, soja, centeio e o descasque de arroz); Erva-Mate – uma família está na atividade da produção orgânica e em um abatedouro de frangos – seis famílias estão na produção de frangos caipira. No momento, a COOPASC desenvolve junto aos associados discussões sobre as possibilidades de implantação de uma agroindústria de leite, agroindústria de embutidos e alternativas de produções orgânicas de soja (convênio COTRIMAIO) e milho, trigo, aveia, feijão e outros produtos (em convênio com COLMÉIA, TEIA e ARCO-ÍRIS). 4 - DILEMA DO COOPERATIVISMO AGRÍCOLA FAMILIAR: AGRICULTURA CONVENCIONAL X AGRICULTURA AGROECOLÓGICA Antes de fazer referência à agroecologia, é interessante caracterizar o cooperativismo e suas possibilidades de readeqüação a um novo modelo de agricultura, e a agricultura convencional como forma de caracterizar parte do processo de transformações das relações de produção social de alimentos. As cooperativas são a expressão e o fruto do modelo capitalista, e o seu surgimento está atrelado às dificuldades inerentes e cíclicas desse modelo. O modelo caracteriza-se por concentrar e especializar, para obter maior produção e maximizar lucro, e funciona da seguinte maneira: à medida que o processo capitalista se expande em produção devido à concentração e especialização, o lucro também aumenta, mas na razão inversa, concentrando e individualizando nas mãos de minorias. Nas cooperativas, as relações de produção são de cooperação, ao contrário do capitalismo, onde as relações são de dominação. As tecnologias são adequadas ao modelo produtivo e concentrador e dificilmente se enquadram às formas de cooperação. As cooperativas competem no mercado por tecnologias provenientes da modernidade – com altos custos de produção – repassam esses custos aos seus associados como a maioria das empresas capitalistas, não oferecendo, na maioria das vezes, nenhuma vantagem aos seus associados. Dessa maneira, igualam-se e passam a competir no mercado como as demais empresas, descaracterizando-se e sendo absorvidas pela ideologia dominante e individualista. Essa ideologia dominante e individualista passa a caracterizar a direção da cooperativa, seus associados e a própria inserção da cooperativa no mercado. A tecnologia convencional proveniente da modernidade está calcada no individualismo (tecnologias reducionistas). Então, como adequar esta tecnologia individualista determinada pelas relações sociais ao modelo cooperativista? Como trabalhar estas contradições, incentivando o individualismo e o cooperativismo em um mesmo campo de lutas? Como tornar o cooperativismo uma forma de cooperação viável, dentro de um modelo maior, concentrador, individualista e autoritário? Uma das possibilidades é viabilizar – dentro do mesmo campo, porém, sem enfrentamento – outras tecnologias que não agridam nem o ambiente, nem o homem, e que possibilitem gerar emprego e renda em forma de cooperação. Esse é o problema e o dilema do cooperativismo agrícola familiar, é saber como fazer essa transição de uma agricultura convencional (competitiva e individualista) para uma agricultura agroecológica, mais humana, que respeita a natureza e oportuniza novas relações sociais de produção e de cooperação. Sob o ponto de vista tecnológico, a agricultura convencional está embasada sobre três eixos fundamentais: 1) agroquimíca; 2) motomecanização; e 3) manipulação genética. A agroquimíca teve a incumbência de produzir insumos a fim de suprir deficiências de fertilidade dos solos e no controle de pragas, doenças e ervas invasoras. Com o controle e domínio da natureza, foi possível praticar agricultura de monocultura, tanto intensiva como de forma extensiva. Com a motomecanização, foi possível liberar mão-de-obra às indústrias e cidades. Dessa maneira, abriram-se possibilidades de redução de custos de produção e de uma maior abrangência de novas e maiores áreas de produção. O último pilar – e dos mais importantes para os grupos transnacionais do agrobusiness – é a engenharia genética. No momento, a engenharia genética está mais preocupada em produzir plantas resistentes ao uso de herbicidas. Essa área assume importância na medida em que países ricos, pobres em biodiversidade, passam a exigir de países pobres, mas ricos em biodiversidade, legislação específica sobre a propriedade intelectual e de patentes sobre plantas e microorganismos, de tal forma a ampliar seus domínios sobre a agricultura mundial O modelo de agricultura convencional não pode ser visto apenas sob o ponto de vista tecnológico. Segundo LINO: "Existem os determinantes econômicos, político-estratégicos, culturais, sociais e outros, que não podem ser esquecidos. O Brasil sofreu, nos últimos anos, um violento processo de ‘modernização’ de sua agricultura, apenas no que toca aos aspectos tecnológicos e apenas em algumas regiões. Convivem em nosso país relações trabalhistas e formas de organização que remontam à Idade Média (parceria, meia, terça, etc.) e até semi-servidão, sem falar na pura e simples servidão (...)” (Lino, 1996, pp. 14-15). O paradigma científico agrícola dominante tem suas idéias no positivismo-reducionista, cujo modelo cabe aos interesses econômicos que dominam as produções agrícolas e os mercados mundiais. Esse não é o único modelo de abordagem científica – existem outros, citados posteriormente por Lino – mas até o momento é o dominante. Nesse modelo dominante, o paradigma científico agrícola tem sua origem, principalmente, ligada ao método de Descartes e ao positivismo científico de Comte. É a superespecialização do conhecimento, sua atomização e sua validade enquanto conhecimento inquestionável. LINO cita autores como PRIGOGINE & STENGER (1984) sobre a nova postura científica, chamada de ''nova aliança'', que busca integrar a cultura científica com a cultura científica de caráter mais humanista, tendo como resultado uma ciência mais pluralista e integrada, com o reconhecimento do saber popular e tradicional. LINO cita também CAPRA (1985), que, partindo de estudos de física quântica, tratou de estabelecer uma parte entre a ciência ocidental e a ''filosofia" oriental, abrindo, com isso, novas perspectivas de análise dos paradigmas científicos e do desenvolvimento. Em seguida, LINO faz a correlação da agroecologia e o respeito ao conhecimento tradicional, empírico, dos agricultores e povos indígenas e a busca dessa aproximação com o conhecimento científico formal. A agroecologia é (ou pode ser) um novo marco conceitual, que pode ser entendido como um novo paradigma. Para ALMEIDA (1993): "Caso não se afirme como um novo paradigma, ela poderá, sem dúvida, ser interiorizada no plano societal, não afetando fundamentalmente as estruturas de nossa sociedade”. Segundo alguns autores, é um paradigma emergente, para substituir a agricultura convencional, que tem como fim incorporar elementos de síntese, unificadores e integradores. Esse paradigma tem uma visão, uma abordagem sistêmica e holística (o contrário da visão reducionista e individualista da agricultura convencional), tanto nas questões referentes ao ambiente como nas sócio-econômicas. Da maneira como se interligam os elementos de síntese unificadores e integradores (elementos físico-químicos, energéticos, o homem, as plantas, os animais e insumos simples), tem-se várias abordagens de agricultura não-convencional – ou antiindividualista – como forma de distinguir várias escolas ou linhas filosóficas, entre as quais: agricultura orgânica (AO), agricultura biodinâmica (ABD), agricultura biológica (AB), agricultura ecológica (AE), permacultura (PA), agricultura natural (AN), agricultura regenerativa (AR) e agricultura sustentável (AS). A finalidade do momento não é aprofundar-se entre as várias escolas ou linhas filosóficas, mas traçar e analisar alguns problemas filosóficos enfrentados, ou que deverão ser, pela agroecologia. As várias escolas (ou linhas) caracterizam-se por possuir como princípios a agroecologia, que é o parâmetro norteador do novo paradigma emergente. Entenda-se (ou pode-se assim entender) como um parâmetro norteador do novo paradigma valores antiindividualistas, que se caracterizam por: conduta ética e cidadania, cooperação e solidariedade, gestão democrática e transparente, respeito à participação, preservação do meio ambiente e da vida, e conhecimento e credibilidade. Esses valores, possivelmente, somados e dinamizados por uma educação justa e libertadora permitirão (no futuro): uma sociedade sustentável (dentro de uma visão global), estável, produtiva, igualitária e com qualidade de vida para todos (hoje, vida digna é para poucos). A questão da "tecnologia de ponta" parece ser um exemplo. O homem, com seu trabalho, ''modifica a natureza e a transforma'', – artificializa a natureza e a si mesmo – produz dentro desse homem, uma desumanização. Os valores tornam-se estranhos, frios. A produção antes tinha como fim suprir as necessidades básicas do homem (valor de uso). Hoje, tem como fim suprir outras necessidades, postuladas no artificial e no consumismo de bens – de consumo – (valor de troca), enquanto forma de vida e felicidade. Os valores são outros, é a sociedade do individualismo, do ''TER”. O homem está voltado para dentro de si, de maneira egoísta, disputando com outros homens espaço, dinheiro e poder. Como diria MARX: bellum omnium contra omnes (guerra de todos contra todos). Thomas Hobbes afirma: "o homem é lobo do próprio homem". Na realidade, o homem, à medida que ''artificializa seu mundo'', tem se colocado ''contra a natureza''. As conseqüências e os exemplos são sentidos e visto por todos. Segundo Leonardo Cruz: ''Desde 1996, quando o medo do mal da vaca louca atingiu seu auge no Reino Unido, o consumo de alimentos orgânicos cresce em média 40% ao ano (...) Hoje, uma em cada três pessoas compra orgânicos regularmente no país. O interesse por um alimento mais saudável também é sentido no resto da Europa. Nos últimos dois anos, a procura por comida orgânica cresceu 25% entre os franceses'' 24 Para Franz Fischler, comissário para Agricultura da União Européia: "A mensagem está clara para quem quiser ver: a humanidade precisa trabalhar com 24 Jornal A Folha de S. Paulo, ÍNDICE GERAL, São Paulo, 13 de maio de 2001. a natureza, não contra ela. Essa é a lição que temos de aprender do desastre da vaca louca. Não podemos transformar vacas em canibais"25 À medida que há evolução da ciência e tecnologia, novos produtos são lançados no mercado, há uma dinamização muito grande desse mercado emergente e em expansão, onde o que interessa é produzir para vender e ganhar dinheiro (valor de troca). O semelhante deixa de ser uma pessoa, mas possibilidades de uso e exploração. Essa é a lógica do mercado, o qual cresce sem parar. É o consumo desenfreado, alienado e que alimenta esse mercado sujeito que torna o homem insignificante e objeto de sua própria criação. É preciso fazer a transição – do individualismo – e passar de uma visão tecnicista – reducionista, produtivista, atomizada (fragmentada) – e de mercado para uma visão diferenciada, em que a ciência seja vista dentro de uma pluralidade não mais compartimentada, mas holística, em que a unidade está no todo e o todo na unidade. O importante é a inter e multidisciplinariedade para que haja a visão do todo (do coletivo). A produção de alimentos "limpos", ecológicos, é mais do que produzir alimentos é produzir saúde. Saúde não se produz numa agricultura de monocultura, mas num espaço de biodiversidade. A agroecologia é produção de biodiversidade. A natureza é um exemplo a ser seguido, pois tudo nela é biodiversidade. É num ambiente desses que se tem equilíbrio. Esse equilíbrio prevê o uso dos métodos agroecológicos através do princípio da prevenção como forma de fortalecer o solo (fertilidade natural) e as plantas. Para tanto, é necessária a promoção do equilíbrio ecológico em todo o ambiente, como forma de controlar os insetos, fungos, ácaros, bactérias e viroses. O controle é realizado através de medidas preventivas: plantar em épocas corretas, usar variedades 25 idem 24. adaptadas ao clima e ao solo do local, fazer consorciação de culturas, usar adubação orgânica, fazer rotação de culturas, adubação verde, cobertura morta, plantio direto, plantar variedades e espécies resistentes às pragas e doenças, fazer manejo seletivo do mato, evitar erosão do solo, fazer uso de adubos minerais naturais (pouco solúveis), usar plantas como quebra–ventos ou faixas protetoras, nutrir as plantas de forma equilibrada com micronutrientes e macronutrientes, e conservar as matas nativas. Os efeitos adversos da agricultura, tais como pragas e doenças, não são resolvidos com aplicação indiscriminada de venenos, como acontece na monocultura. É preciso procurar as causas que determinaram esse desequilíbrio. A agricultura ecológica é muito mais complexa e científica do que a agricultura de ponta, que trabalha os efeitos. Na realidade, a agricultura de ponta é produzida sem a preocupação com a saúde da população (não interessa o coletivo) e, sim, com o lucro (ter cada vez mais é o individualismo). É uma atitude simplista diante da complexidade da natureza. Para as pragas da lavoura, utilizamse inseticidas; para as doenças, fungicidas; para as ervas daninhas, herbicidas. Nunca são procuradas as causas, sempre as intervenções do homem se dão nos efeitos. Ao contrário da atitude da agricultura ecológica, onde o que interessam são as causas. A agricultura ecológica é totalmente diferente. As ervas daninhas não são daninhas, são apenas ervas. Elas têm sua importância na biodiversidade e no equilíbrio ambiental; os adubos sintéticos que salinizam o solo, tornando-o estéril, são substituídos por adubos naturais de rochas, adubação verde, adubos orgânicos de procedência animal e por adubos orgânicos líquidos e concentrados (caldas); os venenos para as pragas e doenças dão lugar às caldas sulfocálcicas e bordalesas tradicionais, utilizadas há milênios de anos, como também outras caldas utilizadas para espantar os insetos. A natureza é um sistema biodinâmico, produzem-se as doenças, mas também é produzida a cura. Ao homem, cabe ''interferir na natureza'' para a produção de alimentos, com sabedoria e compreensão, de forma a não quebrar o sistema biodinâmico em equilíbrio. Conforme Leonardo Cruz: ''No Reino Unido, criadores que ‘trabalharam com a natureza' nunca enfrentaram problemas com a vaca louca. Dos 170 mil animais britânicos contaminados pela doença, nenhum caso foi encontrado em rebanhos totalmente orgânicos”. 26 Portanto, a agricultura convencional, entendida como moderna, elaborada dentro dos princípios que regem a ciência reducionista, com altos custos, poluidora, excludente e individualista (porque traz consigo uma bagagem fortemente ideológica), causa transtorno e dificuldades à reprodução (com dignidade) da unidade familiar e de suas formas de cooperação (associações e cooperativas). Em contrapartida, a agricultura agroecológica é a possibilidade da cooperação solidária, com base no respeito ao outro, inclusive à natureza, recuperando a possibilidade de novas formas de relações do homem para com o homem. Nesse novo contexto, é possível a prática da construção em cooperação, tanto nas formas associativas como cooperativas. Esse modelo possivelmente oferece melhores condições de reprodução da unidade familiar e suas formas associativas e cooperativas. 26 Jornal A Folha de S. Paulo, ÍNDICE GERAL, São Paulo, 13 de maio de 2001. CONCLUSÃO A agricultura familiar na Região da Grande Santa Rosa caracteriza dois períodos distintos: o primeiro é o de migração a partir de 1900, até 1950, principalmente, por parte dos colonizadores alemães, italianos e poloneses; e o segundo, a partir de 1950, com a Revolução Verde e a introdução do trigo e a mecanização agrícola. O primeiro período assinala momentos difíceis aos agricultores familiares, vindos da Colônia Velha e de Caxias do Sul. A ajuda entre as pessoas e famílias era uma constante em virtude das dificuldades e necessidades do momento. Os mutirões eram práticas comuns, principalmente na construção de casas; era constante o desmatamento para estabelecer as primeiras lavouras para o consumo familiar e a abertura e conservação de estradas. Esse período caracteriza-se como de cooperação entre pessoas e famílias em virtude das inúmeras dificuldades que o ambiente oferecia. A ajuda mútua era por extrema necessidade, pois as famílias dependiam umas das outras para sua manutenção e reprodução social – entendendo a família como uma forma de representação do individualismo no modelo capitalista. A vida girava em torno das necessidades básicas. O mercado caracterizava-se quase como de mercado simples (Marx), através das trocas de produtos, que eram intensas. O espírito que movia essas pessoas era o mesmo de seus ascendentes europeus quando chegaram ao Brasil. Ter direito à liberdade, à igualdade e à propriedade privada, conforme a Declaração dos Direitos Humanos. Em outras palavras: ter a liberdade de igualdade de direitos de possuir tantas propriedades privadas (terras) quanto possa usufruir, de acordo com sua “capacidade e aptidões” (Locke). Para Marx, essa liberdade e essa igualdade estariam contempladas nos direitos humanos como uma mônada dobrada sobre si mesma, caracterizando o egoísmo e o individualismo. Na realidade, esse espírito egoísta e individualista estaria represado em virtude das dificuldades ambientais. A competição e o individualismo dão lugar à manutenção e à reprodução das unidades familiares, uma vez que a dependência entre essas unidades é uma forma de sobrevivência. O segundo período, para melhor entendimento e compreensão, será dividido em três sub-períodos: da década de 50 até 65, de 65 até 80 e de 80 até os dias de hoje. O sub-período de 50 até 65 caracteriza o início da Revolução Verde. São implantadas as primeiras lavouras de trigo. O crédito, antes insipiente, estrutura-se e possibilita a rápida expansão das lavouras de trigo através da mecanização agrícola e uso de insumos modernos. Surgem as primeiras cooperativas tritícolas, entre as quais a Cooperativa Tritícola Santa Rosa Ltda. (COTRIROSA) e a Cooperativa Mixta São Luiz Ltda. Começa a competição por crédito – uma vez que é restrito – para implantar, expandir as lavouras de trigo e para a aquisição de máquinas e insumos. Se, no período anterior, a luta se dava pela cooperação entre as famílias para possibilitar a sobrevivência, agora a luta é para suplantar o outro na aquisição de bens de produção e de consumo. É o egoísmo e o individualismo vindo à tona. O sub-período de 65 até 80 caracteriza o período da monocultura da soja. A soja transforma-se em moeda, tanto na compra como na venda de bens de consumo. Com a monocultura da soja, tem-se a especialização da agricultura. O crédito rural é subsidiado e o retorno dos investimentos na cultura da soja compensa. A época é de expansão do capitalismo na agricultura. O colono deixa de produzir alimentos para consumo próprio e o urbano e passa a produzir soja. Em nome da monocultura da soja, são destruídos os pomares, os ervais, as hortas domésticas. O desmatamento é intenso nesse período. O colono compra quase tudo nos mercados: frutas, verduras, leite, carne e seus derivados, feijão, batata inglesa, batata-doce, aipim e outros produtos. As casas de madeira dão lugar às de alvenaria, o arado e a junta de bois dão lugar ao trator, o candeeiro e o lampião dão lugar à luz elétrica, a água puxada a balde dá lugar à água encanada. É a modernização do campo através de sua industrialização. Vive-se o consumismo e é grande a compra de eletrodomésticos. A destruição do ambiente é um fato. As matas são destruídas, a água e os alimentos são contaminados, o ar é poluído por venenos e os solos exauridos pela monocultura. Os mutirões – momentos de solidariedade e ajuda mútua no trabalho, na confraternização e trocas de experiências – entre vizinhos, cedem lugar ao egoísmo e à inveja. Busca-se o dinheiro e o conforto a qualquer preço. O que interessa é suplantar o outro no aumento da produção e da produtividade, como forma de tirar vantagens para si. Os vizinhos e amigos de antigamente dão lugar à competição, à ganância, ao egoísmo e ao individualismo. O sub-período de 80 até os dias de hoje, após a fase áurea do soja, contabiliza 40 milhões de sem-terras. O inchaço, a miséria e a violência são crescentes nas cidades. No meio rural há miséria e fome, justo onde deveria existir abundância, qualidade e diversificação de alimentos. A soja que possibilitou a funcionalidade da agricultura – principalmente na década de 70 – é responsável pela descapitalização dos agricultores familiares, donos de pequenas áreas que são impróprias à produção extensiva de grãos. Os custos de produção e a falta de subsídios estão inviabilizando os agricultores familiares. O empobrecimento na região é visível e constante. A Revolução Verde é responsável por um rastro de destruição tanto humana como ambiental. O plantio direto, que era solução, torna-se inconveniente devido ao uso intenso de herbicidas. Em continuação ao cientificismo, tenta-se perpetuar o modelo através de tecnologias mais sofisticadas, como os PGM (produtos geneticamente modificados) e clonagem. Na metade dos anos 80, até 1992, a EMATER Regional de Santa Rosa intensifica trabalhos na área do associativismo como forma de viabilizar – o momento é de crise, década perdida – a agricultura familiar. A idéia era sair dos trabalhos individuais, ou melhor, do individualismo das unidades familiares de produção para trabalhos organizados em associações, para mais tarde transformar essas associações em cooperativas comunitárias de produtores familiares. O objetivo maior visava à organização dos agricultores como forma de congregar esforços para poder competir no mercado de alimentos. Para tanto, era necessário organizar a produção, o beneficiamento, a agregação de valor, o transporte e a venda dos produtos. Até 1992, o número de associações na região era de 87 para 1944 associados (Fonte: EMATER Regional de Santa Rosa, 1992). As formas associativas trabalhadas: associações, APSATs e condomínios. Como participante e incentivador do processo associativo junto aos agricultores familiares, produtores de alimentos convencionais, constato: 1º – os condomínios leiteiros foram um fracasso; 2º – as associações leiteiras organizadas em torno da inseminação artificial (botijão de sêmen) deram certo; 3º – as associações ou condomínios de máquinas agrícolas e implementos foram igualmente bem-sucedidos; 4º – as associações de feirantes foram positivas; 5º – os condomínios de suinocultura também o foram, e assim por diante. A partir dessas colocações, observo: 1º – certas atividades, práticas e ações – como, por exemplo, associações leiteiras de inseminação artificial, associações e condomínios de máquinas e implementos agrícolas, associações de feirantes e condomínios de suínos – deram resultados positivos; 2º – nos condomínios leiteiros, os resultados foram negativos. A partir das constatações e observações, faço a seguinte análise teórico-prática: 1º – as associações e condomínios com resultados positivos são organizações que possibilitam organizar a produção num determinado momento do processo produtivo, maximizando vantagens no coletivo, e permitindo que as unidades familiares de produções agrícolas mantenham suas individualidades competitivas, enfim, seu individualismo. Dessa maneira, há uma aceitação e colaboração nessas formas de organização, uma vez que os ensinamentos do individualismo estão preservados nas práticas de ensino do atual modelo. Como diria Marx: ao nascer, o homem traz consigo uma bagagem cultural. 2º – os condomínios com resultados negativos – por exemplo, os leiteiros – são organizações que contemplam formas essencialmente coletivas; enfim, pressupõe uma educação que prioriza uma construção de formas de cooperação. Como trabalhar as contradições: práticas científicas e individualistas em organizações coletivas (condomínios leiteiros)? E como exigir das pessoas mudanças no comportamento, de uma lógica capitalista, individualista, para uma lógica de construção e cooperação? Na realidade, não houve esse preparo para uma nova lógica de produção e vida. Penso que as tecnologias são formas que expressam os modos de produção de uma determinada sociedade. As tecnologias científicas e reducionistas são próprias do modelo capitalista, cujo princípio maior é o individualismo, enquanto que as tecnologias agroecológicas (visão sistêmica e holística) são próprias de um modelo de construção em cooperação. Sugiro pesquisa nessa área. Na década de 80, a discussão conceitual sobre desenvolvimento rural (melhoria dos aspectos sociais) centraliza as discussões acadêmicas. Nesse momento caberiam alguns questionamentos: Como promover o desenvolvimento rural sem consolidar políticas agrárias de médio e longo prazo? Qual a procedência – se o país apresenta déficit comercial – dos recursos econômicos? Empréstimo internacional? Quem paga a conta? O agricultor teria possibilidades de pagar a conta utilizando tecnologias convencionais de alto custo e excludentes? A utilização de tecnologias organizações convencionais coletivas somadas com às momentos práticas para associativas o – individualismo (condomínios de suinocultores integrados ou não e associações de feirantes) – seria uma possibilidade? Sugiro pesquisa nessa área. Na década de 90, a discussão amplia-se e o ambiente faz parte das discussões. A discussão teórica e conceitual é o desenvolvimento rural sustentável. Tem-se nesse momento duas lógicas. A lógica do cientificismo, que é a tentativa de manutenção do atual modelo de dominação e exclusão – que passa a denominar-se Revolução Verde – que polui mas que despolui através da industrialização. A sociedade pagaria essa conta? O agricultor familiar continuaria na dependência dos insumos energéticos externos (tanto para poluir como para despoluir). Esse modelo é a continuação do atual sistema do individualismo, inclusive ampliando-se em nível global, com acumulação e concentração de riquezas em poder de cada vez menos países e pessoas. É a consolidação da abertura política e econômica e o aumento da miséria social dando-se de forma global. A outra lógica do desenvolvimento rural sustentável – preconizada para os agricultores familiares – é a da construção em cooperação solidária através do respeito aos princípios agroecológicos. Nesse modelo, far-se-ão alguns questionamentos: Como fazer a transição de um modelo concentrador, excludente e individualista – modelo capitalista – para um modelo de construção em cooperação solidária tendo como fundamento os princípios agroecológicos (modelo a ser construído)? Como trabalhar os atributos de vida – competição, concentração de renda e poder (ter), consumismo, lazer e recreação – tão próprios do individualismo? Em termos educacionais e pedagógicos, como proceder à análise e ao estudo da teoria positivista-funcionalista e da teoria histórico-crítica, em relação aos atributos de vida do individualismo que estão no inconsciente das pessoas, como forma de libertá-las para a construção de um novo modelo de sociedade? A sociedade do individualismo tem sua manutenção e reprodução fundamentada nos aparelhos ideológicos; como essas questões devem ser trabalhadas para que, a partir deste conhecimento, possa-se construir o indivíduo coletivo? Ou será possível construir o novo sem matar o velho? Poderá o modelo agroecológico ser uma alternativa sem enfrentamento ao modelo convencional? Considerando a agricultura familiar, o desenvolvimento rural sustentável, a agroecologia e o cooperativismo: quais são os procedimentos a serem viabilizados como forma de proporcionar o desenvolvimento sob o aspecto social, econômico, político, ambiental e cultural? Penso que devam ser através de uma educação que possibilite desenvolver o espírito crítico e proporcione a construção do conhecimento do local em forma de cooperação a partir da visão do global. Esse conhecimento deve ser o resultado de uma análise grupal da realidade local que pressupõe o encaminhamento de propostas para o desenvolvimento rural de forma coletiva e integral, considerando: a agroecologia, a possibilidade de verticalização da produção (indústria familiar caseira e/ou agroindustrialização) e a formação de Cooperativas Mistas Solidárias de Consumidores e Produtores. Deve, ainda, trabalhar na constituição, formação e organização de redes de economia solidária. Sugiro pesquisa nessa área. O ensino do individualismo – que se dá através dos aparelhos ideológicos na escola, na família, nos meios de comunicação social, etc. – internalizado pelos agricultores familiares (inconscientemente) e por suas formas associativas e de cooperação certamente são empecilhos que devem ser removidos – pela educação – como forma de viabilizar, dentro de uma nova lógica (do indivíduo coletivo), os agricultores familiares e o desenvolvimento rural sustentável através dos princípios da agroecologia e do cooperativismo ou outras formas associativas. No atual contexto e modelo de produção convencional praticado, a agricultura familiar é de difícil viabilidade, devido aos custos altos de produção, baixos preços dos produtos e a degradação social e ambiental. Alternativas como a agricultura agroecológica podem ser viáveis devido aos baixos custos de produção, ao melhoramento social e ambiental e à geração de emprego e renda descentralizados. Mesmo com mudança do modelo produtivo, acredita-se que o trabalho deva privilegiar formas associativas em algum momento do processo produtivo, quer seja: na produção, no transporte, nos beneficiamentos, na agroindustrialização, na armazenagem e/ou na comercialização. Outro fator é a realização de alianças através de cooperativas de consumidores e produtores, organizando a produção do agricultor ao consumidor e viabilizando a ambos através de uma economia solidária. Considerando agricultura familiar, a agroecologia e as formas associativas dentro de uma visão sistêmica e holística, como motivos e pressupostos para trabalhar as temáticas referidas, por acreditar que mudanças devam ocorrer – mudanças de postura do individual ao coletivo; da agricultura convencional à agroecológica – novas formas associativas devem ser buscadas e a educação utilizada como catálise para possibilitar a concretização de todo o processo, dentro de uma metodologia construtivista e em cooperação. Para o desenvolvimento rural sustentável, além do explicitado até o momento, são necessários outros condicionantes como maior conscientização das pessoas e da sociedade brasileira para que se possam estabelecer políticas públicas, tanto agrícolas como formas nãoagrícolas. Entendam-se atividades não-agrícolas como toda atividade desenvolvida no meio rural, mais precisamente nas comunidades rurais, que envolvam relações sociais de produção que não condizem diretamente com a arte agrícola. Como exemplos: turismo, ‘pesque e pague’, restaurantes, pousadas, serviços de saúde e educação e outros serviços gerais – pedreiros, marceneiros, mecânicos, carpinteiros, encanadores, eletricistas, operadores de máquinas e outros. Todos esses elementos devem ser considerados no desenvolvimento rural endógeno (que vem de dentro, que depende dos atores internos), como fatores impulsores e dinamizadores da sociedade e da economia rural. Além das políticas agrícolas, segundo GRAZZIANO: "As novas políticas vão no sentido de estimular a pluriatividade das famílias rurais, a diversificação das unidades de produção para atividades não-agrícolas (...)" (Grazziano, 1998, p. 123). A pluriatividade é toda atividade de trabalho desenvolvida por um ou mais familiares no meio urbano, mas mantendo a unidade de produção como núcleo central sócio-econômico, como referência principal e básica de sustentabilidade da família rural. Deve-se, no entanto, respeitar as características e necessidades de cada população em nível local e regional (estudo de caso). "O fato é que o desenvolvimento rural é um fenômeno intrinsecamente local e regional. E as localidades e regiões que melhor conseguem se desenvolver são as que apresentam maior capacidade de organizar os fatores endógenos, direcionando-os para o fortalecimento da organização social, para o aumento da autonomia local na tomada de decisões, para o aumento da capacidade se reter e reinvestir capitais, para o aumento da inclusão social e para o aumento da capacidade de regenerar e conservar o meio ambiente" (Veiga, 1898, p.168). A agricultura familiar é uma das possibilidades para a construção do Desenvolvimento Rural Sustentável com base em princípios que reduzam custos e ao mesmo tempo possam maximizar emprego, renda e bem estar da família rural. A agroecologia é uma das alternativas que se mostra viável sob a forma social, econômica e ambiental, pois possibilita o desenvolvimento rural de forma integral e equilibrada. Deve-se levar em conta que 70% dos municípios brasileiros dependem e muito da agricultura para seu desenvolvimento, pois suas condições e qualidade de vida chegam, em alguns casos, a depender exclusivamente da agricultura. Nesses municípios, o indicador mais preciso é: quando a agricultura vai bem, o município e toda sua economia também, e viceversa. A agricultura familiar, em termos estratégicos, tem sua importância assegurada enquanto produtora de alimentos básicos. A sociedade, não esquecendo a agricultura familiar e suas representações, através de suas relações sociais de produção, deve rever o modelo técnico-produtivo de produzir alimentos. Se continuar assim, tem-se a problemática da produção de alimentos com seus efeitos perversos e nocivos à saúde da humanidade e do meio ambiente. Há um crescente aumento na conscientização das pessoas quanto à questão alimentar e às necessidades básicas de consumo de alimentos limpos (livres de produtos químicos e biotecnológicos). Há uma nova mentalidade que se instala "pari passo", mas de forma constante. Acredita-se cada vez mais nesse "novo mercado", que, por suas dimensões, coloca o homem no topo de toda e qualquer preocupação. Com essa nova mentalidade voltada à sustentabilidade, deve-se resgatar a importância da agricultura familiar enquanto modo de vida e como produtora de alimentos saudáveis, restabelecendo uma relação de harmonia do homem com a natureza. A relação de domínio do homem sobre a natureza deve dar lugar a uma nova relação em que o homem, sabedor e muito mais consciente, a partir desse conhecimento, reconhecerá a si próprio como uma parte do todo e não como o todo. Com isso, dará lugar a novas relações do homem para com o homem e do homem para com a natureza, como forma de reencontrar-se dentro de uma nova escala de valores. Não cabe no presente trabalho nenhuma profundidade em termos de estudo e detalhamento do ocorrido até aqui. Porém, convém lembrar que as empresas do setor químico são as mesmas que produzem os adubos sintéticos, as sementes híbridas, os venenos e os medicamentos. Essas empresas, através de fusões e parcerias, controlam a biotecnologia e, por meio das técnicas, passam a controlar a vida. Atualmente, como antes, tentam introduzir na agricultura os transgênicos (OGMs – Organismos Geneticamente Modificados). A Revolução Verde, que veio para debelar a fome no mundo, deixou atrás de si, no Brasil, quinze milhões de agricultores sem terra. Quantos milhões de sem-terra essa nova tecnologia deixará atrás de si? A agricultura dos transgênicos é medida que promete revolucionar a agricultura. Não deixa de ser uma ''ameaça à própria agricultura'', provocando, no meio rural, o que é muito provável que venha a ocorrer, o abandono das terras por parte de milhões de agricultores com suas famílias. Os transgênicos ''não oferecem segurança alimentar ao consumidor'', ''nem ao ambiente'', com possibilidade de causar erosão genética irreversível, comprometendo animais e plantas de todo o planeta. Na questão referente à segurança alimentar, o jornalista John Humphrys, autor do livro O Grande Jogo da Comida, afirma que: ''As pessoas estão perdendo a fé naquilo que comem”. Ele analisa as mudanças nos hábitos alimentares dos britânicos nos últimos anos. No seu entender: "(...) por causa desse medo da comida, há uma ''revolução em curso no Reino Unido'' (...) se refere ao aumento da procura por alimentos orgânicos, produtos elaborados de forma mais natural. Na lavoura, são verduras, frutas e legumes produzidos sem agrotóxicos. Na pecuária, é a criação de gado extensiva, sem aplicações de hormônios e sem o uso de rações com proteína animal'. 27 Não se pode deixar de mencionar que essas mesmas empresas são responsáveis pela guerra biológica e química que acontece no mundo. É possível uma empresa ser responsável pela vida e pela morte ao mesmo tempo? Que contradição! Essas empresas merecem credibilidade? Ao contrário, a ciência da agroecologia, com sua visão, postura e ética, traz em seus princípios fundamentais a eqüidade, a sustentabilidade, a estabilidade e a qualidade de vida, resgatando com isso a própria cidadania. Quem sabe a ciência da agroecologia viabilize a agricultura familiar, o desenvolvimento rural sustentável e formas de cooperação. 27 Jornal A Folha de S. Paulo, ÍNDICE GERAL, São Paulo, 13 de maio de 2001. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADAMS, Telmo. Perspectiva econômica. Cooperativismo 27, v. 24, n. 67, p. 18. S. Leopoldo/RS, Ed. UNISINOS, 1989. ALMEIDA, Jalcione. Tecnologias agrícolas “alternativas”: Nascimento de um novo paradigma? Porto Alegre, UFRGS, 1995. ANDRIOLI, Antônio A; GIEHL. Pedro R. Programa de cooperativismo nas escolas de Santa Rosa. Santa Rosa, Cooperluz, 1997. BRACAGIOLI, Alberto. Agricultura Familiar no Brasil - entre contrastes e impasses. Porto Alegre, EMATER-RS, 2001 (MIMEO). BITTENBENDER, Luis Pedro. Perspectiva Econômica. UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS. Volume 29, nº 86. São Leopoldo, UNISINOS, julho/setembro 1994. CAPORAL, Francisco Roberto; COSTABEBER, José Antônio. 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