Jamb Cultura Foto: Luigi Beneduci Este caderno é parte integrante do Jornal da Associação Médica Brasileira (JAMB) – Coordenação: Hélio Barroso dos Reis Bimestral maio/junho de 2012 – nº 15 Autor: Antonio Peticov Título: Duck´s Dream Dimensões: 118 x 158 cm Técnica: Acrílica sobre tela e madeira Ano: 1996 Acervo da Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina Antonio Peticov – pintor, escultor, desenhista, gravurista, hológrafo e programador visual. Expondo desde 1965, destacam-se suas participações nas IX, X e XX Bienais de São Paulo, assim como individuais no MASP em 2003 e no MAM do Rio de Janeiro em 1978. Além de uma centena de exposições em algumas das melhores galerias de arte da Itália, Holanda, Japão, Estados Unidos, Chile, França, Suíça, Alemanha, México, Bulgária, Inglaterra, Bélgica, Uruguai e Brasil. Fez instalações e murais na Itália, Suíça, Estados Unidos e no Brasil. Foi presidente da Cooperativa dos Artistas Visuais do Brasil em 2003 e 2007. Membro da North American Lewis Carroll Society, é um dos "Friends of Martin Gardner". Fundou e dirigiu o NAC - Núcleo de Arte Contemporânea - entre 1999 e 2006. Autor de três documentários em curta metragem sobre sua obra, tem cinco livros sobre o seu trabalho já publicados. Especializou-se em Geometria Sagrada e na Sessão Áurea imprimindo ao seu trabalho um forte caráter matemático. Depois de viver 29 anos entre Londres, Milão e Nova York, em 1999 Antonio Peticov retomou residência em São Paulo, cidade que abriga diversas de suas obras públicas. Seu trabalho foi difundido mundialmente através de capas de discos e de livros, assim como cartões postais e pôsteres, geralmente associados as suas mostras. Boa Leitura O cérebro humano foi durante séculos uma caixinha secreta. Nas últimas décadas, os exames de neuroimagem, que captam o seu funcionamento, permitiram o conhecimento do funcionamento cerebral sobre a gênese das doenças, sobre o aprendizado, sobre todos os grandes aspectos da vida humana. Os aparelhos permitiram verificar que a ligação mente/corpo não é etérea, estabelecendo que as emoções e as sensações são fenômenos físicos, que ocorrem em locais específicos do cérebro. Nossos 100 bilhões de neurônios vivem um processo permanente de adaptação, apresentando uma plasticidade até bem pouco tempo desconhecida. As mudanças cerebrais da época das cavernas à era da informática são as respostas aos desafios que a humanidade superou nesse período. O desenvolvimento das artes e das ciências também são integrantes desta cadeia de aprimoramento do ser humano no planeta. O JAMB Cultura direciona e divulga talentos de médicos, extra medicina ou de temas médicos para artistas não médicos. Então, aprecie o trabalho de Antonio Peticov São Paulo (SP). A homenagem póstuma, privada, ao J a m b C u l t u r a 2012; 3(15): 113-120 professor médico Antônio Jesuíno do Santos Netto, expressada por Gerson Augusto Paes de Azevedo Salvador (BA), tornou-se de todos. E o conto "Mais uma ficha", do colega José A. Maia - São Paulo (SP), é passagem e relato difícil de sofrimentos de uma paciente e o carinho de estudantes de medicina. Reflexão ao tema morte está em "Sobre a Morte de Ivan IIitch", de Tolstoi, descrita pelo nosso colega, Jorge Cruz, da cidade do Porto - Portugal. O Jamb Cultura está transpondo fronteiras! No espaço poético, "Dia da Mulher", mais uma obra graciosa de Fernando Guedes - Salvador (BA) . A seguir uma homenagem "Aos Geriatras", por Antonio J. Amadi - São Paulo (SP). Por fim, anotem e curtam as "Dicas Culturais" das cidades de Porto Alegre (RS), Brasília (DF) e Vitória (ES). Tenha uma BOA LEITURA ! Hélio Barroso dos Reis Diretor Cultural da AMB Ortopedia e Traumatologia Vitória, ES 113 Homenagem A minha homenagem póstuma ao médico e professor de medicina Dr. Antônio Jesuíno dos Santos Netto Foto dele ontem-Formatura pela FAMED-BA 1944. Foto dele recente - Professor e Cirurgião Geral “O Prof. Dr. Antônio Jesuíno Netto, a tão amoráveis (afáveis) acentos de bonomia, simplicidade e humanidade, tão complexa experiência se conjugue a ciência médica exercida como verdadeiro apostolado” O autor. “Importante, importante mesmo é ser médico” Ney Latorraca, ator consagrado de teatro, cinema e televisão disse essa frase numa entrevista a um Jornal de Salvador que foi atendido de urgência abdominal num hospital sendo socorrido e operado por um médico plantonista (anônimo) “Porque há nas tuas mãos, médico cirurgião, essa beleza que se chama simplesmente vida” Aforismo (Máxima). “A melhor coisa que existe no mundo é ter amigos” Dr. Eraldo Moura Costa Diretor Médico da Promédica Fui surpreendido com a notícia de sua morte ao ler o jornal “A Tarde” do dia 30/09/2011 num artigo da professora universitária Ivette Amaral em que relata de forma emocionada que ele falecera perto de completar 91 anos de idade, lúcido e ativo. O fato se deu quando ensinava numa das universidades de terceira idade, sofrendo um ataque cardíaco durante uma aula, no dia 01/09/2011 (quinta– feira). Segundo nota do CREMEB (Conselho Regional de 114 Medicina do Estado da Bahia), ele foi conselheiro por várias gestões e um dos seis médicos que já recebeu a Medalha de Alto Mérito, em reconhecimento pelo seu trabalho. Foi professor da FAMED-UFBA, da Escola Bahiana de Medicina e da Universidade Católica. Sempre atuante a favor dos direitos dos médicos, ele deixa lições de dedicação e profissionalismo. Dois dos seus filhos seguiram a mesma carreira do pai, os médicos Paulo André Jesuíno e Eduardo Jesuíno. Isso tudo faz-me voltar a um passado já distante. Ele se formara na turma de 1944 da tradicional Faculdade de Medicina da Bahia (localizada no Terreiro de Jesus). Fizeram também parte desta turma o Dr. Alípio Paes de Azevedo (meu pai e sanitarista da Fundação Nacional de Saúde, antiga Fundação SESP), Dr. Antonio Luis Monteiro (meu padrinho de batismo e médico pediatra), Dr. Fernando Costa D’Almeida (radiologista, professor da FAMED-UFBA e ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia), Dr. Murilo Chaves (radiologista do Hospital da Clínicas de São Paulo, professor da Facmed-USP), o Dr. Jaime de Sá Menezes (professor de História da Medicina da EBMSP, ex-secretário de Saúde do Estado da Bahia - governo Juracy Magalhães e membro efetivo da Academia de Letras da Bahia), Dr. Nilo Coelho (ex-governador do Estado de Pernambuco e ex-presidente do Senado Federal), dentre outros. Lembro-me bem quando meu pai me levou ao consultório do Dr. Jesuíno, localizado numa das salas do Edifício Sulacap, no centro de Salvador (Ladeira de São Bento), para que ele me examinasse. O motivo foi uma estripulia minha (aos 9 anos de idade) com duas primas, só que nessa brincadeira cortei o meu pulso da mão esquerda no vidro de uma estante de livros, lesando alguns tendões. Levaram-me de urgência para o antigo Pronto-Socorro do Canela (Hospital Getúlio Vargas) onde um médico plantonista me fez uma sutura e evitou que a minha mão fosse amputada. O Dr. Jesuíno (depois que relatamos este episódio) não se opôs que passássemos sebo de carneiro na cicatriz que ficou (fruto da crendice popular), mas recomendou sobretudo que eu fizesse exercícios (abrindo e fechando a mão) com uma pequena bola de borracha. J a m b C u l t u r a 2012; 3(15): 113-120 Os anos se passaram e durante o curso científico do Colégio Estadual Severino Vieira, participei com outros atletas das Olimpíadas Bahianas da Primavera e acabei (eu e minha equipe) ganhando duas medalhas de ouro nas modalidades esportivas do vôlei e basquete. O curioso é que no saque do vôlei eu sou canhoto (usava portanto a mão esquerda). E pensar que os exercícios que o mestre Jesuíno me orientou não teriam sido em vão. Já médico radiologista instalado no meu Consultório de Radiodiagnóstico da Bahia Ltda. (CRAB), localizado no Largo do Campo da Pólvora nº 7, eis que me aparece um dia o Dr. Jesuíno Netto para realizar um Rx do calcâneo. O fiz sem ônus financeiro para ele. No meu laudo radiológico constatei alteração óssea, mas sem gravidade. Fui seu aluno nas cadeiras de Propedêutica e em Clínica Cirúrgica Torácica da EBMSP. Numa dessas aulas, na Santa Casa de Misericórdia – O Hospital Santa Izabel, ele nos disse num tom professoral: a apendicite causa-nos estranheza que uns sim, outros não, têm essa afecção. Ninguém até hoje soube explicar a razão. Hoje fico analisando essas palavras sábias do saudoso mestre e vejo o que nos torna, afinal, humanos: a capacidade de expressar de forma elaborada nossas ideias e emoções. Em seu artigo, a professora Ivette Amaral também disse que o Prof. Dr. Antônio Jesuíno Netto era um homem de humor, ao que pude constatar a veracidade dessas palavras. Meu pai saudoso me disse que encontrara numa manhã dessas o colega Jesuíno e este foi logo lhe dizendo: Alípio, estou lhe convidando para uma festa hoje à noite no Iate Clube da Bahia. Na verdade, se tratava dos festejos de 50 anos da formatura deles. Ambos caíram na risada. Um fato que ocorreu e acredito não sairá da minha memória. Durante a homenagem póstuma à confreira Maria Thereza de Medeiros Pacheco. O ato solene se deu no Anfiteatro Alfredo Brito da Benemérita Faculdade de Medicina da Bahia, localizada no Terreiro de Jesus, organizado que foi pela Drª Almira Maria Vinhaes Dantas, presidente(a) do Instituto Bahiano da História da Medicina e Ciências afins. Em dado momento, o Prof. Dr. Antônio Jesuíno Netto passou por todos os presentes fotos tiradas da mestra Maria Thereza de Medeiros Pacheco com seus colegas médicos, uma delas confesso, me deixou emocionado. Ela estava em um dos lados do Prof. Dr. Antônio Jesuíno Netto e do outro lado dele se encontrava o Dr. Iderval Tenório (meu colega da SOBRAMES – Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional Bahia) apoiado com uma das mãos no ombro (ombro amigo) do Prof. Jesuíno Netto. Seus colegas de turma de médicos de 1944 o chamavam carinhosamente de Toní (referência ao seu prenome Antônio) e comentavam que J a m b C u l t u r a 2012; 3(15): 113-120 Hospital Santa Izabel quando o encontravam na Faculdade de Medicina e nos corredores do Hospital Santa Izabel ele sempre levava consigo debaixo do braço um livro de cirurgia (assunto que dominava amplamente). No Hospital Santa Izabel, naquela época, a maioria dos atendimentos era de indigentes (o Hospital das Clínicas só fora construído anos depois), de forma que ele teve bons mestres que o ajudaram na sua formação como médico cirurgião. Ele sempre soube que o paciente tem fé, e da fé é que ele vive e do sofrimento que o médico o liberta. Tornao feliz, pois fica admirando a sua destreza técnica como cirurgião de avental, boina e sapatos brancos. Foi portanto lá naquele hospital que ele exerceu sua atividade e onde encontrou a sua ventura. A nossa atividade profissional está subordinada a um código de ética que foi estabelecido 400 anos antes de Cristo por Hipócrates, o pai da Medicina, médico e filósofo grego, o primeiro que repelindo a superstição, fundamentou a prática da medicina em princípios de filosofia indutiva. É mister se dizer que o Dr. Antônio Jesuíno Netto sempre seguiu os preceitos de Hipócrates. Soube-se que muitos acorreram ao seu velório no Cemitério Jardim da Saudade, para a última despedida, onde seu corpo seria cremado. Ele se foi para o andar de cima seguindo o sol no seu movimento pelo céu. Finalizaria esta singela homenagem dizendo: quão mais emocionante é sabermos que todos que lá estiveram puderam contemplar de cabeça erguida como se contemplava em vida o seu ocupante (no caixão mortuário) desde o tempo em que ele lutava pela saúde e pela felicidade dos seus semelhantes. Que descanse em paz! Gerson Augusto Paes de Azevedo Radiologista, Salvador, BA 115 Conto Mais uma ficha Naquele dia, acordou ainda mais cedo do que habitualmente acordava. Passou rapidamente um café no coador de pano (nada dessas coisas de papel sem gosto...), comeu um pequeno pedaço de pão de forma com manteiga. Há muito tempo tinha perdido o medo de passar um pouco de manteiga no pão, que poderia aumentar seu colesterol, mas que a privaria do sabor que desde sua infância deixava-a feliz. Uma sensação que não conseguia explicar bem de mal-estar. Coisa que queria esquecer desde que fez a mamografia que ia mostrar novamente para seu médico, naquela manhã. Levava outros exames, cujo nome nem sabia pronunciar. Eram letras maiúsculas e minúsculas, talvez iniciais de palavras difícies das quais nunca foi informada (RNM, Scan e outras). Mas deviam ser coisas caras e muito importantes. Lavou o rosto, escovou os dentes, usou um pouco do perfume caro, presente da nora que morava no exterior. Vestiu cuidadosamente a roupa que, desde a véspera, estava estendida em uma cadeira da sala. Para ir ao médico, é preciso estar bem cuidada. Nem se deu conta de que a blusa xadrez não combinava nada com a saia florida, mas estava tudo bem lavado e passado. Desceu a rua um pouco íngreme para chegar ao ambulatório. Não. Não queria folhetinhos de exames de vista grátis nem de garantia de emagrecimento rápido e muito menos saber qual o telefone da vidente que traria seu amor de volta e faria previsões para seu futuro. Não queria amendoim torrado quentinho e muito menos tapioca feita na hora. Queria a sua hora. Queria o seu tempo com o seu médico. Se poderia comer a tapioca e o amendoim subindo a rua, depois da consulta gente vê. Calçou os sapatos de usar no domingo e novamente (já tinha repetido isto pelo menos uma meia dúzia de vezes na véspera) conferiu sua bolsa. Alguns trocados, bilhete único, RG, Cartão do Hospital, Meu Deus, uma noite de espera na fila para conseguir aquele pedacinho de papel azul que lhe dava o direito de marcar consultas e fazer exames, embora com meses de espera. Mas não importa muito. O hospital é de uma grande universidade e aqueles doutores que estudaram tanto sabem tudo para cuidar sempre bem de mim... Saiu quando raiava o dia. Caminhou, esperou três metrôs passarem para poder espremer-se em um vagão (morar na Zona Leste é assim mesmo... se fosse mais perto do centro teria mais gente, a esta hora). Desceu na estação da Sé e foi para a outra linha. Mais tranquila, embora também lotada. 116 SISTEMA Meu Deus, este rapaz com uma ficha na mão que chama o meu nome é muito jovem. Usa um avental com o emblema da universidade, mas...é tão novinho... Dúvida. Ele leu tudo, escreveu no computador, mas sinto que tem dúvida. Não sabe direito como falar comigo e me deixa esperando na sala mais de meia hora, enquanto chama quem realmente vai me falar a verdade. Muitos entram na sala. O meu médico, que eu conheço (uma vez eu dei a ele um bolo de banana embrulhado em papel de alumínio...simples, mas bem limpinho, me lembro de ter falado isso). Aquela telinha branca se acende e todos ficam em volta dela vendo meus exames. J a m b C u l t u r a 2012; 3(15): 113-120 Um caroço na minha mama esquerda. Deve ser grave, porque tem outros em muitos lugares. Palavras que eu não entendo. Meu médico pergunta aos jovens coisas sobre o que é isto ou aquilo e sobre o que devem ou não fazer. Eu estou aqui. Falem comigo... Três papéis de encaminhamento (ainda bem que tenho meu cartão azul...) Um tapinha nas costas. Meu médico é muito ocupado, tem outros pacientes para ensinar aos seus alunos. Novamente a estação do metrô. Agora mais vazia. E a sensação de mal-estar é pior. Estou triste. O mundo parece que pesa ainda mais nas minhas costas. Não sei mais quem sou, já que tenho uma doença que deve ser grave. Que jovens bonitos me examinaram... Apalparam minhas mamas, alguns até pediram licença...Que gentis. Apertaram minha barriga. Eu vi as caras feias que alguns fizeram quando me mandaram respirar fundo e passaram os dedos aqui na direita. Uma menina, a última que me examinou, passou a mão nos meus cabelos e sorriu. Usava um esmalte verde...mas isto é coisa da juventude de hoje em dia. Perguntou se eu precisava de ajuda para me vestir de novo. Havia alguma tristeza em seu olhar, mas senti que ela queria que eu ficasse bem. Que linda. Se depender de minhas orações, vai ser uma ótima médica, um dia. E os mamógrafos continuam a funcionar. Os tomógrafos e toda a tecnologia também. Os internos já estão “rodando” em outro serviço. O médico estranhou que a paciente não retornou após os dois meses da marcação de consulta. O metrô vai ficar transportando muito mais gente do que pode, que espera muito mais do que devia. Estou em paz. Não tenho mais comigo o cartão azul nem o cartão cinza do SUS, e os papéis do ambulatório já foram jogados fora há muito tempo. Mas em meus cabelos ainda há um pouco do carinho da jovem que neles passou os dedos com o esmalte verde e sorriu, há muito anos... José A. Maia Clínica Médica/Cardiologia São Paulo, SP A ÚNICO DE SAÚDE Nova baldeação no metrô para voltar para casa. Como será que os maquinistas destes trens conseguem parar direitinho em frente a estas fitas coladas no chão? Não! Para mim, basta! Assim que puder mudo de profissão. Mais um passageiro se atira bem na frente de minha composição. Não pude frear, estava muito perto. Sei que vai ser divulgado como um “atraso devido a uma falha técnica na Linha 2”. Mas não vou dormir bem hoje. J a m b C u l t u r a 2012; 3(15): 113-120 117 Ponto de Vista Sobre A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi O mistério da morte tem sido motivo de reflexão para filósofos, teólogos e outros estudiosos ao longo da história da humanidade. A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, é em grande medida o resultado das preocupações existenciais do seu autor. Não sabemos se Tolstoi padecia de alguma doença crônica que lhe ocasionava sofrimento, mas sabemos, a partir do testemunho de familiares e amigos, que a morte era para ele uma obsessão. Esta novela de Tolstoi é um excelente ponto de partida para a reflexão e debate sobre o problema da morte, um assunto ainda considerado tabu nas sociedades ocidentais contemporâneas. É admirável e surpreendente encontrarmos na descrição do processo de morrer de Ivan Ilitch, principal personagem desta obra, os cinco estados emocionais que podem ser identificados em doentes terminais, de acordo com a investigação realizada pela psiquiatra Elizabeth Kübler-Ross. Embora haja uma certa sequência cronológica quanto ao aparecimento destes estados ou fases, nem todos se manifestam no mesmo paciente moribundo. A primeira fase caracteriza-se pela negação e isolamento (“Isto não pode ser verdade!”), numa espécie de reação de defesa que permite o processamento da informação após o choque inicial da notícia do diagnóstico de uma doença letal, quer ela seja transmitida ao doente de forma direta e franca, quer resulte da tomada de consciência, por parte deste, da gravidade do quadro. Trata-se habitualmente de uma etapa transitória, durante a qual o paciente se sente relativamente bem, face ao prognóstico sombrio, desejando muitas vezes ouvir outras opiniões e mesmo recorrer a tratamentos alternativos, muitos dos quais sem fundamento científico. «A dor não diminuía; mas Ivan Ilitch fazia um esforço sobre si mesmo para se obrigar a pensar que estava melhor (...) Um homeopata diagnosticou a doença de outra maneira, e deu-lhe um medicamento que ele tomou durante uma semana, às escondidas de todos (...) Certa vez uma senhora conhecida falou-lhe da cura por meio de ícones. Ivan Ilitch deu consigo a escutar com atenção e a acreditar na realidade do fato». A fase seguinte é a da revolta (“Por quê eu? Não é justo!”). Nela estão presentes sentimentos de ira contra tudo e contra todos, principalmente nos doentes "habituados a exercerem o poder e a controlarem o destino próprio e alheio, agora perplexos na sua impotência". Poderá ser a fase mais difícil para os familiares e profissionais de saúde que prestam cuidados ao doente, devido à sua postura de crítica e agressividade. «A eles tanto se lhes dá, mas também eles hão-de morrer. Loucos! Eu antes, eles depois; e também a eles acontecerá. Mas estão alegres. Animais!’ E teve um acesso de raiva». O terceiro estado é o da negociação, com Deus ou com poderes superiores, no qual o doente se apercebe do desfecho 118 fatal da sua condição clínica mas pretende viver um pouco mais tempo, a fim de poder assistir a um acontecimento significativo como o casamento de um filho ou o nascimento de um neto. Nesse sentido, pode fazer promessas de mudança de comportamento, tendo em vista esse objetivo, por vezes irrealista. São também frequentes nesta fase sentimentos de culpa relacionados com o seu passado. «'Talvez eu não tenha vivido como devia?', ocorreu-lhe de súbito». «Assim se passaram outras duas semanas. Nessas semanas deu-se um acontecimento desejado por Ivan Ilitch e pela sua mulher: Petrichev fez o pedido formal de casamento [da mão da filha de Ilitch]». A etapa seguinte caracteriza-se pela depressão. KüblerRoss faz a distinção entre depressão reativa e preparatória. Quando é reativa, deverá procurar solucionar-se a causa do problema, como o cuidado dos filhos, etc. A depressão preparatória faz parte do processo normal de preparação para a morte, não sendo recomendável incutir ânimo ou dar falsas esperanças a um doente neste estado. «Nos últimos tempos a solidão em que se encontrava, deitado com o rosto para as costas do sofá, essa solidão no meio de uma cidade populosa e dos seus numerosos conhecidos e da família – uma solidão que não podia haver maior em parte alguma: nem no fundo do mar nem em terra –, nos últimos tempos dessa horrível solidão vivia apenas com a imaginação no passado». Finalmente, temos a fase da aceitação, em que são comuns o isolamento, a resignação, o silêncio, a apatia. Nesta fase o paciente está em geral bastante fraco e requer longos períodos de sono. É uma altura em que poderá verificar-se a reconciliação do doente consigo próprio e com o seu passado, com os outros e com Deus. «Queria ainda dizer ‘perdão’ mas disse ‘permissão’ e, já incapaz de se corrigir, agitou a mão sabendo que seria entendido por aquele que o devia entender (...) Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde está ela? Qual morte? Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte. Em lugar da morte havia uma luz». A Morte de Ivan Ilitch, uma obra-prima da ficção russa e um clássico da literatura mundial, é também, em nossa opinião, uma referência incontornável para contrariar a “conspiração de silêncio” que ainda prevalece acerca do problema da morte, mesmo entre os profissionais de saúde, e promover a descoberta individual do sentido da vida. Jorge Cruz Cirurgião Vascular Porto, Portugal J a m b C u l t u r a 2012; 3(15): 113-120 Espaço Poético Dia da Mulher Aos geriatras Tem um quê aparente de fragilidade… Aos geriatras Grácil e sensual qual maja nua de Goya! É meu ideal, meu pensar sem maldade, A paz da velhice Na vida o tempo inexorável passa aos jovens aos após si levando Da minha fortuna a mais rara joia… quiçá de tudo nada mais deixando que desfeitas quimeras de fumaça... Ó formas alabastrinas! Dessa boca Febril risos, afagos e carícias almejo. Quando a idealizo de desejo louca, Vai-se dos sonhos juvenis a graça, que a adulta idade vem então chegando e, numa austera solidez de mando, A vida daria pela ventura de um beijo… novos caminhos ao destino traça... Mas foge vaporosa, como anjo em arremesso… Se há perdas possíveis na jornada, De lá, do etéreo longe do pensamento, a vitória ao termo consumada premia o firme escopo perseguido. Acena-me indiferente, fingindo desapreço. Quando esse tempo um dia ficar pra trás, Depois, com ar inocente de madona, tímida, Para o meu cismar volta quando quer… a velhice em repouso vive a paz da longa história de dever cumprido. Entre beijos e carícias entrega-se Mulher. Fernando Guedes Medicina do Trabalho Salvador, BA J a m b C u l t u r a 2012; 3(15): 113-120 Antonio J. Amadi São Paulo, SP 119 JD amb icas CC ultura ulturais Porto Alegre/RS Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul O Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC RS) foi criado por meio do Decreto nº 34.205, de 4 de março de 1992, com o objetivo de pesquisar, preservar e divulgar um acervo de arte contemporânea regional, nacional e internacional. O MAC-RS também tem como atribuição desenvolver propostas educativas que visem a compreensão da arte contemporânea em suas várias modalidades. Atendimento ao público: O Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul está localizado no 6º andar da Casa de Cultura Mario Quintana, na Rua dos Andradas, 736, Centro, Porto Alegre – RS – Cep.: 90.020-004. F: (51) 3221.5900. O horário de funcionamento ao público é de terça a sexta-feira, das 9h às 18h, e nos sábados e domingos, das 12h às 21h. Para mais informações: [email protected] ou acompanhe o blog: http://macrs. blogspot.com Brasília/DF Museu Nacional O Museu Nacional é integrante do Conjunto Cultural da República. É um espaço que insere Brasília no circuito internacional das artes e mostra o que há de melhor na arte brasileira. O espaço é utilizado para exposições itinerantes de artistas renomados e temas importantes para a sociedade, palestras, mostra de filmes, seminários e eventos importantes. Colaboração O Jamb Cultura é um espaço aberto que estimula a literatura e valoriza as manifestações culturais do Brasil. Para isso, convidamos os médicos a enviar artigos, crônicas, poesias, textos sobre cultura e história da Medicina para o Conselho Editorial. A/C Hélio Barroso dos Reis (Diretor Cultural): Rua São Carlos do Pinhal, 324 – Bela Vista – São Paulo/SP CEP: 01333-903 - ou pelo e-mail: [email protected] Participe e colecione! 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Surge numa época de desenvolvimento e modernização de Vitória, quando também ocorrem mudanças no pensamento e no fazer artístico de alguns jovens que não aceitam mais os valores estéticos defendidos na Escola de Belas Artes. Quebrando a hegemonia da arte acadêmica na capital, esses jovens invertem a diretriz do pensamento artístico e voltam suas investigações e reflexões para os postulados da arte contemporânea. A Galeria Homero Massena constitui-se então como um espaço que expõe a produção de artistas já reconhecidos e também dos que iniciam suas carreiras, validando e dando visibilidade ao seu trabalho. Durante seus 35 anos de existência, tem atuado como agente de difusão cultural, construindo um importante painel das Artes Visuais no Estado. Endereço: Rua Pedro Palácios, 99, no bairro Cidade Alta, no Centro de Vitória Horário de visitação: segunda a sexta-feira, entre 10 e 18 horas Agendamento de visitação guiada: (27) 3132 8395 JAMB CULTURA Edição Bimestral | MAIO e JUNHO de 2012 www.amb.org.br | [email protected] Presidente: Florentino de Araújo Cardoso Filho Coordenador e Diretor Cultural: Hélio Barroso dos Reis Diretora de Comunicações: Jane Maria Cordeiro Lemos Diretor de Marketing: José Carlos Vianna Collares Filho Conselho Editorial (2011-2014): Antonio Roberto Batista (Campinas/SP - região Sudeste) Armando José China Bezerra (Brasília/DF - região Centro-Oeste) Carlos David Araújo Bichara (Belém/PA - região Norte) Gilson Barreto (Campinas/SP – região Sudeste) Giovanni Guido Cerri (São Paulo/SP – região Sudeste) Guido Arturo Palomba (São Paulo/SP – região Sudeste) Hélio Barroso dos Reis (Vitória/ES – região Sudeste) José Luiz Gomes do Amaral (São Paulo/SP – região Sudeste) Murillo Ronald Capella (Florianópolis/SC – região Sul) Roque Andrade (Salvador/BA – região Nordeste) Yvonne Capuano (São Paulo/SP – região Sudeste) Apoio cultural: Departamento de Comunicações da AMB Secretária: Denilia Dias Revisão: Natália Cesana Projeto Editorial: Sollo Comunicação 5) ao enviar ao Conselho, informar autorização de publicação. 6) assinar o artigo com: nome, especialidade, cidade, estado e endereço para correspondência. 120 O Jamb Cultura somente publica matérias assinadas, as quais não são de responsabilidade da Associação Médica Brasileira J a m b C u l t u r a 2012; 3(15): 113-120