VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino UMA ANÁLISE DAS INTER-RELAÇÕES CIÊNCIATECNOLOGIA-SOCIEDADE-AMBIENTE (CTSA) NO CONTEÚDO METABOLISMO ENERGÉTICO Bruno dos Santos Andrade1 Kátia Figueirôa Daltro2 RESUMO Os avanços no campo da ciência e da tecnologia têm trazido grandes mudanças para a sociedade e principalmente para a educação onde tem se notado um movimento com o intuito de socializar os novos conhecimentos advindos das descobertas científicas em vista da preparação de cidadãos atuantes perante as novas realidades sociais. Neste trabalho foi realizada uma análise e discussão das manifestações das inter-relações CTSA em livros de Biologia aprovados pelo PNLD 2012, mais especificamente no conteúdo metabolismo energético tendo como base os documentos oficiais para o Ensino Médio.Verificamos que há um movimento de adequação dos livros didáticos de Biologia em ralação as novas demandas impostas pelos modelos econômicos e em decorrência da atividade humana sobre o planeta, além da busca da consonância com os documentos oficiais que propõem as diretrizes para o Ensino Médio. Concluímos então que os livros são uma boa ferramenta de auxílio na prática docente desde que estejam atualizados com as propostas e pautados no contexto social que se esteja vivenciando. Palavras-chave: Ensino de biologia, CTSA, Livro didático. ABSTRATC The advances in science and technology have brought great changes to society and especially to education which has noticed a movement in order to socialize the new knowledge from scientific discoveries in view of the preparation of active citizens in the face of new realities social. The objective was to make an analysis and discussion of the manifestations of the interrelationships CTSA books in biology approved by PNLD 2012, specifically in energy metabolism content based on the official documents for the High School. It was found that there is a movement of adequacy of Biology textbooks in grating the new demands imposed by economic models and as a result of human activity on the planet, and the pursuit of harmony with the official documents that propose guidelines for high school. It was concluded that the books are a good tool to aid in teaching practice provided they are updated with the proposals and guided the social context that is experiencing. Keywords: Teaching biology, CTSA, Textbook. 1 Licenciado em Ciências Biológicas e Mestrando em Ensino de Ciências – UFS. E-mail: [email protected] Licenciada em Ciências Biológicas, Pós-graduada em Metodologia da Educação Básica e Mestranda em Ensino de Ciências – UFS. E-mail: [email protected] 2 ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 680 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino 1. INTRODUÇÃO Os avanços no campo da ciência e da tecnologia têm trazido grandes mudanças para a sociedade. O ensino de Biologia por estar associado a aspectos científicos e tecnológicos tem sido o foco de discussões dentro desse novo contexto da educação. De acordo com Pedranciniet al. (2007, p. 300) “neste cenário, a Biologia vem ocupando uma posição de destaque sem precedentes na história da ciência”. Um dos fatores que tem contribuído para isso é a vinculação das novas descobertas científicas através de diversos meios de comunicação como jornais, revistas e internet. Um dos movimentos que tem acompanhado essas mudanças é o enfoque CiênciaTecnologia-Sociedade(CTS). De acordo com Tomazello (2009, p. 1) “a sigla tradicional, relacionada ao movimento Ciência, Tecnologia e Sociedade, é CTS e mais recentemente, CTSA”. Alguns autores já utilizam essa nova denominação como cita Marcondes (2009, p. 34), a utilização do termo CTSA em detrimento ao CTS, “se refere ao fato de os autores considerarem a importância das questões ambientais no ensino e suas relações ciência-tecnologiasociedade”. Tomazello (2009, p. 1) corrobora ainda ao afirmar que “no processo de transposição do campo de pesquisa CTS para o ensino de ciências, a sigla ganhou mais uma letra, o “A” de CTSA, em alusão ao ambiente”. No campo educacionalo movimento CTSA, tem sido divulgado amplamente através de pesquisas envolvendo o processo de ensino-aprendizagem. De acordo com Silva (2010) os pressupostos do movimento CTS têm se ampliado em toda a sociedade, ganhando mais adeptos, principalmente na área educacional. De um modo geral, compreende uma área em que os estudos se concentram na preocupação em abordar a CT, buscando retratar suas relações com o âmbito social (SILVA 2010, p. 31). Isso pode ser notado especificamente na área do ensino de Biologia, devido às propostas presentes em documentos oficiais como as encontradas nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNEM). Nesse documento as diretrizes para o ensino de Biologia orientam que o mesmo deve estar pautado nas demandas sociais que têm sido vivenciadas atualmente. Nesse sentido o papel do professor junto ao objetivo de fazer com que os estudantes se familiarizem e mais ainda critiquem e reflitam temáticas científicas e tecnológicas, deve ser o ponto de partida do ensino da Biologia. Krasilchick (2008, p. 11) relata que “o significado da ciência e da tecnologia na sociedade contemporânea merece a atenção ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 681 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino especial do professor de Biologia”. Ou seja, esse profissional dever pautar-se nas temáticas atuais para favorecer um ensino coerente à realidade vivida pela sociedade. Atualmente a proposta de oferecer um ensino alicerçado nas questões científicas e tecnológicas, tem se configurado um desafio para o ensino de Biologia. Zuanon e Diniz (2004) argumentam que o ensino baseado em questões relacionadas à ciência está marcado por práticas tradicionais ligadas a mera transmissão de conceitos científicos. E ainda destacam que algumas ações pedagógicas como a prática de aulas expositivas corrobora para uma desmotivação e o não envolvimento efetivo durante as aulas. Além disso, a nova realidade do Ensino Médio reforça a necessidade de os estudantes estabelecerem relações entre os campos científico, tecnológico, social e ambiental sendo capazes de se posicionar frente a um determinado assunto que envolva essa temática. Os PCNEM de Biologia reforçam essa necessidade ao afirmar que cotidianamente, a população, embora sujeita a toda sorte de propagandas e campanhas, e mesmo diante da variedade de informações e posicionamentos, sente-se pouco confiante para opinar sobre temas polêmicos e que podem interferir diretamente em suas condições de vida, como o uso de transgênicos, a clonagem, a reprodução assistida, entre outros assuntos (BRASIL, 2006, p. 15). Esse objetivo converge para um enfoque CTSA no ensino de Biologia, pois de acordo com Santos e Schnetzler (2010, p. 79-80) o mesmo centra-se no “desenvolvimento da capacidade de tomada de decisão por meio de uma abordagem que inter-relacione ciência, tecnologia e sociedade, concebendo a primeira como um processo social, histórico e não dogmático”. Para que isso seja alcançado é necessário que embasados nos documentos que norteiam o Ensino de Biologia, os professores possam construir sua prática pedagógica voltada em superar os modismos tradicionais marcados pela mera transmissão-recepção de conceitos, sem relação com as questões científicas, tecnológicas e sociais vivenciadas atualmente. Diante do que foi exposto até aqui, parece claro que as novas propostas para o ensino de Biologia nem sempre são contempladas pela prática docente dos professores. A partir disso então, faz-se necessário volver um olhar mais cuidadoso sobre o ensino de Biologia e a forma como os conteúdos são apresentados nos livros didáticos dessa disciplina, em vista de fazer com que os avanços da ciência e da tecnologia possam ser compreendidos estimulando a participação dos estudantes na apropriação de conhecimentos com base nos quais possam tomar decisões conscientes e esclarecidas. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 682 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Nesse sentido temos por objetivo fazer uma análise seguida de uma breve discussão das manifestações das inter-relações Ciência-Tecnologia-Sociedade-Ambiente (CTSA) em livros de Biologia, mais especificamente no conteúdo metabolismo energético tendo como base os documentos oficiais para o Ensino Médio. Será um trabalho de cunho bibliográfico e utilizará livros didáticos de Biologia aprovados pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD 2012), para fins de exemplificação. 2. O LIVRO DIDÁTICO DE BIOLOGIA Uma das temáticas amplamente discutidas são as ferramentas utilizadas pelos docentes, mais especificamente o livro didático, pois este tem um papel central visto que ainda constitui-se a principal ferramenta de trabalho desses profissionais. De acordo com Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2009, p. 36) “ainda é bastante consensual que o livro didático, na maioria das salas de aula, continua prevalecendo como principal instrumento de trabalho do professor, embasando significativamente a prática docente”. Isso em alguns casos pode acarretar alguns problemas quanto ao bom rendimento dos estudantes e o trabalho dos educadores, que ficam muitas vezes atrelados somente a esse recurso, atribuindo-lhe todo o mérito do fracasso escolar. Para Bizzo (2009, p. 85) o livro didático tem sido apontado como grande vilão do ensino no Brasil ao afirmar que “[...] muitos educadores apontam o livro didático como o grande obstáculo a impedir mudanças significativas nas salas de aula”. Contudo, mesmo cercados de diversos recursos tecnológicos, audiovisuais e até mesmo impressos, os professores acabam utilizando o livro como principal ferramenta didática. Os livros didáticos foram implantados oficialmente no Brasil em instituições de Ensino Fundamental. A partir da implementação dos livros didáticos, emergiram estudos em relação a sua proposta, organização e relevância para o ensino. De acordo com Carneiro, Santos e Mól (2005, p. 4) “as críticas aos livros didáticos não são recentes”. Para que essas críticas sejam feitas de uma maneira construtiva em função da melhoria da qualidade do ensino, o Ministério da Educação através do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) avalia e distribui os livros a serem utilizados por estudantes e docentes na rede pública. Em 2004, foi implantado o Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM), que almeja “à universalização da distribuição de livros didáticos para os alunos de ensino médio da rede pública, em todo o território nacional” (CARVALHO, NUNES-NETO e EL-HANI, 2011, p. 73). ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 683 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O Plano Nacional do Livro Didático do Ensino Médio (PNLEM) preconiza que os livros didáticos mais especificamente os de Biologia, devem apresentar-se atualizados quanto ao conteúdo e procedimentos adotados, tanto em relação aos conhecimentos correspondentes nas ciências e saberes de referência, quanto no que diz respeito às orientações curriculares oficialmente elaboradas(BRASIL, 2006). Nesse sentido, os autores, avaliadores e principalmente os professores devem conhecer o que os documentos oficiais argumentam em relação às propostas para o Ensino Médio e consequentemente para a área de sua disciplina. Portanto, utilizar o livro didático como ferramenta pedagógica em vista de auxiliar o trabalho docente configura-se um desafio. Pois para tanto, é necessário ter por parte dos professores um conhecimento minucioso a respeito das temáticas que envolvem o livro escolhido para ser trabalhado. E ainda apropriar-se dele sem dispensar a utilização de outros recursos que estejam disponíveis e agreguem na consolidação de um aprendizado significativo. 3. ASPECTOS METODOLÓGICOS Tendo como referência as tradicionais classificações sobre a metodologia da pesquisa, o presente trabalho classifica-se como uma pesquisa qualitativa e objetiva fazer uma análise das inter-relações CTSA no conteúdo Metabolismo Energético de dois livros de Biologia do Ensino Médio que foram aprovados pelo PNLD 2012. Portanto, a metodologia baseia-se na pesquisa bibliográfica e análise de livros didáticos. Para isso com base no Guia dos livros didáticos do PNLD 2012 divulgado pelo MEC e distribuído às escolas, foi elaborado um quadro com as obras aprovadas, o qual é apresentado a seguir no Quadro1(Anexo). A escolha das obras a serem analisadas seguiu os seguintes critérios estabelecidos pelos autores da pesquisa: a) A obra deve ter sido aprovada pelo MEC e colocada à disposição dos professores para a escolha com base no catálogo presente no Guia do PNLD 2012; b) Os autores devem ter formação acadêmica (graduação) na área de Biologia e ter lecionado a disciplina Ciências e/ou Biologia; c) O tempo de veiculação da obra (se o livro já possui pouco ou muito tempo de circulação em instituições de ensino); d) Alguns dos autores das obras possuem algum vínculo com pesquisas na área de ensino de ciências (Biologia); ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 684 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Obedecendo-se aos critérios predefinidos acima, foram selecionados os seguintes livros: a) Biologia Hoje. Sérgio Linhares e Fernando Gewandsznajder. Volume 1. 1ª ed. Editora: Ática, 2011. b) Novas bases da Biologia. Nélio Bizzo. Volume 1. 1ª ed. Editora: Ática, 2011. A presente pesquisa tem como base os documentos oficiais que norteiam o trabalho docente, especificamente no Ensino Médio (OCNEM, PCNEM, PCN+) que serviram como ponto de partida para construção de alguns questionamentos que a norteiam: a) Os livros didáticos de Biologia estão em consonância com as propostas dos documentos legais para o Ensino Médio? b) A temática das inter-relações CTS é contemplada nos livros de Biologia mesmo que por meio de sinalizações? 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO Para embasar e realizar coerentemente a análise dos dados foram elencadas quatro categorias de análise: Perfil Profissional, Organização, Apresentação, Sinalizações das interrelações CTS. E os livros serão tratados como: Livro I (Biologia Hoje) e Livro II (Novas Bases da Biologia), para uma melhor organização e compreensão. 4.1. Perfil Profissional dos Autores Sérgio Linhares é Bacharel e Licenciado em História Natural pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lecionou Biologia Geral na UFRJ e Biologia no Colégio Pedro II. Fernando Gewantsznajder é licenciado em Biologia pelo Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possui Mestrado nas áreas de Educação e Filosofia e Doutorado em Educação. Também lecionou no Colégio Pedro II, ministrando além da disciplina de Biologia e Ciências. Ambos são autores do livro I. Nélio Bizzo, autor do livro II é licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre em Biologia (Genética) e Doutor em Didática. Atuou como docente lecionando Ciências e Biologia em escolas da rede pública de São Paulo, e atualmente é professor da Graduação e Pós-Graduação – USP. A partir da análise dos dados referentes a essa categoria, ficou constatado que todos os autores de ambos os livros tem formação acadêmica na área de Biologia, e dois dos três autores, possuem especializações em nível de Mestrado e Doutorado. Esse fato é considerável, ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 685 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino pois de acordo com Silva (2010, p. 18) “o professor não pode ensinar o que não conhece”. Ou seja, se um docente que não possui formação sólida em uma determinada área do conhecimento não pode estar à frente da mesma, pois não dispõe de traquejo para tal, principalmente autores de materiais didáticos para professores. Além do que todos eles já lecionaram as disciplinas de Ciências e/ou Biologia em escolas públicas. Isso é de extrema relevância, pois, autores de materiais principalmente livros didáticos referentes à disciplina de sua formação e com experiências de sala de aula tem muito a contribuir, pois são conhecedores dos temas, conteúdos e conceitos, e também de grande parte dos aspectos que estão envolvidos no dia-a-dia dos professores. Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2009) corroboram com essa ideia ao afirmarem que se é inquestionável que o professor [...] de algumas das ciências, precisa ter o domínio de teorias científicas e de suas vinculações com as tecnologias, fica cada vez mais claro, para uma quantidade crescente de educadores, que essa característica é necessária, mas não suficiente, para um adequado desempenho docente (DELIZOICOV, ANGOTTI E PERNAMBUCO, 2009, P. 3132). Ou seja, a experiência é um fator de grande relevância na prática pedagógica e principalmente na elaboração dos livros didáticos. 4.2. Organização do conteúdo O conteúdo Metabolismo Energético no Livro I, faz parte de uma das unidades do livro, especificamente a denominada Citologia, a qual abrange além de Metabolismo Energético, os demais conteúdos: Bioquímica Celular, Anatomia celular e Fisiologia celular. Os dois capítulos, o primeiro que aborda Respiração celular e Fermentação e o segundo que trata da Fotossíntese e Quimiossíntese compõem o tópico do referido conteúdo. A unidade Contexto microscópico da vida é dividida em dois capítulos no livro II. O capítulo sete (Atividade Celular) é composto de subunidades, as quais quatro delas referem-se ao conteúdo Metabolismo Energético. A subunidade três: Energia na célula, a subunidade quatro: Metabolismo energético I (no citoplasma),a subunidade cinco: Metabolismo energético II (nas mitocôndrias) e subunidade seis: metabolismo energético III (respiração anaeróbia, quimiossíntese e fotossíntese). A temática que engloba aspectos que envolvem a organização dos conteúdos é sempre questionada por diversos professores. A sistematização não segue uma receita pronta, sendo passível de mudanças de acordo com a visão de cada um. Nesse sentido, Krasilchik (2008, p. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 686 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino 46) afirma que “a organização pode ir dos assuntos mais simples aos mais complexos; dos aspectos práticos aos teóricos, dos conhecimentos fundamentais aos periféricos”. Em relação a esse tópico, verificou-se que esta ocorre de formas distintas em ambos os livros. Enquanto no livro I, o conteúdo Metabolismo Energético é dividido em dois capítulos, organizado de maneira linear, ou seja, cada conteúdo é sequenciado, um após o outro nessa sequência: Respiração aeróbia e anaeróbia, Fermentação, Fotossíntese e Quimiossíntese. No livro II, encontramos um tópico que tratava somente da energia para a célula (ATP), e os demais na sequência seguinte: Fermentação, Respiração aeróbia, Respiração anaeróbia, Quimiossíntese e Fotossíntese. Percebemos que apesar de todo o conteúdo restringir-se apenas dois capítulos, o livro I segue uma ordem lógica e sistematizada de progressão de conceitos, assim como no livro II, apesar deste estar organizado em um número maior de fascículos, verificou-se também os aspectos anteriormente citados. A respeito disso, Krasilchik (2008, p. 49) afirma que “as decisões sobre a ordenação do conteúdo continuam sendo objeto de discussão entre professores de biologia”. Embora atualmente seja impossível prescrever uma forma melhor, é fundamental que se tenha sempre em mente não só a disciplina, mas principalmente os alunos, e que se organize de forma que eles possam aprender com mais facilidade. Nota-se a preocupação em relação à organização e sistematização dos conteúdos a serem abordados. No entanto, é aconselhável que o foco seja a aprendizagem por parte dos estudantes. Nesse sentido pensar no processo de ensino-aprendizagem deve ser o ponto de partida para estruturação do material didático, uma vez que este servirá de ferramenta para auxiliar o trabalho docente bem como a vida escolar dos estudantes. 4.3. Apresentação do conteúdo Os conceitos e as explicações científicas são apresentadas de maneira linear e categorizada no livro I. No início de cada capítulo existe um texto de abertura que traz algumas considerações a respeito do assunto que será abordado de maneira contextualizada. Esse texto traz considerações históricas, ou mesmo atuais, apresentando problemáticas, estudos e descobertas científicas. Ao longo do texto (conteúdo específico), são apresentadas figuras que ilustram os processos metabólicos e etapas do metabolismo seguidas de legendas. Além disso, alguns boxes trazem informações relacionadas ao conteúdo e aos temas saúde, tecnologia e história. No final de cada capítulo é sugerido um texto com questionamentos relativos aos conteúdos do mesmo, juntamente com uma gama de exercícios que englobam questões ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 687 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino subjetivas, de vestibulares (de múltipla escolha), do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e atividades experimentais. Os conhecimentos relacionados aos conceitos e explicitações do conteúdo estão dispostos de maneira fragmentada no livro II, ou seja, seguem uma ordem diferente da observada no outro livro. Primeiro são apresentadas informações referentes à molécula de ATP e as reações químicas para obtenção de energia por meio desta. Logo em seguida decorrem os demais tópicos relacionados a cada etapa do metabolismo energético (Fermentação, Respiração aeróbia e anaeróbia, Quimiossíntese e Fotossíntese). Na subunidade que trata da fermentação existem dois textos que discorrem sobre cada tipo (fermentação lática e alcóolica), na subunidade cinco, há um quadro com informações adicionais sobre a coenzima-A, o NAD e o FAD relacionados à alimentação. Na subunidade seis, o tópico respiração anaeróbia destaca o metabolismo bacteriano, quimiossíntese resgata a ideia de vida em Marte e em ambientes com condições desfavoráveis à vida e finalmente a fotossíntese resgata aspectos históricos, problemáticas ambientais atuais (Aquecimento Global), e descrição dessa via metabólica, assim como do cloroplasto. É importante ressaltar que, todas as subunidades são compostas de ilustrações e fotos de microscopia eletrônica e óptica, além de contar com orientações aos professores. Ao final do capítulo são apresentados exercícios com questões subjetivas e de múltipla escolha (de Vestibulares), assim como do Enem, experimentos como no livro I. O diferencial é que durante a abordagem do conteúdo é apresentado um glossário com a definição de termos que aparecem ao longo do texto e ao término do capítulo, há um resumo dos pontos-chave (Em poucas palavras), um mapa conceitual (Quadro sinóptico), possíveis questionamentos como um tira dúvidas (Biochat), exercícios comentados e sugestões de leitura. Nesse tópico, constatou-se a presença de diversos elementos que auxiliam o entendimento do conteúdo em questão. Tanto no livro I, quanto no livro II, existem textos, ilustrações, curiosidades, que são apresentadas de forma contextualizada e em consonância com o assunto abordado. Esses recursos oferecidos pelo material didático contribuem de certa forma para uma melhor compreensão dos conceitos e temas relacionados à ciência, conforme aponta Bizzo (2009, p. 89) “o trabalho com os conhecimentos científicos está muito ligado a textos informativos, figuras e imagens”. Entretanto, é preferível que haja outras ferramentas que possam assumi um papel de auxiliar o professor em face de apropriação dos conceitos científicos pelos estudantes. Krasilchik (2008, p. 32) afirma que “a presença dos textos devem ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 688 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino suscitar debates a partir de questionamentos, que quando não estiverem presentes, o professor deve fazê-los a fim de estimular a capacidade crítica a partir da leitura dos textos”. Uma forma de alcançar esse objetivo seria a realização de experimentos de maneira crítica, já que os dois sugerem ao final de cada capítulo um experimento para ampliar a visão crítica dos estudantes acerca do conteúdo abordado. Sobre a experimentação como recurso didático para as aulas de Biologia, é necessário ressaltar que o experimento por si só não é válido. Bizzo (2009) aponta alguns aspectos relevantes em relação à essa prática. É importante que o professor perceba que a experimentação é um elemento essencial nas aulas de ciências, mas que ele, por si só, não garante um bom aprendizado. [...] Mas não se pode esperar que a simples realização de um experimento seja suficiente para modificar a forma de pensar dos alunos (BIZZO, 2009, p. 96). Salientamos ainda que a presença de diversas questões, inclusive do Exame Nacional do Ensino Médio, principalmente estas, reforçam a contextualização do conteúdo abordado durante os capítulos. Especificamente o livro II, oferece recursos adicionais, como os mapas conceituais, revisão dos pontos-chave e possíveis questionamentos dos estudantes, além de algumas questões comentadas, para auxiliar os educandos na assimilação através da resolução das questões presentes no livro. 4.4. Sinalizações das inter-relações CTSA Ao longo dos dois capítulos no livro I, as sinalizações das inter-relações CTSA estão presentes nas informações contidas nos boxes, no texto de abertura do Capítulo II (Fotossíntese e Quimiossíntese), no texto do final dos capítulos e nas questões referentes ao Enem de maneira contextualizada. Nas quatro subunidades do livro II, é notório o estabelecimento de relações entre o conteúdo científico e questões como o cotidiano, a aplicação de alguma tecnologia, aspectos históricos, e temáticas ambientais. Além dos textos abordarem questões contextualizadas que sinalizam as relações possíveis entre os conceitos científicos do conteúdo e situações reais do cotidiano as questões do Enem também contemplam as inter-relações CTSA. Em relação às Sinalizações CTSA, tomamos como base os documentos oficiais para o Ensino Médio, pois trazem a importância dessa temática como objetivo para o ensino de Biologia.A presença das inter-relações CTSA nos livros didáticos é relevante, pois os estudantes podem ampliar sua visão de mundo a partir do estabelecimento de conexões entre o conteúdo estudado e situações cotidianas. Nesse sentido, os PCNEM, especificamente os de Biologia ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 689 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino afirmam que “(...) compreender a relação entre ciência, tecnologia e sociedade, significa ampliar as possibilidades de compreensão e participação efetiva nesse mundo(BRASIL, 1999, p. 14)”. Outros autores corroboram com o objetivo proposto pelos PCEM de Biologia quando afirmam que o ensino pautado na compreensão das inter-relações CTS “[...] relaciona-se à solução de problemas da vida real que envolvem aspectos sociais, tecnológicos, econômicos e políticos, o que significa preparar o indivíduo para participar ativamente da sociedade democrática” (SANTOS e SCHNETZLER, 2010, p. 75). Partindo desses pressupostos, e ao analisarmos os dois livros, percebemos que os mesmos quando apresentam os textos, no caso do livro I, mais especificamente os Boxes, a preocupação em abordar juntamente com o conteúdo essas inter-relações, mesmo que através de sinalizações faz-se muito presente. Expondo os temas como saúde, meio ambiente, beleza, os autores favorecem uma ampla discussão dos aspectos inerentes às temáticas do próprio cotidiano dos estudantes, instigando-os a correlacionarem os conteúdos com aspectos científicos, sociais, tecnológicos e ambientais. Além de que instigam o interesse pela descoberta, pois tratam de temas presentes na rotina dos discentes. No livro II em especial, em alguns momentos dentro do próprio texto em que eram discutidos os temas e conceitos relacionados ao conteúdo, percebe-se sinalizações das interrelações CTS a partir de exemplos contextualizados do cotidiano do estudante, como por exemplo, “certas reações químicas, para que comecem, precisam de um fornecimento inicial de energia, denominada energia de ativação. Por exemplo, para ascender um fósforo (reação química de combustão), é preciso riscar a cabeça do palito na lateral da caixinha, pois o calor gerado pelo atrito entre as duas superfícies é a energia necessária (e suficiente) par dar início a combustão (BIZZO, 2011, p. 197)”. Com essa iniciativa a capacidade de crítica embasada nos conhecimentos científicos em relação a situações corriqueiras, é estimulada durante grande parte do livro, não aparecendo de forma restrita como em alguns casos (Boxes) no Livro I. Desse ponto de vista é salutar que compreender as inter-relações CTS pode propiciar uma formação mais ampla, na qual o educando passaria a entender e opinar sobre os produtos da ciência e tecnologia e seus impactos no ambiente. Nesse sentido, o conhecimento científico deve ser trabalhado com vistas a incorporação de ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 690 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino situações significativas, ou seja, os conteúdos devem ser apresentados como problemas para o educando (SILVA, 2010, p. 41). É importante ressaltar que algumas questões propostas pelos exercícios, mais especificamente àquelas que fizeram parte de exames como o Enem e alguns vestibulares, concentravam a mesma abordagem presente em todo o capítulo. Ao instigar o estudante a utilizar tudo o que sabe para resolver um problema, tem-se de maneira sutil a presença do cidadão frente às problemáticas que necessitam de solução. O processo de construção e apropriação do conhecimento é feito com cautela, organização e preparação. Sendo assim demanda do professor um tempo de leitura e análise do livro para propor um caminho que alcance de maneira coerente o objetivo que foi traçado por ele. Os experimentos são outra parcela do todo que contribui concretamente para a participação ativa no trajeto em busca do saber. Verificou-se que às práticas experimentais, principalmente do Livro I, traziam materiais de fácil aquisição. Os dois livros contemplavam nos experimentos propostos a continuidade daquilo que estava sendo estudado. Levar esse aspecto em consideração é salutar na perspectiva do enfoque CTSA, uma vez que, através da experimentação os estudantes podem esclarecer melhor questionamentos e dúvidas que surgiram em meio às discussões dos textos, algo que não ficou totalmente claro durante a resolução dos exercícios. 5. CONSIDERAÇÕES Verificou-se que as novas propostas para o Ensino Médio, presentes nos documentos oficiais, mais especificamente no que diz respeito ao Ensino de Biologia, configuram-se para os professores um desafio. Nesse sentido, os educadores têm de se munir dos recursos disponíveis para garantir um ensino de qualidade e que atenda as necessidades impostas pelo contexto global em que estamos inseridos. Diante dessa perspectiva, o livro didático, mesmo com diversos recursos estando ao alcance dos profissionais da educação, ainda tem um papel central nos processos de ensino e aprendizagem. Através da presente pesquisa nota-se um movimento em direção da adequação dos materiais instrucionais, principalmente os livros didáticos em relação as novas demandas impostas pelos modelos econômicos e em decorrência da atividade humana sobre o planeta. Os autores por obterem formação acadêmica na área de Biologia e possuírem uma vasta ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 691 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino experiência na área de ensino contribuem de maneira significativa através da elaboração de materiais que atendem as necessidades dos profissionais da educação. Notamos uma preocupação em estar em consonância com as propostas dos PCNEM, já que os conteúdos trazem uma abordagem diversificada e interessante nos dois livros analisados e correspondem as diretrizes em vigor para o Ensino Médio atual. Além disso, as inter-relações presentes por meio de sinalizações, ou seja, associações do conteúdo com a saúde, aspectos históricos, envolvimentos com questões ambientais e tecnológicas, constituem-se formas de estímulo a um olhar crítico sobre a realidade em que os estudantes estão inseridos. Com um ensino pautado no enfoque das inter-relações CTSA, os educadores e os livros didáticos contribuem de maneira salutar para o desenvolvimento de cidadãos comprometidos com as problemáticas que cercam a sociedade. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BIZZO, N. Ciências: fácil ou difícil? 1ª ed. São Paulo: Biruta, 2009. BRASIL, Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias / Secretaria de Educação Básica. Orientações curriculares para o ensino médio.v. 2. 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ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 693 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino CURRÍCULO DE BIOLOGIA: EM FOCO O PROJETO “PRIMEIRO, APRENDER” CÍCERO MAGÉRBIO GOMES TORRES - UFC [email protected] CLÁUDIA CHRISTINA BRAVO E SÁ CARNEIRO - UFC [email protected] Resumo Há algumas décadas tem-se buscado um ensino e uma aprendizagem em Ciências/Biologia que superem visões lineares, estereotipadas e fragmentadas, como as que hoje permeiam os componentes curriculares. Aprender de maneira significativa neste campo de conhecimento abrirá caminhos para o desenvolvimento do ser humano, propiciando-lhe uma interação maior com a vida, com a sociedade e com o meio ambiente. Visando melhorar o ensino das várias disciplinas no ensino médio do Estado do Ceará, o projeto “Primeiro, Aprender” proposto pela SEDUC, tem a perspectiva de que os alunos participantes adquiram a capacidade de desenvolver e consolidar conceitos, competências e habilidades das diversas disciplinas, necessárias ao bom desempenho, focalizando as habilidades de: compreensão de textos, raciocínios, articulação lógico-abstrata de conteúdos e resolução de problemas. Neste sentido, na busca de perceber as determinações legais deste projeto, neste trabalho será apresentada uma análise do documento prescritivo do “Primeiro, Aprender”, verificando se os seus determinantes estão de acordo com as Diretrizes e Parâmetros Curriculares prescritos para o ensino médio, principalmente no que se relaciona a conteúdos conceituais, atitudinais e procedimentais. Sendo assim, a presente pesquisa tem como objetivo geral analisar o currículo de Biologia instituído em escolas de ensino médio a partir do projeto “Primeiro, Aprender”. Para atingir os objetivos propostos, a pesquisa, aqui delineada, desenvolveu-se numa abordagem qualitativa, crítica reflexiva, descritiva, analítica e documental. Pode-se perceber ao longo da pesquisa a centralidade atribuída ao desenvolvimento das competências e habilidades de leitura, escrita e raciocínio lógico, bem como o distanciamento dos objetivos curriculares preconizados pelas diretrizes e parâmetros curriculares em relação às dimensões atitudinais, procedimentais e conceituais. Face ao exposto, considera-se que o currículo de Ciências/Biologia constitui-se em uma das vias por meio das quais os alunos devam aprender a aprender, adquirir estratégias e capacidades que permitam transformar, reelaborar, reconstruir os conhecimentos que recebem tendo-se por base um currículo que valorize sua cultura, seus saberes e suas potencialidades. Palavras – Chave: Currículo. Projeto. Ensino de Ciências. BIOLOGY CURRICULUM: FOCUS PROJECT "FIRST LEARN" Abstract A few decades has fetched a teaching and learning of Science / Biology visions that go beyond linear, stereotyped and fragmentary as those currently permeate the curriculum components. Learn significantly in this field of knowledge will open avenues for the development of the human being, which can provide greater interaction with life, society and the environment. Aiming to improve the teaching of various subjects in high school in the state of Ceará, the project "First Learning" proposed by SEDUC, has the view that the participating students acquire the ability to develop and consolidate concepts, skills and abilities of the various disciplines, necessary for the proper performance by focusing on the skills: reading comprehension, reasoning, logical articulation of content and abstract problem solving. Thus, in seeking to understand the legal requirements of this project, this work presents an analysis of the prescriptive document "First Learning" by checking if their determinants are in accordance with the Guidelines and Curriculum prescribed for secondary education, especially as it relates to conceptual content, procedural and attitudinal. Thus, this research aims at analyzing the Biology curriculum instituted in high schools from the project "First Learning". To achieve the proposed objectives, the ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 694 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino research outlined here has developed a qualitative approach, critically reflective, descriptive, analytical and documentary. It can be noticed throughout the research the centrality given to the development of competencies and skills in reading, writing and logical reasoning, as well as the distance of the curricular goals advocated by the curricular guidelines and parameters regarding the dimensions attitudinal, procedural and conceptual. Given the above, it is considered that the curriculum of Science / Biology is in one of the pathways through which students must learn how to learn, acquire strategies and capacities to transform, redesign, rebuild the knowledge they have given up based on a curriculum that values their culture, their knowledge and their potential. Key - Words: Curriculum. Project. Science Teaching. Introdução Há alguns anos tem-se buscado um ensino e uma aprendizagem de Ciências que atendam às novas exigências de uma sociedade marcada pelo desenvolvimento acelerado da ciência e da tecnologia. Neste contexto, aprender Ciências/Biologia de maneira significativa possibilita aos jovens e adolescentes a abertura de caminhos para uma vida em sociedade melhor. Observa-se que a produção de estudos e pesquisas sobre o assunto tem avançado, embora seus resultados pouco tenham encontrado espaços nas salas de aula. O certo é que nos últimos anos pesquisas tem constatado uma série de questões a respeito do ensino de Ciências/Biologia, apontando entre elas, críticas quanto aos vários problemas envolvendo o currículo, os programas e os projetos curriculares advindos das reformas curriculares. (LOPES, 2004). No âmbito deste processo, as avaliações externas de caráter internacional, nacional e estadual (Pisa, Saeb/Prova Brasil e Spaece) apontam que os estudantes concluintes do ensino fundamental e do ensino médio apresentam baixo desempenho em leitura e matemática. Sendo assim, desconsiderar esta realidade significaria comprometer qualquer perspectiva de melhoria do desempenho dos alunos do Ensino Médio. Considerando a importância da Biologia, neste contexto, a presente pesquisa, analisa o currículo implantando nas escolas públicas do Estado do Ceará, a partir do Projeto “Primeiro, Aprender”. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 695 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Assim nos indagamos, especialmente quanto ao Ensino Médio, se uma boa capacidade leitora e um bom domínio de cálculo e raciocínio lógico são pré-requisitos para que os estudantes possam ter uma efetiva aprendizagem no decorrer dos três anos de estudo deste nível. Assim, nos perguntamos, será que o Projeto “Primeiro, Aprender” trouxe de fato melhorias para o ensino de Biologia? Quais conhecimentos foram considerados importantes, válidos ou essenciais para constarem no currículo escolar? Como esses conhecimentos formam organizados? Que tipo de participação os professores de Biologia tiveram na formulação do material pedagógico de Biologia? Face aos problemas levantados, a pesquisa tem como objetivo geral analisar o currículo de Biologia instituído nas escolas de ensino médio a partir do projeto “Primeiro, Aprender”. Para atingirmos o objetivo geral, tem-se como objetivos específicos: investigar se o Projeto “Primeiro Aprender” trouxe melhorias para o ensino de Biologia; Identificar os conhecimentos considerados importantes, válidos ou essenciais implantados no currículo do Projeto Primeiro, Aprender; Observar como os conhecimentos formam organizados; Identificar se os professores de Biologia participaram da formulação do material pedagógico de Biologia. A adoção desse conjunto de objetivos determina que novas perspectivas sobre o currículo de Biologia possam fazer parte das discussões que permeiem a área de Ensino de Ciências, bem como da própria formação do professor, processo este que incidirá diretamente do fortalecimento da área Ensino de Ciências trazendo consigo novos caminhos para a Ciência Biológica no âmbito de suas licenciaturas. Com essas proposições pretendemos que se abram novas perspectivas para a discussão sobre os currículos de biologia e a formação do professor, o que, certamente, possibilitará fortalecer o ensino de ciências/biologia. Nesta direção, justificamos aqui, a abertura para o fortalecimento da área do Ensino de Ciências na medida em que o curso de Ciências Biológicas, situado na região sul do Cariri do Estado do Ceará, ligado a formação docente, tem a possibilidade de ampliar a discussão sobre a formação do professor para atuar na Educação Básica. Outro elemento basal que podemos considerar, no âmbito da relevância, é que a produção literária sobre o assunto aqui delineado é significativamente ínfima diante da riqueza do tema. Porém, mesmo sendo ínfimas, as discussões existentes apontam para importância e originalidade do tema que vem crescendo nos últimos anos, justificando assim sua emergência. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 696 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino No âmbito da produção do conhecimento cientifico, ressaltamos a contribuição de novos conhecimentos que serão ressignificados em decorrência do desenvolvimento deste projeto, bem como, o engrandecimento da ciência. Contextualizando o Estudo O desenvolvimento explosivo das inovações e tentativas de melhoramento do ensino de Ciências/Biologia teve lugar nos anos setenta. O núcleo de tal processo, cujas consequências afetam até hoje os currículos das disciplinas científicas, estavam situadas nos Estados Unidos, sede dos chamados grandes projetos curriculares, mais conhecidos pelas suas siglas, o Biological Science Curriculum Study (BSCS); Physical Science Study Commitee (PSSC); Chemical Study Group (CHEM); Chemical Bond Approach (CBA), entre outros (KRASILCHIK, p. 2, 1992). Essa efervescência de renovação propagou-se no mundo inteiro em várias direções, atingindo várias instituições, o ministério da Educação e Ciência, as Secretárias Estaduais e Municipais de vários países em diferentes regiões do mundo. Nos últimos quarenta anos, o processo veio sofrendo grandes modificações por força das transformações políticas, sociais e econômicas que vêm afetando tanto o Brasil quanto outros países. (KRASILCHIK, p. 2, 1992). No Brasil, vários movimentos destinados à melhoria do ensino de Ciências/Biologia, incluindo entre eles o Comitê de Estudos sobre as Ciências Física (PSSC), o Comitê de Estudos sobre abordagens em Química (CBA), Estudos Curriculares sobre as Ciências Biológicas (BSCS), o Grupo de Estudos sobre as Ciências Matemáticas (SMSG) e a Fundação Nuffiled, eclodiram de forma bem semelhante ao projeto “Primeiro, Aprender”. Esses movimentos foram liderados por cientistas preocupados com a formação dos jovens que entravam nas escolas e nas universidades, das quais emergiriam futuros cientistas. Esses projetos tinham como objetivo dar aos jovens um ensino mais atualizado e mais eficiente (KRASILCHICK, 2004). Tem-se como marco inicial, o movimento nos anos de 1950, do Instituto Brasileiro de Ciências e Cultura – IBECC, seguido pela Fundação Brasileira para o Ensino de Ciências – FUNBEC, seguido pela instalação, através do MEC, dos Centros de Ciências nos anos sessenta, reforçados pelo Programa de Expansão e Melhoria do Ensino – PREMEN, substituído nos anos setenta e oitenta pelo Subprograma de Educação em Ciências – SPEC, parte do Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – PADCT, o qual foi subvencionado por organizações internacionais com contrapartida brasileira. Para Krasilchik (1992, p. 4), ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 697 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Tais projetos contaram com o apoio de organizações governamentais e não governamentais, localizaram-se em universidades e sistemas escolares e, apesar de abrigarem diferenças internas sobre metas, formas de ação, produtos desejados, uniram todos os seus segmentos na convicção da importância e da necessidade de mobilização de forças para que as deficiências do ensino de Ciências fossem superadas. A preocupação com a formação do cidadão, capaz de opinar e agir cria no movimento para aperfeiçoamento do Ensino de Ciências várias formas que, conforme já expomos, apresentam algumas características comuns e algumas diferenças em relação aos objetivos gerais. Um dos primeiros movimentos iniciados na década de 1970, e em expansão nos anos de 1980 e retomado com mais consistência atualmente, recebeu o nome genérico de Ciência Tecnologia e Sociedade (STS) e almeja, com fim maior, preparar o cidadão para participar dos processos decisórios relativos ao desenvolvimento científico e tecnológico da comunidade em que atua (KRASILCHIK, 2004). A partir de então, têm sido várias as tentativas de melhoria do ensino de Ciências/Biologia, embora não haja, ainda mudanças significativas em relação à sua melhoria. Neste sentido, o projeto “Primeiro, Aprender” foi lançado pela Secretaria de Educação Básica do Estado do Ceará (SEDUC), em 2008, sob o lema “Ler bem para aprender pra valer”. O projeto surgiu da necessidade de desenvolver ações específicas para o 1º ano do Ensino Médio com vistas ao desenvolvimento de competências e habilidades imprescindíveis ao aprendizado de Biologia. De maneira específica, tratou-se, de uma ação conjunta envolvendo todas as disciplinas curriculares do 1º ano do Ensino Médio, na Rede Estadual de Ensino, com vistas a desenvolver a capacidade de leitura, compreensão textual e articulação lógico-formal de conteúdos. O projeto traduziu-se na articulação das diversas disciplinas deste ano focalizando, no período de 12 semanas, o desenvolvimento e consolidação de habilidades de leitura através do uso de material estruturado para o aluno e para o professor. Como objetivo, o projeto “Primeiro, Aprender” propôs que os alunos participantes deste projeto adquirissem a capacidade de desenvolver e consolidar conceitos, competências e habilidades das diversas disciplinas, considerados como necessários ao bom desempenho dos estudantes ao longo do ensino médio, focalizando as habilidades de: compreensão de textos, raciocínio, articulação lógico-abstrata de conteúdos e resolução de problemas. Mesmo considerando os objetivos expostos acima, o que ainda observa-se nas escolas de ensino médio e ensino fundamental, é a permanência de um ensino descritivo, com excesso de terminologias, sem vinculação com a análise do funcionamento das estruturas, bem como, um ensino que não vem dando conta das dimensões sociais. Observa-se ainda uma ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 698 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino forte tendência de um ensino teórico, enciclopédico, que estimula a passividade e o exame vestibular, o qual exige conhecimentos fragmentários. Metodologia Partindo-se da compreensão de que a pesquisa é uma práxis humana permeada por ações investigativas, cujo propósito é encontrar respostas satisfatórias para as inquietações resultantes da análise concernente ao objeto de estudo, utilizamos conceitos, métodos, técnicas e procedimentos éticos que podem tornar viável a investigação. A pesquisa, qualitativa por essência, constitui-se de uma análise documental, onde os elementos da reflexão e da crítica se fazem presentes. Trata-se, na verdade, de um estudo exploratório, descritivo em sua essência. A escolha pela obordagem qualitativa, na concepção de Gil (2010, p. 22), orienta-se pelo fato de que a pesquisa qualitativa tem o papel de proporcionar ao leitor ou usuário a realização de suas próprias generalizações, ao afimar que “se os dados qualitativos forem adequadamente apresentados, o leitor achar-se-á em condições de aceitar ou rejeitar as conclusões dos pesquisadores, em posição de modificar ou aprimorar suas próprias generalizações”. Ao optarmos pela perspectiva descritiva, baseamo-nos nas ideias de Cervo e Bervian (2002), na medida em que afirmam que essa perspectiva nos leva a princípios de observar, registrar, analisar e correlacionar fatos ou fenômenos (variáveis) sem, portanto, manipulá-los. Gil (2010, p. 45), ao referir-se à pesquisa exploratória, afirma que “na maioria dos casos são pesquisas que envolvem levantamento bibliográfico, [...] que estimulam a compreensão do fato”. Esses documentos são utilizados como fonte de informações, indicações e esclarecimentos que trazem seu conteúdo para elucidar determinadas questões e servir de prova para outras, de acordo com o interesse do pesquisador. A unidade de análise definida para a coleta de dados consistiu nas diretrizes que orientarão a implantação do Projeto “Primeiro, Aprender”, os manuais didáticos pedagógicos e os livros dos professores e dos alunos. O período de realização da pesquisa compreendeu os meses de janeiro a dezembro de 2012. Os resultados foram coletados, agrupados e organizados a partir da análise qualitativa dos dados, permitindo assim, um melhor entendimento e descrição do objeto de estudo. Logo em seguida, foi atribuído aos dados coletados, todo um tratamento analítico. Resultados e Discussão ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 699 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Entendendo-se o currículo como um conceito que no discurso da educação, denomina e estabelece uma realidade existente e importante nos sistemas educacionais e que sem dúvida ainda não englobe toda a realidade da educação, tem- se convertido em um dos núcleos de significação mais densos e extensos para que seja compreendido no contexto social, cultural e para que se possam entender as diversas formas pelas quais ele tem se institucionalizado. Em referência ao processo institucional do currículo, o projeto “Primeiro, Aprender” traz em sua estrutura didática – pedagógica o material organizado em dois blocos conforme se podem observar na a tabela 1. Em relação à tabela 1, pode-se perceber que os conhecimentos estão subdivididos de forma essencialmente disciplinar, focados na perspectiva da leitura e da matemática, sendo que o maior número de aulas também se concentra nestas duas disciplinas, onde é possível perceber uma hierarquia de saberes. Para Lopes (2002), a forma de como se faz a organização curricular, consiste num grande eixo de mudanças para o ensino, diz a autora “mudar o ensino é mudar a organização das disciplinas” (p. 165), ao contrário do que se observa acima, tem-se a estabilidade do currículo disciplinar. Com base em Lopes (2002), acreditamos que a perspectiva de mudança da organização curricular deva expressar o principio da flexibilidade associada à ideia de organização do ensino. A contribuição da análise da ciência, como instituição para formar cidadãos autônomos, capazes de opinar e agir exige que as questões científicas sejam consideradas em seus multifacetados aspectos: éticos, políticos, culturais e econômicos, sem que haja doutrinamento, forçando os jovens a adotarem posturas preestabelecidas. É por essa razão que são cada vez mais frequentes as reformas dos currículos, as quais nem sempre cumprem o que declaram buscar. Na tabela 2, especificamente no item Caderno do Professor, percebe-se uma forte relação atribuída ao exercício do desenvolvimento das habilidades de leitura e ao raciocínio lógico-matemático. De fato, afirma Pozo e Crespo (2009, p. 29), Habitualmente, nos currículos de Ciências/Biologia, a partir dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio a formação em atitudes praticamente não teve relevância se comparada com o treinamento em habilidades ou, principalmente, com o ensino de conteúdos por competências e habilidades. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 700 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Para comprovar o que afirma Pozo e Crespo (2009), é necessário observar o escasso peso das atitudes na avaliação, pelo menos explicitamente. O que geralmente se avalia é o conhecimento conceitual e, em menor medida, o procedimental, as atitudes dos alunos praticamente não são levadas em conta, talvez porque se encaixam mal no tradicional formato de prova. De acordo com Sacristán (2013, p. 234) “na elaboração de um currículo por competência, existe o perigo de encarar a educação de uma forma psicológica, como já aconteceu com a pedagogia por objetivos”. Parece duvidoso pensar que se pode “aprender a aprender” ou “aprender a pensar” como estratégias autônomas sem a interferência da cultura (SACRISTÁN, 2013). Como resalta Torres (2008), para alcançar ambos os propósitos é necessário partir de conteúdos culturais sobre os quais se pensará ou aprenderá. É difícil acreditar que se possa planejar um currículo com base em objetivos operativos ou competências concretas sem pressupor o legado cultural dos conteúdos, selecionados desses conteúdos o que for adequado social, epistemológica e psicologicamente ou sem considerar a experiência escolar como um processo muitas vezes indireto de vivencias e valores transmitidos no longo processo de escolarização. Para Lopes (p. 150, 2002) citando Jone e Moore (1993), o modelo de ensino por competência, tem por base, um saber fazer associado ao mundo do trabalho produtivo e regulamenta um conhecimento especializado, ele tende a desconsiderar os indivíduos que têm competências adquiridas em redes sociais cotidianas. Um material didático que esteja desconectado de qualquer vínculo da realidade social e cultural do aluno torna-se minimalista, pois do ponto de vista de Pozo e Crespo (2009), na aproximação do conhecimento cotidiano ao conhecimento científico, o estudante pode construir seu próprio conhecimento cientifico utilizando seus conhecimentos simplistas e cotidianos através da explicitação dos vários campos que a ciência ocupa no seu ambiente diário, porém para que haja possibilidade dessa construção, é preciso que a noção prévia sirva de base para a desconstrução do saber cotidiano para uma reestruturação e reconstrução do saber cientifico. Preocupado com esta questão, Bybee e DeBoer (1994) apontam para que as aulas de ciências devam promover uma aprendizagem significativa de conceitos, leis, teorias científicas, processos e métodos a fim de que os estudantes a partir dos conhecimentos apreendidos ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 701 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino possam reconhecer as aplicações da Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente contribuir para sua transformação. Dado que uma das metas da educação científica seja criar o interesse pela ciência como forma de abordar os problemas que nos rodeiam, Pozo e Crespo (2009) consideram que a mudança de atitude face à contribuição da alfabetização cientifica implicaria pôr em marcha processos de aprendizagem significativos ao processo de ensino e aprendizagem da ciência e biologia. Sendo assim, é preciso, sobretudo um exercício continuado ou repetitivo de condutas que consolidem a mudança de atitude nos alunos. Assim, a educação em valores deve confiar principalmente na mudança de conduta, mais que na persuasão a qual em nada contribui para o fortalecimento da educação científica (POZO E CRESPO, 2009). Percebe-se que a forma como o material didático do projeto “Primeiro, Aprender” foi organizado, não é capaz de provocar essa desconstrução e reconstrução dos conhecimentos devido a sua simplicidade textual objetivada somente no desenvolvimento das competências leitoras. Assim, verifica-se na analise dos documentos e materiais do projeto “Primeiro, Aprender” que ele não possui clareza e objetividade diante dos conteúdos curriculares propostos. Um ponto imprescindível ao se elaborar um currículo é demonstrar claramente a importância de se estudar o que está proposto pedagogicamente nos conteúdos curriculares, uma vez que a falta de motivação por parte de alunos ao se deparar com as disciplinas, pode ocorrer em função de não ser evidenciado à finalidade de cada conhecimento fazer parte daquela proposta curricular. Conclusão Diante da ideia, que possivelmente é compartilhada por muitos professores, de que a educação científica deve ter metas fixas e imutáveis que consistem na transmissão do saber científico estabelecido e, portanto, alheias as vicissitudes sociais, qualquer análise da evolução dos currículos de ciências/Biologia mostra que eles evoluem, em seus fins e, consequentemente, em seus conteúdos e em seus métodos, junto com a sociedade da qual fazem parte e à qual estão dirigidos. Nesse contexto, o currículo de Ciências/Biologia constituise em uma das vias por meio das quais os alunos devem aprender a aprender, adquirir estratégias e capacidades que permitam transformar, reelaborar e, em síntese, reconstruir os conhecimentos que recebem. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 702 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Uma profunda revisão dos currículos escolares mostra-se urgente e inadiável para que se chegue á recomendações que orientem a todos os envolvidos no processo, desde a elaboração de programas de disciplinas científicas até ás salas de aula, onde os alunos participem de atividades que lhes permitam adquirir conhecimentos e ver a ciência não só como processo de busca desses conhecimentos, mas como instituição social que influi poderosamente em suas vidas. Para uma renovação do currículo de Biologia precisamos não só de uma renovação epistemológica dos professores, mas que essa venha acompanhada por uma renovação didática – metodológica de suas aulas. Agora não é só uma questão de tomada de consciência e de discussões epistemológicas, mas também é necessário um novo posicionamento do professor em suas classes para que os alunos sintam uma sólida coerência entre o falar e o fazer. Este é um ponto bastante complexo, pois os professores para o desenvolvimento de suas aulas necessitam de matérias instrucionais coerentes com uma proposta de ensino como investigação o que implica uma renovação também deste programa de atividades proposta pelo projeto “Primeiro, Aprender”. Referências AMABHIS, J.M, MARTHO, G.R. Biologia: biologia das moléculas. São Paulo: Moderna, 2ª Ed. Vol.1, 2011. BYBEE, R.W.E DEBOER, G.E. Research on Goals for the Science Curriculum, In: Gabel, D.L.(ed.), Handbook of Research in Science Teaching and Learning. 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História – 24 aulas. 3. Língua Inglesa – 24 aulas. 4. Filosofia – 12 aulas. 5. Educação Física – 12 aulas. 6. Arte – 12 aulas. BLOCO II Disciplinas alinhadas à Matemática 1. Matemática – 60 aulas. 2. Biologia – 24 aulas. 3. Química – 24 aulas. 4. Física – 24 aulas. 5. Geografia – 24 aulas. Fonte: Governo do Estado do Ceará. Secretaria da Educação. Coordenadoria do Desenvolvimento da Escola – CDESC, 2008. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 704 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino TABELA 2 – Materiais Estruturados Caderno do aluno 03 cadernos para cada bloco de disciplinas. Cada aula de qualquer das disciplinas está organizada a partir de um texto base Seguido de questões ou tarefas. Devem ser incluídos diferentes tipos de textos, envolvendo não somente passagens em prosa, mas também vários tipos de documentos como listas, formulários, gráficos, diagramas, etc. É composto de orientações didáticometodológicas gerais e específicas, apresentando os objetivos do programa em cada disciplina, bem como em cada aula. Para cada aula são expostas as habilidades de leitura e/ou raciocínio lógico-matemático a Caderno do professor serem consolidadas; as habilidades específicas do campo de estudo/disciplina a serem desenvolvidas; procedimentos para a condução da aula; e explicação de cada questão ou tarefa – incluindo objetivo, conhecimentos/conteúdos envolvidos e resposta com notas explicativas. Fonte: Governo do Estado do Ceará. Secretaria da Educação. Coordenadoria do Desenvolvimento da Escola – CDESC, 2008. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 705 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino TABELA 3 – Habilidades a serem consolidadas - desenvolvidas Leitura Identificar e recuperar informações; Desenvolver uma compreensão geral do texto; Refletir sobre o conteúdo e a forma do texto; Construir argumentações para defender um ponto de vista; Identificar o uso ou finalidade para o qual o texto foi construído. Ciências Naturais e Humanas Compreender conceitos científicos necessários para ajudar a tomar decisões sobre o mundo natural e social; Aplicar estes conceitos a problemas científicos presentes na vida real; Reconhecer questões científicas; Identificar evidências; Desenvolver a capacidade de adquirir, interpretar e agir com base em evidências; Desenvolver a capacidade de extrair conclusões com bases científicas e comunicar essas conclusões. Matemática Desenvolver o uso da linguagem matemática através de procedimentos e habilidades de resolução de problemas; Consolidar conceitos matemáticos mais amplos; Realizar operações simples; Desenvolver o domínio das relações numéricas, da álgebra e da geometria. Fonte: Governo do Estado do Ceará. Secretaria da Educação. Coordenadoria do Desenvolvimento da Escola – CDESC, 2008. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 706 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino ENSINO DE BIOLOGIA E SEU UTILITARISMO AINDA ATUAL NO CURRÍCULO ESCOLAR: REFLEXÕES SOBRE A EDUCAÇÃO PÚBLICA ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO CRISTIANNI ANTUNES LEAL - FIOCRUZ [email protected] RESUMO A disciplina escolar biologia inicia sua inserção no ensino fundamental por meio da disciplina ciências, enquanto que no ensino médio é nomeada de biologia. O ensino de biologia é interpretado com utilidade pelos estudantes, os conteúdos são fortemente influenciados pelas disputas de poder das diversas áreas de conhecimento da biologia no currículo, além de refletir o próprio contexto histórico, econômico e social. Porém, o ensino de biologia deve permitir um olhar além do utilitário, como o alcance da alfabetização científica importante para a apreensão dos conteúdos biológicos e estes extrapolados à vida dos estudantes. Diante deste contexto, o objetivo deste estudo foi identificar as concepções dos alunos do terceiro ano do ensino médio de uma escola pública estadual do Rio de Janeiro acerca da importância, ou não, no ensino de biologia, além de averiguar em suas respostas a noção de utilidade em tal ensino e conhecimentos. Para isso, os estudantes responderam uma pergunta e suas respostas foram submetidas à análise de conteúdo. Como resultado alcançou-se três categorias onde foi possível notar a permanência da função utilitária atualmente no ensino de biologia, mas é possível um ensino holístico e consequente alfabetização científica, desde que haja a compreensão de suas existências no currículo por meio de uma valorização na contextualização dos conteúdos; assim, percebe-se ser necessário um novo olhar no currículo da disciplina escolar biologia e no ensino praticado pelos professores. Palavras-chave: alfabetização científica, currículo, ensino de biologia. THE TEACHING OF BIOLOGY AND ITS UTILITARIANISM YET PREVAILING IN THE ACADEMIC CURRICULUM: REFLECTION ON THE PUBLIC EDUCATION IN THE STATE OF RIO DE JANEIRO ABSTRACT The school subject named biology begins its insertion in the basic education by means of the school subject named science, whereas in high school it is named Biology. The teaching of biology is interpreted with value by the students, the contents are strongly influenced by disputes of power of the diverse areas of knowledge of biology in the curriculum, besides reflecting the historic, economic and social context itself. However, the teaching of biology must allow one to have a look beyond its value, such as reaching Scientific literacy, which is important to the understanding of biology contents and these extrapolated to students’ lives. Facing this context, the object of study was to identify the conceptions of the students of the senior year in high school in a public state school of Rio de Janeiro about the importance, or not , in the teaching of biology, besides having to verify in their answers the notion of value in such teaching and knowledge. For that matter, the students were asked one question and their answers were submitted to an analysis of content. As a result, three categories were achieved where it was possible to observe the permanence of the utilitarian function in the teaching, but it is possible to have a holistic teaching and, consequently, scientific literacy, provided that there will be the comprehension of their existence in the curriculum by means of an appreciation in the context of the contents; therefore, it makes necessary a new look on the curriculum of the biology school subject and the teaching practiced by the teachers. Keywords: scientific literacy, curriculum, biology teaching. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 707 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino INTRODUÇÃO Quando ela iniciou na escola, foi considerada uma modificação da disciplina científica para a função de disciplina de ensino, não era ministrada por professores especialistas, inclusive, no período de sua inserção a própria matriz que a deu origem ainda estava se firmando como área científica e com disputa de interesses em suas diversas áreas do saber. Contudo, sua entrada e justificativa no currículo escolar se deu por sua finalidade utilitária na vida dos indivíduos, demonstrando que seu ingresso na escola também respondeu à demanda social. Assim, com o passar dos anos foi se consubstanciando como área de estudo, mas com um vocabulário próprio e ensino, predominantemente, abstrato, conteúdista, memorístico, classificatório e descritivo. Biologia – essa é a ciência que estuda a vida e sobre a qual há uma conjugação de conhecimentos, origens, definições e discussões. O ensino de biologia é oriundo de sua matriz de origem - as ciências biológicas que apresentam diversas áreas científicas, tais como a zoologia, a botânica, a biologia molecular, a ecologia e a fisiologia humana, entre outras que foram com o passar dos anos, aglutinadas à sombra deste nome, que inclusive tem o termo “biologia” cunhado por Lamarck e Treviranus, de forma independente, no início do século XIX (MARANDINO et al., 2005). O ensino de biologia se dá inicialmente no currículo escolar por meio da disciplina escolar “ciências”, pois esta apresenta um ensino em que prevalece a biologização dos conteúdos, embora devesse apresentar outras ciências de referência, tais como a física e a química (LOPES, 2000). Enquanto que no ensino médio, é nomeada de biologia. De acordo com Marandino, Selles e Ferreira (2009) as disciplinas escolares ciências e biologia apresentam uma origem comum e “se desenvolveram no final do século XIX e, enfaticamente, no início do século XX, em meio a própria criação dos sistemas públicos de ensino” (p. 32). O ensino de biologia no Brasil aparece em sintonia com o ensino de ciências, logo, tem-se como marco o ano 1930 quando as ciências foram inseridas oficialmente no currículo escolar (SANTOS, 2007; MARANDINO, op. cit., 2009), como consequência do sistema nacional integrado e para responderem ao contexto social, político e econômico da época. Até esse momento não existia no Brasil “uma política nacional de educação que prescrevesse diretrizes gerais e a elas subordinasse os sistemas estaduais” (SHIROMA, MORAES e EVANGELISTA, 2007, p. 16), por conseguinte, cada instituição poderia realizar e ensinar o que quisesse. Contudo, desde 1837 havia o ensino de história natural no currículo do Imperial Collegio de Pedro II – a primeira instituição oficial de instrução secundária no país fundado no Rio de Janeiro (ARANHA, 2006; MARANDINO, op. cit., 2009). Todavia, com a criação em 1930 do Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, objetivando criar um ensino mais adequado à modernização, houve a integração do currículo e o ensino de ciências e biologia (ciências e história natural), iniciou. Nesse intervalo de tempo entre a criação do Pedro II até 1930 não havia nenhuma regulamentação a nível nacional e oficial, assim o ensino de ciências e biologia poderia ocorrer, ou não nas escolas. Apesar disso, o colégio Pedro II passa a ser a referência ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 708 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino nacional no ensino, inclusive por seu currículo escolar e, este, praticamente inalcançável nas demais unidades escolares. O ensino de ciências é a integração entre, principalmente, biologia, física e química, e em algum momento no curso de suas histórias, essas disciplinas foram interpretadas como se tivesse o mesmo método de raciocínio, isso justificou sua reunião para fins de ensino na disciplina escolar Ciências Naturais, sendo que há diferenças e “uma das diferenças mais fundamentais entre biologia e as chamadas ciências exatas é que nela as teorias são usualmente baseadas em conceitos, enquanto nas ciências físicas são baseadas em leis naturais” (MAYR, 2005, p. 46). Mas na escolarização das Ciências Naturais, as ciências são admitidas no ensino fundamental, enquanto que no ensino médio, são separadas. Percebe-se assim uma quimera entre o ensino de ciências e o ensino de biologia, sendo, consequentemente, complexo separá-las em sua origem no currículo escolar. O ensino de biologia se justifica historicamente por seus conhecimentos serem úteis na vida dos indivíduos que perpassavam pelos bancos escolares. Haja vista que ensina noções de higiene e prevenção de doenças e tem como um exemplo icônico a Revolta da Vacina no Rio de Janeiro em 1904, revolta (embora haja outras interpretações) na qual a, ainda nascente, alfabetização científica certamente fez falta (PÔRTO e PONTE, 2003). Tal alfabetização pode ser atualmente compreendida como “a formação do cidadão cientificamente alfabetizado, capaz de não só identificar o vocabulário da ciência, mas também de compreender conceitos e utilizá-los para enfrentar desafios e refletir sobre seu cotidiano” (KRASILCHIK e MARANDINO, 2007, p. 19). E quando se trata da alfabetização biológica, de acordo com Krasilchik (2011) são identificáveis, ao menos quatro estágios, sendo eles a Nominal, onde o estudante reconhece termos específicos; a Funcional, onde o estudante sabe definir termos científicos, mas sem compreendê-los; a Estrutural, estágio onde o estudante compreende as ideias do conhecimento científico e a Multidimensional, “quando os estudantes aplicam o conhecimento e as habilidades adquiridas, relacionando-os com conhecimentos de outras áreas, para resolver problemas reais” (KRASILCHIK, 2011, p. 14). O ideal seria que ao término da educação básica os estudantes tivessem o pleno desenvolvimento da Multidimensional. Diante deste cenário, o objetivo deste artigo é identificar as concepções dos alunos do terceiro ano do ensino médio de uma escola pública estadual do Rio de Janeiro acerca da importância, ou não, no ensino de biologia, além de averiguar em suas respostas a noção de utilidade em tal ensino. Para alcançar isso se adotou como metodologia a análise de conteúdo (BARDIN, 2011). INTERFACES: ENSINO DE BIOLOGIA E O CURRÍCULO De acordo com Teixeira, a biologia se torna autônoma por apresentar “diversos conceitos, propriedades e características que são objetos específicos da Biologia porque ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 709 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino envolvem o estudo da complexidade dos sistemas vivos” (TEIXEIRA, 2008, p. 24), tais como a reprodução, genética, metabolismo, fisiologia, o próprio DNA que se tornou um símbolo da biologia. Contudo, o ensino de biologia no Brasil foi fortemente influenciado por modelos estrangeiros, como o europeu e o americano e “da própria evolução da Ciência em nosso país e mundo” (TEIXEIRA, 2008, p. 28), evolução esta no sentido de progresso das descobertas científicas. Até a década de 1950, a biologia não existia como disciplina autônoma e oficial, mas sim, a disciplina de história natural, inclusive no colégio Pedro II. E quem a lecionava eram médicos sem formação específica para a docência (CASSAB et al., 2012). Em 1960 o ensino é novamente influenciado pelo contexto da época (Guerra Fria), com uma valorização das ciências e pelo experimentalismo das mesmas, inclusive no Brasil. As ciências eram interpretadas como se fossem as redentoras para os problemas sociais e econômicos. Iniciou quando os russos lançaram o satélite Sputinik para estudar o espaço, com isso, os estadunidenses iniciaram uma espécie de revolução científica, compreendendo a adoção de métodos científicos no currículo escolar. As ciências eram as responsáveis pelo progresso do país e, assim deveriam ser estudadas desde as idades mais tenras. Esse contexto permaneceu, ora com mais vigor, ora de forma mais amena, até a década de 1980 quando no Brasil há a promulgação da Constituição (1988) que permitiu a elaboração da Lei de Diretrizes e Bases (nº 9.394) em 1996, esta que forneceu orientações para uma reforma nos sistemas educacionais no Brasil, tais como a gestão democrática e a obrigatoriedade e gratuidade ao ensino fundamental. Ainda com Teixeira, o ensino de biologia a partir de 1990 apresenta efetivamente uma: (...) tendência descritiva e a orientação enciclopédica, evidenciadas em épocas anteriores, parecem estar mantidas, caracterizando a Biologia como ramo disciplinar cujo ensino se caracteriza por um extenso programa e uma abordagem descritiva que privilegia nomenclaturas, termos e classificações, características típicas do ensino tradicional humanista (TEIXEIRA, 2008, p. 36). Enquanto que a disciplina escolar biologia, que foi assim nomeada quando sua matriz de origem se consubstanciou, e esta só foi possível e aceita quando a evolução das espécies foi articulada como teoria; pois sob a bandeira da teoria da evolução, no início do século XX, a biologia ascendeu. Os conteúdos que hoje fazem parte do currículo escolar de biologia foram “historicamente selecionados porque atende principalmente a finalidades de caráter pedagógico e utilitário” (MARANDINO et al., 2005, p. 58). Cassab et al., discutem ainda que “a ênfase na utilidade prática dos conteúdos e sua funcionalidade passaram a influenciar as prioridades de seleção e distribuição do conhecimento no interior das escolas” (2012, p. 250) (grifo nosso), tais como a valorização da alimentação saudável e prevenção de doenças, como as parasitoses. Inúmeras são as discussões no currículo escolar, como a do atual currículo implementado nas escolas não ser capaz de responder às demandas sociais, a educação, ao ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 710 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino mesmo tempo em que novos conhecimentos são gerados e sofrendo uma pressão para serem realizados no ensino, correspondendo a um ensino enciclopédico. Essa sobrecarga de conteúdos os torna fragmentados e com um consequente ensino superficial. Partindo do ponto de vista dos alunos, tal fragmentação e superficialidade no ensino não permite inserir o conhecimento em problemas reais (o estágio Multidimensional), o ensino passa a não ter sentido para os estudantes pela inexistência da contextualidade (SACRISTÁN, 2013). Provavelmente este panorama ainda atual seja reflexo do positivismo que (...) exprime a exaltação provocada no século XIX pelo avanço da ciência moderna, capaz de revolucionar o mundo com uma tecnologia cada vez mais eficaz: saber é poder. Esse entusiasmo desembocou no cientificismo, visão reducionista segundo a qual a ciência seria o único conhecimento válido (ARANHA, 2006, p. 204). Porém, quando há uma demanda social e a escola por meio do currículo atua como um agente normatizador das regras, há exceções. Isso ocorreu em 2009 com o surgimento da gripe H1N1, período em que foi determinado noções de higiene, prevenção e sintomas da gripe emergente. O sistema educacional passou a ser um dos locais para o controle e regulação da então epidemia eminente, porém, de forma mecânica e inexistindo críticas sobre o papel da escola. A partir do momento que entrou no currículo escolar, os indivíduos passaram a vigiar uns aos outros para que a prática (higiênica) fosse cumprida (PEREIRA e FERRARO, 2011). Demonstrou-se um exemplo recente em como o currículo, na escola, exerce poder, é fortemente influenciado pelo governo e com uma ação utilitária. Nesse contexto, a variedade de indivíduos e interesses se converge em prol do bem estar comum. “O currículo recebeu o papel decisivo de ordenar os conteúdos a ensinar” (SACRISTÁN, 2013, p. 17). Mas com um currículo enciclopédico, como o que existe na disciplina escolar biologia, como motivar os alunos a continuar estudando? O docente deve ter claro que nem todos os que estão na escola se identificam com a biologia, portanto, o currículo, embora tenha que conceder conteúdos e conhecimentos, também deve considerar que nem todos continuarão a estudar e ainda mais, a biologia. O que chama a atenção para os professores e sua qualidade no ensino, uma vez que “os professores são fundamentais para melhorar a aprendizagem e incrementar qualidade à educação” (BOTIA e BOLÍVAR-RUANO, 2012, p. 19). Uma das funções do ensino formal é dar acesso ao conhecimento para os alunos (LEAL, 2013), por isso, o ensino dos professores, por meio de transposição e estratégias didáticas, permite que a biologia seja apreendida pelos estudantes. A dualidade conteúdo e didática influencia na aprendizagem dos alunos, pois “o trabalho de ensinar não é uma tarefa simples, quando está em jogo o futuro da educação de todos os jovens” (BOTIA e BOLÍVAR-RUANO, 2012, p. 20), mas o currículo, embora valorize a interdisciplinaridade – na verdade o ideal seria a transdisciplinaridade -, a maior parte dos professores não se sente confiante em praticá-la. Correspondendo a um ensino de biologia o ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 711 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino mais próximo do universitário, dessa forma - tradicional, enciclopédico e fragmentado, reflexo do paradigma cartesiano3. De acordo com Pereira e Ferraro (2011) a curricularização de alguns temas entra em consonância com interesses de poucos, como o próprio governo ou é fortemente influenciado pelas editoras dos livros didáticos. Em biologia, por exemplo, pode-se assumir como influência atual o estudo de biotecnologia e biologia molecular. Mas em uma sala de aula, será realmente importante aos alunos classificarem e definirem as células tronco (em totipotentes, em pluripotentes e em multipotentes), se as pesquisas no Brasil ainda são para reduzidos grupos de pesquisa? Em oposição a outros assuntos? Em um mundo perfeito, o ideal seria um ensino holístico no sentido de ter uma visão mais completa dos assuntos abordados e que tais conhecimentos de fato façam parte dos próprios indivíduos, que estes façam suas escolhas de forma consciente e crítica, seria a almejada alfabetização científica e biológica; assim, classificar as células tronco se tornam relevante. No entanto, o mundo não é perfeito e o que se tem visto é que os conhecimentos estão sendo impostos sem a devida preocupação em quem irá lecioná-los, como serão lecionados e para quem serão ensinados; pode ocasionar a dependência do livro didático e os docentes passam a selecionar os conteúdos, isso reflete que o professor também exerce o poder em seu currículo. Mesmo que de forma inconsciente, o docente faz escolhas que reverberam a corrente em que acredita e se sente confortável. “O que os professores ensinam na aula e na escola é uma síntese de elaborações individuais e/ou coletivas de conhecimentos culturais disponíveis para serem ensinados” (SACRISTÁN, 2013, p. 201). O salutar é que fosse considerada a aprendizagem dos discentes. Nesse momento, cabe uma pergunta: então, que biologia ensinar? Não há uma única resposta, mas talvez os conhecimentos biológicos que possam estabelecer vínculos mais estreitos com a realidade, quanto auxiliar na resolução de problemas sociais, porém sem cair na retórica utilitária, interpretada como única razão de existir o ensino de biologia, uma vez que de acordo com Marandino et al. (...) as disciplinas escolares trabalham com conhecimentos organizados e transformados para fins de ensino, funcionando como um princípio ordenador e controlador do currículo, estruturando os tempos e os espaços escolares (MARANDINO et al., 2005, p. 52). O ensino de biologia, por meio da disciplina escolar biologia apresenta sua importância e justificativa no campo do currículo escolar, mas deve se desvincular de sua origem no início do século XX, quando surgiu. Atualmente, almeja-se a alfabetização científica e biológica quando os conhecimentos extrapolam os muros escolares, que façam parte da vida dos 3 De cartesianismo, “uma filosofia da biologia puramente mecanicista, baseada nos escritos do filósofo francês Descartes” (MAYR, 2005, p. 232). Onde prevalece a fragmentação do conhecimento. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 712 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino estudantes, permitindo assim a todos participarem de debates, realizar escolhas e tornarem-se autônomos intelectualmente. ENQUANTO ISSO NO RJ... O CURRÍCULO MÍNIMO! A Secretaria do Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ) em 2011 iniciou a execução do chamado Currículo Mínimo. Em 2012 foi lançado para as disciplinas ciências e biologia4. Tal currículo é considerado uma referência para todas as unidades de ensino da rede estadual e “sua finalidade é orientar, de forma clara e objetiva, os itens que não podem faltar no processo de ensino-aprendizagem, em cada disciplina, ano de escolaridade e bimestre” (RIO DE JANEIRO, 2012, p. 2). Porém, vale a pena ser salientado que o Currículo Mínimo foi redigido após o anúncio da situação da educação estadual a nível nacional. O Rio de Janeiro ficou na penúltima posição; a fim de alavancar a educação, houve de forma emergencial a criação de tal currículo. Medidas coercitivas e bonificações para o cumprimento do currículo também foram criadas, como o pagamento do décimo quarto salário às escolas que cumprissem as metas, o lançamento de notas on-line, o preenchimento do currículo no portal e consequente geração de relatórios, entre outras. A ausência de um currículo nacional permite haver tal ação arbitrária, o que existe para delinear o ensino são os documentos: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, 1996), Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs, 1998), Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs, 1997) e Orientações Curriculares Nacionais (OCNs, 2006). Excetuando-se a LDB e as DCNs, os demais documentos se valem como norteadores para o ensino. O ensino de biologia é apontado em todos os documentos, de forma singular (OCNs) ou em conjunto com a área das ciências. O Currículo Mínimo da SEEDUC-RJ está focado no desenvolvimento de habilidades e competências e para isso, sistematizou o ensino por ano de escolaridade e por bimestre. O de ciências e biologia foi redigido por uma equipe de poucos participantes (todos com pósgraduação Stricto Sensu), e sendo a coordenadora da ação uma professora doutora em ciências, porém sob a luz de uma universidade pública, a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Embora a coordenadora não seja efetiva da Universidade é sob este nome e instituição que é identificada, isso causa um silenciamento nos demais professores da rede estadual do Rio de Janeiro, que podem se sentir inibidos em contestar tais autoridades; corroborando com a ideia de que o currículo exerce poder, e poder nem todos o detêm, e quem o detém, não quer que outros o tenham. Redundante, porém, realista quando se percebe uma necessidade de autoafirmação como autoridade na elaboração do currículo pela SEEDUC-RJ. 4 Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=759820>. Acesso em: 17 de jul. de 2013. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 713 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino A falta de currículo nacional e/ou estadual implica em ser uma política do governo atual, não há garantias que após o mandato do atual governador, o Currículo Mínimo permaneça no sistema público estadual, assim como as avaliações denominadas “SAERJinhos”5. Bimestralmente os alunos da rede estadual são analisados nesta avaliação diagnóstica, se os resultados forem abaixo do esperado, a direção da unidade escolar é convocada para esclarecimentos que por sua vez, pede explicações aos professores. É um treinamento para o SAERJ no fim do ano letivo. Isso fere a autonomia da escola, assim como sua contextualização na localidade. A esse respeito Botia e Bolívar-Ruano (2012), afirmam que o conhecimento disciplinar deve ser reorganizado e transformado, considerando os alunos, o contexto e o currículo, porém no Rio de Janeiro, professores da rede estadual devem cumprir o mesmo currículo e treinar os alunos a realizarem as avaliações externas. De acordo com Marandino, op. cit. (2009), as disciplinas escolares são constantemente recriadas pelos diferentes professores em seus espaços de atuação. Logo, deveria haver uma liberdade pedagógica entre os diferentes atores da comunidade escolar, como professores e alunos, e levado em consideração a localidade da escola, contudo, no Rio de Janeiro há uma implementação de forma acrítica e arbitrária, significando uma formatação nos ensinos. A disciplina biologia também sofre com isso, pois embora haja a ideia de ser o mínimo a ser ensinado, isso não é real, pois com 20 horas/aulas bimestralmente e o cumprimento da exigência de ao menos três elementos avaliativos por bimestre, o professor por vezes, leciona apenas o currículo “imposto”. A título de exemplo, no terceiro ano do ensino médio, há uma supervalorização dos temas ligados ao meio ambiente, inclusive para reconhecer a legislação ambiental. Os alunos que em 2013 estão no terceiro ano, manifestam-se com defasagem no ensino de biologia em comparação com os alunos de outras redes escolares, haja vista seu exercício ter ocorrido em 2012, eles estavam no meio do processo e o currículo foi imposto para todos os anos de escolaridade; a temática genética, por exemplo, ficou sintetizada ao tema biotecnologia. Praticamente não há tempo para outras abordagens. Medidas paliativas têm sido realizadas como esforço próprio de cada professor/unidade escolar, como o extensivo uso das redes sociais para mediar conhecimentos e discussões, porém não é o ideal, uma vez que nem todos dominam a tecnologia, as possuem e os alunos podem não demonstrar maturidade em seu uso. E o mais importante, a interferência do professor é ímpar, o debate em sala de aula e com os pares é riquíssimo para ser substituído pelo uso da tecnologia, que é democrática, mas nada substitui o professor em sala de aula e com seus estudantes. A educação estadual do Rio de Janeiro regride. E nas próximas eleições para governador ... tudo pode mudar. 5 Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro (SAERJ), aplicada no fim do ano. Porém os SAERJinhos são avaliações diagnósticas por bimestre para o SAERJ. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 714 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS O estudo foi realizado no mês de julho de 2013 com trinta e três alunos do terceiro ano do ensino médio do período matutino, de uma escola pública estadual do Rio de Janeiro. De acordo com a SEEDUC-RJ, a disciplina biologia passa a ser lecionada a partir do primeiro ano do ensino médio, dispondo de dois tempos de 50 minutos, portanto, 100 minutos por semana. Assim, o aluno que inicia e termina na rede estadual apresenta, aproximadamente, 240 horas6 de biologia nos três anos de ensino na escola pública. Os participantes se apresentaram com uma idade variando entre dezesseis e dezenove anos, sendo dezenove meninas e quatorze meninos. Para esse estudo, os alunos responderam a seguinte pergunta: “Existe, ou não existe, importância no ensino de biologia para sua vida? ( )Sim ( )Não. Justifique”. As respostas foram submetidas à análise de conteúdo (BARDIN, 2011) de forma qualitativa, considerando seus critérios léxicos e como unidade de registro, o tema. As etapas seguidas para as categorias foram as mesmas utilizadas por Leal (2013). ANÁLISE DE DADOS E DISCUSSÃO Dos trinta e três participantes (P) apenas um disse não ser importante (P20), os demais 97% consideram importante o ensino de biologia. Contudo, foram analisadas trinta e uma respostas, uma vez que os participantes P4 e P22 não justificaram suas respostas. Obtiveramse três categorias, sendo elas: (1) Continuidade dos estudos, (2) Compreensão dos fenômenos da biologia e (3) Conhecer o corpo humano. A seguir são discutidas as categorias emergentes (QUADRO 1). 1. Continuidade dos estudos A importância em estudar biologia para continuidade dos estudos foi lembrada por onze participantes, o que pode significar o reflexo da pesquisa ter sido realizada com alunos que estão em vias de terminar a educação básica. Bizzo (2009) justifica o ensino de ciências e, portanto também o de biologia, por duas importantes funções, “sendo elas: 1) a alfabetização científica e tecnológica, ou seja, o indivíduo desenvolve autonomia intelectual a respeito de temas onde as ciências se fazem presente; e 2) por ser base de profissões nas quais as ciências desenvolvem papel ativo” (BIZZO apud LEAL, 2013, p. 15). O que foi lembrado no discurso a seguir “Com certeza sim, biologia é muito importante e é um ótimo estudo, principalmente para aqueles que vão se formar em algo que envolve muito a biologia ou sobre ela” (P17). Profissões como: Farmácia, Biologia, Enfermagem, Medicina, Técnico em Laboratório, Técnico em Enfermagem, entre outras, têm como base a aprendizagem de biologia, justificando seu interesse no estudo por conta dessas intenções. Corroborando sua importância para inserção 6 Para tal cálculo considerou cada bimestre com 20 encontros semanais, que é a média anual. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 715 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino no currículo e no uso dos conhecimentos biológicos em outros setores industriais, portanto, fortemente influenciado pelos fatores socioeconômicos “relacionados à aplicação dos conhecimentos biológicos em áreas como a indústria e a agricultura [que] operaram uma mudança nesse quadro, fortalecendo o ensino dessa disciplina nas escolas” (MARANDINO et al., 2005, p. 54). Porém nem todos os alunos se identificam com a biologia, mas seu ensino compõe o rol de conhecimentos que se deve ter na educação básica. Como consequência dessa não identificação, a aprendizagem fica comprometida, pode não haver a apreensão e sim, o estudar almejando a aprovação, como identificado no discurso: “Para passar no vestibular, e para ficar apavorada com a quantidade de bactérias e germes ao nosso redor. É uma matéria legal” (P2) (grifo nosso). Seu primeiro momento é a busca pela aprovação. “Quer ser aprovado mais do que quer aprender, e para isso vai estudar o que lhe for pedido, sem levar em consideração seus próprios gostos e interesses” (POZO e CRESPO, 2009, p. 41). Embora haja, ao menos, essas duas interpretações da mesma categoria reconhece-se sua utilidade para iniciar uma carreira na área das ciências biológicas e saúde, desta forma os conhecimentos de biologia são intrínsecos aos indivíduos que frequentam o ensino médio. 2. Compreensão dos fenômenos da biologia Esta categoria contou com dez contribuições e demonstra que compreender os fenômenos próprios da biologia, tais como vírus, bactérias, ecologia, genética, evolução e biologia celular, passam pela intenção dos participantes, provavelmente iniciada como uma curiosidade, conforme o depoimento: “Porque me ensina como surgiu a vida e como ela evoluiu” (P16). Esta compreensão ultrapassa a requerida nos momentos avaliativos e sim, parte da motivação dos mesmos em apreender tais conteúdos. É a resposta às suas curiosidades, é contextual. Para isso, a mediação didática para entender tais fenômenos tornase um momento de debates e descobertas, e a educação científica na escola faz sentido. Como defendido por Sacristán, “entre o currículo estabelecido e o currículo que os alunos aprendem há um mediador decisivo, que é o professor” (2013, p. 189). Embora haja exceções, o conhecimento científico-biológico na escola necessita da mediação do docente, pois termos como organelas, bases nitrogenadas, genes alelos, biocenose, mitocôndria, evolução biológica, mutação, entre tantos outros, fazem parte do universo da biologia, portanto, e ter alguém que faça a transposição didática para se alcançar a alfabetização científica e biológica, torna-se considerável. Mas se abrir um pouco o campo de visão nesta categoria, é possível inferir que não é todo conteúdo curricular que desperta a curiosidade e nem sempre é possível despertá-la. O professor não se deve sentir escravo disto. Enquanto que para Pozo e Crespo (2009) deve-se estimular a utilidade do ensino das ciências já que motiva os discentes, como o discurso que corrobora para essa ideia “Porque nós aprendemos mais sobre o nosso corpo, e também sobre ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 716 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino as doenças” (P14). Tal utilidade é o “porquê” de ocorrer os fenômenos, sempre requerendo uma justificativa, como se o conhecimento científico estivesse pronto, terminado e com uma explicação utilitária para sua ocorrência. Na verdade a educação em biologia deve proporcionar aos discentes a permanente sapiência ao abarcar conhecimentos e contextualidade e assim, talvez as classificações e definições de células tronco façam sentido no ensino de biologia para alunos do ensino médio. Tal categoria permite reconhecer que os discentes investigados desejam compreender os fenômenos biológicos, porém partindo da vida humana ou de sua relação com outras abordagens da biologia. 3. Conhecer o corpo humano A categoria contou com nove colaborações e nesta é delimitado o território da importância da biologia para os estudantes: a anatomia do corpo humano. São amplos os conhecimentos de biologia além da anatomia e fisiologia humana, como vírus, bactérias, ecologia e meio ambiente, porém, fica bem demarcado o grau de interesse na disciplina escolar biologia. O que não surpreende uma vez que compreender como o corpo desenvolvese, se reproduz, adoece e age, parte do que é comum e desperta curiosidades entre os adolescentes. No ensino médio, além da biologia a outra disciplina que também aborda o corpo é a educação física, esta também enfrenta um enfoque utilitarista, como o combate ao sedentarismo e à obesidade. Mas a biologia tem como escopo, nos temas, fisiologia e embriologia a abordagem dos sistemas do corpo e seu desenvolvimento, a título de exemplo, tem-se o discurso “Para saber quais são as regiões do meu corpo” (P12), representa bem a função da biologia e do paradigma cartesiano, com uma visão reducionista quando se considera os variados assuntos da biologia. O corpo humano fica em partes e estas se tornam incomunicáveis, são os inúmeros sistemas, como o cardiovascular, o respiratório e nervoso, focando-se nas estruturas conceituais, mas sem haver a integração entre os diversos sistemas. Insinua que o corpo escolarizado não é o corpo dos estudantes “o ser humano cabe, no ensino, apenas aos pedaços” (MARANDINO et al., 2005, p. 122), porém é resultado da produção científica e o currículo escolar o aceita e o reproduz em suas práticas; o corpo humano estudado na escola nunca será o corpo dos estudantes. O que deixa um espaço não preenchido no ensino e aprendizagem, já que na pesquisa realizada por Malafaia, Bárbara e Rodrigues (2010), os autores averiguaram que as três áreas de maior interesse em biologia são respectivamente a saúde, a genética e a anatomia humana. Ainda assim, interesse não é sinônimo de compreensão. A transposição didática do conteúdo entendida como a “necessidade que o professor tem de aprender a adequar, de forma didática, o conhecimento de acordo com as características do aluno e do conteúdo, a fim de que ele seja transmitido de forma mais adequada” (CHEVALLARD apud SACRISTÁN, 2013, p. 200) faz toda a diferença ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 717 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino nesse contexto e na busca por uma compreensão holística do corpo humano com suas dimensões culturais, sociais e biológicas. O caráter abstrato, conteúdista, memorístico, classificatório, descritivo e reduzido ao mecânico com inúmeros nomes para serem compreendidos/decorados para a avaliação cria um abismo que poderia ser diminuído, já que os assuntos podem ser correlacionados, como no discurso “Que nós estudamos nosso corpo, as bactérias que existem em nosso corpo” (P11), tal exemplo tipifica, mesmo que superficialmente, a utilidade em apreender biologia (interação corpo e bactérias), mas torna-se um momento rico para debates. Tentativas de superar essa desarticulação e incentivar a compreensão têm iniciado, porém de formas esporádicas e em culminância de eventos na escola, como na feira de ciências. Portanto nesta categoria, assumir uma visão holística e contextualizada do ensino do corpo humano, permite superar o imbróglio do corpo aos pedaços, atemporal e não identificável entre os estudantes. As três categorias supracitadas demonstram que a importância no estudo de biologia pelos participantes permanece com uma função ainda utilitária no ensino médio, ressalta-se que apenas o participante 27 mencionou meio ambiente, enquanto que nenhum mencionou botânica, são temas de biologia com um campo ampliado da mesma. Demonstrando que o paradigma cartesiano ainda impregna e influencia atualmente o ensino de biologia e seu currículo. COMENTÁRIOS FINAIS O currículo tem sido o locus e o meio onde se confabula os interesses dos grupos dominantes, efetiva projetos do governo, confirma-se interesses sociais, instala-se disputa de poderes, mas sem haver a compreensão pela maioria dos estudantes que são guiados de forma acrítica, e em alguns momentos até pelos professorados. O ensino de biologia também contribui para essa permanência quando se apropria da linguagem científica que afasta os demais indivíduos de participarem de discussões, e tal ciência é interpretada como a única verdade, como se somente os conhecimentos científicos fossem a redenção da e para a humanidade. A didatização dos conteúdos de biologia configura-se com uma interpretação antropocêntrica e utilitária. Será um saudosismo aos anos 1960? Quando as ciências foram interpretadas como a solução para os problemas, inclusive em escala mundial? Os discursos científicos circulam e as ciências apresentam como resultado da ação humana o seu próprio vocabulário, construção de conhecimentos e consequente metodologia de ensino. A biologia no ensino médio tem como uma de suas funções permitirem novas apreensões de conhecimentos, continuidade dos estudos, extrapolarem os conhecimentos além dos muros escolares, alcançar a alfabetização biológica. Mas com uma visão ainda reducionista, tem progredido de forma tímida por meio de críticas ao seu ensino. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 718 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Em particular no caso do Rio de Janeiro que vive um período de inquietação, as críticas ficam reduzidas às salas dos professores. A meritocracia tem silenciado os docentes e muitos, mesmo que não concordam, tem cumprido o Currículo Mínimo. Os números positivos são alcançados a custo de muitas violações e violência (no caso a simbólica, de Pierre Bourdieu). É necessário refletir sobre os rumos das propostas curriculares no ensino da disciplina escolar biologia, pois ela tem ligações com sua matriz de origem (ciências biológicas) assim como tem ligações com vários aspectos sociais e sua importância deve ser além de sua ação utilitária, que tem sim sua função e justificativa em existir. Não é defendida neste trabalho a exclusão da ação utilitária, não é isso, porém deve permitir aos estudantes obterem uma visão além dessa, configurando-se em uma abordagem o mais próxima da holística, incluindo sua alfabetização científica. Talvez um dos caminhos seja a época em que se vive, - a era da informação. Rapidamente por meio da rede mundial de computadores, os temas, as descobertas, os assuntos são compartilhados em um efeito que é considerado viral (nota-se a apropriação de um termo em princípio, próprio da biologia) e todos o podem ter, mas necessitam da transposição didática. Contudo, percebe-se também outra questão, a contextualidade. Certamente as exigências e fragilidades de uma escola situada no Rio de Janeiro são diferentes de uma escola de Goiás (se bem que cada escola é única, independente de sua localização geográfica), por isso, existir um currículo nacional também não é a solução. O ideal, provavelmente é que os docentes se vejam como promotores de conhecimentos e não reprodutores dos conhecimentos efetuados por instituições superiores de educação e livros didáticos. Isso é possível por meio da frequente participação em congressos, em simpósios, em conferências; o que esbarra nas políticas educacionais, a começar por melhores salários que permitam os professores participarem de eventos ligados ao ensino e liberação para participar dos mesmos. Assim, haverá uma instrumentalização dos docentes e a contextualidade passa a enriquecer os debates formativos em sala. O professor sente-se seguro em conduzi-los. Acerca dos resultados encontrados neste estudo, tornam-se categorias do senso comum e de um universo pequeno, trinta e três participantes. Os estudantes se veem induzidos em explicar a importância no ensino de biologia e partem daquilo que é próprio deles, de sua área de conforto, além de seus próprios interesses. O fato é que vê na aprendizagem de biologia algo que pode utilizar em sua vida, portanto, a visão utilitária do ensino de biologia permanece, refletindo a atual necessidade de uma nova abordagem para este ensino. Isto reproduz a necessidade de olhar, pensar, planejar e agir no ensino médio, pensando nos atores que lá estão; que não seja uma “melhora” política que perdure por mandatos políticos, mas que profundas reformulações ocorram para que haja a compreensão do porquê de estudar, não importando a disciplina. Uma perspectiva futura para novos estudos possa ser a de averiguar se esses resultados se reproduzem em outras escolas dos estados, haja vista o reconhecimento da forte ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 719 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino influência dos livros didáticos a nível nacional, mas considerando a contextualidade de cada escola (localidade), a pergunta instigadora pode ser: quem prevalece (livro didático ou localidade)? Assim, é possível investigar o panorama do ensino de biologia e perceber se o encontrado neste estudo se reproduz em outros contextos. Em suma, o saudosismo dos anos 1960 não deve ditar as normas do currículo e ensino de biologia, muito menos a disputa no ranking estadual, porém trazer à luz essas questões permite discussões, que podem oportunizar um novo olhar e interpretação na relevância do ensino de biologia no ensino médio. É o esperado, porém não de forma passiva, mas militante. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARANHA, M.L.deA. História da educação e da pedagogia: geral e Brasil. 3ª ed. São Paulo: Moderna, 2006. BARDIN, L. Análise de conteúdo. Tradução: L. A. Reto, A. Pinheiro, 1ª ed. São Paulo: Edições 70, 2011. BOTIA, A.B.; BOLÍVAR-RUANO, M.R. El professorado de enseñanza media: formación inicial pedagógica e identidade professional. Ensino em Re-Vista. [España], v. 19, n. 1, jan-jun, p. 1933, 2012. Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/index.php/emrevista/article/view/14899/8398>. Acesso em: 14 de jul. de 2013. CASSAB, M.; SELLES, E.S.; SANTOS, M.C.F.; LIMA-TAVARES, D. Análise de compêndios didáticos: tensões entre forças de estabilidade e mudanças na história da disciplina escolar biologia (1963-1970). Revista Teias. Rio de Janeiro, v. 14, n. 28, maio/ago, p. 141-263, 2012. Disponível em: <http://www.periodicos.proped.pro.br/index.php/revistateias/article/view/1083/925>. Acesso em: 07 de jul. de 2013. 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Categorias encontradas na pergunta analisada Pergunta analisada: “Existe, ou não existe, importância no ensino de biologia para sua vida? ( )Sim ( )Não. Justifique” Nº de palavras/ Categorias Exemplos Frases 1. Continuidade É muito importante para mim, pois para ser 11 dos estudos veterinária vou precisar de toda a biologia (P09) 2. Compreensão É importante pra gente saber mais sobre o meio dos fenômenos da 10 ambiente (P27) biologia 3. Conhecer o Porque me ensina um pouco mais sobre a vida humana 09 corpo humano (P06) Totalizando 30 contribuições em três categorias O P20 alegou não ser importante, pois: Não é importante, pois onde vou entrar (área miliar) biologia não será importante (P20) Expressa ser importante pelo uso ou não, assim o P20 também tem uma visão utilitarista do ensino de biologia. 97% dos participantes consideraram o ensino de biologia importante Fonte: Elaboração própria. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 722 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O SERVIÇO DE INFORMAÇÃO PROFISSIONAL EM UMA PERSPECTIVA DE INOVAÇÃO PEDAGÓGICA NA ESCOLA ESTADUAL HÉRCULES MAYMONE, CAMPO GRANDE, MATO GROSSO DO SUL7 EDILMAR GALEANO MARQUES 8 RESUMO Este artigo estabeleceu como objetivo investigar o processo de implantação do Serviço de Informação Profissional na Escola Estadual Hércules Maymone em fase de desenvolvimento com os alunos concluintes do Ensino Médio e Educação Profissional Integrada ao Ensino Médio. Visou, ainda, analisar os resultados obtidos com a implantação do Serviço de Informação Profissional articulado à proposta pedagógica, por meio de diferentes ações com instrumentos capazes de abordar o autoconhecimento do aluno servindo de reflexão e estímulo para uma escolha adequada. As atividades são realizadas em horário contra turno, pois o objetivo central da pesquisa é somar-se às propostas específicas de ensino, oportunizando um desenvolvimento pessoal e profissional com maior capacidade de adaptação às possíveis exigências do mercado de trabalho, à qual a escola por sua vez agregará uma melhoria na qualidade de ensino ofertada, além de uma indubitável contribuição à sociedade. Os resultados parciais permitem quantificar os jovens aptos a concorrer a vagas em uma Instituição de Ensino Superior, assim como aqueles inseridos no projeto. Essas informações permitem analisar as escolhas profissionais feitas no início das atividades e as mudanças ocorridas durante a execução do processo. Nessa perspectiva, a importância do Serviço de Informação Profissional constitui-se em resultados que transformam anseios em escolhas acertadas e conscientes para a juventude, visando um desempenho satisfatório para um mercado de trabalho cada vez mais exigente. Palavras-chave: Informação Profissional. Educação Superior. Mercado de Trabalho. ABSTRACT This study established to investigate the process of deploying Information Service Vocational in State School Hércules Maymone in developing with students graduating from High School and Professional Education integrated at school. Also intends to analyze the results obtained with the implementation of the Information Service of the Professional articulated pedagogical proposal through various activities and tools to address the self knowledge of stimulating them to a suitable choice. The activities are carried out in time of the class period, since the ultimate goal of the research is to integrate the specific proposals of teaching, so that there is one personal and professional development, tailored to the possible requirements of the labor market. The school, in turn, will add an improved quality of education, besides the great contribution to society. Partial results for quantifying the young are able to apply for positions at an institution of higher education. Also make it possible to analyze the career choices made at the beginning of the activities and the changes during the process execution. The importance of the information service professionals, this perspective is on results that turn aspirations into right choices and conscious youth, seeking a satisfactory performance for a labor market increasingly demanding. Keywords: Professional Information. Higher Education. Labor Market. 7 Trabalho orientado pela professora Léia Teixeira Lacerda, do PPGEd/UEMS/Unidade de Campo Grande/MS e Paranaíba/MS. Mestrando – Programa de Pós Graduação em Educação - PPGEd/Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul - UEMS/Unidade de Campo Grande/MS. 8 ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 723 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino INTRODUÇÃO A presente análise é fruto de reflexões a respeito das experiências vivenciadas e praticadas nas escolas, em especial na Escola Estadual Hércules Maymone, com relação ao papel que essa instituição tem na preparação e orientação vocacional e profissional dos seus educandos, sendo eles alunos concluintes do Ensino Médio Regular e da Educação Profissional Integrada ao Ensino Médio, pois não raro é possível presenciar alunos que se dedicam, esforçam até atingirem o objetivo final que é graduar-se numa boa instituição ou até mesmo terem a comprovação de habilitação em educação profissional e, em seguida, perceberem que não era aquilo que pensavam ou que aquilo pelo qual lutaram não satisfaz suas aspirações profissionais. Nessa perspectiva, considerando o fato apresentado, o presente trabalho orienta-se no sentido de analisar uma possível intervenção na árdua preparação desses educandos, sem, contudo, intentar, num primeiro momento, exaurir as benesses trazidas por tal intervenção. Este artigo foi dividido em dois capítulos com o objetivo claro de analisar primeiramente a história da Escola Estadual Hércules Maymone, devido à sua importância no cenário Sul-Mato-Grossense, como destaque nos resultados Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, estando acima da média nacional, por fazer parte dos projetos de Educação Profissional do MEC, e pela diversidade de classe social e cultural; no capítulo seguinte, fazer algumas reflexões no que diz respeito à intervenção do Serviço de Informação Profissional, articulado à proposta pedagógica da escola, com a finalidade de justificar a grande evasão e migração, conforme relatório do Sistema de Gestão de Dados Escolares – SGDE. A nomenclatura Serviço de Informação Profissional foi adotada por se tratar de abordagem estatística (e não clínica) de orientação vocacional e profissional no ambiente escolar. 1 HISTÓRICO DA ESCOLA ESTADUAL HÉRCULES MAYMONE A escola foi criada no ano dia 15 de agosto de 1989, por meio do Decreto nº 5190, com a denominação de “Instituto de Educação de Campo Grande”, sendo bastante audacioso para a época, pois sua estrutura pedagógica e administrativa o diferenciava das demais instituições escolares. Em 1996, o projeto foi desativado, iniciando uma nova fase, passando a escola a chamar-se “Escola Estadual de 1º. e 2º. Graus Hércules Maymone”, em homenagem a um ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 724 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino grande incentivador da educação no Estado, sendo ele, também, um dos idealizadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Em 2000, constatou-se, por meio de atas, a redução do número de matrículas no Ensino Fundamental e a Direção Colegiada, juntamente com a Secretaria de Estado de Educação, decidiu iniciar, em 2001, o processo de desativação do Ensino Fundamental de forma gradual, priorizando o Ensino Médio conforme Lei de Diretrizes e Bases – LDB nº 9394/96. Frente aos objetivos do Ministério da Educação em assumir valor estratégico para o desenvolvimento nacional, o governo federal, em 2009, destinou maior orçamento para investir na Educação Profissional, injetando nesse setor em torno de R$ 1,1 bilhão, atendendo as necessidades do arranjo produtivo local em cada região, conforme dados do MEC. Nessa perspectiva, em 2010, a escola foi credenciada e autorizada a implantar a Educação Profissional Técnica em Nível Médio na modalidade integrado, subsequente e concomitante, mediante o programa Brasil Profissionalizado criado pelo MEC, em 2007, com a pretensão de fortalecer as redes estaduais de educação profissional e tecnológica por meio de repasses de recursos, de acordo com a Sinopse das Ações do Ministério da Educação, de novembro de 2010. Os cursos ofertados foram de Administração, devido à vitalidade no setor comercial, chegando a 22 mil estabelecimentos conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE e de Meio Ambiente, haja vista a presença de belezas naturais como o Pantanal, reconhecido como uma das mais exuberantes e diversificadas reservas naturais do Planeta, o que lhe conferiu status de patrimônio mundial pela UNESCO, em 2000, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Ademais, com o crescimento do setor imobiliário em Campo Grande, foi autorizado, em 2011, o Curso Técnico de Transações Imobiliárias, visto que esse mercado encontrava-se em franca expansão com grandes incentivos por parte do governo em suprir o déficit habitacional, como ressaltou o presidente do Secovi / MS (Sindicado da Habitação de Mato Grosso do Sul), Marcos Augusto Neto: [...] o setor vem encontrando seu ritmo de atuação. O mercado imobiliário vem se acomodando em um patamar que permite um crescimento sustentável e por um período prolongado. Não comportamos um crescimento acelerado porque falta mão-de-obra especializada, se houver ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 725 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino um ‘boom’ como ocorreu em 2010 teremos falta de material também. A expectativa é de que esse ritmo atual seja mantido ao longo dos próximos 15, 20 anos. A pesquisa, ora em andamento, mostra-se necessária devido a essa universalidade de segmentos disponíveis aos jovens estudantes, visto que a escolha profissional é um processo que exige um elo coerente entre escolhas feitas para o Ensino Médio e o curso superior. Nas palavras de Martins (1978, p. 13), hoje, [...] o universo das profissões possíveis é infinitamente mais amplo e mais complexo do que pretendem nossos empenhos de preparação de mão de obra através de cursos de segundo e terceiros graus. A mecanização, a automação e as mudanças nas condições de vida e de trabalho introduziram nas últimas décadas, alterações profundas não somente nas atividades profissionais, mas também nas concepções a respeito da orientação profissional e também nas concepções de ensino e treinamento, na estruturação de currículos e programas, na filosofia e na política educacional. Diante isso, é possível vislumbrar uma sociedade que sofre mutações constantes e, da mesma forma, as políticas educacionais não podem permanecer estagnadas, por isso, hoje, os alunos oriundos de escolas públicas podem contar com incentivos oferecidos pelo governo federal (Cotas, Prouni, Fies, dentre outros) para ingressarem no ensino superior, tanto em instituições de ensino público quanto privado, objetivando acesso mais democrático à universidade. É interessante pontuar que os adolescentes e jovens deparam-se com escolhas e decisões diante dessas possibilidades, o que, muitas vezes, acaba ocorrendo por pressão familiar. Nesse sentido, o serviço de informação profissional constitui uma necessidade cada vez mais imperativa, pois, segundo Gemelli (1963, p. 23), a orientação ocupa-se, acima de tudo, com o interesse do indivíduo, ao qual se deve aconselhar a profissão mais conveniente, tendo por base a averiguação das suas aptidões, das suas tendências, das suas aspirações, da preparação geral e especial conseguida. Sabe-se que a questão do emprego e trabalho é, atualmente, um problema sistêmico e estrutural, pois, de acordo com Levenfus, Soares & Cols (2002, p. 104), não basta mais ir à escola se ela continua oferecendo uma educação para um mundo que está acabando. Em outras palavras, uma educação baseada em um tipo de disciplina que inibe a iniciativa e a criatividade, em uma estrutura curricular de ensino de matérias que não levam em consideração a complexidade da realidade. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 726 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Outro fator agravante, segundo Silva (1992, p. 69), é que a falta de [...] orientadores na maioria das escolas estaduais de 1º e 2º graus denuncia a falta de importância atribuída pelo sistema de ensino à orientação vocacional. Esse fato entra em contradição latente com a necessidade, sentida pelo jovem, de escolher uma dada profissão, e a incerteza quanto ao conhecimento de si mesmo e das opções profissionais que lhe são cabíveis. Por todo o exposto, percebeu-se a necessidade da implantação do Serviço de Informação Profissional aos alunos concluintes do ensino médio regular e educação profissional integrado ao ensino médio, como perspectiva de inovação pedagógica. Convém destacar que isso os aproxima da realidade do mundo de trabalho, promovendo conhecimento e compreensão melhor das atividades profissionais a serem exercidas, bem como a escolha adequada no ensino superior, pois a inserção desse serviço no contexto escolar trará inúmeras vantagens para a sociedade em geral. 2 ATIVIDADES DO SERVIÇO DE INFORMAÇÃO PROFISSIONAL E A PROPOSTA PEDAGÓGICA DA ESCOLA ESTADUAL HÉRCULES MAYMONE Para evidenciar a importância do Serviço de Informação Profissional vinculado à proposta pedagógica da Escola Estadual Hércules Maymone, contando como público-alvo os alunos concluintes do Ensino Médio Regular e da Educação Profissional Integrada ao Ensino Médio, convém ter em mente a definição de orientação vocacional. Nas palavras de Bohoslavsky (1998, p. 1), trata-se de um dos campos de [...] atividades dos cientistas sociais. Como tal, compreende uma série de dimensões ou ramos, que vão desde o aconselhamento na elaboração de planos de estudos até a seleção de bolsistas, quando o critério é a vocação. Portanto, constitui uma ampla gama de tarefas, que inclui o pedagógico e o psicológico, em nível de diagnóstico, de investigação, de prevenção, e a solução da problemática vocacional. É importante esclarecer que este estudo contará com as contribuições de Bohoslavsky, sem, todavia, atuar diretamente nos conflitos psicológicos dos alunos, mas como fonte para compreensão da dimensão psicológica da opção profissional. Isso posto, acrescente-se a essa definição seu objetivo central, conforme entendimento de Silva (1992, p. 71): ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 727 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O objetivo central da orientação vocacional não se resume simplesmente em ajudar o aluno na escolha de uma dada profissão, mas em desencadear uma reflexão continua sobre a questão da escolha, sobre as razões inerentes às dúvidas encontradas e as variáveis que interferem no momento da decisão, levando em consideração seus desejos e suas aspirações de vida. Além desses elementos, devem-se considerar as implicações sociais que pesam sobre o indivíduo, para que o próprio grau de liberdade na opção profissional seja discutido, e analisar até que ponto não depende de fatores heterônomos. Diante de tais colocações, evidencia-se que esses aspectos exigem a discriminação de alguns determinantes, não somente individuais, mas também ambientais, que intervêm categoricamente na escolha vocacional, pois, diante da diversidade de cursos, o auxílio e a compreensão amenizarão as dificuldades dos jovens no momento de fazerem suas opções. Vale acrescentar, segundo Lucchiari (1993, p.11), que: O momento da escolha de uma profissão coincide com a fase do desenvolvimento na qual o jovem está se descobrindo novamente. É o nascimento existencial, segundo o existencialismo. É quando o jovem está definindo sua identidade, quem ele quer ser e quem não quer ser. É o momento em que o jovem está buscando conhecer-se melhor, seus gostos, interesses e motivações. É comum os jovens dizerem: “Eu não sei o que faço, pois não gosto de nada em especial”; ou “Eu gosto de tudo, pode?". É interessante pontuar que essas dúvidas e desafios nos conduzem á realidade brasileira atual que passa por transformações que atingem as bases da sociedade. Os reflexos dessas alterações se fazem sentir nas políticas educacionais e principalmente no que ela pode ofertar com relação à qualificação da mão de obra para o mercado cada vez mais exigente. Sendo, assim, as propostas educacionais não podem ficar alheias à nova ordem mundial, visto haver uma genuína inquietação nos meios educacionais ao buscar reformas que se moldem às novas exigências. Vale lembrar que, conforme a Lei das Diretrizes e Bases da Educação – LDB nº. 9.394/1996, artigo 21, a educação brasileira é formada por dois níveis: educação básica (formada pela educação infantil, ensino fundamental e médio), e educação superior. Por seu lado, a educação profissional é definida como uma modalidade de ensino, paralela ao ensino regular, dividido em: básico, técnico e tecnológico conforme Plano Nacional de Educação – PNE, aprovado pela Lei nº 10.172 e tem como objetivo conduzir a um permanente processo de desenvolvimento de aptidões para vida produtiva. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 728 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Acrescenta-se a essas informações que o mercado de trabalho está cada vez mais competitivo e, por isso, todo profissional precisa estar preparado para os desafios constantes nas carreiras e com respostas rápidas às necessidades das organizações em que trabalham ou que nas quais se proponham a trabalhar, relata o Instituto Euvaldo Lodi – IEL. Nesse sentido, têm sido disponibilizadas aos jovens inúmeras possibilidades de cursos, tanto no âmbito da educação profissional quanto no âmbito do ensino superior. Sobre a seleção profissional, Costa (1998, p. 36) informou que ela surgiu no Brasil em 1924, firmando-se, na década de 1930, como Orientação Vocacional. Oficialmente, porém, o termo Orientação Vocacional ficou conhecido somente em 1942, com a lei orgânica criada pelo então Ministro da Educação, Gustavo Capanema. Diferentemente dos dias atuais, o mundo do emprego era estável, constituído por profissões bem demarcadas e descritíveis. A partir da década de 1970, com a LDB nº. 5692/71, a orientação profissional se estendeu, enquanto estudo e prática, estabelecendo suas exigências, em todos os níveis de ensino, a partir da obrigatoriedade do ensino profissionalizante de 2º. grau. Martins (1978, p. 4), por sua vez, citou que a educação profissional, embora constitua parte da origem do desenvolvimento criativo do homem, assumiu aspectos distintos de várias épocas e sociedades. Entretanto, é no período da conclusão do ensino médio que, para muitos jovens vem à incerteza, ansiedade e indecisão com relação à escolha profissional, sendo, então, presumível que a época que antecede os vestibulares e o ENEM seja um momento de desafio, pois o aluno se vê, muitas vezes, na obrigação de conviver eternamente com as consequências dessa decisão. Nessa perspectiva, Silva (1992, p.1) argumentou que só a partir do [...] conhecimento de quem realmente é a pessoa, de suas inclinações básicas, de suas aptidões, de seus interesses, de suas capacidades, de seu modo de agir e de atuar junto aos demais, é possível visualizar, por meio das opções existentes e das intricadas relações do mundo do trabalho, o caminho mais condizente com seus ideais. Esse conhecimento, por sua vez, só pode surgir como resultado de uma busca e de uma luta que cada um tem que travar consigo mesmo ao longo de seu amadurecimento, sendo, portanto, conquistado. Na verdade, há uma grande preocupação sobre o aspecto cognitivo nas escolas, esquecendo-se da prática. Assim, os jovens enfrentam a ausência de um serviço eficiente de orientação vocacional nas escolas públicas, pois, muitas vezes, os programas oferecidos representam soluções de emergência, sendo insuficientes para acompanhar o aluno em sua ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 729 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino totalidade, há também que conviver com a falta de orientadores nas escolas públicas dificultando o acesso as orientações. É sabido que o desenvolvimento do aluno não se restringe apenas à atuação do orientador; depende, também, de inúmeros fatores, como, família, instituição de ensino e sociedade. Como dizia Neiva (2007, p. 71), a escolha [...] profissional é uma tarefa que o indivíduo realiza dentro da sua realidade social e que, portanto, sofre influência das instituições que a compõe: a família, o grupo de pares (amigos), a escola e, finalmente, a própria sociedade que, por sua vez, controla e influencia as relações entre as distintas instituições. Convém frisar que a escolha profissional não é um ato momentâneo, é um processo que perdura por toda a vida. Assim, envolve análise e reflexão tanto individual quanto do contexto de trabalho. Bohoslavsky (1993, p. 79) acrescentou sobre isso que: Quem escolhe não está escolhendo somente uma carreira. Está escolhendo ‘com que’ quer trabalhar, está definindo ‘para que’ fazê-lo, está pensando num sentido para a sua vida, está escolhendo um ‘como’, delimitando um ‘quando’ e ‘onde’, isto é, está escolhendo o inserir-se numa área especifica da realidade ocupacional. Por todo exposto, a intervenção da orientação vocacional é fundamental para os alunos concluintes do ensino médio regular e educação profissional integrado ao ensino médio como perspectiva de inovação pedagógica. Isso os aproxima da realidade do mundo do trabalho, promovendo um conhecimento e compreensão melhor das atividades profissionais a serem exercidas bem como a escolha adequada para o ensino superior. Convém ressaltar que, ao inserir a orientação vocacional no contexto escolar, inúmeras serão as vantagens para a sociedade em geral, visto que evitará a evasão do aluno no decorrer do curso, a convicção no caminho profissional a seguir, inserção no mercado de trabalho, dentre outros tantos benefícios. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo demonstrou que o Serviço de Informação Profissional pode ser trabalhado de várias maneiras, na instituição escolar, não somente informando aos alunos sobre as profissões, mas também trabalhando a questão do autoconhecimento servindo de reflexão, para uma escolha adequada. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 730 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Acrescenta-se, ainda, que esse tipo de intervenção pode vir a beneficiar os jovens em uma série de escolhas para o seu futuro, prevenindo conflitos e incertezas, pois quanto mais pessoas beneficiarem-se com o serviço de orientação vocacional, melhor será para o desenvolvimento pessoal, profissional e maior capacidade de adaptação às possíveis exigências do mercado de trabalho. É importante ressaltar que apesar das dificuldades encontradas na escola pública, com relação às atividades do Serviço, se houver comprometimento e envolvimento da equipe pedagógica há possibilidade da execução dessa prática no âmbito escolar, visto sabermos que essa é uma etapa significativa na vida de cada aluno ou jovem. REFERÊNCIAS LUCCHIARI, Dulce Helena Penna Soares. Pensando e vivendo a orientação profissional. São Paulo: SP. Summus, 1993. NEIVA, Kathia Maria Costa. Processos de escolha e orientação profissional. São Paulo: SP. Vetor, 2007. BOHOSLAVSKY, Rodolfo. Orientação Vocacional: A Estratégia Clínica. São Paulo: SP, Martins Fontes, 1993. BOHOSLAVSKY, Rodolfo. Orientação Vocacional: A Estratégia Clínica. São Paulo: SP, Martins Fontes, 1998. BRASIL. CNE/CEB. Parecer 16/99, da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação. Institui as Diretrizes curriculares para a Educação Profissional de Nível Técnico. Brasília: DF, 1999a. ______.Ministério da Educação. Lei 9394/96, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases Educação Nacional. Brasília, DF: Senado, 1996. COSTA, Antonio Carlos da Silva. O jovem e o futuro profissional. Recife: PE, CEPE, 1998. GEMELLI, Agostinho. Orientação Profissional, Livro Ibero americano, LTDA. Rio de Janeiro: RJ, 1963. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 731 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino LEVENFUS, Rosane Schotgues e SOARES, Dulce Helena Penna. Novos achados teóricos, técnicos e instrumentos para a clínica, a escola e a empresa. Porto Alegre: RS, Artmed, 2002. MARTINS, Carlos Roberto. Psicologia do comportamento vocacional: contribuição para o estudo da Psicologia do comportamento vocacional. São Paulo: SP, EPU, 1978. SILVA, Maria de Lourdes Ramos da. Personalidade e Escolha profissional: subsídios de Keirsey e Bates para orientação vocacional. São Paulo: SP, EPU, 1992. Ministério da Educação. Sinopse das Ações do Ministério da Educação. Disponível em: <http://gestao2010.mec.gov.br/indicadores/chart_46.php>. Acesso em 30 de set 2013. ______.Ministério da Educação. Cem novas escolas técnicas em 2009. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12179&Itemid=8 6>. Acesso em 14 de mar 2012. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estatísticas do cadastro central de empresas 2010. Disponível em: <http://cidades.ibge.gov.br/xtras/temas.php?lang=&codmun=500270&idtema=88&search=ma to-grosso-do-sul|campo-grande|estatisticas-do-cadastro-central-de-empresas-2010> . Acesso em 30 de ago 2013. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Pantanal MatoGrossense. Disponível em: <http://www.iphan.gov.br/baixaFcdAnexo.do;jsessionid=281F2847CC8592A6D476F59FB4E242 1B?id=372>. Acesso em 11 de set 2013. Instituto Euvaldo Lodi. O valor de um profissional bem qualificado. Disponível em: <http://www.iel-es.org.br/estudante/item/231-o-valor-de-um-profissional-bem-qualificado>. Acesso em 18 de abr 2012. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 732 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O PAPEL DO LIVRO DIDÁTICO NO CURRÍCULO ESCOLAR9 Jefferson Dagmar Pessoa Brandão10 RESUMO A presente pesquisa teve como objetivo analisar a abordagem feita na introdução do conceito de Função em um livro didático de matemática do primeiro ano do Ensino Médio, e verificar se esta abordagem favorece a compreensão deste conceito pelo aluno e ajuda o professor em seu planejamento didático e na gestão das aulas. A análise foi realizada observando-se, detalhadamente, a abordagem do conteúdo em jogo desenvolvida pelos autores com base nas discussões teóricas desenvolvidas por Gérard Vergnaud relativas aos Campos Conceituais, por Yves Chevallard sobre a Transposição Didática e Guy Brousseau referente às Situações Didáticas, considerando o papel e a importância do livro didático no currículo escolar. O livro didático é de grande importância no currículo escolar, ele auxilia, orienta e até mesmo direciona o processo de ensino aprendizagem. Com este estudo pudemos evidenciar que mesmo um livro didático não apresentando todas as características desejáveis pelo professor, cabe ao mesmo fazer as devidas transformações, correções e/ou complementações para que o mesmo seja usado de forma adequada e desempenhe seu papel no ensino e em especial no que diz respeito à aprendizagem do aluno, auxiliando-o no entendimento e na formação do conteúdo ou do conceito em estudo. Palavras-chave: Conceito de Função. Análise de livro didático. Currículo. Ensino Aprendizagem. ABSTRACT The current study has as objectives to analyze the approach performed when introducing the concept of Function in mathematics textbook during the first grade of high school and, verify if this approach contributes to the understanding of the concept by the student and could help the teacher in his didactic planning and the management of the classes. The analysis is carried out based on observation of the concept presented by the mathematics textbook’s authors based on the theory of Gérard Vergnaud on Visual Fields, Yves Chevallard about Didactic Transposition and Guy Brousseau on Didactic Situation, according to the role and function of textbook in school curriculum. The textbook is very important in the learning-teaching process, it helps, guides and lead to this process get through. With the study, it can be verified that a textbook that does not comply with all issues expected by the teacher, the teacher can do the transformations, corrections and/or adaptations in order to the textbook play its role in the teaching process and in special, in the learning process by the student, leading to the comprehension of the concept of function. Keywords: Concept of Function. Textbook Analysis. Curriculum. Learning-Teaching. 9 Texto extraído de: BRANDÃO, Jefferson Dagmar Pessoa. O papel do livro didático no Processo de Ensino Aprendizagem: uma introdução do conceito de Função. Monografia (Especialização em Educação Matemática). Campina Grande: UEPB, 2013. 10 Mestrando em Ensino de Ciências e Matemática – UEPB; Especialista em Educação Matemática – UEPB. Especialista em Educação Inclusiva – ISEC. Professor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Irmão Damião. [email protected] ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 733 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino CONTEXTUALIZANDO Parece ser consenso da importância do livro didático no processo de ensino e aprendizagem, pois ele auxilia, orienta e até mesmo direciona o currículo escolar e o processo de ensino aprendizagem. Sabemos que o livro didático, na maioria das vezes, é o único material utilizado pelo professor e pelos alunos. Ainda notamos, pela nossa prática, que para muitos professores ele é visto como verdadeiro e correto, o que faz com que seu uso seja feito de forma ingênua. Antes de utilizar o livro didático como um material de apoio nas aulas, o professor precisa conhecê-lo previamente – conhecer sua estrutura, sua proposta e possibilidades de trabalho com ou através dele, é necessário analisá-lo cuidadosamente. O que mais nos motivou a fazer a análise de livro didático na pesquisa foi uma experiência vivida quando lecionávamos numa escola de Ensino Fundamental – tivemos a oportunidade de participar da escolha do livro didático de Matemática que seria adotado pela escola para as turmas de alunos do Ensino Fundamenta II, ou seja, do 6º, 7º, 8º e 9º anos. Além disso, em 2011 lecionávamos em uma turma do 1º ano da modalidade EJA no turno noite na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Francisca Martiniano da Rocha, a única que oferece o Ensino Médio nas modalidades regular e EJA na cidade de Lagoa Seca (PB). A coleção de livros didáticos escolhida para a disciplina Matemática pela escola naquele ano e distribuída para os alunos em todas as turmas do Ensino Médio regular foi “Conexões com a Matemática”, elaborada coletivamente, organizada e publicada pela editora Moderna em São Paulo no ano de 2010, sob a responsabilidade da professora editora Juliana Matsubara Barroso, este foi o livro que analisamos. Essas experiências nos conduziram a analisar abordagens de conteúdos na coleção já referida. Como a análise de livro didático é uma tarefa muito difícil de ser realizada, é um trabalho lento e meticuloso e que exige muito de quem a faz porque existem muitos aspectos a serem observados, analisados e avaliados, fizemos, nesta pesquisa, uma análise apenas de como o livro didático introduz o conceito de Função para alunos do 1º ano do Ensino Médio. Essa introdução abrange os problemas que dão sentido ao conceito e as representações envolvendo tabelas, expressões algébricas e gráficos. O nosso objetivo com essa análise foi verificar se duas das funções do livro didático listadas por Gérard e Roegiers (apud BRASIL, 2012, p. 12), são possíveis de ocorrer, a saber: ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 734 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino “favorecer a aquisição de conhecimentos socialmente relevantes” em relação ao aluno e “auxiliar o professor no planejamento didático pedagógico e na gestão das aulas”. Em outras palavras, quisemos saber se a explanação desenvolvida no livro didático em questão ao introduzir o conceito de função favorece ao aluno a compreensão do que é função e auxilia o professor no planejamento didático do saber relativo ao item 1. Conceito de função11 e ao item 2. Gráfico de uma função12 da Unidade 3 e na gestão das aulas. Na verdade, verificamos se as funções do livro didático explicitadas no parágrafo anterior são possíveis de serem alcançadas pelo aluno e pelo professor, respectivamente. Por que analisar o conceito de Função? O conceito de Função é considerado como um dos mais importantes da matemática e apresenta uma grande aplicabilidade. Desta forma, a compreensão e formação do conceito de Função pelo aluno são, portanto, fundamentais. Além disso, em termos curriculares, o conteúdo Funções é pré-requisito para o estudo de vários outros conteúdos do Ensino Médio. No entanto, os alunos encontram grandes dificuldades em compreender este conceito, tudo isto nos motiva ainda mais em estudar um tema considerado tão importante. Para realizar essa análise nos apoiamos nas teorias dos Campos Conceituais de Gérard Vergnaud, das Situações Didáticas de Guy Brousseau e da Transposição Didática de Yves Chevallard, sem esquecer aspectos fundamentais da construção histórica do conceito de Função, necessários para a compreensão e formação do conceito pelo aluno, além do fato de que os mesmos parecem fornecer um caminho para a sua abordagem. Desenvolvemos esse trabalho observando, analisando e avaliando de maneira detalhada a abordagem dada pelos autores à introdução do conceito de função no Volume 1 da coleção citada segundo o referencial teórico elencado. ASPECTOS SOBRE LIVRO DIDÁTICO Nesta parte do texto trazemos algumas discussões sobre livro didático. Fazemos um breve relato histórico explicitando as diversas formas experimentadas pelos governantes para levar o livro didático a escola, desde 1929 até a criação do PNLD em 1985 e sua execução. Em 11 O item 1. Conceito de função (p. 68-75) constitui-se dos subitens 1.1 A ideia de função no cotidiano, 1.2 Função na Geometria, 1.3 A definição matemática de função, 1.4 Domínio, contradomínio e conjunto imagem de uma função, 1.4 Zero de uma função. 12 O item 2. Gráfico de uma função (p. 76-83) abrange os subitens 2.1 A representação gráfica, 2.2 O plano cartesiano, 2.3 Construção do gráfico de uma função, 2.4 Reconhecimento dos gráficos que representa uma função. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 735 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino seguida destacamos a importância e alguns dos papéis exercidos pelo livro didático no currículo escolar. UM POUCO DE SUA HISTÓRIA É importante trazer aqui um pouco da história do livro didático. Dentre as leituras feitas sobre livro didático destacamos o artigo “O livro didático ao longo do tempo: a forma do conteúdo” das autoras Freitas e Rodrigues (2007) no qual elas apresentam essa história com muita propriedade e por isso nos limitamos apenas a fazer um resumo das inúmeras formas experimentadas pelos governantes para levar o livro didático à escola, desde 1929 com a criação de um órgão específico para legislar sobre políticas do livro didático até a política de execução do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) pelo Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação (FNDE). Há muitas décadas o Ministério da Educação (MEC) vem se preocupando com a presença do livro didático na escola. Isso começou em 1929 com a criação do Instituto Nacional do Livro (INL), que contribuía para a legitimação do livro didático nacional e auxiliava no aumento de sua produção. Em 1938 foi instituída a Comissão Nacional do Livro Didático (CNLD) que tratava da produção, do controle e da circulação das obras; em 1945 o Estado consolida a legislação sobre as condições de produção, importação e utilização do livro didático, restringindo ao professor a escolha do livro a ser utilizado pelos alunos; em 1966 o MEC e a Agência NorteAmericana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) realizam um acordo que permitia a criação da Comissão do Livro Técnico e Livro Didático (COLTED) para coordenar as ações referentes à produção, edição e distribuição do livro didático, o qual terminou em 1971 e foi extinta a COLTED, ano em que o INL passou a desenvolver o Programa do Livro Didático para o Ensino Fundamental (PLIDEF), assumindo as atribuições administrativas e de gerenciamento dos recursos financeiros. Em 1976 foi extinto o INL e a Fundação Nacional do Material Escolar (FENAME) torna-se responsável pela execução do PLIDEF, ano em que o governo iniciou a compra dos livros com recursos do FNDE e com as contribuições dos estados; em 1983 foi extinta a FENAME e criada a Fundação de Assistência ao Estudante (FAE) que incorpora vários programas de assistência do governo, incluindo o PLIDEF. Já nesta época propôs-se a participação dos professores na escolha dos livros e a ampliação do programa, com a inclusão das demais séries do ensino fundamental, que antes atendia até a quarta série. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 736 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Em 1985 o PLIDEF foi extinto e, por meio do decreto 91542/85 foi criado o PNLD, que estabelece alterações significativas, especialmente nos seguintes pontos (BRASIL, 2008): Garantia do critério de escolha do livro pelos professores; Reutilização do livro por outros alunos em anos posteriores, tendo como consequência a eliminação do livro descartável; Aperfeiçoamento das especificações técnicas para sua produção, visando maior durabilidade e possibilitando a implantação de bancos de livros didáticos; Extensão da oferta aos alunos de todas as séries do ensino fundamental das escolas públicas e comunitárias; Aquisição com recursos do governo federal, com o fim da participação financeira dos estados, com distribuição gratuita às escolas públicas. Somente em 1996 os livros inscritos no PNLD passaram a ser avaliados pelo MEC; o processo de avaliação passou por vários aperfeiçoamentos até chegar ao que temos hoje. As obras passam pela avaliação de vários especialistas de Universidades brasileiras seguindo um edital criterioso. Os livros aprovados são apresentados aos diretores das escolas públicas de todo o país, os quais têm o papel de promover os debates entre os professores, no sentido de que eles possam fazer uma boa escolha. Posteriormente à escolha, as editoras ficam com a responsabilidade de enviar para cada escola os livros didáticos que serão utilizados durante três anos. Atualmente os livros didáticos chegam à escola após uma escolha feita pelos seus professores. A escolha do livro para cada disciplina é feita pelos seus professores tendo como ajuda o Guia do Livro Didático que traz uma síntese da avaliação feita pelos especialistas; os professores têm a oportunidade de escolher os livros de sua preferência para serem por eles trabalhados por um período de três anos; o livro escolhido só poderá ser substituído por outro título na próxima avaliação do livro didático pelo PNLD. Todo esse processo traz uma responsabilidade a mais para a escola e para o professor, ambos devem responder favoravelmente a esse investimento, em especial o professor; este necessita fazer com que o livro se torne um constante aliado seu e dos seus alunos. Isso parece de certa forma, ter alterado a relação do professor com o livro didático, aumentou a sua responsabilidade com a escolha do mesmo; ele necessita escolher um livro que o auxilie fortemente em seu trabalho de sala de aula e por isso deve fazer uma escolha qualificada de um livro adequado. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 737 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Além do PNLD o MEC executa outros dois programas que envolvem o livro didático: o Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM) criado em 2004 e o Programa Nacional do Livro Didático para a Alfabetização de Jovens e Adultos (PNLA) criado em 2007 que hoje é chamado de PNLD EJA. O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação é quem executa o PNLD, o PNLEM e o PNLD EJA, sendo que a maioria dos recursos destinados para estes programas provêm do Governo Federal, através da arrecadação do salário-educação13. Percebemos a grande importância que os programas voltados para materiais didáticos possuem, notamos que é constante sua consolidação e que está sempre sendo expandido. A IMPORTÂNCIA E O PAPEL DO LIVRO DIDÁTICO NO CURRÍCULO ESCOLAR O livro didático ainda ocupa um papel central no universo escolar atual, mesmo coexistindo com diversos outros materiais como quadros, mapas, enciclopédias, recursos tecnológicos, ele é um dos principais e essenciais materiais do ensino e da aprendizagem no contexto escolar. O livro didático faz parte da cultura e da memória visual de muitas gerações e pode ser definido como um produto cultural híbrido, que se encontra no “cruzamento da cultura, da pedagogia, da produção editorial e da sociedade” (STRAY, 1993, apud FREITAS E RODRIGUES, 2007, p. 2). Costa e Allevato (2010, p. 2) afirmam que como o livro didático tem a função de contribuir para o ensino aprendizagem, é considerado como sendo “um interlocutor, isto é, um componente que dialoga tanto com o professor quanto com os alunos”. Ele é, de fato, uma fonte indispensável de mediação do conhecimento. Em nossa opinião, o livro didático é um material importante do currículo escolar, influencia diretamente nos processos de ensino do professor e da aprendizagem do aluno. No ambiente escolar o livro didático é um instrumento muito útil para professores e alunos, uma vez que ele serve tanto para o professor como apoio pedagógico auxiliando sua prática, como também para o aluno na realização de atividades. Vimos que os autores que discutem sobre livro didático, cada um, a seu modo, enfatiza a importância do livro didático tanto para o professor como para o aluno. Dante (1996), por 13 O salário-educação, instituído em 1964, é uma contribuição social destinada ao financiamento de programas, projetos e ações voltados para o financiamento da educação básica pública e que também pode ser aplicada na educação especial, desde que vinculada à educação básica. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 738 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino exemplo, destaca a importância do livro didático para o professor de uma maneira detalhada. Ele comenta que: “o professor tem muitos alunos, afazeres e atividades extracurriculares que o impedem de planejar e escrever textos, problemas interessantes e questões desafiadoras, sem ajuda do livro didático” (p.63). E acrescenta: “para professores com formação insuficiente em matemática, um livro didático correto e com enfoque adequado pode ajudar a suprir essa deficiência” (p.63). Na opinião desse autor: Muitas escolas são limitadas em recursos como bibliotecas, materiais pedagógicos, equipamento de duplicação, vídeos, computadores, de modo que o livro didático constitui o básico, senão o único recurso didático do professor [...] o livro didático de matemática é tão necessário quanto um dicionário ou uma enciclopédia, pois ele contém definições, propriedades, tabelas e explicações, cujas referências são frequentemente feitas pelo professor (p. 63). O livro didático é importante para o aluno porque traz benefícios para ele. Nas palavras de Dante (1996): Em geral, só a aula do professor não consegue fornecer todos os elementos necessários para a aprendizagem do aluno, uma parte deles como problemas, atividades e exercícios pode ser coberta recorrendo-se ao livro didático (p. 63). E continua: “A aprendizagem da matemática depende do domínio de conceitos e habilidades. O aluno pode melhorar esse domínio resolvendo os problemas, executando as atividades e os exercícios sugeridos pelo livro didático” (p.63). Apesar de toda sua importância, o PNLD esclarece que os professores devem assumir um lugar de destaque: Embora o livro didático seja um recurso importante no processo de ensinoaprendizagem ele não deve ocupar papel dominante nesse processo. Assim, cabe ao professor manter-se atento para que a sua autonomia pedagógica não seja comprometida. Não é demais insistir que, apesar de toda a sua importância, o livro didático não é o único suporte do trabalho pedagógico do professor (BRASIL, 2011, p. 19). Segundo o PNLD 2012, Gérard e Roegiers em seus estudos de 1998, sob o título “Conceber e avaliar manuais escolares” listam algumas funções do livro didático que para eles são consideradas as mais importantes para alunos e professores, são elas: Com relação ao aluno: Favorecer a aquisição de conhecimentos socialmente relevantes; Propiciar o desenvolvimento de competências cognitivas, que contribuam para aumentar a autonomia; ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 739 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Consolidar, ampliar, aprofundar e integrar os conhecimentos adquiridos; Auxiliar na auto avaliação da aprendizagem; Contribuir para a formação social e cultural e desenvolver a capacidade de convivência e de exercício da cidadania. (BRASIL, 2012, p. 18-19) Com relação ao professor: Auxiliar no planejamento e na gestão das aulas, seja pela explanação de conteúdos curriculares, seja pelas atividades, exercícios e trabalhos propostos; Favorecer a aquisição dos conhecimentos, assumindo o papel de texto de referencia; Favorecer a formação didática pedagógica; Auxiliar na avaliação da aprendizagem do aluno. (BRASIL, 2012, p. 19) Acreditamos que um bom livro didático deve levar o aluno a compreender os conteúdos, investigar, refletir, concluir, generalizar e aplicar seus conhecimentos, ele pode ser um grande motivador da aprendizagem e importante suporte para eliminação de dúvidas. Um bom livro didático deve prender a atenção do aluno. Encontramos no PNLD do ano de 2010, três aspectos que são primordiais para que um livro didático de matemática possa exercer seu papel, quais sejam: a) “Um bom livro didático deve conter informações e explanações sobre o conhecimento matemático que está em nosso cotidiano – um conhecimento que interfere e sofre interferências das práticas sociais do mundo atual e do passado” (BRASIL, 2010, p.11). Isso diz respeito ao uso de situações reais do cotidiano que envolvem o conhecimento matemático. Além disso, essas situações devem ser as mais variadas possíveis, o que facilitaria a compreensão pelo aluno do conteúdo ou do conceito estudado. b) “Deve adotar uma proposta pedagógica que leve em conta o conhecimento prévio e o nível de escolaridade do aluno” (BRASIL, 2010, p.11). Em outras palavras, o livro didático deve articular os conhecimentos que o aluno traz de seu cotidiano com o conhecimento matemático a ser aprendido; isso é fundamental, uma vez que as situações propostas não são totalmente novas para ele, elas trazem em si aspectos que já lhes são familiares, ajudando-o a fazer uma ponte entre o conhecimento novo e o seu, a entender o significado do conceito estudado e seu uso e interferindo na sua construção. Tudo ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 740 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino isso está relacionado com a situação de ação da teoria das Situações Didáticas do nosso referencial teórico. c) “Deve oferecer atividades que o incentivem a participar ativamente de sua aprendizagem e a interagir com seus colegas” (BRASIL, 2010, p.12). Colocar o aluno como participante ativo de sua aprendizagem, isso nos remete à ideia de devolução de problema discutida por Brousseau, segundo a qual o professor deve fazer com que o aluno seja motivado para resolver a atividade como se o problema fosse seu. Isso aumenta a responsabilidade do professor em propor tarefas que estimule neste sentido. Sendo assim a escolha do livro didático deve ser feita de forma consciente e crítica, de forma sistematizada, sem esquecer a realidade, a cultura e os conhecimentos dos alunos que irão utilizar o livro didático. É preciso observar se o livro é compatível com o nível dos alunos e com a realidade da escola. O professor é responsável pela escolha do livro didático e precisa estar preparado para analisar aspectos do livro didático que influenciam no processo de ensino aprendizagem. É importante frisar que a escolha de um bom livro didático é feita considerando não apenas as indicações do PNLD, esta escolha dever ser feita, também, obedecendo aos critérios do professor, é ele quem conhece as necessidades dos alunos e deve usar suas experiências pedagógicas para fazer uma boa escolha, pois isso favorecerá o seu trabalho durante o processo de ensino aprendizagem. Tudo isto vem nos mostrar o quanto é importante que seja feita uma boa escolha do livro didático já que o mesmo vai apoiar o trabalho do professor por no mínimo três anos. Neste sentido, ressaltamos ser de extrema significância que as escolas promovam momentos em que os professores possam discutir as questões relativas à escolha do livro didático para que os mesmos façam uma escolha acertada. TEXTO RELATIVO À ANÁLISE REALIZADA Selecionamos a parte inicial de nossa análise, trazendo a análise das três primeiras páginas do volume 1 da coleção “Conexões com a Matemática”, elaborada coletivamente, organizada e publicada pela editora Moderna em São Paulo no ano de 2010, sob a responsabilidade da professora editora Juliana Matsubara Barroso, como uma pequena amostra de um recorte desta pesquisa que venha a ser representativo deste trabalho. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 741 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O capítulo 3, sob o título Funções, inicia a discussão sobre o objeto função com três situações (p.68-69): duas sob o título “A ideia de função no cotidiano” e uma sob o título “Função na Geometria”. As três situações não são problemas para o aluno resolver, não há nada a ser feito pelo aluno, elas já estão prontas e relatam fatos - compra de pães na padaria por uma pessoa, divulgação da previsão do tempo de um dia em uma cidade e exibição da relação da medida do lado e do perímetro de um triângulo. Percebemos que os autores começam muito cedo a usar a palavra função, nas duas primeiras situações já a encontramos. Na primeira, após uma tabela que explicita a correspondência entre a quantidade de pães comprados e o preço a ser pago, os autores escrevem: “Dizemos que o preço é função da quantidade de pães: a cada número que define a quantidade de pães corresponde um único número, o qual define o preço total” (p. 68); na segunda, depois da tabela que relaciona em um mês a temperatura média de uma cidade a cada dia, aparece: “dizemos que a temperatura média é função do dia do mês” (p. 69). Nos dois casos, podemos substituir a expressão é função pela palavra depende, no entanto, os trechos explicativos que aparecem em ambos não explicitam isso; eles trazem implicitamente a ideia de correspondência unívoca entre as quantidades associadas à palavra função. No segundo caso, os autores trazem a ideia de correspondência não unívoca quando escrevem: “com a temperatura média, não é possível ter certeza de qual é o dia do mês, já que existe mais de uma possibilidade para o dia. Dizemos, então, que o dia do mês não é função da temperatura média” (p. 69). Os dois trechos são finalizados sem nenhuma discussão sobre a variação das quantidades e a relação de dependência entre elas, há ênfase, somente, no aspecto unicidade da correspondência sem discutir também o conceito de correspondência. Além disso, nessas duas situações introdutórias, percebemos certa pressa dos autores no uso das expressões é função e não é função, sem familiarização alguma do aluno com aspectos essenciais do objeto matemático chamado função. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 742 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Figura 1: Primeira situação (p. 68) Figura 2: Segunda situação (p. 69) A próxima situação tratada pelos autores é a que aborda Função na Geometria. Os autores escrevem “Na Geometria também podemos relacionar grandezas” (p. 69), mas na verdade relacionam duas medidas (medida do lado e medida do perímetro de um triângulo) da grandeza comprimento. Nessa situação, eles introduzem o conceito de variável precocemente e sem discuti-lo matematicamente, quando usam a letra l para indicar a medida do lado e a letra p para o perímetro, ou melhor, para indicar a medida do perímetro e chamam as letras de variáveis. Além disso, fazem uma generalização da lei da correspondência quando explicitam a sentença p=3l, embora use uma fórmula da geometria métrica conhecida pelos alunos. Escrevem que “p é função de l” e já definem quando é que uma variável é função de outra. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 743 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Abordam, de novo, implicitamente a noção de correspondência unívoca quando escrevem: para cada valor escolhido para l, existe um único p correspondente. Figura 3: Terceira situação (p. 69) Após apresentar apenas três situações envolvendo a ideia de função, os autores afirmam: “Você já percebeu como a ideia de função está presente em nosso cotidiano” (p. 70). Achamos que as três situações apresentadas não são suficientes, ou melhor, não respaldam essa afirmação. Para a compreensão do que é função, o aluno precisaria trabalhar com uma grande variedade de tarefas que deem sentido ao conceito de função, como propõe Vergnaud. Além disso, o livro traz a definição de função sob o título de “A definição matemática de função” utilizando a ideia de correspondência sem nenhuma discussão sobre ela. Achamos que o livro apresenta a definição do que é função muito cedo; para Brousseau a institucionalização deve ser o último passo na sequência de atividades planejada pelo professor para a abordagem de um conceito; a institucionalização foi feita antes mesmo da proposição de situações de ação para os alunos, situações nas quais os alunos usam conhecimentos adquiridos relacionados ao objeto que está sendo estudado. Ao definir função os autores usam palavras e expressões sem discutir os seus significados matemáticos, a saber: variável dependente, variável independente, aplicação, transformação, lei matemática. Em geral, em nível de Ensino Médio, só se trabalha com ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 744 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino funções nas quais os conjuntos de partida e de chegada são numéricos, não sendo necessário o uso das denominações aplicação e transformação substituindo função. Para comentar sobre as expressões variável dependente e variável independente o livro traz: “Se y está definido em função de x, chamamos x de variável dependente e y de variável independente” (p. 70). Essa é uma explicação puramente abstrata, que não ajuda o aluno a entender claramente o que é variável, variável dependente e variável independente. Gostaríamos de saber, por exemplo, o que se passa na cabeça do aluno ao ler a afirmação: “Se y está definido em função de x [,,,]”. Achamos conveniente ter havido uma discussão mais aprofundada sobre estes termos, principalmente fazendo uso da correspondência entre dois conjuntos de números. A sua representação não pode ficar limitada a tabelas com dados específicos, trazendo a correspondência elemento a elemento e restringindo-se a um número finito dos elementos do conjunto de partida. O aluno precisa perceber que para manejar com conjuntos infinitos é necessária uma representação simbólica para seus elementos; sem isso teríamos dificuldade de explicitar a lei da correspondência – a generalização só é possível com o uso da variável em termos matemáticos, através da qual se obtém o que é denominado no livro por “lei matemática”; uma expressão usada no texto e explicada em apenas 3 linhas. Acreditamos que a forma usada pelos autores não deixa claro a matemática envolvida em cada uma das expressões referidas. Sentimos falta de situações onde poderia está sendo trabalhado com os alunos noções de generalização, isso lhes ajudaria na compreensão de como expressar uma lei matemática e para que obtê-la. A abordagem dos autores exige que o professor faça algumas transformações no texto e explique, detalhadamente, os aspectos implícitos em cada situação. Em nossa opinião, o saber disponibilizado pelo livro didático deve sofrer a interferência do professor adaptando-o para seus alunos. CONCLUSÕES A nossa pesquisa objetivou analisar a abordagem introdutória do conceito de função em um livro didático e verificar se ela favorece ao aluno a compreensão deste conceito e ao professor no planejamento didático e na gestão de suas aulas. Para tal análise, buscamos nos fundamentar em teorias da Didática Francesa – Campos Conceituais, Transposição Didática e Situações Didáticas, em aspectos relativos ao processo de ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 745 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino construção do conceito de função, ao papel e importância do livro didático e à contextualização de conteúdos matemáticos em livros didáticos. Com base na teoria dos Campos Conceituais percebemos que os autores não abordam de maneira satisfatória uma quantidade significativa e variada de situações (na forma de exemplos e exercícios) que deem sentido ao conceito de função e permitam ao aluno compreendê-lo. A resolução de situações variadas ajuda o aluno a alterar e construir novos esquemas. O livro didático precisa desafiar os estudantes, oferecendo situações que o estimulem, tornando-os hábeis e competentes na tarefa de desenvolver esquemas ao resolver os problemas e em suas interações com novas situações. Isto é fundamental para favorecer a formação do conceito. A abordagem dos autores exige que o professor faça certas transformações no texto para auxiliar mais o aluno na compreensão do conteúdo, que explique detalhadamente os aspectos implícitos em cada situação, o saber disponibilizado pelo livro didático certamente precisa da interferência do professor. No caso em que o professor tem uma grande carga de trabalho, ele pode não ter tempo para preparar o material didático necessário para suas aulas; se o livro tem muitas transformações para serem feitas pelo professor isto acabará atrapalhando o planejamento e a preparação de suas aulas e, consequentemente, a gestão das aulas. A abordagem trazida pelo livro didático analisado não estimula o aluno a uma participação ativa no seu processo de aprendizagem, o aluno é colocado como alguém que apenas recebe e assimila conhecimento. Acreditamos que o enfoque dado não favorece a aquisição do conhecimento pelo aluno. O livro didático deve abordar em seu eixo situações que façam o aluno pensar, refletir e compreender o que está sendo proposto. Parece-nos que nem sempre o livro didático de matemática garante que o aluno tenha uma aprendizagem satisfatória. Os professores podem, por alguma razão, não escolher um bom livro, mas compete aos mesmos fazerem as devidas adequações, transformações e/ou complementações para que esse material didático tão fundamental no ambiente escolar possa cumprir o seu papel. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 746 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino REFERÊNCIAS BARROSO, Juliana Matsubara (Ed.). Conexões com a matemática. 1º ed. São Paulo: Moderna, 2010. BRASIL. Guia de Livros Didáticos de 5ª a 8ª série. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2008. BRASIL. Guia de Livros Didáticos: PNLD 2010 - Matemática. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010. BRASIL. Guia de livros didáticos: PNLD 2012: Matemática/ Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2011. BRASIL. Guia de Livros Didáticos: PNLD 2011 - Matemática. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2012a. COSTA, Manoel dos S.; ALLEVATO, Norma S. G. Livro didático de Matemática: análise de professores polivalentes em relação ao ensino de Geometria. Revista Vidya, Santa Maria, v. 30, n. 2, p. 71-80, jul./dez., 2010. DANTE, Luiz Roberto. Livro Didático de Matemática: Uso ou Abuso? In: Em aberto. Brasília, v.26, n.69, p.52-58, jan/mar. 1996. FREITAS, Neli Klix; RODRIGUES, Melissa Haag. O livro didático ao longo do tempo: a forma do conteúdo. CEART-UDESC, Santa Catarina, 2007. Disponível em: http://www.ceart.udesc.br/revista_dapesquisa/volume3/numero1/plasticas/melissa-neli.pdf. Acesso 21/10/2013. PAIS, Luiz Carlos. Didática da Matemática: uma análise da influencia francesa. Belo Horizonte: Autentica, 2001. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 747 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino ENSINO MÉDIO E POLÍTICAS DE CURRÍCULO – UMA ABORDAGEM SOBRE PUBLICAÇÃO DOS PERIÓDICOS DA CAPES Márcia Betania de Oliveira14 RESUMO Neste artigo apresento dados de uma pesquisa exploratória, uma revisão de literatura sobre o Ensino Médio no Brasil, destacando algumas das produções científicas a partir do ano 2000, por meio de busca nos Periódicos da Capes, em especial quanto às políticas de currículo. Considero que, com um número considerável de produções acadêmico-científicas voltadas para uma visão estadocêntrica na produção dessas políticas, faz-se necessário e propício o desenvolvimento de pesquisas com abordagens que as levem em consideração como espaço de contestação e mudanças, potencializado por intermédio da constituição do discurso como uma estrutura descentrada. Palavras-chave: Ensino Médio. Políticas curriculares. Discurso. ABSTRACT This article presents data from an exploratory research, a literature review on the High School in Brazil, highlighting some of the scientific production starting from 2000 through search in Periodicals of Capes, especially regarding curriculum policy. I believe that, with a considerable number of academic and scientific productions geared towards a ‘state as the center’ vision in the production of these policies, it is necessary and conducive to research development approaches that take into account such as space contestation and change, enhanced through the incorporation of discourse as a decentralized structure. Keywords: High school. Curricular policies. Speech. 14 Professora Adjunta da Faculdade de Educação (FE), da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação (PROPED – 2013/2016), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sob a orientação de Alice Casimiro Lopes. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 748 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino INTRODUÇÃO Neste escopo me proponho a fazer uma revisão de literatura sobre o Ensino Médio no Brasil, na perspectiva de apresentar o que vem sendo discutido, a partir do ano 2000, sobre esse nível de ensino, em especial quanto às políticas de currículo. O interesse por esse levantamento, que ora se apresenta como um recorte de meu trabalho de doutorado, o qual discute sobre formações discursivas em políticas públicas locais para o Ensino Médio Noturno, partiu dos seguintes questionamentos: o que tem sido produzido sobre o Ensino Médio e sobre o que se discute nessas produções? Como se apresentam as políticas curriculares para essa área específica? Qual o discurso que opera nessas produções? A pesquisa se deu por meio de busca no Periódicos da Capes, nos dias 19 e 20.09.13, período em que selecionamos trinta e dois (32) trabalhos, aqui organizados por semelhanças em sua discussão. Debrucei-me, inicialmente, sobre os resumos apresentados considerando os seus títulos e palavras-chave definidas pelos referidos autores e classifiquei as seguintes temáticas, as quais englobam, cada uma, vários trabalhos publicados: reformas do Ensino Médio, Ensino Médio Integrado e alguns dos desafios desse/para esse nível de ensino. Convém destacar que faço nos três primeiros itens dessa organização uma mera descrição dos trabalhos na perspectiva de evidenciar sobre o que falam as produções, fato que me leva a não usar citações dos textos na íntegra, mas parte dos resumos articulados aos sobrenomes de seus respectivos autores. Considero que a minha escolha por esses trabalhos, e não por outros, se apresenta não como representatividade das discussões sobre a temática em pauta, mas como uma seleção que ilustra a minha compreensão sobre a mesma. Nessa perspectiva, compreendo as políticas curriculares, assim como apresentado por Lopes e Dias (2009, p.51), “como produção discursiva da significação por sujeitos e grupos sociais, nos múltiplos espaços em que participam no contexto social”, devendo ser analisadas “para além das questões que envolvem produção, seleção, distribuição e reprodução do conhecimento, mas na perspectiva que favoreçam a produção de variados discursos”. 1 Reformas e Políticas de avaliação Organizo nesse item as produções que tratam sobre as reformas do Ensino Médio no Brasil, evidenciando trabalhos que discutem sobre as Diretrizes e os Parâmetros Curriculares ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 749 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino (DCNEM; PCNEM) para esse nível de ensino. Em um segundo momento, nomeio de Políticas de Avaliação, os trabalhos que discutem sobre os sistemas de avaliação da Educação, incluindo produções específicas sobre o ENEM. 1.1 Reformas do Ensino Médio: diretrizes, parâmetros, ressignificações, contextualização e protagonismo juvenil. É possível perceber uma efervescência no ano de 2000 quanto às publicações específicas sobre a reforma do ensino médio no Brasil. Iniciamos destacando as DCNEM, as quais estão presentes nos trabalhos de Martins (2000) e de Bueno (2000). O primeiro apresenta algumas contribuições para o debate sobre as mudanças propostas pelas DCN elaboradas para essa reforma. Avalia o cenário político e econômico, como contexto gerador da última etapa de reformas no âmbito da educação, nos anos 90. Questiona a opção por um modelo de reforma de estrutura (Programa de Reforma da Educação Profissionalizante PROEP) e de currículo, cujos temas encontram justificativa no contexto econômico, social, cultural e político contemporâneo. Discute a utilização de um "modelo" que toma por base experiências desenvolvidas em outros países, e por referência teórico-metodológica as orientações internacionais de organismos multilaterais, desconsiderando as peculiaridades e injunções do sistema administrativo-político brasileiro, medida política essa que pode aumentar a tensão e a distância normalmente existentes entre programas de governo e a possibilidade de sua concretude na rede escolar. Bueno (2000), por sua vez, discute o que ele chama de vicissitudes e peculiaridades do processo de formulação das referidas diretrizes e indica aspectos polêmicos que merecem maior reflexão no aprofundamento da discussão. Analisa criticamente os fundamentos das então atuais diretrizes, dando especial enfoque à sua coerência com tendências mundiais e seus nexos com recomendações de agências internacionais para reformas educativas nos países emergentes. Ferretti (2000), por sua vez, destaca, na reforma, a educação profissional, apontando para as diferenças entre a técnica e a instrução tecnológica no âmbito do discurso oficial e da introdução prática da proposta para o ensino médio. Usando dados empíricos de escolas técnicas após tais mudanças, o texto argumenta as propriedades das práticas escolares para o ensino tecnológico, mostrando a perda da identidade desse tipo de escola, dando uma resposta ao ensino tecnológico engajado com a educação social. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 750 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Kuenzer (2000) evidencia que, contrariamente ao discurso, a nova proposta atende aos interesses dos incluídos, na perspectiva das demandas da acumulação flexível, apresentando o interesse de uma classe como interesse universal. Para fazê-lo, apresenta a nova proposta como "única", e, por ser igual para todos, democrática; afirmando que, ao contrário, ao tratar igualmente os diferentes, ela é discriminatória e excludente. Propõe-se a desvendar o caráter ideológico do discurso oficial que afirma que o novo Ensino Médio agora é para a vida, em substituição ao modelo que, ao integrar educação geral e profissional em uma mesma rede, era para o trabalho, entendido como "não vida". Também com publicação em 2000, Domingues, Toschi e Oliveira, discutem a nova formulação curricular do Ensino Médio e a realidade da escola pública com base em uma visão tripartite dessa política educacional: currículo, formação de professores e gestão. Analisam, sobretudo, o processo de diversificação e flexibilização na nova organização curricular e a formulação da estrutura curricular escolarizada, destacando os conceitos de interdisciplinaridade e de contextualização, bem como os acertos e desacertos da proposta curricular então atual. A partir de relatos apresentados por escolas públicas estaduais que participaram da primeira fase do Programa de Expansão e Melhoria do Ensino Médio da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, entre os anos 2000 e 2001, Mitrulis (2002), examina alguns ensaios de inovação que ocorreram no ensino de nível médio, naquele contexto, destacando elementos que possam contribuir para sua interpretação bem como para a formulação de políticas de apoio e de orientação às escolas. Examina a centralidade do ensino médio no conjunto das reformas educativas, o direcionamento destas reformas no contexto da mudança do papel do Estado e as questões relativas à formação geral e à formação profissional. E ainda, alguns conceitos de reforma e de inovação e à descrição e análise de relatos de experiências e ensaios de inovação realizados pelas referidas escolas. Ferretti, Zibas e Tartuce (2004) discutem sobre o protagonismo juvenil na literatura especializada e na reforma do ensino médio, recorrendo às definições de diversos autores como contraponto para a análise do protagonismo tal como proposto pelo documento oficial da reforma. Tal "protagonismo” tem tido ampla repercussão na área educacional, principalmente a partir da implementação dessa reforma, cujas diretrizes adotam esse conceito como um dos pilares das inovações sugeridas. Para a autora, o tema é sujeito a diferentes interpretações. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 751 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino No ano de 2005, registramos três publicações de Dagmar Zibas (2005a), (2005b) e (2005c) sobre a reforma do ensino médio nos anos de 1990. No primeiro, a autora descreve algumas injunções sociais, econômicas e pedagógicas que exigiram tal reforma curricular, questionando, naquele contexto, as atuais perspectivas para uma reforma que realmente favoreça o desenvolvimento integral da maioria dos alunos das escolas públicas, para esse nível de ensino. Faz um levantamento da repercussão, na academia, dos documentos do Conselho Nacional de Educação (CNE) que veicularam a reforma de 1998. Discute os dados de três pesquisas que acompanharam ou fizeram uma avaliação inicial da interação entre a reforma e as escolas, apontando indícios quanto à falta de condições mínimas necessárias para a consecução dos objetivos oficialmente propostos. Abordagem semelhante se dá no segundo trabalho dessa autora (ZIBAS, 2005b), por nós selecionado. Refundar o ensino médio? Essa é uma de suas perguntas centrais cujo texto revisita a história desse ensino e discute como foi tecida sua trajetória de avanços e recuos. Nele, focaliza as principais inovações introduzidas na atuação do Governo Lula na área, e aponta algumas das contradições do processo, inclusive aquelas que tornam mais nítida a distância entre os diferentes grupos que se opuseram às políticas do governo anterior. E, por último, Zibas (2005c) aborda sobre a reforma do ensino médio no Ceará e suas contradições, com dados de duas pesquisas por meio das quais foi possível acompanhar, por dois anos, o desenvolvimento da reforma em oito escolas estaduais de Fortaleza. Seus resultados evidenciam que as políticas dos anos 1990 trataram de introduzir no sistema cearense uma nova racionalidade, com o objetivo, entre outros, de confrontar velhas estruturas eivadas de clientelismo. Com publicações mais recentes, destacamos dois trabalhos sobre os PCNEM: o de Torres e Costa (2007) e o de Lopes (2012). Ao abordarem sobre a articulação entre esses parâmetros e a contextualização do mundo do trabalho, Torres e Costa (2007), tecem algumas considerações sobre o debate das metamorfoses no mundo do trabalho e as implicações decorrentes da contextualização como eixo de organização curricular do ensino médio brasileiro. Os autores evidenciam que o paradigma contemporâneo, de profundas transformações estruturais no modo de produção, quando a centralidade do trabalho vem sendo questionada, traz a necessidade de que sejam repensadas as bases teóricas que fundamentam a interpretação da vida social. Para eles, os PCNEM reforçam a noção de que educar é para a vida, com forte ênfase na formação para o mundo produtivo, estimulando a escola à reflexão e à discussão dos impactos dessas transformações na formação dos jovens. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 752 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Lopes (2012), numa outra perspectiva, também aborda sobre a contextualização, com base nos conceitos de recontextualização (Bernstein) e de hibridismo (Canclini), com o objetivo de demonstrar que o processo de produção de um discurso curricular híbrido nos PCNEM tem por finalidade a inserção social no mundo produtivo e que tal finalidade limita a dimensão cultural da educação. A autora defende que tais ambiguidades são uma forma de se legitimar os parâmetros junto a diferentes grupos sociais e apresenta, como exemplo da produção de discurso híbrido, as ambiguidades expressas pelo conceito de contextualização no conhecimento oficial, as quais são entendidas como ressignificando discursos curriculares acadêmicos. Por fim, também tratando de ressignificações das políticas educacionais, Santos (2011b) foca na prática docente evidenciando, por um lado, que o discurso do consenso, de clamor da sociedade pelas reformas, não encontra defesa quando partimos para dentro dos muros da escola e para dentro da sala de aula; e, por outro lado, que as reformas apresentadas vêm sem os elementos necessários para a sua implementação. O autor compreende que o professor estabelece um caminho entre a norma e a realidade, um atalho para a crítica ao discurso oficial, numa lógica de apropriação e resistência das políticas educacionais na prática. 1.2 Políticas de Avaliação: os sistemas e os exames em foco. Werle (2011) apresenta um panorama geral sobre os sistemas de avaliação da Educação Básica no Brasil, e destaca o processo de institucionalização desses sistemas de avaliação, como política consistente, cada vez mais aprimorada e de continuidade enquanto Política Pública. Examina o processo de implementação do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica - SAEB, e seus desdobramentos com a implantação da Prova Brasil e do IDEB; ressalta o papel do ENEM e aponta os desafios presentes na sua recente reformulação no âmbito do debate sobre o Ensino Médio Inovador. Por fim, descreve o processo de reorganização do Sistema Estadual de Avaliação de Rendimento da Educação de São Paulo/ SARESP e seu papel estratégico na Nova Agenda da Educação Paulista, com destaque para a criação do Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo/ IDESP e a política de bonificação por mérito como reconhecimento do trabalho das equipes das escolas. Sousa (2013), por sua vez, compreende que os delineamentos adotados por essas políticas de avaliação (em destaque o SAEB, o ENEM e o Exame Nacional de Cursos - ENC), por ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 753 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino serem mecanismos discriminatórios, tendem a provocar impactos nos currículos escolares, no sentido de sua uniformização e enrijecimento. Observando, no caso dos exames, seu potencial de condicionar os currículos e, desse modo, intensificar desigualdades escolares e sociais. Encontramos três trabalhos que discutem sobre o ENEM, sendo o de Silva (2012); Santos (2011a) e o de Lopes e López (2010). Por meio de estudo qualitativo, Silva (2012) investiga sobre as repercussões desse exame no trabalho pedagógico dos professores, com o objetivo de identificar que concepções de educação e de avaliação permeiam as práticas pedagógicas dos professores do Ensino Médio, investigar que conhecimentos os professores têm sobre o ENEM como política pública de Avaliação e analisar como eles desenvolvem seu trabalho pedagógico em consonância com a proposta do ENEM. Sua pesquisa se deu numa escola localizada a oeste do Estado do Pará, cujo resultado infere que o exame repercute diretamente no trabalho pedagógico dos professores do Ensino Médio e com isso determina modificações na sua forma de avaliar e de ensinar. Santos (2011a) aborda o ENEM como sendo um instrumento governamental para forçar um currículo de base nacional, tentando a qualidade da educação via o instrumento avaliativo sendo, assim, reguladora da qualidade. Esse autor evidencia que, apesar do exame nacional ter surgido, em primeiro plano para corrigir e orientar os currículos das escolas médias criando novas demandas de conhecimento por meio da avaliação nacional, sua função reguladora, no entanto, foi perdendo sentido na medida em que as escolas foram encontrando formas de preparar para o exame em momentos extra sala de aula. Para esse autor, o treinamento para a realização da prova tirou o caráter inicial de regular a qualidade, tirandolhe a possibilidade de ser um instrumento para as mudanças curriculares para esse nível de ensino. (Lopes e López, 2010), apresentam um trabalho que se deu por meio de investigação de documentos relativos ao ENEM, o qual identifica que o foco desse exame é a formação do indivíduo onicompetente para a eficiência social do sistema, centrado, porém, na autorregulação de suas performances. Ao compreenderem as políticas de currículo como produção de sentidos e significados para as decisões curriculares em um ciclo contínuo de produção de políticas, as autoras apresentam o ENEM como produção de uma cultura da performatividade, que dimensionam as políticas de currículo, considerando, portanto, que tal cultura influencia dimensões locais da avaliação, com diferentes extensões e modos de avaliar, não necessariamente associados às mesmas finalidades dos exames centralizados. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 754 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino 2 Ensino Médio Integrado (EMI): PROEJA, PROJOVEM, integração curricular As produções aqui apresentadas tratam da integração no ensino médio como interrelação da formação em nível médio com a formação profissional integrado, por meio de programas diversos de integração, bem como política de integração curricular. Oliveira (2000) analisa, por meio do seu texto, a então nova proposta curricular para o Ensino Médio, particularmente no que se refere à educação profissional, focalizando a diferença entre formação técnica e tecnológica, nos âmbitos do discurso oficial e da implantação da proposta. A autora aborda a questão de contradições no estudo da relação entre a proposta e as mudanças no setor produtivo, ligadas às novas exigências de formação e qualificação profissional. Com base em dados de pesquisa empírica, a partir da implantação da reforma em escolas técnicas, o texto discute propriedades da prática escolar no ensino tecnológico, sinalizando a perda de identidade dessas escolas, no contexto da reforma, no sentido de viabilizar um processo formativo de educação tecnológica comprometido com a democratização educacional. Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005) analisam as políticas de educação profissional do Governo Lula em seu percurso controvertido entre as lutas da sociedade, as propostas de governo e as ações e omissões no exercício do poder. Partindo da revogação do Decreto 2.208/97, principal regulamentação da educação profissional no governo anterior, cujo processo expressa a disputa por hegemonia nesse campo, os autores analisam a contradição da proposta de lei para a educação profissional, ao invés de retomar o debate sobre a LDB. Posteriormente, analisam os programas Escola de Fábrica, Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA) e Inclusão de Jovens (PROJOVEM). Concluem que, apesar das declarações favoráveis à integração entre formação básica e formação específica, a política de educação profissional processa-se mediante programas focais e contingentes numa travessia marcada por intensos conflitos e no terreno da contradição. Silva (2011) discute sobre a política curricular do PROEJA, em implantação no estado do Paraná. Analisa o processo de construção de propostas curriculares a partir de dois eixos investigativos: as interpretações feitas pelos sujeitos-autores das propostas acerca do currículo integrado e as interpretações desses mesmos sujeitos acerca da proposição do trabalho como princípio educativo, presentes nos documentos normativos da política mencionada. As observações e relatos de campo evidenciam, dentre outros aspectos, um conjunto de ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 755 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino limitações presentes nesse processo derivadas, em parte, de interpretações divergentes do que seja integração curricular e da multiplicidade de significados atribuídos à ideia de trabalho como princípio educativo. Araujo e Holanda (2012) abordam sobre o currículo do ensino médio integrado à formação profissional de nível técnico, ofertado pelo PROEJA do Instituto Federal do Ceará, pelo prisma da avaliação curricular na perspectiva de Joseph Lee Cronbach. Através das leituras e pesquisa empreendidas, as autoras concluem, dentre outros achados, que um programa dessa natureza, ao elaborar seus currículos, não pode descuidar‐se de realizar uma articulação entre o desenvolvimento econômico e social, buscando superar a separação entre o pensar e o fazer – reflexo da dicotomia entre formação profissional e educação básica –, uma vez que ela é historicamente e estruturalmente constituída no âmbito da luta entre as classes fundamentais do sistema em que estamos inseridos. Chades (2012), por sua vez, discute sobre a política de integração curricular no ensino médio, enquanto reflexões sobre o texto político e o contexto da prática, com vistas a compreender o processo de produção curricular, a partir dos princípios de Interdisciplinaridade, Contextualização e Competência tratados nos textos que discursam sobre tal política. As experiências observadas e as conversas com professores permitiram maior entendimento sobre os “atos do currículo” (Macedo, 2010) e suas relações com a política implementada nos últimos anos. A autora apresenta alguns elementos que explicam o macro‐contexto que envolve a produção curricular, identificando suas relações e, em seguida, considera a respeito dos princípios norteadores da política de currículo integrado. Bem como, alguns aspectos do cotidiano escolar que ajudam a pensar como os sujeitos da escola (re)significam o que lhes é colocado, constituindo‐se como autores do complexo processo de produção curricular. 3 Por fim, os desafios do/para o Ensino Médio: expansão/matrículas, equívocos, turno noturno, financiamento. Apresento aqui nove publicações que apontam para alguns dos desafios para o EM, incluindo três que tratam especificamente do financiamento para esse nível de ensino. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 756 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Gomes (2000) destaca que o rápido crescimento da matrícula do ensino médio e suscita importantes questões sobre as verdadeiras necessidades de construção escolar, bem como sobre a divisão de competências educacionais na esfera de governo e a identidade pedagógica das escolas. Considera que dados censitários revelam a necessidade de, naquele contexto, construir numerosos prédios escolares, ante o aumento da procura e aponta para o regime de colaboração intergovernamental como uma alternativa para essa questão. Gomes e Carnielli (2003) evidenciam que a expansão do ensino médio tem se realizado crescentemente, em termos relativos, pela Educação de Jovens e Adultos - EJA, fato que reacendeu temores de facilitário educacional. Os resultados indicam que os participantes consideravam estigmatizados os certificados de EJA e que preferiam alternativa mais exigente, com melhores perspectivas para o trabalho e a continuidade dos estudos. Assim, é confirmada a estratificação das oportunidades educacionais, formando um cardápio pelo qual modalidades diferentes têm custos e benefícios diversos. A dualidade dos sistemas torna a EJA, com menos recursos e prestígio, uma alternativa negligenciada de democratização. Castro (2008) define o ensino médio como um “órfão de ideias, herdeiro de equívocos”, uma vez que herda todos os problemas de qualidade do ensino fundamental e soma a eles um modelo inédito no mundo: não há caminhos alternativos nem entre escolas com perfis diferentes (modelo europeu) nem a possibilidade de trilhar trajetórias divergentes dentro da mesma escola (modelo americano). Para o autor, mais cedo ou mais tarde, será preciso ter a coragem para resolver o impasse de um sistema único que, na teoria, oferece a mesma escola para todos e, na prática, não oferece nada para ninguém, nem um ensino que preste. Ademais, ainda, discrimina os mais pobres. Sousa e Oliveira (2008) apresentam resultados de uma pesquisa nacional desenvolvida em oito estados de todas as regiões do país (MS, MG, PA, PB, RN, RS, SC e SP), acerca do ensino médio noturno. O material coletado para o estudo, por meio de aproximadamente dez mil entrevistas com professores, alunos e diretores de escolas que ofereciam ensino médio noturno, permitiu analisar ações em implementação nessas escolas, visando oferecer subsídios para a formulação e implementação de políticas educacionais para o ensino médio, contemplando especificidades desse turno de ensino. Krawczyk (2011) desenvolve, em seu trabalho, algumas ideias que possam contribuir para o debate sobre o ensino médio no Brasil, a partir das condições existentes nas instituições, das políticas educacionais em curso e dos desafios colocados pela realidade social, econômica e política. Discute a importância política, social e econômica da expansão e ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 757 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino obrigatoriedade do ensino médio, o caráter cultural da escola e sua relação com a chamada "sociedade do conhecimento", o papel do ensino médio para a juventude, as novas demandas para os docentes, dentre outros aspectos. Ferreira (2011) apresenta, enquanto desafios das políticas de garantia do direito a universalização do ensino médio no Brasil, os aspectos políticos e econômicos concernentes à sua democratização, com apresentação de dados do atendimento da escolaridade no Brasil. Debate ainda a função social do ensino médio tendo em vista as políticas educativas atualmente implantadas. 3.1 Financiamento da educação: ainda desafios... Menos verba para mais alunos? É a partir desse questionamento que Davies (2004) traça um panorama de alguns desafios estruturais e conjunturais para o financiamento da educação estatal, em particular o ensino médio, mostrando que a tendência dos governos tem sido no sentido de gastar menos por aluno, apesar dos discursos oficiais de exaltação da qualidade do ensino. Examina as perspectivas (para ele) pouco animadoras, de financiamento da educação no governo Lula: a ênfase do governo no 'ajuste fiscal', cuja conseqüência foi a diminuição, em termos reais, das verbas para a educação em 2003; e as virtudes e os limites do Fundeb (Fundo da Educação Básica). Transparência ou opacidade? Mais um questionamento quanto ao financiamento do ensino médio, dessa vez, feito por Gomes e Morgado (2007), em cujo trabalho focam a precariedade desse financiamento no sistema público, bem como a falta de transparência dos seus dados. Os resultados da pesquisa indicam a contribuição crescente do Tesouro do Distrito Federal para o ensino médio, constatando-se, em geral, grandes variações anuais de recursos e valores subestimados para esse nível de ensino. Para eles, O PROMED, com suas dificuldades burocráticas, alcançou até então modesto impacto; por isso mesmo, o FUNDEB exige estimativas claras e desagregadas das despesas e dos custos do ensino médio, de modo que o financiamento e os seus resultados possam ser conhecidos com transparência. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 758 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O desenvolvimento meandroso da educação brasileira entre o estado e o mercado é discutido por Cunha (2007), em cujo trabalho questiona a imagem da privatização da educação brasileira como um processo generalizado e contínuo. Defende que a privatização consiste num processo cheio de meandros, que não comporta resposta simples, porque as forças que a determinam ora incentivam o crescimento do setor público, ora do setor privado, ora de ambos. O autor chama a atenção para o fato de que o aumento do número de alunos do ensino médio público gera uma nova qualidade, que exige um novo currículo e conclui que o caráter meandroso dessas fronteiras expressa, de um lado, uma crise de hegemonia no que concerne à natureza do Estado republicano e, de outro, o travamento de uma qualidade de que a educação brasileira carece, qual seja, a da clareza na distinção entre o público e o privado, em sua dimensão institucional e curricular. 4 Discurso nas políticas de currículo Uma vez feita tal descrição, cabe perguntar qual o discurso opera nessas produções, e, para identificá-lo busco subsídio teórico nos estudos de Alice Casimiro e Elizabeth Macedo (Lopes e Macedo, 2011) os quais me possibilitam compreender o discurso nas/das políticas de currículo. Na perspectiva da Teoria do Discurso de Ernesto Laclau, discurso é uma “totalidade relacional de significantes que limitam a significação de determinadas práticas e, quando articulados hegemonicamente, constituem uma formação discursiva.” (p. 252), o qual define, nas políticas, “como são os termos de um debate político, quais agendas e ações priorizadas, que instituições, diretrizes, regras e normas são criadas.” Essas autoras afirmam que “no que concerne à teorização sobre política curricular, muitos estudos se cruzam com as teorias da correspondência e com as perspectivas que vinculam o currículo ao poder, à estrutura econômica, à ideologia e à hegemonia.”, sendo possível “identificar estudos sobre política que têm por base discursos curriculares e a história do pensamento curricular e que buscam constituir uma teorização específica sobre políticas de currículo.” (233), cujo enfoque específico, ainda não tem dado devido destaque às políticas curriculares. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 759 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino No caso das pesquisas sobre o ensino médio, foco deste trabalho, foi possível constatar situação semelhante, dentre as quais destacamos aquelas voltadas para o entendimento do impacto dos vários documentos curriculares produzidos em um período interpretado como o auge de reforas neoliberais, que representam um número significativo das publicações científicas na área, em especial quando tratam da publicação, implementação e adequação dos parâmetros e diretrizes curriculares nacionais do ensino médio no Brasil. Compete uma compreensão da política que valoriza sua dimensão formal: diretrizes e definições apresentadas em documentos assinados por instituições executivas e legislativas do Estado, então “analisados como parte dos efeitos dos processos de globalização econômica e cultural e de seus impactos na educação”. (234) Aqui destacamos os trabalhos de Martins (2000), Ferretti (2000), Bueno (2000), Kuenzer (2000), Domingues, Toschi e Oliveira (2000), Oliveira (2000), Mitrulis (2002), Gomes (2000), Gomes e Carnielli (2003), Davies (2004), Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005), Dagmar Zibas (2005a), (2005b) e (2005c), Gomes e Morgado (2007), Cunha (2007), Castro (2008), Sousa e Oliveira (2008), Krawczyk (2011), Werle (2011), Ferreira (2011), Araujo e Holanda (2012), Sousa (2013). Minha investigação coaduna com o trabalho de Lopes e Macedo (2011, p. 234) quando afirmam que “tanto no Brasil quanto no exterior muitas das vezes os trabalhos sobre políticas são mais voltados à crítica dos documentos e projetos em curso do que às investigações teóricas e empíricas sobre políticas de currículo propriamente ditas.” Nesse âmbito, vários trabalhos críticos ao neoliberalismo, considerado como ideologia do mundo capitalista global, contribuem para produzir um interesse de pesquisa na política curricular. Nessa lógica, muitas vezes “a política é interpretada como um guia para a prática, seja para orientar de forma técnica como a prática deve ser desenvolvida, seja para orientar de forma crítica como a prática deve ser para assumir determinadas finalidades de transformação social.” Sendo possível “identificar nesse domínio a mesma separação entre proposta e prática, currículo formal e currículo em ação, como uma das marcas do campo do currículo.” (235) Quanto às discussões sobre o ensino médio, também localizamos muitas investigações cujo foco central são as orientações apresentadas às escolas, visando ora a analisar sua pertinência para a prática, suas finalidades ou suas características, ora a destacar como a prática implementa ou não essas orientações. Numa proporção menor de publicações, aqui destacamos os trabalhos de Torres e Costa (2007), Silva (2011), Silva (2012), Chades (2012). ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 760 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Muito embora alguns dos trabalhos aqui classificados, numa ou noutra classificação, abordem para além das teorias da correspondência ou da teoria da resistência, ainda se apresentam como discussões que desconsideram os efeitos da estrutura social e da política como limitadoras das ações cotidianas dos sujeitos. Com o esforço de entender o currículo como texto político, e com a ampliação dos estudos no campo das políticas de currículo os quais, de acordo com Lopes e Macedo (2011, p. 235) “buscam superar [a] separação entre proposta e implementação, bem como entre estrutura e agência, por meio de abordagens discursivas”, estudos com bases pós-colonialistas e da teoria do discurso de Laclau e Mouffe possibilitam entender o currículo, e os estudos sobre políticas para ele voltadas, como projeto de emancipação. Sendo tal projeto ressignificado, em que “o sujeito não existe antes da ação política, mas se constitui por essa ação. [...] a emancipação e o projeto emancipatório não existem fora da ação política. São construídos na medida em que atuamos politicamente.” (Lopes e Macedo, p. 182). Destacamos aqui, nessa perspctiva, os trabalhos de Ferretti, Zibas e Tartuce (2004), Santos (2011a), Santos (2011b), (Lopes e López, 2010), Lopes (2012). Considerações finais Como recorte de um trabalho em processo inicial, esta revisão de literatura me possibilita considerar a teoria de discurso como abordagem alternativa para discussões sobre políticas curriculares para o ensino médio. Com um número considerável de produções acadêmico-científicas voltadas para uma visão estadocêntrica na produção dessas políticas, faz-se necessário e propício o desenvolvimento de pesquisas com abordagens que levem em consideração as lutas culturais e políticas, evidenciando tais políticas como espaço de contestação e mudanças, potencializado por intermédio da constituição do discurso como uma estrutura descentrada. REFERÊNCIAS ARAUJO, Ana Cláudia Uchôa; HOLANDA, Patrícia Helena Carvalho. A avaliação do currículo do Ensino Médio Integrado no PROEJA: um diálogo com Cronbach. Revista Espaço do Currículo, vol.4, 2012. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 761 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino BRANDÃO, Carlos da Fonseca. O ensino médio no contexto do Plano Nacional de Educação: o que ainda precisa ser feito. Cad. CEDES [online]. vol.3, 2011. BUENO, Maria Sylvia Simões. 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As pesquisas e os questionamentos voltados ao ensino de Sociologia têm crescido gradativamente, especialmente, após a publicação da Lei N° 11.684 que tornou a disciplina como componente obrigatório do currículo do Ensino Médio. Nosso objetivo de analisar a política de currículo de sociologia em escolas públicas no Estado de Mato Grosso a partir da pesquisa documental ensejou contribuir com as discussões estaduais e nacionais. Observamos que os movimentos e sentidos do documento, ora indicavam para o ensino cientificista e acadêmico da disciplina, ora a não defesa do ensino cientificista. Também observamos que o documento contém sugestões metodológicas e de conteúdos para os professores, com indicativos de prescrição curricular. Palavras-chave: Currículo de Sociologia; Ensino Médio; Ciclo de Políticas; Teoria do Discurso. POLICY DIRECTIONS FOR CURRICULUM IN SOCIOLOGY CURRICULUM GUIDELINES OF HUMANITIES - MT: A REINTERPRETATION FROM A STUDY DESK Abstract In this paper we articulate discussions of the Policy Cycle Approach of Ball and Bowe (1992), Discourse Theory of Laclau and Mouffe (2005 ) and documentary research in order to understand the meanings of policy sociology involved in curriculum documents "Curriculum Guidelines for Social Sciences - Sociology and Curriculum Guidelines - Conceptions of Basic Education of the State of Mato Grosso". The research and questioning aimed at teaching sociology have grown gradually, especially after the publication of the Law N. º 11.684 that made the discipline as a mandatory component of the curriculum of secondary education. We aim to analyze the policy sociology curriculum in public schools in the state of Mato Grosso from documentary research gave rise to contribute to the state and national discussions. We observed that the movements and directions of the document, now indicated for teaching scientistic and academic discipline, sometimes not defending the teaching scientistic. We also observed that the document contains content and methodological suggestions for teachers, with indicative prescribing curriculum. Keywords: Curriculum Sociology; School ; Policy Cycle Approach; Discourse Theory. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 765 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Introdução O retorno da disciplina Sociologia no currículo da educação básica está pautado por constantes discussões e lutas, a fim de garantir sua legitimidade social. No estado de Mato Grosso não tem sido diferente: constantemente nos deparamos com situações que questionam a presença da mesma no currículo e, com igual constância, os profissionais que a assumem têm que se manterem vigilantes para ter garantida sua carga horária mínima. Nessa perspectiva, compreendemos que há a necessidade de acompanhar os processos de institucionalização dessa disciplina a nível nacional e local, dando visibilidade a produção de sentidos criados a respeito dessa reintrodução no currículo. Referida necessidade impulsiona a seguinte questão: quais têm sido os argumentos que dão sustentação ao retorno da sociologia ao ensino médio? Por contingências históricas, delimita-se a problemática no estado de Mato Grosso e, por limites de tempo, a direciona para os documentos, entendidos enquanto textos que consubstanciam o ciclo de uma política de currículo. Sendo assim, voltamos a perguntar: quais argumentos se fazem presentes nos textos da política de currículo de sociologia no estado de Mato Grosso? Qual a direção e a força destes argumentos? Ao desenvolver a pesquisa orientada por tais questões, o objetivo é compreender os sentidos políticos presentes nos discursos que defendem, ou não, a Sociologia no ensino médio, presentes nas “Orientações Curriculares de Ciências Humanas e Orientações Curriculares – Concepções para a Educação Básica de Mato Grosso”, ambas publicadas no ano de 2012. Após sua efetiva institucionalização, a partir da Lei n° 11.684, há uma necessidade constatada no próprio campo do ensino de Sociologia, divulgada em eventos específicos, teses e dissertações, a respeito de se continuar o processo de fundamentação e caracterização da disciplina face às outras disciplinas do currículo escolar. Essa luta refere-se, sobretudo, a sua legitimidade e permanência no currículo. (PRADO, 2012; SILVA, 2010; SOUZA, 2008; MOTA, 2005). Os argumentos que defendem o ensino, segundo Souza (2008), oscilam entre os traços acadêmicos, uma vez que a Sociologia acadêmica já possui status e legitimidade social, e os traços utilitários, voltados para a importância da disciplina na construção da cidadania. Entretanto, os conhecimentos necessários para o exercício da cidadania e posicionamento crítico frente à realidade – como destacam a Lei Nº 9.394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), a Lei Complementar N° 49/98 (MT), os Parâmetros Curriculares ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 766 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM) de 1999, entre outros –, não são preocupações exclusivas da Sociologia no currículo escolar. Este posicionamento crítico ao currículo de Sociologia e seus objetivos para a educação básica, consta em Silva (apud PRADO, 2012, p.02): [...] conhecer o campo de luta, que é o currículo, nos ajuda a entender que toda essa expansão não significa consolidação definitiva da disciplina ou de seus conteúdos nas escolas. Lembrar como vem ocorrendo a legalização e a legitimação possibilita uma postura mais comedida diante do processo. Postura comedida no sentido de reconhecer que ainda temos que estar atentos às reformas educacionais, mudanças curriculares e alterações na conjuntura política do País e dos Estados. A justificativa para analisarmos os dois documentos, Orientações Curriculares da área de Ciências Humanas (Sociologia) e Orientações Curriculares – Concepções para a Educação Básica, produzidos a nível estadual, se dão a partir do envolvimento com o ensino de Sociologia na rede de educação pública de Cuiabá-MT. Com a formação em Ciências Sociais no ano de 2010, e após dois anos de experiência de docência no Estado, nos deparamos com a necessidade de entender mais a respeito das discussões e proposições que estão sendo feitas a respeito do ensino de Sociologia. Contribuir com os processos de formação dos alunos, além de propiciar um trabalho pedagógico agradável e prazeroso, também são objetivos que procuramos alcançar. Ademais, entender os processos de constituição da política curricular de sociologia em Mato Grosso é essencial, visto que ainda são poucas as pesquisas que tratam da temática, por isso compreendemos que esta discussão se torna importante para a atual conjuntura da Sociologia nas escolas estaduais de Mato Grosso. No Estado de Mato Grosso, a Sociologia tornou-se componente curricular obrigatório 10 anos antes de sua institucionalização a nível nacional, quando da elaboração da Lei que definia o sistema estadual de ensino – Lei Complementar N° 49/98. Silva (2007, p. 417) relata como foi o processo de inclusão da disciplina: a equipe da Secretaria de Estado de Educação (SEDUC-MT) responsável pela construção do currículo foi assessorada pela professora Acácia Kuenzer. (...) Acácia Kuenzer, que coordenou a proposta tem uma trajetória intelectual ligada ao materialismo histórico, sendo crítica do ensino médio e profissionalizante organizado separadamente. Ela defende a formação integrada, tendo o trabalho como princípio educativo em uma escola unitária, demonstrando ter uma clara influência de Gramsci (SILVA, 2007, p.417). ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 767 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino A equipe da SEDUC-MT baseou-se nas áreas de conhecimento indicadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNEM), que previam a sociologia como um conteúdo transversal a ser trabalhado por outras disciplinas já existentes no currículo escolar, no entanto, na proposta estadual a sociologia foi instituída como disciplina obrigatória. A compreensão a respeito do processo de construção da política de currículo de sociologia no Estado de Mato Grosso é possibilitada entre outros métodos, por intermédio da pesquisa documental, uma vez que se faz necessária a contextualização histórica e sociocultural quando da produção do documento. Possibilita-nos entender uma dimensão do processo de produção de sentidos e significados consubstanciados nos documentos citados anteriormente. A pesquisa documental, um dos métodos elencados para a tessitura deste trabalho, segundo Sá-Silva et al (2009), consiste em buscar informações em um documento, que ainda não receberam nenhum trato científico, além possibilitar outras formas de compreensão dos fenômenos. “(...) porque possibilita ampliar o entendimento de objetos cuja compreensão necessita de contextualização histórica e sociocultural” (SÁ-SILVA et al, 2009, p. 2). Dessa forma, o estudo aqui elencado está dividido em: discussão dos referenciais teóricos utilizados na pesquisa, a análise a partir do estudo documental e considerações finais. Currículo, Política de Currículo e Discurso: significados que dão sustentação teórica à pesquisa: Por que, como e para que uma disciplina é incluída no currículo ou não, faz parte do processo das políticas de currículo - lutas e disputas presentes nos contextos em que circulam essas políticas. Segundo T. T. Silva (1995, p.08), é interessante saber como era o currículo de dada disciplina em determinando momento histórico, mas o mais importante “é saber por que essa disciplina e não outra, uma forma de organizá-la no currículo e não outra, essa forma de ensiná-la e não outra, acabou sendo válida e legítima”. Essa análise da política curricular e do currículo considera que o processo de produção e ressignificação das políticas curriculares não são simplesmente a seleção e organização de conhecimentos escolares, mas, sobretudo, um processo social de disputas epistemológicas, conflitos simbólicos e culturais, de legitimação e controle, entre outros. O currículo é sempre resultado da seleção de um universo de conhecimentos e saberes, além de estar relacionado à subjetividade e identidade dos sujeitos envolvidos no processo, por isso, enfatiza as relações ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 768 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino históricas de como tem sido definidos os currículos escolares e a questão das relações de poder (T.T. SILVA, 2011). A política curricular, segundo Ball e Bowe (apud OLIVEIRA, 2008) consiste na produção de textos e discursos que circulam em três contextos principais (influência, produção de textos e prática) e na interação, não linear, entre eles. O contexto de influência são os espaços-tempo no qual são defendidos posicionamentos ideológicos e epistemológicos que dão sentido à produção da política. Na produção do texto, estão em disputa diferentes posicionamentos no processo da política curricular, sendo o texto escrito o acordo provisório de uma ou mais posições. O contexto da prática é a configuração das possibilidades materiais e culturais daqueles que ressignificam a política curricular em qualquer momento do ciclo político. Ademais, como referencial teórico para compreendermos o texto elaborado pela SEDUC-MT, utilizaremos em nossa análise a Teoria do Discurso de Laclau e Mouffe (2004). Este referencial teórico abarca pressupostos teórico-metodológicos para compreensão dos processos sociais e políticos, especialmente as políticas de currículo. Nessa abordagem, as relações sociais são compreendidas a partir das relações de poder e práticas discursivas. É um aporte teórico que articula várias áreas de conhecimento, como o marxismo, a filosofia de Derrida, a psicanálise de Lacan, a linguística e o pós-estruturalismo. Diante disso, para Laclau e Mouffe (apud MENDONÇA, 2009), a contingência, a provisoriedade e a indeterminação são características do discurso. Essas características são explicadas pelas múltiplas identidades constituídas a partir das relações sociais, por isso, a visão não essencialista de Laclau, nos possibilita compreender a sociedade por seu complexo de identidades e sentidos. Podemos entender por intermédio desse aporte teórico-metodológico como os sujeitos e os discursos por eles produzidos, atuam nos diferentes contextos de produção de políticas, como determinados sentidos se hegemonizam e os processos articulatórios de como se dão essas lutas de poder. (...) As políticas de currículo são políticas culturais e que, como tais, são uma política da diferença, sem significados fixos como propõem os diferentes estruturalismos, mas significados que são produtos de relações de diferenças mutáveis e modificadas no jogo referencial da linguagem. Currículo é assim, a própria luta pela significação (LOPES, 2010 apud LOPES, 2011, p. 37). O discurso, nessa perspectiva, corresponde a qualquer prática de significação, ou seja, não está limitado apenas à fala e/ou escrita: envolve também a ação e seus efeitos, pois não há ação que não esteja relacionada à significação. Discurso é prática, as palavras constituem ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 769 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino um sentido a partir de quem fala e de onde se fala. A produção de um texto curricular é dessa forma, contingencial e contextual. Os sentidos atribuídos ao texto dependem das relações históricas e práticas sociais de quem o lê. Por isso, as formas de se compreender o social, são sempre contingenciais e precárias, os significados e sentidos difundem em diversas direções. O discurso é formado a partir da aglutinação de diferentes identidades, que num momento histórico, cancelam suas diferenças, unindo palavras e ações, para produzir sentidos que vão disputar espaço no social. A hegemonia para Laclau é um discurso que provisoriamente estabeleceu a fixação de sentidos e que obteve precariamente a possibilidade de fixá-los de uma maneira mais ampla. Dessa maneira, compreendendo os limites que se apresentam a essa pesquisa, buscamos entender os sentidos da política de currículo de Sociologia existentes nos documentos da Secretaria Estadual de Educação de Mato Grosso – Orientações Curriculares das Ciências Humanas e Orientações Curriculares – Concepções para a educação básica. Sentidos a Partir do Estudo Documental: embates entre cientificismo e não-cientificismo Na análise das Orientações Curriculares, reiteramos questionamentos apresentados anteriormente: quais são os sentidos atribuídos ao ensino de Sociologia? Quais são os argumentos para defesa da Sociologia no currículo? Os argumentos presentes nos documentos oficiais guardam coerência interna enquanto política de currículo? Quais direções apontam os sentidos do documento? A elaboração dos documentos, Orientações Curriculares Estaduais, iniciou no ano de 2008 e seu processo de construção perdurou três anos. Devido ao seu escopo, densidade, metodologia de construção e trajetória, houve a contribuição de várias mãos e mentes. A construção foi coletiva, envolvendo um grande número de profissionais da educação, desde a elaboração dos primeiros escritos do texto base, das sugestões para as ideias centrais, à revisão e demais contribuições. Esteve em primeiros passos, durante 2008, sob a coordenação da Profª Emma Marta Dunck Cintra, depois pela coordenação da Profª Suely Castilho e, em 2010, a Profª Janaina Pereira Monteiro coordenou os trabalhos finais (ORIENTAÇÕES CURRICULARES MT - CONCEPÇÕES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA, 2012, p.3). As Orientações Curriculares eram uma histórica solicitação oriunda das escolas, pois os profissionais da educação estavam descontentes com os documentos produzidos a nível nacional, uma vez que a realidade e o cotidiano das escolas mato-grossenses eram diferentes das propostas contidas nesses documentos. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 770 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino As Orientações Curriculares para a Educação Básica de Mato Grosso, surgem fundamentadas na decisão política de fazer chegar ao chão da escola um texto claro e conciso que, a par dessa clareza e concisão, ofereça ao professor uma visão inequívoca do homem e da sociedade que se quer formar (ORIENTAÇÕES CURRICULARES MT - CONCEPÇÕES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA, 2012, p.7). Pela Teoria do Discurso compreendemos que “oferecer ao professor uma visão inequívoca do homem e da sociedade que se quer formar” indica um exercício de fixação de significados. Este, por sua vez, não se dá tão claramente e permanentemente, pois, a leitura que o indivíduo faz a respeito do “ser” social está calcada pela subjetividade, trajetória histórica e das práticas discursivas. Ademais, como o processo de elaboração do documento se deu através de “várias mãos e mentes” existem possibilidades de sentidos construídos e acordados no documento. A coordenação das ações referentes ao diálogo dos profissionais com o texto preliminar, mediante apresentação de sugestões, realizou-se pela Superintendência de Educação Básica, (SUEB), e pelos consultores das diversas áreas de conhecimento. A consolidação das orientações acontecerá em parceria entre a Superintendência da Educação Básica, Superintendência da Diversidade, Superintendência de Formação e de Gestão, por meio das assessorias pedagógicas, dos Centros de Formação e Atualização dos Professores (CEFAPROS-MT) e, nas escolas, através do Projeto Sala do Educador (ORIENTAÇÕES CURRICULARES MT - CONCEPÇÕES PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA, p.10). Segundo o documento, foi apresentado às escolas, em todos os 141 municípios de Mato Grosso, um texto preliminar que incorporava algumas dimensões epistemológicas e políticas, nos horários de sessões pedagógicas – a Sala do Educador – e era possibilitado aos profissionais da escola intervir com sugestões para a redação do documento. Pretendia-se que, após a publicação do documento, em 2012, as orientações fossem novamente discutidas nas escolas a fim de que as propostas fossem “incorporadas” por seus profissionais. Com o método do ciclo de políticas de Bowe e Ball (1992), também compreendemos que o processo de produção de uma política curricular não é linear, nem mesmo vertical. A política curricular passa por processos de ressignificação. As Orientações Curriculares da Área de Ciências Humanas – Sociologia, contou com a participação dos atores supracitados e dos autores: Lirian Keli dos Santos, Selton Evaristo de Almeida Chagas, Suely Castilho, Teresinha Maria da Costa, Janaina Pereira Monteiro; como ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 771 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino também os consultores convidados: Marcus Silva da Cruz, Maria Cristina Teobaldo, Onélia Carmem Rosseto e Martha Lourenço Vieira. O documento está dividido em três partes: dimensões históricas da disciplina Sociologia no Brasil e em Mato Grosso, objetivos da disciplina Sociologia no Ensino Médio e sugestões de temáticas para a disciplina (os movimentos sociais, culturais e étnicos; a sociedade capitalista: meios de produção, trabalho, cultura e classes sociais; o Estado: poder, política e ideologia; indivíduo, identidade e socialização; a produção social do conhecimento e dos fenômenos sociais; a relação sociedade/natureza: a questão ambiental e a produção industrial e agrícola no Brasil e em Mato Grosso; direitos e cidadania na sociedade brasileira; indústria cultural e cultura de massa na sociedade contemporânea). Ao analisar o documento, compreendemos que existem os seguintes sentidos: defesa cientificista da disciplina no currículo e a não defesa do cientificismo, a prescrição curricular e a não prescrição. Quando se introduz aos objetivos da disciplina no ensino médio, a proposta do documento se reporta as Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCEM, 2006) no que tange aos objetivos da disciplina naquele documento: formação ética, desenvolvimento intelectual e do pensamento crítico, mas que essas prerrogativas não são exclusivas da Sociologia. A compreensão que se tem da posição da Sociologia no currículo é que esta: (...) Visa orientar o estudante para um olhar sociológico acerca das temáticas que se colocam no contexto da comunidade escolar e da sociedade (ORIENTAÇÕES CURRICULARES - ÁREA DE CIÊNCIAS HUMANAS, 2012, p. 82). Nessa perspectiva, a compreensão que se tem da disciplina no currículo está relacionada ao perfil cientificista e acadêmico. O estudo da Sociologia propiciaria ao estudante do ensino médio um instrumental teórico para compreensão da sociedade que se vive, de maneira crítica e reflexiva. Ademais, sugere-se no documento que as questões conceituais e metodológicas das Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia, Ciência Política, Economia, Psicologia e Direito), também necessariamente constariam nas aulas de Sociologia, com o intuito de propiciar ao estudante vasto conhecimento sobre as diversas matrizes epistemológicas. Para a apreensão das complexidades de nossa sociedade, algumas correntes teóricas (positivismo, funcionalismo, marxismo, sociologia compreensiva, sociologia crítica e teorias contemporâneas, dentre outras) devem ser ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 772 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino apresentadas para auxiliar os estudantes na percepção sociológica sobre os fenômenos sociais (ORIENTAÇÕES CURRICULARES - ÁREA DE CIÊNCIAS HUMANAS, 2012, p. 85, grifos nossos). Um contraponto à defesa cientificista aparece no mesmo documento, quando afirma que: O professor de Sociologia não teria a pretensão de formar “mini- sociólogos” ou de ensinar, no Ensino Médio, complexos conceitos trabalhados em sua graduação (ORIENTAÇÕES CURRICULARES - ÁREA DE CIÊNCIAS HUMANAS, 2012, p.83). Podemos observar que o documento se movimenta em dois sentidos: a defesa dos conteúdos científicos e acadêmicos da Sociologia e a não defesa desses. Também concluímos que no documento a intenção, inicialmente, era a de propor metas, temáticas e sugestões de conteúdos para subsidiar o trabalho docente, como consta em: (...) Essas sugestões não podem ser consideradas como listas de conteúdos a serem seguidas, mas como material para problematização e reflexão do professor, que pode fazer uso dela (ou não) de acordo com as orientações teóricas e pedagógicas que permeiam sua prática docente e o Projeto Político-Pedagógico da escola (ORIENTAÇÕES CURRICULARES - ÁREA DE CIÊNCIAS HUMANAS, 2012, p.87). No entanto, ao longo do texto observamos o verbo imperativo deve, aparecendo recorrentemente, direcionando-se ao professor como ao aluno. Em princípio, o estudante, a partir de mediações do professor, deve construir um conceito de sociedade capitalista, sua organização, constituição histórica, suas formas de produção, a divisão social do trabalho, a estratificação sociocultural e a divisão em classes sociais. Tais conhecimentos podem permitir ao estudante a compreensão e a consciência de que ele, como cidadão, pode e deve assumir a responsabilidade na luta pela igualdade de participação e justiça social, política e econômica (ORIENTAÇÕES CURRICULARES - ÁREA DE CIÊNCIAS HUMANAS, 2012, p.84). Por intermédio da Teoria do Discurso de Laclau e Mouffe (2005), compreendemos que o verbo imperativo deve, compõe um peso “maior” na produção de significados no documento e principalmente no que se refere à política de currículo para a Sociologia. Os debates a respeito do currículo – qual tipo de educação, sociedade, homem que quer se formar – fazem parte das lutas e disputas por significação. Segundo Silva (2007), um dos principais embates que a disciplina precisou travar nos campos epistemológicos e sociais, foi com o modelo de currículo baseado nas competências, ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 773 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino em que a Sociologia seria trabalhada de maneira transversal. As lutas, justificativas e argumentações que se fizeram necessárias no embate nacional, defenderam a Sociologia em um modelo de currículo baseado na ciência de referência. Existem inúmeras propostas em disputa nesse momento e a inclusão da Sociologia e a efetividade de seu ensino dependerá do modelo de ensino médio, de currículo e de financiamento que serão vitoriosos no desfecho dos embates. Eu penso que a sociologia teria mais chances de consolidação como disciplina escolar em currículos científicos, para um ensino médio de formação integrada e com financiamento federal e estadual garantido. Ao contrário, a sociologia seguirá instável, entrando de diferentes formas nos currículos dos Estados ou dos municípios, em provas de alguns vestibulares, enfim, a fragmentação persistirá. (SILVA, 2007, p. 421) Após a análise dos documentos, produzidos a nível estadual, concluímos que os discursos que dão sustentação ao ensino de sociologia estão direcionados à defesa do ensino cientificista e da produção sociológica acumulada. A justificativa para sua defesa está calcada nas contribuições das teorias sociológicas para construção da reflexão e também da criticidade que esta proporcionaria aos estudantes do ensino médio. No entanto, encontramos no mesmo documento, a não defesa do ensino cientificista, como já demonstrado. Isso significa que os embates travados sobre a política de currículo continuam, conforme as contribuições do ciclo de políticas de Ball e Bowe (1992). Concluímos também que os sentidos produzidos no documento sobre a política de currículo de sociologia, se auto excluem, uma vez que na produção do discurso, os sentidos encontram-se em polos opostos. Ademais, observamos que no processo de elaboração dos documentos Orientações Curriculares Estaduais, construídos a partir da colaboração coletiva “várias mãos e mentes” e de um processo longo de 3 anos, justificaria a produção de mais de um sentido no documento. Mais atores participantes da política de currículo, mais sentidos que disputam a significação. Considerações finais A pesquisa documental possibilitou compreender o processo de elaboração dos documentos Orientações Curriculares - Área de Ciências Humanas e Orientações Curriculares – concepções da educação básica, produzidos no Estado de Mato Grosso, a partir de seu contexto histórico e social. Essa pesquisa articulada ao ciclo de políticas de Ball e Bowe (1992) nos possibilitou entender o processo de produção da política curricular de sociologia, ou seja, que não é um processo linear, nem mesmo permanente, é cíclico. A Teoria do Discurso de Laclau e Mouffe (2005) contribuiu para que pudéssemos, a partir de nossa visão, compreender ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 774 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino os sentidos e as disputas travadas pela significação e fixação de sentidos presentes nesses documentos. As lutas e disputas no processo de produção da política de currículo de sociologia no Estado de Mato Grosso continuam. Para avançarmos na compreensão dessa política, outros documentos, mas não somente, serão analisados. Os sujeitos que participam dessa política sejam, no “chão da escola” ou na Secretaria Estadual de Educação e nos outros contextos que se fazem presentes, também serão contemplados. Para uma maior compreensão a respeito da política de currículo de Sociologia, essa pesquisa prossegue no Mestrado em Educação, na Universidade Federal de Mato Grosso. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOWE, R.; BALL, S. Reforming education & changing schools – case studies in policy sociology. London, NY:Routledge, 1992. BRASIL, Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação n° 9.394/96. Brasília, DF: 1996. BRASIL, Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Brasília: INEP, 1998 LACLAU, E.; MOUFFE, C. 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Traz uma reflexão sobre os processos que transformaram o perfil teórico da Educação Física a partir das teorias criticas do currículo e dos processos de formação profissional. Analisa o imaginário da Educação Física no espaço escolar questionando os limites pedagógicos no desenvolvimento dos conhecimentos da cultura de movimento. Aponta caminhos e perspectivas para a Educação Física escolar no sentido de superar os paradoxos entre a perspectiva teórica e a dimensão pedagógica no âmbito escolar. Nesse sentido, essa experiência pedagógica no contexto do ensino médio integrado do IFRN poderá subsidiar uma discussão válida a partir do currículo pós-critico pela ação pedagógica fundamentada na experiência dos sujeitos da educação. Desse modo, a cultura de movimento poderá ser dimensionada pela ação dos sujeitos da educação como produtores de conhecimento de modo que poderão sempre ser reelaborados, revisitados, transformados e vivenciados de acordo com as necessidades coletivas da produção de conhecimento. Palavras chave: Currículo; Identidade Pedagógica; Ensino Médio; teoria pós-critica. 1. CONSIDERAÇÕES SOBRE A IDENTIDADE DA EDUCAÇÃO FISICA ESCOLAR A ideia de nos propomos a desenvolver um estudo sobre o currículo e a identidade da Educação Física no plano educacional do ensino médio integrado profissionalizante, nos faz pensar sobre as concepções teóricas e ideológicas do currículo além dos seus determinantes políticos e epistemológicos que delimitam as questões do saber e de poder implícitos nessas duas categorias do currículo. 15 16 Moysés de Souza Filho é Professor Ms. do IFRN e Doutorando em Educação pela UFRN. José Pereira de Melo é Professor Doutor da UFRN. Coordenador do GEPEC. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 777 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Numa outra perspectiva, ao considerarmos que o currículo, por ser o corpus de conhecimentos escolares que se contextualizam com os aspectos históricos, políticos, sócios econômicos e culturais na elaboração dos conhecimentos que compõem as experiências dos sujeitos na educação, vislumbraremos outra possibilidade conceitual que vai além dos determinantes tradicionais da identidade do currículo no plano educacional. As teorias críticas do currículo, por exemplo, nos fizeram compreender o movimento de configuração politico ideológica do currículo escolar assim como as suas implicações no modelo de conhecimento que permitia a perpetuação das desigualdades sociais. Apesar dessa denuncia, boa parte da teorização critica do currículo ainda permanece presa a certas concepções seja do saber, seja do poder (SILVA, 2009). Essa condição tem sido questionada pela concepção pós-estruturalista do currículo que compreende a realidade como uma construção social e subjetiva tornando a perspectiva de abordagem do conhecimento mais aberta no que diz respeito à diversidade dos métodos de estudo e pesquisa sobre a relação entre o currículo e a sua diversidade política, social e cultural. Os estudos culturais, por exemplo, questionam o movimento entre currículo, conhecimento e poder atrelado às estâncias desse último e defendem a elaboração do conhecimento pela experiência singular dos sujeitos envolvidos na ação educacional com base na realidade sócio cultural. Nessa linha de pensamento, a discussão da identidade curricular da Educação Física ao longo da sua história tem sido motivo de confrontos teóricos e ideológicos nos de pesquisa da área de conhecimento com implicações na política educacional da Educação Física escolar em todos os níveis de ensino. Para Caparroz (2007, p. 9) “os anos de 1980 aparecem como o nascimento de concepções e práticas libertadoras, transformadoras na perspectiva de desenvolver uma Educação Física voltada para o humano e não mais para as necessidades do capital”. Apesar da mudança do paradigma teórico da área de conhecimento a partir dos anos de 1980 ainda nos ressentimos no âmbito escolar, de uma consistência didática e de experiências na prática pedagógica que representem o pensamento teórico produzido ao longo dos últimos anos. Todo o movimento construído ao longo desse tempo pressupõe uma transformação na perspectiva do processo de formação profissional e no ensino e aprendizagem da Educação Física na escola básica. Entretanto, o que podemos constatar é que apesar de todo um quadro teórico favorável para uma mudança paradigmática quer na formação profissional, quer na ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 778 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino pratica pedagógica ainda continuamos convivendo com um paradoxo cultural na Educação Física. O paradoxo a que nos referimos revela a realidade da Educação Física enquanto área de conhecimento em evolução no plano teórico e a lacuna ainda existente na prática pedagógica da Educação Física escolar como componente curricular que trata da cultura corporal de movimento. Uma crítica estabelecida por González e Fenterseifer (2009)17 aponta para a constatação de que Educação Física alcança patamares de transformação sem precedentes em sua história nos quais, a superação dos limites da concepção do corpo/movimento/educação antes centrada no paradigma médico/biológico/desportivo se faz presente no campo das discussões e produções teóricas com incursões nas mais diversas matrizes teóricas estabelecidas nas áreas da filosofia, da sociologia e da politica educacional, mas que no plano pedagógico na escola ainda não vivenciamos uma mudança real da dimensão cultural da Educação Física. Recorrendo ainda a Caparroz (2007, p. 15), o mesmo afirma que “tem-se a impressão de que a Educação Física não consegue olhar para o seu interior e visualizar as questões da prática pedagógica, do componente curricular, da didática”. Ou seja, a problemática da falta de identidade pedagógica parece perseguir a Educação Física independente da sua condição institucional. Se antes da revolução teórica não tínhamos perspectivas de transformação, ainda não alcançamos um estado de consolidação pedagógica que possa ser uma referencia teórica para estudos e pesquisas aplicadas no âmbito sócio educacional. Nessa trajetória de duvidas e incertezas a Educação Física busca a sua legitimação como componente curricular a partir das perspectivas pedagógicas que podem transformar a sua função sócio cultural no âmbito escolar. Assim, de uma atividade extracurricular centrada nos exercícios físicos e na prática esportiva como identificação no plano sócio educacional, a Educação Física conquistou o status de um componente curricular nos diversos níveis de ensino por força de lei. Entretanto, algumas questões curriculares e pedagógicas precisam ser consolidadas não só pela Educação Física enquanto área de conhecimento, mas principalmente pela instituição escolar. 17 O termo “entre o não mais e o ainda não” revela o paradoxo da Educação Física que deixou de ser uma mera atividade extra curricular para ser um componente curricular, mas que, no entanto ainda não superou o conflito da passagem da modernidade para a pós modernidade. González, Jaime Fernando e Fensterseifer, Paulo Evaldo. Entre o “não mais” e o “ainda não”: pensando saídas do não lugar da Educação Física I. Cadernos de Formação RBCE, p. 9-24, set. 2009. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 779 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Para González e Fensterseifer (2009, p. 11) os questionamentos citados abaixo, são alguns dos temas que devem ser debatidos, esclarecidos e desenvolvidos no contexto escolar: Por que esta disciplina deve compor o currículo da escola? Quais são seus objetivos? Quais são seus conteúdos? Como são sistematizados os conteúdos ao longo dos diferentes níveis de ensino? Como esses conteúdos devem ser ensinados? Como avaliar seu ensino? Todas essas reflexões instigam o movimento interno da Educação Física para que se amplie a sua condição de componente curricular a partir de uma concepção curricular póscrítica ao discutir novas possibilidades nos fundamentos para as praticas pedagógicas focadas na diversidade da cultura corporal de movimento. Nesse sentido, o protagonismo docente torna-se fator preponderante para a superação do paradoxo existente. Corroboramos com o que afirmam os autores citados, quando “entendemos que a ausência de projetos curriculares de Educação Física na maioria das escolas e, particularmente, a falta que sente deles uma porção importante dos professores é um claro sinal dessa transição” (González e Fenterseifer, 2009 p. 12) acreditamos que a travessia ainda não está concluída e que temos muito caminho pela frente para trilhar. Caminho que teve legitimação com a inclusão da Educação Física no rol dos componentes curriculares da escola através da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – 9394/96), que trouxe em seu texto, no artigo 26, parágrafo 3º, a seguinte afirmação: “a educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da Educação Básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos” (BRASIL, 1996). No entanto essa condição legal não tem sido suficiente para a sua consolidação pedagógica no contexto escolar. Como um componente curricular a Educação Física poderá tornar-se, como afirma Souza Junior (2001, p. 83), [...] não apenas um constituinte do rol de disciplinas escolares, mas um elemento da organização curricular da escola que, em sua especificidade de conteúdos, traz uma seleção de conhecimentos que, organizados e sistematizados, devem proporcionar ao aluno uma reflexão acerca de uma dimensão da cultura e que, aliado a outros elementos dessa organização curricular, visa a contribuir com a formação cultural do aluno. Nessa discussão, não podemos prescindir da responsabilidade social da escola enquanto lugar de afirmação e de desenvolvimento dos pressupostos teóricos e metodológicos da Educação Física como um componente curricular. Entendemos que cabe à ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 780 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino escola uma parcela de responsabilidade nessa transição, haja vista que todos os componentes curriculares possuem um contexto sócio educativo que se desenvolve no seu interior, mas que também ultrapassa os seus muros. O desafio que se apresenta para a escola nesses tempos de incertezas, de violências e de transformações sociais, econômicas e politicas na sociedade pós-moderna é o de aproximar as ações pedagógicas das necessidades reais dos sujeitos da escola e da comunidade como um processo de superação dos limites da mera transmissão dos conteúdos no intuito de produzir o conhecimento que seja integrado à vida cultural das pessoas. Para González e Fensterseifer (2009, p. 20): A escola, para além de socializar – suscitando o princípio de realidade, condição para a disciplina, pré-requisito para o esforço do aprendizado crítico e intelectual, diferente da socialização hipnótica e acrítica, por exemplo, da televisão, na qual as emoções se sobrepõem à razão –, deverá ainda, e isso quem sabe é hoje sua razão de ser, organizar criticamente a informação recebida e oferecer aos alunos ferramentas cognitivas para torná-la proveitosa ou, pelo menos, não nociva. A Educação Física ao contextualizar suas ações pedagógicas com os princípios do projeto politico pedagógico escolar poderá transformar a sua histórica limitação pedagógica focada na execução de exercícios e na esportivização como identificação sócio cultural e passar a ter um identidade que venha a se tornar significante para os sujeitos da educação. Desse modo, para González e Fensterseifer (2010, p.12) a configuração do componente curricular “tem como finalidade formar indivíduos dotados de capacidade crítica em condições de agir autonomamente na esfera da cultura corporal de movimento [...]”. A escola é o espaço para que as experiências, para as novas formas de linguagens e as novas identidades possam descentralizar o sujeito da sua comodidade espacial e temporal e devolvê-lo ao mundo das categorias e da diversidade cultural. Silva (1994) no ensaio o adeus às metanarrativas educacionais considera o campo educacional como o espaço privilegiado de confrontação para o pensamento pós-moderno e pós-estruturalista. De acordo com o autor, no espaço educacional podemos ter uma variedade de discursos, praticas e linguagens que podem superar a todos os processos pedagógicos conservadores e repressores. Para González e Fensterseifer (2009, p. 21) “Além disso, a escola tem entre suas funções a de introduzir os alunos no mundo sociocultural que a humanidade ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 781 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino tem construído, com o objetivo de que eles possam incluir-se no projeto, sempre renovado, da reconstrução desse mundo”. No caso da Educação Física, podemos questionar as suas praticas e as suas linguagens, por exemplo, procurando debater sobre os seus princípios mais comuns: Exercitar-se por quê? Para que? Como exercitar-se? Quando? Onde? Sozinho ou acompanhado? Por quê jogar? Qual o sentido do lazer? O que é cultura esportiva? Novas linguagens que descentralizam o sujeito, mas que ao mesmo tempo devolvem a ele o sentido do fazer, a noção e o sentido do prazer, a dimensão do conhecer sem a perspectiva da instrumentalização dos gestos, sem a automatização dos movimentos. Desse modo, as ações pedagógicas da Educação Física que tenham como foco a premissa citada, poderá alcançar um patamar de relevância no contexto sócio cultural da comunidade escolar consolidando a cultura corporal de movimento a partir da ação curricular como elementos indissociáveis na perspectiva de “pensá-la dentro de um projeto escolar, não cabendo heroísmos pessoais nem disciplinares para salvar a educação ou a sociedade” (GONZÁLEZ E FENSTERSEIFER, 2009, p. 19). 2. ANALISANDO O IMAGINARIO DA EDUCAÇÃO FISICA ESCOLAR Geralmente, quando se fala em Educação Física na escola associa-se o esporte como ponto de identificação da disciplina, seja no imaginário dos alunos ou da comunidade escolar em geral. O docente, por consequência, é identificado como professor de determinada modalidade esportiva. Mas será que toda experiência com a Educação Física escolar está ligada ao esporte? Não existem outras possibilidades de experiência com o movimento? O que leva as pessoas a pensarem que a Educação Física se confunde com o esporte? O que fazer com o conjunto de conteúdos da cultura de movimento na escola? Como a experiência docente pode promover a sistematização desses conteúdos no contexto escolar? Essas e outras possíveis indagações estão sendo pontos de analise e de perspectiva na atual fase da Educação Física escolar. Como afirmam Almeida e Fensterseifer (2011, p. 247) deve se considerar que: A Educação Física, durante sua constituição enquanto área do conhecimento, privilegiou a vivência de movimentos ou práticas corporais no plano de atividades. A crítica a essa tradição, porém, enfatizou a necessidade de uma elaboração conceitual acerca das vivências de movimento, o que nos coloca em risco de promovermos uma inversão, ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 782 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino valorando o lado conceitual em detrimento das vivências. Mas, feito esse movimento, resta-nos perguntar: qual o lugar da experiência e do saber da experiência como possibilidade de conhecer no âmbito das práticas corporais, neste novo estágio da área? A questão do conhecer ainda está por ser descoberta como ponto de relação entre a cultura de movimento representada na relação de conteúdos curriculares da Educação Física escolar e a prática pedagógica representada nas ações docentes. Essa relação é um modo de proceder a uma leitura do mundo pela Educação Física e da sua função sócio cultural no contexto escolar. Conhecer vivenciando o movimento, sentindo o fazer e percebendo as mudanças de percepção pelo movimento corporal, conduz o sujeito a novas e constantes possibilidades de aprendizagem. Nesse sentido, o repensar e o projetar de novas ações pedagógicas para a Educação Física, quer dizer que devemos considerar o que tem sido produzido ao longo da ultimas décadas e, nesse caso, todas as condições objetivas que foram criadas para a área de conhecimento se desenvolver. De acordo com Almeida e Fensterseifer (2011, p. 250): Nos últimos anos fomos convocados a repensá-la para além de uma atividade, de um "fazer pelo fazer", em especial, após o movimento renovador da Educação Física, que buscou contribuir para a legitimação desta "disciplina", pensando no "objeto" e na definição da especificidade desta área do conhecimento e de um "saber" específico de que trata essa prática pedagógica. Pensar, fazer, produzir saber e conhecimento. Desafios que a Educação Física deve se propor pela organização, sistematização, e constatação da importância da experiência dos sujeitos da educação no contexto escolar com a cultura de movimento. Embora a experiência tenha um caráter singular ela pode servir de base de discussão e de ampliação temática para uma área do conhecimento. Alertamos para que o termo experiência não seja compreendido como uma instância pessoal, técnica e fechada na sua racionalidade objetiva e positivista. Entendemos a experiência como uma compreensão da realidade que precisa ser constantemente pensada, vivida e, de acordo com as possibilidades, transformada subjetivamente em sua historicidade e perspectivas futuras. Alguns aspectos fundamentais de análise se integram a essa discussão como o protagonismo docente e a concepção do currículo da Educação Física escolar com base nos conteúdos temáticos a serem desenvolvidos aliados à experiência docente, a participação dos ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 783 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino educandos e educandas na perspectiva de configurar uma ação pedagógica que possa desenvolver todas as vivencias e as aprendizagens. Nessa perspectiva, recorremos a Palmer citado por Almeida e Fensterseifer (2011, p. 251/252) ao afirmar que: Compreender o saber da experiência pode nos possibilitar as chaves para a compreensão do fenômeno complexo da experiência do movimento humano na Educação Física, já que esta não pode ser entendida como "lócus" de manipulação e controle, mas como espaço de participação e abertura: "não é o conhecimento, mas sim a experiência, não é a metodologia, mas sim a dialéctica". Assim, a relação entre as dimensões conceituais, procedimentais e atitudinais18 dos conteúdos na Educação Física precisam ser contextualizadas de forma simbiótica e não de forma fragmentada pela abordagem de conhecimentos ao desenvolvermos os conteúdos da cultura corporal de movimento. Desse modo, a interação entre as experiências docentes e discentes nas aulas de Educação Física poderá conduzir o componente curricular a um patamar de valoração no âmbito da comunidade escolar dependendo, para essa condição, do protagonismo docente motivando a participação sistemática dos educandos nas vivencias com os conteúdos de acordo com a natureza dos mesmos [...] englobando conceitos, ideias, fatos, processos, princípios, leis cientificas, regras, habilidades cognoscitivas, modos de atividade, métodos de compreensão e aplicação, hábitos de estudo, de trabalho, de lazer e de convivência social, valores, convicções e atitudes (DARIDO, 2008 p.65). Muitas dessas dimensões são assimiladas pelo que se convencionou intitular de currículo oculto que é vivenciado na escola, mas que não está definido como base estrutural e formal do conhecimento e da aprendizagem escolar. Zabala, citado por Darido (2008), entende que é possível ampliar o conceito de conteúdo no plano da aprendizagem escolar além do que está disposto pela forma curricular tradicional. As praticas corporais como a ginástica e o esporte fixaram no imaginário social o que a Educação Física teria como referenciais de conhecimento no plano sócio cultural. No entanto, as atividades desenvolvidas nesses conteúdos não se contextualizavam aos demais processos 18 Na história da Educação Física escolar a ênfase maior tem sido aos conteúdos ligados à prática, à realização dos movimentos, ao "saber fazer" (procedimental). Já o "porque fazer" (conceitual) e "como se relacionar dentro desse fazer" (atitudinal), ficaram em segundo plano ou não eram desenvolvidos intencionalmente nas aulas. DARIDO, S.C. Educação física na escola: questões e reflexões. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 784 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino educacionais e ficavam na limitação dos fazeres sem que os aspectos conceituais e atitudinais desses conteúdos fossem considerados como necessários. 3. CAMINHOS E PERSPECTIVAS PARA A EDUCAÇÃO FISICA ESCOLAR Muito se tem perdido no espaço curricular das aulas para a compreensão e para o diálogo no processo de comunicação entre docentes, educandos e educandas nas vivencias com o movimento nas praticas corporais. Na Educação Física, a tradição do fazer com base na imitação e na reprodução de gestos e movimentos sempre foi compreendida como algo natural e normal. Essa concepção tem suas origens nos modelos mecanicistas que se cristalizaram no tempo/espaço escolar e representa os princípios da concepção positivista no tratamento pedagógico dos conteúdos da Educação Física escolar. Os debates acerca dessa condição no meio acadêmico, em fóruns e eventos científicos, através de publicações e sempre nos mostram a realidade e vemos que pouco tem sido feito para que o paradigma pedagógico da Educação Física escolar se transforme. Fensterseifer e Silva (2011) consideram que a Educação Física vive um momento de transição da sua pratica pedagógica. Segundo os autores (IDEM, p. 120) Tal transição poderia ser caracterizada como um movimento de aproximação dessa área com os propósitos da escola, ou seja, a Educação Física escolar estaria buscando elementos para construir uma prática pedagógica não mais centrada no exercitar-se, mas na aquisição de novos conhecimentos relacionados às manifestações da Cultura Corporal de Movimento. Nesse sentido, considera-se que as praticas que buscam e consolidam essa perspectiva no espaço escolar podem ser entendidas como praticas bem sucedidas e em consonância com o paradigma transformador da Educação Física. Um aspecto que chama a atenção nessa discussão é o fator de ‘desinvestimento pedagógico’ na Educação Física, que tem sido um fator de estagnação do seu perfil pedagógico. Esse desinvestimento tem levado o componente curricular a permanecer no estágio de hibernação didática e pedagógica. Por conseguinte, as pratica exitosas passam a ser consideradas como praticas alternativas, exóticas ou como exemplos quando essas deveriam fazer parte de um processo constante de consolidação teórico pratica da área de conhecimento no contexto escolar. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 785 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Mas, voltemos ao que se entende por desinvestimento pedagógico. Esse termo foi cunhado por Santini e Molina Neto (2005) e se refere aos professores que abrem mão do seu compromisso ético e politico pedagógico de ensinar e que se adaptam facilmente às exigências mercadológicas do sistema de emprego e se tornam seres sobreviventes em espaços como academias, escolas privadas e alguns se utilizam do espaço escolar publico de forma conformista sem buscar nenhum tipo de mudança para o seu próprio sentido profissional. Essa condição tem levado a Educação Física a se tornar uma área profissional submetida e propensa à desvalorização em todos os aspectos. Além disso, as entidades representativas de classe não tem tido uma relevância politica e sócio cultural nos ambientes de atuação profissional. Portanto, o desinvestimento pedagógico e a inexpressiva atuação dos órgãos de classe tem conduzido a Educação Física ao perfil do utilitarismo e são duas instancias problemáticas que precisam ser discutidas e solucionadas antes que se perca todo o esforço teórico das ultimas décadas. Nesse hiato politico cultural, algumas experiências pedagógicas exitosas estão sendo desenvolvidas e levam em consideração um processo de contextualização que abrange alguns aspectos importantes para a sua realização de forma consistente. Vejamos quais os aspectos relacionados por Fensterseifer e Marlon (2011, p. 121) que são considerados como relevantes para que uma experiência inovadora em Educação Física se realize. a) proposta pedagógica articulada com o currículo da escola; b) desenvolvimento de conteúdos de forma progressiva e com preocupação sistematizadora; c) envolvimento do conjunto dos(as) alunos(as) nas aulas; d) a presença de conteúdos variados representativos da diversidade que compõe a cultura corporal de movimento; e) processos de avaliação articulados com os objetivos do componente curricular. Esses aspectos articulados formam uma base de conceitos importantes no plano pedagógico da Educação Física no âmbito escolar. Na nossa experiência, procuramos contextualizar todos esses aspectos com os princípios didáticos e pedagógicos aos processos metodológicos como concepções fundamentais para que nossa experiência possa contribuir para uma discussão sobre a Educação Física no ensino médio integrado profissionalizante. Em consonância com o pensamento de Fensterseifer e Silva (2011 p, 126) entendemos que: No caso da Educação Física, pensamos que estudos acadêmicos, de caráter teórico ou prático, são válidos à medida que oferecem subsídios para que o ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 786 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino professor possa refletir sobre sua prática e fundamentá-la teoricamente, contribuindo, dessa forma, para que consiga justificar e/ou defender suas ações pedagógicas frente à comunidade escolar. No nosso estudo, buscamos desenvolver uma reflexão teórica a partir dos elementos práticos que contribuem para que, a partir da concepção pós-crítica do currículo educacional, a Educação Física possa ampliar a sua perspectiva pedagógica no âmbito do IFRN. Ainda de acordo com Fensterseifer e Silva (IDEM, p. 128): As lacunas existentes entre o ensino e a pesquisa exigem de seus atores uma aproximação: “sujeito-pesquisador” e “sujeito-pesquisado”; também uma aproximação entre teoria e prática, entre pesquisa e ensino. Tais aproximações parecem encontrar espaço em algumas metodologias que, mesmo precária e timidamente, surgem como alternativas para quem se coloca na perspectiva reflexiva acima aludida: é o caso da pesquisa de tipo etnográfico e, principalmente, da pesquisa-ação. Enquanto a decisão politica submerge, a ação pedagógica precisa emergir e se tornar um elemento da força protagonista para que a Educação Física, no ensino médio integrado profissionalizante, possa vir a desenvolver as temáticas e os conhecimentos próprios do componente curricular com ações pedagógicas contextualizadas no plano teórico/prático. A dimensão teórico pratica talvez seja uma das problemáticas mais evidentes na ação pedagógica em Educação Física. Sobre essa problemática, Betti (2005) em seu manifesto pela redescoberta da Educação Física discute a questão da relação teoria/pratica como o principal problema ainda a ser resolvido no âmbito da área de conhecimento. Segundo o autor, existem três perspectivas que podem denotar essa forma de relação ainda incipiente no contexto da Educação Física, a saber: a perspectiva tradicional-técnica; a perspectiva legitimadora e ou critica e a perspectiva reflexiva. Na primeira perspectiva, o autor (IDEM, p. 1) entende que: A pesquisa científica produz abstrações e generalizações a partir da prática ou seja, teorias - as quais se pretende sejam aplicáveis de modo direto a todos os contextos da prática. Tende-se assim a ignorar as contingências que operam nos ambientes escolares concretos (por exemplo, turmas heterogêneas), assim como não facilitam indicações sobre como atuar para implantar o modelo ideal preconizado pela teoria. A relação teoria-prática torna-se, então, uma ameaça para o professor, na medida em que a teoria supõe um alijamento do conhecimento prático das contingências da vida em aula, de seu conhecimento e experiências profissionais, e imputa ao professor a responsabilidade pela diferença entre a teoria e a prática. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 787 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Essa diferença, na realidade não existe. Além do que, essa distancia que caracteriza a própria nomenclatura das categorias confunde o entendimento do entrelaço que existe na condição de filosófica das duas categorias e o senso comum tende a separar e a estranhar uma coisa e outra. Essa condição provoca assim, um distanciamento entre a teoria e a pratica evidenciando a segunda perspectiva que Betti (2005) descreveu no manifesto. Segundo o autor, a perspectiva legitimadora ou critica, provocou um distanciamento da teoria em relação a pratica devido a grande gama de fundamentos que sustentaram a síntese teórica, as estratégias educacionais e os critérios de validação para a teoria educacional. Essa perspectiva se fez presente no contexto educacional nas décadas de 1960 e 1970 principalmente, e até os dias atuais temos influencias dos pensamentos sociológico, psicológico e histórico marcantes no plano educacional desse movimento teórico. A Educação Física, por sua vez, assimilou muitas dessas concepções teóricas para justificar sua existência no âmbito educacional e buscar definir a sua identidade pedagógica a partir década de 1980. O movimento teórico, necessário e fundamental para uma virada conceitual da área de conhecimento evidenciado no estatuto teórico de se distanciou demasiado do fazer escolar. A relação direta com o ensino não se consolidava de uma forma aproximada da realidade na busca de mudanças. Se o que se pretendia era a transformação do perfil educativo da Educação Física escolar, este não aconteceu devido a não contextualização dos fundamentos da pesquisa cientifica com o ensino escolar. Na perspectiva reflexiva, encontramos uma possibilidade de superação dos limites tecnicistas e do distanciamento entre a teoria e a prática pedagógica. Para Betti (2005, p.1) essa perspectiva tratar-se-ia de uma pesquisa realizada no interior do empreendimento educativo, e que pudesse contribuir para o seu enriquecimento, considerando ainda que essa condição não se limitaria a uma pesquisa visitante, ela deverá estar na escola e se tornar fundamental na ação pedagógica. O conhecer não é uma condição que aponta apenas para o educando(a). A pesquisa em si deve conduzir a elaboração do conhecimento do professor também e segundo Elliot (1993), a pesquisa não deve separar-se da prática; a prática mesma é a forma de investigação, pois nessa situação desconhecida são levantadas hipóteses para além da atual compreensão do professor. As ações são avaliadas de forma retrospectiva como meio de ampliação do problema prático (reflexão sobre a ação). De acordo com Pereira (1998) Essa compreensão se ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 788 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino desenvolve por meio da modificação da prática, e não antes, ou seja, nenhum tipo de conhecimento se consolida a priori. Para Betti (2005, p.1) Nesse sentido, a produção teórica deriva das tentativas de mudar as práticas, e estas são o meio pelo qual se elaboram e comprovam as suas próprias teorias, ou seja, as práticas constituem-se em categorias de hipóteses a comprovar. A teoria adquire um sentido de unidade com a prática, não no sentido estático de dar explicações às questões práticas, mas no sentido dinâmico de auxiliar o encaminhamento, a direção refletida, crítica e criativa da situação. A teoria é vista como reveladora de várias alternativas e, pela análise e diálogo com a situação, contribui para fazer avançar o conhecimento sobre a validade de cada uma delas, e assim são geradas relações de interrogações mútuas entre a teoria e a prática, em decorrência do que ambas se transformam. Essa é a perspectiva que nos move e que nos interessa na elaboração desse estudo. Desenvolver uma experiência pedagógica no contexto da Educação Física no ensino médio integrado do IFRN, campus Natal Zona Norte que possa subsidiar uma discussão possível e válida a partir de uma análise reflexiva do currículo pela ação pedagógica fundamentada na experiência dos sujeitos da educação. São muitas as interrogações e sabemos que não podemos responder a todas nesse estudo, mas poderemos nos aproximar do que entendemos ser uma Educação Física que considere as relações mútuas entre os sujeitos do processo de ensino e de aprendizagem. Como por exemplo, o professor também aprende? O aprofundamento dessa questão pode ser desvelado à medida que uma pesquisa tenha como característica a participação do professor como um pesquisador que pretende conhecer mais sobre a sua própria prática e que abre a possibilidade de participação dos alunos na elaboração consciente do ato pedagógico como cultura, pesquisa e apropriação provisória do conhecimento escolar. Nesse sentido, a cultura de movimento poderá ser dimensionada pela ação dos sujeitos da educação como produtores de conhecimento de forma que poderão sempre ser reelaborados, revisitados, transformados e vivenciados de varias maneiras de acordo com as necessidades coletivas pelo diálogo e pela análise dos objetivos pretendidos pelo estudo. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 789 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino REFERENCIAS ALMEIDA, Luciano e FENSTERSEIFER, Paulo Evaldo. 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Iniciamos inventariando a implantação das escolas de referências e a discussão do protagonismo juvenil a partir da assessoria pedagógica do Modus Faciendi. Em seguida, busca-se discutir o protagonismo juvenil na educação sob a égide do conceito de governamentalidade. Aponta-se com esse estudo, que o protagonismo juvenil visa posicionar a população juvenil frente às questões sociais, buscando com o discurso protagonista soluções para desafios reais da sociedade. Palavras-chave: Protagonismo juvenil – Governamentalidade – Educação. ABSTRACT In this article, we seek to problematize the notion of youth leadership through the concept of governmentality to Michel Foucault. It analyzes the constitution of the protagonists in the Reference Schools in School of Pernambuco. The text is structured in two parts. Started inventorying the implementation of schools of references and discussion of youth participation from the pedagogical support of Modus faciendi. Then, we try to discuss youth involvement in education under the aegis of the concept of governmentality. It points to this study, the youth leadership aims at positioning the youth population in the face of social issues, with speech protagonist seeking solutions to real challenges of society. Keywords: Youth leadership - governmentality - Education. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 791 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino INTRODUÇÃO No Brasil, a partir da obrigatoriedade do ensino médio, podemos perceber uma frequência crescente de jovens na escola. No entanto, busca-se atribuir ora a escola, ora aos jovens, os seus baixos índices de rendimento escolar. Para Dayrell (2007, p. 1106), “[...] o problema não se reduz nem apenas aos jovens, nem à escola, como as análises lineares tendem a conceber”. Para o mesmo, a explicação para as tensões e desafios existentes o âmbito da escola envolvendo a juventude, pode ser entendida a partir das profundas transformações que vem ocorrendo nas sociedades ocidentais. As novas influências, principalmente as culturais e tecnológicas, passam a ser consideradas no processo de socialização dos jovens e na sua maneira de tornar-se indivíduo e relacionar-se com o tempo e o espaço. A atual fase do capitalismo sugere que as competências e habilidades individuais sejam maximizadas e a educação tem papel preponderante na constituição de um sujeito solidário, empreendedor, produtivo e etc. Nesse sentido, há um estímulo para que jovens tornem-se protagonistas. Na primeira parte do texto, busca-se explicitar o surgimento das escolas de referência no contexto político, econômico e educacional do Estado de Pernambuco e o desenvolvimento de uma educação interdimencional nessas escolas, propagada pela Modus faciendi, empresa que assessora e faz consultoria para o programa de educação integral do Estado. A modus faciendi tendo como precursor Antonio Carlos Gomes da Costa, propõe o protagonismo juvenil como uma estratégia importante para a prática educativa, orientação que passa a ser discutida e inserida no currículo das escolas integrais e/ou semi-integrais através das orientações curriculares oficiais. Ainda na primeira parte do texto, situamos o leitor quanto a trajetória da expressão protagonismo juvenil e sua inserção no contexto educacional. Na segunda parte do texto, utilizamos o conceito foucaultiano de governamentalidade e a sua contribuição para a discussão do protagonismo juvenil na educação. Problematizamos que o protagonismo juvenil ao propor os modos de ser, viver, estudar e produzir, institui práticas que regulam o campo de ação dos sujeitos e tende a colocá-los em posições estabelecidas, marcadas por um cenário em que talvez, se experiencie a emergência de uma reconfiguração das sociedades disciplinares (FOUCAULT, 2008), ou mais enfaticamente, condições de uma sociedade de controle (DELEUZE, 1992), onde de forma sutil, se constitui sujeitos produtivos para atuarem na sociedade que emerge exigindo constantes atualizações dos indivíduos. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 792 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Portanto, o nosso interesse de estudo, busca compreender os modos pelos quais os sujeitos discentes nas EREMs são constituídos produtivos, tomando como referência o protagonismo juvenil e o conceito de governamentalidade19 de Michel Foucault. ESCOLAS DE REFERÊNCIA E O PROTAGONISMO JUVENIL As mudanças em curso na economia de Pernambuco, vem recentemente mostrando indícios da sua performance um pouco superior à média de crescimento dos demais estados nordestinos. Logo, o que reza a política educacional no Estado “[...] é o consenso entre todas as esferas do governo que não há desenvolvimento econômico sem que seja priorizada a educação” (PERNAMBUCO, 2008, p. 3). Nesse sentido, à medida que a educação no discurso governamental é apresentada como forma de superação para as mazelas sociais, é preciso mudar a organização escolar com o objetivo de atender a formação para o mercado. Diante desse contexto, uma das ações do Governo estadual foi a criação das escolas de ensino médio em tempo integral. Em Pernambuco, essas escolas vêm sendo implantadas desde 2004, a princípio, fruto de uma “parceria” público/privado na educação. Baseados no modelo de escolas públicas, mas com gestão privada, foram criados 19 (dezenove) Centros de Ensino Experimental (CEEs) no estado, que tinham administração sob a responsabilidade do Instituto de Co-Responsabilidade Educacional pela Educação (ICE)20, organização resultante da mobilização de um grupo de empresários da iniciativa privada em torno da educação. 19 Traduzida do original francês gouvernamentalité, em português, esta palavra é ora traduzida por governabilidade, ora por governamentalidade, o que pode resultar em confusões conceituais e de entendimento. Utilizaremos neste trabalho a termo governamentalidade e para fundamentar a nossa escolha, utilizamos um texto do Alfredo da Veiga-Neto, seu artigo “Coisas de Governo...”, onde o autor faz a defesa do uso de governamentalidade e não governabilidade como melhor tradução para a palavra do original francês. Ainda segundo este autor, enquanto governabilidade “denota a qualidade daquele ou daquilo que se pode governar ou que se deixa governar, que é dócil, que é obediente”, governamentalidade seria mais adequado ao conceito gouvernementalité cunhado por Foucault, posto que essa tradução é vista como a “qualidade segundo a qual o Estado foi se tornando governamental”. Para Veiga-Neto (2005), é preferível fazer uso do conceito governamentalidade porque este faz referência mais às questões governamentais ligadas ao surgimento do Estado Moderno do que propriamente a alguma coisa ou alguém que pode ser objeto de um processo de governo ou direção porque é dócil e obediente. Por ser um termo que facilita a compreensão das sutis diferenças existentes entre governo no sentido político e governo no sentido de condução e direção de coisas ou pessoas Veiga-Neto conclama, juntamente com governamentalidade, a “ressurreição” da palavra governamento em língua portuguesa com o intuito de “tornar mais rigoroso e mais fácil o duplo entendimento que, na perspectiva foucaultiana, é possível atribuir à palavra governo” (VEIGA-NETO, 2005, p.17, grifo do autor). 20 O instituto foi criado em 2000 com a parceria de empresários da iniciativa privada e sob a presidência do pernambucano Marcos Magalhães, na época vice-presidente da Philips no Brasil. O foco deste Programa é a criação e o desenvolvimento de um modelo de escola pública de qualidade replicável em escala nas redes públicas de ensino. A atuação direta do ICE se dá no Ensino Médio, onde desenvolve o programa das Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral, que hoje se materializa em cerca de 160 escolas em Pernambuco, 60 no Ceará e em outras redes de escolas nesse mesmo formato nos estados do Piauí e Sergipe, com 23 e 3 escolas, respectivamente. No ano de 2010 inicia a sua trajetória na cidade do Rio de Janeiro junto ao Ensino Fundamental – 7º ao 9º ano. (Disponível em: HTTP://WWW.ICEBRASIL.ORG.BR/WORDPRESS/?PAGE_ID=13. Acesso em: 27 set 2013). ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 793 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Com mudança de governo e a assunção do atual governador Eduardo Campos21, a gestão das escolas de tempo integral sofreram mudanças e, a partir de 2008, o poder público estadual deu continuidade ao projeto como política pública educacional, criando, por meio da Lei Complementar nº 125, de 10 de Julho de 200822, o Programa de Educação Integral que passa a ser desenvolvido em regime integral ou semi-integral, e segundo o Art. 4º “os atuais Centros de Ensino Experimental ficam redenominados Escolas de Referência em Ensino Médio”. Em 2013 são 280 escolas de referência em funcionamento, sendo 120 unidades em tempo integral e 160 com jornada semi-integral, localizadas em mais de 120 municípios pernambucanos e em Fernando de Noronha23. Nas escolas integrais a carga horária semanal é de 40h e nas escolas semi-integrais 32h. A partir de 2008 com a regulamentação das Escolas de Referência em Ensino Médio24 (EREM), as orientações técnicas e pedagógicas deixam de ser realizadas pelo ICE e desde então, a consultoria mineira Modus Faciendi25 realiza a assessoria técnica do programa. A Modus Faciendi, enfatiza que “O Programa de Educação Integral pauta-se pela visão da educação interdimensional como espaço privilegiado do exercício da cidadania e empenha-se no sentido de fazer do protagonismo juvenil um traço importante de sua estratégia educativa”26. Etimologicamente falando, a origem da palavra protagonismo vem do francês protagoniste, que deriva do grego protagõnistes, tendo como significado “combate na primeira fila; que ocupa o primeiro lugar; personagem principal (MACHADO, 1990, p.447). De acordo com Souza (2006) a grande maioria dos textos que propõem definir o protagonismo juvenil buscam lembrar da sua origem. Em Português, segundo Houais e Villar, 2010, p. 2316 ), o termo agõnidzomai (grego) significa “ concorrer em jogos públicos, lutar, disputar o prêmio; combater” e deriva de agõn,õnos ou “ assembléia, reunião, assembléia para jogos públicos; jogos, concurso, luta, combate, ação militar, batalha; luta judiciária, processo”. Pois bem, 21 Eduardo Campos exerceu o seu primeiro mandato (2007-2010). Nas últimas eleições (2010) foi eleito para assumir o cargo no período temporal de 2011-2014. 22 Disponível em: http://legis.alepe.pe.gov.br/norma. Acesso em: 27 set 2013. 23 Retirado de: http://www.educacao.pe.gov.br/?pag=1&men=70. Em 27 set 2013. 24 Iremos, daqui por diante sempre que nos referirmos as Escolas de Referência em Ensino Médio, utilizar a sigla EREM. 25 A Modus Faciendi, é uma organização independente de consultoria, que atuou junto às maiores empresas, fundações e institutos empresariais do país. Como as fundações Odebrecht, Bradesco, Itaú Social, Telefônica, Bank Boston, Pitágoras e institutos: Eco-Futuro, Camargo Correia, Votorantin, ACJ (Associação Caminhando Juntos), IAMAR (Instituto Alair Martins), C&A, Telemig Celular, Instituto Telemar (hoje Instituto Oi - Futuro), Fundação Getúlio Vargas/RJ e outras grandes organizações dessa área. No instituto Ayrton Senna atua, desde os seus primeiros anos como consultor, ocupando também um lugar em seu Conselho. Atualmente, além do primeiro e terceiro setores, atua também no segundo, junto a empresas e organizações como CNI, SESI, SEBRAE, ABN-AMRO REAL, Instituto Euvaldo Lodi, FIEMG, Tribanco, Grupo Beira-Mar, ARCELORMITTAL, Fundação Nacional do Livro Infantil e vários outros. (Disponível em: http://www.modusfaciendi.com.br/equipe.htm . Acesso em: 15 jul 2013. 26 Retirado de: http://www.educacao.pe.gov.br/?pag=1. Em 28 set 2013. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 794 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino protagonismo originalmente deriva da ideia de competição, mas também se refere a ideia de reunião, luta, processo. E atualmente, como discorrer sobre o significado da palavra atrelado ao protagonismo juvenil? Souza (2006, p.8) diz: Hoje em dia, os autores que escrevem sobre protagonismo juvenil e o definem lembrando da sua origem etimológica concorrem para uma peculiar operação discursiva: uma assepsia da palavra, em que permanece a ideia de espaço público – e, portanto, de política -, porém de um espaço público transformado em cenário, em que não existe luta (agõnia) e em que os lutadores são subsistituídos pelos atores sociais. Assim, o jovem protagonista é invariavelmente lembrado como o “ator principal” no cenário, posição de destaque que supõe algum tipo de ação política. A expressão protagonismo pode ser considerada recente, o seu manifesto em documentos oficiais, data entre meados dos anos 80 e final dos anos 90. Mas foi em 1998, durante a Declaração de Lisboa que o termo é mencionado pela primeira vez fazendo alusão a juventude (ONU, 1998). Segundo Costa (1999, p.23), no Brasil o primeiro registro da expressão protagonismo juvenil aparece na publicação de um artigo editado pela Fundação Odebrecht em 1996, tendo como título: “Protagonismo juvenil: projetos estimulam adolescentes a atuarem como agentes de ações voltadas para a comunidade”. A publicação trouxe experiências de projetos apoiados pela fundação que estimulavam a participação jovens protagonistas em suas comunidades. Em 2000, a mesma fundação publica um livro tendo como título - protagonismo juvenil: adolescência, educação e participação democrática, de autoria do pedadogo mineiro Antonio Carlos Gomes da Costa, referência na propagação do protagonismo juvenil entre ONGs e governos, através da sua produção e da Modus Faciendi. Em Pernambuco, desde 2008, através do assessoramento e consultoria da empresa Modus Faciendi, o protagonismo juvenil passa a ser definido nas escolas de referência em ensino médio, como uma estratégia educativa através do currículo. PROTAGONISMO JUVENIL: UMA ESTRÁTÉGIA DE GOVERNAMENTALIDADE No âmbito da educação, as orientações curriculares da década de 90 vem enfatizando nos documentos curriculares oficiais, como por exemplo, nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – DCNEM, o protagonismo juvenil como inovações sugeridas para elevar a participação cidadã dos jovens em sociedade. O protagonismo juvenil quando interpretado a ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 795 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino partir do conceito de governamentalidade, vem se inscrevendo como uma estratégia de governo para dirigir as ações juvenis nas EREMs, agindo de forma sutil na conduta desses jovens estudantes. O conceito de governamentalidade é desenvolvido e mencionado pela primeira vez por Michel Foucault de forma marcante nos cursos proferidos no Collège de France entre 1977 e 1979, intitulados respectivamente, Segurança, Território e População (1977-1978) e Nascimento da Biopolítica (1978-1979). Ao tratar da governamentalidade, Doherty (2008, p. 204) entende que para Foucault o conceito “é um prisma que ilumina um estrato particular de investigação, uma perspectiva que examina, com um olhar histórico, o governar, como uma atividade deliberada, propositada e técnica, dirigida ao sujeito, à sociedade ou a alguma subdivisão categorizada do corpo social”. É notória a relevância que o conceito de governamentalidade tem para os estudos foucaultianos e especialmente para o campo da educação. Ao tratar esse conceito, Foucault (2008, p. 145) considera a “governamentalização do Estado” o acontecimento mais importante ocorrido no Ocidente, no espaço temporal compreendido do início do século XVI ao século XVIII, período longo e tortuoso que inicia e emerge o fenômeno da governamentalidade, “Assim, a governamentalidade procurou governar no conjunto de práticas dos homens, com o objetivo de assegurar a conservação do Estado” (SILVEIRA, 2005, p. 100). É assim que operando de modo a tornar pensável a vida das populações, neste caso, o juvenil que o aparato governamental apóia-se em um sistema tecnologias de governo que produzem modos de agir e de se comportar juvenil. Mas o que Foucault entende por governamentalidade? A forma como propõe analisar esse conceito, destaca a articulação entre soberania, a disciplina e a gestão governamental. 1 − o conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer esta forma bastante específica e complexa de poder, que tem por alvo a população, por forma principal de saber a economia política e por instrumentos técnicos essenciais os dispositivos de segurança. 2 − a tendência que em todo o Ocidente conduziu incessantemente, durante muito tempo, à preeminência deste tipo de poder, que se pode chamar de governo, sobre todos os outros − soberania, disciplina, etc. − e levou ao desenvolvimento de uma série de aparelhos específicos de governo e de um conjunto de saberes. 3 − resultado do processo através do qual o Estado de justiça da Idade Média, que se tornou nos séculos XV e XVI Estado administrativo, foi pouco a pouco governamentalizado (FOUCAULT, p. 1979, p. 292). ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 796 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Nesse sentido, “governar” leva em consideração a profusão de técnicas27, esquemas, estruturas e ideias deliberadamente mobilizadas na tentativa de direcionar ou influenciar a conduta dos outros (DOHERTY, 2008, p. 204). Diante do exposto, um poder político visto sob o prisma da governamentalidade28, destaca as estratégias, as técnicas e as tecnologias utilizadas ou incorporadas pelo Estado para maximizar seus recursos, tendo como foco a população. Portanto, a política é exposta, dentro de um quadro da governamentalidade, como uma “expressão direta e nua da racionalidade do Estado, torna-se o teatro por excelência a partir do qual se pode ver o drama de viver, do respirar e do evoluir da compreensão que o governo tem do ato de governar” (DOHERTY, 2008, p. 208). É desse modo que, para Foucault (2008), a arte de governar não é algo que se dá somente nos altos níveis do Estado, mas também em todos os aspectos da vida social. Na perspectiva foucaultiana, o poder também se exerce no Estado, mas não deriva dele; o poder estatizou-se ao abrigar-se e legitimar-se sob a tutela das instituições estatais para dirigir o modo de vida de pessoas e também de populações. Situando a população em categorias visíveis, como é o caso da juventude, o governamento se exerce por meio da criação de um tipo de racionalidade na mente das pessoas. Pode-se pensar o protagonismo juvenil estimulado através da política de orientação curricular oficial nas EREMS, como modos do governo dirigir a vida dessa população para aproveitar o máximo da sua potencialidade. Um alerta se faz em torno do perigo em generalizar um modo de ser um jovem protagonista, ignorando as condições políticas e históricas sociais na constituição desse modo de ser juvenil. (IN) CONCLUSÕES Nota-se que as EREMs, são alicerçadas a partir de um modelo de gestão empresarial e o protagonismo juvenil recebe elevado destaque. O protagonismo herdado do modelo de gestão empresarial, visa expandir uma escola cujo foco é a formação de jovens autônomos, produtivos e solidários através de tecnologias e metodologias integradas a um novo jeito de 27 “Os termos “técnica” e “tecnologias” agregam à idéia de prática os conceitos de estratégia e tática. Com efeito, estudar as práticas como técnicas ou tecnologia consiste em situá-las em um campo que se define pela relação entre meios (táticas) e fins (estratégia). Foucault utilizou essa terminologia e essa conceitualização, em primeiro lugar, para estabelecer uma metodologia de análise do poder (a disciplina e o biopoder); depois estendeu essa perspectiva ao estudo da ética” (CASTRO, 2009, p. 412). 28 Foucault utiliza o termo “governamentalidade” para descrever a arte de governar e, historicamente, de sinalizar o surgimento de tipos distintos de regimes que tornaram a base da política liberal moderna. Seu ponto de partida para a investigação da problemática de governo é uma série de conceitos: segurança, população, governo. Ele sustenta que houve uma explosão do interesse na “arte de governar” no século XVI, motivada por questões diversas: o governo de si mesmo (conduta pessoal), o governo de almas (a doutrina pastoral); e o governo das crianças (a problemática da pedagogia) (PETERS; MARSHALL; FITZSIMONS, 2004, p.79). ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 797 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino ver, sentir e cuidar da juventude. Considera-se que essa preparação para que os/as discentes sejam “protagonistas”, responsáveis pelo sucesso da sua vida pessoal e profissional, opera na égide de um novo conceito, o de governamentalidade de Michel Foucault. O conceito de protagonismo juvenil vem se inscrevendo, enquanto discurso articulado ao jovem como uma prevenção de “ameaça social”. No sentido de uma intervenção da sociedade visando uma “passagem” segura do jovem para a vida adulta, fazendo sua integração a uma determinada ordem social para que não seja uma ameaça aos modos de vida instituídos pela normas e regulações em vigor. Com base no conceito de governamentalidade, o protagonismo juvenil aponta ainda, para uma produção de uma população juvenil com a condição de posicionar-se frente às questões sociais, sendo protagonistas na solução de desafios reais da sociedade. REFERÊNCIAS CASTRO. Edgardo. Vocabulário de Foucault: um percurso de temas, conceitos e autores. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. COSTA, Antonio Carlos de. O adolescente como protagonista. Cadernos juventude, saúde e desenvolvimento. Brasília, DF: V1, ago, 1999. DAYRELL, Juarez. A escola “faz” as juventudes? Reflexões em torno da socialização juvenil. Educação & Sociedade. Campinas, v.28, n.100, p. 1105-1128, out. 2007. Disponível em: <http://www.cedes,unicamp.br>. Acesso em jul de 2013. DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 1992. DOHERTY, A. Robert. Uma política educacional criticamente formativa: Foucault, discurso e governamentalidade. IN: PETERS, Michael A. ; BESTEY, Tina (orgs). Por que Foucault? 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Trata-se de uma investigação de cunho bibliográfico cuja fundamentação teórica foi a obra Realms of Meaning (1964) e os PCNEM. A partir das leituras concluímos que uma mudança de mentalidade se faz necessária para se desnudar a real importância da interdisciplinaridade em termos de currículo. O ENEM passa a retratar uma abordagem interdisciplinar, enfatizando a contextualização dos conhecimentos, entretanto, ainda são necessárias muitas mudanças nas práticas curriculares para que isto aconteça de fato. PALAVRAS-CHAVE: Currículo integrado. Philip Phenix. Interdisciplinaridade. Ensino Médio. ABSTRACT This article aims to discuss the high school curriculum from the perspective of Philip Phenix. It is an investigation of bibliographical nature whose theoretical foundation was the work Realms of Meaning (1964) and the PCNEM. From the readings we have concluded that a change of mentality is necessary to bare the real importance of interdisciplinarity in terms of curriculum. The ENEM shall portray an interdisciplinary approach, emphasizing the contextualization of knowledge. However, there are many changes still required in curricular practices to make this happen. Keywords: integrated curriculum. Philip Phenix. Interdisciplinarity. High School. 29 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará- UFC. Email: [email protected] 30 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará- UFC. CAPES/DS. Email: [email protected] ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 800 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Introdução A partir do século XIX, o mundo passou por transformações econômicas, sociais, culturais e políticas, elas ocorrem principalmente sob o impulso das inovações científicas e tecnológicas. O conhecimento se torna uma matéria prima por excelência e a escola passa a ter um papel central nesta nova sociedade. Assim, o reconhecimento da relevância e do papel decisivo da educação nos processos de transformação das condições de vida coletiva e individual tem suscitado questionamentos acerca da pertinência e da utilidade social do conhecimento e das aprendizagens que as escolas proporcionam aos alunos. Nesse sentido, o currículo passa a ter um papel relevante na construção do conhecimento escolar de modo significativo, uma vez que deve atender às expectativas e necessidades atuais de uma sociedade, mas ao mesmo tempo acompanhar às constantes mudanças que esta mesma sociedade está sujeita, a fim de que ela continue evoluindo e se desenvolvendo no futuro. O amplo acesso à informação e o avanço exponencial do conhecimento, em virtude dos avanços tecnológicos observados nas últimas décadas são reconhecidamente dois dos aspectos mais relevantes que tornam o mundo atual bem diferente de tudo que já se viu até agora na história da humanidade. Tecnologia e informação são as palavras chaves que fazem do mundo uma aldeia global onde as pessoas sabem em tempo real o que está acontecendo em cada canto do planeta. A internet permite que as pessoas estejam interligadas não apenas com a sua cidade, com o seu estado ou país, mas com o mundo. É a globalização fazendo parte da vida das pessoas. O conhecimento que era obtido apenas nos livros e bancos escolares hoje está disponível a qualquer pessoa. A facilidade de se obter a informação e o acesso ao conhecimento como nunca antes houve, muda o enfoque da escola. O professor não é mais aquele que detém o conhecimento e sim que estimula e facilita o aprendizado. O conteúdo não é mais um fim em si mesmo, mas um meio que permite ao aluno mobilizar os recursos necessários para resolver com sucesso as situações da vida que se apresentam diante dele. O enfoque está naquilo que leva tempo para ser formado: a competência. Esse incalculável volume de informações estão disponíveis, não necessariamente de maneira linear, mas por meio de uma situação da vida real que exige do indivíduo uma mobilização de saberes e uma integração desses saberes para que ele possa compreendê-la e ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 801 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino em seguida, se posicionar. As informações não estão fragmentadas como se observa nas disciplinas escolares, mas são complexas e interdisciplinares. Normalmente vem relacionada a um tema gerador que relaciona diversas áreas da vida humana e normalmente está associada a uma situação problema. O Crack, por exemplo, é um problema de segurança ou de saúde pública? Porque em alguns estados brasileiros há um maior consumo da droga? Porque os percentuais de usuários têm aumentado nos últimos anos? Quais os efeitos da droga no organismo e as consequências sociais e econômicas do vício sobre as famílias? É constitucional fazer a internação compulsória de usuários de crack? Diante das demandas desta nova sociedade global espera-se que o indivíduo tenha um espírito investigativo, uma visão crítica, saiba resolver problemas e conflitos, agir com autonomia, expressar opiniões, assumir responsabilidades e relacionar-se em grupo. Assim a Educação tem assumido um novo papel que se fundamenta em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver com os outros. Segundo Beane (2003), o currículo escolar foi concebido por disciplinas como forma de espelhar o da universidade. No entanto, a educação assumiu um papel muito mais abrangente e a escola deve servir a propósitos e interesses sociais mais amplos do que simplesmente preparar para o ensino superior. Assim, o currículo deve se apresentar como um desafio à imaginação, que relaciona as escolas com a vida real e que aprofunda e alarga a compreensão de si próprios e do seu mundo. No caso do Brasil, por exemplo, este desejo nunca se tornava uma realidade, haja vista que os vestibulares, que permitiam o acesso ao ensino superior, ainda exigiam um conhecimento estritamente disciplinar. Em consequência, na Educação Básica, especialmente no Ensino Médio, não havia espaço para qualquer modificação curricular que não estivesse alinhado com as exigências dos vestibulares. Este quadro foi alterado com a adoção do ENEM, abrindo espaço para uma revolução curricular especialmente no Ensino Médio. Agora, resta à escola preparar-se, o que implica necessariamente na reformulação dos currículos escolares, a fim de fazer face às novas exigências do século XXI. Currículo do Ensino Médio: uma retrospectiva histórica Pensar no currículo do Ensino Médio implica em compreender a Educação Brasileira em sua totalidade e isso significa analisar esse contexto, à luz de diversas camadas dessa realidade complexa. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 802 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino E sob essa perspectiva, há diversas formas do currículo: o currículo prescrito, o ensinado pelos professores, o oculto que é também desvelado nos discursos, nas representações sociais dos profissionais da educação, na ação docente, nas atitudes discentes e nas ações de todos os integrantes da escola e o currículo em ação, que constitui na articulação dessas dimensões acima mencionadas, permeada de tensão e conflitos, como numa arena de forças. Então, entra em cena o papel do educador: possibilitar novas inferências, novas possibilidades e soluções aos desafios que nos rodeiam. No entanto, nosso “background”, ou seja, nossa formação foi construída de maneira “bancária”, pois ainda há resquício de uma razão, excessivamente cartesiana, positivista que não se adéqua mais a pós- modernidade. Em virtude de tal cenário, precisamos retirar esse véu que nos impede de enxergar saídas às novas demandas do século XXI. Compreender como chegamos até o presente momento, quais foram as rotas e os percursos que optamos, para que possamos entender os porquês, pelos quais, nos tornamos seres apáticos, sem emoção, sem afetividade, é sem dúvida, essencial, para que possamos virar as regras desse jogo. Isso porque a educação só faz sentido, se nos tornamos cidadãos críticos, conscientes da história e do sofrimento, na qual passou a humanidade na construção do conhecimento científico. Um currículo visto sobre esse prisma tem efeitos sobre as pessoas. Assim, pode desvelar quais conhecimentos, valores e habilidades eram considerados como “verdadeiros” e legítimos numa determinada época e, como essa legitimidade foi construída ao longo dos tempos. Então, o entendimento do currículo consiste na compreensão do contexto socioeconômico, político, cultural e histórico onde ele é reproduzido e negociado. Estudar apenas o currículo escrito e formal não atende às demandas da complexidade pós-moderna, pois como afirma Rufolph (apud GOODSON, 1995, p.107): A melhor maneira de se ler erradamente e erradamente interpretar um currículo é fazê-lo tomado por base um catálogo. Este é coisa muito sem vida, muito despersonificada, muito desconexa e, às vezes, intencionalmente enganosa. Nesse sentido, analisar o currículo tão somente sob seu aspecto legal, normatizado por leis, diretrizes ou parâmetros curriculares não representa o entendimento de seu real significado na escola. Isso porque a compreensão do currículo compreende no desvelar de ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 803 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino várias camadas da realidade, isto é, não é a ponta do iceberg que nos informa seu tamanho e seu impacto, mas o que está submerso nele. Então, no Brasil, após a promulgação da nova Constituição de 1988, conhecida também pela denominação: “Constituição cidadã”, após o período militar, anseios democráticos, de participação e ascensão sociopolítica, econômica entraram em cena. Tal cenário foi o berço da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) nº 9394/96 que possibilitou inúmeras transformações nos bancos escolares, isto é, uma revolução na Educação Básica, iniciando por considerar o ensino médio como básico também. A Educação Brasileira sempre refletiu interesses sociopolíticos, econômicos e culturais; sempre ressoou uma tensão de lutas de classes pelo poder. E sempre atendeu interesses ora nacionais, ora estrangeiros. A democratização do ensino passou a permitir a entrada de inúmeros brasileiros no ensino superior, que até então era privilégio tão somente das elites que se preparavam em cursinhos preparatórios para os exames vestibulares. No entanto, apesar da crescente demanda, tanto pelo Ensino Médio, quanto pelo Ensino Superior, muitos estudantes ainda ficaram à beira dessa história, pois o processo de seleção, que se utilizava do vestibular como um passaporte de entrada à escolarização superior, mantinha a reprodução do status quo. Por isso, políticas públicas foram necessárias para tentar minimizar as desigualdades sócio-históricas, no que diz respeito ao acesso ao conhecimento sistematizado. Tal empreendimento foi acompanhado pela implementação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM)31, no sistema de avaliação escolar, devido às altas taxas de evasão e reprovação escolar, entre outros fatores, acompanhada também de outras inovações curriculares. Nesse contexto, há uma reordenação do Ensino Médio, no que diz respeito ao ensino propedêutico e ao ensino profissional. E, finalizando, um novo sistema avaliativo de acesso às universidades, por meio do Exame Nacional do ensino Médio (ENEM), passa a induzir esse processo de reforma, como a “mão invisível” que Adam Smith se referiu com relação ao liberalismo clássico na economia. 31 O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) é um exame individual realizado em todo o Brasil com o objetivo de avaliar os conhecimentos dos alunos que estão concluindo, ou que já concluíram o ensino médio. Este exame é organizado pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 804 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Aos poucos vai se delineando um novo contexto educacional: os Parâmetros Curriculares Nacionais- PCN32 colaboram com esse cenário, bem como, as Diretrizes Curriculares Nacionais33 também. A intenção é que todos tenham direito à Educação e por esse motivo, as políticas educacionais devem nortear e perseguir tal conquista. Então, a justificativa para os PCN foi tentar também construir um consenso, entre os debates e reflexões, em todas as regiões brasileiras numa tentativa de homogeneizar a Educação Brasileira, apesar das diferenças regionais. Todavia, não podemos negar certa flexibilidade inserida nas entrelinhas desses parâmetros, que ora foram criados para servirem de referenciais apenas e não de receitas metodológicas. No entanto, nem todos os profissionais da educação, em particular os próprios docentes, conseguiram vislumbrar essas “brechas”, visto que foram formados por uma racionalidade instrumental apenas e também porque outros fatores intervenientes influenciaram nesse “olhar”, tais como: ausência de formação contínua e continuada nas diversas regiões brasileiras, desvalorização do profissional do magistério, não havendo um consenso acerca do piso salarial na educação básica, por exemplo e ausência de autoridade e de respeito à identidade docente. Conclui-se, portanto, que relações de poder foram travadas também nesse percurso. Tal quadro contribuiu para que os PCN fossem compreendidos como material receitual, seguido à risca, isto é, como Política Nacional de democratização do ensino e não apenas como material de apoio. Então, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio- PCNEM, o currículo oficial do Ensino Médio ficou assim definido: Linguagens e Códigos e suas Tecnologias: Língua Estrangeira, Língua Portuguesa, Literatura, Ed. Física, Artes; Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias: Biologia, Física, Química, Matemática; Ciências Humanas e suas Tecnologias: Filosofia, Sociologia, Historia e Geografia; Temas transdiciplinares, tais como: ética, política, saúde, meio ambiente, educação sexual, entre outros. 32 Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) são diretrizes para os Ensinos Fundamental e Médio do país. Têm como objetivo garantir a todas as crianças e jovens brasileiros o direito de usufruir do conjunto de conhecimentos reconhecidos como necessários para o exercício da cidadania. Os PCN não possuem caráter obrigatório, são apenas referências, o que significa dizer que podem ser adaptados às realidades locais. Os PCN do Ensino Fundamental foram publicados em 1997 ( Primeiro e Segundo Ciclos- 1ª a 4ª séries), 1998 ( Terceiro e Quarto Ciclos- 5ª a 8ª séries). Considere-se que ainda não existia a estrutura de Ensino Fundamental de 9 anos. Os PCN do Ensino Médio foram Publicados em 2000. 33 As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) são normas obrigatórias para a Educação Básica que orientam o planejamento curricular das escolas e dos sistemas de ensino. São definições doutrinárias sobre princípios, fundamentos e procedimentos na Educação Básica que orientam as escolas na organização, articulação, desenvolvimento e avaliação de suas propostas pedagógicas. Elas são discutidas, concebidas e fixadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 805 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino A reorganização curricular em áreas de conhecimento tem como objetivo facilitar o desenvolvimento dos conteúdos, numa perspectiva interdisciplinar e contextualizada, além de buscar o desenvolvimento de competências básicas para o exercício da cidadania e para o desenvolvimento de atividades profissionais. A interdisciplinaridade deve ser compreendida a partir de uma abordagem relacional, em que se propõe que, por meio da prática escolar, sejam estabelecidas interconexões e passagens entre os conhecimentos através de relações de complementaridade, convergência ou divergência. Contextualizar o conteúdo que se quer aprendido significa assumir que todo conhecimento envolve uma relação entre sujeito e objeto. Implica em diversificação de experiências escolares com o objetivo de enriquecimento curricular, ou mesmo aprofundamento de estudos, quando o contexto assim exigir. Assim, interdisciplinaridade e Contextualização são recursos complementares para ampliar as inúmeras possibilidades de interação entre disciplinas e entre as áreas nas quais disciplinas venham a ser agrupadas. No entanto, apesar dos PCNEM delinearem outra roupagem para o currículo do Ensino Médio, o currículo real, vivenciado nos bancos escolares continuou o mesmo em muitas instituições brasileiras, predominando na prática docente a fragmentação dos saberes, a descontextualização dos conhecimentos científicos, a memorização e a valorização excessiva dos conteúdos, entre outros aspectos. Daí que entra nesse cenário, o “ENEM”, como uma força invisível, centrifugando e adicionando novos ingredientes nesse contexto. Políticas Públicas Afirmativas: o ENEM e seu impacto na sala de aula Esse exame foi criado em 1998 a fim de avaliar a qualidade do Ensino Médio brasileiro, objetivando políticas públicas de melhoria do ensino, por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do Ensino Médio e Fundamental. Isso implicaria em transformações e mudanças até mesmo em documentos oficiais, caso os resultados do ENEM refletissem tal necessidade. Após essa primeira iniciativa de avaliação do ensino brasileiro, a segunda versão do ENEM deu-se em 2009, a fim de substituir o velho vestibular que servia de passaporte às universidades brasileiras. Isso implicou em novas políticas públicas de acesso às universidades, ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 806 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino visto que com essa medida, a democratização do acesso ao ensino superior tornou-se realidade. Mas, o que o ENEM trazia em seu arcabouço que impulsionou uma reviravolta no Ensino Médio brasileiro? Ora, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº 9394, de 20 de dezembro de 1996 colocou tanto o Ensino Fundamental quanto o Ensino Médio no mesmo patamar, isto é, os definiu como ensino básico. Isso tornou ambos obrigatórios promovendo mudanças na educação brasileira, já que antes só o Ensino Fundamental tinha um caráter obrigatório. Ao Ensino Médio era delegado um caráter facultativo, ou seja, somente àqueles que iriam ingressar no ensino superior deveriam fazê-lo. Tal transformação sacudiu os alicerces da escola, pois a mesma teve que se adequar às novas necessidades da referida lei que possibilitou a entrada de milhões de jovens no Ensino Médio que antes nem sequer pensavam em cursá-lo. Então, com a chegada do ENEM como exame para averiguar a qualidade do Ensino Médio baseado nos PCNs/1998, algumas competências passaram a ser avaliadas, tais como: de comunicar-se; de representar-se; de compreender e investigar processos; de contextualizar socialmente e historicamente os conhecimentos, entre outras. Nesse sentido, o ENEM trouxe em seu arcabouço a necessidade de dominar diferentes linguagens, desde idiomas até representações matemáticas e artísticas, de compreender processos sociais, naturais, culturais ou tecnológicos, de diagnosticar e enfrentar problemas reais, de construir argumentações e de elaborar proposições solidárias, entre outras. Com essas novas demandas, o currículo monocultural, fragmentado, repartido por meio de disciplinas não se sustentou mais. Isso implicou na mudança das disciplinas solitárias por áreas de conhecimentos. Daí que essas áreas se consolidaram e o ENEM passou a retratar uma abordagem interdisciplinar, enfatizando a contextualização dos conhecimentos. Não bastava compreender os componentes de uma célula, por exemplo, mas como esse organismo também se proliferava num determinado contexto sociocultural, político e econômico. A interdisciplinaridade passa a ter prestígio nos bancos escolares. Mas o quê realmente consiste nessa atitude docente? Essa abordagem revela a integração dos saberes, sem, contudo, minimizar o caráter de cada disciplina. A interação das disciplinas respeita cada método alvo de análise e por isso não menospreza os conteúdos, mas os apropria, o quê ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 807 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino intensifica a compreensão das diversas possibilidades de resolução de um problema específico, por exemplo. Assim, a interdisciplinaridade e a contextualização foram propostas como princípios pedagógicos, estruturadores do currículo para atender o que as diretrizes educacionais normatizam quanto às competências de: • vincular a educação ao mundo do trabalho e à prática social; • compreender os significados; • ser capaz de continuar aprendendo; • preparar-se para o trabalho e o exercício da cidadania; • ter autonomia intelectual e pensamento crítico; • ter flexibilidade para adaptar-se a novas condições de ocupação; • compreender os fundamentos científicos e tecnológicos dos processos produtivos; • relacionar a teoria com a prática. Nessa perspectiva, no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), desafios e situações problemas aparecem, a fim de que o aluno encontre soluções fundamentadas, à luz das diversas áreas do conhecimento humano. Isso implica em mudança de mentalidade, de ensino, de currículo, de escola. Nesse sentido, tal exame vem promovendo transformações no Ensino Médio, como uma força centrífuga, atraindo novos olhares, novas metodologias e possibilitando o surgimento de uma nova didática que vai ao encontro das novas demandas da complexidade do novo milênio. Daí, que um novo currículo, multicultural e inter/transdisciplinar se faz necessário. O currículo atual sob a ótica dos significados da Vida Humana Partindo do que já foi exposto, apresentamos então, o currículo de Philip Phenix, apresentado em sua obra Realms of Meaning (1964), os Significados da Vida Humana (1964), no qual a educação tem por objetivo ajudar o homem a se construir no tempo e no espaço específicos. De acordo com Phenix (1964), o educador precisa compreender a natureza humana, seus questionamentos, suas possibilidades, seus anseios e expectativas, a fim de promover mudanças emancipatórias neles mesmos. Nesse sentido, Phenix (1964) propôs os significados da vida humana que consistem em: ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 808 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino 1) o simbólico: que constituem em linguagem, gestos, ritos, padrões rítmicos, assim como, a matemática que também constitui uma simbologia e as formas simbólicas não discursivas; 2) o empírico: que inclui as ciências do mundo físico, dependendo de observação e experimentação; 3) o sinoético: que requer compromisso, subjetividade, relação sujeito-sujeito. É o conhecimento pessoal – synnoesis; 4) o estético: que compreende a música, as artes visuais (pintura, desenho, artes gráficas, escultura e arquitetura); 5) o ético: é a análise critica dos julgamentos morais; 6) o sinóptico: corresponde aos significados que são compreensivelmente integrados: história, religião e filosofia. Esses âmbitos da vida humana podem ser encontrados no currículo de cunho inter/transdisciplinar. E para que um currículo de educação geral seja completo e faça sentido ao discente, ele precisa incluir todos esses significados, por meio de atividades regulares/ curriculares e extracurriculares, que desenvolvam a leitura e o conhecimento prévio do mundo para promover a construção de novos saberes na escola. Portanto, o Currículo vigente inserido nessa perspectiva pode ser assim compreendido: Simbólico: Língua Portuguesa, Língua Estrangeira, Matemática (Geometria, Aritmética, Álgebra), Educação Física; Empírico: CFB (Biologia (Genética, Zoologia, Citologia,planta) Física (eletricidade, mecânica, ótica, cinética), Química (Físico-Química, Orgânica e Inorgânica); Estético: Artes (Teatro, musica, dança), Literatura (Brasileira e Universal); Sinoético: Formação Cidadã, Orientação Educacional, Orientação Profissional (subjetividade humana), Religiosidade humana; Sinóptico: Filosofia, Sociologia, História e Geografia; Ético: Cidadã, dimensão de espectro amplo, com temas transdisciplinares (trabalho e consumo, educação sexual, saúde, meio ambiente e sua preservação, entre outros). Conclusões Considerando a relevância e necessidade de um currículo que maximize os significados e situando-nos em tempos de ENEM, concluímos preliminarmente que uma mudança de mentalidade se faz necessária para se desnudar a real importância da interdisciplinaridade em termos de currículo. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 809 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Nesse sentido, a compreensão da natureza humana em sua complexidade se faz necessária para promover a emancipação do ser humano. Cabe ao educador, a partir dessa visão lançar mão de estratégias de ensino, novas abordagens, metodologias e didáticas que promovam o pensar, o (re) organizar saberes, a reflexão crítica acerca do mundo e da sociedade. Pensamos que (re) construir esse homem é também, prepará-lo para o exercício de uma cidadania. Torná-lo inserido e participante de uma sociedade é ajudar a encorajá-lo a realizar transformações que possibilitem a toda uma sociedade melhoria de condições de vida e trabalho. Olhando sob este aspecto é que percebemos como o currículo visto sob a perspectiva dos significados da Vida Humana, proposto por Phenix, faz todo sentido e atende a muitas das demandas exigidas na atualidade. REFERÊNCIAS BEANE, J. Integração curricular: a essência de uma escola democrática. Currículo sem Fronteiras, v.3, n.2, p. 91-110, jul/dez 2003. BRASIL. Lei das Diretrizes e Bases da Educação- LDB Nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. _______.Ministério da Educação, MEC. Conselho Nacional de Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Relatora Conselheira Guiomar Namo de Mello. Aprovado em 01 de junho de 1998. _______.Ministério da Educação, Secretaria da Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Brasília: Ministério da Educação, 2000. _______. Ministério da Educação, MEC. Matriz de Referência do ENEM, de 13 de maio de 2009, 2012. GOODSON, I. Currículo: Teoria e História. Petrópolis, RJ: Vozes,1995. PHENIX, P. Realms of Meaning: A Philosophy of the Curriculum for General Education. McGraw Hill Book Company, USA, 1964. VIANNA, H. M. Avaliação educacional: teoria, planejamento, modelos.2 ed. São Paulo: IBRASA, 2000. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 810 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O CURRÍCULO E A ESTRUTURAÇÃO DOS SENTIDOS DA ESCOLA: A HISTÓRIA EM SUA MATERIALIDADE NA SALA DE AULA Thiago Luiz Santos de Oliveira Mestre em Educação - PUC-MG Resumo O objetivo da pesquisa que originou este trabalho foi investigar o currículo materializado na sala de aula da disciplina História em uma turma do Ensino Médio de uma escola pública estadual de Minas Gerais. O pressuposto para a pesquisa é que o currículo materializado traduziria o sentido do ensino da História na formação do cidadão, ou seja, como o ensino de História favoreceria a realização da Bildung – educar, ensinar e formar. As referências do trabalho são a Sociologia do Currículo, a Teoria Pedagógica, e a Teoria Crítica. A metodologia utilizada foi a Hermenêutica Objetiva, um procedimento de pesquisa qualitativa que permitiu compreender a escola a partir da reconstituição da aula. A investigação apontou que o ensino de história na sala de aula não corrobora para a formação do sujeito emancipado. A tríade educação, ensino e formação não se concretiza, uma vez que as análises evidenciaram a negação do conhecimento histórico na sala de aula. A lida com o conhecimento histórico não se efetiva, devido primordialmente à falta de substrato teórico e a não organização do ambiente da sala de aula. A aula sustentada no senso comum, em informações reducionistas resulta na semiformação e na falta de reflexão, impedindo a formação dos alunos enquanto sujeitos históricos. Palavras chaves: Teoria Crítica. Teoria Pedagógica. Currículo. Hermenêutica Objetiva. Ensino de História. Ao analisar o arcabouço intelectual da história e da sociologia do currículo, percebe-se que a tradição cultural e os conhecimentos transmitidos pela escola representam uma seleção socialmente validada em um processo vertical, que considera as necessidades de um grupo, em detrimento de uma parcela significativa do corpo social. Configura-se como um sofisma pensar o currículo de forma neutra, pois os conhecimentos curriculares em seu fomento e na transmutação em disciplinas escolares são fruto de escolhas pautadas pelas necessidades de alguns e a exclusão de outros. O currículo deve ser tratado como fruto de enlaces complexos ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 811 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino da própria dinâmica social que se traduzem na prática pedagógica e nos projetos de escola como instituição legitimada, como transmissora da cultura (FORQUIN, 1993). Assim, os conflitos em torno da definição do currículo escrito proporcionam uma prova visível, pública e autêntica da luta constante que envolve as aspirações e objetivos da escolarização. É somente por esta razão que importa aumentar a nossa compreensão sobre este conflito curricular. (GOODSON, 1995, p.17). A teoria curricular e os estudos acerca do currículo possuem uma relação intrínseca, com “o valor da teoria curricular precisa ser julgado em confronto com o currículo já existente – definido, discutido e realizado nas escolas” (GOODSON, 1995, p. 47). Faz-se necessária a diferenciação entre aquilo que é teoria curricular e aquilo que é conteúdo programático, alicerçado muitas vezes na mera prescrição e não na reflexão sobre o conhecimento escolar. As disciplinas escolares de fato estão no currículo, mas de maneira alguma correspondem à totalidade dele. Os currículos prescritivos estruturados apenas nas disciplinas como metas escolares não contemplam as reais necessidades de esclarecimento e emancipação que deveriam ser promovidas na escola, pelo contrario “encapsulam” o conhecimento, distorcendo-o e transformando-o em pílulas, muitas vezes desconexas, tanto no que concerne à reflexão própria a cada disciplina escolar, como no que tange a promoção de um currículo e de um conhecimento integrado. Entretanto, os que acreditam em metas educacionais baseadas nas disciplinas são obrigados, em última análise, a se defrontar com a triste verdade de que o mundo da escolarização como corretamente se apresenta desenvolve-se em tal ritmo que o estabelecimento de metas é difícil e os quadros de metas nem sempre são relevantes (GOODSON, 1995, p. 53). Para Forquin existe uma relação intima entre educação e cultura. Assim toma-se “[...] a palavra “educação” no sentido amplo de formação e socialização do indivíduo” (FORQUIN, 1993, p.10). Sendo que se percebe o caráter de atividade humana presente no processo, pois é um domínio humano, no qual uma tradição é transmitida por alguém a outro alguém. Essa tradição transmitida é sempre algo que nos ultrapassa e nos institui enquanto sujeitos, essa tradição torna-se então cultura. Dentro dessa perspectiva seria cultura aquilo que foi historicamente e socialmente construído pelo espirito humano na conexão e interconexão das várias subjetividades. Assim torna-se importante o estudo e o entendimento desses processos de transmissão da herança cultural viabilizados pela prática educativa. Entender os aspectos valorativos da seleção e da transmissão cultural é entender as maneiras de organização, produção e reprodução do conhecimento. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 812 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino A escola não realiza apenas a seleção da tradição cultural e dos saberes, mas também a transposição didática (FORQUIN, 1993). Essa transposição seria o trabalho de reorganização e reestruturação da tradição cultural, ao ponto de torna-la assimilável. Esse processo muitas vezes cria imperativos didáticos que cerceiam ou hipertrofiam a prática pedagógica. A transposição didática deve levar em consideração não apenas o estado do conhecimento a ser transmitido, mas também o estado daquele que ensina e daquele que aprende. Tal premissa não prima pela simplificação, mas sim pela organização do conhecimento mediada pela própria teoria do currículo e pela teoria pedagógica. Entende-se que “[...] uma teoria do currículo é uma teoria da educação considerada como empreendimento de transmissão cognitiva e cultural [...]” (FORQUIN, 1993, p. 24). A teoria do currículo e a prática pedagógica não podem se transformar em imperativos didáticos, mas sim devem balizar a relação entre professor, educando e conhecimento, vislumbrando sempre o esclarecimento e o fomento da autonomia. Para tanto, a reflexão sobre os conteúdos e programas escolares devem se tornar patentes. Propõe-se um currículo interacionista, no qual os indivíduos são responsáveis por dotar as práticas sociais de sentidos e significações. Dessa maneira o currículo deve se configurar como uma confluência de práticas não lineares, construído no processo de configuração, implantação e expressão da própria prática pedagógica e na interação dos diversos atores sociais nela envolvidos. Trata-se de um campo de atividade múltiplo e plural que não se materializa de maneira estática, mas sim no concatenamento de diversas esferas e diversos agentes sociais. São vários subsistemas atuando de maneira concatenada, convergente, mas não ordenada na configuração do que viria a ser o currículo. O currículo mesmo quando organizado em disposições de disciplinas, práticas e conteúdos, cria uma realidade curricular independente, que se articula, sobretudo, na prática pedagógica cotidiana. “O currículo pode ser visto como um objeto que cria em torno de si campos de ação diversos, nos quais múltiplos agentes e forças se expressam em sua configuração, incidindo sobre aspectos distintos” (SACRISTAN, 2000, p. 101). O currículo enquanto prática é algo fluido, complexo que não se permite capitar a partir de prismas simplistas. Para compreender o currículo faz-se necessário se enredar pelos aspectos menos aparentes da teoria e da prática pedagógica, na percepção do processo ensino-aprendizagem em termos sociológicos e filosóficos, para além da fragmentação da cultura escolar. Pensar o ensino como dimensão da teoria pedagógica é em suma necessário para refletir sobre o currículo em sua práxis na sala de aula, sobre tudo no que se refere a sua materialização empírica. O ensino como pratica educativa depende de uma gama de ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 813 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino interações complexas, de relações sociais estabelecidas e de aportes metodológicos utilizados. A compreensão e a inflexão desse processo na pratica curricular é condição sine qua non para uma aprendizagem que se sustente no esclarecimento e na emancipação dos sujeitos nela inseridos. E o que seria a História enquanto área do conhecimento, sobretudo em sua materialização curricular? Dentro de uma perspectiva curricular que releva a problematização e a crítica, a História seria a disciplina cujo objetivo principal é o estudo, a investigação das relações humanas no tempo. Dessa forma o homem se torna protagonista do processo histórico, mas não um homem estático e passivo, mas sim um homem atuante, que modifica a natureza e se humaniza mediante as interações políticas, econômicas e culturais que permeiam seu contexto social, nas mais diferentes temporalidades. Então o que justifica a História na sala de aula? Justifica-se devido seu cerne emancipatório, crítico e democrático. O entendimento das relações dialógicas entre presente e passado como uma construção humana é principio sine qua non para a construção da emancipação, da liberdade e da cidadania. Uma História não conteúdista mas de conteúdo, de arcabouço teórico, que permita na sua concretude na sala de aula a experiência com a reflexão. A disciplina não pode ser apresentada como algo externo, como uma película cinematográfica, onde os fatos se desenrolam cronologicamente, cabendo ao educando o papel de mero espectador. A ideia de linearidade corrobora com a ideia de predeterminação, que por sua vez colabora com a visão sofística que o aluno não é um sujeito que participa do fazer histórico, mas apenas o contempla. A sala de aula enquanto lócus de materialização da relação ensino-aprendizagem, não pode ser o lugar da expropriação do pensamento, mas sim da produção da crítica, do raciocínio do esclarecimento. O aluno deve entender que é o processo histórico é fruto da ação criativa de homens e mulheres no desenrolar do tempo (BERTUCCI; FILHO; OLIVEIRA, 2010). O ensino de História deve ser capaz de mostrar ao aluno que ele é capaz de mudar sua trajetória, pois é um sujeito-histórico, capaz de reflexão e ação sobre o mundo. É pensar uma História fluída, eclética, que trabalhe as diversidades políticas, culturais e sociais. Essa concepção de História remete a uma pedagogia democrática, uma pedagogia do esclarecimento. Um ensino de História crítico, sem dúvida é um ensino de História cidadão, um ensino que leva o educando a se enxergar como parte integrante de um processo histórico constante, dinâmico fruto das experiências subjetivas e coletivas do indivíduo. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 814 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino A História enquanto disciplina escolar possui uma grande responsabilidade na efetivação desses objetivos, sobretudo no desenvolvimento do espirito crítico e autônomo. A real materialização da tríade educar, ensinar e formar no que concerne ao ensino de História diz respeito construção do educando enquanto sujeito histórico dentro da sala de aula. “O sujeito histórico, que se configura na inter-relação complexa, duradoura e contraditória entre as identidades sociais e as pessoais, é o verdadeiro construtor da História” (BEZERRA, 2010, p.45). Apenas este sujeito histórico ético, capaz de estabeleces as conexões entre presente e passado pode de fato vivenciar uma experiência cidadã. É na sala de aula que a História como disciplina se materializa a partir da reflexão acerca dos diversos discursos políticos, econômicos, sociais e culturais. No entendimento da tríade pedagógica em sua materialização da História como disciplina pode-se dimensionar a educação como o entendimento que o homem é um ser social, portanto inserido em uma coletividade composta por varias diversidades no que concerne as formas de organização, pensamento e formatação das várias identidades sociais. Educa-se o sujeito histórico para o entendimento democrático da alteridade, da percepção de si mesmo e do outro “Nosso aluno, cada aluno, tem de se perceber como um ser social, alguém que vive, numa determinada época, num determinado país ou região, oriundo de determinada classe social, contemporâneo de determinados acontecimentos” (PINSKY;PINSKY, 2010, p. 28). Faz-se necessário se perceber como membro de uma comunidade historicamente forjada e construída, por meio de processos sincrônicos e diacrônicos de identificação e não identificação. Educar neste sentido corresponde a entender a socialização como um processo histórico, de encontros e desencontros, congruências e incongruências. A dimensão do ensino na disciplina História se dá no reconhecimento e na transmissão da tradição cultural representada pelo passado. Ora, faz-se importante salientar que o passado não é neutro e nem pode ser reconstruído em sua totalidade, mas sim selecionado epistemologicamente a partir de um olhar alicerçado no presente. Tal premissa é fundante na preservação do patrimônio histórico e cultural da humanidade, busca-se na preservação da memória o arcabouço essencial para a construção das identidades individuais ou coletivas. “Ao socializar o conhecimento historicamente produzido e preparar as atuais e futuras gerações para a construção de novos conhecimentos, a escola está cumprindo seu papel social” (ORIÁ, 1998, p.130). A formação quando observa-se a História em seu contexto de disciplina escolar, reside na criticidade, no desenvolvimento da reflexão acerca das diversas dinâmicas dos diversos ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 815 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino eventos históricos. A história-problema, a crítica social quando bem construída na sala de aula, leva o educando para além da mera contemplação, potencializando a formação do cidadão pleno (SCHIMIDT; CAINELLI, 2004). Quando traça seus próprios esquematismos, o educando percebe a si mesmo enquanto individuo autônomo, ciente dos seus direitos e deveres, tornando-se um sujeito esclarecido. A retomada da discussão acerca da tríade educar, ensinar e formar na teoria pedagógica para entender a proposta curricular de história implica primeiro em compreender a aula de história no processo formativo do aluno. Tal processo se materializa na sala de aula, lócus primaz da experiência pedagógica e da materialização curricular. Assim, na sala de aula que o saber histórico se materializa enquanto disciplina escolar, que deve se pautar pela crítica, pela problematização pelo debate epistemológico, e pela relação intrínseca existente entre pesquisa e ensino. É na sala de aula que se enxerga a História na sua pluralidade, nas suas diversas facetas políticas, econômicas, culturais e sociais. O estimulo da percepção histórica a partir dos olhares epistemologicamente construídos e das vivências e experiências democráticas de educadores e educandos, torna a sala de aula um local de experiências dinâmicas e interativas e de lida com o conhecimento. A Hermenêutica Objetiva se sustenta na dialética negativa adorniana cuja premissa básica é o abandono da lógica instrumental e sentencial em prol de uma lógica polivalente, onde a negação desvela o aparente, lançando á luz aquilo que se julgava claro, e que de fato corresponde ao real. “À consciência do caráter de aparência inerente à totalidade conceitual não resta outra coisa senão romper de maneira imanente, isto é qualitativamente diverso, recebe a marca da contradição” (ADORNO, 2009, p. 13). A contradição em Adorno é um método cientifico e epistemológico, pois todo diagnóstico social é temporal, ou seja, corresponde ás articulações políticas e econômicas de um determinado momento histórico. A negação em Adorno não é uma força destrutiva, pessimista, fatalista, mas sim uma energia positiva, que permite enxergar o inexprimível pelo conceito. Qualquer conceito sociológico é uma categoria temporal e histórica, portanto responde as demandas de uma determinada temporalidade, não constituindo um axioma, um dogma analítico. O exercício da dialética negativa permite ir além do conceito, permite revelar os aspectos que escapam da própria conceituação teórica. A dialética negativa na concepção de Adorno é o projeto metodológico da Teoria Crítica materializado, que permite o desvelamento da realidade mediante o exercício dialético da negação do instituído, para enxergar além do aparente, evidenciando as estruturas ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 816 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino latentes, ultrapassando tento o positivismo como o idealismo, procurando ver para afora do imediato, buscando o imanente, o não explicitado. Todavia, ante todo e qualquer conteúdo específico, enquanto algo firmado abstratamente, essa estrutura é negativa no sentido mais simples possível, espirito que se tornou coação. O poder dessa negatividade continua vigendo até hoje, realmente. Aquilo que poderia ser diverso ainda não começou. Isso afeta todas as determinações particulares. Toda determinação que se apresenta como desprovida de contradição se revela tão contraditória quanto os modelos ontológicos ser e existência. (ADORNO, 2009, p.127). Dessa forma a negação e a contradição são energias que retira o véu da verdade aparente evidenciando a realidade em sua essência e imanência. A Teoria Crítica pauta-se pela multidisciplinaridade enquanto discurso da ciência social. Faz-se necessário e pertinente então uma reflexão, uma crítica aos princípios e a atitude metodológica da própria sociologia. Dentro dessa perspectiva, a crítica social se faz patente, numa relação dialética com a investigação empírica, com a observação. A crítica social é imanente à própria pesquisa sociológica, não sendo possível a dissociação. A Teoria Crítica procura resgatar a importância da filosofia em sua criticidade temporal, ou seja, na analise de questões prementes de um determinado momento histórico. O próprio bloqueio em termos epistemológicos gera a crítica, ou seja, a um novo modelo teórico de análise social. O mundo não é uma realidade dogmática, mas sim mutável, portanto a crítica social sempre é temporal, e também passível de mudanças. Procura-se o desvelamento do mundo através se tensionando o real, investigando além do aparente, negando aquilo que pretensamente seria o real. “É nesse sentido que uma concepção educacional que se julga crítica poderia contribuir para o processo de auto-reflexão da formação que se converteu em semiformação” (ZUIN, 2002, p.16). O pensamento hermenêutico calcado na dialética negativa adorniana possibilita uma analise além do fato aparente a partir de condições inerentes ao próprio pensar. O exercício da negação dialética no que tange a sala de aula concerne a tensão constante que é uma aula em seu contexto educativo. Na própria aula, em sua materialização, existe a não aula, aquilo que está envolto nos discursos, nas posturas, não de forma explicita, mas tácita, mas que de fato também é constituinte da aula e da pratica pedagógica. A Hermenêutica Objetiva pode ser considerada uma importante ferramenta metodológica para a investigação da realidade escolar e das práticas pedagógicas. Acredita-se que a sala de aula é o real lócus de efetivação do processo educativo, portanto desvendar a sala de aula através de elementos oferecidos pela própria relação dialética entre professor e alunos se faz de suma importância para o ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 817 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino entendimento das práticas curriculares. A Hermenêutica Objetiva no que tange a pesquisa em educação busca a reconstrução empírica da aula educativa, ou seja, parte-se do pressuposto que apenas o estudo esmiuçado da pratica pedagógica em sala de aula pode levar à compreensão das questões que de fato incidem sobre a realidade da educação. Em termos didáticos-pedagógicos a Hermenêutica Objetiva é uma pesquisa social empírica, pois prima pela reconstrução da aula educativa, ou de fato como se processou a materialização curricular nesta mesma aula, e se de fato ela contribuiu para a fundamentação básica do processo pedagógico na efetivação empírica da tríade educar, ensinar e formar (PLUGMACHER, 2012). A finalidade da análise “hermenêutica objetiva” é descortinar a lógica entre as estruturas de reprodução social e as estruturas de transformação, reveladas em um texto, elaborado a partir de procedimentos de coleta de dados de pesquisa qualitativa, como relatório de campo, entrevistas e transcrição de gravação de situações observadas para serem analisadas, como as interações presentes em sala de aula. (VILELA, p. 306, 2010). À utilização da Hermenêutica Objetiva na sala de aula procura-se desvendar a sala de aula em suas contradições e possibilidades tendo como referencia a tríade educar, ensinar e formar e como os elementos dessa mesma tríade materializam ou não dentro da sala de aula por meio do currículo. Procura-se a materialização metodológica de uma pesquisa fertilizada pela Teoria Crítica, especialmente no pensamento dialético-negativo adorniano. A pesquisa social crítica busca entender a escola no desvendamento de suas contradições, possibilidades e ambições (VILELA, 2012, p. 168). Pretende-se um conhecimento sobre a escola e a sala de aula a partir da sua dimensão histórica vital para a compreensão dos seus processos, percalços e problemas. Tendo como base a Hermenêutica Objetiva como metodologia a pesquisa empírica da sala de aula se estrutura da seguinte forma: a) realização da observação de salas de aula com captação em áudio pelo pesquisador; b) transcrição do material obtido em áudio em registro escrito configurado, segundo o método, como protocolo para análise; c) procedimento de análise dos protocolos de acordo com a metodologia para análise sociológica; d) discurso das evidencias empíricas decorrentes da analise. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 818 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Salienta-se que a analise sociológica dos protocolos que se configuram o áudio transcrito em texto é feita por um grupo de análise multidisciplinar, mas é premente a exigência de um especialista da disciplina analisada para o esclarecimento dos pormenores teóricos e científicos da área de conhecimento pertinente. Dessa forma faz-se necessária a reflexão sobre os conhecimentos empregados na análise. A pesquisa sustentada na hermenêutica objetiva procura a interpretação com base no protocolo textual, partindo da premissa que nele estão os aspectos que permitam a reconstrução da aula. Por esse motivo o procedimento de análise deve ser realizado num coletivo, ou seja, deve ser criado um grupo de análise, como uma forma de controlar o excesso de subjetividade. Assim procura-se a verificação a partir da pesquisa qualitativa se o ensino de história na sala de aula contribui para a formação, o esclarecimento e a autonomia plena do sujeito como constituição da educação integral e condição para o exercício da cidadania ou favorece a semiformação. Foram gravadas cinco aulas, mas efetivamente analisadas e discutidas no grupo de estudo apenas quatro sob a coordenação da professora Drª Rita Amélia Teixeira Vilela. Na totalidade das aulas gravadas destaca-se a falta de um clima favorável ao processo educativo, com a forma que a professora trata os alunos desde sua entrada em sala. Não há uma saudação explícita, que denote a chegada da docente e o inicio efetivo da aula. Destaca-se um modo brusco de começo da aula, sem um cumprimento e um anúncio de que atividade ali teria lugar, mesmo sinal de falta de cordialidade, o que pode ser um indicativo de desalento da professora frente às condições objetivas do seu trabalho, ou até mesmo um descompromisso com a atividade docente. De qualquer forma não se o estabelece um vinculo inicial entre a professora e os alunos no que tange à criação de um ambiente propício para uma aula educativa. As entradas da professora na sala de aula são marcadas pela desordem e agitação dos alunos em sala de aula. A sala de aula não é organizada de uma maneira que permita a lida efetiva com o conhecimento. A organização da turma é uma disposição fundamental que o professor instaure uma aula educativa, que em seu cerne possibilite a lida com o conhecimento e a instauração da prática pedagógica. A desorganização da turma incide diretamente na qualidade da aula, pois a prática educativa não se efetiva, o que compromete sobremaneira a formação dos educandos. Um ambiente pedagógico tumultuado é impeditivo da reflexão. Outro aspecto revelado pela aula em sua materialização foram ações de disciplinamento que ora tendiam ao autoritarismo, ora tendiam à ironia sarcástica. A ironia e o sarcasmo são, antes de tudo, duas formas de disciplinamento que não educam para a ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 819 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino autonomia, causam constrangimento e educam por imposição, o que resulta em adestramento e não em autonomia. Elas podem ser entendidas como uma forma dissimulada de dominação, de punição. O professor já não precisa mais chamar seu aluno de “burro" na frente dos outros. Basta fazer um comentário jocoso em tom sarcástico. Doravante o riso nervoso de identificação da plateia denotará o temor de se tornar a próxima vítima (ZUIN, 2008, p. 6). As aulas mostraram que a professora conhece os alunos, pois quando os chama individualmente, chama-os pelo nome. Nessa evidência deve ser destacado que ela assume sua função educativa, ela quer ser referência para a classe, pois essa atitude pode ser entendida não apenas como “eu conheço vocês”, mas também como “eu estou aqui para trabalhar com vocês”. Em muitos momentos percebem-se tentativas de disciplinamento da professora. Esse disciplinamento oscila entre o autoritarismo e a camaradagem excessiva. Em ambos os casos a professora tem dificuldade em naturalizar o seu papel de autoridade. As ações denotativas de autoritarismo remetem a uma sociedade onde a autoridade é pautada pela força e não pela natureza do papel de educador, que media o processo pedagógico. Já as ações denotativas da camaradagem excessiva destituem o professor da sua função pedagógica, uma vez que essa aproximação também não corrobora para o estabelecimento da sua autoridade enquanto organizador das praticas pedagógicas na sala de aula. O professor não deve fazer da sala de aula um local de práticas totalitárias, mas também não deve abrir mão do seu papel de educador. O professor deve conhecer o seu ofício de professor e levar o aluno a conhecer o seu ofício de aluno. Educar consiste em levar o educando à compreensão que ele é um ser social, inserido em uma coletividade, na qual condutas apropriadas, normas e regras devem se tornar intrínsecas. As aulas se revelaram confusas no que concerne a lida com o conhecimento A sala de aula se tornou o lugar da proliferação do senso comum, de informações equivocadas e desconexas, o substrato histórico se perdeu em maio a explicações reducionistas e superficiais. Não existe docência sem conhecimento teórico. O conhecimento histórico se ausentou da sala de aula. A crítica, a problematização, a reflexão acerca das relações sociais produzidas pelo homem se perderam em explanações reducionistas e análises superficiais. Evidenciou-se uma situação de fazer pelo fazer, apresentar um trabalho por apresentar, ganhar o visto em uma atividade se tornou mais importante que aprender, compreender e refletir. Os alunos não são levados a pensar, de experenciar o conhecimento. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 820 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Mas aquilo que caracteriza propriamente a consciência é o pensar em relação à realidade, ao conteúdo – a relação entre as formas e estruturas de pensamento do sujeito e aquilo que este não é. Este sentido mais profundo de consciência ou faculdade de pensar não é apenas o desenvolvimento lógico e formal, mas ele corresponde literalmente à capacidade de fazer experiências. Eu diria que pensar é o mesmo que fazer experiências intelectuais. Nesta medida e nos termos que procuramos expor, a educação para a experiência é idêntica à educação para emancipação. (ADORNO, 2011b, p 151). As aulas também evidenciam momentos explícitos de não aula. A professora abre mão da sua posição enquanto mediadora do conhecimento para participar de conversas com os alunos acerca de temáticas não relevantes para uma aula de história. O facebook, vídeos, esmalte se tornam pauta do dialogo entre professoras e alunas. Os alunos dessa forma são privados da lida com o conhecimento, e impedidos de se constituírem como sujeitos autônomos. Tal fato se traduz como a materialização de negação da educação e do conhecimento na sala de aula que deveria ser o lócus primaz da formação se torna local da reprodução da semiformação, da barbárie. Brincadeiras e comentários homofóbicos partem da própria professora, que chama os homossexuais de “bufas”. A aula de história que deveria fomentar a alteridade, a pluralidade e o respeito à alteridade se torna o lugar da disseminação de preconceitos, estereótipos e termos jocosos. Onde não há formação, há semiformação. A banalização do preconceito é um aporte para a barbárie para a proliferação da insensibilidade. As aulas analisadas não evidenciaram princípios fomentadores da cidadania, da liberdade, e de autonomia que fundamentam o currículo de história. Informações equivocadas, a não organização da turma, os erros de linguagem, o reducionismo do processo histórico são recorrentes nas aulas analisadas. A professora se omite enquanto aquela que educa, que ensina e que forma. Os educandos não experenciam o conhecimento, o que incide negativamente na formação cidadão e democrática dos mesmos. Uma aula ao não criar condições para experiência, para a reflexão e para a produção de conhecimento se torna uma aula inócua, que não possibilita o esclarecimento e a autonomia. Dessa forma a sala de aula, a escola se tornam lugares onde o processo pedagógico não se efetiva. A escola reforça a heteronomia e confirma a ideia de ser um lugar de semiformação a partir do momento que deixa de criar condições para o desenvolvimento de alunos autônomos e mantém o controle da situação por meio da execução de tarefas cujos fins já estão estabelecidos; para atender o desejo do professor ou para obter nota. (VILELA, 2012, p. 177). ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 821 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Nas aulas analisadas a sala de aula se transforma no lugar da negação do conhecimento. Evidencia-se que as informações trabalhadas na sala de aula incorrem em “[...] concepções ultrapassadas sob parcelas ou tópicos concretos, ou se vê a insistência em aspectos irrelevantes para a própria área do conhecimento ou para a experiência do aluno” (SACRSITAN, 2000, 183). O conhecimento histórico é transformado em cenas, em espectros que não denotam a importância do fazer humano, das relações sociais intrínsecas, dos arranjos políticos, das formas de organização econômica e da produção cultural. O aluno se torna um expectador, e como expectador não consegue se enxergar como parte integrante do processo histórico, mas sim como algo extrínseco, como um ente a parte da História. A aula de Historia não oferece assim, os substratos educativos para a cidadania que tal como está preconizado nas orientações curriculares para a disciplina. Não se pode encerrar essa conclusão sem chamar atenção para um aspecto que parece grave: a sala de aula não é a referência para que os alunos incorporem formas corretas de lidar com o idioma nacional. Os equívocos linguísticos por parte de professor e alunos são patentes. A sala de aula deveria ser o local de fomento do idioma falado corretamente. Considerações finais A percepção da experiência educacional é aguçada a partir da vivência prática. Mais do que uma proposição retórica, as práticas curriculares educacionais devem permitir em sua materialização a autonomia e a humanização do sujeito, que por meio do dialogo crítico, da reflexão que promove a emancipação. Bem, dessa forma a educação deve objetivar a liberdade e a promoção da capacidade de reflexão crítica e emancipação dos indivíduos. A educação deveria então se configurar como ferramenta para a humanização, contra a massificação e a alienação, promovendo a formação cidadãos plenos, esclarecidos preparados para a vivência democrática. Um projeto educacional não é nada mais do que a materialização coletiva de experiências pedagógicas que possam permitir ao educando um aprendizado crítico e reflexivo. Para que isso ocorra é necessário que a sala de aula seja o local da problematização do empoderamento dos educandos, da sua condição de sujeitos autônomos e também da cultura, esta entendida como conhecimento cultural, social, linguístico e disciplinar. Qualquer experiência educacional verticalizada, e tutelada pelo professor de forma autoritária, está fadada ao fracasso. É necessário conferir poder aos educandos. Um currículo que objetiva promover a cidadania e a democracia em seu nascedouro precisa ser fruto de ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 822 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino uma prática educativa que prime pela educação, pelo ensino e pela formação, apenas assim a educação concretizará a formação de sujeitos autônomos. O ensino de História deve levar os educandos a se perceberem como sujeitos históricos. Para isso faz-se necessária uma práxis curricular reflexiva e emancipadora, que permita aos alunos se compreenderem enquanto sujeitos históricos, enquanto construtores da História. A História não pode ser enxergada a partir de um viés contemplativo, na qual fatos e eventos históricos são apresentados aos alunos como ventos distantes, desconexos com a realidade. Na sala de aula o aluno precisa ser levado a pensar, a refletir sobre a tradição cultural produzida através das relações sociais, políticas e econômicas, mediante o fazer humano. Uma aula de História formativa é pautada por ações dialéticas e dialógicas, que permitem ao aluno entender o constructo do processo histórico. Do contrario a aula de História incorre na debilitação dos processos de subjetivação acerca do conhecimento o que, corrobora para a massificação, a alienação e a semiformação. O desenvolvimento do pensamento crítico dessa maneira é dificultado uma vez que ao invés da autonomia, promovese na sala de aula a repetição discursos esvaziados de arcabouço teórico que tolhem e cerceiam o indivíduo em sua autonomia, promovendo a reificação, a semiformação e a reprodução do status quo. Repetir o status quo é contribuir para a semiformação, mas a alienação massificante da Indústria Cultural. A escola ao se tornar o local da massificação alienante, da semiformação perde seu sentido social de local de formação, de local onde os indivíduos são preparados para a sua inserção responsável na coletividade. A Bildung não se materializa porque e a tríade educar, ensinar e formar não se evidencia como fundamento da prática pedagógica. Privar o sujeito de uma formação plena é impedir o fomento da cidadania e da democracia. Para que a Bildung se materialize de forma pertinente é necessário desmitificar a falácia da relação unívoca entre ensinar e aprender. Ora, o aprendizado de fato se dá por meio de um processo intrínseco de subjetivação, no qual a informação a partir da reflexão do indivíduo se transforma em conhecimento. A simples transmissão de informações pelo professor não significa um aprendizado real por parte dos educandos. Faz-se necessário que o professor entenda o ofício de ser professor. Ser professor é, sobretudo, criar um ambiente pedagógico que propicie a lida com o conhecimento, e não há conhecimento sem subjetivação, sem reflexão. A sala de aula tem se tornado o lugar da explanação vazia, da enxurrada de informações, muitas vezes calcadas no senso comum não problematizadas, onde de fato a reflexão e a crítica são substituídas pelo fazer inócuo, onde entregar uma atividade, ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 823 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino se torna mais importante do que entende-la. Quando o professor não reflete sobre sua prática, o processo educativo não acontece. Perde-se o cerne da formação, e a sala de aula se torna o lugar da não aula. A sala de aula de história precisa ser o lugar de produção de cidadão, do sujeito pleno capaz de traçar seus próprios esquematismos, capaz de pensar por si mesmo. É nesta sala de aula que a Bildung é efetivada, onde o aluno deixa de ser um ente meramente contemplativo, e passa a compreender a importância da reflexão acerca da realidade histórica. Uma pergunta se faz pertinente. O que seria esta realidade? Ora, não se pode conceber a realidade como algo restrito simplório, linear e contemplativo. A realidade é construída mediante experiências que subjetivas e coletivas, através da ação humana no tempo. O desenvolvimento dessa percepção na sala de aula é que permitirá ao educando a sua inflexão enquanto sujeito histórico. A prática pedagógica em uma aula de História deve ser sempre formativa, sempre democrática, pois somente dessa maneira forma-se o cidadão pleno e emancipado. Apenas o cidadão pleno, capaz de refletir acerca da sociedade em que está inserido pode compreender e experenciar a efetiva democracia A premissa fundamental de educação precisa ser a formação de cidadão esclarecidos, prontos para atuar em uma sociedade democrática. Não se nasce cidadão, torna-se cidadão Uma consciência cidadã verdadeira só pode ser forjada a partir de uma experiência educacional formativa, em que a educação, o ensino e a formação, não sejam trabalhados como conceitos dispares, mas sim como constituintes norteadores de uma aula educativa. Uma educação potencialmente democrática deve propiciar ao educando prerrogativas para que ele se torne mentor e agente do seu próprio projeto. O indivíduo ao experenciar a História no entendimento do seu constructo social entende que o conhecimento histórico não é dogmático, mas sim produzido a partir de uma miríade de simbologias e representações. O educando precisa perceber que um evento histórico no seu âmago político econômico e cultural, pode ser interpretado das mais diversas formas, levando-se em conta várias perspectivas. O entendimento dos diversos fatores que incidem e permeiam a construção do conhecimento histórico é condição básica para a ruptura da semiformação em prol da formação. 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ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 825 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O CURRÍCULO E O ENSINO DA DISCIPLINA DE FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO: ALGUNS APONTAMENTOS Yvisson Gomes dos Santos34 RESUMO Pretende-se neste artigo comentar sobre o currículo e o ensino da disciplina de filosofia no ensino médio. Deve-se pontuar que o objetivo é ratificar a importância do pensar filosóficoracional como inerente a essa disciplina. O professor de filosofia deve compreender que existe uma dialética no ato do ensinar filosofia, o que se convencionou chamar, neste texto, de “relação dual”. O currículo é uma ferramenta imprescindível para articular os conhecimentos filosóficos dentro do espaço escolar e dessa dialogicidade. Não se deixou de frisar sobre o que é esse currículo e as teorias que advogam sobre o mesmo, bem como de pensar as OCNS (Orientações Curriculares para o Ensino Médio) e os PCNS (Parâmetros Curriculares para o Ensino Médio) como documentos que objetivam a criticidade do aluno de filosofia do ensino médio. PALAVRAS-CHAVE: Filosofia. Ensino. Currículo. ABSTRACT This article aims to review the curriculum and the teaching of the discipline of philosophy in high school. One should point out that the goal is to confirm the importance of philosophical thinking-rational as inherent to this discipline. The philosophy teacher must understand that there is a dialectic in the act of teaching philosophy, what is called, in this text, "dual relationship." The curriculum is an essential tool to articulate philosophical knowledge within the school and this dialogical. Do not let the stress of what is this curriculum and theories that advocate about it and thinking about the OCNS (Curriculum Guidelines for Secondary Education) and (PCNS Curriculum for High School) as documents that aim to criticality philosophy student high school KEYWORDS: Philosophy. Education. Curriculum. 34 Mestrando em Educação – PPGE/CEDU/UFAL. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 826 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino 1-INTRODUÇÃO Pretende-se neste artigo comentar sobre o currículo e o ensino da disciplina de filosofia no ensino médio. Deve-se pontuar que o objetivo é ratificar a importância do pensar filosófico-racional como inerente a essa disciplina. O professor de filosofia deve compreender que existe uma dialética no ato do ensinar filosofia, o que se convencionou chamar, neste texto, de “relação dual”. O currículo é uma ferramenta imprescindível para articular os conhecimentos filosóficos dentro do espaço escolar e dessa dialogicidade. Não se deixou de frisar sobre o que é esse currículo e as teorias que advogam sobre o mesmo, bem como de pensar as OCNS (Orientações Curriculares para o Ensino Médio) e os PCNS (Parâmetros Curriculares para o Ensino Médio) como documentos que objetivam a criticidade do aluno de filosofia do ensino médio. 2- ALGUMAS OBSERVAÇÕES ACERCA DA FILOSOFIA E DE SEU ENSINO Para pensarmos sobre o currículo com suas definições e teorias, precisamos, inicialmente, falarmos sobre a filosofia. Ela, enquanto disciplina do ensino médio, tem obtido visibilidade por ser uma disciplina praticamente recém-retomada ao currículo do ensino médio, e com conteúdo exigente. A filosofia requer tanto do professor, quanto do aluno, certa expectativa. E qual (is) expectativa (s) seria (m) essa (s)? A primeira ideia seria do próprio ato do pensar como racional, devendo ser ele esgarçado, esquadrinhado e promovido aos que se utilizam desta disciplina. Pensar filosoficamente requer argumento, crítica, emancipação, reflexão, raciocínio dedutivo e indutivo, isso só para citar alguns elementos pertinentes à filosofia, ou que nascem dela enquanto construto dialógico. Precisamos pensar sobre essa dialogicidade que é inerente a docência: o lidar do professor com seu aluno na sala de aula. Falamos nesse momento de dialogia. A definição dessa palavra perpassa por outra: a dialética. E o que é a dialética? Ela é a “arte do diálogo para atingir a verdade. 2. Desenvolvimento do pensamento por tese, antítese e síntese” (LAROUSSE, 1992: 357). Desta sorte, podemos definir a dialética como uma “relação dual”, causa dos diálogos filosóficos extemporâneos e contemporâneos que são circunscritos através do pensamento racional (tese, antítese e síntese), e instrumentalizados pelo professor de filosofia, bem como pelo aluno no seu processo de aprendizagem. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 827 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Sabe-se que a palavra filosofia vem do grego que significa “amizade a sabedoria”, e um pouco a mais: A palavra philosophía diz-nos que a filosofia é algo que pela primeira vez e antes de tudo vinca a existência do mundo grego [...] Por que? Porque a ‘filosofia’ é grega em sua essência – e que grego aqui significa: a filosofia é nas origens de sua essência de tal natureza que ela primeiro se apoderou do mundo grego e só dele, usando-o para se desenvolver (HEIDEGGER, [1957] 2000: 29) O filósofo ou o professor de filosofia é amigo da sabedoria. Essa definição nasceu dos gregos pré-socráticos, pois a filosofia em sua essência é grega. Para eles a sabedoria ou, sendo mais específico, o sábio, falava pela razão, emitia ideias que eram nascidas do logos. Daí os termos dialogicidade e lógica serem da mesma raiz etimológica. Ressaltamos que este período em que os helênicos falavam da filosofia dos sábios era um período de gênese, onde o lugar da razão ganharia outra consideração logo após o término do período pré-socrático. E qual momento foi esse? O período socrático ou antropológico. Como professores ou futuros professores, o lidar com a educação enquanto práxis comunga ainda, em certa medida, desse momento histórico e pedagógico. É uma retomada a Paideia grega revisitada no saber/fazer da relação dual. Vamos explicar. Para os pré-socráticos tudo nascia da física ou como acreditavam: tudo provinha de algo material. O termo em grego para essa materialidade era phisys: a água, o ar, o fogo eram elementos que compunham a totalidade do universo. Entretanto, com o viés socrático o homem ganhou uma nuance diferenciada. Nesse instante, a física tornou-se um elemento a ser estudado, mas não com a relevância teórica de antes. O homem agora fazia parte da centralidade. E esse homem era visto pelo foco da razão, contudo de uma razão que partilhava questionamentos, argumentos, aporias, pois para ele ser um ser político, aquele que nascia na cidade ou na pólis, necessitavase da razão como artifício primordial à sua cidadania. Agora surge um novo apontamento. O modo de aprender, a forma de conceber a arte do ensino, passava pela via do parto das ideias. Essa terminologia nasceu dos diálogos de Platão com respeito ao seu preceptor, Sócrates. Nesse momento, podemos cotejar que com a dialética nasce o diálogo, e mais: o ser humano estabeleceu, igualmente, a linguagem como devedora da razão. E com esse movimento erigiu-se a antropologia filosófica, e tudo que veio após esse período é remanescente desse modo de ensino e da visão de mundo socrática. Falamos em uma dívida ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 828 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino que nossa ideia de pensar filosofia e ensiná-la, em certa medida, ainda depende necessariamente daquela antropologia filosófica. Na atualidade ela é válida (Cf. RAMOS-DEOLIVEIRA, 2004). O lecionar passou por diversas modificações: de um ensino individual à praça grega (ágora) e depois à academia. O ideário grego era de estabelecer com o ensino a permanência de uma cumplicidade dialógica entre alunos e professores sobre as inquietações inerentes ao pensar filosófico, a saber: a ética, o belo, a política, a verdade, dentre outros. Agora voltemos ao currículo de filosofia. Ele tem endereço através dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNS) e das Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCNS). Alguns elementos como o pensamento reflexivo, a crítica, a razão são explicitados nos mesmos. E já os pontuamos de passagem nas páginas acima. Antes de comentarmos sobre o currículo da filosofia propriamente dito, precisaremos definir o que vem a ser o currículo e seus tipos de teorias para, desta feita, compreendermos o currículo da disciplina de filosofia. 3- O CURRÍCULO E SUAS TEORIAS: INVESTIGAÇÕES CONCEITUAIS Definir o currículo na atualidade requer algumas observações. Podemos dizer que ele se trata de um material impresso que traduz as necessidades iminentes de uma determinada disciplina escolar. Esse tipo de viés esconde outro que pode ser a de um currículo que a sua oficialidade seja sobrepujada pela prática. Professores podem ter como orientação um determinado parâmetro curricular, mas na práxis atuar de forma diferente. Não há crítica negativa quanto a isso, pois a ideia de maleabilidade curricular é-nos importante. Ele é um organismo vivo que não deve ser segregador nem tampouco alienado ou viciado, no sentido de escamotear uma ideologia não emancipadora e também não inclusiva. Concordamos com Sacristán quando este diz: O currículo é uma práxis antes que um objeto estático emanado de um modelo coerente de pensar a educação ou as aprendizagens necessárias das crianças e dos jovens, que tampouco se esgota na parte explicita do projeto de socialização cultural nas escolas. É uma prática, expressão, da função socializadora e cultural que determinada instituição tem, que reagrupa em torno dele uma série de subsistemas ou práticas diversas, entre as quais se encontra a prática pedagógica desenvolvida em instituições escolares que comumente chamamos de ensino. O currículo é uma prática na qual se estabelece diálogo, por assim dizer, entre agentes sociais, elementos técnicos, alunos que reagem frente a ele, professores que o modelam. (SACRISTÁN, 2000:15-16). ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 829 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Podemos aferir que o currículo possui um modelo dialógico, e que este modelo se traduz tanto em uma dada realidade social em que o currículo se constrói ou está inserido, quanto na práxis de professores dentro das suas regências. O objetivo daquilo que está escrito (oficial) do que está sendo praticado tem um único sentido: de buscar uma relação de ensino que comungue a teoria e a prática de modo satisfatório dentro do espaço escolar. O currículo, também, tem um significado importante em nossa sociedade atual. Sendo relevante frisar que “a questão curricular como um processo social [...] se realiza no espaço concreto da escola e que deve garantir, aos sujeitos envolvidos, [...] a sua inserção na instituição histórico-social” (BURNHAM, 1993:27). A escola deve proporcionar a inclusão social de seus alunos. Sabemos que a construção dessa instituição tem um caráter histórico-social, e não indo muito longe, esse mesmo caráter histórico-social trafega por diversas ideologias. Uma delas parte da concepção do materialismo dialético, como pensavam Marx & Engels, na qual a construção social do indivíduo remete-nos ao processo de alienação da lógica do capital. Ou seja: o produto criado assujeita o seu criador (Cf. CHAUI, 1977). Passemos agora as teorias do currículo. Na literatura pedagógica, encontramos teorias do currículo em alguns comentadores (Cf. MOREIRA, 2013; PERRNOUD, 2000). Entretanto, recorremos a um autor específico, Tomaz Silva, no qual descreveu de forma didática as teorias do currículo. São elas: as teorias tradicionais, as teorias críticas e as teorias pós-criticas. Para não tornar cansativo, mas agradável a leitura, pontuaremos essas teorias individualmente em forma de síntese para melhor compreensão. Frisa-se que foi feita uma súmula dessas teorias, obtidas graças à leitura do livro Teorias do Currículo: uma introdução (Cf. SILVA, 2000). Vamos a elas. As teorias tradicionais são identificadas com os seguintes autores e definições: “Perspectiva de John Franklin Bobbitt: Influência de Taylor; Funcionamento da economia; Estabelecimento de padrões; Questão da organização; Currículo como uma mecânica; Currículo como uma questão técnica; Estabelecimento de padrões. Perspectivas de John Dewey: Construção da democracia” (SILVA, 2000: 16-24). Já na teoria crítica temos: “Perspectiva neomarxista de Michael Apple: Conexão entre a organização da economia e organização do currículo mediado pela ação humana; Economia e cultura; A hegemonia permite visualizar o campo social como um campo contestado; Relação de interesse entorno do currículo, sobretudo pelas formas pelas quais certos conhecimentos ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 830 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino são considerados como sendo legítimos; O currículo oculto e o currículo explícito; O conhecimento técnico; Currículo e poder; Reprodução cultura e social” (SILVA, 2000: 26-65). E por fim as teorias pós-críticas: “Multiculturalismo nas teorias pós-críticas: O multiculturalismo é um movimento legítimo de reivindicação dos grupos culturais dominados no interior de países americanos e europeus que tiveram as suas formas culturais reconhecidas e representadas na cultura nacional. O multiculturalismo está dividido entre a concepção pós-estruturalista e uma concepção que se poderia chamar de materialista. Concepção pós-estruturalista, a diferença é essencialmente um processo linguístico e discursivo: o diferente e o não diferente. Mulheres, negros, gays e estrangeiros são temas do movimento multiculturalista” (SILVA, 2000: 87-154). Nessa síntese, notamos que existem disparidades conceituais e práticas entre as teorias citadas. A teoria tradicional como sendo aquela que funda o currículo em uma metodologia de viés técnico e tayloista. A teoria crítica passa por uma visão neomarxista e se estabelece como sendo aquela que delimita currículos explícitos e ocultos, bem como ressalta o aspecto da reprodução social do currículo. Já as teorias pós-críticas se utilizam de uma multiculturalidade que perpassa desde a análise discursiva, até a estudos de grupos considerados historicamente excluídos como os gays, as mulheres, os negros etc. A priori, podemos dizer que o aspecto vertical desses tipos de teorias nos faz pensar em um processo positivista do currículo. E isso é enganoso a nosso ver, pois uma escola pode sustentar o currículo na forma tradicional, mas endossar elementos pós-críticos ao mesmo. Agora, passemos as considerações que versarão nossa pesquisa sobre o currículo de filosofia. São elas: o que tem de mais representativo no currículo de filosofia que poderia ser articulado com tudo o que falamos até agora? Como se dão as concepções precípuas desse currículo em consonância com exigências do MEC no tocante as caracterizações do ato de filosofar? E quais os desmembramentos desse ato de filosofar dentro das OCNS e dos PCNS? Responder-se-ão. 4- O CURRÍCULO DE FILOFOFIA: ALGUNS APONTAMENTOS Um levante se fez na soma de esforços para fazer com que a disciplina de filosofia se tornasse obrigatória. E isso de fato aconteceu em 2006 pelo parecer CNE/CEB38/2006. Essa obrigatoriedade da mesma, bem como da sociologia, entendemos no sentido de retomar uma dívida com a educação no Brasil, pois esta educação se afastara dos fundamentos básicos de uma visão crítica de mundo: o questionar-se, o argumentar, o refletir ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 831 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino foram colocados na marginalidade, pois eles representavam ameaças ao status quo reacionário e ditatorial do Brasil dos anos sessenta do século passado. A filosofia ganhou uma roupagem docilizada, o período de “degredo” da mesma caracterizada por disciplinas como OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e Moral e Cívica, remanescentes dos anos de Ditadura Militar, descaracterizou a disciplina de filosofia que era aquela que produzia uma construção social libertária e educacional crítica ao aluno, e que é, na atualidade, de extrema relevância a nós, estudiosos da filosofia e da educação. A ideia de que com a filosofia o homem começaria a pensar não mais como colonizado, remetem-nos a afirmação de Renato Ortiz: Esse fato [...] marca uma etapa da sociedade brasileira onde se torna impossível retornarmos à antiga oposição colonizador/colonizado com a qual estávamos habituados a operar, a menos, é claro, que queiramos confundir a ideia de realização da liberdade com as formas de dominação da sociedade industrial ‘nacional’ (ORTIZ, 1991: 206). Faço uma metalinguagem ao afirmar que o dominador (portugueses setecentistas ditadura militar, latifundiários, dentre outros) da educação se arrefeceu com a chegada definitiva da disciplina de filosofia no ensino médio. Pelo menos essa tem sido a nossa aposta. Agora, o que se deu no ensino de filosofia nos períodos que antecederam a sua obrigatoriedade? Sabemos que nosso Brasil passou pela comitiva jesuítica, e com ela a cultura educacional religiosa atracou aqui. Ou seja: A filosofia veio para o Brasil com os jesuítas. Inicialmente revê um caráter messiânico, confundindo-se com a instrução e catequese e tendo como principal finalidade fortalecer a Igreja Católica contra os heréticos e infiéis, isto é, convencer a população indígena e africana ao cristianismo e reconduzir o colono ‘desgarrado’, uma vez que não raramente ele aqui chegava como degredado (HORN, 2001: 18). Esse aspecto vai mudando com o passar das décadas seiscentistas, havendo posteriormente a expulsão dos jesuítas através da reforma pombalina. Com o fortalecimento dos Estados Modernos e Proclamação da Independência objetivou-se a implementação de um projeto civilizatório (Cf. FILHO, 2009: 20-12). Desdobrou-se depois a Independência do Brasil e em seguida a República com suas diversas Constituições Federais, chegando ao Estado Democrático de Direito que finalmente veio a culminar com a criação da LDB/1996 e a obrigatoriedade da disciplina de filosofia. Mediante essa rápida historicização do ensino de filosofia, agora resta-nos saber dos PCNS e OCNS para a disciplina de filosofia. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 832 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino As Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCNS) dizem que: o currículo é a expressão dinâmica do conceito que a escola e o sistema de ensino têm sobre o desenvolvimento dos seus alunos e que se propõe a realizar com e para eles. Portanto, qualquer orientação que se apresente não pode chegar à equipe docente quanto ao trabalho a ser feito (BRASIL, 2006: 9). Nesse entendimento, e continuando com o referido documento “a política curricular deve ser entendida como expressão de uma política cultural, na medida em que seleciona conteúdos e práticas de uma dada cultura para serem trabalhados no interior da instituição escolar” (BRASIL, 2006: 8). O professor de filosofia deve compreender, mediante as OCNS, que os conteúdos de filosofia devem ser trabalhados não somente pelas conceituações filosóficas, mas também na perspectiva de como a cultura e a política do entorno social, nas quais o docente e o aluno se encontram, são afetados por suas realidades particulares de vida e de conhecimento empírico. Nas OCNS qual será o objetivo da disciplina de filosofia aos alunos do ensino médio? Cita-se o documento: Não é apenas propiciar ao aluno um mero enriquecimento intelectual. Ela é parte de uma proposta de ensino que pretende desenvolver no aluno a capacidade para responder, lançando mão dos conhecimentos adquiridos, as questões advindas das mais variadas situações. Essa capacidade de resposta deve ultrapassar a mera repetição de informações adquiridas, mas, ao mesmo tempo, apoiar-se em conhecimentos prévios (BRASIL, 2006: 29). Essa capacidade de desenvolver não somente a intelecção é notável e inerente ao currículo da filosofia, mas que os conteúdos filosóficos sejam a saída e o retorno para se pensar a mesma. Claro que os elementos acidentais, tais como fatores sócio-culturais, regionais e políticos poderão intervir na disciplina de filosofia. Essa intervenção deve ser permitida e ela é necessária, mas que os alunos sempre tenham os conhecimentos prévios para alicerçarem a base de suas reflexões. Por exemplo: pode-se falar sobre o conceito de ética na concepção de Aristóteles e a partir da concepção do estagirita encontrar questões de como pensar o ser virtuoso. Dois exemplos: um aluno que rouba ou que espanca outros colegas seria virtuoso? Ou um professor procrastinador no transmitir conhecimento aos seus alunos, não estaria faltando com eticidade profissional? Essas perguntas remeteriam a diversas respostas, mas que o retorno fosse à filosofia de Aristóteles, como conclusão do debate. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 833 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Continuando com as ONCS, necessitaremos pensar com alguns rigores o que subscreve esse manual curricular com relação ao que o professor deverá expor em sala de aula aos seus alunos. Sabemos que estamos falando do currículo oficial, e em momentos anteriores aludimos que possa existir disparidades naquilo que se lê e naquilo que se pratica. O currículo deve ser maleável, mas o documento deve também ser existente, inscrito na consciência do docente como norteio, mas que, inevitavelmente, deva ser colocado na práxis com alguns ajustes, entretanto não podendo descaracterizá-lo em sua essência. Em um fragmento das OCNS, descrevem-se quais as competências que os alunos de filosofia necessitam saber sobre a mesma, e qual o modo de se pensar esta disciplina. São elas: 1º) Representação e comunicação: • ler textos filosóficos de modo significativo; • ler de modo filosófico textos de diferentes estruturas e registros; • elaborar por escrito o que foi apropriado de modo reflexivo; • debater, tomando uma posição, defendendo-a argumentativamente e mudando de posição em face de argumentos mais consistentes. 2º) Investigação e compreensão: • articular conhecimentos filosóficos e diferentes conteúdos e modos discursivos nas ciências naturais e humanas, nas artes e em outras produções culturais. 3º) Contextualização sociocultural: • contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no plano de sua origem específica quanto em outros planos: o pessoal-biográfico; o entorno sóciopolítico, histórico e cultural; o horizonte da sociedade científico-tecnológica (BRASIL, 2006: 33-34). Essas são as competências necessárias pelas quais os alunos deverão apreender através da relação dialética (professor e aluno) em sala de aula. Conseguindo essa articulação, o objetivo da disciplina estará concluído. Com os PCNS entendemos as competências para a filosofia através do pensamento reflexivo, racional e teórico como preponderantes, pois: Observadas as diferenças de intenção nas várias abordagens filosóficas, o conceito de reflexão, em geral, abarca duas dimensões distintas [...] a reconstrução (racional), quando o exame analítico se volta para as condições de possibilidade de competências cognitivas, lingüísticas e de ação. É nesse sentido que pode(m) ser entendida(s) a(s) lógica(s), a(s) teoria(s) do conhecimento, a(s) epistemologia(s) e todas as elaborações filosóficas que se esforçam para explicitar teoreticamente um saber préteórico que adquirimos à medida que nos exercitamos num dado sistema de regras; [e] a crítica, quando a reflexão se volta para os modelos de percepção e ação [...] (BRASIL, 2000: 47). Podemos pensar agora sobre o ato de filosofar. Tudo que está escrito nas OCNS e nos PCNS falam diretamente ou indiretamente desse ato filosófico que se dá pelo ensino de ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 834 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino filosofia, pois este ensino na atualidade “justifica-se plenamente na formação do adolescente, e sua presença faz-se absolutamente imprescindível no currículo do ensino que lhe é destinado (SEVERINO, 2009: 17). Ou seja, existe uma considerável importância dessa disciplina que advoga o saber, e que com este saber ou pensar filosófico encontramos uma postura conceitual que visa à formação crítica dos sujeitos da educação através de uma postura filosófica “que interessam não a uma determinada função em particular, mas a todas as pessoas que estão passando por um processo de inserção no mundo da cultura contemporânea” (SEVERINO, 2009: 19). O pensar filosófico é racional, reflexivo, emancipatório e crítico. E nos documentos do MEC pudemos observar que a criticidade é um tema importante para este pensar. Não basta somente ler textos filosóficos, mas compreendê-los e ampliá-los dentro do processo ideativo do aluno. E como esse mecanismo se dará se não for pelo pensamento crítico. Para que este pensamento exista de fato cabe ao professor ensiná-lo, estimulá-lo ao seu discente, pois o ensinar filosofia deve passar preponderantemente pelo senso crítico, no qual este: É metódico. Alem disso, manifesta-se como um patamar superior de compreensão da realidade [...] O que significa isso? Significa que o seu resultado, a sua explicação, explica significativamente o que é um fato, o que é uma situação [...] o senso crítico pode dar-se nos setores de estudos e pesquisas tanto intra quanto extra-escolares (LUCKESI & PASSOS, 2004: 4142). O senso crítico vai além do senso comum, pois este “é a compreensão da realidade constituída de um conjunto de opiniões, hábitos e formas de pensamento” (LUCKESI & PASSOS, 2004: 36), sendo apenas de ordem prática e não científica como é o pensamento crítico. À escola é exigido o pensamento crítico ou o senso crítico para o filosofar. De fato, com esse elemento se efetiva a construção do saber/fazer filosófico e do pensamento que advêm dele. O senso crítico é o mecanismo de se compreender como todas as competências expostas nas OCNS e nos PCNS devem ser construídas e pensadas. Pode-se dizer que a criticidade ajuda a concatenar a teoria e a prática de forma coerente. E ao professor do ensino médio da disciplina de filosofia cabe pensar e atuar na regência de suas aulas os conceitos filosóficos com seus alunos, objetivando o senso crítico e, também, por que não, a sua emancipação. 5- CONSIDERAÇÕES FINAIS ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 835 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Pode-se dizer que a filosofia é pensada como uma disciplina que desperta o senso crítico nos alunos, de modo que essa criticidade se manifesta no argumento, na reflexão, nos questionamentos através e pela razão. A filosofia é nascida da articulação da razão com a dialética nas quais ambas fazem com o que o professor de filosofia compreenda a imensa responsabilidade do ensino desta disciplina a seus alunos. A filosofia na atualidade ratifica a lembrança dos filósofos gregos em promover um ensino que versasse sob a tutela da razão. O professor é devedor desses filósofos, tendo como Sócrates, o pai da maiêutica, aquele que promoveu a centralidade do homem nas questões filosóficas. Graças à obrigatoriedade da disciplina de filosofia no Brasil, o currículo desta disciplina se mostrou inovador ao ensino médio através dos documentos do MEC (OCNS E PCNS). Esses documentos e, principalmente, as OCNS levam em conta as competências necessárias para os alunos que leem esta disciplina. Ou seja, ler e compreender filosoficamente requer a utilização do senso crítico para este intento. E observamos que a criticidade é fator preponderante para se saber/fazer filosofia. REFERÊNCIAS BRASIL/MEC. Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino médio – Ciências Humanas e suas tecnologias. Brasília, 2006. BRASIL/MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Brasília: 2000. BURNHAM, T. F. Currículo, trabalho e construção do conhecimento. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 1993. (Relatório de Pesquisa). CHAUÍ, M. 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Angélica Araújo de Melo Maia RESUMO Esse trabalho se dirige à discussão sobre que papel a categoria cidadania ocupa nas políticas curriculares do Brasil para o nível médio nos dias atuais. Busca-se investigar as representações da cidadania nos discursos dos PCN+ (2002) e das Orientações Nacionais para Ensino Médio para a disciplina Sociologia (2006), para em seguida sugerir as implicações dessas representações para o processo educativo como um todo e indicar abordagens educacionais alternativas da educação para a cidadania nesse nível de ensino. Palavras-chave: Política curricular – Ensino Médio – Educação para a cidadania THE CURRENT CURRICULUM POLICY FOR SECONDARY EDUCATION: TEACHING CITIZENSHIP OR EDUCATING FOR CITIZENSHIP? ABSTRACT This paper discusses the role of the category citizenship in the current curriculum policy for secondary education in Brazil. It aims at investigating how citizenship is framed in the discourses of the curriculum guidelines PCN+ (2002) and in the National Guidelines for Secondary Education with focus on the discipline Sociology (2006). Next, we suggest the implications of those framings for the educational process as a whole and we indicate alternative educational approaches for citizenship at that educational level. Keywords: Curriculum policy – Secondary education – Citizenship education. Cidadania e política curricular: um tema emergente Entre os elementos norteadores do ensino médio nas últimas diretrizes curriculares para o Ensino Médio (2012) e em documentos curriculares recentes para esse nível de ensino, destaca-se a educação voltada a levar os educandos ao pleno exercício da cidadania. Dentro dessa perspectiva o presente artigo se dirige à discussão sobre que papel a categoria cidadania ocupa nas políticas curriculares do Brasil para o nível médio nos dias atuais. É meu objetivo debater se os discursos de alguns documentos curriculares recentes tendem a representar a ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 838 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino cidadania simplesmente como um conteúdo a ser transmitido no processo educativo e aprendido pelos alunos, ou se, a cidadania apareceria relacionada a dimensões mais experienciais dos sujeitos, que ultrapassariam o significado de conhecimento construído especificamente dentro do contexto da educação formal. As maneiras de responder a essa questão nos permitirão avaliar até que ponto a cidadania é algo que possa ser de fato trabalhado dentro da educação formal e que pré-requisitos seriam necessários garantir para que essa categoria, mais do que um conteúdo a ser aprendido, se tornasse um princípio da educação como um todo, permitindo um processo de formação humana integral e que ultrapassasse os muros da escola. Em um primeiro momento, trago à tona algumas formas de se compreender a relação educação e cidadania nos dias atuais. Na segunda parte do trabalho, utilizo-me de trechos de documentos curriculares do Ensino Médio mencionados para explicitar como a cidadania tende a ser representada nos mesmos, para em seguida sugerir as implicações dessas representações para o processo educativo como um todo e indicar abordagens educacionais alternativas da educação para a cidadania nesse nível de ensino. Os documentos a serem analisados são as Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – PCN+ (2002) e as Orientações Curriculares para o Ensino Médio (2006). Opto por analisar os documentos, focando especificamente nas orientações para o ensino da disciplina Sociologia, por ser um componente curricular que envolve a educação para a cidadania de forma patente e diferenciada. Cidadania, ensino e educação A educação para a cidadania é um tema que atualmente ocupa uma crescente importância na agenda educacional não só do Brasil, mas de vários países do mundo, como apontam pesquisadores de renome nesse campo (WESTHEIMER & KAHNE, 2004; BIESTA, 2011; LEITE, FERNANDES & SILVA, 2013; FISCHMAN & HAAS, 2012; OSLER & STARKEY, 2006; entre outros). No Brasil, a educação para a cidadania, como tema específico e como campo do conhecimento, tem sido objeto de poucos estudos (SILVA, 2000). Conforme apontam Fischman e Haas (2012), a educação formal tem se preocupado de forma crescente com uma educação para a cidadania voltada para o fortalecimento da democracia, objetivando manter ou “aprofundar formas de processo e governança democrática” (p.442). Esses autores citam nomes como Rousseau, Dewey, e Paulo Freire entre ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 839 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino os estudiosos que defenderam a relevância da educação para a democracia em âmbito nacional ou internacional. Eles ainda ressaltam que o que está em jogo e aberto à discussão seria o melhor modelo a ser seguido pela educação para trabalhar esse tipo de objetivo pedagógico. A isso, eu acrescentaria que o que está em pauta é também a visão de democracia que se almeja e que é de fato o que informa as escolhas metodológicas e pedagógicas adotadas. Dentro dessa perspectiva, um primeiro questionamento que se apresenta seria: qual o sentido de se tratar a cidadania como um conteúdo (ou um conjunto de conteúdos) a serem ensinados? Parece-me que a maneira de responder a essa pergunta se articula diretamente com os objetivos que estão por trás da abordagem da cidadania no espaço escolar. De fato, nos dias atuais, a educação para a cidadania no âmbito educacional adota alguns modelos que, valorizando de forma geral a formação do bom cidadão, diferem sobre os sentidos que se atribuem às “virtudes cívicas” e também sobre as formas mais apropriadas para se desenvolver tais virtudes. Uma primeira tendência a ser destacada seria a abordagem tradicional da educação para a cidadania como conteúdos de ciência política a serem transmitidos a alunos, sobretudo aos de ensino secundário. Nessa perspectiva, que dominou a educação brasileira durante o período da ditadura militar, mas que muito antes já era aqui valorizada, educar o cidadão em um contexto escolar significava transmitir-lhe a estrutura formal das instituições políticas e as regras de comportamento que constituíam uma identidade cívica desejável para manter a estabilidade social. Era um modelo que tinha como objetivo tanto a consolidação de um projeto de nação, como a integração dos indivíduos em uma sociedade harmônica. O modelo de educação tecnocrática priorizava essa visão de educação cívica, integrada ao currículo escolar através das aulas de Educação Moral e Cívica. Com a redemocratização do país, a partir da década de 80, novos discursos e concepções sobre educação para a cidadania vão emergir na sociedade brasileira, tanto dentro como fora do espaço escolar. Nessa época, há uma tentativa de desenvolver no aluno através da educação, uma visão mais crítica da sua realidade através da problematização de questões ligadas ao fortalecimento do regime democrático, tais como: pobreza, injustiça social, exclusão. Segundo Silva (2000), desenvolvem-se ações em espaços educacionais alternativos, voltados para questões relacionadas com a valorização dos direitos humanos e justiça social. A autora identifica três campos em que iniciativas e projetos voltados para a educação cidadã emergem: ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 840 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino [...] nas Instituições Governamentais enquanto políticas educacionais, no campo das Organizações Não-Governamentais, com projetos localizados e direcionados, especialmente, para a educação informal, e nas instituições de ensino privado, com experiências pontuais (p.57). De uma forma geral, enquanto nas Organizações não governamentais, a educação para a cidadania se deu de forma mais crítica e comprometida com o ativismo social e o questionamento das situações de injustiça e de violação de direitos, no espaço escolar a situação é diferente. Na década de 1990, a educação para cidadania se desenvolve através de projetos educacionais implementados por sistemas educacionais no âmbito municipal e estadual, destacando-se algumas experiências, tais como: o Projeto Escola Legal, em Pernambuco, no governo Miguel Arraes (1995-1998), e o Projeto Escola Cidadã, na gestão municipal de Tarso Genro em Porto Alegre (1993-1996). Esses projetos revelam um esforço para se fortalecerem os processos democráticos dentro do espaço escolar, favorecendo a gestão democrática e transparente e a melhoria da qualidade da educação, por um lado, e uma cultura de valorização de direitos humanos dentro da escola, por outro (SILVA, 2000). A partir de 1998, com os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental, verifica-se o tratamento da cidadania como um tema transversal presente na política curricular do Brasil. Nessa proposta, a cidadania aparece como um tema que deveria perpassar os diferentes componentes curriculares, de forma a desenvolver nos alunos uma sensibilidade a questões de direitos e de atuação política. A presença da cidadania nos parâmetros, no entanto, ficou em uma dimensão bastante teórica, uma vez que, de fato, poucos professores tiveram acesso aos parâmetros ou, se tiveram, não incorporaram a cidadania como temática em suas práticas pedagógicas. Também nos documentos curriculares do Ensino Médio, a educação para a cidadania desde os anos 90 tem sido tratada como um tema que deveria estar no horizonte de todas as disciplinas. As últimas Diretrizes Curriculares Nacionais para esse nível de ensino (2012) definem, inclusive, a Educação em Direitos Humanos como tema transversal. Ao mesmo tempo, disciplinas como a Filosofia e Sociologia são incorporadas ao currículo como obrigatórias, com foco na cidadania. Com referência à Sociologia, a educação para cidadania aparece como um conteúdo fundamental, constituindo-se um campo disciplinar privilegiado para se estudar como vem ocorrendo a educação para a cidadania na educação formal. Tomando os documentos curriculares de Sociologia, a título de exemplo, observaremos no decorrer da análise documental que a educação para a cidadania, vai além ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 841 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino da mera assimilação de conteúdos da ciência política, pois se valoriza o desenvolvimento do senso crítico dos alunos, o debate de temas polêmicos, a discussão sobre o preconceito, a exclusão, a pobreza e o racismo, entre outros temas, embora na prática, esse viés crítico ainda esteja pouco presente. Proponho, assim, em termos gerais, uma categorização da educação para a cidadania, da forma como tem ocorrido no Brasil, mas também em outras realidades, focando em algumas pressuposições ou características que marcam distintas visões do que essa educação deve abranger. Vamos tratar da educação para a cidadania sob a ótica desenvolvimentista ou de formação de um cidadão pessoalmente responsável; sob a ótica da participação, com o enfrentamento das questões de injustiça social através da atuação política crítica; e finalmente a ótica da educação para a cidadania como processo que se dá cotidianamente através das vivências e experiências relacionadas com o espaço público que os alunos atravessam, cabendo ao processo educacional resgatar, problematizar e com base nessas experiências, conduzir os alunos a construírem um conhecimento dinâmico e aberto do que significa ser um cidadão. A elaboração desses modelos foi feita com base em categorizações anteriores propostas pelos pesquisadores canadenses Westheimer & Kahne (2004) e pelo pesquisador holandês Gert Biesta (2011). A perspectiva desenvolvimentista da educação para a cidadania relaciona-se com a visão presente em Marshall de que os jovens sujeitos desse processo são “cidadãos em construção” (MARSHALL, apud BIESTA, LAWY, KELLY, 2009, p.6, minha tradução). Dentro dessa perspectiva, a educação teria a função de oferecer a esses jovens o conjunto de habilidades que lhes falta para desempenharem o papel de cidadãos modelos e estabelecer uma sociedade estável quando os mesmos se tornarem adultos. No que se refere aos conteúdos da cidadania a serem abordados no processo educacional, essa perspectiva concebe o conhecimento cívico a ser transmitido como “conhecimentos das funções e estruturas do governo, atitudes conducentes a um comportamento político apropriado” e “um conjunto de ações que envolvem a participação na sociedade civil” (YOUNISS, BALES, CHRISTMAS-BEST, DIVERSI, MCLAUGHLIN & SILBEREISEN, 2002, p.124, minha tradução). Há uma ênfase na aquisição de competências cívicas, que permita às novas gerações continuar a desempenhar dentro do padrão estabelecido as responsabilidades cívicas das gerações anteriores. Percebe-se que mesmo reconhecendo que os conhecimentos a serem construídos pressupõem a atuação dos alunos e alunas em suas comunidades, a perspectiva ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 842 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino desenvolvimentista tem uma visão muito individualista do que são os papeis sociais a serem assumidos por esses jovens. Essa constatação é reafirmada em Biesta (2011), quando o autor se apropria da categorização de Westheimer & Kahne (2004) para exemplificar o que seria o cidadão pessoalmente responsável que se almeja através da educação para a cidadania dentro da perspectiva em questão. Ele é alguém que ... atua de forma responsável em sua comunidade, por exemplo, recolhendo lixo, doando sangue, reciclando, obedecendo às leis, e não contraindo dívidas. O cidadão pessoalmente responsável contribui com campanhas por comida e roupas quando solicitado e se apresenta como voluntário para ajudar os menos privilegiados, seja em uma distribuição de sopas ou em um centro para idosos. Programas que buscam desenvolver cidadãos pessoalmente responsáveis tentam construir o caráter e a responsabilidade social através da ênfase na honestidade, integridade, autodisciplina, e trabalho árduo. (WESTHEIMER & KAHNE, 2004, apud BIESTA, 2011, p. 29, minha tradução). Fazendo a correlação educação e ensino, acrescento que a visão desenvolvimentista descrita acima está mais preocupada com o ensino da cidadania enquanto conteúdo ou competência do que com uma educação para a cidadania que integre todas as dimensões do ser humano (e não só a cognitiva), fazendo a ponte entre as responsabilidades de ordem individual e o compromisso social e político do indivíduo. Uma visão distinta da educação para cidadania é aquela que enfoca questões de ativismo e engajamento político por parte dos educados e que, dessa forma, pressupõe um forte componente crítico-transformador. Os teóricos que discutem a educação para a cidadania nessa perspectiva empreendem uma crítica ao fato de os/as jovens estudantes serem considerados “cidadãos de segunda classe” por instituições de peso na sociedade, no sentido de serem eles representados como “consumidores passivos da vida cívica” (GINWRIGHT, CAMMAROTA, NOGUERA, 2005, p.25, minha tradução), e tendo pouco espaço nas arenas públicas de expressar suas representações e compreensões acerca da cidadania. Dentro da perspectiva crítica, aspectos como classe e raça tornam-se relevantes na articulação de práticas cidadãs enfatizadas através da educação. Esta teria, assim, o compromisso de criar possibilidades para os estudantes pobres e/ou excluídos por aspectos raciais ou de gênero de protestarem contra a injustiça e a discriminação e reivindicarem igualdade, justiça e participação na arena social (GINWRIGHT et al., 2005). Ao invés de serem representados como objetos da educação para a cidadania (como na abordagem desenvolvimentista), os alunos são considerados “agentes que têm o potencial de agir e, dessa forma, desempenhar um papel na transformação das condições dos bairros e ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 843 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino das comunidades nas quais vivem” (GINWRIGHT et al., 2005, p.33, minha tradução). Essa concepção de educação para a cidadania oferece ao jovem aluno uma função mais proativa e autônoma no processo educacional e os conhecimentos acerca da cidadania construídos se colocam como instrumentos de transformação social. Os recursos utilizados no espaço educacional para promover a construção do conhecimento por parte dos estudantes acerca do engajamento cívico-político reconhecem a capacidade de agência autônoma dos estudantes e assim não envolvem uma intervenção direcionada à padronização de alguns tipos de comportamentos. De outra forma, são usadas estratégias para encorajar os alunos a encontrar caminhos de representação e articulação de suas preocupações e demandas, bem como de proposição de possíveis soluções para aquelas questões que eles identificam como problemas sociais nas diferentes comunidades das quais fazem parte. Na terminologia de Westheimer e Kahne (2004) para categorizar diferentes programas de educação para a cidadania nos Estados Unidos, a abordagem crítica de educação para a cidadania envolveria aspectos tanto do que esses autores chamam da formação de cidadãos participativos, como do que eles definem como cidadania orientada para a justiça social. Para facilitar a compreensão da categorização proposta, e baseados no exemplo de Westheimer e Kanhe (2004, apud BIESTA, 2011) poderíamos dizer que enquanto na visão participativa, um objetivo da educação para cidadania seria promover a organização dos alunos em torno de uma campanha para arrecadar alimentos, dentro de uma visão de educação para a cidadania voltada para a justiça, um objetivo educacional comum seria o de questionar por que existem pessoas passando fome e, com base nas descobertas, elaborar propostas de ação para enfrentar o problema. Percebemos que as duas visões pressupõem uma agência participativa dos alunos, sendo que na segunda, há um maior comprometimento com a crítica social e com mudanças radicais. É importante ressaltar que enquanto a visão de educação para a cidadania do ponto de vista desenvolvimentista esteve e está bastante presente nos currículos da educação formal do Brasil em tempos recentes, a educação para a cidadania de caráter participativo e crítico se manifesta em projetos de educação informal, estando intimamente relacionada com a educação crítico libertadora proposta por Paulo Freire (2005), que defende e encoraja o ativismo político como resultado de um processo educacional de qualidade. Uma última perspectiva relevante da educação para a cidadania é aquela proposta por Gert Biesta (2011) e que aborda a cidadania como um processo construído e reconstruído ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 844 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino continuamente e que reflete as compreensões que os sujeitos adquirem sobre aspectos sociais, econômicos, sociais e políticos relacionados à vida pública e derivados das suas experiências cotidianas. Reconhecendo e valorizando a percepção de cada indivíduo no ato de atribuir sentidos à cidadania, essa abordagem educativa, em nossa concepção, tem muito mais valor do que simplesmente transmitir aos alunos que requisitos seriam necessários preencher para ser considerado um bom cidadão. Afinal de contas, cidadania não é um status a ser conquistado por quem assimila e incorpora em sua prática certos padrões de comportamento, mas sim uma forma de ser e estar no mundo que desde sempre transparece na existência dos indivíduos e que os mesmos negociam e representam de forma diferente, dependendo da situação e dos conflitos vivenciados. Alem da importância dos contextos, essa visão de educação para a cidadania enfatiza as relações e as disposições dos indivíduos como fatores que devem ser aproveitados no processo pedagógico em questão. No caso da influência das relações interpessoais na construção de sentidos para a cidadania, pode-se observar, por exemplo, que em várias realidades, mesmo que haja restrições a posturas cidadãs dentro de certos espaços institucionais, o estabelecimento de relações de amizade, cooperação, diálogo ou conflito entre sujeitos dentro e fora do contexto institucional permite a elaboração de leituras da realidade e de possibilidades de ação cidadã que diferem, e até vão além daquelas valorizadas nos discursos das instituições. Ao analisarmos por fim a influência das disposições individuais na construção dos significados de cidadania pelos alunos, identificamos que cada aluno ou aluna tem uma maneira peculiar de se colocar no contexto em que está inserido (a) e de se aproximar das pessoas com as quais se relaciona. Isso pode ser explicado pela bagagem de experiência que esses alunos acumulam ao longo de suas vidas e pelo impacto dos relacionamentos por eles vivenciados, fatores que geram sentidos que vão servir de referência na construção de novas experiências. Com Biesta et. al. (2009), argumentamos que é na confluência de contextos, relacionamentos e disposições que os alunos têm a possibilidade de construir sentidos para a cidadania de forma cotidiana, e em situações que se dão para além do ambiente escolar. Após a discussão dos modelos de educação para a cidadania apresentados, refiro-me aos sentidos de cidadania que transparecem em alguns documentos curriculares da realidade brasileira de Ensino Médio. A reflexão sobre que modelos dos acima mencionados tendem a predominar na política curricular nos permitirá traçar algumas considerações finais sobre ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 845 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino como a cidadania tem sido representada no ensino médio e que implicações essas representações teriam para o sistema educacional e para fortalecimento da democracia em nosso país. Sentidos de cidadania no Ensino Médio: o discurso de documentos curriculares Para discutir o significado que a cidadania adquire e sua relação com o processo educacional em documentos oficiais recentes do Ensino Médio, optei por concentrar as análises em dois documentos que se referem a tempos e âmbitos distintos, embora tenham em comum o fato de se referirem ao campo disciplinar específico da Sociologia. A escolha desse campo se justifica porque a cidadania ocupa um espaço privilegiado na matriz curricular e nos referenciais dessa disciplina de forma explícita, mais do que qualquer outra. Quanto aos documentos, os mesmos foram selecionados por serem representativos de momentos políticos específicos e âmbitos diversos. Assim, investigarei em âmbito nacional as Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – PCN+ (2002) e as Orientações Curriculares para o Ensino Médio (2006). Nos primeiros referenciais, os PCN+, observa-se primeiramente que a cidadania aparece relacionada a alguns elementos que parecem guiar a construção dessa categoria: “… as relações entre indivíduo e sociedade; as instituições sociais e o processo de socialização; a definição de sistemas sociais; a importância da participação política de indivíduos e de grupos; os sistemas de poder e os regimes políticos, as formas do Estado; a democracia; os direitos dos cidadãos; os movimentos sociais” (BRASIL, 2002, p.88). Esse trecho revela a conexão dos “direitos dos cidadãos” com uma variedade de outros aspectos, alguns dos quais parecem apontar para a valorização de uma identidade e postura política a serem adotadas pelos cidadãos em formação. Alem disso, esses aspectos não abrangem apenas a relação indivíduo-Estado, mas também a articulação dos sujeitos com diferentes grupos sociais. Em seguida, o documento associa a cidadania às noções de trabalho e cultura. A propósito da relação entre cidadania e trabalho, o trecho a seguir nos revela alguns importantes pressupostos: Ao participar politicamente, enquanto trabalhador e cidadão, o estudante está construindo sua identidade social e agindo para que uma sociedade mais democrática e solidária se fortaleça. Temos aqui a articulação entre as competências da Sociologia e o conceito estruturador da cidadania: ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 846 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino protagonismo juvenil voltado para a viabilização da cidadania plena (BRASIL, 2002, p.92). Ao articular a cidadania como uma competência, o documento reúne discursos ambivalentes sobre o papel do cidadão, sendo que uma dimensão da cidadania comprometida com o questionamento das relações de poder injustas é pouco enfatizada em favor da valorização do trabalho, sem haver o desvelamento do fato que a maior parte das desigualdades a serem transformadas, tanto de ordem econômica como cultural, não dependem simplesmente de uma inserção do mercado de trabalho. Além disso, a visão de competências está pautada em um discurso de cunho psicologizante que representa o fenômeno educacional primariamente como uma construção cognitiva dos sujeitos e que deve ser facilitada ao máximo pela intervenção pedagógica para que a aprendizagem ocorra (SARANDY, 2011). Dimensões sociais, culturais e políticas do processo educacional, são nesse sentido, colocadas em segundo plano pelo discurso das competências. A cidadania se coloca como um conjunto de conhecimentos a ser transmitido e adquirido pelos alunos, e não como uma categoria experiencial e que os próprios alunos têm possibilidade de construir e avaliar através da ação política. Fica evidente, assim que o discurso das competências que permeia esse documento se encaixa em uma visão de educação para a cidadania desenvolvimentista e preocupada com o desenvolvimento de habilidades cívicas que primordialmente corroborem com a melhoria da educação do ponto de vista da formação de sujeitos produtivos e trabalhadores. A participação política, nesse sentido, é valorizada como forma de contribuição do indivíduo ao desenvolvimento do país em todos os âmbitos e não há grande ênfase na ação política em termos de questionamento das decisões do Estado ou de lutas políticas. Outra relação que merece destaque é da cidadania e cultura. No documento, a cidadania se relaciona a uma abordagem que valoriza a dimensão da diversidade cultural. No entanto essa abordagem de cultura tem sido criticada por estudiosos como Macedo (2006), que afirma que ela tende a mascarar a diferença e ocultar as relações de poder entre diferentes processos de identificação cultural. O discurso de cidadania fundamentado nessa perspectiva prioriza um posicionamento político de conciliação da diferença cultural através da ação de compreender e valorizar o diferente, o que de certa forma oculta os possíveis conflitos culturais que informam a construção de visões de cidadania distintas. Com referência às Orientações Curriculares Nacionais para a Sociologia (2006), o aspecto que mais se destaca em relação à cidadania é o silêncio que se revela, uma vez que ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 847 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino essa categoria é pouco mencionada diretamente no texto. Vamos às possíveis interpretações desse fato. Como sugerido por Moraes (2009), uma possível explicação para a baixa ocorrência do termo cidadania nas orientações de 2006 para Sociologia pode ser atribuída ao fato de os sujeitos envolvidos na elaboração desse documento rejeitarem um sentido de cidadania pautado nos ideais iluministas da modernidade. Conforme esses ideais, a cidadania seria criticada por ser uma construção da burguesia para mascarar a contradição entre igualdade e liberdade que o sistema capitalista estabelece. Assim, Moraes sugere que, se situarmos o documento dentro de um contexto de atores ligados a perspectivas teóricas marxistas ou marxianas, é plausível que tais atores busquem evitar relacionar o ensino de sociologia a essa concepção burguesa de cidadania e por isso escolham não enfatizar esse significante no documento. Por outro lado, se observarmos a relação interdiscursiva entre os PCN+ de 2002 e os referenciais de 2006, torna-se importante o fato de que no primeiro documento, a cidadania é representada em função da inserção do mercado de trabalho, o que pode ter contribuído para a rejeição quanto ao uso dessa categoria no documento de 2006, uma vez que a mesma poderia evocar as mesmas relações de sentido do documento anterior. No entanto, isso não significa que não seja possível identificar ideias sobre cidadania ao longo do documento. Se os silêncios em torno dessa categoria me permitiram articular as inferências acima, mecanismos como a redescrição retórica viabilizam a relação entre alguns aspectos valorizados no documento e a cidadania. A redescrição retórica, segundo Questin Skinner (2002, apud HOWARTH, 2010, p.319) consiste em: substituir uma dada descrição avaliativa por um termo rival [ou termos rivais] que serve para representar a ação de uma forma não menos plausível, mas que serve ao mesmo tempo para enquadrá-la sob uma ótica moral contrastante. Você procura persuadir o seu público a aceitar sua nova descrição, e dessa forma, a adotar uma nova atitude em relação à ação em questão. A nossa segunda interferência analítica remete a expressões do campo do conteúdo das disciplinas que parecem cumprir a função de redescritores retóricos em relação à cidadania. O texto indica algumas funções a ser cumpridas pela Sociologia no Ensino Médio, a preparação dos jovens para o “exercício da cidadania” e a “desnaturalização” das concepções ou explicações dos fenômenos sociais. Quanto ao “exercício da cidadania”, o documento faz a relação metafórica entre essa expressão e um slogan ou clichê. Dessa, forma, busca-se rejeitar ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 848 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino a compreensão de cidadania como categoria simplesmente teórica e se procura relacionar essa categoria à dimensão da participação ativa na sociedade, daí o uso da palavra “exercício”. A função de “desnaturalização” apontada como fundamental dentro do ensino da disciplina, por sua vez, contribuiria para que os alunos pudessem abrir os olhos para a historicidade dos fenômenos sociais e perceber que grande parte deles atende a interesses específicos (p.106). Ainda assim, mesmo fazendo referência ao “exercício da cidadania” ou à “desnaturalização”, ambas as expressões constituem significantes vazios. Em nenhum momento, por exemplo, o documento faz referência explícita, por exemplo, à função da Sociologia frente à formação de um cidadão atuante nos processos de mudança social, voltados à contraposição das injustiças sociais ou a fazer frente às relações de desequilíbrio de poder. O tom que parece predominar no documento é o que Moraes (2009), em seu trabalho de pesquisa identificou como “a construção de um olhar sociológico” que não necessariamente está voltada para uma intervenção social que provoque transformações na realidade. Por outro lado, é importante salientar que o documento inclui a cidadania como tema a ser trabalhado dentro dos princípios de organização do ensino da disciplina por meio de conceitos, temas e teorias. Na sugestão de temas a serem trabalhados, a cidadania aparece dentro da seguinte sequência: questão racial, etnocentrismo, preconceito, violência, sexualidade, gênero, meio-ambiente, cidadania, direitos humanos, religião e religiosidade, movimentos sociais, meios de comunicação de massa, etc. Percebe-se um alinhamento sintagmático da cidadania com esses temas, sendo que os temas mais próximos da cidadania no sintagma são meio-ambiente e direitos humanos, o que pode sugerir uma relação de equivalência de sentidos em certos contextos. Acrescente-se que a abordagem da cidadania como tema não aponta para qualquer tipo de intervenção na realidade, pois se refere ao desenvolvimento de um senso crítico restrito à interpretação dos fenômenos sociais. Esse aspecto contrasta com o discurso dos PCN +, que dá mais ênfase ao desenvolvimento da cidadania como uma competência que contribuiria para a “construção da identidade social e política do educando” (BRASIL, 2002, p.98). Em aberto: possíveis implicações dos sentidos de cidadania nos documentos analisados ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 849 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino O estudo dos significados de cidadania identificados nos documentos curriculares de Ensino Médio que propus nesse trabalho no conduz a algumas reflexões acerca dos rumos que a educação para a cidadania para esse nível no Brasil parece tomar. Em primeiro lugar, destaco a predominância de um modelo de cidadania que se volta para a consolidação de uma sociedade harmônica, regida claramente por uma economia de mercado que tem pouco interesse com a coisa pública. Cria-se assim, uma área de ambiguidade para o processo educativo relacionado à cidadania, que passa a ter sentidos muito mais orientados por interesses individuais de formação de um cidadão competente e responsável, do que por objetivos de ordem coletiva e voltado para a defesa dos direitos dos cidadãos e dos bens públicos. Essa afirmação é confirmada, na medida em que os documentos curriculares analisados aproximam a cidadania do trabalho produtivo (e não do trabalho digno e voltado para o bem da população), da tolerância cultural (e não do respeito e negociação das diferenças), e da reflexão crítica do ponto de vista teórico, mas com poucas repercussões em termos de ação política desafiadora e transformadora, seja no ambiente escolar ou na vida social em geral. Sendo assim, é preciso a proposição de certas alternativas no âmbito das intervenções pedagógicas a serem adotadas nesse campo específico a fim de se promover uma educação para a cidadania que seja mais significativa para os sujeitos envolvidos e que promova a formação de pessoas preocupadas com o bem público, que lutem contra injustiças sociais e preconceitos e que atuem politicamente na sociedade em favor da garantia de direitos econômicos, sociais, políticos e culturais. Dentre essas alternativas, sugerimos a adoção de um modelo de educação para a cidadania mais pró-ativo, que não se atenha simplesmente a interpretações críticas de cunho teórico, mas que motive a inserção dos alunos em espaços públicos de ação política, ainda que tais ações sejam restritas, de início, apenas ao sistema escolar. O resgate e a problematização das experiências dos próprios alunos com as instituições públicas (aspectos como voto, exemplos de corrupção local, má-aplicação de dinheiro público, situações bem-sucedidas de pressões por garantia de direitos) e a possível proposição e implementação de ações que tenham um impacto político (mesmo que pequeno) por parte dos sujeitos são outras possibilidades que podem ajudar os alunos a construir noções de cidadania a partir de sua própria vivência cotidiana e com um viés mais transformador. ISSN 18089097 GT 04: CURRÍCULO E ENSINO MÉDIO 850 VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Currículo: (re)construindo os sentidos de educação e ensino Acredito que, a despeito do discurso desenvolvimentista e individualista que permeia a maior parte dos documentos analisados, os mesmos têm uma grande vantagem, que é a de não se constituírem discursos prescritivos. Assim, eles deixam aberta a possibilidade de que os vários atores do sistema educacional reconstruam uma prática pedagógica onde a cidadania figure não apenas como um conteúdo a ser ensinado, mas sim como um conjunto de princípios éticos em constante reformulação e que estabelecem uma “gramática da conduta” (MOUFFE, 1999) para os diferentes grupos que buscam a satisfação de suas demandas no espaço público em diferentes situações históricas e lugares. Dentro desses contextos distintos, os sujeitos sociais, tendo vivenciado uma experiência de educação para a cidadania e não somente de ensino de cidadania, poderão mais facilmente adotar uma postura de defesa de direitos coletivos de caráter público e de contínua radicalização da democracia, onde cada vez mais grupos sociais têm direito a participarem e a exercerem o papel de cidadãos, em âmbito local, nacional e transnacional. Referências BALL, Stephen J. 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