Prática Docente Aprendizagem de alunos Aprendizagem profissional Recolha de dados Ciclo de trabalho Ensino baseado em evidências Acesso fácil à investigação ... Processo sistemático Melhorar/mudar as práticas Cultura de colaboração Centrado nos objetivos definidos Quadro Conceptual Comum de Referência Pilar 1: Investigação-ação O que é Investigação-ação? A Investigação-ação (ou professor investigador, investigação em sala de aula…) consiste num processo sistemático e intencional, com enfoque na prática profissional docente. Potencia a mudança, a reflexão sobre a prática, onde cada professor é o principal ator e a sua prática o objeto de investigação (Cochran-Smith and Lytle, 1993; 2009). A investigação-ação constitui-se numa metodologia que permite a cada profissional, independentemente do seu contexto, investigar e avaliar a sua própria prática. As principais questões levantadas, no âmbito deste processo são: O que estou a fazer? O que preciso de melhorar? Como posso melhorar? (McNiff and Whitehead 2006). Nesta metodologia os conceitos de ensinar e questionar estão constantemente interligados, embora sejam distintos na sua génese, e encontram-se numa interação que se executa como um ciclo (processo contínuo) (Dana, 2013). Qual é a ligação entre a aprendizagem dos alunos e a aprendizagem dos Professores? A prática docente não pode ser considerada efetiva a menos que promova a participação dos estudantes e, consequentemente, a sua aprendizagem. Os critérios utilizados pelos professores no processo de ensino-aprendizagem devem ser co-construídos, isto é, devem incluir elementos da prática, que resultam de evidências e das respostas dos alunos face ao processo de aprendizagem (Timperley, 2011). O questionamento e a construção do conhecimento devem ser compreendidos como um ciclo, que visa promover os resultados dos alunos (Timperley, 2011), apresentando uma ligação entre a aprendizagem do estudante e a aprendizagem desenvolvida pelo próprio professor: Que conhecimentos e competências precisam os nossos alunos? Que conhecimentos e competências precisamos enquanto professores: Para aprofundar o conhecimento profissional? Para envolver os alunos em novas experiências de aprendizagem? Qual tem sido o impacte das mudanças exercidas sobre as nossas ações? A necessidade de proceder a uma reflexão crítica sobre a própria prática, associa-se, neste processo, ao benefício que decorre da criação de comunidades de aprendizagem e do recurso a teorias de aprendizagem. Estas visam explicar como as pessoas aprendem, sendo que a metacognição auxilia os profissionais a assumirem o controlo da sua própria aprendizagem, através da definição de metas e da monitorização do próprio progresso, no que se refere ao alcance dos objetivos definidos. Timperley (2011) distingue quatro princípios, relativos às comunidades de aprendizagem: i) ii) Envolver, a priori, as conceções sobre a prática; Desenvolver uma base profunda de conhecimentos contextualizados num quadro conceptual comum de referência; iii) iv) Construir o conhecimento a partir de processos de interação, negociação e cooperação; Promover processos metacognitivos e autorregulados que potenciem a proatividade e responsabilidade dos alunos perante o seu processo de aprendizagem. Aprendizagem autorregulada: A conceção de objetivos de aprendizagem consiste num ponto crucial para a monitorização da eficácia da prática docente. Quando o desafio consiste em promover a aprendizagem autorregulada, a construção de metas individuais torna-se insuficiente, sendo necessário promover processos de colaboração que conduzam à definição conjunta de metas e, cooperar com o professor, caso seja necessário proceder a mudanças das práticas no sentido de as tornar mais eficazes. (Timperley, 2011). Aprendizagem dos professores: Para o processo de aprendizagem profissional ocorrer é crucial que os professores descrevam as suas experiências de ensino: “Não é suficiente saber que funciona, é necessário saber o porquê” (Petty, 2014). Deste modo, torna-se clara a importância da definição de metas de aprendizagem para os alunos. A premissa central enquadra-se no princípio que a aprendizagem do professor se torna mais efetiva quando existe a promoção da aprendizagem dos alunos. Deste modo, os próprios professores precisam de definir metas de aprendizagem ao nível profissional que estejam em sintonia com os objetivos de aprendizagem dos alunos, sendo esta relação o objeto de monitorização para a análise da eficácia da prática (Timperley, 2011). Prática do Professor: A investigação sobre a própria prática deve iniciar-se a partir da simples reflexão crítica sobre o processo de ensino do professor. O paradigma do professor-investigador consiste em melhorar a sua prática no contexto escolar. O envolvimento dos alunos no processo de investigação torna a aprendizagem do professor imediata, relevante, colaborativa, ativa e envolvente. Só assim fará sentido ensinar os alunos através do questionamento, ajudando-os a desenvolver competências de pensamento crítico (Dana et al., 2011). Planeamento Inclui aspetos como: O objetivo da investigação; A pergunta “certa”, Como serão recolhidos os dados, Como serão analisados os dados, O cronograma para o desenvolvimento da investigação. Ciclo de trabalho: O ciclo consiste no seguinte: Observar-Refletir-Atuar-Avaliar-Modificar. Este ciclo permite estabelecer novos ciclos com fases distintas (ciclos de ação-reflexão em espiral). O processo decorre a partir do momento que o professor se sente realizado com uma determinada prática e a mesma cria novas questões que o levam a refletir, iniciando novamente o ciclo (McNiff and Whitehead, 2006). Perguntas: A investigação-ação deve ter como objeto de estudo questões reais e não questões para as quais já existe uma resposta. Trata-se de uma abordagem realizada por um professor que investiga e desafia a sua própria prática, não requerendo a intervenção de peritos externos. As questões reais são articuladas com aquilo que inquieta o professor. As questões relevantes estão ligadas ao contexto da escola, país, cultura, centram-se na aprendizagem e são genuínas, indicando que se visa efetivamente melhorar e mudar práticas. Timperley refere ainda que “Através do envolvimento nos ciclos contínuos de investigação e construção do conhecimento, os professores desenvolvem as competências necessárias para recuperar, organizar e aplicar o conhecimento profissional, quando velhos problemas persistem ou novos começam a surgir”. Os dados e a sua recolha Na análise crítica da sua própria prática (através do processo de investigação-ação) os professores devem tornar confortável e intuitivo o uso dos dados e evidências, enquanto ferramentas diárias. Os dados devem proporcionar novos modos de pensar que permitam o desenvolvimento de oportunidades para analisar e desafiar crenças existentes. Os dados, no entanto, não são sinónimos de estatística. Os dados são parte essencial do trabalho do professor: os professores recolhem os dados; questionam os dados; transformam os dados em informação, conhecimento e em ações construtivas. Os dados devem ser utilizados de forma orientada para a aprendizagem, com a finalidade de se proporcionar a melhoria da mesma; os erros têm que ser vistos como parte vital do processo de melhoria. O processo de recolha de dados e a sua interrogação conduz a um processo contínuo: recolha, análise, nova aprendizagem, mudança na prática. Recolha de dados – os dados permitem capturar a ação, a aprendizagem e o pensamento que ocorre dentro da sala de aula e/ou escola, a que pertence o professor. Devem ser qualitativos e quantitativos e devem levar à reflexão sobre o aluno e a experiência de aprendizagem em sala de aula. A regra consiste em olhar para os alunos com a finalidade de obtenção de dados (evidências). Existem inúmeras estratégias para a obtenção de dados: o trabalho do aluno, os resultados dos testes, notas, entrevistas, focus group, revistas. O professor deve começar por articular o que os dados significam para ele, e, de seguida, recorrer aos instrumentos necessários para explorar a questão. Referências bibliográficas Fichtman Dana, N. (2013). Digging Deeper into Action Research. California: Corwin, SAGE Company. Fichtman Dana, N., Thomas, C. & Boynton, S. (2011). Inquiry: A Districtwide Approach to Staff and Students Learning. Corwin Press. Fichtman Dana, N. & Yendol-Hoppey, D. (2008). The Reflective Educator’s Guide to Professional Development. California: Corwin, SAGE Company. Pettty, G. (2014). Evidence-based Teaching. Oxford University Press. McNiff, J. & Whitehead, J. (2006). All You Need to Know about Action Research. London: SAGE Publications. Timperley, H. Using Evidence in the Classroom for Professional Learning. Paper presented to the Ontario Education Research Symposium. Acedido em setembro, 2015, em https://www.auckland.ac.nz/en.html Pilar 2: Comunidades Profissionais de Aprendizagem Iniciar Comunidades Profissionais de Aprendizagem a partir da prática A participação em Comunidades Profissionais de Aprendizagem é importante (OCDE, 2014). Uma Comunidade de Aprendizagem pode ser definida como um lugar onde os professores questionam coletivamente como poderão melhorar as suas práticas, em determinadas áreas de interesse, aplicando e partilhando, posteriormente, o que aprenderam para que essa melhoria aconteça (Hord, 1997). Assim, uma Comunidade inicia-se a partir da prática, onde o questionamento é utilizado para impulsionar a interação, optando-se por um método de trabalho cíclico, onde o principal objetivo consiste em melhorar a prática docente. A colaboração é o suporte das Comunidades, nas quais se trabalha em conjunto para analisar e melhorar a própria prática em sala de aula segundo um processo sistemático. Os professores trabalham em equipa, envolvidos num procedimento contínuo de questões, que promove uma aprendizagem profunda e tem um forte impacte nos níveis de desempenho dos alunos (DuFour, 2004). Em suma, as Comunidades possuem como objetivo criar um grupo de profissionais que aprendem com a prática (Dana and Hoppy, 2015). Existem evidências que a participação dos professores em Comunidades de Aprendizagem conseguem atingir melhores resultados, valendo a pena todo o esforço e dedicação. As Comunidades de Aprendizagem possuem o poder de mudar a cultura de uma escola, com efeitos imediatos no professor e no desempenho dos alunos. As Comunidades promovem também uma cultura de responsabilidade coletiva, de diálogo, reflexão e capacitação do corpo docente (Southeast Regional Educational Laboratory, 2007). DuFour (2004) recomenda que os professores reflitam continuamente sobre os modos de trabalho incorporando as aprendizagens dos alunos e a colaboração dos outros professores na construção de uma cultura de escola. Adverte, também, que os professores devem analisar criticamente os resultados dos seus esforços face ao nível do desempenho dos alunos. As Comunidades devem articular os resultados (evidências) com as práticas pedagógicas, que por sua vez traduzem as mudanças e as melhorias ao nível da aprendizagem dos alunos. O trabalho em Comunidades leva à diminuição do isolamento dos professores e ao aumento do comprometimento para partilhar metas e responsabilidades (Hord 1997). Os dados apontam ainda que os alunos apresentam elevados níveis de desempenho na realização de testes padronizados, quando os seus professores participam em Comunidades de Aprendizagem sólidas e concentram a sua reflexão na aprendizagem dos alunos. Estes também demonstram melhores resultados ao nível das atitudes e comportamentos, incluindo uma maior satisfação, maior compromisso no trabalho para a escola e maior envolvimento (Buffma and Hinman, 2006; Erb, 1997; Natkin and Jurs, 2005; Wheelan and Kesselring, 2005; Wheelan and Tilin, 1999 – collected by Dana and Hoppy, 2015). Quando as Comunidades funcionam bem os professores conseguem desvendar, de forma colaborativa, algumas das complexidades associadas às dificuldades de aprendizagem dos alunos que ocorrem dentro da sala de aula ou na escola. Os professores podem resolver de forma proactiva os seus próprios dilemas, em vez de esperarem que outros determinem soluções para esses problemas (Dana and Hoppey, 2015). Cultura de Colaboração A colaboração consiste na condição necessária para a eficácia das Comunidades. Muita da colaboração docente é informal, baseada na confiança e em relacionamentos positivos. Não é aconselhável que se deixem de construir culturas colaborativas espontâneas. Esta podem também ser promovidas através de: reuniões, estruturas organizacionais, protocolos. Não devem, contudo, ser construídas de forma célere (Hargreaves and Fullan, 2012). Numa cultura colaborativa, os professores agem de forma colegial. A colegialidade define o tipo de relacionamento que é necessário para um trabalho relevante e significativo, desenvolvido nas Comunidades (Dana & Hoppy, 2015). Os comportamentos que caracterizam as condições do trabalho colegial são (Warren Little, 1981): Os professores falam de forma frequente, contínua e precisa sobre as suas práticas de ensino; Os professores são capazes de observar as práticas de cada um; Os professores trabalham colaborativamente no currículo; Os professores partilham o seu conhecimento sobre a profissão. Os profissionais que se encontram numa comunidade estão comprometidos com a responsabilidade coletiva para um propósito educativo comum. Processo sistemático As Comunidades consistem num local onde a aprendizagem acontece. Os professores apresentam-se empenhados em melhorar a aprendizagem dos alunos, o seu bem-estar e a sua realização (Timperley, 2007). O processo de melhoria é fortemente influenciado pelo método de ensino e pela investigação que se realiza sobre a aprendizagem dos alunos. Os problemas são abordados nas Comunidades, enquanto seio de uma aprendizagem organizacional. As Comunidades de Aprendizagem consistem num local onde os professores se encontram. Os professores trabalham sobre as evidências da sua própria prática, ou a partir da investigação académica, mas não se encontram subordinados a essas evidências, uma vez que as mesmas servem de guias para a reflexão coletiva. As evidências surgem a partir de reflexões conjuntas sobre a prática, quer esta seja eficaz ou não (Hargreaves and Fullan, 2012). As evidências bloqueiam a cultura de simpatia (Timperley, 2007) e aprofundam as reflexões, com enfoque no melhor que o professor consegue realizar na sua prática. As Comunidades de Aprendizagem conduzem os professores à mudança, através dos seus interesses e preocupações, que vão emergindo ao longo do processo. Cria-se, assim, uma cultura de aprendizagem bem-sucedida, com energia positiva e entusiasmo face ao objetivo comum. Deste modo, as Comunidades podem incentivar os professores a debater e a refletir sobre um propósito comum de escola. Definição de objetivos e atividades focalizadas As Comunidades Eficazes de Aprendizagem Profissional possuem peritos externos que supervisionam o trabalho e ajudam a definir os objetivos delineados nas Comunidades. Os peritos externos têm como função auxiliar o processo de reflexão sobre os problemas e manter o foco nos objetivos traçados. O perigo de não se recorrer a um perito externo pode resultar na constante reflexão sem nunca se conseguir elaborar um plano de ação ou atingir resultados (Timperley, 2007). Os peritos externos das Comunidades tendem sempre a promover a mudança. Os peritos trabalham de forma consciente, com foco nos objetivos tangíveis, comuns, definidos e acordados em comunidade. Apoiam o trabalho colaborativo com enfoque nos resultados, definem prazos e são pacientes e flexíveis. Os membros das Comunidades podem utilizar protocolos que servem como linhas orientadoras para a prática de reflexão e questionamento coletivo. Os protocolos devem ser focados no trabalho e aprendizagens dos alunos, promovendo o diálogo entre os professores. Os protocolos servem para gerir e rentabilizar o tempo em que os professores se encontram em Comunidade. Garantem que todos os participantes têm oportunidade de expor as suas ideias e dão ritmo e sentido às Comunidades, de modo que trabalhem em função de objetivos definidos e dos resultados a alcançar. Os resultados são dados fundamentais. Fornecem informações relevantes, que se traduzem em quadros conceptuais para os professores utilizarem no processo de questionamento ou na prática de ensino. As Comunidades dispõem, porém, de alguns perigos: podem não se sustentar em objetivos inovadores e ambiciosos; as reuniões realizadas podem ocorrer quanto a aspetos meramente técnicos, diminuindo as metas em prol de objetivos mensuráveis; podem desenvolver-se sob uma indefinição do objetivo, recolhendo dados sem propósitos, ou sem metodologias estabelecidas através de protocolos (Hargreaves and Fullan, 2012). Referências bibliográficas Cyert, R. & March, J. G. (1992). A Behavioral Theory of the Firm (2nd ed.). Wiley Blackwell. Dana, N. & Hoppey, D. Y. (2008). The reflective educator’s guide to professional development. Coaching inquiry-oriented learning communities. London: Sage Publications. Dana, N.F. & Hoppey, D.Y. (2015). The PLC book (not yet published). Du Four, R. (2004). Schools as Learning Communities. Educational Leadership, 61, 8, 6-11. Earl, L. & Timperley, H. (2009). Professional learning conversations, challenges in using evidence for improvement. New York: Springer. Earl, L., Katz, S, & Ben Jafaar, S. (2009). Building and connecting learning communities. California: Corwin Press. Hargreaves, A. & Fullan, M. (2012). Professional capital: transforming teaching in every school. New-York: Teacher College Press. Hord, S.M. (1997). Professional learning communities: Communities of continuous inquiry and improvement. Austin: Southwest Educational Development Laboratory. Timperley, H., Wilson, A., Barrar, H. & Fung, I. (2007). Teacher professional learning and development: Best evidence synthesis iteration. Wellington, New Zealand: Ministry of Education. Available at www.educationcounts.govt.nz/goto/BES Timperley, H., Barrar, H. & Fung, I. (2008). Best evidence synthesis on professional learning and development. Report to the Ministry of Education, Wellington, New Zealand. Timperley, H. (2011). Realising the power of professional learning. Buckingham: Open University Press. Warren-Little, J. (1981). The power of organizational setting: school norms and staff development. Paper presented at the American Educational Research Association, Los Angeles. Pilar 3: Fácil acesso aos resultados da investigação académica Ensino baseado em evidências A noção de ensino baseado em evidências, por vezes, é interpretada como um modo de trabalho com recurso a estratégias e metodologias eficazes e comprovadas cientificamente. No projeto LINPILCARE, os professores são considerados profissionais e, por isso, são responsáveis pela tomada de decisões no que respeita à prática educativa. É de realçar, por isso, que os resultados a obter através da investigação possam, em grande medida, ajudar a definir melhor as estratégias e metodologias, as quais, embora não sendo cientificamente comprovadas, resultem na melhoria da forma de ensino-aprendizagem. Por que razão os professores, na sua generalidade, não trabalham com evidências: Parece que o estímulo para que os professores recorram à investigação, não tem merecido muita atenção por parte de decisores políticos e outros profissionais de ensino. Quigley revela que “…a maioria dos professores, conselheiros e diretores passam grande parte das suas carreiras como agentes passivos no que toca à investigação, recebendo apenas os produtos/resultados produzidos pelas universidades e pelos seus investigadores em campos de investigação muitas vezes invisíveis” (1997, p.3). Existem poucos estudos que analisem o recurso, por parte dos professores, a investigação académica que sustente a sua prática. Por outro lado, não tem sido avaliado o modo como a mesma afeta a qualidade de ensino ou, até mesmo, os resultados de aprendizagem dos alunos: “Embora existam muitas perspetivas normativas sobre a relação entre o que a investigação e a prática devem ser, surpreendentemente, existem poucos dados sobre em que esta relação deveras consiste” (St. Clair, 2004, p. 225). Na generalidade sabe-se que os professores se sentem relutantes em ler publicações académicas, ou em melhorar a prática diária com base nas informações que estas publicações fornecem. Contudo, mesmo que os professores tenham acesso fácil às investigações académicas, por vezes o problema centra-se na dificuldade em interpretar as investigações académicas dada a linguagem de natureza hermética. Os artigos científicos são vistos como claramente escritos para a comunidade académica e não para os professores: “O professor individualmente realiza a sua investigação de modo que a mesma seja aplicada “na prática” enfrentando sozinho os diferentes níveis de abstração […] os investigadores necessitam de se ligar intelectualmente, emocionalmente e na prática com este conhecimento, retirado das investigações dos professores, levando-os a utilizar esse conhecimento na sua prática. Os professores constituem um público distinto, e como tal possuem necessidades específicas e contextos diferenciados que devem ser levados em conta quando se realiza uma abordagem “dirigida” a eles” (Cordingley, 2008). Outro tema de investigação que tem sido abordado em diversas publicações académicas consiste nos diferentes pontos de vista entre investigadores e profissionais de ensino, sobre a utilidade do conhecimento académico. Os académicos normalmente “planeiam investigações académicas que estudem questões globais de uma forma amplamente aplicável e compreensível” enquanto os professores “projetam estudos que os orientem na prática, através de problemas do quotidiano, em vez de estudos que abordem de uma forma geral, áreas de interesse” (Fox, 2000, p. 239). Na sequência desta análise conclui-se que a possível solução consiste em orientar as investigações académicas para os professores (Kerret al., 1998; Cordingley, 2008 - apresentam nas suas publicações, de forma sumária, recomendações para os investigadores académicos). Este pressuposto constitui um dos objetivos do projeto LINPILCARE, uma vez que concentra a sua ação nos profissionais de ensino e não nos académicos. O programa TLRP’s (Teaching and Learning Research Programme) possui o mesmo intuito, uma vez que oferece resultados de investigações académicas, selecionadas a partir da sua natureza, com “aplicações práticas”, “pequenas evidências de informações, atividades reflexivas” para professores (Cordingley, 2008). O que se pretende dizer com Investigação Académica no projeto LINPILCARE? Antes de se discutir possíveis formas de levar os professores a adquirirem textos de investigação académica, será importante esclarecer o que queremos dizer com investigação académica. O objetivo secundário do projeto consiste em perceber de que modo a investigação-ação (pilar 1) pode “desmitificar” as investigações académicas e os seus investigadores, para os profissionais de ensino. É importante compreender que a tipificação da investigação académica, por oposição à investigação-ação, pode facilmente levar a simplificações e a caricaturas de ambos os conceitos. Hammersley (2002) executou uma revisão crítica do conceito de educação, baseado em evidências, e afirma: “…o conhecimento da investigação é sempre falível, mesmo que o conhecimento não seja válido através de outras fontes (…)”. Bolhuis and Kools (2012) constroem uma tabela que descreve um processo contínuo de tipos de conhecimento. Esse processo vai desde a aprendizagem informal, à investigação científica, situando-se a investigação-ação entre ambos os conceitos. A tabela 1 apresenta as partes relevantes para o quadro comum conceptual do projeto LINPILCARE. Tabela 1: Características da investigação-ação, investigação científica aplicada, investigação científica (excerto da versão adaptada a partir do apêndice 1 dos autores Bolhuis & Kools (2012) Investigaçãoação como estratégia de aprendizagem profissional Ponto de tornar explícita a regulação Função e/ou objetivo de orientação Atores: partes interessadas e os seus papéis Resultado Partilha: Como? Por quem? Pergunta explícita sobre a prática de cada um. Regras (regulação) em construção e debate. Baseado nas Ciências Sociais. Objetivos: recolha de dados sistemáticos com base na construção de novos conhecimentos ajudam os investigadores e outros envolvidos a melhorar a prática individual e/ou coletiva. Profissionais da Educação (professores, diretores) que colaboram com as partes interessadas (por exemplo pais, estudantes) envolvidos nos temas de investigação. Desempenho profissional baseado na reflexão sobre a prática. As reflexões são partilhadas coletivamente com os envolvidos. Desenvolviment o profissional de professores e das escolas. Partilhado pelas partes interessadas. Possível divulgação pelos colegas dentro e fora da escola. Investigação científica Pergunta da investigação deriva explicitamente da prática. Aplicação das regras e do regulamento da investigação científica. Objetivo: Conhecimento geral sobre questões relevantes para a prática educativa. Investigadores no âmbito da educação com enfoque na prática. Educação: fonte de questões, campo de investigação, uma possível maior cooperação. Investigação científica fundamental Pergunta de investigação no âmbito das Ciências da Educação. Aplicação das regras e do regulamento da investigação Construção e teste das teorias, que contribui para o conhecimento científico em educação. Investigadores no âmbito da educação. Educação: campo de professores investigadores, estudantes, escola/líderes: fonte de dados. Investigadores aprendem sobre o tema da sua investigação. Investigadores fornecem os resultados nos diferentes níveis de comunicação, incluindo revistas científicas e sociais. Investigadores aprendem sobre o tema da sua investigação. Investigadores fornecem os resultados em revistas periódicas no âmbito da educação e das ciências sociais. Partilhado com as escolas onde a investigação foi realizada e nos meios de comunicação em geral. Partilhado em revistas da especialidade (Ciências da Educação) e com outros investigadores. Partilhado em revistas, principalmente com colegas e investigadores. Informações ou diferentes meios de comunicação. Bolhuis and Kools sublinham que a investigação-ação é sempre iniciada pelos profissionais de ensino e encontra-se diretamente relacionada com processos de melhoria (e compreensão) da própria prática profissional. Possíveis estratégias para o acesso a Investigação Académica Até ao momento os parceiros do projeto LINPILCARE têm considerado diferentes estratégias, com o objetivo de ajudar os professores a fazerem a “ponte” entre o ensino e a prática a partir do recurso a dados e resultados de investigação académica relevante: Familiarizar os professores com plataformas e motores de pesquisa relevantes – foram realizadas investigações em diferentes países, visando o desenvolvimento de motores de pesquisa ligados a bancos de dados de investigação académica. Esses projetos enfatizam e reescrevem publicações científicas, de modo a torna-las acessíveis a todos os profissionais de educação. Outros motores são destinados à disponibilização de arquivos existentes em revistas profissionais em que a investigação académica é analisada e discutida. Formação de professores e leitura de investigação académica – como parte do trabalho das Comunidades Profissionais de Aprendizagem, os professores podem discutir e ler textos com resultados de investigações académicas: Como se estruturam os artigos periódicos? Que parte destes artigos são mais relevantes para os professores? Questões de investigação – em alguns casos em vez da leitura de publicações, os professores podem dialogar com os investigadores e com os seus peritos externos, os formadores no contexto do Linpilcare. Referências bibliográficas Bolhuis, S. & Kools. (2012). Praktijkonderzoek als professionele leerstrategie in onderwijs en opleiding [Practitioner inquiry as a professional learning strategy.] Tilburg: Fontys Lerarenopleiding Tilburg Cordingley, P. (2008). Research and evidence‐informed practice: focusing on practice and practitioners. Cambridge Journal of Education, 38, 1, 37-62. Fox, R.D. (2000). Using theory and research to shape the practice of continuing professional development. Journal of Continuing Education in the Health Professions, 20, 4, 238-246. Hammersley, M. (2002) Some Questions about Evidence-based Practice in Education. Paper presented at the Annual Conference of the British Educational Research Association, University of Leeds, England, September 13-15, 2001. Kerr, D., Lines, A., McDonald, A., & Andrews, L. (1998). Mapping Education Research in England: an analysis of the 1996 Research Assessment Exercise. Bristol: HEFCE. NTRP (2000). Teacher perspectives on the accessibility and usability of research outputs. Paper presented at the British Educational Research Association annual conference, September 7-9, in Cardiff, UK. Quigley, B.A. (1997). The Role of Research in the Practice of Adult Education. New directions for adult and continuing education, 73, 3-22. Schneider, J. (2014). From the Ivory Tower to the Schoolhouse: How Scholarship Becomes Common Knowledge in Education. See https://larrycuban.wordpress.com/2014/12/16/teacheruse-of-academicresearch/ for a review. St. Clair, R. (2004). A beautiful friendship? The relationship of research to practice in adult education. Adult Education Quarterly, 54, 3, 224-241.