Apostila “23 Milhas: Do Caiçara ao Palmito Jussara” Aplicação do Projeto aos calouros 2011 de Ciências Biológicas - UFPR 23 MILHAS: DO CAIÇARA AO PALMITO JUSSARA A Ilha do Mel é, com certeza, uma das mais belas atrações de nosso litoral paranaense. Sua proximidade com o continente a torna de acesso relativamente fácil, que somado à sua geologia particular atrelada com ecossistemas diversificados resultam em belas paisagens naturais de praias, morros e planícies que a torna bem convidativa para um passeio. Aliado a isso, a Ilha do Mel está situada na entrada da baía de Paranaguá, centro do litoral do Estado do Paraná, região de grande importância desde o período de colonização do Brasil. Com resquícios históricos de ocupação por populações indígenas (os famosos sambaquis), e posterior ocupação colonial, foi cenário de importantes fatos históricos regionais até hoje lembrados e testemunhados pela presença da Fortaleza Nossa Senhora dos Prazeres (construída no século XVIII) e do Farol das Conchas (construído no século XIX). Com tantas características atrativas aos olhos do homem moderno em um pequeno espaço de terra, a Ilha vem sendo vítima de grande pressão sobre seus recursos naturais, com incremento de áreas ocupadas por construções voltadas à indústria do turismo, conseqüência do aumento vertiginoso do fluxo de turistas desde o início da década de 1980. Hoje a Ilha do Mel pertence, juntamente com o litoral norte paranaense, à Reserva da Biosfera da Mata Atlântica estabelecida pela Unesco. A Floresta Atlântica (que originalmente ocupava 1.350.000 km2 do território brasileiro, 15% do Brasil, contemplando áreas de 17 estados brasileiros) é considerada o ecossistema mais ameaçado do Brasil e a segunda floresta tropical mais ameaçada do mundo, depois de Madagascar, na África (IUCN 1990). Pelo levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica/ INPE (2002), hoje restaram apenas aproximadamente 7,1% de floresta bem preservada. Desta Floresta Atlântica ainda preservada, a maior área contínua encontra-se no litoral do Paraná, onde encontramos grandes e importantes reservas de preservação como a região de Guaraqueçaba, Superagui, Ilha das Peças e também a Ilha do Mel. Esta valiosa fonte de biodiversidade que hoje se encontra na Ilha e a grande necessidade de preservá-la defronta-se com uma realidade sócio-cultural delicada da comunidade que ali vive em condições precárias de saneamento básico e prestação de serviços. Tal condição é resultado de um processo histórico vivido pela comunidade caiçara ali presente, concomitante ao processo de aculturação que sofrem devido a exposição à máquina mercadológica do turismo e da ocupação civilizatória em massa e desordenada. Além do problema social que se configura, esta presença antrópica de forma desorganizada e desequilibrada gera problemas ambientais graves para a Ilha, comprometendo a longo prazo esta rica biota ali presente e conseqüentemente condenando o uso-fruto de um dos locais mais belos e agradáveis de nosso litoral. É diante deste cenário que nos sensibilizamos e ao mesmo tempo nos apaixonamos pela Ilha do Mel. Este “close” que iremos dar agora tem como objetivo, além de contemplar suas belezas e peculiaridade, mostrar uma Ilha desconhecida pela maioria dos paranaenses e visitantes, informando suas principais características geográficas, sua formação florística e faunística e por último, abordando sobre as Unidades de Conservação que vem sendo criadas na Ilha, trazendo para discussão seus principais problemas sócio-ambientais e de gestão. Acreditamos, com isto, formar futuros freqüentadores e visitantes da ilha com uma visão mais consciente do local onde estão colocando seus pés, deixando no passado o estereótipo de um lugar para se passar as férias, fazer festas e retirar-se da “cidade grande”, que desconsiderava toda realidade natural e cultural que envolve aquele espaço. O MEIO FÍSICO Portal de entrada do Paraná, para quem chega pelo mar, a Ilha do Mel eterna guardiã das principais baías do estado, está localizada em uma das seis macro regiões do litoral brasileiro (divisões que obedecem a critérios de semelhanças de relevo, clima e vegetação), sendo o cartão de visita da porção de Floresta Atlântica mais preservada do país. O Litoral das Escarpas Cristalinas: A Serra do Mar, que guarda as últimas remanescências da outrora frondosa Mata Atlântica, chega à beira-mar, tornando-se a característica mais marcante de todo esse trecho, que vai do Cabo de Santa Marta-SC ao Cabo Frio-RJ, também chamado de “Litoral das Escarpas Cristalinas”. A Ilha do Mel, picotada em muitas praias e a Baía de Paranaguá, são exemplos das reentrâncias provocadas pela serra, que também é responsável pela instabilidade meteorológica característica da região. As dificuldades de acesso, provocadas pelas barreiras da serra, preservam algumas áreas intocáveis, como acontece no trecho do Lagamar, que vai de ParanaguáPR à Cananéia-SP, um dos maiores viveiros de peixes do mundo. Localização: A Ilha do Mel localiza-se no Oceano Atlântico Sul e situa-se à 15 milhas do Porto de Paranaguá-PR, tendo seu ponto mais próximo do continente à 2,5 milhas (cerca de 4 km) de Pontal do Sul, no município de Pontal do Paraná, litoral do estado do Paraná, Brasil. Localização Geográfica: Seu ponto mais ocidental (à oeste) localiza-se na Ponta Oeste (48º23’) e seu ponto mais oriental (à leste) no Morro das Conchas – Farol (48º17’). Já, seu ponto mais setentrional (ao norte) fica no Cassual (25º29’) e seu ponto mais meridional (ao sul) na Ponta Encantada (25º34’). Formação Geológica: Os morros da Ilha são constituídos por rochas graníticas-migmatíticas, datadas em mais de seiscentos milhões de anos (pré-cambriano). Nos costões pode-se observar veios de quartzo com turmalina negra, estruturas geológicas como dobras, falhas e restos de material anfibolítico (rochas metamórficas), mais antigo, de formas arredondadas, no meio do migmatito. Há cem mil anos, o nível do mar estava aproximadamente à 120 metros acima do atual. Nesta época, os morros da Ilha formavam um arquipélago. De lá para cá, o mar recuou e avançou várias vezes. Essa sucessão de eventos formou a Ilha do Mel como é vista hoje, com formação de terraços, cordões litorâneos e dunas. A areia marrom que se observa nas praias do Farol e de Nova Brasília tem cinco mil anos e sua coloração deve-se à presença de matéria orgânica. As areias negras são formadas por ilmenita e magnetita. O ponto mais alto da Ilha do Mel, localiza-se no Morro do Miguel (Morro Bento Alves), com 151 metros. A Gruta das Encantadas: A Gruta das Encantadas fica situada na parte sul da Ilha e é um dos patrimônios naturais mais importantes da Ilha do Mel. Para facilitar o acesso, foi construída uma passarela que leva até a sua entrada. No meio da Gruta, há uma rocha negra que corta o migmatito. Trata-se de um dique de diabásio, com idade de cento e cinqüenta milhões de anos, cuja formação é um dos resultados da separação América do Sul-África. A Gruta se formou pela ação do mar sobre o diabásio, que é menos resistente que o migmatito. Cuidado com as "Encantadas": essas mulheres-peixe arrastam os homens incautos para o seu reino, a "Gruta Encantada", diz a lenda... O Istmo - Nova Brasília: A Ilha do Mel é uma área em contínuo processo de alteração: por um lado recebendo areias e crescendo sobre o oceano, mais precisamente, em frente ao Morro das Conchas (Farol); por outro lado, em Nova Brasília, sendo erodida em suas bordas com a água que corta barrancos e quase divide a Ilha em duas, principalmente nesta região do istmo, ou “passa-passa”, como é chamado pelos locais. Este processo de erosão ocorre desde 1930 e, atualmente, a água já não atravessa mais de um lado ao outro, como aconteceu em 1995. Nos períodos de Luas Cheias e Novas, onde a Terra, o Sol e a Lua estão em oposição ou conjunção, ocorre uma somatória de forças desses astros, e o movimento das marés atinge seu ponto extremo (tanto nas preamares quanto nas baixa-mares), fazendo assim que ocorram as marés de sizígia ou de águas-vivas (marés de grande amplitude), onde as águas correm em grande velocidade. A maré meteorológica é a diferença entre a maré observada e aquela prevista pela Tábua das Marés. As causas desse fenômeno pouco conhecido são, principalmente, as variações da pressão atmosférica e a ação do vento sobre a água, causando assim níveis mais baixos ou mais altos que os previstos na Tábua. Nas ressacas do mar, a água chega a atravessar de um lado ao outro, retornando ao normal após o seu término. A Evolução da erosão no istmo Ano Largura Istmo 1954 152 m 1980 85 m 1987 47 m 1991 23 m 1992 4m 1995 0m 1998 10 m 2001 20 m 2002 15 m 2003 20 m 2004 30 m do O Clima: O clima é de transição entre o tropical e o subtropical, super-úmido, sem estação seca e sem ocorrência de geadas. Temperatura média: máxima 31º - mínima 13º Temperatura média da água: verão 21º - inverno 17º Dias de sol/ano (média): máximo 166 - mínimo 133 Chuvas (média em mm/ano): máximo 3250 - mínimo 1750 As Correntes Marítimas: A Corrente do Brasil (quente) acompanha o litoral do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, com temperatura média da água em torno dos 22ºC. A única corrente fria que o país recebe é a das Falkland (Malvinas), que abrange todo o litoral do Rio Grande do Sul e Santa Catarina até Paranaguá-PR, misturando-se com a Corrente do Brasil desde o Paraná até Cananéia-SP. As correntes frias são mais ricas em oxigênio e nutrientes, favorecendo a pesca, embora a riqueza da fauna marinha do litoral, ocorra muito mais em função da desembocadura de rios, do que propriamente pelas correntes. Os Recursos Hídricos: A Ilha possui dois mananciais para abastecimento de água, localizados no Morro do Miguel. Porém a água proveniente dos mananciais é insuficiente para o abastecimento, existindo então, bombas para a retirada de água do lençol freático (água subterrânea), que corre bem próximo da superfície do solo. Algumas casas e estabelecimentos comerciais possuem também bombas á motor para obtenção de água. População: Desde o Censo de 1990 realizado pelo IBGE, a população da Ilha do Mel não sofreu uma alteração significativa. Em 1990 a população era de 515 habitantes Em 2000, essa população passou a ser de 911 habitantes. Estima-se que, atualmente, a Ilha conte com não mais de 1110 habitantes, a considerar o plano de manejo da estação ecológica bem como o plano de ocupação. Contam os mais antigos que os primeiros moradores que vieram habitar o local, oriundos da Ponta Oeste, na Ilha, o fizeram na época em que estava sendo construída a capital federal, Brasília. Daí a homenagem. Contam outros, que o nome se deve ao fato de a localidade abrigar em suas areias, uma espécie de isca para pesca, cujo nome é “corrupto”... História: Os sambaquis encontrados na Ilha do Mel (Pontinha, Mangue do Canudo e Rio Grande) são datados de 1500 a.C.; Pelo Tratado de Tordesilhas, toda essa região pertencia à Portugal; Em 1975, foi aberto o Canal da Galheta, para passagem de navios com destino ao Porto de Paranaguá. Até então, os navios utilizavam os canais sueste e norte; Em 15 de abril de 1982, a Ilha do Mel, por aforamento, foi transferida da União para o Estado do Paraná. A Fortaleza, o Farol e a Rádio Farol permaneceram sob o domínio da União; Em 1985, chega a água tratada; Em 21 de setembro de 1988, foi criada a Estação Ecológica da Ilha do Mel; Também em 1988, chega a energia elétrica, através de gerador à diesel, que funcionava até às 02:00 a.m., retornando no dia seguinte; Em 1998, através de cabos submarinos, a luz elétrica chega do continente, vinte e quatro horas por dia, seguindo também, para a Ilha das Peças e para a Ilha de Superagüi. Nova Brasília - Por que este nome? Várias hipóteses (folclóricas) são conhecidas para a origem do nome: A extração de mel silvestre, anterior a 1950, quando os alimentos eram adoçados com o mel ou com o açúcar extraído da cana da própria ilha, devido a dificuldade de obter o açúcar industrializado; A existência de uma família de origem alemã que habitava a região da Fortaleza, e onde havia um engenho para produção de farinha de mandioca. Farinha em alemão escreve-se “mehl”; A cor da água do mar vista do alto do Morro das Conchas – Farol, principalmente no início da Praia do Farol (Paralelas); O formato da Ilha, cuja parte oeste lembra mel saindo da boca (istmo) de um recipiente (parte sul); A lua-de-mel que os escravos mais fortes desfrutavam com várias negras, onde os mesmos eram deixados na Ilha por vários dias, para a reprodução, no século passado. O Nome: "Ilha do Mel" O aparecimento de um mapa constante do “Livro de Toda a Costa da Província Santa Cruz”, feito por João Teixeira Albbernas - Anno D. l666 e que se encontra na mapoteca do Ministério das Relações Exteriores, onde a Ilha já aparece com a denominação de Ilha do Mel, praticamente desvendou o mistério sobre o nome. Outro mapa, de Antônio Vieira dos Santos, publicado em 1850, também já continha a Ilha do Mel com essa denominação. No século passado a Ilha também era conhecida como “Ilha da Baleia”, talvez pelo seu formato. O Farol das Conchas: Seu funcionamento se dá através de energia solar. O Farol pode funcionar de duas maneiras: piscando (com intervalos regulares), ou girando (a lâmpada fica permanentemente acesa e a lente em torno dela, gira). A escada é circular. Na varanda, no alto, em torno do Farol, se obtém uma das mais belas vistas dos paredões íngremes da Serra do Mar, porém, a visitação interna é proibida pela Marinha do Brasil. Na época de sua construção, as peças foram desembarcadas em um trapiche, junto ao morro, especialmente construído para este fim. Sua lâmpada é relativamente pequena. O que resulta no longo alcance do Farol (cerca de 20 milhas), são as suas lentes, que ampliam a luz em milhares de vezes. Um conjunto de cinco lâmpadas sobressalentes é usado automaticamente cada vez que a lâmpada em uso se queima. A Fortaleza Nossa Senhora dos Prazeres: Mandado construir em 1870, pelo Ministro da Marinha, o Barão de Cotegipe, durante o reinado do imperador D. Pedro II, o Farol com sua estrutura troncocônica em ferro fundido, com uma altura de 18 metros, vindo de Glasgow – Escócia, orienta os navegantes através do seu piscar, desde 1º de abril de 1872. Em junho de 1850, os canhões são disparados pela primeira vez contra o vapor de guerra inglês “Cormorant”, que perseguia os brigues “Astro”, “Dona Ana” e “Sereia”, mais a galera “Campeadora”, que traficavam escravos. Nessa época, o transporte de escravos era proibido. Em janeiro de 1894, os canhões são disparados pela segunda vez, durante a Revolução Federalista, contra os vapores “Esperança”, “Palas” e “Urano” e o cruzador “Esperança”. Em 1945, a Ilha do Mel foi considerada “Zona de Guerra”. No Forte, havia um destacamento de duzentos homens. O acesso à civis foi proibido e todas as propriedades foram confiscadas. No alto do Morro da Baleia, junto à Fortaleza, estão canhões e trincheiras de pedras, é o chamado “Labirinto dos Canhões”. Único monumento militar do século XVIII existente no Paraná, instalado nos contrafortes do Morro da Baleia, erguido com paredes de um metro e meio de espessura, a Fortaleza foi concluída em 23 de abril de 1769, com a participação do povo da Vila de Paranaguá. A Fortaleza é equipada com Casa da Guarda, Prisões e Paiol do Pólvora, além da recepção (funcionamento irregular). Sua construção, durante o reinado de D. José I de Portugal, deve-se à guerra entre Portugal e Espanha, desencadeada na América do Sul – tentativa por parte dos espanhóis em reconquistar as terras de acordo com o Tratado de Tordesilhas (para os espanhóis, o limite meridional era a cidade de Iguape-SP, e não Laguna-SC). Outro objetivo era defender a Baía de Paranaguá dos ataques dos piratas espanhóis. O MEIO BIOLÓGICO As ilhas diferenciam-se das condições apresentadas pelas áreas continentais devido à sua pequena dimensão e sua localização isolada. As espécies viventes em ilhas, muitas vezes, encontram dificuldades adicionais na luta pela sobrevivência, na medida em que muitos dos recursos disponíveis não são tão abundantes (pensemos na água doce, por exemplo), as populações têm um crescimento limitado pela limitação de espaço e recursos e seu isolamento dificulta o processo de colonização por novos indivíduos ou espécies. Estas dificuldades tornam as ilhas mais sensíveis às alterações ambientais, sejam catástrofes naturais ou pressões antrópicas. Ao longo do tempo, as espécies viventes nas ilhas tendem a se diferenciar muito devido ao seu processo de evolução independente (isolado) das espécies continentais, a ponto de se tornarem novas espécies exclusivas daqueles ambientes. Isto as torna áreas com elevado número de espécies endêmicas e esta abundância de grupos que são raros ou mesmo inexistentes no continente faz das ilhas verdadeiras preciosidades ambientais. Somado ao fato de serem cercadas de água por todos os lados, elas geralmente apresentam praias e paisagens muito atrativas, constituindo um cenário propício ao turismo. A invasão humana de forma descontrolada gera uma pressão sobre os ambientes insulares. Quando somamos a fragilidade ecológica citada anteriormente com uma ocupação humana mal planejada, percebemos que as ilhas são importantes alvos de degradação que resultam em perda da biodiversidade existente no nosso planeta. Mas qual a importância de se conservar a atual biodiversidade planetária? É a partir desta pergunta que iremos discutir questões que envolvem a importância da conservação de ambientes naturais. Para tal, nada melhor do que compreender uma realidade próxima: a Ilha do Mel. Vamos olhar com mais cautela para a relação dos seres que ali vivem (inclusive o homem) com suas condições espaciais. Devemos, antes de estudar aspectos gerais da fitogeografia e fauna da Ilha, nos questionar sobre a importância de conhecer uma realidade para conseguir preservá-la. A exuberante Mata Atlântica: A Mata Atlântica é uma das maiores florestas tropicais do planeta e, no Brasil, estendia-se do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte abrangendo uma gama de ecossistemas muito variados. O termo Mata Atlântica é utilizado para designar um enorme bioma que abrange as Florestas Ombrófilas Densas e Abertas (são elas as florestas pluviais montana, submontana e aquelas que se encontram em terras baixas e arenosas do litoral), as Florestas Ombrófilas Mistas ( as nossas já minguantes matas de araucárias) Florestas Estacionais e Semidecíduas ( no Paraná elas existiam na parte noroeste do estado, hoje estão compartimentalizadas no Parque Nacional do Iguaçu) bem como ecossistemas associados – manguezais, restingas, campos, manchas de cerrado e brejos- e regiões de transição. Um fato interessante de se comentar sobre esta floresta colossal é que em uma época relativamente recente da história, esta mata já foi conectada à Floresta Amazônica! Populações de animais tipicamente amazônicos, como o guariba-de-mãosruivas e o tamanduaí são encontrados em remanescentes de Mata Atlântica nordestina, além de existirem quase 300 gêneros de plantas comuns a estas duas florestas, isso não seria possível caso não tivesse havido uma ligação anterior. Este fabuloso bioma é considerado um hot spot, ou “ponto quente”, pois concentra uma fração considerável da biodiversidade mundial, acumula uma grande quantidade de espécies endêmicas e encontra-se altamente ameaçado. E quais as razões para a Mata Atlântica concentrar tamanha grandeza ecológica? Este bioma estende-se por mais de 27 graus em direção norte-sul, cobre terrenos que variam do nível do mar a 2.700m de altura além de espalhar-se direção leste-oeste (florestas do interior diferem significativamente daquelas encontradas no litoral). Sendo assim, há uma variação no que diz respeito à latitude, longitude e altitude, tornando-se, portanto, uma variação climática que gera uma enorme diversidade ambiental. Sucessivas retrações e sucessões de diferentes formações florestais decorrentes de mudanças climáticas pretéritas. Diferenças no relevo causadas por falhas de grande profundidade que ocorreram na era Cenozóica ( 65,5 milhões de anos atrás até o presente momento). E a Ilha do Mel?! Situa-se na região de Mata Atlântica, porém quais são os tipos vegetacionais e sua fauna característica? Na Ilha do mel estende-se uma planície litorânea onde se desenvolve uma vegetação bastante heterogênea. São reconhecidos 3 morfotipos vegetacionais principais: vegetação de praia, restinga arbustiva e floresta de restinga. VEGETAÇÃO DE PRAIA A vegetação de praia e dunas está melhor representada na praia do Farol, onde ocorre a formação recente de um grande banco de areia, e também nas praias de Fora, Grande, do Miguel, das Encantadas e na Ponta do Bicho, ocorrendo principalmente em substrato arenoso de deposição marinha, ou então em pontais rochosos dos morros da Ilha. Este tipo de ecossistema tem como principais representantes espécies herbáceas –porém arbustos e arbóreas dispersas também são encontradas/adaptadas à sobrevivência em um ambiente com várias adversidades, como mobilidade do substrato arenoso, alto teor salino, rápida drenagem, deficiência em matéria orgânica, aquecimento das camadas superficiais do substrato pela insolação direta, influência marinha direta, além de fortes ventos. A vegetação que ocorre nos costões rochosos dos morros da Ilha recobre de forma muito característica as frestas e platôs de rochas, normalmente onde as condições propiciam a ocorrência de maior quantidade de matéria orgânica e umidade. As espécies mais freqüentes e que imprimem um aspecto fisionômico mais característico a estes locais são os caraguatás e certas orquídeas e pteridófitas.Nestes locais é possível encontrar animais que vivem aderidos fortemente ao substrato como ouriços-domar, cracas, mexilhões, anêmonas e vários crustáceos ( como a baratinha da praia) explorando as rochas . As plantas que constituem o ambiente arenoso da praia ( pobre em nutrientes e extremamente permeáveis) - gramíneas são muito freqüentes -podem possuir raízes adventícias, caules rastejantes ou em forma de estolões para que acompanhem as modificações da superfície do substrato e assim possam fixar-se melhor ao solo em contínuo movimento. A presença de um sistema radicial profundo e muito ramificado também otimiza a fixação e o fornecimento de água e nutrientes à planta, já que amplia a área de solo explorada. As folhas são geralmente pequenas e coriáceas para diminuir a perda de água e como proteção contra a dilaceração pelo vento. Algumas podem possuir caules subterrâneos (rizomas), folhas carnosas com a finalidade de retenção de água e estruturas especializadas em eliminar o excesso de sal absorvido do substrato. A vegetação lenhosa em geral é de baixo porte, possui troncos tortuosos e folhas coriáceas. Isto principalmente em função da ação do vento e do regime hidrológico. As copas são deformadas pelo vento constante que pode também ser agravada pela maresia que carrega gotas de água marinha, formando uma tênue neblina que se deposita na areia e nas folhas das árvores sendo assim, as folhas novas e brotos, em direção do mar, morrem em conseqüência de "queimaduras". A copa fica assimétrica, desenvolvendo-se mais em direção oposto ao mar. Nas comunidades de praias arenosas predominam os animais da infauna, ou seja, que vivem enterrados na areia ou em tubos por eles construídos. Seus representantes mais característicos são os poliquetos ,os moluscos, particularmente os bivalves, as tatuíras (crustáceo). Há também seres intersticiais que vivem nos espaços entre os grãos de areia bem como répteis (lagartos e cobras) que vivem entre vegetação. Depois que as pioneiras conseguiram se instalar, propiciam o desenvolvimento de outras. Elas dão proteção pela sombra, fixam a areia e fornecem uma maior quantidade de matéria orgânica. Em geral as plantas que seguem as pioneiras têm um porte mais elevado, sombreando as mesmas e condenado-as ao desaparecimento, dando seqüência então a sucessão vegetal . RESTINGA ARBUSTIVA Este morfotipo caracteriza-se por apresentar espécies de hábito arbustivo, com eventuais elementos arbóreos que, no entanto, não formam um estrato contínuo. No esporão recentemente formado na Praia das Conchas pode-se encontrar este tipo de vegetação sendo exposta a eventuais inundações diferentemente da mata encontrada nas trilhas, onde ocorrem plantas de hábito arbóreo de pequeno porte com estrato inferior muitas vezes fortemente predominado por samambaias e bromélias terrícolas. Estas formações podem apresentar-se em forma de moitas- aglomerado de plantas arbustivas e/ou arbóreo, com copas separadas por espécies com outro hábito de vida ou mesmo áreas desnudas- encontradas em clareiras muitas vezes com substrato recoberto por liquens arborescentes e cactáceas. FLORESTA DE RESTINGA O uso do termo floresta está associado a tipos vegetacionais predominados por plantas arbóreas, com estrato geralmente definido e com plantas herbáceas, epífitas e trepadeiras relacionadas. As florestas da Ilha do Mel concentram-se na área da Estação Ecológica e podem adquirir morfologias diferentes dependentes do regime hidrológico a que estão sujeitas. Nos cordões litorâneos podemos encontrar dois morfotipos lado a lado. Nas partes altas dos cordões a vegetação é fechado porém mais baixas ( 6 a 8 metros) que àquela ocorrente nas depressões entre os cordões (15 a 20 metros). Esta vegetação mais alta é decorrente de alagamentos periódicos por ascensão do lençol freático em épocas de chuva, ,já que este se encontra mais perto da superfície nas depressõesformam-se , pois, os “brejos”.. Por serem regiões mais baixas também há um maior acúmulo de sedimentação e consequentemente disponibilidade de nutrientes às plantas. As florestas localizadas na Estação Ecológica abrigam espécies que demandam uma área de vida relativamente grande, por organização social ou por recursos alimentares, como as jaguatiricas, onças, pacas e capivaras (ameaçados de extinção), denotando uma boa condição ecológica daquele ambiente. O epifitismo é bastante acentuado, com predominância de orquídeas e bromélias, formando um ambiente fantasticamente grandioso. Nos morros da parte leste-sul da Ilha, especialmente do Meio, do Miguel e Bento Alves, formados por rochas antigas do complexo cristalino brasileiro, ocorrem, em maior ou menor extensão, a Floresta Ombrófila Densa Submontana e áreas com vegetação secundária em diferentes estágios de desenvolvimento. O fato das áreas de morro possuírem solos com características físicas e químicas mais adequados a práticas agrícolas levou a uma maior procura no passado por estas áreas, para o plantio de pequenas roças (mandioca, cana-de-açúcar, banana, feijão, cítricos) e conseqüentemente proporcionou uma maior ocorrência de locais dominados por vegetação secundária – presente nas áreas onde houve intervenção do homem. São as capoeiras, capoeirinhas e capoeirões. Outra perturbação perceptível nestas áreas é a extração seletiva de madeira e palmito (Euterpe edulis). Muitas vezes torna-se difícil a distinção entre as florestas secundárias mais desenvolvidas e as florestas primárias, mais ou menos perturbadas por extração seletiva de espécies. As árvores mais altas atingem entre 20-25m de altura, com epifitismo acentuado, especialmente nos indivíduos mais desenvolvidos, e abundância de trepadeiras lenhosas (lianas). Na região da Ponta do Bicho encontram-se jacarés-do-papo-amarelo e lontras já que são animais que possuem hábitos de vida ligados à rios ou estuários ( locais onde rios entram em contato com o mar). Também é possível visualizar-se golfinhos. A população de aves é diversa, sendo fácil um encontro com os maravilhosos tiés-sangue e surucuás. Sabiás, periquitos, tuim, cuiu-cuiu, bem-te-vi, ticotico, sanhaço, sabiá-laranjeira, pia-cobra, saíras, trinta-réis, alma-de-gato, pica-paus dentre outros tantos são freqüentes habitantes das áreas mais preservadas ou mesmo perto de ocupação humana, sendo atraídos pela facilidade de obtenção de alimentos. A ilha ainda abriga o papagaio-de-cara-roxa, ou chuá, espécie também ameaçada. Não podemos esquecer de certo tipo de ambiente também encontrado na Ilha relacionado principalmente a águas salobras; em locais onde os pequenos rios desembocam no mar. Ecossistemas de transição entre o meio marinho e o terrestre os Manguezais estabelecem-se em áreas sob ação das marés e encontram em áreas estreitas e descontínuas da Ilha, sendo um ecossistema pouco representativo nela. As maiores extensões de manguezais e marismas são encontradas na parte norte-oeste, especialmente nas desembocaduras dos pequenos rios da planície litorânea, e também entre a Nova Brasília e o Morro do Miguel, no Saco do Limoeiro. A ação das marés promove a circulação dos nutrientes e alimentos além da remoção dos produtos inaproveitáveis do metabolismo dos organismos. Estes fatores, somados à presença de plantas fixas (algas marinhas, capim de imersão intermitente) que retêm os nutrientes provenientes do ambiente terrestre, de algas microscópicas (fitoplâncton) e da microflora bentônica, formando um verdadeiro tapete fotossintetizante e contribuindo para a formação de um dos ambientes mais produtivos e férteis do mundo. A própria diferença na salinidade (massas de água doce e marinha) causa a mistura das águas, tanto horizontal quanto verticalmente e, junto com alguns organismos bentônicos filtradores como os mexilhões, colaboram para a retenção dos nutrientes. bentônicos filtradores como os mexilhões, colaboram para a retenção dos nutrientes. Os manguezais são ambientes estuarinos especiais, caracterizados por apresentarem densa vegetação de halófitas (plantas que vivem em condições salinas) chamada mangue. A densidade das espécies de mangues (Avicenia schaueriana,, Laguncularia racemosa, Rhizophora mangle) e as condições naturais dos estuários dão aos manguezais uma condição única de uma eficiente "armadilha de nutrientes". A decomposição da matéria orgânica é feita por bactérias anaeróbicas que, desprendendo grande quantidade de ácido sulfúrico (H2S), conferem odor característico a estes ambientes. A maioria dos nutrientes dissolvidos permanece presa neste estuário (em função de um maior tempo de residência), em vez de ser carregada para o mar, criando condições para que funcione como um "berçário" para espécies que têm valor comercial, como os camarões, lagostins, moluscos e peixes. A beleza exótica do manguezal se dá pela constituição vegetal deste ambiente. O emaranhado que as raízes dos mangues acabam por formar no solo lodoso criam uma atmosfera única e fantástica aos olhos de quem os aprecia. Viver neste ambiente tão “impróprio” é dádiva apenas de um número de espécies relativamente pequeno. As plantas dos manguezais são dotadas de raízes escora, ou rizóforos, que permitem a fixação em solos lamacentos e instáveis. Os rizóforos também funcionam como “respiradouros”, levando ar para as raízes enterradas nos sedimentos pobres em oxigênio. Propágulos de mangues são frequentemente vistos na zona de maré das praias, já que sua propagação se dá pela ação das correntes marítimas, que podem leválos a distâncias consideráveis. Invertebrados como pequenos caranguejos, camarões, nematódeos, anelídeos poliquetos, pequenos bivalves e até larvas de insetos ingerem grande quantidade de detritos das plantas vasculares com populações microbianas, que passam por seus tubos digestivos, resultando em repetida remoção e novo crescimento dessas populações e são, por sua vez, o alimento principal de vertebrados como peixes, aves, etc. Estuários e outras regiões de terras úmidas costeiras são de grande importância para as aves marinhas tanto residentes quanto migratórias. As aves que podem ser encontradas nestas regiões são: martim pescadores, garça-cinzenta, garça-azul, garças-brancas. No substrato lodoso do mangue encontram-se saracuras e biguás. Associados aos manguezais, ocorrem áreas transicionais destes para as formações arbustivo-arbóreas da planície costeira, que podem tanto ser representadas por espécies lenhosas de hábito arbustivo-arbóreo além de outras de hábito herbáceo, que em alguns locais chegam a constituir agrupamentos densos e de relativa extensão, denominados comumente de "brejos herbáceos". Estes são importantes refúgios e locais de alimentação da capivara, que na Estação Ecológica ainda pode ser frequentemente encontrada. A interação flora/fauna apresenta-se bastante intricada onde interagem além dos aspectos biológicos, aspectos climáticos e do meio abiótico. Estas na sua maior parte são muito pouco conhecidas, mas sabe-se que modificações de origem antrópica alteram completamente estas relações, comprometendo a sobrevivência de uma série de espécies. Neste sentido, a existência das unidades de conservação é importantíssima para a manutenção destas interações. Importância das Epífitas: As epífitas são, ao menos em parte do seu ciclo de vida, plantas fisicamente independentes do solo, utilizando-se das árvores como suporte, retirando nutrientes da umidade atmosférica. Elas são responsáveis por grande parte da diversidade das florestas tropicais, podendo representar mais de 50% das espécies vegetais. A Ilha do Mel apresenta uma riqueza florística bastante elevada, apresentando dominância das Orchidaceae (orquídeas), Bromeliaceae (bromélias) e Polypodiaceae, correspondendo ao padrão apresentado nas florestas neotropicais. Outra família bem representativa é das Hymenophyllaceae. As comunidades epifíticas caracterizam-se pelo importante papel ecológico que desempenham, pois estabelecem grande interação com diversos grupos animais, servindo de alimento para pássaros, criadouro de larvas de insetos e girinos e abrigo para muitos invertebrados. UNIDADES DE CONSERVAÇÃO A Ilha do Mel, além do já abordado aspecto de sua fragilidade ecológica por ser uma ilha e estar sujeita à pressão humana tanto pela ocupação quanto pelo turismo, ela se destaca por pertencer à uma região remanescente de Floresta Atlântica (Reserva da Biosfera Iguape – Cananéia – Paranaguá). Todo extremo leste paranaense e litoral norte de São Paulo estão cobertos por uma importante faixa de Mata Atlântica, que liga a Serra do Mar ao litoral. Sua alta biodiversidade se explica em partes por ser um bioma tropical com vários ecossistemas diferentes. No entanto, a situação de degradação é preocupante: das 202 espécies animais ameaçadas de extinção no Brasil, 171 são da Floresta Atlântica. Hoje a Ilha está com 93,4% de sua área protegida por lei. Entenda agora o que são Unidades de Conservação, sua importância, suas contradições e como funcionam na Ilha do Mel. A essência da criação das Unidades de Conservação está na idéia de conservar uma parcela significativa de diferentes ecossistemas de cada país, para garantir a BIODIVERSIDADE nacional e mundial. BIODIVERSIDADE, a rigor, significa a diversidade de espécies, ecossistemas, ambientes e paisagens existentes no mundo, incluindo a diversidade genética intra-específica. Segundo a legislação brasileira, uma Unidade de Conservação é “um espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com o objetivo de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam as garantias adequadas de proteção”. (SNUC 2002). Tais áreas podem ter finalidades diversas: Pesquisa científica; Proteção da vida selvagem; Conservação de espécies e ecossistemas Proteção de determinados aspectos culturais; Turismo e lazer; Educação; Uso sustentável dos recursos naturais. Elas podem ser de domínio público, privado, federais, estaduais ou municipais. Podem ser divididas em dois grupos: 1) Proteção Integral (preservar a natureza, admitindo apenas uso indireto dos recursos naturais) 2) Uso Sustentável (compatibilizar conservação da natureza com uso sustentável dos recursos naturais). Existem áreas que, mesmo sem pertencer a uma Unidade de Conservação, por lei devem ser preservadas. São as AREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. Elas incluem as dunas, brejos litorâneos, restingas, lagunas, vegetação das encostas e topos de morros, que são formações frágeis à ocupação, onde a degradação pode ser irreversível. Nestas áreas a interferência antrópica não é permitida sem um EIA-RIMA (Estudo de Impacto Ambiental - Relatório de Impacto ao Meio ambiente). Na Ilha do Mel existem muitas áreas de preservação permanente. Na praia das Conchas, por exemplo, existe um cordão de deposição arenosa marinha que ainda está em processo de formação/transformação, em pleno processo sucessional de estabelecimento da vegetação, por isso ainda apresenta alta fragilidade ambiental, com risco de erosão. Existem hoje na Ilha duas Unidades de conservação, com finalidades e restrições distintas, adequadas às diferentes realidades existentes. São elas a Estação Ecológica Ilha do Mel e o Parque Estadual Ilha do Mel. Estação Ecológica Ilha Do Mel: Criada em 1982, hoje sob administração do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), tem como objetivo proteger de maneira permanente os ecossistemas existentes na extensa planície que configura a parte norte da Ilha. Esta área foi protegida principalmente por apresentar especial fragilidade. Seu substrato originado de sedimentos marinhos torna-se vulnerável à erosão caso sua cobertura vegetal for retirada. Em toda a planície desenvolveu-se uma floresta fechada de alta diversidade e complexidade ecológica. Ali está presente boa parte da fauna endêmica da região ou espécies ameaçadas de extinção, como é o caso do Papagaiode-cara-roxa ou chauá (Amazona brasiliensis), do Jacaré-do-papo-amarelo (Caiman latirostris), da lontra e da jaguatirica. Outra presença importante para a conservação é o sítio arqueológico do Sambaqui Canal do Norte. A visitação pública é proibida, exceto com objetivo educativo ou para realização de pesquisa. Além da preservação de seu ambiente natural, a manutenção da beleza cênica também é valorizada. O grande desafio das Unidades de Conservação, no entanto, é retirar seus objetivos do papel e transformá-los em práticas efetivas.Porém impactos ambientais ainda ocorrem na área protegida, como o corte de árvores, a caça (principalmente de capivara), a captura de papagaios-da-cara-roxa, ocupações ilegais e a abertura de trilhas para os turistas e moradores. Além dos problemas operacionais de administração e fiscalização, foi detectada a falta de conhecimento sobre a importância da Estação Ecológica, sobre a relação dos moradores com as áreas protegidas. A maioria acha que a criação da Estação não lhes trouxe benefícios. Parque Estadual Ilha do Mel: Criado em 2002, possui objetivos e restrições diferentes da EEIM. Sua criação se deve a necessidade de proteger as áreas de preservação permanentes presentes no sul da Ilha, incluindo os costões rochosos, a Floresta Ombrófila Densa Atlântica Submontana (segunda floresta tropical mais ameaçada do mundo – IUCN 1990), brejos intercordões, etc. Estas são áreas com alta diversidade biológica e alta fragilidade ambiental. Nesta porção sul da Ilha também se localizam os mananciais de captação d’água, importantes sítios arqueológicos (sambaquis) e geológicos (gruta das Encantadas), alem de sítios históricos (Farol das Conchas). A diferença fundamental da categoria Parque com a Estação Ecológica é a possibilidade de desenvolver atividades de recreação e circulação de turistas. A fiscalização das áreas protegidas é de responsabilidade do Batalhão de Polícia Florestal da Polícia Militar do Paraná, que se encontra em número extremamente insuficiente para realizar sua função de forma eficiente. Etnoconservação: (conhecimento etnobotânico e saberes tradicionais – comunidade caiçara) Até agora discutimos os aspectos físicos (geográficos) e biológicos e a necessidade de conservá-los. No entanto, pouco se falou sobre a presença humana na Ilha do Mel. Como conciliar as três realidades existentes hoje na Ilha: as Unidades de Conservação, a comunidade caiçara que ali vive e a intensa atividade turística sazonal? Pensando nesta relação homem x natureza, as Teorias Conservacionistas vêm evoluindo para tentar transformar esta inequação em uma equação. É a idéia da chamada Etnoconservação. Vamos apresentá-la agora, aproveitando para trabalhar o valor das comunidades caiçaras e seus principais saberes na Ilha do Mel. O modelo tradicional de área de conservação, introduzido pelos norteamericanos, pressupõe a ausência humana. Este modelo está arraigado pela concepção de separação das sociedades humanas em relação à natureza, fruto do modelo ocidental de desenvolvimento urbano-industrial. Ele parte do princípio de que toda relação entre sociedade e natureza é degradadora, sem distinção entre as diferentes sociedades (urbana, tradicional, indígena, etc). Muitas das áreas habitadas por populações tradicionais haviam se conservado sob cobertura florestal e com alta biodiversidade em virtude do manejo ligado ao modo de vida das comunidades que, com a criação das áreas protegidas, passaram a estar sujeitas à expulsão. Esta visão separatista, no entanto, vem se alterando conforme estamos percebendo que os saberes tradicionais, as inovações e práticas das comunidades locais e populações indígenas com estilo de vida tradicional são essenciais para a conservação e utilização sustentável da diversidade biológica local. Este conhecimento, entretanto, vem se perdendo nas novas gerações destas comunidades, muitas vezes pela invasão desrespeitosa das atividades turísticas ou especulação imobiliária. A Etnociência nasce do reconhecimento do valor do conhecimento empírico destas sociedades, sendo o estudo e as formas de aplicação deste conhecimento para a conservação. A Etnoconservação é interdisciplinar, na medida em que as ciências naturais somam-se às sociais para implantar uma conservação real das paisagens e proteger a diversidade biológica e sociocultural. Sob esta ótica, a biodiversidade não é um conceito apenas biológico, relativo à diversidade genética de indivíduos, de espécies e de ecossistemas, mas também é o resultado de práticas, muitas vezes milenares, das comunidades tradicionais que domesticam espécies, mantendo e aumentando a diversidade local. A íntima relação das sociedades tradicionais com o meio e sua dependência maior com o mundo natural, comparado à do homem urbano-industrial, faz que ciclos da natureza (sazonalidade de cardumes, abundância de mariscos nas rochas) sejam associados às explicações místicas ou religiosas. As representações simbólicas que essas populações fazem dos diversos hábitats em que vivem, também dependem de um maior ou menor controle que dispõem do meio físico. Assim, o caiçara tem um comportamento familiarizado com a mata, nela adentrando para retirar recursos de que precisa. É com este conhecimento empírico acumulado que desenvolvem seus sistemas tradicionais de manejo. Aqui é importante pensar no papel dos entes mágicos e lendas criados por essas comunidades, como por exemplo o caipora, o curupira, o boitatá, etc, que na maioria das vezes castigam aqueles que destroem o ambiente ou maltratam os animais. No Brasil existem muitas destas comunidades chamadas tradicionais. Além dos bem conhecidos indígenas, após a colonização européia ocorreram processos de miscigenação distintos, gerando uma diversidade de grupos culturalmente também distintos. Assim temos os açorianos, os babaçueiros, os cablocos/ribeirinhos amazônicos, os caiçaras, os caipiras/sitiantes, os campeiros, os jangadeiros, os pantaneiros, os pescadores artesanais, os praieiros, os quilombolas, os sertanejos/vaqueiros e os varjeiros (ribeirinhos não amazônicos). Devido a presença do caiçara na Ilha do Mel, vamos entender quem são eles. O caiçara é resultado de uma mescla étnico-cultural de indígenas, colonizadores portugueses e, em menor grau, escravos africanos. Ocuparam áreas costeiras desde o sul do Rio de Janeiro, estendendo-se pelo litoral paulista, paranaense e norte de Santa Catarina. Formaram-se nos interstícios dos grandes ciclos econômicos do período colonial, fortalecendo-se com o declínio dessas atividades de exportação. Antes de descaracterizados, tinham forma de vida baseada em agricultura itinerante, pequena pesca, extrativismo vegetal e artesanato. Cidades como Parati, Santos, São Vicente, Iguape, Ubatuba, Ilha Bela, São Sebastião, Antonina e Paranaguá surgiram no interior do espaço caiçara. Com a abolição da escravatura e o declínio das atividades agrícolas de exportação no final do século XIX, estes importantes centros exportadores entraram em declínio. No entanto, a forma tradicional de vida caiçara se manteve forte até 1950, quando as primeiras estradas de rodagem interligaram as áreas litorâneas com o planalto, ocasionando o início do fluxo migratório e crescente processo de urbanização. Na Ilha do Mel, este processo se intensificou a partir de 1980, com o aumento da procura pelos veranistas para construção de casas. Em 1988 houve a instalação da luz elétrica, implementação do serviço de barcos de transporte, dando acesso a bens de consumo como rádio, TV e eletrodomésticos. Os antigos hábitos, valores e atitudes da população foram gradualmente sendo substituídos por um estilo de vida mais urbano. O turismo em massa desconfigurou a economia de subsistência baseada na pesca artesanal, com declínio desta última. Hoje a maioria dos jovens está envolvida com atividades turísticas, deixando de aprender a arte da pesca e todo o conhecimento a ela associado. A transformação de grande parte do território em áreas de proteção também interferiu na cultura caiçara da Ilha, pelas limitações impostas às atividades tradicionais de agricultura itinerante, caça, pesca e extrativismo. Isso tem gerado conflitos com os administradores e altos índices de migração para áreas continentais urbanas (que na maioria vão parar nas favelas). Conhecimento etnobotânico na ilha do mel: Etnobotânica: conhecimento que uma determinada população humana possui da dinâmica biológica existente em seu entorno, por meio da percepção empírica das inter-relações com a antropologia e a ecologia local. Este conhecimento é reflexo das necessidades de uma dada comunidade. Na Ilha do Mel, a associação com a pesca orientou a população para explorar seus recursos e conhecê-los de maneira a atender as demandas pesqueiras. Desta forma, o conhecimento da qualidade das madeiras é utilizado para a exploração seletiva de espécies, como a CANELA PRETA, CAXETA, MAÇARANDUBA e o GUANANDI. Esta última sendo vastamente utilizada na construção da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, sendo a Ilha do Mel um dos pontos de extração. O conhecimento das plantas medicinais também foi desenvolvido, porém está hoje restrito às mulheres e antigos moradores. Alguns exemplos são: - Hortelã (para verminoses) - Quebra-pedras (pedras nos rins) - Tanchagem e pico-pico (alcalinização do sangue) - Cipó-milome e cipó-guaco (nativas – para fígado e tosses) - Araçá (nativa – intestino) Outros conhecimentos etnobotânicos interessantes da Ilha: - Sumbarê: orquídea utilizada no passado para elaboração de cola de madeira para fazer instrumentos musicais (violas, rabecas). - Palmiteiro (Euterpe edulis): importante na dieta alimentar da fauna. Quase em extinção na Ilha por causa do corte ilegal. - Arméssica: madeira nobre, produz resina aromática usada na produção de incensos pela população local, além da utilização medicinal. - Pinta-noiva: pigmento utilizado antigamente como ruge. O resgate do etnoconhecimento pode ser uma poderosa ferramenta de educação ambiental, vinculada ao ecoturismo e artesanato. Material Organizado por: Felipe Lopes Salomão Fernanda Silveira Catenacci Juliano Pilotto Abelardino da Silva REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: História Natural e Conservação da Ilha do Mel – Márcia C. M. Marques e Ricardo Miranda de Britez. Editora UFPR. 2005; Baía de Paranaguá – Carlos Roberto Soares e Paulo da Cunha Rana. Editora UFPR. 1994; Saberes Tradicionais e Biodiversidade no Brasil – Antonio Carlos Diegues e Rinaldo S. V. Arruda. Ministério do Meio Ambiente. 2001; Revista Super Interessante; Mapa Turístico - A Ilha do Mel - Ed. Idéias Novas; Revista Náutica; Ilha do Mel - Manual de Educação Ambiental; Jornal Gazeta do Povo; Guia do Eco-Verão; Revista Fluir; IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; http://www.iap.pr.gov.br http://www.pr.gov.br/mineropar/geoturismo_ilhadomel.html A História do Incidente Cormoran – David Carneiro, 1950.