MMC44 - Modelagem e Simulação Computacional em Recursos Hídricos Propagação de cheias em rios Prof. Benedito C. Silva IRN/UNIFEI Objetivo Qual é o hidrograma em um local B a jusante se o hidrograma em um local A a montante é conhecido? magnitude da vazão Níveis máximos tempo de ocorrência dos picos tempo de chegada da onda ? Exemplo rio Uruguai distância: 192 Km Propagação O que acontece com uma onde de cheia enquanto viaja ao longo do rio? translação amortecimento contribuição de afluentes efeitos de jusante Translação A B Q Hidrograma em A Hidrograma em B t Amortecimento A B Q Hidrograma em A Hidrograma em B t Efeitos de jusante A h em B (maré) B Q Hidrograma em A Hidrograma em B t Efeitos de jusante Exemplo rio Amazonas Entre Óbidos e Macapá Óbidos (efeito ausente ou imperceptível) Macapá (efeito da maré é preponderante) Aramanduba (ponto intermediário – efeitos mistos) 26/12/97 11/12/97 26/11/97 11/11/97 27/10/97 12/10/97 27/9/97 12/9/97 28/8/97 13/8/97 29/7/97 14/7/97 29/6/97 14/6/97 30/5/97 15/5/97 30/4/97 15/4/97 31/3/97 16/3/97 1/3/97 14/2/97 30/1/97 15/1/97 31/12/96 Cota(cm) Cotas no posto Obidos (17050000) no ano de 1997 (último posto c/ medidas de vazão no rio Amazonas) 900 800 700 600 500 400 300 200 100 0 -100 300 250 200 Cota(cm) Cotas no posto Macapá (19500000) no ano de 1997 (último posto fluviométrico do rio Amazonas) 500 450 400 350 150 100 50 0 26/12/97 11/12/97 26/11/97 11/11/97 27/10/97 12/10/97 27/9/97 12/9/97 28/8/97 13/8/97 29/7/97 14/7/97 29/6/97 14/6/97 30/5/97 15/5/97 30/4/97 15/4/97 31/3/97 16/3/97 1/3/97 14/2/97 30/1/97 15/1/97 31/12/96 26/12/38 11/12/38 26/11/38 11/11/38 27/10/38 12/10/38 27/9/38 12/9/38 28/8/38 13/8/38 29/7/38 14/7/38 29/6/38 14/6/38 30/5/38 15/5/38 30/4/38 15/4/38 31/3/38 16/3/38 1/3/38 14/2/38 30/1/38 15/1/38 31/12/37 Cota(cm) Cotas no posto Aramanduba (18400000) no ano de 1938 (Rio Amazonas, montante da confluência com rio Xingu, jusante de Óbidos) 600 500 400 300 200 100 0 Velocidade de propagação de ondas de cheia Ondas de cheia se propagam para jusante com uma velocidade que é maior do que a própria velocidade média da água. Assim, a velocidade de propagação da onde de cheia em um rio cuja velocidade média, durante uma cheia, é de 1 m.s-1, é superior a 1 m.s-1, podendo chegar a 1,6 m.s-1, por exemplo. Celeridade A velocidade de propagação das ondas de cheia em rios pode ser estimada pela celeridade cinemática, que pode ser obtida com base nas características médias das seções transversais do rio e de sua declividade. Velocidade da onda cinemática Uma abordagem mais intuitiva... Ideia mais intuitiva sobre celeridade de onda cinemática Considerando que: Então: Q2 S f S0 Q f A Q1 Ideia mais intuitiva sobre celeridade de onda cinemática Imaginando uma onda de cheia gerada por um aumento de vazão de Q1 para Q2... Frente da onda Q2 Q1 Ideia mais intuitiva sobre celeridade de onda cinemática Depois de um pequeno intervalo de tempo a onda deve ter se deslocado para jusante Frente da onda t Q2 t t Q1 Ideia mais intuitiva sobre celeridade de onda cinemática O volume adicional necessário para o avanço da onda é: Volume Q2 Q1 t Frente da onda t Q2 t t Q1 Ideia mais intuitiva sobre celeridade de onda cinemática Ou, Volume A2 A1 x Considerando que A1 é a área molhada da seção quando Q = Q1; e que A2 é a área molhada da seção quando Q = Q2; t Q2 x t t Q1 Ideia mais intuitiva sobre celeridade de onda cinemática Os dois volumes devem ser iguais, então: Q2 Q1 t A2 A1 x t Q2 x t t Q1 Ideia mais intuitiva sobre celeridade de onda cinemática Reorganizando: x Q2 Q1 t A2 A1 Mas, x/t é a velocidade de avanço da onda... t Q2 x t t Q1 Ideia mais intuitiva sobre celeridade de onda cinemática Se pensarmos numa variação de vazão bem pequena x Q t A t Q2 x t t Q1 Assim... A celeridade da onda cinemática pode ser estimada por: dx Q c dt A Portanto a velocidade com que se propaga a onda de cheia depende da relação entre vazão e área molhada, que é uma característica da seção transversal, da declividade e da rugosidade do rio ou canal. Celeridade c combinando: dQ dA Rh S Q u A A n 2 3 1 2 pode-se obter: c 5 u 3 O que significa que a celeridade (velocidade de propagação da onda de cheia) é superior à velocidade média da água. Celeridade A velocidade de propagação das ondas de cheia é maior do que a própria velocidade média da água Além disso, a velocidade de propagação das cheias tende a ser maior para cheias maiores, porque o nível da água e a velocidade média tendem a ser maiores. 5 c u 3 Celeridade Por outro lado, em rios com grandes planícies de inundação, a velocidade de propagação das ondas de cheia tende a diminuir drasticamente no momento em que o rio começa a transbordar. Celeridade diminui Celeridade aumenta Celeridade Evidências experimentais Murrumbidgee river - Wang e Laurenson, 1983 Water Resources Research Tempo de viagem 192 km mais ou menos 2 dias Cálculos de propagação Modelos hidrodinâmicos Modelos simplificados Equações de Saint-Venant As equações utilizadas para descrever o comportamento do escoamento em rios e canais foram inicialmente derivadas no século XIX Hipóteses assumidas 1. O escoamento é unidimensional; a velocidade é uniforme e igual à média; a nível da água é horizontal na seção transversal. Escoamento em meandros e transições é fortemente tridimensional Velocidade é maior no centro da seção Em curvas o nível da água pode não ser horizontal Hipóteses assumidas 2. Pressão é hidrostática (depende apenas da profundidade) Variações de forma da seção devem ser relativamente suaves. Hipóteses assumidas 3. 4. É possível usar fórmulas para perda de carga semelhantes às usadas em escoamento permanente (como Manning). A declividade do canal é pequena, o cosseno do ângulo é quase igual a 1. Continuidade ou conservação de massa Considere um volume de controle entre as seções x=x1 e x=x2 e ao longo de um intervalo de tempo de t=t1 a t=t2 x1 x2 A A Continuidade ou conservação de massa de água: x2 A A dx t2 t1 t2 uA uA dt = x1 x1 x2 t1 considerando que Q=u.A e que a massa específica da água é constante: x2 t2 A A dx Q t2 x1 t1 x2 t1 Q x1 dt 0 Forças agindo sobre o volume de controle Elevation View Plan View Fg = Força da gravidade Ff = Força de atrito com o fundo e margens Fe = Força devida às contrações e expansões da seção Fw = força de atrito do vento na superfície Fp = diferença de pressão nos limites de montante e jusante do volume de controle Equações na forma integral uA uA dx u x2 t2 t2 t1 x1 2 t1 x2 t2 A A dx Q t2 x1 A x1 u A x 2 dt g I1 x1 I1 x 2 dt g I 2 dxdt g AS0 S f dxdt 2 t1 x2 t2 t 2 x2 t 2 x2 t1 t1 x1 t1 x1 Q x1 dt 0 t1 Equações estabelecidas sem exigir que A; Q; u fossem variáveis contínuas e diferenciáveis. Também não exigem que x2-x1 seja uma distância infinitesimalmente pequena. Alguns esquemas numéricos estão baseados na forma integral das equações, em vez de usar a forma diferencial. Método dos volumes finitos se baseia em equações na forma integral. Equações na forma integral Considerando variáveis contínuas e diferenciáveis e usando expansão em série de Taylor pode se chegar a outra forma: dtdx g Q u 2 A x1 t1 t x x 2t 2 Q A x1 t1 x t dtdx 0 x 2t 2 I1 I A S S 0 f dtdx x1 t1 x 2 x 2t 2 Equações na forma diferencial Em um volume infinitamente pequeno as equações anteriores também devem valer, assim: Q A 0 x t Q u 2 A I1 g gAS0 S f gI2 t x x Equações na forma diferencial considerando que Q=u.A Q A 0 x t Q Q 2 gI1 gAS0 S f gI2 t x A Equações na forma diferencial combinando os termos com I1 e I2 Q A 0 x t Q Q 2 dh gA S0 gASf 0 t x A dx que não é mais exatamente uma equação de conservação de quantidade de Movimento, muitas vezes chamada de “equação dinâmica” h é a profundidade Equações de Saint-Venant na forma mais usual atualmente A Q 0 t x Q Q 2 h g A g A S f 0 t x A x Sf Q Q n A R 2 2 3 Vazão e nível da água Solução das equações de Saint-Venant Não existem soluções analíticas para as equações de Saint-Venant na maior parte das aplicações úteis. Somente nas décadas mais recentes é que os métodos numéricos e os computadores digitais permitiram a solução das equações completas de Saint-Venant. Atualmente existem diversos programas computacionais de modelos matemáticos que resolvem as equações de Saint-Venant numericamente para resolver problemas de propagação de vazão em rios e canais. Zij1 Zij11 Zij Zij1 Z t 2 t Aplicando este esquema: Zij11 Zij1 Zij1 Zij Z 1 x xi xi Z Z j 1 i 1 Zij1 2 1 Z j i 1 Zij 2 Q A q 0 x t A estas equações: Q Q2 h g A Sf 0 t x A x Sf n2 Q Q 2 A R 4 3 Equações de diferenças numéricas continuidade Q j1 j1 Q i1 i xi 1 Q j j Q i1 i Q x i Dinâmica xi A j1 j1 j i Qi1 Qi 2 t j1 j1 j A A i i1 i Aij1 2 t Qij1 q j1 j q i i 2 0 j1 j1 2 2 Q Q g A j1 h j1 h j1 x S j1 i f i1 i A A i1 i j j 2 Q2 Q g A j h j h j x S j 0 1 i f i1 i A A i1 i A 0.5 Ai Ai1 R 0.5 Ri Ri1 Sf n2 Q Q A2 R 4 3 Incógnitas – não linear continuidade Q j1 j1 Q i1 i xi 1 Q j j Q i1 i Q x i Dinâmica xi A j1 j1 j i Qi1 Qi 2 t j1 j1 j A A i i1 i Aij1 2 t Qij1 q j1 j q i i 2 0 j1 j1 2 2 Q Q g A j1 h j1 h j1 x S j1 i f i1 i A A i1 i j j 2 Q2 Q g A j h j h j x S j 0 1 i f i1 i A A i1 i A 0.5 Ai Ai1 R 0.5 Ri Ri1 Sf n2 Q Q A2 R 4 3 Esquema de Preissmann Cada trecho entre duas seções define duas equações: continuidade dinâmica Cada seção tem duas incógnitas: h e Q no tempo futuro Modelos hidrodinâmicos Atualmente existem programas de modelos como o HEC-RAS que podem ser utilizados para os cálculos de propagação de cheias em rios Simulação hidrodinâmica Modelos simplificados Em função da dificuldade que havia para resolver as equações de Saint-Venant, um grande número de métodos simplificados foi criado para calcular os efeitos que ocorrem em ondas de cheia à medida que se propagam ao longo de rios Estes métodos utilizam a equação da continuidade mas simplificam ao máximo a equação da conservação da quantidade de movimento Escoamento em rios Modelo Muskingum dS I Q dt S f ( I , Q) Criado na década de 1930 por McCarthy para representar a propagação de vazão ao longo do rio Muskingum. Supõe que S (armazenamento) está relacionado a I (vazão de entrada) e Q (vazão de saída) Escoamento em rios: Muskingum Continuidade Relação dS IQ dt S = K [X I +(1-X) Q] A vazão (Q) na seção de jusante é dada por: Qt 1 C1It 1 C2 I t C3Qt t t t KX K (1 X) 2 ; C 2 ; C 2 C1 2 3 t t t K (1 X) K (1 X) K (1 X) 2 2 2 C1+C2+C3=1 K é o tempo médio de deslocamento da onda X é um ponderador entre as vazões de entrada e saída KX 52 Intervalo de tempo Para que os coeficientes da equação sejam positivos t 2 0 e 2KX t C1 t K(1 X) 2 KX 2KX t 2K(1 X) 0 X 0,5 t é o intervalo de tempo para simulação da propagação t 2 0 e 2K(1- X) t C3 t K (1 X) 2 K (1 X) t 2X 2(1 X) K t / K 2 1 Região válida 0 0 0,5 X 53 KeX O método Muskingum tem dois parâmetros de cálculo (K e X) que devem ser definidos antes dos cálculos. Definir valor de X O parâmetro X é um ponderador adimensional cujo valor deve estar entre 0 e 0,5, mas na maior parte dos rios e canais naturais seu valor é próximo a 0,3. Dependendo do valor de X ocorre mais ou menos amortecimento da onda de cheia. Para um valor de X igual a 0,5 não ocorre amortecimento. Quando X é igual a zero o amortecimento é máximo. Efeito de X Efeito de K Definir K O parâmetro K têm unidades de tempo e deve ser expresso nas mesmas unidades de t. O valor de K pode ser estimado pelo tempo de viagem do pico da cheia do início ao final do trecho de rio, ou seja, a distância dividida pela celeridade. Quanto maior o valor de K, mais afastados no tempo ficam os picos de vazão na entrada e saída do trecho de canal. Estimativa de K e X Tradicional método da laçada S/∆t X=X1 X= Xn Variar o valor de X até que se crie uma laçada, com forma mais próxima possível de uma reta Ajustar uma linha de tendência linear S/∆t = a. QI + b K=a K será igual ao coeficiente angular da reta QI 𝑆𝑡+1 𝑆𝑡 = 0,5 𝐼𝑡+1 + 𝐼𝑡 − 𝑄𝑡+1 + 𝑄𝑡 + ∆𝑡 ∆𝑡 Método da laçada - Exemplo A tabela abaixo apresenta os hidrogramas de vazões medidos nas seções de entrada e saída de um trecho de rio. Determine os valores dos parâmetros K e X Tempo (h) 0 6 12 18 24 30 36 42 48 54 60 66 72 78 84 90 Entrada (m3/s) 30 120 286 412 373 306 246 198 165 141 123 108 93 81 72 63 Saída (m3/s) 30 39 45 93 181 237 264 261 246 225 202 184 174 153 135 117 60 Muskingum-Cunge Adaptado para estimativa com base em parâmetros físicos do trecho Qo X 0,5(1 ) bo So co x 0,3 0, 4 5 S 0 Q0 co 3 bo 0, 4 .n 0, 6 Ou: x K co Q0 0 ,8 x 0,8.c0 .t x 0, 2 b0 .S0 .c0 1/2 c0 .t Q0 x 1 1 1,5. 2 2 b0 .S0 .t.c 0 Roteiro de Ajuste 1) Fixar ∆t = tp/5 ou outro valor para ∆t ≤ tp/5 2) Adotar valor de Qo = 2/3 da vazão máxima do hidrograma de entrada 3) Calcular co 4) Calcular ∆x por processo iterativo 2,5Qo 5) A primeira estimativa de ∆x pode ser obtida por xo bo So co 6) Calcular K e X e verifique se está dentro da faixa de validade 7) Caso contrário modifique ∆x 62 Exemplo Determine o hidrograma 18 km a jusante de uma seção de um rio. As características do trecho são: largura=30m, declividade=0,0007 m/m; rugosidade de Manning n=0,045. o tempo tp = 240 min e =240/5=48 min, ∆t=40min. A vazão máxima de montante é 130 m3/s, Qo=87m3/s 5 So0,3Qo0, 4 co 1,86m / s 0, 6 0, 4 3 n bo x 2,5.87 5.568m 30x0,0007x1,86 Por convergência x 6018 m x 6000 m adotado X=0,31 K = 1,34 t Tempo (40min) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 vazão de entrada m3 / s 20 30 60 90 100 130 115 95 80 60 40 20 20 20 20 vazão de saída m3 / s 20 20 20 20 21,1 27,0 42,2 63,9 85,9 103,0 102,4 92,4 77,2 59,4 41,9 63 Muskingum Cunge não linear A celeridade não é constante Os parâmetros do método de Muskingum Cunge deveriam variar Celeridade varia com o nível da água ou com a vazão Celeridade diminui Celeridade aumenta Muskingum Cunge não linear Substituir K e X (C1, C2 e C3) constantes por variáveis A cada passo de tempo é necessário recalcular o valor de K e X (C1, C2 e C3) Só o que não muda é o x Muskingum Cunge não linear Qual vazão usar como referência? Criar tabela Q x C a partir de tabela hxAxQ Solução não-linear Cálculo de X e K em cada célula de cálculo t t+1 It+1 Calcular K e X com base em: Qt+1 (1) Qt t It Qt (2) Qt, It e It+1 (3) todos. i i+1 x Qot I t Qt I t 1 3 67 Exemplo Jacuí Linear x Não-linear Evento 1 2 3 4 Linear 0,91 0,83 0,92 0,88 Não-Linear 0,97 0,94 0,96 0,98 68