Tratamento estatístico de dados experimentais conceitos básicos
1
2
Incerteza associada a uma medição
Propagação de erros
3
4
Representação gráfica
Pequeno guia para criar gráficos
5
Regressão linear
1
1 Incerteza associada a uma medição
Todas as medidas estão afetadas de uma incerteza porque qualquer instrumento,
por melhor que seja, tem uma escala e a expressão da medida real nessa escala
implica sempre uma aproximação a medida exata
Erro é a diferença entre o valor medido e o “valor verdadeiro” da grandeza em análise
Incerteza é o parâmetro associado ao resultado de uma medição de uma grandeza
física que caracteriza a dispersão de valores que podem ser atribuídos a essa grandeza
2
1.1 Um exemplo com uma régua milimétrica
Uma régua comum, graduada em milímetros
l é o comprimento do objeto
5 < l < 6 (mm) a extremidade do objeto está entre os valores 5 mm e 6 mm
l = 6.0 0.5 (mm)
(0.5 mm é a metade da menor divisão da escala)
Significa que podemos estar a cometer um erro máximo de 0.5 mm na nossa leitura
A este valor de 0.5 mm chamamos INCERTEZA INSTRUMENTAL
3
Agora vamos imaginar que a régua é bem grande e portanto temos uma escala mais
ampliada e que por isso podemos perceber com mais clareza
• A marca mais próxima é 6
• Que o comprimento real não ultrapassa 6
As informações anteriores levam-nos a concluir que
5.5 < l < 6.0 (mm)
Portanto, a leitura deverá agora ser expressa como
l = 5.75 0.25 (mm)
Note-se que neste caso o valor medido não coincide com os valores da escala (1,2,3,4,5,6,. . . )
Os valores medidos estão desviados de um quarto da menor divisão relativamente aos valores
da escala.
4
1.2 A generalização do exemplo para a regra a seguir nas aulas
O exemplo que foi referido na secção anterior poderia ser generalizado a qualquer escala
analógica (uma escala contínua)
Regra 1: A incerteza associada a uma escala analógica corresponde a metade da sua
menor divisão
Regra 1 (extendida): A incerteza associada a uma escala analógica pode ir até um
quarto da sua menor divisão
5
1.3 Escalas digitais
E quanto as escalas digitais, como nos cronómetros ou balanças digitais?
A diferença, é que não temos acesso ao meio da escala escala descontínua
Pensemos, por exemplo, num cronómetro digital de segundos
Imaginemos que fazemos uma cronometragem que deu 5 s
5<t<6s
Portanto poderíamos escrever como anteriormente: t = 5.50.5 s
mas há um problema adicional nas escalas digitais!
6
A calibração do ponto zero também e afetada pela incerteza da escala digital!
incerteza total = incerteza associada a medida + a incerteza associada a calibração do zero
(metade da menor divisão da escala) +
(também metade da menor divisão da escala)
Voltando ao exemplo anterior, a leitura do tempo deverá ser então dada por
t = 5 1 s
Regra 2: A incerteza associada a uma escala digital corresponde a sua menor divisão
Regra 2 (extendida): A incerteza associada a uma escala digital pode considerar-se
como sendo metade da sua menor divisão se pudermos desprezar as incertezas
associadas a calibração do zero
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1.4 O número de casas decimais de uma medida
Regra 3: O número de casas decimais (nCD) de uma medida deve ser igual ao
número de casas decimais da incerteza instrumental
Exemplos:
l = 3.0060 0.0005 m
8
1.5 Algarismos significativos
O número de algarismos significativos (nAS) associado a uma dada medida é igual ao
número de algarismos que têm realmente significado
esta definição quer dizer implicitamente que nem todos os algarismos têm significado
Casos em que um algarismo não conta (não é significativo)
Zeros a esquerda não contam:
09 = 9
o primeiro zero é redundante e não serve para nada - não é significativo
Zeros a direita não contam se apenas indicarem ordem de grandeza
Quando se diz que há 10 milhões de portugueses
Não quer dizer que 10000000 é o valor exato de portugueses
este valor é apenas uma ordem de grandeza
9
Mas suponhamos que o ultimo censo dava exatamente 10000000 - nem um a mais, nem um a
menos. Como indicar que agora todos os zeros são significativos, porque derivados de uma
contagem real?
A resposta é: COLOCANDO UM PONTO DECIMAL NO FIM
(a) Zeros não significativos: 10000000 (sem ponto)
(b) Zeros significativos: 10000000. (com ponto)
Uma outra forma de justificar o ponto anterior (a) e notar que o número de portugueses se
pode escrever aproximadamente
1107
potência de 10
O único AS é o 1
Todos os outros zeros estão condensados na potência, a que não associamos nenhum
AS
10
Regra 4: Zeros a esquerda e zeros representativos de ordem de grandeza não são
significativos. O primeiro AS conta por 2 se for 5.
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1.6 Há relação entre o nCD e o nAS?
Se forem números em abstrato o nCD e o nAS são independentes entre si, mas para as
medições, podemos dizer que há realmente uma relação entre eles
Exemplo: Um objeto com 3.25682(. . . ) m e medido em duas réguas: uma com escala
milimétrica e outra com escala centimétrica.
A leitura na escala milimétrica será
l = 3257.0 0.5 mm. nCD=1
Escrevendo a leitura em cm, l = 325.70 0.05 cm.
A leitura na escala centimétrica será
l = 326.0 0.5 cm.
nAS=5
nCD=2
nAS=5
nCD=1
nAS=4
Para o mesmo objeto e medida, mudar de escala implica mudar de nAS
A escala determina o nCD
o nCD determina o nAS
12
Exemplos:
13
1.7 Series de medidas
Tudo o que discutimos ate agora se referiu apenas a uma medida
Para certas grandezas, normalmente fazemos
uma série de medidas
Exemplo: Medição do tempo que uma esfera
leva a deslizar sobre um plano inclinado
Resultados
Os tempos não são todos iguais porque há muitos fatores não controláveis a
influenciar o resultado da medida: a sincronia da largada do corpo com o
início da contagem, o tempo de reação do operador e a própria forma como o
corpo e largado.
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Como representaremos este conjunto de dados?
Vamos supor que fizemos mil medições do tempo, para a mesma experiência.
Fazemos um histograma destas contagens considerando:
a classe 4.5 contém todas as repetições em que se observou t < 4.5 s
a classe 4.6 contém todos as repetições em que se observou 4.5 t < 4.6 s
a classe 4.7 contem todos as repetições em que se observou 4.6 t < 4:7 s
...
a classe 6.4 contem todos as repetições em que se observou 6.3 t < 6.4 s
a classe 6.5 contem todos as repetições em que se observou 6.4 t s
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HISTOGRAMA
Frequência absoluta
250
200
150
100
50
4.5 4.6 4.7 4.8 4.9 5 5.1 5.2 5.3 5.4 5.5 5.6 5.7 5.8 5.9 6 6.1 6.2 6.3 6.4 6.5
Classe de contagem do tempo em s
A classe mais observada é a classe 5.5, que corresponde a 5.4 t < 5.5 s com cerca
de 200 eventos observados
Depois seguem-se as classes 5.4 e 5.6 com aproximadamente 170 eventos cada
16
As classes poderiam tornar-se tão estreitas quanto quiséssemos e acabaríamos por obter
uma distribuição contínua.
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No nosso caso a distribuição contínua, está representada a vermelho
DISTRIBUIÇÃO GAUSSIANA OU NORMAL
18
A forma do “sino” é definida pelo desvio padrão
A distribuição Normal (ou Gaussiana ) é simétrica
em torno do ponto , e que representa a média da
distribuição
A forma matemática da distribuição Normal é dada por:
( x μ) 2
A0
N ( x | x, A0 , σ )
exp
2
2
σ
σ 2
N ( x | x, A0 , σ ) representa o valor da função no ponto x
A0
é a amplitude da função
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Dos valores observados na medição
68% no intervalo [ μ σ , μ σ ]
95% no intervalo
[ μ 2σ , μ 2σ ]
99.7% no intervalo [ μ 3σ , μ 3σ ]
Por isso a forma ideal de
caracterizar a medição é escrever:
x=
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Para um número finito de medições (10 ou mais valores)
estimamos o valor de através do cálculo do valor médio (x )
N
x
x
i 1
i
N é o número de medições e {x } é o conjunto das medidas
i
N
consideramos o desvio padrão ( ) da amostra com sendo
s e que corresponde a
N
s
Escrevemos a medição na forma:
2
x
x
i
1
N 1
x xs
21
Podemos ter duas incertezas associadas às medidas
Para uma medida individual apresentamos o resultado na forma
x x0 x
x0 é o valorda escala
x é a incertezaassociada a escala
Para uma série de medidas apresentamos o resultado na forma
x xs
x é o valormédio das medidas
s é a incertezaestatística
Regra 5: A representação de uma serie de medidas faz-se na forma x x maxx, s
em que x é o valor médio da amostra * e s é o desvio padrão da amostra **, e x é a
incerteza da escala.
N
N
* x
xi
i 1
N
** s
2
x
x
i
1
N 1
22
Voltando às medições do tempo de deslizamento duma esfera sobre um plano inclinado
x 5.5422 s
s 0.2513 s
x 0.01 s
A medição deve apresentar-se na forma:
t 5.54 0.25 s
Note-se que para escrever o resultado final o valor de s foi comutado para o número de casas
decimais da incerteza instrumental. Isto constitui a regra seguinte:
Regra 6: Os valores da média e desvio padrão devem ser escritos com o mesmo nCD
da incerteza instrumental. Em geral, quando se escreve uma medida na forma
valor incerteza, o nCD do valor e da incerteza devem ser iguais.
23
2
Propagação de erros (ou propagação de incertezas)
Muitas vezes precisamos calcular uma grandeza a partir de um conjunto de medidas de
grandezas experimentais afetadas de incertezas. E depois será necessário quantificar a
incerteza da grandeza calculada
Exemplo: Quero saber a área de um retângulo, de lados a e b. Se consideramos que cada
lado do retângulo foi medido com uma régua diferente:
b
a é a incerteza de a
b é a incerteza de b
a
Qual será a incerteza A da área A=ab ?
A
Esta incerteza pode ser calculada através da fórmula de propagação de incertezas
(erros) que estudaremos a seguir
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MÉTODO PARA UTILIZAR NAS AULAS PRÁTICAS
2.3 Cálculo da incerteza associada a uma operação sobre medidas caso x« x
A GRANDEZA DEPENDE DE UMA VARIÁVEL
Queremos determinar a incerteza de uma grandeza G que é função de uma outra grandeza x:
G=f(x)
A incerteza de x é x. Denominaremos de G a incerteza de G
De acordo com a expansão de Taylor podemos calcular o valor de f(x + x ) a partir do
valor de f(x), se x « x ( que é o nosso caso).
Aproximação de 1º ordem da série de Taylor:
f(x + x )= f(x)+ x f’(x)
ou
x f’(x)= G
x
dG
= G
dx
x f’(x) =f(x + x )- f(x)
G
dG
x
dx
25
L
Exemplo 1. Cálculo da área do quadrado
A L2 52 25 m2
nAS=2
L
Resultado da medição do lado do quadrado
L 5.0 0.5 m
L 5.0 m
L 0.5 m
Cálculo de V utilizando a expressão:
G
dG
dA
x A
L
dx
dL
dL2
A (
)L 2 LL 2 5.0 0.5 5 m 2
dL
A 25 5 m
2
26
Exemplo 2. Cálculo do volume de uma esfera a partir do valor do diâmetro.V 4 D D3
3 2 6
3
Resultado da medição do diâmetro da esfera
D 3.015 mm nAS=4
D 3.015 0.025 mm
D 0.025 mm
Cálculo de V utilizando a expressão:
G
dG
x V dV
D
dx G G
dD D D
V 14.35 0.36 mm3
nAS=4
27
2.4 Cálculo da incerteza associada a uma operação sobre medidas caso de
mais do que uma variável
A GRANDEZA DEPENDE DE MAIS DE UMA VARIÁVEL
G f ( x1 , x2 ,...,xn )
Neste caso, para obter a incerteza G, usamos uma generalização de G
Para esse fim temos que utilizar a derivada parcial
2
2
2
G
G
G
xn 2
x1 2
x2 2 .....
G
x1
x2
xn
dG
x
dx
2
2
sabendo que a mbm (ab)m
G
G
G
G x1
x2 .....
xn
x1
x2
xn
As derivadas parciais são calculadas em
2
x1 x1 , x2 x2 e xn xn
28
Exemplo 3 : Cálculo da incerteza da velocidade.
v
x
t
ou
v xt
1
A velocidade depende de duas variáveis : o espaço x que tem uma incerteza x e o
tempo t que tem uma incerteza t
x 2.00 cm
x 2.0 0.5 cm
x 0.05 cm
v
x 2.00
0.6667 cm/s 0.7 cm/s
t
3.0
t 3.0 s
t 3.0 0.1 s
t 0.1 s
nAS=2
v v
v
x t
Para calcular a incerteza da velocidade, v, utilizamos:
x t
2
2
v
( xt 1 )
1
0.05
v ( xt 1 )
x
2
1
x
x t x x
0.0167;
xt 2 2 2 0.2222
x
x
t
3.0
t
t
t
3.0
v
0.0167 2 0.2222 2 0.2228
v 0.7 0.2 cm/s
nAS=2
29
Exemplo 4 : Cálculo do volume de um cilindro a partir do valor do diâmetro e da altura do
cilindro e da incerteza do volume.
D
D 3.015 0.025 mm
h 6.030 0.010 mm
D 3.015 mm
D 0.025 mm
h
h 6.030 mm nAS=4
h 0.011 mm
2
π
D
V π h D 2 h
4
2
nAS=4
V
V
V
D
h
D
h
2
e
2
D
Aπ
4
2
V
2πDh
πDh
πD h 3.015 6.030π
28.55778408
D D D ,hh
4 D D ,h h
2 D D ,hh
2
2
V
h
D D ,h h
πD2
4
D D ,h h
πD 2 3.0152 π
7.13944602
4
4
30
V
V
V
D
h
D
h
2
2
D
Substituindo os valores na expressão acima
V
28.55778408 0.025 2 7.13944602 0.0112
h
V 0.509716894 0.0061675744
26
D
Aπ
4
obtemos
2
V 0.718250978 0.718 mm3
π 2
3.0152 6.030
V D h
43.0508595 43.05 nAS=4
4
4
V V V mm3
V 43.05 0.72 mm3
nAS=4
31
3 Representação gráfica
3.1 Regras básicas para construir gráficos
32
Exemplo do que não se deve fazer num gráfico
33
3.2 Barras de erro
A barra de erro tem por amplitude o valor do desvio padrão amostral. Quando olhamos
para um gráfico com barras de erro conseguimos visualizar a dispersão dos valores.
Por exemplo, para a primeira altura, h = 0.5m, os valores cronometrados
variaram aproximadamente entre 0.28 e 0.36 s, com um valor medio a 0.32 s.
34
3.3 Linearização de gráficos
35