CASO CLÍNICO REVISTA PORTUGUESA DE CIÊNCIAS VETERINÁRIAS Pseudoquisto renal subcapsular a propósito de dois casos clínicos em gato Subcapsular renal pseudocysts: two clinical cases in cats José Paulo Sales Luis, Cláudia Vieira, Ana Paula Carvalho, Mariana Melo Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa - Cirurgia, Polo Universitário do Alto da Ajuda, R. Prof. Cid dos Santos, 1300-477 Lisboa, Portugal Resumo: O pseudoquisto renal subcapsular é uma situação relativamente rara em gatos, mas está descrita nesta espécie como uma entidade diferenciável dos rins poliquísticos. Constata-se uma acumulação de fluido entre o rim e a sua cápsula, não havendo protecção por camada de epitélio. Os Autores reportamse a dois casos clínicos em gato, um com acumulação bilateral de fluido caracterizado como transudado, e outro com acumulação unilateral de fluido de tipo urinífero infectado. Summary: Subcapsular renal pseudocysts are rare situations described in cats, being different from policystic kidneys. The acumulated fluid lies between the kidney and its capsule and the cyst is not protected by an epitelium wall. Two clinical cases are described, one being bilateral with transudate accumulation of fluid, and the other being unilateral with an infected urineferous type of fluid. Introdução O pseudoquisto renal subcapsular (PQRS) (Figura1), também designado por pseudoquisto ou quisto perirenal, quisto renal capsular ou capsulogénico, hidronefrose capsular, ou pseudohidronefrose (Ticer, 1963; Birchard e Sherding, 1994; Lemire et al., 1998) é definido como uma acumulação de fluido entre o parênquima renal e a sua cápsula, sem que haja protecção do quisto por camada epitelial (Birchard e Sherding, 1994; Lemire et al., 1998; Beck et al., 2000). Nalgumas situações está descrita a constituição de um verdadeiro saco fibroso perirenal a envolver o quisto (Polzin et al., 1989). É a inexistência de envolvimento por uma camada epitelial que não permite considerar o PQRS como verdadeiro quisto (Birchard e Sherding, 1994; Lemire et al., 1998; Beck et al., 2000). Esta entidade diferencia-se dos rins poliquísticos (Figuras 2 e 3), quer pela inexistência do referido epitélio, quer pela localização exclusiva perirenal (Beck et al., 2000). No entanto está descrita a associação de ambas as entidades (Chetboul, 2001). Etiologia / fisiopatologia É uma situação não associada aos canídeos e considerada relativamente rara em felinos (Polzin et al., 1989; Beck et al., 2000). Num estudo de 26 casos (Beck et al., 2000) os PQRS foram referidos em gatos com idades compreendidas entre os 4 e os 18 anos, sendo em média de 11 anos. Embora nesse estudo houvesse maior prevalência de machos, e particularmente de machos castrados, ele não apresentou significância estatística para afirmar poder haver predisposição de sexo, ou que a castração seja também predisponente. Ao contrário de outras lesões renais que têm origem tubular como o síndrome de Fanconi (Polzin et al., 1989), ou outras lesões consideradas hereditárias como os rins quísticos e poliquísticos nos gatos de pêlo comprido, particularmente nos Persas, e nos cães de raça Cairn Terrier, não se reconhece a origem tubular para os PQRS, nem há segurança em considerar esta afecção como hereditária (Polzin et al., 1989; Birchard e Sherding, 1994). A tentativa de considerar poder haver predisposição hereditária para esta patologia se manifestar pressupõe que necessita de outras etiologias concorrentes tais como urina ou linfa heterotópica, hematomas (secundários a cirurgias, transplantes, discrasias sanguíneas, rupturas aneurismais, neoplasias e congestão renal), lesão traumática do rim, cálculos renais ou uretrais, hipertrofia prostática, obstrução congénita do aparelho urinário (hidronefrose fetal) e causas idiopáticas (Lemire et al., 1998). No mesmo estudo (Beck et al., 2000) em 50% dos casos o processo foi bilateral e em 88% dos casos envolveu gatos comuns de pêlo curto, não havendo paralelismo com o que se passa com os rins poliquísticos em gatos de pêlo comprido. A patogénese e fisiopatologia do PQRS está ainda pouco esclarecida embora seguramente os quistos não tenham origem tubular (Polzin et al., 1989; Lemire et al., 1998). A natureza do líquido encontrado no quisto não é constante. Na maioria dos casos é um transudado. A frequente associação do PQRS com uma alteração difusa crónica do parênquima renal faz pressupor um aumento da pressão hidrostática ou oncótica a nível renal com extravasamento de fluido causado pela fibrose do parênquima renal (Ticer, 1963; Lemire et al., 1998; Polzin et al., 1989; Beck et al., 2000). Alguns autores questionam-se sobre se a origem do 211 Luis, J.P.S. et al. Figura 1 – Exame ecográfico de pseudoquisto subcapsular em gato. Notar presença de líquido sob a forma de imagem anecogénica envolvendo o rim líquido será parênquimatosa ou capsular, por deficiente drenagem venosa (Beck et al., 2000). Noutros casos o líquido é urinífero, o que pressupõe dificuldade na drenagem da urina formada, dando origem a um designado urinoma (Polzin et al., 1989; Lemire et al., 1998; Beck et al., 2000). Nos urinomas exuberantes pode haver transvasamento de líquido urinoso para a cavidade abdominal por lesão da cápsula determinando, na maior parte dos casos, lipólise da gordura e tecido adiposo perirrenal e formação de uma cápsula fibrosa que tende a localizar o processo (Lemire et al., 1998; Beck et al., 2000). Noutros casos, embora mais raramente, podem-se encontrar hematomas perirrenais, relacionados com traumatismos, alteração da coagulação, congestão renal ou neoplasia (Polzin et al., 1989; Lemire et al., 1998). Finalmente estão também descritos linfocelos, em que o fluido acumulado é linfa, relacionáveis com obstrução linfática a nível do hilo renal ou associados a processos de transplante renal (Polzin et al., 1989; Lemire et al., 1998). Quadro clínico / diagnóstico Na maior parte dos casos, a primeira evidência clínica resume-se a grande e progressiva distensão abdominal por renomegália, que um exame ultrasonográfico permite imediatamente caracterizar como resultante de acumulação de líquido uni ou bilateral a nível perirenal e subcapsular (Polzin et al., 1989; Birchard e Sherding, 1994). A dor, quando existente, é quase sempre relacionável com a existência de hemorragia, infecção ou ruptura da cápsula, mais do que com a quantidade de líquido acumulado (Polzin et al., 1989). A função renal pode estar comprometida, embora numa fase inicial não seja comum. No entanto, há tendência para o desenvolvimento de uma insuficiência renal crónica relacionável com uma nefrite intersticial crónica, com valores de ureia e creatinina elevados e baixa densidade da urina (Ticer, 1963; Polzin et al., 1989; Beck et al., 2000; Hill et al., 2000). 212 RPCV (2003) 98 (548) 211-216 Figura 2 – Exame ecográfico de rim poliquístico em gato persa. Notar que além de múltiplos, os quitos invadem o parênquima renal O estudo ultrasonográfico é o meio complementar de diagnóstico ideal pois permite esclarecer de imediato a justificação para a renomegália apresentada. Além da constatação da presença de líquido subcapsular (Polzin et al., 1989; Birchard e Sherding, 1994; Lemire et al., 1998; Beck et al., 2000), estão descritas várias alterações ecográficas do parênquima renal que tendem a associar-se com a nefrite intersticial. O contorno irregular da cortical (Polzin et al., 1989) e a demarcação pouco óbvia entre medular e cortical (Beck et al., 2000; Hill et al., 2000) são as principais alterações encontradas. Outros exames como uma urografia descendente ou biópsia podem ser equacionados (Polzin et al., 1989). A biópsia ou exame histopatológico destes rins revela frequentemente alterações definidas como fibrose intersticial com infiltração leucocitária particularmente linfoplasmocitária, atrofia e necrose tubular, glomerulonefrite membrano-proliferativa (Ticer, 1963; Lemire et al., 1998; Hill et al., 2000). Numa fase inicial a nefroesclerose, as nefrites intersticiais crónicas, a necrose tubular e as glomerulonefrites associáveis a estes pseudoquistos são ecograficamente caracterizáveis por hiperecogenicidade cortical e aumento da definição do limite cortico-medular (Nantrup et al., 2000; Chetboul, 2001). O progressivo agravamento destas nefropatias induz geralmente um aumento da hiperecogenecidade cortical com eventual espessamento desta, perda de volume do rim e perda da evidência da delimitação cortico-medular. Pode ser encontrada uma linha muito hiperecogénica na medular externa, paralela à junção cortico-medular, que se traduz por calcificação dos túbulos distais e canais colectores (Nantrup et al., 2000; Chetboul, 2001). A análise do líquido drenado do próprio quisto pode corresponder a vários tipos e ajudar na tentativa de definição do processo fisiopatológico em curso. Mais frequentemente é um transudado com baixa celularidade, com possibilidade de presença de algumas células mononucleadas, baixa densidade e concentração proteica inferior a 25 g/dL (Ticer, 1963; Beck et al., Luis, J.P.S. et al. 2000). Noutros casos aproxima-se de um líquido urinoso e eventualmente infectado. A presença de sangue é relacionável com trauma, neoplasias e discrasias sanguíneas. Terapêutica A intervenção terapêutica passa sistematicamente pela necessidade de drenagem do líquido contido no ou nos quistos. Nalguns casos em que haja infecção notória do conteúdo quístico a utilização de cobertura antibiótica é premente. Preferem-se os antibióticos liposolúveis como por exemplo o cloranfenicol, a clindamicina, as tetraciclinas, a eritromicina ou a associação de sulfamida com trimetropin (Polzin et al., 1989). A drenagem por punção per cutânea está descrita como medida provisória ou sugerida como intervenção repetida periodicamente (Beck et al., 2000). De facto, a recidiva com nova acumulação de líquido é quase uma constante e pode acontecer poucos dias depois até aproximadamente 12 semanas (Beck et al., 2000). Nessa perspectiva opta-se pela intervenção cirúrgica que visa uma mais definitiva resolução do problema. O acesso faz-se pela linha branca com incisão centrada na cicatriz umbilical. Está descrita a drenagem cirúrgica do quisto com ressecção quase total da cápsula, deixando apenas cerca de um centímetro de margem de cápsula para além da inserção desta no parênquima renal (Polzin et al., 1989; Birchard e Sherding, 1994; Beck et al., 2000). A produção de líquido continua, sendo este disperso pela cavidade abdominal com a hipótese de absorção peritoneal, sem grandes inconvenientes, sobretudo quando se trata de um transudado. A eventual contribuição da cápsula na produção do líquido por estase venosa sugere a sua parcial remoção (Beck et al., 2000). O risco de ascite é em qualquer caso apreciável. Outra solução apontada corresponde à omentalização dos quistos envolvidos, em que se propõe a associação desta técnica com a remoção parcial da cápsula deixando 2 cm de margem capsular para organizar a sutura da cápsula ao omento (Hill et Figura 3 – Exame ecográfico de rim poliquístico em gato persa. Neste estado avançado a função renal está seriamente comprometida RPCV (2003) 98 (548) 211-216 al., 2000). O omento vai ocupar o espaço perirenal e é suturado à margem da cápsula com uma sutura continua. A nefropexia por fixação em dois pontos pode ser utilizada como técnica complementar apenas para diminuir a excessiva mobilidade renal adquirida (Beck et al., 2000). Os resultados parecem bons a curto/médio prazo (Polzin et al., 1989; Beck et al, 2000; Hill et al., 2000), mas quase constantemente não são impeditivos de um progressivo aparecimento a médio/longo prazo de nefroesclerose com correspondente insuficiência renal comprováveis por um crescente aumento da creatinina (Ticer, 1963; Polzin et al., 1989; Lemire et al., 1998; Beck et al., 2000). Casos clínicos Apresentam-se dois casos de felinos em que foi diagnosticada uma situação de pseudoquisto renal subcasular. O primeiro consta de um processo bilateral com grande acumulação de líquido definido como transudado e o segundo de um processo unilateral, em que o líquido foi definido como de tipo urinoso e infectado. A distensão abdominal foi o elemento preponderante da história clínica, embora no segundo caso existisse uma história de hipertermia associada. Realizou-se estudo ecográfico e ambos os casos foram sujeitos a drenagem cirúrgica dos quistos. Caso clínico I Um felino de sexo masculino, inteiro, cruzado de siamês e persa, com nove anos de idade, foi avaliado em Novembro de 2001 por grande aumento e distensão abdominal e por apresentar anorexia. A dona referia aumento progressivo do volume abdominal há pelo menos dois meses, atribuindo-o inicialmente a obesidade. À observação clínica o abdómen revelou-se distendido, tenso, mas apesar de tudo indolor (Figura 4). Foi submetido a exame ecográfico em que se constatou grande acumulação bilateral de fluido hipo/anecogénico a nível perirenal e estrictamente subcapsular. Os rins apresentavam hiperecogenecidade cortical e demarcação cortico-medular notória (Figura 5). Apesar da anorexia o estado geral do paciente revelou-se bom. Foi proposto laparotomia no sentido de drenar os quistos e proceder a biópsia do rim. A anestesia foi obtida pela associação de 90 mg de quetamina (Imalgène 1000) e de 4 mg de xilazina (Rompum 2%). Após laparotomia mediana verificou-se que ambas as cápsulas renais, principalmente a direita, apresentavam grande dilatação condicionada pela presença de líquido perirrenal (Figuras 6 e 7). Procedeu-se à drenagem do líquido, inicialmente através de catéter e depois por abertura da cápsula, e foi enviada amostra para estudo laboratorial. O aspecto era de um líquido não muito denso, não viscoso, límpido. Após drenagem do líquido e abertura da cápsula foi possível visualizar os rins que 213 Luis, J.P.S. et al. RPCV (2003) 98 (548) 211-216 Figura 4 – Distensão abdominal causada por presença de pseudoquisto subcapsular bilateral em gato (caso clínico I) apresentavam estrutura macroscópica alterada sendo de pequenas dimensões, de coloração clara, superfície ligeiramente irregular e de densidade aumentada sugerindo nefroesclerose (Figura 8). Procedeu-se então à colheita para biópsia de um pequeno fragmento do rim direito. Optou-se por manter a cápsula renal aberta mas sem a eliminar parcialmente. Procedemos a lavagem cirúrgica da cavidade peritoneal com soro fisiológico amornado e encerramos rotineiramente a cavidade abdominal. O paciente foi medicado com 75 mg/dia de amoxicilina (Clamoxyl), medicação que foi prolongada por dez dias. A persistência da anorexia durante alguns dias levou à administração de fluido parenteral até recuperação do estado geral e apetite. A função renal foi avaliada através do doseamento de ureia e creatinina que se encontravam dentro de valores normais. A pesquisa de FIV e FeLV foi também feita e negativa. A recuperação acabou por ser considerada total ao fim de aproximadamente quinze dias. A análise do fluido drenado revelou tratar-se de um transudado de baixa celularidade. O estudo histopatológico justificava a alteração do aspecto macroscópico ao revelar lesões focais de nefrite intersticial, infiltração inflamatória por células mononucleadas e lesão glomerular (Figura 9). O paciente regressou novamente à consulta cerca de dois meses depois da cirurgia, com perda de apetite e aumento da cavidade abdominal. Nova ecografia revelou nova acumulação de fluido bilateralmente, embora Figura 6 – Aspecto intraoperatório dos rins com pseudoquisto subcapsular bilateral (caso clínico I) 214 Figura 5 – Exame ecográfico de pseudoquisto renal subcapsular em gato (Caso clínico I). Notar presença de líquido a envolver o rim. Este apresenta ecogenecidade alterada associável a nefrite intersticial crónica em menor quantidade do que na primeira situação. A recidiva dos quistos pressupunha o encerramento espontâneo das cápsulas e propôs-se assim nova abordagem cirúrgica para drenagem e remoção parcial das cápsulas. Respeitou-se um centímetro de margem na transição para o parênquima renal e procedeu-se à ablação da restante cápsula. O paciente acabou por falecer na sequência da própria cirurgia o que justificámos por complicações associáveis à insuficiência renal. A não ablação parcial da cápsula na primeira intervenção foi considerada como determinante na recidiva. Caso clínico II Em maio de 2002 foi-nos referido a exame ecográfico abdominal um gato macho de raça siamês, de 2 anos de idade, que tinha sido observado na véspera com massa abdominal dolorosa à palpação e com hipertermia (39,4 ºC). A ecografia identificou a massa como correspondendo ao rim direito que se apresentava muito volumoso devido à presença de líquido subcapsular sob a forma ecográfica de material hipo/ anecogénio (Figura 10). A hipertermia registada inicialmente manteve-se durante mais uma semana ocurrendo também simultaneamente anorexia e prostração. Apesar disso o hemograma era normal e a urocultura Figura 7 – Aspecto intraoperatório do rim direito com pseudoquisto subcapsular (caso clínico I) Luis, J.P.S. et al. Figura 8 – Aspecto do rim após abertura da cápsula e drenagem do líquido. Notar dimenção reduzida do rim e tonalidade clara do seu cortex RPCV (2003) 98 (548) 211-216 do quisto apresentava um aspecto hemopurulento e moderadamente viscoso. Foi feita capsulotomia, drenagem do quisto e eliminada parte da sua parede. O conteúdo séptico do quisto levou-nos a não o deixar aberto para a cavidade peritoneal e a procedermos ao seu encerramento parcial associado a protecção com omento da abertura mantida. A recuperação foi boa tendo sido mantida fluidoterapia e cobertura antibiótica com 200 mg de cefoxitina sódica (Mefoxin) no pós operatório. Oito meses depois a situação mantém-se equilibrada e a função renal estabilizada, sem recidiva do pseudoquisto. A análise do líquido identifica-o como líquido muito turvo de cor castanho escuro, com presença de eritrócitos (> 300/campo 400X), com presença não muito abundante de leucócitos (15/campo/400X), e com a presença de flora microbiana (cocos móveis). A amostra rica em células, com características inflamatórias, com inúmeros neutrófilos degenerados e não degenerados além de abundantes eritrócitos, sugere infecção e inflamação possívelmente associado a trauma com presença de sangue. Este tipo de fluído é compatível com a sua inclusão num tipo de fluído urinífero, embora possa ser só considerado como liquído inflamatório infectado. Discussão Figura 9 – Aspecto histopatológico de rim associado a pseucdoquisto subcapsular (caso clínico I). Apresenta lesões de nefrite intersticial com fibrose do estroma e infiltração celular inflamatória por células mononucleadas. Os glomérulos exibem espessamento da cápsula de Bowman, deformação do tufo vascular e espessamento do mesângio (HeF, 400x) negativa. A ureia e creatinina estavam moderadamente elevadas (ureia 67 mg/dL; creatinina 2,06 mg/dL). Foi submetido a terapêutica com 50 mg de cefalexina BID (Ceporex) associado a 25 mg de enrofloxacina SID (Baytrill) e fluidoterapia endovenosa. Depois de controlada esta situação foi submetido a laparotomia no sentido de drenar o quisto. O conteúdo Figura 10 – Exame ecográfico de pseudoquisto renal subcapsular (caso clínico II) Embora a casuística seja diminuta, crê-se que esta experiência própria sobreposta ao conhecimento concretizado na pesquisa bibliográfica nos permite levantar algumas questões sobre este tema. A diferenciação dos pseudoquistos em relação aos rins poliquísticos parece ser absoluta. A prevalência da patologia não parece ser grande não havendo senão pontualmente referência a esta situação. A excepção é representada pelos 26 casos apresentados num trabalho respeitante ao continente Australiano (Beck et al., 2000). Neste estudo não se considera haver predisposição rácica ou de sexo significativa e a etiologia genética para a situação não é equacionada. A concentração particular de casuística num determinado contexto e o facto dos nossos dois casos se reportarem a um siamês e a um filho de persa e siamês podem sugerir a necessidade de rever este conceito. O trabalho de Beck et al. (2000) sugere, sem significância estatística, uma maior prevalência de casos em gatos machos. Curiosamente os nossos dois casos são representados por gatos machos. Este será outro conceito a manter em estudo. A terapêutica cirúrgica, qualquer que seja a etiologia representada, parece estar indicada. A necessidade de drenagem do quisto é implícita. A noção de recidiva do processo deve também ser considerada à priori embora provavelmente será menos frequente em processos de natureza traumática. A técnica cirúrgica deve prever este condicionalismo. É imperioso drenar o quisto e eliminar parcialmente a cápsula. Pode-se optar por 215 Luis, J.P.S. et al. deixar o pseudoquisto aberto para a cavidade abdominal ou, sobretudo com liquído de natureza urinosa ou infectado declaradamente, optar pela omentalização do pseudoquisto. Para além do sucesso na drenagem e manutenção desta situação no pseuquisto, é importante ter a noção de que este processo está associado a uma nefrite intersticial crónica progressiva que, sendo bilateral, vai posteriormente comprometer a sobrevivência do paciente. Agradecimentos Agradecemos a colaboração do Centro Veterinário do Montijo e da Secção de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa. 216 RPCV (2003) 98 (548) 211-216 Bibliografia Beck, J.A., Bellenger, C.R., Lamb, W.A., Churcher, R.K., Hunt, G.B., Nicol, B.G., Malik, R. (2000). Perirenal pseudocysts in 26 cats. Australian Veterinary Journal, 3, 166-171. Birchard, J.S., Sherding, R.G., (1994). Saunders manual of small animal practice. 1ª ed., WB Saunders Company. Chetboul, V. (2001). Examens echographiques abdominal, oculaire et nerveux du chien et du chat. Masson, 1 ère ed. Hill, T.P., Odesnik, B.J. (2000). Omentalisation of perinephric pseudocyst in a cat. 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