Jan/Fev 2011
SÓ PARA PROFISSIONAIS
IDT incrementa qualidade nas
respostas: CRI Vila Real e NAT
Coimbra estendem rota da
certificação
Revista Mensal • 2 Euros
Associação
Portuguesa de
Adictologia já mexe
World Bike Tour
promove inclusão
no Brasil
Editorial
3
Índice
Editorial..................................... 3
Nem coitadinhos
nem betinhos
NAT............................................. 4
CRI Vila Real............................. 5
Hospital de Joaquim
Urbano e DRN do IDT
renovam protocolo.................. 8
Hospital de Joaquim
Urbano....................................... 9
Investigação em Português,
Cristina Ribeiro...................... 12
Fórum Álcool e Saúde:
membros fundadores........... 16
Associação Portuguesa de
Adictologia.............................. 18
Agrupamento de
Escuteiros de Silvares.......... 20
HSJD........................................ 22
Opinião, Mireia Pascual........ 28
Opinião, Godofredo
Reinicke Borda....................... 29
Bike Tour S. Paulo 2011........ 31
Um destes dias, infiltrei-me numa conversa entre dois UD’s. Curiosamente, um tinha vivido dez anos de dependência de heroína e de cocaína, em Lisboa, encontrando-se actualmente em tratamento de substituição opiácea, dizia… O outro, que ainda hoje, no alto dos seus 45 anos, partilha 16 da sua vida com a heroína, sempre
habitou no Porto e foi a partir das experiências vividas nos locais “mais emblemáticos” para os portuenses que
consomem drogas e têm que recorrer a canais de distribuição não legalizados para o fazer que o diálogo se
iniciou. Dizia o portuense para o lisboeta: “Ainda me lembro quando levávamos porrada a torto e a direito na
Banharia e no Tarrafal… A bófia aparecia e levava tudo à frente!”
Foi aí que me intrometi… “Então e hoje?”, questionei… “Ai hoje… Hoje parecemos betinhos, comparados com
o que era dantes”… O aceno de cabeça e o reparo do lisboeta significava concordância absoluta: “É verdade.
Não é que haja a liberdade que, se calhar, devia haver mas olhe, alguém imaginava, na minha altura, que
houvesse equipas nas ruas e nos bairros para tratarem de nós? Ou que não andássemos sempre a levar com
processos-crime por causa dos consumos? Tive muitos colegas que foram presos e olhe que nenhum enriquecia à custa da droga… Quando alguém nos falava em tratamento, pensávamos logo que, das duas uma: ou era
para ver se tínhamos família com pasta que lhes pudesse dar uns milhares ou então que era bófia…”
Infelizmente, esta é uma realidade que ainda impera em muitos países… Felizmente, Portugal não é um deles…
há uns anos. Embora, esporadicamente, se ouçam ainda relatos de alguns profissionais das forças de segurança que se tentam apropriar de um tipo de intervenção que não é propriamente o deles, esses registos são cada
vez mais pontuais. De ostracizados, maltratados, espezinhados e violentados, os toxicodependentes deste país
de brandos costumes passaram a constituir, para o Sistema Nacional de Saúde e até, em certo modo, para a
Segurança Social, uma espécie de betinhos que, no acesso, na qualidade assistencial e na proximidade de
estruturas de que beneficiam, acabam por ser positivamente descriminados relativamente aos portadores de
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outras patologias ou desigualdades sociais.
Hoje, fala-se neste país, por tantos criticado, como um exemplo para o mundo ao nível deste tipo de políticas
que visam a diminuição de desigualdades sociais e a minimização do impacto que o fenómeno dependência
pode originar ao nível da saúde individual e pública. O que também é possível de ser constatado através do
relatório anual que Dependências publicou, na anterior edição.
Por estas e por outras, só nos resta esperar que, em época de crise, não surjam os tão indesejáveis cortes cegos numa área tão importante, como é a da saúde. A nós, imprensa, resta-nos vigiar e cumprir, de igual modo,
com o papel que temos desempenhado: elogiar quando as coisas são bem feitas mas também alertar ou criticar
sempre que tal se afigure premente… Com a consciência que estes momentos menos abastados traduzem
oportunidades a não perder para uma, igualmente desejável, optimização e rentabilização de recursos e melhor utilização dos fundos públicos. Nem coitadinhos nem betinhos: é assim que se deseja que os portugueses
não sejam encarados pelos seus decisores políticos e demais agentes interventivos, sejam esses portugueses
toxicodependentes ou não.
Sérgio Oliveira
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NAT
Porquê a
certificação
Existe um interesse cada vez maior na certificação no sentido de um aumento da qualidade dos serviços prestados.
A implementação de um Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ) parte daquilo que realmente o serviço faz, ou seja, orientar as acções e as decisões
para os objectivos definidos com base na política da qualidade identificada
para o serviço.
A certificação implica a implementação de um (SGQ) e consequentemente
mudanças que se pretendem que sejam uma mais-valia para o cliente final
e que tem implicações no funcionamento e na gestão dos serviços, numa
perspectiva de melhoria continua.
O Núcleo de Apoio Técnico (NAT) da Delegação Regional do Centro é um
órgão de assessoria técnica ao Delegado Regional, que em 2010 concluiu o
seu processo de certificação.
Desde o inicio que encarámos a certificação como um processo dinâmico
e contínuo, obrigando a um trabalho de equipa na procura de inovação e na
busca de soluções adequadas a cada situação. Este trabalho em equipa coadjuvado com a supervisão e consultoria técnica foi um facilitador na revisão
contínua e na implementação de uma abordagem por processos.
O primeiro passo para a caminhada da qualidade foi o determinar o que
fazemos e como fazemos. Identificar, conhecer e gerir processos contribui
para que o serviço atinja os seus objectivos de forma eficiente e eficaz,
possibilitando aferir a sua eficácia.
Compreender a importância de cada técnico, identificar os factores que limitam a sua actuação, detectando pontos de melhoria, assumindo e partilhando responsabilidades, aspectos presentes em todo o processo de
certificação. Isto levou-nos a uma avaliação do serviço e da” satisfação do
cliente”, o que permitiu um conhecimento melhor do serviço, dos processos
que cada um utiliza na execução das suas tarefas, da facilidade na tomada
de decisões, no verificar de responsabilidades e pensar no futuro numa lógica de empreendedorismo.
Hoje, podemos dizer que a primeira etapa está cumprida, o NAT da DRC
está certificado.
A partir daqui novos desafios serão lançados, sendo que a mais-valia que
o serviço retirará do seu SGQ dependerá da efectividades que todos souberem reconhecer os seus princípios, tendo em conta os seus requisitos
normativos ou linhas orientadoras internas, bem como a forma como se
desenvolverá o cumprimento dos mesmos.
CRI Vila Real
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CRI de Vila Real
certificado no
tratamento e reinserção
A exemplo do que tem vindo a suceder, fruto da adopção de uma política que privilegia a incrementação
da qualidade ao nível da organização e dos serviços
prestados, o IDT acaba de ver mais uma unidade certificada. Desta feita, foi o CRI de Vila Real que, após
um longo trabalho de implementação, que demorou
quatro anos a ser concretizado sob a liderança da
equipa nacional da qualidade, encabeçada por Jesus
Cartelle e Paula Sobrinho, recebeu a distinção por
parte de uma entidade externa, a Lloyd’s. Seguindo a
norma ISO 9001:2008, o âmbito da certificação reside
no tratamento e reinserção em regime ambulatório
das dependências e patologias associadas.
Dependências foi até Vila Real onde, em entrevista ao
director do CRI local, Armindo Liberal, tentou perceber como decorreu o processo e que mais-valias poderão resultar para a equipa técnica e utentes da unidade.
Era um desígnio do IDT começar por certificar determinadas unidades em diferentes valências e, finalmente, está concluído o processo
no CRI de Vila Real. Como surgiu a ideia e de que forma decorreu o
processo?
Armindo Liberal (AL) – Desde logo, isto surge fruto de uma política que
tem vindo a ser seguida pelo IDT, quanto a mim de forma muito apropriada, no sentido de aumentar consideravelmente a qualidade dos serviços
e, para isso, incrementar sistemas de gestão de qualidade nos mesmos.
Isto implica também a certificação da qualidade, enquanto forma de operacionalizar estes incrementos e, de facto, o IDT tem promovido este tipo
de processo numa série de unidades. Começou por escolher uma unidade
de cada valência e nós fomos contemplados, há quatro anos, ainda eu
não era director, com a possibilidade de sermos a primeira unidade deste
género certificada dentro do IDT, mas nesta lógica de que o IDT pretende
implementar esse sistema de gestão pela qualidade em todos os serviços
assistenciais e não assistenciais que possui.
Que tipo de alterações foram promovidas no serviço?
AL – Obviamente, isto obrigou-nos a reestruturar inúmeras coisas e a reformular o tipo de atendimento que fazemos, de forma a que pudéssemos
dar essa resposta que o IDT pretendia e também para darmos esse contributo para a organização, de sermos a primeira unidade deste género a
ser certificada. Mas fundamentalmente as alterações mais visíveis têm a
ver com o modelo de atendimento adoptado, e com a dinâmica da própria
equipa, que de facto está verdadeiramente implicada no processo, com
todos os elementos a deterem uma cota parte de responsabilidade directa
em cada um dos processos.
Mas o que mudou concretamente no vosso modus operandi?
AL – Desde logo, é preciso realçar que esta política do IDT obrigou o
serviço a repensar a forma como trabalhava e, para isso, tivemos um
contributo muito importante, que foi prestado pela própria equipa técnica
nacional da qualidade, com o Dr. Jesus Cartelle e a Dra. Paula Sobrinho,
que foram excelentes e fundamentais nesse processo e que nos levaram a
repensarmos a forma como trabalhávamos. Durante todo o tempo em que
nos estiveram a fazer o acompanhamento - foram eles os responsáveis
pela implementação deste processo – obrigaram-nos a pensar na forma
como atendíamos, a estabelecermos indicadores precisos para podermos
monitorizar a actividade que fazíamos e o que mudou, basicamente, foi
aquela perspectiva que é comum nos serviços de saúde, em que tudo está
centrado num médico e o resto, digamos que é uma espécie de acessório.
Neste momento, trabalhamos verdadeiramente numa equipa multidisciplinar, em que todas as valências são importantes, todas as áreas são
importantes e, quando o utente entra aqui para fazer um acolhimento, à
partida vai ser avaliado por todas as áreas. O diagnóstico é feito de uma
forma transversal. Não nos limitamos a fazer um diagnóstico médico mas
fazemos um diagnóstico de todas as áreas: médico, de enfermagem, de
serviço social e psicologia. Perante este diagnóstico, é então proposto ao
utente aquilo que designamos por plano individual personalizado, nada
mais nada menos que um plano de intervenção terapêutica, contemplando
todas estas áreas. Escusado será dizer que, sem a equipa fantástica que
construímos nesta unidade, com características de grande dinamismo,
profissionalismo e competência, nada disto teria sido possível. Como eu
costumo dizer, e acredito mesmo nisso, “tenho a honra de dirigir a melhor
equipa do IDT”.
Era preciso haver um processo de certificação para que as coisas
começassem a ser feitas assim?
AL – Se calhar não… Mas, às vezes, precisamos de pensar nas coisas
e esta foi, claramente, uma boa oportunidade para o fazermos. Se calhar, noutra situação normal, não havendo este processo de certificação
a decorrer, não teríamos tido esta oportunidade ou entenderíamos que
estaríamos a dar as respostas que se exigiam. Mas nada melhor do que
monitorizar a nossa actividade e, para isto, este tipo de procedimento foi
importante. Habituámo-nos a monitorizar a actividade que temos e este é
um dos aspectos fundamentais que têm os sistemas de gestão da qualidade. Não podemos fazer nada sem que esteja planeado, previsto, descrito e, ao mesmo tempo, monitorizado. Só assim podemos adoptar aquela
postura de melhoria contínua, que é o grande objectivo dos sistemas de
gestão da qualidade.
E quanto à equipa técnica, foi fácil “vender” o processo?
AL – Não. Mais uma vez, realço o papel determinante da equipa nacional da qualidade. Fizeram um trabalho inicial de consolidação da maturidade da equipa, trabalharam connosco muitas questões que não tinham
directamente a ver com o próprio atendimento ao público mas sim das
relações entre os elementos da equipa… Digamos que fizeram uma supervisão da equipa. Esse trabalho, longo, realizado pelo Jesús Cartelle e
pela Paula Sobrinho, foi fundamental. Só depois de atingirmos um grau de
maturidade suficiente foi possível avançar para o resto. E esta maturidade
permitiu-nos depois começar a absorver estas questões da certificação
com outros olhos, percebendo as vantagens de usarmos um sistema de
gestão da qualidade, as mais-valias que isto traduzia para o atendimento e
6
CRI Vila Real
O Processo de Certificação da Qualidade da ETE de Vila Real só foi possível com a aposta que
o IDT, I.P. fez nesta Equipa e no empenho, esforço e dedicação que todos os envolvidos tiveram
neste percurso. Traduziu-se num processo crucial de crescimento, evolução e organização para
a toda a Equipa/Serviço. Tratou-se de um processo bastante difícil e conflituoso, mas que no final
(Certificação) foi de extrema importância para todos nós, no sentido da melhoria contínua do
trabalho desenvolvido, tendo como âmbito de aplicação o “Tratamento e Reinserção, em regime
de ambulatório, das dependências e patologias associadas”. O Sistema de Gestão da Qualidade
(SGQ) foi conduzido de raiz pelo Comité da Qualidade, representado por Dr. Eduardo Fernandes e
Dr.ª Benedita Mocho. Com as orientações da Equipa de Trabalho para a Qualidade (ETQ) Dr.ª Paula
Sobrinho e Dr. Jesus Cartelle e, do Director, Enf. Armindo Liberal, com o auxílio e conhecimento
de todos os Colaboradores da ETE de Vila Real. Trata-se de um sistema organizado por Manuais
que contém todas as tarefas, procedimentos e processos no que concerne ao âmbito de aplicação, de acesso a toda a Equipa e em constante adaptação e mutação, no sentido da melhoria
contínua do mesmo. Como Coordenadora do Comité da Qualidade vejo o SGQ como uma aposta
diferenciada de melhoria e reorganização de um serviço, que oferece respostas cada vez mais
assertivas e profissionais na especificidade de cada Utente.
Benedita Seixas Mocho
para a própria relação com o utente, para a própria relação entre nós… A
título de exemplo, o sistema prevê que existam instrumentos de correcção
dos problemas que são identificados no dia-a-dia, como são os casos das
acções correctivas e das acções preventivas. Neste momento, já temos
isto quase que instituído entre nós. Se calhar, sem este sistema de gestão
da qualidade, estaríamos aí a “berrar uns com os outros”… O registo, agora, é outro. Em vez de adoptarmos aquele velho registo, comum noutros
serviços públicos, de andarmos a recriminar as pessoas individualmente,
o que não produz normalmente qualquer impacto em termos de melhoria, já temos um procedimento instituído e que toda a gente sabe cumprir.
Quando se detecta um erro, não é assim tão importante saber quem o
cometeu mas antes rectificá-lo. Abre-se uma acção correctiva, propõe-se uma intervenção diferente e o director assume a obrigação de avaliar
isso durante um determinado período de tempo, para saber se essa acção
correctiva teve, de facto, impacto na melhoria daquele procedimento. É um
registo diferente, muito mais fácil de implementar, que não causa tantos
conflitos entre a equipa e que já traduz a nossa forma de trabalhar.
Agora, devo realçar que com esta equipa que temos, todo este processo
se tornou bem mais fácil de “vender” como diz, pois estamos a falar, não
só de grande competência profissional, bem como de grande abertura
para a mudança.
Qual é a norma que orientou o processo de certificação?
AL – A norma é a ISO 9001:2008. O âmbito da certificação é tratamento
e reinserção em regime ambulatório das dependências e patologias associadas.
Em última instância, que benefícios representa todo este processo
para o utente?
AL – Desde logo, uma melhor organização do trabalho. A par, esta monitorização permite-nos ter uma percepção da eficácia dos tratamentos que
estão a ser implementados e do tal plano individual personalizado. A certificação tem vários processos integrados; cada um tem um responsável
na equipa, que monitoriza a actividade de cada um dos processos, o que
nos obriga, nas nossas reuniões gerais, a falar do assunto. Os responsáveis de cada processo vão dando o feedback da monitorização que têm
feito, relatando se estamos ou não a atingir os objectivos, se tem havido
impactos positivos ou negativos da forma como estamos a trabalhar…
Isto permite-nos estarmos sempre em melhoria. O que é excelente para o
utente porque, ao monitorizarmos a actividade e ao termos a percepção
do impacto que a mesma está a ter, estamos a prestar melhor serviço. E o
próprio utente acaba por sentir isso. No âmbito da certificação, no final de
cada ano procedemos à aplicação de um questionário de satisfação, tanto
aos colaboradores como aos utentes e não terá sido por acaso que tivemos um grau de satisfação de 72 por cento junto dos utentes. Tínhamos
uma meta de 65 por cento e conseguimos superá-la. E no próximo ano seremos ainda mais ambiciosos e pretendemos propor uma meta acima dos
75 por cento. Este é mais um dado concreto que resulta do facto de ter-
mos todos estes instrumentos a funcionar. Em vez de termos a sensação
de que os utentes estão satisfeitos, sabemos claramente a percepção de
quem mais interessa relativamente à melhoria da qualidade assistencial.
Uma vez que o processo de certificação é feito de normas e de requisitos, obrigando a mais registos e a uma maior produção documental, há ainda quem o entenda como uma forma de vigilância do
trabalho de cada um… Foi essa a percepção inicial da equipa?
AL – Desde sempre, o que teve muito a ver com a forma como o sistema foi
aqui implementado – mais uma vez, um louvor ao trabalho realizado pela
equipa nacional da qualidade – foi-nos transmitido que isto não era meramente uma passagem de um selo de certificação. Interessa-nos muito
mais perceber que vantagens traria o processo para o serviço. De facto, há
uma primeira fase em que é necessário muito trabalho documental, muito
trabalho burocrático mas isso acontece em tudo o que se faz de novo. É
preciso relembrar que este tipo de trabalho nunca tinha sido feito neste tipo
de unidade e foi preciso restringirmo-nos muito à norma e elaborar toda a
documentação de acordo com a mesma, que ainda por cima era nova e
nunca tinha sido usada. Tínhamos já feito algum trabalho documental com
a norma antiga, de 2003, tivemos que adaptar tudo para a de 2008… mas
agora já não é assim tão exigente em termos burocráticos mas mais na
implementação do sistema. E este, ao contrário do que possa parecer, tem
o condão de facilitar o trabalho em vez de o complicar. Porque, ao termos
procedimentos devidamente descritos, imagine-se que chega alguém de
fora para integrar esta equipa, temos o trabalho todo facilitado. Consultando os manuais, sabe perfeitamente os procedimentos a adoptar em determinado tipo de tarefas. O que também é bom para nós porque, a qualquer
momento, se surgir algum problema, sabemos exactamente onde está e
o que falhou. E aqui não posso deixar de fazer uma referência especial ao
comité da Qualidade, constituído pela Dra. Benedita Seixas e pelo Dr. Eduardo Fernandes, que, muitas vezes, prescindindo de tempo da sua própria
vida pessoal, deram tudo o que tinham para que este processo seguisse
no trilho certo, mostrando sempre grande disponibilidade e grande lealdade com a organização. A eles se deve todo este trabalho de organização
e elaboração altamente burocrática, que serviu de base para tudo o resto.
Qual foi a entidade responsável pela certificação?
AL – Foi a Lloyd’s. As acreditações, internacional e nacional, foram da
UKAS e do IPAC.
Um dos objectos de certificação foi a reinserção. Também aí a norma
especifica procedimentos processuais, ao nível dos procedimentos,
das parcerias com o exterior e dos outros instrumentos?
AL – Sim, especifica. Nomeadamente, na questão do encaminhamento
para unidades que é feito pela área da reinserção. Esta é uma questão
antiga no IDT: onde acaba o tratamento e onde começa a reinserção… Nós
temos uma perspectiva, como disse, multidisciplinar e faz todo o sentido,
quando se trata de promover uma certificação da qualidade numa área
CRI Vila Real
7
O Processo de Certificação do Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ) da ETE de Vila Real
foi um objectivo cumprido com o esforço de uma equipa que não se finda pela ETE! O repto
lançado pelo ID, I.P. e a colaboração da Equipa para a Qualidade do mesmo organismo, liderada pela Dr.ª Paula Sobrinho e Dr. Jesus Cartelle, foi a impulsão decisiva no decurso deste
trabalho.
O Director da unidade formou um grupo específico para trabalhar esta matéria, o Comité da
Qualidade, onde dois profissionais, Dr.ª Benedita Mocho e Dr. Eduardo Fernandes, incrementaram todo o processo e conduziram a restante equipa a desenvolver tarefas/procedimentos/
processos adstritos. Foi com enorme esforço, dedicação e com sentido de responsabilidade
que estes dois profissionais se entregaram à causa.
A equipa foi constatando as vantagens do trabalho que estava a ser desenvolvido, nomeadamente na melhoria do funcionamento, a criação de uma cultura no sentido da melhoria
contínua da qualidade, a definição clara de responsabilidades e no cuidado específico com o
tratamento dos utentes.
Os auditores parabenizaram e certificaram o SGQ da ETE de Vila Real em todos aos requisitos
da norma ISO 9001:2008 e, desta forma, o orgulho de um SGQ com 100% de conformidades!
Foi o reconhecimento merecido de um caminho realizado com muitas dificuldades pelos elementos da ETE, mas que nunca perdeu a sua orientação: destacando-se a saída de alguns colaboradores, tarefas realizadas após
as horas de expediente, poucos recursos financeiros e humanos, resistência de alguns elementos a integrar esta nova filosofia de
trabalho e as dificuldades de comunicação sentidas.
Por fim, deve-se assentar muito bem os pés na terra e ter consciência que este SGQ é como um bebé que acabou de nascer, precisa
de ser cuidado, alimentado e todos os elementos da ETE são agora os progenitores e responsáveis pelo seu desenvolvimento.
Eduardo Fernandes
assistencial, tratamento e reinserção estão de mãos dadas, integradas.
Não é possível fazer uma coisa sem a outra. A área da reinserção teve
avanços notáveis nos últimos anos. A área da reinserção, no CRI de Vila
Real, está a trabalhar de forma organizada, que facilitou muito até a própria integração de toda a actividade da reinserção neste sistema de gestão
de qualidade. Mas há que salientar que estão a trabalhar sob um modelo
de organização muito bom e eficaz. E essa melhoria de procedimentos,
além de facilitador na entrada deste processo de gestão pela qualidade,
veio trazer mais-valias para o próprio processo de certificação. Neste momento, dentro do nosso sistema de gestão da qualidade, temos a possibilidade de monitorizar aquilo que é essencial quando se pratica a actividade
assistencial: o utente, quando entra num serviço para tratar um problema
de saúde, já está a ser, ao mesmo tempo, encaminhado de forma a que
os seus problemas que têm a ver com as áreas sociais possam também
estar a ser resolvidos. Daí o diagnóstico multidisciplinar que fazemos. Ao
mesmo tempo que entra num programa farmacológico, o utente está a
ser acompanhado do ponto de vista psicológico e, ao mesmo tempo, está
a ser tratada a sua vertente social e a projectar-se a sua possível reintegração, caso seja necessária. Mas isto só foi possível porque mudámos o
nosso paradigma de atendimento, a nossa forma de trabalhar. Identificámos todas as necessidades logo no início e começamos imediatamente a
trabalhar nas mesmas.
O que implicará todo este processo em termos futuros?
AL – Como disse no início, considero esta aposta do IDT brilhante na forma de reorganizar e até de valorizar os próprios serviços. Como tal, tendo
sido escolhidos para sermos a primeira unidade do género a ser certificada, temos um papel a cumprir para a própria organização: testar o sistema
e, caso outras unidades pretendam certificar-se, seremos uma espécie de
referencial, sendo certo que cada equipa que se queira certificar seguirá o
seu próprio caminho, apoiada e orientada pela equipa nacional da qualidade da mesma forma que fizeram connosco, procurando o sistema de qualidade que mais se adeqúe à sua realidade. Falando em termos de CRI,
gostaríamos muito de avançar com o processo para Chaves, até porque já
temos actualmente algum know-how que nos permite implementá-lo nas
unidades do próprio CRI, não obstante a necessidade do acompanhamento por parte da equipa nacional da qualidade para trabalhar aquela equipa
e fazer a supervisão, a exemplo do que sucedeu aqui, para que possam
absorver estes conceitos. Mas temos alguma coisa facilitada, até porque
a equipa do CRI é uma só e existem elementos que podem dar um apoio
que, inicialmente, não tínhamos.
8
Hospital Joaquim Urbano e DRN do IDT renovam protocolo
A excelência
da terapêutica
combinada, parte 2
No passado dia 29 de Dezembro, foi assinado o protocolo que garante a continuidade da parceria entre a
Delegação Regional do Norte do IDT e o Hospital Joaquim Urbano, que resulta no acompanhamento cada
vez mais especializado de utentes toxicodependentes
numa lógica de terapêutica combinada. O acordo celebrado visa a renovação da consulta descentralizada
do CRI Porto Oriental/Hospital Joaquim Urbano – Centro de Terapêutica Combinada. Esta unidade, pioneira
no país, tem vindo a dar resposta, ao longo das últimas
duas décadas, a indivíduos toxicodependentes com patologias como o VIH, tuberculose ou hepatites e constitui já uma referência mundial, acompanhando cerca
de 350 utentes, num só espaço físico, com valências
como a substituição opiácea, clínicas e enfermagem,
internamento ou ambulatório, psicologia ou serviços
sociais. Face a uma população problemática e tantas
vezes estigmatizada, os casos de sucesso que resultam
numa melhoria substancial da qualidade de vida ou no
simples acesso a direitos universais são bem significativos. E já não são assim tão raros os casos de reintegração socioprofissional…Dependências esteve presente
no acto de oficialização do compromisso e entrevistou
o Delegado Regional do Norte do IDT, Adelino Vale Ferreira.
O Programa de Terapêutica Combinada do Hospital de Joaquim Urbano é já uma referência, cada vem mais evidenciada pelos indicadores… O que muda ou poderá ser melhorada a partir desta renovação
do protocolo?
Adelino Vale Ferreira (AVF) – Há aqui algumas melhorias… A primeira
tem a ver com aquilo que consideramos mais importante neste momento,
ou seja, a avaliação da evolução dos nossos utentes. Trata-se de uma avaliação não só empírica ou clínica mas também alicerçada em instrumentos
que nos permitam medir claramente, numa lógica de investigação acção,
a evolução dos nossos utentes, quer em indicadores de qualidade de vida,
quer em indicadores de gravidade da doença. E isto, quer no âmbito da saúde mental, quer no âmbito da dependência. Ao mesmo tempo, permite aproximarmo-nos do lado do Hospital de Joaquim Urbano que, para a avaliação,
utiliza indicadores infecciosos, não só dos marcadores mais específicos das
doenças. Já a um nível mais interno, conseguimos ter técnicos colocados
sob a responsabilidade do CRI Oriental, dedicados a esta resposta, que nos
garantam uma continuidade e presença mais sistemática, de acordo com
as necessidades do serviço. Há ainda outro ganho, que tem a ver com o
facto de nós próprios podermos dar uma ajuda ao Hospital Joaquim Urbano
nas problemáticas afectas às hepatites, nomeadamente à Hepatite C, uma
patologia que, como os números indicam, está em crescendo, sendo impor-
tante que o IDT possa dar apoio a estes doentes. Por fim, a renovação deste
protocolo traduz o reconhecimento de uma resposta muito válida. Afinal, o
valor que está aqui em questão é a vida das pessoas e, associada à mesma,
a qualidade.
Sendo este um modelo cuja eficácia e eficiência não precisarão de
muitos mais argumentos, face aos incrementos que o mesmo potenciou na população abrangida pela área geográfica da Delegação
Regional do Norte do IDT, não lhe parece que, numa óptica de rentabilização dos recursos existentes na comunidade e dos saberes adquiridos, o mesmo deveria já estar replicado noutras zonas do país?
AVF – Sim, e conseguem-se ganhos de eficiência que são imensos. Não
só em termos de custo benefício mas conseguem-se ganhos em termos de
execução, do acompanhamento dos utentes e na própria especialização.
Esta replicação é desejável, até porque atravessamos uma altura em que
estamos muito constrangidos em termos de recursos financeiros e é a partir
das parcerias, como aqui constatamos, que conseguimos rentabilizar esforços e ir mais longe com menor custo. De qualquer forma, este é um modelo
aberto e também já é conhecido em várias partes do país e, não sendo
propriamente um conhecedor de todas as realidades do país, parece-me
evidente que eventuais replicações corresponderiam a ganhos. E mesmo
em termos de custos para o IDT, o facto de os nossos técnicos estarem a
atender os utentes na sua unidade ou deslocarem-se aqui acaba por ser
igual. E com o cruzamento de pessoal conseguimos obter uma rentabilidade
muito maior.
O futuro da ET de Gaia
À margem deste evento, já existe alguma solução preconizada
para a ET de Gaia?
AVF – A resposta mantém-se. A consulta funcionará, tal como tem
acontecido, diariamente, com uma capacidade que rondará aproximadamente os 500 utentes…
Recordo que, actualmente, estão inscritos cerca de 900 utentes… Os restantes serão encaminhados para outras estruturas?
AVF – Pois, mas desses 900, quantos iriam apenas uma ou duas
vezes por ano a uma consulta? De qualquer forma, os restantes serão
encaminhados para uma solução à escolha deles próprios: temos a
ET da Feira, a consulta de Espinho e as ETs do Porto, portanto, serão
encaminhados em função das suas residência mas também dos seus
interesses pessoais. Aliás, nós já tínhamos alguns utentes de Gaia
que preferiam vir ao Porto porque consideravam que se deslocavam
melhor. O mês de Janeiro servirá para prepararmos as instalações e
a mudança ocorrerá em Fevereiro. Estamos a negociar com a Administração Regional de Saúde, no sentido da cedência de um espaço
das suas instalações em Gaia, provavelmente mais central.
Hospital de Joaquim Urbano
“ Hospital ao
Serviço da
Comunidade”
9
O Hospital de Joaquim Urbano (HJU) é um hospital central especializado, que elege como missão a
prestação de cuidados especializados no domínio
das doenças infecciosas e pulmonares. A unidade,
conta já com 125 anos de história mas com uma estrutura totalmente renovada, assegura padrões elevados de desempenho técnico-científicos, num ambiente acolhedor e humanizado, com total respeito
pela individualidade dos doentes, fundamental para
quem elege a excelência como meta para atingir os
melhores resultados no tratamento. O compromisso da unidade, garante Jorge Mourão, Presidente do
Conselho de Administração do Hospital de Joaquim
Urbano, em entrevista a Dependências, consiste em
envolver todos os profissionais numa política de proximidade com a comunidade, com elevada diferenciação técnica e humanização no contacto com os doentes. Reconhecido internacionalmente face às boas
práticas implementadas, onde a inovação é já um
lugar comum, o Joaquim Urbano dispõe de programas diferenciadores como o Centro de Terapêutica
Combinada (CTC), bem conhecido pelos profissionais que intervêm em dependências face à excelência evidenciada e à total inovação e ruptura com o
modelo então vigente que, na altura em que foi desenhado, projectou.
Em entrevista Jorge Mourão, o gestor hospitalar
que preside ao C.A. da unidade, abre as portas aos
leitores de Dependências.
Há anos que esta unidade tem vivido de incertezas relativamente
ao seu futuro. Já se falou em encerramento, em integração noutro
centro… O que terá esta unidade de especial para logo se insurgirem vozes contra e se levantarem preocupações?
Jorge Mourão (JM) – Nos últimos 15 anos, esta unidade tornou-se
muito especializada na área da infecciologia, com apoio da pneumologia,
tratando principalmente patologias como o VIH, as hepatites e a tuberculose. A diferenciação técnica dos profissionais permitiu que se potenciasse esta especialização e a capacidade de se orientar para o utente,
de o atender e de o acolher de forma humana e personalizada. A nossa
expectativa em relação ao futuro, é que seja possível preservar a identidade daquilo que o HJU tem, reconhecidamente, feito bem ao longo dos
anos e que tão útil tem sido para os nossos utentes e prestigiante para o
Porto e para a região Norte. É uma unidade que está na vanguarda da terapêutica do VIH, com resultados que têm sido demonstrados um pouco
por todo o lado e que apresenta uma dimensão que nos agrada bastante,
que se prende com a satisfação evidenciada pelos nossos utentes. O
facto de a unidade tratar de uma forma personalizada e multidisciplinar
faz com que os doentes que seguimos se sintam bem acolhidos, frequentem o programa terapêutico e sintam bem nesta unidade. Creio que
estas variáveis são distintivas do tratamento relativamente a hospitais
gerais de elevada dimensão, com outro perfil e motivação.
Numa altura em que tanto se fala em contenção de custos, convirá salientar que esta unidade sempre terá pensado nisso, na óptica
do utente, particularmente quando, através do Programa de Terapêutica Combinada, o utente deixou de ter que recorrer a três ou
quatro unidades, como sucedia antes para passar a dispor aqui de
um serviço que lhe garante tudo aquilo que precisa…
JM – Sim, são duas dimensões que se unem. A gestão, não só num passado recente mas já há 15 anos, fez sempre um esforço para conseguir providenciar a melhor solução terapêutica com custos aceitáveis. Eu próprio estou
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Hospital de Joaquim Urbano
Temos cerca de 230 doentes neste momento, existindo um histórico de mais
de 2 mil doentes com VIH. De qualquer forma, o programa tem poucas perdas, as pessoas vão sendo monitorizadas ao longo do tempo e penso que
aquilo que prova o sucesso do processo tem a ver com o que perguntou anteriormente: há, de facto, uma baixa taxa de perdas de pessoas e temos casos
bastante interessantes de pessoas que recuperam as suas condições de vida.
no Hospital há menos de quatro anos e encontrei uma estrutura de aquisição
vocacionada para as melhores terapêuticas, que estão em determinado momento no topo, constituindo as mais recentes guidelines do tratamento, sendo
os produtos negociados de forma a conseguir-se a situação mais vantajosa
possível para o Hospital, que é um grande comprador, na medida em que tem
muitos casos, logo, tem um poder negocial significativo. Portanto, o esforço
de gestão é enorme e realizado da melhor forma que sabemos, com o Professor Rui Sarmento e Castro a conduzir há muito tempo o processo neste
sentido. Do ponto de vista do utente, há sinergias, com o seu perfil de pessoa
que precisa de ser apoiada porque, frequentemente, está socialmente desinserida. O facto de o Hospital conciliar alguns meios, dar apoio psicológico, o
apoio em termos de ocupação de tempos livres, o facilitar a deslocação dos
utentes ao Hospital, tudo isto é pensado e oferecido aos utentes no Centro de
Terapêutica Combinada, associado à toma assistida. O doente chega aqui de
manhã, quando vem tomar a metadona é-lhe providenciada a sua medicação, é acompanhado, tem um conjunto de actividades que o fazem sentir-se
inserido, e é monitorizado. Portanto, há também uma sinergia que não é fácil
de contabilizar mas que representa tudo o que ganhamos ao não deixarmos
esse doente piorar, ao não perder a sua adesão ou ao evitar que faleça. Não
sendo facilmente mensurável, podemos afirmar que a razão do sucesso tem
a ver com o facto de termos doentes aderentes e satisfeitos, que ao longo dos
anos têm a doença activa mas mantêm níveis controlados e até, pontualmente, atendendo às circunstâncias, com algum grau de integração na sociedade.
Como imagina, isto é motivo de orgulho para os profissionais.
Tudo isso justificará, muito provavelmente, outro indicador em que
o HJU se diferencia, a baixa taxa de abandonos, o que é muito pouco
comum nesta área…
JM – Exactamente! Penso que mesmo no tipo de paciente que tratamos e
de que aqui estamos a falar, essa é uma marca distintiva. Esse doente está
frequentemente associado à toxicodependência e, como tal, tem que ser muito bem acompanhado. Esta capacidade evidenciada pelo projecto de vanguarda, o CTC, de manter o doente envolvido permite que se consiga que
ele não abandone a medicação e se sinta inserido. A título de exemplo, numa
das salas que temos no CTC podem realizar diversas actividades, jogam às
cartas, convivem, com o apoio do animador cultural e da equipa de enfermagem, produzem um pequeno jornal… as pessoas sentem-se envolvidas
e percebem que estão a fazer o melhor para elas e que alguém se preocupa
com elas. De facto, esta unidade teve essa capacidade de se dedicar a estes
doentes, conseguindo resultados de sucesso, como tem sido frequentemente
demonstrado em congressos. A dimensão satisfação ultrapassa os padrões
normais de que hoje se fala, orgulhando-nos bastante. Pelo segundo ano
consecutivo, uma entidade externa, mais concretamente uma Universidade
Nova de Lisboa fez uma avaliação totalmente anónima com a base de dados
da ACSS e, apesar das situações de doença crónica ou prolongada terem
normalmente um maior envolvimento, o HJU aparece sempre nos lugares cimeiros das várias dimensões de análise. O que significa que os doentes reco-
nhecem o empenho, a capacidade de trabalho, o esforço de constantemente
tentarmos melhorar as condições, não obstante os constrangimentos financeiros, para lhes proporcionarmos este apoio que é vital. O que é gratificante
para os profissionais no terreno é verem, de facto, as pessoas recuperarem
dentro do possível a sua saúde, inserem-se, fazem parte de uma comunidade
e todos sabemos o quão difícil isto é…
Recordo-me de, num congresso da especialidade, o HJU ter apresentado o CTC como um exemplo de boas práticas ao nível da facilitação
do acesso dos utentes ao tratamento e da promoção das parcerias e do
envolvimento da comunidade local. No caso, tratava-se de uma parceria com o Serviço de Transportes Colectivos do Porto, que resultava no
transporte gratuito para os utentes…
JM – Existem vários níveis e formas de entendimento, seja através de
protocolos com instituições, seja através de parcerias que nos possibilitam a
colocação de pessoas na vida activa com tarefas adequadas à sua formação
e condição. O exemplo que citou é emblemático, em que, de acordo com as
orientações que existem da Coordenação Nacional para a Infecção VIH/sida
no que concerne à promoção dos direitos de acesso, entendemos que as
dificuldades económicas e de mobilidade que normalmente caracterizam o
perfil destes doentes não deveriam constituir barreiras. A forma encontrada
foi o estabelecimento de um protocolo, no âmbito do qual um conjunto de
utentes se pode dirigir ao Hospital usando os transportes públicos sem encargos. Penso que isso constitui um incentivo à responsabilização e à parceria.
Cada vez é mais difícil conseguir estabelecer este tipo de parcerias na área do
social, embora isso seja vital para o trabalho que o HJU faz.
Qual é o universo de utentes que o CTC do HJU serve actualmente?
JM – Temos cerca de 230 doentes neste momento, existindo um histórico
de mais de 2 mil doentes com VIH. De qualquer forma, o programa tem poucas perdas, as pessoas vão sendo monitorizadas ao longo do tempo e penso
que aquilo que prova o sucesso do processo tem a ver com o que perguntou
anteriormente: há, de facto, uma baixa taxa de perdas de pessoas e temos
casos bastante interessantes de pessoas que recuperam as suas condições
de vida.
Porém, como é sabido, o HJU não se resume ao CTC…
JM – Apesar da pequena dimensão e do reduzido número de profissionais
que tem, o Hospital faz anualmente perto de 30 mil consultas. Tem, nos últimos anos, uma tradição de seguir o HIV, hepatite e tuberculose com o apoio
da Pneumologia. Dentro da área da Pneumologia, existe também um conjunto de práticas, como as provas funcionais respiratórias, broncofibroscopias,
que são realizadas aqui no Hospital. Muito em complementaridade, o corpo
profissional é relativamente pequeno mas temos cerca 650 doentes saídos
do internamento no último ano, cerca de 30 mil consultas e 80 mil sessões do
Hospital de Dia. Muito do nosso trabalho está concentrado em formas de ambulatório, sejam na realização de consultas, sejam em pessoas que precisam
Hospital de Joaquim Urbano
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O que encontrei aqui, do ponto de vista da afeição ao doente, foi um grupo
de profissionais altamente motivado e envolvido. Sabemos o tipo de utentes
que estamos a tratar mas que é tratado exactamente com toda a atenção e
carinho que qualquer outro utente. Nesse sentido, não é feita qualquer diferenciação. Há um histórico de fazer bem e de envolvimento. Não tenho conhecimento de haver algum tipo de insatisfação, no sentido de algum profissional dizer que preferia trabalhar noutro hospital para tratar outro tipo de
utentes.
bretudo da zona Oriental do Porto e também de alguns concelhos limítrofes,
nalguns casos reclusos, havendo inclusive um protocolo com Bragança, em
que temos um médico que presta assistência na região Norte, proporcionando cuidados especializados de Infecciologia numa zona que não é de fácil
acesso.
de cuidados médicos e de enfermagem que são tratados em hospital de dia.
Portanto, penso até que para o quadro profissional que temos, apresentamos
uma produção bastante interessante porque são realizados muitos actos em
comparação com outras unidades que têm quadros mais dotados, embora
não estejam tão especializados. Penso que fazemos um trabalho bastante
positivo de racionalização dos meios, conseguindo, com aquilo que temos,
chegar o mais longe possível.
Voltando ao CTC, existe lista de espera?
JM – Não. Neste momento, as pessoas que são seleccionadas e que entram no CTC estão de acordo com a nossa capacidade. O Programa é gerido
directamente pela área clínica, com total autonomia.
E quanto ao método de referenciação, os utentes apenas entram no
Programa através de uma primeira consulta no IDT?
JM – Não, eles têm acesso ao Programa através de um acompanhamento
também nosso, que passa pela Dra. Ana Horta, a pessoa responsável por
toda a área da consulta e por uma equipa clínica. Outros factores que distinguem muito a nossa prática têm a ver com o grau de empenho e a presença do Prof. Rui Sarmento e Castro, que acompanha o processo muito
de perto, com a dimensão do quadro clínico, em que o número de médicos
é relativamente reduzida, as guidelines sobre terapêutica, a própria discussão de casos numa lógica multidisciplinar com reuniões semanais – os casos
acabam por ser tratados de uma forma muito casuística e em função das
necessidades. É aferido em concreto, quando existem duas ou três situações
que podem justificar um determinado grau de tratamento, qual é o de primeira
linha. Não é uma questão de ordem de chegada mas que é gerida de acordo
com as melhores práticas clínicas. De qualquer forma, temos várias formas
de referenciação: o hospital ou os centros de saúde referencia uma primeira
consulta, nós pegamos no doente, havendo uma triagem quanto ao grau de
necessidade realizada por nós. Em função dos dados que encontramos, são
feitas análises ao utente, observados parâmetros essenciais e se se justifica
internamento ou se é seguido em consulta. O nosso utente tipo provem so-
Para a equipa que gere, numa área em que não é particularmente fácil
gerir emoções, até porque são normalmente maiores as derrotas do
que as vitórias, como caracteriza a tarefa de motivar estes profissionais?
JM – É mais fácil do que a pergunta encerra. O que encontrei aqui, do ponto
de vista da afeição ao doente, foi um grupo de profissionais altamente motivado e envolvido. Sabemos o tipo de utentes que estamos a tratar mas que é
tratado exactamente com toda a atenção e carinho que qualquer outro utente.
Nesse sentido, não é feita qualquer diferenciação. Há um histórico de fazer
bem e de envolvimento. Não tenho conhecimento de haver algum tipo de insatisfação, no sentido de algum profissional dizer que preferia trabalhar noutro
hospital para tratar outro tipo de utentes. Os profissionais, sejam de que áreas
forem, estão altamente comprometidos. As limitações que temos ao nível da
motivação não serão provavelmente específicas do HJU, que está muito satisfeito com aquilo que faz, mas traduzem questões que penso estarem para
além da gestão de motivações. São problemas da sociedade, de carreiras, de
vínculos, de sermos um Hospital que tem estatuto jurídico, até ao momento,
do sector público administrativo, em que é difícil recrutar novos elementos,
em que há dificuldades e limitações ao nível da progressão dos profissionais.
Agora, nada disto tem sido transportado, tanto quanto eu consigo perceber,
para o utente, o que é provado pelo estudo independente que inicialmente
referi. Esta interacção só pode ser verdadeira: os profissionais, para estarem
satisfeitos, tratam bem, os utentes sentem-se bem tratados e penso que a
parte motivacional pré-existe nesta equipa que, quando vem para aqui, sabe
a missão que tem, integra-se e as coisas têm corrido bem.
O HJU já uma referência também a nível internacional, tendo sido
convidado, pelo que conheço, para apresentarem modelos e boas práticas em congressos realizados fora do país…
JM – Sim, e por outro lado, ainda no final do ano passado, tivemos uma
visita de uma delegação da OMS e a indicação que tivemos foi que ficaram
bastante agradados com o modelo do CTC e do acompanhamento que fazemos, considerando-o o caminho a seguir quando se pretende envolver, tratar
e curar na medida do possível. Nesse sentido, foi-nos dito na altura que este
seria um modelo a replicar. E eram peritos da Organização Mundial de Saúde.
Mesmo internamente, é frequente termos visitas de outras instituições devido
a outro factor muito distintivo, que tem a ver com o trabalho de motivação e
envolvimento que fazemos junto do doente. Entendo que este exemplo não
é fácil de replicar mas é preciso haver, do ponto de vista do decisor político e
da sociedade em geral, uma preocupação em saber se quer apoiar este tipo
de soluções.
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Investigação em Português
A Medicina Geral e
Familiar e a Abordagem
do Consumo de Álcool
Detecção e Intervenções Breves no âmbito dos
Cuidados de Saúde Primários
* Cristina Ribeiro, IDT IP
A defesa da tese decorreu na Aula Magna da Faculdade de Medicina de Lisboa a 17 de Dezembro de 2011 e o júri esteve representado
com doutorados de MGF, nomeadamente os Professores Doutores
Augusto Alberto Pinto Hespanhol, da Universidade do Porto, Vasco
António Jesus Maria e Luis Miguel Henriques da Silva Rebelo, da
Universidade de Lisboa; Os outros elementos foram os Professores
Doutores José Miguel de Barros Caldas de Almeida, da Universidade
Nova de Lisboa e ainda os Professores Doutores José Manuel Pereira
Miguel, Helena Maria Ramos Marques Coelho Cortez Pinto e Nuno
Maria Félix da Costa, da Universidade de Lisboa. O Presidente do
Júri foi o Professor Doutor Rui Vitorino. A defesa foi aprovada com
distinção e louvor.
O facto de haver doutorados em MGF como elementos do júri permitiu enquadrar de um modo apropriado o contexto da análise e da
discussão desta tese no âmbito da Medicina Geral e Familiar assim
como redimensionar em termos de futuro a aplicação prática deste
objecto de investigação e integrá-lo na prática organizacional dos
Cuidados de Saúde Primários.
Este trabalho de Doutoramento pretendeu dar um contributo à resolução de um problema pertinente no domínio da Saúde Pública que
é o dos Problemas Ligados ao consumo de Álcool (PLA) e à forma
como intervir em termos preventivos, no âmbito dos Cuidados de Saúde Primários, mais concretamente da Medicina Geral e Familiar.
Para além da importância da detecção precoce, o Plano Europeu
destacava o modelo de Intervenção Breve de base motivacional como
forma de aconselhamento que a medicina baseada na evidência demonstra ser eficaz nas mudanças de comportamento de risco em relação ao consumo de bebidas alcoólicas.
A Organização Mundial de Saúde tem feito um investimento na formação e treino de profissionais dos Cuidados de Saúde Primários,
nomeadamente dos médicos, com a implementação de um programa
formativo estruturado.
Pretendeu-se, em Portugal, e tendo em conta os resultados da implementação e da avaliação do Programa a nível da OMS, promover a
formação dos médicos dos Cuidados de Saúde Primários de modo a
aumentar as aptidões e competências na gestão dos consumos de álcool no que se refere à detecção precoce e Intervenção Breve. Antes
disso, pretendeu-se ainda analisar quais são as atitudes dos médicos
de família em relação à problemática ligada ao álcool. Pretendeu-se
ainda determinar a efectividade das Intervenções Breves realizada
por Médicos de Família após identificação de consumidores de risco
e nocivo.
Os médicos dos Cuidados de Saúde Primários, encontrando-se no
primeiro nível da abordagem em termos de saúde, poderão identificar
os seus doentes com Problemas Ligados ao consumo de Álcool e
ainda decidir quem necessita de ser referenciado e quem poderá beneficiar de uma Intervenção Breve.
Enquadramento
A União Europeia é das regiões do mundo com a proporção mais alta de
consumidores de álcool e com mais altos níveis de consumo de álcool per
capita. A Europa é a região com maior consumo de álcool do mundo.
No que diz respeito à saúde, o álcool é um determinante de saúde responsável por 7,4% de todas as incapacidades e mortes prematuras na União
Europeia. Ao medir o impacto do álcool através dos Anos de Vida Ajustados
à Incapacidade (DALYs – Disability Adjusted Life Years), este corresponde ao
terceiro entre vinte e seis factores de risco de doença na União Europeia. O álcool é responsável por cerca de 60 tipos diferentes de doenças e problemas,
incluindo perturbações mentais e comportamentais, problemas gastrointestinais, neoplasias, doenças cardiovasculares, perturbações imunológicas, doenças pulmonares, doenças ósseas e musculares, perturbações reprodutivas
e danos pré-natais, incluindo um aumento do risco de prematuridade e baixo
peso à nascença.
No que se refere à mortalidade, o álcool é responsável por cerca de
195.000 mortes por ano na UE. A percentagem de mortes atribuíveis ao álcool é maior nas idades compreendidas entre os 15-29 anos e é mais elevado
no sexo masculino (cerca de 25 a 30% do número total de mortes) que no
sexo feminino (10 a 15.
Cerca de 23 milhões de cidadãos europeus são dependentes de álcool e
o risco da dependência de álcool aumenta com o acréscimo do consumo; os
jovens adultos estão particularmente em risco e metade das pessoas que se
tornam dependentes tiveram o seu primeiro consumo há aproximadamente
dez anos.
No que se refere aos jovens, cerca de 90% dos estudantes de 15-16 anos
beberam álcool em algum momento da sua vida, começando em média aos
12 ½ anos de idade e embriagando-se pela primeira vez aos 14 anos. Mais de
1 em 8 (13%) dos jovens entre 15-16 anos embriagaram-se mais de 20 vezes
e mais de 1 em 6 (18%) tiveram consumo tipo binge drinking (5 ou mais bebidas numa única ocasião três ou mais vezes no último mês). A maior parte dos
países europeus apresentam uma subida no binge drinking para os rapazes e
também para as raparigas desde 1995/9 a 2003.
Tendo em conta estes indicadores globais, a Comissão Europeia desenvolveu um conjunto de acções no sentido de reduzir os danos relacionados com
o álcool que incluem a definição de estratégias perante os Problemas Ligados
ao consumo de Álcool com uma rede de políticas integradas a nível Europeu
e a apresentação de um relatório de Saúde Pública que faz uma análise dos
efeitos do álcool na sociedade.
Após a detecção dos consumos, as Intervenções Breves correspondem,
em termos de evidência, ao tipo de abordagem mais eficaz para evitar consumo de risco e nocivo a nível dos Cuidados de Saúde Primários. Outras medidas são também essenciais, como sejam a restrição da publicidade dirigida
ao álcool ou a aplicação do teste de ar expirado na condução sobre o efeito
do álcool.
Os Cuidados de Saúde Primários oferecem oportunidades para avaliar
os hábitos de consumo de álcool dos doentes, tendo em conta que todos
Investigação em Português
os anos cerca de 70% da população visita o seu médico de família e 90%
consulta pelo menos uma vez em cinco anos. Vários estudos europeus sugerem que cerca de 20% dos doentes que utilizam os cuidados primários serão
consumidores excessivos. Na rotina diária, a maioria destes consumidores
excessivos não são diagnosticados. Habitualmente apresentam-se com sintomas ou problemas que aparentemente não estão associados directamente
ao consumo de álcool e os Médicos de Família tem por vezes dificuldade em
identificar esses consumidores excessivos.
Estes doentes consultam os seus Médicos de Família duas vezes mais que
um doente médio, com queixas de hipertensão, gastrointestinais, psiquiátricas e, por vezes, acidentes ou traumatismos, não se estabelecendo de forma
oportuna a relação entre os consumos e as referidas queixas. O potencial de
detecção e intervenção para reduzir os Problemas Ligados ao consumo de
Álcool foi também demonstrado em vários países, nomeadamente através da
utilização de questionários de detecção e com Intervenções Breves.
Como já foi referido, o álcool está implicado numa variedade de doenças
e problemas de natureza legal e social. Apesar de muitos destes problemas
de saúde estarem relacionados com um contexto de dependência severa,
consumos de bebidas alcoólicas em quantidades de cerca de 20g a 40g de
álcool por dia já constituem um factor de risco para acidentes, traumatismos
e problemas sociais.
Muitos factores contribuem para o desenvolvimento dos problemas relacionados com o álcool, como sejam o desconhecimento dos limites aceitáveis
quando se consome e dos riscos associados ao consumo excessivo. Influências sociais e ambientais, tais como aspectos culturais, usos e costumes que
são favoráveis aos consumos excessivos, também desempenham um factor
13
importante. Um dos benefícios de fazer a detecção é o facto de os doentes
que não são dependentes poderem parar ou reduzir os seus consumos de
álcool com adequada intervenção. Se forem dependentes alcoólicos, a abstinência torna-se indispensável, o que requer tratamento especializado.
Entre os projectos que decorrem com a participação de vários Estados-membros da UE, o Projecto PHEPA – Primary Health European Project on
Alcohol teve como objectivo integrar todas as intervenções nos consumos de
risco e nocivo a nível dos Cuidados de Saúde Primários, elaborando recomendações europeias e guidelines clínicas, um programa de formação em
Intervenções Breves para profissionais dos Cuidados de Saúde Primários e
um site abrangente na Internet com divulgação de boas práticas e estratégias
de disseminação em cada país. A Organização Mundial de Saúde desenvolveu também um questionário de detecção designado AUDIT (Alcohol Use
Disorders Identification Test) e um manual sobre Intervenções Breves, de
maneira a facilitar não só a detecção como a intervenção junto da população
consumidora nos Cuidados Saúde Primários.
Etapas do doutoramento
Uma primeira etapa do trabalho de Doutoramento consistiu na aferição do
questionário sobre atitudes (SAAPPQ – Short Alcohol and Alcohol Problems
Perception Questionnaire) e caracterização das atitudes dos médicos perante
os Problemas Ligados ao consumo de Álcool, cujo resultado mais premente
foi a necessidade de formação nesta área. A segunda etapa consistiu na preparação dos materiais da formação dos médicos de acordo com o modelo do
Projecto Europeu PHEPA.
Durante todo este processo há que valorizar a importância do Projecto Eu-
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Investigação em Português
Cerca de 23 milhões de cidadãos europeus são dependentes de álcool e o
risco da dependência de álcool aumenta com o acréscimo do consumo; os
jovens adultos estão particularmente em risco e metade das pessoas que se
tornam dependentes tiveram o seu primeiro consumo há aproximadamente
dez anos.
ropeu PHEPA que, pela especificidade e oportunidade do mesmo, permitiu
que este trabalho de doutoramento fosse enriquecido e viabilizado, através da
produção de todo um conjunto de materiais facilitadores.
A terceira etapa consistiu na formação de médicos e no trabalho de campo, com a colaboração desses médicos na detecção e intervenção junto de
consumidores excessivos de álcool das suas listas de doentes e ainda na
análise, após a intervenção, sobre se houve redução dos consumos e diminuição do nível de risco inerentes a esses consumos por parte dos doentes
dos médicos formados e, também, se houve alguma mudança de atitudes
desses médicos.
Da formação para a prática clínica no contexto dos
Problemas ligados ao álcool
Ao nível dos efeitos, a avaliação deste impacto formativo pretende averiguar em que medida foram alcançados os objectivos da formação, em termos
de aprendizagem por parte dos formandos, ou seja, em que medida o facto
de se ter verificado essa aprendizagem resulta numa mudança ou melhoria
do desempenho profissional dos formandos no contexto onde vão aplicar os
conteúdos da formação.Para a formação dos médicos no contexto do doutoramento, afigurou-se necessário conceber um programa de formação com
conteúdos que fossem adequados e com uma metodologia de formação
apropriada ao objectivo a que se destinava. Tendo em conta que o Projecto
PHEPA Europeu preparou materiais e um programa de formação, em técnicas de intervenção para redução dos consumos de álcool, destinado a profissionais de saúde dos cuidados primários de saúde foi necessário proceder-se à tradução e adequação desses materiais formativos considerando as
realidades da cultura de cada país envolvido no projecto. Foi valorizado que o
processo de aprendizagem decorrente da formação facilitasse a transferência para a prática clínica.
Os métodos de aprendizagem corresponderam à aprendizagem activa
para adultos, de modo a proporcionar a aplicação do apreendido na prática diária, integrando de preferência métodos que recorressem a normas de
orientação clínicas baseadas em evidência científica e incluindo estratégias
de capacitação e de reforço da prática.O modo como os materiais de formação foram adaptados, com conteúdos que foram ao encontro do programa
de formação, permitiu preparar um pacote formativo na qual constam todos
os conteúdos e o modo como pode ser utilizado pelo técnico de saúde que
recebe a formação. Existe também um outro pacote, a ser utilizado pelo futuro
formador, com exercícios de treino, slides replicáveis e casos para discussão
em videograma para utilização no processo formativo.
Conseguiu demonstrar-se que os Médicos de Família que receberam
formação relacionada com esta temática e tinham um contexto de suporte
adequado se sentiam mais seguros e tinham maior empenho na intervenção,
conseguindo por isso intervir com melhores resultados junto de doentes com
Problemas Ligados ao consumo de Álcool. Educação e treino estavam ainda
associados a maior segurança e/ou confiança e compromisso para intervir
junto destes utentes consumidores.
Os dados do presente trabalho corroboram outros encontrados na literatura
Existem vários estudos relatados na literatura, bem como de meta-análises, que confirmam a eficácia das Intervenções Breves para doentes com
consumo de risco e nocivo de álcool em diferentes contextos clínicos.
Uma das revisões mais recentes concluiu que a Intervenção Breve permitiu
a redução do consumo entre homens e mulheres durante seis a doze meses
que se seguem à intervenção, o que também aconteceu no nosso estudo.
Esta revisão foi confinada a estudos levados a cabo em condições mais naturais dos cuidados primários de saúde sendo, portanto, mais relevante para as
condições do mundo real da prática clínica.
Um aspecto positivo de um teste de detecção é a identificação de doentes
que possuam risco de desenvolver um problema ou que estejam nos estágios
iniciais do mesmo, possibilitando uma maior eficácia/efectividade do tratamento e evitando a mortalidade associada ao problema.
Das meta-análises existentes destaca-se a de Eileen Kanner , que analisou
28 estudos de vários países em CSP (23 estudos) e Serviços de Emergência
(5 estudos) sobre esta temática. Cerca de 7.000 participantes, com uma média de idade de 42 anos, foram considerados nestes estudos e receberam Intervenções Breves. Estes resultados foram similares tanto em vários serviços
no contexto clínico de cariz mais naturalista, assim como em contextos mais
rigorosos em termos de investigação com maiores recursos. Intervenções
mais longas não surtiram efeitos acrescidos. E estes resultados são também
similares aos obtidos aos apresentados nesta tese em termos da redução dos
consumos, nomeadamente a nível semanal.
No presente estudo, a ocorrência de casos positivos detectados pelo AUDIT suporta a ideia da relevância da detecção precoce dos problemas associados ao uso de risco e nocivo de álcool nos Cuidados de Saúde Primários.
Os problemas do uso excessivo de álcool já estão bem demonstrados, evidenciando ainda a relação positiva benefício/custo do procedimento.
Existem benefícios decorrentes da redução ou paragem do consumo de
álcool. Parte do prejuízo provocado pelo álcool é imediatamente reversível;
todos os riscos associados podem ser completamente revertidos se o álcool
for removido. As pessoas jovens que cessam o consumo, como estão no início da idade adulta reduzem significativamente o risco de danos relacionados
com o álcool.
Os estudos demonstraram que as intervenções baseadas nos cuidados de
saúde para tratar o consumo de álcool de risco e nocivo reduzem o consumo
de álcool, os problemas relacionados, bem como a mortalidade associada.
Diante destas evidências pode propor-se a aplicação do AUDIT seguida
por Intervenção Breve como uma ferramenta para reduzir o consumo do álcool e os problemas relacionados com o seu uso em contextos de Cuidados
de Saúde Primários. Os profissionais de saúde deveriam usar rotineiramente
um procedimento de avaliação que permita determinar se os doentes têm
consumos de álcool que podem condicionar a sua saúde (se o doente está
sob baixo ou elevado risco ou com problemas decorrentes do uso ou até de
dependência). Por outro lado, a formação dirigida nesta área permitiu que os
Investigação em Português
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Uma das revisões mais recentes concluiu que a Intervenção Breve permitiu
a redução do consumo entre homens e mulheres durante seis a doze meses
que se seguem à intervenção, o que também aconteceu no nosso estudo.
Esta revisão foi confinada a estudos levados a cabo em condições mais naturais dos cuidados primários de saúde sendo, portanto, mais relevante para
as condições do mundo real da prática clínica.
profissionais de saúde melhorassem algumas dimensões da sua percepção
de atitudes em relação ao consumo de bebidas alcoólicas dos doentes que
assistem nos Cuidados de Saúde Primários, quando comparado com os médicos do grupo de controlo que não teve formação dirigida e que foi somente
esclarecido sobre os objectivos e metodologia do estudo e tiveram conhecimento dos instrumentos/questionários de aplicação.
Síntese
Em síntese, a maioria dos PLA é provocada por consumos que ultrapassam os níveis considerados de risco e não necessariamente por dependentes. Uma das formas de reduzir os níveis de consumo na comunidade e nas
populações é, portanto, providenciar a detecção e Intervenções Breves nos
CSP, sendo esta actividade garantida por profissionais de saúde. Em CSP,
os doentes deveriam ser rotineiramente questionados em relação aos seus
consumos aquando de uma nova inscrição. Estes doentes podem não ter procurado necessariamente o serviço de saúde no sentido de abordar esta problemática mas, de uma forma tipo case-finding, iria permitir detectar precocemente problemas associados ao consumo excessivo de BA e, de um modo
pró-activo, prevenir possíveis complicações associadas a níveis de consumo
de álcool elevados. Assim, as fases desta intervenção incluem identificação,
feed-back sobre o nível dos consumos junto do doente, com estratégias relacionais de coping, aumento da motivação e desenvolvimento de um plano
pessoal de redução dos consumos, será possível contribuir para um possível
controlo dos danos associados a esta matéria.
O futuro
A detecção de consumos de álcool e de PLA nos CSP e outras estratégias
de aumento de identificação de casos complementadas por uma intervenção
adequada permitirão, de acordo com a evidência, reduzir os consumos na
população e os danos associados aos consumos excessivos.
Assim, são viáveis objectivos estratégicos para a gestão dos PLA nos CSP,
eventualmente complementares, que deverão ser alvo de opção na definição
de protocolos entre instituições de cuidados primários e secundários:
1) O de melhorar a qualidade da abordagem dos doentes sobre esta problemática; e/ou 2) Melhorar o acesso de todos os doentes com PLA e a qualidade da abordagem dos PLA em qualquer ponto da sua evolução numa
perspectiva de Saúde Pública.
O conteúdo pedagógico destes programas de formação de formadores deverá percorrer as mesmas linhas acima definidas, se bem que de um modo
mais desenvolvido e numa perspectiva de empowerment e capacitação, com
envolvimento destes médicos em projectos de investigação e reconhecimento organizacional do seu papel. A formação de outros técnicos – psicólogos
clínicos, assistentes sociais e enfermeiros – pode permitir adequar o trabalho
em equipa com administração de instrumentos de detecção e de resultados
com retorno de informação aos Médicos de Família, facilitando deste modo
uma intervenção o mais proactiva possível no sentido da prevenção dos Problemas Ligados ao consumo de Álcool.
A importância da detecção precoce e da rede de articulação entre serviços
Um programa com o objectivo de diminuir o peso dos PLA poderia assentar
em pilares fundamentais:
1) Melhoria dos papéis dos profissionais de saúde mediante o aumento de
competências no sentido de detectar e intervir numa população de risco, no
que se refere ao consumo de álcool, o mais precocemente possível.
2) A introdução de sistemas baseados na prática, incluindo os instrumentos
e protocolos, e suporte no sentido de aumentar os níveis de identificação e
de intervenção.
3) Adopção de um modelo de ligação através de uma rede de referenciação para os PLA com uma correcta abordagem centrada no doente, tendo os
profissionais a capacidade de estratificar o risco e de referenciar em função
de protocolos pré-definidos com critérios de gravidade clínica.
4) Os programas de formação e suporte devem ser adaptados às necessidades e atitudes dos profissionais.
5) A possibilidade de suporte, por parte de profissionais dos CS, poder ajudar a aumentar a actividade destes profissionais neste âmbito.
16
Fórum Álcool e Saúde: membros fundadores
Segurança privada: um
parceiro fundamental
na prevenção e
sensibilização
Depois de ter acompanhado todos os passos que levaram à constituição do Fórum Álcool e Saúde, e
numa altura em que todos os parceiros já selaram
o seu compromisso, através da assinatura da Carta
de Compromisso, Dependências levará a cabo um
périplo pelas instituições que compõem esta diversificada representação da sociedade civil, a quem
cumprirá desenvolver projectos, dos quais se espera, resulte uma melhoria da situação portuguesa em
matéria de consumos.
Combinando a participação no Fórum enquanto
membro fundador e uma distinção atribuída ao IDT,
a medalha de mérito, visitámos a ANASP, a Associação Nacional de Agentes de Segurança Privada, uma
instituição que, apenas com um ano de existência,
congrega já perto de 3 mil associados, num universo
de mais de 50 mil profissionais, cujo (bom) desempenho poderá ser vital para os desígnios comuns do
Fórum. Fomos tentar perceber porquê, em entrevista
com Ricardo Vieira, o presidente da ANASP.
Que motivos originaram a criação da ANASP?
Ricardo Vieira (RV) - Diria que a ANASP nasceu quase de forma
natural, dada a falta de capacidade evidenciada pelas organizações
sindicais para representarem uma actividade tão vasta e com uma
importância tão relevante na sociedade. Nós somos actualmente representados por dois sindicatos e nenhum deles é exclusivamente do
sector, diversificando-se em actividades como a limpeza, porteiros,
contínuos, etc. E, como por favor, incluíram também a segurança privada neste leque. O certo é que apenas se ouve falar nestes sindicatos aquando da revisão do contrato colectivo de trabalho, enquanto
que o trabalho realizado em prol da dignificação da actividade, das
empresas e dos profissionais é nulo. Então, eu, conjuntamente com
alguns profissionais, decidi que o caminho seria fundarmos uma associação socioprofissional representativa da actividade, afastada do
controlo político-económico e que funcionasse de forma transparente
em prol dos interesses do sector no seu todo. E, nessa linha, tentar fazer com que o sector pudesse prestar serventia à sociedade
e não apenas servir-se desta. Rapidamente, num espaço inferior a
dois anos de actividade, atingimos cerca de 2500 associados e somos membros da Federação Mundial de Segurança, o que evidencia
a qualidade do trabalho que temos vindo a desenvolver. Temos como
parceiras todas as empresas do sector, entre as quais destacamos
a importância daquelas que se assumem como motores da actividade, as seis maiores empresas do sector, com as quais trabalhamos
de uma forma muito próxima. E friso isto porque a ANASP não se
revê na velha prática da guerra de trincheiras que os sindicatos tanto
apregoam, que é a divisão entre classes, desde os trabalhadores ao
patronato. Assumimos uma política de convergência e de harmonia no
sentido em que o sector seja, efectivamente, voltado e válido para a
sociedade e um exemplo de cidadania.
Foi nessa óptica que aceitaram o desafio de aderir ao Fórum Nacional
Álcool e Saúde?
RV - Exactamente! Quando fomos convidados pelo IDT para sermos membros fundadores do Fórum, para além do reconhecimento
inequívoco face ao trabalho que vínhamos a desenvolver em prol
da sociedade, o que tanto nos apraz, tratou-se de um desafio que
fizemos questão de abraçar. Temos acompanhado e vivenciado,
desde a nossa criação, este tipo de problemáticas existentes na sociedade e todas as outras associadas às dependências e sabíamos
que um sector tão vasto, com 42 mil profissionais, também tinha um
elevadíssimo número de pessoas que, não sendo necessariamente alcoólicos, recorrem muitas vezes ao álcool como último reduto.
Nós temos casos de suicídio bem significativos no sector, tal como
têm as forças de segurança públicas, com a diferença de aí serem
muito mais mediatizados do que aqui, o que se justifica com turnos e
condições de trabalho precárias, aos contratos precários, à falta de
fiscalização e de um plano efectivo no seio das próprias empresas e
do sector, que vá sinalizando e acompanhando estes casos. Temos
a consciência de que a toxicodependência e o consumo excessivo
ou abusivo de álcool traduzem problemas reais do sector.
Fórum Álcool e Saúde: membros fundadores
17
A ANASP nasceu quase de forma
natural, dada a falta de capacidade
evidenciada pelas organizações sindicais para representarem uma actividade tão vasta e com uma importância tão relevante na sociedade.
Terão então surgido duas janelas de oportunidades: para o vosso público interno, que também viverá a problemática directa e pessoalmente mas também para os públicos com quem lidam os vossos associados e com quem eles intervém…
RV - Sem dúvida. Existem as duas direcções, ambas extremamente úteis.
Numa fase inicial, ainda tentámos criar um princípio de acordo com a Associação de Discotecas Nacional e, juntamente com eles, desenvolvermos
projectos no âmbito da sensibilização e da formação, para que os profissionais que trabalham nessas áreas, sobretudo na diversão nocturna, fossem
formados e informados relativamente a questões inerentes a essas problemáticas. Não tanto por falta de vontade da Associação de Discotecas Nacional mas mais por carências logísticas e estruturais, a proposta caiu por terra
e tivemos que assumir sozinhos o ónus de tentarmos fazer alguma coisa
nessa vertente. Quando surgiu o desafio, em reunião magna da ANASP, delineámos logo como uma das prioridades para 2011 a apresentação de um
projecto credível e que fosse viável, no sentido de, não só no seio das empresas criar mecanismos de sinalização e acompanhamento desses casos mas
também a ANASP, através de técnicos especializados – temos enfermeiros
e psicólogos que trabalham em regime de voluntariado para a ANASP – elegeu como meta, entretanto atingida, a criação de um gabinete dedicado em
exclusivo a esta problemática. Através de um inquérito que realizaremos a
nível nacional, no seio dos profissionais do sector, tentaremos compreender
de que forma os mesmos lidam com o álcool e qual a consciencialização e
nível de conhecimento que têm perante esta problemática. Depois de termos
esse estudo concluído, apresentaremos propostas concretas às empresas.
Em vez de terem que criar uma logística interna em cada empresa, poderão
valer-se da logística da ANASP para a sinalização e o acompanhamento
desses casos ligados ao álcool e à toxicodependência.
Por outro lado, temos a intervenção dos profissionais de segurança
privada nos espaços de lazer e de diversão nocturna… Não será complicado pedir a estes profissionais que façam cumprir a lei, nomeadamente que não permitam o consumo de bebidas alcoólicas a menores
ou a indivíduos aparentemente alcoolizados quando existem interesses um pouco contraditórios por parte dos donos dos estabelecimentos onde trabalham? Como é que isto funciona? Eles são formados?...
RV - Actualmente, infelizmente, um dos grandes problemas do sector da segurança privada é a falta de formação. Portugal deve encontrar-se na cauda
da Europa a este nível. Já estão a ser despertadas consciências para essa
realidade mas existe ainda muito trabalho a fazer. A relação entre a actividade da segurança privada e os estabelecimentos de diversão nocturna não
é pacífica. É uma relação bastante complicada porque os empresários do
ramo da restauração nocturna, por motivos diversos, têm dificuldades para
contratarem empresas credíveis para o exercício da actividade e preferem
recorrer a empresas que, no seio do sector, apelidamos de vão de escada,
em que, pura e simplesmente, o empresário da noite aluga o alvará à empresa de segurança mas os funcionários são pagos em dinheiro vivo ao final da
noite pelo empresário. Por isso, não é muito fácil conseguir-se implementar
um projecto desta natureza na área da consciencialização e da formação
junto dos profissionais que trabalham na diversão nocturna. No entanto, a
ANASP vai levar a cabo inúmeros workshops nesse âmbito, a nível nacional,
como temos feito noutras áreas, para profissionais que trabalhem na área
da diversão nocturna, para que adquiram conhecimentos relacionados com
esta problemática, saibam como agir e conheçam o que a lei determina no
que concerne aos consumos de álcool. No entanto, temos que admitir que,
efectivamente, os interesses económicos dos empresários da restauração
nocturna vão sempre sobrepor-se a todo o trabalho que tentemos fazer em
prol dessa realidade.
O que poderá a ANASP aportar a este Fórum?
RV - A ANASP pode trazer uma grande consciencialização na área da segurança, não só pública como privada, para os problemas ligados ao álcool.
Refiro-me a factos concretos como a alteração legislativa do sector, que urge
concretizar e que deverá incluir formação ao nível do combate ao uso nocivo
do álcool e à toxicodependência, nos seus módulos formativos. Problemáticas sociais como a toxicodependência, o uso nocivo do álcool ou a violência doméstica, por exemplo, têm que ser incluídas na formação obrigatória
para os módulos da segurança privada. A segurança para estabelecimentos
de diversão nocturna tem já uma formação específica, muito embora não
inclua estas temáticas. Junto dos grupos com assento parlamentar, iremos
pressionar para que se promova uma alteração legislativa a este nível. Muito
embora nos debatamos sempre com o problema da falta de uma fiscalização
efectiva, até porque a formação, embora esteja contemplada, nem sempre é
levada a cabo na prática. Pode lá estar tudo escrito e contemplado mas se
não se fiscalizar… Mas acreditamos que o Ministério da Administração Interna tem um papel muito importante e o facto de o Sr. Ministro da Administração Interna ter estado presente na assinatura da Carta de Compromisso do
Fórum Nacional Álcool e Saúde foi, para nós, uma demonstração clara para
o sector de uma atenção reforçada, o que poderá traduzir ainda a existência
de uma porta aberta para a ANASP, no sentido de vermos facilitada a missão
e o trabalho que pretendemos desenvolver nesta área.
Ainda é utópico pensar-se que o agente de segurança privada pode ser
também um agente de prevenção?
RV - Não! O agente de segurança privado é, acima de tudo, um agente de
prevenção! É essa, acima de tudo, a função da segurança privada.
Refiro-me concretamente a estas problemáticas, como o consumo nocivo de álcool e de outras substâncias psicoactivas…
RV - Em todas as áreas. O profissional de segurança privada não é um profissional de segurança interventiva mas sim preventiva. Em todas as áreas,
seja na protecção civil, na saúde ou em outra qualquer que possa abranger
e a segurança privada, transversalmente, abrange quase todas as áreas…
O operacional de segurança privada é hoje, e cada vez mais, um profissional preventivo e é esse o papel que lhe compete. Nesta área, pelo número
de profissionais, pela importância do sector e pelo local onde a actividade é
desenvolvida, nomeadamente nos estabelecimentos de diversão nocturna,
na hotelaria, nos hospitais ou em todos os edifícios públicos, o segurança
privado é, cada vez mais, um relações públicas. E é nessa perspectiva que
deve ser desenvolvida a actividade: de uma forma preventiva, informativa,
cooperante e subsidiária relativamente aos restantes serviços e forças de
segurança pública.
18
Associação Portuguesa de Adictologia
Associação Portuguesa
de Adictologia
já mexe…
Apresentada publicamente apenas há uma semana, a Associação
Portuguesa de Adictologia, entidade dedicada ao estudo das drogas
e das dependências, já começa a mostrar trabalho. O momento de
apresentação pública foi promovido no passado dia 16 de Fevereiro, em Coimbra, e a única sociedade de cariz científico existente
em Portugal na área das dependências elegeu também a cidade do
conhecimento para a realização do seu primeiro encontro científico,
dois dias depois.
Fundada por profissionais da área ligados ao IDT, como são os
casos do seu presidente, João Curto, Álvaro Pereira, Rocha Almeida
e Graça Vilar, a instituição pretende representar os profissionais de
várias áreas ligados à intervenção em dependências e promover e
divulgar o conhecimento sobre estas matérias.
Como se pode ler em comunicado enviado à imprensa, são cinco
os principais objectivos eleitos pela APEDD. O primeiro, focado na
representatividade, obrigatoriamente assente na multidisciplinaridade, e na dignificação da intervenção, refere a pretensão de a instituição se afirmar como “verdadeiramente representativa dos profissionais que trabalham na área das dependências e contribuir para a
dignificação do seu trabalho, independentemente da sua escola ou
orientação”.
O segundo objectivo, que já adquiriu forma no passado dia 18,
passa, pela promoção do desenvolvimento de actividades científicas
relacionadas com os comportamentos aditivos. A par, a APEDD pretende “incentivar e facilitar as relações entre os cientistas dedicados ao estudo, investigação, formação, prevenção e tratamento das
questões sobre as drogas de abuso, o álcool e as dependências”.
Como qualquer outra sociedade científica, a Associação Portuguesa de Adictologia será, à partida, uma fonte privilegiada de
Carlos Ramalheira, Delegado Regional do Centro, IDT
Carlos Ramalheira atribui à
aquisição de competências técnicas e à multidisciplinaridade
que caracteriza a oferta de recursos e serviços na área das
dependências uma justificação óbvia para a constituição
da APEDD: “Médicos de várias
especialidades,
psicólogos,
enfermeiros, assistentes sociais e juristas são alguns dos
profissionais que operam na área das dependências. Estranho
que, tendo sido adquirido e consolidado um conjunto de competências técnicas e saberes nesta área, ainda não houvesse
uma agremiação profissional que juntasse todos os técnicos”.
O delegado regional do IDT e dirigente da Ordem dos Médicos
congratulou-se com o surgimento da associação que, para os
primeiros marcos da sua história, elegeu um dos territórios de
acção da Delegação Regional do Centro do IDT, a cidade de
Coimbra.
acesso ao conhecimento, traduzido em novas evidências passíveis
de replicar ou adaptar, com o intuito de melhorar a performance de
todas as intervenções realizadas no seu domínio. Mas tal de pouco
servirá se os conhecimentos obtidos não forem partilhados com toda
a comunidade de profissionais portugueses que intervêm nesta área
das dependências. E o que, em nosso entender, nunca se preten-
Associação Portuguesa de Adictologia
derá é que o domínio elitista e corporativista colado a muitas das
sociedades científicas espalhadas pelo país constitua uma barreira
à partilha e difusão de conhecimentos… Há que definir canais de
distribuição de informação, públicos-alvo e promover um bom acesso. Por isso, promete a direcção da também designada Associação
Portuguesa para o Estudo das Drogas e das Dependências “divulgar
os conhecimentos que possam contribuir para melhores cuidados
de saúde em relação aos consumidores de substâncias de abuso
e outras dependências” e “promover contactos com os organismos
dependentes da administração pública (central, regional, distrital ou
municipal) e privada, pugnando para ser ouvida na planificação de
intervenções nesta área, bem como na formação pré e pós graduada
dos profissionais”.
Dependências marcou presença no primeiro grande momento da
história da APEDD: a realização do I Encontro da Associação Portuguesa de Adictologia, no passado dia 18, no Auditório do Conservatório de Música de Coimbra. Neurobiologia e Cognição nas Dependências, O Espaço das Associações Científicas e Intervenções em
Dependências foram os temas que reuniram um vasto conjunto de
especialistas na realização de três mesas, que antecederam a realização da primeira assembleia-geral da APEDD, momento que os
fundadores aproveitaram para começar a desenhar um futuro que se
pretende cada vez mais eficaz e eficiente nesta matéria.
Em entrevista a Dependências, João Curto, presidente da APEDD
referiu que “existe actualmente um esforço para aumentar o rigor
Rocha Almeida, Membro
da Comissão Fundadora
da APEDD
Para um dos profissionais envolvidos na realização do I
Encontro da Associação Portuguesa de Adictologia, este
“momento de partilha” não poderia ter surgido em melhor altura. De acordo com o psiquiatra Rocha Almeida, a APEDD
terá dado um sinal de activismo
logo à nascença, ao enfrentar o
desafio de, num primeiro encontro, “debater estratégias futuras e alguns aspectos ligados ao problema das dependências”.
O responsável clínico da Delegação Regional do Centro do IDT
é membro da direcção e um dos fundadores da APEDD.
Ao referir-se às novas adições, o presidente da APEDD lembrou ainda que “já há pessoas em tratamento devido à dependência do telemóvel ou da Internet”.
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Pelo reconhecimento da
especialidade?
Em que medida poderá a constituição desta Associação
constituir um passo decisivo
para o reconhecimento da especialidade ou da competência
Adictologia,
nomeadamente
pela Ordem dos Médicos?
João Curto – Gostaríamos… Já
se fala nisso há algum tempo
no seio da Ordem dos Médicos
mas ainda não se conseguiu…
Há também algumas ideias diferentes, o que até considero razoável, e nem sempre é fácil
um processo de decisão como este. Mas, efectivamente, pretendemos que, no futuro, esta possa vir a ser uma valência no
interior da própria Ordem, relativamente às adições. Vamos
pugnar por isso mesmo, falando sobre o assunto, quer no interior da Associação, quer no seio da Ordem dos Médicos, onde
proporemos que se renove a discussão sobre o tema. E já temos algumas garantias de que a discussão será, pelo menos,
reaberta. Existem corpos gerentes, no interior da Ordem, que
estão dispostos a ouvir novamente essa reivindicação e a relançar o debate. No fundo, não será mais do que o reconhecimento de uma área com uma história importante, de uma patologia cada vez mais alargada e muito transversal na sociedade.
Além disso, existem cada vez mais fundamentos científicos
que comprovam as alterações de circuitos e de problemáticas
cerebrais. Como tal, justifica-se que a Ordem se interesse e,
ainda que não se constitua já como uma especialidade, que
seja pelo menos uma valência dentro da medicina.
científico e a eficácia das abordagens em matéria de adições”. De
acordo com o director da Unidade de Desabituação de Coimbra do
Instituto da Droga e da Toxicodependência, “estamos numa época
com grandes desafios, onde a problemática da adição põe à prova
modelos até então existentes, em que o contributo das neurociências vai alargando e aprofundando o nível de conhecimento sobre a
acção e a influência das substâncias de abuso no comportamento
humano”.
A propósito da constituição da APEDD, o psiquiatra salienta que
“as complexidades da problemática das adições, que atravessa toda
a sociedade e mobiliza recursos económicos e humanos nunca vistos noutras doenças, justifica a importância de uma organização
científica que atraia e vá ao encontro das expectativas dos milhares
de profissionais de todos os campos que trabalham directa ou indirectamente nesta área”.
20
Agrupamento de Escuteiros de Silvares
Escuteiros: uma
herança que vale
mesmo preservar
A Ceia de Reis serve anualmente de pano de fundo para
o Agrupamento de Escuteiros de Silvares reunir os seus
escuteiros, familiares e a população mais activa daquela
freguesia vimaranense em torno de um ideal que privilegia a intervenção social e a adesão a causas nobres. A
instituição, sediada numa freguesia do concelho de Guimarães, Silvares, que alberga pouco mais de 2500 residentes, mobiliza mais de 300 jovens e familiares em torno de projectos sociais com o cunho ou a participação do
Agrupamento de Escuteiros de Silvares.Há três anos que
Dependências tem vindo a acompanhar a actividade deste agrupamento de escuteiros e constatado mais-valias
produzidas a partir de valores que são absorvidos e comungados por um grupo, que desde muitas tenras idades
se afirma como uma espécie de líder de opinião junto da
comunidade local onde interage. Como noutras edições
afirmámos, parece-nos evidente a utilidade de entidades
como esta enquanto veículos privilegiados de comunicação no que à transmissão de mensagens preventivas
diz respeito. O papel de pares que desempenham junto
da comunidade escolar em que intervêm, os ganhos que
advêm da sua acção inclusiva - junto das suas famílias e
a partir do efeito bola de neve potenciado por estas junto
de outras famílias - e o perfil que adoptam os súbditos de
Baden Powell, por natureza líderes de opinião nos grupos
em que se inserem, poderia servir de argumento para
uma escolha criteriosa quando se opta por grupos alvos
a formar e sensibilizar numa estratégia de educação por
pares. Fazer deles grupos estratégicos, fiéis a um movimento mundial, educacional, voluntariado, apartidário e
sem fins lucrativos, cuja proposta é coincidente com o desenvolvimento do jovem por meio de um sistema de valores que concede prioridade à honra, através da prática do
trabalho em equipa e da vida ao ar livre, fazendo com que
o jovem assuma o seu próprio crescimento, tornando-se
um exemplo de fraternidade, lealdade, altruísmo, responsabilidade, respeito e disciplina… Princípios e valores
muitas vezes esquecidos mas mais que suficientes para
que Dependências marcasse, uma vez mais, presença
num encontro anual de um dos agrupamentos nacionais
mais míticos. Em Silvares, freguesia de Guimarães, participámos na Ceia de Reis, organizada pelo agrupamento local para servir a comunidade, e conversámos com
Porfírio Faria, membro do Agrupamento de Escuteiros de
Silvares desde lobito, chefiando-o há cinco anos. O Agrupamento tem 35 anos de existência…
Porfírio Faria, chefe do Agrupamento de Escuteiros de Silvares
A Ceia de Reis deste Agrupamento é invariavelmente preenchida por um simbolismo inerente à “figura” eleita. Este ano, foi a
Madre Teresa de Calcutá…
Porfírio Faria (PF) – Exactamente, Madre Teresa de Calcutá como
um modelo de vida para todos e para os escuteiros em particular. A
par, começámos o ano de 2011, eleito como o ano do voluntariado
na Europa, daí que também a nossa escolha tivesse recaído sobre
o voluntariado, que é precisamente aquilo que fazemos, por base.
Nesse sentido, cada uma das secções do nosso Agrupamento escolheu uma rota que visava materializar esse esforço de voluntariado,
optando cada uma por um meio de transporte, como aqui tivemos
oportunidade de ilustrar, quer através dos posters desenhados, quer
através das coreografias encenadas: desde os Lobitos, que foram de
avião até Moçambique fazer a alfabetização das crianças locais; dos
Exploradores, que foram de barco até ao Chile prestar assistência
aos necessitados, como representantes da Cruz Vermelha; tivemos
os Pioneiros, que foram de trotineta ao Lar de Santa Estefânia, em
Guimarães, uma instituição que recebe crianças abandonadas; en-
Agrupamento de Escuteiros de Silvares
quanto os mais velhos, os Caminheiros, acompanhados pelos Médicos de Nariz Vermelho, optaram pela bicicleta para prestar igualmente
assistência a crianças carenciadas. O imaginário geral centrou-se nas
rotas do voluntariado, daí a escolha do tema para este ano.
Como decorreu essa experiência, com crianças a viajarem e
contactarem com outras culturas, num contexto envolto pela
missão do voluntariado?
PF – Nestes momentos, vivemos um imaginário de forma muito intensa. As crianças viveram esse imaginário de viajar de avião até Moçambique, o que se traduziu numa alegria para elas, num despertar
para uma realidade diferente, em que, através de posters e de um
conjunto de ilustrações, sensibilizámos essa faixa de crianças para
esses valores. A par, e cumprindo um objectivo que hoje elegemos,
sensibilizamos igualmente familiares e adultos amigos para a importância do voluntariado.
Numa altura de crise, em que medida é que vocês, que elegem
como meta minimizar os problemas originados por essa mesma
crise, sentem também dificuldades financeiras e de recursos de
outras índoles?
PF – É óbvio que também nós a sentimos, seja a nível interno, seja
nos recursos que conseguimos afectar e reunir para beneficiar as populações mais carenciadas com quem trabalhamos. Mas também é
verdade que temos que nos adaptar às diferentes realidades com que
nos vamos deparando. Para esta grande festa que realizamos anualmente, cativamos patrocinadores, que nos apoiam; para as actividades que realizamos com os mais jovens, e para as quais é necessário
algum dinheiro, recorremos a diversas actividades que visam a angariação de fundos e a apelação à solidariedade. É da realização de
iniciativas como estas que, fruto da nossa imaginação e criatividade,
nos vão permitindo viver e ajudar outros a viver melhor.
21
22
HSJD
“Asi se hace
la promoción
de la vida humana”
20 Anos passados muita coisa mudou…A droga e os
seus problemas, já não é o que era. Hoje face aos novos padrões de consumo o Centro Assistencial “ San
Juan de Dios” está preparado para enfrentar os novos
desafios. A sua missão é tratar as pessoas guiados
por princípios de qualidade promovendo, defendendo e respeitando os direitos dos doentes e a promoção
da sua dignidade enquanto pessoas. A intervenção é
feita segundo os critérios da OMS, e todos os programas são baseados na evidência cientifica, apesar de
reconhecer que em alguns casos possam ser analisados ou até tidos em conta programas de intervenção
de cariz mais voluntariosa, os mesmos devem demonstrar eficácia no tratamento. Para além da metodologia clínica, a instituição tem programas de reinserção social, formação e acima de tudo uma avaliação permanente e constante de todos os programas e
gestão da comunidade.
Num espaço livre, envolvido pelo mistério da natureza, vimos os doentes a regressar do passeio matinal,
com um ar de felicidade de quem sabe que o futuro
está a uns metros de cada um.
Carmen Muiño, António Teran e Manuel Martinez
falaram para a revista dependências.
Pregunta. ¿Por qué esta comunidad terapéutica? ¿Cómo nació?
Respuesta. (Antonio Teran) Surge como un compromiso de la
Orden de los hermanos de San Juan de Dios por dar respuesta a
una necesidad que existía en nuestra comunidad autónoma hace ya
años, no existían recursos acreditados o una comunidad terapéutica
que cubriera las necesidades de una demanda creciente. Solamente
existía Aldama y Espiral, que eran muy pequeña. Y entonces los hermanos ante una demandad de la sociedad, ante un problema que por
aquel entonces ya estaba a la cabeza de la preocupación. En aquel
momento los estudios de CIS reflejaban que el paro, el terrorismo y
las drogas estaban a la cabeza en la preocupación de los ciudadanos, eran los tres y se iban intercalando en el orden de frecuencia.
Pues esa especie de clamor popular que existía y que no estaba
atendido porque la psiquiatría clásica, es decir, los hospitales y sus
servicios de psiquiatría y los servicios de las universidades, se situaban al margen y no atendían el problema de las drogodependencias.
Atendían el alcohol pero no la demanda por drogas ilegales con
una importante carga de marginalidad y estigmatización. Los drogadictos estaban en las calles, sin ser atendidos, o mal atendidos,
o en centros de comunidades no acreditadas. En aquel momento la
Orden de los hermanos, aceptó ese reto, tenían una larga trayectoria en el tratamiento de enfermedades mentales, la adicción era
una enfermedad mental más y aprovechó este espacio, un antiguo
colegio seminario que había quedado vacío para prepararlo, organizarlo, crear un equipo terapéutico humano, crear una estructura
HSJD
arquitectónica muy avanzada en ese momento. Se cuidó mucho el
trato humano, la intimidad, la confidencialidad, el espacio, etc. Y así
fue como surgió la comunidad terapéutica, que en se llamó Doctor
Pampuri. Pampuri. Este fue un hermano de San Juan de Dios, médico, con una vocación tardía, que se dedicó a la asistencia de los
enfermos y que llegó incluso a adquirir la santidad. Ahora ya no es
Doctor Pampuri, sino San Ricardo Pampuri nombre que tiene la comunidad terapéutica en este momento. Así comenzó, con un equipo
profesional, que sigue estando formado por los mismo miembros, es
decir, hay un médico, enfermería, hay psicólogos, trabajadores sociales, monitores. Al principio teníamos algunos monitores que eran
ex adictos. Surgió con dos áreas, una de desintoxicación hospitalaria y vecina la comunidad terapéutica, comparten el espacio físico
al tiempo que están totalmente separados, porque los programas
son distintos. En la unidad de desintoxicación los pacientes están
entre 15 y 20 días y no tienen un contacto físico con comunidad
terapéutica , en esta última los pacientes están entre 6 y 12 meses
o incluso más.
P. ¿Es la drogadicción una enfermedad tan compleja que los enfermos no se quieren tratar?
R. (Antonio Teran) Es una enfermedad muy compleja en la que
muchas veces los afectados no son conscientes de que están enfermos. La drogadicción ha sido interpretada a lo largo de la historia de múltiples formas, una de ellas era la de considerarla un castigo o un pecado. El concepto de la drogadicción como enfermedad es muy moderno y muy joven. Todavía algunos cuando recaen
dicen: “Doctor he pecado”. Es decir, tiene una cierta carga moral.
Digamos que en la medida en que ellos van entrando en el sistema
sanitario y se les va haciendo ver que lo que tienen es una enfermedad cerebral o mental, ellos pueden entender que necesitan un
tratamiento. Luego está la propia lucha del sujeto contra : alcohol,
la cocaína, etc ; para la que necesita una serie de compromisos
para asumir su abandono.
(Carmen Couceiro) Quisiera añadir algo. En nuestro sistema de
gestión hubo un momento en que para responder bien a las necesidades de los que tenían una adicción, tuvimos que enmarcarlo y
definirlo tal y como lo entendía el equipo de trabajo. Nos tuvimos
que reunir para decidir cómo conceptualizábamos los servicios que
presta el centro de San Juan de Dios de Palencia, a la enfermedad
“drogodependencia” y lo definimos como: (lee)
“Las drogodependencias es un fenómeno multicausal con implicaciones medico-psiquiátricas, sociales, psicológicas, judiciales,
etc, que requieren dentro de un marco de colaboración institucional
la intervención multiprofesional que desde la actuación conjunta y
coordinada, posibilite la atención integral del paciente orientada a
su rehabilitación”.
23
P. Es decir, que lo considerabais una enfermedad más amplia de
lo que lo consideraba la Organización Mundial de la Salud (OMS)
R(Carmen Couceiro) Exacto. Nosotros desde ese punto de vista, por
lo tanto, cuando hemos diseñado todos los protocolos de atención,
hemos tenido en cuenta varios criterios. Uno el concepto de la OMS,
entendido como la definición de salud, el bienestar biológico, psicológico, social y espiritual, y es el que reflejamos aquí. El concepto de
salud. El segundo elemento que hemos definido, es el de que nuestros
programas de tratamiento reúnen evidencia científica. Usamos una
metodología clínica, es decir, el paciente es entendido como tal, está
diagnosticado de una patología que se describe tanto CIE10 (Clasificación Internacional de Enfermedades) como DSM IV (Diagnostic
Stadistical Manual) , que tiene un marco con unas características definidas y por lo tanto le tratamos con una metodología clínica, desde
lo interdisciplinar. Y así se configuran todos los mapas de procesos,
se desarrollan en ese esquema, que dice que lo que hay que hacer es
evaluar, diagnosticar, intervenir y valorar los efectos que un proceso
terapéutico si han sido eficaces o no, y en función de eso evaluar o
dar el alta del paciente.
P. ¿Es decir que esto es lo que diferencia vuestra comunidad de
las otras, que siendo terapéuticas no tienen definido ese modelo?
R. (Carmen Couceiro) Efectivamente. Y además , entendido como
la recuperación y la autonomía del paciente. No un concepto abstracto. Antonio entiende que un paciente está rehabilitado, no solamente
porque el paciente ha dejado de tomar drogas sino porque ha hecho
una incorporación a la vida normalizada y sus niveles de autonomía
han mejorado, etc. Por último hemos adoptado un modelo de gestión
de procesos que se llama ISO 9001-2008, a través de la cual desarrollamos todas nuestras políticas, todos nuestros procedimientos y
los procesos de atención al paciente. Estos son los cuatro pilares en
los que se asienta la organización.
P. ¿Qué patologías son tratadas en la comunidad terapéutica?
R. (Carmen Couceiro) Todo. La mayoría de los pacientes drogodependientes no lo son de una sola sustancia, sino que son politoxicómanos. Si que es verdad, que muchas veces se puede identificar una
droga como la principal de la adicción, pero el consumo suele ser muy
paralelo. En nuestra comunidad terapéutica la desintoxicación física
ya se ha hecho, el proceso debe ser de deshabituación, es decir, de
aprender a vivir de otra manera y con otros elementos fuera del mundo
de la adicción. Y en el proceso de abordaje con esos cuatro pilares, es
que el paciente aprenda a vivir sin la o las sustancias.
(Antonio Teran) De todas formas, aquí no tenemos pacientes alcohólicos puros. Ya hay comunidades terapéuticas específicas solo para
ellos. Es decir la demanda principal es por heroína o cocaína, aunque
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HSJD
todos consumen muchas cosas.
(Carmen Couceiro) Las dos principales drogas son, como ha dicho
Antonio, la heroína, la cocaína, y últimamente están viniendo algunos
casos de benzodiacepinas
P. ¿Cómo se seleccionan los casos para entrar en la comunidad
terapéutica?
R. (Antonio Teran) Eso lo hace la Red Asistencia a las Drogodependencias de Castilla y León, es decir, nosotros no elegimos qué pacientes.
Me explico. Un paciente de Castilla y León, que está siendo atendido
en la Red de Drogas ambulatoria, Zamora, León, Salamanca, Palencia,
Valladolid, etc; el equipo del CAD ( Centro Ambulatorio de Atención a
Drogodependientes ) que está interviniendo, considera que ese paciente
a nivel ambulatorio, no está siendo eficaz el tratamiento y que precisa
sacarle de su núcleo, porque haya factores ambientales que no estén
favoreciendo el tratamiento, para derivarle a la comunidad terapéutica, y
entonces se hace una petición por escrito a la Junta de Castilla y León,
que es donde hay una lista de admisión y ya hace la derivación. Puede
ser que en otras ocasiones el propio paciente vaya a los equipos. Aquí
directamente no puede venir nadie, pero a los equipos ambulatorios sí.
Puede que sea el paciente quien pida ir, entonces se hace unas valoraciones, una serie de procedimientos y protocolos, se envía la documentación a la Junta de Castilla y León e ingresa.
Otra vía es la judicial. El juez de vigilancia penitenciaria puede determinar que un paciente que está en prisión y que llega a la última parte de
la condena desarrolle un programa de rehabilitación en régimen cerrado
sustituyéndolo por la estancia en prisión. Siempre mediante la Junta de
Castilla y León, que es la que costea la estancia. Por tanto, podría ser,
criterio profesional, demanda directa del paciente (siempre a través del
plan regional) o bien a través de la vía judicial. No puede venir un paciente, llamar a la puerta y decir: “yo quiero ingresar en esta comunidad”
porque tiene que venir con una serie de estudios previos (hemonograma,
pruebas de hepatitis, tuberculosis). Hay un protocolo que debe de cumplirse antes de ingresar. La comunidad tiene también plazas privadas,
una persona que cumpla todos los criterios puede solicitar una plaza
privada y costeársela él de su bolsillo.
P. ¿Cuánto tiempo de tratamiento está estipulado?
R. (Antonio Teran) Ha cambiado mucho. Cuando empezamos hace 20
años, el tiempo era de 12 meses. Pero como el tipo de pacientes ha cambiado mucho también ha cambiado el tiempo de estancia. Antes venían
pacientes más jóvenes con menos enfermedad mental, menos castigados físicamente; sin embargo, la edad ha ido aumentando, los pacientes
están mucho más castigados a nivel físico, casi todos tienen hepatitis
C, VIH no, la prevalencia es baja, pero vienen muy deteriorados y con
mucha patología mental, con mucha enfermedad psiquiátrica (PATOLOGÍA DUAL ). Y por ese motivo ha tenido que ir cambiando también la
dinámica de trabajo, incluso el tiempo libre y de ocio que tienen a lo largo
del proceso de tratamiento.
Hay programas de doce meses o un poquito más, pero como la población es ahora más reincidente hay programas mucho más cortos, lo que
llamamos Programas de Recuerdo que pueden ser de seis meses o incluso de cuatro, cuando se ha tenido una recaída, se pueden hacer incluso intervenciones cortas porque se entiende que son personas que han
hecho una estancia de comunidad terapéutica, incluso a lo mejor dos
de doce meses y ya conocen los programas. Ya conocen la teoría y el
trabajo y de lo que se trata es de hacer un programa corto, de reforzar, de
estudiar porqué se ha producido esa recaída y qué elementos se pueden
aplicar. Carmen, decía antes: “ la clave de cualquier intervención profesional es valoración, evaluación, diagnóstico y tratamiento. Eso hace
que lo que da realmente cuerpo e importancia a los programas no sea
tanto el que tú tengas una estructura rígida que diga por aquí tienen que
pasar todos los pacientes, sino que por aquí pasan todos lo procesos y
en función del proceso se hace una valoración de cada caso”.
Por poner un ejemplo, si tu vas a comprarte una traje, te lo hacen a medida, pues con los programas es lo mismo, con una base teórica y metodológica perfectamente definida, luego cada paciente tiene una necesidad,
y por tanto una serie de programas de los que se va a beneficiar. Es
absurdo que un paciente esté 12 meses si lo que necesita son 3 porque
los otros 9 no los aprovecha y además interrumpe a los demás.
(Carmen Couceiro) Lo que te está comentando Antonio también tiene
un marco de cómo se hacen las valoraciones. Lo que es un dato esencial,
un organigrama, un plan de tratamiento. El proceso se llama Sistema de
Gestión de Calidad por Procesos, porque cada proceso en el que se
interviene con el paciente tiene unos protocolos de aplicación. Pero hay
cuestiones generales que son el marco de actuación, el programa, los
conceptos que he comentado, el tema de la evidencia científica, etc pero
también hay un elemento importante y es como entendemos nosotros
la evaluación, siempre a nivel individual. No hacemos “café para todos”
sino en función de las necesidades, que a la hora de evaluar cada paciente muestra. Además de evaluarlo, lo hacemos desde los siguientes
conceptos: la evaluación es multidisciplinar, es decir, que cada profesional del equipo evalúa las características del paciente, las habilidades, las
competencias y los déficits para diseñar un programa de intervención, y
este es interdisciplicar. Es decir, que está basado en objetivos comunes
para dar respuesta a las necesidades… “ no del programa de la comunidad sino del individuo que está dentro de ella”.
P. ¿Como se compatibilizan en comunidad terapéutica los pacientes que están con programas libres de drogas, es decir que no tienen metadona, con los otros?
R. (Manuel Martinez) Ahora mismo no tenemos pacientes con metadona, están en la unidad de desintoxicación, donde vienen normalmente a
bajar la dosis o a dejarla completamente
HSJD
P. Muchos de los problemas que hay en las comunidades terapéuticas son principalmente las recaídas, en el caso de que un paciente
volviese a consumir, serviría el sistema de sustitución?
R. (Antonio Teran) No. Eso es claramente una facultad del centro ambulatorio.
(Carmen) Eso es una pauta que se desarrolla en los CAD no en las comunidades, al menos en la nuestra no.
P. ¿Y cómo se hace la prevención de recaída?
R. (Antonio Teran) Desde el abordaje fundamentalmente psicológico
(Carmen) Lo que comentaba antes, es un proceso de rehabilitación que
lo que pretende es la deshabituación, por lo tanto la estructura tiene que
ver con las competencias y déficits, refortalecimiento a la persona para
abordar las situaciones que pongan en riesgo la abstinencia. Lo llamamos así, además, situaciones de riesgo.
(Antonio) Si analizamos con las evidencias científicas las causas que
inducen a una persona a recaer, hay un listado que es perfectamente
claro y que va desde el exceso de seguridad de que esté curado, hasta el
estar habitualmente con personas que consumen, estados emocionales,
situaciones de enfermedad o dolor, situaciones familiares... Es decir, que
existen una serie de elementos que conocemos gracia a la evidencia
científica y que son sobre los que se trabaja. Desde el primero que es la
vulnerabilidad, un adicto es enfermo para siempre.
P. ¿La familia forma parte del programa siempre que se pueda?
R. (Manuel Martinez) Sí porque hay veces que la familia o no quiere
colaborar o no existe porque el paciente no tiene ninguna relación con
la familia.
(Carmen) Incluso una de las cosas que se hacen cuando se ingresa al
paciente es preguntarle al mismo afectado si quiere que su familia colabore en su proceso terapéutico y muchos son los que te dicen que no,
incluso no quieren que se informe a la familia de su proceso.
P. Esta comunidad es mixta, ¿hay alguna diferencia de tratamiento
si se es mujer que si se es hombre?
R. (Manuel Martinez) Las mujeres son más complicadas que los hombres y en su tratamiento se plantean problemas diferentes.
(Antonio Teran) También vamos a basarnos en la evidencia. Lo primero
es la representación, la prevalencia, siete hombres por cada mujer. La
mujer tiene más cormobilidad en la esfera afectiva, es más emotiva, más
emocional, la adicción que presenta suele ser mas intensa mas grave,
está más enganchada, es más pasional, suele tener muchos más condicionamientos familiares porque a veces es madre y tiene que atender a
los hijos; y por lo tanto el abordaje suele ser más complejo. En el resto
de circunstancias, pues las propias de su género, porque hay patologías
que no tienen los hombres . Los matices son sobre todo a nivel psico-
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patológico.
(Carmen) Yo diría en la carga psicoemocional en el contexto del inicio
de la adicción.
P. ¿Qué herramientas usáis en le proceso terapéutico?
R. (Manuel Martinez) Terapia individual que hacen con le psicólogo,
luego terapia de grupo en el que ahora estamos abordando diferentes
aspectos, una parte el de trabajar habilidades sociales, hay que tener en
cuenta que tienen un déficit importante; trabajar la autoestima, trabajar
habilidades cognitivas, resolución de problemas y la prevención de recaídas.
(Antonio) Y el tratamiento de estrés y la frustración que les generan mucha ansia y en muchas ocasiones el consumo por falta de tolerancia a
la frustración, la asertividad, la impulsividad. Esos son otros elementos
fundamentales de la terapia.
(Carmen) Es decir, muchas veces el propio grupo ejerce una función de
rehabilitación activa por la presión de grupo. Algo como la presión de
grupo que es un factor tan importante para que la persona empiece a
consumir, se usa al mismo tiempo para el proceso de rehabilitación.
P. ¿Dónde va a parar el usuario del equipo terapéutico?
R. (Antonio Teran) Al CAD, de donde viene. Del CAD viene aquí y de
aquí vuelve al CAD. Porque el alta significa volver a la normalidad, a la
vida cotidiana y ahí van a tener lugar situaciones en que la comunidad
no va intervenir, pero el paciente va a necesitar un seguimiento para ir
matizando pequeñas o grandes cosas que puedan surgir, y por supuesto
potenciar la reinserción social….Eso se dirige desde el CAD
P. ¿Siguen sin entrar en terapia de grupo?
R. (Carmen Couceiro) Ambulatoriamente no, en nuestra organización ,
pero hay otros que sí lo hacen, siempre estamos hablando de la red que
tiene San Juan de Dios y cómo lo tiene estructurado.
P. ¿Hay talleres de formación?
R. (Carmen Couceiro) Los talleres son prelaborales, es decir, lo que
intentan no es tanto aprender un oficio sino la disciplina que un paciente
a nivel prelaboral requiere de continuidad, de cumplimiento de un horario,
de responsabilidad, etc
P. Una de las perdidas más grandes que tienen los que alguna vez
han consumido es el tema de los valores, ¿cómo se trabaja?
R. (Antonio Teran) Es muy importante el tema de los valores. Antes
Carmen te decía, lo biológico, lo psicológico, lo social, ecológico y lo
espiritual. Esto se ve a lo largo de lo que significa “la casa” de San Juan
de Dios, el tema de los valores es fundamental.
(Carmen) Pero espiritual no en el sentido religioso sino en cuanto a la
entidad espiritual de la persona.
26
HSJD
(Antonio) Bueno, en el sentido religioso también, hay algunos casos en
las que hay una demanda de atención más religiosa.
P. Todo ser humano tenemos un pasado un presente y un futuro.
¿Cómo se estructura la perspectiva de una persona que se recupera en conjunción con esas tres cosas?
R. (Carmen Couceiro) Yo pondría dos elementos. Uno es la patología,
que es de por vida. No podemos olvidar que los que son tratados por
una patología de estas características, son enfermos crónicos. Y por otro
lado, el proceso que dentro de esa cronicidad desarrolla el paciente en
función de las competencias. Lo que está pasando sobre todo en los
pacientes que llegan a la comunidad es que a parte de los deterioros
sociales y de valores, tienen un deterioro somático muy importante y un
deterioro de capacidades cognitivas, afectivas, etc que ya rondan no el
concepto de valor espiritual sino el de patología. Entonces el compatibilizar el concepto del valor en el sentido espiritual se ve muy afectado por
todas las dificultades como entidad patológica. Son mayores, tienen una
carga de su patología somática, tienen dificultades de recursos económicos y muy difícil integración social por todas estas cuestiones paralelas.
Las necesidades de cada paciente vienen con él y tenemos que tener
creatividad para darle una respuesta.
P. ¿El equipo técnico tienen una formación constante o se termina
una vez creado el mismo?
R. (Antonio Teran) Yo creo que ese es otro de los elementos muy claros,
la necesidad de formación y de estar constantemente actualizándote es
la norma.
(Carmen) Incluso a través de la comisión de docencia e investigación
se hacen jornadas, formación interna y externa, se hacen y promueven
proyectos de investigación. Volvemos otra vez a lo mismo, nosotros pretendemos que nuestros dispositivos de atención a los drogodependientes tengan evidencia científica constatada y este es el concepto que
mueve toda la gestión de los dispositivos.
(Antonio Teran) Las cosas no se hacen por una ocurrencia, se hacen
porque tienen una base científica, porque hay una hipótesis que tú intentas demostrar y a partir de ahí hay una metodología de trabajo que debe
evaluarse. Es decir, que no es que de repente al médico o psicólogo se le
ocurra hacer algo sino que tiene que tener un fundamento.
(Carmen Couceiro) Además aquí somos un poco complicados, porque
una iniciativa tiene que pasar a su vez por una serie de procedimientos,
de filtros, se tiene que plantear como un plan de mejora que tiene que
estar adecuadamente justificado en el sistema de revisión de la calidad,
aprobado por el comité de dirección. La improvisación no existe, lo que
existe es la planificación.
P. ¿En que se basa el sistema de calidad? ¿Valdría seguir siempre
el mismo camino?
R. (Carmen Couceiro) Un sistema de calidad se basa en varios criterios y el fundamental es la mejora continua, la eficacia terapéutica y la
seguridad del paciente. Por eso el Centro de San Juan de Dios se ha
comprometido en uno de los pilares a montar un sistema que facilite y
sea una herramienta que nos garantice la mejora, seguridad y la eficacia
en el abordaje de los pacientes.
Todos los dispositivos tienen tres evaluaciones anuales, una interna, otra
de la dirección técnica y finalmente otra que hace una empresa externa,
auditoria que nosotros promovemos con el objetivo de corregir posibles
desviaciones. La empresa es DNV, que es una certificadora internacional que verifica que todos nuestro procesos y la trazabilidad de los mismos responde al compromiso de la política de calidad del centro.
P. Desde vuestra perspectiva, ¿Cómo evaluáis estos veinte años?
R. (Antonio Teran) Yo creo que en estos veinte años han cambiado
mucho las cosas, han cambiado los pacientes y sus perfiles, hemos
cambiado nosotros, los propios profesionales en tanto en cuanto hemos aprendido y madurado. Uno de los cambios principales es que al
principio había mucho de voluntarismo y pasión por ayudar, también por
nuestra juventud, y ahora aunque no deja de haber pasión hay mucha
experiencia. Hemos aprendido muchas cosas al igual que se ha aprendido mucho en adicciones. En adicciones lo que se sabía hace veinte años
frente a los conocimientos que tenemos ahora es un mundo. También los
conocimientos nos han hecho avanzar, ha avanzado la institución, en la
medida en que esta ha creído que la misión hacia los drogodependientes
y la “casa” ha ido cambiando, desde las comodidades, dotación, hemos
ido adaptando todo a las nuevas realidades. Y eso es lo más importante
y respondiendo siempre a los retos.
P. Manuel, ¿qué ha cambiado en ti?
R. El cambio más grande que puedo decir que hemos experimentado
es el perfil del , paciente, hemos tenido que ir haciendo una adaptación
continua y grande a la hora de trabajar con ellos o diseñar programas.
Si hace unos años era mucho menor la recuperación física, hoy en día
eso no es así porque están limitados físicamente, mentalmente. Antes
de cara a la reinserción se podía aprender un oficio, ahora no se puede
hacer eso, sino que hay que mantener habilidades.
(Antonio Teran) Ahora vienen de paseo. Hace veinte años a las ocho de
la mañana estaban corriendo por el campo de fútbol. La primera actividad era la deportiva, luego se duchaban y se preparaban para desayunar, hoy al medio día vienen de paseo porque no se les puede plantear
un ejercicio deportivo intenso.
Otra diferencia importante en cuanto a las terapias, la terapia motivacional. Antes los pacientes estaban mucho más motivados y eran mucho
más proactivos para el tratamiento, ahora hay que estar constantemente
tirando de ellos motivándoles para el tratamiento.
(Carmen Couceiro) En nuestro mapa de procesos la primera cosa es la
HSJD
motivación. Porque si no estableces motivación y alianza terapéutica, el
trabajo se convierte en inútil
P. ¿Qué objetivos tenéis para el futuro?
R. Desde el concepto de nuestra organización creemos que el modelo
de comunidad terapéutica moderna no puede utilizar la presión de grupo
como referente terapéutico, hoy con el perfil de pacientes es mucho más
difícil. La línea de trabajo que nosotros vemos, no de forma inmediata
pero si a medio plazo, serían programas de rehabilitación psicosocial
más que como comunidades terapéuticas “clásicas”, porque el perfil de
los pacientes requiere que el propio sujeto se implique como agente activo de su proceso de rehabilitación para el que cada vez está menos
capacitado.
P. ¿Me estás diciendo una comunidad terapéutica preventiva?
R. No, a nivel preventivo podría decir otras cosas. Yo pienso que donde
tiene que estar la prevención es en la calle. Por ejemplo, en el siglo XVIII
los niños no tenían que aprender a educación vial porque los coches no
existía, más tarde tuvieron que aprender para nos ser arrollados. La droga es algo que circula, igual que los coches, pero no se aprende en una
clase a montar en bicicleta, sino que se aprende en el campo y afrontar
el tema de la prevención en las drogas se aprende en las calles, con
recursos para ser asertivos. Por lo tanto, yo pienso que hacer prevención
en las comunidades terapéuticas es como meter en la cárcel al que suponemos que puede cometer un crimen. La prevención debe estar en la
sociedad. La droga circula por la calle y tenemos que entrenar a nuestros
hijos a que sean capaces de afrontar con competencia eso que está en
la calle, porque lo que no vamos a ser capaces de quitar desde nuestros
recursos es el tráfico.
(Antonio Teran) El modelo del Plan Nacional sobre Drogas, sitúa a la
comunidad terapéutica en un nivel terciario, asistencial, mientras que la
prevención es un nivel primario. El modelo que hay definido en la actualidad para las comunidades terapéuticas de nuestra comunidad autónoma es un modelo clínico asistencial.
El futuro, por lo que preguntabas antes. Yo creo que este mundo hace
veinte años el modelo estaba marcado por el miedo al SIDA, pero todo
esto se ha minimizado. Ahora tenemos la patología dual, la patología
psiquiátrica. El futuro debe ser un modelo clínico- asistencial, al menos
en nuestro país, y reforzar todos estos aspectos, el motivacional y la
asistencia a las patologías psiquiátricas, que están asociadas y que son
crónicas y lo que realmente influye en la evolución y pronóstico de la
adicción.
(Carmen Couceiro) Y en cuanto al concepto de comunidad, dar protagonismo al paciente que antes era referente por su nivel motivacional
a la hora de acompañar en el proceso terapéutico a sus compañeros,
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esos referentes cada vez son más difíciles de encontrar. Y el referente es
menos el propio concepto de comunidad sin ahondar mucho más en el
concepto de equipo terapéutico.
P. ¿Es el consumo de drogas lo que produce la alteración psiquiátrica o esta la que incentiva el consumo de la sustancia?
R. (Antonio Teran) Van en las dos direcciones. Sabemos que el alcohol,
la cocaína, etc producen una patología psiquiátrica, lo primero ahí es “el
huevo y luego es la gallina” y después es la patología psiquiátrica asociada a ellos, eso está científicamente demostrado. Pero también es verdad
que hay enfermedades psiquiátricas que son primarias que son factores
de vulnerabilidad claros a la hora del consumo de sustancias. El saber
popular de Castilla y León dice: ‘Bebe para olvidar las penas’. El alcohol
es culturalmente el ansiolítico que se ha usado para olvidar la pena, el
dolor, la pérdida, la angustia. Eso establece un mecanismo de sinergia
positiva que se convierte en un factor de vulnerabilidad, te hace alcohólico. Es un modelo bidireccional y que una y otra se van a ir influyendo y
van a producir una patología mucho más complicada porque al final hay
un sumatorio y que se fueran cada una por separado.
P. ¿El futuro de esta comunidad es tratar a los jóvenes que están
empezando a consumir drogas muy peligrosas como el éxtasis?
¿Se está preparando la comunidad para este futuro?
R. (Carmen Couceiro) Hay muchos factores que influyen. Como pasa
con la Real Academia Española a veces somos las organizaciones o los
parlantes lo que lo cambiamos y otras la organización la que tiene que
cambiar las cosas. Los que transmiten esas necesidades de cambio son
los equipos que tratan directamente a los jóvenes o no tan jóvenes que
en un momento determinado requieren de un cambio de organización,
un nuevo diseño de programas, influir más en la motivación o generar
un taller de competencias. Son los equipos que trabajan directamente
con ellos los que tienen que transmitir las nuevas necesidades que van
surgiendo.
P. En muchas ocasiones los enfermos no tienen el apoyo de la familia. ¿Se siente el padre que debería tener?
R. (Manuel Martinez) No, ni creo que tenga que ser así. Nosotros siempre que haya una pequeña oportunidad para que el paciente recupere la
relación con la familia, trabajamos eso para poder conseguirlo, para que
él vaya resolviendo los problemas que tenga.
(Antonio) Yo creo que el modelo paternalista está superado y que iría
en contra de los principios que hemos explicado. Puedes tener un acercamiento más humanista, un matiz más carismático, pero eso lo que no
puede interferir en lo que es la intervención profesional. El objetivo para
las personas que no tengan ese apoyo será: ‘¿Cómo puedes vivir sin ese
modelo de referencia?’ o ‘¿De qué organizaciones puedes ayudarte para
que desarrolles tu ‘yo’ sin tener esa referencia?’
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Opinião
Señales
de humo
* Mireia Pascual, correspondente em Espanha
Aparentemente la ley antitabaco no
ha causado más molestias que las de
trasladar algunas mesas y sillas a los
exteriores de los establecimientos
para que los fumadores no dejen
de ir a tomar un café. Leire Pajín,
Ministra de Sanidad, Política Social e
Igualdad, comentaba al poco tiempo
de la puesta en marcha de la ley,
que su aplicación no está teniendo
complicaciones.
La ley va a facilitar las cosas a las
personas que estén pensando en
dejar de fumar. Por el momento los
datos, antes de la aplicación de la norma, muestran
que sólo el 27’5% de los fumadores han intentado
dejar de fumar alguna vez, y sin embargo el 45%
de los que lo intentan, no aguantan más de una
semana y sólo una cuarta parte consiguen dejar
el hábito más de tres meses. Por consiguiente
solo un 4’3% consigue su objetivo. El hecho de
que en los establecimientos públicos no se pueda
encender un cigarrillo al tiempo que se habla con
los amigos y se toma una cer veza o un buen café,
va a tener consecuencias, sin duda, en aquellos
bares y restaurantes que no tengan espacio
suficiente para adaptar una zona en el exterior que
esté destinada a dicho fin. Cabe destacar además
el incremento de estufas para exterior desde
la puesta en marcha de la ley antitabaco. Ahora
más de uno se lo piensa antes de sentarse en la
mesa en la intemperie con el frío del invierno y la
incomodidad de no poderse quitar el abrigo. Tal
vez de este modo, algunos deciden no fumarse el
cigarrillo y entrar, a pesar de que sus ansias no
pueda ser satisfechas. O posiblemente si deciden
sentarse fuera, el café se lo tomen un poco más
rápido.
Lo que esta claro es que para dejar cualquier
hábito es imprescindible la fuerza de voluntad,
las ganas de hacerlo y el ambiente en el que
sueles moverte. No tendrá mucho sentido que en
los bares, restaurantes, exteriores de hospitales
y alrededores de parques infantiles no se pueda
encender un ‘pitillo’, si luego en
tu casa los otros no facilitan que lo
hagas, es decir, que fumen delante
y que llenen el ambiente de ese
humo que sin duda, será una gran
tentación. Es decir, que la nicotina
produce la adicción pero el entorno
y el contexto social refuerzan el que
se produzca ese comportamiento.
Para que el nivel de nicotina se
mantenga, los fumadores intentan
ajustar el consumo de modo que
alcancen la máxima estimulación
posible para evitar la ansiedad y el
síndrome de abstinencia. Pero con la frecuencia
del consumo se consigue regular la cantidad de
nicotina y por lo tanto el número de cigarrillos
que se fuman a lo largo del día.
Por eso, ahora es un buen momento para dejar el
hábito. El contexto y las circunstancias lo facilitan
mucho. Aunque es verdad que hay un punto que
el Gobierno debería haber tenido en cuenta, la
escasa financiación que hay para terapias que
persiguen dicho fin. Sólo dos autonomías, La
Rioja y Navarra pagan a través de la red sanitaria
pública las terapias. Y pese a lo cierto de las
molestias que causa el síndrome de abstinencia,
irritabilidad, ganas irrefrenables de fumar,
dificultad de concentración, disminución de la
capacidad cotidiana, cefalea, cansancio, etc.
A la larga el cuerpo agradecerá desprenderse
de esta sustancia adictiva que produce 50.000
muertes anuales en España, por causas directas
o relacionadas con el tabaco y las numerosas
enfermedades que genera, sobre todo de carácter
pulmonar.
Por eso, la medida me parece de lo más acertada,
porque el humo debería ser solo para hacer
señales, no para ser respirado por no fumadores
ni tampoco para forzar a encender un ‘pitillo’.
Así que, hagamos señales de humo y tiremos la
colilla al suelo.Así todos respiraremos un aire
libre de humo.
29
Opinião
Nuevamente EEUU rechaza Ley
Andina de Promoción al Comercio y Erradicación a la Drogas,
“ATPDEA” para Bolivia
* Dr. Godofredo Reinicke Borda, DIRECTOR P.I.E
La Ley de preferencias arancelarias y erradicación
De acuerdo con el convenio binacional el plan tiene
de drogas “ATPDEA”, permite el ingreso libre de
por objeto ampliar la cooperación entre ambos países
aranceles a Estados Unidos, de productos de los
en temas como: formación policial en el centro de
países beneficiarios.
formación de Belém do Pará; fortalecer la cooperación
Bolivia se queda sin preferencias en los Estados
en inteligencia policial; el Gobierno de Brasil está
Unidos, el congreso dejó en suspenso la renovación
dispuesto a ceder su par de Bolivia la utilización de
de las rebajas arancelarias del sistema generalizado
un laboratorio para combatir el lavado de activos y el
de preferencias, informó el Instituto Boliviano de
fortalecimiento de la relaciones de frontera.
Comercio Exterior.
El
La medida define que a partir de enero del 2011
necesidad de que la lucha contra las drogas es de
los productos bolivianos deben pagar el arancel de
responsabilidad compartida y que en su criterio así
importación para entrar a los EEUU, al cual Bolivia
lo deben asumir la comunidad internacional pero de
Mandatario
reiteró
su
reflexión
sobre
la
había exportado más de 120 millones de dólares libres de arancel hasta
manera honesta, responsable y transparente.
octubre de 2010.
Asimismo, destacó que en materia de lucha contra las drogas entre los
Bolivia está ahora en inferioridad de condiciones frente a otros países
años 2000-2005 se incautaron 48 toneladas; en tanto que entre los años
que, como Colombia, Ecuador, Perú y otros, tienen asegurado el libre
2006-2010 fue de 117 toneladas. “Muchos dirán que ha crecido pero por
acceso de sus productos al mercado estadounidense, a través de los
la información que teníamos caso el 50 por ciento de estas toneladas de
tratados de libre comercio que negociaron con dicho país.
cocaína incautada son del Perú”.
Cerca al 25% de sus exportaciones se hacían bajo este sistema, mientras
También sostuvo que la lucha contra el narcotráfico debe ser regionalizada
el congreso de EEUU no reponga el SGP, las ventas de manufacturas
y no pude ser de interés geopolítico. “So pretexto de lucha contra el
bolivianas deberán pagar aranceles para entrar a ese mercado, y si bien
narcotráfico dominio a los países de Latinoamérica, sometimiento o
dicho pago podrá ser recuperado cuando el SGP se reponga, ello podría
chantajes a países” y que no debe ser de carácter político, afirmó.
demandar meses, señala el reporte de esta entidad.
Existe preocupación en la familia fabril y empresarial del país, el
argumento clásico y repetitivo “no haber cooperado eficientemente en
la lucha contra el narcotráfico”, todos en Bolivia son conscientes de
que la medida obedece a las fricciones diplomáticas por la expulsión
del embajador de los EEUU Philip S. Goldberg de Bolivia el 2008 y su
inmediata reacción expulsando al embajador boliviano con sede en
Washington.
Según Evo Morales, no cabe duda que los EEUU al cerrar la puerta, en
términos de apoyo y cooperación abrió las ventanas de la solidaridad y
corresponsabilidad, para prueba los últimos acontecimientos en materia
de cooperación internacional para afrontar el problema mundial de
drogas.
“Saludo las palabras del nuevo Ministro de Gobierno de Brasil que quiere
ayudar, subvencionar a la lucha contra el narcotráfico. En lo que carece
el pueblo boliviano; equipamiento con cierta tecnología”, dijo el primer
mandatario.
Unión Europea apoyará lucha antidrogas con 60 millones de
euros hasta el 2013
El Consejero Delegado de la Unión Europea (UE) en Bolivia,
Ivo Hoefkens, dijo que la cooperación del viejo continente a
Bolivia para la lucha contra el narcotráfico, hasta el 2013, será
de 60 millones de euros.
“En Bolivia vemos importantes avances, el Gobierno ha
cambiado la política de lucha contra el narcotráfico, de
desarrollo integral, de una visión totalmente diferente y
estamos notando que en cinco años han logrado importantes
avances”, dijo el consejero de la UE.
Lo que se espera es la de destinar recursos para una política
sostenible desde la demanda, prevención, concientización,
reducción de daños con visión holística, apoyados con nuevas
propuestas legislativas sobre el tema y con participación
sinérgica de las organizaciones de la sociedad civil.
PRINCÍPIOS
1. Ser uma instituição verdadeiramente representativa dos
profissionais que trabalham na área das dependências, e
contribuir para a dignificação do seu trabalho, independentemente da sua escola ou orientação.
2. Promover o desenvolvimento de actividades científicas
relacionadas com os comportamentos aditivos.
3. Incentivar e facilitar as relações entre os cientistas dedicados ao estudo, investigação, formação, prevenção e tratamento das questões sobre as drogas de abuso, o álcool e
as dependências.
4. Divulgar os conhecimentos que possam contribuir para
melhores cuidados de saúde em relação aos consumidores
de substâncias de abuso e outras dependências.
5. Promover contactos com os organismos dependentes da
administração pública (central, regional, distrital ou municipal) e privada, pugnando para ser ouvida na planificação de
intervenções nesta área, bem como na formação pré e pós
graduada dos profissionais
Mais informações e inscrições…
[email protected]
www.adictologia.com
World Bike Tour São Paulo 2011
A perfeita sinestesia
em torno da inclusão
Pelo quarto ano consecutivo, o evento português
World Bike Tour espalhou magia pela megacidade
brasileira São Paulo. Foram quase 8 milhares de
participantes a colorirem ainda mais a mítica marginal paulista, onde o samba e outras vivências e
sensações exóticas dispensavam o recurso a qualquer outra fonte de energia “extra” para uma pedalada de 12 quilómetros.
Além dos cerca de 7 mil “fiéis” que, exactamente na
passagem de ano, “se colaram” ao monitor do computador e esgotaram, num esfregar de olho, as inscrições disponíveis no site do World Bike Tour, mais
umas centenas de crianças participaram gratuitamente no Kids Bike Tour, mais uns sortudos “arriscaram” e foram contemplados para uma semana no
Brasil com participação incluída em todo programa
especial do WBT, através do my bike tour card, ou
foram convidados pela organizadora Sportis para
umas “férias” em São Paulo. Outros, comprovando
o desiderato inclusão inerente ao evento, ganharam
o direito à participação e a sorte de serem contemplados, também de forma gratuita, com uma bicicleta adaptada à sua condição física, assim como
um kit completo para a prática. Neste último caso,
falamos de bicicletas adaptadas a pessoas com deficiências, como as handbikes, cujo preço excessivo
impossibilita o acesso a determinadas práticas desportivas a quem não possui poder de compra. Como
a equipa de Dependências teve oportunidade de testemunhar, já existem atletas brasileiros olímpicos,
que apenas começaram a praticar a partir da primeira edição do WBT São Paulo, quando receberam
gratuitamente a sua bicicleta adaptada…
O WBT tem na sua génese áreas de missão que vão
muito além da mera adopção de estilos de vida saudáveis, potenciados através da aquisição, a custos
muito reduzidos, de uma bicicleta, e da posterior
fidelização a uma prática com vantagens inquestionáveis em muitas índoles para além da saúde. A par,
o WBT tem vindo a promover ideais em áreas como
a acção social e o ambiente, focando as abordagens
muitas outras índoles que se prendem paralelamente com a organização social e, por inerência, urbanística. Por isso, e mesmo numa edição cujo tema
forte era a inclusão, o Seminário Internacional que
usualmente antecede a realização da prova foi subordinado ao tema Saúde, Desporto e Acção Social.
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Antes e depois do Seminário, várias acções animaram a cidade de São Paulo, despertando consciências para áreas cuja sensibilização mundial urge.
Com o deleite de reforçar um paradigma, bem agradável e presente nos momentos informais e menos
informais do WBT São Paulo: com mentes alegres,
libertas e num ambiente informal e festivo, temas
muito sérios, sensíveis e prementes suscitaram
abordagens criativas, interessadas e informais
quanto baste… o que, para uma organização de cariz privado, portuguesa e internacionalizada como o
WBT, diz muito…
Dependências esteve, uma vez mais, em São Paulo
e testemunhou uma série de eventos que marcaram
esta quarta edição do WBT na cidade que alberga
mais habitantes que Portugal inteiro…
Bike Tour pela inclusão: Grupo percorreu São Paulo de cadeira de rodas e olhos vendados
Já lá vão mais de dois meses mas o evento continua bem presente mas
memórias dos participantes. Ainda estávamos a 4 de Dezembro, em Portugal um frio de gelar mas, no Brasil, um clima mais que ameno para nós,
um grupo sentiu na pele as dificuldades por que passam os deficientes
físicos. O trajecto previa uma viagem de metro, comboio, autocarro e táxi,
da Luz à Paulista… Tínhamos pessoas sem qualquer deficiência física a
enfrentar uma cadeira de rodas… ou de olhos vendados.
Foi o início do Bike Tour pela inclusão, em que participaram oito deficientes físicos, quatro cegos e quatro de cadeiras de rodas - e outras oito
pessoas sem deficiência, mas que aceitaram o desafio de enfrentar as
dificuldades que “cadeirantes” e cegos encontram no dia-a-dia da cidade
grande.
“Esse pessoal se supera fisicamente e mentalmente. É um exemplo para
a gente se espelhar. Olha como eu estou esbaforido”, afirmava o advogado Adriano Stringhini.
Para quem conhece, o grupo saiu do Parque da Luz, apanhou o metro
na estação Tiradentes, até à estação Luz e de lá foi de comboio para o
Brás. Depois, fez uma caminhada até o Largo da Concórdia para apanhar
um autocarro para a Praça da Sé, de onde seguiu de táxi até a Avenida
Paulista.
No metro, Tayná, vencedora da última edição do Menina Fantástica, um
programa televisivo bem expressivo no Brasil, sentiu as dificuldades de
ser cega por um dia. “Foi um pouco difícil embarcar. Com o movimento,
não sabia onde estava a cadeira. Foi bem difícil.” Vital Severino, que
convive com a cegueira há 50 anos, reclama face aos problemas: “Precisamos de ter um espaço adequado para a gente caminhar, calçadas
sem obstáculos.”
Depois do metro, o desafio do grupo foi fazer a conexão para a estação
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World Bike Tour São Paulo 2011
de comboios. Aí, amigos, não falamos apenas das deficitárias conexões
ferroviárias ou das duas horas que demora percorrer um trajecto de carro
de 10 quilómetros. A mobilidade, não só a proporcionada por transportes
públicos como também, num sentido mais lato, a que resulta em acessibilidade encontra-se no nosso país léguas à frente relativamente a esta
cidade que alberga, como referimos, mais habitantes que o nosso país.
Adiante… Fábio precisou de ajuda para ultrapassar o vão entre o comboio
e a plataforma. Na caminhada pela rua até o largo da Concórdia as dificuldades foram ainda maiores. Na travessia, outro obstáculo. Um motorista
parado em cima do passeio... Apanhar um autocarro com os equipamentos de acessibilidade foi um alívio para eles... Pelo menos, outros sentiram
a experiência e a terão prolongado como tema de conversa…
IV Seminário Internacional
Nesta quarta edição do Seminário Saúde, Desporto e Acção Social, foram
vários os portugueses convidados a apresentar trabalhos nas áreas que o
evento aborda. O ambiente é outra das áreas em que o WBT visa alcançar
benefícios, e o ex-ministro português Carlos Borrego foi uma das atracções
do seminário. Através da prelecção Qualidade do Ar e Saúde, o investigador da Universidade de Aveiro dissertou da gritante urgência do recurso a
práticas diárias de cidadania que visem a minimização das agressões ambientais, à partilha de estudos que demonstram as atrocidades cometidas
diariamente em prejuízo do meio ambiente e das próprias vidas que habitam
a Terra. O investigador, que visou sensibilizar a plateia, integrava uma vasta representação da Universidade de Aveiro, que conquistou o mérito de
ultrapassar fronteiras bem longínquas em termos territoriais, fruto de soluções engendradas que ajudaram a materializar e universalizar uma causa.
Falamos, por exemplo, de Gonçalo Dias, autor da prelecção Tecnologia e
Sustentabilidade de Eventos, que foi um dos responsáveis, a par de um conjunto de “cérebros” do nosso país, como Jorge Luís e Miguel Coutinho, autor
da prelecção Sustentabilidade de Eventos, que preconizaram uma solução
informática que resultou na realização da Volta ao Mundo em 26 Dias: um
palco com bicicletas fixas ligadas a um servidor localizado em Aveiro, que ia
medindo as distâncias virtualmente percorridas pelas pessoas que pedalavam na Feira do Bike Tour e apresentava as rotas e a localização geográfica
do “pelotão” no globo terrestre, através de um ecrã.
Tiago Teixeira, um jovem fisioterapeuta que, diariamente, promove a (re)
inclusão de pessoas afectadas por determinado episódio numa unidade
portuguesa cada vez mais reconhecida pela excelência, o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, foi convidado para realizar uma palestra no âmbito do IV Seminário Internacional Saúde, Deporto e Acção
Social. O evento antecedeu a realização da quarta edição do World Bike
Tour em São Paulo, para quem assiste, um autêntico milagre operado
por uma organização portuguesa, de nome Sportis, que, a muito custo,
vai expandindo um ideal em cada vez mais locais do globo.
Se pensarmos que, a cada ano que passa, numa cidade como São Paulo, habitada por cerca de 11 milhões de pessoas – isto para não falar
de um Estado que congrega mais de 22 milhões de habitantes – uma
empresa portuguesa alia temas como a saúde, o desporto, o ambiente
ou a acção social, num evento que, em menos de duas horas, esgota
mais de 7 mil inscrições… Se adicionarmos o facto de o mesmo World
Bike Tour ter sido responsável por mais de 100 mil bicicletas terem sido
espalhadas pelo planeta, promovendo-se assim a continuidade de uma
prática saudável… E se, a isso, somarmos o facto de o evento, quer para
a sua realização, quer para a sua promoção, não representar um cêntimo
que seja ao erário público português, antes pelo contrário…
O WBT teve então uma das edições mais emotivas e energéticas, como
não poderia deixar de ser, no Brasil… São Paulo, diga-se, é já um cliente
fiel do World Bike Tour, cuja quarta edição reuniu mais de 8 mil pessoas,
entre o Kids, o evento para os mais pequenos, o Bike Tour, e muitos outros eventos que promovem ideais em áreas sensíveis, que deveriam ser
objecto de reflexão premente na sociedade actual.
Dependências esteve presente no WBT São Paulo e entrevistou alguns
dos participantes.
World Bike Tour São Paulo 2011
Tiago Teixeira, Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão – Santa Casa da Misericórdia
Estamos num evento que versa e promove a inclusão, utilizando
como pretexto a utilização da bicicleta… Se até este simples meio
serve para incluir pessoas com deficiência, por que razão será assim tão difícil esta missão e por que persistem tantas barreiras?
Tiago Teixeira (TT) – Desde logo, as barreiras existem a todos os níveis.
Não só para as pessoas que utilizam bicicleta mas para todas aquelas
que têm limitações na sua deambulação, sejam as que usam cadeira
de rodas, canadianas ou outro tipo de auxiliar. Em virtude de estarmos
aqui a falar da bicicleta, é lógico que as barreiras são diferentes porque
implicam a adopção de pequenos gestos por parte das entudades responsáveis, desde o rebaixamento de passeios à devida sinalização das
passagens para peões ou à facilitação do acesso a um semáforo para
pessoas que utilizem uma hand bike ou uma cadeira de rodas… O que
existe é pouco planeamento a nível urbanístico, o que dificulta a deambulação e a superação das dificuldades sentidas por pessoas que têm
limitações. E isso não contribui para que se sintam incluídas.
Mas se através de uma ferramenta tão simples como uma bicicleta se consegue, de certa forma, promover a inclusão fomentando
a participação destas pessoas numa prova como esta, talvez não
seja assim tão complicado encontrar outros tipos de soluções que
promovam a participação de pessoas com deficiência em inúmeras actividades cujo acesso lhes é habitualmente condicionado ou
mesmo negado…
TT – Sim, basta pensarmos que com um pequeno gesto – neste caso
através da bicicleta – se conseguem mudar tantas coisas. E tudo começa exactamente por aí: muitas vezes, com organizações de eventos
como esta, com pequenas populações – de que é exemplo a promoção
da participação de pessoas com cadeiras de rodas – e pequenos nichos vão-se mudando mentalidades e vai-se contribuindo para que as
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pessoas que estão em redor também o consigam observar. Não é difícil.
Basta querer e basta as pessoas estarem disponíveis para o realizarem.
Se pensarmos em termos económicos, este tipo de população tem muita
margem de investimento. Se pensarmos do ponto de vista da inclusão,
então as coisas ainda assumem proporções muito maiores porque traduzem a diferença entre as pessoas ficarem em casa por não terem forma
de, por exemplo, praticarem desporto ou uma actividade física como a
que aqui se faz com recurso à bicicleta ou saírem de casa e poderem
integrar-se de uma forma mais saudável na sociedade e serem observados pelos outros.
O Tiago Teixeira partilhou no IV Seminário Internacional Saúde,
Desporto e Acção Social o modelo do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão. Também tivemos oportunidade de conhecer
um modelo brasileiro, igualmente conceituado… Em que medida
poderá esta partilha de experiências resultar num incremento de
conhecimentos?
TT – Resulta sempre desde que existe a partilha e a troca de ideias sobre
aquilo que é efectivamente a reabilitação, no caso concreto na área da
Fisioterapia. Mas a realidade brasileira é muito diferente da nossa. Desde logo, em virtude do grande número de população que têm e a quem
chegam. De qualquer forma, existem muitos pontos comuns; se calhar,
a nível tecnológico, ao nível do investimento e do acompanhamento que
fazemos às pessoas que temos internadas no Centro somos um pouco mais eficazes porque, desde o momento em que a pessoa entra no
Centro, até ao momento em que tem alta e até mesmo já em sua casa,
existe um acompanhamento efectivo, conseguindo mesmo produzir-se
alterações ou pequenas mudanças nas residências, devidamente acompanhadas e apoiadas por toda a equipa desde os profissionais de saúde
até ao serviço social. O que será provavelmente mais difícil de se realizar
aqui porque, apesar de as estruturas sociais apresentarem valências e
dimensões significativas, a população que têm que servir é mesmo muita. Mas reitero que a partilha de ideias e de experiências é sempre muito
útil a todos os níveis.
Um dos pontos salientados por alguns brasileiros que participaram
no Seminário permite-nos concluir que Portugal se encontra bem
mais desenvolvido em termos de infra-estruturas, nomeadamente
em praias e noutros contextos, que promovam a mobilidade e a inclusão de pessoas com deficiência…
TT – Sem dúvida que estamos avançados nalguns aspectos mas existe ainda um trabalho muito grande a fazer. Em Portugal, a maioria das
praias está adaptada e possui infra-estruturas para que pessoas com
incapacidade, nomeadamente aquelas que andem em cadeiras de rodas,
possam ir para dentro da água e tomar banho. Nós, no Centro, temos
obviamente várias infra-estruturas que facilitam a circulação das pessoas
mas também fomentamos vários grupos terapêuticos, no sentido de tra-
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World Bike Tour São Paulo 2011
balharmos as barreiras que as pessoas vão encarar no seu dia-a-dia, cá
fora. Tudo isto se justifica porque existe ainda um trabalho muito grande
a fazer, essencialmente a nível de infra-estruturas e de serviços que,
apesar de estar consagrada na lei a obrigatoriedade de os mesmos garantirem a acessibilidade, muitas vezes, na realidade, não o asseguram.
Diria que em Portugal existe Alcoitão e o resto do país?
TT – Felizmente, não. Existem algumas infra-estruturas que estão devidamente adaptadas. Mas se observarmos à nossa volta, concluímos
que, se calhar, são as unidades hospitalares que estão mais preparadas
para receber este tipo de pessoas. E, mesmo assim, existem muitos tipos de serviços de saúde que não proporcionam o acesso mais indicado.
E se daí extrapolarmos para outros tipos de serviços, desde uma pessoa
que queira ir aos correios enviar uma carta ou aceder a um serviço das
finanças, constatamos que nem todos estão acessíveis. Inclusive, existem serviços no nosso país em que são os próprios profissionais que se
deslocam ao exterior para poderem realizar aquilo que a pessoa portadora de alguma limitação ou incapacidade procura… E quando assim é,
muita coisa há a mudar.
Esta é uma área cujo tratamento implica e envolve muitas especialidades. Como estamos a esse nível no país? Existe efectivamente
multidisciplinaridade nos serviços que prestam cuidados ao utente?
TT – Existe mas poderia existir mais… Efectivamente, as equipas trabalham e fazem-no para o utente. Muitas vezes, o que falta é comunicação
entre os vários sectores mas também tem que haver um trabalho mais
efectivo para com a pessoa a quem prestamos cuidados. Mas isso depende de nós profissionais, de mudarmos um pouco o nosso discurso
e irmos de encontro àquelas que são as verdadeiras necessidades do
utente e trabalharmos em conjunto para ele. Se pensarmos, por exemplo, que uma pessoa em Alcoitão tem tempos de internamento limitados,
que naquele período standard temos que promover a maior independência funcional da pessoa, é necessário que essa partilha e comunicação
entre as várias equipas seja o mais precoce e eficaz possível.
Face ao conhecimento de diferentes realidades e modelos adoptados em diversos pontos do planeta, que motivos destacaria como
factores de diferenciação e mais-valias que fazem do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão uma referência internacional?
TT – Existem várias razões. Desde logo, sendo o primeiro centro de reabilitação, torna-o uma referência, mas essêncialmente pelos cuidados de
saúde que são prestados e abordagem que temos para com os utentes.
Depois, porque existe um efectivo investimento nas pessoas que trabalham com os utentes, não só a nível tecnológico, área em que estamos
verdadeiramente bem equipados, mas também no que concerne à nossa
formação enquanto profissionais, nas áreas específicas da intervenção.
Falo, por exemplo, em algo que trabalho concretamente, que tem a ver
com sistemas de marcha assistida, em que estamos muito bem equipados. Mas também ao nível da Fisioterapia Respiratória temos muito
boas referências e trabalhamos de uma forma efectiva com os utentes,
explorando as mais recentes soluções. E em tantas outras áreas, o modelo que utilizamos e a forma como trabalhamos também faz com que
estejamos equiparados com outros países do mundo. Acima de tudo,
trabalhamos para e com o utente.
Isso seria possível sem uma instituição como a Santa Casa da Misericórdia por detrás?
TT – Ajuda muito, afinal o lema da santa casa é “por boas causas”! Uma
instituição como a Santa Casa permite muitas vezes que aquilo que é
muito complicado se torne mais facilitado face ao carácter e ao tipo de
abordagem que a instituição tem nos vários serviços de saúde, a par
da vasta experiência que vai acumulando nos diversos sectores em que
marca a sua presença, seja ao nível da solidariedade social, do trabalho
com idosos ou com pessoas com incapacidade. Tudo isto torna mais
fácil esse tipo de investimento e o chegar a determinados nichos da população. Noutro tipo de instituições, mais do foro privado, é um pouco
mais difícil pelo investimento que isso implica e pelo retorno que as instituições privadas pretendem obter de uma forma imediata. No nosso
país existem actualmente várias instituições de reabilitação de Norte a
Sul e, se formos comparar entre as mesmas o número de pessoas e a
população a quem chegamos, o CMRA sobressai de uma forma muito
significativa.
É possível medir e avaliar as taxas de sucesso que vão alcançando
ao longo dos anos?
TT – Depende da forma como o façamos porque o sucesso depende
sempre de a pessoa que tratamos atingir ou não os seus objectivos. E é
muito difícil atingir. Muitas vezes, em função da lesão e da patologia que
a pessoa tem, conseguimos atingir os objectivos da pessoa e os nossos objectivos enquanto profissionais mas nem sempre isso é possível.
Depende de uma série de factores mas acredito que a nossa taxa de
sucesso seja bastante grande.
É inegável o papel fundamental que vocês, técnicos, desempenham
na motivação do utente na adesão ao tratamento e na prossecução
desses objectivos centrados no utente… Mas como é que vocês
próprios se vão motivando no dia-a-dia numa área que enfrenta
tantas dificuldades e barreiras?
TT – Essencialmente, para quem trabalha nesta área, assim como em
tantas outras, é necessário gostar daquilo que se faz. Aí, a nossa entrega para com a pessoa com quem estamos a trabalhar é muito mais facilitada. É lógico que a motivação e a forma como nos superamos a nós
próprios e fazemos com que o outro se supere depende muitas vezes de
World Bike Tour São Paulo 2011
coisas tão simples como a criatividade: como observamos o outro, como
o ouvirmos… às vezes não é necessário sermos “excelentes” do ponto
de vista técnico para atingirmos determinada superação; basta irmos por
caminhos diferentes…
…Também será fundamental o estabelecimento de relações de confiança…
TT – Sem dúvida! A confiança, neste tipo de situação, é fundamental
porque uma pessoa que vê o seu processo e projecto de vida alterado
de uma forma tão radical e brusca, se não estabelecer um bom elo de
confiança com quem se está a trabalhar, mais dificilmente atinge aquilo
que pretende.
É comum ouvir-se que a prevenção é uma das melhores ferramentas na área em que trabalha. Como se trabalha em Portugal a esse
nível? Haverá uma consciencialização colectiva ou programas que
visem minimizar os riscos inerentes a este tipo de problemas?
TT – Existem programas de prevenção e trabalhos feitos em Portugal
nesta área. Inclusive, o CMRA promove junto das escolas e outras instituições vários tipos de acções. Acho que o caminho é por aí… É necessário que as pessoas, logo numa fase muito precoce, estejam alerta
para determinadas situações, como um simples mergulho numa praia e
as consequências que o mesmo poderá ter… às vezes, não é nas coisas
mais complexas que as grandes lesões e problemas sucedem. Essencialmente, tem a ver com o facto de conseguirmos, individualmente, sermos um pouco mais conscientes. E quanto mais cedo essa consciência
for trabalhada na nossa vida, maior será o nosso sentido de alerta e a
nossa consciencialização para situações futuras. Mas é algo que está a
ser feito. No entanto, a prevenção tem um efeito positivo mas também
pode gerar um efeito perverso, como sucede em tantas acções que são
realizadas. Temos que adaptar essas acções de uma forma muito clara,
de acordo com a população que vamos ter. Talvez aí o sucesso seja
superior.
Voltando ao Bike Tour, em que medida o orgulha o facto de este
evento ser apoiado pela Santa Casa?
TT – Claro que sim. Mostra a visão que a Santa Casa tem, não só das
pessoas necessitam de uma com a inclusão adequada mas da população em geral. O facto de a Santa Casa e de outras instituições apoiarem
o Bike Tour constitui um grande contributo para o desenvolvimento social. Basta pensarmos que, se alguém que tem capacidade vai pedalar,
necessita que, depois, quando regressa a casa, se reúnam condições
e infra-estruturas ao nível da própria cidade, nomeadamente estruturas
físicas, para que a pessoa possa regressar. E é através de acções como
esta e do empenho de instituições como a Santa Casa que investem
em eventos com este carácter que se torna a sociedade mais solidária
e inclusiva.
35
E a verdade é que, mesmo numa cidade como São Paulo, só depois
da primeira edição do Bike Tour é que se começaram a construir as
ciclo vias… Quer dizer que vai mudando alguma coisa…
TT – Sim, foi uma alavanca muito importante. É lógico que estamos a
falar de uma grande cidade que, a exemplo do que sucede em Portugal
com Porto e Lisboa, oferece ciclo vias mas não nos podemos esquecer
do Interior… Não podemos esquecer que existem outros núcleos populacionais, uns maiores do que outros, uns com melhores condições do que
outros para a existência de infra-estruturas, entre elas as ciclo vias em
que, muitas vezes, não são realizadas. Se pensarmos que uma pessoa
que tem incapacidade e necessita de uma casa de banho para fazer as
suas necessidades fisiológicas se depara muitas vezes com dificuldades
face ao tamanho da porta… Urge estimular e espicaçar consciências e
aplicar efectivamente a lei.
Em momentos como o Seminário, sobretudo aquando de testemunhos de vida que suscitam emoções muito fortes a quem ouve esses relatos, é normal o cidadão comum afirmar que nunca tinha
pensado em questões tão presentes na vida das pessoas com limitação… Quer dizer que é necessária mais informação e sensibilização?
TT – Sem dúvida! Para nós, que vivemos diariamente com a situação,
acaba por ser mais fácil estarmos alerta para situações muito simples. O
tal investimento que tem que ser feito nesta área a nível da prevenção e
da partilha de informação, quanto maior e de qualidade for, mais eficaz
se revelará. Se pensarmos que, para alguém que anda de cadeira de rodas sair de casa, ainda que tenha elevador no prédio, uma porta de casa
acessível e mais uma série de infra-estruturas, se a cadeira de rodas
não entrar no elevador, de nada lhe servirão essas infra-estruturas. Se
o trabalho for feito de uma forma evolutiva e não cairmos nos mesmos
erros que, sucessivamente, têm acontecido, creio que eventos como
este podem efectivamente resultar em algo muito positivo. Mas eventos
como este acontecem uma vez por ano… Muitas vezes, fico com essa
sensação, tal como referiu em relação aos tais testemunhos de vida: é o
momento em que a pessoa ouve mas depois…
O exemplo da criação da Secretaria de Estado da Reabilitação é
algo que as autarquias deveriam seguir?
TT – Ao nível das cidades, do seu papel e da sua responsabilidade, talvez fosse mais fácil, numa óptica de proximidade, resolver determinados
problemas. Muitas vezes, pessoas que têm incapacidade e necessitam
de algum acompanhamento mais próximo não têm correspondência nos
serviços ou infra-estruturas a que recorrem. Por exemplo, uma pessoa
com alguma deficiência que necessite de uma lugar para o estancionar
o seu automóvel e faça essa requisição, de nada poderá servir se outras
condições não estiverem reunidas. O que não pode suceder é que algu-
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World Bike Tour São Paulo 2011
mas leis e projectos destinados a promover a inclusão e a qualidade de
vida dessas pessoas fiquem pelo papel. Tem que haver um investimento
efectivo nessa área e as autarquias devem ser agentes preponderantes
e activos nesse sentido.
O Tiago, enquanto técnico ao serviço do CMR de Alcoitão, já viu
alguns dos seus utentes participar no WBT. É possível descrever o
que sentem nesses momentos?
TT – É sempre difícil tentarmos perceber o que lhes vai na alma. Por
mais pessoas que trate, por um lado nem todas são iguais e, por outro,
acabamos por não perceber de uma forma efectiva aquilo que estão a
sentir… Claro que é para mim um orgulho poder fornecer-lhes ferramentas que lhes permita participar de uma forma independente, e aí realço
o papel desempenhado pelo Bike Tour, ao fornecer bicicletas a pessoas
que delas necessitam para fazerem o seu passeio de uma forma adaptada… É difícil perceber, por um lado mas, ao mesmo tempo, é um motivo de orgulho e satisfação porque constatamos que o nosso trabalho é
atingido. Quando os observo, faço-o não apenas com aquele momento
em perspectiva por si só mas na mudança produzida ou possível de o
ser a partir daquele momento. E é exactamente isso que nós, que trabalhamos com pessoas, temos que perceber. O nosso trabalho, a forma
como transmitimos pequenos gestos e pequenas informações vai produzir alterações dali para a frente. E o Bike Tour, ao permitir que algumas
pessoas consigam andar de bicicletas adaptadas, também pode servir
de alavanca de mudança, porque lhes pode abrir novas perspectivas.
Hoje, no Seminário, tivemos o testemunho de alguém que não andava
de bicicleta há muitos anos porque não tinha forma de o fazer. Era alguém que praticava desporto antes de sofrer um acidente e que, graças
a iniciativas como esta, o pôde continuar a fazer. Alguém que sempre
precisou de uma pessoa que o transportasse e agora o consegue fazer
por si só… Existe uma panóplia de aspectos que as pessoas que não
têm incapacidade ignoram mas que podem traduzir algo que produz mudanças muito positivas nas vidas das pessoas com incapacidade.
Estas bicicletas são caras?
TT – Pois, esse é outro dos grandes problemas. Efectivamente, estas
bicicletas são muito caras. Têm que reunir determinadas características
para que as pessoas que sofrem este tipo de problemas possam participar. Mas não são apenas as bicicletas que são caras. Se pensarmos que
há muita gente que precisa de uma cadeira de rodas com degterminada
caracteristica especifica e não possui poder de compra para a adquirir… jamais fará um investimento numa cadeira de rodas desportiva. E
se alguém não pode investir numa cadeira de rodas da qual necessita,
jamais investirá numa bicicleta… E se a isto acrescentarmos o facto de a
pessoa que tem este tipo de problema ter imensas dúvidas face ao seu
trabalho, ao seu rendimento, no fundo ao seu futuro.
Diamantino Nunes, Presidente da Sportis
Face à envolvência dos paulistas, pelo espírito comungado e pela
qualidade desta mega organização será legítimo considerar-se
esta a prova rainha do WBT?
Diamantino Nunes (DN) – Pessoalmente, acho que não… Sou português,
adoro os eventos que temos em Portugal, temos transmissões directas na
RTP, existem actividades paralelas em Portugal… O que existe aqui é um
espírito diferente, das pessoas do Brasil. Provavelmente, aquela história que
diz que os santos da casa não fazerem milagres, adequa-se a esta situação.
Acho que não fazemos melhor aqui o que fazemos bem em Portugal, o que é
certo é que temos provavelmente um reconhecimento diferente pelo facto de
sermos estrangeiros e também pelo espírito brasileiro.
Esta edição marcou uma diferença: falou-se muito em inclusão, houve
iniciativas como o Seminário, houve mais participantes em cadeiras e
hand bikes…
DN – O projecto está a crescer. Hoje em dia, já não é só um passeio de bicicletas. Tem um conjunto de eventos que fazem parte do mesmo e criámos,
inclusive, a Volta ao Mundo em 26 Dias, que foi mais um momento especial.
Cada vez mais, o WBT tem vindo a afirmar-se como um projecto que procura
oferecer várias iniciativas ao longo do ano e que culminam com um grande
passeio, neste caso de São Paulo, no dia 25 de Janeiro, aquando das comemorações do aniversário da cidade.
Como é que uma empresa portuguesa consegue chegar a São Paulo
e parar mais do que uma das principais artérias da cidade, com uma
logística verdadeiramente incrível?
DN – Não é fácil! Primeiro, requer uma grande equipa de trabalho; depois,
muito esforço e dedicação para tornar isto possível. Todo este esforço, que
começou há três anos, começa a dar os seus frutos, estamos neste momento
muito empenhados, quer no Rio de Janeiro, que já fechámos para o próximo
ano, quer ainda para este ano em Paris. Conseguimos celebrar um acordo
World Bike Tour São Paulo 2011
com a Câmara de Paris, para uma prova que decorrerá em Junho, no âmbito
da qual conseguimos um dos melhores percursos do mundo: estamos a falar
da partida dos Campos Elísios e da chegada à Torre Eiffel. Temos isto aprovado, comercialmente não temos ainda o assunto resolvido e, se calhar, fica
aqui um apelo: fala-se tanto de crise e de problemas em Portugal mas só se
sai da crise ou se evitam problemas trabalhando e sendo-se ousado naquilo
que se faz.
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Walter Feldman, Secretário Estadual do Desporto
Tem sido mais fácil captar investidores no Brasil do que em Portugal ou
Espanha, na prova de Madrid?
DN – O projecto, no Brasil, ainda está longe daquilo que pretendemos. Continua a haver um investimento da nossa parte e continuamos a investir em
novos eventos porque, quanto mais abrangente for o projecto, mais seguro e
consolidado estará no futuro.
Aqui constata-se o envolvimento de uma Prefeitura, de um Estado, de
uma Secretaria do Desporto, de uma Secretaria para a Inclusão… Era
isto que gostaria de ver replicado em Portugal?
DN – Sem dúvida! A participação institucional no Brasil é diferente daquela
que acontece em Portugal. Nós não criticamos o que se passa em Portugal
porque também entendemos a situação do país, apenas reafirmamos que
vale a pena olhar para o que de bom temos e não apenas para coisas que
vêm de fora, até porque o que de bom temos também já é bom para outros
de fora.
Como se sentiu perante tantos elogios dirigidos a si durante o Seminário? Ouvimos muitos brasileiros de relevo afirmarem que o Diamantino
e a Sportis contribuem, através desta organização, para um mundo melhor, despertam-se consciências para temas como o ambiente, a inclusão, a saúde, a acção social…
DN – Por um lado, envergonhado porque aquele tipo de palavras, quando nos
são dirigidas, deixam-nos constrangidos e, por outro lado, com um grande
sentido de responsabilidade. Já não chega fazer. É preciso fazer muito bem, a
fasquia está muito alta e nós estamos a fazer tudo para correspondermos às
expectativas das pessoas.
Este momento parece corresponder ao definitivo enraizamento e
fidelização deste evento na cidade de São Paulo…
Walter Feldman (WF) – Diria que traduz uma dimensão inacreditável! O
World Bike Tour transformou-se, em pouco tempo, num evento insubstituível e estratégico do ponto de vista do papel do desporto, da bicicleta
e da cidade sustentável.
O facto de se tratar de uma parceira público privada, internacional
e entre dois países com raízes históricas evidentes é especial?
WF – Entre Brasil e Portugal, tudo tem que dar certo. Nós temos esse
compromisso histórico que, diria, enfrenta agora uma nova dimensão,
que encerra uma visão humanista da sociedade, de cidades modernas,
saudáveis e sustentáveis. O World Bike Tour, hoje, mais do que um passeio, é um conceito e a produção de um modelo que pode suscitar o
desenvolvimento de cidades tão complexas.
O que representa o envolvimento da Secretaria Federal do Desporto, por si representada?
WF – Diria que foi a porta de entrada… O Diamantino foi muito bem recebido aqui, a ideia encontra-se hoje consolidada mas, face às características do evento, que tem uma dimensão transversal, áreas como o Meio
Ambiente, Transportes, Secretaria de Participação e Parceria, Pessoas
com Deficiência, Secretaria do Governo estão envolvidos.
O Walter é médico e político… A prática desportiva fomentada pelo
WBT traz mais retorno ao médico ou ao político?
WF – A vantagem consistiu em que, na minha condição profissional de
médico, tive a oportunidade de entender o papel da actividade física
do desporto, que é uma dimensão às vezes ignorada na esfera pública. Hoje, sei que é possível, através de um Secretaria de Desportos,
levar qualidade de vida e saúde pública à população, através de práticas
quotidianas rotineiras e periódicas e de uma actividade física que seja
38
World Bike Tour São Paulo 2011
incorporável à cultura, ao modo de vida e ao jeito de ser das pessoas.
Aqui em São Paulo, desenvolvemos modelos de desporto e saúde para
todos, com actividade física regular em qualquer faixa etária, em qualquer condição.
Como é que se organizam programas que promovam a inclusão, a
participação e o acesso de todos ao desporto numa mega cidade
como São Paulo?
WF – É uma tarefa que exige grande assertividade. O Governo tem trabalhado muito ao longo dos últimos anos nessa área e diria que o avanço
é incrível. Temos Secretários que levaram a cabo trabalhos incríveis e
propostas de governo, originando uma transformação que precisa agora
de ser consolidada e ampliada. São Paulo é uma cidade que ainda não
é acessível mas que se começa a preocupar de forma estratégica com
este tema.
Sabemos que existem aqui desigualdades sociais bem acentuadas… É fácil promover este tipo de eventos junto de populações
mais carenciadas?
WF – É possível apenas se houver um acompanhamento evolutivo por
parte do sistema. Temos um milhão e 300 mil pessoas com deficiência,
que não têm, na arquitectura da cidade, o acompanhamento devido. É
um processo que tem o seu caminho, que demora, mas não pode existir
hoje nenhuma obra pública em que as pessoas não estejam incorporadas, independentemente da sua condição.
Linamara Battistella, Secretária Estadual de Direitos da Pessoa com Deficiência
Que importância assume a realização deste evento em São Paulo
para a Secretaria de Estado que dirige?
Linamara Battistella (LB) – A importância do evento é materializar e
trazer de forma concreta a inclusão. Estamos perante um passeio ciclístico onde as pessoas com e sem deficiência, em igualdade de condições, desfrutam do momento, da proximidade entre pessoas, apoiam
as questões que hoje envolvem a protecção ambiental e, acima de tudo,
mostram que é possível criar um novo ciclo económico que garante a
inclusão social e apoia a sustentabilidade. E esta é a verdadeira sustentabilidade, aquela que traz a diversidade para dentro do negócio. Este
evento tem um carácter lúdico, extremamente atraente para os jovens.
E é com os jovens que temos que conversar sobre a transformação do
planeta. E mostra, de uma maneira clara, o significado da inclusão social, de se trabalhar o conceito da sustentabilidade. Para nós, a grande
importância consiste em mostrarmos aos empresários que existe um
novo ciclo económico que não está a ser protegido nem desenvolvido.
Estamos a demonstrar que as pessoas com deficiência podem e devem
exercer os seus direitos. E estamos a desfrutar daquele que é talvez o
instrumento mais forte da democracia, que é a inclusão social.
Durante o Seminário, referiu que há bem pouco tempo atrás, não
havia sequer um plano que visasse a inclusão… Como foi desenhar
uma estratégia para um estado como este?
LB – Existe um movimento de luta pelos direitos das pessoas com deficiência que comemora este ano 30 anos de existência, um movimento
social forte que foi trazendo a discussão para dentro da sociedade e
incluindo-a nas políticas governamentais. Em 2008, o governador Serra
entendeu que era necessário trazer essa discussão, de forma organizada, para dentro do Estado. Era preciso que todas as políticas efectivassem o seu compromisso com a inclusão da pessoa com deficiência.
Então, era preciso trazer o assunto para o seio do Governo. Criar a Secretaria tinha este propósito e nenhuma acção mais poderia esquecer
que existe um grupo de pessoas com deficiência, que tem que ser alcançado pela política pública. Mas havia um propósito maior: criar acções
e políticas afirmativas para conferir o destaque que este grupo precisa
para efectivar os seus direitos enquanto cidadãos. Seja no campo da
saúde, na educação, no trabalho, na habitação, no lazer, na cultura ou
no desporto. Então, em cada uma destas acções, a Secretaria teve que
procurar uma forma de viabilizar a política para esse grupo de pessoas.
O governador Serra é um homem sensível à questão da inclusão social
e às questões que envolvem as minorias. E esse destaque concedido
às pessoas com deficiência, na verdade, acaba por ajudar toda a sociedade porque aquilo que se faz para as pessoas com deficiência serve,
do ponto de vista do caminho da inclusão, para as questões étnicas,
raciais, para as questões de género, enfim… para todos. E o tema inclusão, quando se faz esse recorte pessoa com deficiência, não dá para
maquilhar ou disfarçar. A rua, o passeio, a escada em frente à igreja ou
a dificuldade de acesso ao trabalho são coisas facilmente perceptíveis.
E quando quebramos a barreira à pessoa com deficiência estamos, na
verdade, a escancarar a porta para todos.
World Bike Tour São Paulo 2011
O que é, afinal, preciso incluir? Estas pessoas com deficiência ou
a sociedade?
LB – É um movimento de dupla direcção. De um lado, a sociedade precisa
de aprender a conviver com a diferença. A sociedade precisa de respeitar
a pessoa humana. Por outro lado, precisamos de empoderar a pessoa com
deficiência. Precisamos de a preparar para que faça valer os seus direitos.
Trata-se de um movimento parecido com o que aconteceu com as mulheres, que não tinham acesso à escola, não tinham mercado de trabalho, não
tinham direitos. É muito recente, na nossa sociedade, o direito de a mulher
votar, o incentivo ao seu direito de escolha. Tudo isto é novo. Incluir agora
as pessoas com deficiência, discutir a questão da inclusão a partir deste
recorte pessoas com deficiência, ajuda-nos a pensar nesta trajectória e a
entendermos que se não existirem acções afirmativas e acções dirigidas a
este grupo, não concretizaremos a inclusão social.
Não sendo um fenómeno exclusivo do Brasil nem de São Paulo, existem aqui muitos milhares de pessoas que vivem no limiar da miséria…
É mais difícil ainda trabalhar perante este tipo de contexto?
LB – Se tivesse que pensar no que será pior, entre a deficiência e a pobreza, diria certamente que é a pobreza. Agora, quando as duas se somam, a
situação é de extremo cuidado e é para essas pessoas que estamos a dirigir
as nossas políticas.
Nesse sentido, o povo brasileiro é solidário?
LB – Muito solidário! E é parecido com os nossos irmãos portugueses, onde
as questões que envolvem pessoas com deficiência deram um enorme salto na última década. Eu entendo que o mundo inteiro, e particularmente a
Europa, está cada vez mais consciente de que é necessária uma sociedade
para todos, que garanta a sustentabilidade do planeta.
Falamos aqui numa parceria público privada e que envolve dois países, o que confere ao WBT uma dimensão internacional… É por aí o
caminho?
LB – É por aí o caminho: um mundo sem barreiras, sem fronteiras, um mundo que soma solidariedade em direcção à construção de uma sociedade
mais justa.
39
Pedro Sirgado, EDP Energias Brasil
Em que medida traduzirá o apoio da EDP Energias Brasil ao WBT
uma política social de uma empresa também radicada aqui?
Pedro Sirgado (PS) – A EDP Energias do Brasil é uma empresa brasileira mas a matriz é portuguesa. Portanto, seguimos as directivas
da casa mãe. O nosso presidente é português e estamos totalmente
alinhados com as políticas da EDP em Portugal. De qualquer forma,
somos uma empresa brasileira e estamos pois atentos à realidade
e ao contexto brasileiro. Então, o alinhamento é total, quer com a
política da EDP Energias de Portugal, quer com a da EDP do Brasil.
Temos uma política de desenvolvimento sustentável que, depois, tem
alguns desdobramentos para políticas do meio ambiente, saúde e segurança e para políticas de investimentos sociais e de investimentos
culturais. Para a EDP, um apoio social, desportivo ou cultural, sendo
um desembolso, não é visto como um custo, exactamente porque
temos critérios e tentamos medir o retorno. Então, temos uma política
de investimentos culturais e desportivos, que é atenta à especificidade do Brasil, quer ao contexto e às necessidades, quer à própria origem dos fundos. A EDP, começando pelo nosso presidente mundial,
Dr. António Mexia, e o nosso presidente do Brasil, o Engenheiro Pita
de Abreu, deixou desde sempre claro a todos os seus funcionários
que a sustentabilidade é, a par da inovação, um dos seus valores fundamentais. E o desafio das áreas da sustentabilidade dos institutos
da Fundação é traduzir isso para o papel e para a prática e para as
outras áreas da empresa. Acredito que, dentro de 10 ou 15 anos, não
haverá mais a directoria da sustentabilidade e que a mesma estará
incorporada, como sucedeu com a qualidade, mas hoje isso ainda
não é assim. Então, temos uma Fundação em Portugal, uma Fundação em Espanha e um Instituto no Brasil, temos directorias de meio
ambiente, de sustentabilidade e tudo isto tem que estar alinhado. E o
patrocínio ao Bike Tour em todas as geografias surge nesse contexto,
nesse alinhamento.
40
World Bike Tour São Paulo 2011
A sustentabilidade é já um elemento corporativo da EDP?
PS – Sim, a sustentabilidade é, claramente, um elemento corporativo,
que está cada vez mais enraizado na cultura. E existem razões muito
próprias para o ser. Pelo facto de termos sido estimulados a melhorar
continuamente o nosso desempenho e a descobrirmos novas formas
de fazermos as coisas, - sempre inspirados pelo nosso CEO mundial,
que esteve na Clinton Global Initiative dois anos consecutivos, visitou um
campo de refugiados no Quénia num projecto da Fundação EDP, pessoalmente envolve-se numa série de iniciativas, quis ser o presidente da
Fundação EDP – claramente, vamos percebendo que quando incorporamos as questões da sustentabilidade, criamos vantagens competitivas
e diminuímos riscos operacionais. Claro que gastamos dinheiro no Bike
Tour, claro que fazemos um pouco de marketing, o que também não é
pecado nenhum, mas também trazemos educação através do desporto.
Hoje, no Brasil, com o crescimento acelerado da economia e com as
empresas a precisarem de técnicos, existem áreas carenciadas de recursos formados. Portanto, as empresas têm que se comprometer com a
educação. Não há empresas prósperas em sociedades decadentes. Eu
quero que os meus clientes sejam prósperos até porque, no limite, consomem mais. E quero que consumam com mais qualidade. Isto não tem
a ver com diminuir a receita da empresa, antes pelo contrário. E aí volto
ao conceito do grande guru Michael Porter, onde ele fala em criação de
valor compartilhado. Num MBA que realizei aprendi que a empresa existe para criar valor para o accionista; depois introduzimos criar valor de
forma sustentável; e a evolução consiste em criar valor compartilhado.
As empresas que desenvolveram competências para criarem valor para
o accionista; usem-nas para criar valor para os clientes, para as ONG,
para o Governo, por que não? Por outro lado, quando uma empresa faz
um investimento de um real num activo qualquer, não é indiferente que
o retorno seja de dois ou três reais… Quanto maior o retorno, mais os
accionistas ficam satisfeitos, mais sobe o valor e a procura das acções.
Tradicionalmente, era indiferente para as empresas, quando doavam um
real a uma organização social, se a instituição ia comprar mesas, se
desviava o dinheiro, se atendia 10 crianças, 15 ou 20… Nós não queremos isso. Queremos que as ONG a quem damos dinheiro tenham metas de execução. Hoje, o EDP Solidário, um programa através do qual
apoiamos ONG, obriga-as a submeterem projectos, onde têm que constar cronogramas de execução, metas temporárias, quantas pessoas vão
ser atendidas ao fim do primeiro trimestre, do segundo, do terceiro e do
primeiro ano. Têm que nos dar conta do que fazem. E já aconteceu cortarmos verbas ou desenharmos estratégias correctivas se não atingirem
as metas. Claro que primeiro conversamos e tentamos perceber por que
não cumpriram. Já aconteceu percebermos que não estavam a cumprir
porque não tinham competências e, aí, tomámos uma decisão muito simples: dar cursos de formação às ONG. É uma aprendizagem que tem a
ver com a criação de valor.
Carlos Ribeiro, português contemplado no sorteio
my bike tour card
Carlos, como é que isto começou?
Carlos Ribeiro (CR) – Tudo começou com a minha participação no Porto Bike Tour, em 2010. Participei porque precisava mesmo da bicicleta.
O preço era acessível e, como não tenho muitas posses, mal soube da
possibilidade, inscrevi-me.
Por que dizes que precisavas da bicicleta?
CR – Precisava porque trabalho perto do local onde resido e, face aos
sucessivos aumentos do preço da gasolina e à necessidade de praticar
desporto, achei uma boa solução ir para o trabalho de bicicleta. Na altura, inscrevi-me nos correios, participei na prova, fiquei com o kit e a
bicicleta e, passados cerca de dois meses, recebi um telefonema em que
me disseram que tinha ganho uma viagem ao Brasil. Confesso que não
acreditei, tive que pedir pormenores e, quando confirmei que tinha sido
através do Bike Tour, fiquei super feliz.
Entretanto, vieste para São Paulo, com direito a companhia e com
tudo pago pela Sportis…
CR – Exacto. Vim acompanhado pela minha esposa e estamos a adorar.
Tem sido uma loucura, um espectáculo, mesmo.
O que vais fazer com a bicicleta que vais ganhar aqui?
CR – Vou entregar a quem de responsável para que a possam doar a
quem mais precise.
World Bike Tour São Paulo 2011
Willian Coelho, participante no Bike Tour numa
hand bike
Willian, o que fica desta participação?
Willian Coelho (WC) – Acho que é um dos maiores eventos, com uma
proposta muito importante para uma grande cidade como São Paulo,
através de um meio de transporte alternativo que, além de não poluir, é
saudável. É óptimo porque também é um evento inclusivo, que envolve
as pessoas com deficiência, com mobilidade reduzida, uma oferta linda.
Fica a vontade de que o ano passe rapidamente para poder participar
novamente.
Já costumava andar de bicicleta?
WC – Não, é a primeira vez que tenho esta experiência. Nunca tive uma
hand bike, é a primeira vez e adorei!
Agora que ganhou a hand bike, como será daqui para a frente?
WC – Agora, é passear todas as semanas. Pelo menos uma vez por
semana, é só fazer um acondicionamento físico, treinar e, quem sabe
até, competir.
É mesmo complicado, para vocês, adquirirem uma bicicleta destas?
WC – Sim, são caras e, ainda por cima, no Brasil a oferta é muito reduzida e de pouca qualidade. O facto de este evento possibilitar ganharmos
uma hand bike e continuar a praticar é excelente.
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Carlos Queiroz, ex-seleccionador nacional português
O que fica desta sua primeira participação no WBT?
Carlos Queiroz (CQ) – Tive ali algumas dificuldades na subida mas meti-me atrás do melhor trepador e a coisa foi andando (risos). Foi fantástico! A ideia é excelente, a organização está de parabéns, por vezes é um
lugar comum dizer isto mas, de facto, é um evento extraordinário, uma
ideia brilhante e, depois, está aqui um bocadinho de tudo: desde a parte
do desporto, da saúde, da integração social, do ambiente, a inclusão dos
deficientes, dos invisuais, que também correm aqui, a municipalidade…
O retorno interessante que um evento destes produz ao nível das alterações na própria cidade, criando espaços próprios para as bicicletas…
É algo que deve orgulhar aqueles que tiveram a iniciativa e a brilhante
ideia de fomentar e promover este evento. Creio que se deveria ajudar
a expandir isto.
É sabido que não se considera muito bem tratado pela sua pátria
nos últimos tempos mas orgulha-o o facto de esta ser uma organização portuguesa?
CQ – Não é pela pátria… Infelizmente, às vezes, a pátria é que é tomada
por algumas pessoas que, na minha opinião, não merecem essa posição. Felizmente, escapei ao controlo antidoping aqui e vamos é pensar
nas coisas positivas e dizer que quando existem projectos que são inovadores, positivos, criativos e eficientes, que têm sentido e uma visão não
há cá essas histórias de divisões ou de pessoas vetadas ao ostracismo
ou de menor valorização porque são portuguesas, amarelas, cristãs ou
muçulmanas. Vi aqui uma ideia bem acolhida, uma ideia bem recebida e
bem impulsionada e todos participando de um ideal comum. Ainda bem
que a fonte originária deste projecto é portuguesa e mostra bem a todos
que são portugueses que cá fora no estrangeiro, quando produzimos
essas ideias inovadoras, eficientes e correctas somos bem recebidos.
Não somos é, no final, maltratados ou enxovalhados por aqueles que não
fazem nada e que, no nosso país, não têm mérito nem história nenhuma
42
World Bike Tour São Paulo 2011
mas que se servem do poder e dos cargos que ocupam para ferir aqueles que vão produzindo alguma coisa. Veja, no caso do futebol, o que
acontece a homens como o Jesualdo Ferreira, o Artur Jorge, Fernando
Santos, Inácio, Pacheco, Toni… Onde está essa gente toda? São todos
corridos… É lamentável que no nosso país esses senhores se apoderem
do poder e se encontrem numa posição intocável e inatacável, como é o
Inclusão servida no Jantar Oficial do WBT São Paulo
Com a colaboração da empresa “Ateliê no Escuro”, de São Paulo,
um dos momentos mais simbólicos da agenda deste WBT aconteceu no Restaurante “Capim Santo”.
A chegada foi regada por um champanhe especialíssimo e canapés, no mínimo, inusitados.
Os convidados especiais brindaram, não imaginando porém o que
viria a seguir!
Antes de entrar para o salão principal, foram vendados os olhos
de todos os participantes com uma faixa preta e, daí para a frente,
tudo passou a ser imaginação...
Sons de instrumentos e vozes recitando poemas apuravam a audição em detrimento da visão, sentido que de nada serviu durante
a refeição... Nalguns momentos, cheiros de perfumes da natureza
misturavam-se num ambiente cuja adaptação não foi propriamente fácil... Pratos eram colocados à nossa frente... taças de vinhos
eram trocadas a cada circunstância... e a ordem era: “degustar”...
Tudo era permitido, desde comer com as mãos, entornar ou deixar
cair fosse o que fosse. A ideia era experimentarmos a sensação de
sermos cegos por uma hora e meia…
Para os brasileiros... Acreditamos que tenha sido um pouco
mais fácil sensibilizar os sabores... Já para os que vieram de
longe (Portugal, Espanha e França)... Não imaginavam o que comiam, pelo tamanho e quantidade de especiarias brasileiras que
ali eram servidas... e pelos sabores, extremamente diferentes.
Os convidados, que viram desde o início os seus grupos “desfeitos”, foram distribuídos por mesas com pessoas completamente
desconhecidas, abusando e curtindo verdadeiramente o momento...
Vale a pena contar que as pessoas conversavam e debatiam diversos assuntos... Inclusive, o que se ia comendo... qual seria a aparência... a cor, e até se havia
algo que ainda pudesse estar vivo... nos nossos pratos!
Mais ou menos às apalpadelas, lá se conseguiam encostar os copos para que nas diversas mesas se brindasse...
Depois de um agradável jantar... A “autorização” para a retirada
das faixas e o mais esperado: poder ver realmente o que se comeu!
Todos foram realmente surpreendidos! Em suma, uma nova experiência, também ela com carácter inclusivo! Terá sido a cereja no
topo do Bolo WBT!
caso do próprio Secretário de Estado do Desporto, que não me cansarei
nunca de pôr em causa, especialmente o presidente do Instituto do Desporto, o Dr. Luís Sardinha, um treinador, que deveriam ter pudor e vergonha de terem entregue a um homem todo o poder na área do doping,
ao ponto de se servir desse poder para vendetas pessoais, o que não
é digno de uma pessoa que ocupa o estatuto de presidente da ADOP.
Recortes de imprensa brasileira
“Já são garantidos 8 mil novos amigos aqui no Brasil, sendo
mil crianças que participaram do Bradesco Seguros Kids
Bike Tour no dia 22 de Janeiro no Estádio do Pacaembu, e 7
mil adultos que pedalaram juntos no 3º World Bike Tour São
Paulo no último dia 25 de Janeiro”.
“A tartaruga laranja e verde encanta a todos por onde passa.
Apaixonado por bicicleta e participante de todos os 15 passeios já organizados pelo World Bike Tour, o Biklas já p assou
por vários lugares do mundo pedalando e sorrindo!”
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MSRM. Especial. Escalão de comparticipação C.
RESUMO DAS CARACTERÍSTICAS DO MEDICAMENTO 1. NOME DO MEDICAMENTO Buprenorfina Azevedos 2 mg comprimidos sublinguais, Buprenorfina Azevedos 8 mg comprimidos sublinguais COMPOSIÇÃO QUALITATIVA E QUANTITATIVA Cada comprimido de Buprenorfina Azevedos 2 mg contém 2,16 mg de Cloridrato de buprenorfina equivalente a 2 mg de buprenorfina base. Cada comprimido de Buprenorfina Azevedos 8 mg contém 8,64 mg de Cloridrato de buprenorfina equivalente a 8 mg de buprenorfina base. Excipientes: Lactose mono-hidratada, manitol, amido de milho, povidona (Plasdone K29/32), ácido cítrico anidro, citrato de sódio, ácido ascórbico, EDTA e estearato de magnésio. FORMA
FARMACÊUTICA: Comprimidos sublinguais. INFORMAÇÕES CLÍNICAS: Indicações terapêuticas: Tratamento de substituição em caso de toxicodependência major de opiáceos, no âmbito de um programa detalhado de acompanhamento
terapêutico do ponto de vista médico, social e psicológico. Posologia e modo de administração: O tratamento destina-se a adultos e crianças a partir dos 15 anos de idade que acederam ao tratamento da sua toxicodependência. Ao
instituir o tratamento com buprenorfina, o médico deverá ter presente o perfil agonista parcial da molécula para os receptores μ dos opiáceos, que pode precipitar uma síndrome de privação em doentes dependentes de opiáceos. O resultado do tratamento depende da posologia prescrita assim como do conjunto de medidas médicas, psicológicas, sociais e educacionais tomadas na monitorização do doente. A via de administração é sublingual: Os médicos devem advertir
os doentes de que a via sublingual é a única via de administração eficaz e bem tolerada para a administração do medicamento. O comprimido deve ser mantido debaixo da língua até se dissolver, o que ocorre normalmente entre 5 a 10
minutos. Terapêutica de iniciação: a dose inicial varia entre 0,8 e 4 mg, administrada numa dose diária única. Toxicodependentes de opiáceos não submetidos a uma fase de privação: quando se inicia o tratamento, a dose de buprenorfina
deve ser tomada, pelo menos 4 horas após o último consumo de opiáceo ou quando surgem os primeiros sintomas de privação. Doentes medicados com metadona: antes de iniciar a terapêutica com buprenorfina, deve reduzir-se a dose
de metadona até um máximo de 30 mg/dia; contudo a buprenorfina pode precipitar uma síndrome de privação. Ajuste da posologia e manutenção: a posologia deve ser progressivamente aumentada, dependendo da necessidade de cada
doente; a dose diária máxima não deve ser superior a 16 mg. A posologia é titulada de acordo com a reavaliação do estado clínico e situação global do doente. Recomenda-se uma prescrição diária de buprenorfina, particularmente durante
a fase de iniciação. Em seguida, após estabilização, pode dar-se ao doente um quantidade de medicamento suficiente para vários dias de tratamento. Contudo, recomenda-se que a quantidade de medicamento dispensada se limite, no
máximo, a 7 dias. Redução da posologia e suspensão do tratamento: após um período satisfatório de estabilização e se o doente concordar, a posologia de buprenorfina pode ser gradualmente reduzida; em alguns casos favoráveis, o
tratamento pode ser interrompido. A disponibilidade dos comprimidos sublinguais nas doses de 0,4 mg, 3mg e 8 mg, respectivamente, permite efectuar uma titulação decrescente da posologia.Os doentes devem ser mantidos sob vigilância
após a suspensão do tratamento com buprenorfina devido ao potencial de recaídas. Contra-indicações: Hipersensibilidade à buprenorfina ou a qualquer dos excipientes. Crianças com idade inferior a 15 anos. Insuficiência respiratória
grave. Insuficiência hepática grave. Alcoolismo agudo ou delirium tremens. Efeitos indesejáveis: O aparecimento de efeitos secundários depende do limiar de tolerância do doente, que é mais elevado nos toxicodependentes do que na
população em geral. O quadro 1 inclui efeitos indesejáveis durante os ensaios clínicos. Quadro 1: Efeitos Indesejáveis Relacionados com o Tratamento Notificados por Sistema Orgânico Muito frequentes (>1/10); Frequentes (>
1/100, <1/10); Pouco frequentes (>1/1.000, <1/100); Raros (>1/10.000, <1/1.000); Muito Raros (<1/10.000) incluindo notificações isoladas (CIOMS III) Perturbações do foro psiquiátrico Raras Alucinações Doenças do sistema nervoso
Frequentes Insónia, cefaleias, desmaio, tonturas Vasculopatias Frequentes Hipotensão ortostática Doenças respiratórias, torácicas e do mediastino Raras Depressão respiratória Doenças gastrointestinais Frequentes Obstipação,
náuseas, vómitos Perturbações gerais e alterações no local de administração Frequentes Astenia, sonolência, sudorese Outros efeitos indesejáveis notificados durante o período de pós-comercialização: Doenças do sistema
imunitário Reacções de hipersensibilidade tais como rash, urticária, prurido, broncoespasmo, edema angioneurótico, choque anafilático. Afecções hepatobiliares: Em condições normais de utilização: raros aumentos das transaminases
e hepatite ictérica que geralmente se resolvem favoravelmente Em caso de utilização incorrecta por via IV, hepatite aguda potencialmente grave Afecções dos tecidos cutâneos e subcutâneos: Em caso de utilização incorrecta por via IV:
reacções locais, por vezes sépticas Em doentes que apresentam toxicodependência marcada, a administração inicial de buprenorfina pode provocar em efeito de privação semelhante ao associado à naloxona. INFORMAÇÕES ADICIONAIS
DISPONÍVEIS A PEDIDO
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