Ensino Médio – Sociologia – CMJF – 2012 – Prof Maj Gitirana
As: Teoria e Teóricos da Sociologia
Não existe consenso sobre quantas são as correntes sociológicas, ou quais são
os clássicos fundadores de correntes sociológicas dignos de menção particular, mas predomina a apresentação que situa 3 autores principais: Karl Marx, Max Weber e Émile
Durkheim.
O primeiro não é exatamente um fundador da proposta sociológica, pois em sua
obra esta proposta não aparecia, ao menos explicitamente.
Mais ou menos na mesma época em que Marx atuou, o pensador francês Augusto Comte apresentou a proposta de se estudar a sociedade em perspectiva científica. Ele
era um filósofo “positivista”, cujo obra destacava este ideal do discurso científico. Foi
Comte que criou o termo “Sociologia”, e apresentou alguma contribuição a respeito, embora com pouca repercussão atual.
De qualquer forma, por conta de suas ideias, é lembrado às vezes como fundador original da disciplina; mas a proposta de estudo da sociedade como área científica
teve que ser amadurecida, até encontrar em Émile Durkheim e Max Weber as contribuições hoje mais consagradas como de fundadores da Sociologia.
Marx, por sua vez, ainda contemporâneo de Comte, não partilhou desta proposta. Em sua obra, em vez disto, ele apresentava como “científico” um programa político de
Socialismo, em oposição ao que era conhecido como “Socialismo Utópico”. Este tinha
como referência e alvo um ideal de sociedade socialista, sem no entanto prever um caminho para se chegar a ela, ao contrário do “Socialismo Científico” de Marx, que tratava longamente de um processo de luta contra a sociedade liberal ou, em termos do autor, a sociedade “capitalista”, organizada a partir do Estado “burguês”. Este deveria ser derrubado
para a implantação do Socialismo/Comunismo.
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Cabe esclarecer por que Marx figura como um dos 3 principais clássicos da Sociologia, se não escreveu em nome dela. É que sua obra acabou sendo usada para reflexões
e questionamentos dos principais fundadores da Sociologia, e para questionamentos no
campo do pensamento social como um todo, de forma mais abrangente. Assim formou-se
uma corrente de pensadores e autores que, incorporando ideias do Marxismo, passaram a
escrever em nome da Sociologia, podendo-se falar então numa Sociologia marxista.
Falar sobre marxismo envolve uma dificuldade conhecida desta tradição, que é
distinguir pensamento “marxiano” e pensamento “marxista”. O primeiro é o pensamento do próprio Marx, como expresso em sua própria obra; o segundo é o pensamento
produzido pelos que escreveram em nome das ideias dele. O autor deixou muitos adeptos,
e surgiu em larga escala um pensamento que é “marxista”, mas não é de Marx. Aliás, segundo o filósofo Paulo Giraldhelli Jr, Marx dizia que não gostava de marxistas... Estes são
autores e/ou agentes políticos que podem produzir simplificações, sofisticações ou ainda
confusões sobre as ideias originais do autor. Desde suas publicações, os debates em torno
de suas ideias têm aumentado continuamente a questão ou, de outra forma, a tentativa de
resolver o problema, voltando-se à leitura de seus textos.
Feita esta ressalva, vamos procurar agora estabelecer, em linhas muito gerais, o
que são pontos básicos no pensamento de Marx que interessam à nossa introdução à Sociologia:
Marx produziu sua obra principalmente a partir dos desenvolvimentos da Filosofia e da História, que já eram tradições antigas, e dialogando também com o discurso
da Economia, que estava então surgindo.
Nas ideias de cientistas e pensadores sociais, também podemos ver relações dialéticas. Grandes debates ocorrem pelo “diálogo” de grandes autores, através de suas
obras. Algumas das principais ideias com que Marx travou debate através de sua obra foram as seguintes:
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- A ideia de Estado como fruto de relações associativas, fruto de um “contrato social”,
uma cooperação entre indivíduos em sociedade, como se via, por exemplo, em autores
como Thomas Hobbes, John Locke e, até certo ponto, em Jean-Jacques Rousseau, e
como se via também na obra do consagrado filósofo alemão Georg Hegel, cujas ideias tiveram grande repercussão na Alemanha da época, e constituíram um dos principais alvos
dos debates marxianos.
- O Liberalismo, especialmente pelas consequências do liberalismo econômico, como se
via em autores como John Locke, Adam Smith1 e David Ricardo.
- O Idealismo na Filosofia, especialmente em autores alemães, como Hegel. O idealismo
pode ser entendido como crença na superioridade das ideias sobre as realizações materiais. Elas podem ser encaradas como antecessoras e causadoras das mudanças históricas.
- O Socialismo Utópico, como ideal de “esquerda”, ideal político de busca de igualdade,
de melhor distribuição de riquezas entre as pessoas, como reconhecimento ao trabalho, em oposição ao ideal de “direita”, o liberalismo, ideal de liberdade dos indivíduos
em relação ao Estado, e em relação à propriedade privada de bens e de seu livre comércio.
O Socialismo Utópico era baseado em idealismo filosófico, ou seja, os socialistas utópicos
defendiam a possibilidade de se chegar ao socialismo a partir apenas do convencimento
das pessoas, por divulgação de ideias, sem necessidade de ações revolucionárias violentas.
Por isto ele foi chamado de “utópico”, que se refere ao que não existe em lugar algum.
Agora vamos desenvolver com mais detalhes estas 4 posições que Marx quis
contrapor:
- a ideia de que o Estado era uma sociedade basicamente cooperativa;
- o Liberalismo;
- o Idealismo filosófico-político;
1
. Adam Smith publicou sua influente obra A Riqueza das Nações, em 1776, e é frequentemente citado como pai da economia
moderna.
3
- e o Socialismo Utópico.
Um ponto importante em sua abordagem era a visualização de uma história humana em estágios, classificados a partir das formas de divisão do trabalho em cada sociedade. Ele falou num estágio anterior ao surgimento das sociedades históricas, o estágio do
“comunismo primitivo” e, após esta etapa, nos demais estágios ele visualizava as sociedades divididas grosso modo em duas classes sociais: uma dominante e uma dominada. A
primeira é a dos proprietários dos meios de produção da sociedade em questão (os meios
materiais), a segunda, dos não proprietários.
Marx tinha conhecimento de concepções da Filosofia Política que o antecedeu,
de obras de autores como Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau. Principalmente os 2 primeiros citados visualizavam a organização do Estado como fruto de
associação cooperativa entre seus integrantes, e Marx discordava desta visão.
Numa leitura simplificada e bem resumida da obra Leviatã, de Thomas Hobbes,
podemos ver a ideia de que, antes da existência de Estados, as pessoas viviam em “condição de Natureza”. Em condição de natureza, as pessoas vivem sem a presença da autoridade de um Estado de Direito. Vivem sem leis, em plena liberdade natural, com as vantagens e desvantagens disto advindas. A desvantagem é que, como não há organização social que defina e coíba crimes entre os indivíduos, estes vivem a “guerra de todos contra
todos”, ou seja, qualquer um pode atentar contra a vida de qualquer um, e a condição de
natureza então é ruim porque é insegura para o maior “direito natural” que todos temos e
que Hobbes se preocupa em preservar: o direito à vida.
Para ele então o Estado representa um bem coletivo, porque será o garantidor
da segurança, um garantidor do ideal religioso tradicional “Não matarás”, das sociedades
judaico-cristãs. Instituir o Estado custa um preço à liberdade absoluta da condição de
natureza, mas compensa pelo bem coletivo da segurança dos indivíduos.
Hobbes é o principal pensador que consolidou a concepção do Estado como
“contrato” social, como sociedade criada pela ação do próprio homem (e não mais por
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vontade divina), e a via por seu aspecto cooperativo, na medida em que seu fim deveria
ser a segurança coletiva, mesmo às custas de uma relativa perda de liberdade. As pessoas
concordando em viver sob um Estado abririam mão da liberdade absoluta e se sujeitariam
à liberdade relativa da vida em estado de sociedade, ou seja, da vida sob a autoridade comum a todos, o “Estado”2.
A ideia de “contrato” não pode ser tomada no sentido literal, na medida em que
o próprio autor esclarece que ele não aconteceu realmente, historicamente. Trata-se apenas
de uma forma simbólica de ressaltar que a organização de uma sociedade, de um Estado, é
fruto de realização humana, e não algo “caído do céu”. A ideia vale apenas pelo efeito prático no estado atual das coisas. Podemos admitir sem problemas que, historicamente, um
Estado nunca se formou por contrato explícito, assinado de fato entre indivíduos; mas,
como escreveu Hobbes, TUDO SE PASSA “COMO SE cada homem tivesse dito a cada
homem ‘Eu autorizo e concedo meu direito de governar a mim mesmo, em favor deste homem, ou desta assembleia de homens [o governo], nesta condição, de que você conceda
seu direito em favor dele [o governo], e autorize todas as suas ações de igual maneira’.”
Esta ideia é sociologicamente interessante porque coincide com uma noção que
vimos na introdução à Sociologia, a noção de que aquilo que as sociedades são, como um
todo, relaciona-se com o que cada um de seus componentes individuais contribui para
que ela seja.
Após esta obra de Hobbes, John Locke publicou trabalho em que mostrava aceitar em parte o raciocínio de “Leviatã”, mas pretendeu rever e modificar alguns pontos.
Locke continuou trabalhando com a concepção de “condição de natureza”, mas a chama
de “estado de natureza”, e considera que, além do “direito natural” à vida, o estado de natureza inclui outro direito fundamental: o direito de propriedade de bens privados. O direito natural do homem à “propriedade” inclui seu direito à vida e à liberdade de possuir bens
(“a propriedade que os homens têm em sua pessoa assim como bens”); assim, para Locke
o Estado deve garantir a segurança não só quanto à vida, mas também quanto à liberdade
de propriedade privada, a segurança contra o roubo, também tradicionalmente esperada
nas sociedades que acatam o valor do mandamento judaico-cristão “Não roubarás.”
2
. Confrontar com o termo original em inglês “Commonwealth”, que, literalmente, significa “riqueza comum”, “bem comum”.
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Locke também diverge de Hobbes em outro ponto: este considerava que a autoridade do governo soberano era absoluta, e o soberano não poderia ser deposto pelos governados, enquanto Locke admitia a deposição do soberano, a “revogação” do “contrato”,
se o governo não correspondesse ao fim que dele se esperava, ou seja, garantir vida e propriedade privada segura. Neste ponto Locke faz uma consideração ainda mais interessante
para o sociólogo que trabalha com a ideia de que todos podem contribuir de alguma forma para os destinos das sociedades em que vivem.
Mas, enfim, diante destas concepções, e da de outros pensadores que também
viam no Estado uma sociedade predominantemente cooperativa, Marx contrapõe uma visão de sociedade – especialmente da instituição moderna do Estado – em seus conflitos
de interesses de diferentes grupos sociais, e visualiza a existência em sociedade de uma
“luta de classes” subjacente, um conflito de interesses entre o que ele chamou de classe
dominante e de classe dominada. A classe dominante viveria da exploração do trabalho
dos outros, numa relação estabelecida a partir de elementos materiais, econômicos, que
são os “meios de produção” disponíveis na sociedade. A classe dominante se define como
aqueles que são proprietários dos meios de produção da sociedade, os “bens de capital”,
que permitem produzir outros bens: terras, fábricas, instalações, máquinas e o próprio “dinheiro”; a classe dominada é a dos “não proprietários” (de meios de produção), é a classe daqueles que só têm para vender, no mercado de consumo, sua própria força de trabalho, pelo valor de mercado dos salários.
Para Marx o discurso de que o Estado existe para o bem comum, para a segurança de todos, é um discurso enganoso, que serviria apenas para esconder dos trabalhadores assalariados, da classe dominada, as condições de exploração de seu trabalho. Marx
quis deixar claro que a ideia de Estado “liberal”, embora este pudesse ser apresentado
como bom para todos, convinha apenas para os grandes proprietários, que usufruíam da liberdade do acúmulo de propriedade privada, e da segurança conferida pelo Estado de não
ter suas propriedades nem roubadas nem confiscadas pelo próprio Estado, e com isso podiam conquistar e manter suas condições. O Estado, na garantia de uma liberdade de pro6
priedade aberta formalmente a todos, em condições de uma igualdade apenas jurídica, na
verdade dava margem a grandes desigualdades, ou mesmo as garantia.
Na visualização de um Estado e de um “jogo” em que se ganha certa liberdade às custas da igualdade, Marx, ou alguns de seus leitores, preferiam optar por
maior igualdade, ainda que às custas de algumas liberdades.
A estrutura econômica de uma sociedade (que inclui os meios materiais de
produção, terras, ferramentas, máquinas, e trabalho humano) constitui sua infraestrutura
social; e sua estrutura jurídica e ideológica (que inclui manifestações do pensamento desta sociedade, suas leis, valores e formas de pensar) constitui sua superestrutura social.
Ambas fazem parte da estrutura social, mas se diferenciam para Marx por ser a primeira a
base para a segunda. Você pode entender melhor esta parte através de um exemplo simples, se voltar ao que já vimos sobre o mundo do Futebol como sociedade.
Em alguns de seus textos, Marx defendeu a tese de que a estrutura econômica
determinaria a estrutura jurídica e ideológica da sociedade. A classe dominante conseguiria então fazer prevalecer, para toda a sociedade, os valores que, no entender de Marx,
seriam convenientes apenas à própria classe dominante3. Este é um dos aspectos do que
se pode chamar de “materialismo” do pensamento marxista.
O materialismo, em filosofia metafísica, pode ser definido como o oposto do
idealismo. O idealismo pressupõe que as ideias têm situação de existência (têm “status
ontológico”) privilegiada em relação às condições materiais, ou seja, as ideias é que seriam as responsáveis pelas realizações que reconhecemos no mundo material ou, no mínimo, haveria uma direção preferencial das possíveis influências recíprocas entre ideias e realizações materiais. Em outras palavras, é partidário do idealismo a pessoa que acredita
que é mais fácil mudar as coisas a partir de ideias do que criar ideias a partir de fatos con cretos. Na versão clássica do idealismo de Platão, se considera que as ideias das coisas têm
existência anterior à existência das próprias coisas, e estas são apenas realizações particulares das ideias que antecedem as coisas, ou até meros reflexos delas.
3
. A propósito, aparece na obra A Ideologia Alemã uma famosa afirmação de Marx: “Os valores da classe dominante são, em
cada época, os valores dominantes.”
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Marx combateu as concepções idealistas da sociedade, fazendo o que alguns
ressaltam como inversão de sentido nestas concepções. Para ele eram as condições materiais da sociedade que predominavam para estabelecer os valores, as ideias e as próprias leis
vigentes em sociedade. Dizendo de outra forma, podemos dizer que a concepção materialista de Marx o fazia acreditar que os ricos impunham aos pobres sua visão de mundo, suas
crenças, e mesmo as leis gerais da sociedade que a eles convinham.
Marx, com seu projeto político de corrigir o que considerava distorções sociais,
pretendia que se chegasse ao ideal da sociedade comunista, ou socialista, caracterizada por
alto grau de igualdade entre as pessoas, pela ausência de propriedade privada dos meios de
produção. Na sociedade ideal de Marx, não haveria propriedade privada dos meios de produção. Os meios de produção seriam de propriedade coletiva.
Essa ideia de “propriedade coletiva dos meios de produção”, no entanto, admitia
duas variantes:
- Uma delas seria a etapa final, e realmente ideal, em que não haveria Estado,
coincidente com o ideal do Anarquismo. Bens de produção seriam de propriedade coletiva
porque seriam compartilhados em comunidades locais, relativamente pequenas, com alguma semelhança com o que Marx chamou de “comunismo primitivo”.
- A outra variante seria a da propriedade coletiva que ainda dependeria da existência do Estado, mas não o Estado liberal/burguês, e sim o Estado que teria sido criado
em nome do interesse dos trabalhadores, através da luta armada e da derrubada do Estado
liberal, Estado que corresponde à etapa do que Marx chamou de “Ditadura do Proletariado”. Esta seria a proprietária de todos os meios de produção, e tal forma de Estado é a que
corresponde, em linhas gerais, à realização histórica a que o mundo assistiu, em boa parte
do século XX, com os países do “Segundo Mundo”, os países comunistas/socialistas do
Império Soviético.
De qualquer forma, a ideia de “socialismo” corresponde a um grau de igualdade
entre as pessoas maior do que a verificada de fato nos Estados Liberais. Estes, associados
geralmente, em maior ou menor grau, ao ideal da Democracia, a priori só estabelecem termos de igualdade social que se limitam ao plano jurídico – o que Norberto Bobbio refere
como “igualdade formal” – mas se mantêm longe da “igualdade de fato”, da igualdade
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“substancial” ou material, das igualdades econômicas. O Liberalismo, então, através da
“livre concorrência”, favorece na sociedade a competição e a “meritocracia”, o sucesso
pela competência, o que alguns defensores dele associam com eficiência da sociedade (industrial) como um todo. O socialismo, em alternativa, consegue níveis relativamente altos
de igualdade econômica, mas às custas, historicamente, da perda de liberdades não só na
economia, mas também na política e nas expressões ideológicas.
Por outro lado, antes de se ver a ocorrência histórica do socialismo “real” (ou
“científico”), e mesmo antes de Marx, já existia o ideal do Socialismo, o Socialismo Utópico; mas Marx, como materialista, queria exatamente combater a crença de que, através
apenas do plano das ideias, dos debates entre ideias, fosse possível se chegar ao socialismo. Para ele só se poderia chegar ao Socialismo pela atuação no plano material: confiscando, através de revolução social armada, os bens de produção da classe burguesa.
Vamos agora recapitular alguns pontos já vistos, e introduzir outros novos:
Para Marx, a luta de classes constitui o “motor da história” e, em alguns momentos, ocorrem nas sociedades momentos de descompasso, de crise, de forte contradição entre infraestrutura e superestrutura, entre condições econômicas e sistemas jurídico-ideológicos, podendo ocorrer revoluções, que mudam as estruturas sociais e levam a
novas formas de organização social, novos modos de produção de riquezas na sociedade,
em um novo sistema sócio-econômico.
Em algumas passagens mesmo da obra de Marx, aparece a ideia de que a infraestrutura social é uma base a partir da qual se origina a superestrutura (por exemplo, em
A Ideologia Alemã), como os próprios nomes sugerem. Nestes momentos, Marx pretendeu marcar uma posição contrária ao idealismo filosófico alemão, no qual se visualizava,
como já vimos, a possível capacidade de as ideias serem geradoras dos acontecimentos
históricos concretos, a capacidade de se criarem e se mudarem os rumos concretos das sociedades, através do jogo dialético de ideias, do diálogo entre grandes pensadores e líderes.
Assim Marx marcava posição particularmente contra a ideia de que seria possível se chegar um dia a uma sociedade socialista – pautada por um ideal de igualdade –
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através apenas de debates, num ambiente de “fraternidade”, de democracia, em que a classe “dominante” seria convencida, apenas pela razão, e pelo sentimento de fraternidade, a
aderir ao socialismo. Isto era o socialismo “utópico”, impossível. Para Marx havia necessidade de se combater com violência, com luta armada, a sociedade “liberal-democrática”,
que permitia acentuado grau de desigualdades, em sua relativa valorização das liberdades
individuais, liberdade de propriedade privada e liberdade/possibilidade de participação
no jogo político.
Em tese, juridicamente, pela lei, a propriedade privada e a participação política
era aberta a todos, com igualdade de oportunidades; mas, para Marx, na prática a maioria
dos indivíduos não usufruía dos benefícios deste modo de organização social, os benefícios de uma sociedade construída com base no Estado moderno. Este Estado não seria uma
instituição autêntica e representativa da sociedade como um todo. O ideal de Estado como
forma de organização “liberal” e “representativa” dos interesses coletivos e do “bem comum”, o ideal de sociedade “democrática” seria um engano. Existia uma ideia de que só
os grandes proprietários contribuíam com impostos para o Estado (por taxação direta) e,
portanto, só eles precisariam – e poderiam – se fazer representar no governo, e o Estado
seria mero “aparelho ideológico” nas mãos da classe dominante, que o usaria exatamente
como forma de exercer e garantir sua dominação. Tratava-se então da necessidade de inversão de alguns princípios como o do Idealismo Histórico, e do Liberalismo e Democracia. Esta deveria privilegiar a igualdade, e não a liberdade, entendida como liberdade relativa e apenas formal.
Para Marx, o Liberalismo, ao favorecer o ideal de relativa liberdade, não propiciava as condições para se realizar o ideal de igualdade, permitindo, em vez disto, a
existência de acentuadas desigualdades, para ele garantidas por trás de um discurso de
igualdades de condições que seria falso, sustentado apenas de forma “ideológica”, como
discurso ilusório da classe dominante “imposto” à classe dominada. As propostas marxistas surgiriam então como discurso com intenção científica capaz de apresentar uma visão
não ilusória, e sim “real”, das “verdadeiras” condições injustas da sociedade, particularmente da classe dominada, vista como vítima da classe dominante.
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Em outras palavras, bem simplificadas, as condições materiais das pessoas (riqueza, pobreza) determinariam formas de pensar e de se relacionar, e os valores da classe
dominante predominam nos costumes ou leis que ditam as relações sociais. Porém, em outras passagens, ou por evidências indiretas, Marx admite a possibilidade de existir uma relação dialética entre condições econômicas da sociedade e condições ideológicas (ideias
e valores podem contribuir para mudar o mundo econômico). Podem então surgir nas sociedades, especialmente em momentos de crise, lideranças revolucionárias capazes de reverter o sentido normal das influências das condições econômicas sobre as ideias, e fazer
as ideias revolucionárias vencerem estruturas econômicas estabelecidas. Abria-se então
oportunidade para a ação política revolucionária e, com o tempo, surgiria o ideal do pensador social – e também do sociólogo – engajado na modificação da realidade social.
Se você entendeu pouco do que está escrito aqui sobre Marx, não se preocupe
com tudo, mas tente fixar ideias importantes. Vamos a uma recapitulação sintética:
Para Marx, conhecer mecanismos de funcionamento da sociedade pode ser um
meio de atuar sobre ela. Para ele havia uma direção preferencial para as sociedades caminharem, no sentido de se eliminarem as diferenças sociais, que ele via como mal a ser
corrigido. Ele via na história humana etapas evolutivas que já tinham ocorrido neste sentido, e que culminariam com uma etapa final e melhorada da humanidade, representada pelo
ideal de vida comunista para todas as sociedades. Nesta etapa final, deveriam estar realizados os 3 ideais sociais surgidos na Revolução Francesa, os ideias de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Antes disto, porém, enquanto nem todos eram sensíveis ao ideal de fraternidade,
enquanto o ideal de liberdade era mais uma forma de iludir a sociedade do que de garantir
liberdades significativas, “reais”, amplas (incluindo a liberdade econômica de consumo
igual para todos), tratava-se de conseguir o ideal da igualdade e, para isto, seria necessário lutar contra o Estado “liberal”, o Estado “burguês”, e passar por uma fase de organização social que ainda dependia da existência de Estado, mas seria uma fase transitória,
de um Estado fruto da revolução do proletariado, dos trabalhadores, o Estado Socialista.
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Seria a fase da chamada “Ditadura do Proletariado”, que em parte corresponde
à realização histórica dos chamados “países comunistas” ou “socialistas”, também classificados como Estados totalitários de esquerda ou, ainda, mais na versão de seus críticos,
como formas de “Capitalismo de Estado”.
Na fase final do caminho para o Comunismo, após a revolução socialista ter alcançado todo o mundo, e as ditaduras do proletariado terem atingido alcance universal,
chegar-se-ia ao estágio ideal e final do comunismo4, eventualmente de forma agora pacífica; mas a forma de ocorrer concretamente esta transição final não fica clara na obra de
Marx.
O que fica claro é que não haveria mais Estados, e toda sociedade se organizaria
como havia sido num momento de “comunismo primitivo”, sem a propriedade privada
dos meios de produção. Terras e demais bens imóveis, como fábricas, instalações físicas,
máquinas, e também o trabalho das pessoas, não seriam mais propriedade particular de
ninguém, e não seriam mais objeto de comércio, de compra e venda. Todos trabalhariam
com propriedade coletiva dos meios de produção, e para a produção de bens coletivos.
Este comunismo final seria então praticamente coincidente com outro ideal, um
ideal derivado do Socialismo Utópico, que era o Anarquismo. O Anarquismo, como o ideal final do comunismo, buscava a realização de uma forma de organização social em que
as pessoas não fossem submetidas à instituição de Estado, mas se organizassem de forma
“horizontal”, sem hierarquia de classes, para produzir para elas mesmas.
O Marxismo representa então uma postura social bastante radical, crítica, engajada, ou seja lá como se chame; enfim, o pensamento marxista foi capaz de gerar muitas
modificações sociais, e muitas críticas. Aliás, ele foi capaz de exemplificar historicamente
um dos princípios que ele próprio pareceu negar, o idealismo, a capacidade de ideias
agirem sobre condições materiais. Foi capaz de dar margem inclusive a revoluções, violentas ou não; mas, até por isto, é claro que ele também foi alvo de muitas críticas, e de
muitas reações contrárias.
4
. Alguns dizem que esta ideia marxista corresponde a uma concepção “teleológica” da história humana, ou seja, à ideia de
que a história humana caminha no sentido de chegar ao cumprimento de um fim, o que deu margem a muitos questionamentos, inclusive porque vai contra a ideia de liberdade humana.
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Após tantas adesões ao marxismo, tantos fenômenos sociais importantes ocorridos em seu nome, e após tantas críticas e outros fenômenos sociais ocorridos como reação a ele, hoje podemos buscar uma forma de olhar o marxismo que não seja a partir apenas do contexto social que o próprio Marx viveu, mas que busque alguma forma de “síntese” do que aconteceu após o pensamento marxista, tudo que aconteceu por adesão ou
reação ao pensamento marxista e que represente, de alguma forma, uma conclusão dos
debates ocorridos. O mundo atual não é o de Marx, e a Sociologia de hoje, mesmo a marxista, surgida em nome de Marx, não pode mais se limitar a repetir ou apenas interpretar,
para o mundo contemporâneo, as palavras de Marx, pois estas se dirigiam ao contexto histórico do tempo dele.
Isto não significa que seja possível se chegar a uma Sociologia neutra, que reflita esta tentativa de “síntese”, que seja uma “composição” de sociologia marxista com outras correntes, mas se pretende dizer, com isto, que uma sociologia marxista hoje não deve
procurar sua possível conservação sem uma busca de respostas para as reações que teve
que enfrentar, seja no plano “ideológico”, da superestrutura social, seja no plano material,
da infraestrutura social, para usar os próprios termos marxianos.
Muitos sociólogos que poderíamos dizer que são marxistas, ou mesmo alguns
que poderíamos considerar, digamos, apenas simpáticos a ideias marxistas, atuando no
meio acadêmico da Sociologia, já aceitaram e incorporaram muitas críticas ao pensamento
de Marx. Poderíamos tentar apresentar então uma formulação sintética das principais críticas ao pensamento marxista; mas há outra forma de fazer isto.
Uma forma possivelmente mais esclarecedora para entender algumas críticas
ao pensamento de Marx surge exatamente quando se faz a apresentação do pensamento dos (outros) fundadores da Sociologia, porque eles mesmos sentiram necessidade de
estabelecer em sua obra o que alguns referem (especialmente pensando na obra de Weber)
como “debate com o fantasma de Marx”, tendo em vista que muitas das principais questões que eles estudaram já haviam sido objeto das considerações de Marx.
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Voltando ao esquema que apresentamos de algumas das principais ideias que
Marx pretendeu contestar, no “diálogo” entre pensadores sociais, vamos ver como as
visões de Durkheim e Weber se inserem nos debates sobre alguns daqueles tópicos: a forma de ver o Estado Moderno, o Liberalismo, e o Idealismo em Filosofia/Política.
- Sobre a sociedade moderna organizada na forma de Estado (democrático/liberal), estes
pensadores não tinham a visão crítica de Marx. Eles tinham diferenças em seus pontos de
vista pessoais: a Weber associa-se uma posição política ligada aos ideais da Democracia
Liberal, e Durkheim tinha posturas associadas à ideia de Democracia Social; mas ambos
tinham visão mais positiva das possibilidades da Sociedade Industrial Moderna. Assemelhavam-se então no fato de não compartilharem com Marx a visão da sociedade basicamente pelo aspecto dicotômico de uma luta de interesses de classe.
- Em relação ao Liberalismo, então, Weber considerava que este, a par de outras características da Modernidade, como o individualismo e o racionalismo/cientificismo, representariam maior eficiência da sociedade, em seu conjunto. Durkheim tinha sobre a questão
uma visão que possivelmente se localiza em algum ponto entre a visão crítica de Marx e a
visão mais otimista de Weber. A passagem de sociedades tradicionais para a industrial
moderna, com menor valorização de crenças morais e religiosas, poderia ser acompanhada de carência de novos valores capazes de manter a sociedade unida, e o Estado então
deveria ter mecanismos de atuação que mantivessem a coesão social, que evitassem a
“anomia”, a falta de perspectivas, de solidariedade social.
- Durkheim, em relação à opção entre o materialismo ou o idealismo filosófico, preferiu
investir na marcação de uma posição que ressaltava uma natureza sui gēneris, uma natureza própria e específica dos fenômenos sociais humanos, que ele definiu como “fatos sociais”. A característica típica dos fatos sociais estava relacionada à forma particular como
Durkheim os via e os definia. Se Marx com frequência ficou associado à ideia de determinismo econômico (explicação de fenômenos sociais a partir de condições econômicas),
alguns interpretadores da obra de Durkheim viram nela a origem do que chamaram de
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“sociologismo”, a tendência de enfatizar a determinação de ações dos indivíduos a partir
do fatores humanos coletivos, de acordo com “fatos sociais”, ligados à estrutura social
como um todo.
Durkheim definia fatos sociais de forma abstrata em relação a suas possíveis realizações particulares e individuais: “Aqui está uma ordem de fatos que apresentam características muito especiais: consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo e dotadas de poder coercitivo em virtude do qual se lhe impõem.”5 Para
ele uma forma coletivamente esperada de “agir, de pensar e de sentir” se impõe em sociedade quando se pode perceber que aqueles que não adotam esta forma de procedimento sofrem uma “sanção”, um castigo social. Estes procedimentos e estes castigos
podem ser materiais ou “ideológicos”, podem ser previstos em lei ou se resumir a uma
simples olhada crítica, uma reprimenda social “extraoficial”, e podem existir fatos sociais
inclusive conflitantes entre si, que dependem do grupo, da sociedade levada em conta. Por
exemplo, um homem “traído” pela parceira pode não reagir de modo violento, pensando
no fato social que a maioria da sociedade aceita, sobre “não matar”, ou, pensando na “sociedade” de seus conhecidos que poderão sancioná-lo com o rótulo de “corno manso”, ele
pode matar os envolvidos na “traição”...
Weber, por seu turno, recusou o materialismo de Marx, não para ficar com o
idealismo, nem para propor uma forma de “sociologismo”. Em vez de procurar observar
como modos coletivos de pensar, agir ou sentir “determinam” as ações particulares dos indivíduos, ele preferiu considerar a Sociologia como ciência voltada para a compreensão
das motivações que os indivíduos têm para suas ações em sociedade. Na busca destas
razões individuais para as “ações sociais”, ele considerava que existiriam fatores de toda
ordem: econômicos (interesse material), sim, mas também políticos (que ele não via como
simples consequência do interesse econômico) e ideológicos (crença em ideais e valores).
Weber não era materialista, não subordinava ao aspecto econômico os outros
fatores sociais, a dimensão ideológica e a política, mas tampouco era idealista, ou seja,
não pretendia apresentar ideias como causas únicas de fenômenos sociais. Ele preferia en5
. DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. Editora Martin Claret, São Paulo, 2001. Página 33.
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fatizar a possibilidades de relacionamento dialético destes fatores e, para a explicação de
uma situação social (por exemplo, a sociedade industrial, capitalista), ele propunha explicações baseadas em causas econômicas (que ele admitia serem as mais importantes 6),
mas também ideológicas, baseadas em crenças em valores. Devida ao seu método, que
partia da consideração das motivações dos indivíduos, para chegar à compreensão de fenômenos sociais, diz-se que ele adotou para a Sociologia um “individualismo metodológico”.
Em sua teoria, ele previu tipos ideais de ações, conforme a interpretação possível para o que leva o indivíduo a agir, conforme o significado que se possa associar à ação:
* Ações racionais, que se pautam por motivação racional;
* Ações afetivas, que se pautam por estados emocionais;
* Ações habituais, que se pautam por hábitos e costumes.
As ações racionais podem ser subdivididas conforme a razão almejada: se predominar como razão a ideia de atingir um fim determinado (eventualmente ignorando um
valor socialmente dominante), ela é dita “racional quanto aos fins”; se predominar como
razão a ideia de agir respeitando valores socialmente estabelecidos, ela é dita “racional
quanto a valores”. Você consegue pensar em exemplos “puros” de cada um destes tipos
ideais de ações?
Mais uma vez, se você chegou a este ponto da leitura com dificuldades, vamos a
um resumo que simplifique (talvez demais) algumas ideias:
- Para Marx estudar a Sociedade devia incluir interpretá-la e modificá-la. Este estudo deveria observar os fenômenos sociais a partir da visão da luta de interesses de
classe, basicamente duas classes: uma dominante (grandes proprietários de bens materiais) e uma dominada (trabalhadores que só possuíam sua força de trabalho). A
modificação da sociedade devia ser no sentido do cumprimento de um fim maior
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. Logo na introdução de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber admite: “Cada tentativa de explicação deve,
reconhecendo a importância fundamental do fator econômico, tomar em consideração acima de tudo as condições econômicas.
Mas ao mesmo tempo, não deixar de considerar a correlação oposta.”
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para o qual a humanidade deveria se encaminhar, a realização da sociedade humana
ideal, numa forma comunista, que unisse liberdade, igualdade e fraternidade.
- Para Weber a Sociologia deveria ser uma ciência com objetivos e métodos bastante
específicos, uma forma de conhecimento das sociedades baseada na compreensão das
razões dos indivíduos para suas ações em sociedade. Os que escrevem sobre “Ciências
Sociais” podem ter suas convicções e atuações políticas; mas, nos espaços acadêmicos
em que exercem sua vocação com o ideal de “cientistas”, deveriam evitar apresentar
apenas uma visão de sociedade como verdade privilegiada, e deveriam procurar adotar explicações para os fenômenos sociais baseadas em várias causas e teorias possíveis.
- Também para Durkheim a Sociologia devia marcar de forma bem distinta sua área
de estudo; mas, em vez de partir da observação dos indivíduos, ele propôs como objeto de estudo o conceito de fato social, específico do Sociólogo, que deveria estudá-lo
como “coisa”, ou seja, como objeto específico do ser humano em sociedade, objeto independente do observador, e anterior aos indivíduos que agem de acordo com ele. Ele
via na Sociologia uma possibilidade de engajamento, de aplicação em sociedade, mas
não na forma revolucionária como se vê em Marx, e sim como forma de conservar a
coesão da sociedade moderna, a seu ver semelhante a um organismo vivo, que podia
estar saudável ou doente, e mesmo se desintegrar, num estado de “anomia”.
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Ensino Médio – Sociologia – CMJF – 2012 – Prof Maj Gitirana