XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. TRANSPOSIÇÃO DIDÁTICA: ANALISANDO O SABER A SER ENSINADO DO CONTEÚDO DE TERMOQUÍMICA EM LIVROS DIDÁTICOS. Priscila do Nascimento Silva1, Flávia Cristiane Vieira da Silva2, José Euzébio Simões Neto 3 Introdução Dentre tantos objetivos que a escola possui, o principal é sistematizar o conhecimento, ou seja, transformar o saber científico (savoir savant - aquele produzido pelas academias e centros de pesquisa), em saber a ser ensinado (savoir à ensigner - aquele trabalhado nas escolas), de forma que possibilite a aprendizagem do aluno. O saber científico se transforma em saber a ser ensinado através de uma instituição invisível, denominada por Chevallard (1991) como noosfera. Brito Menezes (2006) afirma que, essa noosfera é composta por didatas, professores, pedagogos, técnicos de instituições do Governo que geram o ensino, pois são estes que organizam e produzem programas, livros didáticos e currículos, que possuem o papel de normatizar o que será ensinado. Diante disso, entendemos que o livro didático faz parte da primeira etapa da transposição didática externa, que “transporta” o saber científico a saber a ser ensinado, pois este é um instrumento regulador representante das instituições que geram o ensino (BRITO MENEZES, 2006). Segundo Chevallard (1991), durante o processo de transposição surgem modificações significativas na estrutura do saber, tais como deformações, supressões e criações didáticas. Essas ações são importantes para que ocorra a aprendizagem, mas, é necessário cuidado, pois algumas vezes, podem ser danosas ao estudante, por desfigurar o saber original, criando obstáculos à aprendizagem, neste caso a vigilância epistemológica torna-se essencial. O conteúdo escolar não pode ser concebido apenas como uma simplificação do saber científico, ele precisa ser um colaborador na abrangência do conhecimento científico, acompanhado de clareza e dados suficientes à compreensão correta dos conceitos científicos. O conteúdo de termoquímica tem uma grande importância no nosso cotidiano, pois vemos sua vasta aplicação nas indústrias, no comércio, nos centros de pesquisas militares (bombas, foguetes), nas siderúrgicas, além das várias fontes energéticas existentes que facilitam a vida. A abordagem desse saber deve ser realizada de maneira que essa importância e aplicabilidade seja evidenciada ao estudante. Por ser um conteúdo de grande exigência abstrata, devido à necessidade de entender, como a absorção ou liberação de energia em forma de calor (transformações endotérmicas e exotérmicas), a partir de reações químicas, a transposição didática na termoquímica apresenta várias dessas modificações, principalmente com relação a tipologias e nomenclaturas. Esta dificuldade na transposição, juntamente com a própria dificuldade de compreensão desses conceitos, no entendimento desses fenômenos. Muitas dificuldades são encontradas no ensino deste conteúdo no ensino médio. Tomando por base um livro de físico-química, utilizado na formação inicial de professores e pesquisadores: FísicoQuímica - Fundamentos, 2001, fizemos uma análise da transposição didática do conteúdo de termoquímica, observando de que forma os conceitos são abordados em livros didáticos. Material e métodos A. Material Foram escolhidos três livros didáticos de química do Ensino Médio de ampla aceitação no mercado (LD1, LD2 e LD3) e um livro de Ensino Superior (LD4) discriminados abaixo: Quadro 1: Livros do Ensino Médio Analisados na Pesquisa. Livro Didático Representação Ano de Publicação Discriminação Livro Didático 1 LD1 2007 Química, Volume Único – Sardella e Falcone. Editora Ática. Livro Didático 2 LD2 2010 Química na abordagem do cotidiano – Peruzzo e Canto. Editora Moderna. 1 Priscila do Nascimento Silva é Aluna Graduanda de Licenciatura Plena em Química, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Rua Dom Manoel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos - CEP: 52171-900 - Recife/PE. E-mail: [email protected] 2 Flávia Cristiane Vieira da Silva é doutoranda em Ensino das Ciências, Programa de Pós-Graduação em Ensino das Ciências, Universidade Federal Rural de Pernambuco. Rua Dom Manoel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos – CEP: 52171-900, Recife/PE. 3 José Euzébio Simões Neto é Professor Assistente da Unidade Acadêmica de Serra Talhada, Universidade Federal Rural de Pernambuco. Fazenda Saco, s/n, Caixa Postal 063 – Serra Talhada/PE. XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. Livro Didático 3 LD3 2010 Livro Didático 4 LD4 2001 Química Cidadã – PEQUIS - Wildson Santos e Gérson Mól (Coords.). Físico-Química – Fundamentos, Peter William Atkins, 3ª ed. Rio de Janeiro: LTC. B. Métodos O instrumento de pesquisa elaborado consistiu da análise comparativa do conteúdo de termoquímica nos livros de Ensino Médio e um livro de Ensino Superior. Fizemos uma leitura detalhada visando identificar deformações quanto à transposição didática externa, a saber: momentos de supressões, acréscimos e criações didáticas, que podem ajudar ou prejudicar (dependendo da maneira como estão dispostos) a construção do conhecimento por parte do alunado. Através da análise e comparação dos mesmos, será discutido sobre a maneira como os conteúdos de termoquímica são trabalhados no Ensino Superior e qual o tratamento desse mesmo conteúdo para os alunos de Ensino Médio, ou seja, discutiremos sobre como esse conhecimento chega aos alunos do nível médio. É importante ressaltar que a nossa metodologia se baseia em uma aproximação válida. Sabemos que livros do Ensino Superior são produtos de uma transposição didática, pois o saber se encontra didatizado, bem como nos livros do Ensino Médio. No entanto, esse processo de transposição é mais fiel ao saber científico em questão, validando o método comparativo sugerido em nossa metodologia. Resultados e Discussão A. Resultados A análise detalhada dos livros mostra as seguintes ocorrências na modificação do saber, da esfera científica até a escola: 1. Observamos uma preocupação nos livros de Ensino Médio em mostrar a aplicabilidade desses conceitos científicos no cotidiano dos alunos, pois temáticas como: As principais fontes de energia, alimentação com conteúdos calóricos, energia e ambiente explorando a combustão na queima de florestas, no gás de cozinha, na queima da vela. Fontes sustentáveis foram exploradas também nestes exemplares, mostrando o como a contextualização é importantíssima para uma melhor aprendizagem caracterizando um acréscimo a introdução do conteúdo. Trata-se de um acréscimo de contexto, pouco discutido em nível superior. 2. O livro LD3 se aproxima da proposta de LD4, pois inicia falando acerca de alguns princípios da termodinâmica que explica que esse princípio prevê a transferência térmica entre vizinhanças de um sistema. LD2 também fala sobre sistema e vizinhança, mas já inserido nas explicações das reações endotérmicas e exotérmicas. No entanto, só LD4 explica que a energia liberada do sistema para a vizinhança sai na forma de trabalho, caracterizando uma supressão. 3. A discussão sobre Energia Interna só foi abordada no Livro Referência (LD4), caracterizando uma supressão nas demais obras. 4. No Livro Referência (LD4), encontramos muitas deduções de fórmulas, justificando o motivo do seu uso, contudo as fórmulas mostradas em LD1, LD2 e LD3 vem sem essas deduções, o que entendemos que os alunos do Ensino Médio nunca saberão como surgiram tais fórmulas, restringindo seus conhecimentos apenas a um aprofundamento em química, ou através da intervenção do professor, se o mesmo o fizer no intuito de justificar tais usos. 5. LD3 é o único que aborda acerca da entropia (envolve a espontaneidade das transformações) além do Livro Referência (LD4). LD1 e LD2 sequer fazem menção sobre este importante assunto que explora a não necessidade de uma ação externa, e as desordens do sistema, e que a entropia é justamente a medida dessa desordem. A supressão desse conteúdo limita o conhecimento do aluno, pois o mesmo só se restringirá às situações não espontâneas. 6. A energia de Gibbs só foi abordada no Livro Referência (LD4), caracterizando supressão nas demais obras. B. Discussão O processo de transposição didática do conteúdo de termoquímica nos mostrou muitas Supressões, mais do que qualquer outra modificação no saber. Explicações elementares importantes que se deixadas de serem abordadas gerarão muitas dúvidas e incompreensões por parte dos alunos. O assunto de termoquímica é um tanto complexo, pois fala das transformações de absorção e liberação de calor que uma reação sofre para obter determinados produtos. São conceitos puramente abstratos que se tornam “concretos” através de alguns cálculos que nos dão as variações de determinadas energias liberadas ou absorvidas no sistema, as variações de entalpia. É necessário que alguns assuntos sejam abordados XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. pelos autores mesmo que de maneira informativa para não gerar limitações e restrições à aprendizagem, pois muitos alunos do Ensino Médio ainda veem o livro didático como a verdade absoluta e encontrar essas divergências de abordagens podem os deixar confusos durante o estudo de determinados conteúdos. É importante salientar que nosso objetivo era analisar o processo de Transposição Didática do conteúdo em questão, e não julgar o trabalho da noosfera, ou a qualidade dos Livros Didáticos analisados. Agradecimentos À Deus pela inspiração e sabedoria, e a todos que contribuíram direta e indiretamente na elaboração deste trabalho. Referências BRITO MENEZES, A. P. A.. Contrato Didático e Transposição Didática: Inter-relações entre os Fenômenos Didáticos na Iniciação à Álgebra na 6ª série do Ensino Fundamental. Recife, 2006. Tese (Doutorado em Educação). Centro de Educação, Universidade Federal de Pernambuco, 2006. CHEVALLARD, Y. La Transposición Didáctica. 3ª ed. Aique, Buenos Ayres, 1991.