UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA DEPARTAMENTO DE TECNOLOGIA ENGENHARIA CIVIL Sandra Santos Cunha PERSPECTIVA DE UTILIZAÇÃO DE MATERIAIS COMPÓSITOS COM FIBRAS VEGETAIS EM HABITAÇÕES DE INTERESSE SOCIAL FEIRA DE SANTANA – BAHIA 2007 SANDRA SANTOS CUNHA PERSPECTIVA DE UTILIZAÇÃO DE MATERIAIS COMPÓSITOS COM FIBRAS VEGETAIS EM HABITAÇÕES DE INTERESSE SOCIAL Monografia apresentada ao Departamento de Tecnologia da Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS, como requisito parcial para obtenção do grau de bacharel em Engenharia Civil. Orientador: Pofº Esp Carlos Antônio Alves Queirós Co-orientador: Profº Dr. Paulo Roberto L. Lima FEIRA DE SANTANA – BAHIA 2007 SANDRA SANTOS CUNHA PERSPECTIVA DE UTILIZAÇÃO DE MATERIAIS COMPÓSITOS COM FIBRAS VEGETAIS EM HABITAÇÕES DE INTERESSE SOCIAL Monografia submetida ao corpo docente do Departamento de Tecnologia da Universidade Estadual de Feira de Santana como parte dos requisitos necessários para aprovação na disciplina Projeto Final II. Feira de Santana, 08 de Outubro de 2007 Profº. Carlos Antônio Alves Queirós Orientador Profº. Dr. Paulo Roberto Lopes Lima Co - Orientador BANCA EXAMINADORA _________________________________________________ Esp. Carlos Antônio Alves Queirós ________________________________________________ Dr. Paulo Roberto Lopes Lima ________________________________________________ Msc. Antônio Freitas da Silva Filho Este trabalho é dedicado a maior de todas as heroínas e grande incentivadora de minha vida, minha mãe, Eunice Santos Cunha. AGRADECIMENTOS Agradeço inicialmente ao grande Arquiteto do Universo, Deus, por todas as bênçãos realizadas em minha vida, e pela força que fez continuar lutando até nos momentos mais difíceis desta caminhada. E a Nossa Senhora, por interceder sempre por mim junto a Deus. Aos meus pais, Jorge e Eunice, por todo apoio afetivo, financeiro e por estar sempre ao meu lado, principalmente nos momentos em que eu mais precisei. Além das orações que me fortificaram ao longo dessa jornada. Ao meu irmão Jorginho, por ser meu grande admirador e incentivador. Ao professor Paulo Roberto Lima, por ter me dado a primeira oportunidade de desenvolver um trabalho científico e por ter me dedicado seu tempo, idéias, materiais, enfim, tudo que foi necessário para o início e efetivação deste trabalho. Ao professor Carlos Alves, por aceitar meu convite para ser meu orientador, por todo apoio, atenção, idéias, tempo dedicado, enfim, muito obrigada pelo suporte necessário para conclusão deste trabalho. Aos meus amigos e colegas da UEFS, pela ajuda acadêmica e por compartilhar momentos difíceis e de extrema alegria, e que de alguma forma contribuíram de maneira significativa para elaboração e conclusão deste trabalho, especialmente para: Amiga Lú, Jonas, Mauro, Rafael Santos, Floildo, Jamerson, Julinho, Jorge e Geovan. Muito obrigada pelos momentos de grande descontração. A Jefferson Willes por acreditar sempre no meu potencial. "É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas a graça das graças é não desistir nunca." Dom Hélder Câmara RESUMO Este trabalho foi realizado com o objetivo de apresentar a perspectiva de utilização de materiais compósitos com fibras vegetais nos elementos construtivos para habitações de interesse social. A metodologia empregada foi baseada num levantamento bibliográfico sobre habitação, enfocando os seus principais problemas, além da definição de habitação de interesse social, assim como sua importância, função e sua relação com a estrutura social do Brasil. Além disso, realizou-se um estudo aprofundado sobre fibras vegetais, tendo como principais focos as fibras de sisal e de coco. Através da análise feita, tem-se, por objetivo, demonstrar que há a possibilidade de se empregar fibras vegetais nos elementos construtivos, tornando possível a utilização de um sistema construtivo consideravelmente barato, ordenado, versátil, racional e ecologicamente viável. A intenção é mostrar que pode ser realizada a fabricação de elementos construtivos como, telhas, elementos pré-moldados e modulares com adição de fibras vegetais, e que estes se apresentam como alternativa viável para a redução dos custos das construções de interesse social. Palavras chave: Habitação de interesse social; fibras vegetais; sistemas construtivos; déficit habitacional. ABSTRACT This work was accomplished with the purpose of presenting the perspective of employing composite materials with vegetable fibres inside the constructive elements for low cost housing. The methodology employed was based on a bibliographical research on habitation, focusing its main problems, in addition to the definition of low cost housing, as well as its importance, function and relation with brazilian social structrure. Additionally, a deep study on vegetable fibres was accomplished, which main focus was sisal and coconut fibres. Through this study it was focused as main objective the possibility of employing vegetables fibres to develop a constructive system considerably cheap, organized, versatile, rational and ecologically viable. The intention is to show that constructive elements, like roofing tiles or prefabricated and modular elements may be made with addition of vegetable fibres and that they present thenselves as a viable alternative for the reduction of costs at low cost constructions. Keywords: housing for low-income people; vegetable fibres; constructive system; housing deficit. SUMÁRIO 1. 1.1 1.2 1.3 1.4 1.5 1.6 LISTA DE FIGURAS LISTA DE TABELAS 10 11 INTRODUÇÃO 12 13 15 15 16 16 17 JUSTIFICATIVA PROBLEMATIZAÇÃO OBJETIVO HIPÓTESE METODOLOGIA ESTRUTURA DA MONOGRAFIA 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.1. HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 2.1.1. Definições 2.1.2. Importância e funções da habitação 2.1.3. Habitação e o desenvolvimento social 2.2. FIBRAS VEGETAIS 2.2.1. Introdução 2.2.2. Classificação das fibras vegetais 2.2.3. Microestrutura das fibras vegetais 2.2.4. Propriedades físicas e mecânicas das fibras vegetais 2.2.5. Propriedade mecânica dos compósitos reforçados com fibras vegetais 2.2.6. Durabilidade dos compósitos com fibras vegetais 2.2.7. Vantagens de se empregar as fibras vegetais 3. 18 18 18 19 20 22 22 22 23 24 27 28 31 APLICABILIDADE DAS FIBRAS VEGETAIS NOS ELEMENTOS CONSTRUTIVOS 34 3.1. TELHA ECOLÓGICA 3.2. PAINEL COM FIBRA DE SISAL 34 40 4. PROJETO: HABITAÇÃO COM FIBRA VEGETAL 4.1. ESPECIFICAÇÃO TÉCNICA DO SISTEMA CONSTRUTIVO 4.1.1. Painéis 4.1.2. Pilares 4.1.3. Telha Ecológica com fibra de sisal 4.2. ESPECIFICAÇÃO TÉCNICA DA UNIDADE HABITACIONAL 46 46 46 49 49 50 5. CUSTO DE PRODUÇÃO 5.1. TELHAS 5.2. PAINÉIS 53 53 55 6. CONCLUSÃO REFERÊNCIAS APÊNDICE 56 58 62 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Plantação de sisal 22 Figura 2 - Esquema de uma fibro-célula de sisal 25 Figura 3 - Durabilidade das fibras de (a) sisal e (b) coco submetidas a diferentes soluções alcalinas 30 Figura 4 - Moldagem das telhas 35 Figura 5 - Ensaio de flexão 35 Figura 6 - Ensaio de permeabilidade 36 Figura 7 - Bancada de envelhecimento 36 Figura 8 - Esteira 37 Figura 9 - Sistema de calandras 38 Figura 10 - Mantas moldadas e expostas ao tempo 38 Figura 11 - Corte das mantas moldadas 39 Figura 12 - Telha impermeabilizada e sem impermeabilização 39 Figura 13 - Configuração do ensaio de flexão 40 Figura 14 - Curva típica experimental tensão-deflexão para matriz e para laminados com reforço manufaturado 41 Figura 15 - Curva típica experimental tensão-deflexão para matriz e para laminados com reforço de sisal 41 Figura 16 - Desaguadouro 44 Figura 17 - Compósito obtido com mistura de papel usado e fibra de coco verde 44 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Valores de algumas propriedades físicas e mecânicas das fibras de sisal e coco 26 Tabela 2 - Comparativo das características físicas e mecânicas de algumas fibras 33 Tabela 3 - Resultados experimentais 42 Tabela 4 - Experimentos para obtenção de compósitos 43 Tabela 5 - Média dos resultados obtidos 45 Tabela 6 - Especificações dos painéis 47 Tabela 7 - Custo dos materiais das telhas 53 Tabela 8 - Comparativo de preços das telhas 54 Tabela 9 - Custo dos materiais dos painéis 55 1. INTRODUÇÃO Atualmente, evidenciamos que um dos grandes problemas sociais enfrentados por milhares de brasileiros está relacionado ao déficit habitacional. O Ministério das Cidades publicou o livro ―Déficit Habitacional no Brasil 2005‖, com base em dados da Fundação João Pinheiro, e a conclusão é que o Brasil apresentava um déficit habitacional de 7,9 milhões de moradias. Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (2000), mostram que este fenômeno está relacionado com o crescimento vegetativo da população, que é caracterizado pela falta de controle na taxa de natalidade da população carente e pela migração desordenada do homem do campo para os grandes centros urbanos, aumentando o número de moradores de rua e um crescente aumento de aglomerados subnormais (favelas). Além desses fatores temos as questões sociais como, o desemprego, a pobreza, a má distribuição de renda, falta de políticas públicas na área de habitação que atendam a demanda, falta de disponibilidade física e financeira de terrenos adequados para este fim, além dos custos elevados dos materiais de construção que indisponibiliza o acesso da população com baixo poder aquisitivo. O principal problema é que quando se tem um crescimento da população, fatalmente você precisa de mais habitações. O último censo demográfico, elaborado pelo IBGE, relativo ao ano 2000, mostrou que a população brasileira evoluiu 15,7% em relação ao censo anterior de 1991, passando de 146,8 milhões de habitantes para mais de 169 milhões de pessoas. No censo de 2000 o déficit habitacional brasileiro era 6,6 milhões, cresceu em mais de um milhão no ano de 2005 e foi para 7,9 milhões, segundo dados publicados pelo Ministério das Cidades no ano de 2005. Este déficit de 7,9 milhões de unidades é 86% constituído por pessoas com renda de até três salários mínimos. Os números nos levam a concluir que atualmente o principal problema do déficit habitacional não está apenas relacionado ao crescimento da população, e sim à falta de condições financeiras da população de baixa renda, que em sua grande maioria não tem condições de adquirir um imóvel de qualidade. Diante dos fatos citados observa-se que há a necessidade de buscar alternativas econômicas, simples e que requeiram baixo investimento. Neste sentido, vários pesquisadores vêm 12 desenvolvendo métodos alternativos que viabilizem a construção de habitações de interesse social com padrões adequados de conforto, segurança e que sejam economicamente viáveis. Por isso, este trabalho tem como finalidade propor como solução aos problemas apresentados, mostrar que há a perspectiva de utilização de compósitos com fibras vegetais nos elementos construtivos, como uma alternativa viável para a construção de habitações populares, fazendo com que seja possível a utilização de um sistema construtivo consideravelmente barato, ordenado, versátil e racional. A intenção é mostrar que se pode empregar telhas e elementos pré-moldados e modulares com fibras vegetais, e que estes se apresentam como alternativa viável para a redução dos gastos das construções de interesse social. 1.1- JUSTIFICATIVA O tema estudado neste trabalho refere-se à perspectiva de utilização de materiais compósitos com fibras vegetais no sistema de Habitação de Interesse Social (HIS). Este trabalho está inserido na temática ―materiais não convencionais para construção civil‖ com o foco de aplicabilidade nas habitações populares. A construção civil conheceu os componentes laminares (de seção fina), a partir do século XVIII, através de Ludwing Hatschek que produziu placas de cimento e asbesto. O aperfeiçoamento desse processo de fabricação, denominado Hatschek, fez com que o cimento amianto (cimento + fibras de asbesto) se tornasse o principal produto laminado utilizado na construção civil sob a forma de telhas, caixa d´água, painéis, etc. (LIMA 2004). Porém, o amianto ou asbesto pode causar doenças como a asbestose (o material se aloja nos pulmões, comprometendo a capacidade respiratória) e o câncer do pulmão. Por isso, seu uso foi proibido em 42 países, o que poderá ocorrer também no Brasil, onde há 13 projetos de lei federal e estadual nesse sentido (SAVASTANO 2002). Devido o banimento do asbesto, outras fibras têm sido testadas e novos processos de fabricação desenvolvidos para compensar o déficit de produtos laminares a base de cimento. As dificuldades em substituir a fibra de asbesto estão associadas às suas excelentes propriedades de resistência e à capacidade de reter finos do cimento. Além disso, o asbesto é quimicamente inerte, o que provê uma grande durabilidade quando exposto ao meio ambiente (LIMA 2004). 13 O Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CEPED), em Camaçari na Bahia, através do Programa Tecnologia do Habitat (THABA) desenvolve um trabalho com materiais alternativos para habitações de baixo custo desde a década de 70. Um dos primeiro trabalhos desenvolvidos pelo CEPED foi com solo estabilizado com cimento aplicado à construção de habitações de baixo custo, propondo assim, a utilização do solo-cimento compactado nas fundações, paredes monolíticas e contrapiso de uma habitação. O primeiro estudo sistemático das fibras naturais no Brasil foi apresentado pelo CEPED na década de 80. Pode-se destacar o trabalho desenvolvido por Suely Guimarães (GUIMARÃES 1984) onde algumas propriedades físico-mecânicas das fibras de sisal, coco, bambu, piaçava e bagaço de cana de açúcar foram estudadas, além de realizar misturas experimentais com sisal e fibra de coco com argamassa de cimento, avaliadas através de ensaios de flexão, compressão, absorção e peso específico. O termo déficit habitacional significa uma noção imediata da necessidade de construir moradias para solucionar os problemas sociais de habitações. A deficiência de residências e a inadequação dos domicílios que apresentam condições precárias de infra-estrutura refletem os problemas da qualidade de vida de seus moradores. No Brasil, um dos grandes problemas sociais enfrentados por milhares de brasileiros está relacionado à falta de moradias dignas e de qualidade, e esta preocupação é algo que vem desde a década de 30 quando o Estado passou a assumir a coordenação das ações pela redução do déficit habitacional junto às camadas populacionais de baixa renda. A sucessão de políticas habitacionais desde então apresenta grande variação nas estratégias adotadas, com diferentes graus de eficácia. Visualizamos isto se fizermos uma retrospectiva da habitação popular que vai das ações descentralizadas dos anos 30 e 40, passando pelo centralismo e massificação da produção do Banco Nacional de Habitação (BNH) nos anos 60 e 70, chegando as condições atuais onde as soluções arquitetônicas da habitação de interesse social obedecem aos contextos socioeconômicos e tecnológicos em que são aplicadas ( FARAH 1996:1998 apud LARCHER 2005). Atualmente, observa-se um grande interesse no desenvolvimento de pesquisas voltadas para habitações de interesse social com a implementação de tecnologias alternativas que visem um desenvolvimento ambiental, mostrando novos conceitos com qualidade, sustentabilidade, 14 desempenho e redução dos custos operacionais e de aquisição, que significam um novo patamar de desenvolvimento e eficácia para o sistema habitacional em geral. O presente trabalho pretende mostrar que há a perspectiva de se utilizar fibras vegetais nos elementos construtivos das habitações populares, como uma alternativa viável a ser empregada, aproveitando todo o conhecimento já publicado a cerca do tema, tendo o intuito de auxiliar na solução de um dos problemas mais evidente nas famílias de baixa renda brasileira. 1.2- PROBLEMATIZAÇÃO A principal pergunta que define a problematização deste trabalho é: ―Existe uma forma de empregar materiais alternativos, como as fibras vegetais, nos elementos construtivos das Habitações de Interesse Social?‖ 1.3- OBJETIVOS 1.3-1. Objetivo Geral Este trabalho se propõe a mostrar que o emprego de fibras vegetais na confecção de elementos construtivos para construção civil, é uma alternativa viável e de grande potencialidade a serem empregados em habitações de interesse social. 1.3-2. Objetivos Específicos Apresentar uma solução de habitação popular, que seja economicamente viável e que possa empregar de forma racional e mecanizada, os materiais e as técnicas construtivas; Mostrar que o emprego de fibras vegetais nas habitações populares pode ser uma maneira de se obter a redução do custo final da obra. Mostrar que o emprego de compósito com fibra vegetal, na construção civil, apresenta-se não apenas como uma solução tecnológica de cunho social, mas também de cunho ambiental. 15 1.4- HIPÓTESE Este trabalho está limitado em realizar um levantamento bibliográfico a respeito do tema e mostrar uma alternativa hipotética em cima do que está sendo estudado, ou seja, mostrar de forma teórica que os compósitos com fibras vegetais podem ser empregados nos elementos construtivos do sistema HIS. O termo, alternativa hipotética, está sendo empregado, pois não foi realizado, para elaboração deste trabalho, nenhum ensaio prático com os componentes construtivos mencionadas ao longo do trabalho. Por isso, o propósito deste estudo foi o aprofundamento e o entendimento do assunto em discussão, tendo como principal limitação a falta de resultados práticos para a aplicabilidade da alternativa mencionada. Em caso de componentes esbeltos ou em aplicações onde a massa específica tenha que ser levada em consideração, como os painéis, telhas e divisórias, o reforço tem que ser feito com material compatível, em dimensão e massa, com a aplicação desejada. As fibras surgem então como uma alternativa tecnicamente recomendável e viável. Por este motivo, as fibras vêm sendo bastante difundidas e tornou-se um campo de pesquisa em extensão em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde existem diversas pesquisas que visam o desenvolvimento de componentes com o emprego de fibras. 1.5- METODOLOGIA A metodologia de trabalho empregada foi baseada na revisão de diversos acervos literários a respeito dos dois subtemas embutidos no tema geral, que é a habitação de caráter social e os compósitos com fibras vegetais. E assim, realizou-se uma junção entre os assuntos analisados, e buscou-se mostrar que há a possibilidade de se empregar os compósitos com fibras vegetais em elementos construtivos, como painéis e telhas. 16 1.6- ESTRUTURAÇÃO DA MONOGRAFIA No presente capítulo, é apresentada a estrutura que fundamenta a monografia, assim como os principais motivos e argumentos para seu desenvolvimento: a justificativa, problematização, objetivo geral e específico, hipótese de pesquisa, a metodologia empregada e a estruturação da monografia. Capítulo 2: Desenvolvimento da Revisão Bibliográfica. Sendo dividido em duas partes: A primeira apresenta as definições sobre habitação de interesse social, assim como sua importância, função e sua relação com a estrutura social do Brasil. Neste capítulo também serão mostrados os tipos mais usuais de construções do sistema construtivo de HIS. A segunda parte, trata da definição de materiais compósitos e mostra as características das fibras vegetais, dentre elas: classificação, propriedades físicas e mecânicas das fibras, propriedade mecânica dos compósitos reforçados com fibras vegetais, durabilidade dos compósitos reforçados com fibras naturais e vantagem de se utilizar as fibras vegetais. Capítulo 3: Demonstra a perspectiva de aplicabilidade das fibras vegetais nos elementos construtivos. Neste capítulo será mostrado o emprego de fibras de sisal em telhas e painéis como elemento construtivo. Capítulo 4: Este capítulo mostra as especificações técnicas do sistema construtivo e da habitação sugerida neste trabalho. Capítulo 5: Trata do custo de produção das telhas e painéis com fibras vegetais. Capítulo 6: Conclusão sobre o que foi pesquisado para elaboração deste trabalho e do que foi realizado. 17 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.1. HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 2.1.1. Definições A palavra habitação, em qualquer dicionário, refere-se ao ato ou efeito de habitar, casa, moradia, residência. Porém, para os estudiosos da questão, a definição de habitação não se resume única e exclusivamente a um lugar em que se habita, existem outras definições muito mais aprofundadas no assunto, dentre elas pode-se destacar os seguintes conceitos: A habitação é um bem de consumo de características únicas, sendo um produto potencialmente muito durável onde muito freqüentemente são observados tempos de vida útil superior a 50 anos (ORNSTEIN, 1992; WORLD BANK, 2002;). Por ser um produto caro, as classes menos privilegiadas constituem a maior demanda imediata por habitação, no Brasil (Fundação João Pinheiro, 2001). O termo Habitação de Interesse Social define uma série de soluções de moradia voltada à população de baixa renda. O termo tem prevalecido nos estudos sobre gestão habitacional e vem sendo utilizado por várias instituições e agências, ao lado de outros equivalentes, como apresentado abaixo (ABIKO, 1995): - Habitação de Baixo Custo (low-cost housing): termo utilizado para designar habitação barata sem que isto signifique necessariamente habitação para população de baixa renda; - Habitação para População de Baixa Renda (housing for low-income people): é um termo mais adequado que o anterior, tendo a mesma conotação que habitação de interesse social; estes termos trazem, no entanto a necessidade de se definir a renda máxima das famílias e indivíduos situados nesta faixa de atendimento; - Habitação Popular: termo genérico envolvendo todas as soluções destinadas ao atendimento de necessidades habitacionais. 18 A repercussão do problema da habitação de interesse social vai além da simples construção da mesma. Sua solução está ligada a fatores como a estrutura de renda das classes sociais mais pobres, dificuldades de acesso aos financiamentos concedidos pelos programas oficiais e a deficiências na implantação das políticas habitacionais (BRANDÃO, 1984). Depende, também, da vontade coletiva de toda uma comunidade, ciclo de vida da família, cultura, história, entre outros fatores (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 2004). Na conceituação das abordagens da gestão habitacional, Abiko (1995) defende que ―a habitação popular não deve ser entendida meramente como um produto e sim como um processo, com uma dimensão física, mas também como resultado de um processo complexo de produção com determinantes políticos, sociais, econômicos, jurídicos, ecológicos, tecnológicos‖. Neste conceito, o autor propõe que a habitação não se restringe apenas à unidade habitacional, para cumprir suas funções. O ―Interesse Social‖ como terminologia na habitação no Brasil já era utilizada nos programas para faixas de menor renda do extinto Banco Nacional da habitação (BNH) (ABIKO 1995). Como diretriz de políticas públicas, segundo Bonduki et al. (2003), a Constituição Federal de 1988 previa o princípio da função social do uso do solo urbano. Sob este princípio, o conceito de Interesse Social é constitucionalmente incorporado às políticas habitacionais para os setores de população de baixa renda. 2.1.2. Importância e função da habitação Desde os primórdios verifica-se que a função principal da habitação é a de abrigo. Com o desenvolvimento de suas habilidades, o homem passou a utilizar materiais disponíveis em seu meio, tornando o abrigo cada vez mais elaborado. Mesmo com toda a evolução tecnológica, sua função primordial tem permanecido a mesma, ou seja, proteger o ser humano das intempéries e de intrusos. Segundo Rapoport (1984), como obra arquitetônica, a função de abrigar não é sua única nem a principal função da habitação. O autor observa que a variedade observada nas formas de construção, num mesmo local ou sociedade, denota uma importante característica humana: transmitir significados e traduzir as aspirações de diferenciação e territorialidade dos habitantes em relação a vizinhos e pessoas de fora de seu grupo. 19 Santos (1999), afirma que a habitação é uma necessidade básica e uma aspiração do ser humano. A casa própria, juntamente com a alimentação e o vestuário é o principal investimento para a constituição de um patrimônio, além de ligar-se, subjetivamente, ao sucesso econômico e a uma posição social mais elevada (BOLAFI 1977). Junqueira e Vita (2002), observam que a aquisição da habitação faz parte do conjunto de aspirações principais de uma parcela significativa da população brasileira, embora venha perdendo importância relativa, ao longo dos anos, para a educação, saúde e previdência privada. Esta perda de importância relativa não foi devido à realização da aspiração da moradia pela população, mas, em grande parte, devido à deficiência crescente destes serviços públicos. Segundo Fernandes (2003), a habitação desempenha três funções diversas: social, ambiental e econômica. Como função social, tem de abrigar a família e é um dos fatores do seu desenvolvimento. Segundo Abiko (1995), a habitação passa a ser o espaço ocupado antes e após as jornadas de trabalho, acomodando as tarefas primárias de alimentação, descanso, atividades fisiológicas e convívio social. Assim, entende-se que a habitação deve atender os princípios básicos de habitabilidade, segurança e salubridade. 2.1.3. Habitação e o desenvolvimento social Os indicadores sociais, juntamente com aspectos sobre o comportamento demográfico brasileiro são importantes para o estudo da expansão da habitação de interesse social, pois sua evolução provoca mudanças consideráveis nos requisitos dos usuários de habitações, exigindo flexibilidade e adaptabilidade dos ambientes construídos (ANTAC, 2002; TRAMONTANO, 1993). Entre os vários fatores que têm influenciado as outras mudanças dos modos de vida, destacase como tendência global os novos hábitos de consumo, maior tempo gasto em lazer, em função da redução gradual da jornada de trabalho e do aumento do poder aquisitivo; a individualização do modo de vida e o aumento do nível educacional. No Brasil, entretanto, 20 tais fatores provavelmente não se desenvolverão na velocidade observada em países desenvolvidos, sobretudo entre as faixas populacionais de baixa renda (ANTAC, 2002). Os indicadores necessários à compreensão das necessidades habitacionais estão contidos na metodologia conhecida como Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O IDH é um índice sintético composto por quatro indicadores que medem o desempenho médio dos países em três dimensões do desenvolvimento humano. Do ranking de 2004 do IDH, fazem parte 175 países. Os países com IDH até 0,499 têm desenvolvimento humano considerado baixo, os países com índices entre 0,500 e 0,799 são considerados de médio desenvolvimento humano e países com IDH superior a 0,800 têm desenvolvimento humano considerado alto (PNUD, 2004). O Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2004 atribui ao Brasil um IDH de valor 0,775, o que coloca o país na 72ª colocação entre 177 territórios. Esse resultado mantém o Brasil na parte superior do grupo dos países com desenvolvimento humano médio (0,500 a 0,800). O IDH não apresenta dados sobre habitação em sua metodologia, porém, permite um perfil bastante aproximado da qualidade de vida das populações, onde a disponibilidade de um habitat de qualidade certamente faz parte do seu desenvolvimento. 21 2.2. FIBRAS VEGETAIS 2.2.1. Introdução Entre a diversidade de fibras existentes, as vegetais têm sido muito estudadas, principalmente para reforço de componentes para construções de interesse social, em virtude do seu baixo custo, ao serem empregadas na própria região de origem, ou como rejeitos de outras aplicações (SAVASTANO apud TONOLI 2006). Por outro lado, o desempenho delas tem mostrado algumas deficiências quando adicionadas a matrizes cimentícias, fato que é evidenciado devido a necessidade de aderência com a matriz e melhoria da durabilidade em presença de meio alcalino e de umidade. O estudo da estrutura da interface fibra-matriz tem importante papel no desenvolvimento dos compósitos fibrosos, para que o seu comportamento mecânico se torne desejável. A fibra idealizada neste projeto como reforço da matriz é a fibra de sisal. Isto porque o sisal (Agave Sisalana) apresenta boas propriedades físicas e mecânicas, custo relativamente baixo, disponibilidade na região do semi-árido baiano, é biodegradável e pode ser colhido durante todo o ano. Atualmente o Brasil é o maior exportador de sisal do mundo e o Estado da Bahia contribui com 80% do total de exportação. A figura 1 mostra a imagem de uma plantação de sisal. Figura 1: Plantação de sisal Fonte: [8] 22 2.2.2. Classificação das fibras vegetais As fibras se dividem em naturais e artificiais, sendo a primeira o objeto de estudo deste trabalho. As fibras naturais, por sua vez, estão subdivididas em vegetais, animais e minerais. A fibra vegetal é o foco principal deste trabalho. Segundo TOLEDO FILHO (1997), podem ser classificadas em quatro classes: As originárias das folhas: Têm origem nas plantas monocotiledônea. As fibras ocorrem em feixes com extremidades sobrepostas de tal forma que produzem filamentos contínuos através do comprimento da folha. Elas são ligadas umas as outras por lignina e sua função é conferir resistência à folha e dar suporte aos vasos de condução de água do vegetal. Pode-se citar como exemplo, as fibras de: sisal, palma, banana e caroá. As originárias do talo ou tronco: Têm origem em plantas dicotiledôneas. Essas fibras ocorrem no floema, que fica na entrecasca do talo. Os feixes de fibras são unidos entre si e mantidos no lugar pelo tecido celular do floema e pelas substâncias gomosas e graxas. As fibras podem ser obtidas colocando-se os talos em tanques de água quente ou deixando-os espalhados no chão para permitir que a ação das bactérias dissolva o material que envolve as fibras. Depois realiza-se a secagem das fibras. Pode-se citar como exemplo, as fibras de: juta, rami, linho e piaçava. As originárias do lenho ou da madeira: São fibras relativamente curtas, grossas e inflexíveis. Pode-se citar como exemplo, as fibras de bambu e as de cana de açúcar. O processamento das fibras de bambu envolve o esmagamento da planta com rolos projetados especificamente para este fim. As fibras de cana de açúcar passam por um tratamento de fervura para retirar o açúcar residual. As fibras de superfície: Formam uma camada protetora de caules, folhas, frutos e sementes de plantas, como, por exemplo, coco e algodão. 2.2.3. Microestrutura das fibras vegetais As fibras naturais de origem vegetal podem ser diferentes em sua aparência física, entretanto, possuem particularidades que as identificam com uma família. As características e o 23 comportamento das fibras dependem das propriedades dos seus constituintes individuais, da estrutura fibrilar e da matriz lamelar. As fibras naturais são compostas de numerosas fibrocélulas alongadas fusiformes que são unidas pelas lamelas médias as quais são constituídas de lignina, hemicelulose e pectina. Fisicamente cada fibro-célula é constituída de quatro partes: a parede primária, a parede secundária, a parede terciária e o lúmen. A figura 1 mostra, esquematicamente, a fibro-célula da fibra de sisal. Para uma melhor compreensão das propriedades mecânicas e durabilidade das fibras, os componentes estruturais das fibras (celulose, hemicelulose e lignina) devem ser estudados e analisados previamente. Celulose é um polímero derivado da glicose: -D-glicopiranose. De acordo com Gram (GRAM apud TOLEDO FILHO 1997) o grau de polimerização da fibra de sisal é de cerca de 25000. Nessa área cristalina da fibra, a penetração de outras moléculas, tais como as de água ou de outros produtos químicos, é difícil e ela apresenta boa resistência aos álcalis. A hemicelulose também é um polímero de açúcares (como a galactose e manose) raramente, ou nunca, cristalino. Apresenta baixo grau de polimerização e são solúveis em álcalis. A hemicelulose está presente principalmente na parede primária e seu grau de polimerização para fibra de sisal varia de 50 a 200 (GRAM apud TOLEDO FILHO 1997). A lignina é uma substância aromática cuja estrutura ainda não foi completamente demonstrada, ela pode ser dissolvida ou lixiviada em meios alcalinos. Cerca de 25% do total de lignina está localizada nas lamelas intermediárias. Considerando-se que as lamelas intermediárias são muito finas, a concentração de lignina é conseqüentemente alta (cerca de 70%) (GRAM apud TOLEDO FILHO 1997). 24 Figura 2: Esquema de uma fibro-célula de sisal Fonte: GRAM apud TOLEDO FILHO (1997) 2.2.4. Propriedades físicas e mecânicas das fibras vegetais A utilização das fibras vegetais em compósitos para a construção civil pode ser de grande interesse para os países em desenvolvimento e seria capaz de contribuir para o crescimento de suas infra-estruturas (SAVASTANO 2000). Ao analisarmos as propriedades físicas e mecânicas de algumas fibras vegetais como sisal, coco, juta, bambu, dentre outros, publicadas por pesquisadores de diversos países verifica-se uma larga faixa de valores, isto porque, tais propriedades dependem da idade da planta, do local de cultivo, das condições climáticas e da microestrutura das fibras. Outro fator é que não existe uma metodologia mundialmente estabelecida a ser seguida pelos pesquisadores. Os dados obtidos para a elaboração da tabela 1 foram retirados do livro do Simpósio sobre ―Materiais não convencionais para construções rurais‖ (TOLEDO FILHO 1997), e mostram faixas de valores publicadas por alguns pesquisadores das seguintes propriedades: diâmetro, comprimento, peso específico, teor de umidade natural, absorção de água, resistência a tração, módulo de elasticidade e deformação de ruptura das fibras. Esta tabela foi colocada neste trabalho com o intuito de mostrar esta variação de valores de pesquisador para pesquisador, para isso, pegou-se apenas as fibras de sisal e coco para fazer esta comparação. 25 26 2.2.5. Propriedades mecânicas dos compósitos reforçados com fibras vegetais Resistência à compressão Segundo TOLEDO FILHO (1997), a adição de fibras naturais em matrizes cimentícias como o concreto, reduz sua resistência à compressão em cerca de 10% a 30% dependendo do tipo, comprimento e fração volumétrica de fibra, bem como do tipo e traço da matriz. O módulo de elasticidade da matriz é ligeiramente reduzido e o coeficiente de Poisson não apresenta variações significantes. Entretanto, a vantagem de se empregar fibras a matriz é que as fibras confinam o material e, portanto, retardam a propagação da primeira fissura, aumentando a tenacidade pós-carga de pico. Resistência à tração Sabe-se que as matrizes cimentícias apresentam um comportamento frágil quando submetidas à tração, sendo essa uma das razões que motivou o surgimento dos materiais compósitos, onde as fibras são adicionadas para resistir aos esforços de tração, aos quais a maioria dos elementos estruturais estão submetidos direta ou indiretamente. A influência da fibra sobre o comportamento a tração depende de vários parâmetro como o tipo de fibra, comprimento, diâmetro, teor de fibra incorporado e forma de distribuição na matriz. A finalidade de se empregar as fibras é garantir a manutenção da resistência mesmo após a fissuração da matriz, permitindo uma maior deformação do compósito antes da ruptura, e propiciando resistência ao impacto e tenacidade maiores que o da matriz. (LIMA 2004). Resistência à flexão A maioria das aplicações de materiais compósitos em matrizes cimentícias estão sujeitas a carga de flexão. Através dos estudos realizados por TOLEDO FILHO (1997) para argamassas reforçadas com fibras de sisal, pode-se verificar que, os compósitos apresentam um comportamento quase que perfeitamente elástico até o surgimento da primeira fissura. Após fissurar, a capacidade de suportar carga é instantaneamente reduzida e então pode aumentar ou decrescer dependendo do comprimento, volume e arranjo de fibras. Para compósitos reforçados com fibras muito curtas ou com pequena fração volumétrica, após a primeira 27 fissura o mesmo perde a capacidade de resistir aos esforços. Para efeito de projeto, o módulo de ruptura do compósito será então o limite elástico da argamassa. A presença da fibra muda o modo de ruptura do material (a ruptura não é instantânea como observada para a matriz) e aumenta a sua capacidade de absorver energia. Para compósitos reforçados com fibras longas (ou curtas numa combinação ótima de fração volumétrica e comprimento), a carga máxima pode quase que triplicar a carga de primeira fissura. As curvas carga-deslocamento dos compósitos reforçados com fibras naturais podem, ser divididas em duas partes: a) zona elástica até a primeira fissura e b) zona inelástica até a fratura. Na zona elástica considera-se que apenas a matriz suporta a carga. Como o módulo de elasticidade das fibras naturais é baixo comparado com o da matriz, elas não são eficientes para prevenir a fissuração. Na zona inelástica, apenas as fibras suportam as tensões trativas (como no caso do concreto armado). No caso dos compósitos reforçados com fibras longas, essa região pode ser subdividida em três partes: (a) região onde a carga é transmitida da matriz para as fibras (caracterizada pela redução da carga após a primeira fissura), (b) região onde as fibras suportam as forças de tração a aumentam a capacidade de carga do material (trecho ascendente da curva carga-deslocamento) e (c) a região onde a capacidade de suportar carga do compósito decresce devido a ruptura ou deslizamento das fibras até a fratura do material (trecho descendente da curva carga-deslocamento). Compósitos com fibras curtas ou pequeno volume de fibras não apresentam a região (b). 2.2.6. Durabilidade dos compósitos com fibras vegetais A durabilidade pode ser definida como a capacidade que um produto possui de manter suas condições de serviço durante o tempo, para o qual foi projetado e construído. Pode ser avaliada pelo seu tempo de vida em anos ou pela sua resistência a agentes que afetem seu desempenho. Vida útil é o período de tempo que um material, componente construtivo ou edificação, mantém seu desempenho acima dos níveis aceitáveis. Degradação é o processo no qual um material sofre transformações irreversíveis que implicam perda de qualidade ou valor. Agentes ou fatores de degradação são ações físicas, químicas, ambientais ou biológicas que causam degradação do material. Mecanismos de degradação são as formas como os 28 agentes causam uma seqüência de mudanças físicas e/ou químicas que levam a perda nas propriedades esperadas do material. A durabilidade das fibras vegetais é considerada, por diversos autores, como sendo o problema mais crítico dentre aqueles apresentados pelos materiais compósitos que podem perder resistência e tenacidade com o tempo. Segundo RILEM apud MESA 2004, pesquisas conjuntas, de uma maneira clara e concisa, são necessárias em estudos de durabilidade, e destaca como critérios de uma metodologia sistemática para estes estudos, a necessidade de serem genéricos e aplicáveis a um amplo número de materiais e compósitos, permitindo, ainda, a identificação dos fatores de degradação. Segundo esta mesma fonte, os ensaios de durabilidade devem incluir a exposição dos corposde-prova às condições de laboratório ou de campo, para acompanhamento das mudanças que possam ocorrer durante sua vida útil, e os métodos de ensaio de durabilidade devem contemplar os seguintes quesitos: Definição dos requerimentos de desempenho do elemento; Caracterização dos materiais e componentes, para entendimentos dos mecanismos de degradação; Identificação dos possíveis mecanismos de degradação; Definição das condições às quais estarão expostos os materiais ou componentes; No caso de serem utilizados ensaios acelerados, a confirmação de que os mecanismos de degradação induzida estão corretos; Desenvolvimento de modelo matemático descrevendo o processo de degradação na predição da vida útil. As fibras naturais podem sofrer vários graus de degradação quando expostas a ambientes alcalinos. A intensidade do ataque, determinado pela perda de resistência da fibra, depende do tipo de fibra e do tipo de solução alcalina. A figura 3 (a) e (b) mostra os resultados de um estudo elaborado por TOLEDO FILHO (1997), onde ele analisa o efeito da alcalinidade do meio na resistência à tração das fibras de sisal e coco com o tempo. As fibras foram submetidas aos seguintes ambientes por 420 dias: 29 Tratamento 1 : fibras imersas em água de torneira de pH 8.3; Tratamento 2: fibras imersas em uma solução de hidróxido de cálcio de pH 12; Tratamento 3: fibras imersas em uma solução de hidróxido de sódio de pH 11. (a) (b) Figura 3: Durabilidade das fibras de (a) sisal e (b) coco submetidas a diferentes soluções alcalinas Fonte: TOLEDO FILHO (1997). 30 Uma significante redução na resistência das fibras de sisal e coco pode ser notada para as fibras condicionadas em solução de hidróxido de cálcio. Após 300 dias de imersão, as fibras, quando secas, perderam completamente sua flexibilidade. GRAM (GRAM 1983 apud TOLEDO FILHO 1997) estudou várias formas para melhorar a durabilidade dos compósitos reforçados com fibras naturais, sendo elas: a) Proteção superficial das fibras, com silicato de sódio, sulfito de sódio, sulfato de magnésio, agentes repelentes de água, ácido esteárico e ―formine‖. Somente os dois últimos tratamentos impediram a fibra de ser mineralizada; b) Redução da alcalinidade da matriz, empregando-se cimento de alumina ou substituindo o cimento Portland por microsílica, escória de alto-forno e pozolanas naturais; c) Selar os poros da matriz, adicionando-se cera ou estearato de zinco em pó à mistura fresca ou impregnar o produto endurecido com enxofre; d) Combinação das alternativas acima. O emprego de pozolana natural, como a metacaulinita, também é uma alternativa que vem sendo empregada para reduzir a alcalinidade da matriz e tem trazido resultados bastante satisfatórios. Isto porque a metacaulinita promove à matriz acréscimo de resistência à compressão, acréscimo da resistência química, reduz o pH e reduz a permeabilidade da matriz. 2.2.7. Vantagem de se empregar as fibras vegetais Atualmente, fala-se muito em sustentabilidade que é um conceito ligado à preocupação crescente em todo o mundo, em vista da escassez de recursos naturais e de energia, geração de resíduos sólidos e emissão de gases. Existe substancial conhecimento de materiais e técnicas que envolvem construção de terra, plantas vegetais e cimento alternativo, e que poderia ser aplicado em construções não convencionais. Entretanto, as especificações de norma são demasiadamente centradas em materiais modernos e, em diversos casos, difíceis de serem observadas em situações específicas de obras rurais ou de habitações para atendimento de necessidades sociais urgentes (PLESSIS 2001). 31 Fibras naturais, como reforço de matrizes frágeis à base de materiais cimentícios, têm despertado grande interesse nos países em desenvolvimento, por causa de seu baixo custo, disponibilidade, economia de energia e também no que se refere às questões ambientais. Os telhados de fibrocimento constituem a solução de cobertura mais barata para habitações de interesse social, instalações rurais, galpões industriais e obras de infra-estrutura, em comparação a diversos sistemas disponíveis no país com outros tipos de telha (ex.: cerâmicas, aço galvanizado, alumínio). Segundo dados da Associação Brasileira das Industrias e Distribuidores de Produtos de Fibrocimento (ABIFibro), as indústrias brasileiras de produtos de fibrocimento geram cerca de 10 mil empregos diretos e 200 mil empregos indiretos. Por isso, a solução é substituir o fibrocimento do mercado apresentando soluções alternativas como as fibras vegetais, que não representam qualquer risco à saúde humana, ao longo das diversas etapas do ciclo de vida do material, desde a obtenção da fibra, produção do fibrocimento vegetal, instalação, uso, até a demolição da construção, se for o caso. Outra questão de grande preocupação está relacionada aos impactos ambientais gerados pelos resíduos lançados na natureza. Mais um motivo que nos leva a destacar as fibras celulósicas que advêm de fonte renovável e são obtidas a partir de madeira de reflorestamento ou de plantas fibrosas abundantes em regiões de clima tropical. A substituição do amianto na fabricação de compósitos por fibras que não apresentam risco à saúde ocupacional é também um benefício de suma importância. A tabela 2 mostra um comparativo das características físicas e mecânicas das fibras vegetais, de celulose, amianto e polipropileno. 32 Tabela 2: Comparativo das características físicas e mecânicas de algumas fibras. PROPRIEDADES Massa Absorção Alongamento Resistência Módulo de específica máxima na ruptura à tração elasticidade (kg/m³) (%) (%) (MPa) (GPa) Coco 1177 93,8 23,9 a 51,4 95 a 118 2,8 Sisal 1370 110,0 4,9 a 5,4 347 a 378 15,2 Malva 1409 182,2 5,2 160 17,4 Amianto 2200-2600 - 2 560 a 750 164 Polipropileno 913 - 22,3 a 26 250 2,0 Celulose 1609 643 - 700 10-40 Fonte: SILVA (2002) A análise da tabela 2 permite concluir que, apesar da variabilidade nas características das fibras, seu uso como reforço pode melhorar as propriedades dos compósitos a base de cimento. As fibras vegetais são fibras de baixo módulo de elasticidade e elevada resistência à tração. Seu emprego como reforço proporciona às matrizes cimentícias maior resistência ao impacto, causada por maior absorção de energia, possibilidade de trabalho no estágio pós fissurado e um aumento na capacidade de isolamento termo-acústico. 33 3. APLICAÇÃO DAS FIBRAS VEGETAIS NOS ELEMENTOS CONSTRUTIVOS Neste capítulo serão mostrados exemplos de materiais à base de cimento reforçados com fibras vegetais, produzidos por pesquisadores que procuram meios de processos de baixo custo e com potencial para construções destinadas a áreas de interesse social. As principais frentes de pesquisa envolvem a seleção das fibras e sua adequação ao cimento, a determinação das propriedades mecânicas, físicas, químicas e microestruturais do novo material, além de estudos de envelhecimento para avaliação da durabilidade. São diversas as aplicações das fibras vegetais nos elementos voltados para a construção civil, mas, neste trabalho mostraremos apenas alguns tipos de aplicações como, telhas, painéis, blocos. 3.1. TELHA ECOLÓGICA Na fabricação de telhas podem-se destacar as pesquisas lideradas por SAVASTANO (2002), da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP, que desde 1992, realiza o projeto denominado Sistemas de Cobertura para Construção de Baixo Custo. Este projeto vem desenvolvendo telhas denominadas de fibrocimento vegetal e submetendo-as a diversos testes para comprovar sua eficiência. Os testes realizados são os mecânicos de tração e testes físicos de permeabilidade, densidade e absorção de água. Durante a fase de testes Savastano produziu telhas de 50 centímetros de comprimento por 25 centímetro de largura, formato semelhante às produzidas em escala comercial conhecidas em alguns locais como telhas romanas. Os resultados dos ensaios revelaram algumas vantagens dessas telhas em relação às de amianto. Uma delas é sua maior capacidade de isolamento térmico. Em um dos testes térmico realizado pela equipe de Holmer Savastano foi observado que a temperatura ficou 6 graus mais baixa embaixo de uma cobertura de 160 m² feita com telhas de fibrocimento vegetal do que de outra feita com telhas de amianto. Além disso, o produto apresenta-se mais leve e dura tanto quanto o amianto. Além de não oferece riscos à saúde. O principal objetivo deste projeto é oferecer um material compatível com a construção 34 para a população de baixa renda. Este tipo de produção requer técnicas apropriadas e um rigoroso controle da qualidade, por se tratar de uma mistura de fases distintas — fibra natural em cimento — que podem apresentar incompatibilidade entre si, e perda das propriedades mecânicas ao longo de sua vida útil. Este tipo de telha é produzido com matriz cimentícia e polpa celulósica residual de eucalipto. A polpa deve ser desintegrada por dispersão em água. As figuras 4 a 7 mostram o esquema de produção e testes das telhas de fibrocimento vegetal. ¹Figura 4: Moldagem da telha ¹Figura 5: Ensaio de flexão 35 ¹Figura 6: Ensaio de Permeabilidade ¹Figura 7: Bancada de Envelhecimento ¹Fonte: SAVASTANO (2002) Outro estudo significativo foi desenvolvido por PASSOS (2005), que utilizou uma alternativa que propicia o uso sustentável da casca do coco verde e celulose de papel usado, constituindose um produto que utiliza material 100% reciclado em sua formulação. PASSOS empregou fibra de coco verde fornecidas pelo Centro de Pesquisas Ambientais (CENPA) com comprimento médio na faixa de 2-4 cm, sendo obtidas a partir do coco inteiro com o uso de moinho de martelo. Já o papel usado na parte laboratorial foi de resíduo de escritórios, enquanto na parte industrial foi de procedência variada. 36 O processo de fabricação das telhas descrito por PASSOS foi: a) Trituração de papel e formação de polpa O papel usado passou por um triturador com uso abundante de água, formando uma massa que foi levada a um tanque com agitação proporcionada por uma bomba de água. b) Mistura da polpa de papel com as fibras de coco As fibras de coco verde, fornecidas pelo CENPA, com comprimento médio de 4 cm, foram adicionadas manualmente ao tanque e homogeneizadas com a massa de papel. a) Formação da manta e moldagem das telhas A mistura aquosa de papel e fibras de coco foi bombeada para uma esteira (Figura 8) e levada para um sistema de calandras (Figura 9), onde houve definição da espessura e formação das mantas, que posteriormente foram moldadas manualmente com uso de barras cilíndricas de aço. Figura 8: Esteira Fonte: PASSOS (2005) 37 Figura 9: Sistema de calandras* Fonte: PASSOS (2005) b) Secagem e corte das aparas das telhas; As mantas moldadas foram secas ao tempo (Figura 10) e posteriormente cortadas (Figura 11) para assumir as dimensões de 1,6 m x 0,60 m, com massa total de 1,5 Kg, sendo 0,375 Kg de fibras de coco e 1,125 Kg de papel. Figura 10: Mantas mondadas expostas ao tempo Fonte: PASSOS (2005) 38 Figura 11: Corte das mantas moldadas Fonte: PASSOS (2005) c) Impermeabilização das telhas. As mantas aparadas (telhas) foram submetidas ao processo de impermeabilização com cimento asfáltico (CAP 20) a 180ºC por 2 horas e estocadas. As telhas foram denominadas de ―telhas ecológicas‖. Figura 12: Telha impermeabilizada (à esquerda) e telha sem impermeabilização (à direita) Fonte: PASSOS (2005) 39 3.2. PAINEL COM FIBRA DE SISAL Na fabricação de painéis podemos destacar as pesquisas realizadas por LIMA e CUNHA (2006) lideradas por Paulo Roberto Lima, da Universidade Estadual de Feira de Santana, cujo trabalho consiste na análise do tipo de reforço no comportamento à flexão de painéis laminados. Foram produzidos laminados reforçados com fibras de sisal, fios de sisal, telas de aço e telas de nylon, distribuídos manualmente em seis camadas e com volume de fibra de 2,5% e 5,0%. A matriz (M1) consistiu de uma argamassa de cimento, com traço, em massa, de 1 : 1 (cimento : areia ) e relação água/cimento de 0,35. Foi utilizado cimento CPII-F32, areia de rio e água do sistema de abastecimento de água local em todas as misturas. A matriz foi produzida em uma betoneira de 100 dm³ e lançada manualmente em moldes metálicos. A moldagem consistiu de lançamento manual de camadas alternadas de matriz e reforço, com vibração externa em mesa vibratória. Foram produzidas três amostras por mistura, com dimensões 150 x 500 x 30 mm. A cura foi realizada em câmara úmida por 60 dias. O ensaio de flexão foi realizado em uma máquina servocontrolada de capacidade 2000 kN usando configuração de quatro pontos, com taxa de carregamento de 35 Kgf / s, vide figura 13 (a). As deflexões no meio do vão foram medidas utilizando dois transdutores elétricos (LVDT), sendo os sinais de carga e deflexão medidos com um sistema de aquisição de sinais de 32 bits, vide figura 13 (b). a) sistema de carregamento e aquisição b) detalhe da amostra Figura 13. configuração do ensaio de flexão Fonte: LIMA e CUNHA (2006) 40 A partir das curvas carga-deflexão, obtidas no ensaio de flexão, alguns parâmetros foram calculados para a avaliação da eficiência do reforço: Resistência de primeira fissura (FCS), correspondente ao primeiro pico de fissuração; Resistência pós-fissuração (b), determinando pela carga máxima resistida pelo compósito após a primeira fissura; Energia absoluta (Tn), definida pela norma japonesa JCI-JCSCE SF-4 (1983) como a área sob a curva carga-deflexão. Nas figuras 14 e 15 são apresentadas as curvas tensão equivalente versus deflexão para as misturas estudadas. Já os valores médios da resistência de primeira fissura (FCS), resistência pós-fissuração (b) e energia absoluta (Tn), com os respectivos coeficientes de variação (CV), são mostrados na tabela 3, Fonte: (LIMA e CUNHA 2006). Figura 14: Curva típica experimental tensão-deflexão para matriz e para laminados com reforço manufaturado. Figura 15: Curva típica experimental tensão-deflexão para laminados com reforço de sisal. 41 Tabela 3: Resultados experimentais Volume de FCS (CV) b (CV) Tn (CV) reforço (MPa) (%) (MPa) (%) (N/mm) (%) Matriz - 9,56 (3,0) - 1,36 (9,7) Fibra de sisal 2,5 10,97 (3,9) 6,68 (12,6) 17,99 (3,0) 5,0 9,73 (1,8) 10,77 (11,6) 23,88 (6,1) 2,5 12,23 (1,4) 1,43 (29,6) 8,40 (2,6) 5,0 13,87 (-) 1,85 (-) 6,59 (-) Tela de nylon 2,5 11,21 (8,1) 8,84 (5,0) 15,56 (3,2) Tela de aço 2,5 11,93 (3,4) 14,63 (7,3) 41,25 (10,4) Reforço Fio de sisal Fonte: LIMA e CUNHA (2006) Com base nos resultados apresentados na tabela 3 pode-se concluir que a utilização de 5,0% de fibras de sisal ou 2,5% de tela de aço nos compósitos permite um aumento da resistência mesmo após a formação da primeira fissura, o que não acontece com os demais laminados. O aumento do volume de fibras de sisal implicou na redução da tensão de fissuração, entretanto verifica-se um aumento na resistência pós-fissuração e na energia absoluta. A utilização de fios de sisal isolados mostrou-se ineficiente. Para os laminados com 2,5% de volume de reforço, observa-se que a utilização de fibras ou telas conduz à melhoria de todas as propriedades da matriz. O comportamento da curva tensão-deflexão para os laminados com fibras de sisal e telas de nylon são bem similares, com uma queda brusca de resistência após a primeira fissura e posterior aumento de resistência. Isto reflete a baixa tensão de aderência entre esses materiais e a matriz a base de cimento (Toledo Filho, 1997; Lima, 2004; Bentur; Mindess,1990) e também é função do baixo módulo de elasticidade do sisal e do nylon, quando comparado com a matriz. O reforço em tela de aço, por outro lado, possui maior aderência com a matriz e maior rigidez, propiciando um material com comportamento quase elástoplástico com ganho de resistência. Os laminados reforçados com fios de sisal apresentaram queda significativa de tensão após a primeira fissura, sem posterior aumento significativo de resistência. Esse comportamento, verificado também por Melo Filho (2005) apud LIMA (2004), foi atribuído pelo autor à 42 redução da área específica de contato fibra-matriz, quando em comparação ao reforço com fibras isoladas. Para avaliar a influência do volume de fibras no comportamento à flexão de compósitos com fibras naturais, foram moldadas placas com fios e fibras de sisal com 2,5% e 5,0% de reforço. Os resultados mostraram um ganho de resistência pós-fissuração e de tenacidade dos compósitos laminados com fibras de sisal à medida que se aumenta o teor de fibras. Houve um aumento de 62,23% na resistência (b) e de 32,74% na energia absoluta (Tn). Além disso, verificou-se que com 5,0% de reforço, o laminado apresenta uma resistência pós-fissuração maior que a resistência de primeira fissura. Para os laminados com fios de sisal não há variação expressiva com o aumento do teor de fibras. PASSOS (2005) também desenvolveu um estudo sobre placas compósitas utilizando misturas com vários percentuais de fibra de coco e papel reciclado. Na Tabela 4 constam os experimentos efetuados que foram testados e avaliados. Tabela 4 : Experimentos para obtenção de compósitos EXPERIMENTO ESPECIFICAÇÃO A B C D E 100% de papel usado 15% de fibra de coco + 85% de papel usado (p/p) 20% de fibra de coco + 80% de papel usado (p/p) 25% de fibra de coco + 75% de papel usado (p/p) 30% de fibra de coco + 70% de papel usado (p/p) Fonte: PASSOS (2005) A metodologia produtiva deste processo descrito por PASSOS foi: Misturar inicialmente água, fibra de coco verde e papel usado em um Refinador Bauer . Empregando 1,5 kg de material sólido (fibra e papel) e 60 litros de água; Colocar no refinador 57 litros de água, ligar a agitação e adicionar aos poucos a fibra de coco e o papel, mantendo-se a agitação; Após a adição de todos os componentes, prossegue-se com a agitação no refinador por 10 minutos; Recolhe-se o material, através da válvula localizada no fundo do refinador, para um recipiente plástico e, depois, transfere-se para um ―desaguadouro‖ (Figura 15) equipamento que é formado por três compartimentos, aos quais se encaixaram três 43 molduras quadradas de 50 cm de lado com uma tela para a retenção da massa de papel/fibras de coco, com a conseqüente formação dos compósitos propriamente ditos; O ―desaguadouro‖ era dotado de um sistema acoplado a uma bomba de vácuo para sucção de água dos compósitos. Em cada experimento foram produzidos três painéis de 45 cm x 45 cm para a retirada dos corpos-de-prova; Os painéis formados (Figura 16) foram levados à estufa por 24 horas a uma temperatura de 70°C e depois prensados a frio a uma pressão de 2,45 MPa, ficando com espessura nominal de 2 mm, sendo submetidos, posteriormente, aos ensaios de avaliação. ²Figura 16: ―Desaguadouro‖ ²Figura 17: compósito obtido com mistura de papel usado e fibra de coco verde ²Fonte: PASSOS (2005) Os corpos de prova foram submetidos aos ensaios de Flexão Estática - Módulo de Ruptura1 (MOR); Flexão Estática - Módulo de Elasticidade2 (MOE); Resistência à tração perpendicular à superfície da chapa – Ligação Interna3 (LI); Absorção de água – aumento de massa (AA) e 44 inchamento em espessura (IE). A Tabela 5 apresenta as médias dos resultados de todos os testes realizados nos experimentos descritos na Tabela 4. Tabela 5: Média dos resultados obtidos Fibras (%p/p) MOR1 (MPa) MOE2 (MPa) LI3 (KPa) 0 15 20 25 30 8,8 15,5 8,0 7,5 7,8 411 541 162 131 174 89,2 107,8 69,6 65,7 59,8 ABSORÇÃO DE ÁGUA Aumento de massa Aumento de (%) espessura (%) 2 horas 24 horas 2 horas 24 horas 134 171 254 274 275 1- MOR – Módulo de ruptura 2- MOE – Módulo de elasticidade 3- LI – Ligação Interna 174 193 276 293 296 85 114 112 136 137 130 126 121 159 150 Fonte: PASSOS (2005) Passos concluiu neste trabalho que com 15% de fibras incorporadas, houve uma tendência ao aumento do MOR, sugerindo uma faixa ótima entre 8% e 17%. Segundo ele o aumento observado entre os compósitos sem adição de fibras e com 15% foi da ordem de 75%. Além de observar que os resultados obtidos para o MOE apresentaram tendência semelhante àquela observada para o MOR, quanto à faixa ideal para incorporação de fibras. Entretanto, o acréscimo entre o valor medido para o compósito sem adição de fibras e o com 15% de adição foi de aproximadamente 30%. Já os compósitos com percentuais maiores de fibras (20%, 25% e 30%) provocaram a diminuição do valor do MOE. Quanto ao LI, os compósitos também apresentaram tendência a um comportamento semelhante ao observado para o MOR, com um aumento do valor entre o compósito sem fibras de coco e o com 15%, de cerca de 20%. Diante de todos os resultados obtidos, Passos chegou a conclusão de que os compósitos com 20%, 25% e 30% de fibras, em todos os três parâmetros, MOR, MOE e LI, apresentaram valores semelhantes dentro de cada um dos testes. A absorção de água, tanto para o aumento de massa quanto para o aumento em espessura, teve tendência a aumentar proporcionalmente ao aumento do percentual de fibras, tendendo a estabilizar a partir de 20% de fibras. 45 4. PROJETO: HABITAÇÃO COM FIBRA VEGETAL Desenvolvemos o projeto arquitetônico de uma habitação com área de 41,42 m². Este sistema consiste em peças estruturais (pilares) pré-moldados em concreto-armado e painéis para fechamento das paredes, pré-fabricados, reforçados com fibras longas de sisal. Além de telhas em fibrocimento vegetal. O projeto arquitetônico completo encontra-se no apêndice. 4.1. ESPECIFICAÇÃO TÉCNICA DO SISTEMA CONSTRUTIVO 4.1.1. Painéis Para a produção de placas reforçadas com malha de sisal ou fibras isoladas, Person e Skarendahl apud LIMA (2004), classificam os métodos de produção em três níveis, a depender do desenvolvimento tecnológico empregado, são eles: nível manual; escala semiindustrial e mecanizado. Para a produção dos painéis idealizados neste projeto pode-se empregar o processo semiindustrial. Sendo utilizada fibras curtas de sisal dispersas na matriz cimentícia , e uma porcentagem de 20% (em relação a massa de cimento) de metacaulinita. Os painéis idealizados apresentam 2 tipos de encaixes, são eles: Encaixe entre painéis com alinhamento a 0º, tipo macho-fêmea, que facilita a montagem e o alinhamento entre elas, sendo aplicada uma fina camada de nata de cimento entre elas; Encaixe específico para ligação painel–pilar, sendo aplicado uma fina camada de nata de cimento entre a ligação; No projeto arquitetônico os painéis estão divididos em algumas classes, que dependem do tipo de ligação e da dimensão, tendo então as seguintes subdivisões: 46 Classificações dos painéis: Painéis P * : os painéis que apresentam uma ligação com os pilares; Painéis P**: são os que apresentam duas ligações com os pilares; P20, P50, P60... : são os painéis com indicação da largura em centímetro; Painéis Janela: são os painéis localizados na região superior e inferior das janelas; Painéis porta: são os painéis localizados na região superior das portas; Painéis basculantes: são os painéis localizados na região superior e inferior dos basculantes. Na tabela 6 encontram-se todas as especificações dos painéis, como dimensões, quantidades, tipo de encaixe e a descrição de onde os painéis estão localizados. Tabela 6: Especificações dos painéis Tipo do Dimensões Quantid. Volume Tipo de Painel (L x C x E) Total Total encaixe (cm) 60 x 50 x 5 (m³) 12 0,18 Macho-fêmea Painel janela Especificação Parte inferior: 04 painéis por janela 60 x 70 x 5 06 0,126 Macho-fêmea Parte superior: 02 painéis por janela Painel 70 x 70 x 5 04 0,098 Macho-fêmea porta Parte superior: 01 painel por porta (70 x 210) Painel 40 x 70 x 5 01 0,014 Macho-fêmea porta Parte superior: 01 painel por porta (60 x 210) 60 x 70 x 5 04 0,084 Macho-fêmea Painel Basculante Parte inferior: 02 painéis por basculante 60 x 50 x 5 04 0,06 Macho-fêmea Parte superior: 02 painéis por basculante 47 Alguns painéis estão 50 x 50 x 5 Painéis de 20 0,25 Painel / pilar encaixados nos pilares, 10 0,125 Macho-fêmea conforme projeto. vedação Os painéis da região da do banheiro 20 x 50 x 5 10 0,05 Pilar / livre porta têm 01 bordo livre 10 0,05 Painel / pilar e outro encaixado no pilar. Os painéis da região da 20 x 70 x 5 8 0,056 Pilar / livre porta têm 01 bordo livre 8 0,056 Painel / pilar e outro encaixado no pilar. Painéis de Os painéis da região da vedação demais 25 x 70 x 5 04 0,035 Painel / pilar porta têm 01 bordo livre 12 0,105 Pilar / livre e outro encaixado no cômodos pilar ou em painel. 50 x 70 x 5 28 0,49 Painel / pilar Alguns painéis estão 40 0,70 Macho-fêmea encaixados nos pilares, conforme projeto. 60 x 70 x 5 24 0,504 Painel / pilar Alguns painéis estão 44 0,924 Macho-fêmea encaixados nos pilares, conforme projeto. 70 x 70 x 5 40 x 70 x 5 04 0,098 Painel / pilar 08 0,196 Pilar / livre 08 0,196 Macho-fêmea 04 0,014 Pilar / Pilar Alguns painéis encaixados nos pilares, conforme projeto. Estes painéis apresentam dupla ligação pilares. ** VOLUME TOTAL 4,411 48 estão entre 4.1.2. Pilares Os pilares são pré-fabricados em concreto armado, nas dimensões de 20 x 20 cm, estes pilares apresentam uma geometria diferenciada devidos os encaixes dos painéis. Os pilares são classificados em: PC2: são os pilares com dois encaixes, cada encaixe com profundidade de 4 cm; PC3: são os pilares com três encaixes, cada encaixe com profundidade de 4 cm. Todos os detalhes construtivos encontram-se no projeto que está no apêndice. 4.1.3. Telha Ecológica com fibra de sisal A idéia é a produção de um tipo de telha, denominada de telha ecológica, que é produzida com material 100% natural. Fabricada a partir de fibra vegetal (sisal) e impermeabilizada com betume (mistura natural de hidrocarbonetos). O objetivo é desenvolver telhas nas dimensões: 2000 x 950 x 3 mm O processo de fabricação desse tipo de telha pode ser semelhante ao empregado por PASSOS (2005). Entretanto, idealizamos telhas cujo reforço seja de fibra de sisal. O processo de fabricação das telhas pode ter as seguintes etapas: a) Trituração de papel e formação de polpa de resíduo de sisal; b) Mistura da polpa de papel com fibras curtas de sisal; c) Formação da manta e moldagem das telhas; d) Secagem e corte das aparas das telhas; e) Impermeabilização das telhas. 49 Sistema de montagem das telhas: Fixada sobre madeiramento leve, com espaçamento de 50 cm, utilizando caibros com medida de 5 x 6 cm (largura x altura); Tesoura em madeira na fachada frontal e no fundo para sustentação do telhado; Inclinação de 20%; Beiral (sem apoio) de 10 cm. 4.2. ESPECIFICAÇÃO TÉCNICA DA UNIDADE HABITACIONAL Resumo Padrão Habitacional Popular Cômodos: sala, cozinha, sanitário, 2 quartos, circulação; Área construída: 41,42 m² Terreno mínimo: 8,00 x 6,00 m a) Fundação No estudo levou-se em conta a execução de lajes de cobertura, apenas para o banheiro, e por isto a sobrecarga de lajes sobre as fundações foi desconsiderada. Por se tratar de habitações de interesse social de um pavimento o tipo de fundação recomendado, inclusive por questões econômicas, sãos as fundações diretas ou superficiais, como por exemplo, alvenaria em pedra argamassada ou sapata corrida (em concreto armado). b) Cômodos Sala Piso: cimentado liso; Parede: painéis modulares; Teto: Telhado em fibrocimento vegetal; Porta: 70 x 210 cm; Janela: 120 x 110 cm; 50 Circulação Piso: cimentado liso Parede: painéis modulares em fibras vegetais; Teto: Telhado em fibrocimento vegetal. Quartos Piso: cimentado liso; Parede: painéis modulares; Teto: Telhado em fibrocimento vegetal; Porta: 70 x 210 cm; Janela: 120 x 110 cm. Cozinha Piso: cimentado liso; Parede: painéis modulares; Teto: Telhado em fibrocimento vegetal; Porta: 70 x 210 cm; Basculante: 60 x 40 cm. Banheiro Piso: cimentado liso; Parede: painéis modulares; Teto: Cobertura de laje para sustentação do reservatório; Porta: 60 x 210 cm; Basculante: 60 x 40 cm. 51 c) Instalações A rede de instalações elétricas podem ser feitas por fora dos painéis, fixando-os a estrutura por meio de braçadeiras. Da mesma maneira, pode-se proceder à fixação das instalações sanitárias. d) Madeiramento para cobertura Pode-se colocar duas tesouras para resistir aos esforços da cobertura e transmiti-los paras os pilares, esses esforços são transmitidos para as tesouras através de caibros de madeira serrada de comprimento igual ao vão a ser coberto, nas dimensões de 5 cm de largura por 6 cm de altura. e) Cobertura A idéia para este sistema habitacional é utilizar telha ecológica nas dimensões já especificada no capítulo anterior. 52 5. CUSTOS DE PRODUÇÃO Descrever os custos de um material que ainda não está sendo produzido em escala de produção comercial é uma tarefa árdua. Mas este capítulo tem como finalidade realizar um levantamento de custos de produção das telhas e painéis idealizados neste trabalho, além de realizar um comparativo de custos destes materiais com alguns que são comercializados. 5.1. TELHAS Tabela 7: Custo dos materiais das telhas Matéria-prima Quantidade Preço por Kg em massa Preço por Telha (R$) (R$) (kg) 25% de fibra 0,750 0,99 0,75 75 % de papel 2,250 2,25 5,10 Cimento asfáltico 3,00 1,20 3,60 TOTAL POR TELHA IMPERMEABILIZADA 9,45 A fibra longa de sisal está sendo comercializada no atacado atualmente a 0,99 R$ / kg, segundo dados da CONAB [7]. Se fizermos uma analogia aos custos de produção mostrados por PASSOS (2005), uma telha de 2000 x 950 x 3 mm impermeabilizada com cimento asfáltico e produzida com 25% de fibras de sisal e o restante de papel usado, teríamos um custo de R$ 9,45 e o custo por metro quadrado sairia por R$ 4,97. A tabela 8 mostra um comparativo dos preços comerciais de algumas telhas. Existem dois tipos de telhas de fibrocimento vegetal mostrado nesta tabela, a primeira é a telha que está sendo comercializada, a outra é a telha que foi idealizada neste trabalho onde só consta o custo da matéria-prima para produção da mesma. Os preços das demais telhas foram adquiridos na revista Mercado e Construção de Maio de 2007. 53 TABELA 8: Comparativo de preços das telhas TIPO DE TELHA UNIDADE Cerâmica Colonial¹ m2 2 (25 UN / m ) PREÇO 13,81 Custo comercial Aço² Ondulada Galvanizada (0,43 x 912) mm m2 espessura x largura 17,76 Custo comercial Fibrocimento³ (1850 x 500 x 8) mm m2 comprimento x largura x espessura 59,31 Custo comercial Fibrocimento vegetal* (2000 x 950 x 3) mm m2 comprimento x largura x espessura 11,55 Custo comercial Fibrocimento vegetal** (2000 x 950 x 3) mm m2 comprimento x largura x espessura 4,97 Custo dos materias 1,2,3 Fonte Revista Mercado e Construção (Maio 2007) * Telha comercializada e disponível em [4]; ** Telha idealizada neste trabalho. 54 5.2. PAINÉIS Tomamos como base para elaboração do orçamento dos painéis, a produção de um painel que apresenta as dimensões 60 x 50 x 5 cm. Sabendo que o volume total de um painel está dividido em: 5% de fibra longa de sisal; 30 % de cimento (sendo 20% de metacaulinita); 30% de areia; 35% água. Tabela 9: Custo dos materiais dos painéis Especificação Unidade Cimento CPII F32 Quantidade kg 10,98 -3 Preço Unit Preço Total (R$) (R$) 0,35 3,84 32,00 0,15 Areia seca m³ 4,5 x 10 Fibra de sisal Kg 1,03 0,99 1,02 Metacaulinita Kg 2,75 1,26 3,47 TOTAL GERAL 8,48 Este valor de 8,48 é o valor estimado pra produzir uma placa com as dimensões de (60 x 50 x 5) cm. Neste valor não está sendo levando em consideração o custo com energia elétrica, água e mão de obra. Os preços dos materiais foram adquiridos na revista Mercado e Construção de Maio de 2007. O preço da fibra longa de sisal foi adquirido no site da CONAB [7]. O preço da metacaulinita foi adquirido em [9]. 55 6. CONCLUSÃO A indústria da construção civil engloba vários sub setores que vai da produção de materiais, passando pela construção residencial e obras de infra-estrutura. O setor da construção civil é considerado de grande importância no avanço econômico e social de um país, principalmente no Brasil. Podemos perceber esta afirmação quando verificamos a participação do PIB nacional e na geração de empregos do setor. Quando analisamos o sub setor da habitação, verificamos que as necessidades habitacionais brasileiras estão ainda longe de serem atendidas de maneira satisfatória. Mesmo com inúmeros esforços desenvolvidos nesta área, observa-se carências que estão se tornando desafios para a sociedade nos próximos anos. Ao lado do déficit de moradias, historicamente alto, percebe-se que, para as populações que já conseguiram adquirir habitação, a necessidade de realização de melhorias e expansões é constante, sobretudo nas faixas da população de baixa renda que são objeto das políticas e programas de interesse social. Segundo os pesquisadores da questão habitacional, a mudança observada nos modos de vida das populações urbana ao longo dos últimos anos tem intensificado a necessidade do conhecimento aprofundado sobre a dinâmica familiar e as necessidades daí decorrentes, em termos de habitação. A evolução no ciclo de vida das famílias, com o surgimento de novas formas de convivência familiar, interpõe ao mesmo tempo novas necessidades de espaços que anteriormente não eram considerados. Estas mudanças nos modos de vida contribuem, ao lado dos aspectos econômicos, para a evolução do conceito de Inadequação Habitacional, como fundamento na visão do problema da expansão de habitações de interesse social. Na tentativa de buscar soluções para amenizar seu problema habitacional, na maioria das vezes a população de baixa renda realiza construções sem critérios técnicos, resultando em soluções de baixa qualidade construtiva e de conforto para si próprios. Nesta perspectiva, portanto, se compreende a relevância dos trabalhos voltados à solução ou redução do déficit habitacional, através do estudo e aplicação de conceitos que, sem a pesquisa, podem continuar restritos aos setores mais privilegiados do mercado habitacional. 56 Neste trabalho foi apresentado o projeto de um sistema habitacional voltado para a população de baixa renda, que consiste no emprego de fibras vegetais nos painéis de vedação e telhas de uma habitação, com o intuito de reduzir o custo final destas habitações. Além disso, este trabalho contempla um outro fator relevante que é a questão ambiental, que atualmente é considerada um dos principais desafios a ser equacionados pelo setor da construção. Por isso, ações do setor voltadas para a preservação do meio ambiente contribuem para o estabelecimento de um modelo de desenvolvimento sustentável. Entretanto, o emprego de fibras vegetais ainda traz consigo algumas dificuldades associadas ao uso em compósitos à base de cimento e, por isso, há a necessidade de estudos e aperfeiçoamento desta tecnologia. As pesquisas voltadas para os materiais alternativos vêm sendo realizadas desde o início da década de 80, quando o principal objetivo era desenvolver um material que substituísse o fibrocimento a base de amianto. Mas até hoje nenhum pesquisador conseguiu produzir um compósito com fibras manufaturadas ou vegetais com as mesmas propriedades do compósito com fibras de asbestos. Por isso, os estudos realizados nas últimas décadas demonstram que o asbesto não pode ser substituído por outro tipo de fibra sem sacrificar algumas de suas propriedades. Segundo Balaguru e Shah apud LIMA 2004 ―o asbesto não poderá ser substituído por uma única fibra para todos os tipos de aplicações‖. Logo, atualmente tem-se por objetivo desenvolver um produto que atenda a resistência e a durabilidade para aplicações específicas. A relevância e a importância deste trabalho se dá pelo fato de que as fibras vegetais, além de serem ecologicamente viáveis, surgem como boa opção para redução dos custos dos materiais de construção empregados na habitação. Além da disponibilidade e custos adequados, podem ser usadas na produção de novos fibrocimentos que venham a substituir o cimento amianto como material para produção de componentes esbeltos reforçados. 57 REFERÊNCIAS Sites: [1] http://www.sergiosampaio.com.br/detalhaNoticia.asp?cod=18 (acesso 27/01/2007) [2] http://habitare.infohab.org.br/ClippingGet.aspx?CD_NOTICIA=443 (acesso 27/01/2007) [3] http://www.bambubrasileiro.com/info/plantio/8.html (acesso 21/04/2007) [4] http://www.pratelhado.com.br/1033.html (acesso 10/08/2007) [5] http://www.construcaoecia.com.br (acesso 13/08/2007) [6] http://tecolit.com.br (acesso 13/08/2007) [7] http://www.conab.gov.br (acesso 14/08/2007) [8] http://www2.imaginariopernambucano.com.br/noticia (acesso 27/01/2007) [9] http://www.antac.org.br/AmbienteConstruido (acesso 12/10/2007) ABIKO, A. K. Introdução à gestão habitacional. São Paulo, EPUSP.Texto técnico da Escola Politécnica da USP, Departamento de Engenharia de Construção Civil, TT/PCC/12.1995. 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Brazil Low-income housing: alternatives for the poor. Report No. 22032 BR. December 21, 2002. APÊNDICES 62 PROJETOS APÊNDICE A - Planta baixa 64 APÊNDICE B - Planta baixa modulada 65 APÊNDICE C - Corte AA 66 APÊNDICE D - Corte BB 67 APÊNDICE E - Detalhes construtivos 68 APÊNDICE F - Fachada frontal 69 63 TABELA 1: Valores de algumas propriedades físicas e mecânicas das fibras de sisal e coco Toledo Filho (1990) Brasil Sisal coco CEPED (1982) Brasil Sisal Coco Chand (1988) Sisal Coco Mukherjee (1986) Índia Sisal Coco Diâmetro (mm) Comprimento (cm) Peso Específico (kN / m³) 0,08 - 0,3 0,2 - 0,4 - - 0,05 - 0,3 0,1 - 0,4 0,1 - 0,3 0,1 - 0,4 38 - 94 6 - 23 - - - - - - 7,5 - 11 6,7 - 10 12,7 10,8 14,5 11,5 14,5 11,5 Absorção de água (%) 190 - 250 85 - 135 240 127 - - - - Resistência à Tração (MPa) Deformação na ruptura (%) Módulo de Elasticidade (MPa) 227 - 1002 108 - 174 458 180 530 - 640 131 - 175 530 - 630 106 - 175 2,1 – 4,2 13,7 - 41 4,2 29 3-7 15 - 40 4,3 15 11 - 27 2,5 - 4,5 15,2 2,8 9 - 22 4-6 17 - 22 3-6 26