LABORATÓRIO 4 5 3 Duomètre à chronographe Por Dody Giussani, directora da revista L’Orologio O Duomètre à Chronographe da Jaeger-LeCoultre surpreende não só pelos seus dotes estéticos, como também, e sobretudo, pela novidade técnica que representa e que chama mais uma vez a atenção para as grandes competências da manufactura de Le Sentier. Figura 1 Para o Duomètre à Chronographe, a Grande Maison não só concebeu um belo cronógrafo, como também readaptou integralmente a complicação cronográfica, acrescentando-lhe um movimento baseado na filosofia inédita do projecto Dual-Wing (que estará na base de toda a colecção Duomètre, através da sua futura adaptação a outras complicações) – a integração de dois mecanismos separados, um para a indicação do tempo e outro para cronógrafo, alimentados por dois tambores independentes. O Calibre 380 é, portanto, configurado sobre dois corpos de rodagem que, partindo dos dois tambores, confluem para a roda de escape, o único elemento comum entre a indicação do tempo e o cronógrafo. Em termos técnicos, assinala-se, de imediato, neste cronógrafo, a ausência do sistema de embraiagem típico dos cronógrafos mecânicos. Não se poderá falar de embraiagem vertical, horizontal nem de carrete oscilante. Assim, esqueçamos os mecanismos de cronógrafo clássicos para descobrir um novíssimo modo de conceber a complicação mais cobiçada e mais difundida que existe. 1 Um dos primeiros protótipos do Duomètre à Chronographe e o Calibre 380 fotografados na oficina de montagem da Manufactura Jaeger-LeCoultre por ocasião de uma visita da L’Orologio. A dicotomia entre a base do tempo e o mecanismo cronográfico, característica do movimento, reflecte-se também na arquitectura do mostrador: à esquerda, lêem-se as horas e os minutos; à direita, num mostrador análogo (mas com ponteiros azuis), podemos ler as indicações relativas ao cronógrafo: totalizador de 6 A 7 horas (até 12), totalizador de minutos (até 60) e unidades (de zero a nove) dos minutos do cronógrafo (numa janela específica para o efeito). Às 6 horas, sobressai um pequeno contador para a função de segundos foudroyantes: o ponteiro foudroyante cumpre uma rotação ao longo do pequeno mostrador num segundo, ao ritmo de 1/6 de segundo. No centro estão sobrepostos os ponteiros dos segundos contínuos (em dourado) e o ponteiro dos segundos do cronógrafo (em azul). Finalmente, junto aos segundos foudroyantes, às 5 e 7 horas, encontram-se as indicações das reservas de corda do cronógrafo e do relógio. O cronógrafo é do tipo monopulsante, pelo que um botão às duas horas (não visível na foto) é suficiente para garantir a sua activação, paragem e retorno a zero. Artigo publicado na edição 161 da revista L’Orologio Figura 2 10 B 8 9 LABORATÓRIO 2 Um protótipo do Calibre Jaeger-LeCoultre 380: à esquerda, o tambor relativo ao mecanismo de cronógrafo (1), e à direita, o tambor que alimenta o relógio (2). Ambos os tambores estão unidos para permitir dar corda com a ajuda de uma única coroa, como veremos mais à frente. Por cima dos tambores, vêem-se dois rochet (ou rodas de força) (3 e 4) encaixadas nos relativos eixos internos. Bastante elegante a solução do duplo linguete (ou cliquet) (5 e 6 para o tambor do cronógrafo) que tem como objectivo obrigar a girar a roda de carga, quando se está a armar a corda contida no tambor. A roda de colunas (7) que acciona as funções cronógraficas (activação, paragem, retorno a zero) dispõe apenas de quatro colunas (A) especialmente largas como é típico dos cronógrafos monopulsantes. A cada coluna correspondem dois dentes (B) do rochet da roda de colunas sobre os quais a alavanca interligada ao botão do cronógrafo age: a cada rotação da roda (7), equivalente ao espaço de um dente, corresponde uma função cronográfica; o cronógrafo arranca, pára e retorna a zero. Um saltador (8) pressionado por uma mola (9) tem a função de manter imóvel a roda de colunas (7) entre cada função do cronógrafo. No centro do movimento (cujo lado das pontes estamos a observar) encontra-se a roda do cronógrafo (10), sobreposta à roda dos segundos do relógio. Figura 3 Figura 4 Figura 5 3 Passemos à análise das funções cronográficas. Como arranca o cronógrafo se falta, como já foi assinalado, um sistema tradicional de embraiagem? O fundo da questão é a função dos segundos foudroyantes. Esta é realizada através de outra roda, dita roda foudroyante (11), colocada no mesmo eixo da roda de escape (12). A roda foudroyante tem o dobro dos dentes (quarenta) da roda de escape (vinte). Uma vez que a roda de escape (12) avança um ângulo correspondente a metade da distância entre dois dos seus dentes , a cada alternância do balanço-espiral, a roda foudroyante (11) irá avançar um dente a cada alternância. Sendo a frequência de funcionamento do Calibre 380 igual a 21.600 alt./ /hora, consegue-se que a roda de escape (11) avance três dentes por segundo, o que corresponde a seis dentes por segundo da roda foudroyante (12). A roda foudroyante (11) toca directamente numa estrela de seis pontas (13) que, por sua vez, vai efectuar uma rotação por segundo, ao ritmo de 1/6 de segundo. No eixo desta estrela encontra-se o ponteiro dos segundos foudroyantes, visível no mostrador às 6 horas. A estrela de seis pontas da foudroyante recebe a energia necessária à sua rotação, da rodagem do cronógrafo, que parte do respectivo tambor (1) e acaba na roda (14) que engrena directamente com o carrete solidário da estrela (13). 4 A figura mostra as alavancas do cronógrafo accionadas no momento da partida. Premindo o botão do cronógrafo às 2 horas (P), a alavanca de comando (20), através do seu gancho (21), faz a roda de colunas (7) girar um dente no sentido contrário aos ponteiros, e, em seguida, a extremidade da alavanca da estrela (22) cai no espaço entre duas colunas, e o dedo localizado na outra extremidade (23) afasta-se da estrela de seis pontas da foudroyante (13), deixando-a livre para rodar sob a acção da rodagem do cronógrafo. Ao mesmo tempo, no seguimento da rotação da roda de colunas (7), os martelos do retorno a zero do cronógrafo (24 e 25) afastam-se dos cames, em forma de coração, das rodas totalizadoras dos segundos (26), dos minutos (27) e da unidade dos minutos (28), por acção de uma coluna. Os martelos são mantidos afastados devido à acção da ponta do martelo que se encontra apoiado numa coluna. Não está visível o conjunto da came em coração e o martelo das horas, por se localizarem do outro lado do movimento. A transmissão do movimento da roda totalizadora dos minutos do cronógrafo (31) à roda totalizadora das horas coaxial realiza-se mediante uma pequena rodagem, análoga à minuteria do relógio. 5 Uma segunda pressão no botão às 2 horas (P) pára o cronógra fo. Também neste caso, à pressão no botão corresponde a rotação de um passo da roda de coluna (7) através do gancho (21). A alavanca da estrela (22) encontra-se agora sobre uma coluna, enquanto o seu dedo (23) vai posicionar-se entre as pontas da estrela foudroyante (13), parando-a, assim como a respectiva rodagem. Assim, todas as rodas do mecanismo de cronógrafo e os respectivos ponteiros param na sua posição (de então), sem precisar de bloqueadores. LABORATÓRIO Figura 6 Figura 7 Figura 8 Figura 9 6 A figura evidencia o sofisticado sistema colocado na engrenagem da foudroyante. O mecanismo está aqui representado em fase de paragem do cronógrafo. A estrela da foudroyante, visível na ampliação, é, na realidade, formada por duas estrelas sobrepostas. A estrela inferior (13B) amarela é aquela que vai engrenar directamente com a roda da foudroyante de 40 dentes (11), solidária da roda de escape (12). A estrela superior (13) de cor roxa está detida pelo gancho (23) comandado pela roda de colunas (7). As duas estrelas estão ligadas por uma cavilha (40) colocada sobre estrela superior e que se introduz num orifício na superfície da estrela inferior. Este estratagema permite que a estrela inferior também possa rodar sobre um ângulo reduzido depois da paragem do cronógrafo (o ponteiro dos segundos foudroyantes mantém-se parado no mostrador, por ser solidário da estrela superior). A pequena rotação de meio passo da estrela inferior serve para permitir a rotação da roda da foudroyante (11) que deve continuar a rodar apesar de o cronógrafo estar parado, em sintonia com a roda de escape (12) do relógio. Por fim, notemos que o dedo de paragem (23) apresenta um degrau na sua extremidade. A parte mais curta do degrau serve para parar a estrela da foudroyante (13), enquanto a mais comprida intervém na reposição a zero do cronógrafo, actuando sobre o dedo (41) solidário da estrela da foudroyante (13), como veremos a seguir. 7 O retorno a zero do cronógrafo ocorre ainda, e mais uma vez, através da pressão no botão colocado às duas horas (P). A roda de colunas (7) avança um dente sempre que se acciona o gancho (21) para o efeito. A alavanca da estrela (22) ainda se encontra apoiada na coluna. Porém, não se apoia completamente nesta : a extremidade curta do dedo (mais evidente na figura 6) afasta-se o suficiente para deixar rodar a estrela da foudroyante, até que a extremidade mais comprida do dedo da alavanca da estrela (23) detém o dedo (41) solidário da estrela e coloca-se na posição correspondente ao alinhamento do ponteiro da foudroyante (cravado da estrela) com zero no mostrador. A estrela da foudroyante roda até se posicionar a zero, os martelos de reposição a zero (na figura aparecem dois, 24 e 25) caem sobre a came em coração dos segundos do cronógrafo (26), dos minutos do cronógrafo (27), da unidade dos minutos (28) e das horas do cronógrafo (cuja roda é colocada do outro lado do movimento não visível na figura). Quando deixar de pressionar o botão às 2 horas, todos os ponteiros estarão a zero. Para que o retorno a zero se efectue correctamente, é necessário manter o botão do cronógrafo premido o tempo suficiente para que o ponteiro da foudroyante chegue a zero. 8 Girar a coroa no sentido contrário aos ponteiros transmite a rotação directamente à roda da coroa (51) e a uma roda intermediária (52), e a roda dentada (1) gira. Solidários a esta estão dois linguetes (5 e 6), que, por sua vez, vão obrigar o rochet (3) do tambor da foudroyante a rodar, assim como a mola dentro do tambor. Quando a roda (1) gira em sentido contrário sob a acção da coroa, os linguetes saltam sobre os dentes de tipo serra do rochet, mantendo-se, este último, imóvel. A roda (1) do tambor do cronógrafo engrena com uma roda semelhante (53) assente no tambor da base tempo. Esta mesma roda, porém, movendo-se em sentido contrário aos ponteiros, não transmite o movimento à respectiva corda (4), dado que o par de linguetes correspondente desliza sobre o rochet. 9 Rodando a coroa de corda no sentido horário, dá-se corda ao tambor da base do tempo (2). O processo é o mesmo analisado na figura 8, mas, neste caso, os sentidos de rotação estão invertidos. Neste caso, também o rochet do tambor do cronógrafo manter-se-á parada, enquanto o rochet (4) do tambor da base do tempo se moverá no sentido horário, armando a corda que está no próprio tambor. Como ainda se nota na figura, o tambor da base do tempo (2) é maior do que o tambor do mecanismo cronográfico. Porém, ambos os tambores oferecem a mesma autonomia aos respectivos mecanismos, porque o funcionamento da base do tempo requer maior energia, logo requer um tambor maior em comparação à autonomia.