DA ÉTICA ARISTOTÉLICA À CONDUTA DOCENTE
SOUZA, Simone Terezinha Feldhaus – UNIPLAC
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Eixo Temático: Didática: Teorias, Metodologias e Práticas
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
Este texto intitulado “Da ética aristotélica à conduta docente” diz respeito ao estudo
reflexivo sobre a conduta humana no campo da ética e da educação, tendo como foco a prática
diária do profissional da área da educação escolar nesta primeira década de terceiro milênio.
Traz como referências os conceitos e os pensamentos de Aristóteles descritos na obra “Ética a
Nicômaco”. Esses conceitos serão relacionados com a prática diária do docente escolar.
Percebe-se que contextualizando o conceito de ética de Aristóteles podemos considerá-lo
extremamente atual. Porém, se faz necessário que os valores éticos e morais sejam
impregnados na humanidade, criando hábitos para que a harmonia possa reinar em todas as
instancias da área educacional. A conduta ética está presente em todas as ordens vigentes no
mundo, na escola, na política, no esporte, nas empresas e é de vital importância nas
profissões, principalmente nos dias atuais. Somos seres históricos e culturais, para tanto, a
ética está em relação com o tempo e se transforma para responder tais exigências da sociedade
atual. Dentre as várias condições que se faz necessário para ser ético, o discernimento é uma
qualidade que leva à verdade e uma forma de excelência moral que corresponde a uma parte
do intelecto que torna possível a conduta ética. No ambiente de trabalho, o docente necessita
de discernimento e responsabilidade para avaliar os efeitos e as conseqüências de suas ações.
O modo de ser das pessoas, compreendido como ética, é o comportamento que ela deve
apresentar diante de diversas situações cotidianas.
Palavras-chave: Ética e Educação. Docente e Ética. Profissão Docente Escolar.
Introdução
Através dos filósofos ocidentais, mais especificamente da Grécia, que conhecemos os
primeiros estudos sobre ética. Contudo, o entendimento ético discorre em épocas diferentes e
por vários filósofos. Desta forma, a abordagem sobre o tema ocorrerá em três momentos,
onde, primeiramente, será feito um breve relato sobre ética no campo da filosofia,
compreendendo que a ética é o estudo dos juízos da conduta humana, que é passível do bem e
do mal podendo estar presente em um único ser ou em grupo. No segundo momento, a
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abordagem será com base na obra Ética a Nicômaco, de Aristóteles, e seus pensamentos sobre
ética, moral, virtude, liberdade, amizade, felicidade e política, para, no terceiro momento
compor uma relação com o cotidiano do profissional docente, versando sobre sua conduta
ética diante das situações diárias.
A conduta ética está presente em todas as ordens vigentes no mundo, na escola, na
política, no esporte, nas empresas e é de vital importância nas profissões, principalmente nos
dias atuais. Segundo Aristóteles, serve como condução do ser humano à felicidade, no sentido
mais amplo da palavra. E é em toda interação, na dinâmica do convívio social, que se
possibilita transparecer os valores éticos e morais humanos, assim como o desenvolvimento
destes.
No âmbito profissional, a ética é relevante por estar presente nas menores atitudes e
fica claro que em todas as profissões existe uma maneira certa, prudente e justa, de decidir, de
conduzir e fazer uma específica tarefa em uma determinada atividade profissional. Assim, a
ética auxilia no desenvolvimento do bem estar individual e coletivo por caminhos regidos
pela virtude em prol da harmonia social. Para Aristóteles, a ética é tratada como a ciência das
condutas humanas, objetivando enfim comprometer-se em possibilitar ao homem a garantia
da felicidade através de uma vida regida por virtudes morais e éticas.
A Ética Aristotélica
A palavra ética vem do grego Ethikós, que significa “modo de ser”. Trata o
comportamento humano pelo seu valor moral, a natureza do bem e do justo. É também
chamada de filosofia moral, por tratar dos valores em sociedade, isto é, do comportamento
humano pelo seu valor moral. Ela tem por objetivo elaborar uma reflexão sobre os problemas
fundamentais da moral, mas fundada num estudo metafísico do conjunto das regras de
conduta consideradas como universalmente válidas. Sua preocupação é detectar os princípios
de uma vida conforme a sabedoria filosófica e elaborar uma reflexão sobre as razões de se
desejar a justiça e a harmonia e sobre os meios de alcançá-las.
A ética pode ser constituída pelos valores e obrigações das condutas morais, como as
virtudes. Para que ela exista é necessário que o indivíduo tenha consciência e saiba distinguir
entre o que é certo e errado, entre o bem e o mal, o que é proibido ou permitido, e ainda,
separar a virtude do vício. Essa consciência e a responsabilidade são indispensáveis da vida
ética. A consciência moral se manifesta sempre que se faz necessário tomar uma atitude ou
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decisão diante de alternativas possíveis para a ação. A Ética é uma ciência muito pouco exata,
uma vez que se ocupa de assuntos passíveis de modificação e se dá na relação com o outro.
Segundo Chaui, o sujeito ético e moral precisa se adequar a certas condições como: ser
capaz de refletir e ter consciência de si e do outro como sujeito ético; ser capaz de controlar e
orientar suas vontades para decidir entre várias alternativas; ter responsabilidade e avaliar os
efeitos e as conseqüências de suas ações; ter liberdade para se auto-determinar e não ceder aos
poderes externos que o queiram manipular.
A ética é o mundo das relações intersubjetivas, isto é, entre o eu e o outro como
sujeitos e pessoas, portanto, como seres conscientes, livres e responsáveis. Nenhuma
experiência evidencia tanto a dimensão essencialmente intersubjetiva da vida e da
vida ética quanto a do diálogo. (CHAUI, 1995, p. 366).
Somos seres históricos e culturais, a ética também está em relação com o tempo e se
transforma para responder tais exigências da sociedade. A partir dos textos de Platão e
Aristóteles, pode-se dizer que a ética, no ocidente, iniciou com Sócrates quando percorria as
ruas de Atenas fazendo perguntas sobre valores, coragem, justiça, entre outras perguntas. Na
maioria das vezes as pessoas percebiam que confundiam a moral com os fatos cotidianos e a
tomavam como valores morais. Os homens cultos tendem a buscar as certezas absolutas, mas
a ética não deve ser vista dessa maneira, pois cada indivíduo é capaz de fazer um juízo
próprio sobre as coisas, e não se deve impor um único juízo de valor a todos.
Chaui vê a ética de várias formas, agindo em vários campos e nos afirma que somos
capazes de criar novas possibilidades de viver dentro de valores e normas.
A ética se move nos campos das paixões, dos desejos, das ações e dos princípios,
possuindo uma dimensão valorativa e normativa. Por um lado, valores e normas são
exteriores e anteriores a nós, definidos pela Cultura e pela sociedade onde vivemos;
mas, por outro lado, somos sujeitos éticos e, portanto, capazes tanto de interiorizar
valores e normas existentes, quanto de criar novos valores e normas. (CHAUI, 1995,
p.367).
Pode-se iniciar com a primeira grande teoria filosófica da liberdade, escrita por
Aristóteles em sua obra Ética a Nicômaco, na qual ele distingue ética entre teoria e prática.
Esta obra chegou ao século XX pelas mãos de Sartre. Para Aristóteles a liberdade se opõe ao
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que é condicionado externamente e ao que acontece sem escolha deliberada, só é livre aquele
que tem o princípio de tomar a decisão sabendo do seu compromisso com sua ação.
A liberdade é o que se tem para ser sujeito de experiências e, segundo Nietszche, “a
ação mais alta da vida livre é nosso poder para avaliar os valores.”(apud Chaui, 1995, p.367).
Ética a Nicômaco foi escrito entre 335 a.C. a 323 a.C. e é considerado um escrito maduro de
Aristóteles, com o seu sistema filosófico próprio e definitivo.
A ética, nas obras Aristotélicas, é considerada como uma parte ou um capítulo da
política, que antecede a própria política, diz respeito ao indivíduo, enquanto a política
considera o homem na sua dimensão social. A teoria ética filosófica objetiva estabelecer o
bem tanto ao indivíduo quanto à sociedade num todo, pois, o comportamento ético é o que se
considera prudente, ela serve como condução do ser humano à felicidade.
Muito semelhante a Sócrates, Aristóteles tinha seus seguidores que o rodeavam para
ouvir-lhe falar e serem instruídos por ele. À medida que seu conhecimento evoluía, percebia
detalhes da ciência para problemas maiores da conduta e do caráter. Para Chaui (1995), “tratase da espontaneidade plena do agente, que dá a si mesmo os motivos e os fins de sua ação,
sem ser constrangido ou forçado por nada e por ninguém.” (p. 360).
Para falar de ética e política de Aristóteles, compreende-se, então, por política a forma
de vida que melhor corresponde a condição humana, e a ética como a felicidade, sendo a
felicidade relacionada à vida digna. Portanto, destaca a idéia de felicidade aliada a
identificação do melhor governo, compreendendo então, que o melhor governo é aquele onde
se encontra o que se necessita para ser feliz. Para Aristóteles, enquanto a política tem como
finalidade o bem coletivo a ética tem por finalidade o bem pessoal.
A felicidade necessita de bens exteriores, pois as ações virtuosas também dependem
de bens exteriores. O homem feliz necessita de prosperidade, por isso muitos confundem a
felicidade com a fortuna, e não com a virtude. Também podemos nos questionar se a
felicidade é adquirida ou se nos é dada aleatoriamente, ou por providência divina. Se os
deuses eram capazes de proporcionar dádivas aos homens, a felicidade poderia ser uma delas.
Na concepção aristotélica, a noção de felicidade está ligada à ética e possui um papel central
dentro dela. Para Aristóteles, a felicidade consiste na realização humana e no sucesso daquilo
que o homem pretende obter ou fazer.
A preocupação de Aristóteles em termos de Ética, como no restante da sua filosofia,
era encontrar regras claras que possam ser conhecidas, rotuladas, catalogadas. Ele não estava
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preocupado em uma utopia mirabolante, mas em construir uma sociedade com os homens que
estão disponíveis, não com super-homens idealizados, assim tenta construir uma visão de
ética que seja capaz de atender à maioria. A despeito disto traça uma visão aristocrática da
sociedade na qual os méritos de forma alguma equivalem e no qual os homens estão
classificados segundo níveis bastante objetivos, do ponto de vista dele, que faz com que
alguns sejam senhores e outros escravos.
Aristóteles tenta pensar uma sociedade na qual as instituições, baseadas numa análise
das paixões humanas, tentam harmonizar estes sentimentos básicos dos seres humanos de
forma a produzir o melhor resultado possível. Ele busca uma Ética do possível, que não
desrespeite a paixões humanas.
Para Aristóteles, a ciência capaz de determinar qual é o bem supremo ao qual
dedicamos, inconscientemente nossas ações, certamente será a maior dentre todas as artes, a
Política, pois todas as ações dos cidadãos e do estado estão subordinadas às decisões políticas.
Devemos tratar da política com clareza, mas não podemos raciocinar sobre ela da mesma
maneira que raciocinamos nas demais ciências, como a matemática. A ciência política trata de
opiniões, e não há estabilidade nas opiniões.
Porém, conforme Hamlyn, era necessário a experiência para agir no campo da política.
Temos que recorrer a exemplos e às intuições morais que talvez ocorram a pessoas,
mas que não ocorrerão se elas não possuírem o caráter certo e experiência de vida.
Por isso mesmo, diz Aristóteles, a ética não é assunto para jovens, cuja experiência
de vida é insuficiente. Essa alegação mostra como são práticos os interesses de
Aristóteles. (HAMLYN, 1999, p.78).
A virtude era compreendida por Aristóteles como uma prática na medida em que não
depende necessariamente de conhecimento teórico, mas que é construída pelo hábito, pela
ação propositadamente exercitada e repetida, mediante uma faculdade já posta, em potência,
no caráter do homem. Ela seria a forma mais plena da excelência moral e poderia existir em
seres incompletos ainda em formação, como as crianças. A excelência moral, revelada pela
prática da virtude, seria, antes de tudo, uma disposição de caráter e para seu exercício seria
necessário conhecer, julgar, ponderar, discernir, calcular e deliberar.
O comportamento seria, pois, o grande fator distintivo da ética, o modo de agir perante
os outros, perante si próprio, perante os que são próximos, perante a Humanidade. A virtude
ética requer discernimento, justamente por se debruçar sobre coisas passíveis de variações.
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Segundo Aristóteles “às vezes, é difícil decidir o que devemos escolher e a que custo, e o que
devemos suportar em troca de certo resultado, e ainda é mais difícil firmar-nos na escolha,
pois em muitos dilemas deste gênero o mal esperado é penoso[...]” (2001, p.501).
Aristóteles ocupou-se de examinar a natureza da amizade. Nessa direção, esclareceu,
de imediato, que amizade supõe convívio, semelhança, tempo e intimidade. Contudo, se o
amor é emoção, a amizade seria disposição de caráter, o que justifica a racionalidade na
escolha do elenco dos nossos amigos. Amizade supõe, portanto, um pacto de reciprocidade,
de afeição e de generosidade no sentimento, como se, acompanhadas por amigos, as pessoas
se revelassem mais capazes para melhor agir.
Mesmo quando viajamos para outras terras podemos observar a existência
generalizada de uma afinidade e afeição natural entre as pessoas. A amizade parece
também manter as cidades unidas, e parece que os legisladores se preocupam mais
com ela do que com a justiça; efetivamente, a concórdia parece assemelhar-se à
amizade, e eles procuram assegurá-la mais que tudo, ao mesmo tempo em que
repelem tanto quanto possível o facciosismo, que é a inimizade nas cidades. Quando
as pessoas são amigas não têm necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são
justas elas necessitam da amizade; considera-se que a mais autêntica forma de
justiça é uma disposição amistosa. (ARISTÓTELES, 2001, p. 153).
Para ele, percebe-se, que a perfeita amizade não seria aquela que procura o auxílio ou
a assistência do amigo, mas, a que desinteressada, ocorre entre iguais, seria o reconhecimento
de si nos atributos do outro. Ao distinguir as várias espécies de amizade, Aristóteles comenta
a existência de um dado modo de se relacionar com os outros, que tem a ver com um suposto
interesse comum como a disposição amistosa para fomentar a concórdia que nos parece ser
um elemento primordial nas relações profissionais caso tenhamos o propósito de construir
coletivamente uma ética da amizade.
Para Aristóteles o amigo é um outro de si, possibilidade de autoconhecimento.
Conhecemo-nos olhando para o outro. Devido a nossa finitude, procuramos atingir à perfeição
moral no espelhamento do outro. É um momento essencial da vida feliz e implica
reconhecimento, bondade e reciprocidade, atingindo a expansão social do eu. Assim, a
amizade também é um bem supremo, um valor que nos conduz à eudaimonia, vivência da
plenitude humana, mediada com amigos bons e vida contemplativa.
A Ética Docente
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A ideia de ética, quando comprometida com o espaço público, situa-se como reflexão
sobre o sujeito à procura de normas passíveis de ancorar seu padrão de conduta. Isso supõe
escolha e adesão a determinados valores, mas supõe também o compromisso e a
responsabilidade para manter e sustentar a opção efetuada na particularidade das situações
vividas no dia-a-dia. O profissionalismo poderia ser pensado como a adequação de tal
finalidade na vida rotineira das instituições.
O modo de ser das pessoas, compreendido como ética, é o comportamento que ela
deve apresentar diante de diversas situações cotidianas. Na área docente, a ética necessita
estar sempre presente, pois, no espaço escolar, trata-se de diversos assuntos que carecem de
uma abordagem ética em todos os sentidos. A ética do docente se distingue diante do seu
comportamento, seu modo de agir perante o outro. Este era o fator distintivo da ética
aristotélica. O docente atua com seres humanos, tanto alunos, quanto pais, professores,
colegas, comunidade, cada qual com suas características e forma de agir e pensar e a atitude
ética precisa estar sempre presente nestes e em todos os momentos. Sua conduta em
determinada situação pode ser negativa ou positiva, segundo sua consciência e distinção do
que é certo ou errado.
Dentre as várias condições que se faz necessário para ser ético, o discernimento é uma
qualidade que leva à verdade e uma forma de excelência moral que corresponde a uma parte
do intelecto que torna possível a conduta ética. No ambiente de trabalho, o docente necessita
de responsabilidade para avaliar os efeitos e as conseqüências de suas ações ao dirigir-se ao
familiar de um aluno, ao comentar sobre algum colega, ao dirigir-se ao seu gestor. O mesmo
deve acontecer com o gestor quando necessitar chamar a atenção de algum professor, que a
faça em particular e não em reuniões com todo o grupo docente.
Muitos conflitos podem gerar ao se falar em ética, pois cada indivíduo tem o seu juízo
próprio sobre as coisas, somos diferentes em nosso modo de ser, agir e pensar. Conforme
Aristóteles, devemos pensar numa ética do possível, que não desrespeite o outro. Temos a
liberdade, o livre arbítrio, mas é necessário ter a consciência do compromisso com nossa
ação, pois, para cada ação há uma reação. Entretanto, pode-se dizer que a dignidade está
relacionada com a ética e, consequentemente, com a felicidade. Se para Aristóteles, o melhor
governo é aquele onde se encontra o que se necessita par ser feliz, então, a melhor escola é
aquela onde existe a felicidade, tendo um guia, que com exemplos éticos, conduza os seus
profissionais com caráter, moral e dignidade.
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Todavia, as virtudes do comportamento traduzem-se no hábito e não no postulado de
intenções. Será, portanto, necessário percorrer com ética a própria vida, posto que é mais
trabalhoso agir pelo bem do que dizê-lo. Tal cuidado justifica-se também quando nos
apresentamos às gerações mais jovens, isso nos faz refletir sobre quais são os exemplos que
demonstramos pela ética do hábito. Para Aristóteles, ética e política são práticas, que se
definem pela ação. Agindo eticamente é que adquiro a prática da virtude. Educando com
correção é que nos tornamos educadores. Reale afirma que, a ética é o “[...] estudo da conduta
ou do fim do homem como indivíduo [...],” e a política é o “[...] estudo da conduta ou do fim
do homem como parte de uma sociedade [...].” (1990, p. 203). Para possuir a virtude, sendo
construída pelo hábito, se faz necessário que o docente saiba julgar, ponderar, discernir e
deliberar para não permitir que poderes externos o manipulem, desvirtuando seus
pensamentos em favores alheios. É preciso ter opinião própria e saber discernir nas diversas
situações.
A amizade para Aristóteles supõe convívio, e a convivência diária dos docentes requer
afeição, reciprocidade, generosidade para que o ambiente seja harmonioso, e assim,
acompanhado por amigos, nos revelamos capazes de melhor agir e enfrentar as diversas
intempéries da rotina profissional. Se a ética requer a vida ativa, o indivíduo atua como ser
ético perante os outros. Não se pode ser ético quando não se convive, e é através da esfera
pública e coletiva que possibilita a expressão da virtude. Se, por sua vez, a vida boa acarreta
felicidade, e se a vida boa é a vida digna, parece lícito conferir significados comuns e
partilhados às ações individuais tomadas em relação aos outros.
Aristóteles, em sua ética, referiu-se também à amizade, afirmando que o homem,
mesmo aquele que alcançou os mais altos níveis de intelectualidade, continua sendo o vivente
sociável e nascido para a vida em comum. Seria, assim, estranho pretender que, mesmo
aqueles que exercem a atividade mais elevada e agradável, a contemplação, pudessem viver
solitários e encerrados em si mesmos. E também, é necessário que toda a sociedade brasileira
se conscientize do benefício da ética, e do crescimento proporcionado por tal atitude,
aplicando esta em todas as ordens da vida humana. Seguir a virtude pode transformar as
pessoas, seus propósitos, e as relações sociais. Assim, torna-se imperativo transmitir novos
pensamentos às gerações, de agora e do futuro, que conduzam ao integrar e reintegrar de
princípios éticos e morais, como também do dever cívico para conquista de seus direitos. A
sociedade e suas várias ordens têm suas parcelas de importância e seus papéis primordiais
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como transformadoras das percepções e do comportamento humano.
Considerações Finais
Viu-se, portanto, que o objeto da ética aristotélica é o estudo da felicidade como
supremo fim ou bem do ser humano. Mas, como a condição fundamental para a realização da
felicidade é a virtude, e esta só pode ser adquirida mediante exercício e esforço, o homem tem
que desenvolver mecanismos de ação que garantam a sua aquisição. Tais mecanismos são a
educação e as leis. A educação deverá desenvolver no homem os hábitos virtuosos e as leis
organizarão e protegerão o exercício da virtude pelos membros da sociedade. Para Aristóteles,
as virtudes intelectuais são as melhores, porque a melhor parte do homem é aquela que
concebe um princípio racional.
Pode-se concluir, afirmando que a ética tem o seu prolongamento no que se constitui
no ápice da filosofia prática: a política. Porém, vê-se que, atualmente, todo este pensamento e,
principalmente, todos estes valores estão se desintegrando da essência do povo brasileiro
compondo a crise ética vivida neste momento. Percebe-se a necessidade da responsabilidade
para uma ação ser considerada como moralmente válida. Afirma-se ainda, a necessidade da
responsabilidade para uma ação ser considerada como moralmente válida. Para tanto, não há
moralidade em uma ação irresponsável, ou naquela em que o sujeito não agiu com pleno
conhecimento. Neste cenário, se faz elementar a existência de códigos éticos nas atividades
humanas, políticas, profissionais e empresariais, no anseio do bem comum, para o convívio
harmonioso em sociedade.
Se conseguirmos nos educar e até inculcar os nossos cidadãos a partir da concretização
de tais postulados, será possível um futuro onde não cresça o oportunismo, em detrimento da
integridade. Cada educador e cada pessoa envolvida no processo de educação,
individualmente mudando sua conduta, optando pela consciência ética para suas decisões e
atitudes, pode transformar, através do exemplo, os indivíduos que fazem parte do contexto
escolar.
REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. trad: Mário Gama Kury. 4ªed. Brasília: UNB, 2001.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 3ªed. São Paulo: Ática, 1995.
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HAMLYN, D. W. Uma História da Filosofia Ocidental. Trad. Ruy Jungmann. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São
Paulo: vol. 1, 3ª ed. Paulus, 1990.
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