UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO E ARTES
Ciências da Comunicação
Filosofia
TEORIA DA LINGUAGEM
Ano Lectivo 2004/2005
Docente: ANDRÉ BARATA
Objectivos:
I.
II.
III.
Apreender os conceitos metodológicos fundamentais da teoria da
linguagem;
Compreensão e discussão das principais opções teóricas a respeito
dos seguintes âmbitos problemáticos: relação entre linguagem e
realidade, significação linguística e referência;
Problematizar a relação inter-linguística a respeito do estatuto da
tradução e intra-linguística a respeito do estatuto da metáfora.
PARTE I: NOÇÕES BÁSICAS
I.
Os conceitos de Linguagem, Língua e Fala
1. A interdependência entre os três termos
2. Análise das díades Linguagem/Fala, Linguagem/Língua, e Língua/Fala
3. Distinção entre sentido próprio e impróprio a respeito do emprego do
conceito de Linguagem.
4. Os critérios saussurianos para a distinção Língua/Fala (Langue/parole)
5. Pontos de crítica aos critérios de Saussure: o argumento de Searle e o
argumento da gramática generativa.
6. Os critérios de Todorov e Ducrot para especificar uma Língua dos simples
sistemas de signos, e estes dos simples códigos: sistematicidade, significação
e secundaridade.
II.
Os conceitos de Competência e de Performance
1. Programa de Chomsky de passagem de um ponto de vista classificatório
(normativo ou descritivo) para um ponto de vista explicativo.
2. Distinção entre Competência e Performance por excesso e por defeito
(critérios de Ducrot e Todorov).
3. Analogia, e seus limites, com o par "Langue"/"Parole" de Saussure.
III.
Os conceitos de frase, enunciado, proposição, texto e discurso
1. À mesma frase podem corresponder diferentes enunciados; à mesma
proposição podem corresponder diferentes frases.
2. O enunciado como exemplar ("token") de uma frase ("type"); o enunciado
como realização de uma frase; o enunciado como investimento semântico numa
frase.
3. O texto como sequência de frases; o discurso como sequência de
enunciados.
4. A proposição como conteúdo ou significação do enunciado.
5. A frase enunciada como unidade básica da Semântica (em contraste com a
Semiótica que tem por unidade básica o signo).
IV.
1. A
2. A
3. A
4. A
5. A
Dualidade na Significação
distinção entre intensão e extensão (R. Carnap)
distinção entre sentido e referência (G. Frege)
distinção entre significatio e suppositio (P. Hispano)
enunciação como condição da referencialidade das frases (P. Strawson)
dependência referencial da significação (P. Ricoeur)
V.
Planos da Significação
1. A oposição entre denotação e conotação (J. Stuart Mill).
2. A oposição entre eixos sintagmático e paradigmático da significação (F.
Saussure).
3. As equivalências entre sintagmático e metonímico, e entre paradigmático e
metafórico (R. Jakobson).
4. A distinção entre denotatum e designatum (Ch. Morris).
VI.
A intersubstituividade de unidades lexicais
1. Relações paradigmáticas e intersubstituividade salva veritate de termos
co-referenciais (de acordo com a 3.ª lei de Leibniz)
2. A intersubstituividade metafórica de termos que partilhem conotação
2. O problema da impossibilidade de intersubstituividade salva veritate no caso
das atitudes proposicionais (como "creio/desejo que p")
VII.
Semântica dos termos singulares
1. Termos singulares versus termos gerais
2. Espécies de termos singulares
3. Nomes próprios (definição de Stuart Mill)
4. Descrições definidas (definição de Bertrand Russell)
5. Distinção entre referência directa e referência mediada
6. Distinção entre designação rígida e designação flexível (definição de Saul
Kripke)
7. Necessidade e contingência na designação (definições de Kripke com recurso
à "Semântica dos mundos possíveis")
8. Distinção entre uso referencial e uso atributivo de descrições definidas
(definição de Keith Donnellan)
PARTE II – LINGUAGEM, REALIDADE E REFERÊNCIA
I. Convencionalismo versus naturalismo
1. Introdução à problemática relativa à relação entre linguagem e realidade
2. Definição de Semânticas realistas e, dentro destas, das convencionalistas e
das naturalistas.
3. O debate entre “convencionalismo” e “naturalismo” no Crátilo de Platão
4. A dupla tese de Platão - pela negativa: rejeição da arbitrariedade
convencional; - pela positiva: a estrutura fonética das palavras contribuir para
o sentido destas.
5. Duas Questões: Haverá uma semântica da fonética? E se sim, é ela natural ou
também ela convencionada.
6. Convencionalismo e não convencionalismo no plano sintáctico - o exemplo
de Leibniz (No "Diálogo", 1677.)
7.A tese da correspondência (não convencional) entre estrutura ontológica e
estrutura gramatical.
8. O conceito de "isomorfismo"
II. A Filosofia da Linguagem do Tractatus Logico-Philosophicus de L.
Wittgenstein
1. Duas teses gerais em discussão: O atomismo lógico e a teoria figural da
linguagem ("picture theory of language”).
2. As noções de "mundo", "estado de coisas", "facto atómico", "objecto",
"forma pictorial", "estrutura".
3. A decomponibilidade do mundo, enquanto totalidade de factos, em factos
atómicos.
4. Os conceitos de "imagem", "imagem lógica", "configuração".
5. A posse da forma pictorial como condição da representatividade de uma
imagem.
6. As noções matemáticas de "aplicação" e de "isomorfismo".
7. Problemas relativos à ideia de aplicação isomórfica no quadro de uma teoria
da linguagem - e.g., o paradoxo do nomeado ser nome do nome.
8. A correspondência entre relações da mesma natureza - espaço/espaço (e.g.,
a representação espacial de um objecto espacial).
9. A noção de "espaço lógico".
10. Representação da proposição através de coordenadas do espaço lógico. A
representabilidade de tudo o que pode ser o caso no espaço lógico.
11. A noção de pensamento no Tractatus.
12. Os limites da linguagem como limite do mundo.
13. Breve análise das proposições finais do Tractatus
III. A Teoria da Linguagem das "Investigações Filosóficas" de Wittgenstein
1. A noção de jogo e a sua indefinibilidade
2. Crítica ao modelo agostoniano de aprendizagem de uma Língua (toma-se a
parte pelo todo, uma espécie de jogo pelo género)
3. As ideias de "jogos de linguagem" e de "usos de linguagem".
4. O uso como significação
5. A importância dos contextos situacionais e de acção para a determinação do
significação.
6. As noções de "finalidade" e de "regra" como aspectos característicos dos
jogos de linguagem.
7. Exemplos de Wittgenstein, em particular o do pedreiro e do servente.
IV. Externalismo e internalismo semântico
1. A crítica de H. Putnam às "teorias mágicas da referência" - os conceitos de
representação, semelhança e intencionalidade; o mito da representatividade
intrínseca das representações mentais.
2. A defesa de H. Putnam de uma "teoria causal da referência".
3. Apresentação do argumento da Terra Gémea de Putnam.
4.Discussão do argumento como refutação do descritivismo.
5.Contraste entre internalismo semântico e externalismo semântico.
6. Discussão das condições de conhecimento para o uso de termos
referenciais.
7. A teoria de Jackendoff (1983) como alternativa quer ao descritivismo quer à
teoria causal - os referentes não são do “mundo real”. (Contraste com o 1.º
Axioma da referência dos Actos de Fala de Searle).
8. A distinção entre mundo real e mundo projectado.
9. O argumento perceptual de Jackendoff
10. A experiência de pensamento de "Cérebro numa cuba" - a relevância da
teoria causal da referência para esta experiência. O exemplo cinematográfico do
"Matrix".
11. Discussão do argumento de Putnam - possíveis objecções dentro da teoria
causal da referência e no âmbito de outras teorias semânticas.
PARTE III – METÁFORA, TRADUÇÃO E VISÕES DE MUNDO
I. O problema da metáfora
1. Metáfora versus comparação
2. Metáfora versus ambiguidade
3. Sentido metafórico versus sentido literal (Davidson)
4. Metáfora viva (Ricoeur)
5. Metáfora e comunicação
II. O problema da tradução
1. Tradução do sentido e tradução da referência
2. O “espírito” e a “letra” na tradução
3. A tese quineana da indeterminação da tradução
4. A experiência de pensamento da "tradução radical" (o problema da tradução
de "gavagai")
III. Tópicos quineanos
1. Consequências da tese da indeterminação da tradução para a semântica - i) o
ataque quineano à concepção mentalista do sentido (meaning): a comparação
dos sentidos com os objectos de um museu ("Mudar de linguagem como
mudar de legendas"); ii) a alteração do estatuto autónomo da proposição e da
sua distinção face aos enunciados linguísticos.
2. A tese da indeterminação da referência/inescrutabilidade da referência
3. A tese da relatividade ontológica
4. Crítica à ideia de reflexividade da Linguagem
5. A possibilidade de diferentes discriminações objectais do mundo
IV. Tópicos derrideanos
1. O ponto de partida saussuriano - a noção de valor do signo e a tese de que
na Língua não há senão diferenças.
2. A produção diferencial do sentido.
3. As oposições sensível/inteligível, espaço/tempo como resultados do
movimento da produção diferencial.
4. A noção de "difrença" (différance) como esse movimento produtor do duplo
diferir temporal e espacial (diferimento e diferença).
5.As noções de "marca" e "arquiescrita".
6. A descontrução do "fonocentrimo" e do "logocentrismo"
7. O projecto de uma "gramatologia"
8. A leitura de "A colónia penal" de Kafka à luz das teses de Derrida
V. A tese da relatividade semântica
1. Humboldt - Língua e visão do mundo; Língua como nação.
2. Sapir e Whorf - a tese de que a discriminação linguística de um falante influi
na sua discriminação perceptiva. Argumentos a favor e objecções.