Moda Documenta: Museu, Memória e Design – 2015
A MODA E SUA LINGUAGEM COMO AGENTE NA INCLUSÃO DA PESSOA COM
DEFICIÊNCIA
The Fashion and language as Agent in the Inclusion of People with Disabilities
Renata Fambelio Gomes Mariano (EACH-USP)
[email protected]
Resumo: A vestimenta surge como um elemento funcional, com o objetivo de proteção do
homem em seu meio, com o passar da história a vestimenta evolui permeando gostos, atitudes
num complexo sistema sociocultural e econômico conhecido como moda. Este artigo ressalta
a importância dos signos da moda na sociedade e tem a função de comunicar. Portanto é capaz
de ser um agente de inclusão social das pessoas com algum tipo de deficiência que querem e
precisam fazer parte destes jogos de signos, pois também fazem parte desta sociedade.
Palavras-chave: Moda, Comunicação, Pessoas com Deficiência.
Abstract: The clothing comes as a functional element, with the objective to protect the man in
their environment. Over the history of the garment evolves, permeating their tastes, attitudes in
a complex socio-cultural and economic system known as fashion. This article highlights the
importance of fashion signs in society and its communicator function capable of being an agent
the social inclusion of people with a disability, who want and need to be part of these games
signs, after all they are part of this society.
Keywords: Fashion, Communication, People with Disability.
O princípio do ato de se vestir vem da necessidade do homem de se proteger do frio
usando pele de animais e trançados de fibras, usavam elementos para cobrir as partes intimas
e partes sensíveis das agressões do clima. A indumentária se torna importante para o homem,
pois é através de seus adornos e a possibilidade de caracterizá-la, torna-se possível a
identificação de hierarquias, a diferenciação de tribos, e as demonstrações da cultura local, É
a demonstração da linguagem não verbal representada pelas roupas, por meio das cores,
adornos, comprimentos e quantidades de tecidos utilizadas, que funcionavam como símbolos.
Cada período da história é caracterizado por um estilo, e conforme as civilizações iam
alterando a sua necessidade de mudança a forma de vestir alterava também. Segundo
Lipovetsky (1989), durante muitos milênios a vida no coletivo viveu sem a veneração da
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novidade, fantasia, e efemeridade da moda como é atualmente. Somente a partir na Idade
média no ocidente é possível reconhecer um sistema de mudanças, extravagâncias e a
necessidade constante de se assemelhar a uma classe e se diferenciar de outras. Assim
nasceu a moda.
A palavra moda quando pensada no seu significado etimológico abrange um
comportamento coletivo num determinado contexto social, apesar de ela estar
instantaneamente relacionada a vestimenta. Porém, segundo o dicionário Houaiss:
[...] maneira, gênero, estilo prevalecente (de vestuário, conduta
etc.; conjunto de opiniões, gostos e apreciações críticas, assim
como modo de agir, viver e sentir coletivos, aceitos por
determinado grupo humano num dado momento histórico [...]
A partir dessa definição é possível pensar na moda como um polvo, onde seus tentáculos
atingem diferentes setores do comportamento social. O que a torna um fascinante objeto de
estudos.
Integrada num contexto social, a indumentária é capaz de identificar indivíduos, classes
sociais, etnias e religiões. É por intermédio das roupas que é possível identificar uma época da
história, um comportamento, um padrão de beleza, sendo assim, é possível pensar no vestuário
como um sistema de códigos com inúmeros significados coletivos. Conforme Raslan, Dorinelles
(2010) os códigos são criados de acordo com a cultura social se desenvolvendo naturalmente,
sem que precise ser explicado, é como uma outra forma de linguagem, as autoras ainda citam
Morim (1996), que afirma a interpretação desses símbolos como um processo de auto
descoberta e compreensão, e esses símbolos não só apresentam significados diferentes para
pessoas diferentes, mas também significados diferentes para uma mesma pessoa, em
conformidade com as circunstâncias. E a moda como vestuário faz exatamente isso, uma
tendência pode ser absorvida de diversas maneiras por diversas pessoas ou mesmo uma
mesma peça de roupa pode ser usada de diversas maneiras diferentes, adquirindo muitos
estilos para uma mesma pessoa dependendo das intenções, das combinações e das
circunstâncias em que for usada.
A moda, seus signos e significados
Em concordância com as reflexões de Calefato (2004) a moda, apesar da sua
efemeridade, está sempre fazendo referências ao imaginário social de um grupo específico.
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Aproximando o público alvo com a sensação de identificação ao mesmo tempo gerando o
desejo pelo fato de ser intangível. A sedução da moda se dá pelo desejo de fazer parte de um
determinado grupo e ao mesmo tempo de se diferenciar. E neste jogo ambíguo as pessoas se
agrupam com quem tem os mesmos pensamentos ideológicos, gostos sociais, crenças e
comportamentos criando códigos de se vestir que oferece ao indivíduo uma sensação de
pertencimento e ao mesmo tempo se diferenciar dos demais.
Avaliando a sociedade contemporânea atual, é possível notar a importância cada vez
maior da aparência visual. A moda torna-se um reflexo social. É possível estudar fatos e
comportamentos, mudanças históricas através da indumentária, como por exemplo, o New
Look da Dior, que se tornou um objeto de desejo, luxo e beleza no pós-guerra impulsionando
a imitação, afinal, se a mulher não tinha dinheiro para comprar uma peça da Dior, ela poderia
copiá-la adaptando-a de acordo com seu poder aquisitivo, trazendo a sensação de estar bem
vestida e de pertencer a algo diferente da dura realidade do pós guerra.
Ainda sob o ponto de vista histórico também é possível citar o movimento hippie nos anos
60, que refletia uma forma de viver mais livre, libertária e ideológica. Os hippies se opunham
ao modo de vida americano dos anos 50 e a guerra que estava sendo feita no Vietnã. Este
movimento influenciou não só o comportamento de uma geração assim como revolucionou a
forma de vestir e esta influência perdura até os dias de hoje.
A moda está entrelaçada a sociedade e seus movimentos. A funcionalidade da roupa
perde espaço para os símbolos que ela pode transmitir, graças à globalização dos tempos
atuais e ao avanço tecnológico dos meios de comunicação é possível saber o que está
acontecendo no mundo quase instantaneamente. Devido seu sistema complexo e sua longa
cadeia produtiva cada dia mais globalizada, a moda movimenta a economia de forma
considerável, fazendo um breve resumo simplório desta forma de produção, podemos dizer
que uma marca tem seu escritório no país de origem, produz em outro e revende para o resto
do mundo adaptando seu produto com a cultura local sem perder seu apelo original, e assim
tudo se torna mais fácil de ser homogeneizado, seus símbolos são reconhecidos no mundo
todo, o que demanda uma busca constante pela novidade através da mistura o presente,
passado e futuro. (AVELLAR, 2011, p. 82)
O fenômeno da globalização alterou a forma como consumimos a moda, o símbolo adquire
valor de mercado e a construção deste se dá através da imagem, a aquisição deste símbolo
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insere o indivíduo em uma determinada classe econômica e também cultural, pois torna-se
necessário um conhecimento prévio de outras referências para se dar o devido valor aquele
objeto. É o exemplo da aquisição de um vestido da Chanel, é necessário saber sua importância
histórica, circular em meios onde as pessoas irão reconhecer este vestido e admira-lo, este
vestido também simboliza o poder aquisitivo e possivelmente a influência social da pessoa que
o possui. De acordo com Featherstone (1995) uma vez que a dominância do valor de troca
conseguiu suprimir a memória do valor de uso original dos bens as mercadorias ficam livres
para adquirir uma ampla variedade de associações e ilusões culturais.
Logo, podemos notar que moda está intrinsecamente ligada a cultura de consumo e esta
por sua vez, se relaciona com os símbolos que a moda pode gerar. Uma alimenta a outra, num
círculo até agora sem um limite
[...] 3 perspectivas fundamentais sobre a cultura de consumo... A primeira tem
como premissa a expansão de produção capitalista de mercadorias, que deu
origem a uma vasta acumulação de cultura material na forma de bens e locais
de compra e consumo. Isso resultou na proeminência cada vez maior do lazer
e das atividades de consumo nas sociedades ocidentais contemporâneas,
fenômenos que embora sejam bem vistos por alguns, na medida em que
teriam resultado em maior igualitarismo e liberdade individual, são
considerados por outros como alimentadores da capacidade de manipulação
ideológica e controle sedutor da população, prevenindo qualquer alternativa
"melhor" desorganização das relações sociais. Em Segundo Lugar, há a
concepção mais estritamente sociológica de que a relação entre a satisfação
proporcionada pelos bens e seu acesso socialmente estruturado é um jogo de
soma zero, no qual a satisfação e o status dependem da exibição e da
conservação das diferenças em condições de inflação. Nesse caso, focalizase o fato de que as pessoas usam as mercadorias de forma a criar vínculos ou
estabelecer distinções sociais. Em terceiro lugar, há a questão dos prazeres
emocionais do consumo, os sonhos e desejos celebrados no imaginário
cultural do consumo e em locais específicos de consumo que produzem
diversos tipos de excitação física e prazeres estéticos. (FEATHERSTONE,
1995. p. 31)
Partindo do princípio de que a moda é um sistema de comunicação onde reflete o indivíduo
na sociedade em que ele vive, é possível avaliar a importância da moda e seu papel nas
relações sociais, ressaltando as diferenças e semelhanças dos indivíduos.
Portanto se a moda tem força suficiente para influenciar e criar esses padrões, ela também
pode ter uma forte influência na questão da inclusão de pessoas com deficiência, assumindo
também um papel ativo nesta questão. Afinal o sujeito com deficiência faz parte desta
sociedade, também tem desejos, sofre a mesma influência cultural.
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Muitas vezes essas pessoas apresentam dificuldades em vestir sua própria vestimenta,
dificuldades de escolha e dependência de compra. Eles não possuem a opção de adaptarem
seus corpos para vestirem a roupa, mas a roupa pode como ser adaptada a esses corpos. A
moda e sua sedutora mutabilidade, que através dos artifícios que ela possibilita, é capaz de
transformar e camuflar o que se acredita ser imperfeito (RONCOLLETA, 2004)
A relação entre o corpo e a roupa
A questão que respondemos todos os dias de maneira inconsciente é sobre a forma como
queremos expor o nosso corpo. Conforme Calefato (2004) diz, a aparência corporal como
adesão estética é determinada pela roupa, música, literatura, cinema e rotinas diárias, ou seja,
a moda está além da indumentária, está ligada ao comportamento, ao estilo de vida do
indivíduo e seu grupo de convívio.
Nos tempos atuais a aparência é essencial para o indivíduo e seu meio de convívio e a
roupa é capaz de dar a sensação de poder, sucesso e bem estar. É o prazer que se tem em
ver e ser visto pelas pessoas que circundam no seu ambiente social. É comunicar-se sem
palavras. Bourdieu (2007, p. 112), afirma que onde todos têm acesso às inovações, a moda
ainda pode indicar também posição social ou status, uma vez que pessoas emitem julgamentos
a respeito da importância das outras de acordo com o que vestem.
Apesar de toda a simbologia da indumentária, o seu suporte é o corpo, teoricamente é pra
ele que a roupa é pensada, De acordo com Suzana Avelar (2011), que ressalta a relação entre
a roupa e o corpo cumprindo um papel comportamental já que a moda se manifesta na roupa
que é usada todos os dias, deixando a mostra nossos gostos e hábitos, fazendo parte do que
somos, sugerindo nossa inserção social em determinados grupos. O corpo se torna um veículo
de comunicação e a vestimenta assume um papel que vai além da proteção do corpo. Assim
como a roupa imprime no corpo os signos o corpo imprime na roupa seus movimentos, numa
relação que vai além do indivíduo refletindo uma influência no contexto social desta pessoa,
assim como a sua posição neste meio.
A roupa é a nossa segunda pele, por mais que muitas pessoas usem a mesma roupa
nunca ficará igual, visto que, cada corpo se difere um do outro no aspecto físico e também na
forma de se movimentar, de se comportar. Assim afirma Avellar (2011) que o elemento
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fundamental da diferenciação é o corpo e a maneira como a cultura é incorporada a ele, por
mais q se discuta a homogeneização da maneira de se vestir.
As pessoas constroem seus mundos que muda constantemente de tempos em tempos,
de acordo com seus interesses pessoais, culturais e econômicos. Assim moda por meio de
seus códigos transmite ao indivíduo ferramentas pra ele compor esse mundo da maneira como
ele quer ser visto, buscando uma aceitação social coletiva. O mesmo individuo, por intermédio
do vestuário e intervenções no próprio corpo pode estar em busca de quebrar com padrões
pré-estabelecidos, impondo a sua individualidade, criando novos paradigmas, influenciando e
sendo influenciado, resultando num constante movimento da moda, que está se renovando
constantemente.
Nota-se que a moda é capaz de padronizar corpos, introduzindo “regras” em forma de
tendências, que são amplamente difundidos pela grande mídia, e outros veículos de
comunicação de massas, pode ser citado como exemplos de “tendências” os seios grandes, a
magreza e a juventude eterna, resultando para pessoas “fora dos padrões” uma corrida para
se chegar ao “corpo perfeito”, para isso muitas pessoas, vão além dos truques proporcionados
pela roupa e recorrem a alterações físicas permanentes, na busca de uma aceitação social, do
símbolo de beleza e bem estar. A mesma moda que muda rapidamente suas tendências
apresenta com a mesma agilidade soluções para que seja possível seguir essas tendências,
auxiliadas pela tecnologia, são apresentadas desde alterações superficiais como a maquiagem
até intervenções cirúrgicas e implantações de próteses e membros, transformando os corpos,
é o que afirma Roncolleta (2004).
Mas não é de hoje que as alterações corporais são praticadas, o corpo é um suporte que
pode ser utilizado para abrigar vários códigos. As pinturas, tatuagens, mutilações, alterações
de volumes são realizadas há muitos anos e por muitas culturas, podem ser carregadas de
significados ritualísticos, hierárquicos, sociais ou somente por uma questão estética é o caso
de muitas tribos indígenas brasileiras que pintam seus corpos para rituais, festas e celebrações.
Pode ser citada também a máfia japonesa yakuza, seus membros se tatuam quase o corpo
todo com desenhos dos clãs a que pertencem, suas hierarquias e símbolos de proteções, além
do fato de o próprio ato de se deixar tatuar e resistir a dor também tem seu significado dentro
da máfia.
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Na sociedade moderna as alterações corporais são vistas, a princípio, com um certo
preconceito, pois estão fora dos padrões de beleza convencionais, a tatuagem por exemplo até
os anos 90 era algo subversivo, hoje em 2015 é muito comum encontrar pessoas que tenham
pelo menos uma pequena escondida pelo corpo. Porém antes dessas fugas de padrões serem
absorvidas pela sociedade, ela serve de inspiração para os criadores de moda que com o olhar
treinado para observar o que não é comum, se embriaga na forte das múltiplas maneiras que
as pessoas são capazes de interferir em seus próprios corpos.
Pensando nessas alterações corporais muitos estilistas foram além de moldar o tecido ao
corpo, através da aplicação de volumes, são capazes de criar estruturas que transformam o
corpo vestido alterando suas formas. Rei Kawakubo cria verdadeiras ilusões corporais,
transcendendo suas formas se valendo de diversos materiais para criar estruturas ousadas.
Como descreve Evans (2007), a grife Comme dês Garçon’s de Rei Kawakubo em 1997 criou
um “Vestido que se torna Corpo”, com acolchoado de pena almofadado assimetricamente no
quadril e entre os ombros nas costas, causando a estranheza do corpo, apontando para
questionamentos sobre a beleza e o corpo. Evans ainda reflete a mistura que ocorre nesta
coleção entre o vestido e o corpo q o está vestindo, quem veste quem.
O corpo personificando a moda por meio das extrapolações de volumes e interferências
tecnológicas leva a observar até onde o corpo que conduz a criação da indumentária ou a
indumentária conduz a estética do corpo. Essa questão vale ser estudada de forma mais
profunda em outra oportunidade, para tanto essa observação resulta na seguinte reflexão, se
por meio da indumentária podemos extrapolar formas de corpos “normais”, a mesma
indumentária também pode redesenhar, ressaltar, e até mesmo complementar corpos que
possuem algum tipo de deficiência física e/ ou sensorial, A moda na junção da indumentária
com a tecnologia introduz a pessoa com deficiência ao seu universo fascinante de signos,
desejos e sensações e pode ir além facilitando a vida dessas pessoas, oferecendo a elas mais
autonomia na escolha e no vestir.
A pessoa com deficiência, a sociedade e a Moda
Entende-se como pessoa com deficiência, os indivíduos que apresentam algum problema
de funcionamento motor ou sensitivo, falta de parte anatômica ou alguma anomalia congênita
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que dificulta em vários níveis a locomoção, percepção, pensamento ou relação social. Essas
pessoas representam 23,4% da população Brasileira total, segundo o censo de 2010.
As deficiências podem ser congênitas ou adquiridas durante a vida, e isso dificulta a sua
relação com a sociedade já que a mesma não está plenamente adaptada para inserir estes
deficientes. Porém segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos do Homem,
proclamada pela ONU, em 1948, aponta em seu artigo 1: Todos os seres humanos nascem
livres e iguais em dignidade e direitos e, dotados que são de razão e consciência, devem
comportar-se fraternalmente uns com os outros...
Partir desta premissa, atualmente muitos setores da sociedade tem trabalhado para
garantir esses diretos, e a moda com a sua importância sócio cultural não poderia se abster
dessas iniciativas. Para Roncolleta (2004) só é possível a relação do universo da moda com a
pessoa com deficiência a partir do momento em que este indivíduo começa a fazer parte desta
sociedade de forma efetiva. Para que isto ocorra, a sociedade conta com estudos e tecnologias
voltadas para esta inclusão na área da educação, design pensado para a acessibilidade em
locais públicos, na área médica e psicológica, com o intuito de possibilitar ao deficiente o
desenvolvimento de suas capacidades tornando-o produtivo e por isso mesmo reconhecido em
seu meio.
Todas essas iniciativas são muito recentes, no Brasil principalmente, no caso da moda é
no fim dos anos 90 que se nota um interesse em desenvolver estudos e produtos direcionados
para este público, inspirados em estilistas de outros países que se interessavam pela questão
da deformidade do corpo. Alexande McQueen começou abordando em seus desfiles temas
como o câncer de mama e a ausência de membros, é quando surge a vontade de extrapolar
os conceitos de beleza estabelecidos pela sociedade. É o corpo estranho transformado e fora
dos padrões que aguça a curiosidade.
É também nos anos noventa que surge uma maior preocupação em criar uma
indumentária ergonômica para este público. No entanto, segundo a pesquisa feita por
Roncolleta (2004), no exterior a confecção pioneira neste segmento é a Silvert’s. de origem
Canadense que desde os anos 60 já criava produtos que facilitassem o ato de vestir e fossem
confortáveis. Até hoje eles comercializam peças que podem ser adquiridas pela web. É citada
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também a marca Able Apparel, Norte Americana, que é voltada para pessoas com dificuldades
de mobilidade.
No Brasil existem pouquíssimas marcas especializadas neste segmento. Havia a marca
Urano que desenvolveu uma linha de roupas masculinas voltadas também para o deficiente
visual. Hoje existem as marcas Adaptwear e Lado B, ambas tem loja virtual.
Existem iniciativas que estimulam o estudo e a criação de peças ergonômicas que facilitam
a vida dessas pessoas. É pensar a roupa dando ênfase a textura, conforto, adaptabilidade ao
corpo e seus adornos (como próteses, cadeiras, bengalas) o uso de aviamentos que facilitem
por e tirar peças, pensar na localização das costuras, e acesso a informações básicas das
peças. Uma das referências no assunto é a professora e modelista Fátima Grave, que voltou
seus estudos para desenvolver uma modelagem ergonômica, que facilita a vida de pessoas
com dificuldades motoras.
Em entrevista à Folha de São Paulo, Fátima ressalta pontos importantes em uma roupa
ergonomicamente pensada:
A ergonomia trata da linguagem do corpo, das suas formas e dos seus
movimentos. Nesse conceito, buscamos resgatar as funções dos recortes e
das costuras, a posição dos pontos e dos bolsos, valorizando a liberdade e
levando em conta um ser que pensa que sente e que age. Não é apenas sair
colocando velcros nas roupas, mas analisar como o indivíduo vai interagir com
eles. Quase todo deficiente físico usa bolsas para carregar documento,
dinheiro ou caneta, porque eles são ativos, mas acham o acessório feio. Aí
aderimos ao utilitário, um bolso feito com o próprio tecido e com velcro, que
pode ser fixado à roupa e tirado quando a pessoa quiser. É possível fazer uma
modelagem ergonômica, uma roupa com caimento perfeito, elegante e que
não prejudique o corpo. (Fátima Grave, entrevista 06/06/2003, para Folha de
São Paulo/Folha Equilíbrio)
Temos também iniciativas como o Rea Fashion, um desfile de moda exclusivo para
deficientes que era realizado durante a Feira Internacional de Tecnologia em Reabilitação e
Inclusão – REATECH. Este evento teve duração de 2002 a 2012, era uma parceria entre a
Modelista Fatima Grave, Fundação Selma, e a organização desta feira. Este evento chamou a
atenção para estas pessoas e gerou novos frutos como o Concurso de Moda para o deficiente,
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promovido pela Secretaria Estadual da Pessoa com Deficiência de São Paulo, que está no seu
7° ano, estimulando estudantes de moda a perceberem e estudarem este público.
Estas iniciativas também impulsionam estudos acadêmicos, onde é possível investigar
cada vez mais o universo desses deficientes, passando a conhecer suas dificuldades, desejos
e pensando em possibilidades de tornar a moda acessível. Pode ser citado o grupo de estudos
voltado para a questão da moda e a deficiência visual onde professores e alunos da USP,
Unifesp, Anhembi Morumbi, em parceria com o Instituto Dorina Nowill e outros profissionais
ligados a este interesse de estudos. Esses profissionais podem levantar questionamentos,
aprofundando o conhecimento sobre os assuntos que envolvem a pessoa com deficiência.
Tornando possível a aproximação da moda e seus signos, e buscando soluções para
englobar a pessoa cega ou que apresente baixa visão no mundo da moda, oferecendo
acessibilidade, independência e possibilidades de escolhas. Assim a moda pode auxiliar
beneficamente os aspectos psicológicos e sócio culturais destes indivíduos. É pensar a moda
como um agente comunicador unindo as pessoas e suas diversidades numa mesma
sociedade.
Considerações finais
Tendo em vista os aspectos observados conclui-se que a moda ligada ao vestuário é um
elemento de fundamental importância para a inclusão social de pessoas com deficiência,
devido à importância social e cultural dos símbolos que ela proporciona e da forma múltipla
como a moda é capaz de usar o corpo como suporte de expressão e comunicação não verbal.
Esta possui ferramentas suficientes para se adaptar a essas pessoas através da ergonomia,
substituições de aviamentos e tecidos tecnológicos, amplia-se o conceito social de normalidade
e beleza, proporcionando bem estar, sensação de status, poder, conforto e integração social
para essas pessoas assim como para todas as outras que compõem a sociedade
contemporânea.
Nota-se iniciativas tímidas mas de extrema importância, como desfiles, concursos,
pesquisas acadêmicas, iniciativas de mercado pra que essa inclusão aconteça definitivamente.
O deficiente pode e deve ser visto como um público-alvo, um nicho de mercado e um segmento
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a ser estudado com a atenção devida. Afinal eles fazem parte da sociedade, tem os mesmo
desejos e querem fazer parte ativamente do meio em que vivem.
Uma sociedade que se adapta ao que é diferente do comum vive muito melhor, portanto,
facilitando a vida dessas pessoas consequentemente facilitará a vida de todos.
Referências
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AVELAR, Suzana. Moda, globalização e novas tecnologias. 2a. ed. Rio de Janeiro: SENAC
Rio, 2011.
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre:
Zouk, 2007.
CALEFATO, Patrizia. The Clothed Body. Oxford: Berg, 2004
EVANS, Caroline. Fashion at the Edge: Spectacle, modernity, and Deathliness – London; Yale
University Press, 2007
FEATHERSTONE, Mike. Cultura de consumo e pós-modernismo. São Paulo: Studio Nobel,
1995
GARCIA, Carol; MIRANDA, Ana Paula de. Moda é comunicação: experiências, memórias e
vínculos. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2005.
LAVER, James. A Roupa e a Moda: Uma história Concisa. São Paulo: Editora Schwarcz, 2008.
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS – Cartilha do Censo 2010 – Pessoas com Deficiência
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Site
Entrevista com Fátima Grave, Rede Saci, 06/06/2003. Disponível
<http://saci.org.br/?modulo=akemi&parametro=5728 > Acesso em 01-03-2015.
ISSN: 2358-5269 Ano II - Nº 1 - Maio de 2015
em
:
Moda Documenta: Museu, Memória e Design – 2015
DORNELLES, Beatriz C. P., RASLAN, Elaine M. S. A moda, como meio de comunicação, gera
símbolos diferenciados de tecnologia, Caxias do Sul, RS, Conexão- Comunicação e Cultura,
v.9 n17, 2010. Disponível em <http://www.coloquiomoda.com.br/anais/anais/7ColoquiodeModa_2011/GT03/GT/GT89775_GT_Moda_no_contexto_da_comunicacao_na_hi
permodernidade.pdf > Acesso em 05-03-2015
MENEZES, Manita. - MODA NO CONTEXTO DA COMUNICAÇÃO NA HIPERMODERNIDADE
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Paraná:
VII
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2011.
Disponível
em
<
http://www.coloquiomoda.com.br/anais/anais/7-Coloquio-deModa_2011/GT03/GT/GT89775_GT_Moda_no_contexto_da_comunicacao_na_hipermoderni
dade.pdf > Acesso em 05-03-2015.
Dissertação de Mestrado
RONCOLETA, Mariana Rachel. Deformidades Formidáveis: A trajetória dos corpos
transformados e da deficiência física pela moda. Dissertação (Tese de Mestrado). Faculdade
Anhembi Morumbi. São Paulo. 2004. 125f.
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