Turismo de Base Comunitária e desenvolvimento sócio-espacial: análise do Projeto Viagem
Encontrando Marajó na Vila do Pesqueiro-Soure/PA, Brasil
Alessandra da Silva Lobato1
Maria Goretti da Costa Tavares2
Resumo: O trabalho possui como objetivo analisar a experiência de Turismo de Base Comunitária (TBC), com o
Projeto Viagem Encontrando Marajó (VEM), na Vila do Pesqueiro, Soure/Brasil. Foram realizados
levantamentos e revisões bibliográficas sobre o tema, entrevistas semi-estruturadas com os agentes
ordenadores do território voltados para o turismo, representantes da comunidade e moradores que participam
direta ou indiretamente do projeto VEM. Observou-se que a experiência por meio do Projeto VEM, tem
contribuído com melhorias para os comunitários como o próprio incentivo a valorização da cultura local entre
outros. Nota-se que é necessário melhorar a infraestrutura quanto ao sistema de transporte e ao sistema de
comunicação.
Palavras-chave: Turismo de Base Comunitária. Desenvolvimento Sócio-Espacial. Soure.
Introdução
A Ilha do Marajó é considerada a maior ilha fluvial do mundo, com 49.606 Km 2. É marcada
por um acentuado dualismo geográfico: de um lado, se tem a zona de campos que corresponde a
aproximadamente 23.046 Km2 e, de outro, a zona de mata com extensão aproximada de 26.560 km 2.
Apresenta áreas que são inundadas pelas cheias, as várzeas e os igapós que quebram a extrema
horizontalidade do terreno de acordo com o Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do
Marajó (2007).
Segundo o Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do arquipélago do Marajó
(2007), a Mesorregião do Marajó, é constituída de três microrregiões geográficas (MRG): Arari, Furos
de Breves e Portel. A Vila do Pesqueiro está inserida na microrregião do Arari, faz parte do município
de Soure que tem uma extensão de 3.513 Km2.
O município de Soure, assim como os outros da Ilha do Marajó, apresenta uma série de
problemas que afetam diretamente sua população, como o saneamento básico que é um serviço
bastante precário, o nível educacional em grande parte é baixo, os sistemas de energia e água
tratada são deficitários, a degradação ambiental é intensa e as áreas de ocupação espontânea
tendem a crescer. Isso se reproduz nas várias comunidades que fazem parte do município. Apesar
destes vários problemas, vale ressaltar que o município possui uma riqueza tanto natural quanto
cultural que fazem deste local único.
Tendo em vista isso, considera-se que o TBC pode ser considerado um possível vetor de
desenvolvimento para comunidades. Este desenvolvimento pode trazer ao município e as
comunidades, e em especial a Vila do Pesqueiro, uma forma de amenizar os problemas mencionados
1
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Geógrafa, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia/UFPA.
Doutora em Geografia, Professora do Programa de Pós-Graduação em Geografia/UFPA.
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anteriormente e pode ser também, uma forma de contribuir para o crescimento econômico, pois se
observa que as comunidades locais não são inseridas ativamente, ou seja, não participam no
planejamento territorial das ações voltadas ao turismo, na maioria das vezes estas populações são
“inseridas” de forma precária, são mão-de-obra barata que em vários casos não possuem a mínima
qualificação, fortalecem o turismo massificado. No Brasil isto é algo bem visível, se por um lado o
país tem o turismo como o quinto maior gerador de divisas e isto tem criado possibilidades de
desenvolvimento territorial, por outro lado ainda não existe a devida valorização que as
comunidades locais deveriam ter, pois a atividade turística ainda é geradora de impactos sociais,
ambientais, econômicos, entre outros.
Pretende-se com este trabalho analisar a experiência de Turismo de Base Comunitária (TBC)
que está ocorrendo na comunidade Vila do Pesqueiro, município de Soure, Ilha do Marajó-PA,
através do Projeto Viagem Encontrando Marajó (VEM) no sentido de identificar os limites e
possibilidades deste tipo de turismo nesta comunidade. Vale ressaltar que esta comunidade foi um
dos cinquenta lugares selecionados pelo edital 001/2008 do Ministério do Turismo (MTur) que
fomentou o desenvolvimento de projetos de Turismo de Base Comunitária (TBC) a nível nacional. Os
questionamentos que norteiam o desenvolvimento desta pesquisa levam em consideração quais as
bases teórico-conceituais do Turismo de Base Comunitária; Em que medida o Turismo de Base
Comunitária, por meio do Projeto VEM- Viagem Encontrando Marajó pode possibilitar o
desenvolvimento territorial e sócio-espacial da Vila do Pesqueiro; Houve transformações na Vila do
Pesqueiro com a instalação do Projeto VEM.
Para se alcançar os objetivos propostos na pesquisa foram realizadas as seguintes etapas
inicialmente, partiu-se de levantamentos e análises bibliográficas sobre a Ilha do Marajó, o município
de Soure, a Vila do Pesqueiro e o Turismo de Base Comunitária e o desenvolvimento sócio-espacial.
Nesta fase foram utilizados os textos de autores que contribuíram para o desenvolvimento teórico
sobre o TBC, autores como Irving (2009), Bursztyn (2009), Rita Cruz (2006; 2009), Coriolano (2006;
2009), Sansolo (2009) e Bartholo (2009). Sobre a área de estudo foram utilizados trabalhos de
autores como Cruz (1999), Rosário (2010), outras fontes de pesquisa sobre a área de estudo foram o
Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável para o Arquipélago do Marajó (2007).
Ao longo da pesquisa foram realizados três trabalhos de campo, o primeiro em agosto de
2010, o segundo em fevereiro de 2011 e o terceiro em julho de 2011, nestes trabalhos de campo
foram realizados registros fotográficos da área de estudo, coleta de coordenadas geográficas com
GPS para elaboração do mapa de localização da área de estudo, aplicação de entrevistas semiestruturadas com os agentes ordenadores do território voltados para o turismo, com a presidente da
Associação de Mulheres da Vila do Pesqueiro (ASMUPESQ) e com moradores da Vila que participam
do projeto VEM.
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O artigo está estruturado em duas partes, na primeira apresenta-se uma caracterização e
contextualização da área de estudo, na segunda discute-se o Turismo de Base Comunitária, o
desenvolvimento sócio-espacial e o projeto VEM-Viagem Encontrando Marajó.
Resultados
1. Caracterização e contextualização da Ilha da área de estudo
A ilha do Marajó, como mencionada anteriormente, é a maior ilha fluvial do mundo, está
localizada entre a Linha do Equador e o Paralelo 1,55ºS de Latitude e, no rumo E/W entre os
Meridianos 47ºW e 53ºW de Longitude de Greenwich. O arquipélago é formado por um total de 16
municípios que estão divididos em três microrregiões de acordo com a regionalização oficial do IBGE.
Na microrregião do Arari localizam-se os municípios de Cachoeira do Arari, Chaves, Muaná, Ponta de
Pedras, Salvaterra, Soure, Santa Cruz do Arari. Na microrregião Furos de Breves estam os municípios
de Afuá, Breves, Anajás e Curralinho. Na microrregião de Portel estam os municípios de Bagre,
Gurupá, Melgaço e Portel, Observe na figura 1, a localização da Messoregião Geográfica do Marajó.
Figura 1: Localização da Messoregião Geográfica do
Marajó. Fonte: Geo Pará, 2007.
De acordo com Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Marajó (2007), desde o
período colonial, a integração da Região Amazônica ao mercado mundial ocorreu de forma cíclica,
com sucessivas fases de prosperidade e depressão, que foram baseadas principalmente no
comportamento da pecuária, no extrativismo e na agricultura, atividades ainda hoje bastante
presentes no Marajó. Considera-se que a Ilha do Marajó ainda possui grande parte da sua atividade
econômica baseada nestas atividades primárias mencionadas, que contribuem com a degradação da
região, como é o caso da extração da madeira. Percebe-se que não há uma preocupação com a perda
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da biodiversidade, ou se há ela é mínima.
Quanto a Vila do Pesqueiro esta é uma comunidade tradicional marajoara, que remete de
acordo com Cruz (1999) à existência do pesqueiro Real, na então Vila de Monforte (que originou
Soure e Salvaterra). Este local era um estabelecimento dos índios e propriedade da Coroa
Portuguesa. Cruz (1999) relata que o local foi descrito pelo naturalista luso-brasileiro Alexandre
Rodrigues Ferreira, que entre 1783 e 1792 fez uma extensa viagem pelo interior da Amazônia,
passando pelo Marajó.
A Vila, observe as fotos 1 e 2, está situada na Reserva Extrativista Marinha de Soure, distante
8 km da sede municipal de Soure, trata-se da primeira reserva extrativista marinha do Pará e em sua
área predominam os ecossistemas de manguezais. O acesso à cidade de Soure pode ser feito via
fluvial (cerca de 3 horas de viagem, em barcos regionais e ferry-boats - popularmente conhecido com
balsa), ou via aérea (cerca de 35 minutos de viagem, em aviões de pequeno porte), partindo de
Belém, capital do Pará.
Foto 1: Praia da Vila do Pesqueiro. Foto:
Lobato, Agosto/2010.
Foto 2: Praia da Vila do Pesqueiro. Autora:
Lobato, Fevereiro/2011.
As praias fluviais possuem areia branca, cobertas em algumas partes por coqueiros. A água
varia entre salgada e doce, dependendo da maré e das cheias dos rios. Durante o inverno, o volume
do rio vence a quantidade de água do mar, deixando a praia da vila pouco salina, quase doce. Já no
verão a força se altera, e a praia passa a ser banhada por água salgada. O resultado dessa dinâmica é
uma abundante e diversa vida aquática, com diferentes tipos de peixes e crustáceos.
Além de praias, existem manguezais e dunas que compõem o ambiente natural, passeios nos
manguezais e banhos nos igarapés. Há ainda a possibilidade de caminhadas noturnas, passeio
montados em búfalos ou embarcados em caiaques, nos quais se pode aproveitar o silêncio e a calma
para observar a fauna, como bandos de guarás e a vegetação típica do mangue. É possível também
realizar passeios em charretes.
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2. Discutindo sobre o Turismo de Base Comunitária, o desenvolvimento sócio-espacial e o projeto
VEM-Viagem Encontrando Marajó
O Turismo de Base Comunitária frente ao turismo de massa
O turismo é uma atividade que apresenta duas características intrínsecas, são elas“ o fato de
o turismo ser, antes de qualquer coisa, uma prática social. A outra é o fato de ser o espaço seu
principal objeto de consumo” (Cruz, 2006, p.338). Para a autora o turismo é também “uma atividade
econômica que, no mais das vezes, se impõe aos lugares, mas ela não se dá sobre uma “tabula rasa”,
sobre espaços vazios e sem donos” (Cruz, 2009, p.100).
Para Coriolano o turismo “enquanto prática social é também econômica, política, cultural e
educativa, envolvendo relações sociais e de poder entre residentes e turistas, produtores e
consumidores” (Coriolano, 2006, p.368). Devemos compreender o turismo nesta perspectiva, pois o
turismo envolve estas várias dimensões e relações que ocorrem no espaço. O espaço passa, então, a
criar territórios com identidades próprias, que se manifestam nas várias dimensões sejam elas,
econômicas, políticas, sociais e culturais.
O TBC passa a ter maior expressão a nível mundial a partir de 2003, durante a realização do
1º Fórum Internacional de Turismo Solidário, que ocorreu na cidade de Marseille na França, e que
teve outras edições, uma no ano de 2006 na cidade Chiapas no México que foi o 2º Fórum, e outra
no ano de 2008, na cidade de Bamako no Mali que foi o 3º Fórum, cria territórios culturalistas, pois
vemos uma forte relação de identidade-território. No TBC buscam-se melhorias para as
comunidades, sendo elas as principais beneficiadas com a atividade turística, pois o que se percebe é
que a atividade turística do tipo massificada tem gerado graves problemas sociais, ambientais e
econômicos, além de inserir precariamente as comunidades locais.
O turismo de base comunitária tende a ser aquele tipo de turismo que, em
tese,favorece a coesão e o laço social e o sentido coletivo de vida em sociedade, e
que por esta via, promove a qualidade de vida, o sentido de inclusão, a valorização
da cultura local e o sentimento de pertencimento. Este tipo de turismo representa,
portanto, a interpretação “local” do turismo, frente às projeções de demandas e de
cenários do grupo social do destino, tendo como pano de fundo a dinâmica do
mundo globalizado, mas não as imposições da globalização (Irving, 2009, p.113).
Com isso vemos que o TBC, implica não apenas a interpretação simplista e estereotipada de
um grupo social desfavorecido que recebe investimentos e pessoas curiosas e ávidas pelo exotismo
em seu convívio cotidiano, para o aumento de sua renda e melhoria social. Este turismo significa
encontro e oportunidade de experiência compartilhada entre os visitantes e os visitados, Irving
(2009).
Quando Irving (2009) destaca que este turismo favorece a valorização cultural local, isso
evidencia a própria valorização do patrimônio cultural do lugar, estes patrimônios culturais devem
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ser entendidos mais adequadamente se situados como elementos mediadores entre diversos
domínios sociais e simbolicamente construídos, estabelecendo pontes e cercas entre categorias que
são cruciais, tais como passado e presente, deuses e homens, mortos e vivos, nacionais e
estrangeiros, ricos e pobres Paes (2009) citando um trabalho de Gonçalves de 2005. Deve-se de
acordo com Matias (2009) identificar e incentivar as formas de turismo que tenham como prioridade
o desenvolvimento do lugar, este desenvolvimento deve estar em bases equitativas, que
representem alternativas adequadas para a preservação cultural das comunidades locais e de seu
ambiente, renegando-se, assim, as estratégias de mercantilização da cultura.
Coriolano (2009) ressalta que as comunidades são grupos sociais que residem em pequeno
espaço geográfico, cuja integração de pessoas entre si e dessas com o lugar é capaz de criar
identidades muito fortes que tantos os habitantes como o lugar são identificados como
comunidades. Na sociedade moderna, as comunidades significam uma critica ao modo de vida
moderno, que produziu/ produz profundas desigualdades sociais. Nota-se que as comunidades, na
sociedade moderna tendem a se organizar coletivamente para reivindicar por melhores condições de
vida. É a busca por uma sociedade pautada na justiça e na igualdade de direitos, estes são alguns
princípios observados em comunidades que estam desenvolvendo projetos de TBC.
Percebe-se que nos últimos anos esta forma de turismo tem ganhado maior visibilidade a nível
nacional, pequenos agricultores familiares e pequenos proprietários rurais que estam observando no
turismo uma alternativa de melhoria de vida. Órgãos Institucionais como o Ministério do
Desenvolvimento Agrário, Ministério do Meio Ambiente e Ministério do Turismo estam criando
políticas públicas, que tem beneficiado estas populações como é caso do Projeto VEM que será mais
bem exposto no decorrer deste artigo.
Dentre as várias características do TBC destaca-se que este “busca respeitar as heranças
culturais e as tradições locais, podendo servir de veiculo para revigorá-las e mesmo resgatá-las. Tem
centralidade em sua estruturação o estabelecimento de uma relação dialogal e interativa entre
visitantes e visitados” (Bursztyn, Bartholo & Delamaro, 2009, p. 88).
De acordo com Bursztyn o TBC “busca-se contrapor ao turismo massificado, requerendo
menor densidade de infraestrutura e serviços e busca valorizar uma vinculação situada nos
ambientes naturais e na cultura de cada lugar” (Bursztyn, Bartholo & Delamaro, 2009, p. 88). Para o
autor esta modalidade de turismo alternativo busca algo diferenciado do turismo de massa, “Trata-se
de um outro modo de visita e hospitalidade, diferenciado em relação ao turismo massificado, ainda
que porventura se dirija a um mesmo destino” (Bursztyn, Bartholo & Delamaro, 2009, p. 88).
Isso evidencia que as relações do tipo “Eu-Tu”, apontadas no trabalho de Bartholo (2009) são
estas relações que se buscam no TBC. Essa relação pressupõe o encontro face a face. Analisando os
trabalhos de Buber Bartholo (2009) mostra a pessoa da relação Eu-Tu é o suporte relacional que
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permite fazer da alteridade uma presença, numa possibilidade relacional que se estende para além
do campo do inter-humano, isso simbolizaria a proximidade entre os seres. Para o autor “A ida de
um viajante a um sítio é também uma possibilidade de compartilhar a experiência de sentido que ali
se dá, pois os sítios são como comunidades de sentido” (Bartholo, 2009, p.54) que
impregnam o conjunto das dimensões dos territórios da vida: com relação ao
tempo, à natureza, ao espaço, ao habitat, à arquitetura, ao vestuário, às técnicas,
ao saber-fazer, ao dinheiro, ao empreendedorismo etc. Antes de se materializar
nos feitos e gestos dos atores ou em qualquer outra materialidade visível a olho nu,
os sítios são entidades imateriais fornecedoras de balizamentos para os indivíduos
e organizações sociais” (Zaoual, 2000 apud Bartholo, 2009, p.52).
Diferente das relações “Eu-Tu” temos as relações “Eu-Isso” que representam relações de
apropriação utilitária no qual se busca uma mediação por outros interesses que não são apenas os
das relações.
Bartholo ressalta a necessidade de se buscar cada vez mais as relações do tipo Eu-
Tu, pois estas relações estabelecem “sempre um acontecimento surpreendente e incontrolável, que
escapa ao determinismo dos planejamentos e projetações” (Bartholo, 2009, p. 52). Zaoual aponta
que a Teoria dos Sítios
postula que o sítio é uma cosmovisão, um espaço de crenças partilhadas que define
o real, em um dado momento, bem como as concepções e as práticas de seus
atores. O conceito de sítio articula assim suas crenças, seus conhecimentos e seus
comportamentos (2009, p.65).
Os sítios de pertencimentos são construídos pela comunidade e é onde se observa o lugar do
encontro, o sítio, onde se recebe e é recebido, este lugar possui uma especialidade real, histórica e
culturalmente construída. É diferente dos espaços turísticos produzidos, os sítios para serem
percebidos como turísticos, devem ser antes de tudo reconhecidos pelos próprios residentes; deve
haver uma auto-identificação típica do sentido de comunidade. O sítio é cheio de significados
próprios, que são valorizados pela comunidade, e que se coloca disponível para o intercâmbio.
De acordo com Lima, Ayres e Bartholo Jr (2009) a teoria dos sítios tem por horizonte a
constituição de novos saberes e formas de ação que considerem as contingências qualitativas de
cada meio, a diversidade dos contextos da ação dos agentes econômicos, contrapondo-se dessa
forma ao reino da produtividade, da concorrência irrestrita, da quantidade e das certezas do
passado. O sítio é, portanto, “o lugar onde as crenças e práticas se ajustam às circunstâncias locais e
contrariam a lógica exclusiva do mercado”
(Lima et al., 2009, p.10).
O TBC permite a disponibilização do lugar, das relações do espaço vivido, como relações de
convivencialidade, que é “uma relação social que se interessa pelo outro, pelo diferente, pela
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alteridade, pela autenticidade, respeitando a simplicidade das comunidades tradicionais, suas
rotinas, seu jeito de falar, cantar, dançar, comer, entre outros” (Zechener, Heriquez & Sampaio,
2008, p.7), algo completamente diferente do turismo convencional, que em grande parte, é criador
de espaços de exclusão/segregação tanto para o turista quanto para os moradores. Ao criar espaços
de encontro o TBC, permite o compartilhamento do cotidiano, do lazer, da religiosidade, dentre
outras atividades, isso permite que as relações interpessoais sejam favorecidas.
O conceito de desenvolvimento sócio-espacial
Devemos compreender que o turismo, não deve ser entendido como produtor de
desenvolvimento, pois esta idéia de desenvolvimento remete ao econômico, no qual são levados em
consideração vários indicadores como PIB, PNB, o PIB per capita, indicadores que são apenas
quantitativos e não representam o real desenvolvimento que busca em comunidades, pois o que se
observa em muitas situações é que o turismo vem acompanhado de equipamentos tecnológicos que
provocam a liberação de mão-de-obra, gerando assim aumento do desemprego.
Neste sentido, busca-se compreender o turismo como um vetor de desenvolvimento,
desenvolvimento este que não seja apenas o econômico, pois como mencionado anteriormente, o
turismo é antes de tudo uma prática social Cruz (2006).
Souza (1996) mostra que o espaço é um produto social, que consegue ao mesmo tempo ser
suporte e condicionador, suporte quando nos referimos à vida em sociedade, condicionador quando
nos referimos aos projetos humanos. Este espaço envolve também, o afetivo, o simbólico. E para a
organização política este espaço é visto como uma arena de luta e uma fonte de recursos.
Assim pensar numa teoria do desenvolvimento sócio-espacial envolve uma série de
parcialismos que precisam ser superados. É necessário compreender que a sociedade é como um
todo indivisível, constituído por várias dimensões: sociais, espaciais, históricas, e que estam
interligadas.
O desenvolvimento deve vir acompanhado por mudança social positiva Souza (2001) que
contemple não apenas as relações sociais, mas também e de forma igualitária a espacialidade. Assim
somente é possível falar em desenvolvimento sócio-espacial quando se constata uma melhoria da
qualidade de vida e um aumento da justiça social.
Para Souza (2001) a melhoria da qualidade de vida e o aumento da justiça social estam
subordinados à autonomia, ou seja, a autonomia é o parâmetro essencial do desenvolvimento sócioespacial, é o parâmetro subordinador, quando se tem autonomia é possível criar ações que venham
a melhorar a qualidade de vida e o aumento da justiça social dos vários grupos sociais. Para ele a
autonomia pode ter duas faces a individual e a coletiva, a autonomia individual
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é a capacidade de cada individuo de estabelecer metas para si próprio com lucidez,
persegui-las com a máxima liberdade possível e refletir criticamente sobre a sua
situação e sobre as informações de que dispõe, pressupõe não apenas condições
favoráveis, sob o ângulo psicológico e intelectual, mas também instituições sociais
que garantem uma igualdade efetiva de oportunidades para todos os indivíduos
(Souza, 2001, p.64).
A autonomia coletiva depreende
Não somente instituições sociais que garantam a justiça, a liberdade e a
possibilidade do pensamento critico, mas também a constante formação de
indivíduos lúcidos e críticos, dispostos a encarnar e defender estas instituições
(Souza, 2001, p.64 e 65).
Souza (2001) ressalta que a autonomia possui tanto um valor instrumental quanto um valor
substantivo ou intrínseco. O valor instrumental corresponde à importância da liberdade para se
fazerem coisas e de se proteger de ações nocivas, enquanto isso o valor intrínseco corresponde à
fruição da liberdade efetiva vista como um bem em si mesma.
A justiça social é derivada da autonomia, o mesmo não pode ser afirmado quando nos
referimos à qualidade de vida, pois a liberdade em que se tem num processo decisório não é, por sí
só, garantia alguma de que decisões serão acertadas e se traduzirão em melhor qualidade de vida. A
justiça social é um parâmetro subordinado que se refere, por exemplo, ao grau de desigualdade
socioeconômica e o grau de oportunidade para participação cidadã direta em processos decisórios
relevantes, ao nível de segregação residencial, é o parâmetro que está relacionado à esfera pública.
Já a qualidade vida se refere à esfera privada, à satisfação individual, por exemplo, a melhoria da
educação, da saúde, da moradia, a melhoria da qualidade de vida envolve tanto necessidades
básicas, quanto não-básica, tanto materiais, quanto imateriais.
Souza (2001) ressalta que não se deve buscar uma relação hierárquica entre estes
parâmetros, porque entre eles é possível observar uma relação de complementaridade essencial,
pois qualquer um deles tomado isoladamente e sem o outro, é insuficiente para servir de base para
avaliações e estratégias de desenvolvimento sócio-espacial. No entanto, vale ressaltar que estes
parâmetros, apresentam parâmetros subordinadores particulares tanto na esfera pública, quanta na
esfera privada, e que nem sempre as melhorias de um irão acompanhar as melhorias do outro.
O projeto VEM- Viagem Encontrando Marajó
No ano de 2008 o Ministério do Turismo lança um edital de chamada pública de seleção de
projetos de Turismo de Base Comunitária. A previsão inicial do edital era de receber cerca de 100
projetos, sendo 10 a 15 projetos que teriam apoio financeiro. Esta expectativa foi superada, pois
foram recebidos mais de 500 projetos. Este apoio que o MTur ofereceu aos projetos teve vários
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objetivo, dentre eles destaca-se o de conhecer o potencial deste segmento, promover o
desenvolvimento local e a inclusão social.
Após um criterioso processo de seleção, em agosto de 2008 o MTur divulgou o resultado
final de seleção dos projetos. Ao todo foram 50 projetos selecionados, distribuídos pelas
macrorregiões do Brasil. Observa-se que no Estado do Pará foram selecionados 3 projetos, são eles ,
são eles: a Cooperativa de Ecoturismo Comunitário de Curuça (Instituto Peabiru); Ecoturismo de base
comunitária no Pólo Tapajó (Projeto Saúde e Alegria – CEAPS); e Projeto VEM: Viagem Encontrando
Marajó (Associação das Mulheres do Pesqueiro-ASMUPESQ), que está localizado na Vila do
Pesqueiro, município de Soure, observe o mapa 1 na página seguinte.
A ASMUPESQ é a proponente do projeto VEM, é uma organização sem fins lucrativos, que foi
fundada em 2002, que tem como objetivo elevar a qualidade de vida e gerar renda para seus
associados na Vila do Pesqueiro. O projeto conta com o apoio do SEBRAE e da agência Turismo
Consciente.
O projeto VEM nasceu no ano de 2003, quando em um visita a comunidade a Senhora Maria
Teresa Junqueira Meinberg, formada em Relações Públicas, juntamente com a ONG “Vaga-Lume”
divulgavam um projeto intitulado “Expedição Vaga lume”, com o objetivo de construir bibliotecas
rurais no interior da Amazônia. Com o passar do tempo, a senhora Maria Tereza ficou cada vez mais
próxima à comunidade e teve a idéia, juntamente com a ex-presidente da Associação das Mulheres
de Pesqueiro, de propor alguma atividade turística dentro da Vila do Pesqueiro, assim em julho de
2003 foi montado um projeto piloto, vale ressaltar que os moradores foram chamados para decidir
sobre a criação do projeto, foi uma decisão tomada em conjunto.
O projeto VEM é uma alternativa ao turismo de massa, pois ao chegar à comunidade o turista
e o comunitário tem a possibilidade de trocar experiências, o turista tem a oportunidade de vivenciar
o cotidiano da comunidade, as atividades que são desenvolvidas, a culinária, a cultura. De acordo
com a coordenadora local do projeto Cristina Penante a Vila conta hoje com 92 famílias destas 35
participam direta ou indiretamente do projeto.
O apoio financeiro recebido pelo MTur que chegou em 2009 permitiu a associação melhorar
a infraestrutura para receber os turistas em suas casas. De acordo com a coordenadora através
destes recursos foi possível comprar ventiladores, roupas de cama, de banho.
Na Vila existem cinco casas que hospedam os turistas, três que recebem casal e duas que
recebem solteiros, num total é possível hospedar oito pessoas.
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Mapa 1: Mapa de localização da Vila do Pesqueiro e do Projeto VEM. Organizado por:
Alessandra Lobato e Marcela da Silva, 2010.
Segundo a coordenadora a escolha das casas ocorreu de acordo com alguns critérios, sendo
alguns deles a disponibilidade de um quarto para o turista, ter banheiro dentro de casa, só para citar
alguns, observe as fotos 3 e 4 na página seguinte, de algumas casas que hospedam.
Durante as entrevistas que foram realizadas, indagou-se como é a relação de quem recebe
com o turista. Uma das participantes do projeto que hospeda afirma ser bastante positiva essa
relação
“eu tenho hóspede que ainda se comunica. A minha filha sempre vai em cyber, aí
ela sempre vê lá na página de relacionamento um abraço, a comunicação deles
com a gente ainda continua” (entrevista cedida em agosto/2011).
Na Vila do Pesqueiro o turista tem a oportunidade de conhecer e vivenciar o cotidiano da
comunidade é possível se hospedar nas próprias casas dos comunitários, isso permite uma relação
ainda mais próxima entre os visitantes e visitados.
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Foto 3: Casa disponibilizada para
hospedagem na Vila do Pesqueiro. Autora:
Lobato, Agosto/2010.
Foto 4: Casa disponibilizada para
hospedagem na Vila do Pesqueiro. Autor:
Rosário, Agosto/2010.
Segundo a coordenadora local do projeto, o mesmo encontra-se dividido em quatro grupos
“o grupo de hospedagem, o grupo de gastronomia, o grupo de passeio e o grupo de anfitriões”.
Quanto à diária da hospedagem ela informa que
“a diária aqui na comunidade tá R$ 25,00 com café da manhã. Mas a gente ta
pensando em aumentar porque o pessoal da casa já ta achando pouquinho. O
almoço fora e o jantar dentro do pacote: R$ 20,00 porque é outro grupo”
(entrevista cedida em agosto/2010).
Apesar disso, a maioria dos entrevistados sente-se satisfeito com o retorno financeiro do
projeto, uma participante do grupo de hospedagem afirmou em entrevista
“o que se ganha tá bom, isso porque nós não temos aquele conforto todo...então
por não ter esse conforto todo, a gente se dá por satisfeito”
(entrevista cedida em agosto/2010).
Outros entrevistados ressaltaram, também, que o turismo além de ser uma fonte de renda
extra, propicia a oportunidade de trocar experiências com os turistas.
O projeto ajuda nós que somos da pesca e outros que não são da pesca.
Então pra nós já melhorou um pouco porque já gerou um pouco de renda a
mais, e também porque passaram a conhecer mais a nossa comunidade que não
era quase conhecida. A gente passou a ter mais conhecimento, essa troca de
experiência, de cultura. Eu acho muito bom porque eles levam um pouco da nossa
cultura marajoara e trazem a deles (Entrevista cedida por uma participante do
projeto VEM, fevereiro, 2011).
Outra entrevistada também retrata esse intercâmbio que existe entre quem visita e quem é
visitado.
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Quando as pessoas vem pra cá é um intercâmbio de culturas, porque eles vem pra
cá com a cultura deles e conversam e o turismo de base comunitária é justamente
isso (...) é um intercâmbio cultural imenso o pessoal tá aproveitando bem isso
(Entrevista cedida por uma participante do projeto VEM, fevereiro, 2011).
Através destas entrevistas observou-se que projeto na Vila do Pesqueiro é um exemplo real
de TBC, pois há um envolvimento da comunidade, dentro do que foi apresentado anteriormente
sobre algumas das características desta forma de turismo, pode-se perceber que existe uma
valorização da cultura local, uma valorização do próprio patrimônio cultural.
É importante ressaltar que o patrimônio que antes estava restrito ao que era excepcional,
atualmente apresenta-se cada vez mais próximo das ações do cotidiano, ações que possuem uma
imensa e riquíssima heterogeneidade como apontam Pelegrini e Funari (2008).
Os próprios passeios que são oferecidos no pacote aos turistas são também exemplos de
como os comunitários tentam preservar suas práticas, um destes passeios é a ida à casa de uma
senhora moradora antiga da Vila que extrai o óleo da arvore de Andiroba, durante o dialogo com os
turistas ela descreve todo o processo de extração, destaca que esta atividade é desenvolvida a muito
tempo por ela.
Através dos dados obtidos em campo percebeu-se que a comunidade possui várias
possibilidades para o desenvolvimento do TBC, entre elas estão a riqueza tanto natural, através da
própria paisagem da Vila, da praia, dos igarapés, do rio, quanto a riqueza cultural, que é percebida
através da própria história do lugar, do cotidiano, do grupo de dança típica, que é o carimbó, da
gastronomia, que é composta essencialmente por uma variedade significativa de peixes da região e
também, por crustáceos, as frutas entre outros, têm-se ainda o artesanato que é produzido pelas
mulheres, com os elementos oferecidos pela natureza: sementes e cipós, e que são comercializados
no espaço da ASMUPESQ, observe a foto 5, e em barracas na praia, observe a foto 6, ambas as fotos
na página seguinte.
Foto 5: sede da Associação de
mulheres do Pesqueiro. Autora: Lobato,
Agosto/2010.
Foto 6: Barraca de venda de artesanato
na Praia da Vila do Pesqueiro. Autora:
Lobato, Agosto/2010.
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Além destes elementos que foram destacados tanto da natureza quanto da cultura, nota-se a
vontade por parte dos comunitários em receber turistas, eles apontam que o turismo é uma
atividade complementar.
nós somos pescadores, mas quando tem turistas na comunidade a gente leva pra
fazer o passeio na Vila, leva pra ver a coleta do turu.. ai já é um dinheirinho a mais
que a gente tem de renda (entrevista cedida por um participante da equipe de
passeio do projeto VEM, fevereiro/2011).
Isso demonstra que os comunitários têm consciência de que o turismo, por meio do projeto,
é apenas uma atividade que contribui com uma renda extra, percebem que não devem deixar de ser
pescadores para viver da atividade turística.
Em entrevista cedida ao Instituto Akatu em fevereiro de 2009 Maria Teresa, uma das
idealizadoras do projeto fala que foi necessário mostrar aos moradores do vilarejo que o turismo
poderia ser uma fonte de renda para eles e suas famílias. E pelo que se observou na comunidade isso
foi assimilado pelos comunitários.
Foi colocado que esse turismo não ia trazer muito dinheiro, mas a principal
vantagem é que você tem uma pessoa nova na sua casa e você quer tratar bem...
fora o dinheirinho que entra dá pra ajudar (Entrevista cedida por uma participante
do projeto VEM do grupo de hospedagem, Agosto/2010).
O projeto VEM ao proporcionar a ida de turistas à comunidade, também promove a geração
de renda para outras pessoas que não participam do projeto, mas que são moradores da Vila, é o
caso de alguns donos de bares e restaurantes que estam localizados na praia.
O turista quando vem pra Vila pelo projeto, como ele fica aqui, ele também
frequenta os bares daqui, consome as bebidas daqui, isso dá um dinheiro pra nós
também (Entrevista cedida por um dono de restaurante na praia do Pesqueiro,
Fevereiro/2011).
Percebe-se que são várias as possibilidades para o TBC na Vila do Pesqueiro, dentre estas
aponta-se o fato da comunidade querer este tipo de turismo, ter decidido em conjunto a criação e
execução do projeto. Atualmente o projeto está sendo gerido pela própria comunidade, sem o
intercâmbio da agência Turismo Consciente, esta têm contribuído somente com a divulgação do
projeto, isso representa tem representado uma maior autonomia da comunidade.
Apesar de todas as possibilidades que se tem para o desenvolvimento do turismo de base
comunitária, é importante ressaltar que existem vários limites também, como pôde ser observado
através dos dados coletados. Um dos limites mais apontados pelos entrevistados foi quanto ao
sistema de transporte para acessar o município de Soure e a Vila do Pesqueiro.
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Como mencionado anteriormente, existe duas formas para se chegar ao município, através
de barco, ferry-boats, (conhecido popularmente com balsa) e lancha, esta viagem pode ter uma
duração aproximada de 2 horas, no caso da lancha, e de 3 a 4 horas, de barco ou balsa, até o porto
Camará, que fica localizado no município de Salvaterra, a partir do porto até o centro de Salvaterra
são aproximadamente 50 minutos de carro, ônibus ou van, a partir deste ponto existem duas formas
de se chegar ao município de Soure, uma é atravessar em um pequeno barco motorizado ou
atravessar em uma balsa, ambas as travessias duram aproximadamente 10 minutos, e quando chegase ao município de Soure é necessário pegar outra condução (que pode ser moto-taxi ou van) para
chegar a Vila do Pesqueiro, esta última condução faz este percurso entre 10 e 20 minutos, e
finalmente chega-se a comunidade, no entanto é importante ressaltar que nem sempre há
disponibilidade de condução para se chegar na comunidade, e esta não possui um veiculo próprio
para fazer o deslocamento da população várias vezes ao dia, o que se tem é um ônibus escolar que
funciona somente no período escolar, e faz uma viagem para buscar os alunos e outra para deixá-los.
Esta situação de precariedade quanto ao transporte para o Marajó, foi apontada pelos
moradores da Vila como um dos principais fatores de limite para um melhor desenvolvimento do
turismo.
Para se chegar em Soure é muito caro e cansativo, o transporte é de péssima
qualidade, demora muito, praticamente você perde metade de um dia só pra
chegar aqui... pra melhorar o turismo aqui precisa de mais transporte.. o acesso a
Soure é muito difícil.. a gente precisava de um navio bom e veloz (Entrevista cedida
por um morador da Vila, Fevereiro/2011).
O transporte para o porto Camará, conta com a lancha Álamo, no entanto o valor da
passagem ainda é alto. Outro entrevistado aponta a dificuldade de transporte para acessar o
município e para sair também.
Aqui o transporte é muito difícil..quando a gente quer ir pra Belém têm que sair
daqui 3:30 da manhã pra pegar a balsa de 5:00 lá no Camará (Entrevista cedida por
um integrante do grupo de passeio do projeto VEM, Fevereiro/2011).
Outro limite apontado pelos entrevistados é a comunicação que é bastante precária, na Vila
não há sinal de telefonia móvel, e o único telefone público existente na comunidade está a mais de
um ano danificado, não há internet. De acordo com o presidente da Associação dos Pescadores
Precisa melhorar também a parte da comunicação, que é uma grande dificuldade,
porque quando o turista quer vir nós temos dificuldade de entrar em contato
(Entrevista cedida em Fevereiro/2011).
A representante local do projeto VEM, também destaca a dificuldade de comunicação que há
segundo ela a internet que existe em Soure é via rádio e está concentrada na sede do município, não
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se estendendo a outras localidades, há a intenção de comprar uma antena para a comunidade, no
entanto o valor não é tão acessível.
Discussão
Tendo em vista os resultados obtidos percebe-se que o turismo de base comunitária é a
forma de turismo que deveria ser trabalhada no Marajó, já que está área abriga comunidades
tradicionais que possuem um grande potencial tanto natural quanto cultural, como mencionado
anteriormente. Para Tavares (2009) o lugar apresenta-se, assim, como uma dimensão única,
socialmente concreta, no qual os fenômenos sociais são agregados em organizações comunitárias
que resistem ao processo de individualização por meio de um acontecer solidário, que ao longo do
tempo é capaz de gerar um sentimento de pertencimento. Isso é percebido na Vila do Pesqueiro.
Dentro do que foi exposto sobre o TBC nota-se que a comunidade tem trabalhado dentro dos
princípios dessa forma de turismo, pois observa-se que há o sentido de inclusão e o próprio
sentimento de pertencimento, como aponta Irving (2009).
O fato de se preservar as práticas do cotidiano como a extração do óleo de Andiroba, as
apresentações do grupo de dança de carimbó entre outras são formas de preservar o próprio
patrimônio da comunidade. Isso vai ao encontro da valorização da cultura local, que esta forma de
turismo deve levar em consideração.
Preservar a história, a cultura, a memória são ações que contribuem com a preservação da própria
comunidade, da própria identidade do lugar, significa compartilhamento daquilo que faz sentido
para o outro. É um estreitamento das relações do tipo “EU-TU”.
Nota-se que as relações de convivencialidade apontadas por Zechener et al. (2008), também,
existem na comunidade, relações que se diferenciam das relações convencionais do turismo de
massa.
A comunidade ao buscar melhorias para seus moradores encontra no TBC uma forma de
complementar sua renda, mais ao mesmo tempo divulgar e valorizar sua cultura. É necessário
compreender que ao aceitar o TBC ocorreram transformações, estas para os comunitários foram no
sentido positivo, de melhoria de renda como afirmaram alguns entrevistados, é evidente que estas
transformações deveriam estar acompanhadas por outras, como melhorias na educação, no
saneamento básico, no sistema de saúde e outros.
Através dos resultados obtidos observou-se também, que apesar de possuir várias
possibilidades para o TBC, a comunidade ainda sofre com a precariedade de alguns serviços básicos,
como o sistema de transporte e comunicação, estes tornam-se, assim, fatores limitantes para o
turismo. Vale ressaltar que isso não ocorre somente na Vila do Pesqueiro é um problema que afeta o
município como um todo, principalmente quando se pensa que para se chegar a Soure é necessário
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atravessar todo o município de Salvaterra, sendo que Soure possui um porto capaz de receber navios
do mesmo porte que chegam ao porto de Camará. E ai fica um questionamento porque isto ocorre?
Este não é o foco do trabalho, mais este é um questionamento que pode ser respondido com uma
futura pesquisa sobre o sistema de transporte para o turismo na Amazônia.
Diante do que foi observado ao longo da pesquisa, nota-se que o TBC pode ser considerado
como um vetor de desenvolvimento socioespacial, pois a busca por melhoria da qualidade de vida
partiu dos próprios comunitários, que acreditaram e acreditam que esta forma de fazer turismo tem
contribuído com o seu desenvolvimento, não é apenas um desenvolvimento econômico, é o
desenvolvimento proposto por Souza (1996; 2001), no qual se destaca a autonomia, a justiça social e
qualidade de vida, como analisado anteriormente.
O fato dos comunitários terem decidido sobre a criação do projeto, através de reuniões
coletivas organizadas pelos mesmos, na qual foi levada em consideração a opinião deles, já
demonstra uma autonomia como propõe Souza (1996; 2001; 2006) em seus trabalhos. À medida que
os comunitários tendem a possuir maior autonomia para decidir sobre as ações do projeto isso irá
contribuir com o aumento de seu desenvolvimento. No entanto, se a população não tiver a
oportunidade de participação nas ações da gestão do projeto, dificilmente os planos iriam se
concretizar.
O projeto também contempla a justiça social, haja vista que os comunitários tiveram a
oportunidade de discutir sobre a criação do projeto. A qualidade de vida também está presente no
projeto, haja vista que os envolvidos com a atividade se mostram satisfeitos com o que vem
ganhando.
Conclusões
A ilha do Marajó apresenta inúmeros problemas quanto à infra-estrutura de transporte,
saúde, educação, saneamento básico, energia e outros essa situação se reproduz não só nas áreas
urbanas, mais também, em comunidades afastadas do centro. Quando se fala de atividade
econômica nota-se que a base da estrutura econômica da região ainda está em grande parte no
setor primário, isso contribui para as baixas taxas de urbanização da região. De acordo com Tavares
(2009) região do Marajó não foi impactada por grandes projetos, minero-metalúrgicos e nem
rodoviários, isso contribuiu com certa preservação desta região. No entanto isso contribui para o
desenvolvimento de determinadas atividades como o turismo, e quando este se instala no lugar sem
que haja um planejamento, um estudo sobre os possíveis impactos, se torna um problema,
principalmente quando se instala em comunidades que não tem o mínimo conhecimento sobre a
atividade turística, essa falta de conhecimento pode contribuir com a ampliação do turismo de
massa.
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Tendo em vista isto o TBC é compreendido como uma alternativa frente ao turismo de
massa. Um dos objetivos principais é contribuir no desenvolvimento local das comunidades que
trabalham com ele, mas é preciso destacar que não se trata somente de desenvolver
economicamente, por isso trabalha-se com idéia de desenvolvimento sócioespacial apontada por
Marcelo Lopes de Souza.
É importante ressaltar que não há problemas quanto à interferência de outros setores,
dentro do processo de desenvolvimento do TBC, pois eles contribuem para o desenvolvimento da
atividade turística, o que se deve destacar é que a comunidade deve ter consciência de que ela pode
ser a base para o desenvolvimento do turismo naquele lugar, como ocorre na Vila do Pesqueiro.
Observou-se que o projeto VEM, tem sido uma alternativa para os comunitários da Vila, o
projeto inseriu a comunidade provocando mudanças no sentido positivo, pois durante entrevistas
com moradores, muitos se mostraram satisfeitos com o projeto, já que este permite uma forma
complementar de renda e trocas de experiências entre os visitantes e os visitados, isso evidencia que
o TBC permite criar os espaços do encontro, no qual os comunitários compartilham o seu cotidiano.
O que se observa na Vila é que o projeto tem proporcionado benefícios aos comunitários,
assim vemos que eles são sujeitos sociais, capazes de criar, escrever, roteirizar, e principalmente,
serem autores do seu destino, da sua história, Irving (2009). Nota-se que o turismo que se
desenvolve na Vila não é um turismo voltado apenas ao consumo, mais sim a troca de experiências,
fortalecimento de laços de amizade, companheirismo e valorização cultural, o que é muito
importante para a valorização da própria comunidade.
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