V Seminário da Pós-Graduação em Ciências Sociais – UFRB: Cultura,
Desigualdade e Desenvolvimento.
GT 2 - Comunicação, Política e Desenvolvimento.
Título: Cachoeira e o Turismo Responsável: análise de uma situação entre a teoria
e a prática.
Pamela Moura da Rocha Almeida (UFRB)
Jesus Manuel Delgado Mendez (UFRB)
Cachoeira- BA
2015
Cachoeira e o Turismo Responsável: análise de uma situação entre a teoria e a
prática. 1
Pamela Moura da Rocha Almeida (UFRB) 2
Jesus Manuel Delgado Mendez (UFRB) 3
Resumo
O turismo é uma atividade de interfaces que impõe o que neste trabalho se denomina de
“responsabilidade”, pois ela é intersetorial, multidisciplinar e sinérgica, no que tange aos
aspectos econômicos, sociais ou sociológicos, ambientais e políticos. A pesquisa teve
como objetivo levantar discussões sobre os princípios do Turismo Responsável, como
elemento norteador para gestão pública, seguindo a ótica de Delgado-Mendez (2000);
WWF (2004), na condução da atividade turística no município de Cachoeira. A
metodologia da pesquisa apresentou uma abordagem teórica, sempre comparando com os
dados qualitativos e descritivos obtidos em campo. Os limites de investigação foram
circunscritos a três recortes metodológicos: o temático, que analisou os princípios do
turismo responsável; o recorte temporal, que obteve os dados correspondentes ao período
de 2008 a 2012 e, finalmente, o município de Cachoeira como foco ou recorte espacial.
Os procedimentos metodológicos incluíram levantamento e exames bibliográficos,
análise documental, e a aplicação de entrevistas a diversos atores locais envolvidos em
atividades turísticas. À luz dos princípios de Turismo Responsável publicados
anteriormente, a pesquisa contrapõe os mesmos, de forma teórica, com a realidade
diagnosticada em Cachoeira. No caso de Cachoeira, conclui-se que é um município que
faz parte do preocupante cenário comum a outros destinos turísticos, e permite partir da
premissa que, uma considerável parte da atividade turística é realizada, ainda, de forma
desconexa, desordenada e exploratória, para não dizer imediatista, e sem muito
aprofundamento na responsabilidade com a saúde sociocultural, econômica e o equilíbrio
“Trabalho apresentado no V Seminário da Pós Graduação em Ciências Sociais: Cultura, Desigualdade e
Desenvolvimento - realizado entre os dias 02, 03 e 04 de dezembro de 2015, em Cachoeira, BA, Brasil”.
2
Coordenadora do Observatório Social de Santo Antônio de Jesus. Mestranda em Gestão de Políticas
Públicas e Segurança Social pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB.
[email protected].
3
Professor Dr. da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB. [email protected].
1
2
ambiental que circunda o município. A conclusão parcial do estudo leva a crer que tais
princípios podem auxiliar na gestão do turismo em Cachoeira para reduzir o viés
econômico da atividade, elevar os esforços para o resgate da identidade e orgulho de
pertencimento a um município com tanto peso histórico-cultural. Outra conclusão propõe
que os benefícios econômicos só seriam consequência, primeiro, da construção de uma
forte identidade cultural, e depois da soma do planejamento responsável dos seus
equipamentos turísticos. A pesquisa demonstra a necessidade de uma visão total e
estratégica, que integre todas as áreas envolvidas e afetadas pelo turismo e de interesse
da comunidade. A preocupação de como aproveitar os efeitos do desenvolvimento do
turismo de forma mais sustentável, não é mais uma questão do campo ideológico, mas
sim do prático. Assim, o Turismo Responsável pode contribuir com os gestores e
comunidade, e proporcionar que a atividade turística se desenvolva para o benefício de
todos, fazendo movimento contrário às preocupações tradicionais.
Palavras-chave: Turismo responsável; Gestão turística; Cachoeira-BA.
Introdução
O turismo é uma peça fundamental na gestão pública e nas comunidades que
fazem parte dos destinos turísticos. Neste sentido, faz-se cada vez mais necessária a
compreensão da atividade turística como alternativa para o desenvolvimento local.
Compete ao gestor o dever de conhecer os instrumentos de gestão da atividade turística,
sendo capaz de fazer uma análise crítica da realidade existente em seu município de
atuação, bem como sugerir alternativas para disseminar a prática da atividade turística de
modo responsável, como ferramenta de conservação da identidade socio-cultural e
ambiental dos destinos turísticos.
O turismo também atua como ferramenta catalisadora para a economia local,
podendo gerar empregos e proporcionar melhorias à infraestrutura dos municípios.
Segundo o Ministério do Turismo, o desenvolvimento do turismo impõe uma permanente
articulação entre os diversos setores, público e privado, relacionados à atividade, no
sentido de proporcionar compartilhamento, cooperação e integração das atividades da
produção turística nas diferentes esferas de planejamento e gestão do turismo no País.
Porém, apesar de ser uma importante ferramenta para economia, é preocupante a redução
do viés econômico da atividade turística e do termo desenvolvimento turístico a uma
3
dimensão apenas econômica, sendo importante ressaltar que o desenvolvimento turístico
deve ser compreendido dentro de uma visão integrada que abarque o econômico, o social
o cultural e o ambiental.
Desenvolvimento turístico deve ser visto no seu sentido amplo,
valorizando o crescimento com efetiva distribuição de renda, com
superação significativa dos problemas sociais sem comprometimento
ambiental, o que só pode ocorrer com profundas mudanças nas
estruturas e processos econômicos, sociais, políticos e culturais de uma
dada sociedade. (ALMEIDA apud SILVA, 2004, p. 04)
Nesse sentindo, os benefícios econômicos só seriam consequência, primeiro, da
construção de uma forte identidade cultural, e depois da soma do planejamento
responsável dos seus equipamentos turísticos.
Em 1991, o turismo passou a ser considerado prioritário nas políticas de
desenvolvimento do Estado da Bahia. Entre os programas direcionados ao
desenvolvimento do turismo no estado, o de maior destaque é o Programa de
Desenvolvimento do Turismo – PRODETUR-BA, criado através do PRODETUR-NE,
uma iniciativa dos governadores dos estados que compõe a região Nordeste do Brasil, na
tentativa de desenvolver o turismo regional. De acordo com a Secretaria Estadual de
Turismo da Bahia, o Prodetur-BA tem por objetivo assegurar o desenvolvimento turístico
sustentável e integrado, proporcionar melhorias às condições de vida da população local,
aumentar as receitas do setor e melhorar a capacidade de gestão da atividade em áreas de
expansão e de potencial turístico. Através do Prodetur-BA foram criadas 13 zonas
turísticas prioritárias. Para definição dos municípios componentes de cada zona, o
programa considerou a atratividade natural e cultural presente em cada território
municipal.
Com vistas a atender aos requisitos do Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID) para o ingresso da Bahia no Programa de Desenvolvimento do
Turismo no Nordeste do Brasil II (Prodetur Nordeste II), em 2011 o Plano de
Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável (PDITS) da área turística da Baía de
Todos-os-Santos foi atualizado tendo como base estratégica planos, pesquisas e estudos
sobre turismo e afins, com avaliações diagnósticas, estratégias e planos de ação. O PDITS
pode ser percebido como uma possível reação as discussões
relacionadas com a
conservação e preservação sociocultural e ambiental dos destinos turísticos, apontando
de algum modo o turismo responsável como ponto de partida.
O Recôncavo da Bahia está inserido na Zona Turística da Baía de Todos-osSantos, carrega um patrimônio histórico-cultural muito rico, as raízes da história e da
cultura baiana se perpetuam nos seus antigos engenhos, fábricas de charutos, velhos
4
casarões, na diversidade das igrejas, nas atividades religiosas e nos festejos populares.
Porém, o turismo desenvolvido nessa região se configura como uma atividade de elevada
sazonalidade, Queiroz e Souza (2009, p. 23) afirmam que “A maior procura pelos
municípios do Recôncavo é de origem regional/estadual e ocorre durante o período dos
festejos/celebrações locais, a exemplo do São João”. É nesse contexto regional que está
inserido o município de Cachoeira, utilizado como recorte espacial desse estudo.
Cachoeira é considerada uma das principais cidades turísticas que compõe a
região do Recôncavo, pois além do amplo potencial histórico-cultural e ambiental,
apresenta festejos religiosos e populares, como a Irmandade de Nossa Senhora da Boa
Morte e o São João, que atraem nesses períodos um grande número de turistas. Entretanto,
Cachoeira também faz parte do preocupante cenário comum a outros destinos turísticos,
o qual a atividade turística é realizada de forma desconexa, causando grande impacto na
saúde sociocultural, econômica e no equilíbrio de ecossistemas. Podendo ter como
consequências, por exemplo, mudanças de valores, crenças, comportamentos e costumes;
além do aumento populacional, do tráfego de veículos, da exploração sexual infantil e da
prostituição e o acréscimo da criminalidade. Em relação ao campo econômico, pode ser
citado a especulação imobiliária e o aumento no custo de vida da população local. No
campo ambiental, pode ser apontado como impacto negativo o agravamento da poluição,
a perda da biodiversidade e a deterioração das paisagens dos destinos turísticos.
Por essas razões, esse artigo tem como proposta demonstrar conceitos e levantar
discussões sobre os princípios do Turismo Responsável, como elemento norteador para
gestão pública, seguindo a ótica de Delgado-Mendez (2000); WWF (2004), através da
análise de uma situação entre a teoria e a prática observada no município de Cachoeira,
com o intuito de proporcionar a gestão pública uma alternativa de repensar o
planejamento e o desenvolvimento do turismo de modo mais responsável.
A metodologia dessa pesquisa apresentou uma abordagem teórica, sempre
comparando com os dados qualitativos e descritivos obtidos em campo. Os limites de
investigação foram circunscritos a três recortes metodológicos: o temático, que analisou
os princípios do turismo responsável; o recorte temporal, que obteve os dados
correspondentes ao período de 2008 a 2012 e, finalmente, o município de Cachoeira como
foco ou recorte espacial. Os procedimentos metodológicos incluíram levantamento e
exames bibliográficos, análise documental, e a aplicação de entrevistas.
Para aplicação das entrevistas foram escolhidos representantes da gestão pública
municipal e atores sociais que promovem de modo direto o turismo local/regional.
5
Representando a gestão pública municipal o Secretário de Cultura e Turismo, o senhor
Lourival Trindade, as outras pessoas foram escolhidas de acordo com a importância que
representam para as questões turísticas locais, seja por meio da prestação de serviços ou
pela manutenção dos afazeres cultuais que fomentam o turismo no município. As
entrevistas foram feitas a representante dos guias turísticos de Cachoeira e do Recôncavo
Baiano, marisqueiras do distrito de Santiago do Iguape, artesões e empresários do ramo
de hospedagem e do ramo alimentício que atuam na cidade. Atendo os pedidos dessas
pessoas seus nomes não serão divulgados, portanto a identificação dos mesmos nesse
artigo será por sua representação profissional.
À luz dos princípios de Turismo Responsável publicados anteriormente, a
pesquisa contrapõe os mesmos, de forma teórica, com a realidade diagnosticada em
Cachoeira.
Turismo Responsável
A preocupação global para as questões ambientais colocam em xeque a forma
como a gestão da atividade turística é conduzida, por também comprometer o equilíbrio
global. Todos os anos milheres de turistas transitam de suas casas para os mais diversos
destinos turísticos, explorando ambientes e culturas, impulsionando as transformações
sociais e físicas dos lugares visitados. Guiado por este propósito de manter o equilíbrio
global, cresce a necessidade de diferenciar o turismo convencional predominante no
mundo, de um novo estilo de turismo que tenta educar o ser humano sobre os valores
intangíveis de uma paisagem intacta, seres vivos desconhecidos, focado nas relações
humanas.
O turismo sustentável, ecoturismo, turismo ambiental, turismo de aventura e
turismo de natureza, apesar de possuírem nomenclaturas diferentes compartilham a
preocupação entre a forma de exploração da atividade turística e a conservação
socioambiental. Como não há um consenso em torno de uma única definição em relação
à sustentabilidade na atividade turística, nasce nesse contexto, o Turismo Responsável
(TR) que surge como uma alternativa para unificar esses ideais, possuindo seu pilar
central focado nas relações humanas. O turismo deve ser feito não apenas para o turista,
mas sim para todos que sobrevivem dessas atividades, respeitando costumes, culturas e o
meio ambiente. Desse modo, o processo de planejamento do turismo deve ser
democratizado, inserindo os agentes envolvidos com a atividade turística, priorizando as
necessidades da comunidade. A cidade não pode ser boa apenas para receber o turista,
6
“maquiando” os problemas sociais, empurrando os moradores para as periferias,
excluindo-os do processo de mudança em que as grandes empresas de hotelaria e
gastronomia tomam conta dos centros.
No trabalho “Turismo Responsable: una visión homeostática”, apresentado no IV
Encontro Nacional de Turismo com Base Local, na cidade de Joinville- SC, DelgadoMendez (2000) traz um conceito para o ecoturismo, que segundo o autor pode muito bem
definir o que ele propõe como conceito do turismo responsável:
Atividade espontânea ou pré-planejada, que consiste na visita,
valorização e utilização de um espaço natural ou cultural, onde as partes
relacionadas são respeitados, beneficiando uns aos outros e manter de
forma constante as condições que motivaram. (DELGADO-MENDEZ,
2000, tradução nossa)
O autor sugere que futuramente esse conceito pode colaborar com a dualidade
entre o turismo convencional e o turismo ambiental. Ele acredita na importância da união
dos distintos tipos de turismo sob a mesma ótica de responsabilidade, partindo da
premissa de que este não seria o privilégio apenas de quem deseja se aproximar da
natureza, mas que deveria ser estendido a todos os projetos turísticos a serem
desenvolvidos no país, independentemente do seu produto, com os mesmos objetivos:
trazer benefícios democraticamente, ser permanente, equilibrado e respeitoso.
La necesidad de que todos los tipos de Turismo que hoy parecen
estudiarse, desarrollarse e expandirse por separado en el territorio
nacional, actúen sobre un único techo o guardasol, bajo el concepto de
TURISMO RESPONSABLE. Esto permitirá que todos los que se
dediquen a esta actividad, sin importar el tipo de oferta que hagan a
sus clientes, o indiferente al tipo de desarrollo que imponga,
mantengan presente los requisitos mínimos de universalidad
HOMEOSTÁTICA, tan necesaria para corregir el rumbo que el hombre
le ha impuesto al planeta.[…] concepto este que no sería privilegio de
aquellos que desean aproximarse a la naturaleza realizando todo tipo
de actividad al aire libre, mas que se ampliaría para todos aquellos
proyectos turísticos a ser desarrollados en el país, sin distinción de su
producto, pues en todos los casos, tendría los mismos objetivos: traer
beneficios democraticamente, ser permanente, equilibrado y respetoso.
(DELGADO-MENDEZ, 2000)4
4
A necessidade de todos os tipos de turismo que hoje parecem exploradas, desenvolvidas e expandidas
separadamente no país, sob o mesmo teto ou guarda-sol, sob o conceito de turismo responsável. Isso
permitirá que todos os envolvidos nesta atividade, independentemente do tipo de oferta que você faz para
seus clientes, ou indiferentes ao tipo de desenvolvimento impor, tenha em mente os requisitos mínimos de
homeostático universalidade, conforme necessário para corrigir o curso que o homem impôs no planeta.
[...] o conceito de turismo responsável não seria o privilégio de quem deseja se aproximar da natureza ou
fazer todos os tipos de atividade ao ar livre, mas que deveria ser alargado a todos os projetos turísticos a
serem desenvolvidos no país, independentemente do seu produto, como em todos os casos, têm os mesmos
7
Partindo para as definições apresentadas pelo Turismo responsável - Manual para
políticas públicas WWF (2004) o turismo responsável pode ser compreendido como uma
nova concepção estratégica, de um conjunto de bens e serviços que promovam o
desenvolvimento economicamente equilibrado e socialmente justo. Manter, valorizar e
proteger as paisagens naturais e sua diversidade biológica, assim como o patrimônio
histórico-cultural, é a base essencial para o desenvolvimento responsável do turismo,
contribuindo para a sua manutenção em longo prazo. (WWF apud SALVATI, 2002)
O Turismo responsável, no contexto de uma estratégia para a
sustentabilidade ampla dos destinos turísticos, é aquele que mantém e,
onde possível, valoriza as características dos recursos naturais e
culturais nos destinos, sustentando-as para futura gerações de
comunidades, visitantes e empresários. (WWF, 2001)
Para alcançar o turismo responsável o WWF (2004) aponta alguns instrumentos
que precisam ser integrados e combinados em políticas:

Estabelecimento de políticas e regulamentos em todos os níveis
governamentais, regidos por uma Política Nacional de Turismo
Sustentável;

Adoção de uma visão de planejamento integrado entre os diferentes
agentes do turismo, públicos ou privados;

Definição de linhas diferenciadas em incentivos e financiamentos,
voltados para o pequeno e médio empreendedor;

Adoção de códigos de conduta e de ética nos negócios;

Realização de campanhas de educação aos visitantes;

Apoio a esquemas de certificação para se estabelecer ou ampliar a
qualidade e a sustentabilidade no consumo e nos negócios.
Alguns desses instrumentos são compatíveis com as ideias propostas por DelgadoMendez (2000), principalmente no que diz respeito ao planejamento do turismo de
maneira democrática, a importância da conduta ética e respeitosa e a forma educacional
de tratar com os turistas. Além desses instrumentos o WWF (2004) traz como importante
contribuição o estabelecimento de cinco princípios do turismo responsável:
objetivos: a trazer benefícios democraticamente, ser permanente, equilibrado e respeitoso. (DELGADOMENDEZ, 2000, tradução nossa)
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1. O turismo deve ser parte de um desenvolvimento sustentável amplo e de
suporte para a conservação;
2. O turismo deve usar os recursos naturais de modo sustentável;
3. O turismo deve eliminar o consumo insustentável e minimizar a poluição
e o desperdício;
4. O turista deve respeitar as culturas locais e prover benefícios e
oportunidades para as comunidades locais;
5. O turismo deve ser informativo e educacional.
Diante dos argumentos de apresentação do turismo responsável, faz-se necessário
cada vez mais, possuir uma visão total e estratégica, que integre todas as áreas envolvidas
e afetadas pelo turismo que sejam de interesse da comunidade. A preocupação de como
aproveitar os efeitos do desenvolvimento do turismo de forma mais sustentável, não é
mais uma questão do campo ideológico, mas sim do prático. O Turismo Responsável
pode contribuir com os gestores e comunidade, e proporcionar que a atividade turística
se desenvolva para o benefício de todos, fazendo movimento contrário as preocupações
tradicionais. Sendo assim, na prática seu comedimento está na relação entre turistas,
instituições turísticas (públicas ou privadas) e comunidades locais, e destes com o meio
ambiente.
Gestão da atividade turística em Cachoeira
O município de Cachoeira, situado a margem esquerda do rio Paraguaçu, possui
área total de 395,211 Km², e está localizado a 109 km da capital Salvador. Tem 32.026
habitantes, segundo o censo 2010 realizado pelo IBGE, e limita-se ao norte com o
município de Conceição da Feira, ao sul com Maragogipe, a leste com Santo Amaro e a
oeste com São Félix. Possui como distritos: Belém, Capoeiruçu, Murutuba e Santiago do
Iguape, além da sede. Depois de Salvador é a cidade baiana que reúne o mais importante
acervo arquitetônico no estilo barroco. Passou a ser considerada Monumento Nacional,
após ter sido tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN).
Cachoeira tem 32.026 habitantes, segundo o censo demográfico 2010 realizado
pelo IBGE, a distribuição da população entre área urbana e rural tem uma diferença
inferior a dois mil habitantes. Atualmente há uma forte predominância da economia de
serviços no município. A agropecuária ocupa a 3ª posição entre as atividades econômicas,
ficando atrás da indústria, enquanto os serviços ocupam o primeiro lugar com 62% (PIB
9
dos Municípios 2009, IBGE). Vale ressaltar que com a expansão da atividade turística e
a inclusão de novos atrativos, esse número de 62% pode ter aumentado na categoria
serviços.
A cidade dispõe dos serviços básicos de energia elétrica, abastecimento de água,
esgotamento sanitário, drenagem, sistema viário de transportes e de telecomunicações.
Chama atenção a forma precária do sistema de esgotamento sanitário, que cobre apenas
a área mais antiga da cidade, enquanto na área mais recente o esgotamento é feito através
de fossas individuais e todo resíduo líquido é despejado no rio Paraguaçu (QUEIROZ;
SOUZA, 2009, p.40).
A respeito da segurança pública a cidade conta com uma delegacia de polícia, um
módulo policial e com patrulhamento motorizado. A área urbana de Cachoeira conta com
uma rodoviária e o transporte intermunicipal está a cargo da Empresa de Transporte
Santana e da Empresa Jauá, além do transporte alternativo feito por vans. A via férrea
ainda é utilizada por trens de carga. O sistema de transporte hidroviário não é regular,
mas há possibilidades de alugar barcos e escunas. Em relação à saúde, o município conta
estabelecimentos públicos e particulares. A cidade possui três agências bancárias:
Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Cachoeira sedia o Campus de
Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, com os
cursos de Artes Visuais, Ciências Sociais, Cinema e Audiovisual, Comunicação Social,
Licenciatura em História, Museologia, Serviço Social e Tecnologia em Gestão Pública.
A educação de ensino médio é oferecida através de um colégio e uma escola estadual, a
cidade tem outros dois colégios particulares e outras treze escolas da rede pública
municipal de ensino infantil e fundamental.
No período da realização das pesquisas de campo para esse estudo, o gestor
municipal faz parte de uma das famílias mais conhecidas da cidade, os Pereira, donos de
várias empresas locais. A gestão do turismo em Cachoeira, era representada por um
Secretário de Cultura e Turismo e contava com o apoio de 22 funcionários, sendo que
apenas o Secretário possuía nível superior, formado em Educação Física e cursando
Direito. Os outros funcionários trabalhavam na sede da secretaria, no posto de
informações aos turistas, na biblioteca municipal e no arquivo público. As principais
tarefas relacionadas ao turismo desenvolvidas pela secretaria eram: promover o turismo
local através de eventos no município, fazer articulações, através de convênios, com as
secretarias estaduais e nacionais de turismo e organizar cursos para qualificação
profissional.
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De acordo com o Secretário, o município de Cachoeira recebe anualmente cerca
de 100 a 110 mil turistas/visitantes por ano, sendo dividido entre as categorias de turismo
pedagógico, cultural e festejos. Ainda segundo o secretário, só na festa de São João do
ano de 2012 aproximadamente 70 mil pessoas visitaram o município, aproximadamente
2/3 da média anual.
Nesse contexto, as seguintes perguntas parecem pertinentes: como uma cidade que
apresenta dificuldades de infraestrutura, comporta quase o triplo de sua população em um
único período? Qual a capacidade de carga do setor de serviço, abastecimento de água,
coleta de lixo, etc? Os preços no comércio sofrem variação e ainda repassados para os
consumidores nativos? Além disso, o modelo de descaracterizar o São João tradicional e
substituí-lo por grandes shows, põe em xeque aos poucos, a cultura, como por exemplo,
a visível diminuição do tamanho destinado a tradicional Feira do Porto. Esse debate foi
realizado com a comunidade? As indagações feitas nesse parágrafo estão relacionadas
aos princípios e instrumentos que o turismo responsável aponta como importante na
valorização e preservação do patrimônio histórico-cultural e das paisagens naturais.
A concepção da importância da atividade turística para o Secretário é de que
apesar do turismo ser uma indústria muito forte, o Brasil ainda fica muito distante da
realidade de países da Europa, principalmente nas questões relacionadas aos números de
fluxo turísticos e da infraestrutura para receber uma demanda maior de turistas. Para a
Secretaria de Turismo, potencial turístico Cachoeira tem de sobra, quando se refere ao
patrimônio material, imaterial e natural. No entanto ainda falta sedimentar algumas
questões relacionadas a infraestrutura e melhor qualidade na prestação de serviços.
Afirma-se que um dos fatores que dificultam o melhor desempenho de Cachoeira, em
relação ao turismo local/regional, tem início na origem do posicionamento do município
em relação à atividade turística. Um exemplo disso é que Cachoeira começou a ser
apresentada como cidade turística de forma espontânea e não planejada, além de que a
criação da Secretaria de Cultura e Turismo de Cachoeira implantada no município apenas
no ano de 2005. Ao assumir a secretaria, o Sr. Secretário fez o planejamento para cultura
criando o Conselho Municipal de Cultura, o Fundo de Cultura e trabalhou na criação do
Plano Municipal de Cultura. Tinha como pretensão que a mesma atuação seria feita em
relação ao turismo, incluindo um bom plano de marketing.
Na tentativa de melhorar a situação relacionada à falta de preparo no atendimento
e recepção aos turistas foram implantados, de 2008 a 2012, cursos de qualificação e
capacitação profissional para os moradores do município e cursos de gestão empresarial
11
para os empresários e empreendedores locais. Segundo o secretário, durante esses quatro
anos, 447 pessoas foram qualificadas através dos cursos. Porém, alguns fatores dificultam
resultados mais positivos em relação aos cursos que é a falta de participação da população
e a desistência no decorrer das atividades. Outro problema é que mesmo qualificando a
mão de obra local, os empresários resistem em contratar as pessoas com a qualificação
adequada, na tentativa de reduzir os custos, contratando trabalhadores avulsos. Dessa
forma o atendimento, que deveria ser adequado à realidade turística, passa a ser realizado
de modo amador e com péssima qualidade.
Foi mencionado que a articulação entre a Secretaria Municipal de Cultura e
Turismo a as Secretarias Estaduais e Nacionais de Turismo foi muito boa ao longo desses
quatro anos, apresentando resultados como convênios, verbas para investimentos e
eventos. Porém, a burocracia é um dos principais fatores que dificultam maiores
resultados nessa relação. Um fator mencionado como importante seria a abertura de
editais voltados para o turismo como é feito na área da cultura, dessa forma aumentaria
as facilidades para financiamentos ligados ao turismo, incentivando o turismo rural, por
exemplo. Quando questionado sobre qual foi a maior dificuldade para atuar como gestor
de turismo no município de Cachoeira ele aponta a pouca participação e articulação da
sociedade civil e dos empresários locais nas ações relacionadas ao turismo. Para ele não
há pertencimento da sociedade local em relação ao município e ao que o mesmo oferece.
Referindo-se, neste caso, aos cachoeiranos ou mesmo aos alunos da universidade,
oriundos de outros municípios, que passam longas temporadas na cidade.
Em relação aos possíveis avanços do turismo no município, o secretário acredita
que Cachoeira teve avanços no cenário local e regional, a exemplo da realização de
eventos como a Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA) e o Recôncavo Jazz
Festival. Além disso, Cachoeira passou a fazer parte do PRODETUR Nacional, sendo
assinado um convênio com a Secretaria de Turismo do Estado da Bahia para construção
de um píer flutuante e um atracadouro, além da implantação da Central de Documentação
e Memória. Há também o planejamento para a construção de um Hotel Escola do
Recôncavo, que pretende beneficiar o turismo local e regional. Em adição, Cachoeira
passou a participar do Salão Baiano de Turismo, a fim negociar pacotes e vender o
município. Por fim, foi citado o PAC das Cidades Históricas que tem o intuito de acabar
com as ruínas do município, reformando as praças e os imóveis.
Finalmente, o Sr. Secretário frisou que há muito trabalho a ser feito para que
Cachoeira ganhe lugar de destaque no turismo nacional, e afirmou que o maior obstáculo
12
para o desenvolvimento turístico é a inércia da iniciativa privada, pois esta ainda não
entendeu a responsabilidade da sua participação no desenvolvimento do turismo local.
Para o entrevistado, os exemplos de sucesso relacionados ao turismo que existem no
Brasil são por conta da boa articulação da iniciativa privada com os organismos públicos.
Através desse levantamento feito por meio da entrevista realizada com o
Secretário de Cultura e Turismo, fica evidente a forte tendência comercial da atividade
turística no município. A prefeitura promove os cursos profissionalizantes, mas por outro
lado deixa de colaborar com as associações e grupos de cultura que compõe o produto
turístico de Cachoeira. Todos os entrevistados foram unanimes ao afirmar que não existe
articulação entre a gestão pública municipal e a comunidade. Em uma das entrevistas a
crítica em relação aos cursos ofertados é de que sempre eram marcados durante a semana,
em horário comercial, além de quase não existir divulgação, o que dificultava a
participação da maioria dos interessados. Além de não haver consulta para verificar qual
a demanda da sociedade em relação aos tipos de cursos oferecidos. Cachoeira não possui
um Conselho Municipal de Turismo, a Lei de Turismo, no ano de 2015, ainda está em
tramitação na Câmara Municipal, o que reforça a falta de orientação na gestão baseada
nos princípios e instrumentos de turismo responsável.
Apesar de tantos indícios de uma gestão com pouca proximidade com os
princípios e instrumentos do turismo responsável, ao fazer o levantamento de documentos
nos anos subsequentes a pesquisa, podemos observar o resultado e/ou continuidade de
algumas ações da gestão anterior, que podem representar avanços, embora que ainda
muito “tímido”, como: a realização das Conferências Municipal de Cultura de Cachoeira,
com o objetivo de discutir democraticamente os ante Projetos de Leis Municipais,
elaborados pela Secretaria de Cultura e Turismo, que visam a institucionalização do Plano
Municipal de Cultura, do Fundo Municipal de Cultura e o Sistema Municipal de
Financiamento a Cultura, eleição de novos membros do Conselho Municipal de Política
Cultural. Em 2014 foi instituído o Plano Municipal de Cultura de Cachoeira para o
decênio 2014 – 2024.
O olhar da comunidade
Para aplicação das entrevistas foram atores sociais que promovem de modo direto
o turismo local/regional. Essas pessoas foram escolhidas de acordo com a importância
que representam para as questões turísticas locais, seja por meio da prestação de serviços
ou pela manutenção dos afazeres cultuais que fomentam o turismo no município. As
13
entrevistas foram feitas a representantes dos guias turísticos de Cachoeira e do Recôncavo
Baiano, marisqueiras do distrito de Santiago do Iguape, artesões e empresários do ramo
de hospedagem e do ramo alimentício que atuam na cidade. Atendo os pedidos dessas
pessoas seus nomes não serão divulgados, portanto a identificação dos mesmos nesse
artigo será por sua representação profissional.
A Tabela 01 resume os resultados das entrevistas, indicando a representação
profissional dos entrevistados e os principais dados extraídos das entrevistas.
Tabela 01. Resultado das entrevistas com os atores da comunidade .
14
Representação
profissional
Guias turísticos
Marisqueiras
Artesão
Como percebe o
turismo?
Como percebe a gestão municipal em relação ao turismo?
Turismo é importante Nada foi feito em prol da cultura e do turismo.
porque é universal e
Houve apenas uma pequena melhora na questão física e reforma de
alimenta muitas coisas.
alguns prédios dentro da cidade, mas que o apoio a grupos culturais e
associações não aconteceu.
Envolve a questão do
desenvolvimento
e Não existe articulação entre a gestão municipal e os outros atores
sustentabilidade
das sociais; o que existe são alguns contatos (apoio por parte da Prefeitura)
pessoas.
para eventos promovidos no município.
O turismo é importante Não há articulação entre a gestão e os outros atores sociais.
para aumentar a renda
Acreditam que a gestão não pode fazer mais pelo turismo no Iguape
das
pessoas
e
a
por conta do acesso ao local ser muito difícil.
oportunidade
de
empregos na região.
Necessário maior empenho nas questões relacionadas a segurança
pública.
O turismo é muito A gestão não se articula com a classe, pois não há nenhum trabalho
importante,
porque realizado pela Prefeitura para valorizar e expandir o valor do artesanato
mantem viva a tradição local.
que vem da antiguidade.
Não investe no município, sendo necessário investir mais.
O que faz para contribuir com a
conservação da atividade
turística no município?
Procura
qualificação,
buscando
parcerias com o SEBRAE, por
exemplo, e principalmente tentando
atrair os jovens para a profissão de
guia turístico.
Contribuem o para o turismo local
através do bom tratamento oferecido
aos turistas.
Contribuem para o turismo local
mantendo a arte e a cultura do
artesanato viva.
Há muita promessa por parte da Prefeitura e pouca coisa feita.
Empresários/hos
pedagem
Que as pessoas não têm
noção da importância do
turismo local e que a
região de Cachoeira tem
muito potencial, mas não
é explorado.
É de responsabilidade do governo municipal a conscientização da
população e elaboração de projetos para que o potencial turístico de
Cachoeira seja explorado.
Despreparo das pessoas que ocupam cargos de chefia nas questões
relacionadas ao turismo no município.
Oferecer serviços de qualidade.
Enquanto cidadão fazer reclamações
publicamente e utilizar também as
redes sociais.
Intervenções políticas solicitando
pessoas mais preparadas a frente da
gestão municipal.
Turismo é visto como um passatempo e não como algo real, faltando
planejamento e maior articulação entre o IPHAN – Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - e os outros atores sociais.
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Empresários
alimentos
/ O
turismo é uma
importante ferramenta
de
desenvolvimento,
para a qual o município
tem muito potencial,
porém pouco explorado.
Acreditam que a gestão municipal soube aproveitar as oportunidades
oriundas das parcerias com as demais entidades estaduais e federais,
mas que ainda é necessária uma maior articulação entre os gestores e
a população.
Atender os clientes da melhor maneira
possível.
Usar produtos de qualidade.
Participar dos eventos promovidos
pela gestão no intuito de se reciclar e
crescer a cada dia.
16
Através das entrevistas aplicadas podemos perceber como as percepções dos
atores sociais compactuam com a realidade vivida em Cachoeira. No entanto, outros
fatores foram apontados como elementos que prejudicam o turismo:

Inércia da iniciativa privada, pois esta, ainda não entendeu a
responsabilidade da sua participação no desenvolvimento do turismo local.

Maior preocupação pelo governo com a falta de infraestrutura no que diz
respeito ao número de leitos, aos museus e às igrejas fechadas do que com
a forma como a atividade turística é realizada.

Falta de união e associativismo entre as categorias, enfraquecendo o poder
de discussão na busca por melhorias.

Inercia por parte da comunidade local, pois a população precisa se inteirar
das responsabilidades dos órgãos públicos envolvidos diretamente com o
turismo para saber o que e como cobrar melhorias.

O mau comportamento de muitos universitários que frequentam a região
dos bares na cidade, devido ao uso explícito de drogas, causando má
impressão do lugar e afastando os demais clientes.

Falta de atrativos culturais como samba de roda na praça e apresentações
de grupos de capoeira diariamente nos finais de tarde.

Exploração de pontos turísticos que é feita de forma aleatória sem
definição de roteiros dentro do município. Enxergam que a Prefeitura
deveria tomar a frente dessa questão realizando um acordo com os guias e
empresas de turismo, fazendo com que os grupos passassem por um
número maior de estabelecimentos artísticos e comerciais.

A chegada de milhares de universitários contribuiu para algumas
mudanças relacionas ao aumento do custo de vida no município, além da
especulação mobiliaria e o início da transformação da paisagem, através
da construção de novas moradias que estão se estendendo aos morros que
cercam o município, fora as mudanças de costumes, de comportamentos e
os impactos da especulação imobiliária.
Considerações finais
O presente artigo propôs levantar discussões sobre os princípios do Turismo
Responsável, como elemento norteador para gestão pública, seguindo a ótica de Delgado17
Mendez (2000); WWF (2004), na condução da atividade turística no município de
Cachoeira. Para isso ser possível apresentou os conceitos estabelecidos pelas referências
indicadas e demonstrou através dos resultados das entrevistas a realidade do município
escolhido como recorte espacial.
Sabia-se que compreender a gestão pública municipal de Cachoeira sob a ótica do
turístico responsável era um objetivo audacioso pelo fato de que, aparentemente, no caso
selecionado, a intervenção da gestão municipal no turismo pode ser considerada
incipiente. Porém, percebeu-se que os problemas do turismo em Cachoeira não são de
inteira responsabilidade da gestão pública do município, a sociedade e, principalmente,
os atores sociais ligados ao turismo, contribuem de modo direto para algumas frustações
no sistema turístico local, como: a falta de interesse em participar dos debates; o
comodismo em não cobrar mais eficiência por parte da Prefeitura na prestação de serviços
básicos; falta de união entre os próprios grupos e categorias; a inexistência de articulação
entre os grupos sociais de diferentes atividades econômicas; a falta de zelo pelo
patrimônio e valorização do turismo e da cultura local. Assim sendo, poderia se dizer que
os aspectos mais agudos que se contrapõem aos princípios do turismo responsável aqui
apresentado, podem resumir assim:

O município de Cachoeira sofre de um mal nacional que afeta seu
desenvolvimento turístico: falta de uma visão sistémica para a política
turística em território nacional;

De nada servirão os programas de capacitação de recursos humanos se
não houver um claro empoderamento da atividade turística por parte da
população e dos atores econômicos, como mola propulsora de
desenvolvimento estável e respeitosa, do ambiente e do ser humano;

No caso de Cachoeira, cujo atrativo principal é o turismo cultural, requer
o reforço na construção de uma identidade igual e consistentemente
cultural, com compromisso de preservar a herança que a faz atrativa;

Os benefícios provenientes do turismo não podem ser obrigatoriamente
de curto prazo, o que requer um planejamento consciente e programas
governamentais para subsidiar esses prazos, com técnica e idoneidade.

Deve reconhecer-se que Cachoeira foi cenário de várias tentativas
recentes de consolidação de produtos e atrativos, mas requer integração
holística com todos os elementos defendidos pelos princípios do TR;
18

Finalmente, a participação e as atividades participativas ainda são tímidas
e pouco eficientes, elemento importante para dar novo rumo ao turismo
em Cachoeira.
Pode-se concluir que Cachoeira que faz parte do preocupante cenário comum a
outros destinos turísticos, e permite partir da premissa que, uma considerável parte da
atividade turística é realizada, ainda, de forma desconexa, desordenada, exploratória e
imediatista, e sem muito aprofundamento na responsabilidade com a saúde sociocultural,
econômica e o equilíbrio ambiental que circunda o município. Os resultados do estudo
levam a crer que os princípios e instrumentos do turismo responsável apresentados podem
auxiliar na gestão do turismo em Cachoeira, principalmente para reduzir o viés econômico
da atividade e elevar os esforços para o resgate da identidade e orgulho de pertencimento
a um município com tanto peso histórico-cultural. Sendo necessário compreender que os
benefícios econômicos só seriam consequência, primeiro, da construção de uma forte
identidade cultural, e depois da soma do planejamento responsável dos seus equipamentos
turísticos. A pesquisa ainda demonstra a necessidade de uma visão total e estratégica, que
integre todas as áreas envolvidas e afetadas pelo turismo e de interesse da comunidade.
Assim, o Turismo Responsável pode contribuir com os gestores e comunidade, e
proporcionar que a atividade turística se desenvolva para o benefício de todos, fazendo
movimento contrário às preocupações tradicionais.
A gestão do turismo é feita sem planejamento, em primeiro olhar parece tomar
apenas decisões paliativas de acordo com a demanda do momento, com objetivo de ter
retorno imediato das festas populares e religiosas, e sobreviver dos convênios entre
Governo Federal e Município, ou entre este e o Estado, sem preocupação com a
conservação da cultura e uma ação educacional para os munícipes, colocando-os como
parte integrante desse processo e não apenas como meros expectadores. É necessário
empoderar a comunidade para que ela também valorize a riqueza local. Vale ressaltar que
essa não é uma realidade apenas de Cachoeira, outros municípios turísticos enfrentam os
mesmos problemas, muito gestores desconhecem o turismo responsável como possível
diretriz para planejamento e ferramenta de gestão.
Referências Bibliográficas
19
BRASIL. Ministério do Turismo. Disponível em:<
http://www.turismo.gov.br/turismo/home.html >. Acesso em 15/11/2015.
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_____. Plano Nacional de Turismo 2007-2010. Brasília, 2007.
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Recôncavo: proposição de novos roteiros históricos-culturais para o Recôncavo baiano.
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TURISMO RESPONSÁVEL- Manual para Políticas Públicas. [Org. Sérgio Salazar
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