A única verdadeira viagem não seria viajar por centenas de diferentes países com o mesmo par de olhos... mas ver a mesma terra através de uma centena de diferentes olhos Marcel Proust PALAVRA DO PRESIDENTE Empreendedorismo: oportunidade de educação para o turismo A o planejar e coordenar a sua diferenciada gama de atividades em regiões distintas do Brasil, o Instituto Souza Cruz tem estado atento aos princípios do desenvolvimento sustentável, com interesse particular em sua vertente educacional. Os resultados positivos nos têm dado alento para prosseguir e a presente edição da revista Marco Social destaca mais uma área em que temos trabalhado com afinco. Trata-se da Educação para o Turismo, no contexto da qualificação de profissionais que venham a trabalhar neste importante setor hoje responsável por nada menos que 8% dos empregos e por 11,9% do PIB mundial, de acordo com dados do WTTC Conselho Mundial de Viagens e Turismo. Ações educativas como as que mostraremos nas páginas a seguir representam a esperança de que as novas gerações 2 desenvolvam habilidades específicas e ajudem o nosso País a aproveitar, em um futuro próximo, o seu imenso potencial turístico. As discussões sobre o tema têm mantido o foco na perspectiva do turismo como atividade socioeconômica integrada ao meio ambiente. Neste sentido, o ecoturismo é bem mais do que um simples filão de negócios, pois embute a possibilidade de envolvimento e desenvolvimento das comunidades em que está presente. Paralelamente, os pequenos hotéis, pousadas e resorts estão atentos e têm oferecido serviços mais condizentes com as reais possibilidades turísticas do País. Contudo, convém frisar que o potencial brasileiro é extraordinário e há muito a se fazer para alcançarmos uma situação ideal. Da segurança à infra-estrutura de serviços, temos potencial de oferecer muito mais. Ciente do quadro promissor e das lacunas existentes, o Instituto Souza Cruz aposta na Educação para o Turismo como uma área de grandes realizações. Hoje, no Brasil, cerca de 2,1 milhões de estabelecimentos turísticos empregam aproximadamente 25 milhões de pessoas, de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Com trabalho, poderemos ajudar nosso País a aumentar esses números. Flavio de Andrade Presidente do Instituto Souza Cruz 3 ÍNDICE 2 Palavra do Presidente Flavio de Andrade destaca aposta do Instituto Souza Cruz no turismo sustentável 14 Turismo e as eleições de 2002 Silvio Barros alerta que os presidenciáveis não podem ignorar importância do setor IDÉIAS 6 Educação, turismo e desenvolvimento sustentável Antonio Carlos Gomes da Costa analisa o desafio educacional para o setor turístico 8 A economia do turismo no Brasil Beatriz Helena Gelas Lage destaca os aspectos econômicos da atividade no País LUCIANO MATTOS BOGADO 20 ORGANIZAÇÃO & AÇÃO 38 Programa qualifica o turismo brasileiro Sergio Foguel descreve exemplos de sucesso com a certificação profissional HELCIO NAGA Planejamento integrado e sustentabilidade do turismo Carmélia Anna Amaral comprova necessidade de se desenvolver ações planejadas 26 Educação em turismo no Brasil Especialização e motivação são temas abordados por Marilia Gomes dos Reis Ansarah 32 Um caminho para a cidadania Adyr Balastreri Rodrigues prega o fortalecimento da auto-estima nas comunidades turísticas Pescadores no litoral paulista 44 Desvendando a Mata Atlântica Pólo de Lagamar, em São Paulo, o pioneiro no ecoturismo brasileiro 52 Ecoturismo na Amazônia Projetos comunitários preservam a natureza e garantem a sustentabilidade da população ARQUIVO DO PROJETO TRAJETÓRIA & VISÃO 82 Desenvolvimento sustentável em foco Turistas se integram ao ambiente 62 Instituto Souza Cruz implementa projetos em comunidades carentes 90 Natureza revalorizada Preservação ambiental salvou pequena ilha em Santa Catarina 68 Fundação sertaneja vira atração Exemplo de luta contra a miséria 86 Ensino de excelência MBA em turismo capacita profissionais de diferentes áreas de atuação Instituto Souza Cruz e Instituto de Hospitalidade firmam parceria na Bahia LUCIANO MATTOS BOGADO Tecnologia e tradição unidas no interior do Ceará Novas diretrizes curriculares MARCO ANTÔNIO REZENDE 74 MEC define mudanças para cursos de Turismo Artigos produzidos por moradores da Costa do Sauípe (BA) LUCIANO MATTOS BOGADO Estátua do Cristo domina a paisagem em Silves Artesanato popular é atração em Nova Olinda (CE) 5 HELCIO NAGA resume à preparação de pessoal dirigente, técnico e operativo para tocar o dia-a-dia da cadeia de empreendimentos diretamente envolvida nesta atividade. Trata-se de algo muito mais amplo. A tarefa com a qual o Brasil hoje se confronta nesse campo implica a articulação de uma ação educativa que abrange um conjunto variado de âmbitos de atuação. É necessário educar operadores, técnicos e dirigentes para atuar ao longo de toda a cadeia produtiva do turismo. Este é o aspecto mais evidente dessa questão. Por outro lado, é preciso também educar o turista, para que sua presença não tenha impactos indesejáveis sobre as condições ambientais e sociais da comunidade que o acolhe. Porém, é preciso reconhecer que isto ainda não é o bastante. Faz-se necessário incentivar e desenvolver através de um esforço consistente no campo da pedagogia social uma cultura de hospitalidade nas populações locais, de forma a criar uma ambiência sociocultural propícia ao florescimento da atividade turística. Finalmente, é preciso ter em mente que, para que tal APRESENTAÇÃO Educação, turismo e desenvolvimento sustentável propósito se viabilize, torna-se uma exigência inarredável um forte empenho no desenvolvimento, nos decisores públicos e privados nesse campo, da sensibilidade, consciência e competência necessárias para que o turismo não seja pensado de forma parcial, reducionista e inconseqüente, mas como parte da totalidade solidária e complexa do processo de desenvolvimento local integrado e sustentável. Para tornar realidade esta visão sistêmica da questão, faz-se necessário que esses quatro grandes atores do processo de desenvolvimento do turismo formem uma autêntica comunidade de sentido, no sentido que Bernardo Toro atribui ao termo. Para Toro, uma comunidade de sentido se estabelece quando qualquer grupo humano se revela capaz de compartilhar um O desafio de transformar o Brasil numa potência turística entendimento comum acerca de um determinado aspecto da estruturada no marco do desenvolvimento sustentável neste realidade, de posicionar-se em relação a ele de forma coesa, ou início do século XXI tem várias faces. Uma delas de enorme seja, com pessoas, grupos e instituições unidos por crenças, transcendência econômica, social, cultural e ambiental é, valores e sentimentos comuns e, finalmente, atuar frente às sem dúvida alguma, a educação. O desafio educacional é situações concretas de modo convergente e complementar, aquele que, se não for compreendido de forma clara e mantendo constância de propósito ao longo do tempo. enfrentado de modo articulado e conseqüente, poderá O grande fator de que depende a geração e mobilização de uma relativizar e até mesmo inviabilizar os esforços desenvolvidos em comunidade de sentido reside na capacidade dos diversos atores relação a outros aspectos desta questão estratégica para o econômicos, sociais e políticos de produzir um imaginário social desenvolvimento econômico e social do Brasil. convocante em relação àquele aspecto da realidade que se pretende Se observarmos o desafio educacional do turismo em toda sua transformar. No Brasil, nosso grande desafio é criar e viabilizar inteireza e complexidade, veremos claramente que ele não se comunidades intersetoriais capazes de articular e fazer acontecer 6 nos níveis nacional, estadual e local um novo modelo de educação Finalmente, o objetivo educacional junto à comunidade que para o turismo estruturado no marco do compromisso maior com o opera nessa área (os homens e mulheres que diuturnamente desenvolvimento local integrado e sustentável. fazem funcionar a multitude de organizações envolvidas na Para tanto, como em todos os grandes desafios brasileiros, será cadeia produtiva dos serviços ao turista) é, não só uma necessário construir novas equações de co-responsabilidade, educação técnico-profissional de qualidade, mas também e envolvendo as três grandes comunidades relacionadas à questão fundamentalmente uma educação para valores capaz de da educação para o turismo: a comunidade que decide, a enraizar e desenvolver em cada trabalhador o espírito de servir comunidade que estuda e a comunidade que opera no dia-a-dia natural a todos aqueles que atuam neste ramo. em cada uma das etapas do ciclo de desenvolvimento do negócio. É da correta articulação dessas três comunidades que devem O objetivo educacional em relação à comunidade que decide partir as iniciativas para a educação das comunidades, dos (dirigentes públicos e privados da área do turismo) é destinos e dos próprios turistas. Em relação às populações que sensibilizá-la, conscientizá-la, comprometê-la e mobilizá-la na vivem em tais áreas, o desafio consiste em utilizar os recursos construção de um modelo de turismo ambiental, econômico, pedagógico-sociais necessários para o florescimento de uma social, cultural e politicamente sustentável. cultura da hospitalidade, ou seja, uma maneira de ver, viver e Sustentabilidade ambiental, que se traduza no compromisso de conviver com os visitantes que seja presidida pelos valores da cada geração legar às gerações vindouras um meio ambiente acolhida, do respeito às diferenças, da cordialidade no trato, da igual ou melhor do que aquele recebido das gerações anteriores. ética nas transações comerciais, do respeito ao ambiente e aos Sustentabilidade econômica, que se mostre eficiente e eficaz na costumes de cada um. É da circulação desses significados nas geração de trabalho e renda em quantidade suficiente para relações humanas, sociais e profissionais que nasce a ambiência incorporar uma parte importante do contingente de jovens, que propícia ao desenvolvimento sustentável da atividade turística. todos os anos demandam da nossa economia oportunidades de O Instituto Souza Cruz ingressa no campo da Educação ingresso na esfera produtiva. para o Turismo como uma organização com causa, ou seja, uma Sustentabilidade social capaz de assegurar condições de saúde e instituição que pretende advogar ética, política e socialmente os educação básica e profissional para as novas gerações, de modo a pontos de vista e os interesses de todos os que atuam nesta área produzir jovens aptos a aproveitar plenamente as oportunidades comprometidos com a perspectiva do desenvolvimento sustentável. abertas no front econômico. Em razão deste compromisso, o Instituto tem atuado na Sustentabilidade cultural enquanto compromisso de cada mobilização de pessoas, grupos e instituições cuja atuação possa geração, não só de manter, mas de enriquecer e desenvolver o resultar em ações criativas, críticas, construtivas e acima de legado cultural das gerações passadas, acrescentando a ele o tudo solidárias com o ideal de desenvolver o turismo no Brasil contributo de seu próprio tempo. no marco das cinco sustentabilidades aqui elencadas. Sustentabilidade política entendida como continuidade das Para concretizar e expressar esse compromisso assumido em sua políticas em horizontes temporais, que extrapolem o curto prazo missão institucional, a estratégia educacional do Instituto dos mandatos políticos. Para isso, é necessário que as políticas Souza Cruz compreende o apoio ao desenvolvimento de ações públicas sejam formuladas com a participação das forças vivas no terreno (programas de atenção direta), que, depois de da sociedade e implementadas de forma transparente e aberta devidamente acompanhadas e avaliadas, deverão ter seus ao controle dos cidadãos individualmente ou por meio de suas conceitos e práticas sistematizados e divulgados, de modo a organizações representativas. gerar novas iniciativas e melhorar as já existentes. Tais ações O objetivo educacional junto à comunidade que estuda a além de marcar diferença e gerar impactos significativos em educação para o turismo no marco do desenvolvimento sustentável seus destinatários deverão mostrar-se capazes de agregar no Brasil em universidades, agências formadoras e centros de valor à causa da educação para o turismo no marco do pesquisa é envolvê-la e comprometê-la, não só com a imprescindível desenvolvimento local integrado e sustentável. 8 problematização desta realidade, mas com a produção de soluções viáveis para os impasses e dificuldades que se apresentam no dia-a- Antonio Carlos Gomes da Costa dia dos dirigentes, técnicos e pessoal operativo que atuam na área. Pedagogo, consultor, diretor-presidente da Modus Faciendi 7 FOTOS ADI LEITE A economia do turismo no Brasil Beatriz Helena Gelas Lage* A ciência econômica é árida, cheia de números, estatísticas, projeções e modelos, mas pode ser compreendida de forma simples, clara e inteligente por todos nós. A economia aplicada ao turismo é a maior prova disso. E o Brasil é um excelente caso de estudo. Apresentação A economia do turismo é estudo obrigatório na educação do turismo. No mercado turístico o ato econômico é intensamente praticado e, ao nosso redor, tudo gira por causa dele. O ensaio apresentado deve servir para que os leitores, nem sempre economistas, mas com certeza consumidores e/ou produtores de turismo, reflitam sobre a grandeza do processo econômico que o turismo representa junto aos agentes envolvidos, destacando um alerta na avaliação real de seus efeitos e sugerindo 8 responsabilidade planejada em futuras ações com necessidades ilimitadas; e, pela oferta, atendem a interesses de prioridade nos recursos humanos para alcance do lucratividade. É absolutamente natural, saudável, fortifica o almejado desenvolvimento sustentável. bem-estar das populações e gera muita riqueza para o País ou região que a explora devidamente. 1. Visão geral da economia do turismo Na atualidade, em termos domésticos, a atividade global do A evolução histórica do que hoje se chama de turismo acompanha US$ 60 bilhões (WTTC Conselho Mundial de Viagens e a humanidade desde os seus primórdios. Seja na busca de Turismo) com reflexo em todos os setores econômicos, alimentos, condições climáticas, curiosidade, cultura, lazer, abrangendo atividades diretas e indiretas, com perspectivas de interesses comerciais e outros, o deslocamento humano sempre expansão. É um mercado fantástico de 11 mil agentes de ocorreu em todas as partes do globo terrestre, e continua viagens, incluindo os corporativos, 600 operadoras turísticas acontecendo com nova exterioridade na sociedade capitalista com mais de 50 fornecedores de transporte aéreo, 2 mil moderna. No passado e no presente dessa atividade temporária, locadoras e 18 mil meios de hospedagem, considerando 6 mil mesmo sem saber, seus atores estão sempre atuando direta e hotéis, 2 mil pousadas e 10 mil flats (base: 2001). indiretamente na economia, assumida como o estudo de como Mas para tudo sempre existe um preço. Aliás, preço é uma os homens decidem empregar recursos escassos para palavra mágica na economia e, em qualquer circunstância, todo satisfazerem às suas necessidades ilimitadas. turismo só é produzido, e conseqüentemente consumido, mediante Associada a tal definição, convencionou-se chamar de turismo um valor econômico, sujeito a restrição orçamentária. O segredo essa manifestação de necessidades, primárias e secundárias, o que está em descobrir quanto isso representa de forma que as empresas nos parece na atualidade bem impróprio já que seu entendimento (privadas e públicas) sejam devidamente remuneradas e as ligado aos negócios deixou de ser apenas algo associado a pessoas envolvidas (turistas, comunidade) possam ser divertimento, lazer e férias. O nome fica em aberto para as novas atendidas em seus intermináveis anseios e necessidades. gerações decidirem como definir essa grandiosa atividade Aliás, a prática atual brasileira acabou com o sonho de econômica, que mundialmente é representativa de uma riqueza empresas com margens gordas de lucro e inchadas de infinita, dimensionada em milhões de viajantes e trilhões de pessoal. A fase de que os custos definem o preços dólares, segundo fontes oficiais. terminou. Hoje é o público consumidor quem define o que Enfim, no momento que os homens produzem e consomem tipos quer, quanto pode pagar pela sua renda (poder diferentes de viagens com igualmente distintos: pacotes turísticos, aquisitivo), indiretamente estabelece os custos das agenciamentos, hospedagens, transportes, alimentação, empresas de turismo e, conseqüentemente, os preços dos entretenimentos e outros elementos, há a formação de uma cadeia produtos de bens e serviços turísticos. gigante de inúmeras variáveis associadas a um sistema global Observa-se que esses preços são igualmente diversificados em que, de um lado, maximiza objetivos empresariais, e por função de períodos sazonais, férias, câmbio, política, modismo e outro atende a satisfações humanas. Esse volume de outras variáveis. Mesmo em países industrializados como a interesses heterogêneos é chamado de economia do turismo, França, a número 1 nos fluxos de visitantes, os preços no turismo que ramificada em micro e macroeconomia faz parte do sofrem alterações em situações diversas, como o exemplo mais estudo da ciência econômica. recente, em 2001, com a conversão da moeda francesa para o Tudo está ligado à economia do turismo. Mesmo segmentadas, euro, quando o setor hoteleiro sofreu um aumento inflacionário de todas as viagens motivadas por públicos diferenciados têm 5,1% e o setor alimentício de 3,5%, enquanto para o conjunto de fundamentação econômica pela demanda, satisfazem a todas atividades econômicas a inflação anual do país foi de 1,4%. 9 t turismo brasileiro apresenta uma produtividade de quase 2. Impactos econômicos e turismo na sociedade moderna perda de bens essenciais, únicos e em extinção. Temos exemplos dessa natureza em muitas regiões brasileiras (Amazônia, Pantanal, Nordeste) e, como cada vez mais isso vem Temos que ser conscientes. É ingênua a visão de turismo, numa acontecendo, obriga-nos a manter cautela e conscientização das economia como a brasileira que produz e que consome esse volume autoridades responsáveis sobre o futuro da economia do turismo de negócios, sem causar mal de qualquer espécie. O próprio que, antes de tudo, deve incorporar uma imprescindível movimento do turismo, no Brasil e no mundo, é afetado em razão legislação específica para cada caso e em cada situação. de diferentes situações (crises, por exemplo, energética, de Mas quem pode ser responsabilizado por tudo isso? O turismo, desvalorização do real com relação ao dólar, ataques terroristas, normalmente mocinho e vilão, não pode ser culpado pela decisão epidemias da dengue etc.). Vejam que em 2001 os deslocamentos econômica. É o homem quem decide empregar seus recursos e resolver mundiais registraram um declínio de 1,3% e o número de os problemas econômicos vitais de para quem, como e o que chegadas internacionais representou um volume de 688,5 milhões produzir. É também problema permanente da raça humana (Organização Mundial de Turismo), fato inédito na história decidir a forma pela qual a sociedade realiza a tarefa de organizar do turismo, derivado do atentado terrorista nos Estados Unidos. suas atividades de consumo, de produção e distribuição. Quando uma atividade econômica gera um novo produto, por Sem dúvida é a economia do turismo, tratando da vida real que nos exemplo, um complexo turístico, um resort ou um parque envolve, quem deve examinar a parte da atividade socioeconômica e temático, é evidente que os impactos são bilaterais. Normalmente promover as condições do bem estar das populações na tentativa de os estudos econômicos apontam diversos aspectos positivos como a corrigir os desvios, pesando os custos e benefícios que cada atuação possibilidade de emprego, a geração de renda, o aumento pode ocasionar. É óbvio que ninguém faz uma omelete sem quebrar de divisas, o combate à pobreza, o efeito multiplicador o ovo, mas é preciso saber como isso deve ser feito. (por vezes uma faca de dois gumes, quando o turismo O estudo da economia do turismo é altamente significativo requer de importação), a ampliação da infra-estrutura, a porque possibilita uma visão ampla em todos seus aspectos de criação dos serviços e comércio, além de outras variáveis maneira que possamos ter conhecimento da importância de que, no caso do Brasil, atuam de forma completamente que, quando recursos escassos são destruídos, mesmo para o diferente de região para região. bem-estar social, como quando uma árvore é derrubada Mas nem sempre os efeitos negativos são alertados. Os transtornos para que seja construído um resort, estejamos atentos para para a população, a poluição ambiental e sonora, a ausência de que novos outros recursos sejam criados. legislação específica, a infra-estrutura inadequada, o excessivo uso É dever humano a preocupação para com os recursos escassos e, hoje de água (piscinas, fontes e banhos), o acúmulo do lixo (produtos mais do que nunca, com o avanço tecnológico inexistente nos químicos, detritos), a prostituição, a violência, o congestionamento conceitos de Adam Smith, a prática do turismo é inconcebível sem (ônibus, carros), a ausência de alimentos, as enormes filas a conscientização social, do planejamento, do desenvolvimento (teatros, museus, restaurantes) etc. Em termos econômicos, ainda sustentável e da avaliação econômica dos impactos ambientais, deve-se acrescer a inflação, as variações cambiais, os altos impostos culturais, políticos e outros efeitos derivados da prática moderna. e taxações que inibem atividades importantes como o turismo Está na mão do homem a prática da economia do turismo, e só ele marítimo brasileiro (viagem não mais exclusiva de rico) que, na pode estabelecer prioridades nas decisões de uso dos meios última temporada chegou a transportar 170 mil passageiros por empregados para atender ao bem-estar de todos. Lembrando o 7,5 mil quilômetros do litoral e 32,5 mil quilômetros de vias paradoxo da parcimônia da economia, nem sempre o que é bom navegáveis internas, bem como a necessidade de importação, a para um atende aos interesses de todos e, no caso, também são os especulação imobiliária, os riscos de investimentos, a deterioração e a homens que devem ponderar sobre o poder dessa decisão. 10 Para cada qual, um modelo especial em acordo com as de-obra, e mais próxima ao padrão do turismo na França, onde características que melhor se adaptem às especificidades é responsável por 10% do número de empregos gerados no país. socioeconômicas da terra, do povo, da cultura e da política. O caso Vemos com otimismo, inclusive, o panorama de captação cada vez brasileiro é um exemplo de modelo onde poucos detêm muita maior do número de especialistas brasileiros ocupando atividades riqueza e muitos, a maioria da pobreza, senão a miséria. de trabalho onde, no passado, só estrangeiros eram selecionados. Segundo o World Development Report 2000/2001, afirmamos Centros de exposições, de convenções e eventos em várias que a renda per capita do brasileiro é de US$ 4.420. Poderíamos localidades (não só em grandes centros urbanos, mas até, com alegria, julgar que na média a situação brasileira vai também em regiões de diversidades potencialmente bem. Isso não é verdade. A mesma fonte divulga o índice Gini ambientais no Centro-Oeste) vêm ocupando um espaço que mede a concentração de renda e, no Brasil, este indicador é destinado para a realização de grandes negócios e, de 60%, só perdendo para Serra Leoa (62%), revelando um conseqüentemente, envolvendo mais e mais empregados. quadro injusto onde 1% dos ricos consomem mais do que a Mesmo com dificuldade e tanto para ser feito, a mão-de-obra do metade da população brasileira. Sem dúvida, as viagens estão mercado turístico começa a se qualificar valendo-se da educação longe do sonho desse segmento social, mas sempre devemos ter com cursos de capacitação e especialização profissional, estímulos esperança de que a economia do turismo venha a ajudar a de miniempreendimentos dirigidos ao meio rural, programas de classe menos favorecida em termos de emprego e renda, proteção da natureza, especialmente com a participação da privilegiada também pela riqueza natural, cultural, mentalidade jovem e de outras iniciativas mantidas por patrimonial e pródiga em atrativos turísticos. Os empregados entidades éticas e conscientes que começam a despontar, dando no turismo hoje representam 6% da população economicamente mostras de um esforço que permite vislumbrar a projeção da ativa (PEA), ou seja, aproximadamente 9 milhões de sua mão- indústria do turismo como uma luz pequenina brilhando no fundo de um túnel comprido. 3. Desenvolvimento econômico e indicadores de qualidade do turismo no Brasil Vemos, inclusive, O conjunto das medidas anteriormente mencionadas deve com otimismo o caminhar para o desenvolvimento econômico do turismo, panorama de entendido como o aumento contínuo do produto nacional, captação cada vez turística, além da melhoria da qualidade de vida da população incorporando bens e serviços relacionados com a atividade maior do número brasileira ao longo do tempo. de especialistas receptiva internacional aquém da desejada, com a chegada de Esse desenvolvimento no Brasil, com uma demanda turística brasileiros ocupando atividades de menos de 5 milhões de estrangeiros, muitas vezes revelando trabalho, onde, no passado, só para a prática de um turismo equilibrado onde os poucos, mas que detêm o poder econômico, devem necessariamente com o governo contribuir para que sejam criadas condições econômicas de indicadores de qualidade (escolas, moradias, hospitais, t estrangeiros eram selecionados exclusivamente um crescimento quantitativo, deve estar voltado 11 saneamento, aeroportos, transporte) que atendam antes de tudo a maioria das pessoas e os seus interesses vitais. Temos ainda um longo percurso ao compararmos nossa economia com a dos países desenvolvidos. Riqueza sabemos que temos, mas infelizmente as condições de formação estrutural, histórica e outras de natureza exógena criaram um panorama difícil de ser consertado em curto prazo. Nem por isso devemos desistir dessa riqueza, que necessita lapidação por uma geração consciente, capaz e que deve cuidar do futuro. O conceito de riqueza é, na verdade, a formação do produto nacional do País (PIB com ressalvas) e esse agregado macroeconômico no Brasil é da ordem de US$ 750 bilhões, representando 42% da totalidade da América Latina (2002). A participação da economia do turismo nesse quadro reflete um envolvimento direto e indireto de 8%, ou seja, os produtos criados e consumidos representam aproximadamente US$ 60 bilhões, Esse crescimento e desenvolvimento num país colocado mundialmente em 9o lugar de poder de econômico sobreposto ao turismo deve sempre compra. Valor este relativamente comparado a muitos países industriais de primeiro plano como França, Estados Unidos, Itália e Espanha líderes receptivos da economia do turismo no mundo , e dos principais emissivos como Alemanha e Japão, mas que têm uma existência histórica, bem como um tipo de ser fundamentado em quatro grandes pilares: recursos humanos, recursos naturais, capital e tecnologia turismo e uma população distintos da nossa. É incrível mas tanto um país rico como um país pobre podem se país, para cada um é assumida uma fórmula de eficiência ideal. beneficiar do turismo. Antes de tudo, é preciso se valer do Visando sempre o desenvolvimento sustentável, as ações conhecimento econômico e, compreendendo a base dessa futuras no turismo brasileiro devem observar um cuidadoso complexidade aplicada ao caso brasileiro, que apresenta planejamento com base nos quatro fatores: inúmeras possibilidades de modelos econômicos, definir sobre a a) Recursos Humanos (RH) Correspondendo à quantidade gestão dos recursos limitados, escolhendo quais fatores de de empregados e à qualificação da força de trabalho. É o produção (terra, capital, trabalho e tecnologia) serão utilizados elemento que mais pesa no crescimento e desenvolvimento para produzir os bens e serviços turísticos que mais atendam aos econômico do turismo. Os bens de capital, a tecnologia e outros interesses do perfil de nossa população e dos agentes econômicos fatores só podem ser mantidos por mão-de-obra qualificada e envolvidos, com especial atenção na comunidade receptora de treinada, e a produtividade dessa área só é favorecida com fluxos turísticos e em todas as demais pessoas (físicas, jurídicas) educação adequada em todos os níveis. que circundam o grandioso sistema, em nível público e privado. b) Recursos Naturais (RN) Equivalendo ao meio Em particular, esse crescimento e desenvolvimento econômico ambiente, os recursos naturais e artificiais, como terra (solo), sobreposto ao turismo deve sempre ser fundamentado em quatro petróleo, gás, recursos minerais, patrimônio, clima, florestas e grandes pilares: recursos humanos, recursos naturais, capital e água. Essenciais no turismo de grande parte do verde tecnologia. Como esses fatores podem ser diferentes de país para brasileiro, pólos turísticos urbanos da região sudeste também 12 podem prosperar significativamente com base em setores homem na Terra. Se ele escolher aplicar recursos limitados na dependentes do trabalho e capital. capacitação do fator de mão-de-obra, é uma decisão econômica. c) Capital (K) Incluindo as estruturas de apoio ao turismo A dificuldade é qual caminho seguir para o engrandecimento do como vias de acesso, centrais elétricas, comunicação, fábricas, turismo brasileiro. Qual a fórmula mágica da eficiência para a computadores, componentes e equipamentos similares. Para a economia do turismo em nosso País? economia da atividade turística, acrescentaria também os Sem dúvida, pelas condições territoriais extensas dos milhões de investimentos chamados de infra-estruturas sociais, consistindo quilômetros brasileiros, características da miscigenação em planos de grande dimensão que precedem o comércio e o populacional, biodiversidade de meio ambiente, modelo de negócio. Normalmente são as estradas, os aeroportos, os portos, os cultura e de civilização, devemos enfatizar uma preocupação projetos de irrigação, abastecimento de água e medidas de saúde fundamental com os recursos humanos, sem esquecer dos outros pública necessárias na oferta turística de um pólo turístico, fatores. São eles os responsáveis pelo futuro da economia do avaliadas nos inventários turísticos. turismo considerando prioridade na educação e cujos d) Tecnologia (T) Dependente da qualidade do conhecimento resultados, assim esperamos, correspondam a ótimos frutos de técnico e científico, necessita da competência de gestão. uma incansável colheita. Corresponde às alterações no processo de produção, bem como à No plano universal mais elevado, é sempre o homem quem introdução de inovações, produtos ou serviços. Dentre os exemplos escolhe o seu destino por meio da economia, e no turismo isso mais empregados ao desenvolvimento do turismo lembramos os não é diferente. Somente o ser humano tem condições de meios de altíssima comunicação, os microcelulares e componentes, decidir o que fazer com os recursos naturais, a formação de seu os minicomputadores, os modernos navios (resorts flutuantes), as capital e o direcionamento de seu progresso tecnológico e aeronaves de nova geração e uma infinidade de aperfeiçoamentos inovador para as atividades econômicas do setor turístico, como técnicos que produzem conforto, rapidez, especialização e acontece no caso brasileiro. A Riqueza das Nações ressaltava eficiência ao desenvolvimento das atividades turísticas. o valor e a importância do trabalho humano e hoje, mais de Mas no desenvolvimento precisamos lembrar que não podemos ter dois séculos passados, continuamos confirmando seus princípios tudo ao mesmo tempo. Em economia, pela escassez das condições, é perfeitamente adequados à concepção do turismo moderno. preciso priorizar os objetivos, atender aos benefícios das vantagens Esperamos que nesse século XXI e no futuro o mesmo comparativas e, gradativamente, com o crescimento equilibrado homem que habita esse planeta e que convive com tudo que regional, buscar grandezas na qualidade das propostas e políticas aqui existe possa adequar sabiamente os recursos escassos definidas para atingir o progresso do mercado turístico brasileiro. disponíveis para satisfazer a suas infindáveis necessidades, 4. Mensagem final: o homem como fator econômico do turismo Teríamos muito a discutir sobre o assunto. Para tanto é preciso continuar pesquisando, educando e conscientizando as gerações sobre tema tão dinâmico, sujeito a tantas variáveis incontroláveis. Finalizamos esta análise com uma breve mensagem aos estudiosos do turismo, especialistas ou não na economia do turismo. Quer queiram ou não, tudo gira na economia, na vida do especialmente de viagens e de turismo. * 8 Beatriz Helena Gelas Lage é economista pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/ USP), professora doutora titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), orientadora de programas de pósgraduação e coordenadora do Curso de Especialização Economia do Turismo – MBA/USP da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). 13 Turismo e as eleições de 2002 Silvio Barros* A cada ano de eleições o País tem a oportunidade de exercitar No entanto, isso tudo é o processo político, e a articulação uma ampla discussão sobre as necessidades básicas da política não pode ser desconsiderada, as negociações sociedade, bem como estabelecer um processo de avaliação de partidárias, os interesses daqueles que detêm o patrimônio propostas e programas, de idéias e projetos que a classe do voto. Já assistimos de maneira clara, nestes últimos política apresenta para conquistar a simpatia do eleitor. meses, às conseqüências destes elementos no quadro Talvez esta extraordinária oportunidade não esteja sendo sucessório da Presidência da República e ainda vamos ver plenamente aproveitada, mas sem dúvida percebe-se cada muito mais até o término das eleições. vez mais um envolvimento de diversas camadas da Mas a pergunta é: o que tem o turismo a ver com isso e sociedade brasileira nestas avaliações e particularmente qual a ligação deste preâmbulo com a responsabilidade procurando articular-se de forma a expressar suas social? cobranças e demandas junto à classe política. É exatamente esta análise que um país com as Pelo menos teoricamente, o resultado do processo eleitoral potencialidades e a realidade que vivemos deveria fazer deveria refletir na escolha daqueles candidatos que cada vez com maior profundidade. apresentaram as propostas mais convergentes com os anseios Quais são efetivamente os grandes desafios que o Brasil e necessidades da população. Aí está o marco referencial de precisa vencer, que deverão ser a base das demandas da uma sociedade madura e consciente. população e deveriam estar refletidos nos programas de Na verdade, quanto mais se materialize esta situação, governo dos candidatos nas próximas eleições? mais encorajados estarão os candidatos que efetivamente l Geração de oportunidades de trabalho. têm consistência, propostas, compromisso e disposição de l Redução das desigualdades sociais e melhor distribuição emprestar quatro anos de suas vidas ao serviço da de renda. comunidade. l 14 Erradicação da pobreza. FOTOS HELCIO NAGA l Investimento em saúde, educação, segurança e meio ambiente. l Aumento das exportações para enfrentar a globalização. É claro que existem muitas outras demandas; no entanto, estas provavelmente são as mais importantes e vamos sobre elas fazer nosso exercício de avaliação. Turismo e geração de oportunidades de trabalho O turismo, embora seja uma atividade essencialmente privada e que se desenvolve primordialmente onde existem atrativos, sejam naturais ou culturais, precisa de suporte público e governamental, num ambiente estável e saudável para poder produzir seus melhores resultados. É também, segundo o WTTC Conselho Mundial de Viagens e Turismo, a atividade que mais gera empregos em todo o planeta. Certamente a maior pressão sobre os candidatos será no sentido de apresentarem fórmulas mágicas para a geração de empregos, e não há dúvida também de que é exatamente isso que eles vão prometer nos palanques e nos programas de televisão. Ocorre no entanto que os políticos estarão prometendo empregos que devem ser gerados pelo setor privado, e surge aí a primeira grande oportunidade empresários e dos políticos. t de convergência entre os interesses da sociedade, dos O turismo, embora seja uma atividade essencialmente privada, precisa de suporte público e governamental, num ambiente estável e saudável 15 Hoje, isoladamente, este setor representa 3,4% do PIB nacional, mas se considerarmos o impacto total desta indústria na economia brasileira, os números são muito mais expressivos e vamos a 7,4%, muito abaixo porém da média mundial, que está na casa dos 11%. A economia de viagens e turismo representa não apenas os empregos e o faturamento dos hotéis, agências, operadoras, transportadores, parques temáticos, entretenimento; segundo o WTTC, o que precisamos efetivamente medir é a permeabilidade do nosso negócio e sua influência num contexto maior. Precisamos contabilizar os investimentos de capital, feitos na construção dos empreendimentos turísticos e na própria infra-estrutura pública que serve ao setor, desde os hotéis até os aeroportos. Precisamos computar quanto do faturamento e das oportunidades de trabalho da indústria de combustíveis ou de telecomunicações, por exemplo, são diretamente relacionados com as viagens e o turismo. Na verdade, são 52 setores da atividade econômica que têm interdependência maior ou menor com este setor. Por exemplo, durante o período em que centenas de operários estão trabalhando na construção de um hotel, estes empregos foram viabilizados na construção civil graças ao negócio do turismo. Turismo e a redução das desigualdades sociais Este tema pode ser abordado de diversos ângulos, mas O turismo é verticalmente um grande vamos analisar a questão relacionada com as diferenças distribuidor de renda na medida em que existentes dentro do nosso País, com regiões muito ricas, integra os grandes negócios ao artesão, equiparadas às mais desenvolvidas do mundo, e regiões muito pobres, com Índice de Desenvolvimento Humano ao jangadeiro e ao vendedor de coco (IDH) comparável ao das mais pobres do planeta. Felizmente, muitos dos principais destinos turísticos do distribuidor de renda na medida em que integra, na sua Brasil estão localizados em regiões mais pobres, porém cadeia produtiva, desde os grandes negócios de capital intensivo, exercendo um enorme poder de atratividade sobre os como transportes e hospedagem, atingindo e beneficiando o cidadãos dos grandes centros, que têm poder aquisitivo artesão, o jangadeiro, o vendedor de coco na praia. para fazer turismo distribuindo geograficamente a renda. Numa cidade onde o turismo seja intenso e borbulhante, fica Num outro sentido, o turismo é verticalmente um grande evidenciado que todos ganham, direta ou indiretamente. 16 ...a posição do turismo como ferramenta de combate à pobreza certamente deveria estar priorizada nos planos de governo, com apoio da classe acadêmica do turismo... Não há dúvidas de que se trata de uma atividade que promove a integração cultural, a valorização econômica das tradições culturais, a preservação do patrimônio natural e fortalece o espírito patriótico. Turismo e erradicação da pobreza Na verdade, este foi o tema de um evento da Organização Mundial de Turismo (OMT), que o Brasil sediou em Natal recentemente. Estudos cada vez mais conclusivos estão sendo feitos por diversas organizações multilaterais, entre as quais o próprio Banco Mundial, constatando que a única e eficaz forma de eliminação da pobreza é a geração de riqueza. Enormes investimentos têm sido feitos em ações corretivas, compensatórias ou emergenciais; no entanto, serão sempre paliativos. Um país com as potencialidades ímpares que tem o Brasil, formados e desejosos de contribuir com a construção de um com vantagens competitivas extraordinárias no contexto Brasil socialmente mais justo e economicamente mais rico. turístico mundial, precisa apropriar-se desta oportunidade Trata-se sim de um desafio, mas que pode ser vencido e usando o que tem de melhor, que é sua gente alegre, contará com o respaldo financeiro e institucional de pacífica e hospitaleira e o fantástico patrimônio natural inúmeras entidades e organizações nacionais e que nos foi legado pelo Criador. estrangeiras. Como um setor altamente profissionalizado, é claro que estes resultados não serão alcançados sem planejamento, sem investimento e determinação, mas a posição privilegiada do turismo como ferramenta de combate à Turismo e investimentos públicos: saúde, educação, segurança e meio ambiente Estabelecer esta relação pode parecer um pouco mais difícil, nos planos de governo, buscando o apoio e o envolvimento no entanto, ela é bastante lógica. Como sempre disse o da classe acadêmica do turismo, que hoje representa um grande urbanista e planejador Jaime Lerner, uma cidade expressivo contingente de profissionais capacitados, só pode ser boa para o turista se primeiro for boa para quem t pobreza e à miséria certamente deveria estar priorizada 17 vive nela. Isso é uma verdade inquestionável e por si só estabelece a relação do setor com os investimentos públicos. A prova mais concreta desta relação pode ser testemunhada em programas como o Prodetur Nordeste, que investiu nos últimos anos centenas de milhões de dólares provenientes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e dos governos federal e estaduais no Nordeste, em saneamento, estradas, aeroportos, segurança, planejamento urbano, preservação ambiental, enfim, possibilitou investimentos públicos alavancados na viabilização dos investimentos privados que geraram empregos e arrecadarão os tributos necessários para pagar os financiamentos. O modelo foi bem sucedido e desencadeou programas semelhantes, como o Proecotur na Amazônia, o BidPantanal, o Prodetur Sul, e já foi firmado o contrato do Prodetur II para o Nordeste com mais US$ 400 milhões. Independentemente destes programas, que estão localizados em regiões específicas, centenas de prefeituras espalhadas em todo o Brasil já se aperceberam dos benefícios que o turismo pode trazer para a arrecadação municipal e têm feito investimentos infra-estruturais importantes, que vão desde urbanização e acessos a até mesmo construção de centros de convenções, importante equipamento alavancador da economia local. Para que possam ter recursos para investimentos em educação, saúde e segurança, é preciso que a economia das cidades esteja fortalecida, e o turismo como arrecadador de impostos, primordialmente, tem tido um papel preponderante, para o qual cada vez mais a sociedade e os políticos estão atentos. Turismo: aumento das exportações e o desafio da globalização O turismo já nasceu como atividade globalizada. Neste sentido tem experiência para compartilhar. A competitividade entre os destinos já vem ensinando os empresários do setor a estabelecer preços e padrões de qualidade competitivos. Um segmento que é responsável por 18 Executivo para que possam ser implementadas e, mais uma Não podem os empresários do setor vez, nos deparamos com a convergência, pelo menos teórica, de turismo esquecer de que o cenário dos interesses, sociais, empresariais e políticos. onde suas empresas estão atuando tem entre o turismo e a política, pode-se perceber a relevância Em síntese, abordando apenas alguns aspectos da relação impactos diretos na capacidade de obter que tem o assunto dentro do contexto atual dos desafios que retorno dos seus investimentos amplas discussões durante a campanha eleitoral. estão à frente da sociedade brasileira e que serão alvo de Não podem os empresários do turismo esquecer de que o cenário onde suas empresas estão atuando tem impactos extraordinárias contribuições para ingresso de divisas em diretos na capacidade de obter retorno dos seus outros países, no Brasil, porém, sequer é tratado como investimentos. Onde há poluição de praias, lixo na rua, segmento exportador. falta de segurança, promoção incipiente ou inexistente, com A estrutura de incentivo à exportação no Brasil não está certeza não haverá turistas para justificar o retorno do adaptada para beneficiar o turismo. Estruturalmente, os capital. Estas circunstâncias na realidade estão fora da benefícios fiscais e financeiros voltados à exportação se governabilidade e do controle do empresário e de seu baseiam no conceito de que o produto é móvel e o mercado empreendimento, mas estão diretamente relacionadas com consumidor é fixo, mas no turismo o produto é fixo e quem o que vulgarmente chamamos de vontade política. se move é o consumidor. Os bilhões de dólares que Esta relação de interdependência justifica perfeitamente o anualmente ingressam no País provenientes dos viajantes desenvolvimento por parte do setor turístico de uma estrangeiros que visitam o Brasil não recebem o tratamento estratégia madura e consistente de participação e de exportação mas produzem efetivamente os resultados envolvimento no processo político, nas eleições de 2002 e nas econômicos tão desejáveis para o País. outras que virão. Aliás, o que não se justifica de forma Dentro do espírito de corrigir tais distorções, o Ministério alguma é a omissão e a alienação deste processo com do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) cobranças futuras por esta mesma vontade política, tão instituiu recentemente o Fórum de Competitividade do imprescindível para a sustentabilidade dos negócios e Turismo e considerou o setor como estratégico para o empreendimentos turísticos. aumento das exportações brasileiras. O objetivo do Fórum é Todos estes elementos conformam um quadro bastante identificar os gargalos e os entraves que impedem ou abrangente de RESPONSABILIDADE SOCIAL dos dificultam o setor de impulsionar sua contribuição positiva políticos, dos empresários e dos cidadãos que deverão estar na balança comercial brasileira. Simultaneamente, o setor amplamente refletidos nos programas de governo que cada empresarial do turismo está desenvolvendo com a parceria partido apresentará para a análise e a aprovação dos da Embratur Instituto Brasileiro de Turismo um estudo eleitores brasileiros, em suma, responsáveis pela escolha dos sobre o assunto que apresentará ao governo sugestões e rumos que definirão o futuro do nosso País. 8 propostas de ajustes na contabilidade oficial e na política de incentivos à exportação que possam alavancar o viés exportador do turismo. Tudo isso, no entanto, exigirá instrumentalização legislativa e vontade política do * Silvio Barros é diretor para a América Latina do WTTC – Conselho Mundial de Viagens e Turismo 19 FOTOS ELCIO CARRIÇO Planejamento integrado e sustentabilidade do turismo Carmélia Anna Amaral* O progresso humano passou a exigir instrumentos para sua Uma marca das sociedades modernas é a ampliação do viabilização, levando o homem a exercitar sua inteligência tempo livre, que provoca o desenvolvimento das atividades para criar e estabelecer inter-relações que se tornam de lazer, conseqüentemente do turismo. Isso cria a cada vez mais complexas. Essa complexidade exige necessidade de essa atividade ser inserida numa ação de ordenamento, desenvolvimento e resultados. Para alcançar planejamento. tal objetivo, cria-se então o planejamento, que tem a Planejamento é, sem dúvida, o meio correto para racionalidade como seu elemento regulador. consecução do desenvolvimento turístico. Com as Segundo Muñoz Amato, o planejamento é a formulação transformações ocorridas a partir do pós-guerra, as noções sistemática de um conjunto de decisões, devidamente de desenvolvimento no âmbito de quaisquer atividades vêm integrado, que expressa os propósitos de uma empresa e redefinindo os parâmetros do planejamento, visando a um condiciona os meios de alcançá-los. O planejamento é, desenvolvimento sustentável. portanto, um processo dinâmico que deve desenvolver-se em O caminho para o turismo sustentável e integrado é o bases científicas para que o seu acompanhamento seja processo de planejamento, que permite analisar a realidade correto e possibilite os ajustamentos necessários ao longo do e estabelecer os meios que transformem essa realidade, seu desenvolvimento. atendendo aos seus interesses, às suas necessidades, bem 20 como às suas estruturas organizacionais. O planejamento integrado do turismo começa a ser reconhecido em nível institucional. A postura atual dos governos é definir ações democráticas, parcerias com todos os atores sociais do turismo, em que cada um desenvolve suas competências, com vistas a um objetivo comum: o desenvolvimento sustentável do turismo. No Brasil, a aplicação de modelos de planejamento pelo Estado, devido à sua estrutura administrativa complexa, não conduziu o planejamento do turismo através de diretrizes ou políticas básicas no sentido da ação interinstitucional, da integração e da parceria. Esses pressupostos, a partir da década de 1990, embora presentes nos documentos publicados em relação ao desenvolvimento do turismo, na prática operacional e nos resultados, não são tão visíveis pois a representatividade do turismo brasileiro no mercado mundial é modesta. Nesse sentido, pretende-se comentar e analisar a estrutura, as relações, as ações estratégicas que têm sido propostas pelo setor público e pelo setor privado em relação à sustentabilidade do turismo, pois uma estratégia de desenvolvimento turístico perpassa pelo próprio desenvolvimento proposto para os destinos, considerando aí as dimensões do social, do ambiental, do cultural, do econômico, do político e da identidade local, que envolvam é a ampliação do tempo livre, que provoca o desenvolvimento das atividades de lazer, conseqüentemente do turismo. Isso cria a necessidade de essa atividade ser o turismo e tenham consenso nas propostas do planejamento turístico. Turismo e planejamento integrado O planejamento integrado é uma atividade mais recente. Adotado pelo setor público, objetivou a organização e gestão inserida numa ação de planejamento, o dos recursos disponíveis para a melhoria coletiva. Embora meio correto para a consecução do na prática e nos resultados, mostra falta de integração. desenvolvimento turístico defina objetivos sociais e econômicos e deva ser abrangente, Beni (2000), nos seus estudos, refere-se a um tipo de planejamento para o turismo, o planejamento integrado, dizendo que é o planejamento em que todos os seus componentes devem estar sincronizados e seqüencialmente t Uma marca das sociedades modernas 21 ajustados a fim de produzir o alcance das metas e diretrizes da área de atuação de cada um dos componentes a um só tempo, para que o sistema global possa ser implantado imediatamente e passar a ofertar oportunidades de pronto acompanhamento, avaliação e revisão. Nessa mesma linha, Boo (1995), considerando a expansão do turismo e preocupada com os impactos que ele possa causar, principalmente nas áreas naturais, refere-se à necessidade de planejamento e gestão para que os destinos turísticos tenham realmente organização, desenvolvimento e sustentabilidade. Para organizar e desenvolver o turismo, necessário se faz envolver a comunidade no processo de planejamento, pois a complexidade da produção turística exige o que referencia Acerenza (1992) quando afirma que la planificación económica y social, por si misma no es, y no ha de actuar como un proceso que restrinja o involucre en el a las otras actividades tales con las de presupuesto, de personal, de reforma administrativa, de estadísticas, etc... Establece las metas globales del desarrollo con base en sus propios elementos de juicio, y con los que otros sistemas le dan , y fija así un marco de actuación lo más realista posible dentro del cual se han de desenvolver de acuerdo con sus propias concepciones e iniciativas. O turismo possui um mercado dinâmico exigindo um planejamento integrado que reflita as necessidades da comunidade receptora, seu envolvimento e participação nas decisões da atividade turística. Conforme assinala Swarbrooke (2000), o desenvolvimento do turismo nos países emergentes ocorre com os seguintes direcionamentos: l a maioria dos governos focaliza complexos turísticos em desenvolvimento como oásis de desenvolvimento em desertos de subdesenvolvimento; l o estímulo às grandes operadoras turísticas estrangeiras e grandes empreendimentos para desenvolverem o turismo às custas de pequenas empresas locais; l a centralização efetiva da política de turismo nas mãos do governo; l o planejamento do turismo, aprovando projetos inadequados por conta de influências e lobbies. Isso resulta da falta de participação e de transparência porque não se discute o turismo como um segmento integrado aos diferentes aspectos do desenvolvimento. A sustentabilidade e o desenvolvimento, tanto do turismo A postura atual dos governos é quanto das diferentes atividades produtivas e sociais, só ocorrerão se houver eqüidade, ética, equivalência de definir ações democráticas, parcerias oportunidades e de parcerias. com todos os atores sociais do turismo, O planejamento e gestão corretos do turismo devem estar com vistas a um objetivo comum: o pois esse é o paradigma da atualidade. desenvolvimento sustentável do turismo 22 integrados nas políticas sociais, econômicas e ambientais, Daniel Corpus, da Asian Institute of Tourism, Filipinas, é referenciado pela Organização Mundial do Turismo (OMT), (1993), com um exemplo de planejamento integrado do turismo, em que objetiva a conservação da O turismo possui um mercado vida marinha através do programa Bantay Dagat dinâmico exigindo um planejamento (Guarda dos Mares), envolvendo ações de governo, de empresas, de grupos cívicos e religiosos e da comunidade integrado que reflita as necessidades da em geral. Num país arquipélago com 7.100 ilhas, a comunidade receptora, seu envolvimento conservação marinha representa a sustentabilidade do turismo. e participação nas decisões da atividade Conforme observa Molina (1999): os esforços desenvolvidos para promover o desenvolvimento sustentável do turismo requerem a integração de políticas de diversos setores, a integração horizontal entre os setores, a integração horizontal entre os setores da administração central e a parceria entre as diversas instâncias sociais, os governos nacionais, estaduais, municipais e privados. Essas idéias foram também trabalhadas por Beni (1998) acrescentando que: l o planejamento integrado de turismo é um processo muito complexo e difícil por duas razões: o envolvimento inevitável do Estado, na determinação e execução dos objetivos da política de turismo e a diversidade das ações múltiplas e intersetorializadas que constituem a atividade do turismo e a correspondente ação obrigatória do Estado nestas interfaces. Por isso, acrescenta Swarbrooke (2000) que talvez a chave do turismo sustentável consista em criar um clima de opinião de consumidores e uma política de governo nas quais as organizações possam competir na base de quem age de forma mais sustentável. Essas condições só serão possíveis se os atores sociais do turismo, incluindo nessa relação a mídia, agirem de forma integrada na implementação da atividade turística. A mídia, um novo ator que se adota, pode colaborar para uma reflexão sensata sobre a responsabilidade, direitos, deveres, conservação e imagem de destinos e consumidores. A Teoria Geral de Sistemas estudada por Beni oferece idéias e subsídios para estabelecer as relações e a integração dos elementos do planejamento e da sustentabilidade do turismo. Os estudos de Boullón e Molina, considerando os novos paradigmas do turismo, analisam que governos de países com diferentes níveis de desenvolvimento e de tendências diversas procuram controlar as manifestações do turismo para agregá-las, como benefícios, nos seus modelos de desenvolvimento socioeconômico e político, encontrando meios de canalizar tais benefícios para outros campos. Nesse sentido é que se deve planejar o turismo considerando os diversos componentes do desenvolvimento na estrutura do mercado e do meio ambiente. O planejamento deve ser desenvolvido como um processo sistemático, com objetivos definidos, pesquisas e análises de todas as variáveis que possam ser envolvidas. Isso porque o planejamento do turismo ocorre em níveis diferentes, indo do macronacional/ 23 t l regional ao micro local. etc.), porque tudo isso é essencial ao turismo. Embora haja diretrizes diferenciadas, os planos de turismo No aspecto ambiental, o planejamento deve sinalizar para local devem estar correlacionados no contexto dos planos um novo contrato natural e social, contando com a nacionais/regionais. parceria de todos os atores sociais do turismo porque a Considerando a sustentabilidade do turismo, não se podem conservação do meio ambiente e dos seus recursos naturais é omitir nos planejamentos os aspectos ético-políticos, pois, a premissa básica da sustentabilidade do turismo. para um processo democrático e participativo do turismo, os A qualidade social e econômica dos centros receptores, habitantes dos centros receptores devem se tornar parceiros melhoradas pela educação, vai se refletir no processo de dos governos, participando das ações para o planejamento do turismo porque todos os objetivos são desenvolvimento e, ao mesmo tempo, fiscalizando os gestores integrados. e legisladores. A qualificação dos recursos humanos, desenvolvida por um No aspecto social, a prioridade estratégica do planejamento sistema de educação e formação como condição prioritária é incluir e integrar os excluídos do processo, oferecendo-lhes para a sustentabilidade do turismo. oportunidades de capacitação para o que produzem Em razão disso, Ruschmann (1997) afirma que o (artesanato, bordados, doces etc.) e para defender e manter planejamento de localidade turística exige uma série de suas atividades (pesca, plantio, condução de transportes ações e decisões que só serão bem sucedidas se empreendidas dentro de um processo metodológico. Amaral (1998) afirma que o turismo pode trazer um nível de vida mais elevado para as comunidades receptoras. Entretanto, isso tem custos, se não se desenvolver um planejamento integrado, no qual os recursos naturais e culturais estejam juntos, pois o ambiente tem as dimensões biofísicas e socioculturais. À guisa de conclusão Nenhuma atividade prescinde de planejamento, pois ele estabelece os cenários para o futuro. No turismo, o planejamento cria condições favoráveis para o desenvolvimento da atividade, apesar da complexidade da sua estrutura e produção. A mídia, um novo ator que se adota, O planejamento integrado facilitará a sustentabilidade do turismo porque, quando se adota um modelo de pode colaborar para uma reflexão planejamento integrado do turismo: sensata sobre a responsabilidade, l direitos, deveres, conservação e imagem de destinos e consumidores 24 o governo cumpre seu papel norteando a atividade considerando sua função de normatizador, de articulador da cooperação inter e intragovernamental, de fomentador, de planejador e de viabilizador do processo de desenvolvimento turístico; O empresário, considerando a nova ética do desenvolvimento, poderá regulamentar seu comportamento no mercado e adotar práticas sustentáveis nos negócios turísticos Referências bibliográficas ACERENZA, Miguel Angel. Administración del turismo: planificación y dirección.2. México; Trillas, 1992 AMARAL, Carmélia Anna. Ecoturismo e envolvimento comunitário. In: VASCONCELOS, Fábio Perdigão. (org). Turismo e meio ambiente. Fortaleza UECE, 1998. BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. São Paulo: Senac, 2000. _____Política e estratégia do desenvolvimento regional planejamento integrado e sustentável do turismo, 1998. Prova pública oral de erudição. ECA/USP. BOO, Elizabeth. O planejamento ecoturístico para áreas protegidas. In: LINDBERG, Kreg e HAWKINS, Donald E. Ecoturismo - um guia para planejamento e gestão. São Paulo: Senac, 1995. EMBRATUR. Política nacional de turismo. Brasília, 1996. LAGE, Beatriz H.G. e MILONE, Paulo César (orgs). Turismo, teoria e técnica. São Paulo: Atlas 2000. l MOLINA, Sergio. Turismo sin limites. México, 1999. o empresário, considerando a nova ética do OMT. Desenvolvimento de turismo sustentável. Manual para desenvolvimento, poderá regulamentar seu próprio organizadores locais. Brasília: Embratur, 1993. comportamento no mercado e adotar práticas sustentáveis RUSCHMANN, Doris. Turismo e planejamento sustentável - a pro- nos negócios turísticos; l teção do meio ambiente. Campinas: Papirus, 1997. SWARBROOKE, John. Setor público e cenários geográficos. São Pau- a comunidade, identificando o turismo no planejamento lo: Aleph, 2000 de governo local, pode indicar suas necessidades, participar do planejamento, das decisões e fazer a implementação da gestão e da avaliação do turismo; l as ONGs, como parceiras do processo, poderão contribuir com informações, conhecimento e orientações. Os componentes do turismo são inter-relacionados e não se pode desenvolver a atividade corretamente senão de forma integrada. Por isso, educação e participação comunitária são a base para qualificar e requalificar o turismo. 8 * Carmélia Anna Amaral é geógrafa (UFBA), pedagoga (UCSAL), pós-graduada em Turismo (Cepom/Factur), mestra em Geografia (UFBA). Professora da graduação e da pósgraduação da Faculdade de Turismo da Bahia (Factur) e professora da Faculdade de Administração – Comércio Exterior (Facex). Professora de cursos de pós-graduação da UnB e UA. Consultora da Embratur e do Sebrae. 25 FOTOS ADI LEITE Educação em turismo no Brasil Marilia Gomes dos Reis Ansarah* A pesquisa aplicada em turismo visando ao descobrimento de novos conteúdos tem sido relegada a segundo plano, comprometendo a evolução do setor 26 Introdução treinamento em todos os estágios do processo educativo. Para que haja esse equilíbrio, é necessária uma definição No início do século XXI, observa-se um aumento da clara entre educação e treinamento. demanda interessada em ingressar no ensino superior e Na prática, educação e treinamento são interligados. O uma grande diversificação de suas ofertas. treinamento é adquirido no dia-a-dia, realizando estágio Concomitantemente, há uma maior consciência sobre o no mercado e/ou em aulas laboratoriais nas instituições de desenvolvimento sustentável e uma preocupação para a ensino, e é visto como essencial para a atuação no setor construção do futuro diante do qual as novas gerações turístico; ambos são importantes e devem ocorrer deverão estar preparadas com novas habilitações, paralelamente, pois se complementam. conhecimentos e ideais. Portanto, a educação baseia-se no desenvolvimento A educação superior está sendo desafiada por oportunidades intelectual do indivíduo e o treinamento é o processo de novas relacionadas a tecnologias que têm melhorado os desenvolver habilidades e eficiências por intermédio de modos pelos quais o conhecimento pode ser produzido, instruções transmissão de conhecimento prático. administrado, difundido, acessado e controlado. O acesso Dado que o estudo em turismo tem amplas relações com as eqüitativo a essas tecnologias deve ser garantido em todos os outras ciências, algumas vezes os campos de estudo não estágios dos sistemas de educação. O uso da tecnologia na estão bem definidos, criando problemas semânticos e educação em turismo é de fundamental importância para algumas confusões conceituais. Muitas são as disciplinas poder acompanhar a evolução do setor. que tratam da questão do turismo e, temos que admitir, No segmento do turismo, dado seu caráter de prestação de ainda hoje o turismo não se constitui em um corpo de serviços, a qualidade depende, quase sempre, da conhecimentos independente, com dinâmica própria, mas especialização e motivação do elemento humano do setor está sujeito à influência de diferentes paradigmas, o que para satisfazer o cliente, exigindo um processo de inovação prejudica a formação de um corpo teórico específico. constante. A pesquisa aplicada em turismo visando ao Na realidade, como o turismo é uma atividade de desenvolvimento de novos conteúdos tem sido relegada a utilização intensa de capital humano, só o ensino, e segundo plano, comprometendo a evolução do setor. É conseqüentemente a formação da mão-de-obra fundamental a formatação de um programa educativo que especializada, poderá responder aos desafios que o setor agregue universidade, empresa e demais instituições enfrenta e, em particular, às mudanças tecnológicas que o envolvidas focando a inovação e o desenvolvimento do setor mundo apresenta, apontando claramente para as face à realidade local. A aplicação prática dos conteúdos e pluricompetências, que respondem às exigências da sua conseqüente evolução em termos conceituais é competitividade. ferramenta estratégica fundamental para o A formação de recursos humanos no turismo deve se preocupar com o equilíbrio entre a educação e o Mas, dada a evolução tão rápida do setor e, até certo ponto, a imaturidade no estudo do turismo, é aconselhável que o docente não estabeleça as bases dos conteúdos programáticos somente no conhecimento, pois este t Educação em turismo aprimoramento do setor turístico. 27 permanece em constante mutação, mas também no espírito crítico, na análise e no diagnóstico das situações. O mesmo deve acontecer com os programas, os quais precisam ser bem flexíveis, para permitir mudanças em um esquema de módulos, ou seja, dar liberdade ao aluno e ao subordinado de avançar progressivamente, segundo suas próprias necessidades. Do ponto de vista macro, os cursos deveriam dar aos estudantes uma ampla visão multidisciplinar com interfaces, possibilitando a interdisciplinaridade. Dessa forma, o aluno, ao encerrar os estudos de turismo, estaria preparado para enfrentar as atividades profissionais que requerem dinamismo e múltiplos conhecimentos. Outro ponto a se analisar é que a educação turística, dada O perfil do bacharel em Turismo e o mercado de trabalho sua característica de prestação de serviços, deve basear-se também em princípios empresariais. Os educadores devem A área de atuação em turismo abrange empresas com tomar contato com a realidade, a qual inclui práticas que atividades de várias naturezas, como prestação de serviços, deveriam ser habituais em sala de aula, como: preparar case hospedagem, transportes, agenciamento, alimentação, de estudo, efetuar convênios com empresas do setor, elaborar entretenimento, eventos etc. A principal função é a de projetos de pesquisa conjunta com outras disciplinas e/ou proporcionar a satisfação dos desejos e necessidades dos empresas com linguagem científica e de mercado, propiciar turistas, obtendo um lucro, através da prestação de serviços, programas de intercâmbios para estágios, entre outros. como em qualquer outra atividade econômica. São tarefas Outro fator preponderante na educação em turismo é o de complexas que exigem a atuação de profissionais propiciar ao aluno uma clara percepção da sociedade na qual especializados, com conhecimento e formação para a área o curso está inserido e do mercado em que irá atuar, assim os bacharéis em Turismo. como a conscientização de sua responsabilidade social e Para uma atuação eficaz nas empresas do setor, além da política. O projeto pedagógico deve contemplar e preparar os competência, o profissional precisará de determinação, alunos para compreender a sociedade, fazendo-os refletir os criatividade, visão, disposição para inovar, confiança em si fatos e dados, condicionando-os a julgar e a intervir quando mesmo e nas suas idéias, paciência e preparação oportuno, de forma solidária, justa e democrática, utilizando apropriada. todas as ferramentas de comunicação e conteúdos culturais A formação superior em turismo proporciona a disponíveis. A instituição educacional também deve preparar o oportunidade de profissionalização e especialização para aluno para realizar-se profissionalmente, imbuído de um atuação nos diversos segmentos do mercado. espírito crítico e ético que lhe garantirá uma posição de Para trabalhar na área de turismo, é indispensável que o destaque na sociedade em que vive. Também é profissional esteja preparado para servir, pois o sentido responsabilidade das instituições de ensino proporcionar a base principal da profissão é a prestação de serviços. Esta para seus estudantes tornarem-se cidadãos bem informados e atividade envolve um cuidado especial com o turista, a fim motivados que procuram soluções para os problemas da de que este seja tratado com respeito, dignidade, cortesia e sociedade e aceitam suas responsabilidades sociais. consideração. 28 Perfil do profissional l alimentação: restaurantes, fast food, cruzeiros marítimos, parques temáticos, eventos e similares; Para atender às tecnologias mais avançadas que deverão l ser aplicadas no mercado de turismo, o futuro bacharel parques temáticos, eventos, empresas de entretenimento, em Turismo terá que se preparar adequadamente. As agências, cruzeiros marítimos, hotéis, colônias de férias; principais características quanto ao perfil do l profissional, são: e megaeventos, e também feiras, congressos, exposições de l aprender a aprender e ter uma ampla formação cultural; l eventos: empresas organizadoras para atuação em mini caráter regional, nacional e internacional ou similares; l ser criativo e inovador, pois enfrentará uma acirrada lazer, com atividades de animação/recreação: clubes, hospitalidade: atuação no núcleo turístico em atividades de caráter hospitaleiro; concorrência no mercado, ser o melhor e ter uma visão l global; programas estabelecidos por uma política de turismo, l estar consciente da ênfase que se deve dar a um serviço de qualidade e de que o cliente é a pessoa mais importante; l dominar perfeitamente todas as funções operacionais do setor; l ser um líder em seu campo de atuação, com capacidade para tomar decisões em todos os níveis; l ser um profissional com suficiente conhecimento teórico- prático para satisfazer às necessidades da demanda; l possuir: capacidade de trabalho, espírito de participação órgãos oficiais: atuação em planejamento e em fomento, pesquisa e controle de atividades turísticas; l consultoria: atuação em pesquisa e/ou em planejamento turístico; l marketing e vendas turísticas; l magistério: cursos de graduação, pós-graduação, especialização, extensão, atualização e cursos livres; l publicação: empresas e/ou instituições de ensino para atuação em editoração específica, escritor de textos para jornais e revistas especializadas; comunitária, conhecimentos tecnológicos atualizados, l profundos conhecimentos de relações públicas e ecológico, social, infanto-juvenil, para idosos, deficientes conhecimentos de vários idiomas. físicos, de negócios, segmentos étnicos ou culturais em geral; O bacharel em Turismo está descobrindo outras áreas além dos segmentos tradicionais para atuação no mercado específico, como as elencadas a seguir: l hospedagem: empresas relacionadas à acomodação em geral e com diversas categorias (hotelaria, motéis, camping, pousadas, albergues etc.), cassinos, shopping l pesquisa: centros de informação e documentação; l outros ramos de conhecimento humano: algumas áreas novas, quando tomadas em uma dimensão mais ampla, estão surgindo, como geração de banco de dados para o Para uma atuação eficaz nas empresas, além da competência, o profissional centers e, atualmente, o direcionamento para atuação em precisará de determinação, criatividade, hospitais; visão, disposição para inovar, l transportes: aéreos, rodoviários, ferroviários e aquaviários e demais modais de transportes; l agenciamento: em agências de viagens, operadoras, t Mercado de trabalho especialização em mercado segmentado: turismo confiança em si mesmo e nas suas idéias, paciência e preparação apropriada representações (GSA e Consolidadores); 29 turismo, tradutor e intérprete dirigido para o setor, A abertura indiscriminada de novos cursos superiores não instituições culturais, informática aplicada ao turismo, irá conseguir formar mão-de-obra capacitada. Uma entre outras. permanente melhoria da qualidade do ensino, Uma força de trabalho preparada com profissionais introduzindo campos de especialização, conduzirá a uma especializados para atuarem correta e adequadamente no eficiente preparação para atuação no mercado turístico. mercado turístico aumentará a competitividade. Os países O desequilíbrio existente na prestação dos serviços turísticos emergentes e em desenvolvimento estão buscando formas brasileiro é causado, por um lado, pela falta de qualificação para atrair cada vez mais a demanda turística e para se dos profissionais, e por outro, pela inadequação de proposta tornarem receptores. Estes países estão desenvolvendo pedagógica da maioria dos cursos superiores em Turismo e estratégias competitivas de baixo custo, com diferenciação Hotelaria, desovando novos profissionais a cada ano, que de produtos, associadas a um programa para desenvolver e não irão atender as reais necessidades do mercado nacional especializar recursos humanos para o setor. O conjunto e sequer as dos mercados regional e local. dessas providências proporcionará ao bacharel em Turismo Uma boa formação beneficia claramente o profissional, a atuar numa ampla gama de atividades, expandindo seu empresa em que atua e o sistema socioeconômico em seu horizonte profissional. conjunto. Para obter esta formação, o profissional deve Conclusão receber conhecimentos teóricos, adquirir habilidades e destrezas que permitirão desempenhar-se com segurança e eficiência no cargo que ocupará, beneficiando as atividades Os cursos de graduação de Turismo no Brasil tiveram turísticas e sendo essenciais para o êxito empresarial e a origem na década de 1970, especificamente na cidade de excelência nos serviços prestados. São Paulo: em 1971 os cursos em Turismo e em 1978 os de Após as reflexões apresentadas, concluímos ser necessário Hotelaria. Até 1976 não ultrapassavam 10 em todo o que as universidades, além da formação geral, dêem País. Atualmente são 293 cursos de Turismo em atenção especial à pesquisa, proporcionando elementos para funcionamento no Brasil, de acordo com a última despertar e estimular o interesse no bacharel em Turismo pesquisa realizada por esta docente (dados obtidos até pela investigação, tornando assim o sistema mais eficiente, fevereiro de 2002). pois a atividade turística, crescente, permanece carente de profissionais habilitados para esse setor. Os sistemas de educação devem responder às necessidades dos estudantes, O desequilíbrio na prestação dos dos empresários, do governo e da sociedade. serviços turísticos brasileiros é para melhorar a qualidade na educação, e o turismo não é Há alguns anos o ministro de Educação não mede esforços causado, por um lado, pela falta de exceção. Primeiramente, foram criados alguns mecanismos qualificação dos profissionais, e por equipamentos de tecnologia de ponta, obrigatoriedade de outro, pela inadequação de proposta pedagógica da maioria dos cursos de avaliação como titulação do corpo docente, uso de práticas laboratoriais e uma biblioteca rica em títulos específicos em turismo, além de periódicos científicos e um número considerável de periódicos complementares. Mas ainda é pouco! Num país como o Brasil, o que impera 30 Há necessidade de uma supervisão constante na educação em turismo, a exemplo do que já acontece em áreas tradicionais, para realmente haver qualidade na educação, com projeto pedagógico bem planejado (instituições investindo na titulação e valorizando com remuneração condizente) e uma biblioteca possuindo títulos nacionais e internacionais incentivando a pesquisa. Apesar da inexistência da regulamentação da profissão, constatamos a existência de cursos com currículos e ênfases diferenciados, o que faz a educação em turismo ainda não ser levada muito a sério. O que se espera é chegar a uma paridade qualidade versus oferta de cursos. Acreditamos que somente oferecendo cursos com qualidade e que estejam em completa sintonia com as necessidades da demanda e exigências do mercado é que os cursos de Turismo se solidificarão e formarão mão-deainda é o jeitinho brasileiro, pois algumas instituições não obra realmente qualificada. 8 consideram que a educação em turismo deve ser planejada e levada a sério como em áreas já consolidadas como Engenharia, Odontologia, Direito etc., apenas exemplificando. Investem as instituições educacionais, muitas vezes, para conseguir a autorização do curso de turismo e irão reinvestir após quatro anos, para conseguir o reconhecimento. E depois uma nova pausa, não havendo investimento contínuo. É por este motivo que espero ansiosamente a vinda do Provão Exame Nacional de Cursos. Há necessidade de uma supervisão constante na educação em turismo, a exemplo do que já acontece em áreas tradicionais, para realmente haver qualidade na educação, com projeto pedagógico bem planejado, docentes titulados * Marilia Gomes dos Reis Ansarah é bacharel em Turismo, mestre e doutora em Ciências da Comunicação com especialização em Turismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, professora titular e assessora pedagógica em Turismo da Universidade Paulista (Unip), professora nos cursos de mestrado e doutorado em Turismo e Hotelaria da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e no curso de Cultura & Turismo na Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus, na Bahia. É assessora técnica e professora do curso de pós-graduação em Planejamento e Marketing Turístico da Faculdade Senac de Turismo e Hotelaria em São Paulo e professora do curso de especialização em Gestão Estratégica no Turismo da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP). 31 As atividades de lazer e turismo vêm assumindo uma importância cada vez mais destacada, sendo consideradas, hoje, importantes alavancas de crescimento econômico Um caminho para a cidadania Adyr Balastreri Rodrigues* 32 Palavras introdutórias materiais e imateriais. Tudo isto, de forma concatenada, se No início do tão esperado terceiro milênio vivemos diferenças cada vez menos sensíveis entre mundo rural e mundo momentos de crise que perpassam todas as esferas da vida, urbano, entre campo e cidade. tanto individual quanto coletiva; tanto nacional, quanto Acrescente-se a esse feixe imbricado de eventos as mudanças planetária. São, porém, os períodos de crise que nos expressivas nas estruturas socioprofissionais e etárias da remetem a ricos momentos de reflexão na tentativa de população, com um grande aumento na expectativa de vida, perscrutar caminhos para a sua superação. que se traduz por um crescimento notável das faixas etárias Neste sentido, Boaventura Souza Santos, conhecido teórico maduras cuja velhice vê-se postergada , estratos das ciências humanas, propõe o que chama de arqueologia suficientemente aptos e ativos para o trabalho e para o lazer. virtual presente, onde propugna uma escavação social, no É neste cenário que as atividades de lazer e de turismo vêm sentido de avaliar o que não foi feito e porque não foi feito. assumindo uma importância cada vez mais destacada, sendo Em outras palavras, porque as possibilidades oferecidas pelo consideradas, hoje, importantes alavancas de crescimento mundo não se concretizaram e quais são as nossas econômico. Crescem significativamente no mundo globalizado, responsabilidades pessoais e sociais, enquanto cidadãos e mobilizando volumosos recursos, gerando empregos, enquanto educadores. Só a partir de então poderemos desempenhando significativo papel na balança de pagamentos e definir estratégias de ação. na arrecadação de impostos de muitos países, tanto do Também é óbvio que estas estratégias têm que ser capitalismo central quanto do periférico. participativas, em instâncias explícitas de questionamentos, de problematizações, de participação igualitária, em tomadas de decisões conjuntas. A atual vocação do Brasil na nova divisão internacional do trabalho traduz por uma urbanização crescente da população e por A importância do turismo como vetor econômico e como prática social Nesta nova divisão social, técnica e territorial do trabalho, marcada pela globalização da economia e pela mundialização da cultura, o Brasil se inscreve com enorme potencial turístico, já em amplo e voraz processo de exploração, notadamente a extrativo e manufatureiro desempenharam e ainda partir dos primeiros anos da década de noventa, quando desempenham relevante papel na economia brasileira, começaram a ser sistematizadas políticas públicas agressivas atualmente, o chamado setor terciário, abrangendo o comércio e para a efetiva transformação dos recursos em atrativos, políticas os serviços, vem assumindo também uma crescente importância, estas ditadas pelos atores hegemônicos do capitalismo orquestrada pelas tendências hegemônicas globais. transnacional que aqui finca sua bandeira através de aplicação Entre os componentes deste processo, relacionados aos grandes de volumosos recursos em hotelaria, em parques temáticos e em progressos nos domínios da ciência, da técnica e da informação, diversos outros equipamentos, como na modernização da rede de surgem novas formas de relações de trabalho, tais como a transportes e de comunicações. Os novos programas de turismo terceirização, a produção flexível, o teletrabalho, elementos que em escala federal implantados pelo Ministério do Meio modificam substancialmente as aspectos espaciais-temporais Ambiente (MMA) e pelo Ministério do Esporte e Turismo ligados à produção, circulação, distribuição e consumo de bens (MET)/ Embratur Instituto Brasileiro de Turismo t Da mesma forma que o setor agrário e o setor industrial, 33 vinculam-se a agressivas políticas nacionais e estaduais de desenvolvimento do turismo, não desconsiderando nenhuma região brasileira. Dados recentes divulgados pela Folha de São Paulo (Folha Dinheiro, 06/05/2002, p. B1), tendo como base estudos da Embratur e da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), indicam que a participação do turismo no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem crescendo substancialmente. Com um volume anual de aproximadamente R$ 30 bilhões em recursos diretos, entre turismo interno (R$ 20 bilhões) e internacional (R$ 10 bilhões), o turismo já é responsável por 2,5 % do PIB, dados de 2001. A sociedade sente necessidade de Para ter-se uma melhor idéia da importância do turismo preparar seus quadros superiores tanto doméstico, basta dizer que aproximadamente 50 milhões de brasileiros viajam anualmente. Igualmente importante vem se tornando a demanda internacional, que chegou a 5,3 milhões em 2001 (dados estimados), tendo quintuplicado nos últimos 10 anos. para ensino e pesquisa quanto para concepção e implantação de projetos, para administração e gestão empresariais Este significativo volume de turistas visita e se hospeda predominantemente na Região Sudeste do País com a a partir dos anos noventa o Nordeste já não é mais o mesmo, participação de R$ 11,6 bilhões , onde o segmento de tampouco a Amazônia. Grandes complexos turísticos vêm turismo litorâneo predomina, embora outras modalidades, modificando estas paisagens, de maneira rápida, podemos como o turismo histórico-cultural e o turismo rural, dizer até frenética. Novos territórios estão se estruturando apresentem também um razoável incremento. Em segundo pelo vetor do turismo, cujas conseqüências tanto positivas lugar coloca-se a Região Nordeste com o volume de R$ 7,7 como negativas têm preocupado a sociedade como um todo. bilhões , onde o modelo sol e praia reina absoluto. Em terceiro lugar figura a Região Norte com o montante de R$ 3,6 bilhões , onde o ecoturismo vem se constituindo em importante ferramenta de desenvolvimento com base local Educação para o turismo uma lacuna a ser preenchida junto às comunidades ribeirinhas. As outras regiões estão Acompanhando as tendências que foram enunciadas, a sociedade apresentando crescimento acelerado em diversas modalidades, sente a necessidade de preparar seus quadros superiores tanto com destaque para o modelo sol e praia na Região Sul e para ensino e pesquisa quanto para concepção e implantação de para o ecoturismo na Região Central. O volume de recursos projetos, para administração e gestão empresariais. Assiste-se a movimentados por estas duas regiões Sul e Centro-Oeste uma grande multiplicação de cursos de bacharel em Turismo, é respectivamente de R$ 3,5 bilhões e R$ 3 bilhões. profissão ainda não regulamentada, o que preocupa bastante. As expressivas transformações das paisagens brasileiras São cerca de 400 cursos implantados e em fase de implantação, motivadas pelo turismo, tanto nas áreas naturais como nas tendo a maior parte deles surgida nos últimos cinco anos. Muitos áreas urbanas e rurais, são facilmente observáveis até por ainda não foram reconhecidos pelo Ministério da Educação olhares leigos. Podemos afirmar sem sombra de dúvida que (MEC). Num futuro muito próximo teremos um enorme 34 exército de reserva no setor, o que compromete muito a bem conduzido, poderá funcionar como importante elemento de remuneração justa para profissionais de nível superior. resistência aos interesses das políticas hegemônicas globais. É no Não menos importante é o setor de cursos básicos, estes destinados exercício das contrafinalidades, segundo pensamento do a capacitar técnicos de nível médio, reconhecidamente em número geógrafo brasileiro Milton Santos, que os cidadãos podem insuficiente e despreparados profissionalmente. A profissão de guia exercer resistência ao capitalismo global perverso e excludente, de turismo, agora regulamentada, tem mercado de trabalho na opinião do autor. garantido, faltando entretanto cursos de boa qualidade que Neste sentido, é muito oportuna a inserção das discussões do capacitem adequadamente. lazer e do turismo como importante recurso temático para a Ainda considerando, hoje, a necessidade premente de dar um formatação do projeto político-pedagógico da escola, direcionamento profissionalizante no ensino formal já nos níveis notadamente nos municípios turísticos e nas áreas das periferias médios das escolas públicas e privadas, há que considerar-se as sociais das metrópoles, onde a ausência de equipamentos de lazer novas exigências deste mercado de trabalho que perpassa as funciona, comprovadamente, para o aumento da violência. Em áreas de turismo, lazer, restauração e hotelaria, onde observam- outros municípios com reconhecido potencial turístico ainda não se grandes lacunas de formação tanto quantitativa quanto explorado haverá que discutir o interesse em implementar novos qualitativa. Na nossa opinião pessoal, este nível de ensino deve projetos envolvendo o lazer e o turismo, preocupando-se, ser encarado com mais seriedade, visando à formação de sobretudo, em beneficiar a população local. Caso a comunidade profissionais competentes. O mercado de trabalho em expansão entenda que o viés profissionalizante, já no nível médio, é necessita mais de técnicos do que de bacharéis em Turismo. interessante para o seu projeto político-pedagógico, há que A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei discutir de que forma as diversas disciplinas do currículo, tanto 9.394/96), ressalvas feitas ao fato de estar em consonância com as obrigatórias quanto as optativas, podem contribuir para o os interesses dos atores hegemônicos do capitalismo em escala desenvolvimento de habilidades e competências exigidas no global, tem desencadeado discussões em muitos fóruns mercado de trabalho, além de ter importante papel na interessados no entendimento e no posicionamento perante as formação de opinião. mudanças propostas. Devemos ressaltar que no estudo do turismo há que Atendendo a essas necessidades, as Diretrizes Curriculares obrigatoriamente contemplar a questão ambiental, propondo-se Nacionais, concebidas no Departamento de Desenvolvimento da que no interfaceamento entre estes dois temas turismo e meio Educação Média e Tecnológica, do Ministério de Educação, ambiente se permita alicerçar um eixo temático contemplam duas áreas profissionais turismo e lazer e interdisciplinar. hospedagem e alimentação , exigindo agora a formatação de disciplinas e conteúdos. As oportunidades de autonomia que a Eixo temático transversal centrado no turismo LDB dá às escolas, tanto da rede pública como da privada, não podem ser desperdiçadas, cabendo à escola as responsabilidades A partir desta ótica enunciamos alguns objetivos para nortear a de definir seus próprios projetos pedagógicos e suas competências, elaboração de conteúdos programáticos, contemplando o estudo pelo menos em tese. do turismo, abordagem que também se presta a constituir-se Há necessidade urgente de reflexão em torno desta tão desejada num eixo temático transversal, em atendimento aos Parâmetros autonomia, momento propício para a construção de projetos Curriculares Nacionais (PCNs). São os seguintes: político-pedagógicos adequados às peculiaridades e às l necessidades das comunidades nas quais a escola se insere. Esta econômico, social, cultural, ambiental, com grandes impactos prerrogativa revela-se como um poderoso instrumento que, se espaciais; t compreender a importância do turismo como fenômeno 35 l entender o turismo como significativa atividade uma cidade só será boa para o turista se for igualmente boa econômica, podendo contribuir substancialmente para o para a população residente. É freqüente ouvir de moradores de desenvolvimento socioespacial; núcleos turísticos a queixa de que tudo é pensado para o turista, l identificar e compreender os efeitos e impactos do turismo nas áreas receptoras; l identificar os elementos do espaço turístico, representados pela oferta e pela demanda; l compreender a tríplice ocorrência territorial do turismo enquanto a população local é encarada como cenário, quando não é considerada um mal necessário ou seja, apenas útil como força de trabalho, como prestadora de serviços. É muito importante que as comunidades sejam fortalecidas na sua auto-estima, pois se sentirem-se inferiorizadas podem perder composta de áreas emissoras, de áreas de deslocamento e a dignidade e desenvolver atitudes subservientes perante o de áreas receptoras; turista. Inclusive deve-se discutir estratégias de l instrumentalizar o aluno para reconhecimento, comportamento no exercício da cidadania, exigindo dos avaliação e classificação dos recursos e atrativos turísticos turistas o máximo de respeito pelo ambiente físico e pelas da sua comunidade; pessoas e valores socioculturais do grupo. A elaboração de um l capacitar o aluno para uma análise crítica do fenômeno código de ética será importante para pautar a conduta de turístico, de modo a poder posicionar-se como cidadão e todos os segmentos envolvidos. como futuro profissional; Os empresários, geralmente organizados através da l incentivar o aluno a atuar junto à comunidade no Associação Comercial, da Associação dos Hoteleiros, da sentido da salvaguarda dos interesses comunitários na Associação de Proprietários de Bares e Restaurantes, devem conservação ambiental e no desenvolvimento socioespacial se comprometer com o código de ética, iniciando-se pela alavancada pelo turismo. máxima de explorar o turismo, jamais o turista. Outro tema delicado e que deve ser objeto de freqüentes campanhas A comunidade receptora e a sensibilização para o turismo é a sonegação fiscal. A comunidade como um todo não se beneficiará do turismo se não houver arrecadação de impostos, muito pelo contrário, só vai arcar com o ônus de Em um fórum organizado pela Pastoral dos Pescadores, no residir num município turístico, onde freqüentemente o custo Estado do Ceará, no início dos anos noventa, ouvimos a de vida é mais elevado. seguinte observação de um líder comunitário de Icapuí: Não Ciente da importância de todas estas observações, o Programa sabemos o turismo que queremos, mas sabemos o turismo que Nacional de Municipalização do Turismo (PNMT), a não queremos. Não se trata de um jogo de palavras sem cargo da Embratur, tem trabalhado junto às comunidades sentido, muito pelo contrário, expressa uma profunda lucidez. receptoras no sentido de sensibilização e conscientização para o Todos sentiam que o turismo era importante vetor de turismo através de oficinas onde os diversos segmentos sociais se desenvolvimento, porém entendiam também que trazia uma fazem representar. A partir de então constitui-se o Conselho série de inconvenientes, alegando-se que mudavam os costumes de Turismo (Contur), fórum permanente de debate. locais, traziam a droga, a prostituição, os conflitos de terra, a Infelizmente, nem sempre a constituição do Contur é feita especulação imobiliária. democraticamente. Muitas vezes repete-se nele a mesma Não se pode, portanto, ignorar os interesses e os temores das exclusão social que caracteriza a sociedade. comunidades, desde as áreas interiores mais remotas até as A escola também funciona como importante instrumento para cidades, nas suas distintas escalas, quando se trata de trazer à o desencadeamento das discussões, pois trata-se de um tona a discussão do turismo e também do lazer. É evidente que equipamento presente em quase todas as comunidades, por 36 sindicatos, por outras associações profissionais, tais como a Associação de Guias de Turismo, a Associação dos Artesãos, a Associação dos Pescadores, só para dar alguns exemplos. Turismo e lazer na cidade É na cidade que se aglutinam os equipamentos destinados ao turismo e ao lazer, este compreendido na sua tríplice dimensão: de descanso, de diversão e de aprimoramento cultural, atividades que deveriam ser extensivas democraticamente a todos os segmentos sociais e a todos os espaços da cidade, desde os mais elitizados até aqueles da periferia social, justamente os mais necessitados. Assim, o lazer e o turismo definem novas territorialidades na cidade, através de uma imbricada rede de fluxos, nós e É importante que as comunidades pontos, lembrando que a rede se densifica nos bairros de sejam fortalecidas na sua auto-estima, tênue nas áreas periféricas. Queremos ressaltar a função pois caso se sintam inferiorizadas, podem perder a dignidade e desenvolver atitudes subservientes perante o turista maior poder aquisitivo da população, tornando-se mais dos lazeres no resgate da sociabilidade e da auto-estima individual e grupal, eficaz arma contra a violência. Os mapas da violência nas grandes cidades coincidem com os bairros onde as opções de lazer são escassas. Restringem-se à assistir a TV, aos bate-papos nos bares, a grupos musicais e a raros equipamentos esportivos como os campos de futebol. mais pobres que sejam as unidades familiares, tendo como Há que incentivar formas genuínas de expressão cultural, importante espaço de interlocução a Associação de Pais e nascidas e administradas por segmentos residuais da Mestres. É necessário ouvir os anseios, interesses e temores da sociedade, imbuídas de grande força política, porque na população receptora, pois a abertura para o turismo irá medida em que reforçam a sociabilidade mobilizam a desencadear mudanças irreversíveis na sociedade. Muitas solidariedade grupal de força inimaginável. Esta é talvez a vezes as queixas não são colocadas claramente, produzindo-se única saída para a inclusão social. sentimentos xenófobos sutis. Com freqüência as comunidades Tais projetos, levados a cabo por ONGs, por grupos políticos sentem-se invadidas na medida em que vão perdendo espaço. ou religiosos, por associações já mencionadas podem e devem Pesquisas têm mostrado que estes sentimentos se avolumam na merecer o apoio das universidades nos seus programas de mesma proporção que o turismo cresce. No início a atividade é extensão universitária, constituindo-se em importantes bem vista por trazer possibilidades de novas oportunidades laboratórios de pesquisa-ação. 8 econômicas, porém, com o tempo, a receptividade vai dando lugar a atitudes hostis. Por isso há que enfatizar a necessidade de ampliar os debates, que também podem ser realizados pela * Adyr Balastreri Rodrigues é doutora junto ao Igreja, pela Associação de Amigos de Bairros, por ONGs, por Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) 37 Sergio Foguel Programa qualifica o turismo brasileiro O Instituto de Hospitalidade, sediado em Salvador (BA), estabelece normas de certificação para o setor mais pessoas têm opção de ir a qualquer lugar do planeta. Por que escolher um destino turístico e não outro? Se você pega o corredor Amazonas/Pantanal/Foz do O Instituto de Hospitalidade traz uma do Centro Histórico de Salvador (BA), Iguaçu/Praias, você tem um circuito nova maneira de olhar, fazer e sentir o tem como foco central a educação e a raramente encontrado em outro lugar. turismo do Brasil. Essa visão futura de cultura da hospitalidade como fator Mas se o turista vem uma vez, acha tudo sua potencialidade passa pelo conjunto de crítico para o desenvolvimento muito exótico e engraçado e sofre com o 52 normas que viraram referência em sustentável do turismo em todo o País. serviço prestado, ele não volta. Praias, todo o País. A chamada Certificação da Mas a causa maior é o desenvolvimento montanhas, exotismo existem em muitos Qualidade Profissional consiste em um sustentável do País sob pontos de vista lugares, não só aqui. Se você tem prazer, se sistema brasileiro de qualidade, político, histórico, social, cultural, satisfaz e é bem servido, você não só recentemente reconhecido pela Associação ecológico, tecnológico, diz Foguel. retorna, como indica a outros. É aquela Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) história: quando você está feliz com sua para o setor de turismo do Brasil. As Como funciona o programa de viagem, você conta para umas três pessoas. normas, que começaram para certificação? Quando você está infeliz, comenta com 10 certificação de pessoas e hoje já são Funciona à semelhança do ISO 9000 ou 12. O estrago que o mau serviço pode direcionadas para a qualificação de para uma empresa, em que você certifica fazer é muito grande. estabelecimentos e serviços, estão sendo os processos pelos quais esta empresa atende direcionadas para o ecoturismo. Criado a certos requisitos de qualidade. Não é um Então a qualidade dos serviços é em 1997, o Instituto de Hospitalidade é atestado de qualidade de produtos, mas fundamental? presidido por Sergio Foguel, que excerce sim de como ela produz. Da mesma Sim. Nós chegamos à conclusão de que é ativa participação comunitária, como maneira, em certas áreas também preciso trabalhar tanto na oferta de no Movimento Brasil Competitivo, podemos verificar a competência do capacitação para qualificar pessoas simultaneamente à participação profissional. Isso tem uma vantagem, que quanto na demanda do consumidor por empresarial, atualmente no Conselho é chamar a atenção para a qualidade dos melhores serviços. Você pega uma cidade de Administração da Odebrecht S.A.. serviços como um fator-chave para que o como Salvador, por exemplo. Por maior A ONG, instalada em um belo casarão Brasil atinja seu potencial turístico. Hoje, que seja o número de turistas, sempre 38 haverá uma preponderância dos habitantes em relação ao uso de transportes, restaurantes, cinemas, shoppings. Se a população local não for demandadora da qualidade, dificilmente o turista vai conseguir sozinho. A qualidade de serviços depende também de boa infra-estrutura, estrada, aeroporto. Uma comunidade mais desenvolvida tem melhores condições de prestar um melhor serviço. Educação e cultura podem alavancar muito o desenvolvimento sustentável no setor de turismo. Por isso, focamos o trabalho em iniciativas que pudessem ser estruturantes sob um novo olhar, de um novo fazer. Para a criação o Instituto? Em 1995, eu presidia a Fundação Odebrecht, cujo foco é a educação de adolescentes como agentes de seu próprio destino e de transformação da sociedade. Em última instância, um sustentável. Nós fazíamos um programa t agente para o desenvolvimento Hoje, todos podem ir a qualquer lugar. Se o turista vem ao País, acha tudo exótico e engraçado e sofre com o serviço prestado, ele não volta 39 em Porto Seguro [BA] com Foi assim que vocês chegaram à um aumento de eficácia com treinamento, adolescentes, voltado para a causa da certificação? com um programa focado no que ainda é Educação Fundamental de Qualidade A certificação foi o primeiro conjunto de necessário capacitar. A certificação para Todos. Eram seis municípios da iniciativas. De educação profissional mobiliza para a idéia de educação e região da Costa do Descobrimento. A voltada para competências, e não para a cultura para a capacitação, estabelece primeira etapa foi um sucesso. Todas as listagem de conteúdos. Verificou-se que em referências para o aprimoramento do associações possíveis e imagináveis foram Cingapura, no Canadá, na Espanha, na profissional, para escolas e empresas, para mobilizadas: loja maçônica, vereadores, Inglaterra, nos Estados Unidos, países de orientarem seus currículos, suas formas de Associação dos Barraqueiros, que é sucesso em turismo, a questão de capacitar pessoas, cria todo um movimento importante no local. Nessa época, nascia certificação foi usada por dois ângulos de pensar em competência. Este programa o Instituto Ayrton Senna, que se engajou básicos. O primeiro: para certificar, é teve um apoio importante do BID [Banco no programa, bem como outras preciso ter um padrão definido. Qual a Interamericano de Desenvolvimento] e do entidades. Era uma missão muito norma de competências requeridas para Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às atrativa, um programa que efetivamente um guia de turismo histórico? Para um Micro e Pequenas Empresas]. Já causasse uma elevação de patamar da agente de viagens? Para um pizzaiolo? investimos mais de US$ 5 milhões e, o que educação para todos, em um lugar onde Um gerente de hotel? Na hora em que é muito importante, a primeira simbolicamente nasceu este País, e o ano você tem a norma, você tem os padrões de providência foi criar um Conselho de 2000 se aproximava, marcando os aferição. O profissional que já está no Nacional de Certificação. Este Conselho é 500 anos. Se isso pudesse ser feito até campo pode querer se certificar, sendo formado por representantes das mais 2000 seria uma vitrine para o resto do aprovado ou não. Se não for aprovado, variadas entidades do setor: hotéis, Brasil, mas a etapa seguinte foi um recebe um laudo que evidencia restaurantes, agências de viagens etc., drama. O que se viu foi que você ia para conhecimentos, habilidades e atitudes. representantes governamentais, como a reunião e assinava o pacto, era Ele pode estar cem por cento em Embratur e Ministério do Trabalho, vibrante, consciente, envolvia sua conhecimentos, mas em tal habilidade e representantes dos trabalhadores. O família, sua empresa, dizia que ia tal atitude ele tem que se aprimorar. O Instituto passa a trabalhar como um apoiar. A segunda etapa era: Mas o que segundo é que você tem uma economia e órgão técnico. você vai fazer? Porque para isso acontecer todo mundo tem que fazer alguma coisa. E aí a taxa de mobilização real caía muito. Começamos a refletir, e surgiu a idéia de que se conseguíssemos associar a educação com benefícios visíveis, a coisa poderia mudar. Em outras palavras, esta educação tem que ajudar a trabalhar e, em conseqüência, gerar renda. Em turismo, a qualidade A certificação mobiliza para a idéia de educação e cultura para capacitação, estabelece referências de serviços é visivelmente impactada para o aprimoramento do profissional, cria pela educação. Começamos então a ver o todo um movimento de pensar em competência que se fazia pelo mundo neste sentido. 40 FOTOS LUCIANO MATTOS BOGADO Quem tem o poder de decisão? Quem decide sobre quais os perfis profissionais que deverão ter normas, quem aprova as normas, quem decide sobre as metodologias é o Conselho. Hoje existem 52 normas para ocupações e competências. Cada uma com as correspondentes orientações para aprendizagem. Isso foi construído em um tempo fantástico, dois anos e pouco. A equipe tem recebido os maiores elogios da Organização Internacional do Trabalho, do próprio BID, do Ministério do Trabalho, do Ministério da Educação, das várias agências, das várias associações. O programa hoje é reputado como paradigma mundial em certificação e a gente é chamado para contribuir, participar, porque houve O programa está possibilidade de ver o melhor que é feito embalando. Somente no mundo. O programa está embalando. Neste ano, devemos ter seguramente mais de 10 mil pessoas passando pelo processo de avaliação. Como é na prática? As pessoas se neste ano, devemos ter seguramente mais de 10 mil pessoas passando pelo processo de avaliação cadastram para passar pela avaliação, supervisores também certificados, o estabelecimento ganha um selo de reconhecimento. Os certificados têm prazo de validade? É preciso renovar, porque também as normas vão evoluindo. São dois anos para as pessoas e o estabelecimento é verificado a cada seis meses. É necessário funcionários, as pessoas treinadas pelo também considerar que sempre ocorre A empresa resolve. Por exemplo, o Instituto, que chamamos alguma rotação de funcionários. McDonald´s deseja que todos os seus multiplicadores, são contratadas pela funcionários tenham certificação em empresa e formam dentro dela novos Os resultados são satisfatórios, segurança alimentar. Nossas normas multiplicadores, que treinarão os comparados a outros países? foram desenvolvidas de maneira a restantes. Quando as pessoas se sentirem O Conselho decidiu estabelecer um serem reconhecidas pelo Conselho treinadas, vêm ao Instituto passar pela mínimo de qualidade. E há uma Mundial de Segurança Alimentar. A avaliação. Segurança alimentar segunda parte indicativa de outras pessoa certificada pode, com seu selinho, também tem outro critério: quando competências que seriam desejadas, mas ser reconhecida em Londres, Tóquio, mais de 80% de manipuladores de ainda não exigidas. É um indicativo Paris, Detroit. No caso do alimentos são certificados, com de que na próxima revisão vão estar McDonald´s, que tem milhares de determinada porcentagem de dentro. Temos feito avaliações de t ou o processo vem da empresa? 41 grandes populações. Fizemos um de profissionais, é preciso uma começamos a procurar o que poderia ser trabalho agora de sensibilização de capacitação dirigida. Temos cada vez uma contribuição para a melhoria do quase 30 mil pessoas, no Estado do Rio mais gente vibrando com esta bandeira sistema educacional de turismo. de Janeiro. A tendência é ter uma de qualidade. Queremos atingir no porcentagem alta não atendendo aos mínimo 1 milhão de pessoas nesta A capacitação é direcionada para as padrões. E em segurança alimentar é década. Hoje a força de trabalho direta escolas? significativamente maior. em turismo está em pouco mais de 4 Para as escolas e para as empresas, que milhões de pessoas. Claro que isso vai também fazem os seus treinamentos. O Mas isso acontece só no Brasil, ou lá crescer. A tendência é de que, quando um Instituto de Hospitalidade vem se fora também é assim? hotel se instalar em uma região onde já colocando como um supridor de métodos e Não posso comparar, porque as normas existe a prática da certificação, ele abra meios pedagógicos para atualizar e não são as mesmas. As brasileiras foram vagas propondo o seguinte: quero 42 melhorar o processo de capacitação que criadas em um longo processo, envolvendo camareiros certificados. Não precisa elas propiciam. Antes, nós fomos fazer milhares de pessoas em grupos de discussão dizer mais nada. O padrão está pesquisa, entrevistar escolas, bares, do Rio Grande do Sul ao Amazonas. estabelecido. Uma vez que você tem a restaurantes, agências de viagens, e Para cada perfil, garçons, por exemplo, referência de qualidade, o mercado mapeamos o trabalhador de turismo no escolhemos os melhores de Porto Alegre profissional se orienta para a Brasil. Quantos são, onde estão, o que [RS], e eles passaram o dia discutindo, de competência. Este é um exemplo de fazem, quanto ganham, que educação acordo com certa metodologia, quais são as como a certificação se torna uma têm, como chegaram ali. Há um grande competências que um profissional iniciativa estruturante. descompasso entre o que os trabalhadores bambambã deve ter. Fizemos a mesma do setor dizem existir sobre educação e o coisa em Goiânia [GO], em Belo Quais são as outras iniciativas Horizonte [MG], em Recife [PE], até estruturantes? para checar aspectos de cada região. Os Em educação profissional e em apoio E em apoio ao desenvolvimento padrões não têm muita diferença regional ao desenvolvimento sustentável de sustentável? entre os profissionais mais qualificados. áreas vocacionadas para o turismo. Nesta área de atuação é diferente. Em educação profissional, nós não Procuramos ver o conjunto de medidas E como essas normas são aplicadas? queríamos ser mais uma escola, nem que precisam ser tomadas para Quando há avaliação em uma massa competir com as existentes. Então promover o desenvolvimento sustentável que as escolas dizem estar oferecendo. em determinada região. O programa Temos cada vez mais mais antigo que temos nesta área é o da gente vibrando com esta iniciamos com a hipótese de como bandeira de qualidade. Queremos atingir no mínimo 1 milhão de pessoas nesta década 42 Costa dos Coqueiros [BA], no qual contribuir e fomos aprimorando na prática. Hoje iniciamos tratativas para novos programas em Búzios (RJ) e no Pantanal. A Costa dos Coqueiros é a área que nós experimentamos mais, pessoa por pessoa, casa por casa, comunidade por comunidade. É onde fazer em 2003. E é interessante, ao esticar também estamos implantando o o olhar para 2010, o grupo que forma o primeiro projeto de uma ampla Comitê Executivo, eu e mais quatro parceria com o Instituto Souza Cruz. pessoas, chegamos à conclusão que nenhum Na primeira vez em que fomos lá de nós nos víamos em função executiva. descobrimos que havia 31 comunidades Partimos do individual e fomos e o IBGE [Instituto Brasileiro de aumentando o compartilhamento. Uma Geografia e Estatística] só registrava das decorrências imediatas disso é começar 19. Nós nos encontramos com a formar já os nossos sucessores. comunidades que estavam na era préindustrial. Esta região ficou isolada por rios e não havia uma estrada. A outra área, completamente diferente, é no Como é esta visão de 2010 para vocês, Temos uma equipe que como seria o turismo no Brasil? Nós acreditamos que o Brasil terá centro histórico de Salvador. Para esta dá gosto de trabalhar e fomos buscar experiências de uma rede de associados potencial em turismo, com espaço para o Lyon, na França, na Times Square de altamente participativa. significativa. Essa contribuição é na Nova Iorque e na frente do cais de Mais de 130 instituições área de cultura da hospitalidade. O que construíram o programa eficiência dos padrões americanos e revitalizações auto-sustentáveis em Baltimore, nos Estados Unidos. O programa se chama Portal da Misericórdia. É a revitalização da realizado significativamente seu Instituto ter dado uma contribuição estamos desenvolvendo não é a cópia da suíços. Há um erro ao se falar em Santa Casa. Vamos profissionalizar altamente participativa. Para se ter uma excelência de serviço. Tem certas jovens em situação de risco de exclusão, idéia, mais de 130 instituições no Brasil competências que são universais, como de drogas, centrados nas questões de construíram o programa de certificação. segurança alimentar, mas não temos cidadania, de introdução do indivíduo Dois mil e tantos profissionais que virar processadores de serviços ao meio e ao trabalho, ao mundo em participaram diretamente. Milhares de turísticos. A gente sabe que a sociedade. Ele participa das aulas, faz consultas públicas via internet. Isso é capacidade de hospitalidade suíça é estágio em bares, hotéis, agências de trabalho, envolvimento, participação. de primeiríssima, a americana viagem, e tem um mentor especial que Estamos sempre revisitando os valores também. Cada uma tem o seu se dispõe voluntariamente a conversar iniciais, a missão, as grandes estratégias. sabor e o sabor brasileiro, com sua sobre sua formação. Nós estamos criando No ano passado fizemos um ensaio muito alegria, espontaneidade, beleza, e um modelo. Vamos testá-lo para depois positivo, em que ousamos definir a visão cor, não é para ser perdido com repeti-lo em várias cidades do Brasil. 2010 do Instituto, como vemos o cenário pasteurização de qualidade de do Brasil nesta área e como descrevemos o serviço. Porque isso é o extra da Você pode dizer que os resultados estão Instituto em 2010. Está documentado e, qualidade de serviço. Então o dentro do que vocês esperavam quatro com base nisso, pensamos o que precisamos desafio está em construir uma anos atrás? fazer em 2002. Daqui a pouco, vamos cultura da hospitalidade que Sim. Temos uma equipe que dá gosto de olhar de novo os princípios, os valores, a incorpore este sabor, preservando o trabalhar e uma rede de associados própria visão 2010 e ver o que é preciso padrão mundial básico. 8 43 Desvendando a Mata Atlântica Pólo em Lagamar é o pioneiro Projeto no interior de São Paulo torna-se o embrião para a construção de pólos ecoturísticos por todo o Brasil 44 restingas, rios, cachoeiras, mares internos, praias, florestas, baía e outros elementos da natureza formam um dos mais ricos e diversificados conjuntos de ambientes costeiros do mundo. No extremo sul do Estado de São Paulo, no Vale do Ribeira onde localiza-se a maior área contínua remanescente de Mata Atlântica , a paisagem da região do Lagamar, constituída de numerosas ilhas numa área de 5,8 mil quilômetros quadrados, é um espetáculo de beleza. O termo Lagamar, empregado ao longo dos séculos para designar depressões no fundo do mar e de rios, lagoas de água salgada ou baía de golfos formando um porto vasto, mais ou menos abrigado traduz bem a multiplicidade de ecossistemas na região. Aliado às riquezas naturais, o valioso patrimônio histórico-cultural dá a dimensão da importância das cidades centenárias que integram o complexo. Nos séculos XVIII e XIX, Iguape, o maior município da região, era tão importante quanto o Rio de Janeiro ou Salvador. Do seu porto partia para a Europa todo o açúcar produzido nos terrenos alagadiços do Vale do Ribeira. Andar pelas ruas das cidades, apreciar a arquitetura dos casarões antigos, conhecer os costumes da população nativa (quilombolas, caiçaras e demais índios) é como viajar ao passado e acompanhar histórias desde a época das capitanias hereditárias. Por apresentar entrosamento perfeito entre a natureza e o patrimônio histórico, t FOTOS HELCIO NAGA Estuários, lagunas, manguezais, 45 Grande parte dos monitores é formada por pessoas que exerciam algum tipo de atividade ilegal. Hoje são os maiores defensores da mata Lázara Gazzetta a região mostrou-se potencialmente para a criação de pólos ecoturísticos forte para o ecoturismo. A partir deste por todo o País. Reconhecido diagnóstico, nasceu a idéia de criar o internacionalmente, recebeu o prêmio Pólo Ecoturístico do Lagamar, projeto de Melhor Destino Ecoturístico do pioneiro da Fundação Pró SOS Mata Mundo, na eleição promovida, em Atlântica, patrocinado pela 1999, pela revista norte-americana Embratur Instituto Brasileiro de Condé Nast Traveller, quando Turismo. Foi a alternativa encontrada concorreu com mais de 40 projetos das para levantar a economia da região, mais diferentes nações. castigada com o declínio das atividades relacionadas ao extrativismo mineral e vegetal, além de funcionar como importante instrumento na preservação Comunidade local é a principal beneficiada para receber bem o turista. Ainda do meio ambiente. A imensa O Pólo compreende quatro nesta primeira fase (de outubro de biodiversidade oferece diversas opções municípios: Iguape, Cananéia, 1995 a junho de 1996), foram turísticas: caminhada nas trilhas pela Pariquera-Açu e Ilha Comprida. O aprovadas e cadastradas 26 agências mata e nas praias desertas, passeios de primeiro passo para a formulação do de viagens (agentes emissivos) de São canoa, visitas aos centros históricos, projeto foi realizar uma espécie de Paulo, Santos, Jundiaí e Campinas, trilhas de bicicleta, entre outras. Em inventário dos recursos naturais, com experiência de prática profissional resumo: o objetivo do Pólo é desenvolver culturais e sociais de cada uma das ecoturística, para atuar no Lagamar. um turismo responsável com base na cidades. Ou seja, fez-se um Em seguida, procedeu-se ao utilização sustentável dos recursos diagnóstico detalhado do potencial levantamento dos agentes receptivos: naturais , capaz de gerar emprego e turístico da região para que se donos de restaurantes, hotéis, promover a capacitação profissional da cumprisse uma das premissas básicas barqueiros etc. população. do projeto: aproveitar ao máximo a Identificamos que as cidades tinham Iniciado no fim de 1995, o projeto infra-estrutura já existente, todas as características e grande tornou-se exemplo de planejamento e adaptando-a, de forma gradual e potencial para o ecoturismo, mas não execução e está servindo de modelo orgânica, às condições adequadas apresentavam condições de receber o 46 A beleza de Cananéia (E) soma-se à estrutura de Iguape. No Pólo do Lagamar, a pesca artesanal é a principal atividade dos caiçaras visitante, por falta de estrutura e de conhecimento da própria população. Partiu daí a decisão de capacitar essa Os cursos me comunidade, informa a bióloga Lázara Gazzetta, contratada pela deram a idéia de SOS Mata Atlântica para mudar para comida a administrar os projetos da Fundação no Vale do Ribeira e coordenar o Pólo, quilo. Segui a tarefas que divide com o marido, orientação e minha Clodoaldo Gazzetta, também biólogo. Para capacitar a comunidade local, clientela se foram oferecidos cursos do Senac multiplicou (média de 20 horas/aula) de Marize Valota organização hoteleira, atendimento cozinheiro, camareira, faxineira, t ao cliente, recepcionista, garçom, 47 técnicas de acondicionamento de alimentos e de bebidas, sobremesa e monitores ambientais. O Instituto de Estudos Brasileiro (IEB) também participou com cursos técnicos de práticas ecoturísticas, condução de grupos, primeiros socorros, salvamento e resgate. Somando cursos e palestras ministrados nos quatro municípios , formaram-se cerca de A população nativa é 900 pessoas em duas jornadas de parte integrante e hoje capacitação (1997 e 1998). muitas pessoas vivem iniciativa da SOS Mata Atlântica, Lázara lembra que, na esteira da exclusivamente de surgiram vários cursos promovidos por atividades voltadas ao dos cursos de técnico em turismo e em outros órgãos. É o caso, por exemplo, ecoturismo, seguindo o meio ambiente da Escola Agrícola, em modelo do Pólo Souza, ligado à Universidade Márcio Ragni Iguape, coordenado pelo Centro Paula Estadual Paulista (Unesp). Paralelamente às jornadas de capacitação, foi produzido material Municípios do Pólo IGUAPE Área: 1.942 Km² Fundação: 03/12/1538 População: 26.404 Distância: SP – 209 km CANANÉIA Área: 1.435 Km² Fundação: 1531 População: 10.254 Distância: SP – 272 km ILHA COMPRIDA Área: 296 Km² Comprimento: 74 Km Largura média: 3 a 4 Km Fundação: 05/3/1992 (emancipação política) População: 2.842 Distância: SP – 220 km PARIQUERA-AÇU Área: 370 Km² Fundação: 30/12/1953 (emancipação política) População: 13.472 Distância: SP – 209 km informativo para divulgar o Pólo, entre folhetos, mapas regionais, exemplares do livro Descubra o Lagamar, fitas de vídeo, adesivos e pôsteres. O casarão colonial que abriga a sede da Fundação Pró SOS Mata Atlântica, no centro histórico de Iguape, passou por ampla reforma e se transformou no Centro de Interpretação Ambiental e Informações Turísticas do Lagamar. Nesta base, o visitante tem todas as informações turísticas e ambientais sobre a região. Ele fica sabendo, por exemplo, que a Bacia do Vale do Ribeira é considerada pela ONU como o quarto maior berçário de espécies marinhas do mundo, um 48 banco genético, exatamente pela presença da Mata Atlântica, como conta o biólogo Clodoaldo. Além dessas informações, o turista tem acesso à listagem dos restaurantes, hotéis e pousadas cadastrados e à relação dos monitores ambientais credenciados cerca de 20 em cada município. Um dado interessante em relação aos monitores é que grande parte é formada por pessoas que exerciam algum tipo de atividade ilegal na mata. E hoje, em vez de estarem tirando palmito para vender ilegalmente ou matando animais silvestres para vender a carne, eles defendem a mata e utilizam seus conhecimentos da região para acompanhar o turista, revela Lázara. Parceria com os órgãos públicos é fundamental Estruturado o projeto, em 1998, os roteiros turísticos começaram efetivamente a ser comercializados. Segundo Lázara, no início, o Pólo não trabalhava com público dirigido. As agências montavam os pacotes e levavam o grupo fechado, mas só em época de temporada e feriados. Esse tipo de turismo não resolvia o problema do dono da pousada ou do restaurante, por exemplo, que ficava como para passeio de turistas. Na arquitetura de Cananéia, um reencontro com o passado sem condições de manter o ponto comercial no resto do ano. Era preciso preencher essa lacuna durante a baixa sazonal. A solução foi distribuir 49 t Na Ilha Comprida, os barcos servem tanto para a pesca o material de divulgação, através das agências, às escolas. E deu certo. Hoje o grande filão do Lagamar são as escolas que vêm para a região fazer estudo do meio. No pacote de viagem de cada aluno, somente no caso das escolas particulares, está embutida uma taxa ambiental de R$ 5, destinada à preservação da Mata Atlântica. Esta taxa retorna em forma de ajuda a projetos. Já serviu, por exemplo, para auxiliar na conclusão do tratamento de esgoto alternativo na bela Ilha do Cardoso, em Cananéia, considerada a estrela do Lagamar. A parceria com as prefeituras e demais órgãos públicos é essencial para o desenvolvimento do Pólo. Na Ilha Comprida, por exemplo, a atuação da prefeitura tem sido um fator determinante no processo de recomposição do município e para sua preservação. Isso porque a Ilha sofreu muito com um fenômeno que atingiu, nas décadas de cinqüenta e sessenta, todo o litoral paulista: os loteamentos. Como o País não tem lei que garanta repasse de recursos para a população flutuante, os prefeitos, nessa época, achavam que quanto mais pessoas trouxessem para se fixar no municípios mais verbas iriam receber do Estado e da União. A ocupação O amor pela natureza transformou Luzinete em monitora dava-se, assim, de forma indiscriminada, pois as prefeituras não tinham estrutura e corpo técnico para planejar os loteamentos. Dentro dessa distorção, foram aprovados na promover o crescimento da Ilha, Ilha Comprida 300 mil lotes urbanos, ocupando 30% e preservando 70% da para uma capacidade máxima área física. Nosso problema inicial era de monitor ambiental, estimada de 120 mil lotes. convencer o morador da importância fiz vários outros De acordo com o vice-prefeito Márcio de se preservar 70%. Os loteamentos Ragni, a prefeitura está fizeram com que a comunidade local gradativamente reavendo esses lotes. fosse totalmente descaraterizada ou Já conseguimos recuperar cerca de ficasse alijada do processo. O ecoturismo 30% através da cobrança da dívida vem resgatar seu valor. A população dos impostos. Como a inadimplência é nativa é parte integrante e hoje muitas grande, a prefeitura acaba ficando pessoas vivem exclusivamente de com vários desses lotes, explica Márcio. atividades voltadas ao ecoturismo, Ele enfatiza que o compromisso é seguindo o modelo do Pólo, conclui. Depois dos cursos de capacitação e reciclagem. Não me acomodei Luzinete Nunes 50 Exemplos de sucesso O artesanato local enfeita ambientes como o restaurante de Marize (E) A implantação do Pólo Ecoturístico do Lagamar mudou a vida de várias pessoas. Percorrendo as ruas das quatro cidades, ouvem-se histórias diversas de moradores que hoje seguem um ideal, alimentado pelo que aprenderam nos cursos de capacitação da SOS Mata Atlântica. A monitora ambiental Luzinete Nunes, 45 anos, é um exemplo de perseverança e amor à natureza. Nascida no Guarujá, há 12 anos Luzinete mudou-se para Cananéia. A paixão repentina pelo paraíso ecológico fez com que Luzinete se mudasse com a família antes mesmo de construir sua casa. Durante quatro meses, ela morou junto com os filhos pequenos em uma barraca, enquanto o marido, garçom, em Santos, aparecia nos fins de semana. Vivia de pequenos serviços até conhecer os cursos da Fundação. Havia feito um curso intensivo oferecido pela prefeitura e a USP [Universidade de São Paulo]. Mas foi o curso da SOS que me ensinou a caminhar. Entrei em contato com as agências de São Paulo, que nos davam o suporte. Depois dos cursos de monitor, fiz vários de capacitação e reciclagem. Não me acomodei, afirma. Além dos cinco cursos de monitores, Luzinete, que hoje tem essa única ocupação, aprendeu noções básicas de biologia, ecologia e primeiros socorros, entre outros. Também atraída pela beleza natural da região, a ex-secretária Marize Valota mudou-se de São Paulo há 11 anos para a Ilha Comprida, onde montou, junto com o marido, uma choperia na praia. Os negócios iam bem, até que, de repente, com a mudança do plano econômico, entrou em vertiginoso declínio. Estávamos desesperados com as dificuldades. Até que surgiu a oporFundação Pró SOS Mata Atlântica tunidade de fazer os cursos da SOS. Fiz todos. E foram eles que me deram a idéia de mudar para comida a quilo, servindo também pratos regionais. Rua Manoel da Nóbrega, 456 – São Paulo – SP Graças a Deus, segui a orientação e consegui recuperar tudo, minha cli- CEP: 04.001-001 entela se multiplicou, revela. Tel.: (11) 3887-1195 www.sosmatatlantica.org.br Base Urbana de Iguape Marize exibe seus 12 diplomas, todos da linha de cozinha (como barman, sobremesa e técnica de congelamento) e de hotéis e similares (camareira, recepcionista etc.). Estudar e se reciclar é o lema dessa Centro de Interpretação Ambiental e paranaense, de 51 anos, autoridade local quando o assunto são congela- Informações Turísticas do Lagamar Rua 15 de Novembro, 33 – Centro – Iguape – SP dos, salgados e doces. Na Ilha Comprida, tornou-se obrigatória uma pa- CEP: 11.920-000 rada no Restaurante Mareados para saborear as deliciosas panquecas da Tel.: (13) 6841-2379 vitoriosa chef Marize. E-mail: [email protected] 8 51 Ecoturismo na Amazônia Projetos comunitários geram sustentabilidade social 52 MATTOS BOGAD O Conhecimentos científicos, sabedoria cabocla e poder da natureza se unem com sucesso em Mamirauá e Silves A prática do ecoturismo comunitário na Amazônia consegue produzir sustentabilidade social em curto prazo. Experiências bem sucedidas do turismo com filosofia ecológica, em áreas ambientalmente conservadas, geram empregos, organizam a produção de alimentos, aumentam a renda das comunidades, incentivam práticas de saúde e ainda asseguram conhecimento e recursos financeiros e humanos para proteger, em longo prazo, as áreas naturais visitadas. Nos exemplos de Mamirauá e Silves surgem lições avançadas de educação ambiental e cidadania. Ambos os casos também demonstram uma eficiente gestão dos recursos públicos socialmente produzidos e redistribuídos na rica biosfera amazônica. As duas t FOTOS LUCIANO 53 décadas de trabalho, iniciado em 1983 quando José Marcio Ayres começou a estudar o macaco uacari-branco. Preocupado com as ameaças de degradação na região e apostando no envolvimento comunitário, propôs, no ano seguinte, a criação da Estação Ecológica de Mamirauá. Passaram-se seis anos, até que, em 1990, o Governo do Estado do Amazonas criou, por decreto, a reserva. Nelissa Peralta estudou na Europa antes de trabalhar na Amazônia O Instituto Mamirauá se consolidou, naturalmente, a partir da Rio-92. Um sistema de zoneamento definiu o espaço a ser trabalhado 260 mil experiências, junto com a do Vale do hectares. Em 1999, delimitou-se uma Guaporé, em Rondônia, fizeram zona de manejo especial para o parte do Programa de Ecoturismo de ecoturismo e o Governo Federal Base Comunitária do WWF-Brasil e reconheceu o Instituto Mamirauá como contribuíram para a elaboração do uma organização social, ligada ao manual de ecoturismo que será Ministério da Ciência e Tecnologia. Em lançado este ano pela entidade. 2001, firmou um contrato de cinco anos O programa da Reserva de com o Instituto para administrar a Desenvolvimento Sustentável de reserva até 2006. Nessa missão, o Mamirauá a maior área de várzea Instituto conta com o apoio institucional protegida do Brasil, com 1.124.000 do Governo do Estado do Amazonas, do hectares, 500 quilômetros a oeste de Department for International Manaus deslumbra turistas Development (do governo inglês), da nacionais e estrangeiros com seus ONG norte-americana World Life atrativos, enquanto oferece à população Conservation Society (WCS) e do amazônica fontes de renda alternativas. CNPq, que financia bolsas de Situada na confluência dos rios Solimões, desenvolvimento técnico institucional. nada. Jacarés com três metros de comprimento tomam conta das margens Japurá e Auati-Paraná, a reserva foi a A riqueza do cenário dos lagos. As árvores servem de residência fauna e da flora com base em pesquisas O paraíso ecoturístico fica dentro de uma guaribas, macacos-prego e macacos-de- científicas, com a participação da área de preservação total chamada Lago cheiro. Na região, há mais de 400 população local no gerenciamento dos Mamirauá. No período de seca, o nível espécies identificadas de pássaros, com recursos naturais. da água baixa, os peixes pulam a cata de destaque para o majestoso gavião real, Até chegar a tal ponto, foram quase duas insetos e até onças pintadas saltam do maior ave de rapina do mundo. primeira unidade de conservação brasileira que integrou a proteção da 54 natural para preguiças, uacari-brancos, A pousada flutuante (alto) é um dos pontos altos do Instituto Mamirauá (E), numa região de fauna rica e abundante Na cheia, de maio a julho, as águas dos principal. Seu conceito reside em oferecer rios Solimões e Japurá inundam toda a conforto seu causar impacto ao meio reserva a variação anual da cheia fica ambiente. Os chalés têm ventilação entre 12 e 15 metros. Os peixes invadem natural, telhados de madeira que as áreas antes ocupadas pelas aves, amenizam a temperatura elevada, nadando entre as copas das árvores sistema de filtragem de dejetos e energia submersas em busca de comida, solar. No flutuante principal, há coletores abundante na época de frutificação. de água da chuva, reaproveitada em Felinos se refugiam nos galhos mais altos, limpeza e higiene, após filtragem. Pelo preguiças nadam para se locomover. mesmo processo passa a água do rio. Nas águas existe a maior concentração A coordenadora de ecoturismo do de golfinhos (os botos cor-de-rosa) do Instituto Mamirauá, Nelissa Peralta, mundo: 25 por quilômetro quadrado. No 25 anos, graduada em Estudos em lago, entre outras espécies protegidas, Desenvolvimento e Relações existe o pirarucu quase em extinção, Internacionais pela Universidade de por causa da pesca predatória. Gales, no Reino Unido, informa que a infra-estrutura receptiva representou um Ecoturismo sustentável investimento de R$ 450 mil para o principal (fruto de uma doação), na da cidade de Tefé, 450 quilômetros a construção dos chalés e na aquisição de oeste de Manaus. Por via fluvial, são 48 cinco lanchas e quatro canoas de maior horas; de avião, apenas uma hora. Até a porte. A operação aqui é custosa, pois reserva, o caminho é de lancha. Atravessa-se o Lago de Tefé e segue-se pelas águas do Solimões até seu encontro com o Japurá. A reserva começa na junção dos rios. Exatamente na entrada A proposta de ecoturismo do Instituto é que o da reserva, os visitantes são recepcionados por um verdadeiro balé aquático de botos cor-de-rosa. Os animais brincam visitante tenha toda a com as ondas produzidas pela lancha segurança e possa interagir Depois de uma hora e meia de com motor de 40 HP. de forma consciente com o navegação, chega-se à Pousada ambiente ao seu redor imensas toras de assacu, presas por um Nelissa Peralta Flutuante Uacari, com chalés sobre travessão de pinheira árvores típicas da região , ligadas a uma sede Os barcos são o principal meio de transporte dentro do complexo turístico 55 t Instituto na recuperação do flutuante O acesso a Mamirauá é feito pelo porto precisamos trazer gasolina, alimentos e água de Tefé. Mas todo o investimento vale a pena, assegura. A zona de manejo especial possui 11 trilhas na floresta alagada. As excursões são feitas em grupos de no máximo quatro pessoas, acompanhadas dos guias naturalistas locais. Durante a cheia, usam canoas. As águas escuras formam um espelho que reflete as imagens das Material didático é entregue aos visitantes árvores, das aves e do céu. A proposta é que o visitante tenha toda segurança e possa interagir de forma consciente com o meio ao seu redor, explica Nelissa. Um visitante ilustre foi o presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele, a primeira-dama Ruth Cardoso, seus netos e alguns amigos próximos passaram o carnaval deste ano na reserva. No momento, o grande desafio consiste em ampliar o fluxo de turistas a Mamirauá. São 300 turistas por ano, a maioria do exterior. A meta é chegar a mil. O viveiro experimental garante alimento o ano inteiro Retorno social sanitária em duas vilas. Na área de Os recursos obtidos pelo Instituto educação, ajudamos 54 escolas de nível Mamirauá com o ecoturismo são básico, 230 professores foram treinados e reinvestidos em projetos comunitários e de 1.800 estudantes passaram pelo pesquisa. Os resultados socioeconômicos se Programa Mamirauá de Educação mostram surpreendentes na contabilidade Ambiental. Uma escola flutuante está em social. Mais de 4 mil pessoas já foram construção, contabiliza Nelissa Peralta. beneficiadas diretamente com o trabalho Há mais indicadores relevantes: a taxa de de dentistas, médicos e campanhas de mortalidade caiu 50%, a renda familiar vacinação. Três postos de saúde foram nas vilas teve um sensível crescimento e, construídos. Demos apoio a mais quatro com a diminuição da pesca na reserva, postos existentes. Foram 150 agentes de várias espécies de tartarugas e peixes saúde treinados. Implantamos estrutura comerciais aumentaram seu estoque. 56 A imagem do Cristo domina a paisagem em Silves Os projetos desenvolvidos em Mamirauá e Silves têm em comum a preocupação com a proteção das áreas naturais visitadas pelos turistas, além da geração de empregos e a produção de alimentos para a população Outra missão socialmente rentável é o manejo florestal comunitário, que permite às comunidades produzir, controlar e aproveitar, legalmente, os recursos florestais. Já existem 10 associações formalizadas, com 260 associados. Mais de 140 comunitários receberam treinamento em manejo florestal foram realizados levantamentos de estoques de madeiras em 367 hectares. Em um ano na Turistas e atividade, os associados obtiveram uma moradores enfrentam renda de R$ 400 por família. Exemplo vivo dos benefícios é a balsas e estradas comunidade de Vila Alencar, que fica de terra alagada nos tempos de cheia. O contato externo é feito através de um orelhão movido a energia solar que faz ligações via pessoas de três famílias: os Martins, os Carvalho e os Cardoso. Na comunidade, funciona uma atuante Associação de Mulheres, que organiza desde a produção e exposições de artesanatos para venda aos turistas até a reforma da horta flutuante. A agente de saúde Maria Nazareth Lopes Carvalho, 31 anos, há cinco na atividade social, das crianças. Um trabalho de pesquisa rigoroso. Vinte e duas crianças do local aprendem a ler e escrever na Escola Municipal Nossa Senhora de Fátima. As crianças aqui aprendem tudo com muita facilidade, garante a professora Luzinete Mendonça de Pinho, 24 anos. Base comunitária em Silves recebendo um salário mínimo mensal, Um resultado semelhante de comanda a visita às famílias, acompanha desenvolvimento comunitário integrado gestantes, conduz ao hospital quem ao meio ambiente é proporcionado precisar e ainda controla o peso e medição pelos recursos gerados com a atividade 57 t rádio. Lá residem, em 26 casas, 146 Nosso sistema utiliza a maior parte da renda obtida no turismo ecológico em benefício da conservação do sistema de lagos de pesca da região e da melhoria das condições de vida da população Vicente Raimundo de Almeida Neves ecoturística na região de Silves, ilha das condições vida da população, fluvial localizada no Rio Urubu, através de uma série de políticas distante 300 quilômetros a leste de públicas geradoras de emprego e Manaus. Iniciado em 1994, foi o distribuidoras de renda, conceitua o primeiro empreendimento comunitário professor Vicente Raimundo de de ecoturismo da Amazônia. Nosso Almeida Neves, 31 anos, um dos sistema utiliza a maior parte da líderes do processo. renda obtida no turismo ecológico em O projeto de desenvolvimento do benefício da conservação do sistema de ecoturismo é executado pela Associação lagos de pesca da região e da melhoria de Silves pela Preservação Ambiental e Os fiscais da natureza Eles se definem como os verda- do jacaré brilha. Usamos farol, laço, e tirar filhotes. Jacaré se orgulha de deiros fiscais da natureza. Em vara, cordas e apanhamos os jacarés suas histórias. Uma delas: Pegamos um Mamirauá, os jacarés contam com para pesar e marcar. Colocamos neles jacaré de 3,96 metros. Lutamos com ele a proteção do líder comunitário, guia um anel na pata. Outros ganham um quase a noite inteira. Uma hora, ele naturalista e fabricante de farinha pequeno rádio, para a telemetria. mergulhou e fugiu. Danado! Depois o de mandioca João da Silva Carva- João é facilmente reconhecido pelos pegamos de novo e pensamos logo num lho. Aos 42 anos, seu próprio apelido jacarés. Ele enche seu papo de ar, pressi- nome: Juvenal. O nome do maior pes- atesta seu ofício. Sou o caboclo João ona a boca e faz um sinal para os ani- cador predatório do lago. Juvenal, por- Jacaré. Ele ajuda o pesquisador mais. Os jacarés lhe respondem com o que todo mundo enxerga ele, mas é di- Roni Silveira a contar os jacarés da mesmo sinal. Por aqui se vê milhares fícil de pegar. reserva. Saem por volta das 21h e de jacarés quando está seco. Em 100 Histórias emocionantes são relatadas retornam às 4h da madrugada, metros, pega-se uns 40. Deste total, no pelos biólogos Patrícia Spina, de 28 anos, numa canoa de 4,8 metros com mo- máximo dois são fêmeas. Na seca, os e pelo chileno Javier Atalah, de 24. tor de 15 HP e capacidade para ape- machos enchem Mamirauá. As fêmeas Ambos atuam no Projeto Boto Vermelho, nas quatro pessoas. No escuro, o olho ficam no lago central, para colocar ovos coordenado pela pesquisadora Vera da 58 Os lagos e rios da Cultural (Aspac), ONG com 46 sócios região de Mamirauá (E) são formais e centenas de colaboradores voluntários. A entidade recebe apoio o hábitat dos golfinhos técnico e financeiro do WWF-Brasil. O trabalho de conservação de áreas de várzea na Amazônia contou com o suporte econômico dos governos da Áustria, Inglaterra e Suécia, e hoje trabalha também com recursos do Ministério do Meio Ambiente, por meio dos programas Projetos Demonstrativos/ Amazônia e PróVárzea/Ibama. Vicente Neves recorda que, no final da década de oitenta, antes do ecoturismo De seu posto flutuante (D), Miguel mantém ser vislumbrado como alternativa vigília para evitar a pesca ilegal sustentável, a comunidade de Silves se viu forçada a despertar para a luta contra um desastre ambiental. A pesca comercial, predatória, diminuiu o volume de peixes na região. A redução dos estoques pesqueiros gerou um conter a ação de invasores e da Amazônia, e por Tony Martins, da pescadores ilegais nos Lagos British Antartic Surveys, do governo in- Piramiri e Purema áreas com glês. Patrícia e Javier avistam golfinhos 1,5 quilômetro de extensão e 500 durante oito horas por dia. Já marcamos metros, em média, de distância 250 animais. Verificamos onde nadam, os entre as margens. Há um ano e grupos sociais que formam, quanto tempo cinco meses na atividade, Miguel a mãe fica com o filhote, onde se reprodu- revela que suas armas são seus olhos zem, rotinas de deslocamento e a estrutu- e sua lancha. Já flagramos ra social do grupo de botos, conta Javier. pescadores com um pirarucu pequeno Na região de Silves, quem adverte não na rede. Apreendemos a rede, e eles brincar em serviço é o guarda Miguel ameaçaram voltar para se vingar. Rocha Bezerra, de 35 anos. Orgulhoso Felizmente, não houve confirmação de se autoproclamar um fiscal da da ameaça. Mas estaremos sempre natureza, sua missão consiste em atentos, avisa o fiscal. conflito natural entre os moradores locais, que realizavam a pesca artesanal de subsistência, e os pescadores comerciais que invadiam Silves. A pressão da comunidade t Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas Técnicos orientam os moradores na produção de mudas de árvores frutíferas 59 acabou levando o município a instituir uma lei criando dois tipos de reserva ecológica para proteção dos rios, lagos e florestas, com suas espécies naturais, relata. A articulação da sociedade acabou gerando a organização nãogovernamental. Na primeira fase, entre 1994 e 1996, foi implantada a infra-estrutura básica de hotelaria e serviços. A comunidade recebeu treinamento para sua operação, capacitação em manejo dos lagos e orientação legal. Na segunda fase, entre 1997 e 1999, foram desenvolvidos roteiros turísticos operar ecoturismo, a Associação ajudou educativos, de caráter ambiental, moradores de Silves a estruturar a aproveitando a paisagem da região e Cooptur, a primeira cooperativa de a cultura das populações tradicionais. trabalhadores em turismo da Os resultados econômicos O Hotel Aldeia dos Lagos entrou em funcionamento em julho de 1996. O empreendimento abriga a sede da Aspac. Para administrar o hotel e Conhecemos a Em sua casa simples, Marcilene recepciona turistas, a quem ensina a cultura local Amazônia. As duas entidades investiram em treinamento para a comunidade, na área de recepção ao turismo. Os alvos foram os representantes de cinco comunidades ribeirinhas de Silves. Ficou decidido que 20% da renda do hotel seriam investidos no manejo e fiscalização da reserva ecológica nas Neves. Em agosto de 2001, o complexo cultura dos visitantes e áreas definidas por lei. Um marco do ganhou melhor infra-estrutura: a área eles, a nossa. No trabalho de conservação foi a instalação útil de recepção aos turistas, um de uma base de fiscalização flutuante, mirante no prédio principal e passarelas piquenique noturno, entre os lagos Piramiri e Purema. Em com entorno paisagístico. servimos tucunaré assado, quatro anos, o Aldeia dos Lagos tornou- O acesso a Silves, partindo de Manaus, se auto-sustentável. Chegou a gerar um pode ser feito de carro de Manaus até lucro líquido de R$ 25 mil. Após um Camaçari, próximo a Itacoatiara, pela estudo de viabilidade econômica, o AM-10. O trajeto dura três horas. De empreendimento recebeu novos Camaçari parte uma lancha até Silves, investimentos, comemora Vicente que leva uma hora e 20 minutos de farinha de mandioca, e molho da região Marcilene de Farias 60 utilizados para construir um viveiro experimental de plantas para a criação de mudas de árvores frutíferas. O técnico agrícola Descartes Hilme Grana de Assis, de 22 anos, ajuda a criar e difundir um modelo de reaproveitamento da matéria orgânica para ajudar no replantio de novas Silves reúne a igreja mais antiga da Amazônia e o moderno hotel sede da Aspac viagem. Outra opção é totalmente por via rodoviária, em sete horas de viagem. Pega-se a rodovia AM-10 até o Km 225; dali segue-se por estrada de terra até a entrada da ilha. Uma balsa transporta o veículo até Silves. Na entrada da cidade, os visitantes verão a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, considerada a mais antiga da Amazônia, e uma imagem do Cristo culturas. O objetivo é evitar queimadas e usar o solo da melhor forma. Estamos formando parcerias em Estamos formando parcerias para difundir o replantio e melhorar a qualidade dos alimentos da população, sobretudo no inverno, quando o peixe fica escasso por aqui Descartes Hilme Grana de Assis 12 comunidades, envolvendo 15 famílias em cada uma, para difundir a ambé. Nós conhecemos a cultura dos idéia e melhorar a qualidade da visitantes e eles, a nossa. No piquenique alimentação da população, sobretudo no noturno servimos tucunaré assado ou inverno, quando o peixe fica escasso por cozido, farinha de mandioca e molho da aqui. Descartes é ajudado por Sebastião região, relata Marcilene, de Almeida Grana, de 37 anos, que fez acrescentando, orgulhosa, que atua curso de especialização em permacultura. também na vigilância contra a pesca Sebastião ensina que a compostagem, em ilegal. Os peixes estão voltando. três pilhas sobrepostas de restos de Também vamos atuar no consórcio de alimentos e matéria orgânica, fica plantas, comemora. pronta em quatro meses. Assim, 8 acabamos com o lixo orgânico no ambiente, diz o técnico. Outro programa em andamento é o de educação ambiental, destinado, entre outros aspectos, a fazer com que as Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá famílias possam dar sustentabilidade ao Avenida Brasil, 197 – Tefé – Amazonas turismo de base ecológica quando CEP: 69.470-000 recebem os visitantes e transmitem Tel.: (92) 743-2736 E-mail: [email protected] www.mamiraua.org.br Redentor, no ponto mais alto. informações socializadas. É o caso da dona de casa Marcilene de Farias, de 33 Associação de Silves pela Preservação Conquistas sociais anos, mãe de Railda, Railse e Raimundo Ambiental e Cultural – Cooperativa de Júnior, há 11 anos moradora da Trabalho Ecoturístico e Ambiental da Amazônia O retorno do ecoturismo está sendo comunidade Sanabani. Ela recepciona os investido em educação ambiental e turistas na casa de madeira louro fofo, conservação: R$ 2,5 mil foram com teto de palha amarrada por cipó Estrada 610, s/n, Ponta do Macário – Silves – AM CEP: 69.110-000 Tel.: (92) 528-2124 www.wwf.org.br 61 Natureza revalorizada A educação ambiental salvou a Ilha de Porto Belo Um dos principais Situado numa península que se projeta pontos ecoturísticos de sobre o Oceano Atlântico, o Município de Porto Belo, a 55 quilômetros de projeto que impediu a degradação do Florianópolis, guardou durante local. A iniciativa encontrou uma preparado para décadas um tesouro desvalorizado pelo parceria perfeita na Universidade do receber visitantes com turismo predatório: uma pequena ilha Vale do Itajaí (Univali). que sofria com visitas desorganizadas Em pouco tempo e com grande esforço, os realizadas por pessoas que 38,9 hectares da Ilha de Porto Belo se acampavam, promoviam churrascos, transformaram em um dos principais jogavam lixo por todo o lado e pontos ecoturísticos de Santa Catarina, desmatavam o que restava da Mata oferecendo opções aos amantes de esportes Santa Catarina foi hora marcada Atlântica. As perspectivas para aquele náuticos, aos amantes de trilhas 62 paraíso eram as mais desanimadoras ecológicas e subaquáticas, aos amantes de possíveis. Há pouco mais de cinco anos, praias de águas tranqüilas. Para isso, porém, os netos do proprietário da ilha, passou por uma verdadeira revitalização, Ernesto Stodieck Jr., iniciaram um que inclui seu funcionamento somente na FOTO ARQUIVO DO PROJETO No Município de Porto Belo, turistas encontram lazer e aprendem a preservar o meio ambiente o continente da ilha. Idércio Manoel verão, passaram 52 dias preenchendo março e em horário restrito das de Santana, 65 anos, aposentado, diz questionários. O resultado mostrou 8h30 às 19h30. que apesar de ganhar a mesma coisa como poderíamos manter o Valeu a pena, porque daqui a cinco, dez dos tempos de pesca, vive melhor, por ecossistema, garantindo o conforto das anos, a ilha vai continuar sendo um trabalhar menos. pessoas e sendo economicamente excelente lugar, com tendência a Alunos de graduação e pós- viável, explica a professora. melhorar. Não vai haver praia assim, graduação em Turismo, Hotelaria, Entrevistas, muita observação e fotos de sem casas ou ruas, sem a necessidade de Oceanografia, Biologia e Marketing hora em hora ajudaram a definir o usar guarda-sol em nenhum lugar, disputam vagas de estagiários número máximo de visitantes por dia aposta Alexandre Stodieck, o neto que mais de 100 já trabalharam na ilha, que podem entrar na ilha sem causar administra o projeto. O investimento de responsáveis pela recepção do público, danos: 1.879, não necessariamente ao US$ 500 mil causou um profundo controle de acesso, conscientização mesmo tempo. O controle de visitação é impacto na região, a começar pela ambiental e administração do uma iniciativa inédita. O estudo é geração de empregos. Os 17 pescadores negócio. Veranista de Porto Belo, a contínuo, com revisões periódicas da locais fundaram uma associação, professora Dóris Ruschmann capacidade e vigilância constante, compraram uma escuna e adaptaram coordena os alunos em uma pesquisa tudo para que a Ilha de Porto Belo seus barcos para transporte de que visa a garantir a vire referência nacional para turistas nos 900 metros que separam sustentabilidade da ilha. No primeiro empreendimentos similares. t alta temporada de setembro a 63 O restaurante serve camarões pescados por mergulhadores A trilha proporciona aos turistas caminhadas pela Mata Atlântica FOTO ADI LEITE Dóris Ruschmann coordena pesquisa sobre a sustentabilidade da Ilha Banho e esportes ainda com quiosques na areia, Schürmann preparam algo que o aluguel de cadeiras, loja de souvenirs homem nunca fez, adianta Cleide Esse número é atingido com facilidade e o Centro Eco-Cultural Adventure Bittelbrunn, funcionária da casa. no alto verão. A Ilha tornou-se um House, que foi base da Família A Ilha também é cercada de história. ponto familiar para os catarinenses. Schürmann em sua última viagem. A Vestígios da presença de humanos, As praias têm areias brancas e águas casa funciona como uma espécie de grupos de coletores e caçadores que se límpidas e calmas, ideais para o museu com lembranças, fotos, objetos estabeleceram na região há 4 mil banho, com área protegida por bóias náuticos, artesanato, vídeos e anos, são observados na Pedra da amarelas, evitando invasão de curiosidades dos lugares percorridos Cruz, relíquia arqueológica com embarcações. Quem gosta de esportes pelos velejadores Vilfredo e Heloisa, e inscrições rupestres talhadas na rocha, tem à disposição jet ski, esqui deve crescer em breve. Para 2003, os de significado ainda misterioso para os aquático, barcos de passeio, equipamento para snorkeling, banana boat e aqua jump, uma O resultado da pesquisa que realizamos com cama elástica flutuante. ajuda de estudantes mostrou como poderíamos Um restaurante de construção rústica manter o ecossistema, garantindo o conforto das serve frutos do mar no sistema de buffet ou a la carte. A ilha conta pessoas de forma economicamente viável Dóris Ruschmann 64 FOTOS ARQUIVO DO PROJETO A Ilha, com praias perfeitas, fica a 900 metros do continente Os turistas contam com lojas para compra de souvenirs FOTO TARCÍSIO MATTOS Cacau apresenta a estudantes o projeto Vivência Ambiental FOTO TARCÍSIO MATTOS para a produção de sabão caseiro o de peixe que virou logo da ilha. A excedente é distribuído para a pedra é alcançada através da trilha Associação dos Pais e Amigos dos que cobre boa parte da ilha, e Excepcionais (Apae) e escolas, além de proporciona uma ótima caminhada funcionários e famílias carentes do pela Mata Atlântica, onde se destacam município. O lixo é separado e levado a pitangueira (Eugenia uniflora), o para o continente. O que é reciclável é cedro (Cedrela fissilis) e o palmito vendido e a renda, revertida para os (Euterpe edulis). funcionários da equipe de limpeza, O interessante é mesmo a motivando-os a recolher mais lixo. conscientização ambiental. Preparada Passarelas conduzem os visitantes para não poluir o mar, a Ilha conta através da mata e uma estrutura de com uma pequena estação de pontilhões evita o pisoteamento da purificação de resíduos. A água é vegetação em áreas frágeis da trilha reutilizada em tarefas de limpeza e nos ecológica. Placas estão por toda a parte, banheiros. O restaurante serve mas dá para notar que o cuidado vem verduras hidropônicas e sucos naturais. de cada pessoa, com o estímulo das O óleo de cozinha vira matéria-prima beleza naturais. t estudiosos. Um dos desenhos é a espinha 65 DO PROJETO manipulação de organismos marinhos vivos. É tudo bem dinâmico, diz Cacau, que já recebeu escolas de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, além de Santa Catarina. Há escolas que incluem a visita no currículo. Ainda no ambiente marinho, a Ilha tem uma trilha subaquática, que compreende sete roteiros de mergulho visando a ensinar o turista a mergulhar, preservando e respeitando o ambiente marinho. As trilhas são feitas com no máximo cinco pessoas e um monitor. Cada Atividades práticas um leva um cartão-guia preso ao Programas não faltam. Na baixa que encontrar no mar. temporada, a Ilha promove o Vivência A diversidade do mar é grande, já Ambiental, elaborado para estudantes que o encontro das águas da corrente de no mínimo oito anos pelo marinha fria das Malvinas com a ambientalista Antonio Carlos Lopes, o corrente marinha quente do Brasil e Cacau. A visita é repleta de das faunas de ambas ocorrem nesta atividades práticas nas quais os jovens região. Há ocorrência de lagosta permanecem em estreito contato com a (Palinurus argus), camarão-de-garra natureza, a começar por uma aula (Palaemon sp.), caranquejo-aranha ainda no barco, passando pela trilha e (Sternorhynchus seticornis), siri-azul pela visita à base dos Schürmann, (Callinectes danae), o agressivo siri- terminando em uma aula de biologia vermelho-da-pedra (Cronius ruber), marinha na praia, com observação e diversas espécies de paguros, ouriço- pulso, para identificar as espécies Daqui a cinco, dez anos, a Ilha vai continuar sendo um excelente lugar, com tendência a melhorar. Não vai haver praia assim, sem casas ou ruas, sem a necessidade de usar guarda-sol em nenhum lugar Alexandre Stodieck 66 FOTO ARQUIVO DO PROJETO FOTO ARQUIVO FOTOS TARCÍSIO MATTOS O Centro Eco-Cultural serviu de base para a Família Schürmann No local existe grande diversidade de vegetação nativa Alexandre Stodieck investiu US$ 500 mil no projeto turístico verde (Lytechynus variegatus), vieira- squamata) e o inambu (Crypturellus pata-de-leão (Nodipecten nodosus) e obsoletus) foram os mais beneficiados. outras espécies, como a garoupa Projetos de pesquisa, como o (Epinephelus marginatus) e o peixe- levantamento dos vertebrados e porco (Balistes carolinensis). Já foram acompanhamento da biologia de avistados elefante marinho, orcas e algumas espécies, estão sendo baleia franca. desenvolvidos. Dóris fica satisfeita. A A diversidade terrestre não fica atrás. Ilha está melhor do que eu imaginava Por conta das atividades de educação porque a recuperação da natureza foi ambiental e da rigorosa fiscalização, a muito forte e bem acompanhada. Era Ilha tornou-se um paraíso para a uma terra de todos e de ninguém. 8 fauna. É possível encontrar cerca de 100 espécies diferentes de aves, como o martim-pescador-grande, inambu, Ilha de Porto Belo araquã, saíras e sabiás. Livres de Caixa Postal 64 – Porto Belo – SC caçadores, o tatu-do-rabo-mole CEP: 88.210-000 (Cabassous sp.), algumas espécies de aves como o Aracuã (Ortalis Tel.: (47) 369-4146 E-mail: [email protected] www.ilhadeportobelo.com.br 67 Fundação sertaneja vira atração Escola no Ceará tem fórmula pedagógica inovadora Estudantes e turistas Um pedaço do tradicional e carente inscrevem o Município sertão nordestino está virando um mar de Nova Olinda na emprego das tecnologias de informação era da comunicação digital de massa de prosperidade turística, graças ao pela juventude. Ao criar a Escola de Comunicação da Meninada do Sertão, a ONG Fundação Casa Grande Memorial do Homem Kariri FOTOS MARCO A NTÔNIO REZENDE transformou-se numa atração turística premiada mundialmente pelo Unicef, na região da Chapada do Araripe, no Sul do Estado do Ceará. A instituição é administrada pelos 70 alunos, cuja faixa etária varia de três a 18 anos. Indiretamente, por mês, atende a 3 mil estudantes que fazem pesquisas em seus laboratórios. O espaço cultural recebe uma média mensal de 3 mil turistas, brasileiros e estrangeiros, a maioria professores e pesquisadores. 68 A prova viva de que uma escola, com uma fórmula pedagógica inovadora, pode contribuir rapidamente para o O que temos aqui, hoje desenvolvimento do turismo está estampada no letreiro luminoso expondo em dia, é o resultado de a imagem do prédio histórico da ONG. um trabalho unido, no O portal gigante fica na entrada do Município de Nova Olinda, a 560 qual cada criança moldou quilômetros de Fortaleza. Um lugar o espaço de acordo que pareceria parado no tempo se os seus 12 mil habitantes não estivessem ingressando, gradualmente, na era da com a sua vontade Alemberg Quindins multimídia e da comunicação digital de massa. As atividades da juventude na Fundação renderam ao município o selo de pólo turístico regional da Embratur Instituto Brasileiro de Turismo. Para justificar por que a experiência é bem sucedida, os idealizadores do projeto retornam a 1992, quando tudo começou. Os músicos e pesquisadores Alemberg Quindins e sua mulher Rosiane Limaverde, ambos de 37 anos, ressaltam que o que se vê hoje é fruto de um investimento inicial de apenas R$ 200 mensais. Sobrevivemos com essa quantia por mês durante os primeiros quatro anos. Nos três anos seguintes, passamos a viver com R$ 750 ao mês, vindos da prefeitura, conta Alemberg. Atualmente funcionamos com R$ 8 Instituto Ayrton Senna, aos nove t mil mensais, graças ao convênio com o Mesmo com foco na tecnologia, os alunos se integram a uma realidade repleta de arte e tradições populares 69 salários mínimos que recebemos da prefeitura e aos recursos de alguns projetos pontuais com o Unicef. Também recebemos uma doação mensal de R$ 500 de uma pessoa física no Rio de Janeiro, revela Rosiane, acrescentando que os recursos são todos aplicados nas atividades, obtendo o máximo de retorno. Nosso modelo gerencial aposta cada centavo e esforço na capacidade empreendedora, responsável e, sobretudo, criativa dos jovens. Por isso, buscamos construir um exemplo da define sua linha filosófica de atuação aplicação do conhecimento com boa para os alunos atendidos diretamente. gerência, atesta o pesquisador. Estamos promovendo a Quando fundamos o Memorial do democratização dos meios de Homem Kariri, crianças e jovens comunicação, a serviço da educação. foram atraídos. Vieram por eles Nosso trabalho pedagógico é voltado mesmos, ao longo do tempo. Um misto para o desenvolvimento da cidadania e de carência e vontade deles próprios. da auto-estima dos jovens sertanejos. O que temos aqui, hoje em dia, é o Provamos que os mesmos meios de resultado de um trabalho unido, onde comunicação que aculturam cada criança moldou o espaço de negativamente os jovens podem acordo com sua vontade. O nível de também culturá-los, no sentido positivo informação que eles têm agora, do termo, comemora. logicamente, não é comum num sertão Alemberg Quindins admite que esse é o destes. A Casa Grande representa a motivo pelo qual a Casa Grande serve entrada, com modernidade, da de complemento à educação dos jovens tecnologia de informação no interior do do sertão, com dezenas de atividades Brasil, avalia Alemberg. extracurriculares. A Fundação O diretor da Fundação Casa Grande mantém uma parceria com a Nosso modelo gerencial aposta cada centavo e esforço na capacidade empreendedora, Secretaria de Educação do Estado do Ceará, que avalia pedagogicamente os jovens. Tanto o índice de aprovação quanto o percentual de não-evasão são idênticos: 100%. Das ruínas ao sucesso No início dos anos oitenta, Alemberg e Rosiane resolveram estudar as lendas e desvendar a história dos sertões. A responsável e, sobretudo, criativa dos jovens Alemberg Quindins 70 Avaliados pelo Estado, os alunos atingem o índice de 100% de aprovação curiosidade despertada pelo casal foi tanta que, nas viagens que fizeram, acabaram recebendo, de presente dos Alemberg recebeu outro presente: sua Comprado pela família lhe doou o imóvel da Casa Fundação, o prédio da escola O artesanato da é o símbolo de Nova Olinda região é uma atração a mais para o turismo Grande. Depois de restaurá-la arquitetonicamente com apoio da prefeitura, o músico entrou com seu acervo histórico. Outra façanha foi a recuperação de outro prédio histórico, onde funciona a Escola de Comunicação da Meninada do Sertão. Foi o segundo monumento histórico resgatado e restaurado de Nova Olinda. A Fundação Casa Grande o adquiriu em 1997. O imóvel foi sede da primeira escola do município, cuja obra começou em 1950, construída por Alvino Ribeiro de Carvalho. O colégio foi um Dona Toinha hospeda turistas, enquanto Cristiano é recepcionista na Casa Grande presente dado à esposa, Josefa de Matos Cordeiro, a professora Zefinha, a primeira formada do local, para que ela pudesse desenvolver sua vocação e educar a população, informa Alemberg. A história mais contemporânea quem sertanejos, machados de pedra, ergueu-se a Casa Grande da Fazenda relata é o recepcionista Cristiano Souza cachimbos, pequenos objetos de barro e Tapera. Em 1933, foi comprada da Silva, de 14 anos, um dos alunos da vários materiais que indicavam ser da família Filgueiras de Barbalha pelo Casa Grande. Logo na entrada do pré-história do sertão. O material comerciante local de rapadura Manoel antigo prédio azul, ele informa que o coletado era tão volumoso que, em Ferreira Lima, avô de Alemberg. visitante está entrando na sala do 1992, tiveram a idéia de arranjar um Mais conhecido como Neco Trajano, ele Sagrado Coração de Jesus. Ali se espaço para guardar as preciosidades. pagou dois contos de réis: um conto no defronta com um altar, com céu e Um memorial seria o ideal. Melhor ato da compra e a outra metade após sobrecéu, e um oratório, dentro do qual ainda se fosse montado em um ponto de um ano. Após a compra, Neco Trajano fica a imagem de Santa Bárbara, a referência histórico. Havia em Nova convocou seu primo, o mestre-de-obras santa de devoção da Casa. Cristiano Olinda um lugar com memória Odilon Ferreira de Lima, para dar à apresenta a imagem do índio registrada desde 1717, onde foi Casa Grande sua atual fachada. O Kariuzinho, protetor da Casa e uma das demarcada a Tapera da Água Saída imóvel foi habitado até 1975, quando primeiras esculturas em madeira do Mato. O lugar era o ponto de acabou abandonado, ficando em encontradas por Alemberg Quindins. encontro de tropeiros. O primeiro ruínas. Em 1992, motivado pela idéia O recepcionista mostra peças de cerâmica prédio foi feito em taipa no chão de criar um centro de memória, e fotos de pinturas rupestres, nas t batido, sem paredes laterais. Ali 71 Iniciativas premiadas cavernas, e apresenta alguns mitos sertanejos contidos em pontos turísticos da Chapada do Araripe. O recepcionista fala Alemberg Quindins considera uma honra de personagens que povoam as lendas, que a Fundação Casa Grande promova o ca- resumindo as histórias que traduzem seus samento entre o sertão e a tecnologia da infor- feitos. Na pedra de Claranã, segundo a mação, transformando a região do Cariri em lenda, nas noites de lua cheia, aparece um um mar agitado de ondas digitais. Tanto agi- carneiro de ouro pulando nas janelas do castelo. Temos também a Pedra da Torre, a Furna de Brejinho, a Ponte de Pedra e a Pedra do Convento, onde vive a Serpente Encantada. to na comunicação rendeu à Fundação o PrêFotos de pinturas mio Criatividade Patativa do Assaré, um tro- são manifestações artísticas apreciadas féu da Unicef que reconhece a eficiência edu- no sertão tica, pelos seus próprios alunos, que começam As novas lendas vivas futuro, é a maneira na qual meninos e Na visão de Alemberg Quindins, o que influenciando uma cidade inteira e está mesmo virando lenda e, com servindo de bom exemplo educacional, grandes chances de consagrar mitos no em prol do desenvolvimento turístico e meninas, de brincadeira, estão da conseqüente geração de renda para a população local. É evidente o impacto do nosso projeto nas políticas públicas e na mobilização de parcerias. O pesquisador se refere a três ações socialmente impactantes. Primeiro, o projeto Anne Mariane, trabalho de preservação e restauração de fachadas das casas. Em parceria com a empresa Idealizadores da Casa Grande, Rosiane e Alemberg comemoram o sucesso do projeto cacional de uma entidade gerenciada, na prá- Hidracor e a prefeitura, os alunos e a comunidade reformaram e pintaram os como recepcionistas, passam para a área de multimídia e viram administradores. Além do museu, a Escola de Comunicação dispõe de brinquedoteca, biblioteca aberta à comunidade, videoteca e discoteca. Outro destaque é a Bandinha de Lata, com material pesquisado e feito pelas próprias crianças, que promovem o show A Lenda, famoso nas cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Fortaleza. Também faz sucesso em cinco municípios da região a Rádio Casa Grande (104,9 FM). A emissora tem 14 horas de programação diária, das 5h às 22h. Com o slogan a rádio que educa, oferece mais de 30 programas: MPB, forró de pé-de-serra, cantoria, moda de viola, música caipira, música clássica, velha-guarda, instrumental, jazz, blues, rap e sucessos internacionais, além de noticiário. Tudo produzido por mais de 30 crianças, que atuam de sonoplastas, produtores, roteiristas e apresentadores. Uma outra equipe de 10 jovens e cinco crianças aprendizes cuida da Casa Grande Editora. Ali se produzem, quinzenalmen- A escola oferece conforto aos estudantes 72 te, o jornal Kariuzinho e coleções de revistas em quadrinho. Roteiristas, diagramadores, desenhistas, arte-finalistas e imóveis com cores fortes, resgatando a riqueza matuta. Segundo, o embelezamento do espaço urbanístico uma necessidade, depois do interesse turístico despertado pela Casa Grande. O município faz a reforma e cria praças. A fundação doa e planta mudas de árvores como a Samaúma (considerada sagrada pelos índios Kariri-Kariú) e Neen (planta trazida da África, resistente à falta dágua). Terceiro, em parceria com o Sebrae, a área Hotelaria, no projeto de capacitação dos pais dos alunos que A TV Casa Grande e a Bandinha de Lata são duas experiências montaram uma cooperativa e criaram espaços em suas residências para receber de sucesso desenvolvidas pela turistas. As pousadas domiciliares já aumentaram em 70% a renda de Fundação famílias que sobreviviam com salário mínimo. Recebo gente de todo canto, até do exterior, relata dona Toinha, apelido carinhoso de Antônia Maria da Conceição Marôpo. De cada turista, são cobrados R$ 3 pela refeição, R$ 10 pela hospedagem e R$ 1 de taxa de serviço. Já há quatro programadores visuais em formação cui- Arraes, engenho de artes cênicas e visuais, vi- pousadinhas em funcionamento. A dam da programação visual dos materi- zinho à ONG. Segundo Alemberg Quindins, meta é chegar a 10. Os pais já ais de divulgação da Fundação. fizeram cursos de culinária, receptivo será um laboratório de formação de futura A TV Casa Grande é outra experiência platéia para atividades de música, dança, te- turístico e doces e salgados. 8 bem sucedida: forma jovens em locução, atro, cinema e vídeo. A entidade contará com sonoplastia, iluminação, câmera, edição, pro- um reforço econômico: uma verba de R$ 350 dução e roteiro. Também foi confeccionada mil, a fundo perdido, do Banco Nacional de Fundação Casa Grande uma revista em quadrinhos. O material será Desenvolvimento Econômico e Social Memorial distribuído aos 550 mil estudantes da rede (BNDES), para modernização dos laborató- do Homem Kariri pública estadual do Ceará. rios de TV, rádio e informática. Vamos conso- A próxima novidade da Fundação Casa lidar nossa escola, que é uma universidade de Grande será a inauguração do Teatro Violeta comunicação para a infância, prevê. Avenida Jeremias Pereira, 444 – Nova Olinda – Ceará – CE CEP: 63165-000 Tel.: (88) 546-1333 e 523-4104 E-mail: [email protected] 73 Novas diretrizes curriculares MEC redireciona cursos de Turismo A Lei de Diretrizes e Bases aprovada em abril deste ano dá maior flexibilização à graduação Profissionais especializados e cursos mais diversificados. É o que se espera das alterações propostas pelo Ministério da Educação (MEC) para diversos cursos de graduação, entre eles os de Turismo e Hotelaria. A mudança foi aprovada em abril e deve ser incorporada ao longo do ano aos currículos das universidades brasileiras. Pelas novas diretrizes, as instituições terão mais liberdade para organizar seus cursos segundo projetos pedagógicos específicos, oferecendo disciplinas e atividades de acordo com espaço e tempo determinados, disponibilizando maior qualificação na formação do profissional. O professor Miguel Bahl, do curso de 74 Turismo da Universidade Federal do FOTOS JULIO CESAR SOUZA O MEC dispõe de consultores que Paraná (UFPR), acredita que a verificam as novas instituições e mudança terá resultados favoráveis a submetem os relatórios à Comissão de curto prazo. É positivo, num país Especialistas. Em média, são 15 por como o nosso, dispor de cursos com mês, entre Turismo e Hotelaria, estruturas e aprofundamentos muitos deles trazendo novas diferenciados, mas é preciso cuidado dinâmicas. Apesar das vísiveis para não abrir demais, senão teremos diferenças, o professor aposta que as dificuldade para identificar os perfis. instituições vão buscar uma Miguel vem atuando como membro compatibilidade, já que haverá mais da Comissão de Especialistas de recomendações do que obrigações por Ensino em Turismo, que avalia e parte do Governo Federal. A atuação reconhece novos cursos. Da comissão, É positivo dispor de fazem parte ainda os professores cursos com estruturas nortear as linhas básicas dos cursos. A Godói Trigo. diferenciadas, mas é Turismo é planejamento, organização Segundo Bahl, além de investir em preciso cuidado para e gestão do turismo, que engloba todo diversificar suas especialidades. não abrir demais, tendências mais recentes. É uma área Somente Curitiba oferece 10 cursos. senão teremos Mirian Rejowski e Luiz Gonzaga qualidade, as universidades terão que É preciso haver distinções. Para ele, a especialização direcionará os alunos. dificuldade para A UFPR, por exemplo, tem, no identificar os perfis das comissões será imprescindível para linha mestra de qualquer curso de o mercado. A pesquisa e o ensino são emergente. Até pouco tempo, vigorava a Lei de Reforma Universitária de 1968, que fixava currículos mínimos, assegurava quarto ano, um processo de ênfases a facilidade nas transferências, voltadas para o mercado, com estabelecia a duração dos cursos e Turismo, sem contar os de Hotelaria. observava a uniformidade dos específicos: agenciamento; alimentos e Os cursos de especialização e pós- conteúdos. A grade curricular era bebidas; eventos; planejamento de graduação também estão crescendo, considerada extremamente rígida por lazer e recreação; hotelaria e meios de principalmente depois de 1996, e aprisionar os alunos aos mesmos hospedagem; planejamento de áreas diversos livros sobre o assunto vêm conteúdos sem levar em conta as naturais; planejamento de áreas sendo lançados. Temos quase 5 mil diferentes contextualizações. As urbanas; e transportes. A municípios. Mercado existe, mas ele Diretrizes Curriculares de 1997 já profissionalização é fundamental para precisa ser burilado, explica Bahl, foram um avanço, assegurando uma expandir o turismo no Brasil, diz ele. lembrando que muitos alunos são certa flexibilidade para as Não é à toa que o País comporta mais formados em outras carreiras em universidades, agora ampliadas. As de 250 cursos de graduação em busca de novas opções. instituições foram convocadas a t aprofundamento em segmentos 75 Competências e habilidades 76 O artigo 9º das Diretrizes Curriculares de 2002 diz que artesanais, gastronômicas, religiosas, políticas e outros o curso de graduação em Turismo deve possibilitar ao pro- traços culturais, como diversas formas de manifestação fissional ter, no mínimo, as seguintes competências e habi- da comunidade humana; lidades: XI. domínio de métodos e técnicas indispensáveis ao estu- I. compreensão das políticas nacionais e regionais sobre do dos diferentes mercados turísticos, identificando os turismo; prioritários, inclusive para efeito de oferta adequada a II. utilização de metodologia adequada para o planeja- cada perfil do turista; mento das ações turísticas, abrangendo projetos, planos e XII. comunicação interpessoal, intercultural e expressão programas, com os eventos locais, regionais, nacionais e correta e precisa sobre aspectos técnicos específicos e da in- internacionais; terpretação da realidade das organizações e dos traços III. positiva contribuição na elaboração dos planos muni- culturais de cada comunidade ou segmento social; cipais e estaduais de turismo; XIII. utilização de recursos turísticos como forma de educar, IV. domínio das técnicas indispensáveis ao planejamento e orientar, assessorar, planejar e administrar a satisfação das à operacionalização do Inventário Turístico, detectando necessidades dos turistas e das empresas, instituições públicas áreas de novos negócios e de novos campos turísticos e de ou privadas, e dos demais segmentos populacionais; permutas culturais; XIV. domínio de diferentes idiomas que ensejem a satisfa- V. domínio e técnicas de planejamento e operacionalização ção do turista em sua intervenção nos traços culturais de de estudos de viabilidade econômico-financeira para os uma comunidade ainda não conhecida; empreendimentos e projetos turísticos; XV. habilidade no manejo com a informática e com ou- VI. adequada aplicação da legislação pertinente; tros recursos tecnológicos; VII. planejamento e execução de projetos e programas es- XVI. integração nas ações de equipes interdisciplinares e tratégicos relacionados com empreendimentos turísticos e multidisciplinares, interagindo criativamente face aos di- seu gerenciamento; ferentes contextos organizacionais e sociais; VIII. intervenção positiva no mercado turístico com sua XVII. compreensão da complexidade do mundo inserção em espaços novos, emergentes ou inventariados; globalizado e das sociedades pós-industriais, onde os seto- IX. classificação, sob critérios prévios e adequados, de es- res de turismo e entretenimento encontram ambientes tabelecimentos prestadores de serviços turísticos, incluin- propícios para se desenvolverem; do meios de hospedagem, transportadoras, agências de tu- XVIII. profunda vivência e conhecimento das relações rismo, empresas promotoras de eventos e outras áreas, pos- humanas, de relações públicas, das articulações tas com segurança à disposição do mercado turístico e de interpessoais, com posturas estratégicas do êxito de qual- sua expansão; quer evento turístico; X. domínios de técnicas relacionadas com a seleção e ava- XIX. conhecimentos específicos e adequado desempenho liação de informações geográficas, históricas, artísticas, técnico-profissional, com humanismo, simplicidade, segu- esportivas, recreativas e de entretenimento, folclóricas, rança, empatia e ética. encaminhar propostas para a elaboração das diretrizes, a serem sistematizadas pelas Comissões de Especialistas de Ensino de cada área. Dessa forma, o MEC publicou um documento a ser seguido por todas as áreas e outro específico para cada uma, levando em conta suas especificidades. Há outras inovações. O estágio supervisionado passa a contar como conteúdo curricular implementador do perfil do formando, de acordo com a especialidade desejada, mas também pode ser feito na própria instituição, em laboratório próprio. Atividades complementares como projetos de pesquisa, seminários e congressos podem ser aproveitados no currículo. A monografia passa a ser opcional, ficando a forma de avaliação a cargo de cada instituição. Miguel Bahl lembra que é apenas um começo: A médio prazo, ainda será preciso reavaliar se estamos no caminho certo. 8 Ministério da Educação (MEC) Esplanada dos Ministérios Bloco L Brasília – DF CEP: 70.047-900 Tel.: (61) 410-8484 A linha mestra de qualquer curso de Turismo é planejamento, organização e gestão do turismo. A pesquisa e o ensino são tendências mais recentes 77 Gestão ambiental O foco está nos usuários dos recursos naturais O ecoturismo é estabelecimento de normas de proteção inteiro ao meio ambiente, dividindo as à fauna e à flora. No contexto dos responsabilidades entre o Estado e movimentos de contracultura e das coletividade. lutas dos pacifistas contra as guerras, O Instituto Brasileiro do Meio se evidenciam os problemas Ambiente e dos Recursos Naturais ambientais. No Brasil, somente na Renováveis (Ibama) nasceu em 1989 década de setenta o Governo se da fusão de quatro entidades: comprometeu com a preservação do Secretaria do Meio Ambiente (Sema), Se o conceito de gestão ambiental é meio ambiente por meio de sua Superintendência da Borracha novo, o reconhecimento da participação em convenções e reuniões (SUDHEVEA), Superintendência da importância dos recursos ambientais internacionais, mais particularmente Pesca (Sudepe), e o Instituto do Brasil remonta ao descobrimento, na Conferência das Nações Unidas Brasileiro de Desenvolvimento quando Pero Vaz de Caminha relatou para o Ambiente Humano, realizada Florestal (IBDF). No ano seguinte, foi sobre as possibilidades de exploração de em 1972, em Estocolmo, Suécia. No criada a Secretaria do Meio nossas riquezas e belezas naturais à ano seguinte, foi criada a Secretaria Ambiente (Semam). O Ministério do Corte de Portugal. Até a década de do Meio Ambiente e mais tarde os Meio Ambiente (MMA) foi criado 1960, no entanto, os recursos órgãos reguladores, como o Conselho após a realização, em junho de 1992, ambientais eram tratados de forma Nacional do Meio Ambiente no Rio de Janeiro, da Conferência da isolada e as preocupações com o meio (Conama). A Lei 6938/81 e a ONU sobre Meio Ambiente e ambiente limitavam-se ao Constituição de 1988 deram passos Desenvolvimento, mais conhecida saneamento, à solução de problemas decisivos para a formulação da nossa como Rio-92. O MMA, o Ibama e o provocados por secas e enchentes, à política ambiental. Pela primeira vez, Conama constituem o Sistema conservação de parques e ao a Constituição dedicou um capítulo Nacional de Meio Ambiente um dos eixos temáticos de atuação da educação ambiental do Ibama 78 (Sisnama), com os respectivos órgãos potencialmente perigosos; executar o cenários, com vistas ao planejamento estaduais (nas 27 unidades de controle e a fiscalização ambiental nos ambiental, entre outros. federação) e municipais (em cerca de âmbitos regional e nacional; O pesquisador Elísio Márcio de 1,3 mil municípios). monitorar as transformações do meio Oliveira, mestre na área de Política e Ao Ibama, órgão responsável pela ambiente e dos recursos naturais; Gestão Ambiental pelo Centro de execução da política ambiental manter a integridade das áreas de Desenvolvimento Sustentável, da brasileira no âmbito das competências preservação permanentes e das Universidade de Brasília, é um dos da União, compete promover a adoção reservas legais; promover a pesquisa, o responsáveis pela estruturação de uma de medidas de controle de produção, desenvolvimento e a difusão de normas proposta de educação na gestão utilização, comercialização, técnico-científicas voltadas para a ambiental. A idéia é instituir política movimentação e destinação de gestão ambiental; e desenvolver pública com foco nos usuários de substâncias químicas e resíduos estudos verificando tendências e recursos naturais, explica, citando trabalhadores, pescadores, produtores rurais, seringueiros e coletores. FOTOS LEOPOLDO SILVA Trabalhamos com os diversos segmentos sociais que têm implicação com a questão ambiental. Se o trabalho hoje é facilitado por conta da questão ambiental estar mais presente no dia-a-dia das pessoas, por outro lado, as demandas são bem maiores. É uma área que exige formulação, que exige estudo, e Oliveira. O objetivo é desenvolver t temos poucos profissionais, justifica A educação é uma questão de confiança. Quando a confiança se estabelece, o próprio autor passa a controlar t alternativas de impacto que são geradas 79 dos núcleos de educação, a Coordenadoria conta com uma área de Instrumentos e Metodologias, que edita livros e vídeos, e outra de Capacitação, que desenvolve cursos de Introdução à Educação na Gestão Ambiental, geralmente ministrados no Centro de Pesquisa do Nordeste (Cepene), que fica em Tamandaré (PE), estruturado com alojamento, cozinha industrial, salas de aula, auditório e equipamentos. É um curso de 15 dias, denso, que exige graduação Na realidade, o que a em qualquer área e vinculação a ambientais, o que é feito diretamente gente está tentando fazer chega a ser especialização por causa da pela equipe de educadores dos Núcleos com a educação é carga horária, mas funciona como supervisionados pela Coordenadoria que ela construa para os projetos, que dependem de de Educação Ambiental em Brasília. soluções. A prioridade formação de educadores para a seis em centros de pesquisa. Cada são os segmentos sociais uma relação de confiança. Quando núcleo tem em média três educadores. de menor possibilidade comportamentos, atitudes e habilidades para o trato das questões de Educação Ambiental (NEAs), São 33 NEAs, 27 por estado e mais A Coordenadoria, que conta com 11 atividades de educação ambiental. Não uma estratégia de fortalecer parcerias implantação de projetos. A educação é essa confiança se estabelece, o próprio autor passa a controlar alternativas de impacto, que são geradas. As práticas técnicos, promove o desenvolvimento das metodologias. As ações são perspectiva participativa. Cada um são diferenciadas, mas de uma divididas em 11 eixos temáticos, entre recebe um parecer. Se for favorável, o maneira geral a metodologia se eles o ecoturismo, o manejo da flora, o projeto é aprovado, conta o constrói pela participação. ordenamento pesqueiro e a prevenção pesquisador. A aprovação garante o Em Alagoas, por exemplo, nós temos de desmatamento e queimadas. Hoje, repasse dos recursos. Os não-aprovados trabalhado com o segmento de há cerca de 80 projetos em análise, são reformulados a partir das pescadores. No final do ano passado, com temas bastante amplos. recomendações da análise. fizemos um Encontro Norte/Nordeste Primeiro capacitamos os técnicos dos Os NEAs trabalham construindo da Pesca com 700 lideranças da classe, NEAs e das unidades parcerias com órgãos de meio onde foram discutidas questões diversas descentralizadas, que desenvolvem os ambiente dos estados ou dos de interesses daqueles grupos sociais. projetos em parcerias com instituições municípios, ou com movimentos sociais Por exemplo, a organização da diversas. Os projetos formulados organizados, que compartilham a categoria. Eles têm uma Confederação devem refletir os contextos locais com estrutura do projeto. Além dos projetos Nacional, constituída pelas Federações 80 Estaduais, que são compostas pelas tentando fazer com a educação é que ela A educação ambiental é estruturante colônias de pescadores locais. O seja um processo comprometido com a em todos os sentidos. Para gerenciar um Ministério da Agricultura dá construção de soluções. Nossa ação empreendimento, é necessário discutir, autorização de pesca, e cabe ao Ibama prioritária é com os segmentos sociais negociar, formular soluções. Se você não a fiscalização. Normalmente, os mais afetados e com menor possibilidade dá os instrumentos básicos para a pescadores têm muitos problemas de de ver realizados seus direitos de população se autogerir, ela vai ficar diálogo com o INSS [Instituto cidadania. É preciso criar alternativas sempre dependente. Uma das formas de Nacional do Seguro Social], com a para agregar o máximo de valor aos adquirir emancipação é ser capaz de Marinha. Por isso, nosso trabalho não produtos. Se uma família de agricultores tomar nas suas próprias mãos suas se prende somente ao ordenamento do planta cupuaçu, que venda diretamente decisões. Para fazer isso, ela tem que recurso, mas também em busca da a polpa para o supermercado, estar capacitada, acredita Oliveira. superação de problemas e da qualidade agregando o máximo de valor, ao invés Tenho clareza de que a educação por si de vida. Trabalhamos com a questão de vender a fruta na feira. A educação, só não soluciona os problemas. Tem uma ambiental enquanto espaço de relação além do conhecimento, precisa oferecer o dimensão política, uma dimensão social, da sociedade com a natureza. aporte tecnológico. Por isso ela é uma dimensão econômica, que são Outro projeto da mesma região, esse na estruturante, explica. relevantes para a sustentabilidade. A educação é uma delas. área de ecoturismo, fica em uma Área de Proteção Ambiental (APA) dos Corais, na costa brasileira, uma área O conhecimento só não A política de educação ambiental é contrária à questão de se levar soluções que abrange nove municípios em é suficiente. Tem uma Alagoas e quatro em Pernambuco. dimensão política, uma com o indivíduo. Se ele produz uma significativa, onde se pode ir de dimensão social, uma seda para enrolar, faz um trançadinho jangada para os recifes e ficar lá no dimensão econômica que bonito de artesanato. As singularidades Oliveira. O Ibama está trabalhando são relevantes para a trabalho da menina que está no ordenamento da pesca na região e sustentabilidade Uma área de beleza cênica muito meio do mar tomando banho, conta na proteção da área, pois a grande prontas. A solução deve ser construída bala, ao invés de pegar um papel de são marketing, além de respeito ao ajudando a mãe a fazer artesanato. A educação deve ter o compromisso de biodiversidade concentra muitos criar uma série de alternativas que cardumes. O projeto prevê o viabilizem e dêem retorno efetivo para equacionamento do uso sustentável aquele grupo social. 8 tanto da pesca quanto do turismo para alavancar o desenvolvimento local. As 13 prefeituras participaram de um seminário no ano passado e criaram um consórcio para um programa de desenvolvimento bioregional. Na realidade o que a gente está Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) SAIN Avenida L4 Norte, s/n – Brasília – DF CEP:70.800-200 Tel.: (61) 316-1190 www.ibama.gov.br 81 Leticia Lemos Sampaio Desenvolvimento sustentável em foco esforço necessário para mudar o País. Temos a consciência de que o Brasil não realizará seu potencial sem educação. É preciso que os cidadãos reconheçam seus direitos, e para isso a educação é fundamental. Na atividade turística, Instituto Souza Souza Cruz, Leticia Lemos Sampaio, não é diferente. O turismo é gerador de Cruz implementa vê as parcerias como ferramentas para renda, de trabalho, uma atividade que oferecer novas oportunidades de está conquistando espaço definitivo junto qualificação e, conseqüentemente, de a diversos setores, com um mercado amplo renda para jovens brasileiros. destinado principalmente a jovens cheios comunidades carentes em regiões turísticas Comprometido com a causa da educação para o desenvolvimento humano sustentável, o Instituto Souza Cruz foi criado em 2000 com o objetivo de promover projetos em Educação para Valores, para o Meio Ambiente, para o Empreendedorismo e para o Turismo. Neste último campo, o Instituto começa a implementar os primeiros projetos, de potencialidades. Recentemente o Instituto Souza Cruz formalizou uma parceria com o Como o Instituto Souza Cruz Instituto de Hospitalidade, espera contribuir nessa área? organização não-governamental que Buscamos desenvolver nas novas tem como compromisso promover gerações habilidades básicas, capacitação e qualificação na área de específicas e de gestão necessárias turismo. Esse é o caminho para para ingressar, permanecer e valorizar o turismo no Brasil? progredir no campo do turismo. O A principal missão do Instituto Souza Instituto Souza Cruz entende que o Cruz é atuar como uma força turismo gera grandes oportunidades transformadora, capaz de participar do e está trabalhando na construção voltados para a sustentabilidade de comunidades carentes que vivem em regiões com potencialidades turísticas uma, no litoral da Bahia; outra, na divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro. A diretora executiva do Instituto 82 O turismo é gerador de renda, de trabalho, uma atividade que está conquistando espaço definitivo junto a diversos setores t projetos voltados para FOTOS LUCIANO MATTOS BOGADO 83 de alguns núcleos de produção imediata, que comecem a produzir e gerar oportunidades para pessoas das comunidades. Serão novas oportunidades de trabalho nesta região. Como funcionará a escola? A Escola de Produção vai oferecer hortas orgânicas e cursos de capacitação para professores e moradores. Estamos abrindo espaço para que a associação de moradores tenha ampla participação. Buscamos desenvolver nas novas gerações habilidades Assim como a construção será feita em regime de mutirão remunerado, também básicas, específicas e de gestão necessárias para estamos organizando os cursos de acordo ingressar, permanecer e progredir no turismo Vila Sauípe e das localidades próximas. com as necessidades dos moradores da Como o turismo pode impulsionar o desenvolvimento sustentável? de projetos educacionais que O que o Instituto Souza Cruz vai Gerando oportunidades de trabalho, permitam a qualificação dos jovens oferecer na parceria com o Instituto de incremento de renda e dando autonomia que pretendam ingressar Hospitalidade? às comunidades, para que tenham acesso profissionalmente nessa área. O programa se dará em três campos: ao cenário econômico do século 21 sem agricultura familiar, educação e deixar de preservar suas culturas. Qual é o diferencial do Instituto? mobilização, e articulação. Vamos entrar Artesanato, cultivo da mandioca, uso de Nosso programa de Educação para o com nosso conhecimento na área de plantas medicinais e aromáticas, Turismo visa a geração de agricultura, que será aplicado no projeto religiosidade e até brincadeiras típicas oportunidades de trabalho segundo a do Instituto de Hospitalidade, de estarão no centro do trabalho a ser cultura da hospitalidade, que construção da primeira Escola de realizado. Temos que respeitar as compreende um processo de educação Produção da região da Costa dos comunidades e não tratá-las como mera do profissional e do turista. Além Coqueiros [BA]. A agricultura tem um mão-de-obra ocasional. disso, estamos voltados para o grande potencial, e na região o trabalho desenvolvimento sustentável das é centrado primordialmente no Em todo o mundo, o turismo é um comunidades envolvidas e artesanato. Vamos levar uma nova forma grande negócio e, por conta disso, tem visualizamos a conservação ambiental de produzir, distribuir e comercializar. É novas exigências. O Brasil está como parte do turismo dentro de um um trabalho de longo prazo. Mas ao acompanhando? todo maior, a ecologia. mesmo tempo vamos estimular a criação Sim, o turismo também está sendo visto 84 como um negócio no Brasil e é por isso local, tirando dali seu sustento, a importância desse aperfeiçoamento e que precisamos oferecer melhores participando das novas regras. estamos apoiando o MBA em Turismo da Fipe [Fundação Instituto de Pesquisas condições para os turistas. A qualificação vem nesse sentido. Por Além de cursos direcionados para Econômicas], realizado pela USP outro lado, também dá oportunidade jovens de pouca qualificação, começam [Universidade de São Paulo]. Pudemos para fixar a população, evitando que a proliferar no Brasil cursos de ver a importância de dar apoio a este tipo ela fique à margem do processo. Na aperfeiçoamento. Estes cursos são parte de iniciativa no ano passado, durante o Costa dos Coqueiros, por exemplo, a das novas tendências? seminário [1º Seminário de Turismo e comunidade participa do complexo Estamos acompanhando o resto do Desenvolvimento Humano Sustentável] Costa do Sauípe de várias formas. mundo. O turismo demanda produtos e que promovemos junto com a Fipe. Alguns fazem parte do corpo de mão-de-obra de qualidade. O turista Pessoas de vários estados do Brasil funcionários, são garçons, quer ser bem servido, com uma boa infra- acompanharam as palestras, realizadas camareiras, cozinheiros. Já os estrutura de aeroportos, hotéis, no campus universitário da USP. artesãos são fornecedores, abastecem restaurantes e agências de viagens, os hotéis com seus trabalhos em palha. gerenciados e dirigidos por profissionais de Quais foram os principais resultados A idéia do desenvolvimento alto nível de preparo. Aperfeiçoando os deste seminário? sustentável também é isso: fazer com executivos, poderemos contribuir para Foi bastante positivo. Vimos o quanto é que a região, a comunidade, o povo elevar os padrões de qualidade do turismo amplo o mercado do turismo no Brasil e possa acompanhar o desenvolvimento brasileiro. Nós, do Instituto, entendemos quantos desafios ainda temos pela frente. Mas as perspectivas são as melhores, pois o turismo pode gerar sustentabilidade econômica, ambiental, política, cultural e social. Concretamente, aproveitamos o seminário e oferecemos bolsas de estudo a pessoas interessadas no desenvolvimento sustentável voltado para o turismo. Em contrapartida, os beneficiados se comprometem a fazer um projeto de interesse do Instituto Souza Cruz. Como pode ser incentivada a tendência atual no Brasil de se voltar É preciso aproveitar o potencial dos recursos para o ecoturismo? É preciso aproveitar o potencial dos naturais do País. Este ano é ideal para investir, pois recursos naturais do País. Esse ano é foi instituído o Ano Internacional do Ecoturismo projetos, pois foi instituído como o Ano ideal para investir ainda mais nesses Internacional do Ecoturismo. 8 85 Ensino de excelê Novos cursos preparam gerentes MBA em Turismo capacita profissionais de várias áreas Indústria em expansão em todo o mundo, responsável por 8% dos empregos e 11,9% do Produto Interno Bruto mundial, movimentando transportes, hotéis, bares e restaurantes, o turismo está conquistando espaço definitivo na economia brasileira, e começa a se intensificar em diferentes campos de atuação. Um dos que revelam notável crescimento é a educação. A formação e a capacitação vêm se espalhando pelo Brasil, buscando garantir novas opções de trabalho e renda para segmentos diferenciados da população. A maioria dos cursos, no entanto, tem como estratégia atingir o profissional semiqualificado ou técnico, enquanto o MBA visa à especialização do profissional graduado com formação superior em áreas diversas de estudo. Nos últimos cinco anos, universidades têm investido em cursos de pós-graduação destinados a habilitar pessoas não só como docentes e pesquisadores, mas também para cargos 86 ência gerenciais, de direção e executivos para a manutenção dos negócios e empreendimentos. O mercado turístico mudou, os cursos cresceram e os alunos têm novos interesses. Para se especializarem, eles querem programas globais integrando o embasamento teórico com aplicações práticas que incluam estudos da realidade, explica a professora doutora Beatriz Helena Gelas Lage, docente da ECA/USP e coordenadora do curso Economia do Turismo MBA/USP, desenvolvido pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) como uma pós-graduação (lato sensu) e apresentado num período de 12 meses, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP). O curso dará início à sua quinta turma no segundo semestre de 2002 em São Paulo, embora possa ser t FOTOS JORGE TAKESHITA/ ARQUIVO O professor doutor Hélio Zylberstajn fez palestra sobre ‘Turismo e Emprego’ 87 campus universitário da FEA/USP o 1º Seminário de Turismo e Desenvolvimento Humano Sustentável. O evento reuniu cerca de 300 pessoas de várias partes do País, dentre profissionais, empresários, especialistas e estudantes da área de turismo. A maioria interessada na oportunidade de conhecer novas idéias e estudos, percebendo assim as vantagens que o setor turístico vem oferecendo em termos Mario Beni (ECA/USP): presença no ‘1º Seminário de Turismo e Desenvolvimento Humano Sustentável’ de perspectivas, capacitação e especialização. O seminário coordenado por Beatriz Lage foi dividido em quatro painéis compostos por palestrantes doutores, como oferecido em outras localidades, em Paulo Cesar Milone (FEA/USP), Olga Ecologia e Planos de Conservação parceria com entidades brasileiras, com Tulik, Mario Jorge Pires e Mario Beni Ambiental, com a professora doutora da adaptações de conteúdo de acordo com a (ECA/USP) e Marcos Cobra (EAESP- USP e da Universidade do Vale do Itajaí realidade local. FGV), além de profissionais de renome do (Univali) Dóris Ruschmann, e Agenda Acreditando na Educação para o Turismo, mercado turístico brasileiro e 21 Desafios do Turismo Sustentável, o Instituto Souza Cruz financia bolsas internacional. Alguns dos temas em que o diretor regional do WTTC de estudo do MBA de Economia do abordados foram Turismo e Emprego, Conselho Mundial de Viagens e Turismo. Essa prática de estímulo e apresentado pelo professor doutor da FEA/ Turismo para a América Latina, Silvio capacitação de recursos humanos começa a USP Hélio Zylberstajn, Turismo, Barros, falou sobre a adaptação da se destacar em algumas empresas ligadas à Agenda 21 para o turismo e suas ações área do turismo, embora nem todas ainda específicas. Dentre outros, a agenda para estejam conscientizadas desse importante o turismo foi discutida em termos da reforço na educação brasileira. No caso do destinação de águas servidas, do manejo programa MBA, em contrapartida ao de substâncias perigosas e do envolvimento auxílio, o bolsista assume o compromisso de de funcionários, clientes e comunidades de desenvolver seu projeto de monografia em pólos receptores de turismo nas questões temática de interesse da empresa. No caso relacionadas ao meio ambiente. A do Instituto, os projetos de pesquisa serão preocupação do assunto continua sendo na área de desenvolvimento sustentável tratada nos estudos do turismo moderno, voltados para a Educação para o Turismo. cujo desafio objetiva a percepção de novas A parceria visando à educação, no entanto, não se restringe somente ao curso. Em novembro do ano passado, o Instituto Souza Cruz e a Fipe realizaram no 88 Jorge Nishimura foi um dos participantes dos painéis oportunidades, bem como das reais apresentados no auditório da FEA/USP, na capital paulista atividade sob o enfoque ambiental. deficiências e de outros fatores gerados pela MBA integrado Destinado a empresários e profissionais do setor privado e público, o MBA de Economia do Turismo da Fipe procura disseminar os conceitos da atividade turística integrada por suas múltiplas áreas de estudo. Direcionado para alunos de formação superior, não se restringe somente aos graduados em Turismo e Hotelaria, uma vez que administradores, economistas, engenheiros, advogados, biólogos, sociólogos e outros também têm interesse na matéria. A novidade da ciência moderna atingiu em cheio as teorias do turismo e, sejam por razões materiais, heurísticas, menos complexas, prazerosas ou por outras inexplicáveis, agradaram plenamente estudantes e pesquisadores modernos. Além do aspecto científico, o turismo deve ser por todos tratado como uma oportunidade empresarial que motiva a compreensão do seu funcionamento relacionado com outros setores da economia, afirma a coordenadora Beatriz Lage. Dentre os principais objetivos do curso de especialização da Fipe estão propiciar uma visão moderna da atividade turística, com enfoque nas diversas áreas de atuação empresarial do mercado brasileiro e internacional; possibilitar a capacitação e a formação profissional de recursos humanos, com aprimoramento técnico-científico nos estudos multidisciplinares e nas práticas do setor turístico; e fornecer um diferencial de informações sobre o entendimento do turismo com os demais ramos do conhecimento científico, de forma que seja excercido com eficiência, qualidade, técnica e competência. As disciplinas do curso são divididas em cinco módulos básicos: Economia do Turismo; Regime Jurídico, Sociedade, Cultura e Meio Ambiente; Planejamento Mercadológico, Administração e Gestão Operacional do Turismo; Marketing e ComuBeatriz Lage, coordenadora do MBA de Turismo, também esteve à frente do seminário da Fipe realizado em 2001 nicação no Turismo; e Metodologia Científica, Projetos e Pesquisas no Turismo. As aulas teóricas são ministradas por professores doutores da USP e, dentre outras atividades programadas, incluem-se palestras de especialistas convidados e visitas técnicas a empreendimentos de natureza turística. Com base no conteúdo apresentado, fazendo uso da internet em sala virtual, os alunos são levados a apresentar um trabalho final de pesquisa com tema de seu interesse vinculado ao turismo. Resulta na elaboração de monografia, apresentada após o térmi- Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) no do programa, onde os participantes desenvolvem sua criatividade, adquirem novas informações e aperfeiçoam seus estudos. O diferencial da experiência assimilada por Avenida Professor Luciano Gualberto, 908 - Prédio FEA II - Cidade Universitária – São Paulo- SP pessoas qualificadas neste MBA e em outros programas de ensino contribuem para a CEP: 05.508-900 melhoria da educação no turismo brasileiro e acarretam condições de engrandecimento Tels.: (11) 3032-0825 e 3091-5901 do fator humano que, como resultante, acelerará as condições para o alcance de um Fax: (11) 3812-5863 www.fipe.com futuro promissor com base num sólido processo de desenvolvimento sustentável. 8 E-mail: [email protected] 89 Exemplo de luta contra a miséria Parceria produz bons frutos na Bahia 90 Educar para servir mais, melhor e sempre ao turista e à comunidade. O lema do Instituto de Hospitalidade (IH) traduz em programas a filosofia de modernização do turismo no Brasil, ligada ao desenvolvimento sustentável, onde o negócio turístico, as comunidades locais, os governos e os demais mobilizadores e executores agem como parceiros. Surgido há cinco anos, o IH iniciou sua atuação promovendo a educação e a cultura da hospitalidade através da profissionalização de comunidades de localidades turísticas da Bahia. A região da Costa dos Coqueiros, que compreende FOTOS LUCIANO MATTOS BOGADO 31 povoados nos municípios litorâneos de Mata de São João e Entre Rios, e tem a Costa do Sauípe como amostra de sucesso no País, foi um dos grandes beneficiados: cerca de 2,7 mil pessoas foram capacitadas e hoje aproximadamente 1,1 mil estão empregadas, boa parte como garçons, cozinheiros, recepcionistas e jardineiros nos hotéis e restaurantes do complexo. Os cursos não serviram apenas para evitar que os empregos nos cinco hotéis de luxo excluíssem a população local, criando um bolsão de miséria ao redor do empreendimento. O IH também valorizou atividades econômicas locais, como o belo artesanato feito com a palha IH, o artesanato local ganhou prestígio junto aos hotéis da região da piaçava. Os artesãos aprenderam a se organizar, produzir em larga escala, direcionar o trabalho para turistas, modernizar suas técnicas. t Com orientação do 91 Os objetos produzidos por Em abril deste ano, o IH e o Elizete são vendidos nos Instituto Souza Cruz firmaram hotéis da região um Convênio de Cooperação Técnica e Financeira visando a promover ações educacionais e culturais, pautadas na A garçonete Valcinéa vê responsabilidade social e no fortalecimento da cidadania. A chance de crescimento primeira delas, o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Sustentado da Costa dos Coqueiros, acontece na localidade de Vila Sauípe, a apenas cinco quilômetros do complexo hoteleiro. O programa é uma iniciativa importante para a população local, que ainda se assemelha à grande parte da população rural nordestina, por sua Nos resorts da Costa do Sauípe, a qualidade é baixa escolaridade e escasso acesso aos atestada pelo IH meios de produção e aos serviços essenciais de água, esgoto e transporte. A parceria visa dar às comunidades os benefícios da nova dinâmica oficinas de doceria e rotisseria. O Construtora Norberto Odebrecht com econômica que invade a região, sem orçamento total do programa está a Prefeitura de Mata de São João. que sua formação social seja estimado para 2002 em R$ 1,1 Além dos programas desenvolvidos na violentada. Para isso será implantada milhão, com participação do Sebrae, Bahia, o IH começa a exportar este a primeira Escola de Produção local do Senac, da Construtora Norberto ano o sucesso do treinamento e da que, além de oferecer oficinas de Odebrecht e da Fundação Banco do capacitação para Poconé, no Mato artesanato e técnicas agrícolas, Brasil. A Escola será construída em Grosso, com previsão de 600 empregos funcionará como incubadora de um terreno de 5 mil metros para moradores da região, e está pequenos negócios, em sinergia com os quadrados, cedido em comodato pela iniciando um projeto em Búzios, no empreendimentos turísticos. Porfírio Rio de Janeiro. Outra atuação da Dantas Vieira, 59 anos, líder ONG diz respeito às certificações na comunitário nascido e crescido na A construção da Escola Vila, está animado. A construção vai de Produção vai gerar Nacional de Certificação da pois será um mutirão remunerado. empregos para a de Turismo, que qualifica hotéis, O programa também pretende comunidade, pois será um gerar empregos para a comunidade, promover cursos de formação de professores e em ocupação hoteleira, seminários sobre saúde e saneamento, 92 mutirão remunerado Porfírio Dantas Vieira área turística através do Sistema Qualidade Profissional para o Setor restaurantes e profissionais brasileiros através de uma metodologia que pretende elevar a qualidade dos serviços a níveis internacionais. Empresárias do trançado As avós faziam esteiras, chapéus e bolsas de formato pouco original. Passaram o ofício de forma natural para as filhas, ainda pequenas. Elizete Mercês, 47 anos, já estava no trançado quando os dentes acabaram de nascer. Dos nove filhos, cinco são mulheres e todas trabalham com a piaçava. Elizete é uma das que contam com um diferencial: a proposta do Instituto de Hospitalidade, que levou até elas novidades que soam como inovações tecnológicas na região. Curralinho, Bolsas e chapéus passaram a ter por exemplo, localidade de Mata de São João, só não parece um melhor acabamento estar no século passado por conta das artesãs comentando animadamente um programa de televisão enquanto tecem a piaçava. A alegria que vem com a integração produtiva é visível. As artesãs abrem um sorriso para receber Raimundo Ribeiro da Silva. O coordenador do IH, que as acompanha em cada passo, da produção à entrega, personifica a introdução de novos trançados e materiais e as exigências de qualidade, como um melhor acabamento. Elas aprenderam a fazer negócios, explica ele. O IH começou a ministrar cursos na Costa dos Coqueiros Artesãos podem agora aumentar há dois anos. Os 235 artesãos há também alguns (poucos) homens foram cadastrados e cerca de 10 mil peças e diversificar sua produção negociadas. Em um dia, dá para trançar e montar uma bolsa, conta Aurora Timóteo de Santana, 52 anos. Hoje, as bolsas têm cores e formatos variados, e as artesãs são capazes de atender aos hotéis, produzindo peças em larga escala com qualidade. Outras, como Bibiana Bahiense dos Santos, 56 anos, ainda preferem vender na praia. Vou aos sábados, com uma amiga. O resultado rendeu frutos também em outras áreas. No processo, algumas aprenderam a escrever As esteiras são confeccionadas há para assinar recibos; outras, tiraram seus primeiros décadas na região t documentos para participar dos cursos. 93 A palha de piaçava é a matéria-prima utilizada na produção dos objetos vendidos aos hóspedes O Instituto de Hospitalidade atua há cinco anos em favor do turismo sustentável Os funcionários dos hotéis pertencem às comunidades e têm possibilidade de estudar 94 Funcionários valorizados O SuperClubs Breezes da Costa do Sauípe segue a cartilha dos outros resorts da grife, localizados em ilhas caribenhas, preparados para dar aos hóspedes conforto total com muita sofisticação. Dada a notória rotatividade de profissionais na área de turismo, é difícil entender como tudo funciona com perfeição. A resposta está na equipe, que conta com 60% do pessoal recrutados na própria região. É uma forma de fixá-los na comunidade, valorizando-os. Com isso, muitos deles estão no hotel desde sua inauguração, há dois anos. Como Marinalva Cardoso, 26 anos, garçonete, que quase não foi encontrada pelo hotel durante a seleção. Eu não tinha telefone e morava longe. O recrutamento foi feito junto ao programa de capacitação do IH, adaptado conforme as necessidades dos funcionários. O SuperClubs foi o primeiro hotel a receber a certificação de Segurança Alimentar dada pelo IH. Agora, quer buscar o mesmo reconhecimento para seus funcionários, e isso começa pelo treinamento, que envolve não só a área específica e a filosofia da empresa, mas também noções de higiene. Alguns não têm nem banheiro em casa, explica Emília Guerra, diretora de Recursos Humanos. Mas não me arrependo nem um minuto. Queríamos pessoas abertas a aprender, que buscassem uma profissão com uma filosofia de respeito e qualidade. Gente assim é o que não falta. O ajudante de confeitaria Alex Ferreira, 24, trabalha à noite e termina o ensino médio de dia. A garçonete Valcinéa Santos Pina, 21, está em seu primeiro emprego e cheia de expectativas. Formada em Contabilidade, vê no hotel a chance de crescer como profissional. Não quero ser sempre garçonete, afirma ela. Carlos Bahia, 24, já começou a seguir carreira na área: entrou garçom e hoje é supervisor de dois bares e de um dos quatro restaurantes do local. Antes do hotel, trabalhou como garçom em um pequeno restaurante. Mas quando cheguei aqui vi que ainda não sabia nada, e tenho muito o que aprender. Além de promover os cursos de capacitação, o IH desenvolve material didático. São CD ROMs, vídeos e livros que demonstram atitudes, conhecimentos e habilidades necessárias ao bom desempenho profissional em cada ocupação. Há produtos sobre conservação de alimentos, limpeza e gestão de bares de bebidas, para mensageiros, camareiras, garçons e atendentes de reservas de passagens, entre outros. 8 Instituto de Hospitalidade Material didático Rua Frei Vicente 16 – Centro Histórico – utilizado nos cursos que já capacitaram 2,7 mil Salvador – BA profissionais de turismo CEP: 40025-130 Tel.: (71) 320-0700 Site: www.hospitalidade.org.br 95 Presidente Flavio de Andrade Diretores Constantino Luís Nunes de Mendonça Gerson Cardoso Diretora-Executiva Leticia Lemos Sampaio Conselho Fiscal Antônio Duarte de Castro Marcelo Henrique de Castro Nicandro Durante Gerentes de Projetos Sociais Flávio Goulart Luiz André Soares Secretária-Executiva Simone Amorim Apoio Administrativo Fabíula Rodrigues (estagiária) Karina Kato (estagiária) Instituto Souza Cruz Rua da Candelária, 66 CEP 20092-900 - Rio de Janeiro Tel.: (21) 3849-9000 [email protected] www.institutosouzacruz.org.br Os conceitos emitidos nos artigos assinados são de responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, a opinião do Instituto Souza Cruz. REVISTA MARCO SOCIAL - Julho 2002 - Concepção Editorial: Prof. Antonio Carlos Gomes da Costa EDITOR: OCTACÍLIO FREIRE SUBEDITOR: MAURO SILVEIRA COORDENAÇÃO: FLÁVIA CLEMENTE CHEFIA DE REPORTAGEM: SIMONE MAGNO REPÓRTERES: ALESSANDRA VALE, JORGE SERRÃO E ROSAYNE MACEDO FOTÓGRAFOS: ADI LEITE (SP), ELCIO CARRIÇO (BA), HÉLCIO NAGA (SP), JULIO CESAR SOUZA (PR), LUCIANO MATTOS BOGADO (RJ), MARCO ANTONIO REZENDE (RJ), TARCÍSIO MATTOS (SC), ARQUIVO DO INSTITUTO SOUZA CRUZ E ARQUIVOS DOS PROJETOS LOGÍSTICA E APOIO: ALFA OLIVEIRA E FÁBIO RANGEL REVISÃO: BETH PENA E CARLOS EDUARDO DE ABREU E LIMA PROGRAMAÇÃO VISUAL: SERGIO PAULO FURTADO FOTOLITO E IMPRESSÃO: GRÁFICA RESER TIRAGEM: 1.000 EXEMPLARES - EDIÇÃO LIMITADA. PRODUÇÃO EDITORIAL: CAJÁ – AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO – RUA DA ASSEMBLÉIA, 10 GR. 3007 – CEP 20119-900 – RIO DE JANEIRO – RJ (21) 2531-4544 – [email protected] 96