“
A única verdadeira viagem não seria viajar por
centenas de diferentes países com o mesmo par de olhos... mas ver
a mesma terra através de uma centena de diferentes olhos
Marcel Proust
”
PALAVRA DO PRESIDENTE
Empreendedorismo:
oportunidade
de educação para
o turismo
A
o planejar e coordenar a sua diferenciada gama
de atividades em regiões distintas do Brasil, o
Instituto Souza Cruz tem estado atento aos
princípios do desenvolvimento sustentável, com
interesse particular em sua vertente educacional.
Os resultados positivos nos têm dado alento para
prosseguir e a presente edição da revista Marco
Social destaca mais uma área em que temos
trabalhado com afinco. Trata-se da Educação para
o Turismo, no contexto da qualificação de
profissionais que venham a trabalhar neste
importante setor – hoje responsável por nada menos
que 8% dos empregos e por 11,9% do PIB
mundial, de acordo com dados do WTTC —
Conselho Mundial de Viagens e Turismo.
Ações educativas como as que mostraremos
nas páginas a seguir representam a
esperança de que as novas gerações
2
desenvolvam habilidades específicas e ajudem o
nosso País a aproveitar, em um futuro
próximo, o seu imenso potencial turístico.
As discussões sobre o tema têm mantido o foco na
perspectiva do turismo como atividade
socioeconômica integrada ao meio ambiente.
Neste sentido, o ecoturismo é bem mais do que um
simples filão de negócios, pois embute a
possibilidade de envolvimento e desenvolvimento
das comunidades em que está presente.
Paralelamente, os pequenos hotéis, pousadas e
resorts estão atentos e têm oferecido serviços mais
condizentes com as reais possibilidades turísticas
do País. Contudo, convém frisar que o potencial
brasileiro é extraordinário e há muito a se fazer
para alcançarmos uma situação ideal. Da
segurança à infra-estrutura de serviços, temos
potencial de oferecer muito mais.
Ciente do quadro promissor e das lacunas
existentes, o Instituto Souza Cruz aposta na
Educação para o Turismo como uma área de
grandes realizações. Hoje, no Brasil, cerca de 2,1
milhões de estabelecimentos turísticos empregam
aproximadamente 25 milhões de pessoas, de
acordo com dados do Ministério do Trabalho e
Emprego (MTE).
Com trabalho, poderemos ajudar nosso País a
aumentar esses números.
Flavio de Andrade
Presidente do Instituto Souza Cruz
3
ÍNDICE
2
Palavra do Presidente
Flavio de Andrade destaca
aposta do Instituto Souza
Cruz no turismo sustentável
14
Turismo e as
eleições de 2002
Silvio Barros alerta que os
presidenciáveis não podem
ignorar importância do setor
IDÉIAS
6
Educação, turismo
e desenvolvimento
sustentável
Antonio Carlos Gomes da Costa
analisa o desafio educacional
para o setor turístico
8
A economia do
turismo no Brasil
Beatriz Helena Gelas Lage
destaca os aspectos econômicos
da atividade no País
LUCIANO MATTOS BOGADO
20
ORGANIZAÇÃO & AÇÃO
38
Programa qualifica o
turismo brasileiro
Sergio Foguel descreve
exemplos de sucesso com a
certificação profissional
HELCIO NAGA
Planejamento integrado
e sustentabilidade
do turismo
Carmélia Anna Amaral
comprova necessidade de se
desenvolver ações planejadas
26
Educação em
turismo no Brasil
Especialização e motivação são
temas abordados por Marilia
Gomes dos Reis Ansarah
32
Um caminho
para a cidadania
Adyr Balastreri Rodrigues prega
o fortalecimento da auto-estima
nas comunidades turísticas
Pescadores no litoral paulista
44
Desvendando a
Mata Atlântica
Pólo de Lagamar, em São
Paulo, o pioneiro no
ecoturismo brasileiro
52
Ecoturismo na Amazônia
Projetos comunitários preservam a
natureza e garantem a
sustentabilidade da população
ARQUIVO DO PROJETO
TRAJETÓRIA & VISÃO
82
Desenvolvimento
sustentável em foco
Turistas se integram ao ambiente
62
Instituto Souza Cruz
implementa projetos em
comunidades carentes
90
Natureza revalorizada
Preservação ambiental
salvou pequena ilha em
Santa Catarina
68
Fundação sertaneja
vira atração
Exemplo de luta
contra a miséria
86
Ensino de excelência
MBA em turismo capacita
profissionais de diferentes
áreas de atuação
Instituto Souza Cruz e
Instituto de Hospitalidade
firmam parceria na Bahia
LUCIANO MATTOS BOGADO
Tecnologia e
tradição unidas no
interior do Ceará
Novas diretrizes
curriculares
MARCO ANTÔNIO REZENDE
74
MEC define mudanças para
cursos de Turismo
Artigos produzidos
por moradores
da Costa do
Sauípe (BA)
LUCIANO MATTOS BOGADO
Estátua do
Cristo domina
a paisagem
em Silves
Artesanato
popular é
atração em Nova
Olinda (CE)
5
HELCIO NAGA
resume à preparação de pessoal dirigente, técnico e operativo
para tocar o dia-a-dia da cadeia de empreendimentos
diretamente envolvida nesta atividade. Trata-se de algo muito
mais amplo. A tarefa com a qual o Brasil hoje se confronta
nesse campo implica a articulação de uma ação educativa que
abrange um conjunto variado de âmbitos de atuação.
É necessário educar operadores, técnicos e dirigentes para atuar
ao longo de toda a cadeia produtiva do turismo. Este é o aspecto
mais evidente dessa questão. Por outro lado, é preciso também
educar o turista, para que sua presença não tenha impactos
indesejáveis sobre as condições ambientais e sociais da
comunidade que o acolhe. Porém, é preciso reconhecer que isto
ainda não é o bastante. Faz-se necessário incentivar e
desenvolver – através de um esforço consistente no campo da
pedagogia social – uma cultura de hospitalidade nas
populações locais, de forma a criar uma ambiência
sociocultural propícia ao florescimento da atividade turística.
Finalmente, é preciso ter em mente que, para que tal
APRESENTAÇÃO
Educação,
turismo e
desenvolvimento
sustentável
propósito se viabilize, torna-se uma exigência inarredável um
forte empenho no desenvolvimento, nos decisores públicos e
privados nesse campo, da sensibilidade, consciência e
competência necessárias para que o turismo não seja pensado
de forma parcial, reducionista e inconseqüente, mas como
parte da totalidade solidária e complexa do processo de
desenvolvimento local integrado e sustentável.
Para tornar realidade esta visão sistêmica da questão, faz-se
necessário que esses quatro grandes atores do processo de
desenvolvimento do turismo formem uma autêntica
comunidade de sentido, no sentido que Bernardo Toro
atribui ao termo.
Para Toro, uma comunidade de sentido se estabelece quando
qualquer grupo humano se revela capaz de compartilhar um
O desafio de transformar o Brasil numa potência turística
entendimento comum acerca de um determinado aspecto da
estruturada no marco do desenvolvimento sustentável neste
realidade, de posicionar-se em relação a ele de forma coesa, ou
início do século XXI tem várias faces. Uma delas — de enorme
seja, com pessoas, grupos e instituições unidos por crenças,
transcendência econômica, social, cultural e ambiental — é,
valores e sentimentos comuns e, finalmente, atuar frente às
sem dúvida alguma, a educação. O desafio educacional é
situações concretas de modo convergente e complementar,
aquele que, se não for compreendido de forma clara e
mantendo constância de propósito ao longo do tempo.
enfrentado de modo articulado e conseqüente, poderá
O grande fator de que depende a geração e mobilização de uma
relativizar e até mesmo inviabilizar os esforços desenvolvidos em
comunidade de sentido reside na capacidade dos diversos atores
relação a outros aspectos desta questão estratégica para o
econômicos, sociais e políticos de produzir um imaginário social
desenvolvimento econômico e social do Brasil.
convocante em relação àquele aspecto da realidade que se pretende
Se observarmos o desafio educacional do turismo em toda sua
transformar. No Brasil, nosso grande desafio é criar e viabilizar
inteireza e complexidade, veremos claramente que ele não se
comunidades intersetoriais capazes de articular e fazer acontecer
6
nos níveis nacional, estadual e local um novo modelo de educação
Finalmente, o objetivo educacional junto à comunidade que
para o turismo estruturado no marco do compromisso maior com o
opera nessa área (os homens e mulheres que diuturnamente
desenvolvimento local integrado e sustentável.
fazem funcionar a multitude de organizações envolvidas na
Para tanto, como em todos os grandes desafios brasileiros, será
cadeia produtiva dos serviços ao turista) é, não só uma
necessário construir novas equações de co-responsabilidade,
educação técnico-profissional de qualidade, mas também e
envolvendo as três grandes comunidades relacionadas à questão
fundamentalmente uma educação para valores capaz de
da educação para o turismo: a comunidade que decide, a
enraizar e desenvolver em cada trabalhador o espírito de servir
comunidade que estuda e a comunidade que opera no dia-a-dia
natural a todos aqueles que atuam neste ramo.
em cada uma das etapas do ciclo de desenvolvimento do negócio.
É da correta articulação dessas três comunidades que devem
O objetivo educacional em relação à comunidade que decide
partir as iniciativas para a educação das comunidades, dos
(dirigentes públicos e privados da área do turismo) é
destinos e dos próprios turistas. Em relação às populações que
sensibilizá-la, conscientizá-la, comprometê-la e mobilizá-la na
vivem em tais áreas, o desafio consiste em utilizar os recursos
construção de um modelo de turismo ambiental, econômico,
pedagógico-sociais necessários para o florescimento de uma
social, cultural e politicamente sustentável.
cultura da hospitalidade, ou seja, uma maneira de ver, viver e
Sustentabilidade ambiental, que se traduza no compromisso de
conviver com os visitantes que seja presidida pelos valores da
cada geração legar às gerações vindouras um meio ambiente
acolhida, do respeito às diferenças, da cordialidade no trato, da
igual ou melhor do que aquele recebido das gerações anteriores.
ética nas transações comerciais, do respeito ao ambiente e aos
Sustentabilidade econômica, que se mostre eficiente e eficaz na
costumes de cada um. É da circulação desses significados nas
geração de trabalho e renda em quantidade suficiente para
relações humanas, sociais e profissionais que nasce a ambiência
incorporar uma parte importante do contingente de jovens, que
propícia ao desenvolvimento sustentável da atividade turística.
todos os anos demandam da nossa economia oportunidades de
O Instituto Souza Cruz ingressa no campo da Educação
ingresso na esfera produtiva.
para o Turismo como uma organização com causa, ou seja, uma
Sustentabilidade social capaz de assegurar condições de saúde e
instituição que pretende advogar ética, política e socialmente os
educação básica e profissional para as novas gerações, de modo a
pontos de vista e os interesses de todos os que atuam nesta área
produzir jovens aptos a aproveitar plenamente as oportunidades
comprometidos com a perspectiva do desenvolvimento sustentável.
abertas no front econômico.
Em razão deste compromisso, o Instituto tem atuado na
Sustentabilidade cultural enquanto compromisso de cada
mobilização de pessoas, grupos e instituições cuja atuação possa
geração, não só de manter, mas de enriquecer e desenvolver o
resultar em ações criativas, críticas, construtivas e – acima de
legado cultural das gerações passadas, acrescentando a ele o
tudo – solidárias com o ideal de desenvolver o turismo no Brasil
contributo de seu próprio tempo.
no marco das cinco sustentabilidades aqui elencadas.
Sustentabilidade política entendida como continuidade das
Para concretizar e expressar esse compromisso assumido em sua
políticas em horizontes temporais, que extrapolem o curto prazo
missão institucional, a estratégia educacional do Instituto
dos mandatos políticos. Para isso, é necessário que as políticas
Souza Cruz compreende o apoio ao desenvolvimento de ações
públicas sejam formuladas com a participação das forças vivas
no terreno (programas de atenção direta), que, depois de
da sociedade e implementadas de forma transparente e aberta
devidamente acompanhadas e avaliadas, deverão ter seus
ao controle dos cidadãos individualmente ou por meio de suas
conceitos e práticas sistematizados e divulgados, de modo a
organizações representativas.
gerar novas iniciativas e melhorar as já existentes. Tais ações
O objetivo educacional junto à comunidade que estuda a
— além de marcar diferença e gerar impactos significativos em
educação para o turismo no marco do desenvolvimento sustentável
seus destinatários — deverão mostrar-se capazes de agregar
no Brasil em universidades, agências formadoras e centros de
valor à causa da educação para o turismo no marco do
pesquisa é envolvê-la e comprometê-la, não só com a imprescindível
desenvolvimento local integrado e sustentável.
8
problematização desta realidade, mas com a produção de soluções
viáveis para os impasses e dificuldades que se apresentam no dia-a-
Antonio Carlos Gomes da Costa
dia dos dirigentes, técnicos e pessoal operativo que atuam na área.
Pedagogo, consultor, diretor-presidente da Modus Faciendi
7
FOTOS ADI LEITE
A economia
do turismo
no Brasil
Beatriz Helena Gelas Lage*
A
ciência econômica é árida, cheia de números, estatísticas,
projeções e modelos, mas pode ser compreendida de forma simples,
clara e inteligente por todos nós. A economia aplicada ao turismo
é a maior prova disso. E o Brasil é um excelente caso de estudo.
Apresentação
A economia do turismo é estudo obrigatório na educação
do turismo. No mercado turístico o ato econômico é
intensamente praticado e, ao nosso redor, tudo gira por
causa dele. O ensaio apresentado deve servir para que os
leitores, nem sempre economistas, mas com certeza
consumidores e/ou produtores de turismo, reflitam sobre
a grandeza do processo econômico que o turismo
representa junto aos agentes envolvidos, destacando um
alerta na avaliação real de seus efeitos e sugerindo
8
responsabilidade planejada em futuras ações com
necessidades ilimitadas; e, pela oferta, atendem a interesses de
prioridade nos recursos humanos para alcance do
lucratividade. É absolutamente natural, saudável, fortifica o
almejado desenvolvimento sustentável.
bem-estar das populações e gera muita riqueza para o País ou
região que a explora devidamente.
1. Visão geral da economia do turismo
Na atualidade, em termos domésticos, a atividade global do
A evolução histórica do que hoje se chama de turismo acompanha
US$ 60 bilhões (WTTC — Conselho Mundial de Viagens e
a humanidade desde os seus primórdios. Seja na busca de
Turismo) com reflexo em todos os setores econômicos,
alimentos, condições climáticas, curiosidade, cultura, lazer,
abrangendo atividades diretas e indiretas, com perspectivas de
interesses comerciais e outros, o deslocamento humano sempre
expansão. É um mercado fantástico de 11 mil agentes de
ocorreu em todas as partes do globo terrestre, e continua
viagens, incluindo os corporativos, 600 operadoras turísticas
acontecendo com nova exterioridade na sociedade capitalista
com mais de 50 fornecedores de transporte aéreo, 2 mil
moderna. No passado e no presente dessa atividade temporária,
locadoras e 18 mil meios de hospedagem, considerando 6 mil
mesmo sem saber, seus atores estão sempre atuando direta e
hotéis, 2 mil pousadas e 10 mil flats (base: 2001).
indiretamente na economia, assumida como o estudo de como
Mas para tudo sempre existe um preço. Aliás, preço é uma
os homens decidem empregar recursos escassos para
palavra mágica na economia e, em qualquer circunstância, todo
satisfazerem às suas necessidades ilimitadas.
turismo só é produzido, e conseqüentemente consumido, mediante
Associada a tal definição, convencionou-se chamar de turismo
um valor econômico, sujeito a restrição orçamentária. O segredo
essa manifestação de necessidades, primárias e secundárias, o que
está em descobrir quanto isso representa de forma que as empresas
nos parece na atualidade bem impróprio já que seu entendimento
(privadas e públicas) sejam devidamente remuneradas e as
ligado aos negócios deixou de ser apenas algo associado a
pessoas envolvidas (turistas, comunidade) possam ser
divertimento, lazer e férias. O nome fica em aberto para as novas
atendidas em seus intermináveis anseios e necessidades.
gerações decidirem como definir essa grandiosa atividade
Aliás, a prática atual brasileira acabou com o sonho de
econômica, que mundialmente é representativa de uma riqueza
empresas com margens gordas de lucro e inchadas de
infinita, dimensionada em milhões de viajantes e trilhões de
pessoal. A fase de que “os custos definem o preços”
dólares, segundo fontes oficiais.
terminou. Hoje é o público consumidor quem define o que
Enfim, no momento que os homens produzem e consomem tipos
quer, quanto pode pagar pela sua renda (poder
diferentes de viagens com igualmente distintos: pacotes turísticos,
aquisitivo), indiretamente estabelece os custos das
agenciamentos, hospedagens, transportes, alimentação,
empresas de turismo e, conseqüentemente, os preços dos
entretenimentos e outros elementos, há a formação de uma cadeia
produtos de bens e serviços turísticos.
gigante de inúmeras variáveis associadas a um sistema global
Observa-se que esses preços são igualmente diversificados em
que, de um lado, maximiza objetivos empresariais, e por
função de períodos sazonais, férias, câmbio, política, modismo e
outro atende a satisfações humanas. Esse volume de
outras variáveis. Mesmo em países industrializados como a
interesses heterogêneos é chamado de economia do turismo,
França, a número 1 nos fluxos de visitantes, os preços no turismo
que ramificada em micro e macroeconomia faz parte do
sofrem alterações em situações diversas, como o exemplo mais
estudo da ciência econômica.
recente, em 2001, com a conversão da moeda francesa para o
Tudo está ligado à economia do turismo. Mesmo segmentadas,
euro, quando o setor hoteleiro sofreu um aumento inflacionário de
todas as viagens motivadas por públicos diferenciados têm
5,1% e o setor alimentício de 3,5%, enquanto para o conjunto de
fundamentação econômica – pela demanda, satisfazem a
todas atividades econômicas a inflação anual do país foi de 1,4%.
9
t
turismo brasileiro apresenta uma produtividade de quase
2. Impactos econômicos e turismo
na sociedade moderna
perda de bens essenciais, únicos e em extinção. Temos exemplos
dessa natureza em muitas regiões brasileiras (Amazônia,
Pantanal, Nordeste) e, como cada vez mais isso vem
Temos que ser conscientes. É ingênua a visão de turismo, numa
acontecendo, obriga-nos a manter cautela e conscientização das
economia como a brasileira que produz e que consome esse volume
autoridades responsáveis sobre o futuro da economia do turismo
de negócios, sem causar mal de qualquer espécie. O próprio
que, antes de tudo, deve incorporar uma imprescindível
movimento do turismo, no Brasil e no mundo, é afetado em razão
legislação específica para cada caso e em cada situação.
de diferentes situações (crises, por exemplo, energética, de
Mas quem pode ser responsabilizado por tudo isso? O turismo,
desvalorização do real com relação ao dólar, ataques terroristas,
normalmente mocinho e vilão, não pode ser culpado pela decisão
epidemias da dengue etc.). Vejam que em 2001 os deslocamentos
econômica. É o homem quem decide empregar seus recursos e resolver
mundiais registraram um declínio de 1,3% e o número de
os problemas econômicos vitais de “para quem, como e o que
chegadas internacionais representou um volume de 688,5 milhões
produzir”. É também problema permanente da raça humana
(Organização Mundial de Turismo), fato inédito na história
decidir a forma pela qual a sociedade realiza a tarefa de organizar
do turismo, derivado do atentado terrorista nos Estados Unidos.
suas atividades de consumo, de produção e distribuição.
Quando uma atividade econômica gera um novo produto, por
Sem dúvida é a economia do turismo, tratando da vida real que nos
exemplo, um complexo turístico, um resort ou um parque
envolve, quem deve examinar a parte da atividade socioeconômica e
temático, é evidente que os impactos são bilaterais. Normalmente
promover as condições do bem estar das populações na tentativa de
os estudos econômicos apontam diversos aspectos positivos como a
corrigir os desvios, pesando os custos e benefícios que cada atuação
possibilidade de emprego, a geração de renda, o aumento
pode ocasionar. É óbvio que “ninguém faz uma omelete sem quebrar
de divisas, o combate à pobreza, o efeito multiplicador
o ovo”, mas é preciso saber como isso deve ser feito.
(por vezes “uma faca de dois gumes”, quando o turismo
O estudo da economia do turismo é altamente significativo
requer de importação), a ampliação da infra-estrutura, a
porque possibilita uma visão ampla em todos seus aspectos de
criação dos serviços e comércio, além de outras variáveis
maneira que possamos ter conhecimento da importância de
que, no caso do Brasil, atuam de forma completamente
que, quando recursos escassos são destruídos, mesmo para o
diferente de região para região.
bem-estar social, como quando “uma árvore é derrubada
Mas nem sempre os efeitos negativos são alertados. Os transtornos
para que seja construído um resort”, estejamos atentos para
para a população, a poluição ambiental e sonora, a ausência de
que novos outros recursos sejam criados.
legislação específica, a infra-estrutura inadequada, o excessivo uso
É dever humano a preocupação para com os recursos escassos e, hoje
de água (piscinas, fontes e banhos), o acúmulo do lixo (produtos
mais do que nunca, com o avanço tecnológico inexistente nos
químicos, detritos), a prostituição, a violência, o congestionamento
conceitos de Adam Smith, a prática do turismo é inconcebível sem
(ônibus, carros), a ausência de alimentos, as enormes filas
a conscientização social, do planejamento, do desenvolvimento
(teatros, museus, restaurantes) etc. Em termos econômicos, ainda
sustentável e da avaliação econômica dos impactos ambientais,
deve-se acrescer a inflação, as variações cambiais, os altos impostos
culturais, políticos e outros efeitos derivados da prática moderna.
e taxações que inibem atividades importantes como o turismo
Está na mão do homem a prática da economia do turismo, e só ele
marítimo brasileiro (viagem não mais exclusiva de rico) que, na
pode estabelecer prioridades nas decisões de uso dos meios
última temporada chegou a transportar 170 mil passageiros por
empregados para atender ao bem-estar de todos. Lembrando o
7,5 mil quilômetros do litoral e 32,5 mil quilômetros de vias
paradoxo da parcimônia da economia, “nem sempre o que é bom
navegáveis internas, bem como a necessidade de importação, a
para um atende aos interesses de todos” e, no caso, também são os
especulação imobiliária, os riscos de investimentos, a deterioração e a
homens que devem ponderar sobre o poder dessa decisão.
10
Para cada qual, um modelo especial em acordo com as
de-obra, e mais próxima ao padrão do turismo na França, onde
características que melhor se adaptem às especificidades
é responsável por 10% do número de empregos gerados no país.
socioeconômicas da terra, do povo, da cultura e da política. O caso
Vemos com otimismo, inclusive, o panorama de captação cada vez
brasileiro é um exemplo de modelo onde poucos detêm muita
maior do número de especialistas brasileiros ocupando atividades
riqueza e muitos, a maioria da pobreza, senão a miséria.
de trabalho onde, no passado, só estrangeiros eram selecionados.
Segundo o “World Development Report 2000/2001”, afirmamos
Centros de exposições, de convenções e eventos em várias
que a renda per capita do brasileiro é de US$ 4.420. Poderíamos
localidades (não só em grandes centros urbanos, mas
até, com alegria, julgar que na média a situação brasileira vai
também em regiões de diversidades potencialmente
bem. Isso não é verdade. A mesma fonte divulga o índice Gini
ambientais no Centro-Oeste) vêm ocupando um espaço
que mede a concentração de renda e, no Brasil, este indicador é
destinado para a realização de grandes negócios e,
de 60%, só perdendo para Serra Leoa (62%), revelando um
conseqüentemente, envolvendo mais e mais empregados.
quadro injusto onde 1% dos ricos consomem mais do que a
Mesmo com dificuldade e tanto para ser feito, a mão-de-obra do
metade da população brasileira. Sem dúvida, as viagens estão
mercado turístico começa a se qualificar valendo-se da educação
longe do sonho desse segmento social, mas sempre devemos ter
com cursos de capacitação e especialização profissional, estímulos
esperança de que a economia do turismo venha a ajudar a
de miniempreendimentos dirigidos ao meio rural, programas de
classe menos favorecida em termos de emprego e renda,
proteção da natureza, especialmente com a participação da
privilegiada também pela riqueza natural, cultural,
mentalidade jovem e de outras iniciativas mantidas por
patrimonial e pródiga em atrativos turísticos. Os empregados
entidades éticas e conscientes que começam a despontar, dando
no turismo hoje representam 6% da população economicamente
mostras de um esforço que permite vislumbrar a projeção da
ativa (PEA), ou seja, aproximadamente 9 milhões de sua mão-
indústria do turismo como uma luz pequenina brilhando no
fundo de um túnel comprido.
3. Desenvolvimento econômico e indicadores
de qualidade do turismo no Brasil
“Vemos, inclusive,
O conjunto das medidas anteriormente mencionadas deve
com otimismo o
caminhar para o desenvolvimento econômico do turismo,
panorama de
entendido como o aumento contínuo do produto nacional,
captação cada vez
turística, além da melhoria da qualidade de vida da população
incorporando bens e serviços relacionados com a atividade
maior do número
brasileira ao longo do tempo.
de especialistas
receptiva internacional aquém da desejada, com a chegada de
Esse desenvolvimento no Brasil, com uma demanda turística
brasileiros ocupando atividades de
menos de 5 milhões de estrangeiros, muitas vezes revelando
trabalho, onde, no passado, só
para a prática de um turismo equilibrado onde os poucos, mas
que detêm o poder econômico, devem necessariamente com o
governo contribuir para que sejam criadas condições econômicas
de indicadores de qualidade (escolas, moradias, hospitais,
t
estrangeiros eram selecionados”
exclusivamente um crescimento quantitativo, deve estar voltado
11
saneamento, aeroportos, transporte) que atendam antes de tudo
a maioria das pessoas e os seus interesses vitais.
Temos ainda um longo percurso ao compararmos nossa economia
com a dos países desenvolvidos. Riqueza sabemos que temos, mas
infelizmente as condições de formação estrutural, histórica e
outras de natureza exógena criaram um panorama difícil de ser
consertado em curto prazo. Nem por isso devemos desistir dessa
riqueza, que necessita lapidação por uma geração consciente,
capaz e que deve cuidar do futuro.
O conceito de riqueza é, na verdade, a formação do produto
nacional do País (PIB com ressalvas) e esse agregado
macroeconômico no Brasil é da ordem de US$ 750 bilhões,
representando 42% da totalidade da América Latina (2002).
A participação da economia do turismo nesse quadro reflete um
envolvimento direto e indireto de 8%, ou seja, os produtos criados
e consumidos representam aproximadamente US$ 60 bilhões,
“Esse crescimento e desenvolvimento
num país colocado mundialmente em 9o lugar de poder de
econômico sobreposto ao turismo deve sempre
compra. Valor este relativamente comparado a muitos países
industriais de primeiro plano como França, Estados Unidos,
Itália e Espanha – líderes receptivos da economia do turismo no
mundo –, e dos principais emissivos como Alemanha e Japão,
mas que têm uma existência histórica, bem como um tipo de
ser fundamentado em quatro grandes
pilares: recursos humanos, recursos
naturais, capital e tecnologia”
turismo e uma população distintos da nossa.
É incrível mas tanto um país rico como um país pobre podem se
país, para cada um é assumida uma fórmula de eficiência ideal.
beneficiar do turismo. Antes de tudo, é preciso se valer do
Visando sempre o desenvolvimento sustentável, as ações
conhecimento econômico e, compreendendo a base dessa
futuras no turismo brasileiro devem observar um cuidadoso
complexidade aplicada ao caso brasileiro, que apresenta
planejamento com base nos quatro fatores:
inúmeras possibilidades de modelos econômicos, definir sobre a
a) Recursos Humanos (RH) – Correspondendo à quantidade
gestão dos recursos limitados, escolhendo quais fatores de
de empregados e à qualificação da força de trabalho. É o
produção (terra, capital, trabalho e tecnologia) serão utilizados
elemento que mais pesa no crescimento e desenvolvimento
para produzir os bens e serviços turísticos que mais atendam aos
econômico do turismo. Os bens de capital, a tecnologia e outros
interesses do perfil de nossa população e dos agentes econômicos
fatores só podem ser mantidos por mão-de-obra qualificada e
envolvidos, com especial atenção na comunidade receptora de
treinada, e a produtividade dessa área só é favorecida com
fluxos turísticos e em todas as demais pessoas (físicas, jurídicas)
educação adequada em todos os níveis.
que circundam o grandioso sistema, em nível público e privado.
b) Recursos Naturais (RN) – Equivalendo ao meio
Em particular, esse crescimento e desenvolvimento econômico
ambiente, os recursos naturais e artificiais, como terra (solo),
sobreposto ao turismo deve sempre ser fundamentado em quatro
petróleo, gás, recursos minerais, patrimônio, clima, florestas e
grandes pilares: recursos humanos, recursos naturais, capital e
água. Essenciais no turismo de grande parte do verde
tecnologia. Como esses fatores podem ser diferentes de país para
brasileiro, pólos turísticos urbanos da região sudeste também
12
podem prosperar significativamente com base em setores
homem na Terra. Se ele escolher aplicar recursos limitados na
dependentes do trabalho e capital.
capacitação do fator de mão-de-obra, é uma decisão econômica.
c) Capital (K) – Incluindo as estruturas de apoio ao turismo
A dificuldade é qual caminho seguir para o engrandecimento do
como vias de acesso, centrais elétricas, comunicação, fábricas,
turismo brasileiro. Qual a fórmula mágica da eficiência para a
computadores, componentes e equipamentos similares. Para a
economia do turismo em nosso País?
economia da atividade turística, acrescentaria também os
Sem dúvida, pelas condições territoriais extensas dos milhões de
investimentos chamados de infra-estruturas sociais, consistindo
quilômetros brasileiros, características da miscigenação
em planos de grande dimensão que precedem o comércio e o
populacional, biodiversidade de meio ambiente, modelo de
negócio. Normalmente são as estradas, os aeroportos, os portos, os
cultura e de civilização, devemos enfatizar uma preocupação
projetos de irrigação, abastecimento de água e medidas de saúde
fundamental com os recursos humanos, sem esquecer dos outros
pública necessárias na oferta turística de um pólo turístico,
fatores. São eles os responsáveis pelo futuro da economia do
avaliadas nos inventários turísticos.
turismo considerando prioridade na educação e cujos
d) Tecnologia (T) – Dependente da qualidade do conhecimento
resultados, assim esperamos, correspondam a ótimos frutos de
técnico e científico, necessita da competência de gestão.
uma incansável colheita.
Corresponde às alterações no processo de produção, bem como à
No plano universal mais elevado, é sempre o homem quem
introdução de inovações, produtos ou serviços. Dentre os exemplos
escolhe o seu destino por meio da economia, e no turismo isso
mais empregados ao desenvolvimento do turismo lembramos os
não é diferente. Somente o ser humano tem condições de
meios de altíssima comunicação, os microcelulares e componentes,
decidir o que fazer com os recursos naturais, a formação de seu
os minicomputadores, os modernos navios (resorts flutuantes), as
capital e o direcionamento de seu progresso tecnológico e
aeronaves de nova geração e uma infinidade de aperfeiçoamentos
inovador para as atividades econômicas do setor turístico, como
técnicos que produzem conforto, rapidez, especialização e
acontece no caso brasileiro. A “Riqueza das Nações” ressaltava
eficiência ao desenvolvimento das atividades turísticas.
o valor e a importância do trabalho humano e hoje, mais de
Mas no desenvolvimento precisamos lembrar que não podemos ter
dois séculos passados, continuamos confirmando seus princípios
tudo ao mesmo tempo. Em economia, pela escassez das condições, é
perfeitamente adequados à concepção do turismo moderno.
preciso priorizar os objetivos, atender aos benefícios das vantagens
Esperamos que nesse século XXI e no futuro o mesmo
comparativas e, gradativamente, com o crescimento equilibrado
homem que habita esse planeta e que convive com tudo que
regional, buscar grandezas na qualidade das propostas e políticas
aqui existe possa adequar sabiamente os recursos escassos
definidas para atingir o progresso do mercado turístico brasileiro.
disponíveis para satisfazer a suas infindáveis necessidades,
4. Mensagem final: o homem como
fator econômico do turismo
Teríamos muito a discutir sobre o assunto. Para tanto é
preciso continuar pesquisando, educando e conscientizando
as gerações sobre tema tão dinâmico, sujeito a tantas
variáveis incontroláveis. Finalizamos esta análise com uma
breve mensagem aos estudiosos do turismo, especialistas ou
não na economia do turismo.
Quer queiram ou não, tudo gira na economia, na vida do
especialmente de viagens e de turismo.
*
8
Beatriz Helena Gelas Lage é economista pela
Faculdade de Economia, Administração e
Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/
USP), professora doutora titular da Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
(ECA/USP), orientadora de programas de pósgraduação e coordenadora do Curso de
Especialização Economia do Turismo – MBA/USP da
Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
13
Turismo e
as eleições
de 2002
Silvio Barros*
A
cada ano de eleições o País tem a oportunidade de exercitar
No entanto, isso tudo é o processo político, e a articulação
uma ampla discussão sobre as necessidades básicas da
política não pode ser desconsiderada, as negociações
sociedade, bem como estabelecer um processo de avaliação de
partidárias, os interesses daqueles que detêm o patrimônio
propostas e programas, de idéias e projetos que a classe
do voto. Já assistimos de maneira clara, nestes últimos
política apresenta para conquistar a simpatia do eleitor.
meses, às conseqüências destes elementos no quadro
Talvez esta extraordinária oportunidade não esteja sendo
sucessório da Presidência da República e ainda vamos ver
plenamente aproveitada, mas sem dúvida percebe-se cada
muito mais até o término das eleições.
vez mais um envolvimento de diversas camadas da
Mas a pergunta é: o que tem o turismo a ver com isso e
sociedade brasileira nestas avaliações e particularmente
qual a ligação deste preâmbulo com a responsabilidade
procurando articular-se de forma a expressar suas
social?
cobranças e demandas junto à classe política.
É exatamente esta análise que um país com as
Pelo menos teoricamente, o resultado do processo eleitoral
potencialidades e a realidade que vivemos deveria fazer
deveria refletir na escolha daqueles candidatos que
cada vez com maior profundidade.
apresentaram as propostas mais convergentes com os anseios
Quais são efetivamente os grandes desafios que o Brasil
e necessidades da população. Aí está o marco referencial de
precisa vencer, que deverão ser a base das demandas da
uma sociedade madura e consciente.
população e deveriam estar refletidos nos programas de
Na verdade, quanto mais se materialize esta situação,
governo dos candidatos nas próximas eleições?
mais encorajados estarão os candidatos que efetivamente
l
Geração de oportunidades de trabalho.
têm consistência, propostas, compromisso e disposição de
l
Redução das desigualdades sociais e melhor distribuição
emprestar quatro anos de suas vidas ao serviço da
de renda.
comunidade.
l
14
Erradicação da pobreza.
FOTOS HELCIO NAGA
l
Investimento em saúde, educação, segurança e meio
ambiente.
l
Aumento das exportações para enfrentar a globalização.
É claro que existem muitas outras demandas; no entanto,
estas provavelmente são as mais importantes e vamos sobre
elas fazer nosso exercício de avaliação.
Turismo e geração de
oportunidades de trabalho
O turismo, embora seja uma atividade essencialmente
privada e que se desenvolve primordialmente onde existem
atrativos, sejam naturais ou culturais, precisa de suporte
público e governamental, num ambiente estável e saudável
para poder produzir seus melhores resultados. É também,
segundo o WTTC — Conselho Mundial de Viagens e
Turismo, a atividade que mais gera empregos em todo o
planeta.
Certamente a maior pressão sobre os candidatos será no
sentido de apresentarem fórmulas mágicas para a geração
de empregos, e não há dúvida também de que é
exatamente isso que eles vão prometer nos palanques e nos
programas de televisão. Ocorre no entanto que os políticos
estarão prometendo empregos que devem ser gerados pelo
setor privado, e surge aí a primeira grande oportunidade
empresários e dos políticos.
t
de convergência entre os interesses da sociedade, dos
“O turismo, embora seja uma atividade
essencialmente privada, precisa de
suporte público e governamental, num
ambiente estável e saudável”
15
Hoje, isoladamente, este setor representa 3,4% do PIB
nacional, mas se considerarmos o impacto total desta
indústria na economia brasileira, os números são muito
mais expressivos e vamos a 7,4%, muito abaixo porém da
média mundial, que está na casa dos 11%. A economia de
viagens e turismo representa não apenas os empregos e o
faturamento dos hotéis, agências, operadoras,
transportadores, parques temáticos, entretenimento;
segundo o WTTC, o que precisamos efetivamente medir é
a permeabilidade do nosso negócio e sua influência num
contexto maior. Precisamos contabilizar os investimentos de
capital, feitos na construção dos empreendimentos
turísticos e na própria infra-estrutura pública que serve ao
setor, desde os hotéis até os aeroportos. Precisamos computar
quanto do faturamento e das oportunidades de trabalho
da indústria de combustíveis ou de telecomunicações, por
exemplo, são diretamente relacionados com as viagens e o
turismo. Na verdade, são 52 setores da atividade
econômica que têm interdependência maior ou menor com
este setor. Por exemplo, durante o período em que centenas
de operários estão trabalhando na construção de um hotel,
estes empregos foram viabilizados na construção civil
graças ao negócio do turismo.
Turismo e a redução das
desigualdades sociais
Este tema pode ser abordado de diversos ângulos, mas
“O turismo é verticalmente um grande
vamos analisar a questão relacionada com as diferenças
distribuidor de renda na medida em que
existentes dentro do nosso País, com regiões muito ricas,
integra os grandes negócios ao artesão,
equiparadas às mais desenvolvidas do mundo, e regiões
muito pobres, com Índice de Desenvolvimento Humano
ao jangadeiro e ao vendedor de coco”
(IDH) comparável ao das mais pobres do planeta.
Felizmente, muitos dos principais destinos turísticos do
distribuidor de renda na medida em que integra, na sua
Brasil estão localizados em regiões mais pobres, porém
cadeia produtiva, desde os grandes negócios de capital intensivo,
exercendo um enorme poder de atratividade sobre os
como transportes e hospedagem, atingindo e beneficiando o
cidadãos dos grandes centros, que têm poder aquisitivo
artesão, o jangadeiro, o vendedor de coco na praia.
para fazer turismo distribuindo geograficamente a renda.
Numa cidade onde o turismo seja intenso e borbulhante, fica
Num outro sentido, o turismo é verticalmente um grande
evidenciado que todos ganham, direta ou indiretamente.
16
“...a posição do turismo como ferramenta
de combate à pobreza certamente deveria
estar priorizada nos planos de governo, com
apoio da classe acadêmica do turismo... ”
Não há dúvidas de que se trata de uma atividade que
promove a integração cultural, a valorização econômica
das tradições culturais, a preservação do patrimônio
natural e fortalece o espírito patriótico.
Turismo e erradicação da pobreza
Na verdade, este foi o tema de um evento da Organização
Mundial de Turismo (OMT), que o Brasil sediou em
Natal recentemente. Estudos cada vez mais conclusivos
estão sendo feitos por diversas organizações multilaterais,
entre as quais o próprio Banco Mundial, constatando que a
única e eficaz forma de eliminação da pobreza é a geração
de riqueza.
Enormes investimentos têm sido feitos em ações corretivas,
compensatórias ou emergenciais; no entanto, serão sempre
paliativos.
Um país com as potencialidades ímpares que tem o Brasil,
formados e desejosos de contribuir com a construção de um
com vantagens competitivas extraordinárias no contexto
Brasil socialmente mais justo e economicamente mais rico.
turístico mundial, precisa apropriar-se desta oportunidade
Trata-se sim de um desafio, mas que pode ser vencido e
usando o que tem de melhor, que é sua gente alegre,
contará com o respaldo financeiro e institucional de
pacífica e hospitaleira e o fantástico patrimônio natural
inúmeras entidades e organizações nacionais e
que nos foi legado pelo Criador.
estrangeiras.
Como um setor altamente profissionalizado, é claro que
estes resultados não serão alcançados sem planejamento,
sem investimento e determinação, mas a posição
privilegiada do turismo como ferramenta de combate à
Turismo e investimentos públicos: saúde,
educação, segurança e meio ambiente
Estabelecer esta relação pode parecer um pouco mais difícil,
nos planos de governo, buscando o apoio e o envolvimento
no entanto, ela é bastante lógica. Como sempre disse o
da classe acadêmica do turismo, que hoje representa um
grande urbanista e planejador Jaime Lerner, uma cidade
expressivo contingente de profissionais capacitados,
só pode ser boa para o turista se primeiro for boa para quem
t
pobreza e à miséria certamente deveria estar priorizada
17
vive nela. Isso é uma verdade inquestionável e por si só
estabelece a relação do setor com os investimentos públicos.
A prova mais concreta desta relação pode ser testemunhada
em programas como o Prodetur Nordeste, que investiu nos
últimos anos centenas de milhões de dólares provenientes do
Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e dos
governos federal e estaduais no Nordeste, em saneamento,
estradas, aeroportos, segurança, planejamento urbano,
preservação ambiental, enfim, possibilitou investimentos
públicos alavancados na viabilização dos investimentos
privados que geraram empregos e arrecadarão os tributos
necessários para pagar os financiamentos.
O modelo foi bem sucedido e desencadeou programas
semelhantes, como o Proecotur na Amazônia, o BidPantanal, o Prodetur Sul, e já foi firmado o contrato do
Prodetur II para o Nordeste com mais US$ 400 milhões.
Independentemente destes programas, que estão
localizados em regiões específicas, centenas de prefeituras
espalhadas em todo o Brasil já se aperceberam dos
benefícios que o turismo pode trazer para a arrecadação
municipal e têm feito investimentos infra-estruturais
importantes, que vão desde urbanização e acessos a até
mesmo construção de centros de convenções, importante
equipamento alavancador da economia local.
Para que possam ter recursos para investimentos em educação,
saúde e segurança, é preciso que a economia das cidades esteja
fortalecida, e o turismo como arrecadador de impostos,
primordialmente, tem tido um papel preponderante, para o
qual cada vez mais a sociedade e os políticos estão atentos.
Turismo: aumento das exportações
e o desafio da globalização
O turismo já nasceu como atividade globalizada. Neste
sentido tem experiência para compartilhar. A
competitividade entre os destinos já vem ensinando os
empresários do setor a estabelecer preços e padrões de
qualidade competitivos. Um segmento que é responsável por
18
Executivo para que possam ser implementadas e, mais uma
“Não podem os empresários do setor
vez, nos deparamos com a convergência, pelo menos teórica,
de turismo esquecer de que o cenário
dos interesses, sociais, empresariais e políticos.
onde suas empresas estão atuando tem
entre o turismo e a política, pode-se perceber a relevância
Em síntese, abordando apenas alguns aspectos da relação
impactos diretos na capacidade de obter
que tem o assunto dentro do contexto atual dos desafios que
retorno dos seus investimentos”
amplas discussões durante a campanha eleitoral.
estão à frente da sociedade brasileira e que serão alvo de
Não podem os empresários do turismo esquecer de que o
cenário onde suas empresas estão atuando tem impactos
extraordinárias contribuições para ingresso de divisas em
diretos na capacidade de obter retorno dos seus
outros países, no Brasil, porém, sequer é tratado como
investimentos. Onde há poluição de praias, lixo na rua,
segmento exportador.
falta de segurança, promoção incipiente ou inexistente, com
A estrutura de incentivo à exportação no Brasil não está
certeza não haverá turistas para justificar o retorno do
adaptada para beneficiar o turismo. Estruturalmente, os
capital. Estas circunstâncias na realidade estão fora da
benefícios fiscais e financeiros voltados à exportação se
governabilidade e do controle do empresário e de seu
baseiam no conceito de que o produto é móvel e o mercado
empreendimento, mas estão diretamente relacionadas com
consumidor é fixo, mas no turismo o produto é fixo e quem
o que vulgarmente chamamos de vontade política.
se move é o consumidor. Os bilhões de dólares que
Esta relação de interdependência justifica perfeitamente o
anualmente ingressam no País provenientes dos viajantes
desenvolvimento por parte do setor turístico de uma
estrangeiros que visitam o Brasil não recebem o tratamento
estratégia madura e consistente de participação e
de exportação mas produzem efetivamente os resultados
envolvimento no processo político, nas eleições de 2002 e nas
econômicos tão desejáveis para o País.
outras que virão. Aliás, o que não se justifica de forma
Dentro do espírito de corrigir tais distorções, o Ministério
alguma é a omissão e a alienação deste processo com
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC)
cobranças futuras por esta mesma vontade política, tão
instituiu recentemente o Fórum de Competitividade do
imprescindível para a sustentabilidade dos negócios e
Turismo e considerou o setor como estratégico para o
empreendimentos turísticos.
aumento das exportações brasileiras. O objetivo do Fórum é
Todos estes elementos conformam um quadro bastante
identificar os gargalos e os entraves que impedem ou
abrangente de RESPONSABILIDADE SOCIAL dos
dificultam o setor de impulsionar sua contribuição positiva
políticos, dos empresários e dos cidadãos que deverão estar
na balança comercial brasileira. Simultaneamente, o setor
amplamente refletidos nos programas de governo que cada
empresarial do turismo está desenvolvendo com a parceria
partido apresentará para a análise e a aprovação dos
da Embratur — Instituto Brasileiro de Turismo um estudo
eleitores brasileiros, em suma, responsáveis pela escolha dos
sobre o assunto que apresentará ao governo sugestões e
rumos que definirão o futuro do nosso País.
8
propostas de ajustes na contabilidade oficial e na política de
incentivos à exportação que possam alavancar o viés
exportador do turismo. Tudo isso, no entanto, exigirá
instrumentalização legislativa e vontade política do
*
Silvio Barros é diretor para a América Latina do
WTTC – Conselho Mundial de Viagens e Turismo
19
FOTOS ELCIO CARRIÇO
Planejamento
integrado e
sustentabilidade
do turismo
Carmélia Anna Amaral*
O
progresso humano passou a exigir instrumentos para sua
Uma marca das sociedades modernas é a ampliação do
viabilização, levando o homem a exercitar sua inteligência
tempo livre, que provoca o desenvolvimento das atividades
para criar e estabelecer inter-relações que se tornam
de lazer, conseqüentemente do turismo. Isso cria a
cada vez mais complexas. Essa complexidade exige
necessidade de essa atividade ser inserida numa ação de
ordenamento, desenvolvimento e resultados. Para alcançar
planejamento.
tal objetivo, cria-se então o planejamento, que tem a
Planejamento é, sem dúvida, o meio correto para
racionalidade como seu elemento regulador.
consecução do desenvolvimento turístico. Com as
Segundo Muñoz Amato, o planejamento é a formulação
transformações ocorridas a partir do pós-guerra, as noções
sistemática de um conjunto de decisões, devidamente
de desenvolvimento no âmbito de quaisquer atividades vêm
integrado, que expressa os propósitos de uma empresa e
redefinindo os parâmetros do planejamento, visando a um
condiciona os meios de alcançá-los. O planejamento é,
desenvolvimento sustentável.
portanto, um processo dinâmico que deve desenvolver-se em
O caminho para o turismo sustentável e integrado é o
bases científicas para que o seu acompanhamento seja
processo de planejamento, que permite analisar a realidade
correto e possibilite os ajustamentos necessários ao longo do
e estabelecer os meios que transformem essa realidade,
seu desenvolvimento.
atendendo aos seus interesses, às suas necessidades, bem
20
como às suas estruturas organizacionais.
O planejamento integrado do turismo começa a ser
reconhecido em nível institucional. A postura atual dos
governos é definir ações democráticas, parcerias com todos
os atores sociais do turismo, em que cada um desenvolve
suas competências, com vistas a um objetivo comum: o
desenvolvimento sustentável do turismo.
No Brasil, a aplicação de “modelos” de planejamento pelo
Estado, devido à sua estrutura administrativa complexa,
não conduziu o planejamento do turismo através de
diretrizes ou políticas básicas no sentido da ação
interinstitucional, da integração e da parceria.
Esses pressupostos, a partir da década de 1990, embora
presentes nos documentos publicados em relação ao
desenvolvimento do turismo, na prática operacional e nos
resultados, não são tão visíveis pois a representatividade do
turismo brasileiro no mercado mundial é modesta.
Nesse sentido, pretende-se comentar e analisar a estrutura,
as relações, as ações estratégicas que têm sido propostas pelo
setor público e pelo setor privado em relação à
sustentabilidade do turismo, pois uma estratégia de
desenvolvimento turístico perpassa pelo próprio
desenvolvimento proposto para os destinos, considerando aí
as dimensões do social, do ambiental, do cultural, do
econômico, do político e da identidade local, que envolvam
é a ampliação do tempo livre, que provoca o
desenvolvimento das atividades de
lazer, conseqüentemente do turismo.
Isso cria a necessidade de essa atividade ser
o turismo e tenham consenso nas propostas do
planejamento turístico.
Turismo e planejamento integrado
O planejamento integrado é uma atividade mais recente.
Adotado pelo setor público, objetivou a organização e gestão
inserida numa ação de planejamento, o
dos recursos disponíveis para a melhoria coletiva. Embora
meio correto para a consecução do
na prática e nos resultados, mostra falta de integração.
desenvolvimento turístico”
defina objetivos sociais e econômicos e deva ser abrangente,
Beni (2000), nos seus estudos, refere-se a um tipo de
planejamento para o turismo, o planejamento integrado,
dizendo que “é o planejamento em que todos os seus
componentes devem estar sincronizados e seqüencialmente
t
“Uma marca das sociedades modernas
21
ajustados a fim de produzir o alcance das metas e
diretrizes da área de atuação de cada um dos componentes
a um só tempo, para que o sistema global possa ser
implantado imediatamente e passar a ofertar
oportunidades de pronto acompanhamento, avaliação e
revisão.”
Nessa mesma linha, Boo (1995), considerando a expansão
do turismo e preocupada com os impactos que ele possa
causar, principalmente nas áreas naturais, refere-se à
necessidade de planejamento e gestão para que os destinos
turísticos tenham realmente organização, desenvolvimento
e sustentabilidade.
Para organizar e desenvolver o turismo, necessário se faz
envolver a comunidade no processo de planejamento, pois a
complexidade da produção turística exige o que referencia
Acerenza (1992) quando afirma que “la planificación
económica y social, por si misma no es, y no ha de actuar
como un proceso que restrinja o involucre en el a las otras
actividades tales con las de presupuesto, de personal, de
reforma administrativa, de estadísticas, etc... Establece las
metas globales del desarrollo con base en sus propios
elementos de juicio, y con los que otros sistemas le dan , y
fija así un marco de actuación lo más realista posible
dentro del cual se han de desenvolver de acuerdo con sus
propias concepciones e iniciativas”.
O turismo possui um mercado dinâmico exigindo um
planejamento integrado que reflita as necessidades da
comunidade receptora, seu envolvimento e participação nas
decisões da atividade turística.
Conforme assinala Swarbrooke (2000), o desenvolvimento
do turismo nos países emergentes ocorre com os seguintes
direcionamentos:
l
a maioria dos governos focaliza complexos turísticos em
desenvolvimento como “oásis” de desenvolvimento em
“desertos” de subdesenvolvimento;
l
o estímulo às grandes operadoras turísticas estrangeiras
e grandes empreendimentos para desenvolverem o turismo
às custas de pequenas empresas locais;
l
a centralização efetiva da política de turismo nas mãos
do governo;
l
o planejamento do turismo, aprovando projetos
inadequados por conta de influências e lobbies.
Isso resulta da falta de participação e de transparência
porque não se discute o turismo como um segmento
integrado aos diferentes aspectos do desenvolvimento. A
sustentabilidade e o desenvolvimento, tanto do turismo
“A postura atual dos governos é
quanto das diferentes atividades produtivas e sociais, só
ocorrerão se houver eqüidade, ética, equivalência de
definir ações democráticas, parcerias
oportunidades e de parcerias.
com todos os atores sociais do turismo,
O planejamento e gestão corretos do turismo devem estar
com vistas a um objetivo comum: o
pois esse é o paradigma da atualidade.
desenvolvimento sustentável do turismo”
22
integrados nas políticas sociais, econômicas e ambientais,
Daniel Corpus, da Asian Institute of Tourism, Filipinas, é
referenciado pela Organização Mundial do Turismo
(OMT), (1993), com um exemplo de planejamento
integrado do turismo, em que objetiva a conservação da
“O turismo possui um mercado
vida marinha através do programa Bantay Dagat
dinâmico exigindo um planejamento
(Guarda dos Mares), envolvendo ações de governo, de
empresas, de grupos cívicos e religiosos e da comunidade
integrado que reflita as necessidades da
em geral. Num país arquipélago com 7.100 ilhas, a
comunidade receptora, seu envolvimento
conservação marinha representa a sustentabilidade do
turismo.
e participação nas decisões da atividade”
Conforme observa Molina (1999):
“os esforços desenvolvidos para promover o
desenvolvimento sustentável do turismo requerem a
integração de políticas de diversos setores, a integração
horizontal entre os setores, a integração horizontal entre os
setores da administração central e a parceria entre as
diversas instâncias sociais, os governos nacionais, estaduais,
municipais e privados”.
Essas idéias foram também trabalhadas por Beni (1998)
acrescentando que:
l
“o planejamento integrado de turismo é um processo
muito complexo e difícil por duas razões: o envolvimento
inevitável do Estado, na determinação e execução dos
objetivos da política de turismo e a diversidade das ações
múltiplas e intersetorializadas que constituem a atividade
do turismo e a correspondente ação obrigatória do Estado
nestas interfaces”.
Por isso, acrescenta Swarbrooke (2000) que talvez a chave
do turismo sustentável consista em criar um clima de
opinião de consumidores e uma política de governo nas
quais as organizações possam competir na base de quem age
de forma mais sustentável.
Essas condições só serão possíveis se os atores sociais do
turismo, incluindo nessa relação a mídia, agirem de forma
integrada na implementação da atividade turística.
A mídia, um novo ator que se adota, pode colaborar para
uma reflexão sensata sobre a responsabilidade, direitos,
deveres, conservação e imagem de destinos e consumidores.
A Teoria Geral de Sistemas estudada por Beni oferece
idéias e subsídios para estabelecer as relações e a
integração dos elementos do planejamento e da
sustentabilidade do turismo.
Os estudos de Boullón e Molina, considerando os novos
paradigmas do turismo, analisam que governos de países
com diferentes níveis de desenvolvimento e de tendências
diversas procuram controlar as manifestações do turismo
para agregá-las, como benefícios, nos seus modelos de
desenvolvimento socioeconômico e político, encontrando
meios de canalizar tais benefícios para outros campos.
Nesse sentido é que se deve planejar o turismo considerando
os diversos componentes do desenvolvimento na estrutura do
mercado e do meio ambiente. O planejamento deve ser
desenvolvido como um processo sistemático, com objetivos
definidos, pesquisas e análises de todas as variáveis que
possam ser envolvidas. Isso porque o planejamento do
turismo ocorre em níveis diferentes, indo do macronacional/
23
t
l
regional ao micro local.
etc.), porque tudo isso é essencial ao turismo.
Embora haja diretrizes diferenciadas, os planos de turismo
No aspecto ambiental, o planejamento deve sinalizar para
local devem estar correlacionados no contexto dos planos
um novo contrato natural e social, contando com a
nacionais/regionais.
parceria de todos os atores sociais do turismo porque a
Considerando a sustentabilidade do turismo, não se podem
conservação do meio ambiente e dos seus recursos naturais é
omitir nos planejamentos os aspectos ético-políticos, pois,
a premissa básica da sustentabilidade do turismo.
para um processo democrático e participativo do turismo, os
A qualidade social e econômica dos centros receptores,
habitantes dos centros receptores devem se tornar parceiros
melhoradas pela educação, vai se refletir no processo de
dos governos, participando das ações para o
planejamento do turismo porque todos os objetivos são
desenvolvimento e, ao mesmo tempo, fiscalizando os gestores
integrados.
e legisladores.
A qualificação dos recursos humanos, desenvolvida por um
No aspecto social, a prioridade estratégica do planejamento
sistema de educação e formação como condição prioritária
é incluir e integrar os excluídos do processo, oferecendo-lhes
para a sustentabilidade do turismo.
oportunidades de capacitação para o que produzem
Em razão disso, Ruschmann (1997) afirma que o
(artesanato, bordados, doces etc.) e para defender e manter
planejamento de localidade turística exige uma série de
suas atividades (pesca, plantio, condução de transportes
ações e decisões que só serão bem sucedidas se empreendidas
dentro de um processo metodológico.
Amaral (1998) afirma que o turismo pode trazer um
nível de vida mais elevado para as comunidades receptoras.
Entretanto, isso tem custos, se não se desenvolver um
planejamento integrado, no qual os recursos naturais e
culturais estejam juntos, pois o ambiente tem as dimensões
biofísicas e socioculturais.
À guisa de conclusão
Nenhuma atividade prescinde de planejamento, pois ele
estabelece os cenários para o futuro. No turismo, o
planejamento cria condições favoráveis para o
desenvolvimento da atividade, apesar da complexidade da
sua estrutura e produção.
“A mídia, um novo ator que se adota,
O planejamento integrado facilitará a sustentabilidade do
turismo porque, quando se adota um modelo de
pode colaborar para uma reflexão
planejamento integrado do turismo:
sensata sobre a responsabilidade,
l
direitos, deveres, conservação e imagem
de destinos e consumidores”
24
o governo cumpre seu papel norteando a atividade
considerando sua função de normatizador, de articulador
da cooperação inter e intragovernamental, de fomentador,
de planejador e de viabilizador do processo de
desenvolvimento turístico;
“O empresário, considerando a
nova ética do desenvolvimento, poderá
regulamentar seu comportamento
no mercado e adotar práticas
sustentáveis nos negócios turísticos”
Referências bibliográficas
ACERENZA, Miguel Angel. Administración del turismo:
planificación y dirección.2. México; Trillas, 1992
AMARAL, Carmélia Anna. Ecoturismo e envolvimento comunitário.
In: VASCONCELOS, Fábio Perdigão. (org). Turismo e meio ambiente. Fortaleza UECE, 1998.
BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. São Paulo: Senac, 2000.
_____Política e estratégia do desenvolvimento regional – planejamento integrado e sustentável do turismo, 1998. Prova pública oral de erudição. ECA/USP.
BOO, Elizabeth. O planejamento ecoturístico para áreas protegidas.
In: LINDBERG, Kreg e HAWKINS, Donald E. Ecoturismo - um
guia para planejamento e gestão. São Paulo: Senac, 1995.
EMBRATUR. Política nacional de turismo. Brasília, 1996.
LAGE, Beatriz H.G. e MILONE, Paulo César (orgs). Turismo, teoria
e técnica. São Paulo: Atlas 2000.
l
MOLINA, Sergio. Turismo sin limites. México, 1999.
o empresário, considerando a nova ética do
OMT. Desenvolvimento de turismo sustentável. Manual para
desenvolvimento, poderá regulamentar seu próprio
organizadores locais. Brasília: Embratur, 1993.
comportamento no mercado e adotar práticas sustentáveis
RUSCHMANN, Doris. Turismo e planejamento sustentável - a pro-
nos negócios turísticos;
l
teção do meio ambiente. Campinas: Papirus, 1997.
SWARBROOKE, John. Setor público e cenários geográficos. São Pau-
a comunidade, identificando o turismo no planejamento
lo: Aleph, 2000
de governo local, pode indicar suas necessidades, participar
do planejamento, das decisões e fazer a implementação da
gestão e da avaliação do turismo;
l
as ONGs, como parceiras do processo, poderão contribuir
com informações, conhecimento e orientações.
Os componentes do turismo são inter-relacionados e não se
pode desenvolver a atividade corretamente senão de forma
integrada. Por isso, educação e participação comunitária
são a base para qualificar e requalificar o turismo.
8
*
Carmélia Anna Amaral é geógrafa (UFBA), pedagoga
(UCSAL), pós-graduada em Turismo (Cepom/Factur), mestra em
Geografia (UFBA). Professora da graduação e da pósgraduação da Faculdade de Turismo da Bahia (Factur) e
professora da Faculdade de Administração – Comércio Exterior
(Facex). Professora de cursos de pós-graduação da UnB e UA.
Consultora da Embratur e do Sebrae.
25
FOTOS ADI LEITE
Educação
em turismo
no Brasil
Marilia Gomes dos Reis Ansarah*
“ A pesquisa aplicada
em turismo visando ao
descobrimento de novos
conteúdos tem sido
relegada a segundo plano,
comprometendo a
evolução do setor”
26
Introdução
treinamento em todos os estágios do processo educativo.
Para que haja esse equilíbrio, é necessária uma definição
No início do século XXI, observa-se um aumento da
clara entre educação e treinamento.
demanda interessada em ingressar no ensino superior e
Na prática, educação e treinamento são interligados. O
uma grande diversificação de suas ofertas.
treinamento é adquirido no dia-a-dia, realizando estágio
Concomitantemente, há uma maior consciência sobre o
no mercado e/ou em aulas laboratoriais nas instituições de
desenvolvimento sustentável e uma preocupação para a
ensino, e é visto como essencial para a atuação no setor
construção do futuro diante do qual as novas gerações
turístico; ambos são importantes e devem ocorrer
deverão estar preparadas com novas habilitações,
paralelamente, pois se complementam.
conhecimentos e ideais.
Portanto, a educação baseia-se no desenvolvimento
A educação superior está sendo desafiada por oportunidades
intelectual do indivíduo e o treinamento é o processo de
novas relacionadas a tecnologias que têm melhorado os
desenvolver habilidades e eficiências por intermédio de
modos pelos quais o conhecimento pode ser produzido,
instruções — transmissão de conhecimento prático.
administrado, difundido, acessado e controlado. O acesso
Dado que o estudo em turismo tem amplas relações com as
eqüitativo a essas tecnologias deve ser garantido em todos os
outras ciências, algumas vezes os campos de estudo não
estágios dos sistemas de educação. O uso da tecnologia na
estão bem definidos, criando problemas semânticos e
educação em turismo é de fundamental importância para
algumas confusões conceituais. Muitas são as disciplinas
poder acompanhar a evolução do setor.
que tratam da questão do turismo e, temos que admitir,
No segmento do turismo, dado seu caráter de prestação de
ainda hoje o turismo não se constitui em um corpo de
serviços, a qualidade depende, quase sempre, da
conhecimentos independente, com dinâmica própria, mas
especialização e motivação do elemento humano do setor
está sujeito à influência de diferentes paradigmas, o que
para satisfazer o cliente, exigindo um processo de inovação
prejudica a formação de um corpo teórico específico.
constante.
A pesquisa aplicada em turismo visando ao
Na realidade, como o turismo é uma atividade de
desenvolvimento de novos conteúdos tem sido relegada a
utilização intensa de capital humano, só o ensino, e
segundo plano, comprometendo a evolução do setor. É
conseqüentemente a formação da mão-de-obra
fundamental a formatação de um programa educativo que
especializada, poderá responder aos desafios que o setor
agregue universidade, empresa e demais instituições
enfrenta e, em particular, às mudanças tecnológicas que o
envolvidas focando a inovação e o desenvolvimento do setor
mundo apresenta, apontando claramente para as
face à realidade local. A aplicação prática dos conteúdos e
“pluricompetências”, que respondem às exigências da
sua conseqüente evolução em termos conceituais é
competitividade.
ferramenta estratégica fundamental para o
A formação de recursos humanos no turismo deve se
preocupar com o equilíbrio entre a educação e o
Mas, dada a evolução tão rápida do setor e, até certo
ponto, a imaturidade no estudo do turismo, é aconselhável
que o docente não estabeleça as bases dos conteúdos
programáticos somente no conhecimento, pois este
t
Educação em turismo
aprimoramento do setor turístico.
27
permanece em constante mutação, mas também no espírito
crítico, na análise e no diagnóstico das situações. O mesmo
deve acontecer com os programas, os quais precisam ser bem
flexíveis, para permitir mudanças em um esquema de
módulos, ou seja, dar liberdade ao aluno e ao subordinado
de avançar progressivamente, segundo suas próprias
necessidades.
Do ponto de vista macro, os cursos deveriam dar aos
estudantes uma ampla visão multidisciplinar com
interfaces, possibilitando a interdisciplinaridade. Dessa
forma, o aluno, ao encerrar os estudos de turismo, estaria
preparado para enfrentar as atividades profissionais que
requerem dinamismo e múltiplos conhecimentos.
Outro ponto a se analisar é que a educação turística, dada
O perfil do bacharel em Turismo
e o mercado de trabalho
sua característica de prestação de serviços, deve basear-se
também em princípios empresariais. Os educadores devem
A área de atuação em turismo abrange empresas com
tomar contato com a realidade, a qual inclui práticas que
atividades de várias naturezas, como prestação de serviços,
deveriam ser habituais em sala de aula, como: preparar case
hospedagem, transportes, agenciamento, alimentação,
de estudo, efetuar convênios com empresas do setor, elaborar
entretenimento, eventos etc. A principal função é a de
projetos de pesquisa conjunta com outras disciplinas e/ou
proporcionar a satisfação dos desejos e necessidades dos
empresas com linguagem científica e de mercado, propiciar
turistas, obtendo um lucro, através da prestação de serviços,
programas de intercâmbios para estágios, entre outros.
como em qualquer outra atividade econômica. São tarefas
Outro fator preponderante na educação em turismo é o de
complexas que exigem a atuação de profissionais
propiciar ao aluno uma clara percepção da sociedade na qual
especializados, com conhecimento e formação para a área
o curso está inserido e do mercado em que irá atuar, assim
— os bacharéis em Turismo.
como a conscientização de sua responsabilidade social e
Para uma atuação eficaz nas empresas do setor, além da
política. O projeto pedagógico deve contemplar e preparar os
competência, o profissional precisará de determinação,
alunos para compreender a sociedade, fazendo-os refletir os
criatividade, visão, disposição para inovar, confiança em si
fatos e dados, condicionando-os a julgar e a intervir quando
mesmo e nas suas idéias, paciência e preparação
oportuno, de forma solidária, justa e democrática, utilizando
apropriada.
todas as “ferramentas” de comunicação e conteúdos culturais
A formação superior em turismo proporciona a
disponíveis. A instituição educacional também deve preparar o
oportunidade de profissionalização e especialização para
aluno para realizar-se profissionalmente, imbuído de um
atuação nos diversos segmentos do mercado.
espírito crítico e ético que lhe garantirá uma posição de
Para trabalhar na área de turismo, é indispensável que o
destaque na sociedade em que vive. Também é
profissional esteja preparado para servir, pois o sentido
responsabilidade das instituições de ensino proporcionar a base
principal da profissão é a prestação de serviços. Esta
para seus estudantes tornarem-se cidadãos bem informados e
atividade envolve um cuidado especial com o turista, a fim
motivados que procuram soluções para os problemas da
de que este seja tratado com respeito, dignidade, cortesia e
sociedade e aceitam suas responsabilidades sociais.
consideração.
28
Perfil do profissional
l
alimentação: restaurantes, fast food, cruzeiros
marítimos, parques temáticos, eventos e similares;
Para atender às tecnologias mais avançadas que deverão
l
ser aplicadas no mercado de turismo, o futuro bacharel
parques temáticos, eventos, empresas de entretenimento,
em Turismo terá que se preparar adequadamente. As
agências, cruzeiros marítimos, hotéis, colônias de férias;
principais características quanto ao perfil do
l
profissional, são:
e megaeventos, e também feiras, congressos, exposições de
l
aprender a aprender e ter uma ampla formação
cultural;
l
eventos: empresas organizadoras para atuação em mini
caráter regional, nacional e internacional ou similares;
l
ser criativo e inovador, pois enfrentará uma acirrada
lazer, com atividades de animação/recreação: clubes,
hospitalidade: atuação no núcleo turístico em atividades
de caráter hospitaleiro;
concorrência no mercado, ser o “melhor” e ter uma visão
l
global;
programas estabelecidos por uma política de turismo,
l
estar consciente da ênfase que se deve dar a um serviço
de qualidade e de que o cliente é a pessoa mais importante;
l
dominar perfeitamente todas as funções operacionais
do setor;
l
ser um líder em seu campo de atuação, com capacidade
para tomar decisões em todos os níveis;
l
ser um profissional com suficiente conhecimento teórico-
prático para satisfazer às necessidades da demanda;
l
possuir: capacidade de trabalho, espírito de participação
órgãos oficiais: atuação em planejamento e em
fomento, pesquisa e controle de atividades turísticas;
l
consultoria: atuação em pesquisa e/ou em planejamento
turístico;
l
marketing e vendas turísticas;
l
magistério: cursos de graduação, pós-graduação,
especialização, extensão, atualização e cursos livres;
l
publicação: empresas e/ou instituições de ensino para
atuação em editoração específica, escritor de textos para
jornais e revistas especializadas;
comunitária, conhecimentos tecnológicos atualizados,
l
profundos conhecimentos de relações públicas e
ecológico, social, infanto-juvenil, para idosos, deficientes
conhecimentos de vários idiomas.
físicos, de negócios, segmentos étnicos ou culturais em geral;
O bacharel em Turismo está descobrindo outras áreas além
dos segmentos tradicionais para atuação no mercado
específico, como as elencadas a seguir:
l
hospedagem: empresas relacionadas à acomodação em
geral e com diversas categorias (hotelaria, motéis,
camping, pousadas, albergues etc.), cassinos, shopping
l
pesquisa: centros de informação e documentação;
l
outros ramos de conhecimento humano: algumas áreas
novas, quando tomadas em uma dimensão mais ampla,
estão surgindo, como geração de banco de dados para o
“Para uma atuação eficaz nas empresas,
além da competência, o profissional
centers e, atualmente, o direcionamento para atuação em
precisará de determinação, criatividade,
hospitais;
visão, disposição para inovar,
l
transportes: aéreos, rodoviários, ferroviários e
aquaviários e demais modais de transportes;
l agenciamento:
em agências de viagens, operadoras,
t
Mercado de trabalho
especialização em mercado segmentado: turismo
confiança em si mesmo e nas suas idéias,
paciência e preparação apropriada”
representações (GSA e Consolidadores);
29
turismo, tradutor e intérprete dirigido para o setor,
A abertura indiscriminada de novos cursos superiores não
instituições culturais, informática aplicada ao turismo,
irá conseguir formar mão-de-obra capacitada. Uma
entre outras.
permanente melhoria da qualidade do ensino,
Uma força de trabalho preparada com profissionais
introduzindo campos de especialização, conduzirá a uma
especializados para atuarem correta e adequadamente no
eficiente preparação para atuação no mercado turístico.
mercado turístico aumentará a competitividade. Os países
O desequilíbrio existente na prestação dos serviços turísticos
emergentes e em desenvolvimento estão buscando formas
brasileiro é causado, por um lado, pela falta de qualificação
para atrair cada vez mais a demanda turística e para se
dos profissionais, e por outro, pela inadequação de proposta
tornarem receptores. Estes países estão desenvolvendo
pedagógica da maioria dos cursos superiores em Turismo e
estratégias competitivas de baixo custo, com diferenciação
Hotelaria, “desovando” novos profissionais a cada ano, que
de produtos, associadas a um programa para desenvolver e
não irão atender as reais necessidades do mercado nacional
especializar recursos humanos para o setor. O conjunto
e sequer as dos mercados regional e local.
dessas providências proporcionará ao bacharel em Turismo
Uma boa formação beneficia claramente o profissional, a
atuar numa ampla gama de atividades, expandindo seu
empresa em que atua e o sistema socioeconômico em seu
horizonte profissional.
conjunto. Para obter esta formação, o profissional deve
Conclusão
receber conhecimentos teóricos, adquirir habilidades e
destrezas que permitirão desempenhar-se com segurança e
eficiência no cargo que ocupará, beneficiando as atividades
Os cursos de graduação de Turismo no Brasil tiveram
turísticas e sendo essenciais para o êxito empresarial e a
origem na década de 1970, especificamente na cidade de
excelência nos serviços prestados.
São Paulo: em 1971 os cursos em Turismo e em 1978 os de
Após as reflexões apresentadas, concluímos ser necessário
Hotelaria. Até 1976 não ultrapassavam 10 em todo o
que as universidades, além da formação geral, dêem
País. Atualmente são 293 cursos de Turismo em
atenção especial à pesquisa, proporcionando elementos para
funcionamento no Brasil, de acordo com a última
despertar e estimular o interesse no bacharel em Turismo
pesquisa realizada por esta docente (dados obtidos até
pela investigação, tornando assim o sistema mais eficiente,
fevereiro de 2002).
pois a atividade turística, crescente, permanece carente de
profissionais habilitados para esse setor. Os sistemas de
educação devem responder às necessidades dos estudantes,
“O desequilíbrio na prestação dos
dos empresários, do governo e da sociedade.
serviços turísticos brasileiros é
para melhorar a qualidade na educação, e o turismo não é
Há alguns anos o ministro de Educação não mede esforços
causado, por um lado, pela falta de
exceção. Primeiramente, foram criados alguns mecanismos
qualificação dos profissionais, e por
equipamentos de tecnologia de ponta, obrigatoriedade de
outro, pela inadequação de proposta
pedagógica da maioria dos cursos”
de avaliação como titulação do corpo docente, uso de
práticas laboratoriais e uma biblioteca rica em títulos
específicos em turismo, além de periódicos científicos e um
número considerável de periódicos complementares. Mas
ainda é pouco! Num país como o Brasil, o que impera
30
“Há necessidade de uma supervisão
constante na educação em turismo, a
exemplo do que já acontece em
áreas tradicionais, para realmente
haver qualidade na educação, com
projeto pedagógico bem planejado”
(instituições investindo na titulação e valorizando com
remuneração condizente) e uma biblioteca possuindo títulos
nacionais e internacionais incentivando a pesquisa.
Apesar da inexistência da regulamentação da profissão,
constatamos a existência de cursos com currículos e
ênfases diferenciados, o que faz a educação em turismo
ainda não ser levada muito a sério. O que se espera é
chegar a uma paridade — qualidade versus oferta de
cursos. Acreditamos que somente oferecendo cursos com
qualidade e que estejam em completa sintonia com as
necessidades da demanda e exigências do mercado é que
os cursos de Turismo se solidificarão e formarão mão-deainda é o jeitinho brasileiro, pois algumas instituições não
obra realmente qualificada.
8
consideram que a educação em turismo deve ser planejada
e levada a sério como em áreas já consolidadas como
Engenharia, Odontologia, Direito etc., apenas
exemplificando. Investem as instituições educacionais, muitas
vezes, para conseguir a autorização do curso de turismo e
irão reinvestir após quatro anos, para conseguir o
reconhecimento. E depois uma nova pausa, não havendo
investimento contínuo. É por este motivo que espero
ansiosamente a vinda do Provão — Exame Nacional de
Cursos. Há necessidade de uma supervisão constante na
educação em turismo, a exemplo do que já acontece em áreas
tradicionais, para realmente haver qualidade na educação,
com projeto pedagógico bem planejado, docentes titulados
* Marilia Gomes dos Reis Ansarah é bacharel em Turismo,
mestre e doutora em Ciências da Comunicação com
especialização em Turismo pela Escola de Comunicações e
Artes da Universidade de São Paulo, professora titular e
assessora pedagógica em Turismo da Universidade Paulista
(Unip), professora nos cursos de mestrado e doutorado em
Turismo e Hotelaria da Universidade do Vale do Itajaí (Univali)
e no curso de Cultura & Turismo na Universidade Estadual de
Santa Cruz em Ilhéus, na Bahia. É assessora técnica e
professora do curso de pós-graduação em Planejamento e
Marketing Turístico da Faculdade Senac de Turismo e
Hotelaria em São Paulo e professora do curso de
especialização em Gestão Estratégica no Turismo da Escola de
Administração de Empresas de São Paulo (EAESP).
31
“As atividades de
lazer e turismo vêm
assumindo uma
importância cada vez
mais destacada, sendo
consideradas, hoje,
importantes alavancas
de crescimento
econômico”
Um caminho
para a cidadania
Adyr Balastreri Rodrigues*
32
Palavras introdutórias
materiais e imateriais. Tudo isto, de forma concatenada, se
No início do tão esperado terceiro milênio vivemos
diferenças cada vez menos sensíveis entre mundo rural e mundo
momentos de crise que perpassam todas as esferas da vida,
urbano, entre campo e cidade.
tanto individual quanto coletiva; tanto nacional, quanto
Acrescente-se a esse feixe imbricado de eventos as mudanças
planetária. São, porém, os períodos de crise que nos
expressivas nas estruturas socioprofissionais e etárias da
remetem a ricos momentos de reflexão na tentativa de
população, com um grande aumento na expectativa de vida,
perscrutar caminhos para a sua superação.
que se traduz por um crescimento notável das faixas etárias
Neste sentido, Boaventura Souza Santos, conhecido teórico
maduras — cuja velhice vê-se postergada —, estratos
das ciências humanas, propõe o que chama de “arqueologia
suficientemente aptos e ativos para o trabalho e para o lazer.
virtual presente”, onde propugna uma escavação social, no
É neste cenário que as atividades de lazer e de turismo vêm
sentido de avaliar o que não foi feito e porque não foi feito.
assumindo uma importância cada vez mais destacada, sendo
Em outras palavras, porque as possibilidades oferecidas pelo
consideradas, hoje, importantes alavancas de crescimento
mundo não se concretizaram e quais são as nossas
econômico. Crescem significativamente no mundo globalizado,
responsabilidades pessoais e sociais, enquanto cidadãos e
mobilizando volumosos recursos, gerando empregos,
enquanto educadores. Só a partir de então poderemos
desempenhando significativo papel na balança de pagamentos e
definir estratégias de ação.
na arrecadação de impostos de muitos países, tanto do
Também é óbvio que estas estratégias têm que ser
capitalismo central quanto do periférico.
participativas, em instâncias explícitas de questionamentos,
de problematizações, de participação igualitária, em
tomadas de decisões conjuntas.
A atual vocação do Brasil na nova divisão
internacional do trabalho
traduz por uma urbanização crescente da população e por
A importância do turismo como vetor
econômico e como prática social
Nesta nova divisão social, técnica e territorial do trabalho,
marcada pela globalização da economia e pela mundialização
da cultura, o Brasil se inscreve com enorme potencial turístico,
já em amplo e voraz processo de exploração, notadamente a
extrativo e manufatureiro desempenharam e ainda
partir dos primeiros anos da década de noventa, quando
desempenham relevante papel na economia brasileira,
começaram a ser sistematizadas políticas públicas agressivas
atualmente, o chamado setor terciário, abrangendo o comércio e
para a efetiva transformação dos recursos em atrativos, políticas
os serviços, vem assumindo também uma crescente importância,
estas ditadas pelos atores hegemônicos do capitalismo
orquestrada pelas tendências hegemônicas globais.
transnacional que aqui finca sua bandeira através de aplicação
Entre os componentes deste processo, relacionados aos grandes
de volumosos recursos em hotelaria, em parques temáticos e em
progressos nos domínios da ciência, da técnica e da informação,
diversos outros equipamentos, como na modernização da rede de
surgem novas formas de relações de trabalho, tais como a
transportes e de comunicações. Os novos programas de turismo
terceirização, a produção flexível, o teletrabalho, elementos que
em escala federal implantados pelo Ministério do Meio
modificam substancialmente as aspectos espaciais-temporais
Ambiente (MMA) e pelo Ministério do Esporte e Turismo
ligados à produção, circulação, distribuição e consumo de bens
(MET)/ Embratur — Instituto Brasileiro de Turismo
t
Da mesma forma que o setor agrário e o setor industrial,
33
vinculam-se a agressivas políticas nacionais e estaduais de
desenvolvimento do turismo, não desconsiderando nenhuma
região brasileira.
Dados recentes divulgados pela “Folha de São Paulo” (“Folha
Dinheiro”, 06/05/2002, p. B1), tendo como base estudos da
Embratur e da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas
(Fipe), indicam que a participação do turismo no Produto
Interno Bruto (PIB) brasileiro vem crescendo substancialmente.
Com um volume anual de aproximadamente R$ 30 bilhões em
recursos diretos, entre turismo interno (R$ 20 bilhões) e
internacional (R$ 10 bilhões), o turismo já é responsável por
2,5 % do PIB, dados de 2001.
“A sociedade sente necessidade de
Para ter-se uma melhor idéia da importância do turismo
preparar seus quadros superiores tanto
doméstico, basta dizer que aproximadamente 50 milhões de
brasileiros viajam anualmente. Igualmente importante vem
se tornando a demanda internacional, que chegou a 5,3
milhões em 2001 (dados estimados), tendo quintuplicado nos
últimos 10 anos.
para ensino e pesquisa quanto para
concepção e implantação de projetos, para
administração e gestão empresariais”
Este significativo volume de turistas visita e se hospeda
predominantemente na Região Sudeste do País — com a
a partir dos anos noventa o Nordeste já não é mais o mesmo,
participação de R$ 11,6 bilhões —, onde o segmento de
tampouco a Amazônia. Grandes complexos turísticos vêm
turismo litorâneo predomina, embora outras modalidades,
modificando estas paisagens, de maneira rápida, podemos
como o turismo histórico-cultural e o turismo rural,
dizer até frenética. Novos territórios estão se estruturando
apresentem também um razoável incremento. Em segundo
pelo vetor do turismo, cujas conseqüências tanto positivas
lugar coloca-se a Região Nordeste — com o volume de R$ 7,7
como negativas têm preocupado a sociedade como um todo.
bilhões —, onde o “modelo sol e praia” reina absoluto. Em
terceiro lugar figura a Região Norte – com o montante de R$
3,6 bilhões –, onde o ecoturismo vem se constituindo em
importante ferramenta de desenvolvimento com base local
Educação para o turismo – uma
lacuna a ser preenchida
junto às comunidades ribeirinhas. As outras regiões estão
Acompanhando as tendências que foram enunciadas, a sociedade
apresentando crescimento acelerado em diversas modalidades,
sente a necessidade de preparar seus quadros superiores tanto
com destaque para o “modelo sol e praia” na Região Sul e
para ensino e pesquisa quanto para concepção e implantação de
para o ecoturismo na Região Central. O volume de recursos
projetos, para administração e gestão empresariais. Assiste-se a
movimentados por estas duas regiões — Sul e Centro-Oeste —
uma grande multiplicação de cursos de bacharel em Turismo,
é respectivamente de R$ 3,5 bilhões e R$ 3 bilhões.
profissão ainda não regulamentada, o que preocupa bastante.
As expressivas transformações das paisagens brasileiras
São cerca de 400 cursos implantados e em fase de implantação,
motivadas pelo turismo, tanto nas áreas naturais como nas
tendo a maior parte deles surgida nos últimos cinco anos. Muitos
áreas urbanas e rurais, são facilmente observáveis até por
ainda não foram reconhecidos pelo Ministério da Educação
olhares leigos. Podemos afirmar sem sombra de dúvida que
(MEC). Num futuro muito próximo teremos um enorme
34
exército de reserva no setor, o que compromete muito a
bem conduzido, poderá funcionar como importante elemento de
remuneração justa para profissionais de nível superior.
resistência aos interesses das políticas hegemônicas globais. É no
Não menos importante é o setor de cursos básicos, estes destinados
exercício das “contrafinalidades”, segundo pensamento do
a capacitar técnicos de nível médio, reconhecidamente em número
geógrafo brasileiro Milton Santos, que os cidadãos podem
insuficiente e despreparados profissionalmente. A profissão de guia
exercer resistência ao capitalismo global perverso e excludente,
de turismo, agora regulamentada, tem mercado de trabalho
na opinião do autor.
garantido, faltando entretanto cursos de boa qualidade que
Neste sentido, é muito oportuna a inserção das discussões do
capacitem adequadamente.
lazer e do turismo como importante recurso temático para a
Ainda considerando, hoje, a necessidade premente de dar um
formatação do projeto político-pedagógico da escola,
direcionamento profissionalizante no ensino formal já nos níveis
notadamente nos municípios turísticos e nas áreas das periferias
médios das escolas públicas e privadas, há que considerar-se as
sociais das metrópoles, onde a ausência de equipamentos de lazer
novas exigências deste mercado de trabalho que perpassa as
funciona, comprovadamente, para o aumento da violência. Em
áreas de turismo, lazer, restauração e hotelaria, onde observam-
outros municípios com reconhecido potencial turístico ainda não
se grandes lacunas de formação tanto quantitativa quanto
explorado haverá que discutir o interesse em implementar novos
qualitativa. Na nossa opinião pessoal, este nível de ensino deve
projetos envolvendo o lazer e o turismo, preocupando-se,
ser encarado com mais seriedade, visando à formação de
sobretudo, em beneficiar a população local. Caso a comunidade
profissionais competentes. O mercado de trabalho em expansão
entenda que o viés profissionalizante, já no nível médio, é
necessita mais de técnicos do que de bacharéis em Turismo.
interessante para o seu projeto político-pedagógico, há que
A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei
discutir de que forma as diversas disciplinas do currículo, tanto
9.394/96), ressalvas feitas ao fato de estar em consonância com
as obrigatórias quanto as optativas, podem contribuir para o
os interesses dos atores hegemônicos do capitalismo em escala
desenvolvimento de habilidades e competências exigidas no
global, tem desencadeado discussões em muitos fóruns
mercado de trabalho, além de ter importante papel na
interessados no entendimento e no posicionamento perante as
formação de opinião.
mudanças propostas.
Devemos ressaltar que no estudo do turismo há que
Atendendo a essas necessidades, as Diretrizes Curriculares
obrigatoriamente contemplar a questão ambiental, propondo-se
Nacionais, concebidas no Departamento de Desenvolvimento da
que no interfaceamento entre estes dois temas – turismo e meio
Educação Média e Tecnológica, do Ministério de Educação,
ambiente – se permita alicerçar um eixo temático
contemplam duas áreas profissionais — turismo e lazer e
interdisciplinar.
hospedagem e alimentação —, exigindo agora a formatação de
disciplinas e conteúdos. As oportunidades de autonomia que a
Eixo temático transversal centrado no turismo
LDB dá às escolas, tanto da rede pública como da privada, não
podem ser desperdiçadas, cabendo à escola as responsabilidades
A partir desta ótica enunciamos alguns objetivos para nortear a
de definir seus próprios projetos pedagógicos e suas competências,
elaboração de conteúdos programáticos, contemplando o estudo
pelo menos em tese.
do turismo, abordagem que também se presta a constituir-se
Há necessidade urgente de reflexão em torno desta tão desejada
num eixo temático transversal, em atendimento aos Parâmetros
autonomia, momento propício para a construção de projetos
Curriculares Nacionais (PCNs). São os seguintes:
político-pedagógicos adequados às peculiaridades e às
l
necessidades das comunidades nas quais a escola se insere. Esta
econômico, social, cultural, ambiental, com grandes impactos
prerrogativa revela-se como um poderoso instrumento que, se
espaciais;
t
compreender a importância do turismo como fenômeno
35
l
entender o turismo como significativa atividade
uma cidade só será boa para o turista se for igualmente boa
econômica, podendo contribuir substancialmente para o
para a população residente. É freqüente ouvir de moradores de
desenvolvimento socioespacial;
núcleos turísticos a queixa de que tudo é pensado para o turista,
l
identificar e compreender os efeitos e impactos do
turismo nas áreas receptoras;
l
identificar os elementos do espaço turístico,
representados pela oferta e pela demanda;
l
compreender a tríplice ocorrência territorial do turismo
enquanto a população local é encarada como cenário, quando
não é considerada um mal necessário – ou seja, apenas útil
como força de trabalho, como prestadora de serviços. É muito
importante que as comunidades sejam fortalecidas na sua
auto-estima, pois se sentirem-se inferiorizadas podem perder
composta de áreas emissoras, de áreas de deslocamento e
a dignidade e desenvolver atitudes subservientes perante o
de áreas receptoras;
turista. Inclusive deve-se discutir estratégias de
l
instrumentalizar o aluno para reconhecimento,
comportamento no exercício da cidadania, exigindo dos
avaliação e classificação dos recursos e atrativos turísticos
turistas o máximo de respeito pelo ambiente físico e pelas
da sua comunidade;
pessoas e valores socioculturais do grupo. A elaboração de um
l
capacitar o aluno para uma análise crítica do fenômeno
código de ética será importante para pautar a conduta de
turístico, de modo a poder posicionar-se como cidadão e
todos os segmentos envolvidos.
como futuro profissional;
Os empresários, geralmente organizados através da
l
incentivar o aluno a atuar junto à comunidade no
Associação Comercial, da Associação dos Hoteleiros, da
sentido da salvaguarda dos interesses comunitários na
Associação de Proprietários de Bares e Restaurantes, devem
conservação ambiental e no desenvolvimento socioespacial
se comprometer com o código de ética, iniciando-se pela
alavancada pelo turismo.
máxima de “explorar o turismo, jamais o turista”. Outro
tema delicado e que deve ser objeto de freqüentes campanhas
A comunidade receptora e a
sensibilização para o turismo
é a sonegação fiscal. A comunidade como um todo não se
beneficiará do turismo se não houver arrecadação de
impostos, muito pelo contrário, só vai arcar com o ônus de
Em um fórum organizado pela Pastoral dos Pescadores, no
residir num município turístico, onde freqüentemente o custo
Estado do Ceará, no início dos anos noventa, ouvimos a
de vida é mais elevado.
seguinte observação de um líder comunitário de Icapuí: “Não
Ciente da importância de todas estas observações, o Programa
sabemos o turismo que queremos, mas sabemos o turismo que
Nacional de Municipalização do Turismo (PNMT), a
não queremos”. Não se trata de um jogo de palavras sem
cargo da Embratur, tem trabalhado junto às comunidades
sentido, muito pelo contrário, expressa uma profunda lucidez.
receptoras no sentido de sensibilização e conscientização para o
Todos sentiam que o turismo era importante vetor de
turismo através de oficinas onde os diversos segmentos sociais se
desenvolvimento, porém entendiam também que trazia uma
fazem representar. A partir de então constitui-se o Conselho
série de inconvenientes, alegando-se que mudavam os costumes
de Turismo (Contur), fórum permanente de debate.
locais, traziam a droga, a prostituição, os conflitos de terra, a
Infelizmente, nem sempre a constituição do Contur é feita
especulação imobiliária.
democraticamente. Muitas vezes repete-se nele a mesma
Não se pode, portanto, ignorar os interesses e os temores das
exclusão social que caracteriza a sociedade.
comunidades, desde as áreas interiores mais remotas até as
A escola também funciona como importante instrumento para
cidades, nas suas distintas escalas, quando se trata de trazer à
o desencadeamento das discussões, pois trata-se de um
tona a discussão do turismo e também do lazer. É evidente que
equipamento presente em quase todas as comunidades, por
36
sindicatos, por outras associações profissionais, tais como a
Associação de Guias de Turismo, a Associação dos Artesãos, a
Associação dos Pescadores, só para dar alguns exemplos.
Turismo e lazer na cidade
É na cidade que se aglutinam os equipamentos destinados
ao turismo e ao lazer, este compreendido na sua tríplice
dimensão: de descanso, de diversão e de aprimoramento
cultural, atividades que deveriam ser extensivas
democraticamente a todos os segmentos sociais e a todos os
espaços da cidade, desde os mais elitizados até aqueles da
periferia social, justamente os mais necessitados.
Assim, o lazer e o turismo definem novas territorialidades
na cidade, através de uma imbricada rede de fluxos, nós e
“É importante que as comunidades
pontos, lembrando que a rede se densifica nos bairros de
sejam fortalecidas na sua auto-estima,
tênue nas áreas periféricas. Queremos ressaltar a função
pois caso se sintam inferiorizadas, podem
perder a dignidade e desenvolver atitudes
subservientes perante o turista”
maior poder aquisitivo da população, tornando-se mais
dos lazeres no resgate da sociabilidade e da auto-estima
individual e grupal, eficaz arma contra a violência. Os
mapas da violência nas grandes cidades coincidem com os
bairros onde as opções de lazer são escassas. Restringem-se à
assistir a TV, aos bate-papos nos bares, a grupos musicais e
a raros equipamentos esportivos como os campos de futebol.
mais pobres que sejam as unidades familiares, tendo como
Há que incentivar formas genuínas de expressão cultural,
importante espaço de interlocução a Associação de Pais e
nascidas e administradas por segmentos residuais da
Mestres. É necessário ouvir os anseios, interesses e temores da
sociedade, imbuídas de grande força política, porque na
população receptora, pois a abertura para o turismo irá
medida em que reforçam a sociabilidade mobilizam a
desencadear mudanças irreversíveis na sociedade. Muitas
solidariedade grupal de força inimaginável. Esta é talvez a
vezes as queixas não são colocadas claramente, produzindo-se
única saída para a inclusão social.
sentimentos xenófobos sutis. Com freqüência as comunidades
Tais projetos, levados a cabo por ONGs, por grupos políticos
sentem-se invadidas na medida em que vão perdendo espaço.
ou religiosos, por associações já mencionadas podem e devem
Pesquisas têm mostrado que estes sentimentos se avolumam na
merecer o apoio das universidades nos seus programas de
mesma proporção que o turismo cresce. No início a atividade é
extensão universitária, constituindo-se em importantes
bem vista por trazer possibilidades de novas oportunidades
laboratórios de pesquisa-ação.
8
econômicas, porém, com o tempo, a receptividade vai dando
lugar a atitudes hostis. Por isso há que enfatizar a necessidade
de ampliar os debates, que também podem ser realizados pela
* Adyr Balastreri Rodrigues é doutora junto ao
Igreja, pela Associação de Amigos de Bairros, por ONGs, por
Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP)
37
Sergio Foguel
Programa qualifica o turismo
brasileiro
O Instituto de Hospitalidade, sediado em Salvador
(BA), estabelece normas de certificação para o setor
mais pessoas têm opção de ir a qualquer
lugar do planeta. Por que escolher um
destino turístico e não outro? Se você pega
o corredor Amazonas/Pantanal/Foz do
O Instituto de Hospitalidade traz uma
do Centro Histórico de Salvador (BA),
Iguaçu/Praias, você tem um circuito
nova maneira de olhar, fazer e sentir o
tem como foco central a educação e a
raramente encontrado em outro lugar.
turismo do Brasil. Essa visão futura de
cultura da hospitalidade como fator
Mas se o turista vem uma vez, acha tudo
sua potencialidade passa pelo conjunto de
crítico para o desenvolvimento
muito exótico e engraçado e sofre com o
52 normas que viraram referência em
sustentável do turismo em todo o País.
serviço prestado, ele não volta. Praias,
todo o País. A chamada Certificação da
“Mas a causa maior é o desenvolvimento
montanhas, exotismo existem em muitos
Qualidade Profissional consiste em um
sustentável do País sob pontos de vista
lugares, não só aqui. Se você tem prazer, se
sistema brasileiro de qualidade,
político, histórico, social, cultural,
satisfaz e é bem servido, você não só
recentemente reconhecido pela Associação
ecológico, tecnológico”, diz Foguel.
retorna, como indica a outros. É aquela
Brasileira de Normas Técnicas (ABNT)
história: quando você está feliz com sua
para o setor de turismo do Brasil. As
Como funciona o programa de
viagem, você conta para umas três pessoas.
normas, que começaram para
certificação?
Quando você está infeliz, comenta com 10
certificação de pessoas e hoje já são
Funciona à semelhança do ISO 9000
ou 12. O estrago que o mau serviço pode
direcionadas para a qualificação de
para uma empresa, em que você certifica
fazer é muito grande.
estabelecimentos e serviços, estão sendo
os processos pelos quais esta empresa atende
direcionadas para o ecoturismo. Criado
a certos requisitos de qualidade. Não é um
Então a qualidade dos serviços é
em 1997, o Instituto de Hospitalidade é
atestado de qualidade de produtos, mas
fundamental?
presidido por Sergio Foguel, que excerce
sim de como ela produz. Da mesma
Sim. Nós chegamos à conclusão de que é
ativa participação comunitária, como
maneira, em certas áreas também
preciso trabalhar tanto na oferta de
no Movimento Brasil Competitivo,
podemos verificar a competência do
capacitação para qualificar pessoas
simultaneamente à participação
profissional. Isso tem uma vantagem, que
quanto na demanda do consumidor por
empresarial, atualmente no Conselho
é chamar a atenção para a qualidade dos
melhores serviços. Você pega uma cidade
de Administração da Odebrecht S.A..
serviços como um fator-chave para que o
como Salvador, por exemplo. Por maior
A ONG, instalada em um belo casarão
Brasil atinja seu potencial turístico. Hoje,
que seja o número de turistas, sempre
38
haverá uma preponderância dos
habitantes em relação ao uso de
transportes, restaurantes, cinemas,
shoppings. Se a população local não for
demandadora da qualidade, dificilmente
o turista vai conseguir sozinho. A
qualidade de serviços depende também de
boa infra-estrutura, estrada, aeroporto.
Uma comunidade mais desenvolvida tem
melhores condições de prestar um melhor
serviço. Educação e cultura podem
alavancar muito o desenvolvimento
sustentável no setor de turismo. Por
isso, focamos o trabalho em iniciativas
que pudessem ser estruturantes sob um
novo olhar, de um novo fazer.
Para a criação o Instituto?
Em 1995, eu presidia a Fundação
Odebrecht, cujo foco é a educação de
adolescentes como agentes de seu próprio
destino e de transformação da
sociedade. Em última instância, um
sustentável. Nós fazíamos um programa
t
agente para o desenvolvimento
“Hoje, todos podem ir a
qualquer lugar. Se o
turista vem ao País, acha
tudo exótico e engraçado e
sofre com o serviço
prestado, ele não volta”
39
em Porto Seguro [BA] com
Foi assim que vocês chegaram à
um aumento de eficácia com treinamento,
adolescentes, voltado para a causa da
certificação?
com um programa focado no que ainda é
Educação Fundamental de Qualidade
A certificação foi o primeiro conjunto de
necessário capacitar. A certificação
para Todos. Eram seis municípios da
iniciativas. De educação profissional
mobiliza para a idéia de educação e
região da Costa do Descobrimento. A
voltada para competências, e não para a
cultura para a capacitação, estabelece
primeira etapa foi um sucesso. Todas as
listagem de conteúdos. Verificou-se que em
referências para o aprimoramento do
associações possíveis e imagináveis foram
Cingapura, no Canadá, na Espanha, na
profissional, para escolas e empresas, para
mobilizadas: loja maçônica, vereadores,
Inglaterra, nos Estados Unidos, países de
orientarem seus currículos, suas formas de
Associação dos Barraqueiros, que é
sucesso em turismo, a questão de
capacitar pessoas, cria todo um movimento
importante no local. Nessa época, nascia
certificação foi usada por dois ângulos
de pensar em competência. Este programa
o Instituto Ayrton Senna, que se engajou
básicos. O primeiro: para certificar, é
teve um apoio importante do BID [Banco
no programa, bem como outras
preciso ter um padrão definido. Qual a
Interamericano de Desenvolvimento] e do
entidades. Era uma missão muito
norma de competências requeridas para
Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às
atrativa, um programa que efetivamente
um guia de turismo histórico? Para um
Micro e Pequenas Empresas]. Já
causasse uma elevação de patamar da
agente de viagens? Para um pizzaiolo?
investimos mais de US$ 5 milhões e, o que
educação para todos, em um lugar onde
Um gerente de hotel? Na hora em que
é muito importante, a primeira
simbolicamente nasceu este País, e o ano
você tem a norma, você tem os padrões de
providência foi criar um Conselho
de 2000 se aproximava, marcando os
aferição. O profissional que já está no
Nacional de Certificação. Este Conselho é
500 anos. Se isso pudesse ser feito até
campo pode querer se certificar, sendo
formado por representantes das mais
2000 seria uma vitrine para o resto do
aprovado ou não. Se não for aprovado,
variadas entidades do setor: hotéis,
Brasil, mas a etapa seguinte foi um
recebe um laudo que evidencia
restaurantes, agências de viagens etc.,
drama. O que se viu foi que você ia para
conhecimentos, habilidades e atitudes.
representantes governamentais, como
a reunião e assinava o pacto, era
Ele pode estar cem por cento em
Embratur e Ministério do Trabalho,
vibrante, consciente, envolvia sua
conhecimentos, mas em tal habilidade e
representantes dos trabalhadores. O
família, sua empresa, dizia que ia
tal atitude ele tem que se aprimorar. O
Instituto passa a trabalhar como um
apoiar. A segunda etapa era: ‘Mas o que
segundo é que você tem uma economia e
órgão técnico.
você vai fazer? Porque para isso acontecer
todo mundo tem que fazer alguma
coisa’. E aí a taxa de mobilização real
caía muito. Começamos a refletir, e
surgiu a idéia de que se conseguíssemos
associar a educação com benefícios
visíveis, a coisa poderia mudar. Em
outras palavras, esta educação tem que
ajudar a trabalhar e, em conseqüência,
gerar renda. Em turismo, a qualidade
“A certificação mobiliza para a idéia de educação
e cultura para capacitação, estabelece referências
de serviços é visivelmente impactada
para o aprimoramento do profissional, cria
pela educação. Começamos então a ver o
todo um movimento de pensar em competência”
que se fazia pelo mundo neste sentido.
40
FOTOS LUCIANO MATTOS BOGADO
Quem tem o poder de decisão?
Quem decide sobre quais os perfis
profissionais que deverão ter normas,
quem aprova as normas, quem decide
sobre as metodologias é o Conselho. Hoje
existem 52 normas para ocupações e
competências. Cada uma com as
correspondentes orientações para
aprendizagem. Isso foi construído em
um tempo fantástico, dois anos e pouco.
A equipe tem recebido os maiores elogios
da Organização Internacional do
Trabalho, do próprio BID, do
Ministério do Trabalho, do Ministério
da Educação, das várias agências, das
várias associações. O programa hoje é
reputado como paradigma mundial em
certificação e a gente é chamado para
contribuir, participar, porque houve
“O programa está
possibilidade de ver o melhor que é feito
embalando. Somente
no mundo. O programa está
embalando. Neste ano, devemos ter
seguramente mais de 10 mil pessoas
passando pelo processo de avaliação.
Como é na prática? As pessoas se
neste ano, devemos ter
seguramente mais de 10
mil pessoas passando pelo
processo de avaliação”
cadastram para passar pela avaliação,
supervisores também certificados, o
estabelecimento ganha um selo de
reconhecimento.
Os certificados têm prazo de
validade?
É preciso renovar, porque também as
normas vão evoluindo. São dois anos
para as pessoas e o estabelecimento é
verificado a cada seis meses. É necessário
funcionários, as pessoas treinadas pelo
também considerar que sempre ocorre
A empresa resolve. Por exemplo, o
Instituto, que chamamos
alguma rotação de funcionários.
McDonald´s deseja que todos os seus
multiplicadores, são contratadas pela
funcionários tenham certificação em
empresa e formam dentro dela novos
Os resultados são satisfatórios,
segurança alimentar. Nossas normas
multiplicadores, que treinarão os
comparados a outros países?
foram desenvolvidas de maneira a
restantes. Quando as pessoas se sentirem
O Conselho decidiu estabelecer um
serem reconhecidas pelo Conselho
treinadas, vêm ao Instituto passar pela
mínimo de qualidade. E há uma
Mundial de Segurança Alimentar. A
avaliação. Segurança alimentar
segunda parte indicativa de outras
pessoa certificada pode, com seu selinho,
também tem outro critério: quando
competências que seriam desejadas, mas
ser reconhecida em Londres, Tóquio,
mais de 80% de manipuladores de
ainda não exigidas. É um indicativo
Paris, Detroit. No caso do
alimentos são certificados, com
de que na próxima revisão vão estar
McDonald´s, que tem milhares de
determinada porcentagem de
dentro. Temos feito avaliações de
t
ou o processo vem da empresa?
41
grandes populações. Fizemos um
de profissionais, é preciso uma
começamos a procurar o que poderia ser
trabalho agora de sensibilização de
capacitação dirigida. Temos cada vez
uma contribuição para a melhoria do
quase 30 mil pessoas, no Estado do Rio
mais gente vibrando com esta bandeira
sistema educacional de turismo.
de Janeiro. A tendência é ter uma
de qualidade. Queremos atingir no
porcentagem alta não atendendo aos
mínimo 1 milhão de pessoas nesta
A capacitação é direcionada para as
padrões. E em segurança alimentar é
década. Hoje a força de trabalho direta
escolas?
significativamente maior.
em turismo está em pouco mais de 4
Para as escolas e para as empresas, que
milhões de pessoas. Claro que isso vai
também fazem os seus treinamentos. O
Mas isso acontece só no Brasil, ou lá
crescer. A tendência é de que, quando um
Instituto de Hospitalidade vem se
fora também é assim?
hotel se instalar em uma região onde já
colocando como um supridor de métodos e
Não posso comparar, porque as normas
existe a prática da certificação, ele abra
meios pedagógicos para atualizar e
não são as mesmas. As brasileiras foram
vagas propondo o seguinte: ‘quero 42
melhorar o processo de capacitação que
criadas em um longo processo, envolvendo
camareiros certificados’. Não precisa
elas propiciam. Antes, nós fomos fazer
milhares de pessoas em grupos de discussão
dizer mais nada. O padrão está
pesquisa, entrevistar escolas, bares,
do Rio Grande do Sul ao Amazonas.
estabelecido. Uma vez que você tem a
restaurantes, agências de viagens, e
Para cada perfil, garçons, por exemplo,
referência de qualidade, o mercado
mapeamos o trabalhador de turismo no
escolhemos os melhores de Porto Alegre
profissional se orienta para a
Brasil. Quantos são, onde estão, o que
[RS], e eles passaram o dia discutindo, de
competência. Este é um exemplo de
fazem, quanto ganham, que educação
acordo com certa metodologia, quais são as
como a certificação se torna uma
têm, como chegaram ali. Há um grande
competências que um profissional
iniciativa estruturante.
descompasso entre o que os trabalhadores
bambambã deve ter. Fizemos a mesma
do setor dizem existir sobre educação e o
coisa em Goiânia [GO], em Belo
Quais são as outras iniciativas
Horizonte [MG], em Recife [PE], até
estruturantes?
para checar aspectos de cada região. Os
Em educação profissional e em apoio
E em apoio ao desenvolvimento
padrões não têm muita diferença regional
ao desenvolvimento sustentável de
sustentável?
entre os profissionais mais qualificados.
áreas vocacionadas para o turismo.
Nesta área de atuação é diferente.
Em educação profissional, nós não
Procuramos ver o conjunto de medidas
E como essas normas são aplicadas?
queríamos ser mais uma escola, nem
que precisam ser tomadas para
Quando há avaliação em uma massa
competir com as existentes. Então
promover o desenvolvimento sustentável
que as escolas dizem estar oferecendo.
em determinada região. O programa
“Temos cada vez mais
mais antigo que temos nesta área é o da
gente vibrando com esta
iniciamos com a hipótese de como
bandeira de qualidade.
Queremos atingir no
mínimo 1 milhão de
pessoas nesta década”
42
Costa dos Coqueiros [BA], no qual
contribuir e fomos aprimorando na
prática. Hoje iniciamos tratativas
para novos programas em Búzios (RJ)
e no Pantanal. A Costa dos Coqueiros
é a área que nós experimentamos mais,
pessoa por pessoa, casa por casa,
comunidade por comunidade. É onde
fazer em 2003. E é interessante, ao esticar
também estamos implantando o
o olhar para 2010, o grupo que forma o
primeiro projeto de uma ampla
Comitê Executivo, eu e mais quatro
parceria com o Instituto Souza Cruz.
pessoas, chegamos à conclusão que nenhum
Na primeira vez em que fomos lá
de nós nos víamos em função executiva.
descobrimos que havia 31 comunidades
Partimos do individual e fomos
e o IBGE [Instituto Brasileiro de
aumentando o compartilhamento. Uma
Geografia e Estatística] só registrava
das decorrências imediatas disso é começar
19. Nós nos encontramos com
a formar já os nossos sucessores.
comunidades que estavam na era préindustrial. Esta região ficou isolada por
rios e não havia uma estrada. A outra
área, completamente diferente, é no
Como é esta visão de 2010 para vocês,
“Temos uma equipe que
como seria o turismo no Brasil?
Nós acreditamos que o Brasil terá
centro histórico de Salvador. Para esta
dá gosto de trabalhar e
fomos buscar experiências de
uma rede de associados
potencial em turismo, com espaço para o
Lyon, na França, na Times Square de
altamente participativa.
significativa. Essa contribuição é na
Nova Iorque e na frente do cais de
Mais de 130 instituições
área de cultura da hospitalidade. O que
construíram o programa”
eficiência dos padrões americanos e
revitalizações auto-sustentáveis em
Baltimore, nos Estados Unidos. O
programa se chama Portal da
Misericórdia. É a revitalização da
realizado significativamente seu
Instituto ter dado uma contribuição
estamos desenvolvendo não é a cópia da
suíços. Há um erro ao se falar em
Santa Casa. Vamos profissionalizar
altamente participativa. Para se ter uma
excelência de serviço. Tem certas
jovens em situação de risco de exclusão,
idéia, mais de 130 instituições no Brasil
competências que são universais, como
de drogas, centrados nas questões de
construíram o programa de certificação.
segurança alimentar, mas não temos
cidadania, de introdução do indivíduo
Dois mil e tantos profissionais
que virar processadores de serviços
ao meio e ao trabalho, ao mundo em
participaram diretamente. Milhares de
turísticos. A gente sabe que a
sociedade. Ele participa das aulas, faz
consultas públicas via internet. Isso é
capacidade de hospitalidade suíça é
estágio em bares, hotéis, agências de
trabalho, envolvimento, participação.
de primeiríssima, a americana
viagem, e tem um mentor especial que
Estamos sempre revisitando os valores
também. Cada uma tem o seu
se dispõe voluntariamente a conversar
iniciais, a missão, as grandes estratégias.
sabor e o sabor brasileiro, com sua
sobre sua formação. Nós estamos criando
No ano passado fizemos um ensaio muito
alegria, espontaneidade, beleza, e
um modelo. Vamos testá-lo para depois
positivo, em que ousamos definir a visão
cor, não é para ser perdido com
repeti-lo em várias cidades do Brasil.
2010 do Instituto, como vemos o cenário
pasteurização de qualidade de
do Brasil nesta área e como descrevemos o
serviço. Porque isso é o extra da
Você pode dizer que os resultados estão
Instituto em 2010. Está documentado e,
qualidade de serviço. Então o
dentro do que vocês esperavam quatro
com base nisso, pensamos o que precisamos
desafio está em construir uma
anos atrás?
fazer em 2002. Daqui a pouco, vamos
cultura da hospitalidade que
Sim. Temos uma equipe que dá gosto de
olhar de novo os princípios, os valores, a
incorpore este sabor, preservando o
trabalhar e uma rede de associados
própria visão 2010 e ver o que é preciso
padrão mundial básico.
8
43
Desvendando a
Mata Atlântica
Pólo em Lagamar é o pioneiro
Projeto no interior de São
Paulo torna-se o embrião
para a construção de pólos
ecoturísticos por todo o Brasil
44
restingas, rios, cachoeiras, mares internos,
praias, florestas, baía e outros elementos
da natureza formam um dos mais ricos e
diversificados conjuntos de ambientes
costeiros do mundo. No extremo sul do
Estado de São Paulo, no Vale do Ribeira
— onde localiza-se a maior área contínua
remanescente de Mata Atlântica —, a
paisagem da região do Lagamar,
constituída de numerosas ilhas numa
área de 5,8 mil quilômetros quadrados, é
um espetáculo de beleza. O termo
Lagamar, empregado ao longo dos séculos
para designar “depressões no fundo do
mar e de rios”, “lagoas de água
salgada” ou “baía de golfos formando
um porto vasto, mais ou menos
abrigado” traduz bem a multiplicidade
de ecossistemas na região.
Aliado às riquezas naturais, o valioso
patrimônio histórico-cultural dá a
dimensão da importância das cidades
centenárias que integram o complexo. Nos
séculos XVIII e XIX, Iguape, o maior
município da região, era tão importante
quanto o Rio de Janeiro ou Salvador. Do
seu porto partia para a Europa todo o
açúcar produzido nos terrenos alagadiços
do Vale do Ribeira. Andar pelas ruas das
cidades, apreciar a arquitetura dos
casarões antigos, conhecer os costumes da
população nativa (quilombolas, caiçaras e
demais índios) é como viajar ao passado e
acompanhar histórias desde a época das
capitanias hereditárias.
Por apresentar entrosamento perfeito
entre a natureza e o patrimônio histórico,
t
FOTOS HELCIO NAGA
Estuários, lagunas, manguezais,
45
“Grande parte dos monitores é
formada por pessoas que exerciam algum
tipo de atividade ilegal. Hoje são os
maiores defensores da mata”
Lázara Gazzetta
a região mostrou-se potencialmente
para a criação de pólos ecoturísticos
forte para o ecoturismo. A partir deste
por todo o País. Reconhecido
diagnóstico, nasceu a idéia de criar o
internacionalmente, recebeu o prêmio
Pólo Ecoturístico do Lagamar, projeto
de Melhor Destino Ecoturístico do
pioneiro da Fundação Pró SOS Mata
Mundo, na eleição promovida, em
Atlântica, patrocinado pela
1999, pela revista norte-americana
Embratur — Instituto Brasileiro de
“Condé Nast Traveller”, quando
Turismo. Foi a alternativa encontrada
concorreu com mais de 40 projetos das
para levantar a economia da região,
mais diferentes nações.
castigada com o declínio das atividades
relacionadas ao extrativismo mineral e
vegetal, além de funcionar como
importante instrumento na preservação
Comunidade local é a
principal beneficiada
para receber bem o turista. Ainda
do meio ambiente. A imensa
O Pólo compreende quatro
nesta primeira fase (de outubro de
biodiversidade oferece diversas opções
municípios: Iguape, Cananéia,
1995 a junho de 1996), foram
turísticas: caminhada nas trilhas pela
Pariquera-Açu e Ilha Comprida. O
aprovadas e cadastradas 26 agências
mata e nas praias desertas, passeios de
primeiro passo para a formulação do
de viagens (agentes emissivos) de São
canoa, visitas aos centros históricos,
projeto foi realizar uma espécie de
Paulo, Santos, Jundiaí e Campinas,
trilhas de bicicleta, entre outras. Em
inventário dos recursos naturais,
com experiência de prática profissional
resumo: o objetivo do Pólo é desenvolver
culturais e sociais de cada uma das
ecoturística, para atuar no Lagamar.
um turismo responsável — com base na
cidades. Ou seja, fez-se um
Em seguida, procedeu-se ao
utilização sustentável dos recursos
diagnóstico detalhado do potencial
levantamento dos agentes receptivos:
naturais —, capaz de gerar emprego e
turístico da região para que se
donos de restaurantes, hotéis,
promover a capacitação profissional da
cumprisse uma das premissas básicas
barqueiros etc.
população.
do projeto: aproveitar ao máximo a
“Identificamos que as cidades tinham
Iniciado no fim de 1995, o projeto
infra-estrutura já existente,
todas as características e grande
tornou-se exemplo de planejamento e
adaptando-a, de forma gradual e
potencial para o ecoturismo, mas não
execução e está servindo de modelo
orgânica, às condições adequadas
apresentavam condições de receber o
46
A beleza de Cananéia (E)
soma-se à estrutura de Iguape.
No Pólo do Lagamar, a pesca
artesanal é a principal
atividade dos caiçaras
visitante, por falta de estrutura e de
conhecimento da própria população.
Partiu daí a decisão de capacitar essa
“Os cursos me
comunidade”, informa a bióloga
Lázara Gazzetta, contratada pela
deram a idéia de
SOS Mata Atlântica para
mudar para comida a
administrar os projetos da Fundação
no Vale do Ribeira e coordenar o Pólo,
quilo. Segui a
tarefas que divide com o marido,
orientação e minha
Clodoaldo Gazzetta, também biólogo.
Para capacitar a comunidade local,
clientela se
foram oferecidos cursos do Senac
multiplicou”
(média de 20 horas/aula) de
Marize Valota
organização hoteleira, atendimento
cozinheiro, camareira, faxineira,
t
ao cliente, recepcionista, garçom,
47
técnicas de acondicionamento de
alimentos e de bebidas, sobremesa e
monitores ambientais. O Instituto de
Estudos Brasileiro (IEB) também
participou com cursos técnicos de
práticas ecoturísticas, condução de
grupos, primeiros socorros, salvamento
e resgate. Somando cursos e
palestras — ministrados nos quatro
municípios —, formaram-se cerca de
“A população nativa é
900 pessoas em duas jornadas de
parte integrante e hoje
capacitação (1997 e 1998).
muitas pessoas vivem
iniciativa da SOS Mata Atlântica,
Lázara lembra que, na esteira da
exclusivamente de
surgiram vários cursos promovidos por
atividades voltadas ao
dos cursos de técnico em turismo e em
outros órgãos. É o caso, por exemplo,
ecoturismo, seguindo o
meio ambiente da Escola Agrícola, em
modelo do Pólo”
Souza, ligado à Universidade
Márcio Ragni
Iguape, coordenado pelo Centro Paula
Estadual Paulista (Unesp).
Paralelamente às jornadas de
capacitação, foi produzido material
Municípios do Pólo
IGUAPE
Área: 1.942 Km²
Fundação: 03/12/1538
População: 26.404
Distância: SP – 209 km
CANANÉIA
Área: 1.435 Km²
Fundação: 1531
População: 10.254
Distância: SP – 272 km
ILHA COMPRIDA
Área: 296 Km²
Comprimento: 74 Km
Largura média: 3 a 4 Km
Fundação: 05/3/1992
(emancipação política)
População: 2.842
Distância: SP – 220 km
PARIQUERA-AÇU
Área: 370 Km²
Fundação: 30/12/1953
(emancipação política)
População: 13.472
Distância: SP – 209 km
informativo para divulgar o Pólo,
entre folhetos, mapas regionais,
exemplares do livro “Descubra o
Lagamar”, fitas de vídeo, adesivos e
pôsteres. O casarão colonial que
abriga a sede da Fundação Pró SOS
Mata Atlântica, no centro histórico
de Iguape, passou por ampla reforma
e se transformou no Centro de
Interpretação Ambiental e
Informações Turísticas do Lagamar.
Nesta base, o visitante tem todas as
informações turísticas e ambientais
sobre a região. Ele fica sabendo, por
exemplo, que a Bacia do Vale do
Ribeira é considerada pela ONU
como o quarto maior berçário de
espécies marinhas do mundo, um
48
banco genético, exatamente pela
presença da Mata Atlântica, como
conta o biólogo Clodoaldo. Além
dessas informações, o turista tem acesso
à listagem dos restaurantes, hotéis e
pousadas cadastrados e à relação dos
monitores ambientais credenciados —
cerca de 20 em cada município.
“Um dado interessante em relação
aos monitores é que grande parte
é formada por pessoas que
exerciam algum tipo de atividade
ilegal na mata. E hoje, em vez de
estarem tirando palmito para
vender ilegalmente ou matando
animais silvestres para vender a
carne, eles defendem a mata e
utilizam seus conhecimentos da
região para acompanhar o
turista”, revela Lázara.
Parceria com os órgãos
públicos é fundamental
Estruturado o projeto, em 1998, os
roteiros turísticos começaram
efetivamente a ser comercializados.
Segundo Lázara, no início, o Pólo não
trabalhava com público dirigido. As
agências montavam os pacotes e
levavam o grupo fechado, mas só em
época de temporada e feriados. Esse
tipo de turismo não resolvia o
problema do dono da pousada ou do
restaurante, por exemplo, que ficava
como para passeio de turistas.
Na arquitetura de Cananéia,
um reencontro com o passado
sem condições de manter o ponto
comercial no resto do ano. Era preciso
preencher essa lacuna durante a
baixa sazonal. A solução foi distribuir
49
t
Na Ilha Comprida, os barcos
servem tanto para a pesca
o material de divulgação, através das
agências, às escolas. E deu certo. Hoje o
grande filão do Lagamar são as escolas
que vêm para a região fazer estudo do
meio. No pacote de viagem de cada
aluno, somente no caso das escolas
particulares, está embutida uma taxa
ambiental de R$ 5, destinada à
preservação da Mata Atlântica. Esta
taxa retorna em forma de ajuda a
projetos. Já serviu, por exemplo, para
auxiliar na conclusão do tratamento
de esgoto alternativo na bela Ilha do
Cardoso, em Cananéia, considerada a
“estrela” do Lagamar.
A parceria com as prefeituras e
demais órgãos públicos é essencial para
o desenvolvimento do Pólo. Na Ilha
Comprida, por exemplo, a atuação da
prefeitura tem sido um fator
determinante no processo de
recomposição do município e para sua
preservação. Isso porque a Ilha sofreu
muito com um fenômeno que atingiu,
nas décadas de cinqüenta e sessenta,
todo o litoral paulista: os loteamentos.
Como o País não tem lei que garanta
repasse de recursos para a população
flutuante, os prefeitos, nessa época,
achavam que quanto mais pessoas
trouxessem para se fixar no
municípios mais verbas iriam receber
do Estado e da União. A ocupação
O amor pela
natureza
transformou
Luzinete em
monitora
dava-se, assim, de forma
indiscriminada, pois as prefeituras
não tinham estrutura e corpo técnico
para planejar os loteamentos. Dentro
dessa distorção, foram aprovados na
promover o crescimento da Ilha,
Ilha Comprida 300 mil lotes urbanos,
ocupando 30% e preservando 70% da
para uma capacidade máxima
área física. “Nosso problema inicial era
de monitor ambiental,
estimada de 120 mil lotes.
convencer o morador da importância
fiz vários outros
De acordo com o vice-prefeito Márcio
de se preservar 70%. Os loteamentos
Ragni, a prefeitura está
fizeram com que a comunidade local
gradativamente reavendo esses lotes.
fosse totalmente descaraterizada ou
“Já conseguimos recuperar cerca de
ficasse alijada do processo. O ecoturismo
30% através da cobrança da dívida
vem resgatar seu valor. A população
dos impostos. Como a inadimplência é
nativa é parte integrante e hoje muitas
grande, a prefeitura acaba ficando
pessoas vivem exclusivamente de
com vários desses lotes”, explica Márcio.
atividades voltadas ao ecoturismo,
Ele enfatiza que o compromisso é
seguindo o modelo do Pólo”, conclui.
“Depois dos cursos
de capacitação e
reciclagem. Não
me acomodei”
Luzinete Nunes
50
Exemplos de sucesso
O artesanato local enfeita
ambientes como o
restaurante de Marize (E)
A implantação do Pólo Ecoturístico do Lagamar mudou a vida de
várias pessoas. Percorrendo as ruas das quatro cidades, ouvem-se histórias
diversas de moradores que hoje seguem um ideal, alimentado pelo que
aprenderam nos cursos de capacitação da SOS Mata Atlântica.
A monitora ambiental Luzinete Nunes, 45 anos, é um exemplo de perseverança e amor à natureza. Nascida no Guarujá, há 12 anos Luzinete
mudou-se para Cananéia. A paixão repentina pelo paraíso ecológico fez
com que Luzinete se mudasse com a família antes mesmo de construir sua
casa. Durante quatro meses, ela morou junto com os filhos pequenos em
uma barraca, enquanto o marido, garçom, em Santos, aparecia nos fins de
semana. Vivia de pequenos serviços até conhecer os cursos da Fundação.
“Havia feito um curso intensivo oferecido pela prefeitura e a USP
[Universidade de São Paulo]. Mas foi o curso da SOS que me ensinou a
caminhar. Entrei em contato com as agências de São Paulo, que nos davam o suporte. Depois dos cursos de monitor, fiz vários de capacitação e
reciclagem. Não me acomodei”, afirma. Além dos cinco cursos de monitores,
Luzinete, que hoje tem essa única ocupação, aprendeu noções básicas de
biologia, ecologia e primeiros socorros, entre outros.
Também atraída pela beleza natural da região, a ex-secretária Marize
Valota mudou-se de São Paulo há 11 anos para a Ilha Comprida, onde
montou, junto com o marido, uma choperia na praia. Os negócios iam
bem, até que, de repente, com a mudança do plano econômico, entrou em
vertiginoso declínio.
“Estávamos desesperados com as dificuldades. Até que surgiu a oporFundação Pró SOS
Mata Atlântica
tunidade de fazer os cursos da SOS. Fiz todos. E foram eles que me deram
a idéia de mudar para comida a quilo, servindo também pratos regionais.
Rua Manoel da Nóbrega, 456 – São Paulo – SP
Graças a Deus, segui a orientação e consegui recuperar tudo, minha cli-
CEP: 04.001-001
entela se multiplicou”, revela.
Tel.: (11) 3887-1195
www.sosmatatlantica.org.br
Base Urbana de Iguape
Marize exibe seus 12 diplomas, todos da linha de cozinha (como
barman, sobremesa e técnica de congelamento) e de hotéis e similares
(camareira, recepcionista etc.). Estudar e se reciclar é o lema dessa
Centro de Interpretação Ambiental e
paranaense, de 51 anos, autoridade local quando o assunto são congela-
Informações Turísticas do Lagamar
Rua 15 de Novembro, 33 – Centro – Iguape – SP
dos, salgados e doces. Na Ilha Comprida, tornou-se obrigatória uma pa-
CEP: 11.920-000
rada no Restaurante Mareados para saborear as deliciosas panquecas da
Tel.: (13) 6841-2379
vitoriosa chef Marize.
E-mail: [email protected]
8
51
Ecoturismo na
Amazônia
Projetos comunitários geram
sustentabilidade social
52
MATTOS BOGAD
O
Conhecimentos científicos, sabedoria
cabocla e poder da natureza se unem com
sucesso em Mamirauá e Silves
A prática do ecoturismo comunitário na Amazônia consegue produzir
sustentabilidade social em curto prazo. Experiências bem sucedidas do turismo com
filosofia ecológica, em áreas ambientalmente conservadas, geram empregos,
organizam a produção de alimentos, aumentam a renda das comunidades,
incentivam práticas de saúde e ainda asseguram conhecimento e recursos financeiros
e humanos para proteger, em longo prazo, as áreas naturais visitadas. Nos exemplos
de Mamirauá e Silves surgem lições avançadas de educação ambiental e cidadania.
Ambos os casos também demonstram uma eficiente gestão dos recursos públicos
socialmente produzidos e redistribuídos na rica biosfera amazônica. As duas
t
FOTOS LUCIANO
53
décadas de trabalho, iniciado em 1983
quando José Marcio Ayres começou a
estudar o macaco uacari-branco.
Preocupado com as ameaças de
degradação na região e apostando no
envolvimento comunitário, propôs, no ano
seguinte, a criação da Estação Ecológica
de Mamirauá. Passaram-se seis anos, até
que, em 1990, o Governo do Estado do
Amazonas criou, por decreto, a reserva.
Nelissa Peralta estudou
na Europa antes de
trabalhar na Amazônia
O Instituto Mamirauá se consolidou,
naturalmente, a partir da Rio-92.
Um sistema de zoneamento definiu o
espaço a ser trabalhado — 260 mil
experiências, junto com a do Vale do
hectares. Em 1999, delimitou-se uma
Guaporé, em Rondônia, fizeram
zona de manejo especial para o
parte do Programa de Ecoturismo de
ecoturismo e o Governo Federal
Base Comunitária do WWF-Brasil e
reconheceu o Instituto Mamirauá como
contribuíram para a elaboração do
uma organização social, ligada ao
manual de ecoturismo que será
Ministério da Ciência e Tecnologia. Em
lançado este ano pela entidade.
2001, firmou um contrato de cinco anos
O programa da Reserva de
com o Instituto para administrar a
Desenvolvimento Sustentável de
reserva até 2006. Nessa missão, o
Mamirauá — a maior área de várzea
Instituto conta com o apoio institucional
protegida do Brasil, com 1.124.000
do Governo do Estado do Amazonas, do
hectares, 500 quilômetros a oeste de
Department for International
Manaus — deslumbra turistas
Development (do governo inglês), da
nacionais e estrangeiros com seus
ONG norte-americana World Life
atrativos, enquanto oferece à população
Conservation Society (WCS) e do
amazônica fontes de renda alternativas.
CNPq, que financia bolsas de
Situada na confluência dos rios Solimões,
desenvolvimento técnico institucional.
nada. Jacarés com três metros de
comprimento tomam conta das margens
Japurá e Auati-Paraná, a reserva foi a
A riqueza do cenário
dos lagos. As árvores servem de residência
fauna e da flora com base em pesquisas
O paraíso ecoturístico fica dentro de uma
guaribas, macacos-prego e macacos-de-
científicas, com a participação da
área de preservação total chamada Lago
cheiro. Na região, há mais de 400
população local no gerenciamento dos
Mamirauá. No período de seca, o nível
espécies identificadas de pássaros, com
recursos naturais.
da água baixa, os peixes pulam a cata de
destaque para o majestoso gavião real,
Até chegar a tal ponto, foram quase duas
insetos e até onças pintadas saltam do
maior ave de rapina do mundo.
primeira unidade de conservação
brasileira que integrou a proteção da
54
natural para preguiças, uacari-brancos,
A pousada flutuante
(alto) é um dos pontos altos
do Instituto Mamirauá (E),
numa região de fauna
rica e abundante
Na cheia, de maio a julho, as águas dos
principal. Seu conceito reside em oferecer
rios Solimões e Japurá inundam toda a
conforto seu causar impacto ao meio
reserva – a variação anual da cheia fica
ambiente. Os chalés têm ventilação
entre 12 e 15 metros. Os peixes invadem
natural, telhados de madeira que
as áreas antes ocupadas pelas aves,
amenizam a temperatura elevada,
nadando entre as copas das árvores
sistema de filtragem de dejetos e energia
submersas em busca de comida,
solar. No flutuante principal, há coletores
abundante na época de frutificação.
de água da chuva, reaproveitada em
Felinos se refugiam nos galhos mais altos,
limpeza e higiene, após filtragem. Pelo
preguiças nadam para se locomover.
mesmo processo passa a água do rio.
Nas águas existe a maior concentração
A coordenadora de ecoturismo do
de golfinhos (os botos cor-de-rosa) do
Instituto Mamirauá, Nelissa Peralta,
mundo: 25 por quilômetro quadrado. No
25 anos, graduada em Estudos em
lago, entre outras espécies protegidas,
Desenvolvimento e Relações
existe o pirarucu — quase em extinção,
Internacionais pela Universidade de
por causa da pesca predatória.
Gales, no Reino Unido, informa que a
infra-estrutura receptiva representou um
Ecoturismo sustentável
investimento de R$ 450 mil para o
principal (fruto de uma doação), na
da cidade de Tefé, 450 quilômetros a
construção dos chalés e na aquisição de
oeste de Manaus. Por via fluvial, são 48
cinco lanchas e quatro canoas de maior
horas; de avião, apenas uma hora. Até a
porte. “A operação aqui é custosa, pois
reserva, o caminho é de lancha.
Atravessa-se o Lago de Tefé e segue-se
pelas águas do Solimões até seu encontro
com o Japurá. A reserva começa na
junção dos rios. Exatamente na entrada
“A proposta de ecoturismo
do Instituto é que o
da reserva, os visitantes são recepcionados
por um verdadeiro balé aquático de
botos cor-de-rosa. Os animais brincam
visitante tenha toda a
com as ondas produzidas pela lancha
segurança e possa interagir
Depois de uma hora e meia de
com motor de 40 HP.
de forma consciente com o
navegação, chega-se à Pousada
ambiente ao seu redor”
imensas toras de assacu, presas por um
Nelissa Peralta
Flutuante Uacari, com chalés sobre
travessão de pinheira — árvores típicas
da região —, ligadas a uma sede
Os barcos são o principal
meio de transporte dentro
do complexo turístico
55
t
Instituto na recuperação do flutuante
O acesso a Mamirauá é feito pelo porto
precisamos trazer gasolina, alimentos e
água de Tefé. Mas todo o investimento
vale a pena”, assegura.
A zona de manejo especial possui 11
trilhas na floresta alagada. As excursões
são feitas em grupos de no máximo
quatro pessoas, acompanhadas dos guias
naturalistas locais. Durante a cheia,
usam canoas. As águas escuras formam
um espelho que reflete as imagens das
Material didático é entregue
aos visitantes
árvores, das aves e do céu. “A proposta é
que o visitante tenha toda segurança e
possa interagir de forma consciente com
o meio ao seu redor”, explica Nelissa.
Um visitante ilustre foi o presidente
Fernando Henrique Cardoso. Ele, a
primeira-dama Ruth Cardoso, seus
netos e alguns amigos próximos
passaram o carnaval deste ano na
reserva. No momento, o grande desafio
consiste em ampliar o fluxo de
turistas a Mamirauá. São 300
turistas por ano, a maioria do
exterior. A meta é chegar a mil.
O viveiro experimental garante
alimento o ano inteiro
Retorno social
sanitária em duas vilas. Na área de
Os recursos obtidos pelo Instituto
educação, ajudamos 54 escolas de nível
Mamirauá com o ecoturismo são
básico, 230 professores foram treinados e
reinvestidos em projetos comunitários e de
1.800 estudantes passaram pelo
pesquisa. Os resultados socioeconômicos se
Programa Mamirauá de Educação
mostram surpreendentes na contabilidade
Ambiental. Uma escola flutuante está em
social. “Mais de 4 mil pessoas já foram
construção”, contabiliza Nelissa Peralta.
beneficiadas diretamente com o trabalho
Há mais indicadores relevantes: a taxa de
de dentistas, médicos e campanhas de
mortalidade caiu 50%, a renda familiar
vacinação. Três postos de saúde foram
nas vilas teve um sensível crescimento e,
construídos. Demos apoio a mais quatro
com a diminuição da pesca na reserva,
postos existentes. Foram 150 agentes de
várias espécies de tartarugas e peixes
saúde treinados. Implantamos estrutura
comerciais aumentaram seu estoque.
56
A imagem do
Cristo domina a
paisagem em Silves
Os projetos desenvolvidos em Mamirauá e Silves têm em
comum a preocupação com a proteção das áreas
naturais visitadas pelos turistas, além da geração de
empregos e a produção de alimentos para a população
Outra missão socialmente rentável é o
manejo florestal comunitário, que permite
às comunidades produzir, controlar e
aproveitar, legalmente, os recursos florestais.
Já existem 10 associações formalizadas,
com 260 associados. Mais de 140
comunitários receberam treinamento
em manejo florestal — foram realizados
levantamentos de estoques de madeiras
em 367 hectares. Em um ano na
Turistas e
atividade, os associados obtiveram uma
moradores
enfrentam
renda de R$ 400 por família.
Exemplo vivo dos benefícios é a
balsas e
estradas
comunidade de Vila Alencar, que fica
de terra
alagada nos tempos de cheia. O contato
externo é feito através de um orelhão
movido a energia solar que faz ligações via
pessoas de três famílias: os Martins, os
Carvalho e os Cardoso. Na comunidade,
funciona uma atuante Associação de
Mulheres, que organiza desde a
produção e exposições de artesanatos para
venda aos turistas até a reforma da
horta flutuante. A agente de saúde
Maria Nazareth Lopes Carvalho, 31
anos, há cinco na atividade social,
das crianças. Um trabalho de pesquisa
rigoroso. Vinte e duas crianças do local
aprendem a ler e escrever na Escola
Municipal Nossa Senhora de Fátima.
“As crianças aqui aprendem tudo com
muita facilidade”, garante a professora
Luzinete Mendonça de Pinho, 24 anos.
Base comunitária em Silves
recebendo um salário mínimo mensal,
Um resultado semelhante de
comanda a visita às famílias, acompanha
desenvolvimento comunitário integrado
gestantes, conduz ao hospital quem
ao meio ambiente é proporcionado
precisar e ainda controla o peso e medição
pelos recursos gerados com a atividade
57
t
rádio. Lá residem, em 26 casas, 146
“Nosso sistema utiliza a maior parte da
renda obtida no turismo ecológico em benefício da
conservação do sistema de lagos de pesca da região e
da melhoria das condições de vida da população”
Vicente Raimundo de Almeida Neves
ecoturística na região de Silves, ilha
das condições vida da população,
fluvial localizada no Rio Urubu,
através de uma série de políticas
distante 300 quilômetros a leste de
públicas geradoras de emprego e
Manaus. Iniciado em 1994, foi o
distribuidoras de renda”, conceitua o
primeiro empreendimento comunitário
professor Vicente Raimundo de
de ecoturismo da Amazônia. “Nosso
Almeida Neves, 31 anos, um dos
sistema utiliza a maior parte da
líderes do processo.
renda obtida no turismo ecológico em
O projeto de desenvolvimento do
benefício da conservação do sistema de
ecoturismo é executado pela Associação
lagos de pesca da região e da melhoria
de Silves pela Preservação Ambiental e
Os fiscais da natureza
Eles se definem como os “verda-
do jacaré brilha. Usamos farol, laço,
e tirar filhotes.” Jacaré se orgulha de
deiros fiscais da natureza”. Em
vara, cordas e apanhamos os jacarés
suas histórias. Uma delas: “Pegamos um
Mamirauá, os jacarés contam com
para pesar e marcar. Colocamos neles
jacaré de 3,96 metros. Lutamos com ele
a proteção do líder comunitário, guia
um anel na pata.” Outros ganham um
quase a noite inteira. Uma hora, ele
naturalista e fabricante de farinha
pequeno rádio, para a telemetria.
mergulhou e fugiu. Danado! Depois o
de mandioca João da Silva Carva-
João é facilmente reconhecido pelos
pegamos de novo e pensamos logo num
lho. Aos 42 anos, seu próprio apelido
jacarés. Ele enche seu papo de ar, pressi-
nome: Juvenal. O nome do maior pes-
atesta seu ofício. “Sou o caboclo João
ona a boca e faz um sinal para os ani-
cador predatório do lago. Juvenal, por-
Jacaré.” Ele ajuda o pesquisador
mais. Os jacarés lhe respondem com o
que todo mundo enxerga ele, mas é di-
Roni Silveira a contar os jacarés da
mesmo sinal. “Por aqui se vê milhares
fícil de pegar.”
reserva. Saem por volta das 21h e
de jacarés quando está seco. Em 100
Histórias emocionantes são relatadas
retornam às 4h da madrugada,
metros, pega-se uns 40. Deste total, no
pelos biólogos Patrícia Spina, de 28 anos,
numa canoa de 4,8 metros com mo-
máximo dois são fêmeas. Na seca, os
e pelo chileno Javier Atalah, de 24.
tor de 15 HP e capacidade para ape-
machos enchem Mamirauá. As fêmeas
Ambos atuam no Projeto Boto Vermelho,
nas quatro pessoas. “No escuro, o olho
ficam no lago central, para colocar ovos
coordenado pela pesquisadora Vera da
58
Os lagos e rios da
Cultural (Aspac), ONG com 46 sócios
região de
Mamirauá (E) são
formais e centenas de colaboradores
voluntários. A entidade recebe apoio
o hábitat dos
golfinhos
técnico e financeiro do WWF-Brasil.
O trabalho de conservação de áreas de
várzea na Amazônia contou com o
suporte econômico dos governos da
Áustria, Inglaterra e Suécia, e hoje
trabalha também com recursos do
Ministério do Meio Ambiente, por
meio dos programas Projetos
Demonstrativos/ Amazônia e PróVárzea/Ibama.
Vicente Neves recorda que, no final da
década de oitenta, antes do ecoturismo
De seu posto flutuante
(D), Miguel mantém
ser vislumbrado como alternativa
vigília para evitar
a pesca ilegal
sustentável, a comunidade de Silves se
viu forçada a despertar para a luta
contra um desastre ambiental. A pesca
comercial, predatória, diminuiu o
volume de peixes na região. A redução
dos estoques pesqueiros gerou um
conter a ação de invasores e
da Amazônia, e por Tony Martins, da
pescadores ilegais nos Lagos
British Antartic Surveys, do governo in-
Piramiri e Purema – áreas com
glês. Patrícia e Javier avistam golfinhos
1,5 quilômetro de extensão e 500
durante oito horas por dia. “Já marcamos
metros, em média, de distância
250 animais. Verificamos onde nadam, os
entre as margens. Há um ano e
grupos sociais que formam, quanto tempo
cinco meses na atividade, Miguel
a mãe fica com o filhote, onde se reprodu-
revela que suas armas são seus olhos
zem, rotinas de deslocamento e a estrutu-
e sua lancha. “Já flagramos
ra social do grupo de botos”, conta Javier.
pescadores com um pirarucu pequeno
Na região de Silves, quem adverte não
na rede. Apreendemos a rede, e eles
brincar em serviço é o guarda Miguel
ameaçaram voltar para se vingar.
Rocha Bezerra, de 35 anos. Orgulhoso
Felizmente, não houve confirmação
de se autoproclamar um fiscal da
da ameaça. Mas estaremos sempre
natureza, sua missão consiste em
atentos”, avisa o fiscal.
conflito natural entre os moradores
locais, que realizavam a pesca
artesanal de subsistência, e os
pescadores comerciais que invadiam
Silves. “A pressão da comunidade
t
Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas
Técnicos orientam os
moradores na produção de
mudas de árvores frutíferas
59
acabou levando o município a
instituir uma lei criando dois tipos
de reserva ecológica para proteção
dos rios, lagos e florestas, com suas
espécies naturais”, relata.
A articulação da sociedade acabou
gerando a organização nãogovernamental. Na primeira fase,
entre 1994 e 1996, foi implantada a
infra-estrutura básica de hotelaria e
serviços. A comunidade recebeu
treinamento para sua operação,
capacitação em manejo dos lagos e
orientação legal. Na segunda fase,
entre 1997 e 1999, foram
desenvolvidos roteiros turísticos
operar ecoturismo, a Associação ajudou
educativos, de caráter ambiental,
moradores de Silves a estruturar a
aproveitando a paisagem da região e
Cooptur, a primeira cooperativa de
a cultura das populações tradicionais.
trabalhadores em turismo da
Os resultados econômicos
O Hotel Aldeia dos Lagos entrou em
funcionamento em julho de 1996. O
empreendimento abriga a sede da
Aspac. Para administrar o hotel e
“Conhecemos a
Em sua casa simples, Marcilene
recepciona turistas,
a quem ensina a cultura local
Amazônia. As duas entidades
investiram em treinamento para a
comunidade, na área de recepção ao
turismo. Os alvos foram os
representantes de cinco comunidades
ribeirinhas de Silves.
Ficou decidido que 20% da renda do
hotel seriam investidos no manejo e
fiscalização da reserva ecológica nas
Neves. Em agosto de 2001, o complexo
cultura dos visitantes e
áreas definidas por lei. Um marco do
ganhou melhor infra-estrutura: a área
eles, a nossa. No
trabalho de conservação foi a instalação
útil de recepção aos turistas, um
de uma base de fiscalização flutuante,
mirante no prédio principal e passarelas
piquenique noturno,
entre os lagos Piramiri e Purema. “Em
com entorno paisagístico.
servimos tucunaré assado,
quatro anos, o Aldeia dos Lagos tornou-
O acesso a Silves, partindo de Manaus,
se auto-sustentável. Chegou a gerar um
pode ser feito de carro de Manaus até
lucro líquido de R$ 25 mil. Após um
Camaçari, próximo a Itacoatiara, pela
estudo de viabilidade econômica, o
AM-10. O trajeto dura três horas. De
empreendimento recebeu novos
Camaçari parte uma lancha até Silves,
investimentos”, comemora Vicente
que leva uma hora e 20 minutos de
farinha de mandioca,
e molho da região ”
Marcilene de Farias
60
utilizados para construir um viveiro
experimental de plantas para a criação
de mudas de árvores frutíferas. O
técnico agrícola Descartes Hilme
Grana de Assis, de 22 anos, ajuda a
criar e difundir um modelo de
reaproveitamento da matéria orgânica
para ajudar no replantio de novas
Silves reúne a igreja
mais antiga da
Amazônia e o moderno
hotel sede da Aspac
viagem. Outra opção é totalmente por
via rodoviária, em sete horas de viagem.
Pega-se a rodovia AM-10 até o Km
225; dali segue-se por estrada de terra
até a entrada da ilha. Uma balsa
transporta o veículo até Silves. Na
entrada da cidade, os visitantes verão a
Igreja de Nossa Senhora da Conceição,
considerada a mais antiga da
Amazônia, e uma imagem do Cristo
culturas. “O objetivo é evitar
queimadas e usar o solo da melhor
forma. Estamos formando parcerias em
“Estamos formando
parcerias para difundir o
replantio e melhorar a
qualidade dos alimentos
da população, sobretudo
no inverno, quando o
peixe fica escasso por aqui”
Descartes Hilme Grana de Assis
12 comunidades, envolvendo 15
famílias em cada uma, para difundir a
ambé. “Nós conhecemos a cultura dos
idéia e melhorar a qualidade da
visitantes e eles, a nossa. No piquenique
alimentação da população, sobretudo no
noturno servimos tucunaré assado ou
inverno, quando o peixe fica escasso por
cozido, farinha de mandioca e molho da
aqui.” Descartes é ajudado por Sebastião
região”, relata Marcilene,
de Almeida Grana, de 37 anos, que fez
acrescentando, orgulhosa, que atua
curso de especialização em permacultura.
também na vigilância contra a pesca
Sebastião ensina que a compostagem, em
ilegal. “Os peixes estão voltando.
três pilhas sobrepostas de restos de
Também vamos atuar no consórcio de
alimentos e matéria orgânica, fica
plantas”, comemora.
pronta em quatro meses. “Assim,
8
acabamos com o lixo orgânico no
ambiente”, diz o técnico.
Outro programa em andamento é o de
educação ambiental, destinado, entre
outros aspectos, a fazer com que as
Instituto para o Desenvolvimento
Sustentável de Mamirauá
famílias possam dar sustentabilidade ao
Avenida Brasil, 197 – Tefé – Amazonas
turismo de base ecológica quando
CEP: 69.470-000
recebem os visitantes e transmitem
Tel.: (92) 743-2736
E-mail: [email protected]
www.mamiraua.org.br
Redentor, no ponto mais alto.
informações socializadas. É o caso da
dona de casa Marcilene de Farias, de 33
Associação de Silves pela Preservação
Conquistas sociais
anos, mãe de Railda, Railse e Raimundo
Ambiental e Cultural – Cooperativa de
Júnior, há 11 anos moradora da
Trabalho Ecoturístico e Ambiental da Amazônia
O retorno do ecoturismo está sendo
comunidade Sanabani. Ela recepciona os
investido em educação ambiental e
turistas na casa de madeira louro fofo,
conservação: R$ 2,5 mil foram
com teto de palha amarrada por cipó
Estrada 610, s/n, Ponta do Macário – Silves – AM
CEP: 69.110-000
Tel.: (92) 528-2124
www.wwf.org.br
61
Natureza
revalorizada
A educação ambiental salvou a Ilha de Porto Belo
Um dos principais
Situado numa península que se projeta
pontos ecoturísticos de
sobre o Oceano Atlântico, o Município
de Porto Belo, a 55 quilômetros de
projeto que impediu a degradação do
Florianópolis, guardou durante
local. A iniciativa encontrou uma
preparado para
décadas um tesouro desvalorizado pelo
parceria perfeita na Universidade do
receber visitantes com
turismo predatório: uma pequena ilha
Vale do Itajaí (Univali).
que sofria com visitas desorganizadas
Em pouco tempo e com grande esforço, os
realizadas por pessoas que
38,9 hectares da Ilha de Porto Belo se
acampavam, promoviam churrascos,
transformaram em um dos principais
jogavam lixo por todo o lado e
pontos ecoturísticos de Santa Catarina,
desmatavam o que restava da Mata
oferecendo opções aos amantes de esportes
Santa Catarina foi
hora marcada
Atlântica. As perspectivas para aquele náuticos, aos amantes de trilhas
62
paraíso eram as mais desanimadoras
ecológicas e subaquáticas, aos amantes de
possíveis. Há pouco mais de cinco anos,
praias de águas tranqüilas. Para isso,
porém, os netos do proprietário da ilha,
passou por uma verdadeira revitalização,
Ernesto Stodieck Jr., iniciaram um
que inclui seu funcionamento somente na
FOTO ARQUIVO DO PROJETO
No Município de Porto Belo,
turistas encontram lazer e aprendem a
preservar o meio ambiente
o continente da ilha. Idércio Manoel
verão, passaram 52 dias preenchendo
março — e em horário restrito — das
de Santana, 65 anos, aposentado, diz
questionários. “O resultado mostrou
8h30 às 19h30.
que apesar de ganhar a mesma coisa
como poderíamos manter o
“Valeu a pena, porque daqui a cinco, dez
dos tempos de pesca, vive melhor, por
ecossistema, garantindo o conforto das
anos, a ilha vai continuar sendo um
trabalhar menos.
pessoas e sendo economicamente
excelente lugar, com tendência a
Alunos de graduação e pós-
viável”, explica a professora.
melhorar. Não vai haver praia assim,
graduação em Turismo, Hotelaria,
Entrevistas, muita observação e fotos de
sem casas ou ruas, sem a necessidade de
Oceanografia, Biologia e Marketing
hora em hora ajudaram a definir o
usar guarda-sol em nenhum lugar”,
disputam vagas de estagiários —
número máximo de visitantes por dia
aposta Alexandre Stodieck, o neto que
mais de 100 já trabalharam na ilha,
que podem entrar na ilha sem causar
administra o projeto. O investimento de
responsáveis pela recepção do público,
danos: 1.879, não necessariamente ao
US$ 500 mil causou um profundo
controle de acesso, conscientização
mesmo tempo. O controle de visitação é
impacto na região, a começar pela
ambiental e administração do
uma iniciativa inédita. O estudo é
geração de empregos. Os 17 pescadores
negócio. Veranista de Porto Belo, a
contínuo, com revisões periódicas da
locais fundaram uma associação,
professora Dóris Ruschmann
capacidade e vigilância constante,
compraram uma escuna e adaptaram
coordena os alunos em uma pesquisa
tudo para que a Ilha de Porto Belo
seus barcos para transporte de
que visa a garantir a
vire referência nacional para
turistas nos 900 metros que separam
sustentabilidade da ilha. No primeiro
empreendimentos similares.
t
alta temporada – de setembro a
63
O restaurante serve
camarões pescados
por mergulhadores
A trilha proporciona
aos turistas caminhadas
pela Mata Atlântica
FOTO ADI LEITE
Dóris Ruschmann
coordena pesquisa sobre
a sustentabilidade da Ilha
Banho e esportes
ainda com quiosques na areia,
Schürmann preparam algo que o
aluguel de cadeiras, loja de souvenirs
homem nunca fez”, adianta Cleide
Esse número é atingido com facilidade
e o Centro Eco-Cultural Adventure
Bittelbrunn, funcionária da casa.
no alto verão. A Ilha tornou-se um
House, que foi base da Família
A Ilha também é cercada de história.
ponto familiar para os catarinenses.
Schürmann em sua última viagem. A
Vestígios da presença de humanos,
As praias têm areias brancas e águas
casa funciona como uma espécie de
grupos de coletores e caçadores que se
límpidas e calmas, ideais para o
museu com lembranças, fotos, objetos
estabeleceram na região há 4 mil
banho, com área protegida por bóias
náuticos, artesanato, vídeos e
anos, são observados na Pedra da
amarelas, evitando invasão de
curiosidades dos lugares percorridos
Cruz, relíquia arqueológica com
embarcações. Quem gosta de esportes
pelos velejadores Vilfredo e Heloisa, e
inscrições rupestres talhadas na rocha,
tem à disposição jet ski, esqui
deve crescer em breve. “Para 2003, os
de significado ainda misterioso para os
aquático, barcos de passeio,
equipamento para snorkeling,
banana boat e aqua jump, uma
“O resultado da pesquisa que realizamos com
cama elástica flutuante.
ajuda de estudantes mostrou como poderíamos
Um restaurante de construção rústica
manter o ecossistema, garantindo o conforto das
serve frutos do mar no sistema de
buffet ou a la carte. A ilha conta
pessoas de forma economicamente viável”
Dóris Ruschmann
64
FOTOS ARQUIVO DO PROJETO
A Ilha, com praias
perfeitas, fica a 900
metros do continente
Os turistas contam
com lojas para compra
de souvenirs
FOTO TARCÍSIO MATTOS
Cacau apresenta a
estudantes o projeto
Vivência Ambiental
FOTO TARCÍSIO MATTOS
para a produção de sabão caseiro – o
de peixe que virou logo da ilha. A
excedente é distribuído para a
pedra é alcançada através da trilha
Associação dos Pais e Amigos dos
que cobre boa parte da ilha, e
Excepcionais (Apae) e escolas, além de
proporciona uma ótima caminhada
funcionários e famílias carentes do
pela Mata Atlântica, onde se destacam
município. O lixo é separado e levado
a pitangueira (Eugenia uniflora), o
para o continente. O que é reciclável é
cedro (Cedrela fissilis) e o palmito
vendido e a renda, revertida para os
(Euterpe edulis).
funcionários da equipe de limpeza,
O interessante é mesmo a
motivando-os a recolher mais lixo.
conscientização ambiental. Preparada
Passarelas conduzem os visitantes
para não poluir o mar, a Ilha conta
através da mata e uma estrutura de
com uma pequena estação de
pontilhões evita o pisoteamento da
purificação de resíduos. A água é
vegetação em áreas frágeis da trilha
reutilizada em tarefas de limpeza e nos
ecológica. Placas estão por toda a parte,
banheiros. O restaurante serve
mas dá para notar que o cuidado vem
verduras hidropônicas e sucos naturais.
de cada pessoa, com o estímulo das
O óleo de cozinha vira matéria-prima
beleza naturais.
t
estudiosos. Um dos desenhos é a espinha
65
DO
PROJETO
manipulação de organismos marinhos
vivos. “É tudo bem dinâmico”, diz
Cacau, que já recebeu escolas de São
Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul,
além de Santa Catarina. “Há escolas
que incluem a visita no currículo.”
Ainda no ambiente marinho, a Ilha
tem uma trilha subaquática, que
compreende sete roteiros de mergulho
visando a ensinar o turista a
mergulhar, preservando e
respeitando o ambiente marinho. As
trilhas são feitas com no máximo
cinco pessoas e um monitor. Cada
Atividades práticas
um leva um cartão-guia preso ao
Programas não faltam. Na baixa
que encontrar no mar.
temporada, a Ilha promove o Vivência
A diversidade do mar é grande, já
Ambiental, elaborado para estudantes
que o encontro das águas da corrente
de no mínimo oito anos pelo
marinha fria das Malvinas com a
ambientalista Antonio Carlos Lopes, o
corrente marinha quente do Brasil e
Cacau. A visita é repleta de
das faunas de ambas ocorrem nesta
atividades práticas nas quais os jovens
região. Há ocorrência de lagosta
permanecem em estreito contato com a
(Palinurus argus), camarão-de-garra
natureza, a começar por uma aula
(Palaemon sp.), caranquejo-aranha
ainda no barco, passando pela trilha e
(Sternorhynchus seticornis), siri-azul
pela visita à base dos Schürmann,
(Callinectes danae), o agressivo siri-
terminando em uma aula de biologia
vermelho-da-pedra (Cronius ruber),
marinha na praia, com observação e
diversas espécies de paguros, ouriço-
pulso, para identificar as espécies
“Daqui a cinco, dez anos, a Ilha vai continuar sendo
um excelente lugar, com tendência a melhorar. Não
vai haver praia assim, sem casas ou ruas, sem a
necessidade de usar guarda-sol em nenhum lugar”
Alexandre Stodieck
66
FOTO ARQUIVO DO PROJETO
FOTO ARQUIVO
FOTOS TARCÍSIO MATTOS
O Centro Eco-Cultural
serviu de base para a
Família Schürmann
No local existe
grande diversidade
de vegetação nativa
Alexandre Stodieck
investiu US$ 500 mil no
projeto turístico
verde (Lytechynus variegatus), vieira-
squamata) e o inambu (Crypturellus
pata-de-leão (Nodipecten nodosus) e
obsoletus) foram os mais beneficiados.
outras espécies, como a garoupa
Projetos de pesquisa, como o
(Epinephelus marginatus) e o peixe-
levantamento dos vertebrados e
porco (Balistes carolinensis). Já foram
acompanhamento da biologia de
avistados elefante marinho, orcas e
algumas espécies, estão sendo
baleia franca.
desenvolvidos. Dóris fica satisfeita. “A
A diversidade terrestre não fica atrás.
Ilha está melhor do que eu imaginava
Por conta das atividades de educação
porque a recuperação da natureza foi
ambiental e da rigorosa fiscalização, a
muito forte e bem acompanhada. Era
Ilha tornou-se um paraíso para a
uma terra de todos e de ninguém.” 8
fauna. É possível encontrar cerca de
100 espécies diferentes de aves, como o
martim-pescador-grande, inambu,
Ilha de Porto Belo
araquã, saíras e sabiás. Livres de
Caixa Postal 64 – Porto Belo – SC
caçadores, o tatu-do-rabo-mole
CEP: 88.210-000
(Cabassous sp.), algumas espécies de
aves como o Aracuã (Ortalis
Tel.: (47) 369-4146
E-mail: [email protected]
www.ilhadeportobelo.com.br
67
Fundação
sertaneja vira
atração
Escola no Ceará tem fórmula
pedagógica inovadora
Estudantes e turistas
Um pedaço do tradicional e carente
inscrevem o Município
sertão nordestino está virando um mar
de Nova Olinda na
emprego das tecnologias de informação
era da comunicação
digital de massa
de prosperidade turística, graças ao
pela juventude. Ao criar a Escola de
Comunicação da Meninada do Sertão,
a ONG Fundação Casa Grande
Memorial do Homem Kariri
FOTOS MARCO A
NTÔNIO
REZENDE
transformou-se numa atração turística
premiada mundialmente pelo Unicef,
na região da Chapada do Araripe, no
Sul do Estado do Ceará. A instituição é
administrada pelos 70 alunos, cuja
faixa etária varia de três a 18 anos.
Indiretamente, por mês, atende a 3 mil
estudantes que fazem pesquisas em seus
laboratórios. O espaço cultural recebe
uma média mensal de 3 mil turistas,
brasileiros e estrangeiros, a maioria
professores e pesquisadores.
68
A prova viva de que uma escola, com
uma fórmula pedagógica inovadora,
pode contribuir rapidamente para o
“O que temos aqui, hoje
desenvolvimento do turismo está
estampada no letreiro luminoso expondo
em dia, é o resultado de
a imagem do prédio histórico da ONG.
um trabalho unido, no
O portal gigante fica na entrada do
Município de Nova Olinda, a 560
qual cada criança moldou
quilômetros de Fortaleza. Um lugar
o espaço de acordo
que pareceria parado no tempo se os seus
12 mil habitantes não estivessem
ingressando, gradualmente, na era da
com a sua vontade”
Alemberg Quindins
multimídia e da comunicação digital de
massa. As atividades da juventude na
Fundação renderam ao município o selo
de pólo turístico regional da Embratur
— Instituto Brasileiro de Turismo.
Para justificar por que a experiência é
bem sucedida, os idealizadores do projeto
retornam a 1992, quando tudo
começou. Os músicos e pesquisadores
Alemberg Quindins e sua mulher
Rosiane Limaverde, ambos de 37 anos,
ressaltam que o que se vê hoje é fruto de
um investimento inicial de apenas
R$ 200 mensais. “Sobrevivemos com
essa quantia por mês durante os
primeiros quatro anos. Nos três anos
seguintes, passamos a viver com R$ 750
ao mês, vindos da prefeitura”, conta
Alemberg.
“Atualmente funcionamos com R$ 8
Instituto Ayrton Senna, aos nove
t
mil mensais, graças ao convênio com o
Mesmo com foco
na tecnologia, os alunos
se integram a uma
realidade repleta de arte
e tradições populares
69
salários mínimos que recebemos da
prefeitura e aos recursos de alguns
projetos pontuais com o Unicef.
Também recebemos uma doação
mensal de R$ 500 de uma pessoa
física no Rio de Janeiro”, revela
Rosiane, acrescentando que os recursos
são todos aplicados nas atividades,
obtendo o máximo de retorno. “Nosso
modelo gerencial aposta cada centavo
e esforço na capacidade
empreendedora, responsável e,
sobretudo, criativa dos jovens. Por isso,
buscamos construir um exemplo da
define sua linha filosófica de atuação
aplicação do conhecimento com boa
para os alunos atendidos diretamente.
gerência”, atesta o pesquisador.
“Estamos promovendo a
“Quando fundamos o Memorial do
democratização dos meios de
Homem Kariri, crianças e jovens
comunicação, a serviço da educação.
foram atraídos. Vieram por eles
Nosso trabalho pedagógico é voltado
mesmos, ao longo do tempo. Um misto
para o desenvolvimento da cidadania e
de carência e vontade deles próprios.
da auto-estima dos jovens sertanejos.
O que temos aqui, hoje em dia, é o
Provamos que os mesmos meios de
resultado de um trabalho unido, onde
comunicação que aculturam
cada criança moldou o espaço de
negativamente os jovens podem
acordo com sua vontade. O nível de
também culturá-los, no sentido positivo
informação que eles têm agora,
do termo”, comemora.
logicamente, não é comum num sertão
Alemberg Quindins admite que esse é o
destes. A Casa Grande representa a
motivo pelo qual a Casa Grande serve
entrada, com modernidade, da
de complemento à educação dos jovens
tecnologia de informação no interior do
do sertão, com dezenas de atividades
Brasil”, avalia Alemberg.
extracurriculares. A Fundação
O diretor da Fundação Casa Grande
mantém uma parceria com a
“Nosso modelo gerencial aposta cada centavo
e esforço na capacidade empreendedora,
Secretaria de Educação do Estado do
Ceará, que avalia pedagogicamente os
jovens. Tanto o índice de aprovação
quanto o percentual de não-evasão são
idênticos: 100%.
Das ruínas ao sucesso
No início dos anos oitenta, Alemberg e
Rosiane resolveram estudar as lendas
e desvendar a história dos sertões. A
responsável e, sobretudo, criativa dos jovens”
Alemberg Quindins
70
Avaliados pelo Estado, os
alunos atingem o índice de
100% de aprovação
curiosidade despertada pelo casal foi
tanta que, nas viagens que fizeram,
acabaram recebendo, de presente dos
Alemberg recebeu outro presente: sua
Comprado pela
família lhe doou o imóvel da Casa
Fundação, o
prédio da escola
O artesanato da
é o símbolo de
Nova Olinda
região é uma
atração a mais
para o turismo
Grande. Depois de restaurá-la
arquitetonicamente com apoio da
prefeitura, o músico entrou com seu
acervo histórico.
Outra façanha foi a recuperação de
outro prédio histórico, onde funciona a
Escola de Comunicação da Meninada
do Sertão. Foi o segundo monumento
histórico resgatado e restaurado de
Nova Olinda. A Fundação Casa
Grande o adquiriu em 1997. O imóvel
foi sede da primeira escola do
município, cuja obra começou em
1950, construída por Alvino Ribeiro
de Carvalho. “O colégio foi um
Dona Toinha hospeda
turistas, enquanto
Cristiano é recepcionista
na Casa Grande
presente dado à esposa, Josefa de
Matos Cordeiro, a professora Zefinha,
a primeira formada do local, para que
ela pudesse desenvolver sua vocação e
educar a população”, informa Alemberg.
A história mais contemporânea quem
sertanejos, machados de pedra,
ergueu-se a Casa Grande da Fazenda
relata é o recepcionista Cristiano Souza
cachimbos, pequenos objetos de barro e
Tapera. Em 1933, foi comprada da
Silva, de 14 anos, um dos alunos da
vários materiais que indicavam ser da
família Filgueiras de Barbalha pelo
Casa Grande. Logo na entrada do
pré-história do sertão. O material
comerciante local de rapadura Manoel
antigo prédio azul, ele informa que o
coletado era tão volumoso que, em
Ferreira Lima, avô de Alemberg.
visitante está entrando na sala do
1992, tiveram a idéia de arranjar um
Mais conhecido como Neco Trajano, ele
Sagrado Coração de Jesus. Ali se
espaço para guardar as preciosidades.
pagou dois contos de réis: um conto no
defronta com um altar, com céu e
Um memorial seria o ideal. Melhor
ato da compra e a outra metade após
sobrecéu, e um oratório, dentro do qual
ainda se fosse montado em um ponto de
um ano. Após a compra, Neco Trajano
fica a imagem de Santa Bárbara, a
referência histórico. Havia em Nova
convocou seu primo, o mestre-de-obras
santa de devoção da Casa. Cristiano
Olinda um lugar com memória
Odilon Ferreira de Lima, para dar à
apresenta a imagem do índio
registrada desde 1717, onde foi
Casa Grande sua atual fachada. O
Kariuzinho, protetor da Casa e uma das
demarcada a Tapera da Água Saída
imóvel foi habitado até 1975, quando
primeiras esculturas em madeira
do Mato. O lugar era o ponto de
acabou abandonado, ficando em
encontradas por Alemberg Quindins.
encontro de tropeiros. O primeiro
ruínas. Em 1992, motivado pela idéia
O recepcionista mostra peças de cerâmica
prédio foi feito em taipa no chão
de criar um centro de memória,
e fotos de pinturas rupestres, nas
t
batido, sem paredes laterais. Ali
71
Iniciativas premiadas
cavernas, e apresenta alguns mitos
sertanejos contidos em pontos turísticos da
Chapada do Araripe. O recepcionista fala
Alemberg Quindins considera uma honra
de personagens que povoam as lendas,
que a Fundação Casa Grande promova o ca-
resumindo as histórias que traduzem seus
samento entre o sertão e a tecnologia da infor-
feitos. “Na pedra de Claranã, segundo a
mação, transformando a região do Cariri em
lenda, nas noites de lua cheia, aparece um
um mar agitado de ondas digitais. Tanto agi-
carneiro de ouro pulando nas janelas do
castelo. Temos também a Pedra da Torre,
a Furna de Brejinho, a Ponte de Pedra e
a Pedra do Convento, onde vive a
Serpente Encantada.”
to na comunicação rendeu à Fundação o PrêFotos de pinturas
mio Criatividade Patativa do Assaré, um tro-
são manifestações
artísticas apreciadas
féu da Unicef que reconhece a eficiência edu-
no sertão
tica, pelos seus próprios alunos, que começam
As novas lendas vivas
futuro, é a maneira na qual meninos e
Na visão de Alemberg Quindins, o que
influenciando uma cidade inteira e
está mesmo virando lenda e, com
servindo de bom exemplo educacional,
grandes chances de consagrar mitos no
em prol do desenvolvimento turístico e
meninas, de brincadeira, estão
da conseqüente geração de renda para a
população local. “É evidente o impacto
do nosso projeto nas políticas públicas e
na mobilização de parcerias.”
O pesquisador se refere a três ações
socialmente impactantes. Primeiro, o
projeto Anne Mariane, trabalho de
preservação e restauração de fachadas
das casas. Em parceria com a empresa
Idealizadores da
Casa Grande,
Rosiane e Alemberg
comemoram o
sucesso do projeto
cacional de uma entidade gerenciada, na prá-
Hidracor e a prefeitura, os alunos e a
comunidade reformaram e pintaram os
como recepcionistas, passam para a área de
multimídia e viram administradores.
Além do museu, a Escola de Comunicação
dispõe de brinquedoteca, biblioteca aberta à comunidade, videoteca e discoteca. Outro destaque é a Bandinha de Lata, com material
pesquisado e feito pelas próprias crianças, que
promovem o show “A Lenda”, famoso nas cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Fortaleza.
Também faz sucesso em cinco municípios da região a Rádio Casa Grande (104,9 FM). A
emissora tem 14 horas de programação diária,
das 5h às 22h. Com o slogan “a rádio que educa”, oferece mais de 30 programas: MPB, forró
de pé-de-serra, cantoria, moda de viola, música caipira, música clássica, velha-guarda, instrumental, jazz, blues, rap e sucessos internacionais, além de noticiário. Tudo produzido por
mais de 30 crianças, que atuam de sonoplastas,
produtores, roteiristas e apresentadores.
Uma outra equipe — de 10 jovens e cinco
crianças aprendizes — cuida da Casa Grande Editora. Ali se produzem, quinzenalmen-
A escola oferece
conforto aos
estudantes
72
te, o jornal “Kariuzinho” e coleções de revistas
em
quadrinho.
Roteiristas,
diagramadores, desenhistas, arte-finalistas e
imóveis com cores fortes, resgatando
a riqueza matuta. Segundo, o
embelezamento do espaço urbanístico
— uma necessidade, depois do interesse
turístico despertado pela Casa Grande.
O município faz a reforma e cria
praças. A fundação doa e planta
mudas de árvores como a Samaúma
(considerada sagrada pelos índios
Kariri-Kariú) e Neen (planta trazida
da África, resistente à falta d’água).
Terceiro, em parceria com o Sebrae, a
área Hotelaria, no projeto de
capacitação dos pais dos alunos que
A TV Casa Grande e
a Bandinha de Lata
são duas experiências
montaram uma cooperativa e criaram
espaços em suas residências para receber
de sucesso
desenvolvidas pela
turistas. As pousadas domiciliares já
aumentaram em 70% a renda de
Fundação
famílias que sobreviviam com salário
mínimo. “Recebo gente de todo canto,
até do exterior”, relata dona Toinha,
apelido carinhoso de Antônia Maria
da Conceição Marôpo. De cada
turista, são cobrados R$ 3 pela
refeição, R$ 10 pela hospedagem e R$
1 de taxa de serviço. Já há quatro
programadores visuais em formação cui- Arraes, engenho de artes cênicas e visuais, vi-
pousadinhas em funcionamento. A
dam da programação visual dos materi- zinho à ONG. Segundo Alemberg Quindins,
meta é chegar a 10. Os pais já
ais de divulgação da Fundação.
fizeram cursos de culinária, receptivo
será um laboratório de formação de futura
A TV Casa Grande é outra experiência platéia para atividades de música, dança, te-
turístico e doces e salgados.
8
bem sucedida: forma jovens em locução, atro, cinema e vídeo. A entidade contará com
sonoplastia, iluminação, câmera, edição, pro- um reforço econômico: uma verba de R$ 350
dução e roteiro. Também foi confeccionada mil, a fundo perdido, do Banco Nacional de
Fundação Casa Grande
uma revista em quadrinhos. O material será Desenvolvimento Econômico e Social
Memorial
distribuído aos 550 mil estudantes da rede (BNDES), para modernização dos laborató-
do Homem Kariri
pública estadual do Ceará.
rios de TV, rádio e informática. “Vamos conso-
A próxima novidade da Fundação Casa lidar nossa escola, que é uma universidade de
Grande será a inauguração do Teatro Violeta comunicação para a infância”, prevê.
Avenida Jeremias Pereira, 444 – Nova Olinda –
Ceará – CE
CEP: 63165-000
Tel.: (88) 546-1333 e 523-4104
E-mail: [email protected]
73
Novas diretrizes
curriculares
MEC redireciona cursos de Turismo
A Lei de Diretrizes e Bases aprovada
em abril deste ano dá maior
flexibilização à graduação
Profissionais especializados e cursos
mais diversificados. É o que se espera
das alterações propostas pelo
Ministério da Educação (MEC) para
diversos cursos de graduação, entre eles
os de Turismo e Hotelaria. A
mudança foi aprovada em abril e deve
ser incorporada ao longo do ano aos
currículos das universidades
brasileiras. Pelas novas diretrizes, as
instituições terão mais liberdade para
organizar seus cursos segundo projetos
pedagógicos específicos, oferecendo
disciplinas e atividades de acordo com
espaço e tempo determinados,
disponibilizando maior qualificação
na formação do profissional.
O professor Miguel Bahl, do curso de
74
Turismo da Universidade Federal do
FOTOS JULIO CESAR SOUZA
O MEC dispõe de consultores que
Paraná (UFPR), acredita que a
verificam as novas instituições e
mudança terá resultados favoráveis a
submetem os relatórios à Comissão de
curto prazo. “É positivo, num país
Especialistas. Em média, são 15 por
como o nosso, dispor de cursos com
mês, entre Turismo e Hotelaria,
estruturas e aprofundamentos
muitos deles trazendo novas
diferenciados, mas é preciso cuidado
dinâmicas. Apesar das vísiveis
para não abrir demais, senão teremos
diferenças, o professor aposta que as
dificuldade para identificar os perfis.”
instituições vão buscar uma
Miguel vem atuando como membro
compatibilidade, já que haverá mais
da Comissão de Especialistas de
recomendações do que obrigações por
Ensino em Turismo, que avalia e
parte do Governo Federal. A atuação
reconhece novos cursos. Da comissão,
“É positivo dispor de
fazem parte ainda os professores
cursos com estruturas
nortear as linhas básicas dos cursos. “A
Godói Trigo.
diferenciadas, mas é
Turismo é planejamento, organização
Segundo Bahl, além de investir em
preciso cuidado para
e gestão do turismo, que engloba todo
diversificar suas especialidades.
não abrir demais,
tendências mais recentes. É uma área
“Somente Curitiba oferece 10 cursos.
senão teremos
Mirian Rejowski e Luiz Gonzaga
qualidade, as universidades terão que
É preciso haver distinções.” Para ele, a
especialização direcionará os alunos.
dificuldade para
A UFPR, por exemplo, tem, no
identificar os perfis”
das comissões será imprescindível para
linha mestra de qualquer curso de
o mercado. A pesquisa e o ensino são
emergente.”
Até pouco tempo, vigorava a Lei de
Reforma Universitária de 1968, que
fixava currículos mínimos, assegurava
quarto ano, um processo de ênfases
a facilidade nas transferências,
voltadas para o mercado, com
estabelecia a duração dos cursos e
Turismo, sem contar os de Hotelaria.
observava a uniformidade dos
específicos: agenciamento; alimentos e
Os cursos de especialização e pós-
conteúdos. A grade curricular era
bebidas; eventos; planejamento de
graduação também estão crescendo,
considerada extremamente rígida por
lazer e recreação; hotelaria e meios de
principalmente depois de 1996, e
aprisionar os alunos aos mesmos
hospedagem; planejamento de áreas
diversos livros sobre o assunto vêm
conteúdos sem levar em conta as
naturais; planejamento de áreas
sendo lançados. “Temos quase 5 mil
diferentes contextualizações. As
urbanas; e transportes. “A
municípios. Mercado existe, mas ele
Diretrizes Curriculares de 1997 já
profissionalização é fundamental para
precisa ser burilado”, explica Bahl,
foram um avanço, assegurando uma
expandir o turismo no Brasil”, diz ele.
lembrando que muitos alunos são
certa flexibilidade para as
Não é à toa que o País comporta mais
formados em outras carreiras em
universidades, agora ampliadas. As
de 250 cursos de graduação em
busca de novas opções.
instituições foram convocadas a
t
aprofundamento em segmentos
75
Competências e habilidades
76
O artigo 9º das Diretrizes Curriculares de 2002 diz que
artesanais, gastronômicas, religiosas, políticas e outros
o curso de graduação em Turismo deve possibilitar ao pro-
traços culturais, como diversas formas de manifestação
fissional ter, no mínimo, as seguintes competências e habi-
da comunidade humana;
lidades:
XI. domínio de métodos e técnicas indispensáveis ao estu-
I. compreensão das políticas nacionais e regionais sobre
do dos diferentes mercados turísticos, identificando os
turismo;
prioritários, inclusive para efeito de oferta adequada a
II. utilização de metodologia adequada para o planeja-
cada perfil do turista;
mento das ações turísticas, abrangendo projetos, planos e
XII. comunicação interpessoal, intercultural e expressão
programas, com os eventos locais, regionais, nacionais e
correta e precisa sobre aspectos técnicos específicos e da in-
internacionais;
terpretação da realidade das organizações e dos traços
III. positiva contribuição na elaboração dos planos muni-
culturais de cada comunidade ou segmento social;
cipais e estaduais de turismo;
XIII. utilização de recursos turísticos como forma de educar,
IV. domínio das técnicas indispensáveis ao planejamento e
orientar, assessorar, planejar e administrar a satisfação das
à operacionalização do Inventário Turístico, detectando
necessidades dos turistas e das empresas, instituições públicas
áreas de novos negócios e de novos campos turísticos e de
ou privadas, e dos demais segmentos populacionais;
permutas culturais;
XIV. domínio de diferentes idiomas que ensejem a satisfa-
V. domínio e técnicas de planejamento e operacionalização
ção do turista em sua intervenção nos traços culturais de
de estudos de viabilidade econômico-financeira para os
uma comunidade ainda não conhecida;
empreendimentos e projetos turísticos;
XV. habilidade no manejo com a informática e com ou-
VI. adequada aplicação da legislação pertinente;
tros recursos tecnológicos;
VII. planejamento e execução de projetos e programas es-
XVI. integração nas ações de equipes interdisciplinares e
tratégicos relacionados com empreendimentos turísticos e
multidisciplinares, interagindo criativamente face aos di-
seu gerenciamento;
ferentes contextos organizacionais e sociais;
VIII. intervenção positiva no mercado turístico com sua
XVII. compreensão da complexidade do mundo
inserção em espaços novos, emergentes ou inventariados;
globalizado e das sociedades pós-industriais, onde os seto-
IX. classificação, sob critérios prévios e adequados, de es-
res de turismo e entretenimento encontram ambientes
tabelecimentos prestadores de serviços turísticos, incluin-
propícios para se desenvolverem;
do meios de hospedagem, transportadoras, agências de tu-
XVIII. profunda vivência e conhecimento das relações
rismo, empresas promotoras de eventos e outras áreas, pos-
humanas, de relações públicas, das articulações
tas com segurança à disposição do mercado turístico e de
interpessoais, com posturas estratégicas do êxito de qual-
sua expansão;
quer evento turístico;
X. domínios de técnicas relacionadas com a seleção e ava-
XIX. conhecimentos específicos e adequado desempenho
liação de informações geográficas, históricas, artísticas,
técnico-profissional, com humanismo, simplicidade, segu-
esportivas, recreativas e de entretenimento, folclóricas,
rança, empatia e ética.
encaminhar propostas para a
elaboração das diretrizes, a serem
sistematizadas pelas Comissões de
Especialistas de Ensino de cada área.
Dessa forma, o MEC publicou um
documento a ser seguido por todas as
áreas e outro específico para cada
uma, levando em conta suas
especificidades.
Há outras inovações. O estágio
supervisionado passa a contar como
conteúdo curricular implementador
do perfil do formando, de acordo com
a especialidade desejada, mas também
pode ser feito na própria instituição,
em laboratório próprio. Atividades
complementares como projetos de
pesquisa, seminários e congressos
podem ser aproveitados no currículo.
A monografia passa a ser opcional,
ficando a forma de avaliação a cargo
de cada instituição. Miguel Bahl
lembra que é apenas um começo: “A
médio prazo, ainda será preciso
reavaliar se estamos no caminho certo”. 8
Ministério da Educação (MEC)
Esplanada dos Ministérios Bloco L
Brasília – DF
CEP: 70.047-900
Tel.: (61) 410-8484
“A linha mestra de qualquer curso
de Turismo é planejamento, organização e
gestão do turismo. A pesquisa e o ensino
são tendências mais recentes”
77
Gestão
ambiental
O foco está nos usuários dos recursos naturais
O ecoturismo é
estabelecimento de normas de proteção
inteiro ao meio ambiente, dividindo as
à fauna e à flora. No contexto dos
responsabilidades entre o Estado e
movimentos de contracultura e das
coletividade.
lutas dos pacifistas contra as guerras,
O Instituto Brasileiro do Meio
se evidenciam os problemas
Ambiente e dos Recursos Naturais
ambientais. No Brasil, somente na
Renováveis (Ibama) nasceu em 1989
década de setenta o Governo se
da fusão de quatro entidades:
comprometeu com a preservação do
Secretaria do Meio Ambiente (Sema),
Se o conceito de gestão ambiental é
meio ambiente por meio de sua
Superintendência da Borracha
novo, o reconhecimento da
participação em convenções e reuniões
(SUDHEVEA), Superintendência da
importância dos recursos ambientais
internacionais, mais particularmente
Pesca (Sudepe), e o Instituto
do Brasil remonta ao descobrimento,
na Conferência das Nações Unidas
Brasileiro de Desenvolvimento
quando Pero Vaz de Caminha relatou
para o Ambiente Humano, realizada
Florestal (IBDF). No ano seguinte, foi
sobre as possibilidades de exploração de
em 1972, em Estocolmo, Suécia. No
criada a Secretaria do Meio
nossas riquezas e belezas naturais à
ano seguinte, foi criada a Secretaria
Ambiente (Semam). O Ministério do
Corte de Portugal. Até a década de
do Meio Ambiente e mais tarde os
Meio Ambiente (MMA) foi criado
1960, no entanto, os recursos
órgãos reguladores, como o Conselho
após a realização, em junho de 1992,
ambientais eram tratados de forma
Nacional do Meio Ambiente
no Rio de Janeiro, da Conferência da
isolada e as preocupações com o meio
(Conama). A Lei 6938/81 e a
ONU sobre Meio Ambiente e
ambiente limitavam-se ao
Constituição de 1988 deram passos
Desenvolvimento, mais conhecida
saneamento, à solução de problemas
decisivos para a formulação da nossa
como Rio-92. O MMA, o Ibama e o
provocados por secas e enchentes, à
política ambiental. Pela primeira vez,
Conama constituem o Sistema
conservação de parques e ao
a Constituição dedicou um capítulo
Nacional de Meio Ambiente
um dos eixos temáticos
de atuação
da educação
ambiental do Ibama
78
(Sisnama), com os respectivos órgãos
potencialmente perigosos; executar o
cenários, com vistas ao planejamento
estaduais (nas 27 unidades de
controle e a fiscalização ambiental nos
ambiental, entre outros.
federação) e municipais (em cerca de
âmbitos regional e nacional;
O pesquisador Elísio Márcio de
1,3 mil municípios).
monitorar as transformações do meio
Oliveira, mestre na área de Política e
Ao Ibama, órgão responsável pela
ambiente e dos recursos naturais;
Gestão Ambiental pelo Centro de
execução da política ambiental
manter a integridade das áreas de
Desenvolvimento Sustentável, da
brasileira no âmbito das competências
preservação permanentes e das
Universidade de Brasília, é um dos
da União, compete promover a adoção
reservas legais; promover a pesquisa, o
responsáveis pela estruturação de uma
de medidas de controle de produção,
desenvolvimento e a difusão de normas
proposta de educação na gestão
utilização, comercialização,
técnico-científicas voltadas para a
ambiental. “A idéia é instituir política
movimentação e destinação de
gestão ambiental; e desenvolver
pública com foco nos usuários de
substâncias químicas e resíduos
estudos verificando tendências e
recursos naturais”, explica, citando
trabalhadores, pescadores, produtores
rurais, seringueiros e coletores.
FOTOS LEOPOLDO SILVA
“Trabalhamos com os diversos
segmentos sociais que têm implicação
com a questão ambiental.”
Se o trabalho hoje é facilitado por
conta da questão ambiental estar
mais presente no dia-a-dia das
pessoas, por outro lado, as demandas
são bem maiores. “É uma área que
exige formulação, que exige estudo, e
Oliveira. O objetivo é desenvolver
t
temos poucos profissionais”, justifica
“A educação é uma
questão de confiança.
Quando a confiança se
estabelece, o próprio
autor passa a controlar
t
alternativas de impacto
que são geradas”
79
dos núcleos de educação, a
Coordenadoria conta com uma área de
Instrumentos e Metodologias, que
edita livros e vídeos, e outra de
Capacitação, que desenvolve cursos de
Introdução à Educação na Gestão
Ambiental, geralmente ministrados no
Centro de Pesquisa do Nordeste
(Cepene), que fica em Tamandaré
(PE), estruturado com alojamento,
cozinha industrial, salas de aula,
auditório e equipamentos. É um curso
de 15 dias, denso, que exige graduação
“Na realidade, o que a
em qualquer área e vinculação a
ambientais, o que é feito diretamente
gente está tentando fazer
chega a ser especialização por causa da
pela equipe de educadores dos Núcleos
com a educação é
carga horária, mas funciona como
supervisionados pela Coordenadoria
que ela construa
para os projetos, que dependem de
de Educação Ambiental em Brasília.
soluções. A prioridade
formação de educadores para a
seis em centros de pesquisa. Cada
são os segmentos sociais
uma relação de confiança. Quando
núcleo tem em média três educadores.
de menor possibilidade”
comportamentos, atitudes e
habilidades para o trato das questões
de Educação Ambiental (NEAs),
São 33 NEAs, 27 por estado e mais
A Coordenadoria, que conta com 11
atividades de educação ambiental. Não
uma estratégia de fortalecer parcerias
implantação de projetos. “A educação é
essa confiança se estabelece, o próprio
autor passa a controlar alternativas de
impacto, que são geradas.” As práticas
técnicos, promove o desenvolvimento
das metodologias. As ações são
perspectiva participativa. Cada um
são diferenciadas, mas de uma
divididas em 11 eixos temáticos, entre
recebe um parecer. Se for favorável, o
maneira geral a metodologia se
eles o ecoturismo, o manejo da flora, o
projeto é aprovado”, conta o
constrói pela participação.
ordenamento pesqueiro e a prevenção
pesquisador. A aprovação garante o
“Em Alagoas, por exemplo, nós temos
de desmatamento e queimadas. Hoje,
repasse dos recursos. Os não-aprovados
trabalhado com o segmento de
há cerca de 80 projetos em análise,
são reformulados a partir das
pescadores. No final do ano passado,
com temas bastante amplos.
recomendações da análise.
fizemos um Encontro Norte/Nordeste
“Primeiro capacitamos os técnicos dos
Os NEAs trabalham construindo
da Pesca com 700 lideranças da classe,
NEAs e das unidades
parcerias com órgãos de meio
onde foram discutidas questões diversas
descentralizadas, que desenvolvem os
ambiente dos estados ou dos
de interesses daqueles grupos sociais.
projetos em parcerias com instituições
municípios, ou com movimentos sociais
Por exemplo, a organização da
diversas. Os projetos formulados
organizados, que compartilham a
categoria. Eles têm uma Confederação
devem refletir os contextos locais com
estrutura do projeto. Além dos projetos
Nacional, constituída pelas Federações
80
Estaduais, que são compostas pelas
tentando fazer com a educação é que ela
A educação ambiental é estruturante
colônias de pescadores locais. O
seja um processo comprometido com a
em todos os sentidos. Para gerenciar um
Ministério da Agricultura dá
construção de soluções. Nossa ação
empreendimento, é necessário discutir,
autorização de pesca, e cabe ao Ibama
prioritária é com os segmentos sociais
negociar, formular soluções. “Se você não
a fiscalização. Normalmente, os
mais afetados e com menor possibilidade
dá os instrumentos básicos para a
pescadores têm muitos problemas de
de ver realizados seus direitos de
população se autogerir, ela vai ficar
diálogo com o INSS [Instituto
cidadania. É preciso criar alternativas
sempre dependente. Uma das formas de
Nacional do Seguro Social], com a
para agregar o máximo de valor aos
adquirir emancipação é ser capaz de
Marinha. Por isso, nosso trabalho não
produtos. Se uma família de agricultores
tomar nas suas próprias mãos suas
se prende somente ao ordenamento do
planta cupuaçu, que venda diretamente
decisões. Para fazer isso, ela tem que
recurso, mas também em busca da
a polpa para o supermercado,
estar capacitada”, acredita Oliveira.
superação de problemas e da qualidade
agregando o máximo de valor, ao invés
“Tenho clareza de que a educação por si
de vida. Trabalhamos com a questão
de vender a fruta na feira. A educação,
só não soluciona os problemas. Tem uma
ambiental enquanto espaço de relação
além do conhecimento, precisa oferecer o
dimensão política, uma dimensão social,
da sociedade com a natureza.”
aporte tecnológico. Por isso ela é
uma dimensão econômica, que são
Outro projeto da mesma região, esse na
estruturante”, explica.
relevantes para a sustentabilidade. A
educação é uma delas.”
área de ecoturismo, fica em uma Área
de Proteção Ambiental (APA) dos
Corais, na costa brasileira, uma área
“O conhecimento só não
A política de educação ambiental é
contrária à questão de se levar soluções
que abrange nove municípios em
é suficiente. Tem uma
Alagoas e quatro em Pernambuco.
dimensão política, uma
com o indivíduo. “Se ele produz uma
significativa, onde se pode ir de
dimensão social, uma
seda para enrolar, faz um trançadinho
jangada para os recifes e ficar lá no
dimensão econômica que
bonito de artesanato. As singularidades
Oliveira. O Ibama está trabalhando
são relevantes para a
trabalho da menina que está
no ordenamento da pesca na região e
sustentabilidade”
“Uma área de beleza cênica muito
meio do mar tomando banho”, conta
na proteção da área, pois a grande
prontas. A solução deve ser construída
bala, ao invés de pegar um papel de
são marketing, além de respeito ao
ajudando a mãe a fazer artesanato.
A educação deve ter o compromisso de
biodiversidade concentra muitos
criar uma série de alternativas que
cardumes. O projeto prevê o
viabilizem e dêem retorno efetivo para
equacionamento do uso sustentável
aquele grupo social.”
8
tanto da pesca quanto do turismo para
alavancar o desenvolvimento local. As
13 prefeituras participaram de um
seminário no ano passado e criaram
um consórcio para um programa de
desenvolvimento bioregional.
“Na realidade o que a gente está
Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (Ibama)
SAIN Avenida L4 Norte, s/n – Brasília – DF
CEP:70.800-200
Tel.: (61) 316-1190
www.ibama.gov.br
81
Leticia Lemos Sampaio
Desenvolvimento
sustentável em foco
esforço necessário para mudar o País.
Temos a consciência de que o Brasil não
realizará seu potencial sem educação. É
preciso que os cidadãos reconheçam seus
direitos, e para isso a educação é
fundamental. Na atividade turística,
Instituto Souza
Souza Cruz, Leticia Lemos Sampaio,
não é diferente. O turismo é gerador de
Cruz implementa
vê as parcerias como ferramentas para
renda, de trabalho, uma atividade que
oferecer novas oportunidades de
está conquistando espaço definitivo junto
qualificação e, conseqüentemente, de
a diversos setores, com um mercado amplo
renda para jovens brasileiros.
destinado principalmente a jovens cheios
comunidades carentes
em regiões turísticas
Comprometido com a causa da educação
para o desenvolvimento humano
sustentável, o Instituto Souza Cruz foi
criado em 2000 com o objetivo de
promover projetos em Educação para
Valores, para o Meio Ambiente, para o
Empreendedorismo e para o Turismo.
Neste último campo, o Instituto começa
a implementar os primeiros projetos,
de potencialidades.
Recentemente o Instituto Souza Cruz
formalizou uma parceria com o
Como o Instituto Souza Cruz
Instituto de Hospitalidade,
espera contribuir nessa área?
organização não-governamental que
Buscamos desenvolver nas novas
tem como compromisso promover
gerações habilidades básicas,
capacitação e qualificação na área de
específicas e de gestão necessárias
turismo. Esse é o caminho para
para ingressar, permanecer e
valorizar o turismo no Brasil?
progredir no campo do turismo. O
A principal missão do Instituto Souza
Instituto Souza Cruz entende que o
Cruz é atuar como uma força
turismo gera grandes oportunidades
transformadora, capaz de participar do
e está trabalhando na construção
voltados para a sustentabilidade de
comunidades carentes que vivem em
regiões com potencialidades turísticas —
uma, no litoral da Bahia; outra, na
divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro.
A diretora executiva do Instituto
82
“O turismo é gerador de renda, de trabalho,
uma atividade que está conquistando
espaço definitivo junto a diversos setores”
t
projetos voltados para
FOTOS LUCIANO MATTOS BOGADO
83
de alguns núcleos de produção imediata,
que comecem a produzir e gerar
oportunidades para pessoas das
comunidades. Serão novas oportunidades
de trabalho nesta região.
Como funcionará a escola?
A Escola de Produção vai oferecer hortas
orgânicas e cursos de capacitação para
professores e moradores. Estamos abrindo
espaço para que a associação de
moradores tenha ampla participação.
“Buscamos desenvolver nas novas gerações habilidades
Assim como a construção será feita em
regime de mutirão remunerado, também
básicas, específicas e de gestão necessárias para
estamos organizando os cursos de acordo
ingressar, permanecer e progredir no turismo”
Vila Sauípe e das localidades próximas.
com as necessidades dos moradores da
Como o turismo pode impulsionar o
desenvolvimento sustentável?
de projetos educacionais que
O que o Instituto Souza Cruz vai
Gerando oportunidades de trabalho,
permitam a qualificação dos jovens
oferecer na parceria com o Instituto de
incremento de renda e dando autonomia
que pretendam ingressar
Hospitalidade?
às comunidades, para que tenham acesso
profissionalmente nessa área.
O programa se dará em três campos:
ao cenário econômico do século 21 sem
agricultura familiar, educação e
deixar de preservar suas culturas.
Qual é o diferencial do Instituto?
mobilização, e articulação. Vamos entrar
Artesanato, cultivo da mandioca, uso de
Nosso programa de Educação para o
com nosso conhecimento na área de
plantas medicinais e aromáticas,
Turismo visa a geração de
agricultura, que será aplicado no projeto
religiosidade e até brincadeiras típicas
oportunidades de trabalho segundo a
do Instituto de Hospitalidade, de
estarão no centro do trabalho a ser
cultura da hospitalidade, que
construção da primeira Escola de
realizado. Temos que respeitar as
compreende um processo de educação
Produção da região da Costa dos
comunidades e não tratá-las como mera
do profissional e do turista. Além
Coqueiros [BA]. A agricultura tem um
mão-de-obra ocasional.
disso, estamos voltados para o
grande potencial, e na região o trabalho
desenvolvimento sustentável das
é centrado primordialmente no
Em todo o mundo, o turismo é um
comunidades envolvidas e
artesanato. Vamos levar uma nova forma
grande negócio e, por conta disso, tem
visualizamos a conservação ambiental
de produzir, distribuir e comercializar. É
novas exigências. O Brasil está
como parte do turismo dentro de um
um trabalho de longo prazo. Mas ao
acompanhando?
todo maior, a ecologia.
mesmo tempo vamos estimular a criação
Sim, o turismo também está sendo visto
84
como um negócio no Brasil e é por isso
local, tirando dali seu sustento,
a importância desse aperfeiçoamento e
que precisamos oferecer melhores
participando das novas regras.
estamos apoiando o MBA em Turismo da
Fipe [Fundação Instituto de Pesquisas
condições para os turistas. A
qualificação vem nesse sentido. Por
Além de cursos direcionados para
Econômicas], realizado pela USP
outro lado, também dá oportunidade
jovens de pouca qualificação, começam
[Universidade de São Paulo]. Pudemos
para fixar a população, evitando que
a proliferar no Brasil cursos de
ver a importância de dar apoio a este tipo
ela fique à margem do processo. Na
aperfeiçoamento. Estes cursos são parte
de iniciativa no ano passado, durante o
Costa dos Coqueiros, por exemplo, a
das novas tendências?
seminário [1º Seminário de Turismo e
comunidade participa do complexo
Estamos acompanhando o resto do
Desenvolvimento Humano Sustentável]
Costa do Sauípe de várias formas.
mundo. O turismo demanda produtos e
que promovemos junto com a Fipe.
Alguns fazem parte do corpo de
mão-de-obra de qualidade. O turista
Pessoas de vários estados do Brasil
funcionários, são garçons,
quer ser bem servido, com uma boa infra-
acompanharam as palestras, realizadas
camareiras, cozinheiros. Já os
estrutura de aeroportos, hotéis,
no campus universitário da USP.
artesãos são fornecedores, abastecem
restaurantes e agências de viagens,
os hotéis com seus trabalhos em palha.
gerenciados e dirigidos por profissionais de
Quais foram os principais resultados
A idéia do desenvolvimento
alto nível de preparo. Aperfeiçoando os
deste seminário?
sustentável também é isso: fazer com
executivos, poderemos contribuir para
Foi bastante positivo. Vimos o quanto é
que a região, a comunidade, o povo
elevar os padrões de qualidade do turismo
amplo o mercado do turismo no Brasil e
possa acompanhar o desenvolvimento
brasileiro. Nós, do Instituto, entendemos
quantos desafios ainda temos pela frente.
Mas as perspectivas são as melhores, pois o
turismo pode gerar sustentabilidade
econômica, ambiental, política, cultural
e social. Concretamente, aproveitamos o
seminário e oferecemos bolsas de estudo a
pessoas interessadas no desenvolvimento
sustentável voltado para o turismo. Em
contrapartida, os beneficiados se
comprometem a fazer um projeto de
interesse do Instituto Souza Cruz.
Como pode ser incentivada a
tendência atual no Brasil de se voltar
“É preciso aproveitar o potencial dos recursos
para o ecoturismo?
É preciso aproveitar o potencial dos
naturais do País. Este ano é ideal para investir, pois
recursos naturais do País. Esse ano é
foi instituído o Ano Internacional do Ecoturismo”
projetos, pois foi instituído como o Ano
ideal para investir ainda mais nesses
Internacional do Ecoturismo.
8
85
Ensino de excelê
Novos cursos preparam gerentes
MBA em Turismo
capacita profissionais de
várias áreas
Indústria em expansão em todo o mundo,
responsável por 8% dos empregos e 11,9%
do Produto Interno Bruto mundial,
movimentando transportes, hotéis, bares e
restaurantes, o turismo está conquistando
espaço definitivo na economia brasileira, e
começa a se intensificar em diferentes
campos de atuação. Um dos que revelam
notável crescimento é a educação. A
formação e a capacitação vêm se
espalhando pelo Brasil, buscando garantir
novas opções de trabalho e renda para
segmentos diferenciados da população. A
maioria dos cursos, no entanto, tem como
estratégia atingir o profissional
semiqualificado ou técnico, enquanto o
MBA visa à especialização do profissional
graduado com formação superior em áreas
diversas de estudo. Nos últimos cinco anos,
universidades têm investido em cursos de
pós-graduação destinados a habilitar
pessoas não só como docentes e
pesquisadores, mas também para cargos
86
ência
gerenciais, de direção e executivos para a
manutenção dos negócios e
empreendimentos.
“O mercado turístico mudou, os cursos
cresceram e os alunos têm novos interesses.
Para se especializarem, eles querem
programas globais integrando o
embasamento teórico com aplicações
práticas que incluam estudos da
realidade”, explica a professora doutora
Beatriz Helena Gelas Lage, docente da
ECA/USP e coordenadora do curso
Economia do Turismo MBA/USP,
desenvolvido pela Fundação Instituto de
Pesquisas Econômicas (Fipe) como uma
pós-graduação (lato sensu) e apresentado
num período de 12 meses, na Faculdade
de Economia, Administração e
Contabilidade da Universidade de São
Paulo (FEA/USP). O curso dará início à
sua quinta turma no segundo semestre de
2002 em São Paulo, embora possa ser
t
FOTOS JORGE TAKESHITA/ ARQUIVO
O professor doutor Hélio
Zylberstajn fez palestra sobre
‘Turismo e Emprego’
87
campus universitário da FEA/USP o “1º
Seminário de Turismo e Desenvolvimento
Humano Sustentável”. O evento reuniu
cerca de 300 pessoas de várias partes do
País, dentre profissionais, empresários,
especialistas e estudantes da área de
turismo. A maioria interessada na
oportunidade de conhecer novas idéias e
estudos, percebendo assim as vantagens que
o setor turístico vem oferecendo em termos
Mario Beni (ECA/USP):
presença no ‘1º Seminário de
Turismo e Desenvolvimento
Humano Sustentável’
de perspectivas, capacitação e
especialização.
O seminário coordenado por Beatriz
Lage foi dividido em quatro painéis
compostos por palestrantes doutores, como
oferecido em outras localidades, em
Paulo Cesar Milone (FEA/USP), Olga
Ecologia e Planos de Conservação
parceria com entidades brasileiras, com
Tulik, Mario Jorge Pires e Mario Beni
Ambiental”, com a professora doutora da
adaptações de conteúdo de acordo com a
(ECA/USP) e Marcos Cobra (EAESP-
USP e da Universidade do Vale do Itajaí
realidade local.
FGV), além de profissionais de renome do
(Univali) Dóris Ruschmann, e “Agenda
Acreditando na Educação para o Turismo,
mercado turístico brasileiro e
21 – Desafios do Turismo Sustentável”,
o Instituto Souza Cruz financia bolsas
internacional. Alguns dos temas
em que o diretor regional do WTTC —
de estudo do MBA de Economia do
abordados foram “Turismo e Emprego”,
Conselho Mundial de Viagens e
Turismo. Essa prática de estímulo e
apresentado pelo professor doutor da FEA/
Turismo para a América Latina, Silvio
capacitação de recursos humanos começa a
USP Hélio Zylberstajn, “Turismo,
Barros, falou sobre a adaptação da
se destacar em algumas empresas ligadas à
Agenda 21 para o turismo e suas ações
área do turismo, embora nem todas ainda
específicas. Dentre outros, a agenda para
estejam conscientizadas desse importante
o turismo foi discutida em termos da
reforço na educação brasileira. No caso do
destinação de águas servidas, do manejo
programa MBA, em contrapartida ao
de substâncias perigosas e do envolvimento
auxílio, o bolsista assume o compromisso de
de funcionários, clientes e comunidades de
desenvolver seu projeto de monografia em
pólos receptores de turismo nas questões
temática de interesse da empresa. No caso
relacionadas ao meio ambiente. A
do Instituto, os projetos de pesquisa serão
preocupação do assunto continua sendo
na área de desenvolvimento sustentável
tratada nos estudos do turismo moderno,
voltados para a Educação para o Turismo.
cujo desafio objetiva a percepção de novas
A parceria visando à educação, no entanto,
não se restringe somente ao curso. Em
novembro do ano passado, o Instituto
Souza Cruz e a Fipe realizaram no
88
Jorge Nishimura foi um dos
participantes dos painéis
oportunidades, bem como das reais
apresentados no auditório da
FEA/USP, na capital paulista
atividade sob o enfoque ambiental.
deficiências e de outros fatores gerados pela
MBA integrado
Destinado a empresários e profissionais do setor privado e público, o MBA de Economia do Turismo da Fipe procura disseminar os conceitos da atividade turística integrada por suas múltiplas áreas de estudo. Direcionado para alunos de formação superior,
não se restringe somente aos graduados em Turismo e Hotelaria, uma vez que administradores, economistas, engenheiros, advogados, biólogos, sociólogos e outros também têm
interesse na matéria.
“A novidade da ciência moderna atingiu em cheio as teorias do turismo e, sejam por
razões materiais, heurísticas, menos complexas, prazerosas ou por outras inexplicáveis,
agradaram plenamente estudantes e pesquisadores modernos. Além do aspecto científico, o turismo deve ser por todos tratado como uma oportunidade empresarial que motiva
a compreensão do seu funcionamento relacionado com outros setores da economia”,
afirma a coordenadora Beatriz Lage.
Dentre os principais objetivos do curso de especialização da Fipe estão propiciar uma
visão moderna da atividade turística, com enfoque nas diversas áreas de atuação empresarial do mercado brasileiro e internacional; possibilitar a capacitação e a formação
profissional de recursos humanos, com aprimoramento técnico-científico nos estudos
multidisciplinares e nas práticas do setor turístico; e fornecer um diferencial de informações sobre o entendimento do turismo com os demais ramos do conhecimento científico, de
forma que seja excercido com eficiência, qualidade, técnica e competência.
As disciplinas do curso são divididas em cinco módulos básicos: Economia do Turismo; Regime Jurídico, Sociedade, Cultura e Meio Ambiente; Planejamento
Mercadológico, Administração e Gestão Operacional do Turismo; Marketing e ComuBeatriz Lage, coordenadora do
MBA de Turismo, também
esteve à frente do seminário
da Fipe realizado em 2001
nicação no Turismo; e Metodologia Científica, Projetos e Pesquisas no Turismo. As aulas
teóricas são ministradas por professores doutores da USP e, dentre outras atividades
programadas, incluem-se palestras de especialistas convidados e visitas técnicas a empreendimentos de natureza turística.
Com base no conteúdo apresentado, fazendo uso da internet em sala virtual, os
alunos são levados a apresentar um trabalho final de pesquisa com tema de seu interesse
vinculado ao turismo. Resulta na elaboração de monografia, apresentada após o térmi-
Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe)
no do programa, onde os participantes desenvolvem sua criatividade, adquirem novas
informações e aperfeiçoam seus estudos. O diferencial da experiência assimilada por
Avenida Professor Luciano Gualberto, 908 - Prédio
FEA II - Cidade Universitária – São Paulo- SP
pessoas qualificadas neste MBA e em outros programas de ensino contribuem para a
CEP: 05.508-900
melhoria da educação no turismo brasileiro e acarretam condições de engrandecimento
Tels.: (11) 3032-0825 e 3091-5901
do fator humano que, como resultante, acelerará as condições para o alcance de um
Fax: (11) 3812-5863
www.fipe.com
futuro promissor com base num sólido processo de desenvolvimento sustentável.
8
E-mail: [email protected]
89
Exemplo
de luta
contra a miséria
Parceria produz bons frutos na Bahia
90
Educar para servir mais, melhor e sempre
ao turista e à comunidade. O lema do
Instituto de Hospitalidade (IH) traduz
em programas a filosofia de modernização
do turismo no Brasil, ligada ao
desenvolvimento sustentável, onde o negócio
turístico, as comunidades locais, os governos
e os demais mobilizadores e executores
agem como parceiros.
Surgido há cinco anos, o IH iniciou sua
atuação promovendo a educação e a
cultura da hospitalidade através da
profissionalização de comunidades de
localidades turísticas da Bahia. A região
da Costa dos Coqueiros, que compreende
FOTOS LUCIANO MATTOS BOGADO
31 povoados nos municípios litorâneos de
Mata de São João e Entre Rios, e tem a
Costa do Sauípe como amostra de sucesso
no País, foi um dos grandes beneficiados:
cerca de 2,7 mil pessoas foram capacitadas
e hoje aproximadamente 1,1 mil estão
empregadas, boa parte como garçons,
cozinheiros, recepcionistas e jardineiros nos
hotéis e restaurantes do complexo.
Os cursos não serviram apenas para evitar
que os empregos nos cinco hotéis de luxo
excluíssem a população local, criando um
bolsão de miséria ao redor do
empreendimento. O IH também
valorizou atividades econômicas locais,
como o belo artesanato feito com a palha
IH, o artesanato
local ganhou
prestígio junto aos
hotéis da região
da piaçava. Os artesãos aprenderam a se
organizar, produzir em larga escala,
direcionar o trabalho para turistas,
modernizar suas técnicas.
t
Com orientação do
91
Os objetos
produzidos por
Em abril deste ano, o IH e o
Elizete são
vendidos nos
Instituto Souza Cruz firmaram
hotéis da região
um Convênio de Cooperação Técnica
e Financeira visando a promover ações
educacionais e culturais, pautadas na
A garçonete
Valcinéa vê
responsabilidade social e no
fortalecimento da cidadania. A
chance de
crescimento
primeira delas, o Programa de Apoio
ao Desenvolvimento Sustentado da
Costa dos Coqueiros, acontece na
localidade de Vila Sauípe, a apenas
cinco quilômetros do complexo hoteleiro.
O programa é uma iniciativa
importante para a população local, que
ainda se assemelha à grande parte da
população rural nordestina, por sua
Nos resorts da Costa do
Sauípe, a qualidade é
baixa escolaridade e escasso acesso aos
atestada pelo IH
meios de produção e aos serviços
essenciais de água, esgoto e transporte.
A parceria visa dar às comunidades os
benefícios da nova dinâmica
oficinas de doceria e rotisseria. O
Construtora Norberto Odebrecht com
econômica que invade a região, sem
orçamento total do programa está
a Prefeitura de Mata de São João.
que sua formação social seja
estimado para 2002 em R$ 1,1
Além dos programas desenvolvidos na
violentada. Para isso será implantada
milhão, com participação do Sebrae,
Bahia, o IH começa a exportar este
a primeira Escola de Produção local
do Senac, da Construtora Norberto
ano o sucesso do treinamento e da
que, além de oferecer oficinas de
Odebrecht e da Fundação Banco do
capacitação para Poconé, no Mato
artesanato e técnicas agrícolas,
Brasil. A Escola será construída em
Grosso, com previsão de 600 empregos
funcionará como incubadora de
um terreno de 5 mil metros
para moradores da região, e está
pequenos negócios, em sinergia com os
quadrados, cedido em comodato pela
iniciando um projeto em Búzios, no
empreendimentos turísticos. Porfírio
Rio de Janeiro. Outra atuação da
Dantas Vieira, 59 anos, líder
ONG diz respeito às certificações na
comunitário nascido e crescido na
“A construção da Escola
Vila, está animado. “A construção vai
de Produção vai gerar
Nacional de Certificação da
pois será um mutirão remunerado.”
empregos para a
de Turismo, que qualifica hotéis,
O programa também pretende
comunidade, pois será um
gerar empregos para a comunidade,
promover cursos de formação de
professores e em ocupação hoteleira,
seminários sobre saúde e saneamento,
92
mutirão remunerado”
Porfírio Dantas Vieira
área turística através do Sistema
Qualidade Profissional para o Setor
restaurantes e profissionais brasileiros
através de uma metodologia que
pretende elevar a qualidade dos
serviços a níveis internacionais.
Empresárias do trançado
As avós faziam esteiras, chapéus e bolsas de formato pouco
original. Passaram o ofício de forma natural para as filhas,
ainda pequenas. Elizete Mercês, 47 anos, já estava no
trançado quando os dentes acabaram de nascer. Dos nove
filhos, cinco são mulheres e todas trabalham com a piaçava.
Elizete é uma das que contam com um diferencial: a proposta
do Instituto de Hospitalidade, que levou até elas novidades
que soam como inovações tecnológicas na região. Curralinho,
Bolsas e chapéus
passaram a ter
por exemplo, localidade de Mata de São João, só não parece
um melhor
acabamento
estar no século passado por conta das artesãs comentando
animadamente um programa de televisão enquanto tecem a
piaçava.
A alegria que vem com a integração produtiva é visível.
As artesãs abrem um sorriso para receber Raimundo Ribeiro
da Silva. O coordenador do IH, que as acompanha em cada
passo, da produção à entrega, personifica a introdução de
novos trançados e materiais e as exigências de qualidade,
como um melhor acabamento. “Elas aprenderam a fazer
negócios”, explica ele.
O IH começou a ministrar cursos na Costa dos Coqueiros
Artesãos podem
agora aumentar
há dois anos. Os 235 artesãos — há também alguns (poucos)
homens — foram cadastrados e cerca de 10 mil peças
e diversificar sua
produção
negociadas. “Em um dia, dá para trançar e montar uma
bolsa”, conta Aurora Timóteo de Santana, 52 anos. Hoje, as
bolsas têm cores e formatos variados, e as artesãs são capazes
de atender aos hotéis, produzindo peças em larga escala com
qualidade. Outras, como Bibiana Bahiense dos Santos, 56
anos, ainda preferem vender na praia. “Vou aos sábados,
com uma amiga.” O resultado rendeu frutos também em
outras áreas. No processo, algumas aprenderam a escrever
As esteiras são
confeccionadas há
para assinar recibos; outras, tiraram seus primeiros
décadas na região
t
documentos para participar dos cursos.
93
A palha de piaçava é a
matéria-prima utilizada
na produção dos objetos
vendidos aos hóspedes
O Instituto de
Hospitalidade atua há
cinco anos em favor do
turismo sustentável
Os funcionários dos
hotéis pertencem às
comunidades e têm
possibilidade de estudar
94
Funcionários valorizados
O SuperClubs Breezes da Costa do Sauípe segue a cartilha dos outros resorts da grife,
localizados em ilhas caribenhas, preparados para dar aos hóspedes conforto total com muita
sofisticação. Dada a notória rotatividade de profissionais na área de turismo, é difícil entender como tudo funciona com perfeição. A resposta está na equipe, que conta com 60% do
pessoal recrutados na própria região. É uma forma de fixá-los na comunidade, valorizando-os.
Com isso, muitos deles estão no hotel desde sua inauguração, há dois anos. Como Marinalva
Cardoso, 26 anos, garçonete, que quase não foi encontrada pelo hotel durante a seleção. “Eu
não tinha telefone e morava longe.”
O recrutamento foi feito junto ao programa de capacitação do IH, adaptado conforme as
necessidades dos funcionários. O SuperClubs foi o primeiro hotel a receber a certificação de
Segurança Alimentar dada pelo IH. Agora, quer buscar o mesmo reconhecimento para seus
funcionários, e isso começa pelo treinamento, que envolve não só a área específica e a filosofia
da empresa, mas também noções de higiene. “Alguns não têm nem banheiro em casa”, explica
Emília Guerra, diretora de Recursos Humanos. “Mas não me arrependo nem um minuto.
Queríamos pessoas abertas a aprender, que buscassem uma profissão com uma filosofia de respeito e qualidade.”
Gente assim é o que não falta. O ajudante de confeitaria Alex Ferreira, 24, trabalha à
noite e termina o ensino médio de dia. A garçonete Valcinéa Santos Pina, 21, está em seu
primeiro emprego e cheia de expectativas. Formada em Contabilidade, vê no hotel a chance de
crescer como profissional. “Não quero ser sempre garçonete”, afirma ela. Carlos Bahia, 24, já
começou a seguir carreira na área: entrou garçom e hoje é supervisor de dois bares e de um dos
quatro restaurantes do local. Antes do hotel, trabalhou como garçom em um pequeno restaurante. “Mas quando cheguei aqui vi que ainda não sabia nada, e tenho muito o que aprender.”
Além de promover os cursos de capacitação, o IH desenvolve material didático. São CD ROMs, vídeos e livros que demonstram atitudes, conhecimentos e habilidades necessárias ao
bom desempenho profissional em cada ocupação. Há produtos sobre conservação de alimentos,
limpeza e gestão de bares de bebidas, para mensageiros, camareiras, garçons e atendentes de
reservas de passagens, entre outros.
8
Instituto de Hospitalidade
Material didático
Rua Frei Vicente 16 – Centro Histórico –
utilizado nos cursos que
já capacitaram 2,7 mil
Salvador – BA
profissionais de turismo
CEP: 40025-130
Tel.: (71) 320-0700
Site: www.hospitalidade.org.br
95
Presidente
Flavio de Andrade
Diretores
Constantino Luís Nunes de Mendonça
Gerson Cardoso
Diretora-Executiva
Leticia Lemos Sampaio
Conselho Fiscal
Antônio Duarte de Castro
Marcelo Henrique de Castro
Nicandro Durante
Gerentes de Projetos Sociais
Flávio Goulart
Luiz André Soares
Secretária-Executiva
Simone Amorim
Apoio Administrativo
Fabíula Rodrigues (estagiária)
Karina Kato (estagiária)
Instituto Souza Cruz
Rua da Candelária, 66
CEP 20092-900 - Rio de Janeiro
Tel.: (21) 3849-9000
[email protected]
www.institutosouzacruz.org.br
Os conceitos emitidos nos artigos
assinados são de responsabilidade dos
autores, não refletindo, necessariamente,
a opinião do Instituto Souza Cruz.
REVISTA MARCO SOCIAL - Julho 2002 - Concepção Editorial: Prof. Antonio Carlos Gomes da Costa
EDITOR: OCTACÍLIO FREIRE SUBEDITOR: MAURO SILVEIRA COORDENAÇÃO: FLÁVIA CLEMENTE CHEFIA DE REPORTAGEM: SIMONE MAGNO REPÓRTERES: ALESSANDRA VALE, JORGE
SERRÃO E ROSAYNE MACEDO FOTÓGRAFOS: ADI LEITE (SP), ELCIO CARRIÇO (BA), HÉLCIO NAGA (SP), JULIO CESAR SOUZA (PR), LUCIANO MATTOS BOGADO (RJ), MARCO ANTONIO
REZENDE (RJ), TARCÍSIO MATTOS (SC), ARQUIVO DO INSTITUTO SOUZA CRUZ E ARQUIVOS DOS PROJETOS LOGÍSTICA E APOIO: ALFA OLIVEIRA E FÁBIO RANGEL REVISÃO: BETH PENA E
CARLOS EDUARDO DE ABREU E LIMA PROGRAMAÇÃO VISUAL: SERGIO PAULO FURTADO FOTOLITO E IMPRESSÃO: GRÁFICA RESER TIRAGEM: 1.000 EXEMPLARES - EDIÇÃO LIMITADA.
PRODUÇÃO EDITORIAL: CAJÁ – AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO – RUA DA ASSEMBLÉIA, 10 GR. 3007 – CEP 20119-900 – RIO DE JANEIRO – RJ (21) 2531-4544 – [email protected]
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