Bianca Mocci Passaro Clecia Bastos Gerardi Como eu vivo é a maior homenagem para meu filho... Universidade São Marcos São Paulo, 2006 2 Bianca Mocci Passaro Clecia Bastos Gerardi Como eu vivo é a maior homenagem para meu filho... TCC- Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Psicologia da Universidade São Marcos sob orientação da Profª Drª Silvia Ancona - Lopez. Universidade São Marcos São Paulo, 2006 3 Como eu vivo é a maior homenagem para meu filho... Bianca Mocci Passaro Clecia Bastos Gerardi BANCA EXAMINADORA ___________________________ Profª. Ivana Moraes de Alencar ____________________ Profª. Drª Gabriela Casellato _______________________________ Profª. Drª Silvia Ancona - Lopez Trabalho apresentado e aprovado em: _04_/_12_/2006 4 AGRADECIMENTOS A colaboradora desta pesquisa, pela sua disponibilidade e carinho em relatar sua experiência, permitindo que partilhássemos de seus conteúdos mais íntimos, para que, de maneira ética, pudéssemos elaborar nosso trabalho. A nossa querida orientadora Silvia Ancona - Lopez que nos guiou nessa trajetória, apontando-nos sempre com precisão, cuidado e compreensão a uma direção a seguir. A Professora Ivana Moraes de Alencar, grande responsável por ter plantado o interesse e a possibilidade de levarmos à frente nosso tema. A nossa querida amiga Daniela Tramujas, por ter proporcionado o contato com a nossa colaboradora. Aos nossos fiéis companheiros e familiares, que conviveram diariamente com as conseqüências deste trabalho. Para vocês o nosso profundo agradecimento. A todos os nossos amigos, que de maneira distante ou próxima, sempre estiveram ao nosso lado quando foi preciso. Bianca M. Passaro e Clecia B. Gerardi 5 DEDICATÓRIA - 1 De dic o es te tr aba lho a meus pa is q ue se mp re me apo ia ra m e ac ima de tu do acr ed i ta ra m e e mb arcar a m nes te me u so nho . A voc ês d ois, o me u pro fund o e eter no agr ad ecime n to . Ao meu n a morad o F ern and o Azev edo , co mp anh eiro lea l , qu e por me io d a s ua pac iênc ia e co mpr eensã o , me ajud ou a rea l iza r es ta o br a c o m pr azer e s eg ur a nça . Ag r ad eç o em e s p ec i al a mi nh a a mi ga e pa r c e ir a , por s er u ma mu l her de me n t e br i lh an te e cr iativa, que sempr e me convid ou a corre r risc os e ousa r, d ia n te das dúv id as e inc er tez a , encon tr ad as em n o sso c a mi nh o . In Memória: À minha avó Aida, q ue a o pe rder seu filho me i ns p ir ou , a tr av és d o noss o e te r no laç o de a f e to . “ Vó , a sa uda de é gr an de , ma s o a mo r é pa ra se mpr e ”. Ao meu q uer id o a mi go R e na to d e C ic c o P or t o , u m mu i t o obr iga do , por ter me ens in ado a vive r, ap esar d as ba rre iras e da s oc ied ade . Bianca M. Passaro 6 DEDICATÓRIA - 2 D e dic o es te tra ba lh o a o a mig o, c o mp anh eir o e a ma do mar ido Alessa ndro G erar di, po r se mpre es tar a o me u lado . Ob rigad o p elo ca rinh o , p ela c o mp reens ão e pr inc ip almen te p ela cu mp licidad e . Aos me us qu er idos e a mad os filh os , L in o e Alessa ndro, p esso in has qu e me insp ir a m a v ive r . Aos me us a dor ados p ais , pesso as qu e se mpr e acre ditara m e a po iar a m me us s onh os , po r ma is d i fíce is q ue pa recess e m. E, e m es pec ia l, ag rad eço a min ha q uer id a a miga e parc eira d es te t r a ba lh o . P es s oa ma r av i lhosa . Ob r i gad a pe la a mi z a de inco nd iciona l e por ter a pos ta do n es te tra balho . Clecia B. Gerardi 7 “Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós; leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito, mas não há os que levam nada; há os que deixam muito, mas não há os que deixam nada. Essa é a maior responsabilidade de nossas vidas e a prova evidente que duas almas não se encontram por acaso”. Antoine de Saint-Exupéry 8 GERARDI, C. B. PASSARO, B. M., Como eu vivo é a maior homenagem para meu filho. Trabalho de Conclusão de Curso de Psicologia da Universidade São Marcos, 2006. p 114. RESUMO O objetivo deste trabalho é compreender a vivência de uma mãe que perdeu seu filho, juntamente com sentimentos e significados dessa experiência. O interesse por este tema partiu da dificuldade que observamos das pessoas ao falarem da morte, principalmente quando se trata de entes queridos. Para conhecermos essa vivência, utilizamos abordagem qualitativa, e como instrumento uma entrevista semi- dirigida, sendo uma única mãe entrevistada, relatando a experiência de perder seu único filho. Utilizamos uma perspectiva fenomenológica, seguindo as etapas de investigação apresentadas por Yolanda C. Forghieri, tendo como base, envolvimento existencial e distanciamento reflexivo, a fim de uma possível compreensão de significados. Por meio da fala dessa mãe procuramos subsídios para uma melhor compreensão daquilo que ela vivenciou ao perder seu filho. Na busca de um referencial teórico que embasasse nosso trabalho nos deparamos com alguns autores, que nos auxiliaram para uma melhor compreensão do tema e análise dos dados. Entendemos que para essa mãe a vida ganhou um novo sentido, ela vive por amor ao seu filho, e, esse amor trouxe a necessidade de compartilhar a sua experiência com outras mães, levando-a a escrever um livro. Ela encontrou na religião apoio para aliviar seu medo e sua dor. Sentiu o despreparo da sociedade em lidar com a perda e também a dificuldade em encontrar mais profissionais que lidem com esta questão. Palavras Chave: Morte de um filho, Perda, Luto. 9 SUMÁRIO RESUMO INTRODUÇÃO 10 Capítulo I CAMINHO DA PESQUISA Objetivo 1.1. – Caminhos 1.2. – Colaboradora 1.3. – Entrevista 1.4. – Trabalhando com o Depoimento 17 17 17 20 20 21 Capítulo II MEDO DO DESCONHECIDO 25 Capítulo III POR QUE COMIGO? 30 Capítulo IV RITUAL: UMA DOR NECESSÁRIA 37 Capítulo V LUTO: PROCESSO DE ELABORAÇÃO 5.1. – Luto não complicado 5.2. – Luto complicado 5.3. – O quê acontece após o luto? 42 45 48 49 Capítulo VI ANÁLISE DA ENTREVISTA 6.1. – Encontro 6.2. – Relações: Filho e Amigos 6.3. – Sociedade e Psicoterapia 6.4. – Reações e Sentimentos 6.5. – Rituais 6.6. – O que fazer? 52 52 53 56 62 71 74 CONSIDERAÇÕES FINAIS 78 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 83 Anexo I - Transcrição da Entrevista 88 Anexo II - Termo de consentimento livre e Esclarecido 109 Anexo III - Grupos de Apoio ao luto 113 10 INTRODUÇÃO R ealizar este trabalho com uma mãe que perdeu seu filho significa uma experiência rica e penosa. Rica por entrar em um mundo desconhecido e cheio de sentimentos, e penosa por compartilhar de uma dor considerada entre outras, a mais sofrida de todas. Para Bowlby (2004) a perda de uma pessoa amada é considerada uma das experiências mais intensas e dolorosas, que o ser humano pode sofrer. É penosa não só para quem a vivencia, mas também para quem está próximo. É um ato de nos confrontarmos com a nossa própria impotência. O objetivo dessa pesquisa, por meio da abordagem qualitativa, é chegar o mais próximo possível da vivência de uma mãe que perdeu subitamente seu filho (em um acidente de carro) e também compreender sentimentos e reações, para um possível entendimento do luto enquanto processo. Essa proximidade e a busca de compreensão surgiram como uma tentativa de responder a algumas questões iniciais que tínhamos, sendo elas: Como seria possível sobreviver à morte de um filho? O que mudaria na mãe após a perda? Quando uma mãe perde um filho, o que realmente ela perde? Após o luto, a morte ganharia um novo sentido? 11 O interesse sobre o tema parte também da dificuldade que observamos nas pessoas ao falarem da morte, principalmente quando se trata da perda de entes queridos. Não se fala em morte e se pensa o menos possível. Na busca de um embasamento teórico que nos auxiliasse a compreender o tema escolhido, nos deparamos com alguns autores, entre eles Kovács (2003), Casellato e Motta (2002), Worden (1998), entre outros, que nos levaram a um conhecimento mais profundo sobre o assunto. A princípio é necessário entendermos que não há somente um tipo de morte durante o processo evolutivo. Segundo Kovács (1992) cada indivíduo traz consigo uma representação da morte, pois cada sujeito é inserido em uma cultura, em uma crendice. Um outro aspecto importante para autora é a representação que cada indivíduo atribui a morte. Freqüentemente a morte amedronta, é vista como fim, como perda de consciência que vem acompanhada pelo medo da solidão, da separação de quem se ama, o medo do desconhecido e muitos outros. A morte de um ente querido associa-se ao luto. Conforme Kovács (2003) o luto trata-se de um processo que afeta o significado que se dá à vida, já que nela provoca profundas transformações. De acordo com Kuhn (apud Parkes, 1998) o enlutado traz a sensação de que não foram os mortos que partiram, mas os que ficaram é que foram ejetados do mundo, que até então, lhes era familiar. 12 Kovács (2003) ressalta a idéia da perda e da elaboração como sendo elementos contínuos no processo de desenvolvimento humano. A morte nos fala de um vínculo, de uma perda real e concreta, de uma irreversibilidade. Conforme Bowlby (apud Casellato e Motta, 2002) a maneira de enlutar-se seria, portanto, uma resposta à separação que mudaria dependendo da qualidade dos vínculos estabelecidos primariamente. Para Bromberg e Kovács (1996): A in fluê ncia é mutuamen te rec íp roca en tre o lu to e o c ic lo v i t a l d a fam í l ia . O a jus t am en to à r ea l id ade ap ós a m or te de u m dos e lemen tos d a fa mília é um tr aba lh o a s er resolvido a c u r t o e lo ng o pr azo . ( p . 116 ) Após a descrição de algumas implicações da morte e do luto, cabe nesse momento falarmos especificamente da morte de um filho. Pois, há diferenças de luto a partir do tipo de morte. De acordo com Casellato e Motta (2002) podem ocorrer vários tipos de perda, porém a morte de um filho é reconhecida socialmente como a mais intensa, é algo inigualável. Para as autoras: E s ta m ãe vi v e u m fracass o s oc ia l e , s e n te-s e c obra da e m s eu c o n te x to s oc ia l , c o mo s e t i ves s e f al ha do e m s u a f u nção m a ter na de pr o teg er o f i l ho e c o m is s o ga r an t ir a s ua so bre vivê nc ia a qua lqu er cus to. ( p. 10 1) Segundo Casellato (1998) quando ocorre a morte de um filho por acidente, esse evento apresenta-se precoce e inesperado, sendo um 13 processo de elaboração bastante difícil que causa uma potencialidade de desorganização, paralisação e impotência. Conforme Viorst (2004) a perda de um filho é sentida como um golpe. O que leva os pais a se perguntarem, como continuar a viver com este fato?. Neste momento a mente fica imobilizada com o choque e, assim, a uma dificuldade de compreender o sentido das palavras. Há uma vaga sensação de uma imensa perda, porém, será somente com o tempo, que a mente e a memória se reunirão, e assim, talvez compreenderão a verdadeira extensão daquilo que ocorreu. Segundo Bromberg e Kovács (1996) a morte de um filho tem efeitos sobre o sistema familiar. O luto dos pais é freqüentemente misturado com a raiva, culpa e a auto-reprovação por sua inabilidade em impedir a morte, bem como a sensação de estarem sendo vítimas de uma injustiça. S o u pr is ion ei r a da v id a . É ass im qu e as h or as s e arr as ta m a c a beça a m i l , o c or aç ã o e m c ha mas . E u im p loro pa r a a no i te ch ega r e eu esq uece r, n as p oucas hor as qu e co nsigo d or mir , q ue es t ou v i v a e qu e m eu ama do f i lho mo r r eu . L in do , a ma do! ( KEL LER , 2 005 , p . 33) É provável, que neste momento da vida a mãe tenha uma sensação de fracasso, até mesmo de pecado, só pelo fato de continuar a viver depois da morte de seu filho. Não se sente merecedora de estar vivendo quando o seu filho está morto, e surge a sensação de não ter encontrado um meio de dar sua própria vida pela dele. Para Viorst (2004) a culpa é um dos sentimentos que possivelmente aparecem nas mães, levando-as a pensamentos de 14 falhas em relação a pessoa amada e que agora está morta. Surge também uma culpa por sentimentos negativos perante o filho que morreu. Neste momento apegar-se a dor pode parecer um ato de fidelidade, ao passo que ceder ao tempo pode parecer uma traição. Como dissemos anteriormente, tudo que narramos a respeito da morte enquanto finitude, do luto e da perda de um filho, nos mostra ser um fenômeno importante a ser estudado, e para isso pensamos em nos aproximarmos de uma pessoa envolvida neste processo, para então questioná-la sobre o sentido particular de sua vivência. Encontramos na utilização do método fenomenológico, aplicado à pesquisa de caráter psicológico, uma forma de investigação que suspende toda e qualquer hipótese ou teoria existente sobre o assunto. Buscamos nos dirigir ao fenômeno, para poder entender e captar seus significados. A partir dessa abordagem, é necessário falarmos da preocupação que tivemos ao escolher essa mãe. Acreditamos que para uma melhor elaboração deste trabalho, partindo do princípio de sermos graduandas de Psicologia, seria importante que a mãe escolhida já tivesse exposto de alguma forma a sua vivência, e, junto a isso, seria fundamental que ela já tivesse passado por um processo psicoterápico. A partir desses critérios pudemos prosseguir com a pesquisa. Entendemos que seria possível realizar esse trabalho, mesmo sabendo que é um assunto difícil a ser tratado, por isto, mobilizamonos para desenvolver esta pesquisa com tanto rigor, não apenas por 15 ser um trabalho de conclusão de curso, mas também por considerarmos que chegar próximo a essa dor é também compreender o luto enquanto processo ocasionado após uma perda. Esperamos que com este trabalho possamos de alguma forma contribuir para a Psicologia, pois acreditamos que este assunto seja de extrema relevância para a sociedade que deseja compreender melhor essa experiência, e para os profissionais que trabalham diretamente com seres humanos, que a qualquer momento da vida perderam ou perderão alguém. Para isso, a informação e o conhecimento são fundamentais. Antecipando o que se segue, adiantamos que nosso trabalho se constitui a partir de quatro capítulos teóricos, no qual apresentaremos alguns conhecimentos que já foram expressos a respeito da morte; do luto materno e suas características; discutiremos também sobre rituais, e, finalizando nossa parte teórica, falaremos sobre o luto e suas vertentes. Apresentaremos também um capítulo específico descrevendo a nossa metodologia de abordagem fenomenológica, descrita passo a passo, como procedemos com a pesquisa. Desenvolvemos nossa análise baseada nas falas da nossa colaboradora, e por fim apresentaremos as nossas considerações finais, onde discutiremos a experiência dessa mãe, juntamente descrito nos capítulos a seguir. com o embasamento teórico 16 “O ponto de partida, na maioria das vezes não será o mesmo ponto de chegada. Nem mesmo pode-se esperar ser o mesmo ser, no ponto final da caminhada”. Cléa Rubiane 17 CAPÍTULO I CAMINHO DA PESQUISA O BJETIVO: Buscar compreender, a partir de uma perspectiva fenomenológica a vivência de uma mãe que perdeu seu filho e procurar compreender sentimentos e reações para um possível entendimento do luto enquanto processo derivante após uma perda. 1.1. CAMINHOS Inicialmente, a única certeza que tínhamos era de estudarmos o tema luto e também de que gostaríamos de trabalhar com pessoas e suas vivências. No início não havia caminhos e nem perspectivas. Foi por meio de muitas leituras, conversas e pesquisas que começamos a nos familiarizarmos e a nos interessarmos mais pelo tema. Realizamos um estudo qualitativo, pois aprendemos que no mundo da investigação é interessante não seguir caminhos já traçados, como também é fundamental ter em mente a certeza do que queremos, deixando de lado as análises e interpretações racionais, sejam elas científicas ou não. Foi assim, que nos deparamos com a 18 fenomenologia, abordagem esta, que nos trouxe a clareza de como prosseguirmos com nossa pesquisa. Forghieri (1993) ressalta que em uma pesquisa fenomenológica existam dois momentos: o envolvimento existencial que requer que o pesquisador, conhecimentos a princípio por ele já procure colocar adquiridos sobre fora a de vivência ação que os está pretendendo investigar, para então nela penetrar de modo espontâneo e experimental. A autora (1993) descreve que: A p ar t ir daí , é n ec es s á r i o d ei x ar s ur g ir à int u içã o , p er c e pç ão , s e n ti me n tos e s e nsaçõ es q ue b r o ta m e m u ma t o tal i dad e , p rop orciona ndo u ma c ompre ensã o globa l, in tuitiva e p rér efle xiva dess a vivênc ia . ( p. 60) Em um segundo momento deve ocorrer um distanciamento reflexivo, para permitir uma reflexão sobre sua compreensão e tentar captar e enunciar, descritivamente, o seu sentido ou o significado daquela vivência em seu existir. Porém, o distanciamento não chega a ser completo, pois ele deve sempre manter um elo com a vivência. Partindo da necessidade de compreensão, procuramos ir o mais próximo possível do fenômeno. Este é o método da fenomenologia que pressupõe que não haja nenhum conhecimento e nenhum conceito anterior sobre a questão a ser investigada, buscando-se, então, possíveis significados. Para Josgrilberg (apud, Oliveira, 2006): Re tomar as co isas mes mas s ign ifica r e tomar o nd e e las s ão v i v i das e o nde e las c o bra m s e n ti do p ar a a v ida e para e xis tê ncia . (p . 34) 19 Segundo Forghieri (1993) o psiquismo humano é muito amplo e complexo, apresenta aspectos que não podem ser atingidos diretamente, pela observação externa. Tal é o caso da vivência, ou das experiências vividas, que só podem ser alcançadas diretamente, pelo próprio sujeito. Por meio da experiência vivida pela mãe entrevistada, buscamos compreender como ela sobreviveu a uma morte que é tida como um percurso não natural da vida. A partir daí desenvolvemos capítulos, versando sobre: “Medo do Desconhecido”; “Por que comigo?”; “Ritual: uma dor necessária”; “Luto: Processo de Elaboração”. Conforme Noé (apud Oliveira, 2006) quando um fenômeno se apresenta ele ocorre sob três aspectos em relação a quem o observa: sua relativa ocultação, sua gradativa revelação e sua relativa transparência. A esses três aspectos correspondem, igualmente, três formas de apreensão: a vivência, a compreensão e o testemunho. Compreender e testemunhar são as tarefas principais do pesquisador. Para Forghieri (1993) o sentido que uma situação tem para a própria pessoa é uma experiência íntima que geralmente escapa à observação do psicólogo, pois, o ser humano não é transparente e para desvendar sua experiência o pesquisador precisa de informações a esse respeito, fornecidas pela própria pessoa, por isso o método fenomenológico é um recurso apropriado para pesquisar a vivência. 20 1.2. COLABORADORA A fim de atingirmos nosso objetivo, foi entrevistada Márcia (nome fictício) de 48 anos, moradora da cidade de São Paulo. Perdeu seu filho Pedro (nome fictício) aos 23 anos de idade em um acidente de carro, há três anos. Conhecemos esta mãe através de uma amiga de sala, que nos proporcionou o contato com a entrevistada. Esta mãe foi escolhida por ser autora de um livro no qual relata a experiência que teve ao perder seu filho. É importante falarmos que esta mãe também já participou e trabalhou como organizadora de um projeto, onde mães e pais enlutados participam para compartilhar suas vivências. Desta forma, consideramos que Márcia seria passível de ser incluída em nossa pesquisa sem que isso lhe proporcionasse maiores danos. O encontro ocorreu em seu apartamento, pois entendemos que este seria um local mais apropriado para a entrevistada narrar sua vivência. Procuramos esclarecer a Márcia do que se tratava, o objetivo da pesquisa, e o porquê da escolha do tema. Foi também explicada toda a questão ética que envolve o trabalho através da apresentação do Termo de Consentimento. (Anexo - II) 1.3. ENTREVISTA Usamos a entrevista como procedimento, uma vez que ela explora a compreensão que o indivíduo tem da sua experiência e procura saber qual o sentido que tem para ele. Optamos pela modalidade de 21 entrevista semi-dirigida, pois esta favorece a narrativa livre do participante, com o discernimento de manter a temática da pesquisa. Para que a entrevista se desenvolvesse, partimos inicialmente de uma única questão: Conte-nos sobre a sua vivência ao perder seu filho? A partir desta, trabalhamos os seguintes temas: Sobrevivência; Luto e Sentimentos. Segundo Queiroz (apud Oliveira, 2006) a entrevista busca o depoimento pessoal, o qual é definido como relato de algo que o informante presenciou, experimentou ou de alguma forma conheceu. A entrevista foi conduzida de modo que favorecesse a descrição da vivência dessa mãe, respeitando o tempo de discurso e de sentimentos vigentes no momento da entrevista. Utilizamos como instrumento a gravação, sendo previamente questionada à entrevistada a autorização para tal procedimento, e se esta poderia ser utilizada. A entrevista encontra-se no Anexo – I. 1.4. TRABALHANDO COM O DEPOIMENTO Foi feita a transcrição literal do depoimento, para que a partir da textualização do conteúdo gravado pudéssemos penetrar nessa experiência, a fim de tentarmos entender os fatos da maneira como foi vivenciado. Como o discurso é apresentado tal qual nos foi relatado, convidamos o leitor a atribuir novos significados que considerem pertinentes. 22 Antes de iniciarmos o processo de análise propriamente dito, procuramos ler atentamente o relato, fazendo assim, um mergulho nas falas. Colocamo-nos a mercê do discurso para acompanhar o movimento do outro, deixamo-nos envolver, ver e ouvir com os olhos e os ouvidos do outro. Para isso saímos de nós mesmas, das nossas idéias, sentimentos e críticas, para podermos estar no outro, como se fosse um processo de identificação com a fala do outro. A partir deste momento, iniciamos o “envolvimento existencial”, o pesquisador suspende qualquer teoria e passa a mergulhar na vivência do sujeito entrevistado. Após entrarmos em contato com a entrevista, iniciamos o “distanciamento reflexivo”, por meio do qual procuramos retirar daquilo que foi falado alguns possíveis elementos significativos para o sujeito. Buscamos também chegar o mais próximo possível dos fenômenos pesquisados, para então, podermos verificar aquilo que mais se sobressaiu, e objetivar todo o mergulho anterior. Procuramos dialogar com autores cujas idéias e posições nos serviram de auxílio à compreensão da vivência. Ao analisarmos as falas da entrevistada, elegemos temas que foram ligados a certos termos ou afirmações que apareciam com freqüência no relato. São eles: Encontro; Relações: Filho e Amigos; Sociedade e Psicoterapia; Reações e Sentimentos; Rituais e O que fazer? A organização dos temas foi uma tarefa bastante difícil, pois em 23 alguns casos nos atrevemos a fazer interferências, interpretações ou tentativas de explicação do que nos afigurava no relato. Após a realização deste trabalho, esperamos oferecer aos nossos futuros colegas psicólogos e às mães, o nosso modo de olhar e compreender o fenômeno, como graduandas de psicologia, objetivando colaborar na compreensão do tema. 24 “Quando em um relacionamento estão envolvidos um conjunto de fenômenos psíquicos, vivenciados e experimentados na forma de emoções, sentimentos, com estima, apego, ternura e carinho, desenvolve-se diferentes sentimento graus de existente o que se denomina de complexidade, amor e em nosso entes relação a afeto: paixão. em É o queridos, amigos e pessoas amadas”. Dr. Lunardi (apud Ebadi, 2003, p. 45) 25 CAPÍTULO II MEDO DO DESCONHECIDO T od o se r h u man o r ec on hec e a p oss i b i l id ade d e su a p ró pr i a mo rt e, m as a pe nas em r a ros m o m ent os a p e rce be c o mo v erd ad e ir o . P o r o ut ro l ad o , p ar a nã o v i ver a ng ust iado per ant e e sta c ert eza , p ar a oc u lta r se u de st in o, e l e s e vo l t a pa ra a v i da c ot i d iana , oc up an do - se e preocupando-se com s e u di a a di a ( . . .) (ANCONA -LOPEZ, 1 996 , p . 31 ) P ara Kovács (1992) a morte sempre aparece envolta pelo medo, medo este, definido pela autora como um valor significante e uma reação emocional envolvendo sentimentos subjetivos de desagrado, preocupação e uma antecipação de quaisquer das várias facetas relacionadas à morte. A autora descreve um lado vital da morte, uma presença necessária em certa medida, representada como uma expressão do instinto de auto-conservação, uma forma de proteção à vida e uma possibilidade de superar os instintos destrutivos. Segundo Coelho (2000) as pessoas gostam de estar aqui, conspiram-se a favor da vida, por isso, sobrevive-se a dores imensas, porque a vida é nosso único espaço de pertencimento. Entende-se a idéia de morte como não sendo bem vinda, pois ela faz findar a vida, 26 impondo o desconhecido, a finitude, a cisão e o rompimento diante de cada um. A morte coloca em risco toda uma construção de vida, porque não diz quando chega e com isso as pessoas passam todo seu tempo tentando estar aptos para a vida, e não para a morte. Seguindo as idéias da autora, a morte é a grande angústia humana, limita o existir de todos os homens e, apesar das crenças e religiões, coloca um limite à vida na terra da forma como foi concebida, é um evento universal. Para Heidegger (2002): N o d omín io p úb lico , pens ar na mor te já é c ons id era do um t e mor c o va r de , u ma i ns eg ur a nça d a pré-s e nça e um a f ug a s in is tra do mu ndo . O impesso al n ão per mite a c ora gem d e se ass umir a a ngús tia co m a mor te. (p . 36) Viorst (2004) fala do medo da morte como sendo sem dúvida um sentimento que a maioria das pessoas não pode suportar. Vive-se em uma sociedade na qual a morte é negada, é deixada de lado, porém, não se nega a mortalidade. No entanto, a conscientização dessa mortalidade poderia enriquecer o amor pela vida, sem fazer da morte, a nossa morte, e sim algo aceitável, natural do ciclo humano. Negar a morte, conforme Viorst (2004), significa jamais permitir a nós mesmos o confronto com a ansiedade provocada por visões dessa última separação. Esta negação facilita a caminhada através dos dias e das noites sem que pensemos no abismo diante de nossos pés. A autora fala também de uma dificuldade em encarar a nossa própria morte sem ficarmos apavorados. Há um medo do aniquilamento 27 e do não-ser. Temos medo de ir rumo ao desconhecido. Medo de ficar sozinhos e desamparados. Por isso, é tão difícil pensar em nossa própria morte, e, também, a de nossos entes queridos. Conforme Heidegger (apud Coelho, 2000) a morte não é apenas o fim da existência, mas um dos elementos constitutivos da própria vida. Seria a única possibilidade existencial que independeria de quaisquer forças sociais, para atuar. Assim, a morte nos iguala a todos, é inexorável, irrevogável, direito e destino de todo ser vivo. É o fim colocando a vida enquanto existência restrita num espaço, que a avalia. É o limite, que verdadeiramente ordena a ação humana no tempo. Para Heidegger (2002): A mor te vem ao encon tr o co mo u m ac on tec imen to c on hec ido , q ue ocorr e d en tro do mu ndo . Co mo ta l, ela per ma nec e na n ão-s urpr esa c arac te rís tica de tud o aq uilo qu e ve m ao e ncon tro na c o tidian id ade . (p . 35 ) Ao se perder um ente querido, aquele de que se amava passa agora a ser um desconhecido, a vida toma a forma de um grande vazio no lugar deixado pela pessoa que não está mais presente. Nesse momento, aquele que partiu, pode ser visto, por muitos, como se estivesse descansando ou abandonando as pessoas que faziam parte de sua vida. Quem morre silencia a tudo, pois a palavra não mais o atingirá. O morto deixa quem o amou, sem aviso, e numa hora sempre imprópria. Segundo Kovács (1989) a morte nos fala de representações que envolvem duas pessoas, uma que é perdida, e a outra que lamenta esta 28 falta, um pedaço de si que se foi. O morto, em parte, é internalizado nas memórias e lembranças. A morte como perda supõe um sentimento, uma pessoa e um tempo. Conforme Parkes (apud, Coelho, 2000) aos enlutados caberá viver um difícil momento, cumprindo as chamadas tarefas do luto, contando com o tempo para aplacar a dor da perda. À família caberá reorganizar-se, redistribuindo tarefas ou mesmo pontuando o lugar vazio deixado pelo membro que se foi. Morrer é certo. Kübler-Ross (2004) fala de uma defesa crescente que o homem tem contra a morte e contra a incapacidade de prevê-la, e precaver-se contra ela. Em nosso inconsciente não é concebida a idéia de morte, somente a crendice de sermos imortais. Mas a autora acredita que enfrentar a realidade da morte é a chave para viver uma vida significativa. Para Kübler-Ross (apud Papalia, 2000): É a n eg açã o da mor te q ue é pa rcialmen te res pons áve l pe la vida vaz ia e se m pro pós ito das pess oas ; po is qu and o você vive c omo s e foss e viver par a s empre, to rna-s e muito fác il a di ar as c oi s as que v oc ê s a be qu e d e ve f az e r . E m c on tr as te , q uan do você co mpr ee nde plena me n te que ca da d ia e m que v oc ê d es pe r t a p ode r ia s er s e u ú l t im o d ia , v oc ê a pr ov e i ta o te mp o d es te d ia p ara cr escer , par a to rnar -se mais q uem você r ea lme n te é , par a es te nde r a m ão a ou tr os s e r es h uma nos . (p. 577) Para Leis (2003) é no meio da massa, vivendo uma existência inautêntica, que se aprende a não enfrentar a morte. Com isso a morte está frequentemente acompanhada por uma idéia. Então, ninguém morre sem ter uma idéia do que ela significa. Este mesmo autor descreve: 29 Ca da um te m que morr er s ua pró pr ia mor te , mas q ue isso só é poss í v el n o c o n fr on t o c o m a c ul t ura de um a é poc a q ue tra ns for ma o au tên tico e m inau tên tico , na lu ta co ntra uma c u l tu r a d a m as s i fic açã o e do a no ni ma to , na lu t a d e u ma c u l tu r a que , a in da gos t and o de c ha mar - s e r e f le x i va , a te n ta p er m ane n te me n te c on tr a o d es en v ol v i men to do e u . ( p. 0 6) A morte faz parte da vida humana, ela é a finalização de toda uma existência, é algo que não se pode fugir ou se livrar. Conforme Jamarillo (2006) a morte é um tema profundo, dramático e misterioso, pois faz parte de algo desconhecido e impensável. Contudo, se o ser humano deseja tornar-se dono de sua própria morte, assim, como sua liberdade e autonomia, é indispensável pensar previamente nela, e assimilá-la na vida como uma realidade presente. 30 CAPÍTULO III POR QUE COMIGO? U ma d as c o is as m ai s d if í ce is d e a ce it ar é a m o rte d e um f i l ho . V ocê co g it a : p or q ue eu ? Po r que e le ? É u m r ude l e m br et e: a m o rte n ã o se gu e ho rár io p rev i s ív e l , e l a e sc o lhe se u p ró pr i o t e m po e lu ga r . E m bo ra do l or os a esta e xp er iê nc ia p oss a se r u m i mpu l so p ara o a ma du rec i m ent o d os qu e lh e a ce it am o de safi o . H á d uas esc o lh as qu an do m o rr e o se r a ma do: v i ver sof re nd o , co m r e mo rso s e c u lp a m a l d i stor c id o po r u ma f ac ha da: ou e nf ren t a r t a is s ent imento s , su pe rá -los e d ele s emer g ir c o m a ac e ita ção d a mo rte e u m com p ro m is so c om a v i da . ( MIZE a pu d FR EITA S, 2 000 , p . 56 ) E ste capítulo discutirá algumas características do processo de enlutamento materno em diferentes dimensões. A partir de algumas leituras, deparamo-nos com o termo “mito do amor materno”, entendemos que seria cabível oferecer um outro olhar em direção ao amor de uma mãe pelo seu filho. Segundo Casellato e Motta (2002) o mito da mãe sagrada, devotada, unicamente ao filho, resisti há tempos. É algo construído historicamente, apesar dos insistentes movimentos das mulheres. As autoras descrevem: A m a ter ni da de é um f a t o s oc ia l t o t al qu e s ó s e d es v e la s e co mpr een dido his tor ica me n te n as su as ver te n tes b io lóg icas e ps ico ló gic as , cu ltur ais e s ócio-eco nô mic as e não de um mo do ess enc ia lista se ja qu al fo r a “ess ênc ia” e le i ta ou a su a jus tific ação . ( p . 98 ) 31 Conforme Badinter (1985) o amor materno não é apenas instintivo. É um sentimento sujeito a imperfeição, dependente não só da história da mãe, mas também da humanidade. Para Casellato e Motta (2002) instaurou-se socialmente que as mães eram consideradas a “dona do saber”, levando-as a uma tendência de culpá-las por tudo de bom ou ruim que acontecesse aos seus filhos. Quando uma mãe perde seu filho, com toda essa bagagem emocional envolvida, o luto será determinado pelo vínculo estabelecido nessa relação. Entendemos que a morte de um filho, em geral é intensa e trata-se da interrupção, de um corte na seqüência esperada. Para Freitas (2000) o desejo dessa mãe é, então, de reunir-se ao filho querido, ou sair da vida por não suportá-la. Como houve uma quebra no processo evolutivo, ela se pergunta: para que continuar vivendo? O porquê dessa injustiça? Estas são questões que procuram respostas muitas vezes não encontradas. Segundo Casellato e Motta (2002) ao perder um filho, a mãe passará por um grande impacto que se divide em quatro dimensões: individual; conjugal; familiar e social. A dimensão individual é uma construção subjetiva, e só experienciada pela mãe que sofreu a perda de um filho. A mãe enlutada perde um pedaço de si mesma, a esperança, a perspectiva de um futuro, a função de cuidadora e sua própria identidade. As autoras ressaltam que (2002): 32 P ar a a ma io r i a d as pess oas o f il ho é a c on t in ui dad e d os pa is e d e s ua imor ta lida de , p or me io d a per petu ação d os ge nes . E o s ig ni f ica do d es s a r el aç ã o s er á in f lu enc iado pe la c a r ac ter ís t ic a do s u jei t o e p e las p r o jeç ões d os pa is p or el e . ( p. 10 7) Segundo Weiss (apud Coelho, 2000) o luto individual transcreve três principais tarefas de elaboração: - ser capaz de conviver com a dor da memória; - achar meios de ter uma vida de qualidade e responder adequadamente a demanda dos papéis sociais a serem cumpridos. As autoras Casellato e Motta (2002) descrevem que na dimensão conjugal, a morte de um filho tem efeitos no relacionamento afetivo do casal, cada um possui uma forma de experienciar o seu pesar; freqüentemente, também, ocorrem problemas sexuais, e em muitos casos o divórcio acontece permeado por essas mudanças significativas. Estes pais apresentam uma gama de sentimentos ambivalentes, evidenciando que a morte de um filho quebra de maneira definitiva um padrão estabelecido pondo em risco a estabilidade possível e necessária para se conviver. Conforme Parkes (1998) muitas vezes a morte é personificada como algo que foi feito para elas e procuram alguém para culpar. A culpa é dirigida contra qualquer pessoa que possa ter contribuído para o sofrimento ou para a morte. Essa forma de pensar ocorre com a maioria dos casais, quando um coloca a culpa sobre o outro. Para Casellato e Motta (2002) a dimensão familiar também é afetada, pois a perda de um filho é uma transição que implica em uma reorganização familiar. Surge a necessidade dos membros da família 33 desenvolver regras, papéis e expectativas que refletem diretamente em suas crenças e principalmente nas estratégias de enfrentamento do luto. Segundo Bromberg e Kovács (1996) após a crise, mudanças ocorrem, surge a necessidade de um rearranjo do sistema familiar, como conseqüência haverá a construção de uma nova identidade de cada membro e a busca eterna por um novo nível de equilíbrio. De acordo com Coelho (2000): Re la ta qu e a lg umas pess oas d esco bre m no proc esso d e lu to u ma fo rça q ue desco nhec ia m ter , assim co mo meca nis mos fac i litado res e s oluções cr ia tivas p ode m su rg ir ap ós a dor in icial da pe rda , co mo u ma for ma de re orga nizaç ão . Na m ed id a em q ue c o t id ia na men t e s e r e age a pe r das e frus traçõ es; o lu to é e n ten dido co mo u m co n te xto de vida e n ão u m pr ocess o is ol ad o . ( p . 3 0) Seguindo as idéias das autoras, Casellato e Motta (2002), na dimensão social, a perda de um filho é um evento significativo, por ser algo ameaçador e impactante. A sociedade reage muitas vezes inadequadamente por não saber lidar com os pais enlutados, e por acrescentarem expectativas místicas erronias, em relação a qualquer tipo de luto. Alguns exemplos descrevem como alguns destes mitos são seguidos pela sociedade: todos os pais reagem da mesma forma; o luto dos pais diminui com o tempo e os enlutados deveriam sentir-se melhor porque outras pessoas amadas estão vivas. 34 Conforme Coelho (2000) o sofrimento do luto está relacionado às alterações da saúde física e mental. O luto ainda é uma dor sem nome, nem lugar na sociedade. É estritamente importante neste momento falar do sentimento de “culpa” que tende a aparecer ao perder um filho. Conforme D’ Assumpção (2001) a culpa frequentemente acompanha a morte e o enlutado. Este sentimento por vezes vem acompanhado de palavras infelizes, por culpar-se de ter sido incompetente para impedir a morte de seu filho, ou até mesmo por questionar a atenção que foi dada ao filho quando vivo. Segundo Casellato e Motta (2002) a morte desmascara a onipotência, atando todo e qualquer movimento da mãe em torno da salvação de seu filho. Muitas mulheres abandonam suas vidas e se castigam pela incapacidade de manter seu filho vivo e, principalmente por estarem vivas. Um outro sentimento presente no processo de elaboração da perda será a “raiva”. Sentimento este, que adequadamente expresso com o decorrer do tempo retornará a períodos de tranqüilidade, até minimizar esses conflitos. De acordo com D’ Assumpção (2001) a compreensão da raiva muda com o tempo, em um primeiro momento gera-se uma carga emocional bastante intensa. No entanto, essa expressão deve ser esgotada e vivenciada corretamente para que esse sentimento não se 35 perpetue. Caso isso não ocorra, poderá ocorrer a repressão desse sentimento. A “tristeza”, também, é um sentimento que provavelmente qualquer enlutado irá sentir. Para Markham (2000) a diferença será a profundidade dessa tristeza e do período que ela perdura. Não se sabe se a tristeza desaparece um dia, porém esta pode tornar-se mais suportável. O fato é que o enlutado se acostumará com esse sentimento permanente ou não. Reogarnizar a vida, de acordo com Jaramillo (2006) é um desafio de reconstrução e de reaprendizagem de um ambiente que foi modificado, é um compromisso que se faz para continuar a viver. O reinserir-se no mundo ocorre lentamente e gradativamente. Conforme Tavares (2003) é na aceitação que se dá o encontro com a gratidão e a alegria que a presença física da pessoa que perdemos nos possibilitou. A abertura é a aposta no futuro de que ainda é possível viver. A felicidade é momentânea, tem aspectos circunstanciais. A alegria é diferente, e será nela que poderemos assegurar que a qualidade de vida não será apenas sobrevivência. A culpa, a raiva e a tristeza são sentimentos intensos no decorrer deste processo de elaboração até a aceitação. De acordo com Pires (2005): A c ad a dia q ue p as s a a perda a v o lum a-s e, o s o fr im en to a um en ta , o vaz io , a a us ênc ia e a s a uda de tor nam - s e insu por tá ve is . Te mos um med o d e en lou quec er , ju lg amos não se rmos cap azes de ag üen tar taman ho s o frimen to . Par ece-nos imposs íve l vo lta r a sa ir d es ta s i tuaç ão . ( p. 23 ) 36 Mas, é importante saber, que aceitar todo esse sofrimento não é conformar-se, não é esquecer da pessoa amada, mas, sim, uma possibilidade de continuar a viver dignamente. O capítulo a seguir discutirá sobre rituais, pois acreditamos que este apresentará aspectos relevantes para um processo de elaboração. 37 CAPÍTULO IV RITUAL: UMA DOR NECESSÁRIA V e i o à m is sa de um m ês , é s ó ass i m q ue a g ent e s e dá c ont a d o t e m po pass an do . Que ho rr or , q ue su sto , q ua nd o o Pa dr e F ra nc o d is se a i nt e nç ão da m i ssa : le ve i u m c ho qu e . Co mo se e u est iv ess e re ce be nd o a n ot íc ia n aq ue le min ut o . C ons eg u i ent en de r p or qu e o s r it ua i s são s áb ios e ne ces sá r ios ; e ex ist em, n as mes mas é poc as , em t oda s a s r e l ig i ões . E l e s t ê m u m a r az ã o d e s er; de sd e o v e ló r io , a mis sa de s ét imo d ia, de u m mê s , t ud o . É atr avé s d e le s q ue a g ent e va i se da nd o con t a d o que aco nte ce u , vai absorvendo a tragédia , realizando a perda (...) As c er i m ôn ias sã o com o u m t ra nc o q ue a ge nte l e va par a d es pe rt a r p ara a re a l ida de . É d if íc i l d e ma is ; m a s são imp ort ante s , já que p rec isamo s , ef et iv a men te , v o lta r à r ea lidad e . ( PAC IORN IK; PAC IORN IK , 2 004 , p . 55) A o realizarmos esta pesquisa, nos deparamos com os rituais, sendo eles diferentes maneiras de concretizar a perda. Porém salientamos que o ritual também possui um aspecto de cronificação do luto, ele pode atrapalhar dependendo do estado psíquico da pessoa. Uma outra questão importante a ser evidenciada é a dificuldade da sociedade em suportar a morte e suas manifestações. Há uma supressão do luto, e também há uma exigência de domínio e controle desta situação de perda. De acordo com Firth (apud Bowlby, 2004) uma questão importantíssima a ser abordada são as práticas de rituais funerais, principalmente quando se trata de um processo de luto. O autor fala em 38 um benefício aos vivos e não aos mortos, já que são realizados para os que ficam. Para Heidegger (2002): O f in ad o qu e , e m o pos ição ao mo r t o , fo i r et i r a do d o m e io d os q ue ficaram par a trás é o bje to d e ocu paçã o nos fu ne ra is , no e n terr o , nas ce rimôn ias e cu ltos d os mor tos . E isso p orq ue , e m s eu mod o de s er , e le é a ind a m a is do qu e um i ns t r u me n to d ado no mu ndo c irc un dan te e p ass íve l de ocup ação . J un to c o m e le , na ho men age m d o c u l to , os q ue f i c ar am par a trás sã o e estã o com e le , no mod o de u ma p reoc upaç ão r e vere ncial. O fina do de ixou nosso mun do e o d eixou p ara t r ás . É a pa r t ir d o m un do qu e os q u e f ic a m a in da po dem s er e es t ar c o m e le . ( p . 1 8- 1 9) Segundo Firth (apud Bowlby, 2004) estes rituais proporcionam aos enlutados a lidar com suas incertezas, a expressar publicamente seu pesar e a introduzi-los a um novo papel social que passam a desempenhar. Permite a todos os outros membros da comunidade tomar conhecimento público de sua perda e também o direciona a uma complexa troca de papéis. Este mesmo autor, fala destes rituais como sendo uma oportunidade para os vivos ainda expressar gratidão aos mortos, e praticar certos atos considerados benéficos para a pessoa que se foi. É uma maneira de acreditar que tudo esteja conforme os desejos da pessoa, pois é neste último encontro que ainda se tem uma presença, mesmo que esta já seja ausente. Essas práticas levam a um reconhecimento das perdas e dão o suporte correspondente, além de poderem expressar seu luto abertamente e proporcionar o tempo necessário para a compreensão de tais perdas. Casellato e Motta (2002) falam da importância das pessoas 39 participarem desses rituais que envolvam a perda, já que a morte física ou social não ocorre concomitantemente. Vivenciar um ritual proporciona a chance de uma despedida, um meio aceitável. É fundamental tanto para reorganização pessoal, quanto para a família em geral. Para Coelho (2000) o luto é um evento individual e coletivo, um momento de crise pessoal e familiar que demonstra sua importância simbólica para a coletividade, na medida em que é ritualizado na maioria das sociedades. As autoras, Casellato e Motta (2002), abordam também a possibilidade de ausência de rituais. Neste caso, poderá haver um prejuízo ou até mesmo o adiamento do processo de elaboração da perda. Esta ausência, bem como a negação em participar dos eventos, pode oferecer um comprometimento ou dificuldade em torno da aceitação ou compreensão da morte. Seguindo as idéias das autoras, a sociedade apresenta um importante papel na elaboração desta perda. No entanto, por ela definir a duração do luto, encorajar os enlutados a limitar seu isolamento e voltar a juntar-se à comunidade, corre-se o risco de prejudicar o processo de elaboração desta perda. Conforme Tavares (2003) a criação de rituais de elaboração pode favorecer a cada componente da família enlutada uma singular forma de expressão. Para McGoldrick; Walsh (apud, Tavares, 2003): 40 A per da e nvo lve tr ês p ar tes fu nd amen ta is : pr ime iro um r i tu al p ara rec onh ecer e faze r o lu to d a perd a ; se gun do um r i tu al p ara simb oliz ar o que o s me mbros d a fa mília inc orpor am ou l e va m c om e les da pess oa m or ta e o te r c e ir o um r i tu al p ara s imbo liz ar o pross eguimen to da vida . (p . 81 ) As datas possuem um importante significado para os sobreviventes em relação à pessoa falecida. De acordo com Casellato e Motta (2002) o luto pela morte de um filho reacende-se com maior intensidade em datas de aniversário de vida e de morte, e também nos encontros familiares. Embora não seja algo que aconteça especificamente na morte de filhos, mas também na morte de outras pessoas queridas. Para D’ Assumpção (2001): A ocorr ência dess as d a tas dur an te os p rime iros an os de lu to , s ã o e x tr ema me n te s ign i f ica t i vas a f in al s er á o pr i me ir o n a ta l , o pr imeir o a niversár io d a p essoa, se m a pesso a . Ge ralmen te a opçã o das pesso as é d e nã o co me morar a que la da ta ; Isso n ão é o me lh or q ue se pod e faze r, po is desc onh ecer que é n a ta l , fin gir qu e não é p áscoa po der á s er p io r do que ass umir a r ea l ida de d essas ce le braç ões . (p . 51) Segundo Tavares (2003) não existem rituais que sejam considerados certos ou outros que sejam errados, as referências são de ações que façam sentido para que a situação possa ser gradualmente assimilada. Kovács (2003) nos fala da compreensão da função destes rituais. Os ritos fúnebres funcionam como uma possibilidade de exercício comunitário para um compartilhamento de sentimentos, ajudando a compreender a separação do corpo e o do fim. 41 Para os enlutados, a compreensão de que sua vida não será mais a mesma será essencial para uma boa elaboração do luto, tema apresentado no capítulo a seguir. 42 CAPÍTULO V LUTO: PROCESSO DE ELABORAÇÃO O lu t o n ão con t é m f ó r mu l as m ág i cas , p or que ela s não e x ist em. N ã o t raz reg ra s e spec íf i ca s, p or qu e c ad a p es soa é d if e ren t e das outr as . N ã o e x ist em do re s i gu a is , não e x ist em s of ri m ent o s ig ua i s, n ão exist e m f o rma s de s up er açã o d a d or , t am b é m ig uais. (D’ A SSU MPÇÃO , 20 01 , p . 12) O luto surgirá por meio de uma perda, de um rompimento significativo na vida de uma pessoa, em cada cultura e em cada momento do desenvolvimento individual. Tavares (2003) descreve o luto como sendo uma contingência, um processo de assimilação da perda, um ritual de expressão de alguns sentimentos mais profundos e íntimos de nossa existência. Está ao lado da morte, como evento, e também da vida, como um processo. É aprender a se separar sem se perder. Neste momento é importante falarmos do termo pesar, pois é necessário apontarmos a diferença que existe entre o luto. De acordo com Tavares (2003) o pesar é um sentimento de perda diante de uma conexão interrompida ou quebrada. São todos aqueles sentimentos que aparecem envoltos a perda. O pesar é uma reação psicológica da perda. O primeiro sentido do pesar é a perda do objeto perdido que se torna insubstituível, 43 enquanto que a dor em alta dimensão toma incontáveis espaços na vida do enlutado. Para as autoras Bromberg e Kovács (1996) o luto só ocorre quando houver um vínculo significativo que tenha sido rompido, que ocorrerá a partir de uma relação previamente existente que determinará a qualidade do luto. Ao falarmos em vínculos, é estritamente importante citarmos a teoria do apego de Bowlby (apud Worden, 1998). Nesta construção o autor fala dos fortes laços afetivos que o ser humano tende a ter, e da forte reação emocional que ocorre quando estes laços ficam ameaçados ou são rompidos. Esses laços surgiriam de uma necessidade de segurança e proteção, iniciando-se cedo na vida, dirigindo-se a poucas pessoas específicas e tenderiam a durar por grande parte do ciclo vital. Esses laços, ao sofrerem situações de perigo, dariam origem a determinadas reações muito específicas, levando a uma resposta de intensa ansiedade e de forte protesto. Segundo Worden (1998) depois que alguém passa por uma perda, há certas tarefas do luto que deveriam ser realizadas para que houvesse um restabelecimento do equilíbrio, para então, o processo do luto ser completo. O essencial seria que a pessoa enlutada cumprisse tais tarefas antes que o luto fosse realizado. Para o autor estas tarefas se classificam em quatro processos. São elas: “aceitação a realidade da perda”, envolvendo não só a 44 aceitação intelectual, mas também a emocional; “elaboração da dor”, levando-se em conta que nem todas as pessoas vivenciam a dor na mesma intensidade, sendo mais difícil de lidar na época da perda; “ajustamento a um ambiente onde está faltando a pessoa que faleceu”, há diferentes significados para as pessoas, isso depende da relação com a pessoa falecida e dos vários papéis que o morto desempenhava, e, por fim, o “reposicionamento da pessoa que sofreu a perda relacionada a termos emocionais à pessoa que faleceu e, assim, continuar a viver”, não significa que as lembranças de uma relação significativa simplesmente caiam no esquecimento. Esses processos não se apresentam em uma seqüência certa, eles podem ocorrer em uma outra ordem, o importante é que a pessoa passe por eles. Worden (1998) também fala de uma defesa que pode aparecer em todas as tarefas. Dependendo do grau, já é esperada. Porém, quando aparece de maneira muito intensa, pode vir a interferir no desenvolvimento destas tarefas. Achamos importante ressaltar que apresentaremos somente dois tipos de lutos Luto Não Complicado, e Luto Complicado, pois estes são necessários ao nosso trabalho. Mas, é importante salientarmos, que há outros tipos de lutos, tais como: Luto Antecipatório; Franqueado; Luto Crônico; Luto não autorizado, entre outros. Luto não 45 5.1 – Luto não complicado Para Casellato e Motta (2002): As mã es se n te m-se ro uba das e trap acea das , e xib in do co mo ca rac ter ís ticas espec ia lmen te in te nsas d o lu to a obsessã o em q uer er co ntro lar e en te nde r o que aco n teceu ; o s en time n to de cu lp a , a reco rrênc ia de sen timentos de pesa r, a id en tificação c o m o f i lh o m or t o e a n ec es s ida de de e xpr es s a r a dor e f a lar so bre a e xp er iênc ia vivida . ( p . 10 9) Tavares (2003) acredita que facilitar o luto é abrir espaço, motivar e inspirar a troca de sentimentos favorecendo todas as gerações para que possam ter modelos que lhes facilitem integrar as perdas posteriores. A mesma autora descreve que a dor de perder, não precisa ser sinônimo de amargura, é algo que nos atinge, nos deixa impactados, feridos, abatidos, e não tem necessariamente que nos derrotar. A dor também oferece a oportunidade de um mergulho interior, levando a revisão de valores, projetos e propósitos de vida. A grande ultrapassagem é desenvolver a capacidade de transformação dentro de nós mesmos, sem trapacearmos. Para Worden (1998) um luto não complicado engloba uma gama de sentimentos e comportamentos que são comuns depois de uma perda. Entre os sentimentos esperados estão: - Tristeza, é o mais comum encontrado no luto. - Raiva, pode ser um dos sentimentos mais confusos para a pessoa que regressiva. ficou, derivado da frustração ou de uma vivência 46 - Culpa e auto-recriminação, freqüentemente irracional, há uma diminuição com o decorrer da realidade. - Ansiedade, pode variar desde uma leve sensação de insegurança a um forte ataque de pânico. - Solidão, sentimento freqüentemente expresso pelas pessoas que ficaram. - Fadiga, se assemelha a apatia ou indiferença, desamparo presente com freqüência nas primeiras fases da perda. - Choque, geralmente ocorre em casos de morte súbita, porém, é possível ocorrer em outras situações de perda. - Anseio, normal ao luto, quando diminui pode ser um sinal de que o luto está terminado. - Emancipação, sentimento positivo depois da morte. - Alívio, frequentemente associado à culpa. - Estarrecimento, funciona como uma espécie de defesa a tantos sentimentos que surgem ao mesmo tempo. Worden (1998) também fala das sensações físicas que vêm associadas às reações agudas ao luto. As mais comuns são: vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, hipersensibilidade ao barulho, sensação de despersonalização, falta de ar, fraqueza muscular, falta de energia e boca seca. Também é importante ressaltar os pensamentos comuns nas primeiras fases do luto e que geralmente desaparecem depois de pouco 47 tempo. Entre eles: a descrença, confusão, preocupação, sensação de presença e as alucinações. O autor também descreve comportamentos específicos que aparecem associados a reações normais do luto, sendo eles: distúrbio do sono ou despertar precoce; distúrbio do apetite, manifestando-se tanto em termos de comer excessivamente, quanto de comer pouco; comportamento aéreo, tendendo a esquecer das coisas, ou agir de forma distraída, ou fazer coisas que possam prejudicar; isolamento social levando a uma possível perda de interesse pelo mundo externo; sonhos com a pessoa que faleceu; evitar coisas que levam a pessoa que faleceu a desencadear sentimentos dolorosos; procurar e chamar pela pessoa que faleceu; suspiros; hiperatividade, na tentativa de aliviar a inquietação; choro, alívio do estresse emocional; visitar lugares ou carregar objetos que lembram a pessoa que morreu e usar objetos preciosos que pertenciam a pessoa que faleceu. Conforme Tavares (2003) ignorar ou apressar essas tarefas é correr o risco de ficar preso ao luto mal elaborado. Para Papalia (2000) é fundamental saber que o luto assume diversas formas e padrões para cada pessoa. Será a partir destas representações que acontecerá as diversas maneiras de lidar com as perdas, sem fazer com que essas pessoas pensem que suas reações são atípicas. 48 5.2 – Luto Complicado Segundo Casellato e Motta (2002): T od os os pr ocessos de lu to c on tr ib uem para a r eor gan izaç ão d o s uj ei t o d ia n te da c r ise i ns ta lad a em s ua v i da a pós a p er da . Es tes mesmos fatores in ade qua dos ou ins u fic ie n tes pod em d i ficu ltar o pr ocesso de ada p taç ão e e la bor ação d a per da , ch ega ndo a tr azer c ompro me timen tos p siqu iá tricos que d e ver ão ser cu idad os p or pr o fiss io na is da áre a . (p . 1 17) De acordo com Worden (1998) os fatores relacionais definem o tipo de relacionamento que a pessoa tinha com aquele que morreu. O tipo que mais impede um luto adequado é aquele que é altamente ambivalente com hostilidade não-expressa, aquele que é altamente narcísico. Ainda, há casos, que a morte pode abrir velhas feridas. O autor relaciona o luto complicado a fatores circunstanciais, como por exemplo, a perda sendo incerta; a fatores históricos, como pessoas com tendência para um luto complicado; a fatores de personalidade, como pessoas que não toleram extremos de estresse emocional; e a fatores sociais, a perda seria socialmente não comentada, negada ou agiria como se nada tivesse ocorrido. Um outro fator importante, também, é a ausência de uma rede de apoio social. Conforme Worden (1998) as reações de um luto complicado, podem ser denominadas como: “crônicas”, sendo aquelas que têm uma duração excessiva e nunca chegam a um término satisfatório; “retardadas”, seriam aquelas inibidas, suprimidas ou postergadas; “exageradas”, a pessoa se sentiria sobrecarregada e recorreria a conduta mal-adaptada, sendo possível levar a transtornos psiquiátricos 49 maiores e as “mascaradas”, seriam aquelas mascaradas por sintomas físicos, ou por algum tipo de conduta aberrante ou mal-adaptada. Segundo Casellato e Motta (2002) os fatores de risco de um luto complicado iniciam primeiramente como fatores predisponentes e intrapsíquicos da pessoa enlutada, juntamente com as circunstâncias da perda, como a causa e o tipo de morte. Posteriormente seriam as características da relação prévia com a pessoa falecida e por fim a ausência do suporte social e a intensidade do sofrimento farão a diferença. 5.3 – O que acontece após o luto? A partir do andamento da pesquisa, compreendemos que seria importante falarmos das conquistas que podem ocorrer após o luto. Enfatizando que sempre dependerá de como a pessoa lidará com o seu processo de luto. Compreendemos que é difícil passar por ele, mas é necessário para uma boa resignificação de vida. Conforme Jaramillo (2006) conseguir vivenciar bem o luto implica, antes de mais nada, em um compromisso pessoal com a mudança na vida, considerando o tempo, esforço e paciência. Refazer a vida, recuperar seu sentido e reorganizá-la são tarefas penosas, mas pertencentes ao processo de luto. Seguindo as idéias do autor, passar por este caminho implica possivelmente em sentir uma nova força interior e poder arriscar e 50 descobrir novos propósitos para a vida. O luto bem elaborado pode ser um fator de enriquecimento pessoal, uma possibilidade de transformação e uma perspectiva diferente de compreensão da vida e da morte. De acordo com Jaramillo (2006): U ma tra géd ia é um a l iç ão d e hu m il dad e , d e fl e xi bi l id ade , de h um an ida de , q ue em g er a l nos o br iga a r ees tr u tur ar o n os s o s is te ma p esso al de cr enças para inc lu ir a p ossibilida de de p er d as e da pró pr i a m or te . ( p . 2 15) De acordo com Agostinho (apud Pires, 2005) a vida passa a ter um outro significado. Aprende-se a lidar melhor com os problemas, com as angústias e com os medos. O sofrimento ensina a dar valor às pequenas coisas da vida, é importante não fugir dele, pois será através do sofrimento, que, possivelmente, chegar-se-á a algo benéfico para si e para os outros. 51 “Há duas formas de viver a sua vida. Uma é acreditar que não existe milagre, a outra é acreditar que todas as coisa são um milagre”. Albert Einstein 52 CAPÍTULO VI ANÁLISE DA ENTREVISTA 6.1- Encontro “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. (Vinicius de Moraes) O encontro com Márcia ocorreu em sua residência, em um final de semana, na cidade de São Paulo. Ao chegarmos ao local, Márcia nos recebeu com muita receptividade e disposição. Sua primeira fala foi: “demorei para chegar, pois passei no mercado para comprar algumas coisinhas para tomarmos um lanche, que mãe que não se preocupa com essas coisas...” Neste momento ficamos surpreendidas. Como uma mãe que perde seu único filho, ainda sente-se mãe? É estranho de pensar e principalmente de ouvir. Essa frase de Márcia justifica-se por meio de uma compreensão que Rando (apud Fonseca, 2004), ao analisar esse tipo de comportamento, faz de pessoas que perdem alguém querido. Para o autor a pessoa que passa por uma perda necessita reajustar-se a um novo mundo sem esquecer-se do velho, é uma procura de adaptar-se a novos modos de ser no mundo, e a partir de novos conceitos buscar 53 uma nova identidade. O autor descreve esse tipo de comportamento como sendo uma forma saudável de lidar com a perda. Junto a isso, entendemos que há algo que aparece como irrevogável, “não existe ex-mãe, nem ex-filho”. Não há definição no dicionário para quem perde um filho. Neste momento, percebemos que Márcia não abdicou de seu papel materno. E foi a partir daí, que o nosso trabalho começou a ganhar sentido. A entrevista transcorreu tranqüilamente. Somente em alguns momentos Márcia se mostrou emocionada ao decorrer de suas falas. 6.2- Relações: Filho e Amigos É natural que a maioria das mães sinta seus filhos como um pedaço de si, é uma relação que se pode denominar como um amor incondicional que acompanha toda a gestação e todo desenvolvimento humano. Márcia mostra-nos, por meio da sua entrevista, uma forte relação com seu filho. Para trabalhar a relação de que ele era meu filho, que podia até ser meu amigo, mas principalmente ele era meu filho; eu era mãe dele (...) O homem que eu mais amei na minha vida, incondicionalmente. Esse tipo de relação segundo Badinter (1985) foi construído ao longo da história, há uma nova concepção de mãe. A maternidade tornou-se um papel gratificante na sociedade, trazendo consigo sentimentos de desejos, de ideais e superações, sendo, ao mesmo 54 tempo, uma experiência complexa e repleta de sentimentos contraditórios. Mas acreditamos que o amor de uma mãe, não é somente uma construção social, vai muito além do que uma racionalização. É um amor que já faz parte de uma relação entre mãe e filho, é um sentimento incondicional, não há “por quê” e nem “para quê”. O Pedro, às vezes falava para mim: mãe me ama menos, eu não tenho culpa que sou só eu (...) Para Badinter (1985) atualmente as mães passam muito mais tempo com seus filhos do que ocorria antigamente. Estabelecem-se laços nestas relações que se tornam cada vez mais difíceis de serem rompidos. É neste contexto, que Márcia demonstra uma intensa relação com seu filho. Pode-se falar que essa angústia, que Pedro sentia, poderia ser ocasionada por questões que Márcia acreditava ter falhado, e que já vinha ao longo de sua história. Geralmente são questões psicológicas e que, dentre outros fatores, podem levar a uma relação excessiva de amor e culpa. De modo que Márcia ao expressar seu amor por seu filho sufocava-o. Entendemos que quando o amor é direcionado a alguém que não se encontra preparado para recebê-lo, possivelmente gera uma culpa por não conseguir amar de forma recíproca. 55 (...) o filho tem que romper com a mãe para crescer, mas eu acho que é muito difícil romper com filho. Alguns autores, como Winnicott, falam que mães deveriam frustrar seus filhos para que eles se percebessem como sujeitos. Porém, fala-se pouco das dificuldades que essas mães têm em executar essa tarefa, principalmente quando esse rompimento é algo definitivo. Um outro tipo de relação que aparece de maneira muito significativa na entrevista, é a relação de Márcia com os amigos de Pedro, principalmente depois de sua morte. Para ela, esses encontros tornaram-se uma possibilidade de alegrias, recordações, e principalmente momentos de redescobertas sobre seu filho. Eu falei, pô, se eles amaram tanto o meu filho, e eles são também importantes para meu filho, então, têm muito Pedro neles, e têm muito deles no Pedro, então foi uma cena “não” de substituição, nunca fiz isso, nunca.... Pires (2005) fala de um contorno e uma aceitação para se continuar a viver. O encontro, com pessoas que fizeram parte desta relação de amizade, torna-se uma maneira de recordar momentos vividos no passado. Márcia deixa claro que essas relações não substituem seu filho, mas complementam, fortalecem e distraem sua vida. Alguns pais 56 buscam nos amigos do filho que faleceu, uma parte de sua história que para eles ficou perdida. Questionar atitudes, travessuras, momentos felizes é uma das formas de manter a memória e a lembrança de seu filho ativa em sua mente. Fazendo isso, não se permite que essa lembrança caia no esquecimento, no vazio e na escuridão. E aí óbvio! éramos cinqüenta e quatro, e agora(...) mas têm uns vinte e três que são assim, dos “jantares da tia Márcia” (...) Têm vários tipos [pessoas] e todos eles são possibilidades de vida, né! então é muito bom estar com eles. [amigos] Para Tavares (2003) a criação de rituais pode favorecer a elaboração do enlutado, sendo eles uma singular forma de expressão. Não existem rituais que sejam certos ou errados, o importante é que façam sentido e assim, possam gradualmente ser assimilados. 6.3- Sociedade e Psicoterapia Uma outra questão que aparece de forma muito intensa, é o despreparo da sociedade em relação às pessoas em processo de perda. Márcia fala da dificuldade que as pessoas têm em lidar com a morte. Acreditamos que essa dificuldade venha do próprio medo de morrer e também de saber que a morte é para todos, ninguém está desprovido dela. 57 E, aí você começa aprender a ouvir merda e não registrar, quando a coisa é boa eu registro, quando não é... eu ouvi: “você parece à família Kennedy”, “quem mandou não ter outros filhos”, “eu acho que agora você não vai agüentar”, então a gente escuta isso na hora da fila de condolências (...) então eu ouvia e pensava... A pessoa está falando meleca no seu ouvido, certeza. “Ah! ele está melhor aonde tá”, “Deus dá, Deus tira”, então as pessoas falam, porque a gente não sabe lidar com a vida, imagina lidar com a morte, né! Segundo Leis (2003) no renascimento e nas primeiras fases da modernidade, conservavam-se os ensinamentos para aprender a morrer por meio da leitura de textos e tratados medievais. Incorporavam-se rituais, pois se acreditava que existia a arte de morrer. As pessoas sofriam, sentiam e refletiam sobre a própria morte na ocasião da morte dos outros. Hoje, a morte é apontada em outra direção, ela é vista como um buraco negro, uma zona obscura e mal resolvida da condição humana. Com isso, a morte não foi substituída por nada, apenas pelo silêncio. Eu fico ouvindo, mas eu não escuto, porque eu não consigo mais. A minha tolerância para a ignorância ficou, que para a pessoa não é ignorância, mas para mim é!(...) Márcia mostra-nos a diferença que faz quando ouvi e quando escuta. O seu ouvir está apenas na sua presença física, enquanto que 58 o seu escutar é a junção entre a presença física e a psíquica. Quando se refere a sua tolerância para ignorância, percebemos que para ela, alguns aspectos da vida cotidiana do ser humano, não fazem mais sentido para sua vida. Desta forma ela nomeia essa falta de sentido como ignorância. De acordo com Coelho (2000) a vida de quem já perdeu alguém certamente fica alterada. Porém, essa rotina, com o passar do tempo, e o distanciamento da perda, levará a mudanças de características, transformando-as em uma nova dinâmica e uma nova forma de existir. Portanto, haverá um processo de remodelação emocional e cognitivo, de modo a adaptá-los à sua vida. (...) Então é muito difícil, porque as pessoas não sabem o que fazer com você; você não sabe o que fazer com você (...) Leis (2003) ressalta que para a sociedade moderna contemporânea a morte esta sendo transformada numa representação externa ao nosso eu. Assim a morte é um espetáculo, pois evidencia a crescente falta de contato físico e espiritual dos seres humanos com a experiência da morte, ela torna-se apenas uma representação simbólica, onde a nossa cultura mostra uma profunda rejeição em falar sobre ela. Observamos também, que Márcia, pós a perda de seu filho, mudou a sua forma de relação com o mundo. Ela passou a atribuir 59 outros tipos de significados e de sentidos a fatos que antes eram desapercebidos. (...) depois da morte do Pedro, a morte dele teve um impacto tamanho na minha vida, que NUNCA mais NADA que aconteça comigo ou com qualquer pessoa, não que eu não tenha compaixão, mas até isso ficou comprometido, eu sou honesta!(...) Então você fica um pouco amarga, um pouco cética, e ao mesmo tempo, você fica vendo a vida sem cor, você não tem mais filtro, mas é isso que eu tenho que trabalhar em mim, porque se eu for falar tudo que eu penso para as pessoas na hora, eu acho que eu não teria “uma relação”, em termos de trabalho, de amizade, nem de nada (...) Para Casellato (1998) esses sentimentos que Márcia descreve, podem ser explicados por ela ainda não ter superado velhos padrões de pensamentos, e ainda não ter desenvolvido um novo tipo de relação com seu filho, dificultando a busca de novos modelos. É quase inevitável que a pessoa enlutada sinta-se em certos momentos desesperada, pelo fato de não ter impedido a morte da pessoa querida, e conseqüentemente o enlutado pode tornar-se deprimido e apático. Isso pode implicar em uma resignificação de si mesma, de sua função e de seu papel social. Conforme já foi visto nos capítulos anteriores, Casellato e Motta (2002) ressaltam que uma mãe ao perder um filho, perde também sua função de cuidadora e sua própria identidade. Acreditamos que Márcia 60 em alguns momentos sente-se arrancada do mundo, algo foi retirado de si mesma. Um outro tipo de relação que Márcia diz ser de extrema importância a todos que passam por um processo de enlutamento referente à morte, é o papel do psicólogo frente a essas situações de perda. Eu acho que é “ESCUTAR”. Agora, por exemplo, [acha] que os psicólogos poderiam ajudar escutando as pessoas. Poucas pessoas, tem a pré-disposição de ouvir, não é só escutar (...) É a nossa morte enquanto mãe, né! Então eu acho que deve ter mais livros, mais terapeutas que saibam da vida para poder saber da morte. Márcia nos faz refletir sobre as questões referentes às experiências que apenas quando alguém passa por elas, descobre o seu sentido. Porém, não é necessário ter passado por algo similar, mas é importante pelo menos, estar abertos à questão da morte. Para Casellato e Motta (2002) a dor dessas mães deveria ter uma forma de expressão e um tipo de acesso, para que de algum modo pudessem ser aliviadas e atendidas por diferentes profissionais da saúde. Esses profissionais deveriam ser auxiliados para que de alguma forma aprendessem a lidar com essas mães. 61 Kovács (2003) comenta sobre uma outra “visão” que ela traz desses profissionais da saúde. Eles também sofrem por não conseguir adiar a morte, ou por não ser capaz de aliviar o sofrimento do moribundo ou do enlutado. Esses profissionais vivenciam os seus limites, sua impotência e sua finitude, nesse momento eles imaginam a sua própria terminalidade, e vivenciam a possibilidade de passar pela mesma situação do seu paciente, o que para ele pode ser extremamente doloroso. Por isso todos os profissionais, sejam eles de diferentes áreas, deveriam passar por um processo de reumanização da morte, o que na verdade é uma reumanização da vida, gerando, assim, uma revisão de suas práticas profissionais. Nesse momento, cabe dizermos que hoje, existem mais trabalhos nessa área, é um dos campos da psicologia que vem se desenvolvendo de forma intensa, porém, ainda necessita de maiores seguidores e aprofundamentos. (...) eu era uma sombra andando, aí eu falava assim: Eu não sei por que eu estou aqui? E ela [psicóloga] falava: “Nós, não sabemos, mas nós vamos descobrir, e aí me fala, como você está”? Ela me escutava. Às vezes eu nem escutava o que eu estava falando, às vezes eu não falava, e às vezes eu não escutava o que ela estava falando. Mas eu voltava, e isso me tirou de uma puta depressão (...) É importante falarmos do papel do psicólogo nesse caso, pois por meio da cumplicidade de Márcia com a sua terapeuta, ela conseguiu 62 entender a necessidade de encontrar um espaço para a expressão de sua dor, e também reorganizar seus conflitos e angústias, onde possivelmente poderia ocorrer uma melhor forma de elaboração. Kovács (2003) ressalta que após a perda de pessoas significativas, há um aumento da freqüência com que os enlutados procuram cuidados psicológicos e psicoterâpicos. Esses são processos bastante intensos, que têm de ser abordados por diversos ângulos, porque necessitam de apoio e ajuda no processo de reorganização e elaboração da perda. 6.4- Reações e Sentimentos Achamos importante falar de reações e sentimentos, pois eles aparecem muito fortes no ser humano, principalmente quando se trata da morte e da vida. Em sua entrevista, Márcia mostra-nos sentimentos e reações intensas e confusas ao mesmo tempo. (...) porque o amor que uma mãe tem pelo filho, NÃO TEM SUBSTITUTO (...) Mesmo seu filho não estando mais presente, Márcia não deixou de amá-lo. Conforme Nuno (apud Pires, 2005) nada nem ninguém poderá substituir um filho perdido, ele apenas deixará de ser algo concreto, mas ainda continuará existindo para ela. 63 Márcia continua a viver mesmo sem desejar, continua a eleger novos objetivos, novos desejos, mas nada substituirá seu amor pelo seu filho, mesmo perdendo sua função de mãe. (...) você não quer mais viver e você está viva, você acorda e respira, você dorme e a última coisa que você lembra (não que você não lembrou o dia inteiro), a última coisa (...) Esta frase remete-nos a idéia de existência. Para Sapienza (2004) a existência é ser-no-mundo, é poder ser atingido, ser tocado o tempo todo por tudo. É sempre um poder adiante de um “para quê”, de um “a fim de quê”, e quando este se rompe, ou está ameaçado, a existência fica machucada. Isso leva-nos a acreditar que Márcia, mesmo estando viva e não desejando estar, continua a ser afetada pelas suas lembranças, trazendo em si, dor e sofrimento. Eu acho que a gente fica totalmente enlouquecida, ensandecida, porque eu consegui fazer tudo [enterro]! Eu tinha a obrigação de fazer o melhor para o meu filho (...) Conforme Didion (2006) quando se pensa em enterro, fica-se imaginando como enfrentar essa situação. Sabe-se que o enterro e o velório são práticas úteis para a saúde mental de todos. Nesse momento os familiares se mostram com uma força que geralmente é associada a uma relação correta a morte. 64 De acordo com Kovács (1989) o finado é a evidência concreta da morte e da perda, o que no caso é difícil de suportar. Há também um conflito ligado à perda e ao corpo apresentando-se como uma concretude. Surgindo possivelmente uma cisão de corpo e de pessoa. Para Pincus (apud Fonseca, 2004) há vários sintomas no pesar, e também diferentes formas de expressão, umas delas é a fase “controlada”, onde é preciso fazer arranjos, encarar e resistir ao funeral. O enlutado nesta fase é apoiado e cercado por amigos e parentes. De acordo com a tradição e a cultura, este período poderá ser diferente para cada pessoa. E, quando uma pessoa me diz: “assume isso”, “vai passar”, eu quero bater na pessoa, porque eu não quero que passe, se tivesse uma loboterapia para tirar só a dor que eu sinto pela falta do meu filho, assim mesmo eu não faria. Por quê? Porque têm o reforço das coisas boas e porque têm a “PRESENÇA NA AUSÊNCIA”. Para Kovács (1989) o ganho da perda, pode ser o outro internalizado como figura boa, nas lembranças e na memória. E, está internalizado é uma forma de não se perder. Entendemos também que para Márcia a loboterapia seria uma forma negativa de perder toda a lembrança de seu filho, sendo elas boas ou ruins. Márcia agarra-se ao seu amor pelo filho e nas lembranças para não perder a sua sanidade. Este é um ato de 65 enfrentamento, pois o medo de enlouquecer e perder sua memória torna-se uma possibilidade maior de sofrimento. (...) existe um grau muito forte de culpa, quando eu fui a primeira vez arrumar o meu cabelo, eu pensava, eu estou arrumando o meu cabelo..., o meu filho está morto (CHORAVA) ia no cinema, assistir televisão, qualquer coisa, ouvir uma música, mas meu filho está morto (...) Como já discutimos em nossos capítulos anteriormente, a raiva, a culpa e a sociedade, fazem com que essa mãe, oscile entre esses sentimentos que de modo geral, já são esperados por alguém que sofre esse tipo de perda. Mas a sociedade faz com que esse processo, se torne algo extremamente culposo e acarrete na pessoa uma dificuldade em continuar a viver e principalmente continuar a exercer situações do cotidiano. Conforme Paciornik e Paciornik (2004): Ach o qu e o lu to é um proc esso de a bsorçã o de uma per da ; ca da um tem se u temp o e s eu je ito . É prec iso resp e itar . Nã o d á par a fing ir q ue a do r não e xis te . Também não dá p ara se e n tre gar e la . T em q ue ir ad minis tra ndo . Me lhor mesmo é a g en te s er h um i lde e t e n tar apren der c om o s o fr ime nt o . É s ó a tr a vés de le mes mo qu e a g en te c r es c e . ( p . 1 04) De acordo com Rando (apud Fonseca, 2004) uma forma de reagir a separação é experimentar a dor e o sofrimento. É identificar, aceitar e dar alguma forma de expressão, a todas reações psíquicas da perda. 66 Porque a gente [mãe] perde o medo, o único medo que eu tenho, é de não encontrar meu filho, eu não tenho mais nenhum medo (...) Esta fala nos remeteu ao livro “Amor Perfeito Amarelo”. É um livro que relata a experiência de uma mãe que também perdeu seu filho, e em uma de suas falas nos deparamos com a semelhança da vivência de Márcia. S a be fi l ho , a mor t e , p ar a mi m , d ei x ou d e s er as s us t a dor a , n ão ten ho o menor med o da mor te ; e la sign ific a p ara mim, u ma a le gre p ersp ec tiva de r eenc on tr ar voc ê . É só . É uma p er s p ec ti va tra nq üi la, eu d ir ia al eg r e . N ão m e c aus a o m en or m e d o . ( P AC IOR N I K ; P A C IOR N IK, 2 0 0 4 , p . 5 9 ) Porque existe uma culpa tamanha pela perda de um filho, que eu acho que tem vários momentos que eu engessei para sensações, então o que era muito importante, mudou para mim. Para Kübler-Ross (2004) a culpa se fundamenta na condenação de nós mesmos, ela aparece na sensação de que algo deu errado, é quando a raiva se volta para dentro de si própria, surgindo freqüentemente na violação de crenças. Essa culpa liga o ser humano às partes mais obscuras, é uma ligação com a fraqueza, com a vergonha, com a incapacidade de perdoar, geralmente ligado a algo que foi feito. A culpa e o tempo estão estritamente ligados. Ela sempre vem acompanhada do passado, assim, mantendo-a viva. Pode-se falar que a culpa é uma maneira de evitar a realidade do presente. Mas, que certamente precisa ser trabalhada e eliminada. O 67 passado precisa ser aceito, para aprender com ele e desapegar-se dele. (...) o seu cérebro, eu acho que não registra tanto, é que eu tremia quando lembrava, porque você dorme e você esquece, aí quando você lembra vem aquele choque, porque é uma coisa que não é natural, né! A mesma coisa deve ser ou parecido, alguém quando amputa a perna, ela não continua sentindo? Conforme já foi dito anteriormente por Pincus (apud Fonseca, 2004) uma outra fase relacionada a formas de expressão, é a fase do “choque”. Ela encontra expressão no colapso físico com explosões, no torpor, na recusa e na incapacidade de aceitar a realidade da morte. A pessoa sente-se temperamento e confusa a e situação a reação que ela varia se de acordo encontra, com seu possivelmente oscilando de acordo com o estado de torpor, apatia, ou até mesmo a superatividade. No começo eu acordava muitas vezes, eu tremia quando eu lembrava. Então é uma violência psíquica que atinge todo físico, com certeza, absurdo! Então você se sente louca, a vida está sem cor, você não sabe o porquê, como, aonde, o que eu estou fazendo aqui (...) E quando você começa a procurar algum livro, alguém, não tem. 68 Para Didion (2006) a dor que é associada pela perda de uma pessoa querida, é um estado que ninguém conhece antes de ter passado por ele. Não se espera que esse choque seja aniquilador causando uma desordem tanto para o corpo quanto para a mente. Não se imagina ficar inconsolável com a perda, e nem literalmente malucos. Percebe-se que este choque inicialmente proporciona uma falta de perspectiva de futuro, não há projetos e nem desejos. Tudo se torna um grande vazio. O Ser humano é IGUAL no AMOR e na DOR (...) O ser humano possui características diferentes, porém o amor e a dor estão diretamente ligados à natureza humana. Ao perder alguém, a dor torna-se a própria morte. A morte nesse momento será a companheira do amor, e ambas irão reger esse novo mundo. Então eu quero retribuir o amor, né! Então como que eu posso retribuir, primeiro eu não vou me matar, porque eu tenho medo de ir para inferno, sei lá para onde. Márcia mostra-nos uma questão que aparece com muita freqüência em falas de pessoas que também já perderam alguém que amava. É comum que essas pessoas procurem algo que de algum modo as sustentem neste momento. Ela demonstra um medo, que junto a este, evidência a sua própria finitude, buscando assim uma tentativa de sobreviver. 69 Para Kübler-Ross (2004) este tipo de medo baseia-se no passado, impulsionando a um medo do futuro. Mas, ele também serve a um propósito, é uma oportunidade de optar pelo amor e não pelo medo, é uma possibilidade de enxergar a realidade e não o passado. (...) como eu posso dizer uma desculpa para isso [chorando] entender que ele era tão bom que foi antes, que essa vida é passageira, que a eternidade é o que vale..., mas é tudo mentira, para mim na verdade... eu dava tudo para estar com ele, mas PORRA! Aí vem assim, uma coisa muito louca, ou eu acredito que vou reencontrá-lo, porque aí é a minha grande salvação para minha alma, para minha dor, ou então eu DESISTO de tudo. Márcia busca uma maneira de entender o que de fato aconteceu, pois, ainda há uma oscilação entre sentimentos que levam a aceitação ou a negação. Poderíamos falar que neste momento seria uma possibilidade de aceitação, mesmo que inconsciente. Para não Enlouquecer, ela agarra-se ao reencontro com o filho para poder sobreviver, e também salvar-se de um vazio existencial que só ela poderia elaborar. Para Tavares (2003) será no processo de aceitação que surgirá uma possibilidade de olhar para o futuro e acreditar que ainda é possível viver. 70 (...) porque mãe não vai entender nunca isso, né! Nem aceitar, acho! A gente talvez finja uma certa resignação, né! (...) Conforme Jaspard (2004) esta resignação que Márcia fala, pode estar ligada a uma força de conviver com o sofrimento. Neste sofrimento pode-se encontrar dois significados: um deles seria o recebimento de diversas formas de experiência para aqueles que a vivem; e o outro seria um distanciamento, para que então, houvesse uma perspectiva de sentido. Entendemos que Márcia em sua fala, possivelmente nega a imposição da morte de seu filho, embora busque formas de expressão para compreender a gama de sentimentos que envolvem essa perda, e que jamais será totalmente sucumbida. De acordo com Markham (2000) nenhum tipo de perda gera tantos sentimentos quanto a morte. A elaboração torna-se um processo ao longo da vida que dependerá de diferentes fatores para ser aceita ou não. Aí quando eu soube, eu infelizmente não morri (...) O primeiro pensamento que veio era assim: “Agora não existe a possibilidade de vida sem meu filho”; isso passou pela minha cabeça, eu me mato e vou encontrar com ele. Na visão de Kovács (2003) embora a morte seja uma experiência universal e vivida conscientemente, ela pode, em momentos, ser levada a um potencial considerável de desestruturação e depredação. 71 Neste momento, seu projeto de vida é interrompido, não há mais perspectiva de futuro. O desespero passa pela mente de Márcia, de forma que a morte mostra um caminho de alívio para dor e também para a possibilidade do reencontro com seu filho. (...) eu acho que tem que ter alguma função a DOR, a não ser massacrar o ser humano. Esta fala nos levou a pensar em uma reflexão de Kübler-Ross (2004): “A perda é um buraco no coração, mas também é um buraco que desperta o amor e pode despertar o amor de outras pessoas”. (p.71) Esta colocação nos faz pensar que Márcia ao escrever um livro, possivelmente tenha direcionado a sua dor. Ela encontra uma maneira de falar sobre seu filho, de aliviar seu sofrimento e também de compartilhar sua experiência com outras mães que já tenham passado por esta experiência. Surgindo neste momento um novo sentido para sua dor. 6.5- Rituais Muitas pessoas que vivenciam uma perda buscam nos rituais, na fé, na religião, formas de minimizar seus conflitos e entender mais sobre a morte; principalmente quando se trata da morte de uma pessoa querida. 72 Agora o que mais ficou para mim, que de repente eu fico nisso é assim, no padre, meu padre! O padre né, eu chamo ele de meu padre, porque ele é muito querido, um senhor lindo, hiper culto, um padre normal que sabe que a gente não tem fé, que aí, a gente acorda para fé, um padre que nunca tinha visto, padre perfeito! Ele falou: “Márcia, se você tivesse em uma cela, com a pessoa que você mais ama no mundo no caso, o seu filho, e ele fosse libertado antes que você. Como você ia ficar”?. Márcia apega-se ao padre como algo reconfortante e auxiliador. É uma possibilidade de compreender aquilo que havia ocorrido. Percebese que o padre procura fazer com que ela encontre na fé uma forma de elaborar a sua perda, tornando-se uma pessoa muito especial para ela. Segundo Jaspard (2004) o sofrimento humano pode transforma-se em uma representação religiosa havendo uma relação direta da fé com a atitude religiosa. Portanto, esta atitude, é preferível ser compreendida através de um enfrentamento positivo do sofrimento, do que reprimi-lo e negá-lo. Para este autor: O so fr imento p ode susc itar a d úvida , co mo po de a l ime n tar a co n fiança . De us não é , e m ger al, r econ hec id o d ire ta me n te c o mo r es po ns á ve l po r e le , mas a lgu ns n ão hes ita m em le va n tar- lhe a ques tão d e sua imp lic ação o u do se n tido que e le pró pr i o d á ao s o fri m en to . ( p . 1 1) Então baseado nisso, que eu todo dia peço a Deus para me dar fé, força, coragem, humildade e que eu faça com essa dor, alguma 73 coisa pelo mundo, não de forma megalomaníaca, se eu puder ajudar a quem está do meu lado... Leis (2003) discute três formas de enfrentar a morte. A primeira seria através da religião, onde há uma interpretação da morte, como uma passagem para outra vida, o que nem sempre é associado a uma boa notícia. Uma outra forma de entender a morte é considerá-la como nossa finitude, essencial para existência humana. E uma terceira forma seria a compreensão da morte como um aprendizado de vida. Essa fé que Márcia demonstra é uma força interna que ela deseja expor para o mundo de forma a ajudar aos outros e a si mesma, não pelo lado da dor, mas pelo amor, pela reciprocidade com o ser humano. Assim, o seu sofrimento toma um lugar positivo, nesse contexto psicológico, e a sua atitude religiosa estabelece um vínculo direto com seus elementos internos. Márcia busca outras formas de entender a morte de seu filho, e acredita que uma delas é por meio dos rituais, pois eles elucidam significados e concretizam a perda. [Márcia é convidada a plantar uma árvore em homenagem ao filho] Mas eu entendo isso [plantar uma árvore] como um ritual, então eu fiz, aí escolhemos, junto com os amigos o Jatobá, é uma árvore forte, nome indígena (...) Mas foi Horrível! (...) A atitude de devolver para a terra, do pó que veio, do pó voltarás... foi um 74 exercício, um ritual para fazer a morte do meu filho de forma concreta. (...) Porque no dia do enterro, com certeza eu, não estava lá! Meu corpo estava, minha alma deveria de estar em qualquer planeta (...) Conforme também já foi visto nos capítulos anteriores, essa fala mostra-nos claramente como é importante o processo de enterrar o corpo da pessoa, pois é um meio de concretizar e aceitar o ocorrido. No caso de Márcia, percebe-se que ela só se deu conta da sua perda, nesse “enterro simbólico”, essencial para uma tomada de consciência e de enfrentamento. Neste momento cabe salientarmos que ao realizar este ritual, Márcia inicialmente não imaginava o tamanho da dor que sentiria ao fazê-lo, mesmo sendo planejado e não imposto. Havia uma tentativa de simbolizar este momento, no entanto, esse ritual, foi mais sofrido do que o próprio dia do enterro. 6.6- O que fazer? Toda pessoa que já experienciou uma perda, têm uma forma própria de enfrentá-la. A subjetividade nesse momento irá fornecer diferentes recursos internos e externos para sobreviver. Então nossos valores são muito deturpados, nossos valores como seres humanos, hoje, eu me questiono muito, então eu tenho que vestir a minha persona de comprar relógio suíço, de fazer cabelo, 75 de passar esmalte da moda, porque se eu não fizer isso, eu perco o meu trabalho, simplesmente isso (...) então eu uso essa persona, e uso de uma forma bem assim... (...) Entendemos que nesta fala para uma melhor compreensão do leitor, cabe conceituar o significado de persona. De acordo com Silveira (apud Jung, 2000): P ar a es tab el ec er c o n ta tos c o m o mun do ext er io r , par a a dap tar-se às e xigênc ias do me io o nde vive , o h omem ass ume uma ap arê nc ia qu e ger almen te nã o c orres po nde ao s e u mod o d e s er a u tên t ic o . A p r es en ta - s e ma is c om o os o u tr os espe r am que e le s ej a , ou c om o e le dese ja r ia s er , d o q ue r ea lmen t e é . ( p . 79 ) Conforme Coelho (2000) a sociedade determina um tempo e alguns comportamentos esperados em relação à perda. Com isso o luto não tem nome e nem lugar na sociedade. Casellato e Motta (2002) ressaltam que frequentemente a mãe passa a ser isolada, pois a sociedade não sabe o que fazer com seu sofrimento. A partir disso, essa mãe vive um processo de estigmatização social, sente-se, em vários momentos, incompreendida e isolada. Márcia questiona-se sobre a razão humana, e expressa o quanto a sociedade exige logo o seu retorno, há um tempo pré-determinado para o luto, há hora para começar e hora para terminar. Mas onde, como que eu posso acessar ele? Eu não tenho um último celular para falar com ele (...) aquele abraço apertado que eu dei de monte, mas eu queria dar mais um, e falar fica bem meu filho (...) 76 Então eu acho que é mais uma promessa pelo amor. Mas têm dia que eu não consigo viver o dia, mas eu não penso mais no futuro (...) então no começo o “viver um dia por vez”, é porque você pensa assim, até a noite eu tenho que sobreviver (...) Para Kübler-Ross (2005) quando se perde alguém por morte súbita, possivelmente fica-se com uma imensa carga de ressentimento, pesar, tristeza e culpa. Uma forma de mudança desses sentimentos seria compartilhar e exteriorizar essa dor, para a partir daí direciona-la a uma possibilidade de mudança de pensamento. Compreendemos também que para Márcia a experiência do seu sofrimento fez com que ela modificasse seu sentido de vida. Viver um dia por vez e pensar a possibilidade de futuro, poderia ser entendido como sua própria finitude. “Toda noite, quando vou dormir, morro. E, na manhã seguinte, quando acordo, renasço”. (GANDHI) (...) então, agora, eu tenho válvulas de escape que eu trabalho, mas não é apego. Eu acho que o barato de tudo isso, que aí geram as válvulas de escape, é o AMOR. Esta frase de Márcia nos faz pensar o quanto sua vida após a perda de seu filho ficou sem sentido. No entanto, percebe-se que junto a sua dor, outras possibilidades começam a surgir. O “trabalhar”, o “escrever” um livro, poderíamos pensar como meios de extravasar seu sofrimento. É o amor pelo seu filho que a impulsiona a viver. 77 (...) Mas eu hei de agüentar a viver de forma digna. (...) como eu vivo é a maior homenagem para meu filho. Conforme Tavares (2003) a dor de perder um filho não precisa ser sinônimo de ressentimento, é algo que nos afeta e nos deixa desolados, marcados e feridos por toda vida. Porém, esses sentimentos não necessariamente precisam nos enfraquecer. Pode-se pensar nesta dor como um resgate de si mesmo, e também, como uma possibilidade de abertura para novos significados e projetos de vida. Apesar de toda dor e sofrimento, Márcia, ao escrever um livro sobre sua vivência, se permitiu abrir para uma possibilidade de resignificar sua vida de forma intensa e libertadora. Esta construção direciona um novo olhar para tudo que foi vivido anteriormente e que agora passa a ter um novo sentido. “Esse amor é o que me sustenta e suavemente me sopra a andar para frente...” (KELLER, 2005) 78 CONSIDERAÇÕES FINAIS A e ss ênc ia da an gús t i a h u man a é a e xt i n çã o; o m e do da m o rte , d a d est ru i ção d o e u e do pr óp rio c or po . O ho m e m é o ún ic o s er v i vo q ue é c on sc i ent e d e su a mo rt e, da f in itu de , tr aze nd o en tão a ang úst ia de s ua limitaç ão , de n ad a po de r faze r c ont ra e la. A e ssê nc ia da mo t iva ção h u ma na é a b us ca d o s ig n if ic ad o par a a v i da , p ara o s of ri m ent o e pa ra a m o rte . ( B O S S a pu d , K O VÁC S , 1 989 , p . 0 1) A pós o processo da pesquisa que inclui: elaboração de um objetivo, exploração de bibliografias, definições metodológicas, realização da entrevista, coleta e análise de dados, chegou o momento de expressarmos nossas considerações sobre essa experiência. Este trabalho foi uma oportunidade de chegarmos o mais próximo da experiência que é considerada o desequilíbrio da existência humana. Entendemos que perder alguém é sofrido, mas perder um filho é desumano, principalmente quando ocorre de forma brusca e inesperada. Foi a partir da morte de Pedro, que este trabalho ganhou sentido e através da vivência de Márcia, buscamos apreender o fenômeno como ele se mostra. Por meio de uma única entrevista, este estudo buscou compreender os sentimentos e mudanças de uma mãe frente à morte de seu filho. encontramos, Acreditamos esta pesquisa que apesar poderá das contribuir dificuldades para uma que maior 79 compreensão de sentimentos e dificuldades encontradas nestas situações. Este trabalho nos permitiu entrar em contato com os nossos próprios medos e angústias. Por vezes nos sensibilizamos com a história de Márcia e nos encantamos pela sua dignidade de viver. O amor pelo seu filho é o que a impulsiona para vida. Valores pessoais e sociais, que cotidianamente passavam despercebidos, ganham uma nova possibilidade de sentido. Percebemos que Márcia, após o sofrimento inicial e a reorganização da sua identidade, passa a compreender que seus significados de vida não são mais os mesmos. Surge a necessidade de organizar-se e adaptar-se para não desistir de viver. Ela deixa de atuar como mãe, mas não abdica de sua função materna. Após a morte de seu filho ficou amarga e intolerante às questões que afetam o ser humano no seu cotidiano, porém entende a necessidade de elaborar esses conflitos sem que eles afetem suas relações. Na religião, ela encontra mais uma possibilidade de força e apoio para enfrentar a sua dor, assim como em seu processo psicoterápico, onde busca formas de expressar e elaborar seus sentimentos sem que haja interferências do meio. 80 Ao escrever um livro, plantar uma árvore em homenagem a seu filho, e participar de um Projeto* referente a pais enlutados, leva-nos a pensar que ela encontrou maneiras de expor seus sentimentos e sua experiência. Procurou transformar seu sofrimento em algo útil para si e para a sociedade. Percebemos que foram tentativas de alívio para sua dor e também possibilidades de uma maior compreensão de sua experiência. Por meio desta pesquisa pudemos perceber que há duas possibilidades de caminhos quando se perde alguém: uma é entregarse à dor e continuar a viver sem propósito, e a outra, é caminhar para uma aceitação serena, permitindo que a vida flua dentro de si, possibilitando novos significados. Cada pessoa possui um tempo e uma forma de elaborar a sua dor. Mas acreditamos que para uma mãe que perde seu filho, cria-se um vazio que nada e nem ninguém poderá substituir. É um vazio que nunca se preencherá, é uma cicatriz na alma. Para agostinho (apud Pires, 2005): Par a uma a l ma fer ida o ún ico re mé dio e ficaz é o a mor , a cu mp licidad e e a ma gia da esp era nça . Sã o prec isa me n te es tes três s en timen tos qu e n ós ma is apr end emos co m o n osso s o fr imen to e qu e p od eremos tr ansmitir a todos os que in iciam ago ra o s eu lo ngo e do lo roso c amin ho . ( p. 159 ) ______________ * Anexo III: Endereços de grupos de apoio que trabalha com o luto. 81 Durante este trabalho nos defrontamos com uma grande dificuldade em relação às bibliografias sobre luto materno. Assim, utilizamos diferentes pensadores para chegarmos próximo ao nosso objetivo inicial. Salientamos a importância de surgirem mais pesquisas sobre este tema, como meio de facilitar a compreensão para essas mães. Observamos também a necessidade de se compreender mais da morte, para se entender mais sobre o processo de luto. As pessoas estão despreparadas para a questão da morte e da sua finitude, embora todos estejam fadados a ela. ( . . .) ho je a m or t e fo i d e fi ni da c om o in im ig a a s e r d er r o t ada , e co m is to nos to rna mos sur dos ao q ue e la p ode n os ens in ar e co m is to pe rde mos o q ue po der ia se torn ar c onse l he ira sáb i a , s e t or n a u ma in im ig a qu e n os d e vor a p or trás . . . p ode - se r ecup erar a sa be dor ia se nos to rnáss emos d isc ípu l os e n ão inimigos da mor te. ( ALVES apud, KOVÁC S, 2003, p. 32) Gostaríamos que a partir de nosso olhar, este trabalho pudesse contribuir com um pouco mais de conhecimento para a Psicologia e para todos que tiverem contato com seu conteúdo. Esperamos que haja um despertar para novos interesses de pesquisa, pois acreditamos que este assunto seja de extrema importância para a sociedade e para os profissionais em geral. Tanto a morte quanto a perda são fatos que estão no caminho de todos nós. Embora este trabalho não seja conclusivo, pudemos perceber que além de ser um assunto difícil e doloroso, o contato direto com esta 82 experiência sofrimento, nos há transformação. proporcionou também, O ser a enxergar, possibilidade humano pode que da chegar apesar magnitude ao máximo sofrimento, mas também renascer para novos significados. de de de tanto uma seu 83 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANCONA - LOPEZ, S, A. A porta de entrada da entrevista de triagem à consulta psicológica. 1996. 182f. Tese (Doutorado em Psicologia) Puc, São Paulo. BADINTER, E. Um Amor Conquistado: O mito do amor materno. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1985. 370p. BOWLBY, J. Perda: Tristeza e Depressão. São Paulo: Martins Fontes, 2004. 536p. v. 3. BROMBERG, M. H. P. F. Luto: A Morte Do Outro Em Si. In: BROMBERG, M. H. P. F; KOVÁCS. M. J. Vida e Morte: Laços da Existência. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996. Cap. 4, p. 99-120. CASELLATO, G. Motivos Relacionados ao luto que levam um casal a adoção: uma possibilidade psicoprofilática. 1998, 233f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica), Puc, São Paulo. CASELLATO, G; MOTTA, M. A. P. Lutos Maternos – Um estudo Comparativo. In: FRANCO. M. H. P. Estudos Avançados sobre o Luto. São Paulo: Livro Pleno, 2002. Cap. 4, p. 95-127. 84 COELHO, M. R. M. V. P. Palavras na Pedra: Uma análise do luto a partir da elaboração de epitáfios. 2000, 186f. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) Puc, São Paulo. D’ ASSUMPÇÃO, E. A. Dizendo Adeus: Como viver o luto, para superá-lo. Belo Horizonte: Puc- Minas, 2001. 79p. DIDION, J. O Ano do Pensamento Mágico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. 221p. EBAID, C. Laços de Afeto. São Paulo: Laboratórios Baldacci, 2003.125p. FONSECA. J. P. D. Luto Antecipatório. Campinas: Livro Pleno, 2004.183p. FORGHIERI, Y. C. Psicologia Fenomenológica: Fundamentos, Métodos e Pesquisas. São Paulo: Pioneira, 1993. 81p. CHAGAS, P. F. D.O. Mississippi Blues. 1991. 1 fotografia, preto e branco. FREITAS, N. K. Luto Materno e Psicoterapia Breve. São Paulo: Summus, 2000. 152p. 85 HEIDEGGER, M. Ser e Tempo: Pensamento Humano. Parte II. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2002. 262p. KELLER, M. I. Divisor de Águas. A Perda De Um Filho. São Paulo: Edições Inteligentes, 2005. 148p. KOVÁCS, M. J. A Questão da Morte e a Formação do Psicólogo. 1989. 211f. Tese (Doutorado em Psicologia) – USP, São Paulo. Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992. 253p. Educação para a Morte: Temas e reflexões. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003. 223p. KÜBLER-ROSS, E.; KESSLER, D. Os Segredos da Vida. 4.ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2004. 281p. KÜBLER-ROSS, E. Viver até dizer adeus. São Paulo: Pensamento, 2005. 151p. JASPARD, J-M, Significação religiosa do sofrimento e posição psicológica na fé. Psicol. USP. Disponível em: <www,scielo.br/scielo., Acesso em 30 Out. 2006. São Paulo, v.15, n.3. 2004. 86 JARAMILLO. F. I. Morrer Bem. 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Do Luto à Luta. In: D’ Assumpção, E. Tanatologia & Bioética. Belo Horizonte: SOTAMIG, 2003. Cap. 7, p. 73-83. VIORST, J. Perdas Necessárias. São Paulo: Melhoramentos, 2004. 335p. WORDEN, W. J. Terapia do Luto: Manual para o profissional de saúde mental. Porto Alegre. Artes Médicas, 1998. 203p. 88 ANEXO- I 89 TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA Entrevistadora – Márcia (nome fictício), não faremos perguntas fechadas, nós gostaríamos que você contasse um pouco da sua história e no decorrer das suas falas, abordaremos alguns temas, que mais nos chamaram atenção, ao lermos seu livro. Márcia - Como que eu posso começar? Primeiro eu falo que meu filho, assim, o Pedro, ele me salvou, eu acho, em várias vezes... assim, me ajudou a me construir, porque muito do que eu sou, eu devo graças a ele , as coisas boas, as ruins são culpas minhas é obvio, mas assim, meu filho nasceu no dia do meu aniversário (domingo), eu estava fazendo vinte e dois anos, então, o homem que eu mais amei na minha vida, “incondicionalmente”, apesar das rabugices, sei lá... das mães que a gente fala, mas eu sempre o amei assim de uma forma, que quem é mãe entende, né! E ele sempre foi um grande amigo e eu trabalhava muito para fazer uma relação, que como eu tive ele muito nova, para trabalhar a relação de que ele era meu filho, que podia até ser meu amigo, mas principalmente ele era meu filho; eu era mãe dele. Como eu me separei do pai dele muito cedo, eu fiz a cena pai-mãe, que não dá para fazer, as modernas que me perdoem, mas precisa de mulher, de mãe, de pai e então o Pedro, teve uma vida não muito maravilhosa nesse centro familiar, né! Mas meus pais supriram o que 90 puderam, meus irmãos, ele foi crescendo um menino, muito adorado, e muito tímido a princípio, e muito recatado com as coisas dele. Respeitava qualquer tipo de opinião, prezava o não pré-conceito, então ele era um menino extremamente diferenciado e eu sentia isso diariamente, né! Talvez a gente não dê o tempo para os filhos de dar beijo, ou a gente fala to com pressa, agora não dá..., então tudo isso, eu falei que a gente tem que se recondicionar pelo amor, né! Porque pelo poder do PCC está aí, mostrando o que a gente ta fazendo com a gente, e então, o grande barato é sacar as relações e como a gente se desenvolve com elas, né! Então meu filho por ser o meu único filho, porque eu perdi depois o outro na gestação de sete meses, era outro menino também e tive alguns abortos, que eu fiz. O Pedro às vezes falava para mim: “mãe me ama menos, eu não tenho culpa que sou só eu”, mas ao mesmo tempo, ele era um puta cara legal, assim, sabe te dava beijo, não na frente dos amigos, não na frente do Shopping Iguatemi, mas em fim, ele era um menino muito revolucionário e sempre passou a idéia de que essa vida era muito pouca para ele, e ele passou isso para outras pessoas, para mim não, porque eu ia bater nele com certeza, ou gritar né! De que ele estava de passagem ele falou isso até para Daniele, se não me engano, e para mãe, ele não iria falar isso né! Mas ele tinha uma melancolia, um menino que gostava de ouvir Coll Potter, qual o nome daquele lá..., em fim, eu já vou lembrar, um outro que ele gosta, ou gostava muito de ouvir, que tocava no Ritz era uma música bem melancólica, uma coisa para dentro e ao mesmo 91 tempo ele era extremamente festeiro, extremamente para fora. Então, de repente, a minha vida e a dele, talvez mais a minha com a dele, do que a dele comigo, né! Porque o filho tem que romper com a mãe para crescer, mas eu acho que é muito difícil romper com filho. Então quando eu soube do que aconteceu eu fui lá com um terço na mão, e eles não falavam nada, porque não podem né! Falar por telefone e quando eu cheguei tava chegando no hospital, era um sábado, o terço partiu, e eu entendi de uma forma simbólica aquilo, mas eu não queria entender, porque mãe não vai entender nunca isso, né! Nem aceitar acho! A gente talvez finja uma certa resignação, né! Aí quando eu soube, eu infelizmente não morri, minha pressão subiu, porque eu nunca tive pressão alta, eu desmaiei, mas não morri... Aí o primeiro pensamento que veio era assim: “Agora não existe a possibilidade de vida sem meu filho”; isso passou pela minha cabeça, eu me mato e vou encontrar com ele. Só que vieram filmes, veio religião, veio judaísmo, veio catolicismo, veio tudo! E se é verdade que quem se mata vai para outro lugar...(olha que louco!) eu vou desencontrar com ele eternamente, então é mais fácil, não que é mais fácil! Mas eu hei de agüentar a viver de uma forma digna, para quando eu morrer, ele já conversa com nosso senhor Jesus Cristo e com nossa senhora todos os santos e anjos, que ele venha me buscar para nunca mais perder dele. Então com essa fantasia minha, com essa crença, eu não sei o quê que isso, eu engolir. E aí tem a cena. IML tem a cena de contar para minha mãe, tem a cena ligar para os avós dele por parte de pai, ligar..., em 92 fim. Eu acho que a gente fica totalmente enlouquecida, ensandecida, porque eu consegui fazer tudo! Eu tinha a obrigação de fazer o melhor para o meu filho. Eu fui escolher a roupa, mas eu fiquei assim, não que eu chorasse, eu chorava muito, mas eu pensava assim: agora eu tenho que fazer isso, eu tenho que... Sabe assim, uma coisa de..., a gente fica meio louca... Acho que é louco mesmo, meio fora do ar. E aí, eu tive que segurar a onda da minha mãe, né! Porque ela falava: eu não aceito! E hoje eu entendo perfeitamente essa frase; falava eu não aceito, vocês podem falar, mas eu não aceito, e é uma coisa que eu falava, mas mãe... Aí meu irmão, a gente foi escolher o caixão, uma coisa que você nunca pensa escolher, né! E lá comecei a querer vomitar, porque o cara parecia que esta vendendo..., as pessoas não tem a menor, né! Entendimento, respeito, então ele estava vendendo um carro para mim, esse aqui tem, um quase assim, ar –condicionado esse aqui a madeira é isso..., aquilo foi me dando um “bode” que eu peguei e falei para o meu irmão: “eu não agüento você faz isso”. E eles chegam ao ponto de falar que quando a pessoa morre, ela fica mais alta porque endurece os músculos... Eu não tinha que ouvir isso! Não é verdade! Mas eu não tinha que ouvir isso, uma mãe não tem que ouvir isso, tem? Mas eu ouvi, e aí eu chamei meu irmão mais velho (eu tenho três irmãos) ele fez tudo. Aí eu falei: “Fábio, eu não quero ir no IML”; e aí... porque é demais! Porque no hospital quando eu fui vê-lo, meu irmão falou: “eu vou antes, para ver como ele está e ver se você pode ir”. E eu fiquei em desespero, porque eu queria ver, aliás eu não queria 93 largar nunca mais meu filho, mas eu morria de aflição de vê-lo machucado, só que ele estava só com uma batidinha aqui...(testa), é claro! Quebrou inteiro, perna tudo..., mas ele estava coberto com um lençol. Ele tinha acabado de tomar banho, ele saiu de casa, tomou banho, ele ia ver um filme e ia trabalhar, e então, ele estava lindo! Como sempre foi. Não sei se a Daniele mostrou alguma foto dele, depois eu mostro, se vocês quiserem. Então gente, na verdade o que eu posso falar é que a gente tem que aceitar, tem que achar... cacetadas, ganhei nove “Violetas na Janela”; não falei para as pessoas, olha esse é oitavo! Essa é a sétima, né! Eu respeitava cada um que me deu, porque foi a forma de me ajudar. Mas eu não sou espírita, aí você começa assim: será que eu tenho que ser espírita para, né! Conversar. Aí você recebe carta psicografada do filho que não é do filho, só se ele morre, bate a cabeça, bateu a cabeça e virou outra pessoa, porque eu nunca chamei ele de “Pedrinho”, mas de Pedro, então assinava “seu Pedrinho”, minha mãe chamava ele de Pedrinho, só que as carta era destinada à mim, e outras coisas tipo assim, que ele estava fazendo artesanato no céu, sabe para ajudar criança, e falava , aí meu Deus do céu, tá! Mas eu agradecia ficava emocionada, ele sempre falava nas cartas (a pessoa que escrevia), que era a hora dele, ele já tinha cumprido o tempo dele. Então você..., fui até no espiritismo não vou falar que não fui, fui lá, aí o cara, médium, foi que ele estava muito bem, que, ele era um ser de luz, aí outro vidente também falou que ele já era um anjo, falei que bom. Agora o 94 que mais ficou para mim, que de repente eu fico nisso é assim, no padre, meu padre! O padre né, eu chamo ele de meu padre, porque ele é muito querido, um senhor lindo, hiper culto, um padre normal, que sabe que a gente não tem fé, que aí, a gente acorda para fé, um padre que nunca tinha visto, padre perfeito! Ele falou Márcia, se você tivesse em uma cela, com a pessoa que você mais ama no mundo no caso, o seu filho, e ele fosse libertado antes que você. Como você ia ficar? Então, eu falei assim, eu tenho, eu tenho certeza agora, cada vez mais, à mesma pergunta, mas a maioria dos dias, eu penso também, que isso aqui é uma passagem, nós somos seres espirituais, estamos tendo uma passagem humana, e não seres humanos, que de vez em quando, temos experiências espirituais. Então baseado nisso, que eu todo dia peço a Deus para me dar fé, força, coragem, humildade e que eu faça com essa dor alguma coisa pelo mundo, não de forma megalomaníaca, se eu puder ajudar a quem está do meu lado, né! Se eu puder me melhorar um pouco; porque eu acho que tem que ter alguma função a DOR, a não ser massacrar o ser humano. Agora a minha vida, não é mais minha vida, eu acho que nunca mais vai ser igual. Ah! momentos de felicidade, aquela coisa de vamos tomar um chopp, só se for para eu afogar a minha mágoa com ela, né! Não é humano você, falar vamos. E, quando uma pessoa me diz assumir isso, vai passar, eu quero bater na pessoa, porque eu não quero que passe, se tivesse uma loboterapia, né! Para tirar só a dor que eu sinto pela falta do meu filho, assim mesmo eu não quero. Por quê? Porque tem o reforço das coisas 95 boas e porque tem a “PRESENÇA NA AUSÊNCIA”. Então, eu não toparia isso, e também porque existe um grau muito forte de culpa, então às vezes quando eu fui à primeira vez arrumar o meu cabelo, eu pensava, eu estou arrumando o meu cabelo..., o meu filho tá morto (CHORAVA) ia no cinema, assistir televisão, qualquer coisa, ouvir uma música, mas meu filho tá morto... Então, uma coisa, então é muito complicado administrar isso né! Porque é um grande problema, é um holocausto particular e que o mundo não está nem aí!!! Os mais próximos sim, óbvio, mas até os mais próximos, enche o saco de ver você chorar, eles querem que você volte a uma vida normal, passe batom, né! Aí, um dia eu peguei e passei batom (ah! Seu filho não pode te ver assim, ele não vai evoluir), ele vai ficar... Aí, passei batom, aí a mesma pessoa que falou para eu passar batom, no dia seguinte que me viu, de batom falou assim: “mas você esta negando o seu luto, você está passando batom... E, aí você começa aprender a ouvir merda e não registrar, quando a coisa é boa eu registro, quando não é... eu ouvi você parece à família Kennedy, quem mandou não ter outros filhos, eu ouvi, eu acho que agora você não vai agüentar então a gente escuta isso na hora... fila de condolências (pode ser isso?) então eu ouvia, eu falava, a pessoa tá falando, mas eu acho que tenho uma iluminação divina, né! Porque a pessoa ta falando meleca no seu ouvido, certeza. Ah! Ele tá melhor aonde tá, Deus dá, Deus tira, então as pessoas falam, porque a gente não sabe lidar com a vida, imagina lidar com a morte, né! Aí, eu peguei um livro, que eu já tinha lido, ele é bem denso 96 sobre a morte, tibetano – “A arte de viver e de morrer”, é um que vocês tem que ler, mas é uma cena em cima da orientação budista, então o quê que a gente tem que fazer para atravessar... é como se fosse uma margem, passagem, né! É o “Divisor das Águas”, né! Você passa de uma margem para outra, então é tudo uma grande ilusão, se a gente começar a observar pela física quântica, ficar pensando quem somos nós, então, a gente observa, assim que, a gente vê, a gente têm um condicionamento, né! Diferente dos indígenas, por exemplo. Então, a agente enxerga a vida de uma forma muito mais condicionada pela cultura ocidental, do que pelos indígenas, ou pelos monges budistas, ou pelos indianos, entendeu?! Então nossos valores são muito deturpados, então nossos valores como seres humanos, hoje eu me questiono muito, então eu tenho que vestir a minha persona de comprar relógio suíço, de fazer cabelo, de passar esmalte da moda, e tal... porque se eu não fizer isso, eu perco o meu trabalho, simplesmente isso, se eu fizer uma trança rippe e chegar de sandalinha de dedo, não vai rolar!! o meu trabalho não pode ser que role outro, né! Abrir um restaurante vegetariano, mas aonde eu trabalho não cabe isso, então eu uso, essa persona, e uso de uma forma bem assim... quase às vezes, a maioria da consciência para poder sobreviver a dor, então eu trabalho, trabalho, trabalho... Telefone tocou... e quando voltou... Entrevistadora - Então, Márcia, em seu livro, você fala em: “Viver um dia por vez”, como é isso? Nos fala mais um pouquinho. 97 Márcia - Olha, isso aí eu acredito nisso, porque se não você não consegue sobreviver, né! Então eu pensei... O Pedro me achava muito bacana, ponto. Agora, eu acho que, qualquer lugar que ele esteja, que ele está melhor no céu, ele me vê, aí ele vai olhar para mim e falar assim... poxa ! A minha mãe era fraquinha né! Todo dia eu estava com ela. Então eu quero retribuir o amor, né! Então como que eu posso retribuir, primeiro eu não vou me matar, porque eu tenho medo de ir para inferno, sei lá para onde. Dois, eu acordo, meu pulmão enche de ar, meu coração bate, eu tenho fome, eu tenho vontade de fazer xixi. Então, a minha vida, ela foi interrompida, mas não no nível do real, que as pessoas olham... Eu existo, eu ponho calça, eu deito, eu durmo, trabalho, pago conta, mais... Então, o que acontece! Eu pensei, eu não vou..., porque eu pensava assim, se eu viver dez anos, eu vou fazer quarenta e oito anos, como que eu vou ficar dez anos sem ver o Pedro, porque no começo..., agora é uma coisa não faço mais, me dá medo não fazer às vezes, eu ficava assim, hoje faz um mês e três dias, faz dois meses, faz três meses, faz setenta e dois dias, né! Agora eu sei que é dois anos e oito meses, que dia trinta faz dois anos e nove meses, eu sei todo dia trinta, mas eu não fico contando o dia, faz doze dias e uma hora que eu não vejo o meu filho, eu ficava assim. Porque eu nunca, eu sabia que ele estava em Maresias, que ele estava trabalhando, que ele estava namorando alguém, que estava em algum lugar e eu poderia acessá-lo, ou por telefone, e ele ficava mãe, que 98 mico, ou um dia encontrar com ele, cara! Mas não que..., aonde meu filho está! Hoje? No céu, no melhor lugar do céu, com Deus nossa senhora, com minha mãe, com meu pai, com todos antepassados. Mas aonde, como que eu acesso ele? Eu não tenho um último celular para falar com ele, uma vizinha para falar uma frase que você não falou, aquele abraço apertado, que eu dei de monte, mas eu queria dar mais um, e falar fica bem meu filho, isso eu falava sempre, fica bem, que a mamãe vai ficar bem. Então eu acho que é mais uma promessa pelo amor. Mas tem dia que eu não consigo viver o dia, mas eu não penso mais no futuro. Outro dia quando um médico falou, ah, você tem uma saúde de ferro, eu quis matar o médico, não pode falar isso para mim! Então eu tento não evitar, eu fumo de vez em quando, eu falo besteira de vez em quando, porque a sensação que eu tenho, é que às vezes eu vou sair do corpo (gozado isso!), então no começo o “viver um dia por vez”, é porque você pensa assim, até a noite eu tenho que sobreviver, aí você toma um Rivotril, né! Porque a pessoa que não toma nada, vai tomar pinga, ou uísque, a maioria dos pais, tem uma pesquisa, que quando são casais, se separam após a perda do filho e se drogam, ou viram alcoólatras, ou se matam, ou tudo junto. Então você vê, aí eu falei Jesus, ele não me quer ver, bêbada, cocainada, nem... né! Porque de repente tudo que você criou, assim, não tem mais chão, então você fala, para quê? Então aí eu peguei e falei para o mundo, ele amava o mundo, pelo amor..., então comecei a transmutar isso, entendeu? Mas essa parte do viver a cada dia por vez, eu acho que é mais significativo 99 principalmente se você tiver consciência a todo o momento do que você está fazendo como opção, né! Ação e reação. Entrevistadora - Márcia, ao lermos seu livro, percebemos uma grande importância em relação aos amigos de Pedro. Gostaríamos, então de saber um pouco mais desta relação, porque, o quê dá para perceber, é que eles te complementaram e te fortaleceram bastante. Márcia - Olha, eu no dia do enterro, eu recebi os meninos do jeito que meu filho gostaria que eu recebesse, então, eu me armei de força divina e recebi todos. Aí, depois, eu comecei a querer encontrá-los, porque eu gosto muito de criança, de menino de vida, né! Eu falei, pô, se eles amaram tanto o meu filho, e eles são também importantes para meu filho, então, têm muito Pedro neles, e têm muito deles no Pedro, então foi uma cena não de substituição, nunca fiz isso, nunca... E aí obvio! Éramos cinqüenta e quatro, agora... continuam se falando, e tal..., mas têm uns vinte e três que são assim, dos jantares da “Tia Márcia”, e cada um reagiu de uma forma muito especial, todos são especiais, então têm um DJ (vários), tem o certinho, tem o que trabalha com finanças, tem o publicitário, tem a psicóloga , têm vários tipos e todos eles são possibilidades de vida, né! Então, é muito bom estar com eles, no começo eu fui em Rave, fui no Manga Rosa, aí eu comecei a me sentir mal nesses lugares, porque eu comecei a sacar que eu estava indo buscar o Pedro e eu não ia encontrá-lo. Têm um 100 livro que saiu esse ano, é o “Ano do pensamento Mágico”, é uma jornalista que perdeu o marido e a filha depois de um ano, e ela fala que no primeiro ano, ela ficou esperando, não deu os sapatos, ela sabia que estava louca, mas ela achava que ele ia voltar. Então, você começa a ver mães parecidas, ou mães que são totalmente diferentes, o cabelo, o corpo, a nuca, no meio da multidão... Você esta na Espanha, e então começa a olhar uma nuca, e você começa a perseguir a pessoa, você sabe que não é o seu filho, então, eu vivi esse ano do pensamento mágico. Eu acho que se ele escreveu isso, outras pessoas também devem viver, porque o seu cérebro, eu acho que não registra, tanto, é que eu tremia quando lembrava, porque você dorme e você esquece, aí quando você lembra vem aquele choque, porque é uma coisa que não é natural, né! A mesma coisa deve ser ou parecido, alguém quando amputa a perna, ela não continua sentindo? Entrevistadora - Uma outra coisa que nos chamou atenção... Márcia - Mas não substituí o dia das mães, eu passei com os amigos do meu filho, mas não substitui, mas distrai, é como minha terapeuta fala: eu tenho que me distrair, porque a vida é uma distração, boa e enlouquece menos. Entrevistadora - Márcia, fala para gente um pouco sobre o plantio da árvore... 101 Márcia - Olha, eu plantei; uma amiga minha me convidou, ela é mãe de lama Michele (tibetano), mas eu fiz isso, mais por homenagem, não por significado do budismo, que você tem que plantar uma árvore, tem que fazer alguma coisa boa... Eu acho que essas coisas específicas, elas significam rituais, mas o que importa é como eu escovo o dente, como eu trato zelador, é como eu me trato. Isso é a maior homenagem, como eu vivo, é a maior homenagem para meu filho, né! Mas eu entendo isso como um ritual, então eu fiz, aí escolhemos, junto com os amigos o Jatobá, é uma árvore forte, nome indígena, e ela tem uma sombra que acolhe várias pessoas, e as sementes dela têm uma área dinâmica que vai muito longe à semente, e ela alimenta diversos pássaros e animais silvestres, e é uma coisa que cresce rápido, mas que dá uma ..., ela recebe todo mundo de baixo da sombra, então, é uma das árvores mais bonitas que eu já vi na minha vida. Agora! Eu não consegui voltar lá, porque eu estou sempre falando para mim..., primeiro porque eu não priorizei isso e segundo porque eu falo assim, não tem que ser em março, quando fizer um ano, já fez... como eu não sou budista, eu não vivo lá no sítio “Vida de Clara Luz”, ou eu estaria vivendo lá... mas eu tenho curiosidade de ir, o lama que veio, não é, nem lama..., depois de lama... É lama, depois é Dalai lama, o lama que veio visitar, estão em um lugar de energia muito forte, mas foi Horrível! Porque na hora que eu fui jogar a pá, porque primeiro se põe a muda, e aí cada um, eu fui chamando, a gente, pois a música... Atos falhos, eu não estou conseguindo lembrar, aí eu pus a música, um dos caras que ele 102 gostava, e agente fez um círculo sagrado, e cada um, eu chamava na ordem que estava, e jogavam uma pá de terra, Putz!! Os meninos babavam, teve gente que não conseguiu, porque a atitude de devolver para a terra, do pó que veio, do pó voltarás... foi um exercício, um ritual para fazer a morte do meu filho de forma concreta; Porque no dia do enterro, com certeza eu, não estava lá! Meu corpo estava, minha alma deveria de estar em qualquer planeta, e os meninos também, e muitos não agüentaram, né! Mas..., depois cada um levou um sanduíche, a gente fez uma cena, né..., aí eu falei não! Japonês quando enterra faz um festão, então vamos fazer! Porque meu filho era muito baladeiro, alegre, feliz, melancólico, tudo misturado. Tinha todas as indagações do mundo e todas as certezas, era normal, um ser humano normal. Mas ele não era mórbido, ele gostava de me ver feliz. Então agente fez lá... mas foi assim..., difícil! Entrevistadora - Márcia, você fala da questão de se apegar. Você se apega a alguma coisa para sobreviver? Márcia - Ao meu amor por ele! Aí eu me apego pelo amor por ele, eu fiz um scrípte da minha religião que eu aprendi, né! Que é a católica e aí tem o scripte assim: ele foi antes de mim, mas um dia eu vou, não vou virar esterco, terra, né! Eh, então eu acho assim, o que eu tiver que fazer aqui, eu tenho que fazer direito, porque o meu tempo ainda não acabou, o dele sim! Por algum motivo “X”, o dele acabou; Mas o 103 meu ainda não... E como eu acho que ele é um menino muito, muito bom..., eu e muitas pessoas, né! Eu quero me apegar a isso, então, agora, eu tenho válvulas de escape que eu trabalho, mas não é apego. Eu acho que o barato de tudo isso, que aí geram as válvulas de escape, é o AMOR. Entrevistadora - Márcia, no decorrer das nossas pesquisas, percebemos um grande déficit, em relação a apoio para estas mães. E quando acham, é pouco e não o suficiente. Então gostaríamos de saber de você com a sua experiência, o que seria possível fazer para que isso mudasse? Márcia - Eu acho que é “ESCUTAR”, e, é o que a “Casulo” faz. O que eu percebi, que é uma ajuda sim! Não é receita de bolo, sabe? Doze passos, igual ao AA. Então, eles fazem uma coisa tá que eu não me vejo naquilo, e acho que como eu, muitas não, né! Porque a maioria não quer falar sobre isso, mas ao mesmo tempo, eu acho que tem que ter um apoio à “família”, porque, eu no caso, era minha mãe... Mas tem gente que tem marido, outros filhos, e aí acaba esquecendo, porque a dor é tamanha..., não duvido se surgir raiva do outro filho, entendeu? Porque existe uma culpa tamanha pela perda de um, que..., eu acho que tem vários momentos que eu engessei para sensações, então o que era muito importante, mudou para mim. Então, às vezes uma pessoa tá falando uma bobagem, que para ela não é, mas para mim é... 104 aí que roupa eu vou pôr; Meu namorado brigou comigo..., e eu falo..., para ela é um problema, né! Eu fico ouvindo, mas eu não escuto, porque eu não consigo mais. A minha tolerância para a ignorância ficou, que para a pessoa não é ignorância, mas para mim é! Se o cara é casado, ela tá namorando com ele, e ele voltou para mulher e ela vai ficar chorando..., ela é ignorante, que ela vá para terapia, power yoga, entendeu! Mas eu tenho que ouvir ao mesmo tempo que é, um problema para ela. Porque se não, dá vontade de falar assim: “eu perdi meu filho”, dá vontade de andar com uma camiseta, “eu perdi meu filho”, não me enche o saco! Sabe, porque às vezes as pessoas falam umas coisas para você, que eu penso assim: “Não! Eu não preciso ouvir isso...”; quando falam mal de filho para mim..., todo filho têm razão, para mim. Então, têm uma amiga minha que falou assim: o meu filho não tem ambição por dinheiro... Eu falei, olha, você nunca mais fale mal de seu filho para mim; porque ela estava criticando, que ele não tinha vontade de ter dinheiro, e tal... mas o seu filho é saudável, personal-trainner, come direito, dorme cedo, te ama, tem saúde, tá vivo, pensa direito... O que você quer dele? Quer que ele seja você? Não! Ele é ele. Ela nunca mais falou sobre o filho dela, óbvio! Que ela viu que eu ia matar ela, isso aconteceu várias vezes; Entendeu? Agora, por exemplo, os psicólogos poderiam ajudar escutando as pessoas, poucas pessoas, têm a pré-disposição de ouvir, não é só escutar; É OUVIR, e dar menos conselhos, porque que conselho você vai dá. Então, a minha terapeuta, eu comecei depois, porque fazia tempo que 105 eu não fazia, eu voltei depois de dois meses que o Pedro morreu, ela fazia eu ir lá a pé, daqui de casa no consultório, e ela falava assim: você tem que andar rápido para suar. Então, no começo eu ia três vezes por semana para lá; eu ia arrastada pelo chão, chorando, eu era uma sombra andando, aí eu falava assim: “Eu não sei por que eu estou aqui?”, e ela falava: Nós, não sabemos, mas nós vamos descobrir, e aí me fala, como você está? Me escutava. Às vezes eu nem escutava o que eu estava falando, às vezes eu não falava, e às vezes eu não escutava o que ela estava falando. Mas eu voltava, e isso me tirou de uma puta depressão, eu não sei, nem se eu sairia. Porque eu fiquei deitada na cama quando eu voltei do “Caminho de Santiago”, não conseguia levantar. Então, eu acho, é menos assim: Olha você faz isso, faz aquilo. Mas eu acho também que têm que ter literatura abundante sobre o tema, porque morte existe, e é a morte para o irmão, a morte para o pai é a morte para mãe, é a morte para avó, é a morte... Então a gente tem que falar: “Como que a gente vai organizar esse assunto, contando relato de experiência dos outros. Porque aí, você observa que você não é uma extra-terrestre, porque você olha! ninguém perdeu um filho na sua cabeça, depois que você organizar você começa a saber de quinhentas que perderam filhos, mas eu não sei onde eles vivem, porque a sociedade, né!... Então tem pai que fica no cemitério até o guarda por para fora, para não deixar o filho de sete até onze anos não ficar sozinho, e não passar frio. Agora! quem que vai acudir esse homem? Porque ele como macho acha que tem que segurar a 106 onda da mulher em casa, e ela não sabia. Até que um dia ligaram para ela e disseram que ele não queria sair do cemitério. Então, a gente tem que ter o carinho, porque é um processo de dor muito... , é uma morte! É a nossa morte enquanto mãe, né! Então, eu acho que deve ter mais livros , mais terapeutas que saibam da vida para poder saber da morte, né! Isso tudo se chama bom senso. Para te escutar, vai te sugerir... Eu acho também, que trabalhar é vital, a pessoa tem que trabalhar! Dona de casa que perde filho... a minha empregada, que criou a gente, empregada da minha mãe, perdeu um filho, depois de dois meses ela morreu ela enfartou, ela não conseguiu, porque né!... Eu faço ginástica, agora eu to treinando corrida, então eu falo: “vamos lá...” Então, eu faço coisas, e eu falo tô me arranjando em você Pedro, oh! Eu to vivendo, às vezes, eu dou umas derrapadas, aí eu falo: “olha filho, hoje não me vê, tá! Porque hoje não estou legal”, entendeu? Mas eu acho que é muito isso..., é a gente continua em uma conversa, mas o trabalhar, cuidar de crianças com câncer, essas crianças invisíveis, as aidéticas, as pessoas não olham. Idoso dá raiva, não para mim, mas a maioria das mães falam que tem muito ódio de vó, de vô, e fala, como que sobreviveu, e ainda vai viver um monte, porque depois não sai mais de casa, então a probabilidade de ter acidente, né! Então, eu tenho uma amiga minha que falou: Eu não suporto velho e nem jovem, aí eu falei, então tá difícil, né! Porque aí, ela não vai em casamentos de filhos de seus amigos, porque a filha nunca se casou, ela não vai em maternidade. Ela fala que está bem, eu finjo que não acredito, 107 porque ela também finge, né! Porque não é assim, ah! eu vou nas formaturas... já nasceu um neném da turma do Pedro, não é meu neto, mas é um querido! Então eu quero isso, eu quero contar histórias, eu quero que as pessoas me contem, sabe contar historinha, é isso que eu quero fazer. Agora! ficar com raiva, será que isso que o Pedro queria? Ficar com raiva do mundo, amarga, o dia do casamento, o dia do velho, duvido! Que isso que ele queria. Entrevistadora - Márcia, gostaríamos de agradecer a você pela disponibilidade de contar a sua história e pela oportunidade de enriquecer o nosso trabalho. Márcia - Agora eu vou emprestar para vocês, o livro “O Ano do Pensamento Mágico”, pois têm coisas que ela fala, que eu poderia ter escrito, eu senti igual; o Ser humano é IGUAL no AMOR e na DOR, agente fica totalmente idiota quando está apaixonada, totalmente insegura na adolescência. Isso que é louco é uma coisa que está para sempre, como o ser humano é rico e refinado nas sensações e nos sentimentos, e nas percepções. E, como a gente menospreza isso! Acho que isso é o mais importante, porque o amor que uma mãe tem pelo filho, NÃO TEM SUBSTITUTO, eu já fui casada um monte de vezes, olha! Minha mãe morreu um ano e meio depois da morte do Pedro, a morte dele teve um impacto tamanho na minha vida, que NUNCA mais NADA que aconteça comigo, ou com qualquer pessoa, 108 não que eu não tenho compaixão, mas até isso ficou comprometido, eu sou honesta! Um tio meu estava doente, minha mãe veio e falou, ah! O seu tio..., eu peguei e falei, mãe ele está velho, um dia todo mundo morre, né! Então você fica um pouco amarga, um pouco cética, e ao mesmo tempo, você fica vendo a vida sem cor, você não tem mais filtro, mas é isso que eu tenho que trabalhar em mim, porque se eu for falar tudo que eu penso para as pessoas na hora, eu acho que eu não teria “uma relação”, em termos de trabalho, de amizade, nem de nada. Ou só ficaria, ah tia é louca, ela fala o que dá na telha, então eu tenho que melhorar isso. Porque a gente perde o medo, o único medo que eu tenho, é de não encontrar meu filho, eu não tenho mais nenhum medo, do PCC, seqüestro, do desemprego, de mudar para Europa... Entrevistadora - Márcia, levantou-se e foi pegar os livros.... 109 ANEXO- II 110 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (Resolução CFP 016/2000 e Resolução CNS nº 196/96) Eu identidade nº , portador do documento de concordo com a utilização das informações fornecidas por mim, de acordo com as condições, descritas abaixo. 1. Nome da pesquisa: “Como eu vivo é a maior homenagem para meu filho...”. 2. Orientadora Responsável: Silvia Ancona - Lopez, psicóloga inscrita no Conselho Regional de Psicologia, nº 06/2862. Responsável pela orientação das alunas Bianca Mocci Passaro, RG 30.710.595 e Clecia Bastos Gerardi, RG 28.761.797- X. Sendo, estas responsáveis pela pesquisa integrante da disciplina Trabalho de Conclusão de Curso, do 7º e 8º semestre do Curso de Psicologia, da Universidade São Marcos. 3. Justificativa: A justificativa deste trabalho é ampliar o olhar para esse assunto pouco discutido, porém de suma importância para os profissionais da área de saúde. E principalmente contribuir para subsídios de construção para diferentes alternativas de espaços para essas mães se colocarem e relatarem suas experiências que são tidas como a maior dor que alguém possa sentir. 4. Objetivo da Pesquisa: É chegar o mais próximo possível das vivências de mães que perderam seus filhos, buscando compreender o sentido da vida diante destas perdas. 111 5. Método e Procedimento a serem utilizados: Entrevistas gravadas sobre as suas vivências e aos sentidos atribuídos a elas. 6. Acompanhamento: A orientadora e as alunas comprometem-se a indicar apoio psicológico, caso necessite. 7. Liberdade de Recusa: O entrevistado é livre para recusar participar das entrevistas ou retirar seu consentimento em qualquer momento do trabalho SEM SOFRER PENALIZAÇÃO de nenhuma espécie. 8. Garantia de Sigilo: É garantido ao entrevistado o sigilo das informações que considerem necessárias, referentes à sua vida pessoal, de modo a garantir sua privacidade. Os resultados da pesquisa somente poderão ser divulgados sob a forma de trabalho científico. 9. Avaliação do Risco: Há probabilidade que o sujeito apresente algum sofrimento ao reviver momentos dolorosos. No sentido de minimizar danos maiores, o sujeito da pesquisa, terá que de alguma forma já ter relatado publicamente suas vivências. Em caso de necessidade serão fornecidas indicações para busca de apoio psicológico. Fica garantido aos sujeitos de pesquisa o acesso a qualquer tempo, às informações sobre os procedimentos, riscos e benefícios relacionados à pesquisa, inclusive para minimizar eventuais dúvidas. 10. Informações de Nomes, Endereços e Telefones dos Responsáveis pelo Acompanhamento da Pesquisa, para Contato em Caso de Dúvidas. Unidade João XXII Rua: Clóvis Bueno de Azevedo, 176 Ipiranga – São Paulo – SP 112 CEP: 04266-040 Tel – (11) 3491-0500 11. Consentimento convenientemente Pós-Esclarecido: esclarecido (a) pelas Declaro que, pesquisadoras depois e de de ter entendido o que me foi explicado, consisto em participar do presente Protocolo de Pesquisa. Declaro que recebi uma cópia do presente Termo de Consentimento. São Paulo, de de ________________________ Entrevistada _________________ Bianca M. Passaro ___________________ e Clecia B. Gerardi Sob a orientação da Professora: _________________________ Drª Silvia Ancona - Lopez CRP 06/2862 . 113 ANEXO- III 114 Grupos de Apoio ao Luto CASULO - Associação Brasileira de Apoio ao Luto Telefone: (11) 5549-9963 E-mail: [email protected] Site: www.grupocasulo.org Grupos de auto-ajuda em três locais: * Espaço Nova Era Dias: primeiras e terceiras quartas-feiras de cada mês Horário: das 20h às 21h30h Endereço: Rua José de Magalhães, 671 - V. Clementino - São Paulo (SP). * Igreja do Perpétuo Socorro Dias: primeiras e terceiras quintas-feiras de cada mês Horário: das 19h às 20h30h Endereço: Rua Sampaio Vidal, 1055 - Jd. Paulista - São Paulo (SP). * Casulo da Zona Norte Dias: segundas e quartas quartas-feiras de cada mês Horário: 20h Endereço: Salão da Igreja N.S. das Neves, Rua Maestro Villa Lobos, 681 (altura da Av. Guapira, 1054) - Tucuruvi. As reuniões são abertas a todos interessados. Pedimos apenas que as pessoas confirmem sua primeira participação por e-mail ou telefone. 4 Estações – Instituto de Psicologia S/C Ltda. Suporte Psicológico em situações de perda e luto. Site: www.4estaçoes.com e-mail: info@4estações.com tel: (11) 3891-2576 R. Caçapava, 130 – Jardim Paulista/ SP