Derivação Implicita de Funções Reais de Variável Real 14 de novembro de 2011 1. Seja uma função real f : R → R. Sabemos que, os elementos da imagem da f são da forma f (x), onde x ∈ Dom(f ). Se definimos a variável y como y = f (x) entao podemos escrever essa igualdade da seguinte forma y − f (x) = 0 e temos uma equação nas variáveis x e y. Por exemplo, se as funções f e g estão definidas como f (x) = x3 − 4x + 7 , g(x) = sen x − 5x. (1) então as equações associadas serão y − x3 + 4x − 7 = 0 ; y − sen x + 5x = 0. (2) 0 O nosso objetivo aqui é calcular a derivada da função f , i.e., f (x) (que pode se escrever também como df dx ou dy dx ). Nesta parte escreveremos dy dx para indicar que estamos derivando com respeito a variável x. Agora, como em (2) desejamos obter a derivada dy dx , primeiro deixamos em evidência a variável y, e depois derivamos com respeito a x. Assim, no primeiro caso teremos y − x3 + 4x − 7 = 0 ⇒ y = x3 − 4x + 7 ⇒ dy = 3x2 − 4 dx e no segundo caso y − sen x + 5x = 0 ⇒ y = sen x − 5x ⇒ dy = cos x − 5. dx Agora, vamos supor que temos uma equação nas variáveis x e y, definida como x6 − 2x = 3y 6 + y 5 − y 2 . (3) Quando neste caso é aplicada a mesma idéia dos casos anteriores, i.e., tentar colocar em evidência a variável y, e depois derivar em função de x, o problema aparece no inı́cio: não é claro como podemos 1 isolar a variável y através de algum processo, e depois derivar com respeito a x. Nestes casos, a idéia é derivar a equação diretamente usando, quando for necessário, a Regra da Cadeia. Por exemplo, na equação (3) derivamos os dois membros da equação com respeito a x: d 6 d [x − 2x] = [3y 6 + y 5 − y 2 ] dx dx e obtemos 6x5 − 2 = 3 dy 6 dy 5 dy 2 + − . dx dx dx (4) No lado direito da equação aparecem potências de y, e elas podem ser derivadas com respeito a x, usando a Regra da Cadeia, da seguinte forma dy 6 dy = 6y 5 dx dx dy dy 5 = 5y 4 dx dx dy 2 dy = 2y dx dx (5) O motivo dessa forma de derivar é o seguinte: seja a função u definida como h(u) = u6 , então podemos escrever a função y 6 como y 6 = h(y) Aplicando a Regra da Cadeia para derivar essa composição de duas funções com respeito a x, obtemos dy 6 dh(y) dh(y) dy = = dx dx dy dx e como dh(y) dy 6 = = 6y 5 dy dy então dh(y) dy = 6y 5 . dx dx Colocando (5) em (4) temos que 6x5 − 2 = 18y 5 Deixando em evidência dy dx dy dy dy + 5y 4 − 2y . dx dx dx no segundo membro da equação temos 6x5 − 2 = dy 18y 5 + 5y 4 − 2y . dx Assim, finalmente dy 6x5 − 2 . = 5 dx 18y + 5y 4 − 2y 2 2. Exemplos 2.1. Ache uma equação da reta normal à curva 9x3 − y 3 = 1 no ponto (1, 2). Sabemos que a equação da reta normal tem a forma y = mx + b onde o coeficiente angular m está em relação com o coeficiente angular dy dx da reta tangente através da fórmula m. dy = −1 dx Da equação 9x3 − y 3 − 1 = 0 obtemos dy dx usando derivação implicita: 27x2 − 3y 2 dy =0 dx de onde dy 27x2 9x2 = = dx 3y 2 y2 e como queremos saber o valor no ponto (1, 2), então 9 dy = . dx 4 Usando a relação (6) obtemos o valor de m: −1 = m. dy 9 4 = m. ⇒ m = − . dx 4 9 Assim, temos que a equação da reta normal fica da seguinte forma 4 y =− x+b 9 e como o ponto (1, 2) pertence à reta normal, então temos 4 2 = − .1 + b 9 de onde b= 22 . 9 Então uma equação da reta que satisfaz as condições do problema é 4 22 y =− x+ . 9 9 3 (6) 2.2. Em que ponto da curva x + √ xy + y = 1 a reta tangente é paralela ao eixo x? Sabemos que o eixo x tem a equação y = 0, então o seu coeficiente angular é m = 0. Também, usando a derivação implicita, sabemos que √ √ d [x + x y + y − 1] = 0 dx 1 1 1 1 1 1 dy dy 1 + x− 2 y 2 + x 2 y − 2 + =0 2 2 dx dx r r 1 x dy dy 1 y + + =0 1+ 2 x 2 y dx dx r r 1 y 1 x dy 1+ + +1 =0 2 x 2 y dx o que implica p 1 + 12 xy dy q =− dx 1 + 12 xy e como a reta tangente à curva deve ser paralela ao eixo x, então, devem ter o mesmo coeficiente angular, de onde dy =0 dx i.e. 1+ 1+ y 1 2 qx 1 x 2 y p =0 de onde 1 1+ 2 r y =0 x então 1 2 r y = −1 ⇒ x r y = −2 x mas uma raiz quadrada sempre é não negativa (i.e., maior ou igual do que zero). Assim, as retas tangentes à curva nunca são paralelas ao eixo x (se existisse uma, ela deveria verificar a última igualdade, que é um absurdo). 3. As funções trigonométricas estão entre as mais importantes funções reais. As duas que dão origem as outras são a função seno e a função coseno. Ambas funções, nos seus dominios respectivos, não são 1-1, e como consequencia não tem inversas. Porém, se restringirmos o dominio das funções seno e coseno, ambas são 1-1 (no dominio restrito), e tem inversas nesse dominio (do gráfico de ambas funções, é claro quando elas deixam de ser 1-1, é só traçar uma reta horizontal, se esta reta intersecta o gráfico em mais de um ponto, a função não é 1-1). 4 a. A inversa da função seno A função f (x) = sen x tem como dominio todos os números reais. Pode-se restringir esta função ao intervalo [− π2 , π2 ], e teremos uam nova função π π f /[− π2 , π2 ] : [− , ] → R 2 2 Estritamente falando, esta nova função não é a função seno original, já que tem dominios diferentes, porém vamos denotar esta função também como sen x. Neste intervalo dita função é 1-1, e tem uma função inversa, chamada de arco-seno e usamos a notação: arcsen x ou sen−1 x. Por definição, a função arco seno está definida como y = sen−1 x ⇔ sen y = x b. A inversa da função coseno A função f (x) = cos x tem como dominio todos os números reais. Pode-se restringir esta função ao intervalo [0, π], e teremos uam nova função f /[0,π] : [0, π] → R Estritamente falando, esta nova função não é a função coseno original, já que tem dominios diferentes, porém vamos denotar esta função também como cos x. Neste intervalo dita função é 1-1, e tem uma função inversa, chamada de arco-coseno e usamos a notação: arc cos x ou cos−1 x. Por definição, a função arco coseno está definida como y = cos−1 x ⇔ cos y = x. 4. É possivel aplicar a diferenciação implicita para obter as derivadas das funções trigonométricas inversas. a. A função sen−1 x Sabemos que a função y = sen−1 x está definida quando y ∈ [− π2 , π2 ], e nesse caso temos y = sen−1 x ⇔ sen y = x Derivando implicitamente a ultima equação com respeito a x, quando y ∈ (− π2 , π2 ) temos d d dy sen y = x ⇒ cos y =1 dx dx dx i.e. dy 1 = dx cos y 5 (7) Como y ∈ (− π2 , π2 ), temos que cos y > 0, de onde cos y = p 1 − sen2 y (8) e lembremos que sen y = x, então em (8) temos cos y = p 1 − x2 e, escrevendo a ultima igualdade em (7) obtemos dy 1 =√ dx 1 − x2 i.e. d 1 sen−1 x = √ . dx 1 − x2 b. A função cos−1 x Sabemos que a função y = cos−1 x está definida quando y ∈ [0, π], e nesse caso temos y = cos−1 x ⇔ cos y = x Derivando implicitamente a ultima equação com respeito a x, quando y ∈ (0, π) temos d d dy cos y = x ⇒ −sen y =1 dx dx dx i.e. dy 1 =− dx sen y (9) Como y ∈ (0, π), temos que sen y > 0, de onde sen y = p 1 − cos2 y e lembremos que cos y = x, então em (10) temos sen y = p 1 − x2 e, escrevendo a ultima igualdade em (9) obtemos dy 1 = −√ dx 1 − x2 i.e. d 1 cos−1 x = − √ . dx 1 − x2 6 (10) c. A função tg −1 x Sabemos que a função y = tg −1 x está definida quando y ∈ (− π2 , π2 ), e nesse caso temos y = tg −1 x ⇔ tg y = x Derivando implicitamente a ultima equação com respeito a x, quando y ∈ (− π2 , π2 ) temos d d dy tg y = x ⇒ sec2 y =1 dx dx dx i.e. dy 1 = dx sec2 y (11) Observe que sec2 y = sen2 y + cos2 y sen2 y cos2 y sen2 y 1 = = + = +1 cos2 y cos2 y cos2 y cos2 y cos2 y i.e. sec2 y = 1 + tg 2 y (12) Assim, em (11) temos 1 dy = dx 1 + tg 2 y e como tg y = x, então dy 1 = dx 1 + x2 de onde d −1 1 tg x = . dx 1 + x2 É possivel fazer a mesma análise para as derivadas das outras funções trigonométricas. Dos exêmplos feitos até agora, poderia-se pensar que sempre que tenhamos uma equação em duas variáveis, é possı́vel derivar implicitamente a equação e obter a derivada da função y em relação a x, porém, isso nem sempre é possı́vel. Existe um resultado conhecido como o Teorema da Função Implicita que da as condições necessárias à equação para saber se é possivel obter uma função y que seja derivável. 43.pdf) Figura 1: Estrela de Escher 7