A PAISAGEM GEOGRÁFICA ATRAVÉS DA FENOMENOLOGIA: POSSÍVEIS CAMINHOS PARA A CONSTRUÇÃO DE UM MÉTODO. Resumo O presente artigo tem como proposta discutir os possíveis caminhos para a compreensão e interpretação da paisagem geográfica através da ciência fenomenológica. As discussões foram propostas por uma disciplina – Fenomenologia da Paisagem – oferecida pelo mestrado de Geografia da Universidade Federal da Bahia. A dinâmica da disciplina envolvia atividades práticas e teóricas baseando-se em autores da fenomenologia (HUSSERL, SARTRE, MERLEAU-PONTY e BACHELARD), geografia (SANTOS, HUMBOLDT, CLAVAL, DUCAN, SERPA) e arquitetura (LYNCH). Os diálogos entre os diversos autores produziram novas propostas de análise e possibilidades de interpretar a paisagem além da sua materialidade, considerando-as também como construções simbólicas. A perspectiva não é apenas propor novas paisagens, mas estabelecer uma crítica acerca das paisagens. Assim, faz-se necessário uma ampliação da discussão teórica sobre o método fenomenológico criando-se procedimentos metodológicos consistentes que favoreça a interrelação entre a teoria e a prática. Palavras-chaves: Paisagem, Geografia e Fenomenologia. LA PAYSAGE GÉOGRAPHIQUE VERS LA PHÉNOMÉNOLOGIE :CHEMINS POSSIBLES POUR LA CONSTRUCTIONS D’UNE MÉTHODE. Resumé Cet article a comme proposition la discussion sur les chemins possibles pour la compréhention et pour l’interpretation du paysage géographique vers la science phénoménologique. Les discussions ont été proposées par le cours de de Phénoménologie , du maîtrise en Gégraphie de l’Université Fédérale de Bahia. La dinamyque du cours concernant des activités téoriques et pratiques sont basseés sur les auteurs liés à phénoménologie (HUSSERL, SARTRE, MERLEAU-PONTY e BACHELARD), géographie (SANTOS, HUMBOLDT, CLAVAL, DUCAN, SERPA) et architecture (LYNCH). Les dialogues entre les divers auteurs ont produit des nouvelles propositions d’analyse et des possibilités d’interpretations du paysage au délà da sa matérialité qui sont, également, considerés comme constructions symboliques. Le but de cet étude n’est pas seulement de proposer des nouvelles paysages mais, égalemente d’établir une critique sur les mêmes, ainsi, il est necessaire d’agrandir la discussion téorique sur la méthode phénoménologique pour permetre de crier des vrais chemins méthodologiques qui entraînent interpretions entre la téorie et pratique. Mots-clés : Paysage, Gégraphie et Phénoménologie. A PAISAGEM GEOGRÁFICA ATRAVÉS DA FENOMENOLOGIA: POSSÍVEIS CAMINHOS PARA A CONSTRUÇÃO DE UM MÉTODO. Cláudia Alves dos Santos1 Flávia Silva de Souza2 Introdução A Fenomenologia tem como princípio norteador analisar a essência dos fenômenos através de uma consciência intencional. A idéia de intencionalidade é central no estudo fenomenológico para produzir uma crítica aos paradigmas modernos que excluem a subjetividade nas produções cientificas. No âmbito da Geografia a Fenomenologia poderá fornecer um aporte para compreensão da valorização subjetiva do espaço geográfico. O objetivo não é negar a existência de um mundo material, mas compreender como o conhecimento do mundo acontece através das intencionalidades. Nesse sentido Souza (1989) afirma que não existe algo como uma face objetiva pura da realidade social tanto quanto não existe uma subjetividade que crie ou se imponha absolutamente ao mundo. O que efetivamente existe são os múltiplos aspectos da interação dessas duas dimensões, dessas duas faces. (p. 151) Considerando as inter-relações entre a Fenomenologia e a Geografia a proposta do presente artigo é trabalhar uma Fenomenologia da Paisagem. Essa idéia foi baseada numa disciplina oferecida pelo Mestrado de Geografia da Universidade Federal da Bahia, ministrada pelo professor Angelo Serpa, com o objetivo de promover um diálogo entre os filósofos da Fenomenologia (HUSSERL com a fenomenologia transcendental, SARTRE com a fenomenologia do existencialismo, MERLEAU-PONTY com a fenomenologia da percepção e BACHELARD com a fenomenologia da imaginação) com geógrafos (SANTOS, HUMBOLDT, CLAVAL, DUCAN) e arquitetos (LYNCH). A partir destas leituras a disciplina buscava novos métodos para analisar a paisagem geográfica, como algo experimental. 1 2 Mestranda em Geografia da Universidade Federal da Bahia. E-mail: [email protected]. Mestranda em Geografia da Universidade Federal da Bahia. E-mail: [email protected]. A Paisagem Geográfica e a Fenomenologia O que é paisagem para a Geografia? Inicialmente, é tudo aquilo que a visão pode abarcar, diria Milton Santos (1996), mas ele complementa que esta visão é dotada de intencionalidades, afirmando que (...) a noção de intencionalidade não é apenas válida para rever a produção do conhecimento. Essa noção é igualmente eficaz na contemplação do processo de produção e de produção das coisas, considerados como um resultado da relação entre o homem e o mundo, entre o homem e o seu entorno (SANTOS, 1996, p.73). Nesta perspectiva é possível pensar a paisagem além da sua materialidade, considerando também as construções simbólicas que a constitui. Para Duncan (2004) as interpretações das paisagens nos levam a campos interdisciplinares, pois envolvem temáticas como a natureza da objetificação, da representação, da consciência, da ideologia (...) centrais para uma compreensão geográfica da produção e do uso da paisagem, e de seu papel como um componente constitutivo dos processos sociais” (p.97) A temáticas pensadas por Duncan (2004) para compreender a paisagem podem ser operacionalizadas através das reflexões de Husserl, Sartre, Merleau-Ponty e Bachelard. Pois, todos elaboram novos caminhos para a produção do conhecimento científico. Husserl ao propor a Fenomenologia como um campo novo do conhecimento afirma que a existência dos fenômenos está intrinsecamente relacionada a uma consciência intencional. O autor propõe uma busca da essência dos fenômenos pensados como algo absoluto. Para isso, o método utilizado é a redução fenomenológica. Só é possível compreender a imanência inclusa (essência) dos objetos, através da exclusão de todas as imanências ingredientes (transcendências). Partindo do principio de que todas as ciências são passíveis de questionamentos, Husserl utiliza a imanência inclusa, pois a considera como algo indubitável. Para compreender o fenômeno do ser é necessário entender o não-ser, uma vez que a consciência revela o fenômeno do ser e ela é extraída do nada. Sartre trata como questão fundamental a essência como razão de uma série de aparições, ou seja, o objeto não se encerra em si. Assim, faz uma crítica à Redução eidética de Husserl, pois para ele todo objeto é transcendente. Merleau-Ponty (2004) propõe uma Fenomenologia da Percepção para buscar uma verdade, que nunca é dada, inacabada, que é aberta, é falha e sujeita a brancos e vazios. A análise dessa verdade é através da Percepção Originária que seria o dado absoluto – mostrando uma aproximação com as idéias da Fenomenologia da Transcendência, já que era um discípulo de Husserl. Em seus estudos o autor tem como referência as pinturas de Cezzane (ver em figura 01 e 02), pois este pintor possuía um estilo próprio, o que diferenciava de outros pintores da sua época. Em suas pinturas não havia um rigor na definição das formas e havia uma mistura de cores que dava a sensação de outras formas temos um mundo em que os objetos não conseguiriam estar em identidade absoluta com eles mesmos, onde forma e conteúdo estão como que baralhados e mesclados, e que, por fim, não oferecem mais esta estrutura rígida que lhe era fornecida pelo espaço homogêneo de Euclides (MerlauPonty, 2004, p.11) Os tons usados dão idéias de profundidade e intensidade. O pintor procurava retratar a paisagem se aproximando da realidade, buscando sua impressão imediata. Foi assim, que Merleau –Ponty (2004) desenvolveu a sua idéia de Percepção Originária. A Percepção Originária não é a percepção do cotidiano, não é pensada como no empirismo e racionalismo, pois este conhecimento decompõe o percebido em partes menores, fragmentando um todo. A Percepção originária é a idéia imediata, é o momento que a relação surge com o objeto: “Percepção se aprontando para dar origem ao percebido”. (Serpa, 2006) A Percepção Originária não é necessariamente visual, mas envolve outros sentidos. E assim, nas palavras de Merleau Ponty (2004) a unidade da coisa permanece misteriosa enquanto considerarmos suas diferentes qualidades (sua cor, seu sabor, por exemplo) como dados que pertencem aos mundos rigorosamente distintos da visão, do olfato, do tato, etc... Cada uma dessas qualidades longe de ser rigorosamente isolada, tem uma significação afetiva que a coloca em correspondência com a dos outros sentidos (p.20). Bachelard (1998) propõe uma fenomenologia da imaginação que pressupõe um rompimento com todos os hábitos de pesquisas filosóficas (p.1). Ele defendia um racionalismo aplicado (teoria) e criticava o excesso de empirismo. A unidade central da sua teoria é a imagem poética, no entanto, esta só tem sentido quando está relacionada com a consciência. A fenomenologia proposta pelo autor, baseada na imagem poética, ganha maior significado quando é trabalhada a partir do par ressonância-repercussão. “As ressonâncias dispersam-se nos diferentes planos da nossa vida no mundo; a repercussão convida-nos a um aprofundamento da nossa própria existência” (BACHELARD, 1998, p.7). A Fenomenologia da imaginação se aproxima muito das idéias das fenomenologias do Transcendentalismo, do Existencialismo e da Percepção, pois não há como perceber, existir e transcender sem imaginar. É através de uma consciência intencional que o homem observa e analisa uma paisagem. As descrições de paisagens realizadas por Humboldt (1952) eram marcadas de intencionalidades, visto que o autor pretendia “mostrar” ao mundo paisagens, até então, pouco conhecidas. A metodologia aplicada, além das descrições, era multiplicar os pontos de vista e abarcar o todo. De acordo com Claval (2004) multiplicar os pontos de vista é o mesmo que construir uma visão horizontal do fenômeno que expressa uma leitura de paisagem, à qual, todos têm acesso. Porém, para este autor a inconveniência do olhar horizontal é a revelação apenas de uma parte do real. Além do olhar horizontal, as fotografias aéreas e os mapas proporcionam uma visualização vertical dos fenômenos produzindo análises generalizadas. Atualmente, a paisagem é mais analisada através de um olhar vertical e um dos riscos é desconsiderar elementos que realmente importam na vida das pessoas, promovendo uma “redução” da paisagem. Assim, a proposta do autor é construir uma integração das duas visões e produzir uma análise mais detalhada da paisagem. Claval (2004) ao analisar o olhar horizontal como a revelação de uma parte de um real, desconsiderou que quando a paisagem “aparece” para o sujeito ela é também constituída do que “não aparece”, portanto não é apenas uma parte da realidade, é o todo. Nesse sentido, Duncan (2004) afirma que para compreender a natureza relacional do mundo precisamos “completálo” com muito do que é invisível para ler os subtextos que estão por baixo do texto visível. O significado desses textos e subtextos muda com o tempo e com a mudança de perspectiva do intérprete (p. 100). O método proposto por Duncan (2004) considera a paisagem como um sistema de criação de signos, assim envolve leituras construídas por aqueles que vivenciam ou não o lugar. Essas leituras são dotadas de crenças, valores e explanações do senso comum e podem ser captadas através de entrevistas e observações. A síntese destas leituras permite compreender como se produz e com que interesses são constituídas as paisagens. As idéias dos filósofos fenomenologistas e dos geógrafos permitem aplicar o estudo da paisagem ao planejamento e gestão dos lugares. Pois, eles indicam como realizar leituras prévias das paisagens para um posterior processo de organização espacial. A abordagem de Lynch (1981) também se aproxima da mesma linha dos referidos autores, no entanto suas idéias são voltadas para intervenções urbanísticas. A aproximação desse autor com os anteriores surge no âmbito de suas discussões sobre as noções de Sentido e Adequação no processo de planejamento O Sentido depende da forma e da qualidade espaciais, mas também da cultura, do temperamento, do estatuto, da experiência e do objetivo atual do observador. Assim, o sentido de determinado local varia consoante os diferentes observadores” (LYNCH, 1981, p.127). A “essência” do sentido esta ligada a identidade3 e estrutura formal4, que por sua vez estão interligados aos aspectos qualitativos como: congruência, transparência e legibilidade. A Adequação está relacionada com o modo como seu padrão espacial e temporal corresponde ao comportamento habitual dos seus habitantes (...) Os locais são modificados para se adequarem a comportamentos e os comportamentos são alterados para se adequarem ao local (LYNCH, 1981, p.145). 3 Identidade é o nível a que uma pessoa consegue reconhecer ou recordar um local como sendo distinto de outros locais – como tendo um caráter próprio vivido, único ou pelo menos particular. (LYNCH, 1981, p.127) 4 Estrutura formal que à escala de um local pequeno é o sentido do modo como as partes se ajustam em conjunto e que num grande aglomerado populacional é o sentido de orientação: saber onde(ou quando) se está, implica saber como outros locais (ou tempos) estão ligados a este local. (LYNCH, 1981, p.128-131) No contexto do sentido e da adequação a qualidade da reversibilidade é algo interessante, pois os espaços podem ser construídos e reconstruídos com funções diversas. Contudo, pensar a paisagem nos moldes de uma sociedade capitalista torna todos os métodos e procedimentos, até então citados, algo bastante complexo. Pois, as intencionalidades daqueles que possuem o poder estão muito voltadas para um acúmulo de capital. As relações de poder estão muito imbricadas nos sistemas de criações de signos. Mas, é através da pertinência de uma utopia e de um processo de tomada de consciência que as “iniciativas serão articuladas e os obstáculos serão superados permitindo contrariar a força das estruturas dominantes, sejam elas presentes ou herdadas” (SANTOS, 2001, p. 161). PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS O presente artigo é resultado de leituras e práticas realizadas na disciplina Fenomenologia da Paisagem. Esta disciplina foi estruturada em duas etapas: a primeira era composta de atividades teóricas e práticas baseadas em filósofos da fenomenologia e a segunda etapa buscava relacionar os conceitos apreendidos dos filósofos com autores da Geografia e da Arquitetura. Todas as atividades práticas, desenvolvidas na primeira etapa, foram pensadas com o intuito de operacionalizar os conceitos trabalhados pelos fenomenologistas com o estudo da paisagem geográfica. O procedimento metodológico principal de todas as atividades era observar e descrever exaustivamente a paisagem. Como a disciplina era experimental, algumas atividades poderiam não alcançar êxitos, o que não seria um problema, pois o objetivo era vivenciar e construir novas experiências, mesmo que elas fossem frustrantes. As primeiras leituras foram acompanhadas de trabalhos práticos, deste modo, a partir das idéias de Husserl (2000), a cerca da imanência inclusa e ingrediente, o trabalho prático foi realizado no Alto de Ondina – Salvador – Ba. Os estudantes ficavam em dupla e em um ponto do mirante observando a paisagem de ângulos diferentes. Três duplas eram responsáveis por extrair da paisagem a idéia da imanência ingrediente e as outras três a idéia da imanência inclusa. O segundo autor escolhido para analisar a questão da paisagem foi Sartre (2005). Como este autor não admite a imanência pura dos objetos foi possível trabalhar com paisagens contadas e personagens inventados, no intuito de transcender o sujeito do sujeito para definir paisagens. O objetivo proposto pelo exercício prático, coordenado pelo professor Angelo Serpa e por dois estudantes de Teatro (Tatiane Carconholo e Marcelo Brito), era extrapolar intencionalmente a transcendência. Também foram convidados dois estudantes da disciplina Mário Alberto dos Santos e Heloísa Araújo de Araújo que desenvolvem pesquisas na Bacia de Santiago do Iguape (Maragogipe-BA) e na Ladeira da montanha Pelourinho-Salvador, respectivamente. Foi criada uma peça com o intuito de oscilar entre duas paisagens distintas. O professor e os dois convidados eram pesquisadores, enquanto os estudantes de teatro eram os personagens. A peça foi pensada, como dito anteriormente, em dois mundos bem diferentes e em cada um existiam dois moradores, uma mulher e um homem, que eram entrevistados sobre suas vivências no lugar. Na Bacia do Iguape os dois personagens eram Catadores de Mariscos, e na ladeira da Montanha a mulher era uma prostituta e o homem o dono de um bar. A escolha dos dois lugares foi baseada em estudos anteriores, sobre “A Mariscagem em Plataforma” (realizados no âmbito do Projeto Espaço-Livre de Pesquisa-Ação) e uma peça realizada, pelos estudantes-atores, sobre a Prostituição no Pelourinho chamada “Luz”. A terceira leitura e atividade prática foram baseadas nos estudos de Merleau-Ponty (2004) sobre a Percepção Originária. O exercício proposto foi encontrar a Percepção Originária no Passeio Público de Salvador. Com o objetivo de utilizar os outros sentidos, com exceção da visão, os estudantes tiveram seus olhos vendados. As duplas escolhiam dois pontos, um ficava de olho aberto e se dirigia a um ponto de sua escolha e outro ficava com o olho vendado, depois este levava o que ficou de olho aberto, agora vendado, para outro ponto. Nos pontos escolhidos as duplas tinham que descrever as sensações no lugar e, assim, tentar buscar a Percepção Originária. Para finalizar a primeira etapa da disciplina os estudos de Bachelard (1998) sobre A Poética do Espaço foram os referenciais para a construção da atividade prática. O par ressonânciarepercussão foi o princípio norteador do exercício prático, todos tinham que escolher imagens poéticas que de alguma maneira repercutisse ou ressoasse em suas vidas. A segunda etapa da disciplina foi relacionada com leituras e discussões de textos, na sala de aula, direcionados a Geografia e a Arquitetura. O objetivo era buscar relações de autores geógrafos e arquitetos com as idéias dos fenomenologistas. Foi o momento de consolidação para um possível caminho de construção de método fenomenológico-geográfico para o estudo da paisagem. RESULTADOS ALCANÇADOS As discussões teóricas, aqui apresentadas, imbricadas com as atividades práticas possibilitaram uma diversidade de leituras da paisagem geográfica no contexto da ciência fenomenológica. Como dito anteriormente as primeiras idéias trabalhadas foram as de Husserl (2000) sobre a imanência inclusa e a imanência ingrediente. Contudo, foi feita apenas a descrição da paisagem através da imanência inclusa, ou seja, o objetivo era buscar a essência dos fenômenos sem transcender. Os elementos observados e descritos envolveram formas, cores, cheiros, sons e sensações. O exercício proposto demonstrou a importância do direcionamento de estudos a partir de um objeto dado mais facilmente apreensível, pelo menos para quem consiga colocar na posição do puro ver e evitar todos os preconceitos naturais é o conhecimento de que podem chegar ao absoluto dar-se em si não só objectos singulares, mas também universalidades, objectos universais e estados de coisas universais. Este conhecimento é de importância decisiva para a possibilidade de uma fenomenologia. Com efeito, o seu caráter peculiar é ser análise de essências e investigação de essências no âmbito da consideração puramente intuitiva, no âmbito da autopresentação absoluta (HUSSERL, 2000, p. 78 e 79). No processo de descrição da essência do objeto existiu uma série de problemas, devido a uma transcendência consciente e/ou inconsciente do sujeito, o “puro ver e o puro sentir” da paisagem pode ser o ponto de partida para o desenvolvimento de um estudo. Entretanto, Sartre (2005) afirma que a transcendência é inerente ao sujeito. Partindo dos pressupostos de Sartre (2005) relacionou-se o ser e o não ser a paisagens “contadas”. Através das relações estabelecidas entre personagens e estudantes, buscou-se analisar o que aparecia e o que não aparecia para encontrar a razão das séries de aparições. A fenomenologia de Sartre admite o absoluto no momento em que o fenômeno aparece, mas não descarta as diversas possibilidades do que não aparece. “Assim, o ser fenomênico se manifesta, manifesta tanto sua essência quanto sua aparência e não passa de série bem interligada dessas manifestações” (SARTRE, 2005, p.17). Com a atividade proposta foi possível extrair das falas dos personagens as características físicas, as relações cotidianas, as necessidades, as perspectivas de mudança, os processos identitários com o lugar construindo percepções de paisagens. Buscando um maior aprofundamento sobre percepções de paisagens fez-se necessário a aplicação da Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty (2004). A leitura da paisagem relacionada com a idéia central do autor sobre a percepção originária deve ser construída num processo que vai além da visão. Assim, no desenvolvimento da atividade prática, com os olhos vendados, foi possível notar que a percepção originária era relacionada ao próximo. Verifica-se que a visão possibilita uma superposição de planos que aumenta o raio de alcance da percepção humana. Entretanto, é necessário à utilização e a integração dos outros sentidos, para assim alcançar a unidade da “coisa”, ou seja, o sistema de qualidades inerentes aos diferentes sentidos. Em todas as atividades e leituras a imaginação era um elemento presente, mas, ainda, não revelado como um conceito. A imaginação é o elemento central da teoria de Bachelard(1998), propositalmente o professor da disciplina deixou por último as leituras e a atividade prática relacionada à Fenomenologia da Imaginação. Através das músicas, de imagens, de vídeos e do teatro foram surgindo diversas paisagens, a princípio, individuais que deveriam repercutir nos integrantes da disciplina, pois para Bachelard (1998): só a fenomenologia – isto é, a consideração do inicio da imagem numa consciência individual – pode ajudar-nos a reconstituir as subjetividades das imagens e a medir a amplitude, a força, o sentido da transubjetividade da imagem (p.03). É importante ressaltar que todas as imagens expressaram uma intensidade, em relação ao imaginário e as idéias de Bachelard. Contudo, as imagens de Hieronymus Bosch (ver em anexo figura 03) trazida por dois estudantes (Shanti Marengo e Silvia Escudero) produziram um rompimento com a racionalidade empírica , pois subverteram a lógica da organização do pensar, através da imaginação de processos surreais, levando uma construção diferenciada de mundo, consequentemente também acarretando a construções de novas paisagens. Para Serpa (2007) analisar a paisagem produzida é o trabalho mais importante de geógrafos, urbanistas, arquitetos, paisagistas e o caminho não é somente propor novas paisagens, mas fazer uma crítica das paisagens, tal como elas se apresentam. A crítica para o presente autor deve ser elaborada a partir de pressupostos de uma fenomenologia da paisagem, pois esta permite uma leitura da paisagem como algo concreto-abstrato, revelando inúmeras particularidades e singularidades, e apresentando o invisível espacial que está presente “no “visível” de cada paisagem, de cada aparição, enquanto “essência”, construindo uma tipologia baseada em sistemas materiais e sistemas de valores” (SERPA, p.04, 2007) Conclusão Por que buscar caminhos através da Fenomenologia para o estudo da paisagem? A Fenomenologia propõe métodos que criticam a ciência pronta, inquestionável e permite vislumbrar novas possibilidades de leituras de mundo. No caso deste trabalho foi possível “enxergar, sentir, cheirar e ouvir” a paisagem numa perspectiva que vai além da organização estrutural das ciências (Geografia, Urbanismo, Arquitetura, etc) que estudam o objeto paisagem. Também é importante ressaltar que os resultados demonstraram a existência de várias fenomenologias, traduzindo num esforço maior de compreensão da ciência fenomenológica. Seguir pelos caminhos da Fenomenologia é enfrentar algo complicado e árduo. Os métodos ainda não estão ainda bem consolidados na atual ciência, devido a uma herança positivista baseado num racionalismo objetivo e neutro. Porém, o mundo em sua atual complexidade abarca relações objetivas, subjetivas e intersubjetivas. Então analisar “este mundo” através de uma vertente única reduz as diversas interpretações dos fenômenos. A proposta é continuar desenvolvendo a discussão teórica, aprofundando o método e criando processos metodológicos consistentes que favoreçam a inter-relação entre a teoria e a prática. Promovendo, assim, a construção de uma análise e interpretação orgânica das diversas paisagens geográficas. Referências bibliográficas ART IN THE PICTURE.COM. Garden of Earthly Delights by Hieronymus Bosch: Exhibited in Madrid (Spain), Museo del Prado. Disponível em: http://www.artinthepicture.com/paintings/view.php?nr=258. Acesso em 18 de maio de 2007. BACHELARD, G. A Poética do Espaço. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1998. CLAVAL, Paul. A Paisagem dos Geógrafos. In: Corrêa, R. L.; Rosendahl, Z. (orgs.). Paisagens, Textos e Identidades. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2004. p. 13-74. DUNCAN, J. A paisagem como sistema de criação de signos. In: Corrêa, R. L.; Rosendahl, Z. (orgs) Paisagens, textos e Identidades. Rio de Janeiro: Eduerj, 2004, p. 90-132. HUMBOLDT, Alexander Von. 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