AU TO RA L 1 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU DI R EI TO INSTITUTO A VEZ DO MESTRE DE ORIENTAÇÃO VOCACIONAL E PROFISSIONAL - ORIENTANDO LE I ADOLESCENTES SURDOS LA LIMITES E DESAFIOS NA ESCOLHA PROFISSIONAL DE Por: Adriana Valéria Silva Lopes DO CU M EN TO PR OT EG ID O PE ADOLESCENTES SURDOS Orientador: Profª. Maria Esther Araújo Co-orientadora: Profª. Lúcia Santana da Silva Carbone Niterói 2010 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU INSTITUTO A VEZ DO MESTRE ORIENTAÇÃO VOCACIONAL E PROFISSIONAL - ORIENTANDO ADOLESCENTES SURDOS LIMITES E DESAFIOS NA ESCOLHA PROFISSIONAL DE ADOLESCENTES SURDOS Apresentação de monografia ao Instituto A Vez do Mestre – Universidade Candido Mendes como requisito parcial para obtenção do especialista em Orientação Educacional Por: Adriana Valéria Silva Lopes grau de 3 AGRADECIMENTOS Agradeço à Deus, em primeiro lugar, por me permitir condições físicas e mentais para a realização deste trabalho; Agradeço à minha família pelo incentivo constante na busca de novos conhecimentos, e por, sempre aplaudirem de pé cada conquista de minha vida; Por fim, agradeço aos meus amigos, por me fazerem acreditar que sem eles nada é possível... 4 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho à comunidade de Surdos, que um dia foi capaz de mudar os rumos de minha formação acadêmica, e por me fazerem ver que a inclusão não só é possível, como necessária e urgente 5 RESUMO O objetivo principal desta monografia é identificar os limites e os desafios tanto de profissionais orientadores quanto da clientela específica de adolescentes surdos na hora da escolha de uma profissão. Sabendo que o trabalho (Profissão, ocupação, meio de subsistência) está relacionado ao exercício da cidadania, portanto, relacionado também à dignidade, ao sentimento de inclusão, de pertencimento, no momento da vida reservado para a escolha profissional, há que se disponibilizar recursos que atendam a todos, já que estaremos falando de um assunto que não é restrito a um único grupo de pessoas, e sim a todos. Todos, sem distinção, têm direito à profissionalização, a fazer escolhas. O profissional encarregado dessa função, no caso o Orientador Educacional deverá ter preparo e formação suficientes para atender a diversidade da clientela que procura por tal atendimento. Veremos que o momento dessa procura não é algo voluntário, ao contrário, é algo socialmente imposto, que acontece num período de muita instabilidade e insegurança em vários aspectos da vida: a fase da adolescência. Na contra mão de toda instabilidade e insegurança, o adolescente deve mostrar-se seguro e escolher uma profissão, que dentre outras coisas deverá proporcionar-lhe estabilidade, tanto financeira quanto emocional. Há forte pressão social nesse momento, o que gera conflitos no adolescente, visto que ainda não está maduro o suficiente para assumir tanta responsabilidade. Equilibrar todos esses pilares não é tarefa fácil para o profissional orientador educacional; é extremamente complexo e delicado. Em se tratando da clientela em questão, adolescentes surdos, torna-se ainda mais delicado, por tratar-se de um grupo bastante diversificado em vários aspectos (lingüísticos, sociais, comportamentais, políticos, educacionais). Conhecer sobre esta clientela tornase essencial para que se possa pensar em incluí-la nos serviços de orientação profissional, e para que recursos sejam disponibilizados, projetos e ações educativas possam realizar-se a fim de atender a todos. Os sujeitos surdos estão organizados em comunidades de surdos, atuantes através das associações de surdos espalhadas por todo o mundo, lutam por seus direitos e por poderem usufruir de tudo o que está disponível para todos. A tão sonhada 6 e desejada inclusão deve ocorrer de fato, já que de direito ela já foi garantida através das leis que aí estão.Conhecer tais leis torna-se de suma importância, pois as mesmas consistem em dispositivos a serviço e a favor de todos e garantir a sua legitimidade depende de todos nós. Palavras-chave: Escolha profissional- Adolescentes surdos- Orientação profissional 7 METODOLOGIA O presente trabalho monográfico foi realizado através de pesquisa bibliográfica. De acordo com Galliano (1986), “pesquisa bibliográfica é aquela que se efetua tentando resolver um problema ou adquirir novos conhecimentos a partir de informações publicadas em livros ou documentos similares (catálogos, folhetos, artigos, etc.). Seu objetivo é desvelar, analisar as principais contribuições teóricas sobre determinado fato, assunto ou idéia.” Segundo o módulo III, IAVM ( Instituto a Vez do Mestre ), intitulado Metodologia de Pesquisa, versão 2007, “a pesquisa bibliográfica consiste em pré-requisito para todas as pesquisas científicas. Assim, é essencial o aprendizado da pesquisa bibliográfica, pois o pesquisador necessitará aplicá-la em toda sua vida acadêmica e/ou profissional, na busca do conhecimento científico que enseja uma visão da realidade livre das amarras das opiniões pessoais, estigmatizadas ou preconceituosas”. Os principais autores usados para no embasamento deste trabalho foram Bohoslavsky (1980), Bock (2002), Levenfus e Soares (2010), Skliar e colaboradores (2005) Mazzota (2005) e outros. O início do trabalho trata da questão da orientação profissional, enfocando o momento da escolha, com toda sua especificidade, e já iniciando com as questões próprias da adolescência, que é a fase onde se pretende que os adolescentes façam as suas escolhas, dentre elas, a profissional. O 2º capítulo tratará sobre as questões específicas do sujeito surdo, que é a clientela que se pretende abordar nesse trabalho. Passamos de definições, esclarecimentos e ao aparecimento dessa clientela no contexto histórico. Por fim, trago a reflexão sobre os limites e desafios enfrentados pelos surdos no mercado de trabalho, e uma visão de como se dá a sua inserção. Por tratar-se de uma clientela com características lingüísticas e sociais bem diferentes, há necessidade de conhecê-los, saber quem são e como se comportam, para depois inseri-los em serviços de orientação profissional. 8 Os surdos são sujeitos usuários de outra língua, diferente da língua portuguesa, com características lingüísticas próprias (gramática e sintaxe diferentes da língua portuguesa) - LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), considerada uma língua gestual, realizada no espaço e fazendo uso próprio corpo, portanto também espacial. O uso de uma língua diferente traz várias implicações para os surdos e para quem lida com eles. O presente trabalho traz à luz todas essas questões e reflete sobre os papéis da referida clientela e do orientador educacional, legitimamente responsável pelo processo de orientação profissional, dentro das escolas. 9 SUMÁRIO Introdução ____________________________________________________10 CAPÍTULO I: ORIENTAÇÃO VOCACIONAL E PROFISSIONAL NA ADOLESCÊNCIA_______________________________________________12 1.1. Orientação vocacional e profissional __________________________12 1.2. Orientação profissional na adolescência – Idealizando escolhas _____16 CAPÍTULO II: ORIENTANDO ADOLESCENTES SURDOS ______________20 2.1. Surdez – Breve histórico ___________________________________ 20 2.1.1. Histórico da educação de surdos _____________________________20 2.1.2. A educação de surdos no Brasil ______________________________23 2.2. Surdos: Quem são esses sujeitos? Deficiente auditivo, surdo ou surdomudo? 2.3. ___________________________________________24 Os Sujeitos surdos no contexto da orientação profissional _________28 CAPÍTULO III: O SURDO NO MERCADO DE TRABALHO ______________33 3.1. Dispositivos legais para inserção do surdo no mercado de trabalho __33 3.2. O surdo e a escolha profissional – Limites e desafios _____________ 35 3.3. O surdo no mercado de trabalho _____________________________37 Conclusão ____________________________________________________ 44 Referências Bibliográficas _______________________________________ 46 10 INTRODUÇÃO O presente estudo foi dividido em três capítulos, onde constataremos a importância do tema proposto, assim como pretendo “incomodar” àqueles profissionais que trabalham diretamente na área educacional, que são decisivos para o processo de formação de nossos jovens e estão diretamente implicados no processo de inclusão. No capítulo I pretende-se traçar uma breve consideração acerca do que é a orientação vocacional e profissional, sugerindo que são conceitos distintos, embora estejam intimamente ligados, e também fazer considerações acerca da fase da adolescência, que é justamente a fase que o adolescente está terminando o ensino médio, portanto considerado apto a dar continuidade aos estudos profissionais, ou seja, ele terá que escolher uma profissão, uma carreira para sua vida. No capítulo II já considera-se a clientela pretendida neste estudo, que são adolescentes surdos. Antes de tudo há que se saber quem são esses sujeitos e situá-los no contexto histórico, para posteriormente, analisar suas condições no que se refere à orientação profissional propriamente dita. Finalmente no capítulo III trataremos da questão da inserção do Surdo no Mercado de trabalho, como se dão suas escolhas, como é o acompanhamento, quais os recursos necessários para sua inserção e quais os dispositivos legais que garantem o seu acesso ao mercado de trabalho. A relevância do tema vem de encontro às mudanças sociais ocorridas nos últimos anos quanto á inclusão dos “diferentes”, fomentada por uma legislação que ratifica seus direitos. Falar de escolha profissional para uma clientela minoritária é também reconhecer que esta tem direito á escolha como qualquer cidadão, ou seja, é também uma forma de assegurar a sua inclusão. Os sujeitos surdos, por possuírem características lingüísticas diferentes, ou seja, por fazerem uso de uma outra língua, a Libras( língua brasileira de sinais) ás vezes ficam á margem de informações e conhecimentos, pois nem sempre encontram um intérprete de língua de sinais para lhes transmitir as informações disponíveis em língua oral, ou eles 11 mesmos ainda desconhecem a própria língua. Essa falta de informação contribui para total alienação, tanto do social quanto em relação á si próprio. Suas habilidades e competências são desconhecidas, assim como seus limites e possibilidades quanto á profissionalização. Através desse estudo proponho uma reflexão sobre o papel do orientador educacional frente ao desafio de orientar essa clientela, com especificidades lingüísticas e sociais, dando-lhe subsídios para melhor fazê-lo, já que, como dito anteriormente, respaldados por uma legislação, os surdos chegam cada vez mais ao mercado de trabalho, e, muitas vezes, com pouca ou nenhuma qualificação, ou ainda, sem nenhum conhecimento de suas competências. Daí também a importância de pesquisar sobre os tipos de profissões mais adequadas, que reflitam suas habilidades e competências profissionais, mas que não caminhe na contra mão, ignorando a falta de audição. A falta da audição traz limites em relação ao exercício de determinadas profissões, mesmo que haja interesse de um dia exercê-las. Há muitas vezes uma distância bastante significativa entre o real e o ideal. O orientador deve estar atento e sensível a essas questões e no processo de orientação profissional deixar o mais claro possível, sem desencorajar e nem desestimular o surdo, mas conscientizá-lo de suas reais possibilidades, acesso ao mundo profissional e ao mercado de trabalho. Para tal, é imprescindível que, não só utilize-se de procedimentos técnicos adequados, mas que também conheça as especificidades dessa clientela para que seu trabalho seja realmente produtivo e eficiente. Portanto, esta pesquisa tem por objetivos, identificar limites e desafios que o orientador educacional encontra, frente a escolha profissional de adolescentes surdos, assim como propor caminhos para melhor orientá-los e refletir sobre limites e possibilidades dessa clientela frente ao desafio escolha. da 12 CAPÍTULO I ORIENTAÇÃO VOCACIONAL E PROFISSIONAL NA ADOLESCÊNCIA O capítulo que se inicia tratará sobre a orientação vocacional e profissional, enfocando inicialmente as mudanças que o conceito de trabalho sofreu ao longo do tempo, e que refletiram diretamente na forma como as pessoas passaram a lidar com suas atividades profissionais. A seguir, seguindo um conceito mais moderno do termo trabalho, refletiremos sobre o papel do orientador educacional, na função de orientar para a escolha de uma profissão, e por fim, analisaremos a responsabilidade de uma orientação profissional na fase da adolescência, com todas as suas especificidades. 1.1- Orientação vocacional e profissional “Pensarei que cada aluno é um indivíduo capaz de escolher por si mesmo o seu projeto de vida. Educarei, mas não induzirei; Orientarei, mas não sugerirei; Informarei, mas não catequizarei.” (BOHOSLAVSKY, 1998, p.6) Falar de orientação vocacional e profissional nos remete a várias outras palavras, que nesse contexto tomam uma dimensão muito grande, que envolve vários aspectos e fases da existência humana. Dentre essas palavras estão: competência, vocação, mercado de trabalho, satisfação, e é claro, a própria palavra trabalho. Ao longo deste capítulo essas palavras aparecerão sempre que o contexto for a orientação vocacional e profissional, por isso, iniciando este capítulo discutiremos um pouco em relação ao trabalho e as mudanças sofridas em seu conceito ao longo do tempo. No módulo IV, IAVM, versão 2007 encontra-se a definição de trabalho como uma palavra originada do vocábulo latim tripalim, que era um instrumento utilizado pelos agricultores para bater e processar os cereais. Já os dicionários registram a palavra apenas como instrumento de tortura, que era supostamente 13 a sua função original ou a função que teria adquirido após o uso na agricultura. Com isso, o significado da palavra trabalho ligado à fadiga, peso e castigo, está ligado ao uso desta ferramenta (tripalium) como instrumento de tortura. Vemos com isso, o peso inicial que esta palavra carregava. Apenas relacionado à tortura, peso, castigo. Pensemos nos seres humanos que exerciam o trabalho. Provavelmente era uma atividade exercida sem gosto, sem satisfação, sem vontade própria, muito menos escolha. Ainda no módulo IV IAVM (versão 2007), o trabalho na época da escravidão era visto como uma atividade que agradava aos deuses criava riquezas e promovia a independência entre os homens. Do ponto de vista religioso, o homem foi condenado ao trabalho porque Eva e Adão constituíram o pecado. Em gênesis, o trabalho é considerado o castigo no qual o homem terá que trabalhar, e com o suor, conseguir o seu alimento para a sobrevivência. Constatamos através dessas informações que inicialmente a palavra trabalho tinha uma conotação bastante pesada, era visto como um castigo, uma obrigação, e tudo isso era justificado com a questão religiosa. Tal conceituação reforçava a idéia que as pessoas deviam pagar com o trabalho, os pecados cometidos por outros, como a expiação de uma culpa. Não se falava em felicidade no trabalho, satisfação ou qualidade de vida. Com a evolução da história da humanidade, o surgimento de novas tecnologias e novos conhecimentos, houve significativa evolução no conceito de trabalho para que as novas demandas fossem atendidas. No módulo IV, IAVM, (2007, p.10), encontramos um conceito de trabalho mais moderno, que o concebe como uma experiência de convivência sadia, respeito, compromisso e contribuição com a qualidade de vida. Vemos uma diferença grande entre os dois conceitos, visto que o mais moderno já considera aspectos que antes nem eram pensados. O objetivo inicial do trabalho era como visto anteriormente, reparar um pecado, pagando com o próprio suor. Assim, os trabalhadores ficavam em paz com sua consciência, em paz com os deuses e livres da culpa pelo pecado cometido. Aliás, pecado esse, do qual nem participaram, sequer conheciam os ditos pecadores. Na época, a forte influência religiosa veio corroborar com esse conceito, sem que houvesse questionamentos. Podemos refletir no quão 14 infelizes podiam ser esses trabalhadores, visto que o conceito de trabalho numa concepção mais moderna, considera-o como forma de identidade do indivíduo, a profissão caracteriza o seu ser, o indivíduo é a sua profissão.(Modulo IV- IAVM ). Podemos deduzir o quanto para os trabalhadores da época era ruim trabalhar, ter uma ocupação, uma profissão. Não se pensava em si, na sua própria satisfação e reconhecimentos pessoais, e sim nos outros, no caso os deuses, que nem sequer tinham certeza de que realmente existiam. A influência religiosa marca território, deixando para trás, o peso de um conceito de trabalho que traduzia uma visão primitiva e desumana do mundo do trabalho, que graças à evolução tecnológica e humana, ficou lá no passado. Numa concepção mais moderna, começam a surgir novos termos, novas considerações, novas visões, como a que veremos a seguir, numa análise mais atual, que nos abre novos horizontes. Segundo Souto (2003, p. 28): “o trabalho é entendido como todo esforço que o homem, no exercício de sua capacidade física e mental, executa para atingir seus objetivos em consonância com princípios éticos. Qualquer forma de trabalho reveste-se de dignidade, a fim de realizar-se e garantir sua subsistência, assim como daqueles por quem é responsável. O trabalho tem uma importância na vida do ser humano tanto no sentido de sobrevivência e manutenção quanto naquele de ser parte de um projeto de vida. O ser humano tem oportunidade de, através do trabalho, continuar a crescer, se desenvolver, expressar e utilizar suas habilidades e talentos. O trabalho é fonte de satisfação pessoal e, como dimensão de existência humana, sempre existiu nas sociedades”. Tal conceito é bastante amplo e analisa diferentes aspectos do trabalho: questões de subsistência, questões éticas, de auto-realização, de desenvolvimento pessoal e também de continuação de uma atividade que sempre esteve presente na história da humanidade. Bem, após a análise de todos esses conceitos e visões em relação ao trabalho, proponho que façamos uma reflexão acerca do papel do profissional 15 orientador educacional, no uso de uma de suas atribuições, que é a orientação profissional, a orientação para a escolha de uma profissão. Com certeza ele estará diante de um grande desafio, pois orientar para o trabalho, seguindo uma visão mais moderna e atual, torna-se bastante complexo. Envolver-se-á tanto com questões éticas e morais quanto com questões relacionadas á satisfação pessoal e de subsistência. Equilibrar todos esses pilares torna-se um desafio e exige habilidade do profissional orientador. Ao orientador educacional cabe não só a função de orientar para o trabalho, mas principalmente, orientar na direção de uma escolha consciente, que atenda ás competências e habilidades de cada um, mas que também traga satisfação pessoal e felicidade, já que, estando a satisfação profissional intimamente relacionada á satisfação pessoal, o fracasso profissional refletiria diretamente na auto-estima do sujeito. O orientador, ao intermediar a orientação para o trabalho deverá estar consciente de que faz parte de um complexo processo, que vai muito além de simplesmente relacionar competências e habilidades a uma profissão. Há que despertar o gosto, o prazer e a confiança na profissão escolhida, para que o indivíduo possa executá-la com eficiência e satisfação, sentindo-se feliz com sua escolha. Essa função do orientador de despertar o gosto pela profissão escolhida, incentivar o desejo pelo exercício da profissão, e principalmente orientar no sentido de ser uma escolha que trará felicidade e realização pessoal, não deve colocar nas mãos do orientador a responsabilidade da escolha, que é do próprio indivíduo, e nem a responsabilidade de identificar qual é a verdadeira vocação do indivíduo. Vejamos então uma outra questão em relação á orientação profissional: O orientador, no uso de suas atribuições tem condições de determinar a vocação profissional de cada indivíduo? Bohoslavsky (1980, p.52)) nos diz que “a identidade profissional será considerada não como algo definido, mas como um momento de um processo, submetido ás mesmas leis e dificuldades daquele que conduz á conquistam da identidade pessoal”. 16 Tal comentário elimina a idéia de que a vocação é algo definido, um chamado ou destino preestabelecido, que se deve descobrir. Então, não caberia ao orientador desvendar a vocação, e sim, orientar um processo de escolhas que está diretamente ligado ao processo de identidade pessoal. Para tal, é essencial o autoconhecimento e a autopercepção. Identidades pessoais e profissionais estão intimamente ligadas, principalmente ao se estudar as inclinações profissionais, ou seja, a opção, a escolha por determinada área de trabalho. Neste viés, o orientador se volta para as habilidades e competências que colocam o educando diante de um leque de possibilidades, e não apenas de uma única possibilidade que seria sua vocação, a profissão ideal que caberia e casaria com sua personalidade. Isto sugere um conflito, visto que implica na escolha de uma profissão que será o reflexo de sua identidade pessoal, ao mesmo tempo em que esta, está em pleno desenvolvimento e muito vulnerável, o que se justifica pela própria fase da adolescência. Nesse caso, na fase da adolescência, essa identidade ainda não estaria pronta, definida. Está passível de mudanças, muitas mudanças. 1.2- Orientação profissional e adolescência “(...) Ele fuma maconha empunhando a bandeira da ecologia, ele é rebeldemente sociável e seguramente instável. Ele ri com lágrimas enquanto chora com gargalhadas. Ele brinca de brigar. Ele vive sonhos e projetos de um vir a ser.”. (Módulo IV- IAVM, por Diva Maranhão e Helenice Feijó ). Como vimos no capítulo anterior a orientação profissional é uma área delicada e complexa, por envolver vários aspectos relacionados ao trabalho. Relacionamos orientação profissional e adolescência porque é justamente nesta fase que se inicia o processo de escolha, como ratifica Soares (2002, p.80): 17 “O processo de escolha inicia-se na adolescência, período de busca de si mesmo, busca de uma identidade, período de crises e questionamentos. É um período muitas vezes chamado de nascimento existencial, em que muitos aspectos da identidade adulta já começam a ser definidos, como a sexualidade e a vida afetiva, e a escolha de uma profissão”. Em meio a todos os conflitos da adolescência, o adolescente ainda é pressionado pelo meio social, a fazer sua escolha profissional. Diante várias indefinições, há que se definir, dentre outras coisas, a profissão que irá seguir que irá identificá-lo, de onde ele terá que tirar, além de estabilidade financeira, também estabilidade emocional. Parece contraditório, que numa fase de instabilidade, cobre-se a busca pela estabilidade, mas em se tratando da adolescência, a fase cercada por contradições, tal fato se justifica perfeitamente. A adolescência é considerada um período de crise, uma fase de grande instabilidade, onde o adolescente está extremamente vulnerável e em busca de uma identidade. Viver todos os conflitos e ainda ser pressionado a definir em tempo hábil uma profissão, é algo muito complexo para quem vive esta fase tão delicada. Por ser uma fase onde sofre influencia principalmente do social, o adolescente ao pensar em escolha profissional sofre influencia de vários grupos sociais (família, amigos, professores) e busca modelos que interferem diretamente em suas escolhas. Bock (2002 ,p. 35) ratifica: “Quando uma pessoa pensa o seu futuro, nunca o faz de forma despersonificada. Ao escolher uma forma de se envolver no mundo do trabalho, bem como a atividade que vai desenvolver, a pessoa mobiliza imagens que adquiriu durante toda a vida.” Ao pensar em escolha profissional, existe sempre um modelo que deu forma a tal profissão. No caso do adolescente, devido á vulnerabilidade característica da fase, tal afirmação se torna fato, justificando sempre as dúvidas, incertezas e dificuldades na hora da escolha. 18 A facilidade com que se identificam com modelos dá um leque de profissões que podem ser escolhidas, incorporadas e idealizadas pelos adolescentes, sem que muitas vezes conheçam suas reais possibilidades e a profissão propriamente dita. Um serviço de orientação profissional dentro das escolas que atenda a esta faixa etária tornar-se imprescindível, para que este sujeito possa ter todo o apoio, diminuindo suas ansiedades, criando expectativas diante de novos caminhos profissionais, construindo e desconstruindo mitos e fantasias que muitas vezes criam em relação á determinadas profissões. O orientador deve conhecer todas as características da fase da adolescência para que possa lidar com todas as questões que envolvem a escolha profissional, já que a mesma se dá nesta fase. Um momento tão delicado, marcado por instabilidades físicas e emocionais, que exige a escolha de uma profissão, é natural que encontremos desafios e conflitos frente á orientação do caminho profissional a ser seguido. Bohoslavsky (1975, p 75.) nos diz que “a escolha está multi e sobre determinada pela família, pela estrutura educacional e pelos meios de comunicação em massa, como também pela estrutura dialética social e a estrutura subjetiva”. Percebemos que muitas questões envolvem a escolha profissional, e o orientador deve estar atento aos limites e desafios que a escolha implica, sem que venha a frustrar ou desencorajar o adolescente frente as suas escolhas. Para tal nunca deverá assumir a postura de que é ele quem escolhe, quem determina o que o orientando deve seguir, ou ainda que é ele quem desvenda a vocação, que determinará o futuro profissional do orientando. O orientador é um mediador deste processo, e deverá ajudar o adolescente a descobrir-se e concluir sua escolha, encontrando assim o caminho da felicidade e da realização profissional, para que também possa ser feliz na vida pessoal. Mas, com vimos anteriormente, a fase da adolescência é marcada por muitos conflitos e instabilidades, e nela, nada é definitivo. Conforme o indivíduo vai amadurecendo, consolidando sua personalidade, as escolhas vão ficando mais sólidas. Nem todo adolescente fará nessa fase escolhas seguras, haverá muito conflito e muitas mudanças podem acontecer. 19 O orientador educacional deverá estar atento, para não se tornar mais um a cobrar uma escolha imediata. Há que se respeitar o tempo de cada um, pois a escolha poderá não acontecer na adolescência, e vir mais tarde. Por isso, o orientador deverá pensar em orientação profissional não numa fase determinada, mas a qualquer momento da vida em haja necessidade. Uma escolha precipitada só contribui para o fracasso pessoal e profissional, visto que o sucesso profissional está intimamente ligado ao sentimento de felicidade e da realização desse jovem enquanto adulto, ou seja, a felicidade não é imediata, ela acontece conforme o sujeito vai se realizando, conforme nos reafirma Soares (2002, p. 30): “Essa dimensão da felicidade diretamente relacionada com o futuro traz no momento da escolha um peso muito grande, e nem sempre o jovem está em condições de avaliar. Relacionam-se a estas inúmeras projeções feitas desde o seu nascimento, sugerindo que a felicidade ainda não existe, e só existirá a partir desse futuro”. Podemos avaliar com isso o quanto de responsabilidade tem o profissional orientador no processo da escolha profissional, no caso o orientador educacional. A confiança que lhe é depositada é muito grande, e ele deverá ter noção da implicação e amplitude de seu envolvimento neste processo. Qualquer pensamento ou atitude diferente dessa seria, no mínimo, leviana, podendo marcar negativamente o futuro de algum jovem. 20 CAPÍTULO II ORIENTANDO ADOLESCENTES SURDOS Neste capítulo trataremos mais especificamente sobre a clientela que pretendemos estudar nesta pesquisa: os surdos. Inicialmente situaremos os surdos no contexto histórico, fazendo um breve apanhado dos fatos mais marcantes e decisivos na construção dos conceitos e na desconstrução de mitos e inverdades acerca da surdez e dos sujeitos surdos, e por fim, analisaremos os surdos no contexto da orientação profissional, procurando refletir sobre o papel do orientador educacional frente ao desafio de orientar uma clientela com especificidades lingüísticas e culturais tão significativas. 2.1. Surdez - Breve histórico Para melhor entendermos os sujeitos surdos hoje, é necessário que conheçamos um pouco de sua história, que foi modificando, evoluindo, conforme a sociedade também foi modificando e evoluindo, novos conhecimentos, experiências e novas tecnologias surgiram para mudar o rumo dessa história, que como veremos ao longo desse capítulo começou de forma desumana e excludente. Os surdos passaram por momentos muito difíceis na sua história. Hoje são considerados Sujeitos Surdos, com letra maiúscula sim, para ratificar seu status atual, com muito orgulho, pois no início da história, nem humanos eram considerados. Cidadãos então... 2.1.1. Histórico da educação de surdos Hoje ouvimos e vemos uma divulgação constante do termo Inclusão. A cada dia isso se fortalece mais, o que é ratificado por especialistas, que nos mostram que o conhecimento, a troca de experiências e informações, para terem valor é preciso que sejam repassados, para que venham a contribuir para o crescimento e a mudança de paradigmas. Se hoje fala-se muito em inclusão é porque idéias foram divulgadas, novas experiências e novos olhares surgiram e foram substituindo as antigas idéias, que foram ficando para trás, 21 esquecidas em alguma época de nossa história, mas que foram decisivas para definir o contexto que temos hoje. Comparando a trajetória do ontem e o processo atual constatamos através da história da humanidade, como as pessoas com deficiência foram excluídas da sociedade. Durante os séculos IX e X a.C. as leis permitiam que os recém-nascidos com, sinais de debilidade ou algum tipo de malformação fossem lançados ao Monte Taigeto. As crianças que nasciam com alguma deficiência eram deixadas nas estradas para morrerem. Do ponto de vista religioso, os deficientes eram considerados pedintes ou rejeitados pela sociedade. Segundo Kaner, (1964) “A única ocupação para os retardados mentais encontrada na literatura antiga é a de bobo ou palhaço para a diversão dos senhores e de seus hóspedes” (artigo “A educação especial,” Mazzota) Com a expansão do comércio os deficientes passaram a ser um peso para a sociedade, visto que na época o trabalho era a forma de ingressar na sociedade. Mas se os deficientes não haviam sido adaptados para o trabalho, não havia meio de inseri-los. Para os deficientes, não se falava em educação... A surdez era uma deficiência insignificante. As crianças surdas eram consideradas irracionais, obrigadas a fazerem trabalhos desprezíveis, viviam sozinhas e abandonadas na miséria. Pela lei, eram consideradas como imbecis. Não tinham direitos e eram sacrificadas, não recebiam comunhão nem heranças e ainda havia sanções bíblicas contra o casamento entre duas pessoas surdas. Mais tarde, durante a idade média, a igreja passa a condenar o infanticídio, o que veio a mudar um pouco o cenário dessa fase, pois começa a atribuir as anormalidades dos sujeitos á causas sobrenaturais, o que , em tese, diminuía a culpa do sujeito por ter nascido deficiente, transferindo essa “culpa” aos fenômenos sobrenaturais, portanto fora do controle dos humanos. Ainda não se falava em educação para crianças surdas... Estas ainda eram vistas como seres irracionais, primitivos, não educáveis, não cidadãos. Eram pessoas castigadas e enfeitiçadas, doentes, privados de alfabetização e instrução. 22 Assim iniciou-se a história do surdo: triste, desumana, muda, dolorosa... A idéia que era concebida em relação ao surdo era de piedade e ignorância. A partir de 1712- 1789 surgiu na França o abade Michel L’Epée, que veio revolucionar o cenário dessa história, fundando a primeira escola para crianças surdas na França, onde foi usada a língua de sinais, que era a combinação dos sinais com a gramática da língua francesa, com o objetivo de ensinar a ler, escrever, transmitir a cultura e dar acesso á educação. (SACKS, 1989). O método de L’Epée foi decisivo e incentivou grandes avanços na área da surdez. Em 1791 sua escola se transformou no Instituto Nacional de Surdos e Mudos de Paris. O sucesso e os resultados do método de L’Epée teve repercussões muito positivas, e em 1950 surge na Alemanha a primeira escola pública baseada no método oral, contando inicialmente com nove alunos. No século XIX, os Estados Unidos se destacaram na Educação de surdos usando a ASL (língua de sinais americana), com a influencia da língua de sinais francesa, trazida por Laurent Cler, um professor surdo francês, discípulo do abade Sicard, seguidor de L’Epée, fundando juntamente com Thomas Gallaudet, a primeira escola americana para surdos, que , para orgulho de todos , transformou-se, em 1864, na primeira e única universidade para surdos no mundo. Seguindo o modelo francês, a partir de 1880 até a década de 70 do próximo século, em todo o mundo, a educação de surdos seguiu e se conformou com a orientação chamada oralista, o que foi confirmado num congresso, realizado em Milão, nessa ocasião. Lá haviam representantes de vários países, que reunidos , decidiram os rumos da educação dos surdos. Por votação da maioria absoluta de ouvintes, o oralismo prevaleceu. Os surdos foram calados, mais uma vez excluídos; a língua de sinais passa a ser negada, os sujeitos surdos perdem o direito a seu uso. Há total desapropriação da língua de sinais como língua legítima dos surdos. Mais uma vez eles são calados. Vencidos, só lhes restou obedecer... Sem a lingua de sinais e com o aprendizado da fala foram disfarçados de “ouvintes”. 23 Nessa época observa-se um crescimento significativo nas novas tecnologias, surgindo próteses, aparelhos de amplificação mais potentes, todo o aparato para possibilitar ao surdo a aprendizagem da fala através do treinamento auditivo. Todo o investimento é feito para que a fala fosse desenvolvida. Esse era o objetivo principal, pelo bem dos surdos e em prol de seu desenvolvimento. 2.1.2. A Educação de Surdos no Brasil Como vimos a França iniciou seus trabalhos educacionais na área da surdez em 1712, depois os estados Unidos, Alemanha, mas no Brasil, a educação de surdos iniciou-se um pouco depois. Em 1857 chega ao Brasil, a convite do imperador D.Pedro II, o francês Ernest Hwet, um professor surdo para contribuir com suas experiências no trabalho com crianças surdas. Em 26/09/1857 um marco na educação de surdos acontece no Brasil: é fundado o Instituto Nacional de Educação de Surdos, no Rio de Janeiro. No início as crianças eram educadas através da linguagem escrita, articulada e falada, datilologia (reprodução das letras do alfabeto através dos sinais) e alguns sinais. A disciplina “Leitura sobre os lábios” estaria voltada apenas para os que apresentassem aptidões para o desenvolvimento da língua oral. Observa-se que o Brasil seguia a orientação mundial da época, pautada no oralismo, conforme decisão no congresso de Milão. É importante ressaltar que na época o trabalho de oralização dos surdos era feito por professores comuns, pois não havia especialistas. Foram anos de negação de sua própria língua, de sua história, de sua identidade. Muitas mudanças ocorreram, novas idéias surgiram, novos trabalhos e estudos. Assim, a comunidade surda veio conquistando seu espaço na sociedade. De sujeitos anônimos, mudos, calados, conformados, passam, com a evolução dos conhecimentos, a sujeitos ativos, atuantes e politizados. Mazzotta nos mostra que a partir da década de 80 24 “As pessoas com deficiência passaram a ser sujeitos de ações de prevenção, reabilitação, inserção no mercado de trabalho e obtenção do direito de cidadania. Analisando essa história, afirma que ser portador de necessidades especiais vai além das deficiências, pois engloba características de uma sociedade.”. Ou seja, viver essa fase do oralismo, era característico da sociedade da época, altamente discriminatória e preconceituosa. Tinha a ver com o contexto sóciohistórico da época. Se hoje ouvimos falar de inclusão, acessibilidade para o deficiente podemos concluir que, analisando o histórico dessas pessoas, houve grande evolução, crescimento e novos conhecimentos, possibilitando a mudança na sociedade. 2.2. Surdos: Quem são esses sujeitos?Deficiente Auditivo, Surdo ou Surdo-Mudo? Diante de tanta diversidade de nomenclaturas e definições que enfocam vários pontos de vista, dependendo do profissional que analisa esses sujeitos, teremos diversas definições. Ou seja, pela visão de um especialista da área médica teremos uma concepção do que é a surdez, do ponto de vista de profissionais ligados á áreas sociais (sociólogos, antropólogos), teremos outra visão, e do ponto de vista dos educadores, teremos outra visão. Cada área trazendo sua contribuição para que esses sujeitos possam ser melhor entendidos tanto do ponto de vista físico quanto de seu desenvolvimento intelectual e emocional, como qualquer outro sujeito, legitimando seu direito a um desenvolvimento pleno e saudável, como todos.. Segundo a FENEIS (Federação Nacional dos surdos), o surdo-mudo é a mais antiga e incorreta denominação atribuída ao surdo, e infelizmente ainda usada em certas áreas e divulgada nos meios de comunicação. Para eles, o fato de uma pessoa ser surda não significa que é muda. A mudez é outra deficiência e compromete outros órgãos, ligados á fala propriamente dita. 25 O deficiente auditivo é ainda, segundo a FENEIS, aquele sujeito que tem perda auditiva, mas não participa das associações de surdos, não sabe ou não faz uso da Libras (Língua Brasileira de Sinais). Vivem mais no mundo ouvinte, esforçando-se para usar a língua portuguesa falada. Sua identificação é com os sujeitos ouvintes. Já o sujeito considerado surdo, é aquele que tem a Libras como língua materna, ou seja, como sua primeira língua. Sua audição não é funcional para todos os sons e ruídos ambientais; apresenta alto grau de perda auditiva, prejudicando a aquisição da fala, assim como impedindo a compreensão da mesma através da audição, com ou sem aparelhos, necessitando de próteses auditivas potentes. Esses esclarecimentos com relação á definição e nomenclaturas utilizadas na área da surdez anunciam uma área humana fascinante para estudos e pesquisas, e quanto mais se estuda e lê, mais desperta-se o interesse. Vamos então, conhecer um pouco mais sobre esses sujeitos. Os sujeitos surdos pertencem a um grupo de pessoas que tem uma língua própria (LIBRAS - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS) e uma comunidade organizada, atuante politicamente, que luta pelo direito à igualdade de condições, e acesso á cidadania, principalmente pela inclusão. Os surdos possuem língua diferente da língua portuguesa, língua que é majoritária em nosso país. Sua língua, LIBRAS, é uma língua considerada gestual-espacial, ou viso-motora, que junto a ela, traz toda uma cultura diferente da cultura na qual estão imersos a cultura dominante, a dos ouvintes. Sendo assim, os sujeitos surdos devem além de aprender a língua escrita do país onde moram, devem adquirir também a sua própria língua, a de sinais. Por que eu disse adquirir e aprender? Os sujeitos surdos adquirem sua língua quando em contato com outro surdo, sendo no caso da criança, o adulto surdo sua referencia. Precisam aprender também, a língua oral de seu país e isso se dá através de técnicas de fonoaudiologia, quando há possibilidade para tal,e a língua portuguesa escrita através de métodos pedagógicos especiais. Considerando os aspectos língua e cultura, podemos dizer que os sujeitos surdos são bilíngües e biculturais. 26 Gladis (2005, p 38) em seu artigo publicado no livro Surdez, um olhar sob as diferenças, Sklliar, nos diz: “a identidade surda é uma identidade subordinada com o semelhante surdo, como muitos surdos narram. As identidades surdas estão aí, não se diluem totalmente no encontro ou na vivencia em meios sócio-culturais ouvintes.”. Assim, mesmo que imersos e sob forte influência de uma cultura dominante, os sujeitos surdos conseguem lutar por uma cultura própria, pelo direito á comunicação visual e não auditiva que valoriza a fala, em detrimento dos sinais. Ainda, segundo Gladis (2005, p 42) “É evidente que as identidades surdas assumem formas multifacetadas, em vista das fragmentações a que estão sujeitas face á presença do poder ouvintista que lhe impõe regras, inclusive, encontrando no estereotipo surdo uma resposta para a negação da representação da identidade surda ao sujeito surdo”. Os sujeitos surdos foram, durante vários anos, impedidos de usar sua própria língua, a língua de sinais, sendo-lhes imposta a língua oral, como vimos no capítulo anterior. Esse fato trouxe conseqüências graves para a comunidade de surdos. Foram anos de negação de sua identidade, de sua história, de sua língua. Sujeitos historicamente massacrados, anulados, excluídos. Apesar disso, conseguiram manter-se em sua subjetividade, manter suas características lingüísticas e culturais. Hoje, os surdos lutam, através de uma maior representatividade política, divulgar mais informações sobre a língua de sinais, sobre sua cultura e principalmente pelo direito de serem sujeitos diferentes, bilíngües e biculturais, e não deficientes que precisam de reabilitação para ouvirem e falarem. Surdos, simplesmente. Vejamos o que nos diz Pimenta (2001, p 05), ator surdo: 27 “A surdez deve ser reconhecida como apenas mais um aspecto das infinitas possibilidades da diversidade humana, pois ser surdo não é melhor e nem pior do que ser ouvinte, é apenas diferente. Se consideramos que surdos não são ouvintes com defeito, mas pessoas diferentes, estaremos aptos a entender que a diferença física entre pessoas surdas e pessoas ouvintes, gera uma visão diferente de mundo, um jeito ouvinte de ser e um jeito surdo de ser, que nos permite falar em uma cultura da visão e outra da audição”. Essa definição sobre a surdez é muito interessante e nos faz refletir sobre vários aspectos, principalmente, ela afasta a idéia de que a inclusão verdadeira é juntar todos no mesmo lugar, sem considerar as especificidades de cada um. Ao contrário, as diferenças estão presentes sempre e devem ser respeitadas e consideradas. Não há melhores e nem piores, há simplesmente diferentes. Então, considerar surdos como ouvintes é contribuir para sua exclusão, anulação de sua identidade, gerando uma falsa inclusão, como acontecia no início da história do surdo, especialmente no período onde imperou o oralismo. Incluí-los de fato não é aceitá-los simplesmente como mais um grupo que compõe a diversidade humana, mas aceitá-los com toda sua especificidade lingüística e cultural. A Lei federal número 10.436/2002 reconhece a língua de sinais como meio legal de comunicação e expressão do surdo; língua esta que apresenta sistema lingüístico de natureza viso-motora, com estrutura gramatical própria, que transmite idéias e fatos oriundos das comunidades de pessoas surdas no Brasil. É, portanto, através da língua de sinais que o surdo interage com o mundo, tem acesso a informações e conhecimentos e pode desenvolver-se cognitiva e afetivamente. Para não deixar dúvidas, temos o decreto 5626/2005, que regulamenta a lei citada anteriormente, 28 “[...] considera apenas pessoa surda, aquela que interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua brasileira de sinais Libras.” Através da língua de sinais o surdo tem acesso a informações e conhecimentos, mudando tanto o cenário educacional quanto o profissional. Ao contrário, sem a língua de sinais os surdos ficam à margem, não conseguem interagir no mundo no qual estão inseridos, e constatamos a tão cruel exclusão. As leis garantem o direito, mas o efetivo exercício desse direito depende também das políticas públicas que atendam a todos e que ao surdo possam ser disponibilizados os recursos de que necessitam, para que possam ser cidadãos livres, autônomos e conscientes de seu papel no mundo onde estão. 2.3. Os sujeitos surdos no contexto da orientação profissional “A lei número 5564, de 21 de dezembro de 1968, regulamentada pelo decreto número 72846, de 26 de setembro de 1973, definem em seus artigos 8 e 9, em âmbito nacional, as atribuições do orientador educacional, dentre as quais , com relação á orientação profissional, estão: • Coordenar a orientação vocacional do educando, incorporando-a no processo educativo global; • Coordenar o processo de sondagem de interesses, aptidões e habilidades do educando; • “Coordenar o processo de informação educacional e profissional com vistas á orientação profissional.” (Módulo III – IAVM , Versão 2007 ,Fundamentos de orientação educacional, por Marília Maria Barreto de Souza) Sendo a orientação vocacional e profissional de responsabilidade do orientador educacional, é evidente que este profissional, estando imerso no meio escolar, estará em contato direto com toda equipe da escola, principalmente os educandos e suas famílias. 29 Participar de um momento decisivo para os educandos, que é o momento da escolha profissional, ajudando-o a decidir-se, descobrir suas habilidades, interesses e orientá-los á uma escolha consciente, não é tarefa fácil. Já foi discutido no capítulo 1 sobre as questões específicas que envolvem a adolescência, uma fase de grandes mudanças e desafios. No capítulo anterior foi discutido sobre questões específicas da pessoa surda, e neste capítulo, além de considerarmos todas as questões próprias da adolescência, proponho misturar tudo isso e acrescentar o fato de nos depararmos com uma clientela de adolescentes surdos. Revendo o que foi dito anteriormente, os sujeitos surdos utilizam-se de uma língua própria para se comunicarem. Seria, então, possível, uma orientação profissional, sem o conhecimento desta língua, por parte do orientador? Provavelmente seria muito difícil e ineficaz uma orientação a esta clientela, sem o conhecimento mínimo de suas características e especificidades e sem a quebra da barreira da comunicação. Digo: a quebra da barreira da comunicação ou a diminuição do abismo criado por tal barreira. Esse seria um primeiro passo para se pensar em orientar essa clientela. Souza e Souza (2004, pág. 45), coloca que: “ A capacitação profissional da pessoa surda é um desafio para as escolas repensarem suas finalidades, seu currículo, suas formas de atuação. É um direito da comunidade surda se fazer presente nas discussões sociais”. Tal afirmação ratifica o fato de ser a orientação profissional um serviço a ser disponibilizado pela escola. Quando trata-se dos sujeitos surdos , a eles deverá ser reservado o direito à “fala”, a opinar, pois com certeza, se assim for, haverá mais êxito nos serviços prestados. Hoje, um termo muito falado, mas infelizmente pouco efetivo, é acessibilidade. Fala-se muito, mas o que vemos na prática é justamente o contrário, a falta de acessibilidade aos serviços mais básicos e de direito. Às pessoas surdas, então, a dificuldade torna-se maior devido á barreira da comunicação. Por isso, é urgente que os profissionais que trabalham com 30 pessoas, atentem para esta clientela, que é tão carente e ávida de informações como qualquer outra pessoa. Os adolescentes surdos passam pelas mesmas transformações, mudanças e conflitos inerentes á toda e qualquer condição humana. No caso dos surdos, esta fase torna-se muito mais conflituosa, quando ainda não possui uma identidade definida. Ainda não conseguiu adquirir sua língua, ou ainda não teve acesso á escola. Pasmem, ainda vemos adolescentes surdos em fase inicial de aquisição de sua primeira língua (libras), o que resulta num atraso em todas as áreas. Nesse caso, ainda não dá pra se pensar em orientação profissional, pois há ainda pré-requisitos a serem definidos. Dados do MEC mostram que: “em 2003, somente 3,6 % do total de surdos matriculados conseguiram concluir a educação básica, o que comprova a exclusão escolar provocada pelas barreiras na comunicação entre alunos surdos e professores.” Provavelmente esta exclusão deve-se também á falta de políticas públicas voltadas ao efetivo acesso e permanência desta criança na escola, suprindo e atendendo a todas as suas necessidades. Se assim fosse, sua permanência no espaço escolar estaria garantida e evitar-se-ia a evasão escolar. A orientação profissional dentro da escola está diretamente ligada a essas questões, pois também é da responsabilidade do orientador educacional participar da elaboração do currículo pleno da escola e coordenar o acompanhamento pós-escolar do educando. O orientador educacional deverá estar integrado à família, á escola e á comunidade. Todos estarão implicados nesse processo de escolha profissional. “A escolha sempre se relaciona com os outros (reais e imaginados). O futuro nunca é pensado abstratamente. Nunca se pensa numa carreira ou numa faculdade despersonificadas. Será sempre esta carreira ou esse trabalho, que cristaliza relações interpessoais passadas, presentes ou futuras. Devese examinar as relações com os outros com os quais se 31 estabelecem relações primárias (membros da família) e aqueles outros com os quais se mantém relações secundárias (professores, psicólogos ou técnicos), que pode determinar ou influir diretamente sobre o futuro de quem escolhe). O futuro implica desempenhos adultos e se trata, novamente, de um futuro personificado. Não há nenhum adolescente que queira ser engenheiro “em geral”, ou lanterninha de cinema ‘em geral’ ou psicólogo ‘ em geral’. Isso quer dizer que o queria ser engenheiro’ nunca é somente ‘queria ser engenheiro’, mas, ‘ quero ser como suponho que seja fulano de tal, que é engenheiro e tem tais poderes’, que quisera fossem meus’ (BOHOSLAVSKY,1977, p. 53 ) Refletindo sobre essa citação, e focando especificamente nos sujeitos surdos, torna-se urgente que estes tenham modelos de profissionais surdos, visto que não se identificam somente com as profissões, mas também com pessoas que as exercem. Assim, podem se identificar com uma pessoa ouvinte pela qual tem admiração e que exerce a profissão de médico, por exemplo. O adolescente surdo provavelmente incluirá a profissão de médico numa das suas opções. Nesse momento a habilidade e o conhecimento específico com relação a algumas limitações e barreiras inerentes à condição da falta da audição, são decisivos nesse processo para o orientador. Ao contrário, ao se identificarem com profissionais surdos, têm claro que tal profissão é acessível também a ele, então torna-se mais fácil o processo de escolha e diminui também a fantasia em realizar profissões que nem sempre são possíveis. Bock (2002, pg. 78), afirma que a formulação feita por Bohoslavsky, anteriormente, “está muito próxima da visão sócio-histórica, onde defende-se que o sujeito se constrói a partir do que vive, isto é, da internalização do vivido, resultando daí a dimensão histórica da construção de sua identidade.” Tal contribuição só vem a corroborar com a idéia de que os sujeitos surdos devem ter acesso desde a primeira infância ao meio escolar, ao convívio com seus pares, ao contato direto com sua língua, sua cultura, para que possam ter experiências múltiplas, diversas, que contribuam efetivamente 32 para o seu pleno desenvolvimento. Se assim for, com certeza chegarão à adolescência mais seguros e mais conscientes de seu papel na sociedade, de seus limites e de suas possibilidades, e o orientador educacional será realmente um mediador de suas escolhas. 33 CAPÍTULO III O SURDO NO MERCADO DE TRABALHO Este último capítulo tratará sobre as questões mais práticas, que darão subsídios ao acesso e permanência do surdo no mercado de trabalho. Refletiremos sobre os meios disponíveis para inserção do surdo e como esta se dá. Será importante também pensarmos sobre como os surdos fazem as suas escolhas profissionais, se possuem autonomia para tal, e se recebem a devida orientação na hora de escolherem suas profissões. 3.1. Dispositivos legais para inserção do surdo no mercado de trabalho Sendo o orientador educacional um profissional atuante na comunidade escolar, e sendo uma de suas funções, a responsabilidade da orientação profissional dos educandos, é necessário que conheça a legislação trabalhista, para melhor orientar sua clientela. Falando especificamente da clientela de surdos, encontramos na legislação respaldos para legitimar sua presença e direitos a serem inseridos no mercado de trabalho. A seguir, algumas leis serão comentadas: • Lei 2883/ 98 –lei estadual, de 06/01/1998, autoriza o poder executivo a criar a carreira de intérprete para deficientes auditivos: • Lei 12319/2010 – lei federal, sancionada em 01/09/2010, regulamenta a profissão de intérpretes e tradutores da língua brasileira de sinais. Essas leis permitem o acesso do sujeito surdo a informações, formações, conhecimentos transmitidos por profissionais interpretes de língua de sinais, 34 fazendo com que novos caminhos sejam abertos e seja diminuído o abismo entre o mundo surdo (visual) e o mundo ouvinte (auditivo sonoro). Através desses profissionais o sujeito surdo sente-se incluído, integrado ao mundo, com os mesmos direitos e oportunidades que outros têm. Ao contrário, sem os intérpretes de língua de sinais o surdo fica à margem de informações e há total alienação, portanto, os profissionais intérpretes são essenciais para a inclusão do surdo não só no mercado de trabalho, mas em todas as esferas sociais. • Lei número 3061/2001 – Assegura às pessoas surdas o direito de serem atendidas nas repartições públicas estaduais por meio da língua brasileira de sinais. Essa lei dá direito ao surdo ao atendimento em língua brasileira de sinais, através da presença do profissional intérprete nas repartições públicas, como hospitais, delegacias de polícia, setores da justiça, educação, enfim a todas as instituições das quais necessitarem o acesso. • Lei federal, sancionada em 20/121982, número 7070/1982, no artigo 36, dispõe sobre a obrigatoriedade da contratação de pessoas deficientes nas empresas: sendo assim, empresas que possuem mais de 100 empregados são obrigadas a preencher cargos com beneficiários da previdência social, reabilitados, ou com pessoas portadoras de deficiência habilitadas, na seguinte proporção: Até 200 empregados - 2% De 201 a 500 empregados - 3% De 501 a 1000 empregados - 5% Observa-se que a lei não é específica para as pessoas surdas, pois considera pessoas portadoras de deficiência de modo geral. Os surdos estariam então, incluídos nesse universo de vagas. É nítido que as chances maiores estariam dentro de empresas de maior porte, por possuírem um maior percentual para a contratação de deficientes. O parágrafo 2 dessa mesma lei considera pessoa portadora de deficiência habilitada, a que possui: 35 • Curso de educação profissional de nível básico, técnico ou tecnológico, ou curso superior, devidamente certificado; • Certificado de conclusão de processo de habilitação ou reabilitação profissional fornecido pelo Instituto Nacional de Sistema de Saúde (INSS); • Capacidade para o exercício da função; Através da leitura desse parágrafo percebe-se uma clara relação entre educação e mercado de trabalho. Se o surdo tiver acesso à escolarização e quanto mais sólido for sua formação acadêmica, mais chances terá no mercado de trabalho, como qualquer outro cidadão. O que difere, no caso específico da surdez é que seu acesso à formação acadêmica dependerá da disponibilização de recursos, como os já citados anteriormente, para que possa tornar-se habilitado. A Portaria número 3284 (2004) do Ministério da Educação reforça a acessibilidade como condição para o credenciamento de instituições e para a autorização de novos cursos pelo MEC. A presença de intérpretes nas instituições de ensino superior é necessária sempre que o aluno manifestar necessidade. Tal Portaria só vem a corroborar com a idéia de que políticas públicas devem contemplar mais especificamente os sujeitos surdos, visto toda especificidade lingüística e social, a qual já foi comentada nos capítulos anteriores, sem as quais o acesso e a permanência dessa clientela visando a formação acadêmica seria muito difícil e ineficaz. Conseqüentemente, a clientela que fosse chegando ao mercado de trabalho também estaria prejudicada, em função da baixa escolarização do surdo. (Dados obtidos através do artigo escrito por Talita Diane Graeff, pesquisado na Internet, sob o título “A relação do Surdo no Mercado de Trabalho”.). 3.2. O sujeito Surdo e a escolha profissional - Limites e desafios Diante de tudo o que foi comentado nos capítulos anteriores, é importante que possamos refletir sobre tais limites e desafios. Dependendo do 36 ponto de vista, quem realmente é o limitado: o surdo, que pela ausência da audição não é habilitado ao exercício de determinadas profissões ou os profissionais que lidam com ele, que também não possuem habilitação para tal? Bem, essa é uma longa discussão, que não é no momento o objetivo fomentá-la, apenas instigar um pouco à reflexão, pois este capitulo traz à tona a discussão dos limites e desafios enfrentados pelos surdos na hora da escolha profissional, apesar de sabermos que essa situação não é unilateral. Iniciaremos nossa reflexão usando uma consideração importante acerca da orientação profissional, usada pelo psicólogo argentino Bohoslavsky: “As profissões e ocupações não são pensadas ou operadas de forma abstrata pelo indivíduo; a escolha sempre se relaciona com os outros (reais ou imaginários). O futuro nunca é pensado abstratamente. Nunca se pensa numa carreira ou numa faculdade despersonificadas. Será sempre essa carreira ou esse trabalho, que cristaliza relações interpessoais presentes, passadas e futuras”. (BOHOSLAVSKY, 1977, p. 53) Considerando essa reflexão, e considerando as questões próprias dos sujeitos surdos, constatamos que estamos realmente diante de muitos desafios, tanto dos sujeitos que estão participando do momento da escolha profissional, no caso, surdos adolescentes, quanto do lado dos profissionais que estão diante do desafio de orientá-los. Se a escolha da profissão está sempre relacionada a alguém, no caso do adolescente surdo, quanto mais modelos de profissionais surdos ele tiver, mais amplo e acessível será seu universo de escolhas. Ao contrário, se sua identificação for com profissionais ouvintes, poderá em algum momento esbarrar na própria limitação. Infelizmente, os dados do último censo, ano 2000, disponibilizados no site do IBGE não foram muito animadores. Na ocasião, a taxa de escolarização das crianças de 7 a 14 anos de idade portadoras de deficiência era de 88,6%, portanto 6 pontos percentuais abaixo da taxa de escolarização do total de crianças dessa mesma faixa etária, que era de 94,5%. 37 Em relação à instrução, as diferenças são marcantes: 32,9% da população com menos de três anos de estudo era portadora de deficiência. As proporções de portadores de deficiência caem quando aumenta o nível de instrução, chegando a 10% de portadores de deficiência entre pessoas com mais de 11 anos de estudo. Ainda segundo o IBGE, censo 2000: “[...] o tipo de deficiência que mais dificulta a entrada no mercado de trabalho era a deficiência mental. Dos indivíduos declarados deficientes mentais apenas 19,8% estavam ocupados, enquanto que dos deficientes auditivos 34,0% estavam ocupados e os cegos, 40,8%.” (IBGE,2000) Tais dados preocupam e servem de alerta, para os profissionais envolvidos na área da educação, onde encontra-se também o orientador educacional. Que tipo de atendimento está sendo oferecido aos sujeitos surdos, para que possa minimizar a exclusão, melhorar seu nível de instrução para que possa ter acesso ao mercado de trabalho, e, a escolha profissional possa ser realmente uma escolha, e não uma imposição, um simples encaixe numa vaga onde ele será treinado para aquela função ou para aquela ocupação, sem que lhe deêm o direito a escolhas. Se assim o for, haverá sempre limitações, não só as limitações inerentes à falta da audição como as limitações da acessibilidade, as barreiras, principalmente as humanas, que se colocam diante dessa clientela. 3.3. O Surdo no Mercado de trabalho: Os sujeitos surdos podem chegar ao mercado de trabalho por iniciativa própria, ou através das associações que mantém convênios com empresas e realizam todo o trabalho de seleção, orientação e acompanhamento dos surdos que são inseridos no mercado de trabalho. A FENEIS (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos) recebe os surdos, faz a orientação para o trabalho através do esclarecimento 38 sobre a filosofia institucional. O setor de recursos humanos acompanha através de visitas periódicas o funcionário surdo, auxiliando na sua adaptação, para que possa garantir o sucesso da parceria entre a FENEIS e a empresa. Infelizmente durante todo o período da pesquisa bibliográfica pesquisa não foi encontrada nenhuma referência a trabalhos de orientação profissional dentro de escolas regulares, pautado numa proposta inclusiva, feito por profissionais orientadores educacionais, que atendesse a essa clientela, de adolescentes surdos. Como visto anteriormente, o profissional orientador educacional atua no âmbito escolar, e neste, deve realizar a orientação profissional, que é uma de suas funções. Há que se pensar na inclusão propriamente dita, para que ela realmente exista de fato, não só de direito. Um programa educacional com vistas a orientação profissional deveria estar presente em todas as escolas, ser parte dela, incluí-lo no currículo escolar, para que aos poucos fosse sendo incorporado ao contexto, estando sempre vinculado à escola. Voltando à questão do surdo, com todas as dificuldades de acesso ao meio acadêmico, com as estatísticas baixas quanto à sua escolarização, não é de surpreender que tenha dificuldades na escolha, ao acesso ao mercado de trabalho, assim como também, na ocupação de vagas e no processo seletivo propriamente dito. De acordo com os dados da FENEIS, encontra-se uma lista de profissões ou ocupações para os sujeitos surdos, onde, através dos convênios com as empresas, os surdos, através de um processo seletivo, feito pela federação, são encaminhados às vagas. Depois são acompanhados por profissionais do setor de recursos humanos das associações de surdos. A seguir veremos algumas dessas profissões, as quais podem ser escolhidas por sujeitos surdos, que pela limitação da própria deficiência não haverá prejuízo ao seu exercício; • ajudante de carga • ajudante de cozinha • ajudante de depósito • ajudante de embalagem 39 • ajudante de fabricação • auxiliar de ajustador mecânico • auxiliar de acabamento • auxiliar de armazém • auxiliar de costura • auxiliar de escritório • aprendiz de marceneiro • arquivista • arquitetos • artesãos • artistas plásticos • balconista • bombeiros • cobrador • engenheiro • nutricionista • digitador • ourives • projetista • fotógrafo • projetista • sapateiro • servente • programador, entre outras. É interessante observar que temos profissões e vagas para todos os níveis de escolaridade, mas a maior parte das funções é para cargos onde há pouca exigência de escolarização, o que confirma as questões discutidas anteriormente. O acesso a essas vagas será determinado pelo caminho pedagógico e educacional que será trilhado pelo sujeito surdo durante seu processo de escolarização. Segundo dados obtidos no site da FENEIS, as empresas que contratam os surdos têm vantagens, como: 40 • Aumento da atenção concentrada no ambiente de trabalho; • Valorização do emprego pelo surdo pela dificuldade de inserção no mercado de trabalho; • Descoberta de talentos desconhecidos e potenciais diversificados; • Enriquecimento do grupo funcional. Com a inclusão do surdo o grupo será multidisciplinar, contribuindo para a sobrevivência da empresa e gerando resultados de satisfação e motivação, uma vez que a FENEIS acredita que o fator chave para se obter uma vantagem competitiva está na diversidade do quadro funcional, pois ocorre: • Maior capacidade para atender o mercado globalizado; • Enriquecimento do ambiente de trabalho; • Estímulo da criatividade de trabalho, e como conseqüência o aparecimento de novas soluções; • Satisfação dos funcionários e redução da rotatividade. Através dessas informações das experiências de empregabilidade dos sujeitos surdos nas empresas conveniadas com as associações, percebemos a importância da orientação e acompanhamento do trabalho, feito por profissionais devidamente habilitados. Sendo assim os surdos são capazes, como qualquer outro sujeito de adaptar-se e serem produtivos na função exercida, trazendo benefícios para si e para o ambiente do qual participa. Ainda conforme a FENEIS, encontramos algumas empresas com as quais a federação mantém convênios, a fim de ampliar sempre o quadro de vagas e as oportunidades oferecidas aos surdos. Eis algumas: • Dataprev • Instituto Vital Brasil • Fiocruz • Funlar • Ines • Rio Luz • Rio Zôo • Setrab, e outras. 41 Vemos a questão da inserção do surdo no mercado de trabalho ligada às associações que atendem aos surdos, como FENEIS (Federação nacional de educação e integração do surdo), a Casa da Cultura e do Silêncio, na Tijuca, Rio de Janeiro, e o INES, através do DIEPRO (divisão de qualificação e encaminhamento profissional), a APADA (Associação de pais e amigos do deficiente auditivo), entre outras. Essas instituições fazem um trabalho de orientação profissional ao surdo, e encaminhamento ao mercado de trabalho e acompanhamento posterior na empresa, na função que ele exercerá. A DIEPRO, um dos departamentos do INES, além de orientar para o trabalho, oferece cursos profissionalizantes em diversas áreas, enriquecendo a formação do surdo e qualificando-o para o trabalho. A DIEPRO, desenvolve programas de qualificação profissional com recursos próprios parcerias com ongs, fundo de amparo ao trabalhador- FAT, SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e SESI (Serviço Social da Indústria), promovendo a inserção do surdo no mercado de trabalho através da empregabilidade formal, treinamento e estágio, para alunos, ex-alunos e comunidade surda. Presta assistência técnica aos municípios e estados do Brasil, compartilhando a experiência e construindo propostas conjuntas de acordo com a realidade local. A DIEPRO tem como um de seus setores o serviço de qualificação profissional do surdo, que “consiste num modelo criando pelo próprio departamento, visando a estimular o exercício da cidadania através de uma concepção crítica das relações existentes entre educação, trabalho e sociedade e o incentivo à construção de conhecimentos, a partir de conteúdos atualizados e significativos, proporcionando melhores condições de inclusão no mercado de trabalho”. Com isso vemos que ao sujeito surdo é oferecido todo apoio e é disponibilizado um setor que vem a atender suas necessidades e carências para que possa ter melhores condições para competir no mundo do trabalho, cada vez mais exigente e às vezes até excludente. A DIEPRO oferece cursos de qualificação profissional em várias áreas. A seguir veremos alguns desses cursos: • Mobiliário 42 • Comunicação Visual (produção gráfica e artes visuais) • Informática aplicada ao trabalho (Windows, Word, montagem e manutenção de computadores) • Artesanato e artes (Iniciação às artes cênicas, teatro, cerâmica e reciclagem) • Administração • Marketing • Conhecimentos básicos (orientação do surdo para o trabalho). Segundo a DIEPRO, a proposta pedagógica dos cursos deve valorizar também a formação de sujeitos capazes de interagir com o meio social e desenvolver atitudes de respeito ao próximo, ao meio ambiente, a consciência de valores éticos, morais e legais, e a postura profissional. Esses cursos têm a estrutura de empreendimentos, pois ao mesmo tempo em que qualifica o surdo, cria posto de trabalho nas próprias oficinas e oportuniza em tempo real o conhecimento de todas as etapas Do processo produtivo, desde a obtenção da matéria-prima, contatado fornecedores no mercado, fazendo pesquisa de melhores preços, elaborando um produto competitivo a ser comercializado, ou prestando serviço diretamente ao cliente. O processo de encaminhamento profissional efetiva-se através do contato empresa/Inês, quando então é agendada uma visita a fim de observar as particularidades das funções e as características das instalações, bem como orientar quanto às questões de segurança para a pessoa surda. Todos os cursos oferecidos pela DIEPRO têm como estrutura básica, os seguintes conteúdos: • Libras/Língua Portuguesa • Educação Ambiental e Saúde • Direitos e Deveres • Exercício da cidadania • Orientação á família 43 Constatamos, com todas essas informações o quanto é complexa a inserção do surdo no mercado de trabalho. A qualificação profissional é decisiva, mas o acompanhamento é imprescindível. Os surdos necessitam de assistência ao serem encaminhados ao mercado de trabalho, sua orientação é permanente, para que seja garantida a sua permanência no meio, cada vez mais competitivo do mundo do trabalho. Há que prover o surdo dos recursos pedagógicos necessários a uma boa escolarização, para que no momento da escolha profissional ele esteja apto a fazê-la, mesmo que seja de forma mais assistida, que os outros que não possuem limitações sensoriais. 44 CONCLUSÃO Ao longo da pesquisa bibliográfica, das leituras realizadas, das pesquisas em sites especializados na área proposta nesse estudo, que é a da surdez, foi constatado que a orientação profissional, que envolve a escolha profissional, é uma área extremamente delicada e complexa para o profissional orientador educacional. Sua atuação, dentro das escolas, deve ser acompanhada pelo profissional responsável por tal função, no caso o orientador educacional, que,deverá ser um elemento facilitador e mediador nas relações entre famílias, alunos e escolas. Seu trabalho deve estar pautado na ética e respeito à diversidade humana, tendo olhares diferenciados para as diversas situações e pessoas que estão sobre sua responsabilidade. O trabalho apresentado discutiu sobre os limites e os desafios enfrentados pelos surdos frente ás escolhas profissionais, que não são poucos e nem simples, devido á enorme complexidade e das implicações inerentes à própria surdez. Com certeza, para os profissionais que lidam com essa clientela também não é diferente, há que se estudar muito, pesquisar, conhecer, fortalecer sua formação, para que possa adquirir segurança para realmente ter, dentro da escola, um serviço de orientação profissional que atenda a todos. Aos surdos, para que possam usufruir desse processo é necessário a presença do profissional intérprete de língua de sinais, ou o conhecimento e uso dessa língua pelo profissional orientador educacional para que haja comunicação efetiva entre as partes. Os adolescentes surdos vivem as mesmas angústias e dúvidas quanto à escolha profissional como qualquer outro adolescente, com o agravante da crise de identidade pessoal, por muitas vezes não terem tido acesso à língua de sinais na primeira infância, tornando-se indivíduos sem identidade, sem referenciais de pessoa surda, Quanto mais tarde for adquirida a língua de sinais, mais complicado será o processo de escolarização e conseqüentemente o processo de escolha 45 profissional e inserção no mercado de trabalho. Quanto menos escolaridade tiver o surdo, menor acesso a funções superiores no mercado de trabalho. , menor acesso a salários mais dignos, menores chances de cidadania. Foi observado também que o trabalho de orientação profissional vem aparecer não na fase de escolarização, no término do ensino médio, mas já na fase adulta quando, através das associações de surdos, estes são colocados nas vagas disponíveis no mercado de trabalho. Nesse caso, não há muito a escolher... Ali estão as vagas, e então cabe ao processo de seleção, desvendar onde ele melhor se encaixa. Há necessidade de mudar esse quadro, mas para tal os profissionais responsáveis de fato por exercerem essa função, devem apropriar-se da mesma, exercendo-a dentro do âmbito escolar para que possa contribuir de fato com escolhas seguras, livres e conscientes. Estudando a história dos surdos, é notável que muito já evoluímos, mas ainda temos muito a caminhar. Os sujeitos surdos foram um dia calados; tiraram-lhes a voz, o espaço... Hoje o que vemos é um quadro diferente, com os surdos atuantes politicamente, principalmente através das associações e entidades de apoio ao surdo, buscando espaços, participando de assuntos comuns a todos. Isso é um caminho para tão esperada inclusão e exercício de cidadania. Então, aos profissionais ligados á área humana, principalmente a educacional, é hora de buscar melhores formações e que possam pensar em atendimentos e projetos que contemplem a todos. Foi concluído também que é perfeitamente possível para o surdo está inserido no mundo do trabalho, ter uma profissão e fazer escolhas, desde que seja respaldado pedagogicamente, através dos recursos de que necessita, por exemplo, o profissional intérprete, que sendo a “voz” do surdo, será de extrema importância, possibilitando o acesso aos conhecimentos e ao mundo, de forma mais ampla. A permanência do surdo no mercado de trabalho dar-se-á de forma assistida, onde deverá receber orientações de profissionais habilitados, sendo assim preparado para lidar com os desafios do mundo do trabalho. 46 BIBLIOGRAFIA 1. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA E BIBLIOGRAFIA CITADA BOCK, Silvio Duarte. A abordagem sócio-histórica. 2ª edição. SP. CORTEZ EDITORA, 2002, P189. COSTA, Palmiro Ferreira da, COSTA, Yasmin Maria Rodrigues Madeira da e LEVENFUS, Rosane Schotgues e SOARES, Dulce Helena Penna e colaboradores. Orientação Vocacional e Profissional. 2ª ed. Porto Alegre. Ed. ARTMED, 2010, p.336. 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