CADERNO DE
TEXTOS
HUMANAS
2º ANO - CSVP
NOVEMBRO DE
2015
Em torno do conceito ‘utopia’1
O termo utopia pode, ainda, ser sinônimo de quimera ou impossibilidade na medida em que é
usado para designar obras do imaginário estéreis que não se adequam à ordem social
existente, sobretudo, num contexto político. Tanto no âmbito do senso comum como na
história da filosofia encontramos casos de valoração negativa no que se refere à utopia. A
utopia pode ilustrar a exaltação das qualidades humanas e dos seus ideais a realizar no futuro
ou, pelo contrário, pensamentos despropositados, irracionais, fantásticos e irrealizáveis2. Não
se encerra num simbolismo neutro; pelo contrário, está ligada a impressões subjetivas. Assim,
se explica a ambigüidade terminológica da utopia que pode ser estéril para uns e construtiva
para outros.
Etimologicamente, a utopia significa terra de nenhures e remete-nos para Tomás Morus
(1477/1478-1535), mais concretamente, a obra A Utopia que descreve a república perfeita,
combinando a narrativa literária e o texto filosófico3. O filósofo renascentista constrói uma
sociedade ideal com base na ausência de propriedade privada e de dinheiro, na tolerância
religiosa e no exercício da democracia e critica os costumes europeus da sua época,
nomeadamente, a guerra, a pena de morte, as desigualdades sociais e a corrupção política.
Podemos dizer que o valor da utopia em Morus não se encerra no seu caráter ficcional, mas
antes na passagem da ficção à verdade que se dá pela aproximação entre a sociedade ideal
imaginada pelo autor e a sociedade que o rodeia. A dualidade entre a sociedade ideal e a
sociedade real não é mais do que a deslocação do ser ao dever ser e não um movimento de
ruptura. Pois “…o autor faz passar pelo crivo da crítica o estado de coisas que os seus
contemporâneos têm sob os olhos em Inglaterra e no Velho Mundo, no Ocidente cristão”
(Araújo, 2006, p. 69). A Utopia é, antes de mais, uma resposta face à crise econômica, social e
política vivida na Europa que anuncia uma decadência da moral e dos costumes sem
precedentes. Nada há de arbitrário na narrativa: o país dos utopistas assemelha-se, nos seus
atributos físicos, a Inglaterra e as suas leis não são senão a tentativa de preencher as
deficiências desta. O filósofo pretendeu, certamente, tornar explícita a relação por oposição
entre a sociedade ideal e a sociedade real.
A ilha da Utopia, a comunidade mais perfeita imaginada pelo autor, é a alternativa ao poder
que rasga, radicalmente, com a ordem existente. A guerra encontra a sua legitimidade na
1
2
file:///C:/Users/Pedro/Downloads/Relatorio_de_estagio_-_versao_final.pdf
“…dá-se o nome de utopia a qualquer texto que segue o modelo narrativo proposto por Moro; mas também se dá
o nome de utopia a textos que não pertencem àquele gênero literário e que haviam sido concebidos séculos antes
(…) A República de Platão é frequentemente citada como exemplo típico deste último modelo de discurso utópico,
isto é, um projeto de legislação ideal. (…) A isto acrescenta-se a carga valorizante. ‘Utopia’ é sinônimo de
‘impossível’, de ‘quimera’, em especial no domínio político e social…” (Einaudi, 1989, p. 347).
3 A utopia pode “…designar ‘um lugar em parte nenhuma’ (…) a sua formação a partir do grego antigo: u e topos,
não-lugar…” (Dicionário de Filosofia da Educação, 2006, p. 354).
defesa do território, da liberdade e da honra e jamais na conquista de outras nações como
sucedia com as sociedades civilizadas europeias mais preocupadas com a fortuna das terras do
novo mundo do que com o bem-estar dos seus cidadãos (Morus, 2006, pp. 135-148). A pena
de morte está interdita enquanto instrumento de justiça na medida em que entra em
desacordo com os princípios do cristianismo, da moral e dos bons costumes. A vida constitui
um direito inalienável que só Deus pode tirar e, por conseguinte, a paz e a tolerância religiosa
imperam na república da Utopia (idem, ibidem, pp. 149-165). O modo de vida é comunitário:
não há propriedade privada, nem dinheiro e todos contribuem para a conservação do estado,
partilhando as penitências próprias do trabalho. Os bens de consumo e os serviços são
distribuídos de modo equitativo pelos cidadãos, sendo que correspondem a necessidades
básicas. A produção é organizada de modo a evitar o desperdício. As cidades são construídas
de maneira a combater o isolamento de pessoas, a marginalização, as desigualdades sociais e
o desequilíbrio demográfico. Não é possível acumular fortuna e viver na ociosidade à custa do
trabalho de outrem pelo que todos os cidadãos se empenham nos seus ofícios e cuidam dos
bens e do patrimônio do estado de tal maneira que a comunidade de bens encontra-se não só
motivada pela repartição equitativa da riqueza, mas também pela abundância (idem, ibidem,
pp. 81-101). A divisão de classes não é de tipo hierárquico nem visa o crescimento econômico,
como acontece com as sociedades europeias onde a magnificência das classes privilegiadas
deriva de um estado totalitário e policial que oprime o povo. Os cidadãos possuem igual
dignidade racional, participando ativamente na política do estado que conserva um regime
democrático onde as decisões mais importantes são tomadas em assembleias populares
(idem, ibidem, pp. 79-80). Os luxos foram banidos e a ocupação principal diz respeito ao
desenvolvimento do intelecto de tal modo que a educação, a cultura, a ciência e a arte
constituem a finalidade última do estado (idem, ibidem, p. 83, pp. 107-110).
A utopia manifesta um fôlego de representações íntimas: não se trata de um exercício
simbólico abstrato, mas antes da expressão singular de uma dada existência. A oposição entre
utopia e conhecimento não é credível: as representações da sociedade ideal supõem o
exercício autônomo e livre da razão. A utopia constitui uma experiência intelectual que rompe
com a permanência das pseudo evidências ao distanciar-se da realidade presente. Porém o
apelo à imaginação está ligado à urgência de pensar para lá da ciência: o absurdo não se
encontra mais nas considerações utópicas do que nas mundividências que nos querem impor.
Deste modo, a utopia não corresponde a uma explicação mítica da realidade, mas antes a uma
manifestação crítica da razão. O jogo entre a ficção e a realidade, próprio das utopias, não
retira qualquer seriedade ao discurso na medida em que a busca da verdade, do bem e do belo
exigem, por vezes, um pensar radicalmente outro4. A construção da sociedade perfeita não é
4
A verdade pode ser entendida, aqui, como uma correspondência com o real. Definiremos com maior precisão este
conceito, adiante. O bem não corresponde a uma identidade ideal, mas antes a uma construção humana e racional.
É o que, no plano da ética, é considerado preferível. A ética é uma reflexão sobre a moral, que visa distinguir ações
corretas de incorretas no sentido de preservar a dignidade humana, a liberdade, a tolerância e a solidariedade. O
belo é aquilo que afeta a nossa sensibilidade, sendo que não existem regras universais para o determinar. O belo
não corresponde a uma entidade ideal, que nos ultrapassa. Não existe nos objetos naturais ou artísticos, mas é
antes presença com o sujeito. Não é uma construção racional, mas antes uma reação sensível que é espontânea e
imediata. A experiência estética é o acontecimento da apreensão do belo em que interferem dois elementos: o
objeto estético (o que afeta a sensibilidade do sujeito estético) e o sujeito estético (aquele que é afetado pelo
objeto estético). A experiência estética implica uma ruptura com a atitude natural do sujeito, que tende a diluir a
obra de arte num qualquer objeto comum. A contemplação do belo implica a criação de um vazio em que os
objetos do quotidiano aparecem isolados, isto é, desprendidos de relações instrumentais ou utilitárias. O sujeito
possível sem um pensar distante da realidade presente. Só os artifícios do mundo ideal
permitem ultrapassar os limites do real e, assim, redescobrir a nossa humanidade que se situa
entre o ser e o dever ser. Podemos afirmar, portanto e tendo como referência a obra de
Morus, que a utopia corresponde a uma forma de pensar singular que se caracteriza pela
exploração de possíveis que é necessária para continuarmos a refletir o real e as suas
exigências éticas e políticas. A utopia não se traduz numa invenção estéril. Se, por um lado,
desvia-se da sociedade vigente e permanece distante do imediatismo, por outro lado,
conserva a convicção de que a preservação da dignidade humana depende da realização
efetiva da sociedade ideal. De tal modo que “… poderíamos interpretar que o ‘não agora’ da
utopia significa que o projeto utópico não é para ser imediatamente posto em prática, mas só
mediatamente, só quando a ‘consciência histórica’ amadurecer” (Araújo, 2006, p. 185). Não
importa se a sociedade ideal é ou não realizável; o que importa é que a utopia tem
legitimidade em si própria na medida em que a verdade, o bem e o belo só prevalecem pela
construção de uma realidade radicalmente outra que só pode ser como é e não de outro
modo. A utopia constitui uma invenção válida que concilia o imaginário social e o
conhecimento: a emergência de um não lugar é condição necessária para a reivindicação do
direito de pensar, sonhar, criticar e criar. Afinal, “…num mundo tão cheio de frustrações como
é o mundo ‘real’, estamos condicionados a passar uma boa parte das nossas vidas mentais na
utopia” (Mumford, 2007, p. 23).
(...) A utopia é sempre a construção de um novo mundo que aparece como necessidade
absoluta. Nunca é um sonho fora da realidade, mas antes um avanço em direção à própria
humanidade no sentido da conscientização da nossa história, do espaço público e da
civilização. O valor da utopia está na ausência de uma cisão definitiva entre a ficção e a
realidade e nas situações-limite que aparecem quando aliamos o imaginário ao conhecimento
que permitem reconfigurar o humano em diferentes espaços e, assim, construir uma
humanidade mais plena caracterizada pela multiplicidade e pela diversidade.
estético é aquele que se entrega por inteiro a um sentir inesperado, rasgando com a permanência do real. A
apreensão do belo significa o recomeço da própria vida na medida em que o sujeito estético dilui-se com a obra de
arte. A identidade humana fica em suspenso, abrindo-se caminho para criar novos horizontes de sentido. A
expressividade dos signos estéticos depende do olhar do sujeito estético que domina a obra de arte, deixando-se
dominar. O espelhar da vida não está nos objetos estéticos em si mesmos. Os objetos estéticos são uma realidade
viva com o sujeito estético, sendo que se caracterizam pela transitividade no sentido em que, ao longo do tempo e
em diferentes espaços, podem adquirir diversos sentidos.
Utopia como fim da barbárie
“As utopias são para as comunidades aquilo que os sonhos são para os indivíduos”. Francis
Wolff
“Primeiro, como dizem os filósofos, o homem é um animal utópico. Nós precisamos
de uma utopia. (...) Cada época, geração, precisa de uma. A gente recorre a ela quando
a realidade se torna insuportável. E hoje mais do que nunca, vivemos a repressão em
nós mesmos, e em torno de nós, mas ao mesmo tempo somos incapazes de imaginar
uma utopia, de sair desse sistema de repressão. E isso é uma grande novidade,
resultado de uma enorme mutação por que o mundo passa hoje, nos conceitos, na
ética, na política, nas mentalidades. Não existe área da atividade humana que não
esteja passando por uma grande mutação. E ela é produzida pela revolução
tecnocientífica, biotecnológica e digital. Não é uma revolução feita pela promessa
utópica dos grandes ideais humanistas. Ela é feita no vazio do pensamento e no vazio
da política porque “a ciência não pensa”, como diz o Heidegger. No mundo dominado
pela racionalidade técnica, o pensamento se torna a grande utopia, e o espírito como
potência de transformação e inteligência tende a se tornar uma coisa supérflua. Por
isso, entre outras questões, a utopia precisa ser discutida.
(...) A utopia consiste de um trabalho do espírito sobre si mesmo que se expressa na
ação pensada. Não é que você pensa uma coisa já realizada. Através da ação
incessante, o espírito trabalha utopicamente atrás da promessa permanente do novo.
E é esse trabalho que deve ser preservado. Não é que a utopia seja uma coisa
realizável de imediato. Mas é necessário esse movimento do pensamento, esse
sempre apresentar o novo. Realizar ou não é outra história. O homem voar na idade
média era uma utopia. Hoje, está voando. Uma coisa palpável. Utopia é promessa,
esperança, uma simulação antecipadora, horizontes de novos desejos. Mas ela tem um
objetivo comum, que é ser a “severa e ilustre crítica da realidade”. O fundamento da
utopia é a crítica do presente. A utopia é um constante trabalho contra o instituído. ”
Adauto Novaes 09/08/2015 – Jornal “O tempo”
Um mundo mutante
Entrevista com Adauto Novaes : Correio Brasiliense 06/09/2009
Como você se relaciona com o mundo das máquinas e em que medida esta interação
contribuiu para que organizasse um curso livre sobre o impacto da revolução
científica em nossas vidas?
Logo que houve aquele atentado dos terroristas às torres do World Trade Center, em
Nova York, eu pensei: o que está acontecendo não é nem o começo e nem o fim da
história, mas o símbolo de uma grande transformação. Os caras que atacaram as
torres não têm a ciência para fazer isso. Com um programa de computador tiveram
acesso à técnica para destruir as torres. Então eu organizei três ciclos que têm a ver
com as mutações: Civilização e barbárie, onde levantei a questão de quem é civilizado
e bárbaro — apenas no século passado 200 milhões de pessoas foram mortas em
guerras e massacres. O segundo foi sobre O silêncio dos intelectuais e o terceiro foi
obra o esquecimento da política no meio de tudo isso. O intelectual público como era
o Jean-Paul Sartre desapareceu porque a esfera pública é outra, não há mais espaço
para ele na universidade, no partido político ou nos jornais. E, a partir daí, fizemos
mutações.
Por que você diz que o que está ocorrendo não é mais uma situação de crise e sim de
mutação?
A ideia de crise não explica mais o que estamos vivendo. Estamos mergulhados em
mutações vertiginosas que provocam um descompasso entre o tempo da vida e o
tempo da ciência.
Como definiria o conflito ou a contradição entre o tempo da vida e o tempo da
ciência, o tempo da vida e o tempo do celular, do computador, do twitter e da
robótica?
Acho que hoje existe uma contradição entre a existência e a subsistência. O poeta
francês Paul Valéry tem uma frase genial que ilumina a nossa situação: "Às vezes penso
e às vezes existo". Acho que estamos existindo apenas. Há uma separação entre uma
vida pensada e uma vida existida. É uma revolução vivida na ausência do pensamento.
E o mesmo Valéry escreveu que a era dos fatos é a era da barbárie. São apenas os
fatos técnicos que nos dirigem. Mas são as coisas vagas — a imaginação, a teoria, as
artes — que dão sentido às nossas vidas. Estamos vivendo um momento privilegiado,
mas de grande incerteza. A gente precisa reinventar a civilização. As velhas teorias não
dão conta mais do mundo. Há um desconforto de nosso espírito, que se recusa a
habitar a sua obra, que não se identifica mais com o mundo que ele mesmo criou.
Poderia dar um exemplo?
Na década de 1960 e 1970, nós tínhamos a utopia e uma série de conceitos que
explicavam a realidade. Mas a gente pensava em termos de revolução operária. O
próprio conceito de povo mudou. Como pensar isso hoje, quando a informação circula
velozmente e os operários são substituídos por robôs nas fábricas? A primeira coisa a
reconhecer é que houve a revolução científica que mudou todas as relações.
A velocidade da vida destrói a experiência, quer dizer, faz a vida ficar sem sentido?
O Ludwig Wittgenstein diz que na corrida do pensamento ganha quem chega por
último. Segundo ele, o mundo contemporâneo destruiu as duas maiores invenções da
humanidade: o passado e o futuro. Vivemos na velocidade de um eterno presente. A
velocidade destrói a experiência, mas o nosso desafio é pensar o novo que desponta
neste mundo criado pela tecnociência.
E qual o impacto dessas transformações sobre os valores?
O valor do espírito está em baixa e não cessa de baixar. Falo do espírito como potência
de transformação. O pensamento tem que mergulhar nestas experiências para tentar
entender o mundo.
A quantidade de experiência significa necessariamente qualidade? Por exemplo, as
pessoas colecionam também experiências amorosas e sexuais e as divulgam na
internet como se fosse um balanço contábil de uma empresa…
Não acho que a quantidade de experiências signifique necessariamente qualidade. Se
por um lado é liberador, não quer dizer que seja um avanço na própria existência. Mas
não podemos ver o que está ocorrendo hoje com os olhos da moral e do pensamento
antigos. Não podemos ver as transformações que estão ocorrendo de uma maneira
maniqueísta. A própria ideia de valor tende a desaparecer e ser recriada por outros
valores. Mas a gente está tentando pensar no calor da coisa acontecendo.
O que seria maniqueísmo, por exemplo?
Nem tudo é péssimo e nem tudo é maravilhoso. A célula-tronco, por exemplo, pode
beneficiar muitas pessoas. Mas o mesmo princípio permite a seleção natural, o que é
uma perspectiva terrível. Falta uma política que dirija as invenções técnicas para fins
coletivos. Como escreveu o Michel Foucault, é preciso pensar a política não mais do
ponto de vista jurídico, mas sim do ponto de vista tecnológico. Os dois candidatos a
Presidência da República, por exemplo, a Dilma e o Serra, são dois tecnocratas. A
discussão deles é técnica, não é política.
Como avalia o impacto da ciência sobre a estética corporal? Por que todos os humanos
que buscam a perfeição com as operações de silicone dão a impressão de se tornarem
monstros ou alienígenas como foi o caso do Michael Jackson? A ciência permite aos
humanos se transformarem em deuses?
Vejo a experiência de intervenção estética da ciência nos corpos como um modismo,
uma perda de referências, uma busca de identidade com o grupo. É algo que se dá no
plano psicológico, existencial e estético. Como você disse, acaba gerando monstros,
não sabem mais o que são e onde estão. É algo provocado pelas pressões da sociedade
de consumo. É efeito de uma miséria simbólica.
O que você chama de miséria simbólica?
O simbólico e o pensamento é o que nos diferencia
dos animais. Você cai na miséria do simbólico
quando não tem pensamento, valores, perspectiva.
Você transfere todo o desejo para os objetos. O
consumismo é a expressão mais acabada da miséria simbólica. É a miséria do espírito.
Você não consegue mais apreciar uma obra de arte, uma catedral, uma canção, uma
peça musical. A propaganda reduz o mundo a isso.
Nelson Rodrigues disse que o desenvolvimento humaniza as máquinas e maquiniza
os humanos. Você concorda?
Já estamos vivendo um processo em que as máquinas passaram a rivalizar com os
humanos em tudo. Que o homem já se robotizou ou maquinizou já é visível. É muito
difícil encontrar hoje jovens se relacionando diretamente. As pesquisas revelam que os
jovens passam em média mais de cinco horas por dia na frente dos computadores. A
nossa vida já é mediada pela máquina. As pessoas não veem mais o rosto, não sentem
o cheiro e não percebem os gestos. Tudo isso são símbolos humanos. É a robotização
da vida. Não é coisa de futurismo, os robôs quase que pensam por nós, reduzem a
capacidade cognitiva dos humanos. Um dos palestrantes do ciclo citou os cientistas
canadenses que planejam criar a vida, não mais a partir das células, mas a partir do
nada, rivalizando com Deus. É algo assustador.
O que está fora da ordem nos tempos de hoje?
Está tudo fora da ordem, se estamos
submetidos à técnica. É a era dos
acontecimentos apenas. As coisas perdem a
origem e o sentido.
É mais difícil falar da arte do que da educação..
É preciso reeducar os educadores. A criança hoje está lidando com os objetos técnicos
com uma facilidade muito maior do que os educadores. Eles têm de entender quais
são as novas formas de pensamento que estão gestadas com as novas tecnologias da
comunicação e do lazer. As crianças pensam diferente e falam diferente. Há uma
grande defasagem entre a vida dos educadores e dos alunos. Vimos nos jornais muitas
matérias sobre a violência nas escolas. Talvez as crianças que ficam mais de cinco
horas por dia em frente aos computadores tenham dificuldade em lidar com coisas
coletivas. Cinco horas em frente ao computador é algo de um individualismo absoluto.
É uma sociedade que não tem cidadãos, só tem indivíduos.
Então para onde vamos? Para onde caminha a humanidade?
Esta é a pergunta mais difícil. A gente não sabe onde está e nem para onde vai. No
ciclo de debates anterior, alguns pensadores levantaram a hipótese de que estamos
chegando ao pós-humano. São novas formas de pensar e de agir. Temos de levar
muito a sério essa revolução, pois está alterando a próprio homem. Altera a
constituição do corpo e do espírito. Nem um adivinho arriscaria dizer hoje para onde
caminhamos.
Um mundo sem pensamento é um mundo chato?
É pior do que isso. É um mundo sem sentido. Sem pensamento, você tem uma prática
cega, as coisas são feitas à deriva. Nós estamos vivendo em um mundo cego. Sem
ética, ficamos submetidos ao que acontece. Não podemos abrir mão dos valores
fundamentais: liberdade, justiça e sabedoria. Sem as coisas vagas, de que falava
Valéry, somos escravos dos acontecimentos.
E que perspectivas este admirável mundo novo abre?
Perspectiva e soluções só o movimento da história e da sociedade dão. O Marx dizia
que mais do que entender era preciso transformar o mundo. Acho que temos de
inverter a frase de Marx: nós precisamos entender para transformar este mundo.
Por uma utopia não-utópica?
David Lapoujade
Sabemos todos que a noção de utopia é antes de tudo questão de espaço. É bem sabido: um
mundo utópico é um mundo sem lugar. Mas, na época em que Thomas More criou esse termo,
podia-se ainda supor que pudesse existir um lugar onde implantar esse novo mundo. A utopia,
porém, progressivamente passou a ser questão de tempo: tanto ucronia quanto utopia. A
utopia se conjuga no futuro, é um sonho no futuro, pura escatologia. Mas, quando se diz que a
utopia ainda não tem espaço e que seu tempo ainda não chegou, isso é inseparável de uma
constatação relativa ao nosso presente, àquilo de que se compõe nosso presente. O espaço é
ocupado por forças de controle que invadem tudo: fronteiras, zonas, limites, vigilância
humana, visual, televisual, satélite. O espaço é o objeto de uma vigilância constante, de um
“englobamento” relativo que permite esquadrinhá-lo, “estriá-lo”, segundo uma definição de
Deleuze e Guattari. Não podemos dar um passo sem dar ou receber informações. Não se
trata apenas do espaço físico, mas também do espaço mental; ambos estão constantemente
saturados de informações. Sob muitos aspectos, o mesmo vale para o tempo. O presente que
vivemos é sobrecarregado de informações que transformam o presente num imperativo
constante, sempre reiterado. Devemos fazer isso, ler aquilo, clicar esse link, numa
solicitação permanente que faz que não haja outra dimensão do tempo senão a do presente.
Um acontecimento dura apenas o tempo de ser substituído por outro, por sua vez substituído
pelo seguinte. Não há mais passado, a não ser reativado por um acontecimento presente; não
há mais futuro, senão como um horizonte sempre remodelado pelos imperativos do
presente. Passado e futuro são totalmente dominados pela onipotência do presente. Disso
resulta um tempo sem duração, um tempo que não dura mas se contenta em passar, numa
espécie de esquecimento perpétuo, como um presente contínuo a todo momento relançado.
Constatação paradoxal, surpreendente: a noção de utopia é inseparável de uma melancolia a
respeito do presente, como se o presente fosse uma espécie de agente de desapossamento
permanente. Não há mais, de um lado, o pessimismo relativo ao tempo presente e, de outro, o
otimismo relativo ao tempo futuro. De um lado, o lamento, de outro, a espera. De um lado,
uma melancolia que se desespera com a força do presente (o qual não cessa de fazer
desaparecer ricas possibilidades, alimentando nossos eternos lamentos), de outro, uma
melancolia ligada à espera de futuros melhores. Espera e lamento são as duas faces da
melancolia, duas figuras invertidas mas complementares da melancolia. Sobre o que esta se
funda? Sobre um desapossamento do presente. O presente é ao mesmo tempo a única coisa
que possuímos e aquilo de que somos sempre desapossados. Ele não é mais que um presente
anônimo que transcorre num espaço do qual, certamente, somos os ocupantes super-ativos,
mas não os possuidores, os “proprietários”. Então, o que seria a utopia? E como desfazer-se
dessa surda melancolia ligada à utopia?
A utopia não consiste mais em sonhar um futuro melhor num espaço ideal. Ela consiste antes
em reapropriar-se do presente. É preciso desfazer-se de todo pessimismo a priori, assim como
de todo otimismo a priori; talvez, segundo a fórmula de William James, é preciso invocar um
melhorismo, ou seja, injetar o possível no presente. Só nos reapropriamos do presente a partir
das possibilidades que nele criamos, maneira de sair do virtual que nos envolve. Quais são
esses possíveis? São aqueles que estão em continuidade com nosso passado vivo. Por que o
passado? Porque ele é o lugar de acumulação de nossas capacidades de sentir, de nos
emocionar e de pensar. Talvez seja preciso restabelecer uma duração viva, uma
continuidade entre o passado e o presente, para nos darmos um futuro. Toda a questão hoje é
libertar-se de uma temporalidade reduzida ao escoamento de um presente imperativo, é criar
espaços-tempos que nos arranquem do presente, de modo que a utopia se faça aqui e agora,
em vez de ser sempre remetida a outro lugar e outro tempo.
(Tradução de Paulo Neves)
Qual a relação entre o conceito de utopia e temporalidade?
Embora as definições sobre a utopia não sejam inequívocas, a irrupção do tempo é
uma questão central na história desse conceito. É certo que em Thomas More (1478 –
1535), inventor do neologismo que deu nome à sua obra mais conhecida, publicada
em 1516, “utopia” corresponde a um conceito lúdico e ambíguo, que, seja como outopos (“lugar -nenhum”, segundo o advérbio grego ou “não”), seja como eu-topos (“lugar feliz”, no qual eu remeteria ao grego “bem”), indica nem tanto um tempo específico,
mas uma viagem imaginária no espaço.
Henrique Estrada Rodrigues
“Utopia no sentido de combater o sentimento de fatalidade da realidade.”
“Só o impossível acontece.
O possível apenas se repete.”
Chacal
Regresso
Voltar
a percorrer o inverso dos caminhos
reencontrar a palavra sem endereço
e contra o peito insuficiente
oferecer a lágrima que não nos defende
Recolher as marcas da minha lonjura
os sinais passageiros da loucura
e adormecer pela derradeira vez
nos lençóis em que anoitecemos
Reencontrar secretamente
o fugaz encanto o perfeito momento
em que a carne tocou a fonte
e o sangue
fora de mim
procurou o seu coração primeiro.
Raiz de orvalho e outros poemas, Mia Couto
“O pensamento precisa das utopias, mas não como formas fechadas de colonização do
futuro, e sim como imaginações críticas do presente.”
Pedro Duarte
Realidade e utopia em educação
A utopia cria um espaço entre as possibilidades e a realidade. E dentro desse espaço é
que o homem age e se realiza. De certa forma, o homem começa a ver diferente a
partir da utopia e do projeto que o entusiasmam. Diante disso, a possibilidade de
pensar para além da “ordem das coisas” é um dos elementos centrais da emancipação
humana, pois, apesar dos condicionamentos sociais e culturais das sociedades
divididas em classes, há um espaço de reflexão e ação autônoma que permite a
construção de uma consciência acerca da dominação vigente com potencial de superála.
Então, diante da afirmativa de Bourdieu de que a escola é a reprodução e a
legitimação da dominação, todo professor precisa conhecer os processos do ato desta
reprodução e, por sua vez, saber se ele reproduz e, se ele tem consciência de que
reproduz, como reproduz e por que reproduz (...)
In: http://olharessobreaescola.blogspot.com.br/2010/01/realidade-e-utopia-em-educacao.html
“Para mim o utópico não é o irrealizável; a utopia não é o idealismo, é a dialetização
dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e de
anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia é também um compromisso
histórico”.
In: FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao
pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979.
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