A DESCOBERTA DO GLOBO:
Os Paradoxos de uma Utopia em Processo de Globalização.
Ivan Peluso Cid*
RESUMO: Introdução ao debate sobre a globalização balizada pela perspectiva de construção de uma narrativa
histórica universal da humanidade. O presente artigo busca revisar a validade heurística do “processo de
globalização” à luz de sua utilização político-ideológica, do real alcance da uniformização planetária e da legítima
margem de manobra reservada às instâncias decisórias e regulatórias formais atuantes em nível internacional.
PALAVRAS-CHAVE: Filosofia da História; Globalização; Neoliberalismo.
ABSTRACT: An introduction on the globalization contend focused on the universal history of mankind conception.
The heuristic value of the “globalization process” will be confronted with its politic-ideological use, the real limits
of the planetary uniformization and the legitimate range of the formal regulatory and decisory international
agencies.
KEY-WORDS: Philosophy of History; Globalization; Neo-liberalism.
INTRODUÇÃO
Uma lição facilmente extraída de obras ficcionais, como “1984” e “Revolução dos
Bichos”, seria que a história pode provar variadas hipóteses, por vezes contraditórias, partindo de
uma mesma massa documental. Aplicado à história, o método científico de verificação das
hipóteses se regala com a livre manipulação das evidências, podendo assim provar que a Eurásia
sempre foi nossa amiga, ou que alguns são, de fato, mais iguais que os outros (ORWELL, 1971,
1982). Muito embora a História desenvolva um alto rigor metodológico para tratar seu objeto,
garantindo assim o seu estatuto científico, nunca poderá ser neutra. Neutralidade constitui um
caráter privado ao domínio de qualquer mensagem, seja ela codificada em texto, como a narrativa
histórica, ou não. A historiografia é forçada constantemente a lidar com um duplo
posicionamento: o do próprio historiador frente o combate político presente; e das fontes
imbuídas na crença orientadora da instituição responsável por seu registro. O segundo problema,
*
Bacharel em História e pós-graduando em Filosofia Moderna e Contemporânea pela Universidade Federal de Juiz
de Fora.
da parcialidade das fontes, enriquece a historiografia compelindo-a constantemente a rever seus
paradigmas e métodos de análise. Já o primeiro problema, o posicionamento presente do
historiador, mostra-se muito mais complexo, uma vez que o fator subjetivo permite a
manipulação deliberada das evidências contidas nas jazidas documentais, alterando assim o
resultado final da pesquisa. Soma-se a isso o fato de a história basear seu estatuto científico em
juízos subjetivos emitidos sobre acontecimentos registrados através de critérios igualmente
subjetivos (GINZBURG, et al, 1889).
A análise da evolução do conceito “História”, realizada por Koselleck (2006),
mostra a percepção do tempo enquanto construção cultural evidenciando as conseqüências da
hierarquização entre política e religião para formar a experiência moderna de tempo. A
concepção moderna corresponde à “singularização” semântica da História, expressa na inclusão
de toda humanidade num único processo temporal, dotado de totalidade e, portanto, sentido.
Dentro do período compreendido como Idade Moderna, delimita-se um novo horizonte para o
futuro, ou seja, o “futuro como fim” dá lugar ao “esboço do porvir” (idem, p. 31).
Cabe aqui uma distinção que, quando negligenciada, pode acarretar sérios danos.
Trata-se da distinção entre os dois sentidos contidos na palavra “fim”, ou seja, propósito (telos) e
término (escaton). A distinção entre as conotações de “fim” serve para evidenciar o contraste
entre as profecias de fim do mundo, de teor religioso, e a apreciação do futuro, manifesta nas
formas de prognóstico racional e filosofia da história. O prognóstico racional é fruto do
monopólio da legítima manipulação do futuro, tomado das mãos da Igreja pelo Estado moderno.
O prognóstico caracteriza-se por ser um momento consciente da ação política, um diagnóstico
capaz de inscrever o passado no futuro, e possuir uma limitação extrema na sua percepção do
futuro, ligada ao tempo de vida do príncipe, portanto, um tempo natural e humano (idem).
A filosofia da história pode legitimar a posição moral assumida no tempo presente
como pertinente à narrativa do desenvolvimento humano, e pode ser considerada como a ousada
combinação de política e profecia, “uma mistura de prognósticos racionais e previsões de caráter
salvacionista” (idem, p. 35-36). Combinação que permitiu inaugurar a modernidade por meio de
um futuro inédito uma vez que:
O progresso descortina um futuro capaz de ultrapassar o espaço do tempo e
da experiência tradicional, natural e prognosticável, o qual, por força de sua
dinâmica, provoca por sua vez novos prognósticos, transnaturais e de longo
prazo. (ibidem).
2
A teorização sobre o devir das sociedades se orienta pelo progresso irreversível
rumo a um “final paradisíaco” (ibidem). Este caráter irreversível deve-se, em primeiro lugar, à
adequação semântica do termo “revolução” do campo da astronomia para o da política e, em
segundo lugar, pela intermitente luta travada entre “revolução” e seu oposto, “reação”. Nesta
superação necessária e aeterna dos opostos, a aceleração do tempo, que rouba do presente a
possibilidade de experimentar-se como presente, pode ser caracterizada como uma espécie de
fuga para frente: “A fixação dos atores em uma situação final determinada mostra-se como
pretexto de um processo histórico que se furta aos olhos dos participantes contemporâneos”
(idem, p. 37).
Oposta a magistra vitae, a concepção moderna de história desloca a fonte de
exemplos do passado para o futuro. Com o intuito de explicar o esvaziamento do topos da
história, o lugar comum da “mestra da vida”, Koselleck recorre a uma mudança da denotação
aferida ao termo história, ou seja, a história como relato dá lugar à história enquanto
acontecimento, ou complexo de acontecimentos. O autor conclui ser o emaranhado de
acontecimentos de menor valia para a aplicabilidade em casos particulares, invertendo esta ordem
a ponto de exigir-se dos casos particulares a integração à história universal (idem, p. 48-49).
Para recentralizar a argumentação no processo de construção de narrativas históricas
capazes de englobar passado e futuro, ressalta-se o comprometimento arbitrário com o projeto de
futuro, portanto, com um projeto político para o presente. Noberto Bobbio sugere o termo
“história profética” para designar as narrativas cujo critério de avaliação não se orienta pela
verdade, mas pela “maior ou menor força propulsora da ação” (1995, p. 55). Exemplos do uso da
profecia como estratégia de mobilização mostram a legitimidade política da filosofia da história
no século XX, como atestariam o nacional socialismo, a sociedade sem classes e, mais
recentemente, a “Aldeia Global”. Fazendo valer do relato de uma “testemunha ocular” da
história, ao gosto de Ranke, Hanna Arendt ressalta o efeito de alargamento da margem de
manobra obtido com o uso do “cientificismo profético” nas “Origens do Totalitarismo”, um
contexto no qual “os fatos dependem exclusivamente do poder dos homens que o inventam”
(1979, p. 399). Acrescenta-se a isso uma conjectura sobre o totalitarismo, considerado enquanto
projeto político que visa reconstruir a realidade segundo seus próprios interesses:
É necessário força, e não talento propagandístico para fazer circular uma
história da Revolução Russa na qual Trotsky nenhum tenha sido
comandante em chefe do exército vermelho. (1979, p. 403).
3
A construção de uma filosofia da história cujo sentido é o “processo de
globalização”, ao estabelecer o globo como telos de sua narrativa, persegue não somente o
objetivo de grafar “globo” em capitular, mas parte da “descoberta de que o globo não é mais uma
figura astronômica, e sim histórica” (IANNI, 1999, p. 14). Enquanto teorização filosófica da
história, a “globalização” encerra maior força propulsora para a ação ao admitir a possibilidade
de tomar o seu telos enquanto fato, ou seja, a aceleração do tempo permite o futuro realizar-se no
próprio presente. O telos tomado fato caracteriza o “ovo de Colombo” de uma utopia realizada,
conforme atestariam a “pós-história” de Fukuyama (1992) e a “descoberta do globo” de Octavio
Ianni (1999).
1 – A GLOBALIZAÇÃO
O esforço de definir conceitualmente a “globalização” vem produzindo inumeráveis
linhas, muito embora não se possa observar um conceito consensuado em definitivo. A
abundância de definições apenas se compara com a imprecisão conceitual do termo. Enquanto
recurso argumentativo, a globalização tornou-se passível de utilização falaciosa por parte das
ciências sociais para explicar as mais variadas problemáticas, devido à amplitude de seu campo
semântico. Realizar uma compilação dos diversos conceitos de globalização, além de fugir ao
alcance do presente trabalho, seria repetitivo e enfadonho para a academia. Tamanho intento fora
realizado por Octavio Ianni, alcunhando de “teorias” as principais conjecturas acerca da
globalização (1999). Featherstone, com o mesmo intuito reúne num compêndio os principais
“tratados” sobre esta Nova Ordem Mundial (FEATHERSTONE, Org, 1994).
A amplitude do campo semântico no qual é empregado o termo globalização, bem
como a abundância de definições elaboradas para conceitualizar este fenômeno, apontam a
necessidade de conjugá-lo no plural, enquanto “globalizações”. O plural, em sua ambigüidade,
serve para dimensionar a polissemia e a elasticidade da globalização: tanto os variados conceitos
elaborados para significá-la; quanto à capacidade deste fenômeno aglutinar todos os processos de
internacionalização – como do conflito entre capital e trabalho, a dispersão espacial da produção
e da circulação de capitais, das relações sociais de produção e dos encontros e trocas culturais. A
segunda conotação de globalizações, a elasticidade do termo, evidencia a construção de um
4
coletivo singular do conjunto de relações supranacionais, sejam político-econômicas ou sócioculturais. Portanto, trata-se do somatório das histórias particulares resultando numa única história
universal da humanidade sobre a superfície terrestre.
O atual debate travado em torno do processo de globalização realiza uma verdadeira
batalha semântica pela resignificação do mundo como um todo. A descoberta do globo parte de
uma perspectiva através da qual o planeta pode ser tomado inteligível social e economicamente.
Opiniões destras e sinistras, antitéticas e excludentes, sempre mantiveram uma afinidade comum
pelo uso da profecia como parte consciente do cálculo político racional, e o mesmo se aplica à
globalização. A análise de algumas opiniões sobre o globo revela a preocupação em questionar as
perversidades e benesses do processo, sem questionar o caráter irresistível da marcha histórica
rumo ao telos predefinido: o globo enquanto conquista humana. A narrativa teleológica é
balizada no progresso irreversível de integração global, em diferentes estágios de
desenvolvimento local. Esta construção intelectual resgata a concepção filosófica da história,
segundo a qual existe um sentido (telos) para a história do desenvolvimento humano.
A presente análise sugere interpretar o processo de globalização a partir da inversão
de um dos conceitos disponíveis, proposto pelo supracitado Ianni. Aos olhos do autor,
globalização não deve ser considerada um mero debate colocado para as ciências sociais, e sim
como o esforço de elaboração de uma teia de significados capaz de tornar inteligível uma
realidade nova que se descortina para a humanidade. Para o autor, as ciências sociais devem
perseguir uma meta-teoria fundamentada na “descoberta de que o globo não é mais uma figura
astronômica, e sim histórica” (IANNI, 1999, p. 14). O “processo de globalização” será
considerado neste trabalho estritamente como um tema de um debate específico, oposto ao “ovo
de Colombo” de Ianni. Portanto, a globalização seria uma criação semântica que, a partir dos
anos noventa passa a significar o conjunto de processos de internacionalização, constituindo-se
em um coletivo singular do somatório de experiências histórico-geográficas transnacionais.
O termo globalização começa a ganhar força e significado com o fim da
bipolaridade. No mesmo ano da queda do Berliner Mauer é oferecida à intelectualidade ocidental
a teorização de Francis Fukuyama sobre o “fim da história” (1992). O nipo-americano, e
funcionário de Estado oferece uma erudita análise da perspectiva aberta ao mundo capitalista com
o esmaecimento da Cortina de Ferro, ou seja, com a possibilidade de superar as lutas e conflitos
história, tomando assim a liberdade de dar a mesma como terminada. Desta forma, Fukuyama
5
retoma a concepção escatológica da história ligada às previsões de caráter salvacionista. Apesar
de não utilizar “globalização” ao longo de cerca de quinhentas páginas, a narrativa montada pelo
autor pode ser incluída no referido debate, principalmente por seu caráter teleológico. Através da
perspectiva de Fukuyama, a principal divisão persistente no mundo capitalista seria entre os
povos “pós-históricos” e aqueles ainda presos aos “mecanismos” da história (FUKUYAMA,
1992, passim).
A formulação de Fukuyama conjuga materialismo dialético e dialética do espírito
para chegar a uma conclusão diferente de ambas. Discorda de Marx ao eleger o telos como sendo
a “democracia liberal”, não a sociedade sem classes e, diferente de Hegel, considera também a
conotação escatológica da palavra “end”. Perry Anderson, em sua obra relativamente mal
traduzida para o português como “o fim da história” 1, observa o vocábulo alemão “ende”,
utilizado por Hegel, como sendo privado da conotação escatológica aferida por Fukuyama
(ANDERSON, 1992, p. 18). Seja telos ou escaton, a pós-história prevê a união do mundo
capitalista iniciada pela integração política e econômica, por sua vez viabilizada pela
“democracia liberal”, ou “forma final de governo humano” (FUKUYAMA, 1992, p. 11).
Próximo à visão de Mcluham e Powers 2, Fukuyama considera como inaudita a comunhão de
toda a humanidade em torno de um mesmo horizonte de expectativas, mas configura o seu telos
como sendo não o globo, mas algo próximo de um “Estado universal e homogêneo que aparece
no fim da história” (idem: 251).
Outro fator que permite aproximar a pós-história aos tratados e teorias da
globalização seria o processo de homogeneização dos padrões de vida dos habitantes de cada
parte da superfície terrestre. Tomada processo de homogeneização, a pós-história aproxima-se da
teoria sociológica da estruturação formulada por Anthony Giddens, segundo a qual a lógica de
formação do Estado moderno obedece a um conjunto monitorado de relações entre Estados
(GIDDENS, 1991). Exemplo do usufruto da “estruturação” pela parte de Robertson, autor do
principal tratado contido no compêndio de Featherstone (Org, 1994), busca-se estabelecer as
bases para uma interpretação sistemática da globalização em torno da padronização concreta do
1
“The Ends of History”. O título original traz “ends”, no plural, o que traduzido para o português denotaria apenas o
sentido de “propósito” aferido à palavra “fins”, no plural. Para a edição em português foi adotado o subtítulo “de
Hegel a Fukuyama” para indicar a diferenciação entre “término” e “propósito” apontada no título original.
2
MCLUHAM, M. & POWERS, B. The Global Village: transformation in world life and midia in the 21st century.
Nova York-Oxford: Oxford University Press, 1989. A primeira edição de “Aldeia Global” data de meados da década
de 60, e pode ser considerada como idéia precursora da narrativa globalizante.
6
mundo. Segundo o próprio: “o conceito em si deveria ser aplicado a uma série específica de
desenvolvimentos relacionados com a estruturação concreta do mundo como um todo”
(ROBERTSON in FEATHERSTONE. Org. 1994, p. 28, grifo do autor).
Fica assim centralizada a globalização enquanto categoria analítica pertinente à
pesquisa historiadora, a partir da qual Robertson propõe um modelo mínimo de globalização.
Para tanto, o autor elabora um novo modelo de partição do tempo histórico, subdividindo-o em
“fases”, ou “ciclos de mini-globalização” durante os quais o ocidente desenvolve os conceitos de
indivíduo, humanidade, sociedade nacional e sistema de relações internacionais (idem, p. 30).
A “fase embrionária” da globalização, conforme descrita por Robertson, data da
segunda metade do século XVIII à década de 1870 (idem, p. 34). No entanto, outro autor recua
ainda mais para apontar os germens da sociedade global, trata-se de Latouche ao incluir as
primeiras lições de universalidade aprendidas com as trocas culturais judaico-helênicas e o
advento do cristianismo (LATOUCHE, 1994). A partir de então, pelas mãos e engenho de
“missionários, mercadores e militares” estabelece-se uma sucessão de impérios, acarretando o
irreversível “confisco do planeta pelo Ocidente” (idem, p. 18). Assim como Fukuyama, Latouche
não utiliza globalização, opta por “ocidentalização”, mas pode ser incluído no debate devido ao
caráter teleológico de sua “uniformização planetária”. O autor introduz sua obra com uma
constatação preliminar: “Hoje, e amanhã mais ainda, o mundo é convocado a viver de maneira
uniforme. O futuro, porém, já começou” (idem: 11). Constatação próxima à de Ianni, o globo
enquanto fato histórico, e de Fukuyama, o fim da história.
O elemento relativamente novo introduzido no ofício de teorização filosófica da
narrativa histórica seria a possibilidade de a aceleração do tempo permitir ao futuro realizar-se no
próprio presente. Aplicado em termos gramscianos, o telos tomado fato, ou o futuro ao alcance
dos contemporâneos, encerra maior poder de mobilização, corroborando a hipótese da narrativa
global enquanto ideologia, ou idéia força.
O argumento comumente utilizado para justificar a resignificação do globo – de uma
figura astronômica a uma conquista histórico-geográfica – aponta para o estreitamento da
legitimidade, bem como do espaço de manobra reservado para a ação do Estado nacional. A
exemplo da “estruturação” e do “sistema mundo”, teorias de Giddens e Wallerstein
respectivamente, o Estado nacional tem o seu desenvolvimento delimitado por um conjunto
monitorado de relações interestatais. Seguindo este pressuposto, na atual era de incertezas, o
7
ascendente número de agências e instituições regulatórias atuantes em nível internacional
atestariam o decréscimo da legitimidade do Estado nacional para intermediar os conflitos de uma
sociedade cada vez mais organizada “globalmente”.
Ao final da segunda guerra, num contexto de entrincheiramento ideológico e
reconstrução econômica, inicia-se um processo de formalização de instâncias decisórias e
regulatórias transnacionais. Tais instituições, desde suas respectivas origens, vêm sendo
constantemente questionadas e reformuladas, sobretudo em momentos de crise econômica. As
crises, e o conseqüente questionamento das agencias internacionais formais, geralmente são
acompanhadas da criação e reforço de organismos informais, a exemplo da criação do G-20 em
1999, em resposta à crise asiática.
Conforme sugerido por Bourdieu e Wacquant, a globalização já está consolidada
como vocábulo da “novilíngua” pretendida vernácula por intelectuais da “aldeia global”, segundo
as palavras dos próprios autores, trata-se de uma “vulgata planetária": “Globalização’ não é uma
nova fase do capitalismo, é uma retórica invocada pelos governos para justificar sua submissão
voluntária aos mercados financeiros” (in CATTANI, Org, 2001, p. 160).
3
A perspectiva de Milton Santos
pode ser considerada, por sua vez, como
precursora da utopia professada pelas esquerdas de várias partes do mundo reunidas na cidade de
Porto Alegre no primeiro Fórum Social Mundial: “um outro mundo é possível”. A consonância
de múltiplas esquerdas ao apelo de Santos, antes de soar como proposta alternativa à narrativa
globalizante, revela uma utopia que parte do mesmo pressuposto da utopia destra, ou seja, da
ilegitimidade do Estado em regular os conflitos da sociedade. A peculiaridade do
“altermundismo”
4
seria o apelo para a persecução de um Well Fare mundial, igualmente
transcendendo a atuação efetiva do Estado nacional (PETRELLA apud MINÀ, 2003). Observa-se
a apropriação indistinta tanto da esquerda como pela direita da filosofia da história globalizante.
Conclui-se a partir desta observação a capacidade de o telos tomado fato encerrar uma maior
força propulsora para a ação política.
A utopia da globalização em sua versão destra, por acreditar-se mais próxima de seu
objetivo histórico, merece maior espaço na presente análise, onde se procurou identificar os
3
SANTOS, M. Por Uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro, 2006.
Termo cunhado na imprensa francesa para designar os movimentos e pensadores de esquerda que simpatizam com
o Fórum Social Mundial (FSM). A alcunha “altermundismo” consiste em uma variação sobre o lema do FSM: “um
outro mundo é possível” (RAMONET apud MINÀ, 2003).
4
8
projetos políticos orientadores e, ao mesmo tempo, orientados pela narrativa histórica do
“processo de globalização”, ou seja, a utopia convertida em programa político.
2 – O NEOLIBERALISMO
A argumentação por ora desenvolvida ofereceu a oportunidade de conjugar a
globalização no plural para significar a polissemia e a elasticidade da mesma. A caracterização,
conforme demonstrado, aponta para a pluralidade de conceitos elaborados e para a construção de
um coletivo singular capaz de abarcar o conjunto de relações supranacionais. Visando aproximar
a utopia global aos projetos políticos matizados em sua consonância, analisar-se-á a chamada
“globalização do capitalismo”.
O “achatamento” do globo possibilita a redução das distâncias para reformatar o
mundo sem fronteiras (FRIEDMAN, 2007). Entretanto, o “mundo plano” de Friedman conserva
suas fronteiras bem definidas, basta olharmos para o sinuoso recorte Norte-Sul que divide o
globo entre desenvolvidos e subdesenvolvidos: “o mundo unificado é um mundo dividido”
(ALTVATER, 1995, p. 5). A problemática de estabelecer critérios de divisão internacional entre
ilhas de riqueza num mar de miséria, segundo Peter Worsley, seria tornar o critério elástico o
suficiente para discernir categorias de países em graus de desenvolvimento enormemente
díspares, dividindo assim o globo em três, quatro e até cinco “mundos” (WORSLEY in
FEATHERSTONE, Org, 1994, p. 95-108). A díade “centro-periferia”, ligada ao pensamento
cepalino do pós-guerra (FURTADO, 2006, p. 25-26), por sua vez foi transformada em tríade para
incluir a “semi-periferia”, designando países em processo de desenvolvimento relativamente
avançado (ARRIGHI, 1997).
Os chamados países em desenvolvimento, cujo peso e importância na economia
global
apresentam
uma
solidez
considerável,
vêm
lutando
para
conquistar
maior
representatividade nas instancias regulatórias e decisórias transnacionais. A afirmação desta
semi-periferia, entretanto, esbarra nos limites do exeqüível, como sugere a baixa efetividade do
G-20 – fundado em 20035 – em aquecer as negociações da rodada de Doha. Uma característica
dominante entre foros informais de discussão seria a busca pelo consenso sobre uma agenda
5
Não se deve confundir o G20 de 1999 com o G20 de 2003. O primeiro, de 1999, foi cunhado pela imprensa de G20
financeiro, e é formado por dezenove nações industrializadas e a União Européia. Já o segundo, criado em 2003, é
formado por 23 países em desenvolvimento com interesse especial em agricultura, e surgiu como pólo alternativo
para a discussão e implementação das negociações da rodada de Doha da OMC.
9
prescritiva de diretrizes e ações isoladas, cuja exeqüibilidade é testada pela dinâmica local de
tomada de decisão nos níveis executivo e legislativo – vide impasses como de Kyoto e Doha.
Ajustando ainda mais o foco para o local, uma questão pertinente a ser colocada
para a academia e a classe política nos dias atuais, em todo o mundo, aventa para a plausibilidade
em preocupar-se com o “globo” quando o cotidiano urbano oferece problemáticas mais concretas.
Peter Marcuse, urbanista norte-americano, ressalta o fato de as grandes cidades do centro
capitalista enfrentar igualmente problemas de violência, drogas, criminalidade, déficit
habitacional e saneamento básico, além de restrições ao acesso à seguridade social, qualificação e
segurança profissional:
A cidade de Nova Iorque, certamente uma cidade globalizada, não só tem
condomínios luxuosos e lojas entre as mais caras do mundo, como também
mendigos nas ruas e guetos segregados por renda e raça, com uma taxa de
desemprego três vezes maior entre os negros do que entre os brancos
(MARCUSE in CATTANI, Org, 2001, p. 180).
As mazelas sociais são as “benesses” mais imediatas e globalizadas com a Nova
Ordem Mundial. Seguindo a grande maioria da literatura especializada, o mundo capitalista
enfrenta uma fase de estagnação atávica que se arrasta por quase meio século. Na opinião de
Hobsbawm, a crise social e econômica instaurada desde a década de sessenta configura um
quadro de “crise continuada” (1995, p. 420). Chesnais, por sua vez, constata o fato de as
economias capitalistas enfrentarem uma crise de superprodução tornada crônica a partir de
meados da década de setenta, responsável pela diminuição no ritmo da acumulação (1998).
Quanto o caráter estrutural da crise, Fiori constata um relativo consenso entre a academia
(TAVARES & FIORI, 1996, p. 10). Este fator pode ser considerado determinante para a falência
do modelo desenvolvimentista e intervencionista de Estado característico do “capitalismo
organizado” (OFFE, 1989). A teoria sociológica da estruturação identifica nas coletividades e nas
políticas sociais características do Estado de Bem Estar os principais entraves à economia de
mercado. Extraído do site de Giddens, da seção de “dúvidas freqüentes”, algumas opiniões do
autor explicitam melhor o seu posicionamento:
Adoto uma postura positiva em relação à globalização (...) aceito a idéia de
que os sistemas de proteção sociais existentes e a estrutura do conjunto do
Estado são a fonte do problema [e que] as despesas sociais devam ser
avaliadas em termos de suas conseqüências para a economia em seu
conjunto (apud BOURDIEU e WACQUANT in CATTANI, Org, 2001, p.
161).
10
Muito embora a apreciação acima sirva para dimensionar a globalização enquanto
ideologia na arena política, a identificação das coletividades e das políticas sociais como causas
da crise social e econômica não pode ser atribuída somente às direitas. A contestação moral das
prerrogativas do Estado de Bem-Estar, sensível a seus efeitos alienantes, incapacitadores e
despersonalizadores provêm, sobretudo, das esquerdas. Segundo Clauss Offe, a rápida
decomposição das coletividades do Estado de Bem Estar ao final da década de 70 estaria
correlacionada a uma “profunda falta de fé nas políticas sociais como bens públicos”,
compartilhada igualmente por esquerdas e direitas (OFFE, 1989, p. 306-308). Entretanto, conclui
o autor ser maior o peso das críticas utilitaristas às políticas sociais e organizações trabalhistas,
configurando um sistema de forças cuja resultante acabou pendendo para o lado da “direita
neoconservadora liberal” (idem). O autor acredita que as divergências entre políticas
democráticas e sociais não devem ser explicadas em termos de desvios transitórios: “Deve ser
entendida como um reflexo de mudanças estruturais e novas situações em que se encontram os
agentes políticos individuais e coletivos” (idem, p. 383).
Na década de sessenta eclode no Oriente Médio a guerra ofensiva das tribos de Judá,
o Yom Kippur, seis dias durante os quais Davi se agiganta frente Golias. O efeito da ofensiva
relâmpago fez-se presente ao longo da década seguinte, registrando-se sucessivas elevações nos
preços do petróleo, ora por sobretaxação, ora por superprodução, ora por simples alteração dos
ânimos do mercado – como quando da queda do Xá no Irã. A crise energética acaba por provocar
fissuras no principal alicerce da era áurea do capitalismo norte-americano (FIORI, 1999 p. 3438). Frente a então recente derrota no Vietnam e o aquecimento da Guerra Fria, somados ainda a
movimentos sociais cada vez mais organizados, a potência norte-americana é levada a promover
reformas visando reafirmar seu domínio. A conjuntura mostrou-se favorável para implantarem-se
as políticas econômicas de Ronald Reagan e a Realpolitk de seu ministro Kissinger. Ao final da
década de setenta, dada a necessidade de conter o avanço da crise energética e a subseqüente
crise financeira – simbolizada esta pela falência do sistema de Bretton Woods 6 - Reagan permite
a elevação das taxas de juros visando fortalecer o dólar e impor uma drenagem de capitais para os
Estados Unidos (FURTADO, 2006, p. 35).
6
O sistema financeiro de Bretton Woods propôs organizar o comércio internacional enfraquecido do pós-guerra
através da regulamentação dos fluxos de capitais comercial e financeiro. Como resultado, foram criadas agências
reguladoras internacionais, tais como o Banco Mundial (TAVARES & FIORI, 1996).
11
Países periféricos e endividados como os da América Latina, cujas finanças externas
todas eram negociadas em dólar, assistiram impotentes à multiplicação de seus débitos em
proporção à cotação da moeda norte-americana. Ao final da década de oitenta, fora organizada
uma batelada de seminários na capital norte-americana reunindo a academia e a classe política
que vinha lidando com a crise da dívida há quase uma década: trata-se do Consenso de
Washington (FIORI, 1997). Em linhas gerais, a cartilha política emanada do Consenso de
Washington reunia um pacote de medidas ortodoxas visando: a estabilização econômica através
da âncora cambial e ajuste fiscal por meio de superávit primário, as reformas previdenciária e
administrativa seriam cruciais para atingir esta meta; abertura das economias nacionais
implicando em reduções de tarifas e desregulamentação dos mercados, iniciando pelo mercado de
trabalho; e desengajamento social e econômico do Estado, pautado num vasto programa de
privatizações dos bens e serviços públicos (idem, p. 11-13).
A utopia da globalização capitalista – orientada pelo processo de integração
econômica, livre intercâmbio de técnicas e mercadorias e dispersão espacial da produção e do
consumo – encontra no neoliberalismo a oportunidade de converter-se em programa político. A
crença de Fukuyama no “mecanismo do desejo” como forma de povos libertarem-se das lutas e
conflitos da história, ou seja, alcançar a mesma condição “pós-histórica” desfrutada pelos Estados
Unidos, Japão e Europa ocidental, aparenta uma ilusão, quando não uma desonestidade
(FUKUYAMA, 1992, p. 334). O padrão de vida atingido em países do centro capitalista não é
universalizável na medida em que esbarra nos limites naturais do planeta e das técnicas humanas.
Em estudo realizado em 1991, destinado à Organização das Nações Unidas, Sir Grispin Tickell 7
revela um prognóstico desfavorável à idéia de homogeneização dos padrões de vida dos
habitantes do mundo como um todo. O estudo revela que para montar uma dieta eqüitativa para o
mundo todo, com a média do consumo de alimentos de origem animal norte americana, os
recursos naturais garantiriam a sobrevivência de 2,5 bilhões de pessoas, ou seja, mais da metade
da população atual haveria de perecer. Não muito distante do estudo de Tickell, na opinião de
Altvater a crença na possibilidade de homogeneização das condições de vida sobre a terra seria
falaciosa na medida em que:
A industrialização é um luxo exclusivo de parcelas da população mundial.
É impossível simplesmente dar continuidade às estratégias de
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G. Tickell, “The Quality of Life – Whose Life? What Life?” (apud ANDERSON, 1992, p. 111)
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desenvolvimento e industrialização das décadas passadas (ALTVATER,
1995, p. 28).
A mesma perspectiva é ainda compartilhada por Löwy, cujo prognóstico para a
uniformização do consumo de energia equivalente à média norte-americana determinaria a
longevidade máxima de 19 anos para as reservas mundiais de hidrocarbonetos (1999). Petrella,
sem prognósticos futuros, revela atualmente a significante parcela de um terço da população
mundial, aproximadamente dois bilhões de pessoas sofre com a falta de água potável (apud
MINÀ, 2003, p. 273-294).
No caso específico do Brasil, a troca do modelo de Estado desenvolvimentista pelo
Estado mínimo e a adoção da “Nova Política Econômica” surtiu efeitos variados sobre a
economia, tais como a “especialização regressiva” da indústria acompanhada pela perda de peso
do setor secundário no PNB (DELGADO, 2001, p. 231). A influência da modernidade liberal
sobre a “globalização” se expressa em sua utopia e em seu programa político, respectivamente:
trata-se, de um lado, da construção de uma narrativa universal capaz de integrar o futuro ao
processo histórico; e, de outro, a confiança na capacidade auto-reguladora do mercado,
resignificando o laissez faire em free trade faith. Ao preocupar-se com o problema da
acumulação, orientada pela liberdade de comércio, mais detidamente do que com o problema da
distribuição, ou da equidade, a força neoliberal se posiciona à direita da cena política segundo o
critério estipulado por Bobbio para enquadrar os atores na clássica metáfora espacial (1995).
O aspecto desonesto e ilusório da “modernização conservadora”, ao condenar a
viabilidade do desenvolvimento nacional e autônomo, corrobora a retórica global de
enfraquecimento da legitimidade do Estado nacional. Assim sendo, aproxima-se a “globalização”
aos programas direitistas que condenam a ação regulatória dos Estados sobre os mercados,
sobretudo o mercado de trabalho, bem como as políticas sociais e as coletividades características
do Estado de Bem-Estar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Retomando os objetivos enunciados, ao longo desta comunicação trabalhou-se a
“globalização” enquanto filosofia da história e ideologia, concomitantemente. O globo, enquanto
construção cultural, constitui-se em uma utopia dotada de um programa político próprio: o
neoliberalismo. Por outro lado, a utopia global se propõe a construir uma narrativa capaz de
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integrar processo histórico a um projeto de futuro, onde se lê um projeto político para o presente.
A “globalização”, e todo esforço desprendido para sua teorização, resgata postulados da
modernidade liberal na medida em que busca adequar casos particulares numa mesma história
universal narrada, por sua vez, em perspectiva do sentido estabelecido para a história do
desenvolvimento humano. Utilizar o “sentido” da história para justificar o posicionamento moral
dos atores sociais resume a operação metafísica designada filosofia da história.
O projeto político matizado pela utopia global, ou neoliberalismo traz no próprio
nome a referência à modernidade liberal, ou seja, o conceito de liberdade enquanto autonomia ou
livre-iniciativa. Portanto, na medida em que a utopia global orienta a estratégia de ação de um
programa político factível e destro, pode ser categorizada como ideologia de direita.
A ênfase na homogeneização da vida sobre o globo terrestre revela-se comum tanto
em análises pretensamente descompromissadas, quanto em opiniões declaradas como sendo
“esquerda”. De fato, a concepção filosófica de história cujo telos é o globo, ou a utopia global,
orienta a montagem de estratégias de ação em movimentos de direita e esquerda, como no caso
da utopia altermundista “outro mundo é possível”.
A globalização revela o compartilhamento de uma perspectiva através da qual se
busca a substituição do conflito entre o local e o nacional, lógica de fortalecimento do Estado,
pelo conflito entre o local e o global, significando em contraparte o enfraquecimento do Estado
nacional. Assim sendo, a “antiglobalização” abarcaria movimentos sociais e programas políticos
alternativos ao maior enfoque dado ao último elemento da díade “local-global”, seja
privilegiando o elemento local, seja negando por completo a nova díade através da centralização
em torno do elemento nacional. Optar pelo modelo dualista, da “globalização” e sua antítese,
redundaria em extrema pobreza conceitual, uma vez que dentro da categoria “antiglobalização”
enquadrar-se-iam estadistas centralizadores de tradição autoritária – como Hugo Chávez,
Mahmoud Ahmadinejad, Evo Morales e Vladimir Pútin – bem como movimentos inspirados na
tradição anti-estatista da esquerda anarquista – como o Black Block. Este último fez-se notado por
meio de suas ações na cidade de Seattle em 1999, por ocasião do encontro da OMC, e na cidade
de Gênova quando da reunião do G-8, em 2002.
A título de conclusão, o “ovo de Colombo” da utopia global seria a possibilidade de
o futuro realizar-se no próprio presente, melhor dizendo, a plausibilidade de tomar o telos como
fato. Esta “descoberta” encerra grande poder de mobilização, o que explica parcialmente o
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compartilhamento entre esquerdas e direitas de uma mesma utopia, a utopia global. O paradoxo
de uma utopia ambidestra apenas corrobora o uso jargônico das globalizações, marcado pela
pobreza heurística, o que impede o emprego sério do termo enquanto categoria analítica
pertinente à pesquisa histórica. A globalização no plural, anteriormente justificada, compreende
dois entraves ao uso científico do termo: a sua polissemia, responsável pela formulação de um
sem número de conceitos; e sua elasticidade enquanto coletivo singular capaz de incluir qualquer
forma de relação internacional prevista.
O telos tomado fato foi caracterizado “ovo de Colombo” devido à “descoberta do
globo” de Octávio Ianni: “descoberta de que globo não é mais uma figura astronômica, e sim
histórica” (1999, p. 14). Entretanto, o “ovo” está presente em diversas análises, como as de
Latouche (1994), Fukuyama (1992) e Lèvy (2000). Pierre Lèvy oferece, ou acredita oferecer uma
teoria da “aldeia global” inspirada na hermenêutica do espírito, partindo do pressuposto de que há
um globo, e este globo é inteligível (2000). Serge Latouche, por sua vez, baseia toda a sua análise
na constatação de que “o futuro já começou” (1994, p. 11). Estas e outras constatações de
profecia cumprida têm o seu maior exemplo na pós-história de Francis Fukuyama (1992). O autor
insere-se também na tradição política de cunho religioso norte-americana, o “destino manifesto”,
privilegiando na herança da modernidade liberal o caráter salvacionista e escatológico da
filosofia da história: como fora outrora a “Democracia na América”, a pós-história é “divina
profecia cumprida” (TOCQUEVILLE, 1977).
A história recente da presidência norte-americana revela a presença do discurso
profético, tanto na cruzada antiterrorista de G. Bush, quanto no apelo à esperança de B. Obama.
Entretanto, o uso da linguagem religiosa pode ser considerado como mero recurso argumentativo,
enquanto estratégia retórica, considerando a racionalidade dos prognósticos feitos por
Tocqueville na ocasião. A crise vivenciada no sistema financeiro mundial, por sua vez, configura
uma provocação aos prognósticos elaborados para um processo que, a espera de um nome menos
insignificante, vem sendo chamado de “globalização”.
Em recente declaração ao congresso estadunidense, Alan Greenspan admitiu sua
ingenuidade em haver confiado na capacidade do mercado de se auto-regular. A atual crise
financeira já vem alterando a postura assumida pelo Estado, o qual re-assume timidamente sua
função regulatória. Em nível internacional, a desnaturalização do discurso neoliberal faz-se
ressonante em foros informais como o G20 financeiro, onde se discute atualmente uma ampliação
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da margem de manobra das agencias regulatórias de Bretton Woods, reservando maior
representatividade para as economias emergentes, a fim de garantir maior legitimidade e
eficiência para estas instituições. A reunião emergencial de estadistas do G20, ocorrida no último
15 de novembro, buscou um novo consenso em Washington sobre a economia mundial, iniciado
pela verbalização da necessidade de maior regulamentação sobre os fluxos financeiros
internacionais. O caráter prescritivo da agenda consensuada é ainda agravado pela baixa
confiabilidade do consenso entre os chefes de governo, considerando a natural e eminente
sucessão de comando e a conseqüente renovação ministerial. A grande expectativa gerada pela
reunião histórica em Washington seria o receio de uma nova Doha, aventando para a
possibilidade de a reunião haver apenas causado transtornos no trânsito da capital norteamericana.
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