O ENSINO DE CIÊNCIAS E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DAS SÉRIES INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL BARRADAS, Cecilia Maria/ UFSC/ [email protected] MAESTRELLI, Sylvia Regina P./ UFSC/ [email protected] DELIZOICOV, Nadir Castilho/ UNOESC/ [email protected] EIXO: Formação de professores/ n.10 AGÊNCIA FINANCIADORA: CNPq INTRODUÇÃO Na literatura encontramos trabalhos que têm como objeto de investigação tanto a formação de professores para as séries iniciais do ensino fundamental (SIEF) como o ensino de ciências neste nível da escolarização. (OLIVEIRA, DINIZ E EUGÊNIO 2005; BRABO E SOUSA, 2004; ZIMMERMANN E EVANGELISTA, 2003; ALMEIDA, BASTOS, ALBUQUERQUE E MAYER, 2001). No entanto, apesar de sua reconhecida importância, o ensino de ciências não tem obtido o sucesso esperado no processo de escolarização e alfabetização científica, pois, para Brandi e Gurgel (2002), o professor das SIEF, apesar de sua formação polivalente, não tem apresentado preparação adequada para introduzir o aluno no estudo desta área. De acordo com o PCN Ciências Naturais (2000), o papel das ciências é colaborar para a compreensão do mundo e suas transformações, situando o homem como indivíduo participativo e parte integrante do Universo. Além disso, a compreensão de conceitos e procedimentos científicos pode contribuir para o entendimento e questionamento dos diferentes modos de interagir com a natureza, para a compreensão das formas de utilizar os recursos naturais e também contribuir para a compreensão dos fenômenos naturais (PCN, 2000). Muitos autores (GOUVÊA E LEAL, 2003; PERRENOUD, 2002; FONSECA E BORGES, 2000; CANDAU, 1997; NÓVOA, 1995) têm desenvolvido estudos relevantes sobre a necessidade de promover uma formação mais adequada frente à diversidade de situações encontradas no exercício profissional, não só em relação aos conhecimentos das áreas específicas, mas também pela forma que estes conhecimentos são abordados. 2 Essa discussão é permeada pela abordagem que é dada aos conteúdos de ciências durante a disciplina de Fundamentos e Metodologia do Ensino de Ciências ministrada nos cursos de Pedagogia. Esta disciplina normalmente tem duração de um semestre e, durante este período de tempo relativamente curto, além de tratar de estratégias para o ensino de ciências nas séries iniciais, aborda alguns conteúdos específicos de ciências voltados à atuação do profissional. Neste momento da formação, surgem alguns questionamentos, tais como: critérios usados pelo professor da disciplina de Fundamentos e Metodologia do Ensino de Ciências para selecionar os conteúdos a serem discutidos, levando em consideração as contribuições na construção do conhecimento, o interesse, e relevância destes conteúdos para os futuros professores, e os encaminhamentos metodológicos empregados para o trabalho em sala de aula. A qualidade do conhecimento que os professores das séries iniciais detêm, para Araman e Batista (2005), constitui um impedimento para a abordagem de temas específicos em sala de aula. Dessa maneira, é preciso que esta problemática seja, pelo menos, amenizada, refletindo diretamente em uma melhoria na qualidade do ensino de ciências. Deste modo, o professor que atende as SIEF necessita de uma formação que o prepare para enfrentar as diversidades relacionadas a situações com as quais se depara no exercício diário de sala de aula. Necessita, ainda, estar instrumentalizado de tal forma que, através do ensino de ciências, possa levar o aluno a compreender determinadas situações presentes em seu cotidiano. De acordo com Libâneo (2002) um maior domínio de conhecimentos e metodologias nos diferentes campos do saber pode amenizar as dificuldades e problemas enfrentados por estes professores, seja em relação a sua formação ou a prática docente no ensino de ciências. Diante dos pontos ressaltados, alguns questionamentos surgiram a respeito da formação dos professores que estão atuando nas séries iniciais do ensino fundamental da Rede Municipal de Educação da cidade de Cascavel, no estado do Paraná, quais sejam: como se desenvolve o ensino de ciências nas SIEF? Qual a formação dos professores que estão atuando neste nível de ensino? A formação desses docentes oferece conhecimentos suficientes e adequados em ciências? Quais os maiores problemas enfrentados pelos professores ao trabalharem os conteúdos de ciências? O que os professores esperam que o ensino de ciências proporcione aos alunos? 3 Estas questões direcionaram a pesquisa no sentido de identificar quais são os desafios enfrentados pelos professores das SIEF em relação ao ensino de ciências. A finalidade é buscar elementos que permeiem a formação continuada em serviço oferecida pela Secretaria Municipal de Educação de Cascavel, PR (SEMED), aos professores que atuam entre as 1ª e 4ª séries do ensino fundamental desta rede de ensino, tendo como base pressupostos da educação problematizadora. 1. O ensino de ciências nas séries iniciais do ensino fundamental Aspectos sobre o ensino de ciências nas séries iniciais do ensino fundamental fazem-se necessários para que alguns pontos que serão abordados no decorrer deste trabalho possam ser compreendidos. De acordo com Araman e Batista (2005), até a década de 70, o ensino de ciências acompanhou a tendência mundial da industrialização, onde o papel do professor oscilou entre transmissor de conhecimento e formador de cientistas técnicos. A grande preocupação do ensino de ciências nesta época passou a ser o de dar condições para que o aluno identificasse problemas a partir de observações, sendo capaz de levantar, testar, refutar ou abandonar hipóteses quando fosse necessário, trabalhando de forma a tirar conclusões, sozinho. Com a promulgação da lei 5692 em 1971, a disciplina de ciências passou a ter caráter obrigatório nas SIEF. A formação do professor passou a ser uma formação técnica, dando margem à criação das licenciaturas curtas. Segundo Araman e Batista (2005) ainda na década de 70, com a crise energética e o rápido crescimento industrial, problemas ambientais começaram a fazer parte da realidade brasileira. Para o ensino de ciências, esse fato se refletiu na inclusão de temas relativos a saúde e ao ambiente nos currículos escolares. Na década de 80, o processo de democratização trouxe uma abertura para discussões progressistas em educação, que previam uma maior integração entre ciência, tecnologia e sociedade. Toda essa influência culminou com uma revisão nos conteúdos de ciências que deveriam ser socialmente relevantes para a construção da noção de cidadania no sujeito aprendiz. (ARAMAN E BATISTA, 2005). Esta adequação não representou mudanças no trabalho do professor, que continuava reproduzindo um ensino mais voltado ao tecnicismo e as atualizações dos conteúdos não refletiram em atualizações na prática e na formação do professor. 4 Segundo Harlem (1989), as idéias que as crianças têm sobre o mundo que as rodeia são construídas durante as séries iniciais da fase escolar, independentemente do ensino de ciências. Desta forma, não ensinar ciências nesta fase escolar, significa ignorar este processo, abandonando a criança, seus pensamentos e idéias, privando-a de um contato mais sistematizado com a realidade e a troca de idéias com outras pessoas. Assim, para Harlem (1989), a falta de percepção da importância do ensino de ciências para crianças leva professores, escola, autoridades, formadores de professores e pais a desenvolver uma postura negativa em relação à melhoria do ensino desta área. Recentemente muitas pesquisas têm tratado sobre o ensino de ciências nas SIEF. Dentre estes trabalhos destacamos o de Lorenzetti e Delizoicov (2001), no qual defendem a idéia de que a alfabetização científica pode e deve ser desenvolvida desde as primeiras séries da escolarização. Nesta perspectiva, o ensino de ciências pode ser um forte aliado para a aquisição de leitura e escrita, uma vez que contribui para atribuir significado às palavras e aos discursos. Rosseto, Terrazzan e Amorin (2001) acreditam que é imprescindível discutir ciência na escola desde as primeiras séries como um corpo de conhecimentos que se constrói entre tantos outros, porém, defendem a idéia de manter algumas características peculiares à área, como sua estreita relação com a tecnologia. De acordo com estes autores, é indispensável que os indivíduos saibam discutir e refletir sobre as questões que dizem respeito aos avanços tecnológicos e suas conseqüências, principalmente pelo fato destes avanços serem parte integrante do cotidiano, estabelecendo também, na opinião dos pesquisadores, valores sociais. No entanto, estes autores também alertam para o fato de que, boa parte dos professores que atuam no ensino de ciências nas séries iniciais, têm pouca ou nenhuma formação na área de ciências, o que dificulta o desenvolvimento de atividades voltadas para o ensino das ciências naturais. De acordo com Rosa e Terrazzan (2001), o ensino de ciências nas séries iniciais é desenvolvido de modo secundário, principalmente quando comparado ao ensino de língua portuguesa e matemática. Esses autores reconhecem a necessidade de superar, ainda que parcialmente, as fragmentações e a falta de vínculo dos conteúdos das ciências naturais abordados na escola com a realidade dos alunos. Cella e Terrazzan (2001) justificam a importância do ensino de ciências nas séries iniciais pelo fato de que determinadas noções científicas tornam-se instrumentos indispensáveis para que as crianças possam compreender o mundo que as cerca, e para poderem se posicionar e se preparar para atuar frente às mudanças que nele ocorrem. 5 Estes autores defendem a perspectiva de uma alfabetização científica e tecnológica desde as SIEF, de forma que o aluno tenha a oportunidade de conhecer e utilizar conceitos científicos tanto na compreensão de fenômenos e processos naturais como na explicação do funcionamento de aparatos e processos tecnológicos. Os autores também afirmam que o ensino dos conteúdos de ciências continua pouco valorizado nas SIEF, justificando o fato pela inadequada formação inicial dos professores, onde esta área do conhecimento é pouco contemplada. Este contexto aponta para a necessidade de oferecer aos professores um processo de formação continuada em serviço que articule a realidade vivenciada pelos alunos ao trabalho docente, procurando fornecer condições materiais, profissionais e intelectuais capazes de assegurar aos professores uma atuação educativa transformadora, visando a superação dos desafios enfrentados no ensino de ciências nas SIEF. De acordo com Bizzo (2002), seria mais interessante que o trabalho pedagógico envolvendo ciências fosse precedido por um esclarecimento dos objetivos do ensino, ao invés de aderir ao rótulo mais mercadológico disponível no momento. Para este autor, alguns motivos levaram especialistas de diferentes países a concordarem com a importância do trabalho com ciências nas SIEF. Dentre estes motivos destacamos que: “As ciências podem ajudar as crianças a pensar de maneira lógica sobre os fatos do cotidiano e a resolver problemas práticos. (...) envolvendo a criança no estudo de problemas e fenômenos que as rodeiam em seu cotidiano” (BIZZO, 2002). Abegg (2004), pautada em temáticas atuais necessárias ao desenvolvimento da cidadania, também defende a educação científica e tecnológica desde as SIEF. Para ela, o ensino de ciências neste nível não deve acontecer desvinculado do componente tecnológico, ou seja, do conhecimento sobre tecnologia. Isso porque a autora acredita que este componente contribui para a compreensão da necessidade da integração das ciências naturais às suas tecnologias. As idéias destacadas anteriormente, a partir de trabalhos como os de Rosseto, Terrazzan e Amorin (2001), Brandi e Gurgel (2002), Gouvêa e Leal (2003), Delizoicov N., Lopes e Alves (2005), sugerem que o insucesso do ensino de ciências muitas vezes é atribuído à formação inadequada dos professores que atuam nas séries iniciais. 6 Como sugestão para amenizar, ainda que parcialmente, esta problemática, pesquisadores como Harlem (1989), Lorenzetti e Delizoicov (2001) e Abegg (2004), dentre outros, apontam para a perspectiva de uma alfabetização científica e tecnológica, visando um trabalho que proporcione a alunos e professores a compreensão do mundo que os rodeia a partir da discussão de conceitos e fenômenos científicos. A partir destas considerações, passamos a discutir alguns aspectos da formação de professores para as séries iniciais do ensino fundamental. 2. Formação de professores A escola tem como uma de suas funções assegurar a relação cognitiva do aluno com os conteúdos e a sua aprendizagem através do trabalho do professor, pois é ele quem desempenha o papel de mediador entre o aluno e o conhecimento, sendo também um dos responsáveis em ajudar o aluno a se apropriar do conhecimento sistematizado. O professor, durante sua formação inicial, além de tratar de estratégias de ensino, deve se apropriar, também, de conhecimentos de ciências naturais. Estes conhecimentos fornecem possibilidades para a compreensão de situações, fatos e fenômenos que o envolvem enquanto indivíduo e membro da sociedade, o que contribuirá para levar seu aluno a proceder da mesma forma. Para Libâneo (2002), se é preciso que o aluno domine os conteúdos, desenvolva o hábito do raciocínio e a autonomia de pensamento, o mesmo se espera do professor. Se quisermos ver resultados positivos na qualidade do ensino, é preciso, segundo o autor, investir na formação de professores. Delizoicov e Angotti (2000) advertem que a educação em ciências está vinculada ao desenvolvimento científico regional e mundial. Esta educação em ciências pode contribuir para que o indivíduo seja capaz de compreender a importância da ciência e da tecnologia na vida moderna, como argumenta Krasilchik (2004). Por isso, tanto na formação inicial quanto na formação continuada, os professores das séries iniciais devem se apropriar de conteúdos específicos de ciências, aliados às situações e as estratégias de ensino significativas. Para tanto, durante a formação destes professores pode ser realizada uma análise do que é relevante ser abordado em sala de aula e que tenha uma relação com o cotidiano pessoal e escolar dos profissionais, possibilitando maior compreensão de 7 conceitos e fenômenos desta área do conhecimento e da dinâmica que envolve o ensino de ciências nas SIEF. Trabalhos como o de Gouvêa e Leal (2003) mostram que além dos problemas relacionados à formação acadêmica dos professores, a ausência de propostas curriculares voltadas para esta formação e comprometidas com uma visão de ciências que envolva questões sociais e políticas na produção do conhecimento é outro ponto que permeia esta discussão. Assim, proporcionar um ensino preocupado com a construção de conceitos e com o entendimento de fenômenos ligados a questões cotidianas vivenciadas pelos alunos, pode estimular a capacidade que os alunos das séries iniciais têm em trabalhar com uma variedade de informações e generalizações mais abrangentes. De acordo com Gouvêa e Leal (2003), os professores dedicam-se pouco ao ensino de ciências devido à formação inadequada que tiveram para a área, ou de acordo com Gómez (2005), por enfrentarem problemas de natureza prática e em situações de aprendizagem. Isso indica que o professor pode não dispor de subsídios suficientes que possibilitem o desenvolvimento de assuntos referentes a esta área do conhecimento em sala, seja por não conhecer estratégias de ensino para seu trabalho docente, por não ter tido contato adequado com os conteúdos e conceitos de ciências, ou pela intensa preocupação com o ler, escrever e calcular. Pelo fato do processo de formação dos professores, estar diretamente ligado ao domínio de conteúdos por estes profissionais, Nóvoa (1995) acredita que esta formação deve privilegiar uma preparação na qual a educação seja vista como um processo onde teoria e prática complementam-se. Um processo de formação dentro desta perspectiva pode ser desenvolvido de modo que os alunos sejam inseridos no aprendizado de conceitos científicos, proporcionando um melhor entendimento dos novos conhecimentos produzidos e sua aplicação. O bom desempenho do professor depende, dentre outros fatores, de sua capacidade de aliar conhecimento e ações, relacionando os conteúdos específicos de ciências às situações presentes no cotidiano escolar e na vida dos alunos. A partir destes pontos levantados, a formação continuada pode assumir características de um ensino interativo, vislumbrando preencher algumas das lacunas deixadas pela formação inicial. 8 De acordo com Perrenoud (2002), uma formação continuada com as características descritas acima pode ser realizada com os professores em exercício de sua atividade docente, pois, para o autor, a formação continuada tem como objetivo atenuar a defasagem entre o que os professores aprenderam durante sua formação inicial e o que foi acrescentado a esse conhecimento, a partir de suas experiências com a atividade docente. Assim, a prática em sala de aula pode se constituir em objeto de estudo, discussão e avaliação nos cursos de formação continuada, tornando-se progressivamente, um “laboratório” de procedimentos de formação, utilizando a situação privilegiada da presença dos profissionais (PERRENOUD, 2002). Dessa maneira, a formação continuada pode instrumentalizar o professor para um processo de reflexão sobre a própria prática com a finalidade de reavivá-la e redimensionar sua ação didático-pedagógica. Estudos sobre formação continuada (ESTEVE, 1999; PERRENOUD, 2000) defendem a idéia de que há necessidade cada vez maior da valorização dos saberes docentes adquiridos pela reflexão, uma reflexão sobre o “saber” e o “saber fazer”, neste caso, sobre os conteúdos de ciências e as estratégias de ensino. Para Candau (1997), o processo de formação continuada deve valorizar o trabalho docente, pois é através dos saberes adquiridos pela prática que os professores podem julgar sua própria formação e a pertinência dos planos e reformas que lhes são propostos. De acordo com Nóvoa (1995), esta formação não se constrói por acumulação de cursos, de conhecimentos ou de técnicas, mas através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas. Assim, Delizoicov, N., Lopes e Alves (2005), defendem a formação continuada como um processo orgânico, mediado por secretarias de educação, oferecida e avaliada sistematicamente, com horas de formação inseridas na carga horária do trabalho docente. Fonseca e Borges (2000) acreditam que se o professor vivenciar um processo contínuo de formação poderão ser observadas mudanças em sua prática de sala de aula, em sua forma de pensar, em sua atuação e em seus métodos e técnicas de ensino. Segundo Delizoicov, N., Lopes e Alves (2005), eventos como cursos, palestras, oficinas, dentre outros, oferecidos esporadicamente pelas secretarias de educação em parceria ou não com outras instituições de ensino, são pertinentes e necessários, mas 9 não suficientes quando se deseja uma formação continuada voltada a reais alterações na formação e na prática didático-pedagógica dos professores. Como neste trabalho discute-se a formação inicial e continuada dos professores da rede municipal de ensino de Cascavel, faz-se necessário ressaltar alguns pontos importantes sobre a formação dos professores que atuam neste nível de ensino e sobre os cursos de aperfeiçoamento oferecidos pela secretaria municipal de educação. Nesta rede de ensino podemos observar certa diversidade em relação à formação dos professores. Grande parte deles fez o curso de Magistério no nível médio. Em relação à graduação, há professores formados em diferentes cursos, como por exemplo, Pedagogia, Licenciatura em Letras, Ciências Biológicas e Matemática. No entanto, apesar das diferentes graduações, todos os professores trabalham em sala de aula com os conteúdos das várias disciplinas destinadas às séries iniciais, o que levou a Secretaria Municipal de Educação – SEMED – a oferecer regularmente cursos de formação continuada, com o intuito de auxiliar os profissionais em seu trabalho docente. Estes cursos são realizados nos dias em que os professores encontram-se em hora-atividade, espaço destinado ao estudo de documentos e propostas de ensino, além de atividades relacionadas à formação dos docentes. Para tanto, no final de cada ano letivo chega à escola um formulário para ser preenchido pelos professores. Estes devem sugerir um tema para ser abordado durante a formação continuada. O formulário é então reencaminhado a SEMED, que avalia as sugestões e organiza o cronograma com os cursos que serão oferecidos. Este cronograma é enviado à escola no ano seguinte para que a direção e a coordenação organizem-se a fim de que os professores possam participar da formação continuada. 3. Pressupostos de uma educação problematizadora Ensinar é criar as possibilidades para que os alunos possam produzir ou construir seu próprio conhecimento (FREIRE, 1996). Por isso, acreditamos que se o professor adotar uma postura voltada a problematização, pode possibilitar aos alunos desenvolver a capacidade de tomar decisões conscientes em relação às situações vivenciadas por ele em seu cotidiano. Um ensino de ciências que visa proporcionar aos alunos possibilidades para compreensão de processos e fenômenos presentes na sua realidade exige dos professores das SIEF o domínio de conteúdos e um modo de pensar diferenciado para 10 cada disciplina. Portanto, além do conhecimento sobre os conteúdos de ciências, é importante que os professores das SIEF tenham acesso a metodologias que possam proporcionar uma visão adequada da ciência relacionada aos conteúdos, visando também à construção de conhecimentos pelo professor. Com isso, o ensino de ciências nas SIEF não se distanciaria da formação científica dos alunos. Desta forma, acreditamos que uma ação que envolva diretamente os professores, seus desafios e suas considerações sobre o ensino de ciências nas séries iniciais, possa ser um caminho promissor para a melhoria na qualidade do ensino de ciências neste nível. Os pressupostos da educação problematizadora apresentada por Paulo Freire podem ser utilizados como suporte para elaboração de uma proposta educacional que privilegia o diálogo e o questionamento de saberes já estabelecidos pelos alunos, que possibilitam a aproximação de conteúdos escolares às informações que o estudante possui sobre seu cotidiano. Pernambuco (1993) lembra que os alunos chegam à sala de aula não só com informações, mas com concepções e explicações já estabelecidas que muitas vezes entram em conflito com o conhecimento a ser apreendido. Assim, priorizar o cotidiano da realidade do aluno é uma forma de organizar os conteúdos daí extraídos através de temas significativos para os estudantes (DELIZOICOV, ANGOTTI e PERNAMBUCO, 2002), além de permitir atender vários pontos sugeridos pelo PCN Ciências Naturais (2000). Um trabalho dentro dos moldes da educação problematizadora proposta por Freire (1987) pretende investigar “não só os homens, mas o seu pensamento e linguagem sobre a realidade, os níveis de percepção desta realidade e a sua visão do mundo”. Este tipo de trabalho possibilita o levantamento de situações que podem ser estudadas, permitindo sua apreensão e inserindo, ou começando a inserir, as pessoas numa forma crítica de pensar seu mundo. Na perspectiva freireana, o levantamento destas situações tem como metas obter temas para estudo, planejar sua abordagem problematizadora no processo educativo e promover a compreensão das várias situações que envolvem o tema em estudo (DELIZOICOV, ANGOTTI E PERNAMBUCO 2002). Para Freire (1987) é o diálogo que favorece o pensar crítico, levando o indivíduo à compreensão do mundo em que vive. Esse diálogo não significa uma conversa simples, envolve o pronunciamento do mundo e das ações que o transformam. 11 Freire (1987) define o diálogo como uma exigência existencial humana, considerando que o homem se humaniza na medida em que pode pronunciar o mundo e transformá-lo. Esta dialogicidade no processo educativo, não começa quando o professor se encontra com os alunos em uma dada situação pedagógica, mas quando o professor se pergunta sobre o que vai dialogar com seus alunos. Assim, o diálogo não diz respeito apenas àquele que ocorre entre aluno e professor, mas, sobretudo entre os conhecimentos que cada sujeito possui. Este pressuposto implica numa concepção de educação que tem como característica planejar a ocorrência da dimensão de diálogo entre os conhecimentos de origens diferentes. Diante desta situação, o diálogo pode trazer mais clareza de como e o que considerar como prioridade durante a ação. Sendo assim, entende-se que a dialogicidade é essencial para que ocorra a problematização da realidade. Podemos articular os pressupostos de Paulo Freire aos pressupostos da alfabetização científica e tecnológica (ACT) proposta por Fourez (1997). A ACT possui três finalidades: a busca pelo desenvolvimento da autonomia do indivíduo, o favorecimento da comunicação entre os indivíduos, e o direcionamento adequado dos conhecimentos. Para Fourez (1997), uma pessoa alfabetizada científica e tecnologicamente consegue expor e discutir seus pensamentos e decisões frente à determinada situação vivenciada, tem certa capacidade de comunicação, domínio e compreensão de determinados fatos e fenômenos que acontecem ao seu redor. Estes três objetivos (autonomia, domínio e comunicação), do modo como são propostos, estão articulados ao comportamento que o sujeito ou grupo tem frente a situações desafiadoras que os levam ou não a encontrar as soluções para o problema enfrentado. Nesta perspectiva, o conhecimento pode proporcionar ao sujeito uma possibilidade de dialogar sobre suas decisões frente às situações que vivencia. Como Fourez (1987) afirma que não é possível questionar algo que não se conhece ou não se compreende, torna-se necessário conhecer para que a ação autônoma do indivíduo no mundo seja possível, tornando mais fácil sua compreensão sobre o mundo e suas transformações. Este diálogo não diz respeito ao saber como dizer ou escolher a palavras apropriadas, mas da capacidade do indivíduo de transmitir informações com conteúdo, 12 de discorrer sobre situações, principalmente sobre as situações que vivencia em sua realidade. Para Fourez (1997), discorrer sobre situações significa teorizar; construir conceitos e estruturas de representação que permitam encontrar uma maneira adequada de dialogar com os outros. Ficar preso a “receitas” ou opiniões e idéias já formadas não favorece a comunicação. A comunicação é fundamental para que o indivíduo seja inserido na cultura e na sociedade, não pelo fato de expressar idéias, mas por ser capaz de receber, refletir e trocar idéias com as pessoas que estão a sua volta. Dessa maneira, o indivíduo deixa de ser um receptor de informações e torna-se um sujeito autônomo no mundo no qual está inserido. Fourez (1997) lembra que o conhecimento implica em um “saber-fazer” e um “poder-fazer”, ressaltando vantagens que este conhecimento pode trazer por orientar as ações do individuo que o possui. Ao discutirmos alguns pressupostos freireanos da educação problematizadora e alguns pressupostos da alfabetização científica e tecnológica de Fourez, idealizamos uma educação em ciências, que promova a compreensão do mundo e de suas transformações, através dos conhecimentos oferecidos pelas ciências. 4. Descrição e análise dos dados A partir da aplicação de um questionário a cinco professores de uma escola da rede municipal de Cascavel, no Estado do Paraná, procuramos levantar dados referentes à formação inicial e continuada, trabalho docente e opiniões destes professores em relação ao ensino de ciências nas SIEF. Em um primeiro momento houve uma conversa com a coordenadora pedagógica da escola sobre a possibilidade da participação dos professores na pesquisa, a qual permitiu que o questionário fosse aplicado a cada professor, desde que não interferisse no trabalho de cada um. Em um segundo momento, foi solicitado a cada professor que respondesse ao questionário. O questionário foi composto por dez questões que abrangiam dados pessoais do professor, motivos que o levaram a atuar nas SIEF, considerações sobre o ensino de ciências, participação em cursos, sobre as aulas de ciências que ministram, sobre os 13 conteúdos desta disciplina, objetivos do ensino de ciências e caminhos para melhorar este ensino. Como este trabalho é parte de uma pesquisa em andamento, o questionário foi aplicado com o intuito de validar o instrumento de coleta de dados, mas ao mesmo tempo foi importante para ter um contato, ainda que restrito, com alguns dos desafios, opiniões e perspectivas dos professores em relação ao ensino de ciências. Desta forma, o número de professores que responderam a este instrumento é pequeno. A tabela abaixo resume alguns dados pessoais e informações a respeito da atuação dos professores que participaram deste estudo. Tabela 01. Caracterização dos professores que responderam o questionário. Prof. Idade Série Séries que Tempo formado Tempo de (anos) atual já atuou (anos) regência (anos) A 53 1ª Pré-escola, Magistério: não 2 1ª, 4ª, EJA informou Graduação: 2 46 2ª Pré-escola à Magistério: 22 30 B 4ª série Graduação: 2 52 3ª Pré-escola à Magistério: 29 29 C 4ª série e Graduação: 6 EJA 27 3ª 2ª, 3ª e 4ª Magistério: 10 10 D séries Graduação: 5 32 4ª 1ª e 2ª séries Magistério: 15 15 E Graduação: 12 Série em que atuou mais tempo 4ª série: 1 ano 2ª série: 10 anos 4ª série: 8 anos 4ª série: 4 anos 1ª série: 10 anos Os cinco professores que participaram deste estudo obtiveram a habilitação para docência nas SIEF através do curso de Magistério em nível médio. Três deles graduaram-se em Pedagogia, um fez o curso com ênfase em Educação Infantil, um com ênfase em Gestão Escolar, e o outro não especificou a ênfase de seu curso, mas o fez a distância. Os outros dois professores possuem licenciatura em Letras Português/Inglês. Vale ressaltar que os cursos de Pedagogia não têm na grade disciplinas voltadas à prática de ensino pelo fato de darem ênfase a outras especialidades, como por exemplo, gestão escolar. Dentre estes cinco professores, quatro possuem especialização, dois em Psicopedagogia Clínica e Institucional e os outros dois em áreas ligadas às Letras: Interfaces Lingüísticas, e Metodologia e Técnica de Produção Textual. Nenhum dos professores cursou ou está cursando mestrado ou doutorado. 14 4.1 Motivos que levaram a escolha pela docência nas SIEF Para o professor A, lecionar nas séries iniciais foi a oportunidade que encontrou para trabalhar, tendo em vista que está formado há pouco tempo. Para o professor D, a escolha foi por vocação, principalmente pelo fato de gostar de crianças e por ter começado a atuar pouco tempo depois de concluir o Magistério. Para os professores B, C e E, o principal motivo que os levou a trabalhar neste nível de ensino é o fato de que o aprendizado e a participação dos alunos é mais visível e intenso, além do respeito ao professor ser maior por parte destes alunos. 4.2 Educação em ciências e atuação docente Durante sua formação, os professores A, B, D e E cursaram as disciplinas de Metodologia do Ensino de Ciências e Biologia Educacional. Os professores A, D e E cursaram estas disciplinas durante o magistério e o professor B não especificou em que fase de sua formação teve estas disciplinas. O professor C não cursou nenhuma disciplina relacionada a ciências em sua formação, pois a ênfase de seu curso foi em educação infantil. Ao escreverem sobre a relação destas disciplinas com sua atuação docente, os professores A e B utilizam os conhecimentos aprendidos como fundamentação para o trabalho em sala de aula. Os professores D e E não lembram o que foi discutido nas disciplinas; os conhecimentos de ciências que trabalham com seus alunos, em sala de aula, é fruto de suas experiências docentes, de estudos individuais e da participação em cursos oferecidos pela SEMED. Pelo fato de não ter cursado nenhuma disciplina voltada a ciências, o professor C sente-se prejudicado em sua atuação, pois acredita que é preciso ter conhecimento para tratar de assuntos relacionados a ciências com os alunos. A SEMED oferece todos os anos, aos professores da rede municipal de ensino, cursos de aperfeiçoamento nas diversas áreas do conhecimento, procurando possibilitarlhes a ampliação de conhecimentos visando melhorar a qualidade de ensino nas séries iniciais. 15 Como esta pesquisa trata do ensino de ciências, procuramos saber se os professores já participaram de cursos relacionados a ciências oferecidos pela SEMED, e se consideram ou não importante a realização e participação nestes cursos. O professor B participou de um curso que tratava dos conteúdos de ciências do Currículo Básico. Para ele, a participação neste curso o ajudou a ampliar seus conhecimentos, favorecendo a troca de experiências com outros professores e a possibilidade de ser menos dependente do livro didático. O professor C está participando de um grupo de estudos da área de ciências, que tem como objetivo a elaboração de uma nova proposta curricular para a rede de ensino do Município. Ele acredita que a participação dos professores em cursos da área de ciências é importante por possibilitar a aquisição de conhecimentos e a compreensão da ciência e de sua história. O professor E participou de um curso sobre o aquecimento global no início deste ano. Neste curso os professores discutiram algumas questões a partir da exibição do filme “Uma verdade inconveniente”. Para este professor, a participação neste curso favoreceu a reflexão sobre o trabalho de sala de aula com temas contemporâneos, além de fornecer subsídios para o desenvolvimento deste tema com os alunos. Os professores A e D não participaram de cursos voltados à área de ciências, segundo eles pela falta de oportunidade e pelo fato dos cursos ofertados serem destinados a outras séries, e não às séries em que eles atuavam. 4.3 Pontos positivos e negativos da formação Os professores A, B, C e D apontam pontos positivos em relação à formação proporcionada pelo magistério. Eles se referem principalmente à aquisição e aplicação do conhecimento, pois no magistério, para cada conteúdo trabalhado é elaborado um modelo para sua aplicação. Para o professor E, o ponto positivo de sua formação para o trabalho com ciências foi proporcionado por sua habilitação em licenciatura para Letras Português/Inglês, principalmente no que diz respeito à leitura e interpretação de textos. Esse ponto citado pelo professor indica a forma como este docente desenvolve os conteúdos de ciências em suas aulas, a partir de leitura e interpretação de textos que tratam do conteúdo em estudo. 16 O professor C indica como ponto negativo de sua formação o pouco tempo destinado às disciplinas durante a graduação, cerca de seis meses com uma aula semanal ou quinzenal. Mesmo assim, acredita que sua formação lhe permitiu resgatar conhecimentos esquecidos e adquirir novos conhecimentos. O professor D critica o curso de Pedagogia por não ter oferecido embasamento prático, ou seja, sugestões de encaminhamentos metodológicos para aplicação dos conhecimentos de ciências, o que para este professor foi diferente no curso de magistério. Para o professor E, não ter cursado uma disciplina que trabalhasse os conteúdos específicos de ciências corresponde ao ponto negativo de sua formação, principalmente pelo fato de ter dificuldades com determinados conteúdos a serem trabalhados. A tabela abaixo sintetiza os pontos positivos e negativos da formação, apontados pelos professores que participaram deste estudo. Tabela 02. Pontos positivos e negativos da formação Prof. Pontos positivos A “Segurança nos conhecimentos e como desenvolver experiências.” “Aplicação dos conhecimentos e subsídios B para procurar informações.” “Conhecimento, facilita o teu trabalho. C Você passa para a criança com segurança.” D E “O magistério (...) dava uma gama de conhecimentos e expectativa para trabalha.” “Para área de ciências a questão da leitura e interpretação de textos (...) é a forma como eu posso trabalhar.” Pontos negativos “Nenhum.” “Em relação à formação não vejo” “O tempo é curto. São seis meses cada disciplina. É muito pouco para você ir além daquele trabalho. Sendo que é uma aula por semana ou às vezes quinzenal.” “A pedagogia eu achei falha em relação à questão de te dar embasamento. No magistério eu não vi pontos negativos.” “Negativo é que eu não tive nenhum conteúdo de ciências” 4.4 O trabalho docente com ciências Para preparar as aulas de ciências, os professores utilizam o livro didático adotado, outros livros, textos informativos encontrados em revistas e sites da internet que tenham relação com o tema abordado. Durante o desenvolvimento da aula, os professores A e C utilizam experimentos para a discussão do conteúdo trabalhado. O professor B utiliza materiais 17 de apoio como retroprojetor, spinlight 1, transparências e multimídia, para que os alunos possam visualizar imagens e esquemas que facilitem a compreensão do tema estudado. O professor D busca textos informativos e utiliza pouco o livro didático. Por desenvolver um projeto sobre reciclagem e este assunto não estar presente no livro didático, busca textos em outras fontes. O professor E trabalha os conteúdos de ciências a partir da construção de sínteses, cartazes e ilustrações, procurando fugir do trabalho restrito a interpretação de texto (pergunta-respostas, textos seguidos de questionário). Os professores procuram desenvolver suas aulas a partir do diálogo com seus alunos. Realizam uma discussão em torno do tema estudado para, em seguida realizar os experimentos, a leitura de textos referentes ao assunto e por fim fazer o registro escrito. Podemos perceber a preocupação do professor C em saber o que os alunos pensam sobre determinado conteúdo para que possa relacionar textos e atividades a serem desenvolvidos. Para o professor B o desenvolvimento de suas aulas depende do conteúdo a ser trabalhado. Ele cita como exemplo as aulas de ciências que vem trabalhando sobre alimentos. Ele iniciou este trabalho com uma dúvida dos alunos, que surgiu após terem participado de uma palestra sobre saúde e higiene ministrada pelo monitor de saúde da escola. Nesta questão o professor D mostra que sente dificuldades em aplicar aulas práticas e em tratar de alguns conteúdos de ciências que estejam relacionados ao experimento desenvolvido. O professor E, ressalta que não há recursos, materiais e local adequados para a realização de experiências com os alunos, principalmente pelo alto custo, o que impede a escola de adquiri-los. 4.5 Objetivos do ensino de ciências Ao ensinar ciências, cada professor delimita seus objetivos. Os professores A e D têm como objetivo a conscientização dos alunos em relação aos fatos e fenômenos da ciência, como por exemplo, a preservação ambiental e as conseqüências dos problemas ambientais para a humanidade. 1 Equipamento que provê movimento através da ilusão de ótica em lâminas que tratam de diversos assuntos. Também pode ser chamado de spinlight-twistlight (FERREIRA, 2001). 18 Os professores B, C e E têm como objetivo ampliar os conhecimentos dos alunos para que consigam relacionar os conteúdos de ciências com seu cotidiano, além de permitir a eles uma visão global e local do tema estudado. O professor D destaca a possibilidade de instigar nos alunos alguns questionamentos sobre o assunto estudado, para que ele possa pensar e modificar seu modo de ver determinada situação. Ao responderem qual seria o objetivo de se ensinar ciências nas séries iniciais, os professores A, B e D acreditam que seria o de conscientizar os alunos e torná-los críticos em relação aos fatos do seu dia-a-dia. Para o professor E o objetivo é a aquisição de conhecimento científico, principalmente através de experiências. O professor D acredita que muitos professores priorizam o ensino de língua portuguesa e matemática, trabalhando muito pouco com os conteúdos de ciências. Para os professores A e C os objetivos propostos estão sendo alcançados. Eles entendem que isto é demonstrado pelo interesse dos alunos e pelo fato da mídia mostrar tudo o que acontece e tem relação com ciências. Para os professores B e E os objetivos perseguidos estão sendo alcançados em parte. Por um lado, pela produção dos alunos ao final de cada ano; por outro lado, pela falta de material. O professor D acredita que consegue alcançar seu objetivo, pois não se preocupa tanto com os conteúdos, mas com a conscientização dos alunos. 4.6 Dificuldades dos professores com o ensino de ciências O professor B não encontra dificuldades com os conteúdos de ciências a serem trabalhados, mas acha difícil responder determinados questionamentos feitos pelos alunos. Para os professores C e D o maior desafio é a falta de material para a realização de aulas práticas e um espaço próprio para as aulas de ciências. O professor E tem dificuldades em encontrar textos nos livros didáticos relacionados a temas atuais, e comenta que a nova proposta do município será mais adequada para o trabalho com os temas contemporâneos. Em relação aos conteúdos de ciências os professores têm dificuldades principalmente pela deficiência de conhecimentos teóricos e práticos para o trabalho em sala. O professor D tem dificuldades em trabalhar com alguns conteúdos de ciências por possuir pouco conhecimento. Para ele há conteúdos novos e mais difíceis, o que 19 dificulta o trabalho em sala de aula. Além disso, ele aponta como maior dificuldade os conteúdos que os alunos não conseguem visualizar, conteúdos que não consegue realizar um experimento. Para este professor, os temas contemporâneos são fundamentais para ciências, pois para ele, a história deve tratar do passado e que ciências, quanto mais atual for, melhor. O professor E convida outros profissionais para proferirem palestras para os alunos sobre os conteúdos que tem dificuldade de tratar. 4.7 O trabalho com os conteúdos de ciências Ao responderem sobre o trabalho com os conteúdos que podem ou não compor o programa da disciplina de ciências, os professores A, B e C trabalham todos os conteúdos propostos. O professor E também trabalha todos os conteúdos, alguns são mais aprofundados e outros trabalhados superficialmente. Para o professor D, algum conteúdo acaba ficando para trás pelo fato de classificar e trabalhar com os conteúdos por grau de importância. Para o professor A, todos os conteúdos de ciências, importantes para os alunos, estão contemplados no programa da disciplina, por isso não acrescenta nenhum conteúdo a ele. Para o professor B, muitos assuntos que estão na mídia têm relação com ciências e por isso, não pode deixar de esclarecer certos fatos e fenômenos para os alunos. O professor C procura articular o conteúdo que compõe o programa da disciplina às situações cotidianas dos alunos, pois há muitas informações que não estão no programa e são interessantes para o aluno. 4.8 Caminhos para a melhoria no ensino de ciências nas SIEF Para que o ensino de ciências seja mais adequado nas SIEF, o professor A acredita que é necessário trabalhar mais aulas práticas com os alunos, o que na opinião deste professor requer um laboratório de ciências. Para o professor B, um laboratório de ciências, ou um espaço para que os alunos realizem suas pesquisas pode ser um caminho para adequar o ensino de ciências. Para ele, se houvesse um laboratório na escola e os alunos tivessem contato desde pequenos com ciências, chegariam ao ensino médio com menos dificuldades. 20 Para o professor C, um planejamento aberto e modificado que deixasse o professor mais livre, seria o ideal para a adequação do ensino de ciências. Para o professor D, um trabalho de conscientização dos professores sobre a necessidade de se trabalhar com ciências, procurando dar a esta disciplina a mesma importância atribuída a outras disciplinas, seja um caminho adequado. Para ele, o trabalho docente não é apenas o ler e escrever, é preciso experimentar, colocar-se no lugar dos alunos. Para o professor E, o mais adequado seria a presença de um profissional especializado em cada disciplina na escola, pois assim, os conteúdos seriam trabalhados adequadamente, melhorando a aprendizagem dos alunos. Os professores têm a sua concepção de ciências ligada ao uso do laboratório, indicando que ciências na maioria das vezes só pode ser ensinada se estiver articulada a experiências ou aulas práticas. A presença de um laboratório na escola para estes professores não requer um técnico para o manuseio ou manipulação de equipamentos ou para a realização das aulas práticas, pois eles mesmos querem utilizar este espaço com seus alunos, o que requer um processo de formação para desempenho adequado desta prática por estes professores. 4.9 Considerações dos professores sobre o ensino de ciências O questionário aplicado aos professores terminava com uma pergunta aberta, onde foi solicitado que fizessem outras considerações sobre o ensino de ciências. Neste item, alguns professores reforçaram pontos já escritos, outros apontaram para idéias diferentes. Para o professor A, o ensino de ciências nas 1ª e 2ª séries deveria proporcionar aos alunos noções de ciências, enquanto que nas 3ª e 4ª séries, deveria ser feito um trabalho mais aprofundado com os conteúdos da disciplina. Para ele, os conteúdos de ciências na 1ª série são usados como recurso para a alfabetização. Para o professor B, o ponto mais relevante sobre o ensino de ciências é a falta de um laboratório de ciências e a idéia de que o aluno precisa ter contato com ciências desde pequeno, pois acredita ser importante que a criança perceba tudo o que está relacionado com essa disciplina. 21 A maior preocupação do professor C é o desenvolvimento de experiências, o trabalho com materiais concretos no ensino de ciências. Para o professor D, o ponto de maior preocupação é o trabalho inadequado desenvolvido com os conteúdos de ciências. Considerações Foi possível verificar através da leitura de trabalhos como os de Gómez (2005), Gouvêa e Leal (2003) e Nóvoa (1995) e dos dados obtidos com o questionário, que a formação acadêmica dos professores para as SIEF não tem proporcionado subsídios suficientes para a atuação adequada destes profissionais, refletindo conseqüentemente no processo ensino-aprendizagem de ciências neste nível de ensino. De acordo com o que foi relatado pelos professores, o ensino de ciências é baseado, na maioria das vezes na transmissão e recepção de informações. Poucas vezes relacionam os conteúdos de ciências ao cotidiano do aluno, proporcionando a ele compreender os fatos e fenômenos que ocorrem ao seu redor. Ou seja, um trabalho desenvolvido a partir de uma ciência alienada, fora do contexto regional e local do educando. Os cursos de formação continuada esporadicamente oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação não atendem por completo as necessidades destes professores, mas já é um passo para a melhoria do ensino de ciências. Acreditamos que o professor que atende as SIEF necessita de uma formação que o prepare para enfrentar as diversidades relacionadas às situações com as quais se depara no exercício diário de sala de aula, permitindo-lhe relacionar as situações presentes na realidade dos alunos aos conteúdos específicos de ciências. Esta formação não corresponde a um acúmulo de cursos, mas a uma reflexão sobre os conteúdos, estratégias de ensino e suas aplicações em relação ao cotidiano dos alunos. Desta forma acreditamos que elementos indicativos de uma educação problematizadora como o diálogo, problematização, autonomia, comunicação e domínio em relação aos temas relacionados a ciências podem auxiliar o aluno a atuar na sociedade enquanto indivíduo que sabe pensar, discutir e posicionar-se sobre os fatos que ocorrem ao seu redor, levando-o a compreender o mundo e suas transformações. Nesta perspectiva, a formação continuada pode ser uma ferramenta utilizada com o intuito de amenizar as dificuldades que os professores têm em lidar com algumas informações trazidas pelos livros didáticos, veiculadas pela mídia ou ainda com 22 situações do seu dia-a-dia, além daquelas de ordem metodológica, próprias da atuação docente. Referências Bibliográficas ABEGG, I. 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