PELOS CAMINHOS DAS MEMÓRIAS: O INSTITUTO DE EDUCAÇÃO DE PORTO ALEGRE E A PRODUÇÃO DE PROFESSORALIDADES Ivany Souza Ávila Universidade Federal do Rio Grande do Sul Faculdade de Educação [email protected] Palavras-chave: História da Educação, Memórias, Professoralidades Alguns apontamentos sobre memória Lembrança puxa lembrança e seria preciso um escutador infinito. (Ecléa Bosi, 1994, p.39) Memória é sentimento, emoção, relação, lembrança e esquecimento no emaranhado de sua complexidade. Maurice Halbwachs (1990) trabalha com a idéia de que lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado, salientando que a lembrança é, em grande parte, uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora manifestou-se já bem alterada. Ecléa Bosi (1994) desenvolve alguns conceitos de memória que, de certo modo, são convergentes com os de Halbwachs. Diz essa autora que: A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor. O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista. (p. 55) Ainda sobre memórias, encontro, em James Fentress (1992) conceitualizações importantes. Afirma, esse teórico, que a memória representa o passado e o presente ligados entre si e coerentes, nesse sentido, um com o outro. Esse tipo de memória é continuamente testada na vida quotidiana e a nossa experiência do presente fica inscrita na nossa experiência passada. Desde essa ótica, trabalhar com memória envolve estar vivendo um permanente processo de construção e reconstrução que carrega, consigo, todas as formas de vida e tudo que envolve sujeitos, estruturas sociais, logo significa lidar com multiplicidade de marcas de produções de sentidos que podem conectar-se, desmembrar-se, tecer-se em redes, considerando-se a pluralidade do humano e daquilo que se tome como história. No estudo que origina este trabalho, volto ao Instituto de Educação de Porto Alegre - IE, perpassada pela emoção, para revivê-lo, tomar nas mãos sua história, seu papel na educação no estado do Rio Grande do Sul. É pelas urdiduras da memória que se desenham ou se constituem na história que o IE emerge como objeto e como lócus de investigação. Tento, pois, reconstituir sua história pelas narrativas orais e escritas, através de entrevistas e pesquisas em documentos históricos e “guardados pessoais”. Através de minhas próprias memórias, das memórias de outras pessoas, da imersão na escola e do tempo vivido este estudo se produz. Posso dizer que tem caráter memorialista, com aproximações autobiográficas, biográficas e etnográficas. Posso dizer que tem aproximações com a etnografia, pelo mergulho que faço na vida que pulsava na escola, numa imersão quase holística – não porque eu hoje faça isso, mas por tê-la vivido, por lá ter estado e, agora, tomar-me como submersa no que se vivia no seu interior e exterior, nas teias com os espaços educativos da cidade. Re-constituo a história pelo prédio, pelos objetos, pelos valores, pelos rituais, pelos símbolos, pelas vozes, pelos “guardados das memórias”. Foram as memórias de alunas normalistas e depois professoras da Escola Primária do Instituto de Educação e de professoras formadoras de professoras que produziram os sentidos, na reconstrução histórica da instituição, dos processos de formação instaurados nas relações com a cidade. Da construção do objeto e dos trânsitos investigativos A construção deste objeto de pesquisa orientou-se por questões relacionadas ao IE, como escola formadora de professoras, ao que a instituiu no contexto histórico e os sentidos que, daí, se produziram nas interações com as pedagogias urbanas. Que escola era essa, como se produziu num contexto social, político e econômico? Que efeitos tem essa produção, ou seja, como as marcas do que a constituiu produziram sentidos nas vidas, nas humanidades, nas professoralidades? Que relações estabelece com a cidade e que atravessamentos essas relações produzem na formação das professoras? Que pessoas, que professoras são essas que se foram constituindo nos entremeios das infâncias, dos trajetos de vida, da formação pedagógica, dos trânsitos pelas rotas educativas da cidade? A tentativa de (re)construção desse tempo histórico emerge do desejo de narrar a mim mesma, para entender-me, nessa professoralidade que me constitui, mas minhas lembranças, “meus guardados”, não me pareceram suficientes para os entendimentos que procurava e fui ao encontro de outras memórias, pois tal como afirma Ecléa Bosi (op. cit.) "somos, de nossas recordações, apenas uma testemunha, que às vezes não crê em seus próprios olhos e faz apelo constante ao outro para que confirme a nossa visão”. (p. 407) Para encontrar-me com essas memórias, realizo este estudo, através de entrevistas informais, que, às vezes, são entrevistas-diálogo, expressão tomada de empréstimo a Edgar Morin, que diz serem as entrevistas, em alguns casos felizes, entrevistas-diálogo (in Moll, 2000). Meu papel nas entrevistas foi o de provocadora das memórias. Procurei despertar as lembranças com algumas frases, com algumas questões, deixando a fala correr solta, livre, tal como ia se desenhando por esses caminhos não lineares da memória que se movem por avanços e retrocessos. Considero que as pessoas que participaram desta pesquisa não são sujeitos, no sentido estrito do termo (sujeitos de pesquisa), posto que elas não são pesquisadas, mas através delas se faz a pesquisa. Ao mesmo tempo, elas são mais do que entrevistadas: são interlocutoras, personagens e também personalidades que viveram a escola e que tiveram seu lugar de destaque, não só nos espaços intra-escolares, como em outros espaços e tempos educativos da cidade, do estado e do país. São pessoas que compartilharam comigo suas vidas de alunas e de professoras. São mulheres, pois era uma escola povoada pelas mulheres. Essas interlocutoras não foram selecionadas. Nós nos aproximamos num movimento de mutualidade. Algumas ex-colegas, para as quais falei sobre as minhas intenções de pesquisa, logo me ofereceram seus “guardados” – fotos, álbuns, lacinhos de normalistas, históricos escolares, documentos, mostrando-se simpáticas à idéia de participarem do estudo. Daí, incluem-se na pesquisa, então, as três participantes com as quais convivi, como aluna e como professora do IE: A., M. H. e N. Minha intenção era a de trabalhar com pessoas que tivessem sido, além de alunas, professoras da Escola Primária. Procurei, ainda, aproximações com algumas ex-professoras da Escola Normal e, pelo mesmo processo, convido duas professoras: L., por ter sido e continuar sendo “minha mestra maior”, com quem aprendi, construí muito do que sou como professora, como profissional. M. L., pelo quanto representou no IE como professora e com seu trabalho de orientadora no estágio. Além disso, colocou à minha disposição um vasto material de pesquisa sobre Escolas Normais. São, portanto, cinco entrevistadas. Não há justificativa para o número, nem tampouco ele é mágico: pareceu-me o possível e o desejável para o que me propunha. É, com certeza, o desejo de que o IE e a formação de professores que lá foi vivida, em algum tempo, não desapareçam, que me moveu na produção deste estudo. Tão fascinante foi, para mim, registrar fatos de nossas memórias, quanto encontrar essas mesmas memórias em documentos escritos: livros, recortes que têm jeito, cheiro de guardados históricos. Esses “guardados” que ressuscitam lembranças ao olhar, ao tato, ao olfato, relatam e revivem comigo, parte da história do velho IE, sem perder de vista as pegadas da história do ensino, da educação neste país, neste estado, nesta cidade. Entre orgulhosa e atemorizada, me vejo como ginasiana no Instituto de Educação - as colunas são imponentes, o prédio é imponente. Obra do arquiteto Fernando Corona, o prédio foi construído em 364 dias, por iniciativa e com verba do Governo de Flores da Cunha, inspirada no templo da deusa grega Ártemis. Em 1935, 100 anos após o termino da Revolução Farroupilha, foi inaugurado o suntuoso prédio em estilo neoclássico. Essa monumentalidade, tanto do prédio, quanto do que se constituía seu interior, coloca a escola no mesmo nível de outras instituições como a igreja, o teatro, o palácio do governo e as relações, que as pessoas estabelecem com a cidade, se dão atravessadas por todo esse caráter de imponência. Essa instituição, assim construída e inaugurada, instaura-se como um espaço que exala valores, tradição, com painéis de fotos das formaturas, que preservavam a memória visual dos alunos e das alunas que se tornaram professores e professoras, com esculturas, bustos em bronze, tornando, também presentes, aqueles ou aquelas que foram o passado e que, de alguma forma, tiveram relação com a escola, seja porque por ali passaram como visitantes ilustres, ou porque foram mestres, fundadores, figuras marcantes na educação, na cidade, no estado, no país. Assim era o IE que conheci e vivi desde o primeiro momento, quando subi as escadas e, por entre as colunas, pisei seu chão marcado por muitos pés de história, é, desse modo, que o IE começa a constituir a minha vida e que se vai fazendo minha história e que eu passo também a ter existência nessa história. O que se registra na minha memória está também nos documentos históricos e nas lembranças das entrevistadas. A. refere-se ao que o IE representava como escola padrão e expressa seus sentimentos sobre uma certa magnitude. “Uma escola-padrão. Todo mundo queria estar no IE. Estudar lá era o máximo. Eu só ouvia falar sobre isso. Embora freqüentasse essa escola desde o jardim, só mais tarde, quando entrei no Curso Normal, entendi o que era ser padrão. Havia uma coisa de ordem interna da escola – laboratórios com equipamentos vindos da França, da Alemanha, balanças de precisão, hemisférios de Magdeburgo, máquinas pneumáticas, vasos comunicantes, materiais para estudo de magnetismo. Também o sentimento passava pela magnitude do prédio com suas colunas jônicas e por um auditório imponente onde se recebiam personalidades como Heitor Villa Lobos, Madalena Tagliaferro, Henriette Morineau e tantas outras pessoas marcantes”. M. H. e N. também recordam a importância dessa escola, o status, juntamente com o exame de admissão: “No IE a gente tinha um “ego”, um “status”, nós todas. O Instituto significou muito para mim. Lá me realizei, me encontrei, havia mais abertura. Vim de uma família rígida, muitos irmãos. Quando eu completei o terceiro ano, fiz teste para ingressar no IE, como era exigido para quem procedia de escola particular, rodei, só minha irmã Luisa passou. Isso porque, minha madrinha, que morava conosco e era Inspetora Federal do MEC, (inspecionava as escolas, verificava se cumpriam os regulamentos. Ela conhecia bem as escolas) insistia com o meu pai para que fôssemos estudar em escola pública, preferencialmente no IE. Então, fui fazer o teste no Grupo Escolar Argentina, onde também não consegui ser aprovada para freqüentar o quarto ano, tendo sido obrigada a repetir o terceiro. Ao final do ano seguinte, com apoio da minha madrinha, que pagou professora particular para mim, consegui ser aprovada no exame de admissão do IE, não tendo assim cursado a quinta série”. (M. H.) Ao falar sobre seu ingresso no IE, como ginasial, N. enfatiza o quanto foi significativo para ela. “Entrar no ginásio foi uma experiência fundamental. Percebi as linhas de formação (não com a nitidez que tenho agora). A escola era reconhecida socialmente. Havia alguma coisa de valorização, pairando no ar quando eu dizia que iria para o IE: Oh! Vais estudar no IE? O IE era uma escola modelo, era muito procurada, todo mundo queria estudar lá, independente de classe social. A gente sentia a presença de vários níveis sociais. Uma escola com uma formação ética completa! Eu gostava muito de estudar, de ir à escola, porque estudar foi sempre uma meta na minha vida. Eu tinha muita gratificação com a questão do estudo e era muito estimulada pela minha família. Meus pais fizeram de tudo. Dona Rosina, uma professora de meu Grupo Escolar e amiga de minha família, me levou para fazer a prova do exame de admissão. Eu saí do Grupo Escolar e fiz o admissão e passei. O IE representou uma mudança na minha visão de mundo quando entrei no ginásio com 11 anos”. No meu caso, foi com o laço azul-marinho agigantado no peito, com o peso da fidelidade ao ”Código de Honra” do Instituto de Educação que me percebi como ginasiana. Os simbolismos, os rituais compunham o quadro da tradição, dos valores. Vejamos o que contam as memórias. A gente vivia o orgulho de ser do IE. Quando entrava no Ginásio, o “laço” vinha numa bandeja de prata, era simbólico. O simbolismo é o que distingue o homem - um ser simbólico. (M. H.) Era uma vibração vestir o uniforme do IE, era um símbolo, o que ele representava. Eu curti isso durante todo o período de minha formação, era uma vivência muito pessoal, que me gratificava, me dando prazer. (N.) O laço azul-marinho, um símbolo do IE, carregava a idéia de vínculo, de compromisso, a saia azul-marinho pregueada, a blusa branca e o “laço”. Laço e lacinhos, código, hino, emblema, foto da primeira colocada na sala de aula são elementos simbólicos que constituem nossas subjetividades por processos identitários e de pertencimento. Para Morin (1991), os signos, os símbolos produzem o mundo que se projeta sobre a realidade percebida, ressuscitada, nas e pelas memórias, a representação reconstitui, mesmo na ausência, a presença concreta dos seres, das coisas, das situações evocadas. O símbolo comporta uma relação de identidade com o que simboliza, suscita o sentimento da presença do que é simbolizado, concentra uma constelação de significados e de representações ligadas por analogia e por envolvimento. Símbolo e mito se atraem e uma teoria do símbolo é também uma teoria do mito O IE é, ao mesmo tempo, um símbolo e um mito. Símbolo, desde sua materialização que se expressa no prédio, até ser a evocação da própria educação na cidade, no estado. É um mito, porque contém, em si, uma carga de representações, que se aproxima de algo que é a da ordem do mítico-sagrado, doutrinal. Simbolismos, mitos e rituais são também constituidores dessa escola-símbolo e o importante é que mesmo o que possa parecer o mais banal, como o uniforme, sendo do IE, está carregado de um mundo de significações. Esse IE, ícone da educação do Rio Grande do Sul nasceu para ser Escola Normal. Permitindo-me repetir minhas próprias palavras, neste texto, é essa escola marcada por tantos pés e tantos trajetos de história, que, em 1957 nos acolhe como normalistas. Seus processos de formação vão produzindo as pessoas, as profissionais que somos, atravessadas pelas pedagogias urbanas e pelos humanismos, ufanismos, otimismos. “Na hora que chego ao Curso Normal enxergo o outro lado. Só escutava que era padrão, que era privilégio. Começo a ver os professores que trabalhavam na nossa educação. Aquela equipe de professores da Escola Normal mantinha vínculos com outros centros – Europa – (França), tínhamos laboratórios. Havia uma preocupação “obstinada” com a “qualidade” do trabalho”. (A.) É interessante ressaltar como se registra, nas memórias, a percepção dessa “busca obstinada pela qualidade”. E isso está incrustado no vivido. O que é projeto de educação passa para ordem do sensível, do percebido. Louro (1987) estabelece a relação entre qualidade e escolanovismo. No escolanovismo o que se fala é da “qualidade” do ensino, ao invés da preocupação com a quantidade. A melhoria da qualidade significava reformar currículos e métodos de ensino, reforçar a qualificação técnica dos professores, equipar as escolas com novos recursos e laboratórios. Representava também trazer para a educação a contribuição de outras ciências – da psicologia, principalmente, mas também da biologia, da higiene, etc. [...] Buscando observar esses novos métodos e processos de ensino, grupos de professores gaúchos vão em viagem de estudos para o Rio, São Paulo, Minas; e a Escola Normal de Porto Alegre passa realmente a ser um foco irradiador dessa nova tendência pedagógica. (p.15 -16) Essa idéia de qualidade aparece reiteradamente nas falas das entrevistadas. “Há um tempo atrás comecei a pensar porque eu tinha uma formação diferenciada. Pegando um boletim da escola, lembrei das disciplinas: Fundamentos sociológicos, biológicos, psicológicos, filosóficos de Educação compunham o Departamento de Cultura Geral – depois vinha o mais profissionalizante. Várias Didáticas - Educação Física, Música (funções da música, por que trabalhar música com as crianças), Recreação, Cultura, Literatura Infantil: com Zahyra Petry. Líamos os livros infantis e fazíamos análise e crítica, Zahyra era escritora, fazia vivências contando histórias, usando recursos. Lembro, no Normal, de ter lido livros em Inglês – livros de matemática, ciências, outros. As aulas de Literatura com Isolda Paes. O teatro. As aulas de Filosofia da Maria Pereira. E, no final do curso, várias professoras de Didática muito competentes: Mariana Mazaferro – (Didática das Ciências), muitas experimentações. Didática da Matemática: Nadir Saldanha da Rocha – quando fui entender o sistema de numeração com os palitos de picolé. Na nossa formação, primeiro era a fundamentação. O curso Normal fundamentava teoricamente, conhecíamos as bases, os princípios, depois as metodologias. Lá pelas tantas da vida saquei: tivemos uma formação de três anos, em que íamos construindo os conceitos”. (M. H.) Nas redes do tempo: de pedagogias da cidade para as pedagogias de reciprocidade cidade/escola Nas buscas que faço nesta pesquisa, o que encontro, no circuito entre escola e cidade, os eventos, os marcos relacionais me levaram a criar um conceito acerca do que se vivia, então, que chamei de pedagogias de reciprocidade cidade/escola, já que a cidade só podia ser entendida como pedagogia ou as pedagogias só existiam na medida em que aconteciam pelo viver, usufruir, transformar os espaços os eventos em situações de aprendizagem. O trânsito pedagógico cidade/escola/cidade seria, no meu entender, um trânsito recíproco – daí elaboro um novo conceito: o de pedagogias de reciprocidade. Particularmente, no meu caso, foi pela escola que me introduzi nos espaços da arte, da cultura erudita. Entretanto, nos tempos do Ginásio ou, ainda mais fortemente, da Escola Normal do Instituto de Educação, não só aprendíamos da e na cidade, seja vivendo suas pedagogias, transformando em pedagógicos os espaços que se ofereciam, mas também a escola abria-se para a cidade em suas pedagogias, o que aparece em um dos depoimentos. “O movimento do IE para fora, para a cidade se traduzia através da abertura para a comunidade: tanto o TIPIE, como o Orfeão Artístico, além de se apresentarem na cidade, viajavam pelo estado. Também havia as idas ao cinema com a Maria Pereira. Combinávamos de assistir filmes que eram comentados na aula”. (A.) Durante os eventos comemorativos da Semana da Pátria, o Orfeão, como era chamado o coral das alunas, já citado muitas vezes neste trabalho, se apresentava em grandes espaços como o, hoje extinto, Campo do Cruzeiro. Nesses espaços se faziam presentes tanto o Orfeão Geral da escola, que compunha o currículo, como o Orfeão Artístico. Também o Orfeão Artístico apresentava-se no Salão de Atos da UFRGS, dentre outros espaços. A. também fala sobre isto: “No Curso Normal, foi importante minha participação no Órfeão Artístico, em eventos em que nos apresentávamos, como no campo do Cruzeiro ou em cidades do interior do estado. Íamos de trem Maria Fumaça. Recebíamos delegações de outros países cantando o Hino de cada país que se fazia representar. Também recepcionávamos povos latino-americanos com direito a namoro e tudo. A figura de Dináh Néry era altamente positiva. Muito exigente. Gritava, sapateava, mas marcante, importante. Era uma mulher pequena. Tornava-se imensa quando regia o coral. Através dela conhecemos Madalena Tagliafierro (pianista) que se apresentou no auditório do IE, onde também recebemos Heitor Villa Lobos”. A escola estabelecia uma relação com a cidade, levando o que se produzia no seu interior, o que era do seu currículo regular, como o Orfeão Artístico, o TIPIE, o Grupo de Dança ou a Banda das Tamboreiras da Escola. Assim como o Orfeão Artístico apresentava-se em grandes eventos, tanto em Porto Alegre como em outros municípios, para os quais viajavam as integrantes desse coral com sua regente, também o TIPIE tinha um papel importante nestas relações pedagógicas com as comunidades, com a cidade, com o estado. E era com entusiasmo, paixão e seriedade que nos mesclávamos aos espaços urbanos como extensões de nossas aprendizagens, de nossa escola, inflamadas pelo orgulho de pertencimento àquela Instituição. Fazíamo-nos pedagogias para a cidade, porque a escola assim se fazia. O grupo de dança e a banda também se faziam presentes não só saindo dos limites da escola, como se apresentando no seu interior para Instituições convidadas. Além das vivências espontâneas pela cidade, aprendíamos o que esta oferecia conduzidas pela mão da escola. Pela mão da cadeira de Teatro, assistíamos às peças que vinham a Porto Alegre. Nas minhas lembranças estão algumas como Otello, Romeu e Julieta, dentre outras. A oportunidade de conversar com atores nos camarins, após a peça, sempre acontecia, quando íamos acompanhadas de nossa professora de teatro. Então, Paulo Autran, Tonia Carreiro, Adolfo Celi, Maria De La Costa, Felipe Wagner, Cacilda Becker, iam se fazendo familiares. As leituras e discussões precediam a ida ao teatro e, na volta, a análise e crítica, as releituras. Lembrando a relação com o teatro, diz A.: “As idas ao teatro foram muito importantes para consolidar posições políticas, como por exemplo, “Eles não usam blacktie”, “O beijo no asfalto” – peças extremamente defensoras dos excluídos. Lembro ainda o Teatro de Arena. Também Sérgio Cardoso. No Teatro São Pedro também os espetáculos de dança, como o Real Balle da Dinamarca”. Com o "Jograis de São Paulo" descobrimos uma forma teatral que me encantou e que se desdobrou, mais tarde, em encenações com as crianças, minhas alunas. Hoje, na orientação das alunas na Prática do Ensino, faço essa proposta de trabalho e o passado tão longínquo é o próprio presente. As fronteiras se fazem tênues, quando assisto a algumas encenações de "coral falado" das crianças, por inspiração que se deu lá no “Grupo dos Quatro” - os então famosos Jograis de São Paulo que conheci pelo modo como a escola trilhava a cidade na sua competência em produzir essas relações de reciprocidade. E se eram poucas as ofertas da cidade, muito era o que se vivia, sentia, aprendia, produzia a partir daí. Os cinemas, que se concentravam mais no centro da cidade, embora também se expandissem para os bairros, abriam-se em oportunidades ímpares - significavam quase tudo de que podíamos usufruir de forma mais sistemática, já que teatro, espetáculos de danças, exposições de arte eram mais raras na cidade. O cinema era quase uma espécie de culto. Muitas de nós éramos sócias do Clube de Cinema e lá nos encontrávamos aos domingos, mesmo após a conclusão da Escola Normal, pela década de 60. Nas aulas de Filosofia, Psicologia ou Sociologia, mas mais especialmente, nas de Filosofia com a Maria Pereira, combinávamos os filmes a que assistiríamos no final de semana. Posso dizer que essas minhas lembranças também compõem a memória das participantes desta pesquisa, como bem expressa a fala de M. H.: “Tu lembras que a Maria Pereira nos mandava ao cinema? Pela primeira vez vi um filme proibido para 18 anos: “Hiroshima meu amor”. Tive que dizer que a professora havia mandado, porque se a professora mandava, meu pai permitia. O cinema na década de 60 estava florescendo”. As recordações de M. H. confirmam a importância desse meio cultural nas nossas vidas, na vida da cidade. Era a cidade pela via do cinema, do teatro, dos concertos, dos espetáculos de dança que invadia a escola, transformava-se em conteúdo ou em elemento desencadeador de estudos, logo vivifica-se no currículo ou constitui o próprio currículo para além do que está circunscrito ao papel, ao planejamento, que poderia incluir, ou não, essas vivências. Sobre isso fala A.: “Também havia o movimento pedagógico no sentido inverso: a cidade se fazia representar dentro da escola. Recebemos Henriette Morineau (francesa naturalizada, atriz de teatro), Margarida Lopes de Almeida (poetisa/ declamadora), Walmor Chagas, Pedro Bloch – “As mãos de Eurídice”. O IE se valia da hoje chamada Pedagogia da Cidade”. Além dessas, outras aprendizagens vinculadas à cidade aconteciam nas aulas ao ar livre com a Maria Pereira, onde estudávamos, discutíamos filosofia vivendo os espaços do Parque da Redenção, ouvindo os pássaros, caminhando por entre as árvores ou sentando em círculo na grama. Era aprender o conteúdo vivendo o que a cidade oferecia, era a escola vivendo a cidade. Como bem sabemos, aulas como essas eram preconizadas por Dewey e Freinet, pois vivíamos em tempos de Renovação do Ensino. Foram os estudos sobre esse tema, hoje, que me conduziram a buscar esses laços relacionais com o passado. Partindo das leituras sobre a cidade, cidade educadora, pedagogias urbanas, cheguei à construção de um conceito de pedagogia de reciprocidades cidade/escola e isso me permitiu trabalhar com a idéia de que a formação das professoras do IE se teria produzido atravessada por essas pedagogias, pela relação com uma cidade educadora, numa escola que “se abria em pedagogias” e que propiciou viver as pedagogias da cidade. É assim que me percebo: constituída por esses atravessamentos. Do mesmo modo, estão tais atravessamentos registrados nas memórias das entrevistadas de formas diversas, desde considerar as reciprocidades como marcantes na sua formação, ou atribuir à escola pouca abertura para cidade, comunidade até entendê-la com alguma abertura que vai se dar por vias distintas na vida de cada uma. Nunes (1992) me levou a refletir mais sobre as relações entre escola e cidade, pois ao tratar desse tema, referindo-se ao Rio de Janeiro, na década de 30, na gestão de Anísio Teixeira, diz que a escola, tal como a cidade, era algo mais do que um aglomerado de pessoas, conveniências sociais e equipamentos matérias: era um estado de espírito. Para além da materialidade do espaço e do processo de sua utilização, o que estava em jogo era a dimensão simbólica de representação do urbano. Essa pedagogia urbana que identificou a cidade como methodus foi elaborada por educadores que arduamente lutaram pela profissionalização pedagógica. Saberes e poderes foram acionados para construir uma política educativa desdobrada no cotidiano da cidade. O IE, aqui, em outro tempo, tanto quanto outras escolas configuravam e produziam também um outro urbano, tanto pela presença física dos prédios, da imponência das construções, quanto pela participação viva e simbólica de jovens nas ruas. Desde o quotidiano do ir e vir, de colorir a Rua da Praia, desde um jeito de namorar, de se encontrar, nas saídas e entradas das escolas até as manifestações culturais. Neste trabalho, penso que começo a participar da escrita dessa história, tentando resgatar tanto o papel das pedagogias urbanas modificando a escola, quanto o papel da escola transformando o urbano e produzindo reciprocidades que podem fazer também toda a diferença no processo de formação de professores e de professoras. Essas “verdades das memórias,” que falam de uma formação que se fez pelas reciprocidades cidade/escola, pelos vínculos identitários, que promovem um caráter de permanência, na ausência, têm se traduzido em “verdades” de laços de afetos que se materializam nos nossos (re)encontros de professoras e alunas do IE que também ocorrem, às vezes, nos trânsitos pela cidade. Desde o início, colocava-se uma questão fundante – que escola era essa que instituiu esse caráter de permanência em nossas vidas, que produziu vínculos tais, a ponto de parecer parte de nós mesmas, que lugar tem, essa escola, nos processos de subjetivação e nas ações que me tornaram a professora que sou e que me levaram a uma inserção social diferente daquela da minha classe de origem, que me aproximou da cidade, das pedagogias urbanas, do mundo da cultura erudita, que produziu “empoderamentos sociais” (expressão tomada de empréstimo a Paulo Freire). Minhas memórias me contavam dessa escola, da cidade, da produção de relações com as pedagogias urbanas, mas elas não bastavam para um registro de aproximações mais fidedignas. Foi preciso estudar essa instituição, através de outras memórias, situála no contexto histórico em que ela se constituiu, para investigar o que ela produz - os sentidos que se registram no vivido. Foram os estudos sobre cidade educadora e pedagogias da cidade, como os de Filmus (1997), Tonucci (1997), Brarda e Rios (s/d) que ativaram minhas memórias para investigar o papel da escola nessas relações, nos trânsitos educativos pela cidade, de onde se produziu uma nova categoria que nomeei de Pedagogias de Reciprocidade Cidade/Escola. É nos interstícios que nos produzimos. As memórias, trazidas pelas narrativas, me conduzem a Bosi já citada neste texto, quando enfatiza que essas representam a faculdade épica por excelência - não se pode perder, no deserto dos tempos, uma só gota da água irisada que, nômades, passamos do côncavo de uma para outra mão, a história deve reproduzir-se de geração a geração, gerar muitas outras, cujos fios se cruzem, prolongando o original, puxados por outros dedos. Isso me faz refletir sobre essas “teias da vida”, usando uma expressão de Fritjof Capra (1996). A profissional que sou, a mulher, as múltiplas que sou e que somos, as narradoras e eu, fomos nos constituindo nos atravessamentos da escola com a cidade, na vida pelos bairros, no convívio com as famílias, com os vizinhos, com os trânsitos pelos espaços urbanos. Mas foi no IE que, definitivamente, nossas professoralidades se produziram tomadas pelos humanismos, pelas moralidades, pelas eticidades - é como se tivéssemos sido capturadas por aquele continente aglutinador de ideais orientados para um dado projeto de formação. Por entre os mitos, os ritos e os símbolos que se materializavam no uniforme, nos laços e lacinhos, no código de honra, nos hinos foram se construindo os processos identitários e de pertencimento. Por esses laços, produziram-se formas de nos comportarmos, de nos entendermos como mulheres, como profissionais, como cidadãs isso pode ter significado peso, grilhões dos quais tenhamos andado nos desvencilhando ao longo da vida mas, para mim, tanto quanto para as entrevistadas significou também um grau elevado de satisfação pessoal ligado, de alguma forma, a tais laços identitários. Defendo a idéia de que os simbolismos importam, de que os valores, as tradições, os vínculos também importam. Os simbolismos nos produzem tanto quanto nós os produzimos. Os vínculos com a tradição que foram se perdendo, pelo menos no IE de hoje, foram significativos nas vidas, aqui, narradas. Bauman (2001) ajuda-me nesse processo argumentativo: É difícil conceber uma cultura indiferente à eternidade e que evita a durabilidade. Também é difícil conceber a moralidade indiferente às conseqüências das ações humanas e que evita a responsabilidade pelos efeitos que essa ações podem ter nos outros. [...] os homens e as mulheres do presente se distinguem dos seus pais, vivendo num presente que quer esquecer o passado e não parece mais acreditar no futuro. (p. 149) Cultivar a tradição como uma possível forma de não esquecer o passado e acreditar no futuro era o que acontecia no IE desde as representações que se reproduziam no seu interior. Hildair Câmera, em depoimento espontâneo, fala de forma emocionada sobre esses vínculos com o passado: “a tradição estava ali, entalhada na madeira pesada que emoldurava os quadros e nos ecos do hino que se ouvia nos corredores.” Essa escola que promovia os vínculos com a tradição só pode ser compreendida numa sociedade em que há um modus-vivendi de um tempo. Não só os vínculos e os processos identitários foram constituidores dessa escola, mas tudo que a engendrava – seu currículo, seu corpo docente e isso está lavrado nas narrativas. Um olhar mais atento para as entrevistas permitiu delinear alguns elementos marcantes na formação das professoras. Algumas marcas se referem à Escola Normal em que os destaques são dados: ao corpo docente, ao currículo, chamando a atenção para as disciplinas de fundamentos, disciplinas das didáticas, vinculadas, respectivamente, ao Departamento de Cultura Geral e de Cultura Profissional, às disciplinas de Música, Educação Física, Literatura, Literatura Infantil, Artes Plásticas, Filosofia, Sociologia, Psicologia. Grande destaque aparece para as disciplinas facultativas como o Teatro e o Orfeão Artístico. A relação com a cidade, com o estado é acentuada nas referências ao Teatro, ao Orfeão, aos centros estudantis ou religiosos. Nas relações com a cidade, as vivências culturais que criam a intimidade com teatro, música, cinema, constituem–se como elementos balizadores nos processos de formação. Nossa formação foi se fazendo pelas rotas educativas da cidade, pelos meandros das pedagogias urbanas e pela vivência da cidade como educadora – a cidade assim se constituía para nós, embora, na época, não soubéssemos disso, visto que é o nosso olhar de hoje que mira esta cidade de outrora. Nós a vivemos por nossas próprias andanças e pela mão da escola. As relações da escola com a cidade produziram esse encantamento com o mundo da arte – não seríamos as mesmas, se não tivéssemos vivido o teatro, com a intensidade que vivemos, se não tivéssemos debatido os filmes, freqüentado o Clube de Cinema, se a escola não tivesse aberto suas portas para a entrada de atores, atrizes, músicos, artistas plásticos, intelectuais, grupos de dança e se esses grupos, essas pessoas, que eram também constituidores da cidade, não tivessem se oferecido à escola, fazendo-se em pedagogias, propiciando aprendizagens. O IE das nossas histórias, das nossas memórias não existe mais, nem a sua denominação. Chama-se hoje “Centro Estadual de Formação de Professores General Flores da Cunha”. Nessa escola, que nem mesmo é mais o IE, temos o apagamento da tradição, do simbólico – ou temos outros símbolos, outras marcas, como sinais dos tempos contemporâneos. Como diz Bauman (op. cit.), na modernidade líquida, não há lugar para enraizamentos ou como complementa Mafessoli (1997) citado pelo próprio Bauman, habitamos hoje um território flutuante em que indivíduos frágeis encontram uma realidade porosa – a esse território só se adaptam coisas ou pessoas fluidas, ambíguas, num estado de permanente transformar-se. Penso que este é um trabalho sobre uma escola pública, sobre as possibilidades dessa escola que forma professores, na perspectiva de uma visão ampliada do processo educativo. Escola pública que forma professores de um tempo datado, na construção desse lugar de cidadania, nas décadas de 50 e 60 pré-reforma tecnicista e está no bojo da reforma de 46 que é de espírito humanista. Ela está num tempo em que a escola apenas começa a se abrir para as camadas populares – ela não está nem proletarizada, nem massificada. Para a escola pública atual, a sociedade não produziu estruturas sociais que dessem conta da popularização e da massificação. Esta é, pois, uma pesquisa que não serve de parâmetro para o tempo presente. Trata de um outro tempo que, no conceito “baumaniano”, seria o da modernidade pesada, mas talvez possa se pensar sobre as possibilidades de as reflexões que aqui se produziram poderem reverberar nesta modernidade da fluidez, da velocidade, dos apagamentos históricos. Quisera eu, ao concluir este trabalho, não estar convivendo com a dor da perda desta escola, deste IE, cuja história apagou-se do ar, do chão, das paredes, de todos os espaços. Para ir me aproximando de uma finalização, poderia dizer que entre peso e fluidez, há de haver um interstício, uma urdidura em que as incertezas instaurem novas perguntas e, no desassossego, entre conformidade e rebeldia, fuga e compromisso se instalem alguns resquícios de sonhos, utopias. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade - lembranças de velhos. 3ed. São Paulo: Cia das Letras, 1994. BRARDA, Analia e RIOS Guillermo. Argumentos y Estratégias para la Construcción de la Ciudad Educadora. Delegación América Latina, s/d. CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. São Paulo: Cultrix 1996: FENTRESS, James e WICKHAM, Chris. Memória Social: novas perspectivas sobre o passado. Lisboa: Editorial Teorema, 1992. FILMUS, Daniel. Escuela y Ciudad Educadora: una relación a profundizar Cidades Educadoras. Curitiba: Ed. Da UFPR. P. 75-89, 1997 FREIRE, Paulo. 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