Troca de emails entre Luís Nascimento + David Rodrigues e Frederico Duarte + Pedro Ferreira, Julho 2009 On 23/06/2009, Luis Nascimento wrote: envio o nosso conceito para a Timeless, ficamos a aguardar pelo vosso feedback, para saber se podemos avançar. Cartão desCrédito. The Office (Luís Nascimento + David Rodrigues) Desde a Revolução Industrial que a prosperidade económica tem sido promovida como um eterno objectivo a atingir. Crescer, aumentar a produção, aumentar o lucro. Esta receita tem vindo a ser seguida por todos os grandes “chefes” da produção industrial. Contudo, apesar de alguns períodos menos prósperos, o mundo tem-se desenvolvido a um ritmo demasiado rápido para as nossas capacidades. Mas, e como em todos os exemplos que a natureza nos revela, tudo terá um fim. Tudo faz parte de um ciclo, e neste momento estamos a passar por uma fase onde atingimos um limite. Um limite económico, um limite de recursos naturais, que andámos a usar excessivamente durante décadas para alimentar a nossa sempre desejada prosperidade económica. É tempo de parar para repensar toda a estrutura da nossa sociedade. Vivemos há décadas criando diariamente novas necessidades, as quais são respondidas com novos produtos, com novas tecnologias. Criamos objectos para nos poupar tempo, para viver a vida de um modo que identificamos como o nosso futuro... Chegámos a uma fase onde as pessoas têm muitos bens, mas muito poucos de 1ª necessidade. As prioridades estão trocadas. Vende-se a ideia de que será mais importante ter um telemóvel de 3ª geração do que ter comida em cima da mesa... Mas do que é que realmente precisamos? Os tempos mudam igualmente como as necessidades. Neste momento precisamos de pensar que grande parte da nossa sociedade tenta apenas sobreviver (mesmo os que têm à porta de casa um bom carro e um ipod no bolso). Estamos num contexto actual onde há pouca esperança no futuro. Mesmo junto dos jovens recém-licenciados, que enfrentam duros desafios nas suas novas etapas de vida. No entanto, e como se observou tantas vezes ao longo da nossa história, muitas vezes as oportunidades não surgem aqui. O estrangeiro torna-se mais aliciante, mais prometedor. Estamos assim perante uma nova geração de migração: uma geração de mão de obra especializada, que o país deixa escapar alegando não haver lugar para aqueles em que investiu (ou que muitas vezes tiveram eles próprios de investir) na sua educação. Escolhida a (e)migração, cada indivíduo vê-se perante o dilema da mudança de vida, de local, de trabalho, de habitação. Arranjar uma casa, bem como o equipamento básico para uma casa, são bens necessários para o conforto e bem estar. Mas quando apenas pode levar o estritamente essencial, em que é que pode (se) agarrar? Estas experiências de vida deslocada são frequentemente curtas, a prazo. Não permitam adquirir novos equipamentos, por muito baratos que eles sejam, pois no fim destes períodos terão de ser deixados para trás. Tendo tudo isto em conta, porque não criar equipamentos sem valor comercial, que mesmo após o seu ciclo de vida possam ser ainda reciclados? Ponto de partida. A cadeira Gonçalo (ainda) faz parte de grande parte das esplanadas de referência em Lisboa e no resto do país. Pegamos assim na mesma tipologia de produto, uma cadeira, sendo o nosso objectivo repensar este bem de consumo, essencial para o conforto doméstico, mas optimizando recursos e respondendo às necessidades de todo este novo grupo de portugueses. Queremos assim procurar nas indústrias materiais excedentários que possam ser utilizados para a produção desta cadeira, assim como fazer uso de um processo de produção simples e acessível a todos. Não queremos criar mais uma indústria excedentária. Por isso escolhemos o cartão, pelas seguintes razões: Podemos reaproveitar o cartão como matéria prima, nomeadamente através do uso de embalagens e resíduos de transporte e acondicionamento já existentes; É possível adquirir este material após a entrega ao cliente final, resgatando-o no momento em que chega ao final do seu ciclo de vida como produto; O cartão é um material acessível, mas cujas propriedades e possibilidades não foram ainda totalmente exploradas; A indústria do cartão, por não envolver maquinaria sofisticada, permite explorar processos relativamente simples e económicos; Queremos ainda questionar a ideia de que o cartão é um material “pobre”. O nosso objectivo é tentar criar mais do que um produto: Queremos tentar criar uma plataforma onde sejam criadas as condições para desenvolver produtos que sejam acessíveis a todos. Conectar todas as partes interessadas, de forma a tornar este conceito nalgo que continue em constante desenvolvimento... Fazer a ligação entre a indústria do cartão, cliente final consumidor de produtos de cartão, criando novos produtos e respondendo a novas necessidades sem fazer passar este material pelo processo da reciclagem. Ao criar esta plataforma, esperamos também provocar todos os que estejam interessados em contribuir para o crescimento deste conceito, desafiando a sociedade e uma sensação de inércia instaurada. de apogeu deste tipo de cadeira, o mestre serralheiro Gonçalo Rodrigues dos Santos terá criado o modelo definitivo, que veio a ser registado já nos anos 90 pela Arcalo, um dos fabricantes desta cadeira. Após anos de crise face à concorrência do mobiliário de plástico, os anos 90 trouxeram um novo interesse por este tipo de cadeira, em grande medida graças à decisão de equipar com ele todas as esplanadas do centro cultural de Belém e da Expo 98. -------------------------------------------------------------------------------- Objectivos e valor acrescentado: Criar um site/blogue explicativo de todo o nosso conceito (1ª fase: informação); Procurar criar todas as condições necessárias para o arranque do projecto (encontrar a matéria prima necessária - procurar parcerias com empresas que disponham de cartão após o seu uso, bem como apelar ao cidadão a recolha de diversos tipos de embalagens - caixote de um plasma por ex. - a usá-lo na produção deste novo produto; Procurar uma parceria com uma indústria que crie os cortantes necessários para a execução dos novos produtos; Solução alternativa: disponibilizar todos os desenhos técnicos na internet, fazendo com que cada pessoa, em sua casa, possa fazer o download de um projecto e executar em casa o corte das novas cadeiras, seguindo todas as indicações necessárias; Promover a criatividade, convidando as pessoas a enviar novas propostas de projectos para novas cadeiras. Para tal, colocaremos no site as propostas dos seus utilizadores, podendo mesmo criar um workshop cujo resultado seja publicado no site e esteja também disponível no site para download. Responder às necessidades das pessoas com o menor orçamento possível. On 29/06/2009, Frederico Duarte wrote: VALOR ACRESCENTADO - FREE DESIGN acessível a todos. Informação sobre o nosso objecto de design português de referência. Cadeira Gonçalo A cadeira Gonçalo é a mais característica cadeira de esplanada portuguesa. É na origem uma cadeira metálica pintada, de estrutura tubular em aço, composta apenas por quatro elementos: Breve HIstória - tubo que define as duas pernas de trás, o apoio para os braços e o contorno superior do encosto; - tubo que define as duas pernas da frente e o contorno posterior do assento; encosto curvo e ligeiramente reclinado; - assento ligeiramente reclinado com bordo dianteiro curvo. História As primeiras cadeiras de modelos semelhantes terão aparecido em Lisboa nos anos 30 e 40 do século XX. Nos anos 50, os anos Olá Luís! Eu só ontem consegui ver a vossa proposta, e já a tinha comentado com o Pedro e a Rita. Em primeiro lugar gostei da escolha da Gonçalo, que foi também um dos “artefactos” de que falámos desde o início. É uma boa referência portuguesa, democrática e “resistente”. Não sei é se uma cadeira Gonçalo faz um lar :-) Mas a relação que fazem entre uma peça de mobiliário de rua e a possibilidade de se tornar numa peça de mobiliário doméstico (aludindo aos móveis que “encontras na rua”) é muito boa, e está na cabeça de muita gente. Gente essa que vocês caracterizam bem: gostei muito da forma como chegaram à vossa proposta, começando com os “migrantes” e dos profissionais com grande mobilidade e pouca permanência. Esta classe de profissionais (na qual me incluo!) é um parte interessante da nossa sociedade (com as suas boas e más repercussões), e a vossa proposta pretende (também) para chegar a uma forma de suprir as suas necessidades. E isso é uma intenção muito forte. Duas observações: 1. A ir pelo mobiliário de cartão, acho que é preciso encontrar um projecto — neste caso a cadeira, aludindo à Gonçalo — e desenvolvê-lo, partilhar os desenhos, fazendo com que a coisa seja open source. Como vocês dizem, este site/fórum digital pode ser uma boa forma de consumidores partilharem ideias e projectos para mobiliário de cartão, disponibilizando até desenhos feitos por estudantes de design em (inúmeros!!) exercícios académicos... Tipo isto: http://www.instructables.com/id/Cardboard-shelffor-groceries/ Acho que a parceira com empresas de recolha de cartão desnecessária. Na minha opinião, complica todo o processo pois institucionaliza-o, e cria demasiadas expectativas. A vossa ideia funciona melhor deixando os consumidores escolherem e procurarem as suas fontes, deixando o fabrico inteiramente a cargo deles. Todo o processo ficaria assim a cargo do consumidor, desde a qualidade da matéria prima à sua execução. Afinal, podes ser mitra e apanhar caixas de cartão foleiras da Feira do Relógio ou apanhar caixotes de camisas impecáveis da Massimo Dutti! Uma plataforma digital/site) poderia ter uma zona de partilha de contactos e os melhores sítios para ir buscar cartão (cada pessoa torna-se assim no “cartoneiro” de outros tempos). 2. Independentemente do cartão, quando li a vossa proposta pensei que uma cena que eu curtia ver feita era a criação de uma plataforma digital, em Portugal, para a partilha de objectos *e* projectos de mobiliário. Poder-se-ia criar um site onde as pessoas pudessem colocar anúncios a dizer que se queriam desfazer de uma peça de mobiliário (como quando pões uma cadeira na rua, usando a analogia da Cadeira Gonçalo, que é uma cadeira de exterior mas que dá vontade de trazer para casa) ou, se fossem designers, poderiam colocar desenhos técnicos para mobiliário de cartão (mas poder-se-ia explorar outros materiais, como OSB ou contraplacado...) para quem quisesse. Tipo craigslist.org ou gumtree.com, mas só de mobiliário ou objectos. Não tinha de ser 100% de graça – as pessoas poderiam vender os desenhos ou as peças de mobiliário, mas seria uma cena sempre barata (tipo o mínimo possível). Isso não existe em Portugal, que eu saiba, e era fixe que pudesse começar aqui, nesta exposição. Há outro tipo de sites, como este http://www.kept.it/, que te pedem para não deitares fora as coisa. Não é disso que falo. O que quero dizer é começar uma plataforma de comércio/troca alternativa de mobiliário e de ideias de mobiliário. Isso sim é Timeless e “timely” pois responde à crise e à vosso – muito bom – exemplo da paranóia do iPod em vez do prato cheio. Não tem de ser isto: http://mydeco.com/the-magazine/style/ mydeco-about-us Mas também não tem de ser isto: http://www.horta-popular. blogspot.com/ Acho no entanto que, para não ser uma feira tipo really, really free market que acontece uma vez por mês aqui em NY: http:// en.wikipedia.org/wiki/Really_Really_Free_Market de deveria circunscrever o âmbito da plataforma ao mobiliário, que pode ir desde cadeiras a dicas de como fazer candeeiros de garrafas de pet cheias de água e aplicadas no telhado (sugestão da Rita, http://www.youtube.com/watch?v=7IWkZIkrA1A). Não será um site de partilha de “tralha” ou de cenas freak, mas uma plataforma de objectos e projectos de design (e aí pegamos na palavra design e rebentamos com uma data de estereótipos) Estes são os meus comentários, mas a conversa continua! -------------------------------------------------------------------------------- On 29/06/2009, Luís Nascimento wrote: Em relação ao email anterior que mandaste estivemos os 2 a debater o assunto, e eis o que pensamos relativamente às sugestões que nos deste... - a questão de partilhar os desenhos e tornar a coisa mais open source, sempre foi um dos nossos objectivos, e também remos também incentivar aos cibernautas a enviar-nos as propostas deles! - em relacão à parceria com as empresas de recolha de cartão, sim é verdade, torna-se demasiado ambicioso, talvez a nossa utopia, era tentar criar uma cadeira onde se conseguisse uma producão industrial (recolha do cartão + cortantes) a custo zero! onde o cliente encomendava no site, e pagava o transporte da cadeira pelo correio... a própria cadeira seria o seu packaging... mas isto não quer dizer que numa fase posterior não se tente fazer, acho que vamos esperar pelo desenvolvimento da coisa e ver o feedback também... mas por agora ficamo-nos pela plataforma digital e pela criação de uma cadeira. A sugestão da zona de partilha de contactos dos melhores sítios para arranjar cartão é muito boa! estamos a pensar em seguir o teu conselho! -------------------------------------------------------------------------------- On 21/07/2009, Frederico Duarte wrote: Olá David e Luís, estava aqui a falar com o Pedro e voltámos ao texto que nos enviaste. Quando falámos no outro, fiquei com a ideia que o vosso site seria não só de partilha de projectos mas também de mobiliário/objectos para a casa, criando um circuito alternativo ao circuito comercial ( e em especial ao IKEA) peara encontrar mobiliário para as “comunidades móveis” e suas necessidades de mobiliário temporário. No vosso texto não fazem menção a esta parte do site. Acharam melhor “deixá-la cair”? Se sim, porquê? Nós próprios não temos a certeza se seria uma melhoria ou um “calcanhar de Aquiles” do projecto, e temos discutindo bastante!!! É que afinal classificados grátis até já existem em Portugal... http://www.slando.pt/ e http://lisboa.olx.pt/ O que dizem? -------------------------------------------------------------------------------- On 22/07/2009, Luís Nascimento wrote: Olá Frederico, olá Pedro, No nosso conceito, nunca pensámos em partilhar objectos já existentes, queremos sim, criar projectos de vários tipos de equipamentos (cadeiras, mesas...), e disponibilizá-los no nosso site para quem queira fazer o upload (e esperar que os utilizadores também coloquem propostas no site), na nossa perspectiva, a partilha de objectos já existentes, parte já de um princípio ligeiramente diferente. Acho que nos devemos focar apenas num aspecto, caso contrário, poderemos estar a criar apenas mais uma página de classificados... --------------------------------------------------------------------------------