Universidade Presbiteriana Mackenzie VALDEMIR BORANELLI O FANTÁSTICO NOS CONTOS DE MURILO RUBIÃO: UM OLHAR SOBRE O TRINÔMIO TEXTO-LEITOR-LEITURA São Paulo 2013 VALDEMIR BORANELLI O FANTÁSTICO NOS CONTOS DE MURILO RUBIÃO: UM OLHAR SOBRE O TRINÔMIO TEXTO-LEITOR-LEITURA Tese apresentada ao Programa de PósGraduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Letras. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Ana Lúcia Trevisan São Paulo 2013 B726f Boranelli, Valdemir. O fantástico nos contos de Murilo Rubião : um olhar sobre o trinômio texto-leitor-leitura / Valdemir Boranelli. – 2013. 114 f. ; 30 cm. Tese (Doutorado em Letras) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2013. Referências bibliográficas: f. 109-114. 1. Fantástico. 2. Rubião, Murilo. 3. Texto. 4. Leitor. 5. Leitura. I. Título. CDD 809.3 ERRATA BORANELLI, Valdemir. O fantástico nos contos de Murilo Rubião: um olhar sobre o trinômio texto – leitor – leitura. 2013. 114 f. Tese de Doutorado – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, SP, 2013. Agradecimentos p.4. Final do texto. Acrescentar: “Ao Fundo Mackenzie de Pesquisa – MackPesquisa – pelo apoio financeiro ao desenvolvimento desta tese.” VALDEMIR BORANELLI O FANTÁSTICO NOS CONTOS DE MURILO RUBIÃO: UM OLHAR SOBRE O TRINÔMIO TEXTO-LEITOR-LEITURA Tese apresentada ao Programa de PósGraduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Letras. BANCA EXAMINADORA ____________________________________ Prof.ª Dr.ª Ana Lúcia Trevisan - orientadora Universidade Presbiteriana Mackenzie – SP ___________________________________ Prof.ª Drª Glória Carneiro do Amaral Universidade Presbiteriana Mackenzie – SP ____________________________________ Prof. Dr. João Cesário Leonel Ferreira Universidade Presbiteriana Mackenzie – SP _____________________________________ Prof.ª Dr.ª Karin Volobuef Universidade Estadual Paulista – Araraquara _____________________________________ Prof. Dr. Ricardo Iannace Faculdade de Tecnologia do Governo do Estado de São Paulo (FATEC) A minha amada esposa, Arlete, que permanece a meu lado encorajando-me nesta jornada. A meus queridos filhos, Paloma e Guilherme, pela compreensão dos momentos em que me mantive alheio. AGRADECIMENTOS A Ti meu Deus, por teres me propiciado que chegasse até aqui, de maneira a ser, hoje, melhor do que ontem, permanecendo em Ti, tanto quanto permaneces em mim, agora e sempre. À Prof.ª Dr.ª Ana Lúcia Trevisan, um especial agradecimento pelo incentivo e orientação, e, principalmente, por mostrar-se amiga presente nesta jornada. À Universidade Presbiteriana Mackenzie, em especial, à Prof.ª Dr.ª Diana Luz Pessoa de Barros, por acolher-me com tanto carisma. À CAPES, pelo incentivo à pesquisa e em especial a este trabalho. A todos da E.E. Profa. Orizena de Souza Elena, em especial à Diretora, Josefina Aparecida Vaceli, pelo apoio e motivação prestados constantemente. A meu irmão, Valdir, por contribuir para o sucesso desta pesquisa, mesmo que indiretamente. Aos professores que se prontificaram a compor a Banca de arguição e por se fazerem amigos. “O produto do trabalho de produção se oferece ao leitor, e nele se realiza a cada leitura, num processo dialógico cuja trama toma as pontas dos fios do bordado tecido para tecer sempre o mesmo e outro bordado, pois as mãos que agora tecem trazem e traçam outra história.” (GERALD, J.W..Portos de passagem. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p.166) RESUMO Estudos mais recentes se distanciam do conceito de Tzvetan Todorov e definem o Fantástico como fenômeno da linguagem. Nesta linha conceitual segue, entre outros, Filipe Furtado, Rosalba Campra, Mary Erdal Jordan, que preferem ver o fantástico mais como um modo narrativo gerador de ambiguidades ao invés de um sentimento de hesitação. O que é válido é a construção do texto, isto é, sua articulação na elaboração do efeito literário capaz de perturbar ao leitor. Estas definições do fantástico como fenômeno da linguagem nos permitem entendê-lo não como gênero, mas sim como modo de narrar. Partindo dessa concepção, entende-se que o texto fantástico do século XX, em especial o de Murilo Rubião, se articula por meio de elementos linguísticos, dentre eles a hipérbole e a metáfora epistemológica, tais elementos geram o efeito fantástico no leitor, de modo que estas correspondem à visão e descrição dos vazios em nossa percepção causal da realidade, a qual seria impossível ser descrita pela linguagem comum e/ou pela linguagem científica. Assim o texto de Murilo Rubião se abre para uma liberdade do leitor confrontar suas premissas com o dito pelo texto, então, é notória a necessidade de mudança de postura do leitor em relação a essa literatura, visto que se exige a presença de um leitor em carne e osso que seja capaz, por meio dos diversos níveis de leitura, confrontar seu mundo com o narrado, portanto de um leitor real. Desse modo nosso objeto de estudo é a relação texto-leitor-leitura construindo a ação narrativa, demonstrando o papel e a posição do leitor ante um texto de literatura fantástica, em destaque a de Murilo Rubião. Palavras-chave: Fantástico – Murilo Rubião – Texto – Leitor – Leitura ABSTRACT Recent studies have moved beyond Todorov’s concepts and define the fantastic as a phenomenon of language. Authors such as Filipe Furtado, Rosalba Campra, Erdal Mary Jordan, share this conceptual framework. They would rather see the fantastic like a narrative mode which generates textual ambiguities rather than a feeling of hesitation. The validity of this is in the construction of the text, that is, its articulation in producing a literary effect of disturbance to the reader. These definitions of the fantastic as a phenomenon of language allow us to understand it not as a genre, but as a way of narrating. Based on this conception, it is understood that the fantastic text of the twentieth century, especially Murilo Rubião’s text, here called neo-fantastic, is constructed through linguistic devices, including epistemological metaphor and hyperbole, which create the fantastic effect on the reader, so that they correspond to the vision and description of the gaps in our causal perception of reality, which would be impossible to be described in ordinary language and / or scientific language. Thus the text produced by Murilo Rubião frees the reader to think about what is said, then, it is evident that a change in attitude by the reader, in relation to this literature, is needed. The nineteenth century fantastic as defined by Todorov aimed at an implied reader; on the other hand, the twentieth century fantastic requires the presence of a real reader, in the flesh, to confront his views on the world with the narrative. This way, our focus is on the relation text-reader-reading making up the narrative action, demonstrating the role and the position of the reader before a fantastic literary text, highlighting the text by Murilo Rubião. Keywords: Fantastic - Murilo Rubião - Text - Reader - Reading SUMÁRIO Introdução ................................................................................................................ 10 I. Texto: da tessitura à categorização do Fantástico ....................................... 14 I.1. Definição de texto ................................................................................ 15 I.2. O texto fantástico ................................................................................. 18 I.3. A metáfora e a desestabilização da escritura ..................................... 26 I.4. Entre “O bloqueio” da linguagem da comunicação e a metáfora epistemológica do discurso fantástico ................................................. 35 I.5. II. A hipérbole como expressão formalizadora do discurso fantástico em “Aglaia” de Murilo Rubião.................... .......................................... 44 Leitor: o elo entre texto e leitura ..................................................................... 52 II.1. O leitor de Murilo Rubião: do implícito ao real ......................................... 53 II.2. A presença do leitor e a perspectiva da leitura na obra de Murilo Rubião ............................................................................................................ 61 III. Leitura: uma atividade caleidoscópica........................................................... 67 III.1. A leitura e suas dimensões ..................................................................... 68 III.2. Murilo Rubião X Vestibular: que leitura se espera .................................. 71 IV. Texto – Leitor – Leitura: Considerações Finais ........................................... 103 V. Referências Bibliográficas ............................................................................ 109 10 Introdução “... o fantástico, para o homem contemporâneo, é um modo entre cem de reaver a própria imagem.” (Jean Paul Sartre) 11 Introdução A análise da literatura fantástica pode enfatizar o papel modelador da linguagem na construção da sua realidade peculiar e, nesse sentido, destaca-se a concepção da metáfora como figura imaginativa, capaz de transferir significados, modificar sentidos e, principalmente, garantir a poeticidade do discurso na narrativa. Assim, transformada em procedimento narrativo, a metáfora se destaca no âmbito da narrativa fantástica uma vez que possibilita as repentinas e inquietantes passagens de limite e de fronteira entre o real e o imaginário. O elemento comum a toda narrativa fantástica, que é preservado como traço definitório dessa literatura, é a demarcação de uma zona convencional na qual o fantástico é configurado como irrupção, o que enfatiza a oposição natural/sobrenatural, acrescida da concepção de linguagem entre o mito literário e a polimetáfora em percursos figurativos. Tais elementos configuram o universo narrativo de Murilo Rubião, objeto de estudo desse trabalho, que será analisado na perspectiva dos sentidos constitutivos da sua narrativa eminentemente metafórica e poética. A narrativa murialina condiciona a possibilidade de ocorrência do fantástico como um derivado natural de um material linguístico que, sendo expressão verbalizada do puramente imaginário, contrapõe a realidade opcional à convencional. Nesse sentido, os limites de configuração do fantástico são dados pelo texto na totalidade de seus níveis, na metaforização da hipérbole, na literalização da metáfora e no nível sintagmático, em se tratando de impertinência semântica. Este enfoque se dá mediante os estudos mais recentes, pois novas concepções definem o Fantástico como sendo um fenômeno da linguagem. Nesta linha conceitual podemos citar, entre outros, Remo Ceserani, Filipe Furtado, Irène Bessière, Rosalba Campra, Mary Erdal Jordan que preferem ver o fantástico mais como um modo narrativo gerador de ambiguidades que um sentimento de hesitação, como era definido o Fantástico do século XIX por Tzvetan Todorov. Assim, o que é válido é a construção do texto e sua articulação na elaboração do efeito literário capaz de perturbar o leitor. Estas definições de fantástico como fenômeno da linguagem nos permitem entendê-lo não como gênero, e sim, como modo de narrar. A partir daí, o 12 objeto de estudo é a relação texto-leitor-leitura construindo a ação narrativa, demonstrando o papel e a posição do leitor ante um texto de literatura fantástica, em especial a de Murilo Rubião. Desse modo torna-se nosso objetivo demonstrar como a atmosfera do conto fantástico é decisiva no trabalho literário de Murilo Rubião enquanto fenômeno da linguagem e, consequentemente, tecer considerações sobre a problemática do leitor e da leitura a partir de diferentes enfoques teóricos, na receptividade dessa narrativa. Para tanto, no que se refere à articulação do texto muriliano, Jaime Alazraki, Roger Bozzetto, Rosemary Jackson e Audemaro Taranto Goulart serão pivôs para que possamos entender os mecanismos do texto do autor em questão, visto que este é composto em sua totalidade por estruturas linguísticas capazes de desestabilizar o leitor frente às realidades apresentadas. Partindo das concepções desses autores, nos deparamos com as seguintes questões: Que leitor espera essa literatura? Qual é a leitura esperada desses textos? A partir da ideia de que na literatura, não apenas o autor e o texto são elementos fundamentais na estrutura da narrativa, mas também o leitor é peça integrante desse sistema e, consequentemente, corresponsável na atribuição de sentidos dados a ação literária. Isto sugere que o leitor vem sendo tratado em um novo contexto teórico e paralelamente sua ação, a leitura, também. Isso nos faz pensar em um possível paradigma de leitor para o texto fantástico de Murilo Rubião: o leitor real. Assim como houve mudanças nas concepções do fantástico que antes era definido apenas pelo efeito de hesitação que a narrativa causava na personagem e juntamente no leitor (Todorov) e, agora, vê-se o fantástico mais como um modo, um fenômeno narrativo, há também a necessidade de se pensar em uma outra concepção de leitor para este tipo de narrativa. Se para aquela concepção de fantástico se pensava em um leitor implícito, para essas novas concepções devemos pensar em um leitor capaz de se movimentar pelo texto reconhecendo seus mecanismos e suas engrenagens linguísticas de modo que o texto atenda as suas expectativas. Para isso, analisaremos diferentes posicionamentos do leitor e da leitura no contexto de textos de literatura fantástica com foco na produção de Murilo Rubião, segundo as posições de alguns teóricos e estudiosos do campo, como por exemplo, Wolfgang Iser, Umberto Eco, Antoine Compagnon, Paul Ricoeur, Michel Picard, Vincent Jouve, Roland Barthes, entre outros. 13 Uma vez que no texto fantástico surge uma realidade segunda (criada), que não deixa de ser uma representação da realidade primeira, é possível propor o questionamento a respeito do papel do leitor na elaboração das realidades apresentadas no espaço do texto fantástico. Uma leitura realista pode ser possível e tradutora dos sentidos do texto, porém, uma leitura que mergulha nos sentidos imaginativos e inexplicáveis expressos no fantástico também pode existir. A partir desta questão, deparamo-nos com o problema central: detectar como a metáfora se aplica de modo a romper com o nominalismo literário e atingir a qualidade de realismo e, sobretudo, detectar a relação entre leitor e leitura de modo a assegurar a verossimilhança na criação ficcional do fantástico. Partindo do conceito de que o Fantástico é uma manifestação linguística, nosso foco de estudo é perceber como se estrutura esse texto, analisar os mecanismos que articulam a tessitura e, consequentemente, a textualidade nos contos de Murilo Rubião. Desse modo, no primeiro capítulo, “Texto: da tessitura à categorização do fantástico”, faz-se uma análise dos elementos constitutivos do texto, de sua estruturação e da construção das metáforas e, de modo global, como o texto se articula para a caracterização da narrativa neofantástica. No segundo capítulo, “Leitor: o elo entre texto e leitura”, objetiva-se um estudo que identifique um possível leitor para a narrativa fantástica de forma a garantir uma leitura que ultrapasse os limites do enredo meramente estranho, sobrenatural ou fantasioso e adentre uma leitura metafórica do real. Por último, no terceiro capítulo, “Leitura: uma atividade caleidoscópica”, analisa-se as dimensões do ato de leitura sob a ótica das teorias sobre texto e leitor, e por meio de estudo de questões de vestibulares analisa-se uma leitura que se estabelece dos contos de Murilo Rubião no âmbito dos parâmetros educacionais. Ressalta-se que não pretendemos esgotar essa discussão ao longo desse trabalho, são posições para que possamos impulsionar uma reflexão sobre essa literatura tão peculiar em nossas letras e sua relação com os leitores atuais que se tornam cada vez mais adeptos à leitura dessas narrativas. 14 I. Texto: da tessitura à categorização do Fantástico “El texto consigue, si no la transparencia de las relaciones sociales, al menos la de las relaciones de lenguaje: es el espacio en el que ningún lenguaje tiene poder sobre otro, es el espacio en el que los lenguajes circulan” (BARTHES, Roland. El susurro del lenguaje. 1987, p. 81) 15 I.1. Definição de texto Existem inúmeras definições para a palavra “texto”, o termo dicionarizado se aplica a um enunciado qualquer, oral ou escrito, independente de sua extensão, portanto podendo ser curto ou longo. Desse modo, são textos: uma frase, um diálogo, um poema, um conto, um romance e até mesmo uma única palavra, desde que, esta, dentro de um contexto específico, apresente sentido completo, a que chamamos de palavra-frase, como a que se apresenta em expressões como “Pare”, “Silêncio”, “Perigo”, etc. Além desta definição bastante simples dos dicionários, podemos definir “texto” de duas maneiras: como objeto de significação e como objeto de comunicação. No que tange à primeira concepção, refere-se a sua organização ou estruturação, assim, volta-se o olhar para o objeto como um “todo de sentido”, estudam-se os procedimentos e mecanismos que o estruturam, analisando “aquilo que reúne, junta ou organiza elementos diversos e mesmo dissociados, [...] aquilo que os transforma em um todo organizado. (CHARAUDEAU, 2006, p. 467). É nesse mesmo sentido que podemos, igualmente, interpretar o texto como produtividade, conceito que, segundo Greimas (2008, p. 503), subsume o conjunto das operações da produção e das transformações do texto, e que procura levar em conta, ao mesmo tempo, propriedades semióticas da enunciação e do enunciado. É válido lembrar que, “um texto é mais bem pensado não como unidade gramatical, mas antes como uma unidade de tipo diferente: uma unidade semântica. A unidade que o texto tem é uma unidade de sentido em contexto, uma textura que expressa o fato de que ele se relaciona como um todo com o ambiente no qual está inserido” (CHARAUDEAU, 2006, p. 467). A partir disso, concebemos o texto enquanto objeto de comunicação entre dois sujeitos, desse modo, o texto se encontra entre os objetos culturais e sociais e determina-se por formações ideológicas específicas. Assim, o texto é alvo de uma análise externa, a partir da qual examina o objeto em relação ao contexto sócio-histórico em que está inserido. Partindo do pressuposto de que o texto só existe mediante a dualidade que o define – objeto de significação e objeto de comunicação – buscamos em nosso estudo de modo a conciliar as análises internas e externas do texto, analisando tanto 16 os mecanismos internos que o estruturam ou organizam quanto os fatores contextuais que abrangem na criação de sentido do texto. O que é válido frisar neste momento é que o objeto dessa tese é o texto literário que se constitui das referências já apresentadas até então e congregam outras no âmbito de que o texto literário interpreta aspectos da realidade efetiva, mas o faz de maneira indireta, recriando o real num plano imaginário. Desse modo, como afirma Barthes, podemos dizer que o texto é plural, e em relação a essa ideia o autor complementa: Lo cual no se limita a querer decir que tiene varios sentidos, sino que realiza la misma pluralidad del sentido: una pluralidad irreductible (y no solamente aceptable). El texto no es coexistencia de sentidos, sino paso, travesía; no puede por tanto depender de una interpretación, ni siquiera de una interpretación liberal, sino de una explosión, una diseminación. La pluralidad del Texto, en efecto, se basa, no en la ambigüedad de los contenidos, sino en lo que podría llamarse la pluralidad estereográfica de los significantes que lo tejen (etimológicamente el texto es un tejido). 1(BARTHES, 1987, p.77). Sendo assim, cabe ao leitor passar pela tessitura do texto, reconhecendo seus elementos constitutivos de modo a imprimir significados mediante essa pluralidade do sentido, tendo em vista que o discurso ficcional é uma organização simbólica que assume a função representativa. Deste modo, vale ressaltar a concepção de ficção como mundo possível: “La literatura es un sistema semiótico para la construcción de mundos posibles, llamados normalmente mundos ficcionales. Un mundo ficcional puede definirse de forma muy sencilla como una serie de individuos ficcionales componibles (agentes, personajes)”. 2 (DOLEZEL, 1999, p.166) O papel do leitor frente a um texto literário nos é apresentado de modo bastante ilustrativo por Barthes (1987, p.80) quando diz que ler, no sentido de consumir, não é jogar com o texto e nos alerta para a necessidade de tomar a 1 O qual não se limita a querer dizer que tem vários sentidos, e sim que realiza a mesma pluralidade do sentido: uma pluralidade irredutível (e não somente aceitável). O texto não é coexistência de sentidos, mas sim passagem, travessia; não pode portanto depender de uma interpretação, nem se quer de uma interpretação liberal, e sim de uma explosão, uma disseminação. A pluralidade do Texto, em efeito, se baseia, não na ambiguidade dos conteúdos, e sim no que poderia chamar-se a pluralidade estereográfica dos significantes que o tecem (etimologicamente o texto é um tecido). (Tradução nossa) 2 A literatura é um sistema semiótico para a construção de mundos possíveis, chamados normalmente mundos ficcionais. Um mundo ficcional pode definir-se de forma muito simples como uma série de indivíduos ficcionais componíveis (agentes, personagens). (Tradução nossa) 17 palavra “jogar” em toda sua polissemia, nesse caso, o texto em si mesmo “joga”; e o leitor, por sua vez, joga duas vezes, primeiramente, joga com o texto (sentido lúdico), busca uma prática que o reproduza; porém para que esta prática não se reduza a uma mimese passiva, interior (o texto é precisamente o que se resiste a esta redução) e, por conseguinte, executa a obra, neste sentido, nota-se que Barthes brinca com o duplo sentido de “jouer”, jogar ou executar (instrumento musical): El texto es más o menos una partitura de ese nuevo estilo: solicita del lector una colaboración práctica. Gran innovación, porque ¿quién ejecuta la obra? (Ya se planteó la pregunta Mallarmé, y pretende que el auditorio produce el libro)3. (BARTHES, 1987, p. 80). Porém, esta função do leitor será tratada mais adiante, especificamente no segundo capítulo, que tratará sobre o papel do leitor frente ao texto fantástico. Torna-se necessário, neste momento, ressaltar que neste capítulo trataremos do texto de Murilo Rubião, onde analisaremos como o texto muriliano se articula para gerar o efeito do fantástico, causando grande desconforto, de modo a desestabilizar o leitor. Para tanto partiremos de algumas considerações sobre o Fantástico para, a seguir, realizarmos uma análise estrutural dos contos pertencentes ao corpus deste estudo. 3 O texto é mais ou menos uma partitura desse novo estilo: solicita do leitor uma colaboração prática. Grande inovação, porque quem executa a obra? (Já levantou a questão Mallarmé, e pretende que o auditório produz o livro). (Tradução nossa) 18 I.2. O texto fantástico A priori, reproduziremos algumas definições de “fantástico” para que, subsequentemente, possamos delinear a estruturação textual dessa narrativa na obra de Murilo Rubião como fenômeno da linguagem, ou ainda, como modo de narrar. Todorov, em Introdução à literatura fantástica, apresenta uma definição extrínseca do que é o fantástico. Para ele, o fantástico é uma “hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural”. (TODOROV, 2004, p. 31) Esta hesitação seria experimentada pelos personagens, principalmente pelo personagem-narrador, auto ou homodiegético, e transpassada para o leitor. A hesitação do leitor seria, para Todorov, a marca principal do fantástico e ele indica três condições necessárias para a classificação de uma narrativa como fantástica: Primeiro, é preciso que o texto obrigue o leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de criaturas vivas e a hesitar entre uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. A seguir, esta hesitação pode ser igualmente experimentada por uma personagem; desta forma o papel do leitor é, por assim dizer, confiado a uma personagem e ao mesmo tempo a hesitação encontra-se representada, torna-se um dos temas da obra; no caso de uma leitura ingênua, o leitor real se identifica com a personagem. Enfim, é importante que o leitor adote uma certa atitude para com o texto: ele recusará tanto a interpretação alegórica quanto à interpretação “poética”. (TODOROV, 2004, p. 39) Já Mary Erdal Jordan, em seu livro La narrativa fantástica (1998), afirma que este sentimento de hesitação é característica do fantástico tradicional, pertencente ao século XIX, diferenciando-se do fantástico moderno, que não apresenta tal hesitação. “Un texto fantástico moderno es aquél en el que no se da la vacilación como elemento textual, y viceversa respecto de lo fantástico tradicional”.4 (ERDAL JORDAN, 1998, p. 110). Outra grande divergência entre o fantástico do século XIX, aqui chamado de tradicional e o fantástico moderno, século XX, apresentada por Erdal Jordan, é a 4 “Um texto fantástico moderno é aquele no qual não se dá a hesitação como elemento textual, e vice-versa no tocante ao fantástico tradicional .” (Tradução nossa) 19 falta de espanto diante do fato sobrenatural, o que se traduz por uma naturalização do fantástico. Lo que Todorov califica “un fantastique généralisé” (1970, p. 182) y Mc Hale denomina “the rethoric of contrastive banality” (1987, p. 76), es un fantástico que se caracteriza porque en él el fenómeno sobrenatural es plenamente representado y, fundamentalmente, integrado ‘con naturalidad’ en el mundo ordinario que lo engloba. (ERDAL JORDAN, 1998, p. 112)5 Paradigma dessa concepção são, a nosso ver, os contos de Murilo Rubião, pois as personagens não se espantam com o fenômeno sobrenatural. Como exemplo, podemos citar “O bloqueio” (1974), no qual o protagonista, Gérion, aceita com naturalidade o desaparecimento de andares superiores e inferiores em relação ao andar em que vive, integrando com naturalidade o fenômeno sobrenatural ao mundo ordinário, sem nenhum motivo de susto ou questionamento. Todorov (2004, p. 181) assinala que, nesta modalidade, em lugar da hesitação, produz-se uma adaptação do acontecimento sobrenatural, em um processo que é, finalmente, de naturalização do sobrenatural. É o que Selma Calasans Rodrigues, em seu livro O fantástico (1988), denomina de fantástico naturalizado ou “naturalização do irreal”. Mas, vale lembrar, que apesar dessa naturalização do fenômeno sobrenatural, não podemos prescindir da noção de uma transgressão de ordens, posto ser essa a diferença entre o fantástico e o maravilhoso. Mary Erdal Jordan (1998, p. 113), considera que a “banalização” do sobrenatural, em lugar de neutralizar o efeito fantástico aguça e intensifica o confronto entre o normal e o paranormal, afirmando que esta justaposição do paranormal sobre o natural e o evidente mal-estar que provocam esses relatos caracterizam o fantástico, afastando-o do puramente maravilhoso. Bastos (2001, p. 27), ao realizar um estudo sobre a obra de Murilo Rubião, afirma que, para Barrenechea, o que distingue o fantástico do maravilhoso é justamente o fato de que, neste último, a convivência de fatos normais e anormais não é problemática. No realismo mágico e/ou maravilhoso os fenômenos 5 O que Todorov qualifica de “um fantástique generalisé” (1970, p. 182) e MC Hale denomina “the rethoric of constrative banality” (1987, p.76), é um fantástico em que o fenômeno sobrenatural é plenamente representado e, fundamentalmente, integrado ‘com naturalidade’ no mundo ordinário que o engloba. (Tradução nossa) 20 sobrenaturais são aceitáveis por apresentarem justificativa, ou seja, por encontrarem respaldo na crença coletiva. Já no fantástico moderno, os mesmos fenômenos também são aceitos com naturalidade pelos protagonistas, porém, apesar de aceitáveis, o sobrenatural, aqui, rompe a ordem natural, causando um mal-estar tanto nas personagens, quanto no leitor, o que torna problemática essa convivência. Así la literatura fantástica quedaría definida como la que presenta en forma de problema hechos a-normales, a-naturales o irreales. Pertenecen a ella las obras que ponen el centro de interés en la violación del orden terreno, natural o lógico, y por lo tanto en la confrontación de uno y otro orden dentro del texto, en forma explícita o implícita.6 (BARRANECHEA, 2009, p. 393). Essa convivência problemática, traço característico do fantástico, não se dá, fundamentalmente, por meio de seres sobrenaturais, monstruosos ou aterrorizantes, como afirma Bastos: Para Malrieux, o elemento perturbador pode ser um fantasma, um morto-vivo, uma estátua que se anima, um duplo. Não é obrigatoriamente sobrenatural nem precisa ser exterior ao personagem, mas deve minar o equilíbrio intelectual do personagem e, dessa maneira, questionar os quadros de pensamento do leitor. A narrativa fantástica dá a ver a confrontação do personagem com um elemento perturbador, cuja presença ou intervenção representa uma contradição profunda com os quadros de pensamento e de vida do personagem, ao ponto de o transtornar completamente. (BASTOS, 2001, p.23 - 24) Nesse caso, temos como exemplo o conto “A noiva da casa azul” de Murilo Rubião, no qual não há nenhuma figura sobrenatural rompendo a ordem natural do protagonista, mas sim, um transtorno no pensamento do personagem, que ao ler uma carta deixada pela namorada, começa uma viagem ao passado que afeta a ordem do seu pensamento e o leva ao devaneio. Alazraki se une a esta tentativa de especificação do gênero e, referindo-se a Cortázar, define o fantástico como uma incursão em ordens que não se atêm à captura racionalista da realidade, incursão que conduz à ampliação desse conceito: 6 Assim a literatura fantástica ficaria definida como a que apresenta na forma de problema feitos anormais, extranaturais ou irreais. Pertencem a ela as obras que põem o centro de interesse na violação da ordem terrena, natural ou lógica, e portanto na confrontação de uma ou outra ordem dentro do texto, de forma explícita ou implícita. (Tradução nossa) 21 Así entendido, lo fantástico representa no ya una evasión o digresión imaginativa de la realidad sino, por el contrario, una forma de penetrar en ella más allá de sistemas que se fijan a un orden que en literatura reconocemos como “realismo”, pero que en términos epistemológicos, se define en nuestra aprehensión racionalista de la realidad.7 (ALAZRAKI, 1983, p. 86). Por outro lado, Furtado parte de Todorov para conceituar o fantástico e preenche algumas lacunas deixadas pelo teórico búlgaro, definindo o gênero a partir dos elementos internos constitutivos da narrativa e sua consequente realização textual: Uma organização dinâmica de elementos que, mutuamente combinados ao longo da obra, conduzem a uma verdadeira construção de equilíbrio [...] é da rigorosa manutenção desse equilíbrio, tanto no plano da história como no do discurso, que depende a existência do fantástico na narrativa. (FURTADO, 1980, p. 15) Complementa dizendo que a temática do sobrenatural é a essência do fantástico, expressa pela dialética entre dois mundos: o extra-natural e o empírico. Essa dialética impossibilita a aceitação ou exclusão de uma dessas entidades, gerando ambiguidade e duplicidade: Só o fantástico confere sempre uma extrema duplicidade à ocorrência meta-empírica. Mantendo-a em constante antinomia com o enquadramento pretensamente real em que a faz surgir, mas nunca deixando que um dos mundos assim confrontados anule o outro, o gênero tenta suscitar e manter por todas as formas o debate sobre esses dois elementos cuja coexistência parece, a princípio, impossível. A ambigüidade resultante de elementos reciprocamente exclusivos nunca pode ser desfeita até ao termo da intriga, pois, se tal vem a acontecer, o discurso fugirá ao gênero mesmo que a narração use de todos os artifícios para nele a conservar (FURTADO, 1980, p. 35 - 36) 7 Assim entendido, o fantástico representa não mais uma evasão ou digressão imaginativa da realidade mas, pelo contrário, uma forma de penetrar nela mais além de sistemas que se fixam a uma ordem que em literatura reconhecemos como “realismo”, mas que em termos epistemológicos, se define pela nossa apreensão racionalista da realidade. (Tradução nossa) 22 Para Furtado, o que define o gênero é a construção narrativa, onde o insólito é posto em oposição à realidade, configurando uma tensão frente à ambiguidade gerada pelo texto e não o sentimento de hesitação da personagem, narrador e leitor como dantes proposto. Paes diz na “Introdução” do livro Os buracos da máscara – antologia de contos fantásticos (1985) que Irène Bessière também considera a definição de Todorov um tanto restritiva, e que a pesquisadora [...] prefere ver o fantástico menos como o resultado de uma hesitação entre o natural e o sobrenatural do que como uma ênfase posta na contradição entre ambos: “É próprio do fantástico emprestar a mesma inconsciência ao real e ao sobrenatural, reunindo-os e contrapondo-os um ao outro num só e mesmo espaço e numa só e mesma coerência, que é a da linguagem e a da narrativa”. (PAES, 1985, p. 9) Sendo assim, Bessière vê o sobrenatural e o natural como categorias puramente literárias. Esta visão é defendida também por Erdal Jordan ao afirmar que “la manifestación de lo fantástico moderno que presenta mayores divergencias respecto de lo fantástico tradicional; ella corresponde a lo fantástico como fenómeno del lenguaje” 8(1998, p. 111), e aponta para definição equivalente de Campra (2011) que denomina “fenômeno da escritura”, mas a necessidade da alternância de terminologia por questão modernizante da linguagem. Blüher, é quem, primeiramente, partiu para essa definição do fantástico como fenômeno da linguagem: No cabe la menor duda de que esta nueva concepción estética postmoderna de una intertextualidad lúdico-irónica y paradójica representa un importante elemento constitutivo de aquel arte narrativo “neofantástico” que desde Kafka, Apollinaire y los surrealistas se separa de la literatura fantástica “clásica” del siglo XIX y, en lugar de la irrupción irritante de lo sobrenatural en un mundo narrado en general miméticamente que allí se encuentra, introduce aquí lo fantástico como producido en forma puramente lingüística, no mimética.9 (BLÜHER, 1992, p.129). 8 “A manifestação do fantástico moderno que apresenta maiores divergências em relação ao fantástico tradicional, ela corresponde ao fantástico como fenômeno da linguagem”. (Tradução nossa) 9 Não cabe a menor dúvida de que esta nova concepção estética pós-moderna de uma intertextualidade lúdicoirônica e paradoxal representa um importante elemento constitutivo daquela arte narrativa “neofantástica” que desde Kafka, Apollinaire e os surrealistas se separa da literatura fantástica “clássica do século XIX e, no lugar 23 Estas definições de fantástico como fenômeno da linguagem nos permitem entendê-lo não como gênero, e sim, como modo de narrar. Diante disso, nos é possibilitada uma visão mais ampla do conteúdo abordado pelos textos de Murilo Rubião, já que o fantástico muriliano se constrói por meio de efeitos organizados em torno do uso da linguagem. Desse modo, perceberemos no decorrer deste trabalho como as metáforas e as hipérboles assumem um papel fundamental na construção textual do escritor em questão. Além, é claro, de outros recursos que a linguagem nos permite, como a nominalização das personagens que nos auxilia na leitura da obra, a ambiguidade gerada pelo relato, a alegoria, o discurso elíptico, etc. Nesta mesma direção segue Remo Ceserani, que prefere ver o fantástico mais como um modo narrativo em vez de gênero. Partindo do conceito de Bessière, o crítico italiano afirma que [...] o fantástico surge de preferência considerado não como gênero, mas como um ‘modo’ literário, que teve raízes histórica precisas e se situou historicamente em alguns gêneros e subgêneros, mas que pode ser utilizados – e continua a ser, com maior ou menor evidência e capacidade criativa – em obras pertencentes a gêneros muito diversos. (CESERANI, 2006, p. 12) Esta postura de que o fantástico se define como modo de narrar é reafirmada por Rosemary Jackson: La narrativa fantástica confunde elementos de lo maravilloso y de lo mimético. Afirma que es real lo que está contando – para lo cual se apoya en todas las convenciones de la ficción realista – y entonces procede a romper ese supuesto de realismo, al introducir lo que – en estos términos – es manifiestamente irreal. Arranca al lector de la aparente comodidad y seguridad del mundo conocido y cotidiano, para meterlo en algo más extraño, en un mundo cuyas improbabilidades están más cerca del ámbito normalmente asociado con lo maravilloso. El narrador no entiende lo que está pasando, ni su interpretación, más que el protagonista; constantemente se cuestiona la naturaleza de lo que se ve y registra como ‘real’. Esta inestabilidad narrativa constituye el centro de lo fantástico como modo.10 (JACKSON, 1986, p.32) da irrupção irritante do sobrenatural no mundo narrado em geral mimeticamente que ali se encontra, introduz aqui o fantástico como produzido em forma puramente lingüística , não mimética. (Tradução nossa) 10 A narrativa fantástica confunde elementos do maravilhoso e do mimético. Afirma que é real o que está contando – para o qual se apóia em todas as convenções da ficção realista – e então procede a romper esse suposto de realismo, ao introduzir o que – nestes termos – é manifestamente irreal. Arranca do leitor a aparente comodidade e segurança do mundo conhecido e cotidiano, para envolvê-lo em algo mais estranho, em um 24 Seguindo a proposta de Rosemary Jackson, o fantástico aborda um modo de escritura que alia o irreal com o real. Para a autora, o que é válido é a construção do texto, sua articulação na elaboração do efeito literário capaz de perturbar o leitor, gerando o efeito de ambiguidade/duplicidade proposto por Furtado. Para gerar esse efeito ambíguo o narrador enfatiza a oposição entre o irreal e o mundo conhecido, o fantástico incorpora anomalias e excessos provenientes de outros discursos – filosóficos, religiosos, míticos, morais – sobre o comportamento humano. Desse modo, deve lutar contra a alienação e a aprovação desses discursos, visando atingir um efeito estético de uma lógica do acaso e do irracional, a fim de construir um texto que sustente o verossímil na narrativa. Nesse duplo movimento, o texto abre-se em um espaço de ambiguidade, o que acarreta o efeito fantástico, gerando um núcleo enigmático que desestabiliza o leitor mediante o conflito entre o discurso fantástico e o discurso social; este conflito atua provocativamente e define um efeito estético da narrativa, portanto, um modo de narrar. O fantástico como modo narrativo foi, segundo Ceserani, [...] uma particular combinação, e um particular emprego, de estratégias retóricas e narrativas, artifícios formais e núcleos temáticos. A modalidade literária que foi assim produzida serviu, [...], para alargar as áreas da ‘realidade’ humana interior e exterior que podem ser representadas pela linguagem e pela literatura e, ainda mais, para colocar em discussão as relações que se constituem, em cada época histórica, entre paradigma de realidade, linguagem e as nossas estratégias de representação. Trata-se, é oportuno dizer, de estratégias não apenas representativas mas também cognitivas. (CESERANI, 2006, p. 67 – 68) A essas estratégias retóricas e narrativas, Ceserani acrescenta o uso de certos procedimentos formais e sistemas temáticos, que embora não sejam exclusivos do fantástico, contribuem para a sua construção. No caso da literatura muriliana, a metáfora e a hipérbole fazem parte de tais procedimentos. mundo cujas improbabilidades estão mais próximas do âmbito normalmente associado com o maravilhoso. O narrador não entende o que está acontecendo, nem sua interpretação, mais que o protagonista; constantemente se questiona a natureza do que se vê e registra como ‘real’. Esta instabilidade narrativa constitui o centro do fantástico como modo. (Tradução nossa) 25 Partindo desses conceitos de que o Fantástico é uma manifestação linguística, um modo de narrar vinculado às escolhas e estratégias de linguagem, nosso objetivo é perceber como se estrutura esse texto, analisar os mecanismos que articulam a tessitura, a textualidade nos contos de Murilo Rubião e buscar a compreensão do processo de leitura de tais estratégias. 26 I.3. A metáfora e a desestabilização da escritura A metáfora, considerada por muitos linguistas e estudiosos como “o tropo dos tropos”, é a figura do discurso mais importante, primeiramente, designou diversas transferências de denominação na Poética de Aristóteles antes de referir-se apenas às transferências por analogia. Os estudos teóricos sobre a metáfora são constantes, perenes na teoria da literatura. Em Aristóteles (1951), a metáfora consiste em transportar para uma coisa o nome de outra, ou do gênero para a espécie, ou da espécie para o gênero, ou da espécie de uma para a espécie de outra, ou por analogia, que, conforme entendemos, está frequentemente ligada a uma comparação abreviada. Richards define a metáfora como “dois pensamentos de diferentes coisas que atuam juntos e escorados por uma única palavra, ou frase, cujo sentido é resultante da sua interação” (RICHARDS, 1965, p. 93 apud MOISÉS, 2004, p. 285). Paul Henle conceitua a metáfora sob a perspectiva do binômio de Richards: “sentido literal e sentido figurado, com a diferença de que os dois sentidos dizem respeito não só a cada termo considerado autônomo, como à dualidade que formam” (HENLE, 1966, p.175 apud MOISÉS, 2004, p. 285). No âmbito dos estudos críticos brasileiros, novos teóricos traçam concepções acerca da metáfora como questão de pensamento, em outros termos, a metáfora e o pensamento estariam profundamente entrelaçados, “de modo a poder inferir-se que o pensamento é metafórico” (MOISÉS, 2004, p. 283). O emprego do vocábulo “metáfora” como sinônimo de figuras de linguagem ou de pensamento aponta para modalidades da metáfora, enquanto esta designaria o processo global de figuração ou expressão do pensamento literário, revelando-se como raciocínio imaginativo que opera por semelhança. Assim, nossa hipótese é a de que a metáfora, enquanto pensamento analógico, percorre toda a narrativa fantástica de Murilo Rubião. Esta concepção de que a metáfora baseia-se em uma relação de analogia e similitude percebida entre dois objetos correspondentes aos dois sentidos é defendida, também, por Jakobson, que confere uma extensão não-linguística à metáfora. “Ao lado da metonímia, a metáfora torna-se um dos grandes polos da linguagem, recobrindo as relações de similaridade” (JAKOBSON, 1969, p. 109). 27 Vale lembrar que os textos em prosa apresentam uma distinção fundamental no emprego da metáfora em relação à poesia. Enquanto esta a utiliza de forma direta e imediata, aquela a emprega de forma indireta e mediata. Desta forma o índice metafórico das frases, períodos, parágrafos, etc., apenas se revelará ao término da leitura, será a globalidade da significação da narrativa que iluminará o conteúdo semântico das metáforas espalhadas pelo texto, o que acarretará um grau maior de sentidos. Exemplo disso ocorre no conto “O edifício”, de Murilo Rubião, onde se relata a interminável construção de um edifício, sob a responsabilidade do engenheiro João Gaspar, que inicia seu trabalho sem interessar-se pela finalidade de um prédio com ilimitado número de andares e, que ao chegar ao seu octingentésimo andar, João Gaspar entra em conflito com os operários e desiste da construção da obra, porém estes se mantêm aferrados ao trabalho e continuam com a construção mesmo contra as ordens de João Gaspar e, até mesmo, sem terem nenhuma gratificação pelo trabalho realizado. Diante desse relato, apenas ficamos sabendo o que as palavras enunciam referencialmente. Contudo, ao término do conto, pela reconstituição dos sucessivos microcontextos (por exemplo, os relatos contidos em cada microcapítulo), aclara-se, na razão direta da perspicácia crítica do leitor, o significado metafórico de cada passagem. Ao concluir a leitura do conto “O edifício”, o leitor poderá entender a “Faculdade de Engenharia” como metáfora de uma academia literária que preza pelos valores estéticos; o “Conselho Superior da Fundação” como representação das normas para o processo de criação literária; o engenheiro João Gaspar como o autor da obra e os operários sendo os leitores que atuam como coautores na construção do sentido textual. O conto “O edifício” é constituído de dez microcapítulos que também podem representar metaforicamente o processo de criação literária. O que leva o leitor a perceber-se como peça integrante desse processo, visto que, ao chegar no sétimo microcapítulo, lembrando que o sete é o tempo da criação, da completude, o leitor depara-se com o fato do engenheiro João Gaspar (autor) sentir-se o dono da obra, a figura única do processo de criação: “Da última laje, as mãos apoiadas na cintura, teve um momento de mesquinha grandeza, julgando-se senhor absoluto do monumento que estava a seus pés” (RUBIÃO, 1999, p. 164). O oitavo microcapítulo é o momento em que o leitor toma a frente da obra para atribuir-lhe sentidos, tornar- 28 se coautor da obra: “Os operários se negaram aceitar o ato de dispensa [...] Por fim, disseram que iriam trabalhar à noite e aos domingos, independente de qualquer pagamento adicional” (p.166). Já o décimo e último microcapítulo, evidencia a questão do discurso, no caso metafórico ou poético, contribuir para a construção de diversos sentidos: “Não raro, entusiasmados com a beleza das imagens do orador, [...] os obreiros retornavam ao serviço, enquanto o edifício continuava a ganhar alturas” (p.167). Quando todos os sentidos próximos se desvelam, ainda assim o texto reserva uma área a que chamaremos de “metáforas abertas, evoluindo para o enigma, a alegoria, o símbolo e o mito” (MOISÉS, 2004, p. 288), como é possível percebermos na leitura de Goulart (1995) que também defende que a infinita construção do arranha-céu é uma alegoria do próprio processo de construção ficcional. Vale lembrar que esta alegoria, também, foi sugerida por Davi Arrigucci Jr. na apresentação do livro O pirotécnico Zacarias (1974). Além da leitura que vê a construção do edifício como sendo também a construção do texto, Goulart afirma que: [...] pode-se perceber a presença de um mito sincrônico, que coloca em evidência a figura do mestre (do catedrático), não acreditando nas possibilidades das produções vanguardistas. Da mesma forma, há, no conto, o descoroamento de um mito diacrônico, representado pela história bíblica da Torre de Babel. (GOULART, 1995, p.78) O que é válido lembrar neste momento é que por meio das metáforas imaginativas podemos empreender uma nova compreensão da experiência de leitura, de novos sentidos dados ao pensamento e à ação sobre a realidade. Em outros termos, por analogia e similitudes construímos determinadas imagens, mesmo que estas fujam de nosso conceito habitual, possibilitando criar uma instância do pensamento poético e, consequentemente, estabelecer relações com o real, ou melhor, com elementos já conhecidos. A metáfora é uma figura que permite, com uma operação verbal, relacionar mundos semânticos que normalmente estão muito distantes. Neste caso podemos recorrer à terminologia richardsiana de “tenor” (teor) e “vehicle” (veiculação) que equivalem às locuções 29 “idéia original” e “idéia tomada de empréstimo”; “aquilo que está sendo dito ou pensado” e “aquilo com que está sendo comparado”; “a idéia subjacente” e “a idéia imaginada”; “o tema principal” e “aquilo a que se lhe assemelha”; “ou ainda mais confusamente, ‘o significado’ e ‘a metáfora’ ou ‘a idéia’ e ‘a sua imagem’” (RICHARDS, 1965, p. 96, apud MOISÉS, 2004, p. 285) Dessa forma, aquilo que nos parece estranho no início torna-se familiar, mesmo sob o prisma fantasmático. A metáfora é mais que uma figura de linguagem, pois funciona como uma estrutura de pensamento poético, que possibilita estabelecer semelhanças, transferir significados e até mesmo modificar sentidos e, sobretudo, garantir a poeticidade do discurso nos contos. Assim, transformada em procedimento narrativo, a metáfora possibilita as repentinas e inquietantes passagens de limite e de fronteira entre o real e o imaginário, características fundamentais da narrativa fantástica, como afirma Alazraki: Lo fantástico nuevo no busca sacudir al lector con sus miedos, no se propone estremecerlo al transgredir un orden inviolable. La transgresión es aquí parte de un orden nuevo que el autor se propone revelar o comprender, pero ¿a partir de qué gramática?, ¿según qué leyes? La respuesta son esas metáforas con que lo fantástico nuevo nos confronta. Desde esas metáforas se intenta aprehender un orden que escapa a nuestra lógica con la cual habitualmente medimos la realidad o irrealidad de las cosas.11 (ALAZRAKI, 1983, p. 35). Assim, Alazraki entende que o fantástico do século XX, também chamado aqui de neofantástico, não pretende gerar medo, mas é uma forma de tocar a realidade prescindindo de esquemas e sistemas lógicos. Segundo o crítico, esse desajuste se produz ao nível da sintaxe. Deste modo, na obra de Murilo Rubião, dáse lugar à metáfora e à hipérbole como recursos estilísticos. O conto “O edifício” é exemplo claro desses recursos, visto que o prédio ganha tamanho hiperbólico, mais 11 O fantástico novo não busca sacudir ao leitor com seus medos, não se propõe estremecê-lo ao transgredir uma ordem inviolável. A transgressão é aqui parte de uma nova ordem que o autor se propõe revelar ou compreender, mas, a partir de que gramática? Segundo a que leis? A resposta são essas metáforas com que o fantástico novo nos confronta. Desde essas metáforas se tenta apreender uma ordem que escapa a nossa lógica racional com a qual, habitualmente, medimos a realidade ou irrealidade das coisas. (Nossa tradução) 30 de 896 andares e continua a ganhar novos pavimentos, em uma construção interminável. Além das metáforas apontadas anteriormente, o conto está repleto delas, em toda parte podemos perceber os sentidos metafóricos, como por exemplo na passagem “vagas experiências de outra escola de concretagem” (p.159), referindo-se ao Concretismo, movimento literário que surgiu no ano de 1965, mesmo ano da publicação do conto, o que metaforicamente, além de representar a construção textual, refere-se também, como dito por Goulart (1995, p79) um ataque contra o discurso dos críticos literários. A própria hipérbole se metaforiza representando as várias construções de sentidos que o texto literário possibilita. Conforme Roger Bozzetto, a intenção do discurso da ficção mimética, a do universo da representação, se baseia em dois pressupostos: 1) o de que tudo é representável, ou, em outros termos, o mundo é objetivável por meio da narração, que é suscetível de oferecer um modelo confiável do mundo segundo um ponto de vista totalizante. 2) Esta representação passa pela analogia. O conjunto constitui uma estratégia metafórica. “La estrategia no supone el uso exclusivo de la metáfora, por supuesto. Esto significa que la obra tiene como intención fabricar una metáfora del mundo referencial, un analogon, una transposición.”12 (BOZZETTO, 2001, p. 225). Assim, a estratégia metafórica permite, como o próprio autor diz, sugerir tanto o não dito, em profundidade, como construir simulacros da realidade visível ou simplesmente possível. Tomando novamente como exemplo o conto “O edifício”, podemos pensar, mediante a sugestão “em profundidade” de um não dito no relato, mais especificamente nos discursos do Conselho Superior da Fundação: “ Nesta construção não há lugar para os pretenciosos. Não pense em terminá-la, João Gaspar. [...]” (p.160), do próprio engenheiro João Gaspar: “Por que legavam a um mero profissional tamanho encargo? Quais os objetivos dos que tinham idealizado tão absurdo arranha-céu?” (p.165) e na infinitude do edifício. Em todos estes casos a estratégia metafórica constrói in absentia um não dito e o faz presente, ou seja, mediante a esses exemplos, nota-se que o texto não diz, mas o não dito se presentifica na perspicácia do leitor a ponto deste compreender que metaforicamente o engenheiro (autor) não é unívoco e que sua obra não é 12 A estratégia não supõe o uso exclusivo da metáfora, evidentemente. Isto significa que a obra tem como intenção fabricar uma metáfora do mundo referencial, um análogo, uma transposição. (Tradução nossa) 31 conclusiva, que assim como o edifício se constrói infinitamente a construção dos sentidos do texto também. Para a construção de simulacros possíveis, o autor de literatura fantástica quando não expressa tudo acerca do mundo imaginário que cria, constrói uma base com ajuda de “palabras-señal” (palavras-sinal), para utilizar o termo empregado por Roger Bozzetto (2001, p. 225), que se articulam para constituir indicações com o fim de que o texto permita induzir um transmundo analógico. Dentre as palavra-sinal apresentadas no conto “O edifício”, destacam-se: “edifício”, “artífices”, “engenheiro”, “obra”, “operário” e “orador”, que se relacionam de modo a estabelecer a analogia entre o mundo dito e o não dito. La verosimilitud necesaria pero particular (basada en una doxa explícita) fundamenta el simulacro, situando al lector en la posición del arqueólogo que, a partir de algunas huellas, reconstruye la civilización, el trasmundo del relato. (…) Lo “no dicho” no crea aquí un efecto de fisura; la analogía rellena todas las brechas por las que un efecto de vértigo, ante la ausencia de referencias, podría introducirse.13 (BOZZETTO, 2001, p. 225). Diante disso, Bozzetto descreve o fantástico, seus efeitos, como o produto de uma retórica específica – “una retórica de lo indecible” – que constrói uma maquinaria textual que permite a irrupção do inomeável no mundo assim representado. “Innombrable, indecible, irrupción, ruptura de la legalidad racional, son las fórmulas empleadas con mayor frecuencia. En resumen, el texto fantástico sería el lugar donde lo imposible de decir tomaría forma.”14 (BOZZETTO, 2001, p. 227). Desse modo, Murilo Rubião em seus contos desestabiliza o leitor por meio da construção retórica que se articula de modo a criar estratégias metafóricas. Assim, os contos murilianos acionam todo um conjunto de procedimentos: compõem um universo ao qual o leitor não possa dar um sentido satisfatório. Sempre que o leitor tenta dar um sentido satisfatório ao texto produz-se outro efeito, que faz surgir 13 A verossimilhança necessária mas particular (baseada em uma doxa explícita) fundamenta o simulacro, situando ao leitor na posição do arqueólogo que, a partir de algumas pegadas, reconstrói a civilização, o transmundo do relato. (...) O “não dito” não cria aqui um efeito de fissura; a analogia preenche todas as brechas pelas que um efeito de vertigem, ante a ausência de referências, poderia se introduzir. (Tradução nossa) 14 Inomeável, indizível, irrupção, ruptura da legalidade racional, são as fórmulas empregadas com maior frequência. Em resumo, o texto fantástico seria o lugar onde o impossível de dizer tomaria forma. (Tradução nossa) 32 ambiguidades, lembrando que esta é característica do fantástico segundo Furtado (1980), incongruências, rupturas na tessitura dos enunciados ou entre o enunciado e sua instância enunciativa. Frente a isso, como diz Bozzetto, o Fantástico parece construir-se para desconstruir toda representação, para calar aquilo que se supõe que há de dizer. Assim, o conto “O edifício” se constrói sob os padrões do fantástico enquanto modo de narrar, constituído de estratégias metafóricas que aparentemente contrapõem com nossa capacidade de representação. Ao depararmos com tantas lacunas do não dito, como visto anteriormente e ao fato de nos depararmos com um edifício que prossegue ao infinito, somos deixados a mercê da incapacidade de aplicar em todas as passagens do texto nossas impressões representativas, omitindo aquilo que supostamente haveria de ser dito, gerando ambiguidades em nossas interpretações. A respeito do texto fantástico, Bozzetto acrescenta que na realidade podem existir momentos de ambiguidade ante a realidade que não coincidem com nossas expectativas, nossos costumes, porém tal fenômeno não dura. É o mesmo que ocorre com a concepção apresentada por Todorov sobre a hesitação. Na verdade, o fantástico existe, com seu efeito desordenado que conduz o leitor à vertigem ou ao mal-estar, porém não dura. No fantástico, a razão oscila, mas não se deixa levar, ele só existe em estado incipiente e sua existência é efêmera. Diante disso, é válido dizer que o que garante a permanência dessa ambiguidade é o texto enquanto arte, pois, conforme Bozzetto (2001, p. 241), partindo da concepção de Lefebve (1965, p.246), afirma que somente a arte tem a possibilidade de fazer que dure este instante ambíguo sob a forma de um estado, de um texto, de uma maquinaria cujas engrenagens – por muito que as desmontamos – seguem funcionando, o que explica que podemos ler e reler textos fantásticos e continuar nos fascinando com eles, porque são o mecanismo da produção de um efeito de vertigem repetido, e que todos os textos fantásticos repetem sob formas diversas. Sem mostrá-lo, ameaçando ou prometendo fazê-lo. Nos contos de Murilo Rubião é possível perceber que, por mais leituras que sejam feitas, o efeito de fascinação se mantém; ao ler e reler os contos murilianos, a confiança na estabilidade do mundo se engana, a evidência da distinção entre o real e o imaginário se faz defeituosa, e esta ambiguidade provoca uma fascinação, que coloca em xeque a própria razão, a qual é substituída por um questionamento da percepção. Como diz Lefebve (1980, p.93) ante esta imagem fascinante, a realidade 33 que passava desapercebida se converte em problemática, encontrando-se assim “presentificada”, e esta “presentificação” é o que contribui à fascinação. Deste modo, o texto constrói um espaço de acolhida, onde não só o indizível se manifesta, mas também a alteridade se apresenta. A alteridade é o modo de tornar evidente uma realidade “outra”, por meio da linguagem essa realidade é criada, desvinculada do eu. A alteridade, conforme Bozzetto (2001, p.234), só é pensável, representável sob a forma do confuso, do disperso, do fragmentário, do caos. Para que estas formas se estabeleçam, o texto se constitui de diversos procedimentos da linguagem, como a metáfora, a hipérbole, o oximoro e a metonímia. Desse modo, o texto de Murilo Rubião nos apresenta uma realidade outra, incomunicável por meio da linguagem comum. Para revelar a realidade “outra”, aquela que se apresenta como incomunicável e indizível, Murilo Rubião, assim como todo texto que dialoga com o fantástico, se embrenha nos recursos de linguagem, explorando todas as potencialidades do discurso poético, no qual se salienta o uso da metáfora. Como todo lenguaje, las metáforas de la literatura neofantástica buscan también establecer puentes de comunicación, sólo que ahora el código que descifra esos signos ya no es el diccionario establecido por el uso. Es un código nuevo, inventado por el escritor para decir de alguna manera esos mensajes incomunicables en el llamado “lenguaje de la comunicación”.15 (JACKSON, 1986, p.19) Desse modo, nos contos de Murilo Rubião, os elementos fantásticos – a infindável construção em “O Edifício”; o desaparecimento de andares do prédio em “O Bloqueio”; o morto-vivo em “O pirotécnico Zacarias” – são portadores de um sentido metafórico que extrapolam os sentidos referenciais da comunicação, no intuito de revelar a realidade “outra” que seria incomunicável e indizível, passível de elaboração pela presença da metaforização da linguagem, provocadora da desestabilização do relato e consequentemente da leitura ou do entendimento do leitor. 15 Como toda linguagem, as metáforas da literatura neofantástica buscam também estabelecer pontes de comunicação, só que agora o código que decifra esses signos já não é o dicionário estabelecido pelo uso. É um código novo, inventado pelo escritor para dizer de alguma maneira essas mensagens incomunicáveis na chamada “linguagem da comunicação” (Nossa tradução) 34 Segundo Alazraki (2001, p.277) esses elementos fantásticos e/ou anormais que irrompem no relato não são meros arbítrios ou desboques da imaginação, não são apenas criações fantasiosas e imaginárias. Constituem a resolução metafórica às situações e conflitos presentes no conto. “Ese lenguaje segundo – la metáfora – es la única manera de aludir a una realidad segunda que se resiste a ser nombrada por el lenguaje de la comunicación.”16 (ALAZRAKI, 2001, p. 278). Conclui-se que o fantástico na obra muriliana assume o papel de questionar algo da realidade, do nosso cotidiano, aquilo que está no familiar, aquilo que é inquietante no familiar, porém indizível pela linguagem da comunicação17, ou melhor, pela linguagem comum, tudo passa a ser dissolvido pelo fantástico e apresentado de modo metafórico, plausível, carregado de ambiguidades temáticas, que se convertem, monstruosamente, em fantasmagorias. 16 Essa linguagem segunda – a metáfora – é a única maneira de aludir a uma realidade segunda que se resiste a ser nomeada pela linguagem da comunicação. (Nossa tradução) 17 O termo “linguagem da comunicação” foi utilizado aqui conforme o conceito de Alazraki, que o compreende como designante da linguagem do dia a dia, corriqueira. Porém, por acreditarmos que toda e qualquer linguagem faz parte do complexo processo de comunicação, preferimos, de agora em diante, referir a essa linguagem como “linguagem comum” pelo fato do termo ser mais claro em seu sentido de linguagem habitual, usual, de uso geral, trivial. 35 I.4. Entre “O bloqueio” da linguagem comum e a metáfora epistemológica do discurso fantástico Em seu texto ¿Qué es lo neofantástico?, Jaime Alazraki afirma que a metáfora corresponde à visão e descrição dos vazios em nossa percepção causal da realidade. Vazios que não podem ser preenchidos pelo discurso da linguagem comum, desse modo, cabe à metáfora tal preenchimento. Para denominar essas metáforas, Alazraki adota o termo “metáfora epistemológica”, utilizada primeiramente por Umberto Eco, em seu livro Obra aberta (2010b). Para Eco, o termo alude à condição das obras de arte como complemento do conhecimento científico, assim, não se poderia dizer nada que não estivesse já dito pelas ciências. Alazraki restringe o uso do conceito e lhe atribui um sentido diferente do atribuído por Eco e prefere chamar de “metáforas epistemológicas” a essas imagens do relato neofantástico que não são “complementos” do conhecimento científico e, sim, “alternativas”, modos de nomear o inomeável pela linguagem científica ou pela linguagem comum. Quando tentamos dizer o indizível ou nomear o inomeável por meio da linguagem científica ou comum ocorre o bloqueio destas linguagens, impossibilitando o homem de relatar a realidade outra. Porém quando recorremos a essas metáforas epistemológicas, somos capazes de atribuir sentidos aos signos do texto. Seguramente o desaparecimento de andares do prédio onde habita Gérion, protagonista do conto “O bloqueio”, obedece uma intenção metafórica: degradação da estrutura social; redução do indivíduo que visa chegar à sua essência; autoensimesmamento do humano; etc. Essas são condições que não estão expressas no texto e que dificilmente conseguiriam provocar o mesmo efeito de incômodo intenso, caso fossem transcritas pela linguagem comum ou científica. Assim tomamos como exemplo o conto “O Bloqueio” de Murilo Rubião, no qual o protagonista Gérion, em meio a uma hesitação entre sonho e realidade ouve barulhos de máquinas que trabalham na ação de desconstruir o edifício onde vive. Gérion é o único habitante do prédio, vivendo ali há apenas três dias. Alugou o apartamento por telefone com um nome “suposto”, falso, no intuito de fugir de sua família, a esposa Margarerbe e a filha Seatéia, que Gérion estimava apenas por “obrigação natural que têm os pais de amar os filhos”. 36 Mesmo alugando o apartamento no anonimato, Gérion foi encontrado pela esposa que pede ao marido, por telefone, para voltar para casa. E Seatéia reforçou o convite, mas depois disse-lhe que se quisesse poderia ficar onde estava caso estivesse melhor. A ligação foi interrompida de imediato. Depois de alguns momentos de silêncio a máquina voltou a fazer ruídos, recomeçando o trabalho da desconstrução do edifico. Gérion percebe que não há mais andares acima de seu apartamento, apenas amontoados de pó. Correu alguns andares abaixo e quase se deixa cair no vazio, pois haviam desaparecido também os andares que sustentavam o prédio, ficando seu apartamento suspenso no ar. Assim, Gérion não tem para onde ir, fica ilhado em seu apartamento com medo do momento em que seria aniquilado, neste momento cerrou a porta com a chave. Diante do relato de “O bloqueio”, Goulart afirma que [...] o que faz muito sentido no conto é que, ao se dar o rompimento dos princípios da lógica, estabelece-se o confronto dominador/dominado, uma vez que o edifício em que Gérion se encontrava estava sendo destruído por uma máquina que jamais se mostrava. Fica clara assim a opressão sobre o indivíduo, inexoravelmente dominado, sem possibilidade de reagir, principalmente porque ele se encontrava diante de forças que não podia enfrentar, posto que não conseguia nem mesmo encarar seu antagonista. (GOULART, 1995, p. 35) Para Goulart, a destruição do prédio insinua a própria destruição do protagonista, enquanto a máquina e sua esposa Margarerbe são índices de uma mesma realidade angustiante. Porém, para expressar essa angústia de Gérion diante da solidão e do desconhecido que o condena a isolar-se, ocorre o bloqueio da linguagem comum e/ou científica, posto que seriam insuficientes e, talvez até mesmo, incapaz de relatar o transtorno do personagem diante de uma realidade perturbadora. Assim o texto se utiliza do uso de metáforas epistemológicas. Por meio das metáforas epistemológicas, podemos atribuir sentidos aos signos do texto, possibilitando-nos uma leitura metalinguística do conto. O relato de Murilo Rubião insinua a própria construção do relato fantástico, abordando o uso das metáforas enquanto produtoras de múltiplas leituras, de modo a desestabilizar o leitor pelos vazios provocados pelas mesmas. Assim, atentamos para a maquinaria textual do relato, já que cada elemento empregado no texto exerce metaforicamente 37 um sentido capaz e ao mesmo tempo incapaz de se deixar traduzir em uma única leitura. Chamamos a atenção para o uso constante de números na obra de Murilo Rubião, em especial, no conto “O bloqueio”, visto que, os números que aparentemente servem apenas para contar, fornecem, desde tempos antigos, e principalmente nos textos bíblicos, uma base de escolha para as elaborações simbólicas, o que confere também aos numerais a representação de ideias, qualidades e não apenas quantidades. Assim percebemos que a estrutura do conto “O bloqueio” está dividido em sete minicapítulos, o que metaforicamente simboliza a totalidade do texto. O número 7 é o símbolo universal de uma totalidade, mas de uma totalidade em movimento. Desse modo, a partir do momento em que fazemos uma leitura metalinguística do conto “O bloqueio”, este insinua o processo de construção do próprio relato, esta ideia de totalidade em movimento faz todo sentido, pois o leitor está em constante movimento ao ler um conto de gênero fantástico, sendo que este leitor é condicionado a buscar sentidos às metáforas empregadas no texto, de preencher os vazios deixados pelo autor; o leitor é levado sempre a levantar os olhos do texto, como diz Barthes em seu livro O prazer do texto. Quando o leitor não levanta os olhos por si só, o próprio texto o condiciona a fazê-lo. Em “O bloqueio”, ao avançarmos na leitura, nos deparamos com questões que nos forçam a buscar sentidos ao texto por meio de questionamentos feitos pelo próprio narrador: “Estariam construindo ou destruindo?” (p.246); “Sobreviveria às latas?” (p. 247); “Gostara de alguém?” (p. 249); “...emitiria a máquina vozes humanas?” (p. 250); “Por que uma e não várias, a exercer funções diversas e autônomas, como inicialmente acreditou? (p. 250); “...teria tempo de contemplá-la na plenitude de suas cores?” (p. 251). Todas essas questões são metaforicamente condutas que o leitor deve apresentar ao ler um texto fantástico, buscando na totalidade do texto um sentido. Porém, a respeito da conduta do leitor, trataremos no próximo capítulo. O que é válido neste momento é demarcar o efeito das metáforas nesse processo dinâmico do texto em sua totalidade. O texto, representado metaforicamente pelo termo “máquina” no conto de Murilo Rubião, evidencia a ideia de unidade, do todo, porém múltiplo nos sentidos gerados pelas metáforas. “Sim, única e múltipla na sua ação” (p. 250). 38 Voltando à questão dos numerais, o número sete, segundo Santo Agostinho, “[...] mede o tempo da história, o tempo da peregrinação terrestre do homem” (CHEVALIER, 2007, p. 828), o que metaforicamente poderia representar a peregrinação do leitor, o caminho percorrido pelo leitor em seu processo de leitura, em busca do desconhecido, da realidade outra. Ainda segundo Chevalier (2007, p, 826), o sete representa a totalidade do universo em movimento mediante a associação do número quatro, que simboliza a terra (com seus quatro pontos cardeais) e o número três que simboliza o céu. Para Chevalier (2007), “desde as épocas vizinhas da pré-história, o 4 foi utilizado para significar o sólido, o tangível, o sensível.” (p.758); “O quatro simboliza o terrestre, a totalidade do criado e do revelado” (p.759) “Quatro é ainda o número que caracteriza o universo na sua totalidade (mais freqüentemente trata-se do mundo material, sensível)” (p. 760). O três, para o autor francês, refere-se a uma “participação no mundo invisível supraconsciente, que decide um acontecimento de um modo alheio à lógica puramente humana” (p. 900), “ ...o número três aparece ligado à realização de um fato de caráter mágico e psíquico...” (p.901). Diante disso, temos metaforicamente o texto como sendo o universo literário em movimento que se articula por meio da associação entre o quatro que simboliza o lógico, o real, a realidade primeira e o três, que simboliza o anormal, o sobrenatural, a realidade outra. Em meio ao conto “O bloqueio”, que está dividido em sete minicapítulos, como já dito, encontramos constantemente menção ao número três e quatro: “No terceiro dia em que dormia...” (p. 245); “Acendeu a luz e consultou o relógio: três horas.” (p. 245) ; Dentro de três dias estará tudo acabado” (p. 247); “Quatro pavimentos haviam desaparecido, como se cortados meticulosamente, limadas as pontas dos vergalhões, serradas as vigas, trituradas a lajes. Tudo reduzido a fino pó amontoado nos cantos.” (p.246 – Grifo nosso). Esta última passagem, representa a ideia da associação entre o quatro e o três, resultando a totalidade. Apresenta-se explicitamente o quatro no início da frase que segue pela descrição de três ações (limadas, serradas e trituradas), resultando em uma unidade (Tudo reduzido a fino pó...). Assim como ocorre nesta passagem citada, há outros momentos no texto em que o autor se utiliza do número três, implicitamente representado por meio de uma 39 descrição gradativa, como por exemplo na fala de Gérion a sua esposa: “Vá para o diabo. (1) Você, (2) seu dinheiro, (3) sua gordura.”18 (p. 247 – Enumeração nossa). Tudo convergindo para a totalidade dos sete minicapítulos. O sete, complementa Chevalier (2007, p. 828), “pela transformação que inaugura, possui em si mesmo um poder, é um número mágico”, capaz de revelar uma realidade outra, ou melhor, unir os contrários, o dualismo existente na percepção do homem frente a realidade que o cerca. E é assim que o texto fantástico se articula associando relatos realistas com descrições do cotidiano, comum à lógica humana com elementos anormais e/ou sobrenaturais de modo a revelar uma realidade desconhecida, incomunicável, indizível senão pelo viés da linguagem metafórica do fantástico. Essa associação entre os dois mundos está marcada também no conto pelo termo “arco-íris”, logo ao final do texto: “Pelas frinchas continuavam a entrar luzes coloridas, formando e desfazendo no ar um contínuo arco-íris: teria tempo de contemplá-la na plenitude de suas cores?” (p.251). Aqui, o termo refere-se metaforicamente às metáforas do texto que são capazes de ligar a realidade primeira à realidade outra pois, como afirma Chevalier (2007, p 77) “o arco-íris é o caminho e mediação entre a terra e o céu” – representados anteriormente pelos números “quatro” e “três” – “é a ponte ... entre o Outro-Mundo e o nosso” e continua afirmando que na Grécia, “simboliza também, de modo geral, as relações entre o céu e a terra, entre os deuses e os homens: é uma linguagem divina”. Diríamos aqui, que é uma linguagem fantástica. Linguagem esta, capaz de unir a razão e a desrazão, o natural e o sobrenatural, o normal e o anormal, o racional e o irracional em uma aliança linguística geradora de um efeito fantasmático. Aliança representada, no conto, pelo arco-íris, já que, de modo mais explícito, a Bíblia faz do arco-íris a materialização da aliança.19 Outro elemento que nos chama a atenção no conto “O bloqueio” de Murilo Rubião é o nome dado às personagens porque são carregados de sentidos metafóricos que contribuem para a busca do sentido na totalidade da obra. Os designantes nominais das personagens tomam uma dimensão importante na montagem do texto, pois, designam as personagens entre as quais vêm se inserir 18 A numeração é nossa. E disse Deus: Eis aqui o sinal do concerto que vou fazer convosco, e com toda alma vivente que está convosco, em todo o decurso das gerações futuras para sempre. Eu porei meu arco nas nuvens, e ele será o sinal do concerto, que persiste entre mim e a terra. (Gênesis, 9, 12-17) 19 40 enunciados que dizem respeito ao fazer e ao ser. Dessa forma, o nome realiza várias funções essenciais: antes de tudo “dá vida” às personagens. Do mesmo modo, contribui para produzir um efeito do real. Este efeito será tanto mais forte quanto o nome for fabricado segundo os padrões vigentes. Consequentemente, o nome é de alguma maneira a base global e constante. Identifica a personagem e a distingue de outras. Cada vez que se menciona um determinado nome equivale também lembrar o conjunto de suas características. A esse processo de revelação do ser e fazer da personagem por meio do nome chama-se motivação do nome, que em termos concretos significa a capacidade de prefigurar o que é e o que faz a personagem. Isso pode ocorrer de modo explícito ou implícito. No caso do conto “O bloqueio”, nota-se que essa prefiguração dos nomes ocorre de modo implícito, levando o leitor a compreender o sentido dos nomes das personagens somente no decorrer do enredo. Assim, o leitor poderá inferir, em uma leitura metalinguística do conto, que Gérion provem do verbo “gerar” (genere) que significa trazer, dar existência a, produzir, criar, executar, portanto Gérion representaria uma alusão ao autor/leitor. Infere-se aqui o sentido alusivo aos dois sujeitos, autor/leitor, pelo fato de ambos serem construtores do texto, vale lembrar que Barthes nos relata sobre a morte do autor, momento em que o leitor toma as rédeas do texto, mas esta questão será tratada no próximo capítulo, dedicado ao leitor. O que é válido no momento é percebermos que Gérion é quem produz, cria, dá existência ao texto. E, quando se diz texto, nos referimos ao texto fantástico, já que, Gérion foge das estruturas minuciosamente descritivas da escritura tradicional realista, representadas no conto por meio da personagem Margarerbe. O nome Margarerbe parece formar-se mediante a junção de dois termos: “margar” e “érbio”. “Margar”, segundo o dicionário, significa adubar, corrigir o terreno com marga, o que nos leva a interpretar que “margar” sugere corrigir o texto com descrições, elementos linguísticos capazes de darem substância ao texto, preenchimento às descrições de modo que o texto não apresente tantas lacunas, facilitando o processo de leitura para o sujeito leitor. Érbio é um elemento de número atômico 68, metal pertencente a um grupo seleto de 17 elementos químicos, de relativa abundância na crosta terrestre, considerados raros pela dificuldade da sua separação. O érbio é muito escasso na superfície terrestre, se encontra unido ao 41 ítrio, ao térbio e em certos minerais; é utilizado na fabricação de lâmpadas incandescentes, o que reforça a ideia de elementos que se articulam para deixar o texto mais claro, evidente, deixando o autor/leitor em condição passiva, incapaz de se fazer sujeito no ato de criação: “...de Margarerbe, a lhe chamar, a toda hora na presença dos criados, de parasita, incapaz” (p.249). Diante disso, Margarerbe seria o que estende, engorda o texto, tomando conta do corpo da narrativa: “A gorda devia estar comendo bombons” (247); “Tornaria a partilhar do mesmo leito com a esposa, espremido, o corpo dela a ocupar dois terços da cama” (p.248). Seatéia, assim como Margarerbe , aparentemente se dá pela junção de dois elementos: “sê”, imperativo do verbo ser e “atéia”, descrente, cético, estado de quem duvida de tudo. Desse modo, Seatéia é a representação da união entre Margarerbe (escrita realista) e Gérión (escrita fantástica), ocasionando o sentimento de ceticismo frente à realidade circundante, da ambiguidade e, mesmo, de um dualismo convergente. Por meio dessa breve explanação sobre o conto “O bloqueio”, temos então uma leitura em que o texto de Murilo Rubião se apresenta sob a forma metatextual. O relato nos apresenta a forma como está articulado o texto fantástico, onde há uma mescla de sonho e fantasia com elementos da realidade, levando o leitor ao ceticismo frente a um dualismo, uma ambiguidade criada pelo próprio texto: “De normal, tinha o sono pesado e mesmo depois de despertar levava tempo para se integrar no novo dia, confundindo restos de sonho com fragmentos da realidade” (p. 245 – Grifo nosso). Este dualismo está presente também na questão apresentada pelo narrador: “Estariam construindo ou destruindo?”(p. 246), ou seja, o relato fantástico estaria construindo uma realidade outra por meio da destruição da realidade primeira, ou, construindo a própria realidade mediante a destruição do bloqueio entre a linguagem comum/científica e a linguagem metafórica? Notamos que há uma mutilação da linguagem realista (extensa e descritiva) no relato fantástico: “Quatro pavimentos haviam desaparecido, como se cortados meticulosamente, limadas as pontas dos vergalhões, serradas as vigas, trituradas as lajes” (p. 246). Lembramo-nos que o quatro como símbolo do real, também pode simbolizar a linguagem realista que será cuidadosamente trabalhada no texto pelo seu autor; o que nos faz lembrar o árduo trabalho dos parnasianos na construção do 42 poema, sendo este um trabalho intelectual e não de inspiração como afirmavam os românticos. Temos na passagem citada anteriormente, aludindo à construção textual do fantástico uma analogia com o que dizia Olavo Bilac em seu poema “Profissão de fé”: “Quero que a estrofe cristalina, Dobrada ao jeito Do ourives, saia da oficina Sem um defeito [...] Porque o escrever - tanta perícia, Tanta requer, Que oficio tal... nem há notícia De outro qualquer.”20 O que mostra que na construção do texto fantástico há um trabalho com a própria linguagem que estrutura o texto: limar os vergalhões, serrar as vigas, triturar a lajes. Essa busca do aperfeiçoamento do texto está presente também na descrição onde o narrador afirma que: “Abeirava-se o momento crucial e custava-lhe conter o impulso de ir ao encontro da máquina, que perdera muito do antigo vigor ou realizava seu trabalho com propositada morosidade, aprimorando a obra, para fruir aos poucos os instantes finais da destruição” (p. 250 – Grifo nosso). Em lugar da linguagem comum ou científica, mutilada pelo autor, resta na maquinaria textual, como posto por Bozzetto (2001), as engrenagens, sendo estas as metáforas epistemológicas, as hipérboles, os oximoros, geradores da ambiguidade, da dualidade, como fica explícito na passagem do conto: “Depois de algumas horas de absoluto silêncio, ela volvia: ruidosa, mansamente, surda, suave, estridente, monocórdia, dissonante, polifônica, ritmadamente, melodiosa, quase música” (p. 249 – Grifo nosso). Estes elementos da linguagem são o que leva o leitor a uma desestabilização, deixando-o muitas vezes impossibilitado de preencher os vazios do texto e, consequentemente, atribuir sentidos ao texto: “Caprichosos e irregulares, eles 20 Trechos do poema “Profissão de Fé” de Olavo Bilac, poeta parnasiano, retirados de: http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/OlavoBilac/profissaodefe.htm. Acesso em 18/10/2011. 43 mudavam rapidamente de andar, desnorteando Gérion quanto aos objetivos da máquina” (p. 250 – Grifo nosso), atuando de modo fantasmático sobre o leitor: “A par do desejo de enfrentá-la, descobrir os segredos que a tornavam tão poderosa, tinha medo do encontro” (p.250). Entretanto, é essa dúvida, esse medo que causa fascínio no leitor, o qual só começará atribuir alguns sentidos às metáforas epistemológicas no final da obra, na sua totalidade, quando já apurado em sua leitura: “Enredava-se, entretanto, em seu fascínio, apurando o ouvido para captar os sons que àquela hora se agrupavam em escala cromática no corredor, enquanto na sala penetravam os primeiros focos de luz” (p. 250). O texto fantástico se utiliza de metáforas de grau dez, que na concepção de MOISÉS (2004), são capazes de abranger o máximo de sentidos, abrindo um leque de representações, impossibilitando seu esgotamento interpretativo; um texto que não se deixa traduzir em uma única leitura: “Repetiu a experiência, mas a máquina persistia em se esconder, não sabendo ele se por simples pudor ou se porque ainda era cedo para mostrar-se, desnudando seu mistério” (p. 251), pois a cada leitura, novas interpretações, novas formas de ligar a realidade primeira com a realidade outra, tornando o texto uma fonte inesgotável, pois esse se presentifica em cada leitura: “Pelas frinchas continuavam a entrar luzes coloridas, formando e desfazendo no ar um contínuo arco-íris: teria tempo de contemplá-la na plenitude de suas cores? Cerrou a porta com a chave” (p. 251) Conclui-se, assim, que o texto fantástico é uma maquinaria formada por engrenagens linguísticas, dentre elas as metáforas epistemológicas, que se articulam para gerar o efeito fantástico no leitor, de modo que estas correspondem à visão e descrição dos vazios em nossa percepção causal da realidade, a qual seria impossível ser descrita pela linguagem comum e/ou pela linguagem científica. 44 I.5. A hipérbole como expressão formalizadora do discurso fantástico em “Aglaia” de Murilo Rubião “Aglaia” relata o caso de envolvimento entre Colebra e Aglaia. Ambos pretendem se casar. O casamento só ocorre mediante duas condições: o pai de Aglaia permite a união se for com separação de bens e Colebra aceita casar-se mediante o fato de não terem filhos. Na noite de núpcias Colebra rejeita qualquer ideia de ter um filho já que este poderia deformar aquele corpo sensual pelo qual ficava enlouquecido. “Tudo era festa e ruído na vida deles”. Até que, de repente, Aglaia descobre após algumas noites de orgia que está grávida; então procura um ginecologista na tentativa de abortar a criança. O médico se opõe em fazer o aborto, o que leva o casal a buscarem em uma clínica o serviço onde, após abortar a criança, Aglaia sofre de uma hemorragia interna. Ambos recorrem ao ginecologista, ela na busca de curar-se, ele com medo de que ela venha a falecer e tenha que voltar a sua vida medíocre, sem status social, sem dinheiro, sem condições de um trabalho leve e rendoso. Aglaia, mesmo tomando anticoncepcionais, engravida novamente. Após ter a criança, com medo de engravidar mais uma vez, ela troca a marca do anovulatório, mas em vão, Aglaia engravida e a partir de então começa a engravidar seguidamente. Colebra e Aglaia, no desespero, optam por não terem mais relação sexual, porém mesmo assim, Aglaia continua engravidando constantemente. Colebra nem poderia desconfiar de sua esposa, pois todos os filhos eram parecidos com ele. Os filhos começaram a vir em ninhadas, três, quatro, cinco; e o tempo de gestação passou a ser hiperbolicamente curto: seis, três, dois meses e até vinte dias após a fecundação. O casal chegou a uma conclusão de que a única solução seria o desquite. A ideia partiu dela. Colebra aceita a proposta mediante oferta de uma pensão bastante generosa. No final do conto Colebra pega suas malas e ao sair, Aglaia, em meio a um trabalho de parto, pede a Colebra que não a abandone. Colebra pega as malas e sai, no caminho chamou a parteira. O conto “Aglaia” de Murilo Rubião é um exemplo de texto fantástico que se articula por meio do uso da hipérbole. Assim como em “Bárbara” e em “O edifício” a 45 hipérbole percorre todo o texto levando o leitor a um desequilíbrio, a um estado de perturbação diante da leitura. A hipérbole (gr. Hyperbolê) significa “excesso” e aplica-se a qualquer formulação excessiva ao que se pode supor a respeito da intenção comunicativa real do locutor. A hipérbole pode aumentar ou diminuir por excesso e, segundo Charaudeau e Maingueneau (2006) não tem a finalidade de enganar, mas de levar à própria verdade, e de fixar, pelo que é dito de inacreditável, aquilo que é preciso realmente crer. Partindo desta definição, o conto “Aglaia” apresenta os dois processos da hipérbole já que temos o aumento excessivo do número de filhos que nascem em ninhadas e que logo no início do conto nos é relatado que para caberem todos os filhos de Colebra num quarto de hotel é necessário que um suba sobre os ombros do outro, preenchendo todo o espaço do quarto a ponto de se apertarem até ouvirse trincares de ossos e cartilagens. Ocorre também a hipérbole por diminuição no que tange ao período de gestação que, inicialmente era de nove meses passando para seis, quatro, dois meses e até vinte dias. Este processo hiperbólico por diminuição recria a hipérbole por aumento: ao diminuir hiperbolicamente o tempo de gestação ocorre o aumento hiperbólico das vezes em que Aglaia engravida. Quanto a essas modalidades de hipérbole, em exceder por aumento ou por diminuição, Barthes em L’ancienne, rétorique/aide – memoire (1970) as determina pelas terminologias “auxesis” (aquela que exagera por aumento) e “tapinosis” (aquela que exagera por diminuição). Segundo Schwartz (1981) a hipérbole se manifesta na poética de Murilo Rubião como figura-chave que desvenda os mecanismos fantásticos da narrativa. Isso ocorre devido à metaforização das hipérboles. As hipérboles, na globalidade do texto, se convertem em metáforas, de modo a atribuir sentido ao texto. É o que Bozzetto chama de “estratégia metafórica”, sendo que, “La estrategia metafórica no supone el uso exclusivo de la metáfora, por supuesto. Esto significa que la obra tiene como intención fabricar una metáfora del mundo referencial, un analogon, una transposición”.21 (BOZZETTO, 2001, p.225). 21 A estratégia metafórica não supõe o uso exclusivo da metáfora, seguramente. Isto significa que a obra tem como intenção fabricar uma metáfora do mundo referencial, um análogo, uma transposição. (Tradução nossa) 46 Partindo desse pressuposto, podemos perceber em “Aglaia” uma metanarrativa, onde o texto relata seu próprio processo de criação. Essa leitura já se faz possível a partir da própria epígrafe, sendo esta um excerto retirado do Livro dos “Gênesis”, termo que em grego (Γένεσις) significa "origem", "nascimento", "criação", o que alude ao processo de criação literária. Essa epígrafe é uma das poucas que se relaciona diretamente com o texto na obra de Murilo Rubião. Outra passagem que se refere ao processo de criação está presente logo no início do conto. Colebra ao abrir um envelope recebido de sua ex-esposa, Aglaia, deixa cair algumas fotos, ao juntá-las explica a uma mulher que o acompanha que são seus filhos, “os da última safra” (p.187 – Grifo nosso). Esta hipérbole se metaforiza de modo a referir-se à criação dos textos literários, já que, o termo “safra”, figurativamente significa “trabalho”, “produção”, estes termos podem respectivamente significar qualquer obra e/ou a(s) obra(s) de um escritor, de um artista, ou de uma escola, ou de um período. Sendo um processo de criação de uma escola, ou de um período, podemos extrapolar os limites da simples criação literária e determinar de que se trata da criação literária fantástica, já que temos uma menção no relato que metaforicamente diz respeito ao discurso utilizado, no caso o uso da hipérbole e seu processo de metaforização que gera o discurso fantástico, alheio ao discurso científico ou conceitual: “Os amigos pediam-lhes calma, os médicos insistiam que todo um processo de fecundação fora violentamente alterado e a medicina não podia explicar o inexplicável.” (p.193 – Grifo nosso). Vale lembrar que o termo “fecundação” provém de “fecundar”, que significa: tornar capaz de conceber ou gerar, assim, toda a capacidade de gerar, de conceber a realidade, fora violentamente alterado, toda a forma de reprodução do real, todo o universo mimético foi subvertido pelo texto fantástico. Já que, o fantástico Nacido en medio del universo mimético, y sirviéndose de él para inscribir sus pasos, tiende a subvertirlo, a cuestionar sus certezas. El texto fantástico subvierte los mecanismos y los presupuestos del texto mimético, con fin de dejar espacio para lo impensable, que intenta representar de una manera ambigua, de permitir por contra pensar lo no representable. Así pues, se erige como el lugar y el medio para una crítica del universo de la representación, instaurando 47 por eso mismo un vértigo de la razón desconcertada. Pero no en el marco de un discurso subversivo, sino mediante la puesta en práctica de la subversión de todo discurso fiable y por la instalación, en los “márgenes” de lo pensable y de lo representable, de una efectiva alteridad.22 (BOZZETTO, 2001, p. 224) Tal subversão do universo mimético e tal questionamento às certezas do mundo real só podem ocorrer mediante a subversão dos mecanismos textuais. Esta subversão se dá pelo discurso fantástico, configurado pelo uso das hipérboles e das estratégias metafóricas, de modo a manter esse discurso alheio ao discurso do texto mimético, pois, a abertura de espaço para o impensável, para o indizível se dá somente pela linguagem fantástica, sendo a linguagem comum e a linguagem científica, incapazes de possibilitar essa abertura, de dizer o indizível, de explicar o inexplicável: “a medicina não podia explicar o inexplicável.” (p.193). Entendamos “medicina” como metáfora de ciência, de razão, representando a linguagem comum ou científica, o que confirma nossa afirmação. Esta ideia de subversão do processo de fecundação está presente também no próprio nome do personagem Colebra, marido de Aglaia. Colebra parece provir de “culebra”, termo espanhol que em português traduz-se como “cobra”, “serpente”. Segundo Chevalier, A serpente não apresenta, portanto, um arquétipo, mas um complexo de arquétipos [...] todas as serpentes possíveis formam, juntas, uma única multiplicidade primordial, uma Coisa primordial indivisível que não cessa de desenroscar-se, desaparecer e renascer. Mas o que seria essa Coisa primordial senão a vida na sua latência ou, como diz Keyserling, a camada mais profunda da vida? [...] A vida do submundo tem, justamente, de se refletir na consciência diurna sob a forma de uma serpente, acrescenta ele, e especifica: os caldeus usavam a mesma palavra para vida e serpente. René Guénon faz a mesma observação: O simbolismo da serpente está efetivamente ligado à própria idéia de vida; em árabe, 22 Nascido no meio do universo mimético, e servindo-se dele para inscrever seus passos, tende a subverter-lo, a questionar suas certezas. O texto fantástico subverte os mecanismos e os pressupostos do texto mimético, a fim de deixar espaço ao impensável, que tenta representar de uma maneira ambígua, de permitir por contra pensar o não representável. Assim pois, se erige como o lugar e o meio para uma crítica do universo da representação, instaurando por isso mesmo uma vertigem da razão desconcertada. Mas não no marco de um discurso subversivo, e sim mediante o fato de pôr-se em prática da subversão de todo discurso fiel e pela instalação, nas “margens” do pensável e do representável, de uma efetiva alteridade. (Nossa Tradução) 48 a serpente é el-hayyah e a vida é el-hayat [...] (CHEVALIER, 2007, p. 815) Partindo dessa simbologia, afirma-se que Colebra alude à vida, ao mundo, à realidade, elementos que fecundam o fazer literário, já que, a serpente, segundo Chevalier, representa a fecundidade: A universalidade das tradições que fazem da serpente o mestre das mulheres, por representar a fecundidade, foi abundantemente demonstrada por Eliade, Krappe e por etnólogos especializados [...] ou como Baumann23, que ressalta que na África [...] os tcho-kwes (Angola) colocam uma serpente de madeira sob o leito nupcial para assegurar a fecundação da mulher. [...] Na Índia, as mulheres que desejam ter um filho adotam uma naja. Os tupis-guaranis, no Brasil, tornavam fecundas as mulheres estéreis batendo em seus quadris com uma cobra. (CHEVALIER, 2001, p.822) Sendo a representação da fecundidade, Colebra alude ao real, que gera a produção, o trabalho literário, pois este nada mais é do que a própria representação da realidade circundante. É válido pensar aqui, que ao tratar de uma produção fantástica, não referimos, apenas, à realidade concreta, mas, também, à realidade outra, àquela que nos escapa do plano sensível, indizível ou irrepresentável por meio da linguagem comum ou científica. Chevalier afirma que para o psicanalista Carl Gustav Jung24 a “serpente é um vertebrado que encarna a psique inferior, o psiquismo obscuro, o que é raro, incompreensível, misterioso”. (CHEVALIER, 2001, p.814) Segundo Jung, sob a imagem do Uroboro, a serpente, que come a sua própria cauda, é uma representação muito eficaz da integração e da assimilação do oposto. É voltado para esta concepção que Jorge Schwartz, em seu livro Murilo 23 Os nomes citados por Chevalier refere-se: BAUMANN H. e WESTERMANN D.. Les Peuples et les civilisations de l’Afrique. Paris, 1948. ELIADE, Mircea.Traité d’histoire dês religions. Paris,1964 KRAPPE, Alexandre H.. La genèse des mythes. Paris, 1952 (Estas referências foram retiradas da própria Bibliografia de Chevalier, onde nenhuma apresenta a editora responsável pela edição) 24 JUNG, C.G..La guérison psycologique. Genebra: Librairie de l’Université, 1970. 49 Rubião: A poética do Uroboro (1981), afirma ser o uroboro uma metáfora do tempo e do fazer muriliano, unindo as duas realidades de modo que não podemos dissocialas, em um movimento circular e infinito como a própria imagem. Portanto a serpente, a cobra é uma representação das duas realidades, a realidade empírica e a realidade outra, intangível e até mesmo empírea. Assim, na imagem de Colebra, “cobra” - “serpente”, encontra-se a ideia de ambivalência, do duplo: Ela é enigmática, secreta [...]. Ela brinca com os sexos como com os opostos; é fêmea e macho, gêmea em si mesma [...]. No plano humano é o símbolo duplo da alma e da libido [...] a serpente, em si, não é boa ou má, mas que possui duas valências [...] Mencionamos a ambivalência sexual da serpente. Esta se traduz, sob este aspecto do seu simbolismo, pelo fato de ser ao mesmo tempo matriz e falo. (CHEVALIER, 2001, 815 – 822) Esta imagem da união sexual em si mesma torna a serpente autofecundadora permanente, como ocorre no conto; mesmo sem haver relações sexuais entre Colebra e Aglaia, o processo de fecundação permanecia, Aglaia continuava a engravidar-se em um processo de autofecundação. A imagem ambivalente da serpente confirma seu simbolismo representante das duas realidades circundantes, realidades que circulam infinitamente em torno do homem, que, ao mesclarem-se, tornam-se absurdas, porém, fecundadoras em um processo de criação mimético. Já o nome Aglaia é de origem mitológica, sendo esta uma das três Graças ou, chamadas também, Cárites. Aglaia, Eufrosina e Tália são filhas de Zeus e de Eurínome. Aglaia era a mais jovem e bela das três Cárites, seu nome significa “esplendorosa” e simbolizava a inteligência, o poder criativo e a intuição do intelecto. Nos tempos medievais, as três Cárites representavam as três artes liberais básicas nas universidades: gramática, lógica e retórica, o chamado Trivium, nome dado ao conjunto das três disciplinas. Partindo desse conceito, Aglaia representa a criação literária fecundada pela realidade ambivalente, a empírica e a empírea. Porém, ressalta-se que essa criação literária dá-se mediante a influência do Trivium, alicerçada pelas artes que confere ao fantástico como modo narrativo. Assim temos nesse conto em questão, no plano 50 da retórica o uso da hipérbole que se metaforiza na globalidade do texto, convergindo para uma lógica interna da narrativa. Sendo o conto uma metanarrativa, retomamos a epígrafe “Eu multiplicarei os teus trabalhos e o teus partos – Gênesis, III, 16” como sendo uma premonição em relação ao processo de escrita/leitura do conto fantástico, visto que, segundo Audemaro Taranto Goulart, [...] no texto de Aglaia, o termo trabalho é bastante expressivo, pois carrega consigo as noções de sacrifício, de cansaço e de esforço, o que é ainda intensificado pela associação com a palavra parto, já de si identificadora das noções citadas, e pelo caráter ainda mais intensificador do significante multiplicarei. (GOULART, 1995, p.92) A advertência presente na epígrafe antecipa a difícil condição da criação literária e consequentemente a do leitor frente ao texto muriliano, o que nos é confirmado pelo mesmo autor ao dizer: Em termos da elaboração do texto literário, pode-se dizer que esse é o momento em que o diálogo entre sujeito da escritura/sujeito da leitura revela a impossibilidade de o criador da obra ser o dono absoluto dela, pela simples razão de que ele não está sozinho no processo. Quer dizer, a presença do leitor é absolutamente indispensável para que o texto se estabeleça. Por essa razão, o produtor do texto deve ter o desprendimento de aceitar as várias leituras que se fazem dele. (GOULART, 1995, p.79) Partindo da questão da recepção, como nos é apresentado anteriormente por Goulart, podemos entender também que Colebra seria a representação do próprio texto fantástico e Aglaia a representação do processo de leitura/leitor. Isto, porque Colebra representa essa ambivalência da realidade, sendo capaz de gerar a ambiguidade no texto como nos foi apresentado por Furtado no tópico “O texto fantático” deste trabalho. Aglaia como símbolo da inteligência, do poder criativo e da intuição do intelecto equivale ao trabalho do leitor frente ao processo de leitura, já que o leitor, fecundado pela ambiguidade do texto fantástico, é levado a gerar inúmeros sentidos, 51 a parir inúmeras interpretações a partir das hipérboles e das próprias metáforas presentes no discurso fantástico. Conclui-se que o discurso fantástico, em especial o conto “Aglaia”, se apoia fortemente na figura da hipérbole e esta passa por um processo de metaforização (estratégia metafórica) gerando ambiguidades no texto e consequentemente, possibilitando ao leitor inúmeras leituras, visto que nesta análise do conto em questão, apontamos uma leitura sobre o próprio processo de criação do conto fantástico, como também, uma leitura sobre a recepção dessa narrativa ou ainda podemos encontrar outras leituras, como por exemplo, a de Goulart em seu livro O conto fantástico de Murilo Rubião (1995), onde afirma que o conto é uma representação da hýbris, espécie de presunção ou vaidade espiritual, que faz o herói esquecer a sua impotência. A personagem carregada de sentimentos prepotentes a impedem de reconhecer suas limitações, como um ser inferior aos poderes do destino ou dos deuses. Isto porque, para Goulart, tanto Colebra quanto Aglaia, nas suas prepotências, lutam contra uma ordem natural da união entre um homem e uma mulher: o nascimento dos filhos. Esta prepotência diante das forças divinas torna-se uma afronta a ponto de serem castigados pelos inúmeros partos, sendo forçados a se separarem ao final. Este castigo está claro no tom de advertência presente na epígrafe do conto. Destarte, nota-se que, segundo Schwartz (1981), a hipérbole como forma de expressão formaliza o conteúdo do conto, havendo um imbricamento entre o nível retórico e o seu correspondente semântico, acarretando o efeito ambíguo no texto e, consequentemente, metafórico, o que leva o leitor a ter múltiplas visões sobre o texto a ponto de sentir uma vertigem frente a suas interpretações. 52 II. Leitor: o elo entre texto e leitura “É na posição de leitor que se encontram as credenciais mais fortes para quem quer discutir o perfil do indivíduo que, livro aberto nas mãos, no silêncio de sua leitura, pergunta ao escritor que não pode esquivar-se da resposta: trouxeste a chave? Com ou sem chave, leitor e escritor são faces da mesma moeda, não obstante as quedas de braço em que às vezes ambos se confrontam.” (LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 2000, p. 33) 53 II.1. O leitor de Murilo Rubião: do implícito ao real Ler é uma atividade de construção dos sentidos de um texto; é muito mais que decodificar. É um processo complexo no qual se produzem trocas entre texto e leitor, e este termina modificado. O leitor coloca em jogo conhecimentos e operações de diferentes tipos sobre a linguagem (as palavras, as orações, os textos, o discurso) e sobre o mundo e os sistemas de avaliação e interpretação do universo referencial. A estas capacidades de índole linguística e discursiva, cultural e ideológica somam-se outras que indicam quais desses conhecimentos e operações devem ser postos em funcionamento, de acordo com seus objetivos e a situação de leitura. Destarte, o leitor passa a ocupar um lugar vital nos estudos das obras literárias pelo fato de se fazer agente sujeito do processo de leitura, desembocando na chamada “teoria da recepção”, ou como “estética da recepção”, inaugurada por Hans Robert Jauss em 1967 e que teve outros seguidores, dentre os quais damos destaque a Wolfgang Iser, autor de O ato de ler (1976). Para este, o que é válido é ver como um texto tem significado para o leitor, de modo que o significado é visto como resultado de uma interação entre o texto e o leitor. Ao examinar a interação entre texto e leitor, Iser verificou as qualidades do texto, que o fazem legível, ou que influenciam nossa leitura, e verificou também aquelas características do processo de leitura essenciais para a compreensão do texto. (SAMUEL, 2005, p. 119-120). Há uma atualização do texto na mente do leitor, preenchendo espaços em branco, aberturas ou indeterminações, como afirma Umberto Eco em sua obra Lector in fabula: Mas o que devemos dizer já é que um texto postula o próprio destinatário como condição indispensável não só da própria capacidade concreta de comunicação, mas também da própria potencialidade significativa. Em outros termos, um texto é emitido a alguém que o atualize – embora não se espere (ou não se queira) que esse alguém exista concreta e empiricamente. (ECO, 2004, p.37) 54 É preciso ressaltar neste momento que, por sua familiaridade com os vazios, com as indeterminações, o texto muriliano permite uma multiplicidade de comunicações, o que desemboca em uma problemática apontada por Costa Lima em relação a qualquer texto de ficção: “...perante esta multiplicidade, como declarar que algumas das interpretações são corretas e outras meros produtos de projeção do leitor?” (2011, p.52). A resposta a essa questão é mais complexa do que possamos imaginar, porém traçaremos, ao longo deste estudo, algumas noções e orientações a respeito do leitor e do processo de leitura frente a essa literatura tão particular em sua estrutura narrativa. O que se pode adiantar é que diante do texto de Murilo Rubião, o leitor é livre para questionar, todo momento, se a formação de sentido que está executando é adequada à leitura que está realizando. Esse processo de questionamento ocorre pelo fato do texto abrir-se para uma multiplicidade de leituras. Sendo assim, é por meio dessa assimetria entre texto e leitor que se dá lugar ao campo comum de uma situação comunicacional, onde ocorrerá um processo de interação no qual possibilita a entrada do leitor a fim testar seu horizonte de expectativas, de “pôr em prova sua capacidade de preencher o indeterminado com um determinável – isto é, uma constituição de sentido” (COSTA LIMA, 2011, p. 52). Essa entrada do leitor no texto dá-se mediante um processo comunicacional gerado pela estrutura do texto, visto que este oferecerá ao leitor as chaves para que possa adentrar o seu campo discursivo e a partir de então confrontar suas premissas com o dito pelo texto, evidenciando a “distinção entre a pura recepção projetiva, isto é, a leitura condenada, e a leitura constitutiva de um sentido apropriado” (COSTA LIMA, 2011, p. 55). Se o texto se abre para essa liberdade do leitor confrontar suas premissas com o dito pelo texto, então, é notória a necessidade de mudança de postura do leitor em relação à literatura neofantástica, já que o fantástico do século XIX, conforme definido por Todorov, visava um leitor implícito, ou seja, um leitor que deveria reagir tão qual o esperado pelo autor, para o entendimento de sua ideia. Todorov afirma que o fantástico implica uma interação do leitor no mundo das personagens, ou seja, um leitor implicado no texto: É necessário desde já esclarecer que, assim falando, temos em vista não este ou aquele leitor particular, real, mas uma “função” de leitor, 55 implícita no texto (do mesmo modo que nele acha-se implícita a noção do narrador). A percepção desse leitor implícito está inscrita no texto com a mesma precisão com que o estão os movimentos das personagens. (TODOROV, 2004, p. 37). Diante dessa “função” do leitor, Todorov adverte que quando o leitor abandona o mundo das personagens e retorna para sua ação própria, ou seja, a de um leitor, um perigo ameaça o fantástico no que tange ao nível da interpretação do texto. Para Todorov a existência do fantástico está sujeita a três condições. Primeiramente o texto tem de obrigar o leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de criaturas vivas e hesitar entre duas explicações, uma natural e outra sobrenatural, dos acontecimentos relatados. Em seguida, esta hesitação deve também ser experimentada por uma personagem, assim a hesitação estará representada na obra. E por terceiro, é importante que o leitor assuma certa atitude para com o texto: “ele recusará tanto a interpretação alegórica quanto a interpretação ‘poética’”. (TODOROV, 2004, p. 39). O que é valido lembrar é que estas condições, apresentadas pelo teórico búlgaro, referem-se à definição de fantástico relativo aos textos do século XIX, e que as narrativas do século XX, divergem de seu conceito, apontando para uma evolução no gênero. A literatura fantástica, ela mesma, que subverteu ao longo de todas as suas páginas, as categorizações lingüísticas, recebeu com isto um golpe fatal; mas desta morte, deste suicídio nasceu uma nova literatura. Ora, não seria presunçoso demais afirmar que a literatura do século XX é, num certo sentido, mais “literatura” que qualquer outra. Isto não deve ser tomado evidentemente por um juízo de valor: é mesmo possível que, precisamente por este fato, sua qualidade se encontre diminuída. (TODOROV, 2004, p. 177) Deste modo, é correto afirmar que o gênero fantástico sofreu alterações em sua estrutura, partindo para definições divergentes à apresentada por Todorov, como visto no capítulo anterior. Se é notório esse avanço conceitual do gênero – no qual tomamos posições diferentes frente ao fantástico, a ponto de nomeá-lo como neofantástico, a que se refere à produção do século XX e aqui, mais precisamente a de Murilo Rubião, 56 devido ao desvio de sua caracterização que antes apontava para uma hesitação do leitor e agora foca-se na construção textual, sendo o fantástico um fenômeno da linguagem – então é cabível pensar também em uma evolução da postura do leitor frente a essa literatura, que talvez por falta de um termo melhor, ousamos chamar de neofantástica. Deste modo, ao tratar-se de literatura fantástica produzida no século XIX pensava-se unicamente em um leitor implícito, subordinado a uma intencionalidade da narrativa, portanto, um leitor passivo ao texto. Este leitor, por certo, não é qualquer um, mas apenas aquele leitor capaz de resgatar o significado da obra de acordo com um horizonte de exigências e expectativas historicamente vinculado, ou seja, ele tem a função de absorver as predisposições fornecidas pelo autor, ele só entende o que é dado; nada mais é do que uma construção do texto, uma estrutura textual pré-determinada. Os estudos de Todorov sobre a produção fantástica no século XIX orientavam a leitura tomando como ponto de partida um entendimento do texto mais unívoco. Postulou-se que na arquitetura do texto fantástico havia um encaminhamento de leitura, que deveria ser percorrido para alcançar-se o efeito de hesitação. Em se tratando da configuração do neofantástico, no qual enquadramos a obra de Murilo Rubião, esta possibilita a presença atuante de outro tipo de leitor: o leitor real, o qual diverge de todos os outros tipos de leitores, implícito, ideal ou modelo, que até então eram previstos pelo texto. O leitor implícito, como visto anteriormente, é “[...] percebido como elemento articulado às estruturas objetivas do texto [...]” (TINOCO, 2010, p.14); assim como o leitor modelo, que o próprio Umberto Eco (2011) o define como um sujeito “cujo perfil intelectual só é determinado pelo tipo de operações interpretativas que se supõe (e se exige) que ele saiba executar: reconhecer similaridades, tomar em consideração certos jogos...”(p. 45). Portanto, o leitor modelo é definido pelo autor italiano como sendo um tipo de estratégia textual, é “[...] uma espécie de tipo ideal que o texto não só prevê como colaborador, mas ainda procura criar [...]” (ECO, 1994, p.15). Robson Coelho Tinoco define “a figura do ‘leitor modelo’, para quem, virtuaismente, todo autor escreveria. Leitor que assume posição essencial como figura de compreensão textual – leitor análise – [...]” (TINOCO, 2010, p.16) Já o leitor real, o qual defendemos ser o autêntico receptor do texto neofantástico e primordialmente o muriliano, é um leitor ativo, pois tem a função de 57 construir o sentido do texto com base em seu repertório (conhecimentos adquiridos ao longo de sua jornada enquanto ser e enquanto leitor, já que se refere a um conjunto de normas sociais, históricas e culturais que constituem a competência de um leitor). Considera-se leitor real o [...] leitor de literatura que “lê o mundo” (em sua plena manifestação socioeconômico-estético-cibernética) por meio da leitura de uma dada obra. Assim estruturado, leitor real que se manifesta, dialogicamente, como via produtiva das leituras de mundo resultantes da percepção/recepção de que as informações estão mesmo articuladas em determinados níveis de compreensão. Nessa ótica, tais leituras de “textos variados” (imagens, símbolos, produções escritas, sons etc.) representam a articulação do tecido de informações para quem pretende se reconhecer – enquanto indivíduo ético e estético – na medida em que faz a devida integração produtiva do(s) mundo(s) que o rodeia(m) – mundo do texto, mundo do contexto, mundo do paratexto. (TINOCO, 2010, p. 16) Entende-se que o leitor real é o leitor imputável pela ótica da literatura neofantástica, isto devido ao fato de que qualquer leitor possui, em maior ou menor escala, uma característica primordial: o conhecimento daquilo que deve fazer com o texto. Acrescenta-se também, que o leitor real é aquele capaz de retirar do texto um sentido, não um sentido do próprio texto e sim um sentido gerado pelo e no processo de leitura. Portanto, o leitor real apresenta um papel ativo na leitura. Esta posição ativa do leitor frente ao texto segue o conceito de Hans Robert Jauss no sentido de emancipação [...] que permite ao leitor, atento e crítico – aqui leitor real –, reconhecer seus conceitos (sobre leitura, sobre literatura) e modificálos com o intuito de aprimorar suas próprias informações. Entenda-se que por meio de tal processo emancipatório, esse leitor real tende a se perceber como indivíduo social que, por força de sua cultura, submete-se a determinados conceitos, valores, regras. (TINOCO, 2010, p.19) Nesse sentido, considera-se que no processo de recepção da obra pelo leitor real, tampouco o texto se mantém imune à presença desse leitor – “anti-imunidade 58 que termina por conferir existência sociolinguística advinda da capacidade e intenção do leitor-receptor em completar as ‘lacunas textuais’ com sua própria imaginação, experiência de mundo-vida e sentidos de leitura” (TINOCO, 2010, p.21) A partir do momento em que o leitor real constrói o sentido do texto mediante a imposição de seu repertório, pode-se afirmar que a obra de Murilo Rubião é aberta, ou seja, o texto muriliano tem suas lacunas que só podem ser colmatadas por elementos externos ao texto, por meio do leitor real. Quando o leitor real se depara com a descrição feita pelo narradorpersonagem de “O pirotécnico Zacarias” do momento em que é atropelado – “A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhantes a densas fitas de sangue” (RUBIÃO, 1999, p.26 – grifo nosso) – ele poderia ou não relacionar, hipoteticamente, tais cores aos cinco continentes (Europa, Oceania, Ásia, África e América, respectivamente)25. Esta hipótese pode ser confirmada mais adiante em meio a várias questões, emitidas não se sabe por quem, a Zacarias após sua morte. “ – Quantos são os continentes? / – E a Oceania?” (RUBIÃO, 1999, p. 27) Desse modo, o leitor absorve os dados do texto aos quais serão atribuídos significados aos termos de acordo com seu conhecimento extratextual. Somente o leitor real é capaz de atribuir este sentido às cores, pois, trata-se de um conhecimento oriundo de sua situação sociocultural. Entende-se assim que a função do leitor real é sobretudo transformadora e, até mesmo, recriadora. Isso porque é com a presença do leitor real no processo de leitura que o texto – visto como objeto de arte – se transformaria em objeto estético e, como tal, capaz de gerar múltiplas leituras . É o que afirma Paul Ricoeur : “…la phénoménologie de l’acte de lecture, pour donner toute son ampleur au thème de 25 a exposição sobre cores e significado dos Anéis Olímpicos, Freitas; Barreto (2008, p.31) afirmam que o barão Pierre de Coubertin, não designou uma cor para cada continente quando criou os anéis, “mas com o tempo espalhou-se uma versão equivocada de que o aro azul representaria a Europa; o amarelo, a Ásia; o preto; a África; o verde , a Oceania; e o vermelho, a América” É importante ressaltar que o COI rechaça essa versão popular sobre os significados das cores dos Anéis Olímpicos. No entanto muitos livros apresentam essa variante. Colli (2004, p.49), por exemplo, menciona “que os cinco anéis representam os cincos continentes: Europa em azul, a África em preto, a América em vermelho, a Ásia em amarelo e a Oceania em verde” COLLI, E. Universo olímpico: uma enciclopédia das Olimpíadas. São Paulo: Códex, 2004 FREITAS, A e BARRETO, M. Almanaque olímpico Sportv. Rio de Janeiro: Casa da Palavra , 2008 59 l’interaction, a besoin d’un lecteur en chair et en os, qui, en affectuant le rôle du lecteur préstructuré dans et le texte, le transforme.”26 (RICOEUR, 1985, p. 249). Evidencia-se deste modo, que os relatos de Murilo Rubião dependem diretamente da ideia de realidade que tem o leitor. Em outras palavras, para a efetivação do fantástico nos textos murilianos é necessário contrastar o mundo do texto com o contexto sociocultural no qual vive o leitor. […] El discurso fantástico es, como advierte Roberto Reis, un discurso en relación intertextual constante con ese otro discurso que es la realidad, entendida como construcción cultural. Esto supone ir más allá de definiciones de carácter estructuralista o inmanente, como la de Todorov, que esquiva el problema de la relación con lo real planteando que la existencia de lo fantástico depende únicamente de la reacción del lector implícito, una entidad que forma parte del mundo ficcional27. (ROAS, 2004, p.49) Com base nisto, a David Roas não parece estranho o fato de Todorov comparar o funcionamento da narrativa fantástica com a da literatura policial mais clássica, baseado única e exclusivamente no jogo formal da resolução de um mistério aparentemente irresolúvel. “La intención última del relato policiaco no es otra que procurar la admiración y el placer del lector ante su perfección formal. Todo queda, por tanto, dentro del estricto ámbito intratextual.”28 (ROAS, 2004, p.49). Destarte, a obra de Murilo Rubião afasta-se desse conceito de Todorov, pois teria como objetivo propor uma possível transgressão do real e também sugerir a descoberta de uma segunda realidade que se apresenta oculta atrás da cotidiana. Portanto, sua função é ampliar nossa visão do real, já que, as situações abordadas em seus textos são “metáforas que buscan expresar atisbos, entrevisiones o interstícios de sinrazón que escapan o se resisten al lenguaje de la comunicación, que no caben en las cedillas construidas por la razón, que van a contrapelo del 26 ...a fenomenologia do ato de leitura, para dar toda sua amplitude ao tema da interação, precisa de um leitor em carne e osso, que efetuando o papel do leitor pré-estruturado no e pelo texto, transforma-o. (Tradução nossa) 27 [...] O discurso fantástico é, como adverte Roberto Reis, um discurso em relação intertextual constante com esse outro discurso que é a realidade, entendida como construção cultural. Isto supõe ir além das definições de caráter estruturalista ou imanente, como as de Todorov, que esquiva o problema da relação com o real levantado que a existência do fantástico depende unicamente da reação do leitor implícito, uma entidade que forma parte do mundo ficcional. (Tradução nossa) 28 A intenção definitiva do relato policial não é outra que procurar a admiração e o prazer do leitor ante sua perfeição formal. Tudo permanece, portanto, dentro do estrito âmbito intratextual. (Tradução nossa) 60 sistema conceptual o científico con que nos manejamos a diário” 29. (ALAZRAKI, 2001, p. 277). Conclui-se que a narrativa de Murilo Rubião depende de uma dimensão pragmática do texto, do modo como é lida e interpretada, já que o fantástico depende diretamente da ideia de realidade que tem o leitor. Em outras palavras, é preciso contrastar o mundo do texto com o mundo do leitor. Desse modo, o leitor real dá coerência ao universo de representações textuais. Ao colmatar os vazios ou indeterminações do texto, o leitor vai além de apenas organizar as várias perspectivas do texto, e estabelece um ponto de vista a partir do qual compreende a sua situação no mundo. O leitor real termina por encontrar nessa transcendentalidade uma referência que lhe permite orientar a sua experiência no mundo. O sentido do texto é, portanto, apenas imaginável na experiência do leitor, que busca correspondência entre seu ponto de vista e o da estrutura da obra, ocorrendo o preenchimento, a recepção da obra, que não se esgota em si mesma, já que cada leitor é único e cada leitura corresponde a um modo de ver o mundo representado. 29 ...metáforas que buscam expressar conjeturas, entreveres ou interstícios de loucura que escapam ou resistem à linguagem da comunicação, que não cabem nas pequenas celas construídas pela razão, que vão contra o modo natural do sistema conceitual ou científico com que usamos diariamente. (Tradução nossa) 61 II.2. A presença do leitor e a perspectiva da leitura na obra de Murilo Rubião Muitos teóricos e pesquisadores voltaram suas atenções para diversos tipos de leitores no âmbito dos estudos da estética da recepção: leitor implícito, leitor virtual, arquileitor, leitor modelo, leitor ideal, etc. Mas, o pesquisador Michel Picard deixa de lado todos esses modelos de leitores, chamados por ele de leitores abstratos em favor do “leitor real”, o indivíduo de carne e osso, tão necessário para o processo de leitura, como já nos foi apresentado, anteriormente, por Paul Ricoeur (1985). Michel Picard (1989) afirma que já é tempo de acabar com essas leituras hipotéticas (que, talvez, nunca existiram) para estudar a única leitura verdadeira: a leitura concreta do leitor real. Este, “apreende o texto com sua inteligência, seus desejos, sua cultura, suas determinações sócio-históricas e seu inconsciente” (JOUVE, 2002, p. 15). Desse modo, para Picard, privilegiar o leitor real é a única maneira de dar conta da leitura efetiva do texto literário: Os leitores teóricos...representam de fato um avanço científico interessante; mas seu caráter abstrato, narratário tomado no texto ou leitor “inscrito”, arquileitor ou leitor modelo, “leitor” históricosociológico ou consumidor visado, tudo neles parece asceticamente, hipocritamente, fugir dessa obscenidade: o verdadeiro leitor possui um corpo, lê com ele. Ocultamos essa verdade tão imperceptível! 30 (PICARD, 1989, p.133). Em efeito, o leitor de Murilo Rubião não só mobiliza sua capacidade cognitiva e interpretativa, mas também sua imaginação sonhadora, sua capacidade de simpatia e identificação e sua sensibilidade afetiva. Todos esses elementos se amalgamam mediante um processo de leitura, ou seja, o texto se abre para sua recepção, oferecendo ao seu leitor um espaço participativo em meio as suas convenções. Em outras palavras, num nível mais geral, a obra, inicialmente, define seu modo de leitura pela sua inscrição num gênero e seu lugar na instituição literária; como também possibilita ao leitor realizar a leitura mediante seu conhecimento de mundo ou de vida. Desse modo, o leitor tanto pode aceitar sem nenhum problema o fato de um morto-vivo sair pela rua e narrar sua própria história 30 Tradução de Brigitte Hervot, publicada em: JOUVE, 2002. 62 em “O Pirotécnico Zacarias”; estar diante de um coelhinho que fala e se metamorfoseia em vários outros animais em “Teleco, o coelhinho” ou projetar sobre essas obras seus próprios anseios, expectativas e/ou conflitos. É importante ressaltar que, mesmo se tratando de um leitor real, com seus horizontes de expectativas, o processo de leitura realizado pelo leitor é controlado pelo texto em um limite de interpretações, essa leitura está ao mesmo tempo “orientada” e “livre”. Nesse ponto, convém distinguir o que Umberto Eco (2011) chama de “uso” do que se denomina “interpretação”. Um texto pode ser usado livremente como estímulo para a imaginação ou para a criatividade. Mas a interpretação de um texto, embora possa ser múltipla, não é ilimitada. Em Os limites da Interpretação (2010a), Umberto Eco destaca o privilégio dado nos últimos tempos à iniciativa do leitor, em contraposição às posturas que sustentam que em um texto deve-se chegar ao que o autor quis dizer. Para Eco, deve-se buscar o que o texto diz, independente das intenções do autor, e neste último caso, a leitura pode direcionar-se de duas formas: 1) em relação aos sistemas de referência do leitor, de acordo com o pensamento, crença, sabedoria, desejo do mesmo; 2) em relação ao que o texto diz, com respeito ao contexto em que foi produzido. Para o autor italiano, a iniciativa interpretativa do leitor consiste em formular uma hipótese a partir do texto. Isto não quer dizer que possa ser formulada apenas uma única hipótese; pode-se formular várias, desde que todas estejam coerentes com o texto, justificadas a partir dele. Se o processo de leitura da obra de Murilo Rubião está ao mesmo tempo “orientado” e “livre”, é porque a recepção dos relatos se orienta com base em dois eixos: “espaços de certezas” e “espaços de incertezas”. Os “espaços de certezas” são os pontos de ancoragem da leitura, as passagens mais explícitas de um texto, aquelas que a partir das quais se entrevê o sentido global. Neste caso podemos dizer, por exemplo, que o sentido global do conto “O lodo” é a temática do incesto, isto porque em dado momento Zeus, filho de Epsila (irmã de Galateu), chama Galateu de pai. Esta hipótese encontra-se ancorada no texto, refere-se aos “espaços de certezas”. Já os “espaços de incertezas” remetem para todas as passagens obscuras ou ambíguas cujo deciframento solicita a participação do leitor. Ao tratar dos contos de Murilo Rubião, estes “espaços de incertezas” recaem sobre as metáforas, as 63 hipérboles, as metonímias, os oximoros presentes nos textos, o que exige a entrada do leitor em busca das possíveis hipóteses permitidas pelo texto. Assim, tomando o mesmo conto, os “espaços de incertezas” recaem sobre vários pontos, como no fato de Galateu procurar ajuda médica por recomendação de alguém. Cabe ao leitor questionar e hipotetizar quem é esse alguém, ou como podem surgir inexplicavelmente no peito de Galateu uma ferida em forma de flor com pétalas escarlates. Aqui, o leitor se questiona o porquê da ferida ter esta forma. Seria uma representação do recalque, do inconsciente de Galateu que desabrocha de seu íntimo? Ou, ainda, nas falas do Dr. Pink da Silva e Glória que aparentemente são desconexas porém ameaçadoras: “É chegado o tempo das amoras silvestres.” (RUBIÃO, p. 239). Enfim, são muitos os “espaços de incertezas” presentes no relato, inclusive nos próprios nomes das personagens: Galateu, Epsila, Zeus, Dr. Pink da Silva e Glória. Neste rápido esboço sobre os “espaços de certezas” e “de incertezas”, o importante é ressaltar que o texto muriliano aponta sempre para duas dimensões na leitura: uma programada pelo texto, e outra dependendo do leitor. Em se tratando do leitor real, Michel Picard em La lecture comme jeu (1986) propõe uma tipologia dos níveis de leitura elevando o conceito de leitor em três direções diferentes porém complementárias, denominadas “liseur”, “lu”, “lectant”. No que tange ao “liseur” (ledor) o leitor é o sujeito que se deixa levar pelo mundo do livro, mas que mantém sua relação com o mundo exterior. O nível “lu” (lido) reflete a atividade passiva do leitor que, sem se dar conta, projeta as pulsões do inconsciente no mundo ofertado pelo texto, ou seja, como o inconsciente do leitor reage às estruturas fantasmáticas do texto. E, por último, o “lectant” (leitante) que se refere à atividade crítica e interpretativa do leitor que se sente envolvido pela complexidade do texto. Deste modo a leitura torna-se um jogo complexo entre três níveis de relações com o texto. Porém, segundo Jouve (1992), entre as três tipologias do nível de leitura apresentas por Michel Picard evidencia-se um problema no que se refere ao “liseur” (ledor) pelo fato deste ser incontestável, o conceito torna-se pouco operatório para uma análise textual. Deste modo, Jouve abandona o conceito de “liseur” e reelabora e reformula estes três níveis, denominando-os de “lectant” (leitante), “lisant” (lendo) e “lu” (lido). 64 […] (lectant) corresponde al concepto de lector interpretante y crítico que percibe el relato como construcción artística (resultado de un proyecto de escritura realizado por un autor) cuya organización y sentido se trata de captar y de apreciar sin dejarse seducir por la ilusión de realidad.31 (HERRERO CECÍLIA, 2000, p.144) Deste modo, no conceito de Jouve, o “lectant” (leitante) se lembra a todo momento de que o texto é antes de mais nada uma construção; e, como por trás de toda construção há um autor que a realize, consequentemente o “lectant” admite o fato da existência de um autor que o guia em sua relação com o texto. Neste caso o autor é visto de duas maneiras: como instância narrativa que preside à construção da obra como também instância intelectual, o qual tem a intenção de transmitir uma mensagem por meio do texto. “O ‘leitante’ pode assim ser desdobrado em um “leitante brincando” (o qual procura adivinhar a estratégia narrativa do texto) e um “leitante interpretando” (o qual visa decifrar o sentido global da obra)”. (JOUVE, 2002, p. 52). Assim, o leitor de “O bloqueio”, por exemplo, vai “brincar” com o narrador, fazendo previsões sobre o futuro de Gérion e analisar o texto para abstrair seu sentido, observando no modo como se articulam as metáforas epistemológicas, as hipérboles, enfim, toda a construção da linguagem que atua no texto. Portanto, a questão: “O que vai acontecer com Gérion?” será sempre acompanhada por “O que o autor quer nos fazer entender por meio deste angustiante desaparecimento de andares que permite Gérion oprimir-se em um apartamento suspenso no ar?” No que tange ao “lisant” (lendo), este é extraído por Jouve a partir do nível “lu” (lido) de Michel Picard. O “lisant” corresponde à atividade participativa do leitor simpatizante e crédulo, que se deixa levar pela força ilusória do referencial do relato, reage como se o mundo do texto fosse real, identificando-se com algum personagem ou meramente simpatizando-se com ele. O “lendo”, de fato, é essa parte do leitor aprisionada pela ilusão referencial que considera o tempo da leitura, o mundo do texto como um mundo que existe. Esquecendo a natureza lingüística do texto, 31 ...(lectant) corresponde ao conceito de leitor interpretante e crítico que percebe o relato como construção artística (resultado de um projeto de escritura realizado por um autor) cuja organização e sentido trata de captar e de apreciar sem deixar-se seduzir pela ilusão de realidade. (Tradução nossa) 65 ele “acredita”, por um momento, no que lhe está sendo contado. (JOUVE, 2002, p. 52). O leitor simpatizante e crédulo (lisant) das narrativas de Murilo Rubião irá se revoltar com os insaciáveis pedidos de Bárbara (“Bárbara”); chorar a morte de Teleco (“Teleco, o coelhinho”); dividir as angústias de Gérion (“O bloqueio”) e assim, sucessivamente, em cada conto. O “lu” (lido) também corresponde a uma atividade participativa do leitor, na qual o leitor projeta sobre o texto seus próprios fantasmas, deixando-se levar pelas pulsões do inconsciente, convertendo, deste modo, o relato e os personagens como pretextos para sentir-se a si mesmo. Esta modalidade de leitura refere-se ao “leitor subliminal”, como é determinado por Juan Herrero Cecilia. Existe de fato um nível de leitura em que, por meio de certas “cenas”, o leitor reencontra uma imagem de seus próprios fantasmas. Assim, de fato ele que é “lido” pelo romance: o que está em jogo então na leitura é a relação do indivíduo com ele mesmo, de seu eu com seu inconsciente. (JOUVE, 2002, p. 52). Assim, na modalidade de “lu” (lido) o leitor confronta sua realidade individual com a relatada no texto. Portanto, esta modalidade torna-se bastante subjetiva, já que, o inconsciente dependerá de cada leitor real. Deste modo, mediante a leitura dos contos fantásticos de Murilo Rubião, o leitor deixa minar de seu inconsciente seus fantasmas que o aterrorizam, causando uma transgressão do real. Os contos murilianos funcionam como estímulo que não é suficientemente intenso para que o indivíduo tome consciência dele, mas que, repetido, atua no sentido de alcançar um efeito desejado: uma visão fantasmagórica da realidade. O que é válido sublinhar é que essas três modalidades, ou níveis de leitura, não ocorrem isoladamente, elas interagem de modo a proporcionar ao leitor um prazer, uma motivação frente ao texto. Para extrair de cada leitor as instâncias leitoras, supõe-se em todo indivíduo certo número de constantes psicológicas e definindo o leitor real “como sujeito biopsicológico, têm-se portanto os meios de analisar com precisão a experiência de leitura”. (JOUVE, 2002, p. 53). Isto quer dizer: se o leitor abstrato (implícito, virtual, modelo, ideal, arqueleitor, etc) permitia 66 destacar o funcionamento de superfície do texto, o leitor considerado indivíduo permite destacar o funcionamento profundo. Conclui-se que na junção dos níveis de leitura, o leitor é possibilitado a completar o texto em quatro campos essenciais: a verossimilhança, a sequência de ações, a lógica simbólica e a significação global do texto. Para tanto, o leitor deve levar em consideração os processos de deslocamento metafóricos empregados pelo autor. É apenas por meio de uma leitura atenta que se pode levantar uma série de equivalências simbólicas e seu valor na narrativa. Enfim, o leitor de Murilo Rubião realiza sua performance, atualizando os diferentes níveis do texto. 67 III. Leitura: uma atividade caleidoscópica “O que sentimos ao ler um livro é o reflexo dos fantasmas inconscientes que o texto desperta em nós. Os afetos assim suscitados (alegria, tristeza, angústia, desgosto, tédio etc) são o eco em nós mesmos, leitores, dos fantasmas do autor.” (CLANCIER, A..Psycholecture des romans de Raymond Queneau, 1987, p. 171) 68 III.1. A leitura e suas dimensões Partindo da acepção de que a leitura é uma atividade complexa, múltipla, que exige uma competência do leitor, Gilles Thérien em sua obra Pour une sèmiotique de la lecture (1990) define a leitura como um processo que se desenvolve em cinco dimensões: neurofisiológico, cognitivo, afetivo, argumentativo e simbólico. No que tange ao processo neurofisiológico, Thérien afirma que, para o olhar do leitor, palavras breves, simples, de uso frequente e polissêmicas facilitam seu deciframento, além de se apresentarem em frases estruturadas. Quando “um autor não respeita esses grandes princípios de legibilidade, todos os deslizes semânticos tornam-se possíveis; assim, o texto ‘lido’ não é mais realmente o texto ‘escrito’” (JOUVE, 2002, p.18). Este fenômeno é comum no campo da literatura, em especial nos contos de Murilo Rubião, onde o texto se articula de modo a desestabilizar a legibilidade mediante às metáforas, às metonímias, às frases soltas e aparentemente desconexas e, até mesmo em alguns contos, à construção dos nomes das personagens, como já visto em análise anterior. Desse modo, reputada em seu aspecto físico, a leitura revela-se como uma atividade de antecipação, de estruturação e de interpretação. Quanto ao processo cognitivo, podemos dizer que há dois modos de leitura: uma, que o leitor simplesmente busca concluir, interessado apenas na ânsia da resolução da intriga, neste caso, o leitor realiza uma leitura rápida, preocupado em chegar ao fim em um curto tempo; e outra, em que o leitor sacrifica o tempo da leitura em prol da interpretação, buscando sentidos a todas implicações do texto. Esta leitura é a qual Roland Barthes chama de “levantar a cabeça”, pois “não deixa passar nada; ela pesa, gruda ao texto, lê, se se pode assim dizer, com aplicação e arrebatamento, apreende em cada ponto do texto o assíndeto que corta as linguagens – e não a anedota: não é a extensão (lógica) que a cativa, o desfolhamento das verdades, mas o folheado da significância; como no jogo da “mão quente”, a excitação, provém, não de uma pressa processiva, mas de uma espécie de charivari vertical (a verticalidade da linguagem e de sua destruição); é no momento em que cada mão (diferente) salta por cima da outra (e não uma depois da outra), que o buraco se produz e arrasta o sujeito do jogo – o sujeito do texto. (BARTHES, 2004, p. 18) 69 Embora haja essa dicotomia na dinâmica da leitura, existe um ponto intermediário, no qual progressão e compreensão combinam-se em proporções diversas, mas em qualquer caso, a leitura exige uma competência, um saber mínimo para que a leitura realmente se efetue. Em se tratando dos contos de Murilo Rubião, o leitor pode tentar assumir o contrato de leitura com o texto aceitando suas implicações e fazer uma leitura progressiva, visando apenas o relato, porém no decorrer da leitura o leitor se encontrará perturbado pela narrativa, pois é característica do fantástico desestabilizar a noção de mundo que o leitor tem. Assim, a própria construção do texto muriliano intima o leitor a pôr em ação seus conhecimentos prévios de modo a confrontá-los com o narrado, desenvolvendo o processo cognitivo da leitura em busca do sentido em um constante “levantar de cabeça”. O processo afetivo refere-se ao fato de o texto suscitar emoções no leitor com base no princípio da identificação, o leitor se identifica com as personagens ou com o enredo. O fantástico gera uma ligação de afetividade, transpondo para o leitor o sentimento de terror, de perturbação ou de angustia vivenciado pelas personagens. É comum o leitor angustiar-se com Gérion em “O Bloqueio”, com o protagonista de “O ex-mágico da Taberna Minhota”, com Galateu em “O lodo”, e assim sucessivamente. Vale lembrar que é próprio do fantástico suscitar uma desestabilização emocional-afetiva ao transgredir a visão de real do leitor mediante a confrontação da realidade empírica e a realidade segunda, causando assombro ao leitor. Ao passar para o processo argumentativo, o texto conduz a uma tomada de posição reflexiva do leitor diante dos mundos – interno e externo – num conjunto organizado de elementos que buscam representação em todas as narrativas. Independentemente do gênero textual, o leitor é interpelado a projetar-se reflexivamente pela argumentação desenvolvida e o engajamento entre texto, leitor e leitura é inevitável. Os relatos de Murilo Rubião, mesmo que implicitamente, desenvolvem a função argumentativa de modo a levar o leitor a se questionar sobre seu modo de perceber o mundo. Por trás das metáforas, das metonímias, das hipérboles e dos oximoros, reflete sutilmente pontos de vista que cabe ao leitor assumi-las ou refutá-las. Ao lermos o conto “A fila”, podemos inferir uma argumentação representativa da alienação humana que se condiciona ao sistema 70 burocrático para tornar-se participante do contexto social; isto, mediante a processos metafóricos e implicações textuais. Por fim, no processo simbólico, o sentido que se constrói na leitura, no jogo entre os pontos de vista representados na narrativa, dos argumentos propostos desembocam imediatamente no leitor e no contexto cultural no qual cada um se desenvolve. A leitura – do mundo interno e do mundo externo – relacionando-se com a cultura, salienta os esquemas dominantes do leitor inserido num meio e numa época e afirma sua dimensão simbólica, agindo no imaginário individual e coletivo independentemente da vontade de cada leitor. Assim, segundo Thérien (1990), o sentido prende-se no imaginário de cada leitor, mas encontra, em razão do vigor coletivo de sua formação, a existência de outros imaginários. Ao conceder o caráter coletivo e individual da leitura, Jouve diz que “[...] pode-se estudar a leitura seja em suas consequências globais na sociedade seja no efeito particular que produz no indivíduo.”(JOUVE, 2002, p.125). E que: “A obra, contudo, em vez de afiançar os valores dominantes, pode, por meio da leitura, legitimar novos valores. Não se trata mais então de transmitir a norma, mas sim de criar referências novas.” (JOUVE, 2002, p.125-126). Ainda, afirma que “[...] o sujeito tem a possibilidade, graças à leitura, de se redescobrir. O interesse do texto lido não vem mais então daquilo que reconhecemos de nós mesmos nele, mas daquilo que aprendemos de nós mesmos nele.”.(JOUVE, 2002, p.131). Se o processo simbólico recai no contexto cultural de cada leitor, torna-se evidente, como apresentado no capítulo anterior, a presença do leitor real, que para desencadear todos esses processos de leitura precisa de um mínimo de competência e conhecimento de mundo. Conclui-se que, para a efetivação da compreensão dos contos de Murilo Rubião, é necessário transpassar pelas cinco dimensões da leitura fundamentando-se na estrutura do texto, no jogo de suas relações internas, que o leitor reconstruirá o contexto necessário à interpretação da obra. Recebida fora de seu contexto de origem, a obra muriliana se abre para uma pluralidade de interpretações, de modo que cada leitor traz consigo sua experiência, sua cultura, seus valores, podendo optar em realizar uma leitura ingênua (focada apenas na intriga, no enredo) ou crítica (focando na interpretação) da obra. 71 III.2. Murilo Rubião X Vestibular: que leitura se espera? Murilo Rubião tem se tornado cada vez mais presente nas listas de leituras exigidas nos vestibulares, ainda que seu destaque permaneça entre os Estados de Minas Gerais, Goiás e São Paulo, incluindo também o Distrito Federal. Mas nosso objetivo não é analisar a presença da literatura muriliana nos processos seletivos das faculdades e/ou universidades e sim perceber o que esses exames cobram do leitor de Murilo Rubião, que leitura se espera que o leitor realize dos contos desse autor mineiro. Em 2001, a Faculdade Milton Campos de Minas Gerais incluiu em sua lista de obras o livro O Convidado de Murilo Rubião, para o qual se formularam duas questões, a de número 29 e 30 da Prova de Língua Portuguesa e Literatura 32. Transcrevemos as questões para que possamos comentá-las: 29º. QUESTÃO (FMC/1º SEM/2001) A obra de Murilo Rubião é marcada pela presença de cenas insólitas, que fazem emergir uma realidade fantástica, como exemplificam todas as passagens abaixo, extraídas de O convidado, EXCETO: a) “Em uma das ocasiões em que se preparava para levantar-se, descuidou-se um pouco, suspendendo demasiadamente o lençol que cobria a companheira: no ventre dela nascera uma flor negra e viscosa.” b) “Oito andares abaixo, a escada terminou abruptamente. Um pé solto no espaço retrocedeu transido de medo, caindo para trás. Transpirava, as pernas tremiam.” c) “Havia tal segurança na voz e nos modos do caixeiro que Alferes, mesmo vendo não ser bicórneo o chapéu, evitou contradizê-lo. A um sinal do outro, acompanhou-o a um cubículo revestido de espelhos.” d) “Desencadeara o processo e de súbito o nascimento dos filhos não obedecia ao período convencional, a gestação encurtava-se velozmente, Nasciam com sei, três, dois meses e até vinte dias após a fecundação.” 32 A prova pode ser acessada pelo endereço: www.vestibular.mcampos.br/provasantigas/Provas2001_1.pdf 72 Nota-se que a questão apresenta excertos de alguns contos que compõem a obra O convidado e que, no momento de assinalar o item “C”, é cobrado do candidato a identificação do trecho em que não há descrição de elementos insólitos e/ou sobrenaturais. Neste caso, a questão generaliza a presença de elementos insólitos na obra de Murilo Rubião, levando o leitor apenas a reconhecer e identificar esse elemento característico do fantástico na obra. Desse modo, a questão visa somente a construção textual e não a leitura interpretativa da obra. Não distante disso, a questão de número 30 visa o conhecimento que o leitor tem da estrutura e do enredo dos contos que compõem a mesma obra: 30º. QUESTÃO (FMC/1ºSEM/2001) Em todas as alternativas, os comentários sobre O convidado, de Murilo Rubião, foram devidamente exemplificados pelos excertos extraídos dos contos que compõem essa obra, EXCETO em: a) As epígrafes que antecipam as histórias trazem, algumas vezes, a idéia de advertência, como esta de “A fila”: “E eles te instruirão, te falarão, e do seu coração tirarão palavras.” b) O ser humano mostra-se quase sempre agindo fora do senso da racionalidade, numa postura não convencional, fugindo aos padrões da normalidade, como se observa em “Botão-de-rosa”: “Verificando que seu cliente seria julgado pelo Tribunal de júri, procurou o promotor e lhe disse que iria argüir incompetência de juízo se o réu não fosse enquadrado no ritual da lei que tratava de entorpecentes.” c) As personagens, com freqüência, revelam-se presas a um destino trágico, envolto por uma atmosfera absurda, como em “Petúnia”: “Não dorme. Sabe que seus dias serão consumidos em desenterrar as filhas, retocar o quadro, arrancar as flores. Traz o rosto constantemente alagado pelo suor, o corpo dolorido, os olhos vermelhos, queimado. O sono é quase invencível, mas prossegue.” d) As histórias retratam que o empreendimento da busca, muitas vezes, acaba desaguando em um encontro com a angústia e a 73 frustração, como ocorre em “Epidólia”: “Chegara à exaustão e o nome da amada, a alcançar absurdas gradações pelo imenso coral, levava-o ao limite extremo da angústia. Apertou o ouvido com as mãos, enquanto o coro se distanciava, até desaparecer. Pirópolis recuava no tempo e no espaço, não mais havia o mar.” A alternativa “A” evidencia uma intencionalidade do texto, claramente perceptível na epígrafe do conto A fila, porém não exige do leitor nenhuma leitura interpretativa do conto para que avalie se tal intencionalidade está presente também no todo, na globalidade do relato. A alternativa “B”, a qual deveria ser assinalada pelo candidato, requer que o leitor perceba que no excerto retirado do conto “Botão-de-rosa” não corresponde ao comentário feito, assim, o leitor se mantém no plano superficial da leitura. As alternativas “C” e “D” desencadeiam comentários no que tange ao enredo, assim, o leitor é cobrado de uma leitura ingênua, permanece apenas no plano da intriga, do enredo, como descrito no tópico 3.1. deste capítulo. Em 2004, a Pontifícia Universidade Católica – PUC/MG seleciona a obra A casa do Girassol Vermelho, de Murilo Rubião, apresentando três questões na prova de Língua Portuguesa e Literatura33. Vejamos cada uma delas (não estamos seguindo a numeração fiel da prova): 1ª. (PUC-MG/2004) Rui Mourão emite o seguinte ponto de vista a respeito da obra de Murilo Rubião: "Com Murilo Rubião vamos ter o protótipo duma ficção que procura um realismo, digamos, de segundo grau, aberto para o onírico e para os desvãos indevassáveis da consciência." Em todas as alternativas, retiradas de "A Casa do Girassol Vermelho", há trechos que podem servir de exemplo às palavras de Rui Mourão, EXCETO: a) "Meu irmão Artur, sempre ao sabor de exagerada sensibilidade, contestava enérgico as minhas conclusões. Nervoso, afirmava que as casas começavam a tremer e apontava-me o céu, onde se revezavam o 33 Questões retidas do site: http://www.klickeducacao.com.br/simulados/simulados_mostra/0,7562,POR-342825-193-2004,00.html 74 branco e o cinzento. (Pontos brancos, pontos cinzentos, quadradinhos perfeitos das duas cores, a substituírem-se rápidos, lépidos, saltitantes.)" b) "Através do corpo do homenzinho viam-se objetos que estavam no interior da casa: jarras de flores, livros, misturados com intestinos e rins. O coração parecia estar dependurado na maçaneta da porta, cerrada somente de um dos lados.” c) "- Tem certeza de que é aqui, Geralda? Ela balançou a cabeça afirmativamente, porém não dei importância ao gesto. Preocupava-me unicamente em descobrir como conseguira adivinhar-lhe o nome, pois estava certo de tê-lo pronunciado pela primeira vez naquele exato instante." d) "Ao verificar que ela não gracejava e se punha impaciente com o meu sarcasmo, quis explicar-lhe que o sobrenatural não existia. Os meus argumentos não foram levados a sério: ambos tínhamos pontos de vista bastante definidos e irremediavelmente antagônicos." Percebe-se que a questão da PUC-MG é muito semelhante à questão de número 29 da FMC, pois o candidato deveria assinalar a alternativa “D”, a qual apresenta um excerto de um dos contos que compõem A Casa do Girassol Vermelho e que não apresenta o ponto de vista de Rui Mourão a respeito da obra de Murilo Rubião, reconhecendo a passagem que não tem o protótipo de uma ficção que procura um realismo de segundo grau, aberto para o onírico. Assim, cabe aqui o mesmo comentário feito para a questão 29 da FMC; o leitor apenas é cobrado a perceber a presença de elementos oníricos, anormais e sobrenaturais na construção do fantástico muriliano. A segunda questão da PUC-MG (2004) refere-se à composição da obra de Murilo Rubião que encontra-se marcada pelo gênero fantástico. Ao assinalar a alternativa “C”, o candidato demonstra a forma como o fantástico atua na obra do escritor mineiro, não ultrapassando do plano estrutural, ou seja, o candidato não faz nenhuma leitura da obra: 2ª (PUC-MG/2004) Sobre a obra “A casa do Girassol Vermelho”, é CORRETO afirmar: 75 a) Trata-se de um romance em que são explorados aspectos de vários momentos do modernismo, em especial, do neo-realismo. b) Compõe-se de poemas em prosa cujo ponto em comum se encontra na temática urbana, em sua variabilidade de violência e solidão. c) É formada por um conjunto de contos do realismo fantástico, modalidade que explora a convivência harmônica de acontecimentos insólitos num universo familiar ao leitor. d) Nela são preponderantes as crônicas da vida diária de um expresidiário que luta desesperadamente para integrar-se à sociedade como um cidadão comum. A terceira questão do vestibular da PUC-MG (2004) exige que o candidato (leitor) estabeleça uma correspondência entre os títulos e os contos que compõem a obra A Casa do Girassol Vermelho, assim a leitura permanece somente no plano superficial, verificando se o candidato realmente leu os contos, deste modo, mantém-se apenas a leitura ingênua, focada no enredo, na intriga das histórias: 3ª (PUC-MG/2004) Em todas as opções, título e textos de “A Casa do Girassol Vermelho” estabelecem entre si correspondência adequada, EXCETO: a) Em “Os três nomes de Godofredo”, um homem depara com mulheres de quem não se lembra, mas que afirmam conhecê-lo intimamente. b) “Bruma” narra as sensações de um homem que acorda um dia e percebe que havia se transformado em uma gigantesca barata. c) “A armadilha” reproduz uma discussão entre dois homens, na sala de um edifício deserto, por causa de algum fato do passado. d) Em “A casa do girassol vermelho”, seis jovens se divertem experimentando a sensação de liberdade após a morte do pai adotivo. O candidato que leu a obra de Murilo Rubião saberá perfeitamente assinalar a alternativa “B”, pois trata de um enredo que não pertence a nenhum conto muriliano, muito menos ao “Bruma”. O enredo nos faz lembrar o conto “A metamorfose” de Franz Kafka, embora este conto relate que o 76 protagonista tenha se transformado em um inseto, não deixa explícito que tenha sido em uma barata. O Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em 2005, também lança uma questão sobre Murilo Rubião em seu exame de vestibular. Assim como os vestibulares até então mencionados, a questão do ITA/2005 34 também se preocupa com a estrutura e construção da obra muriliana, solicitando do candidato assinalar a alternativa “B”, a qual evidencia a marca de presença de ações sobrenaturais ou surreais na obra de Murilo Rubião e que possui significados metafóricos: (ITA/2005) A ficção contemporânea brasileira é marcada por uma diversidade muito grande de temas e de estilos. Nesse universo ficcional, um dos escritores de maior singularidade é Murilo Rubião, autor de livros, como O pirotécnico Zacarias, O convidado e A casa do girassol vermelho, publicados nos anos 1970. Das opções abaixo, assinale a que melhor define a obra desse autor. a) O fato de ele ter escrito uma obra muito concisa, pois publicou poucos títulos, bem como sua predileção pelo conto, única forma literária a que se dedicou. b) O fato de o autor ter escrito obras incluídas no gênero fantástico, cuja principal marca é a presença de ações sobrenaturais ou surreais, e que possuem significados metafóricos. c) A presença de um forte psicologismo, ou seja, um aprofundamento nas motivações inconscientes e oníricas das ações das personagens. d) A presença do sobrenatural, em contos próximos do clima de terror, e a presença do monstruoso, como no conto que narra as transformações de um coelho em vários outros animais. e) O uso de elemento fantástico como forma de crítica social, como no conto que mostra o emagrecimento monstruoso de um homem, ocasionado pela sua obsessão pela vida do vizinho. 34 A prova pode ser acessada pelo endereço: http://www.google.com.br/#q=vestibular+murilo+rubi%C3%A3o&hl=ptBR&prmd=imvnso&ei=_a4vT8e nKMzuggfj2cHKDw&sqi=2&start=10&sa=N&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.,cf.osb&fp=eee548c911c2660&bi w=1360&bih=587 77 Na mesma linha de exigências, a Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), com base na obra O Pirotécnico Zacarias, em seu vestibular de 200635, apresenta duas questões, as de número 14 e 15, da prova de Língua Portuguesa, sobre a estrutura e construção do fantástico na obra do autor. QUESTÃO 14 (UEMG/2006) A respeito da obra O PIROTÉCNICO ZACARIAS, de Murilo Rubião, SÓ é incorreto afirmar que: a) as epígrafes dos contos estabelecem uma relação de diálogo com o conteúdo temático dos mesmos. b) os contos são marcados pela presença de personagens cujas ações transitam entre situações reais e situações estranhas, inusitadas, absurdas. c) a metamorfose, ou seja, a transformação, a mudança é elemento constante no enredo dos contos, em geral. d) a magia é elemento paradoxal e, por isso, descartado no desenvolvimento temático dos contos, uma vez que retira das personagens e das ações a aura do mistério. Essa é outra questão preocupada apenas com a estrutura, apontando os elementos constitutivos da obra, como por exemplo, o fato das epígrafes estabelecerem relação de diálogo com o conteúdo temático do texto e que os personagens transitam por ações absurdas e estranhas, além do fato de a metamorfose ser temática constante na obra. Se o leitor conhece os mecanismos de construção textual do autor, facilmente será levado a assinalar a alternativa “D”. A questão de número 15 apresenta uma epígrafe do conto O Edifício, e pede para que o candidato a associe com um dos trechos apresentados nas alternativas. Embora o candidato tenha que associar o trecho da alternativa “B” com a epígrafe, não há um processo de interpretação, apenas devendo identificar as ações que fogem de controle, que estejam “fora da lei”. Portanto, permanecemos no plano do enredo, já que a intencionalidade da epígrafe não é apontada. Para que isso ocorra, é necessária a leitura global do conto. 35 A prova pode ser acessada pelo endereço: http://copeps.uemg.br/2Seletivo2012/coletanea/2006/PS2006ProvasGeraisCaderno1.pdf 78 QUESTÃO 15 (UEMG/2006) Leia, a seguir, a epígrafe do conto “O Edifício”, que integra a obra O Pirotécnico Zacarias: “Chegará o dia em que os teus pardieiros se transformarão em edifícios; naquele dia ficarás fora da lei.” - Miquéias, VII, 11. Indique, abaixo, a alternativa cujo trecho se associa diretamente a esta epígrafe. a) “Empolgado por um delirante contentamento, o engenheiro distribuía gratificações, desfazia-se em gentilezas com o pessoal, vagava pelas escadas, debruçava-se nas janelas, dava pulos (...)” b) “Inquietante expectativa marcou a aproximação do 800º. pavimento. (...) Homens e mulheres, indiscriminadamente, se atracaram com ferocidade, transformando o salão num amontoado de destroços. Enquanto cadeiras e garrafas cortavam o ar, o engenheiro, aflito, lutava para acalmar os ânimos. Um objeto pesado atingiu-o na cabeça(...)” c) “Para prolongar o sabor do triunfo, que o cansaço começava solapar, ocorreu-lhe redigir um circunstanciado relatório aos diretores da Fundação, contando os pormenores da vitória. Demonstraria também a impossibilidade de surgir, no futuro, outras profecias que pudessem embaraçar o prosseguimento das obras.” d) “A fim de estimular a camaradagem entre os que lidavam na construção, desenvolviam-se aos domingos alegres programas sociais. Devido a esse e outros fatores, tudo corria tranqüilamente, encaminhando-se a obra para as etapas previstas.” A Universidade de Brasília (UNB), em 201036, apresenta uma série de questões sobre um excerto do conto “A cidade”. As questões seguem do número 59 ao 66. A diferença das questões da UNB em relação às das outras universidades é que aqui o candidato se depara com uma afirmativa, da qual se deve dizer se está correta ou incorreta, e apresentar uma justificativa. Da questão 59 até 63 tange ao que se refere à estrutura e enredo do conto. No caso, todas estão incorretas: 36 A prova pode ser acessada pelo endereço: http://www.cespe.unb.br/vestibular/1VEST2010/arquivos/1o_DIA_VEST_2010_CAD_14_BIS.pdf 79 (UNB/2010) 59 O texto apresenta características do modelo Naturalista de narrativa, como evidenciado, por exemplo, na influência do meio nas percepções do personagem. 60 Estruturalmente, a narrativa apresentada caracteriza-se pela presença de um narrador-personagem, que atua e, a partir de uma perspectiva crítica, relata a sua atuação. 61 Como exemplo de narrativa contemporânea, o texto de Murilo Rubião demonstra o apego à descrição positivista dos fatos e dos personagens, sem deixar margem a simbologias. 62 A forma pela qual as ambiguidades se estabelecem no texto de Murilo Rubião evidencia a utilização de técnicas literárias modernistas como o pastiche e a colagem, presentes, também, na obra Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade. 63 Conforme se constata na leitura desse fragmento, o personagem é transportado ao local a que, de fato, tinha firme intenção de chegar. Percebe-se que todas dizem respeito à forma do texto ou ao enredo em si, sempre mantendo o candidato (leitor) no plano superficial, no plano textual. Já as questões de número 64 até 66 não são dignas de serem transcritas pelo fato de utilizarem o excerto apenas como pretexto para se verificar conhecimentos gramaticais. Em 2012, a Universidade Federal de Goiás incluiu em sua lista de obras para o vestibular, Obras completas, de Murilo Rubião. Porém, na prova de Língua Portuguesa e Literatura37 houve apenas uma única questão (de número 08) com duas perguntas: 37 A prova pode ser acessada pelo endereço: http://www.vestibular.ufg.br/2011/ps2012_1/2aEtapa/cadernoquestao_g2_primeiro_dia.pdf 80 Leia o trecho a seguir. Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo. [...] Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos. Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado. RUBIÃO, Murilo. O ex- mágico da taberna Minhota. In: ______. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 23; 24. O trecho transcrito do conto “O ex-mágico da Taberna Minhota” explicita um momento de crise do protagonista, que procura na morte a solução de seu conflito existencial. Considerando a relação desse fragmento com o enredo do conto, responda: a) O cotidiano de funcionário público ocasiona a morte de qual capacidade do protagonista? (2,0 pontos) b) Que dilema típico do homem contemporâneo é tema central desse conto? (3,0 pontos) A UFG espera que na questão “a” o candidato seja capaz de dizer que o cotidiano de funcionário público ocasiona a morte de sua capacidade de fazer mágica ou a perda de seu talento para mágica. Isso faz com que o candidato (leitor) permaneça no plano do enredo, na leitura ingênua. Mas a questão “b”, ao questionar qual é o tema central do conto, exige que o leitor realize uma leitura mais crítica do conto, a ponto de levar o candidato (leitor) a afirmar que o dilema presente no tema central do conto é a impotência do homem para realizar seus ideais, objetivos, desejos no mundo em que vive; e/ou a incapacidade de modificar o mundo em que vive, a rotina da vida; e/ou a insatisfação diante da incapacidade do homem de modificar a vida, o mundo em que vive 38. Percebe-se que esta multiplicidade de respostas só é possível mediante a ação interpretativa do leitor, pois, para identificar o tema central da obra, o leitor deve realizar uma leitura crítica da mesma. Mediante este fato questionamos se 38 Estas respostas foram apresentadas pela própria UFG como respostas esperadas (gabarito) 81 enfim estamos adentrando um processo significativo de leitura de uma literatura tão singular quanto a de Murilo Rubião. Será o começo da atuação do leitor real frente a essa literatura que até então previa um leitor implícito? A resposta para esta pergunta pode ser percebida em outra questão apresentada na 1ª etapa do Vestibular 2012 da própria UFG; classificada como “questão 16”39: Murilo Rubião, em sua Obra completa, tece críticas a determinadas situações observadas por ele em seu contexto histórico, mas que alcançam diversas realidades políticas do século XX. Nesse sentido, no conto “A cidade” observa-se uma crítica que: (A) metaforiza, na acusação de conspiração sofrida pelo protagonista, os regimes políticos autoritários que restringem a liberdade de expressão dos cidadãos, como o ocorrido no salazarismo, em Portugal. (B) evidencia, ao apresentar o apoio dos moradores à prisão do protagonista, as práticas de favorecimento e cooptação da população por meio de uma agenda populista, a exemplo da Espanha franquista. (C) alegoriza, na reação dos moradores e da polícia em relação à chegada de um personagem que causa repugnância, as práticas de segregação de um grupo étnico, a exemplo do Apartheid, na África do Sul. (D) permite, pela observação do comportamento violento dos policiais na narrativa, comparar a atitude de tais personagens a ações de repressão, como as da Gestapo, a polícia política da Alemanha nazista. (E) enfatiza, por estabelecer uma rivalidade entre os moradores e o protagonista, as disparidades socioculturais entre nações vizinhas, como o ocorrido na ocupação da Palestina por Israel. Espera-se que o candidato assinale a alternativa “A”. Isso nos revela explicitamente que o leitor deva realizar uma leitura metafórica do texto, portanto, o leitor deve ver o texto como uma construção literária que assume o papel de 39 A prova pode ser acessada pelo endereço: http://www.vestibular.ufg.br/estatisticas/20121/1%20etapa/cadernoquestao_tipo1.pdf 82 questionar algo da realidade, do nosso cotidiano e que agora passa a ser dissolvido pelo fantástico e apresentado de modo metafórico, como nos é apresentado no tópico “I.3 – A metáfora e a desestabilização da escritura” deste trabalho por Alazraki, Bozzetto e Jackson. É factual, portanto, que a questão cobre do leitor/candidato a leitura no nível “lectant” (leitante), proposto por Michel Picard e por Jouve, já que, para solucionar a questão, o leitor realiza uma leitura crítica e interpretativa do texto. Vale lembrar, que o “lectant” corresponde ao conceito de leitor interpretante e crítico que percebe o relato como construção artística cuja organização e sentido se trata de captar e de apreciar sem deixar-se seduzir pela ilusão de realidade. Esta questão da UFG faz com que o “lectant”, como proposto por Jouve, desdobre-se em um “leitante brincando” (o qual procura reconhecer a estratégia narrativa do texto), assim, o leitor/candidato deve identificar a metáfora como sendo a principal estratégia narrativa do conto “A cidade” de Murilo Rubião para em seguida ser o “leitante interpretando” (o qual visa decifrar o sentido global da obra), o que leva o leitor/candidato a estabelecer uma relação entre a acusação de conspiração sofrida pelo protagonista com os regimes políticos autoritários que restringem a liberdade de expressão dos cidadãos, como o ocorrido no salazarismo, em Portugal. Levando em conta que o elaborador da questão seja um leitor, então, temos claramente a posição do leitor real no texto fantástico de Murilo Rubião, pois, ao elaborar a questão de número 16 da UFG, esse leitor estabeleceu uma relação metafórica com seu conhecimento de mundo, com seu repertório, já que, identifica uma temática voltada para a coarctação da liberdade de expressão e associação desta com o sistema de censura imposto pelo ditador António de Oliveira Salazar em Portugal. Ao transpor os limites do texto, o leitor real se mostrou ativo, pois teve a função de construir o sentido do texto com base no seu repertório (conhecimento adquiridos ao longo de sua jornada enquanto ser e enquanto leitor, já que se refere a um conjunto de normas sociais, históricas e culturais que constituem a competência de um leitor), desse modo, outro leitor poderia associar a temática apontada pelo elaborador da questão com o Regime Militar imposto na década de 60 no Brasil ou, com qualquer sistema autoritário político da atualidade: Hugo Chávez (Venezuela), Raúl Castro (Cuba), Kim Jong II (Coréia do Norte), etc. 83 Nessa mesma prova da UFG, segue a questão de número 20 que questiona teoricamente a construção do efeito fantástico na obra de Murilo Rubião: Há diversas possibilidades de compreensão do fenômeno fantástico em Literatura. Tzvetan Todorov, em seu livro Introdução à literatura fantástica, afirma: “Há um fenômeno estranho que se pode explicar de duas maneiras, por meio de causas naturais e sobrenaturais. A possibilidade de se hesitar entre os dois criou o efeito fantástico.” TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 31. Nos contos de Murilo Rubião, o efeito fantástico, tal como afirma Todorov, efetiva-se por (A) empregar as experiências incomuns das personagens e o tempo da narrativa para criticar a realidade política de sua época. (B) indeterminar o desfecho, permitindo ao leitor uma interpretação excêntrica da história narrada. (C) ampliar a fronteira da realidade, introduzindo elementos extraordinários no cotidiano narrado. (D) construir um horizonte maravilhoso entre ficção e realidade, sugerindo uma deturpação dos fatos históricos. (E) explorar situações absurdas que estabelecem uma distorção entre o espaço da narrativa e as ações das personagens. A resposta esperada é a alternativa “C”, que nos apresenta a base da definição do efeito fantástico. Esta questão nos revela que Tzvetan Todorov ainda é referência no que tange à teoria do Fantástico. Prova disso é o tópico “1.2. O texto fantástico”, deste trabalho, que inicia o estudo do fantástico a partir da obra Introdução à Literatura Fantástica de Todorov. Porém, como visto nesse tópico, a obra de Murilo Rubião transcende a teoria de Todorov que se restringe ao sentimento de hesitação, tanto da personagem quanto do leitor. Recordamos que, para Mary Erdal Jordan, a hesitação é característica do fantástico tradicional, pertencente ao século XIX e que o fantástico do século XX, chamado de fantástico moderno, de neofantástico ou fantástico novo, distancia-se desta definição apresentada por Todorov e recai para uma definição do fantástico enquanto fenômeno da linguagem. 84 Ao levarmos em consideração a comparação existente entre Murilo Rubião e o escritor Franz Kafka por diversos estudiosos dessas literaturas, torna-se nítida esse distanciamento do texto muriliano em relação à teoria de Todorov, visto que, o próprio autor, em seu livro Introdução à Literatura Fantástica, ao chegar a uma análise sobre o conto “A metamorfose” de Kafka, afasta-se de sua definição e recorre a Sartre, que considera o fantástico kafkiano “comme un langage” (TODOROV, 2004, p.181). Porém, em uma leitura no nível “lisant” (lendo), como proposto por Jouve, confere aos contos de Murilo Rubião, o efeito fantástico, tal como afirma Todorov, ou seja, efetiva-se por ampliar a fronteira da realidade, introduzindo elementos extraordinários no cotidiano narrado. Isso ocorre pelo fato do “lisant” corresponder à atividade participativa do leitor simpatizante e crédulo, que se deixa levar pela força ilusória do referencial do relato, o leitor reage como se o mundo do texto fosse real, identificando-se com algum personagem ou meramente simpatizando-se com ele. Neste caso, se o personagem hesita, o leitor também hesitará. Esta hesitação se dá pelo fato de que o leitor “lisant” esquece a natureza linguística do texto, ele não reconhece as estratégias linguísticas do texto, ele acredita por um momento no que lhe está sendo contado. O que é válido nesta questão é a habilidade do leitor/candidato relacionar um conto fantástico – “A cidade” de Murilo Rubião – com uma teoria sobre o gênero, de modo a perceber um dos recursos aplicado na elaboração desse texto literário e consequentemente seu efeito. A Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC/GO) incluiu em seu vestibular, processo seletivo – 2013/140, um excerto do conto “Memórias do contabilista Pedro Inácio” de Murilo Rubião, sobre o qual elaborou dez questões nas mais diversas áreas do conhecimento, como segue-se: Texto 05 1 Ah! o amor. O amor de Jandira me custou sessenta mil-réis de bonde, quarenta de correspondência, setenta de aspirina e dois anos de completo alheamento ao mundo. Fora cinquenta por cento de meus cabelos e as despesas com 40 A prova pode ser acessada em http://www.vestibulandoweb.com.br/gabaritos/prova-puc-go-2013.pdf 85 os clínicos que, erroneamente, concluíram ser hereditária a minha calvície. Mas os médicos que procurei nada entendiam de alma e nem eu, tampouco, conhecia suficientemente a minha família. Só mais tarde descobri o erro deles. Foi Dora, uma espanholinha cor de lírio, que gostava de dança clássica e mascar chicletes, quem me revelou a origem de meu mal. 2 Como os bons remédios, Dora me ficou barato. Algumas dúzias de chicletes, cinco bilhetes de festivais de caridade, onde – devo confessar – ela dançou divinamente; uma caixa de orquídeas e apenas dois envelopes de aspirina. Tudo por oitenta mil-réis. Em troca dessa ridícula quantia, fiquei conhecendo a história de meus ancestrais, o motivo da minha irresistível atração pelo amor e pela contabilidade. Antes não soubesse que o meu sentimentalismo era hereditário! Não teria adquirido essa obsessão de consultar alfarrábios e viver vasculhando árvores genealógicas. Deste-me, inefável Dora, o oficio mais cansativo do mundo. 3 Porém a minha mania de escrever não nasceu dos movimentos graciosos e harmônicos do corpo de Dora. Não. Teve origem no meu noivado com Aspásia. (Como é dispendioso um noivado! Até hoje não sei em quanto me ficou esse meu desafortunado romance.) Ou, melhor, a culpa também não coube a minha noiva, como por muito tempo me pareceu. Mas a certo antepassado, um alentejano beberrão, que chegou a escrever dez volumes sobre a utilidade das bebidas espirituosas e seis sobre a não hereditariedade do vício alcóolico. Para maior entendimento destas memórias, devo ainda esclarecer que esse meu ancestral, José Antônio da Câmara Bulhões e Couto, morreu de desgosto ao descobrir que dois de seus bisavós tinham falecido em consequência de cirrose hepática. Não resistiu à derrocada de suas teorias e criou, assim, uma lamentável exceção entre os da minha 86 honrada estirpe: foi seu único membro que não desapareceu vitimado pelo amor. (RUBIÃO, Murilo. Obra Completa. Sao Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 118-119.) QUESTÃO 34 Analise o seguinte recorte, extraído do texto 05: “[...] José Antônio da Câmara Bulhões e Couto morreu de desgosto ao descobrir que dois de seus bisavós tinham falecido em consequência de cirrose hepática”. Sobre o tema em destaque, analise as proposições abaixo: I - A cirrose hepática surge em decorrência de um processo inflamatório crônico e progressivo. II - A cirrose hepática é considerada uma doença terminal do fígado, para onde convergem diversas doenças das mais variadas etiologias. III - A cirrose hepática pode ser induzida por drogas e por agentes bacterianos. IV - Na cirrose hepática, há o depósito de um tecido funcionalmente impotente denominado tecido fibroso. De acordo com os itens analisados, marque a alternativa que contenha apenas proposições corretas: A ( ) I, II e III B ( ) I, II e IV C ( ) I, III e IV D ( ) II, III e IV A questão 34 pertence à disciplina de Biologia e a resposta correta é a alternativa “B”. Nesta questão nota-se que o texto é apenas um pretexto para a elaboração do exercício, não tendo nenhuma ligação com o conto em si. QUESTÃO 35 Considere a parte 1 do texto 05 (do trecho de “Ah, o amor” até “quem me revelou a origem de meu mal”). 87 Agora, analise as relações que as palavras estabelecem entre si e sua organização nas frases desse texto. Em seguida, marque a alternativa verdadeira: A ( ) A locução “Ah, o amor” e um marcador de expressividade e não exerce função sintática na frase. Aqui, equivale à interjeição “psiu!”, objetivando atrair a atenção do interlocutor. B ( ) No período simples “O amor de Jandira me custou sessenta mil-réis de bonde, quarenta de correspondência, setenta de aspirina e dois anos de completo alheamento ao mundo.”, o grupo nominal O amor de Jandira ocupa a posição de sujeito simples, em que amor representa o núcleo. C ( ) O pronome me em, “me custou”, pode ser permutado pela forma a mim. Com essa despronominalização, o verbo custar não necessitará de complemento, tornando-se intransitivo. D ( ) Na oração “quem me revelou a origem [...]”, o pronome quem e complemento da forma verbal revelou, instalando o significado do predicado, transformando a oração em adverbial. Nessa questão, espera-se que o candidato compreenda a estrutura gramatical, de modo a perceber, em um excerto do conto de Murilo Rubião, a posição de sujeito que um grupo nominal ocupa no texto e identificar o núcleo desse sujeito. Atendendo a essa expectativa, a resposta correta é a alternativa “B”. Essa questão é relativa à disciplina de Português e nada se relaciona com a leitura ou com a construção do texto fantástico, é apenas um exercício gramatical. QUESTÃO 36 O fragmento “Só mais tarde descobri o erro deles. Foi Dora, uma espanholinha cor de lírio, que gostava de dança clássica e mascar chicletes, quem me revelou a origem de meu mal”, extraído do texto 05, menciona a cor de lírio. Sobre a luz e as cores, assinale a alternativa correta: A ( ) Quando você olha para as pétalas de uma rosa vermelha, a cor da luz que você está vendo é branco menos vermelho. B ( ) Quando a luz branca passa através de um prisma, a luz verde e refratada mais do que a luz violeta. 88 C ( ) Quando a cor amarela é vista na tela de uma TV de tubo, os fósforos, sendo ativados nessa tela, são principalmente amarelos. D ( ) Quando a luz refrata ao passar de um meio para outro, sofre mudanças na velocidade e também no comprimento de onda. Por pertencer à disciplina de Física, a questão 36 utiliza o texto apenas como ponto de partida para discutir a ação sofrida pela luz ao passar de um meio para o outro. O conto nos serve apenas como elemento motivador para a questão, pois, a alternativa “D” – correta – não apresenta nenhum relacionamento com o texto de Murilo Rubião. QUESTÃO 37 As memórias do narrador do texto 05 estimulam-nos a pensar em como a vida moderna é marcada pela posição central que o dinheiro assume. A história nos mostra que as conexões que, anteriormente, existiam entre pessoas e as relações objetivas desfizeram-se com o dinheiro, o qual passou a interpor-se em cada instante entre as pessoas e entre as pessoas e as coisas. As relações sociais e os afetos passaram a ser mediados pelo dinheiro. Essas mudanças iniciaram-se com as transformações econômicas e sociais ocorridas primeiramente na Inglaterra, no final do século XVIII, designadas Revolução Industrial. Com relação a essas mudanças, assinale a alternativa que se refere corretamente ao cenário da Revolução Industrial: A ( ) O camponês teve a oportunidade de enriquecimento, pois a terra passou a ser valorizada. B ( ) As relações de produção manufatureiras se fortaleceram, consolidando as relações de solidariedade entre os artesãos. C ( ) As mercadorias ganharam autonomia e, independente dos seus produtores, passaram a ser adquiridas por consumidores. D ( ) O homem, no âmbito da modernidade, se viu numa relação estreita com a comunidade. A questão 37, apesar de pertencer à disciplina de História, apresenta uma leitura do conto “Memórias do contabilista Pedro Inácio”, realizada pelo elaborador 89 do exercício. Este, enquanto leitor, afirma ser estimulado pelo texto a pensar em como a vida moderna é marcada pela posição central que o dinheiro assume, a ponto de determinar as relações sociais e afetivas entre as pessoas. Nota-se que esta leitura é possível mediante o conhecimento de mundo do leitor/elaborador que associa essa problemática com as mudanças de comportamento estabelecidas pela Revolução Industrial, no século XVIII, o que infere a posição de um leitor real. A partir dessa leitura, o exercício nos aponta como as mercadorias ganharam autonomia e, independente dos produtores, passaram a ser adquiridas por consumidores (Alternativa C). QUESTÃO 38 Dora comprou três produtos, A, B e C, em três diferentes dias. No primeiro dia, comprou três unidades do produto A, duas do produto B e duas do produto C, pagando R$14,00. No segundo dia, comprou 3 unidades do produto A, quatro do produto B e não comprou nenhuma unidade do produto C, pagando pela nova compra R$14,00. No terceiro dia, comprou cinco unidades do produto A, duas unidades do produto B e cinco unidades do produto C, gastando R$28,80. Sabendo que no terceiro dia o produto A teve um aumento de 10%, o produto B teve um aumento de 20% e o produto C, um aumento de 30%, assinale a única alternativa correta: A ( ) O produto A, no terceiro dia, custa R$2,90. B ( ) O produto B, no terceiro dia, custa R$2,40. C ( ) O produto C, no terceiro dia, custa R$3,00. D ( ) Os produtos A, B e C custam juntos, no terceiro dia, R$6,00. O conto “Memórias do contabilista Pedro Inácio” de Murilo Rubião serve apenas como pretexto para elaboração da questão 38, visto que não há nenhuma relação com o texto, a não ser, apenas, o nome da personagem da problemática com o nome da espanholinha cor de lírio que aparece no conto. O texto de Murilo Rubião torna-se bastante motivador ou, até mesmo, ilustrativo para esta questão de matemática pelo fato dos constantes cálculos monetários feitos pelo contabilista Pedro Inácio. Nesse caso o candidato ao vestibular passa a ser o contabilista, que deve calcular os gastos de Dora para chegar à alternativa “B”. 90 QUESTÃO 3941 In text 05 the references to love and money are emphasized. According to the narration, select the correct alternative: A ( ) Love and money had nothing to do with each other. B ( ) He spent more money on his affair with Dora than on the one with Jandira. C ( ) He loved money more than he loved his women. D ( ) His obsessive interest in love and money had a hereditary cause. Essa questão de inglês nos revela uma leitura superficial do excerto apresentado, visto que o candidato tem por objetivo apenas localizar uma informação explícita no trecho apresentado: “Em troca dessa ridícula quantia, fiquei conhecendo a história de meus ancestrais, o motivo da minha irresistível atração pelo amor e pela contabilidade. Antes não soubesse que o meu sentimentalismo era hereditário!”. O que o leva a afirmar que o interesse obsessivo do protagonista por amor e dinheiro teve causa hereditária (alternativa “D”). QUESTÃO 3942 En este fragmento de Rubião (texto 05), el personaje describe algunos de sus relacionamientos amorosos y como ellos le ayudaron a conocer más sobre sus antepasados. Señale la única alternativa en la que los términos y las definiciones de parentesco están correctos. A ( ) Ahijado – hijo o hija de una unión anterior que uno de los cónyuges aporta al matrimonio. B ( ) Tío abuelo – tío del abuelo o de la abuela materna o paterna. 41 No texto 05 as referências ao amor e dinheiro são enfatizadas. De acordo com a narração, selecione a alternativa correta: A () Amor e dinheiro não tinha nada a ver um com o outro. B () Ele gastou mais dinheiro em seu romance com Dora do que com Jandira. C () Ele amava mais o dinheiro do que amava suas mulheres. D () Seu interesse obsessivo por amor e dinheiro teve uma causa hereditária. (Tradução nossa) 42 Neste fragmento de Rubião (texto 05), o personagem descreve alguns de seus relacionamentos amorosos e como eles lhe ajudaram a conhecer mais sobre seus antepassados. Assinale a única alternativa na qual os termos e as definições de parentesco estão corretos. A () Afilhado – filho ou filha de uma união anterior que um dos cônjuges traz para o matrimônio. B () Tio avô – tio do avô ou da avó materna ou paterna. C () Consogro – pais de um cônjuge em relação aos do outro D () Enteado – último filho nascido em uma família. (Tradução nossa) 91 C ( ) Consuegros – padres de un cónyuge con respecto a los del otro. D ( ) Hijastro – último hijo nacido en una familia. Nessa questão, de mesmo número (39), porém pertencente à disciplina de Espanhol, utiliza o excerto, também, apenas como pretexto para testar o conhecimento do candidato em relação ao vocabulário e seu sentido no que tange à definição de parentesco. Dessa forma, o candidato deve assinalar a alternativa “C”, que define o termo “consuegros” como sendo os pais de um cônjuge em relação aos do outro, sendo esta a única alternativa correta. QUESTÃO 40 Considere o recorte abaixo, extraído do texto 05: “Ah! o amor. O amor de Jandira me custou sessenta mil-réis de bonde, quarenta de correspondência, setenta de aspirina e dois anos de completo alheamento ao mundo.” A aspirina e o ácido acetilsalicílico produzido a partir da reação química entre o ácido salicílico e o anidrido acético, empregando-se o ácido sulfúrico como catalisador da reação: 92 Após a análise dessas informações, assinale a alternativa correta: A ( ) Na reação apresentada, percebe-se que a aspirina contém, em sua estrutura, um grupo funcional relativo à função éster, caracterizado pela presença da ligação entre o oxigênio da carboxila da parte restante do anidrido acético e o oxigênio da hidroxila do ácido salicílico. B ( ) A molécula do ácido salicílico contém um grupo OH que a faz pertencer também à função álcool. C ( ) O ácido acetilsalicílico é um inibidor da enzima ciclo-oxigenase. As enzimas são compostos bioquímicos, formados a partir de aminoácidos, que atuam como catalisadores das reações químicas do nosso organismo. Quimicamente, sua função é ampliar a barreira de energia para que a reação ocorra, facilitando assim seu desenvolvimento. D ( ) O mecanismo apresentado na reação sugere que o ácido sulfúrico transforma o anidrido acético em um carbocátion pela ligação do H+ ao oxigênio de uma das carboxilas do anidrido. Essa ligação faz a molécula tornar-se um nucleófilo na reação, buscando a ligação ao oxigênio do grupo OH do ácido salicílico. A questão 40, pertencente à disciplina de Química, foi anulada por conter erros na representação gráfica da reação química, porém nos serve para comentar o fato de o texto de Murilo Rubião, assim como em outras questões anteriores, servir apenas como pretexto para a elaboração de um exercício. QUESTÃO 41 Retomando os textos 01 (Augusto dos Anjos)43 e 05 (Murilo Rubião), deste caderno de prova, e suas ponderações sobre o amor, marque a alternativa correta: 43 Idealismo Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! / O amor na Humanidade é uma mentira. / É. E é por isto que na minha lira / De amores fúteis poucas vezes falo. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! / Quando, se o amor que a Humanidade inspira / É o amor do sibarita e da hetaíra, / De Messalina e de Sardanapalo?! 93 A ( ) Ambos ironizam as condições e as situações nas quais o amor pode florescer, ironizando também a fragilidade do ser humano que desconhece as armadilhas desse sentimento. B ( ) Ambos negam completamente a existência do amor; tudo gira em torno de interesses, tão somente. C ( ) Nenhum deles acredita que o amor seja pleno, mas ambos falam de um amor ideal, capaz de arrebatar qualquer coração. D ( ) Nenhum deles nega totalmente o amor, mas ambos afirmam que a felicidade obtida por esse sentimento é passível de ser contabilizada. A questão 41 pertence à disciplina de Literatura e exige que o leitor/candidato perceba a intencionalidade dos textos de Augusto dos Anjos e de Murilo Rubião: “Ambos ironizam as condições e as situações nas quais o amor pode florescer, ironizando também a fragilidade do ser humano que desconhece as armadilhas desse sentimento”. É fato afirmar que o reconhecimento da ironia no texto é uma atividade complexa, visto que a ironia literária, por ser escrita, abstém-se dos sinais de ironia que desempenham grande papel na linguagem corrente e que são de natureza gestual. Sendo a ironia considerada um recurso literário, sua identificação depende exclusivamente do leitor real circunscrito em uma leitura de nível “lectant”, portanto, refere-se à atividade crítica e interpretativa do leitor que se sente envolvido pela complexidade do texto e percebe o relato como construção artística portadora de uma intencionalidade. Assim, “ler” a ironia é semelhante ao ato de tradução, de descodificação, de decifração, neste caso, a ironia, segundo Moisés (2004, p.246), não quer que se acredite nela, mas que seja compreendida, isto é, interpretada. Na ironia, encontram-se dois discursos ou dois sentidos: o dito e o não dito, o explícito e o latente. pois é mister que, para o amor sagrado, / O mundo fique imaterializado / — Alavanca desviada do seu fulcro — E haja só amizade verdadeira / Duma caveira para outra caveira, / Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! (ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 41.) 94 De estrutura binária, não raro entendida como uma antítese ou antífrase, por meio da qual se configura a “polifonia do real,”, a ironia encontra na metáfora “o sinal, o lugar, o veículo privilegiado [...]; figura ‘dupla’ [...], ‘carregando ausência e presença, prazer e desprazer’ (Pascal) [...], é particularmente apta a servir de modelo reduzido e, por assim dizer, de ‘maquete’ local, para um mais amplo efeito da ‘ironia’” (MOISÉS, 2004, p. 248) Como dito por Moisés, a metáfora é o sustentáculo para a ironia, o que torna ainda mais difícil a interpretação daquilo que está latente no discurso, pois, o leitor, além de interpretar a metáfora empregada pelo texto, deve perceber a intencionalidade do discurso, de modo a compreender o efeito irônico do texto. Podemos dizer, que “a ironia resulta do inteligente emprego do contraste, com vistas a perturbar o interlocutor” (MOISÉS, 2004, p. 247). Diante disso, o leitor “lectant” é condicionado a decifrar o texto, alcançando o sentido latente, oculto nas malhas simbólicas do discurso composto por imagens produzidas pelas metáforas epistemológicas, no que se refere ao texto de Murilo Rubião, e, consequentemente, compreender a ironia gerada pela narrativa fantástica. QUESTÃO 42 No texto 05, o narrador fala de antepassados e hereditariedade. A hereditariedade e a variação são fatores fundamentais para o entendimento dos princípios da genética. Sobre a hereditariedade, analise cuidadosamente as proposições abaixo e assinale a alternativa correta: A ( ) A primeira Lei de Mendel afirma: “Os genes para dois ou mais caracteres são transmitidos aos gametas de forma totalmente independente, um em relação ao outro, formando tantas combinações gaméticas quanto possível, com igual probabilidade”. B ( ) A herança do sexo na espécie humana depende dos cromossomos sexuais e também dos cromossomos autossômicos, vez que esses últimos determinam os caracteres morfológicos como um todo. 95 C ( ) Na herança com dominância incompleta, um alelo não domina outro: ambos expressam a informação, o que resulta em um fenótipo intermediário. D ( ) Em plantas que apresentam a autofecundação, como não existe a troca de material genético, invariavelmente temos como resultado plantasfilhas com a mesma constituição genética da planta-mãe. A questão de número 42 apropria-se do excerto das “Memórias do contabilista Pedro Inácio” para propor uma questão sobre a hereditariedade em seu aspecto biológico. Isto faz do texto apenas pretexto para que o candidato indique que na herança com dominância incompleta, um alelo não domina outro: ambos expressam a informação, o que resulta em um fenótipo intermediário. QUESTÃO 43 Considerando que a correção monetária entre outubro de 1942 (período final da unidade monetária mil-réis) e julho de 2012 é de aproximadamente 22 x 1019 % e que a conversão da moeda de mil-réis para reais é dada pela função f(x) = (x/10005)/2750, em que x representa a quantia a ser convertida, podemos afirmar que os gastos em transporte do nosso personagem-narrador, com sua namorada Jandira, foram aproximadamente (aponte a alternativa correta) A ( ) 60,50 reais. B ( ) 1.250,00 reais. C ( ) 48 reais. D ( ) 78,35 reais. A questão 43 parte de uma situação apresentada no texto de Murilo Rubião – “O amor de Jandira me custou sessenta mil-réis de bonde, quarenta de correspondência, setenta de aspirina e dois anos de completo alheamento ao mundo.” – para testar o candidato em seus conhecimentos matemáticos. O candidato, partindo do fato de Pedro Inácio gastar sessenta mil réis em transporte, deve converter esse valor em Reais com seus devidos reajustes. 96 Apesar da questão não exigir nenhuma leitura propriamente dita do texto, ela apresenta uma proposta interessante para o leitor: atualizar informações. Isso pode ajudar o leitor a fazer uma leitura mais apropriada do texto, i.e., tendo a ideia dos valores monetários atualizados, o leitor poderá ter uma visão mais real dos fatos, contrapor o dito no texto com o seu conhecimento de mundo, já que, para o leitor de hoje é difícil conceber o significado desses valores para o protagonista na época. Tendo esses valores atualizados o leitor poderá identificar o perfil do protagonista, ou seja, se ele era rico, avarento, esbanjador, etc. Diferentemente da questão 38, discutida anteriormente, a de número 43 tem uma relação mais direta com o excerto apresentado, o que torna a proposta mais interessante. Saber que sessenta mil réis equivalem hoje a R$48,00, aproximadamente, contribui para o leitor na formação do perfil do contabilista Pedro Inácio. O leitor, aguçado por sua curiosidade, poderá aproveitar a mesma fórmula matemática e atualizar todos os valores descritos no texto e, consequentemente, fazer uma leitura mais próxima do seu conhecimento de mundo, de sua realidade. QUESTÃO 44 Os contos de Murilo Rubião costumam provocar um estranhamento inicial, pois mesclam o real e o fantástico, de modo singular. Releia o fragmento selecionado para o texto 05 e, sobre ele, assinale a alternativa correta: A ( ) Encontra-se aí a análise da tensão entre amor ideal e vida real, em que o amor será sempre vencedor. B ( ) Temos, nesse trecho, considerações sobre o amor: tropeços, percalços e toda a sorte de dificuldades que enfrentamos para viver uma grande paixão e sermos felizes, a qualquer custo. C ( ) Tem-se, nesse fragmento, a presença de um amor impossível e a aceitação do personagem de seu destino de infelicidade, contados em linguagem em que prevalece a emoção profunda e o desejo ardente de superação das intempéries que impedem sua realização. D ( ) Encontram-se, nesse fragmento, reflexões sobre os limites do real e do ideal centradas no tema do amor, aliadas ao não entendimento humano sobre as coisas da alma. 97 Relativa à disciplina de Literatura, a questão 44 apresenta inicialmente o modo como se configura o fantástico nos contos de Murilo Rubião: “costumam provocar um estranhamento inicial, pois mesclam o real e o fantástico, de modo singular”. Porém, o exercício exige do candidato/leitor uma leitura nos três níveis apresentados por Vincent Jouve, pois, o objetivo é perceber que no excerto apresentado encontram-se reflexões sobre os limites do real e do ideal centradas no tema do amor, aliadas ao não entendimento humano sobre as coisas da alma (Alternativa D). Em relação ao conto “Memórias do contabilista Pedro Inácio”, o candidato/leitor deve afastar-se dos conceitos sobre o fantástico do século XIX e reconhecer que no conto, em questão, não há nenhuma figura sobrenatural rompendo a ordem natural do protagonista, pois, como vimos no tópico “O texto fantástico”, conforme Malrieux o elemento perturbador “não é obrigatoriamente sobrenatural nem precisa ser exterior ao personagem, mas deve minar o equilíbrio intelectual do personagem e, dessa maneira, questionar os quadros de pensamento do leitor” (BASTOS, 2001, p.23-24). Destarte, a narrativa fantástica evidencia o confronto do personagem com um elemento perturbador capaz de contradizer profundamente os quadros de pensamento e de vida do personagem, ao ponto de o transtornar completamente. Isso ocorre com Pedro Inácio ao confrontar-se com o não entendimento humano da alma mediante a duplicidade do ser, dividido entre o subjetivo, representado pelo amor, e o objetivo, o lógico, representado pela contabilidade. Essa dialética levou o protagonista a um transtorno que lhe custaram metade de seus cabelos e muito dinheiro em busca da resposta para o seu problema. Assim como para o protagonista, essa tensão da incógnita sobre a alma recai sobre o leitor “lisant” e “lu”, conforme a concepção de Vincent Jouve. O leitor “lisant” corresponde à atividade participativa do leitor simpatizante e crédulo, portanto é aquele que se deixa levar pela força ilusória do referencial do relato e reage como se o mundo do texto fosse real, identificando-se com algum personagem e, consequentemente, o quadro de pensamento do leitor é questionado, como dito anteriormente por Bastos, gerando o efeito do fantástico. A partir daí, entra o leitor “lu”, que também corresponde a uma atividade participativa do leitor, na qual o leitor projeta sobre o texto seus próprios fantasmas, deixando-se 98 levar pelas pulsões do inconsciente, convertendo, desse modo, o relato de Pedro Inácio como pretexto para sentir-se a si mesmo. Só a partir de então, que o leitor “lectant” entra em cena para perceber o texto enquanto criação artística e ser capaz de perceber por meio de suas interpretações as reflexões sobre os limites do real e do ideal centradas no tema do amor. A questão 44, ao expor inicialmente que “Os contos de Murilo Rubião costumam provocar um estranhamento inicial, pois mesclam o real e o fantástico, de modo singular”, faz com que o leitor adentre o texto já com uma visão de que se trata de uma narrativa fantástica e que se deve deixar levar pela leitura nos níveis “lisant” e “lu”, porém ao apresentar as alternativas, especificamente a “D”, que expressa o modo como a temática é abordada no texto, exige a presença do leitor “lectant”. Por último, analisaremos duas questões da UFG (Universidade Federal de Goiás) apresentadas no Processo Seletivo 2013 – 1ª etapa44: QUESTÃO 12 Leia o trecho a seguir. “Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me; porque eu sou desvalido e pobre.” (Salmos, LXXXV, 1) RUBIÃO, Murilo. O ex-mágico da Taberna Minhota. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 21. Considerando-se a relação de sentido que se estabelece entre a epígrafe transcrita e o conto do qual ela foi extraída, o ex-mágico se julga “desvalido e pobre” no desfecho dessa narrativa por (A) perceber a incapacidade de resgatar seu poder. (B) duvidar da recepção do público em seu espetáculo. (C) sentir raiva ao falhar em suas tentativas de suicídio. (D) sofrer rejeição amorosa de uma colega de trabalho. (E) desconhecer sua origem e seu passado. O exercício 12 da UFG/2013 exige que o candidato/leitor relacione a epígrafe com o texto, estabelecendo um vínculo de sentido entre ambos. Para tanto, o leitor 44 Prova disponível em: www.vestibular.ufg.br/2013/ps2013_1/.../cadernoquestoes_tipo1.pdf 99 se entrepõe em um jogo de convergências semânticas e formais no qual, segundo Schwartz, as epígrafes têm existência. Toda epígrafe sofre uma perda de funcionalidade ao ser extraída do seu texto original, sofrendo conseqüente refuncionalização ao ser interpolada num novo texto. Há uma dupla função a ser observada: por um lado, a carga semântica do seu passado (o texto do qual provém); por outro, o estabelecimento de um novo diálogo epígrafe/texto, ao ser inserida no novo contexto. Um verdadeiro encontro de feixes semânticos, cruzamento de um passado textual com um presente narrativo, fazendo da epígrafe uma entidade em permanente tensão. Ela sintetiza um jogo de tempos: recupera o passado (seu texto original) e se afirma no presente do novo texto, o qual adquire dimensão de futuridade na medida em que a epígrafe ocupa sempre um momento anterior a ele. Privilegiada por catalisar tempos narrativos em diversos níveis, aponta continuamente para o seu próprio passado, ao mesmo tempo que anuncia o texto que lhe segue, fazendo-se presente no ato de sua leitura. A tensão dos tempos projeta-se também no campo formal: isolada no branco da página, ela assume uma autonomia aparente, mas, na verdade, depende tanto do texto que lhe é anterior quanto do que lhe segue. (SCHWARTZ, 1981, p. 4) Conforme Schwartz, a epígrafe em questão, retirada do Salmo 85, que antes compunha uma oração de Davi, a qual se destinava em um pedido de súplica em tempo de perigo e peregrinação, talvez na época dos Macabeus; em um novo contexto, perde seu tom melodramático e contribui para que o texto, pontuado, certamente pela ironia, abra-se ao riso, ao tom jocoso do fato do protagonista perder seu poder de magia quando ingressa no funcionalismo público. O ex-mágico, ao perceber que era mais feliz quando fazia mágicas, se arrepende de empregar-se como funcionário público e de não ter criado outro mundo: “Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico” e tenta, em vão, readquirir seus poderes. Nesse entrecruzamento de dois textos, epígrafe e narrativa, o leitor deve estabelecer uma relação de sentidos entre ambos, de modo a compreender que o ex-mágico se julga “desvalido e pobre” no desfecho dessa narrativa por perceber a incapacidade de resgatar seu poder. Esse processo de confrontar e ao mesmo tempo aliar os dois textos, visto que a epígrafe depende tanto do texto que lhe é anterior quanto do que lhe segue, exige a presença de um leitor capaz de associar suas leituras, relacionar sua leitura do 100 texto bíblico com sua leitura do conto, e assim, estipular relações de sentidos capazes de gerar uma tensão tanto no campo semântico quanto no campo formal, o que de certo modo contribui para o efeito fantástico conforme definição de Rosemary Jackson. QUESTÃO 19 Leia o trecho apresentado a seguir. A impassibilidade com que o grupo vencido recebeu a derrota desconcertou o velho: estavam tramando alguma coisa. Mas não o pegariam desprevenido. Conhecia de perto a astúcia dos que viviam do outro lado da montanha. […] Após um mês de ausência, para desapontamento geral, Roque Diadema regressou. Fazia-se acompanhar de numerosa comitiva, onde predominavam os mecânicos […]. […] Enquanto isso, na aldeia, o clima era de mal-estar e desconfiança. […] Pressentiam que chegara a hora de se livrarem dos forasteiros. […] Não encontraram resistência. […] Contudo, exigiram a imediata demolição das construções. O ultimato não perturbou Roque Diadema. Buscou a pasta e dela retirou diversas escrituras. – Aproveitei minha viagem para adquirir os terrenos. Sou hoje proprietário de dois terços da área urbana do povoado. RUBIÃO, Murilo. A diáspora. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 146; 147; 148. A relação entre o enredo do conto “A diáspora”, de Murilo Rubião, e o processo brasileiro de modernização, impulsionado a partir do século XIX, se expressa na (A) localização geográfica do povoado, que determina um processo de urbanização calcado na segregação. (B) questão da especulação imobiliária, que é visível na organização social do povoado antes da chegada de Diadema e seu grupo de construtores. (C) oposição entre novo e antigo, que se reflete no projeto de construção de uma ponte e na consequente instabilidade social na aldeia. (D) estruturação do povoado em bases capitalistas, que reforça as ideias modernizadoras dos forasteiros. 101 (E) destituição do líder do povoado, que se assemelha a golpes políticos motivados por reformas urbanas. Sendo a resposta correta a alternativa “C”, revela-se uma leitura metafórica do enredo do conto “A diáspora” diante o processo de modernização no Brasil. Essa leitura metafórica é consequência do conhecimento de mundo do leitor, visto que em outros momentos nos deparamos com leituras metanarrativas, como faz Hermenegildo José Bastos ao afirmar que: [...] Em “A diáspora”, como vimos, confrontam-se duas formas de sociedade – uma pré-moderna, ágrafa, coletivista, mágica, que repousa sobre a autoridade dos sábios; a outra, o grupo social moderno, desenvolvido, possuidor de máquinas e tecnologias, cuja autoridade baseia-se na lei escrita, no documento [...]. Os habitantes de Mangora permitiram que os forasteiros se apossassem das terras, porque os forasteiros traziam consigo uma outra narrativa com valor de verdade. (BASTOS, 2001, pp.62-63) Mais adiante Hermenegildo, nessa linha da metanarrativa, adentra o processo de escrita do próprio Murilo Rubião em relação ao fantástico: A alusão, embora desfigurada, é significativa, porque assinala um paralelismo entre o momento histórico em que surgiu e evoluiu o fantástico canônico e o momento histórico do fantástico muriliano, estando ambos marcados pelo confronto entre o velho e o novo, o antigo e o moderno, as práticas sociais obscurantistas e as práticas sociais iluministas. O “conflito modernizador” assume em Murilo a forma do fantástico. (BASTOS, 2001, p.79) Nota-se que, pela leitura do elaborador/leitor da questão de número 19 da UFG/2013 e pela leitura de Hermenegildo José Bastos, o texto fantástico exige a presença de um leitor real, aquele que coloca em prática todo seu conhecimento de mundo para atribuir significados ao texto. No caso do conto “A diáspora”, o confronto entre o antigo e o moderno, o pré e o atual, o velho e o novo, poderia designar a um confronto tanto no nível histórico e literário, como vimos, como também nos níveis cultural, social e econômico, dependendo do leitor e da leitura realizada por ele. É como afirma Bastos (2001. P.79), para “Campra, o evento fantástico atua como um detonador que exige outras leituras”, o texto fantástico, em seu modo narrativo, 102 mantém-se aberto para que cada leitor, definido pelos seus níveis de leitura, atue ativamente para a leitura do mesmo. Conclui-se por meio dessa análise das questões de vestibular que o leitor do fantástico, em especial de Murilo Rubião, já não é mais o “leitor implícito”, ou seja, aquele que se deixa guiar pelo texto, mas sim, o leitor real, aquele que toma as rédeas do texto e atribui os significados mediante seu conhecimento de mundo, respeitando os limites da interpretação, porém com liberdade de realizar sua própria leitura. 103 IV- Texto-Leitor-Leitura: Considerações finais “Talvez caro leitor, te convença de que nada é mais fantástico e extraordinário do que a vida real e de que o escritor não é capaz de apresentá-la senão como um obscuro reflexo num espelho embaçado”. (E.T.A. Hoffman. O homem de areia. 104 Um homem que tira de seus bolsos e chapéu, coelhos, lagartos, cobras, urubus, leões e até mesmo o dono do restaurante onde trabalhava (“O ex-mágico da Taverna Minhota”); um morto que habita o mundo dos vivos (“O pirotécnico Zacarias”); uma mulher que engorda exageradamente a cada desejo realizado (“Bárbara”); uma mulher que engravida constantemente, mesmo sem ter relações sexuais com o marido e dá à luz ninhadas de filhos que nascem em um tempo muito curto de gestação (“Aglaia”), um edifício que parece não ter fim (“O edifício”) ou, então, andares de um prédio que desaparecem misteriosamente, deixando o único apartamento habitado suspenso no ar (“O bloqueio”). Esse é o universo da narrativa de Murilo Rubião frente ao qual questionamos o porquê dos relatos fantásticos perturbarem tanto ao leitor a ponto de desestabilizá-lo. Para responder a esta questão, podemos pensar no fato da narrativa apresentar tantos elementos anormais sendo aceitos naturalmente pelos seus personagens, tudo aceito por uma verossimilhança que percorre todo o relato, porém, a inquietude experimentada pelo leitor é fruto da inevitável relação que se estabelece entre o fato narrado e o próprio mundo do leitor, entre o ficcional e a realidade. Vale lembrar que a construção do mundo do texto fantástico destina-se mostrar como este funciona da mesma maneira que o mundo real, onde tudo parece funcionar normalmente, até que algo sobrenatural, anormal ou qualquer elemento perturbador que foge das leis empíricas altera, rompe com a organização de tal mundo. Isso, segundo David Roas (2004), é o que leva os leitores a abandonarem o estrito âmbito do textual e apresentarem sua própria realidade. Mediante essa concepção, o leitor de Murilo Rubião, primeiramente, contrapõe o narrado com a ideia que tem do real, visto que ambos se contradizem e, em seguida, busca uma interpretação possível para o sentido da história narrada. Portanto, é notório que os textos murilianos abordam temas que procuram contradizer nossa concepção do real como percebemos, por exemplo, no conto “O ex-mágico da Taverna Minhota”, onde um homem, com poderes mágicos, faz surgir coisas inacreditáveis de seus bolsos, chapéu, gola, etc. E, que em meio a um conflito existencial procura na morte a solução de seu problema. Após várias tentativas frustradas de suicídio, o protagonista ingressa ao funcionalismo público e perde seus dotes mágicos. 105 Inicialmente, tudo parece contradizer nossa concepção de realidade quando nos deparamos com o estranho poder do protagonista, porém, ao confrontar o narrado com o nosso conceito de real, somos libertados para gerar uma interpretação reconhecedora de nossa própria realidade, como acontece na questão de número 08 do Vestibular 2012 da Universidade Federal de Goiás (Capítulo anterior, p.80) que parte do narrado, como exposto pela pergunta de letra “a”: “O cotidiano de funcionário público ocasiona a morte de qual capacidade do protagonista?”, seguindo para a pergunta “b”: “Que dilema típico do homem contemporâneo é tema central desse conto?”. Essas questões são exemplos claros de nossa afirmativa, visto que acolhemos o narrado no conto e o confrontamos com o que conhecemos do real para retirarmos da narrativa a interpretação de que a mesma reflete uma realidade desesperadora do homem frente a sua incapacidade de modificar o mundo em que vive, a rotina da vida, ou ainda, a sua impotência em realizar seus ideais, etc. Entende-se, portanto, que, diante da narrativa muriliana, não devemos manter nossa recepção apenas no plano do intratextual, pois é no confronto do mundo ficcional com o real que a interpretação de um efeito perturbador, ameaçador, angustiante se faz presente ante a realidade empírica do leitor. Isso só acontece quando o leitor, dotado de sua competência leitora e de seu conhecimento próprio de mundo é capaz de transladar-se nos níveis de leitura apresentados no tópico “A presença do leitor e a perspectiva da leitura na obra de Murilo Rubião”. Seguramente, em todo processo de leitura, independente de ser fantástico ou não, o leitor projeta sobre o mundo ficcional a sua visão do mundo externo a fim de interpretar o narrado. “Leer supone cooperar con el texto, ponerlo en contacto con nuestra experiencia del mundo.”45 (ROAS, 2004, p. 41) O mundo construído no interior do texto muriliano deve oferecer signos que possam ser interpretados a partir da experiência de mundo que tem o leitor. Tanto Rosalba Campra (2001) quanto Mary Erdal Jordan (1998) após definirem o fantástico como um fenômeno de escritura e/ou linguístico, respectivamente, consideram que essas narrativas dependam, em extremo, de uma noção de extratexto que as definem como expressão de uma realidade contrastada. 45 Ler supõe cooperar com o texto, pô-lo em contato com nossa experiência do mundo. (Nossa tradução) 106 Assim, a narrativa de Murilo Rubião, além de propor uma possível transgressão do real, também nos revela uma segunda realidade; amplia nossa visão do real. Isso só é possível mediante às metáforas que buscam expressar suspeitas, interstícios que fogem da lógica, do racional, do factual e que, portanto, escapam ou resistem à linguagem comum, indo contramão ao sistema conceitual ou científico a qual utilizamos em nosso dia a dia. Nesse sentido, é válido lembrarmos que essas metáforas não são meros complementos ao conhecimento científico, mas alternativas, modos de nomear o inomeável e que Alazraki (2001) prefere chamá-las de metáforas epistemológicas, como já visto no tópico “Entre ‘O bloqueio’ da linguagem comum e a metáfora epistemológica do discurso fantástico”. Os contos de Murilo Rubião são exemplos claros das imagens construídas pelas metáforas epistemológicas, basta observarmos a imagem de uma mulher tão grande que vários homens, dando as mãos, uns aos outros, não conseguiriam abraçá-la (“Bárbara”); ou de um coelho que se transforma em diversos animais até atingir a forma de uma criança encardida, sem dentes e morta (“Teleco, o coelhinho”). Seguindo a concepção de Alazraki essas metáforas epistemológicas apresentadas nos contos de Murilo Rubião, possibilitam ao leitor, ao atingir o nível “lectant” (leitante), tornar-se crítico e interpretante frente ao texto e, que a partir de então, chegue ao nível “lu” (lido), estado no qual o leitor projeta sobre o texto seus próprios fantasmas, confronta sua realidade individual, o que se exige a presença de um leitor real. Assim, entendida a obra de Murilo Rubião nesse conjunto de concepções, é fundamental pôr em contato o mundo do intratextual e o mundo extratextual, o horizonte de expectativas e sociocultural do leitor, como ficou demonstrado por meio das análises das questões de vestibulares sobre os contos do autor mineiro, onde ocorreu o fato do leitor/elaborador da questão construir o exercício mediante sua projeção de conhecimento de mundo sobre o narrado, como podemos perceber nas questões de número 37 da PUC-GO/2013 (Capítulo anterior, p. 88) que se refere ao conto “Memórias do contabilista Pedro Inácio” aludindo que a vida moderna é marcada pela posição central que o dinheiro assume e, a partir de então, o leitor/elaborador, por meio de seu conhecimento de mundo, associa essa problemática com as mudanças de comportamento estabelecida pela Revolução 107 Industrial no século XVIII. Ou, ainda, na questão de número 16 UFG/2012/1ª etapa (Capítulo anterior, p. 81), referente ao conto “A cidade”, no qual, por meio de seu conhecimento de mundo, o leitor/elaborador metaforiza na acusação de conspiração sofrida pelo protagonista os regimes políticos autoritários como o salazarismo em Portugal. Entendido o fato de que o elaborador das questões de vestibular é um leitor da obra de Murilo Rubião, nota-se que aquele atingiu os níveis “lectant” e “lu” de leitura, atribuindo um sentido, uma interpretação ao narrado e, consequentemente, refletindo sobre este seu próprio conhecimento de mundo, sua individualidade. Assim, por meio das diversas questões de vestibulares analisadas, conclui-se que o leitor deva realizar uma leitura na qual ele perceba que a obra de Murilo Rubião é marcada por cenas insólitas que fazem emergir uma realidade fantástica (questão 29 – FMC/2001/1º Sem.), que por meio do narrado, procura-se reconhecer um realismo de segundo grau (questão 1 – PUC-MG/2004), ampliando a fronteira da realidade (questão 20 – UFG/2012), compreendendo que a obra muriliana é formada por um conjunto de contos do realismo fantástico, modalidade que explora a convivência harmônica de acontecimentos insólitos num universo familiar ao leitor (questão 2 – PUC-MG/2004), de modo a provocar um estranhamento inicial, pois mesclam o real e o fantástico de modo singular (questão 44 – PUC-GO/2013) e que esses elementos fantásticos são carregados de significados metafóricos (ITA/2005). Portanto, esses elementos fantásticos devem ser percebidos como metáforas. Assim, o leitor em seu nível “lectan” e “lu” deve realizar uma leitura metafórica do texto, confrontando assim o narrado com seu conhecimento de mundo, com sua individualidade (questões: 08 – UFG/2012; 16 – UFG/2012; 19 – UFG/2013; 37 – PUC-GO/2013 e 41 – PUC-GO/2013). A intenção dos contos de Murilo Rubião, seu efeito primordial e distintivo, é de provocar a dúvida do leitor sobre a realidade e sobre sua própria identidade, o que faz com que o narrado seja descodificado de modo inteiramente diferente pelos seus participantes, visto que, a construção do discurso é uma tarefa realizada por dois sujeitos: o que escreve e o que lê. E nenhuma garantia existe de que ambos tenham a mesma visão do narrado, uma vez que eles são dois sujeitos diferentes, com formações diferentes, que sentem o mundo de modos diferentes, que têm alegrias e frustrações também diferentes. (GOULART, 1995, p.80) 108 Conclui-se que o texto de Murilo Rubião está articulado por elementos linguísticos com valores metafóricos, revelando o fantástico como fenômeno de escritura ou linguístico que se abre para que um leitor em seus níveis de leitura – “lisant”, “lu” e “lectan” – seja capaz de atribuir sentidos que lhe permita perceber, reconhecer a realidade por meio do confronto entre o dito pelo texto e seu próprio conhecimento de mundo. Isto nos faz pensar que para essa literatura fantástica, deixando claro que nos referimos a pertencente ao século XX, mais especificamente, a de Murilo Rubião, já não cabe mais o papel do leitor implícito, e sim apenas o leitor real. 109 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALAZRAKI, Jaime. En busca del unicornio: los cuentos de Julio Cortázar. Madrid: Gredos, 1983. ___________. ¿Qué es lo neofantástico? In. Teorías de lo fantástico. David Roas. Madrid: Arco Libros, 2001, pp. 265 – 282. ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Souza. 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