A HISTORIOGRAFIA LITERÁRIA E SEU DESEJO DE CRIAR UMA
HISTÓRIA DA LITERATURA - DOS AUTORES ESTRANGEIROS
A ANTONIO CANDIDO
Juliane Cardozo de Mello (FURG)
A historiografia da literatura brasileira surge juntamente com os primórdios do
Romantismo no Brasil, e por isso, está intimamente vinculada ao intuito de criação de
uma literatura como expressão da nação independente, pois
a história da literatura também faz parte das formulações necessárias
para a construção de uma nação que combine com um Estado
moderno, como se acreditava ser aquele que dom Pedro proclamou às
margens plácidas do Ipiranga. (LAJOLO, 1994: 26)
Pode-se dizer que, na verdade, as primeiras manifestações românticas são
oriundas dos pressupostos de Ferdinand Denis e Almeida Garret, que apresentaram
algumas das temáticas que seriam fundamentais ao movimento, pois esses primeiros
estudiosos se preocuparam em:
determinar como ela [a literatura] surgiu aqui, já que o relativismo
então reinante ensinara que as instituições da cultura radicam nas
condições do meio, variando segundo elas. E como a época era de
exigente nacionalismo, consideravam que lutara dois séculos para se
formar, a partir do nada, como expressão de uma realidade local
própria, descobrindo aos poucos o verdadeiro caminho, isto é, a
descrição dos elementos diferenciais, notadamente a natureza e o
índio. (...)
Daí a concepção passou à crítica naturalista, e dela aos nossos dias,
levando a conceber a literatura como processo retilíneo de
abrasileiramento, por descoberta da realidade da terra ou recuperação
de uma posição idealmente pré-portuguesa, quando não
antiportuguesa. (CANDIDO, 2008: 99)
Devemos aos autores estrangeiros as primeiras contribuições historiográficas,
que ressaltaram a cor local como caráter distintivo de nossa literatura. O primeiro que se
interessou pelas letras da incipiente nação foi Friedrich Bouterwek que escreveu a
História da Poesia e da Eloquência Portuguesa (1805), sendo seguido por vários outros
autores: Simonde de Sismondi em De La Littérature Du Midi De L’Europe (1813), C.
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Schlichthorst em seu texto O Rio de Janeiro como é (1824-1826), José da Gama e
Castro em artigo publicado no Jornal do Comércio (1842), Alexandre Herculano em
artigo intitulado Futuro Literário de Portugal e do Brasil publicado na Revista
Universal Lisbonense no ano de 1847 e Ferdinand Wolf que escreve O Brasil Literário
- História da Literatura Brasileira (1863).
Maior destaque, nessa análise, merece o francês Ferdinand Denis e o seu
Resumo da História Literária do Brasil anexo ao Resumo da História Literária de
Portugal (1826), com uma postura distinta dos autores que o antecederam. Influenciado
pela independência brasileira, Denis separa a literatura brasileira da literatura
portuguesa, ressaltando que o país deve ser livre tanto no governo quanto na poesia, e
sendo o povo livre a literatura “deve rejeitar as ideias mitológicas devidas às fábulas da
Grécia” (Denis, 1978, p. 36). Denis também influenciou a historiografia posterior
sendo, nas palavras de Antonio Candido, o fundador da “teoria da nossa literatura
segundo os moldes românticos, num sentido que a orientaria por meio século e iria
repercutir quase até os nossos dias” (Candido, 2009: 638).
O português Almeida Garret em seu Bosquejo da História da Poesia e Língua
Portuguesa (1826), unifica as literaturas portuguesa e brasileira, mostrando um
retrocesso com relação ao posicionamento de Denis, afirmando, após tratar de Cláudio
Manuel da Costa, que “agora começa a literatura portuguesa a avultar e enriquecer-se
com as produções dos engenhos brasileiros” (Garret, 1978: 90). Apesar dessa postura,
Garret, assim como Denis, ressalta a importância da cor local, mostrando que poesias
como as de Tomás Antonio Gonzaga poderiam ser melhores se ilustradas com a
paisagem brasileira. E ainda ao tratar de Basílio da Gama o autor elogia-o pelas cenas
naturais presentes n’O Uraguai, o que evidencia a cor local como um dos critérios para
se determinar o que é verdadeiramente nacional e legitimamente americano.
Verifica-se uma progressão a respeito da historiografia e crítica realizada pelos
autores estrangeiros, salvo duas exceções - Bouterwek e Gama e Castro -, aonde a
autonomia da literatura brasileira vai sendo reafirmada e a cor local passa de simples
tema a caráter nacional. E vê-se também, voltando à citação de Antonio Candido, que os
traços diferenciais, como a natureza e o índio, são os meios pelos quais os primeiros
historiadores conseguiram afirmar nossa literatura, não mais como um segmento da
portuguesa, e sim como manifestação dos anseios de uma nação independente e livre.
Passaremos agora à análise dos críticos brasileiros que compilaram e
escreveram prefácios e introduções discutindo as nossas letras. O primeiro deles foi o
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Cônego Januário da Cunha Barbosa que, inspirado no Parnaso Lusitano de Garret,
escreveu o Parnaso Brasileiro (1829), recolhendo poesias de diversos autores com o
intuito de evitar que esses textos fossem perdidos e apartados do conhecimento das
novas gerações.
Joaquim Norberto de Sousa e Silva escreve Modulações Poéticas (1841), livro
de poesias próprias, no qual insere uma introdução denominada Bosquejo da História
da Poesia Brasileira; Joaquim Manuel Pereira da Silva escreve o seu Parnaso
Brasileiro (1843) e é o primeiro a apontar explicitamente o Romantismo como caminho
para a expressão da literatura brasileira. Destaca-se o seu caráter nacionalista, pois o
autor propõe uma nova literatura em termos de América, fugindo das imitações dos
padrões europeus e, além disso, seus escritos mostram o que Antonio Candido
denominou literatura empenhada.
Emílio Adet e Joaquim Norberto de Sousa e Silva escreveram em conjunto a
obra Mosaico Poético (1844) e como o próprio subtítulo já diz trata de “poesias
brasileiras antigas e modernas, raras e inéditas, acompanhadas de notas, notícias
biográficas e críticas e de uma introdução sobre a literatura nacional”(ADET;
NORBERTO, 1998: 187), o que evidencia o desejo de reunir textos e divulgá-los, a fim
de construir retroativamente as nossas letras.
Francisco Adolfo de Varnhagen escreveu o Florilégio da poesia brasileira
(1850), defendendo a ideia de que a poesia seja o mais brasileira possível, e também
mostra, assim como Pereira da Silva, um entusiasmo pela América, pregando que se
escrevesse o que por mais americano tivéssemos. Macedo Soares escreveu as
Harmonias Brasileiras (1859), que consiste também em uma compilação de autores
brasileiros acompanhada das biografias de muitos deles e de um Ensaio Histórico sobre
as Letras do Brasil, cujo traço marcante é o seu nacionalismo.
Quintino Antonio Ferreira de Souza escreveu a Lírica Nacional (1862), que
apresenta uma nova concepção de nacionalismo, pois o caráter nacional, para esse
crítico, está no indivíduo. Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro escreveu o Meandro
Poético (1864), uma coletânea de quatorze poetas e de suas respectivas biografias, e
nessa compilação vê-se acentuado caráter didático, com intuito de doutrinar os jovens
para a poesia nacional.
Alguns poetas e romancistas também estudaram a literatura brasileira; é o caso
de Gonçalves de Magalhães que publicou na Revista Niterói o artigo intitulado Discurso
sobre a História da Literatura do Brasil (1836), no qual vemos um grande
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nacionalismo, que é acompanhado por um sentimento de antilusitanismo. Magalhães
reitera o aspecto da cor local e também da originalidade, recorrente dos autores
estrangeiros e vê, assim como os outros críticos nacionais, a necessidade de compilação
de autores e da escrita de uma história da literatura, e ainda afirma que a nova literatura
brasileira deveria seguir a influência dos franceses.
Já José de Alencar vai muito mais além do que Gonçalves de Magalhães, pois
“suas reflexões contribuem para a expansão do debate sobre o nacionalismo literário e
para a definição da prática literária exigida para o Brasil” (MOREIRA, 1991: 113), e na
polêmica presente nas Cartas Sobre a Confederação dos Tamoios (1856) o
posicionamento do romancista ultrapassa “a condição de crítica para se transformar
numa exposição dos princípios teóricos sobre a literatura brasileira e a poética do futuro
romancista” (MOREIRA, 1991: 113).
Em outros dois textos, no pós-escrito ao romance Diva (1865) e no prefácio ao
romance Sonhos d’ouro (1872), o autor estende o debate iniciado nas Cartas, naquele
abordando a temática da língua, defendendo o seu progresso e o seu enriquecimento
com novas palavras, pois para ele “a língua é a nacionalidade do pensamento como a
pátria é a nacionalidade do povo” (ALENCAR, 1959: 559); e neste dialoga de forma
irônica com o seu “livrinho” a cerca da sua futura não aceitação pela crítica por estar
“desbotado do matiz brasileiro” (ALENCAR, s.d.: 9). E a partir dessa suposta ironia o
romancista cria um conceito de literatura:
A literatura nacional que outra coisa é senão a alma da pátria, que
transmigrou para este solo virgem com uma raça ilustre, aqui
impregnou-se da seiva americana desta terra que lhe serviu de regaço;
e cada dia se enriquece ao contato de outros povos e ao influxo da
civilização? (ALENCAR, s.d.: 9)
Alencar traça também uma periodização da literatura relacionando-a com a sua
contribuição literária, dividindo-a em três períodos: o primitivo; o histórico; o período
após a independência política que mostra o contato entre os povos e da luta entre o
espírito conterrâneo e a invasão estrangeira. E nesse último período citado pelo autor se
vê a mudança da cor local, pois agora o Brasil é civilizado, e com isso reivindica que a
literatura brasileira não é só a que fala dos índios, mas a que expressa à realidade do
país.
Machado de Assis, em seu artigo intitulado Instinto de Nacionalidade
publicado na revista O Novo Mundo (1873), marca um grande progresso em relação aos
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pensamentos anteriores, pois insere a literatura brasileira no âmbito da cultura, traz uma
visão dos gêneros literários e, principalmente, porque pensa a independência literária
como um processo não concluído, que irá ocorrer ao longo do tempo. Vejamos as
palavras do autor a este respeito:
Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem Canto do
Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais
duradoura; não será obra de uma geração, nem de duas; muitas
trabalharão para ela até perfazê-la de todo. (ASSIS, 1959: 28)
O pensamento de Machado desenvolve, mas vai além do de Alencar com
relação à cor local, porque para ele a literatura não é nacional apenas por usar como
tema a natureza brasileira, sendo que esse caráter nacional está ligado a um sentimento
íntimo que torne o autor “homem do seu tempo e do seu país” (ASSIS, 1959: 29). O
escritor também se mostra céptico em relação ao indianismo como único caminho para
a nossa literatura e defende que não está no elemento indiano todo o seu patrimônio,
deixando claro que não recusa a tradição portuguesa como parte constituinte da mesma
e, além disso, evidenciando o esgotamento do Romantismo como escola literária.
Sílvio Romero em sua História da Literatura Brasileira (1888), o primeiro
historiador strictu senso da literatura brasileira, adota critérios filosóficos em voga na
Europa para explicar não só a expressão literária como se tinha feito até então, se
propondo a estudar as manifestações da inteligência de um povo abordando a política, a
economia, as criações populares, a arte, as ciências e etc., ampliando o conceito de
literatura tornando-a sinônimo de cultura. Pretendendo escrever
um trabalho naturalista sobre a história da literatura brasileira.
Munido do critério popular e étnico para explicar o nosso caráter
nacional, não esquecerei o critério positivo e evolucionista da nova
filosofia, quando tratar de notar as relações do Brasil com a
humanidade em geral (ROMERO, 1960: 57).
Romero, como fica claro no trecho citado, é influenciado pelo darwinismo,
pelo evolucionismo, pelo cientificismo e pelo determinismo, sendo que considera os três
fatores fundamentais a serem estudados da literatura brasileira o meio, a raça e as
influências estrangeiras. Há nos escritos do autor uma grande diferenciação do
posicionamento nacionalista que vinha sendo analisado neste artigo, pois para ele o
“lado nacional das literaturas” (ROMERO, 1960: 58) está vinculado ao princípio da
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hereditariedade, enquanto a fatura universal está vinculada ao princípio da adaptação, e
o autor com isso dá continuidade ao esforço romântico de construir a nacionalidade,
porém se opondo a sua estética, seguindo os critérios da crítica darwinista.
José Veríssimo escreve a sua História da Literatura Brasileira (1915) de forma
bastante distinta de Romero, pois não se baseia em preceitos filosóficos, e sim no
conceito clássico de belas letras, utilizando o aspecto estético como fator determinante.
E, além disso, apresenta um conceito mais estrito de literatura, caracterizando-a como
um instrumento de cultura interior, opondo-se a visão amplificada da literatura como
sinônimo de cultura. Diferentemente de seu antecessor, para Veríssimo a história da
literatura é:
a história do que da nossa atividade literária sobrevive na nossa
memória coletiva de nação. Como não cabem nela os nomes que não
logram viver além do seu tempo também não cabem nomes que por
mais ilustres que regionalmente sejam não conseguirem, ultrapassando
as raias das suas províncias, fazerem-se nacionais. (VERÍSSIMO,
1981: 33)
Aproximando-se da ideia de sistema literário de Antonio Candido, o autor defende que
a literatura “só existe pelas obras que vivem, pelo livro lido, de valor efetivo e
permanente e não momentâneo e contingente”, sendo que a história da literatura deve
ser a da “literatura viva” (VERÍSSIMO, 1981: 33).
Assumindo a sua relação de dívida com seus dois predecessores Antonio
Candido, em seu célebre Formação da Literatura Brasileira - Momentos Decisivos
(1959) avalia as obras esteticamente, porém o conceito beletrista de Veríssimo não é
utilizado, e, além disso, o seu cânone se aproxima ao de Romero devido à inclusão de
intelectuais que contribuíram para a nossa evolução como, por exemplo, no capítulo
Promoção das Luzes em que vemos o papel do intelectual como um dos fatores
importantes para a configuração de nossa literatura. O historiador cita o jornalista
Evaristo Veiga pela influência que exerceu sobre os primeiros românticos.
Aproxima-se de Veríssimo em sua periodização, pois para ambos antes do
Romantismo a literatura que se fazia no Brasil era portuguesa, até que gradativamente
vai se manifestando o sentimento nacional até chegar ao período que sucedeu à
Independência política, no qual nossa literatura torna-se autônoma, e esse conceito
histórico que une aspectos literários à emancipação política é utilizado pelo precursor é
reaproveitado pelo seu sucessor que o camufla com o seu conceito de sistema.
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Para compreender o conceito de sistema literário, vejamos as palavras do autor
em relação à sua pretensão:
Para compreender em que sentido é tomada a palavra formação, e
porque se qualificam de decisivos os momentos estudados, convém
principiar distinguindo manifestações literárias, de literatura
propriamente dita, considerada aqui um sistema de obras ligadas por
denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas
dominantes duma fase. Estes denominadores são, além das
características internas, (língua, temas, imagens), certos elementos da
natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se
manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da
civilização. (CANDIDO, 2009: 25)
E esses elementos de natureza social e psíquica são: os produtores literários
que estejam mais ou menos conscientes do seu papel; o conjunto de receptores,
formando os diferentes tipos de público; e o mecanismo transmissor que é a linguagem
traduzida em estilos. E é do conjunto desses três elementos que se dá a literatura como
um sistema simbólico, “por meio dos quais as veleidades mais profundas do indivíduo
se transformam em elementos de contato entre os homens, e de interpretações de
diferentes esferas da realidade” (CANDIDO, 2009: 25).
Para o autor é necessário que os textos estejam integrados ao sistema para que
se constitua uma tradição, e o que não está incluso no sistema se pode denominar
manifestações literárias e é sob esta alcunha que Candido classifica o período que
compreende o período formativo inicial que vai do século XVI ao século XVIII. Na sua
concepção é só com os árcades mineiros, com as últimas academias e com o surgimento
de certos intelectuais ilustrados, que surge o intuito de criar uma literatura, sendo que
esses homens foram considerados fundadores por seus sucessores “estabelecendo-se
desse modo uma tradição contínua de estilos, temas, formas ou preocupações.”
(CANDIDO, 2009: 27).
A “exclusão” 1 do Barroco se justifica também por ser a partir do Arcadismo
que surge o que Candido chama de “literatura empenhada”, que se constitui em um
traço característico, pois, nesse período, os intelectuais têm o desejo de construir uma
literatura brasileira a fim de mostrar que os brasileiros eram tão capazes quanto os
portugueses. E com advento da independência política e sob o influxo do Romantismo
1
A cerca da “exclusão” do barroco do consultar: CAMPOS, Haroldo. O seqüestro do barroco na
formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Matos. Fundação casa de Jorge Amado: Salvador,
1989.
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esse intuito de criar uma literatura se tornou um dever patriótico, a fim de mostrar que o
Brasil também era independente culturalmente de Portugal.
Antonio Candido se afasta das perspectivas de alguns críticos já estudados por
considerar a literatura brasileira e a portuguesa comuns até meados do século XIX,
afirmando que seu intuito não é estudar a união ou separação das duas, como, aliás, foi
feito por muitos críticos que acreditavam que o valor de uma obra literária estava no seu
caráter representativo do país, mas sim estudar a literatura como um fenômeno de
civilização. E vai além afirmando que:
uma obra é uma realidade autônoma, cujo valor está na fórmula que
obteve para plasmar elementos não-literários: impressões, paixões,
ideias, fatos, acontecimentos, que são a matéria-prima do ato criador.
A sua importância quase nunca é devida à circunstância de exprimir
um aspecto da realidade, social ou individual, mas à maneira por que o
faz. No limite, o elemento decisivo é o que permite compreendê-la e
apreciá-la, mesmo que não soubéssemos onde, quando, por quem foi
escrita. (CANDIDO, 2009: 35)
O valor de uma obra literária não está ligado ao seu caráter nacional, nem pela
expressão ou não de cor local, como podemos ver nos primeiros críticos analisados, está
no sentimento que é transmitido e na aceitação deste pelo leitor, as obras valem porque
“inventam uma vida nova, segundo a organização formal, tanto quanto possível nova,
que a imaginação imprime ao seu objeto” (CANDIDO, 2009: 35).
Ao falar dos pressupostos conceituais de sua história da literatura o autor
destaca o eixo básico de seu trabalho investigativo que é descobrir a coerência das
produções literárias, e essa se define por ser a “integração orgânica dos diferentes
elementos e fatores, (meio, vida, ideias, temas, imagens e etc.), formando uma diretriz,
um tom, um conjunto, cuja descoberta explica a obra como fórmula, obtida pela
elaboração do escritor” (CANDIDO, 2009: 39). A análise da obra de arte literária, ao
qual o historiador se propõe, não visa contemplar apenas a forma como o texto foi
escrito, visa interpretá-lo em conjunto com aspectos de natureza social que estejam
integrados no mesmo.
Outro fator discordante no pensamento de Antonio Candido, em relação à
crítica que o antecedeu, é que ele não condena o Classicismo e o Arcadismo por serem
meras imitações dos padrões europeus, pois para ele a dominação pertencente ao
processo de colonização se estendia à literatura, as manifestações literárias produzidas
no país eram, então, a reprodução do status quo, e, além disso:
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os padrões clássicos (no sentido amplo, abrangendo todo o período
colonial) foram eficazes, por vários motivos e sob as suas diversas
formas: humanismo de influência italiana, no século XVI, barroco de
influência espanhola, no século XVII, neo-classicismo de influência
francesa, no século XVIII. Em qualquer destes casos, tratava-se de
uma disciplina intelectual coerente que levou a inteligência a se
exercer com rigor; isto lhe deu consistência e resistência na sociedade
atrasada e por vezes caótica do período colonial. Além disso, a
convenção greco-latina era fator de universalidade, uma espécie de
idioma comum a toda a civilização do Ocidente; por conseguinte, na
medida em que a utilizaram, os escritores do Brasil integraram nesta
civilização as manifestações espirituais da sua terra, dentro, é claro e
como ficou dito, do propósito colonizador de dominação, inclusive
através da literatura. (CANDIDO, 1989: 176)
Antonio Candido aborda na Formação diversas obras dos períodos
supracitados levando em conta sua importância histórica e seus critérios estéticos,
analisando não apenas as de grande vulto, mas também as que contribuíram mesmo
como coadjuvantes para a literatura brasileira. E aborda também a historiografia
antecedente, ou seja, a romântica, destacando alguns dos autores já citados neste artigo,
evidenciando a importância dos mesmos no processo de nossa independência literária.
Dentre seus antecessores se destaca na Formação Machado de Assis, o herói oculto da
Formação nas palavras de Callado:
A Formação tem seu herói oculto, ou semi-oculto, preservado com
astúcia e maestria. As qualidades desse herói são amealhadas,
entesouradas, e se distribuem, ao longo da narração, com parcimônia,
para que o herói surja, quando surgir, em sua completa e indiscutível
glória. Todos sabemos que o grande herói da Eneida, por exemplo, é
Roma, mas Roma permanece no horizonte do poema. E só aparece,
assim mesmo como profecia, quando Enéias desce ao reino dos
mortos(CALLADO, 1992: 142).
A luz das palavras de Antonio Callado se torna claro que Machado de Assis é o
herói oculto porque é a sua obra que marca a consolidação da literatura brasileira, e é
nela também que o processo formativo se conclui para avultar um grande escritor que
utiliza temas universais mantendo o caráter nacional na forma. Não é por acaso que a
Formação termina com uma citação retirada do Instinto de Nacionalidade, pois ao falar
da consciência literária, Antonio Candido destaca o caráter interessado de nossa
literatura evidenciando a tomada de consciência e o amadurecimento da literatura e da
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crítica literária romântica, e estes aspectos estão representados tanto no escrito
supracitado como na própria obra romanesca de Machado de Assis.
Pode-se concluir a partir dos textos analisados neste artigo, que a historiografia
literária brasileira vem desde os autores estrangeiros se configurando, os pressupostos
lançados por alguns deles (Schlichthorst, Denis, Wolf, e etc.) influenciaram os críticos
românticos, que imbuídos de patriotismo, compilaram e discutiram a nossa literatura.
Poetas e romancistas também se aventuraram nessa discussão cabendo a Machado de
Assis o destaque por ser o primeiro a configurar a nossa independência literária como
um processo.
Romero e Veríssimo caminharam a passos largos e fundaram a nossa história
da literatura como a conhecemos hoje, com influências evidentes na obra de Antonio
Candido, o consolidador da nossa historiografia 2 e síntese das tendências analisadas
neste artigo, sua “história dos brasileiros no seu intuito de ter uma literatura”
(CANDIDO, 2009, p. 27) se apresenta como um marco importante no processo de
construção de nossa história da literatura, como ápice desse processo constitutivo.
REFERÊNCIAS
ALENCAR. J. Obra Completa. Rio de Janeiro. Aguilar, 1959.
ALENCAR. J. Sonhos d’ouro. 4 ed. São Paulo: Melhoramentos. s.d.
ASSIS. M. Instinto de nacionalidade. In Machado de Assis: crítica, notícia da atual
literatura brasileira. São Paulo: Agir, 1959.
CALLADO, A. Formação da Literatura Brasileira: um monólogo interior. In:
D’INCAO, M. A.; SCARABOTOLO, E.F. (orgs.), Dentro do texto, dentro da vida:
ensaios sobre Antonio Candido, São Paulo, Cia. Das Letras, 1992.
CANDIDO, A. Formação da Literatura Brasileira v. I- II. São Paulo: Itatiaia, 1975.
2
Neste artigo não foram contempladas histórias da literatura como as de Nelson Werneck Sodré, Manuel
Bandeira, Ronald de Carvalho e etc., em virtude da temática abordada no mesmo: o desejo nacionalista de
criar uma história da literatura.
104
CANDIDO, A. Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2008.
CÉSAR. G. Historiadores e críticos do Romantismo. São Paulo: EDUSP, 1978.
LAJOLO, M. Literatura e história da literatura: senhoras muito intrigantes. In:
MALARD, L. et alii. História da literatura: ensaios. Campinas: editora da UNICAMP,
1994.
MOREIRA, M. E. Nacionalismo literário e crítica romântica. POA: IEL, 1991.
ROMERO. S. História da Literatura Brasileira. Tomo I. Rio de Janeiro: José Olympio,
1960.
VERÍSSIMO. J. História da Literatura Brasileira. Brasília: Editora Universidade de
Brasília, 1981.
ZILBERMAN, R.; MOREIRA, M. E. O berço do cânone. Textos fundadores da
História da literatura brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.
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