IDENTIFICAÇÃO DE UMA ASSEMBLÉIA FÓSSIL DO HOLOCENO MÉDIO DA
REGIÃO DE LAGOA SANTA, MG.
Guilherme Freire1; Prof. Dr. Gregório Ceccantini2
1,2
Depto. Botânica, Instituto de Biociências-USP; 1([email protected])
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Abstract: The mid-Holocene paleoenvironmental conditions of Central Brazil are essentially
supported by palinologicals studies, despite of macrofossils availability. Wood fossils studies are
not common in Brazil yet. This initial paper reports data obtained from a sample of 28 wood
fragments, originated from the region of Lagoa Santa, Pedro Leopoldo, State of Minas Gerais.
This woods dated of 5240 +- 60 years B.P., are used to infer paleovegetational and
paleoclimatical aspects of the mid-Holocene of this archeological region. The analysis has used
anatomical characters, wood identification methods and a wood collection, showing four
morphospecies of fossil wood. Three of them had their taxonomic identification at genus level:
Terminalia sp/Buchenavia sp, Combretaceae; Myroxylon sp, Leguminosae (Faboideae); and one
Lauraceae. These preliminary results permit only general comments. All these taxa are found
currently in semi-deciduous forests and this vegetation is typical from regions where climate is
more humid then the cerrado. However, the number of identified taxa number are not enough yet
to precise paleoenvironmental conditions during the mid-Holocene. We hope that with the
identification of the 80 samples recently collected, it will be possible to use similarity methods
and to detail better the paleoenvironment at the time.
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Palavras-chave: Holoceno médio, anatomia da madeira, paleovegetação.
1.Introdução
O conhecimento atual da flora
cenozóica
brasileira
é
resultado,
principalmente, de pesquisas palinológicas.
Já o estudo de macro-fósseis é menos
desenvolvido e para as madeiras, parece
ainda não estar consolidado no Brasil, já que
as publicações são raras e esporádicas.
Como o lenho não constitui um órgão
com função de dispersão, como pólen,
sementes e frutos, a ocorrência deste em
uma flora fóssil, em princípio, é mais
representativa da paleoflora do local de
coleta do que esses outros órgãos, que em
princípio, têm maior probabilidade de
deslocamento. Por isso Poole (2000) destaca
que a abundância de madeira em diversas
floras fósseis pelo mundo tem potencial de
prover informações sobre a biodiversidade e
paleoambiente de uma dada região. A
possibilidade de relacionar uma determinada
espécie de madeira ou característica
anatômica a uma condição ambiental torna a
Anatomia Ecológica atraente em diversas
áreas da ciência, como a Arqueologia e
Paleontologia (Ceccantini, 2000).
Ainda assim, o cenário ambiental do
Holoceno brasileiro foi montado com base
em estudos paleopalinológicos, tanto pela
maior disponibilidade de sedimentos com
pólen do que com madeiras, como da
difusão do conhecimento necessário para
identificação de madeiras ser pequena.
Graças a eles, hoje em dia o Holoceno
brasileiro está razoavelmente estudado e
mudanças climáticas e ecológicas neste
período são razoavelmente conhecidas.
Behling (1998), Ledru (1993) e Ledru et al.
(1998), por exemplo, caracterizaram o clima
e a vegetação nas diferentes regiões do
Brasil durante o Holoceno.
Postula-se que o clima do Holoceno
brasileiro pode ser resumido com início frio
e seco (característico da última glaciação),
com grandes áreas ocupadas por vegetações
campestres e de cerrado, florestas de galerias
pequenas e escassas e foi tornando-se úmido,
possibilitando a expansão de florestas de
Araucaria, semidecíduas e ombrófilas, até
chegar à distribuição atual. Ledru (1993)
conclui que o Holoceno tardio é marcado por
um gradativo aumento de temperatura e
umidade,
até
os
padrões
atuais.
Especificamente ao redor do Holoceno
médio (por volta de 5.000 anos atrás),
sugere-se que grandes eventos de seca
causaram a regressão de formações
florestais, influenciando principalmente a
região central e sudeste. Segundo Ledru
(1993), o grande evento de seca não chegou
a atingir fortemente a região equatorial.
Assim, a ocorrência de eventos de seca
durante o Holoceno Médio é um fenômeno
reconhecido por vários pesquisadores da
América do Sul (Ledru et al. 1998; Absy et
al. 1991; Baker et al. 2001; Grosjean et al.
2001), porém, sua intensidade e data ainda
são imprecisos.
Na arqueologia de Lagoa Santa, as
datações absolutas sugerem um padrão bem
marcado para as idades obtidas nos sítios:
apesar da ampla amostra disponível, não há
indícios de uma ocupação humana mais
permanente durante o Arcaico, período da
pré-história brasileira que se estende,
aprossimadamente, de 7.500 a 2.000 AP.
Este padrão é facilmente observável nas
idades obtidas para os esqueletos humanos
da região. Há dois picos de sepultamentos
nos abrigos: o mais antigo entre 10.000 e
8.000 AP, e o mais recente entre 2.000 e
1.000 AP. Não há, até o estágio atual das
pesquisas, nenhum esqueleto humano ou
sítio arqueológico datado do Holoceno
Médio na região de Lagoa Santa. Essa
lacuna foi denominada recentemente de
“Hiato do Arcaico” (Araujo et al. 2003).
2.Objetivos
O presente estudo teve por objetivo o
estudo anatômico de lenhos fósseis datados
de 5240 +- 60 anos A.P, preservados no
Sítio RMT-1, localizado à margem do
Ribeirão da Mata, no município de Pedro
Leopoldo, MG, visando avaliar a qualidade
e conservação da estrutura anatômica do
material e a possibilidade de identificação
ao nível de família e gênero. Objetivou
também prover informações sobre o estado
de
degradação
das
amostras
paleontológicas,
e
caracterizar
preliminarmente a flora lenhosa fóssil da
região de Lagoa Santa, durante o Holoceno
médio. Não se esperou deste trabalho, que a
questão da paleovegetação e paleoclima do
sítio de Ribeirão da Mata fosse resolvida,
mas que, ao menos, fosse delineado um
panorama para estudos futuros, e o potencial
do material fosse avaliado.
3.Material e Métodos
O material de estudo consistiu de
lenhos de dimensões variáveis, de 10 cm a
1m, com diâmetros de 2 cm a 10 cm, subfossilizados, carbonificados, conservados
em meio úmido, porém não mineralizados.
Foram coletados nas margens do Ribeirão
da Mata, município de Pedro Leopoldo,
MG, de um terraço fluvial (coordenadas
UTM 604257E – 7827064N), denominado
pela equipe de RMT – 1 (Figura 1). O fácies
utilizado neste trabalho foi denomidado de
fácies “C”, correspondente à datação de
5240 +- 60 anos A.P.
As
lâminas
para
observação
microscópica de caracteres anatômicos
foram confeccionadas segundo a técnica
convencional para cortes de madeiras. Uma
vez feitos os corpos de prova, estes foram
cortados ao micrótomo de deslize usando
navalha tipo C, nos três planos (tranversal e
longitudinais tangencial e radial) e a mão
livre (no caso dos fósseis que apresentaram-
FIGURA 1: Sítio RMT-1, localizado à margem do Ribeirão da Mata,
município de Pedro Leopoldo, MG. Apresenta diversas deposições de lenhos
fósseis, tendo como principal depósito, o facies “C”, localizado em argila cinza, ao
centro da foto CENTRO DA FOTO escura (orgânica), no centro da fotografia.
Facies este datado de 5240 +- 60 anos A.P.
se frágeis). Os cortes foram montados tanto
corados (fucsina e azul de astra) como não
corados. Várias técnicas de microscopia
foram utilizadas: microscopia de luz, de
fluorescência e de polarização.
Para a identificação do material
paleontológico foi utilizada bibliografia
específica de identificação de madeiras
(Record & Hess, 1943; Détienne & Jacquet,
1983), programas de computador como
Guess (Wheeler et al., 1986) e Uniwoods
(Brunner et al., 1994) e laminários das
xilotecas BCTw e SPFw.
4.Resultados
Das 60 amostras extraídas do facies
“C” do Sítio RMT-1, 28 amostras se
mostraram suficientemente bem preservadas
e conseguiram proporcionar cortes com
estruturas anatômicas íntegras.
Das 28 amostras, foram diferenciadas
4 morfo-espécies. Três delas foram
identificadas:
1.Terminalia sp / Buchenavia sp,
Combretaceae
2.Myroxylon sp, Fabaceae, Leguminosae
3.Lauraceae
A quarta morfo-espécies não foi
identificada devido ao reduzido número de
amostras com características anatômicas
próprias (apenas 2 amostras) e a dificuldade
de observação dos caracteres anatômicos
devida ao estado de degradação do material.
Segue a caracerização feita atravéz da
observação dos caracteres anatômicos das
amostras
de
lenho
sub-fóssil
em
microscopia:
Morfoespécie 1: Terminalia sp ou
Buchenavia sp, Combretaceae.
Caracteres diagnósticos: vasos solitários e
múltiplos (poucas vezes excedendo 2),
obstruídos por compostos orgânicos, arranjo
difuso, parênquima axial paratraqueal
escasso e vasicêntrico, parênquima radial
não estratificado, raio unisseriado (rara e
localmente bisseriado), de altura variável,
composto apenas de células procumbentes.
Morfoespécie 2: Myroxylon/Myrocarpus sp,
Leguminosae, Faboideae.
Caracteres diagnósticos: Vasos muito
abundantes, pequenos ou médios, múltiplos
de até 4 células, porosidade difusa.
Parênquima axial escasso ou vasicêntrico,
raios estratificados, bisseriados com altura
de cerca de 14 células, formados por células
procumbentes e uma camada marginal de
células eretas, placa de perfuração simples,
fibras espessas, pontoação radiovascular
alterna e guarnecida e pontoação
intervascular alterna.
Morfoespécie 3: Lauraceae.
Caracteres diagnósticos: Vasos solitários e
múltiplos (até 3), tamanho médio, freqüência
elevada, obstrução por tilos, elementos de
vaso longos, parênquima escasso (pouco
nítido), raios não estratificados, muito
abundantes, altura muito variável, uni e
bisseriados,
formados por células
procumbentese uma fileira marginal de
células eretas, pontoação radiovascular
horizontal a circular, fibras septadas e
células oleíferas/mucilaginosas.
Morfoespécie 4: indeterminada. Necessária
outra técnica de preparação de cortes, como
inclusão em polietilenoglicol.
Caracteres diagnósticos: Vasos grandes,
solitários, raramente geminados, porosidade
difusa, parênquima axial em faixas (5
células) e estratificado, com cristais, raios
estratificados, trisseriados, em torno de 12
céls de altura, fibras septadas, pontoação
radiovascular alterna.
5. DISCUSSÃO
A
preparação
das
amostras
paleontológicas mostrou que a metodologia
convencional de cortes de madeira funciona
para grande parte delas (aproximadamente
46%). Porém, outros métodos devem ser
utilizados
para
as
amostras
que
apresentaram-se em estado de degradação
mais avançados. Sugere-se que seja
utilizada a inclusão em polietilenoglicol
para tais amostras.
No tocante às identificações, as 4
morfo-espécies identificadas (Buchenavia
sp/Terminalia sp; Myroxylon/Myrocarpus
sp; Lauraceae) ainda são insuficientes para
qualquer discussão precisa sobre a(s)
fitofisionomia(s) presentes na região de
Lagoa Santa, MG, durante o Holoceno
Médio. Têm-se a necessidade de ampliar o
número de amostras trabalhadas e,
sobretudo, ampliar o número de morfoespécies identificadas. Entanto, comentários
gerais podem ser feitos. Todos os gêneros
identificados ocorrem corriqueiramente nas
florestas estacionais semi-deciduais comuns
em Minas Gerais, com um número variável
de
espécies.
Myroxylon
é
mais
característicos de florestas semi-deciduais,
enquanto Terminalia sp e Buchenavia sp,
em sua maioria ocorrem em florestas
estacionais decíduas ou semi-decíduas, mas
algumas espécies podem ocorrer também
em cerradões ou mesmo cerrados.
Lauráceas têm grande distribuição
entre os biomas mas se distribuem
predominantemente nos biomas mais
úmidos como florestas ombrófilas, matas de
galerias, de altitude. Muitas espécies são
características e exclusivas de florestas semidecíduas. Espécies xerófita também existem,
em menor número, ocupando cerrados e
fitofisionomias mais abertas.
Portanto, nota-se a presença de táxons
relacionados, atualmente, a fitofisionomias
mais fechadas, florestais, que por sua vez
estão relacionadas a climas mais úmidos,
embora
todos
com
estação
seca
demarcada.Certamente uma amostragem
mais abrangente e um levantamento
bibliográfico de listas florísticas fazem-se
necessários para que seja possível uma
discussão mais bem sustentada.
Uma conclusão importante é que os
materiais
encontrados
estão
bem
conservados e podem ser identificados com
os métodos usuais de anatomia de madeira.
Conclusões mais amplas e precisas sobre o
paleoambiente só poderão ser obtidas com a
identificação de um número maior de
espéciemens,
e
comparações
fitossociológicas objetivas com flórulas
conhecidas nos biomas existentes atualmente
na região.
.
6. Referências
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