Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
Relatório final
Do “asfalto para a favela”, da “favela
para o asfalto”: uma pesquisa etnográfica
sobre a circulação e a vida social
de móveis e eletrodomésticos
Silvia Borges e Michele de Lavra
Rio de Janeiro, 2014
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CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
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Relatório final
Do “asfalto para a favela”, da “favela
para o asfalto”: uma pesquisa etnográfica
sobre a circulação e a vida social
de móveis e eletrodomésticos
Silvia Borges e Michele de Lavra
CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
Equipe:
Ricardo Zagallo Camargo (coordenador)
Guilherme Cohen
Mariana Lorca
Viviane Tavares Motta
São Paulo, 2014
Correa, Sílvia Borges
Do “asfalto para a favela”, da “favela para o asfalto”: uma pesquisa
etnográfica sobre a circulação e a vida social de móveis e eletrodomésticos /
Sílvia Borges Correa, Michele de Lavra Pinto. – São Paulo, 2014.
40 p. : il., color.
Relatório Final de Pesquisa 2014, desenvolvida junto ao CAEPM − Centro de
Altos Estudos da Escola Superior de Propaganda e Marketing, São Paulo, SP, 2014.
1. Consumo 2. Circulação 3. Doação 4. Descarte 5. Bens usados. I. Pinto,
Michele de Lavra. II. Escola Superior de Propaganda e Marketing. III.
Título.
SUMÁRIO
DESCRIÇÃO CONTEXTUALIZADA
DOS OBJETIVOS DA PESQUISA
4
DESCRIÇÃO DA METODOLOGIA
5
DESCRIÇÃO DO QUADRO TEÓRICO
E EXERCÍCIOS DE INTERPRETAÇÃO
E ANÁLISE, ENFATIZANDO A QUALIDADE
E PERTINÊNCIA DO MATERIAL UTILIZADO
7
Consumo e cultura material
7
Populações de baixa renda
10
RESULTADOS12
A “favela” e o “asfalto”: os domicílios, as famílias
e a circulação de móveis e eletrodomésticos
12
Domicílios na favela
12
Os mediares na favela
16
Domicílios do “asfalto”
18
Mediações entre a “favela” e o “asfalto”
28
Produção no período
31
ORGANIZAÇÃO DAS REFERÊNCIAS
33
Referências33
Bibliografia comentada das 10 obras mais relevantes
para a pesquisa
34
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DESCRIÇÃO CONTEXTUALIZADA
DOS OBJETIVOS DA PESQUISA
O objetivo do presente relatório é apresentar os resultados finais da
pesquisa intitulada Do “asfalto para a favela”, da “favela para o
asfalto”: uma pesquisa etnográfica sobre a circulação e a vida social
de móveis e eletrodomésticos. Os resultados compreendem o período
de trabalho entre os meses de maio de 2013¹ a maio de 2014. Cabe
lembrar que, conforme detalhado no projeto aprovado pelo CAEPM,
a pesquisa tem como objetivo geral analisar a circulação e a vida social de móveis e eletrodomésticos e, para tanto, delimitamos geograficamente os bairros de Copacabana e Ipanema, localizados na Zona
Sul da cidade Rio de Janeiro. Estes dois bairros, que representam um
bom exemplo da coexistência e do convívio de pessoas de diferentes
contextos socioeconômicos na cidade, são tipicamente caracterizados como bairros de classes média e alta, mas possuem agrupamentos habitacionais conhecidos como favelas ou comunidades. Foi neste
contexto que investigamos as construções de valor, os significados e
ressignificados dos objetos que circulam entre lares, bem como as formas de sociabilidade presentes nessas dinâmicas, ou seja, procuramos acompanhar o deslocamento e a transformação desses objetos
de forma descritiva e analítica através dos diversos contextos sociais.
Uma questão que merece um apontamento especial é em relação ao
fato de que a pesquisa foi conduzida por duas pesquisadoras e que
dentro da delimitação geográfica estabelecida, tratou-se de pesquisar famílias de classes sociais diferentes, as de classes média e média
alta, moradoras do “asfalto”, e aquelas de classe baixa, moradoras da
“favela”². Como será descrito e analisado em seções subsequentes,
a condução do trabalho de campo foi diferente no “asfalto” e na “favela” por se tratarem de campos que carregam suas especificidades,
que foram respeitadas a fim de que o trabalho pudesse ser realizado.
Em função disso, as relações pesquisador-pesquisado foram construídas de maneira diferentes nesses dois espaços e as pesquisadoras adotaram caminhos e estratégias de contato, interação e pesquisa
mais condizentes e eficazes em cada lugar³.
Como apresentado acima, o tema central da pesquisa é a circulação
dos objetos da casa, notadamente móveis e eletrodomésticos, com ênfase no descarte desses bens, no entanto, ao pesquisar as famílias, percebeu-se, como já destacou Miller (2001, 2007, 2012, 2013), que quando se estuda a cultura material de um grupo, estudam-se não só as
relações entre as pessoas e os objetos, mas também, e principalmente,
a relação entre as pessoas. Foi exatamente isso que foi observado no
trabalho de campo: ao falarem sobre suas casas e os objetos que as
compõem, sobre aquilo que é comprado, usado e descartado, as pessoas falam sobre suas relações com os outros moradores da casa e
com as outras pessoas que de alguma forma fazem parte de suas vidas.
4
¹ No mês de maio ainda
foram realizados ajustes
no projeto, solicitados pelo
CAEPM, tendo sido o início
efetivo da pesquisa no mês
de junho.
² No que se refere ao campo relativo aos domicílios
do “asfalto” a pesquisadora Silvia Borges foi a
responsável por observar,
selecionar e entrevistar as
famílias. A pesquisadora
Michele de Lavra Pinto foi a
responsável por observar,
selecionar e entrevistar as
famílias nos domicílios localizados nas comunidades
do bairro.
³ As questões metodológicas da pesquisa serão detalhadas na seção II.
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DESCRIÇÃO DA METODOLOGIA
Ao longo do período de realização da pesquisa, foram realizadas atividades que constam do item 8 (Elaboração do Cronograma de Atividade) do projeto de pesquisa aprovado pelo CAEPM, a saber: (a)
Pesquisa bibliográfica; (b) Reuniões de planejamento de execução
da pesquisa; (c) Entrada no campo: primeiros contatos com os pesquisados e seleção das famílias; (d) Elaboração do roteiro de entrevista (Ver Anexo 1); (e) Realização de entrevistas em profundidade;
(f) Transcrição das entrevistas; (g) Análise das entrevistas; e (h) Observação participante.
O item (a), com trabalho de levantamento bibliográfico e revisão de
literatura, teve como um dos resultados a elaboração do material que
se encontra no Item V. Organização das referências – subitem Bibliografia comentada das 10 obras mais relevantes para a pesquisa.
O Trabalho de campo: Notas metodológicas
As possibilidades de pesquisar a vida social dos objetos são inúmeras e a sociedade de consumo contemporânea é fortemente marcada
pelo descarte dos bens. Sendo assim, a quantidade de objetos presentes nos lares e que são, após determinado tempo de uso – e algumas vezes mesmo sem uso algum, descartados pelos consumidores
é enorme e cresce a cada dia. Especificamente no caso dos móveis
e eletrodomésticos, observa-se que o descarte e a circulação desses
bens são feitos em grande parte através de doações. Em outras palavras, quando um objeto não é mais desejado ou útil em uma residência, ele é repassado por seu dono para outras pessoas, indo aportar
em outra residência na qual pode receber, além de novos proprietários, novos significados e novos usos, enfim uma nova vida – ou uma
nova etapa de sua vida social. Em grande medida esse “repasse” de
objetos é feito no sentido de uma verticalidade hierárquica, ou seja,
os objetos são repassados de pessoas de classes mais altas para pessoas que pertencem a classes mais baixas. Obviamente isso não é
uma regra e vai depender do significado e do valor atribuídos ao objeto por seu dono, pois em alguns casos o repasse dos objetos pode
ser feito dentro de uma mesma classe social (para amigos, familiares
ou vizinhos). Para melhor descrevermos a trajetória e significados dos móveis e eletrodomésticos para as famílias pesquisadas,
nos valemos do método etnográfico e, assim, estas (famílias) foram
acompanhadas e entrevistadas, seja no “asfalto” ou na “favela”.
Cabe ressaltar que o método etnográfico preconiza a realização de
um trabalho de campo no qual são utilizadas duas técnicas – que se
complementam na construção da “descrição densa” de um grupo,
evento ou fenômeno social: a observação direta e as entrevistas em
profundidade. Em relação à observação – observação participante,
através do contato direto e da convivência com o grupo pesquisado busca-se conhecer o grupo ou o fenômeno em seus vários
aspectos. Para tanto, faz-se necessário acompanhar o cotidiano e os
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momentos especiais – a rotina e os rituais – que se desenrolam nos
ambientes pesquisados. Essa abordagem própria da etnografia
é que permite produzir um conhecimento diferente do obtido por
intermédio da aplicação de outros métodos. Segundo salienta Magnani (2009, p.135), “trata-se de um empreendimento que supõe um
determinado tipo de investimento, um trabalho paciente e contínuo
ao cabo do qual e em alguns momentos, os fragmentos se ordenam,
perfazendo um significado até mesmo inesperado”. Já no que tange
às entrevistas, estas devem ser conduzidas através de um roteiro, de
forma a permitir o fluxo do discurso dos entrevistados e ser preferencialmente gravadas (áudio) a fim de que possam ser posteriormente
analisadas e delas retiradas as “categorias nativas” utilizadas pelo
grupo pesquisado. Desse tipo de entrevista é possível obter as motivações, as definições, as classificações, os significados, enfim, a visão
e a forma de perceber o mundo por parte dos membros do grupo.
Como apontado na seção I deste relatório, a condução do trabalho de
campo foi diferente no “asfalto” e na “favela”, pois as relações pesquisador-pesquisado foram construídas de maneira diferentes nesses dois espaços. Entre aquilo que poderíamos identificar como dificuldades encontradas no que tange aos aspectos metodológicos e de
acesso às famílias, constatamos que as pessoas residentes no “asfalto” não têm o costume de abrir suas casas a pesquisadores, portanto,
foi necessário recorrermos à rede de amigos, colegas e conhecidos
a fim de identificarmos e entrarmos em contato com as famílias do
“asfalto”. Após as indicações e o aceite em colaborar com a pesquisa
as famílias mostram-se mais disponíveis em dar entrevistas, entretanto o acompanhamento diário ou semanal da rotina mostrou-se pouco
eficiente, pois as pessoas alegavam o fato de trabalharem, a falta
tempo, etc., elementos que implicavam estar poucas horas em casa.
Buscando de alguma forma “compensar” a não possibilidade de um
acompanhamento mais sistemático das famílias do “asfalto”, entrevistas mais longas e/ou mais de uma entrevista em cada núcleo familiar foram realizadas ao longo do período da pesquisa. Em alguns domicílios, conversas com as empregadas domésticas das residências e
com os porteiros dos prédios, além da entrevista com uma arquiteta
cujo escritório está localizado em Copacabana e que atende vários
clientes na zona sul da cidade, complementaram as informações das
famílias. No caso das famílias da “favela”, ocorreu o contrário,
as entrevistas mostraram ter pouco resultado, já que não havia um
entendimento do que era a pesquisa (mesmo depois de várias explicações) e, sendo assim, o acompanhamento semanal das famílias
em suas mais variadas tarefas se mostrou mais eficiente no que diz
respeito ao objetivo da pesquisa. Essas questões não chegaram a ser
obstáculos ou efetivas dificuldades, uma vez que refletem as particularidades das famílias pesquisadas e das realidades dos campos.
Em função dessas questões, como descrito acima, as pesquisadoras
adotaram caminhos e estratégias de contato, de interação e de pesquisa que se mostram mais condizentes e eficazes em cada lugar.
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DESCRIÇÃO DO QUADRO TEÓRICO E EXERCÍCIOS DE INTERPRETAÇÃO E ANÁLISE, ENFATIZANDO A QUALIDADE E PERTINÊNCIA DO MATERIAL UTILIZADO
Consumo e cultura material
Como apresentado acima, o tema central do estudo é a circulação
dos objetos da casa, notadamente móveis e eletrodomésticos, com
ênfase no descarte desses bens. No entanto, ao pesquisar as famílias, como já destacou Miller (2001, 2007, 2012, 2013) percebe-se
que, quando se estuda a cultura material de um grupo, estudam-se
não só as relações entre as pessoas e os objetos, mas também, e
principalmente, a relação entre as pessoas. Assim, na perspectiva
antropológica do consumo, os bens apresentam um duplo papel: de
um lado, sem dúvida, provêm subsistência, mas, de outro, promovem
relações sociais. É neste sentido que se torna possível afirmar que
o consumo pode ser entendido como uma forma de comunicação
entre as pessoas, na qual os objetos atuam como mediadores ou indexadores desse processo interativo: os bens são comunicadores.
Numa simples frase, “as mercadorias são boas para pensar” (DOUGLAS; ISHERWOOD, 2004, p. 108). Logo, servem para produzir sistemas classificatórios a partir dos quais os grupos sociais demarcam
fronteiras e diferenças entre si.
A partir dessas ideias, é possível perceber que, no âmbito da cultura
de consumo, o indivíduo moderno tem consciência de que se comunica por meio de suas roupas, através de sua casa – significando do
mobiliário, dos objetos de decoração, de seu carro, de suas atividades de lazer, dos lugares que frequenta – e que esses elementos, ou
o conjunto desses elementos, serão interpretados e classificados em
termos da presença ou da falta de gosto.
Campbell (2001, 2007) explica a centralidade do consumo na vida
moderna através do lugar privilegiado que a emoção e o desejo,
junto com a imaginação, ocupam na modernidade. Emoção, desejo e
imaginação são expressões de subjetividade e de individualismo. A
ênfase é, então, colocada no direito de os indivíduos decidirem, por
si mesmos, que produtos e serviços consumir. Por isso, as atividades
geralmente associadas ao termo “consumo” – como procura, compra
e utilização de bens e serviços que atendam a nossas necessidades
ou satisfaçam nossos desejos – são considerados tão importantes.
Somente levando-se em conta o papel exercido pela emoção, pelo
desejo e pela imaginação na construção das subjetividades e das individualidades contemporâneas é possível, na perspectiva do autor,
explicar o consumismo moderno, fenômeno no qual o processo de
querer e desejar é fundamental e estruturador da vida. É nesse contexto de subjetividade e individualismo que a identidade torna-se
tema central para discutir o consumismo moderno.
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Na atualidade, os indivíduos se autodefinem, predominantemente
– e muitas vezes, quase que exclusivamente – em termos de seus
gostos; isto é, em termos de seus perfis específicos de gostos e
de desejos. Para Campbell (2001, 2007), a resposta à pergunta “Quem sou eu?” continua incluindo algumas definições básicas
como sexo, raça, nacionalidade, etnia, religião e profissão, mas esses
elementos não são mais os parâmetros daquilo que consideramos
ser. Eles formam um esboço, mas não especificam as linhas finas da
nossa identidade e da nossa individualidade.
A proliferação de produtos e de serviços – isto é, de escolhas, uma
característica da sociedade consumidora moderna – é essencial
para que venhamos a descobrir quem somos. A identidade não deriva de um produto ou serviço consumido - não compramos identidades mediante nosso consumo de bens e serviços específicos,
pois o local onde reside a nossa identidade pode ser encontrado
em nossas reações aos produtos e não nos produtos em si - no entanto, é evidente que o que compramos e consumimos diz algo
sobre quem somos. Monitorando nossas reações aos produtos,
observando do que gostamos e do que não gostamos, é que começamos a descobrir quem “realmente somos”. Essa maneira de
conceber a própria identidade é muito nova; basta perceber que
as autodefinições de pessoas de outras épocas eram baseadas em
elementos como família, trabalho, religião, raça, nacionalidade – e
não por seus gostos por bebida, música, literatura e atividades de
lazer, como se faz hoje. (CAMPBELL, 2001, 2007)
Outro conjunto de autores relevantes por suas contribuições ao estudo antropológico do consumo são aqueles relacionados ao campo da
cultura material, entre os quais destaca-se Miller (2002, 2007, 2010,
2012). Ele afirma que “estudos de cultura material trabalham através da especificidade de objetos materiais para, em última instância,
criar uma compreensão mais profunda da especificidade de uma humanidade inseparável de sua materialidade.” (MILLER, 2007, p. 47).
Desta forma, o papel dos objetos na formação das relações sociais
é fundamental, pois é a partir da mercadoria que se produz tanto a
relação entre ela mesma e as várias pessoas que com ela entram em
contato, quanto a relação das pessoas entre si.
Miller (2010, 2012) mostra como os objetos (móveis, utensílios, itens
de decoração, eletrodomésticos e eletroeletrônicos), seus usos e
suas presenças em lares revelam sobre os relacionamentos humanos, sobre as sociedades e sobre as culturas. Em Teoria das Compras,
Miller (2002) explica como as compras de abastecimento do lar são
meios de expressão dos afetos que envolvem o(s) responsável(eis)
por realizar as tais compras e os demais membros dos lares
londrinos pesquisados. Em um trabalho posterior, Miller (2012) dá
prosseguimento à ideia central presente em seus trabalhos – a ideia
de que as pessoas se expressam através das suas posses e que, por
extensão, essas posses “falam” sobre as vidas das pessoas – mas destaca análises que mostram como a cultura material ajuda as pessoas
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a lidarem com perdas e com mudanças ao longo de suas vidas. O
autor afirma, assim, a centralidade da cultura material nos relacionamentos, e a centralidade dos relacionamentos na vida moderna.
Ainda no campo da cultura material, no que tange às questões referentes às relações entre consumidores e mercadorias, Appadurai
(2008) é outra referência importante, considerando-se sua discussão
sobre a construção do valor e o próprio conceito de mercadoria.
Partindo da ideia de valor, em uma clara referência ao trabalho de Simmel (1978), Appadurai (2008, p. 15) afirma que “o valor
jamais é uma propriedade inerente aos objetos, mas um julgamento
que sujeitos fazem sobre ele”. Para Appadurai (2008), não se trata
exatamente de definir a priori o que é mercadoria, mas sim de saber
que tipo de troca é a troca de mercadorias. Com esse deslocamento
da questão, é possível perceber que mercadorias são coisas em
determinado situação; ou seja, ser mercadoria é circunstancial e não
uma característica intrínseca ou que se determina na produção. Mercadoria não é um tipo de coisa, mas uma fase – a fase mercantil – na
vida de algumas coisas.
Kopytoff (2008) propõe a pesquisa da biografia cultural dos objetos a
fim de que sejam percebidas e analisadas suas fases de vida e as gradações, sobreposições e recorrências das classificações que os vulgarizam ou singularizam em determinada sociedade, acentuando, assim,
a sua circulação e as ambiguidades das variações de seus stati sociais.
O autor sugere que, através da análise das fases de vida de um objeto,
é possível não só observar a interação do objeto na sociedade na qual
está inserido, mas também explicitar algumas regras sociais do(s)
grupo(s) estudado(s), seja através da afirmação da singularidade das
práticas culturais do(s) grupo(s), seja pela troca com outros grupos e
pelas suas formas de classificação e de singularização de objetos.
A perspectiva de biografia cultural, proposta por Kopytoff (2008),
é apropriada ao estudo de coisas específicas que passam por
mãos e por contextos, e que adquirem usos diferentes. Ao fazer
uma biografia de um objeto, interroga-se sobre questões que vão
desde de onde vem esse objeto e quem o fabricou, até como mudam os usos desse objeto à medida ele que envelhece e que destino
tem quando sua utilidade chega ao fim. Desta maneira, é possível
compreender sua trajetória de vida, e suas etapas de mercantilização e de singularização. Kopytoff (2008) chama a atenção para o fato
de que a singularização de objetos é um processo que se dá, muitas
vezes, dentro de pequenos grupos e de pequenas redes sociais, e
que grande parte da singularização é alcançada pela referência
à passagem do tempo. O processo de transformação de um objeto
“comum” em antiguidade é um claro exemplo de singularização de
objetos. No entanto, pode-se falar de outra forma de singularização:
aquela que se processa com objetos de segunda mão. Recorrendo
a Sahlins (1979), pode-se supor que itens de segunda mão, que podem ter sido adquiridos por meio de troca, de compra ou de doação,
são apropriados segundo as lógicas culturais específicas e através
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de propósitos múltiplos. Os consumos “originais” são, muitas vezes, ignorados ou subvertidos, a partir do momento que esses itens
aportam em outros grupos sociais, sendo incorporados aos universos culturais específicos de cada grupo.
Populações de baixa renda
Além da teoria sobre o consumo e sobre a cultura material, torna-se
importante referir-se a estudos realizados com populações de baixa
renda. No Brasil, nos estudos que envolvem populações de baixa renda tem-se buscado desvendar aspectos relacionados à violência, à
família, a gênero e à identidade, entre outros. Exemplo é o estudo de
Sarti (1996), que, ao analisar famílias de baixa renda em São Paulo,
procura descobrir com que categorias morais elas se organizam, interpretam e dão sentindo a seu lugar no mundo, e que salienta, assim,
a dificuldade que homens e mulheres têm de afirmação individual,
uma vez que as obrigações em relação a seus familiares devem prevalecer sobre os projetos individuais.
Outra pesquisa que retrata universo semelhante, mas noutro contexto geográfico, é a de Fonseca (2000, p.26), que demonstra, em uma
comunidade pobre de Porto Alegre, denominada Vila Cachorro
Sentado, como a questão da honra figura como elemento simbólicochave, ao mesmo tempo em que “regula o comportamento e define
a identidade dos membros do grupo”. Ou seja, a honra é examinada como um regulador de interação partilhado pelos membros do
grupo, independentemente de seus papéis, variando somente a
idade, o sexo, e os stati econômico e civil (FONSECA, 2000).
Entre os jovens do sexo masculino, a projeção de uma imagem pública de prestígio se apoia na (...) bravura (coragem para matar um
adversário, ajudar um amigo em perigo, resistir às investidas da polícia quando esta busca alguém na Vila), na virilidade (manifesta-se
pela conquista sexual das mulheres), na generosidade (medida por
virtudes sociais tais como amor pelas crianças, gastar dinheiro com
quem precisa) (FONSECA, 2000, p.26).
A honra familiar, entre os homens, se expressa na procriação e na
forma de provimento de proteção à sua família. A honra feminina ,
segundo a autora, contempla quase que exclusivamente a vida doméstica, o cuidar bem dos filhos, o ter a sua família; por isso, ser mãe
é um atributo importante, o que legitima a vontade das mulheres da
vila de casar e ter filhos (FONSECA, 2000, p. 30-1).
A questão da moralidade
no estudo de Sarti (1996,
p.3) é considerada do ponto de vista antropológico
numa perspectiva que a
autora chama de durkheimiana, ou seja, no sentido
“de que nega qualquer
‘essência’ boa ou má à ordenação moral que fazem
os pobres do mundo social, mas busca compreender qual é a interpretação
que os sujeitos envolvidos
fazem de sua experiência
de vida, expressa em suas
normas e valores”.
No Brasil há variações, de
acordo com a região, quanto à terminologia dos locais, os quais, residem populações de baixa renda.
Estes podem ser “chamados de comunidades, favela, morro, quebrada, palafita, gueto, assentamento,
entre outros” (ATHAYDE,
2011, p. 402).
Para a autora não há na
Vila a noção particular de
honra ligada à moça solteira, como foi observado
entre os homens
O estudo de Caldeira (1984) retrata o cotidiano de moradores de um
bairro da periferia de São Paulo, o Jardim das Camélias, a partir de
representações e opiniões dos mesmos, ou seja, como concebem a sociedade em que vivem suas condições de vida entre outros elementos
que vão definindo e contornando. O tema do consumo surge como um
dos elementos destacados pela autora. A autora revela que embora as
rendas familiares sejam resultados de estratégias diferentes e assim
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relacionadas a variadas relações no mercado de trabalho, há um momento que essas diferenças deixam de ser significativas: é o momento
do consumo. Isso se mostra possível, uma vez que o rendimento das famílias é bastante semelhante e esse é um dos fatores segundo a autora
que garantem uma homogeneidade às suas condições de vida.
Outra pesquisa realizada em São Paulo é a de Marques (2010), que
sustenta a importância da sociabilidade para a compreensão das
condições da pobreza urbana no que tange ao acesso a bens e serviços (obtidos via mercado) e no “provimento” aos indivíduos de elementos oriundos de trocas e apoio social. Assim, o autor explora as
características das redes e sua variabilidade mapeando os mecanismos relacionais que explicam tanto diferenças entre redes quanto a
sua mobilização diversificada pelos indivíduos. Este estudo sobre
as redes e suas diversidades ajuda a compreender a heterogeneidade das situações sociais, mesmo entre a população mais pobre,
que segundo o autor é produzida pelos efeitos complexos dos “diversos atributos e processos, como escolaridade, idade, sexo”, além
das decisões e estratégias ao longo da vida que influenciam eventos
e dinâmicas que estão acima do controle dos indivíduos.
No Rio de Janeiro, o estudo de Zaluar (2000) aborda a pobreza e seus
diferentes significados a partir dos moradores do conjunto habitacional Cidade de Deus. A autora relata as condições de vida e diferentes histórias que levam seus moradores a tornarem-se trabalhadores
ou bandidos, categorias essas expostas pelos próprios moradores a
partir de arranjos e de associações simbólicas, relacionadas, entre
outros, ao uso da arma de fogo e à posse de dinheiro.
Embora em cidades distintas, todas essas pesquisas buscam, através
dos recortes e de categorias estabelecidas pelas pesquisadoras, revelar o universo dessas populações.Valladares (2000) descreve como
a favela foi introduzida e tratada no debate político-social na cidade
do Rio de Janeiro. A autora discorre, ainda, sobre como, ao longo do
século XX, foi sendo percebido e construído um saber sobre a favela, além de uma imagem negativa associando o local e seus
moradores a pobreza, sujeira e malandragem. Já Machado da Silva
(2011, p. 699) salienta que a questão das favelas costuma ser estudada sob dois tipos de análises: “a que pretende propor ‘soluções’ para
o ‘problema social’ das favelas e a que pretende traçar linhas de ação
político-ideológicas”. Mas, segundo o autor, é preciso ter ciência de
que a favela não é um local homogêneo: ela possui diferenças internas, pois “não é uma comunidade isolada”. Ainda segundo o autor, a
“própria existência depende muito mais de determinadas condições
estruturais da sociedade global do que dos mecanismos internos desenvolvidos para mantê-la”. Nesse sentido, o elemento que pode e
que merece ser acrescentado às pesquisas com populações de baixa
renda - ou melhor dizendo, o que pode contribuir para esses estudos
- é a análise da relação, através da “vida social” dos objetos, entre os
moradores do “asfalto” e das favelas.
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da “favela para o asfalto”
RESULTADOS
Os resultados da pesquisa serão apresentados primeiramente de
maneira separada entre “favela” e “asfalto”, o que permite que cada
local e as famílias pesquisadas sejam descritos e analisados em suas
particularidades. Na sequência, as análises passarão a ser realizadas
de modo que a comparação, a complementaridade e a mediação entre os dois universos sociais pesquisados sejam possíveis.
A “favela” e o “asfalto”: os domicílios, as famílias e a circulação de móveis e eletrodomésticos
Domicílios na Favela
O acompanhamento das famílias foi feito de uma a duas vezes na
semana durante todo o dia. Por priorizarmos a etnografia na favela, o número de famílias acompanhadas no local é menor. Salientamos que além da observação direta e participante das três famílias
descritas abaixo, entrevistas informais foram feitas com outros moradores, formando uma rede de pessoas indicadas pelas famílias
descritas abaixo. Estas entrevistas auxiliaram nas informações sobre
possíveis destinos e descarte dos móveis e eletrodomésticos. Cabe
frisar, que na segunda etapa da pesquisa, no que se refere ao espaço
da favela, foram priorizados outros “atores sociais” , pois, os mesmos
realizam a intermediação dos objetos entre o “asfalto e a favela”, ou
ainda, possuem espaços que podem funcionar como locais limiares,
ou seja, locais nos quais os móveis e eletrodomésticos permanecem
antes que um novo destino lhes seja dado.
Domicílio 1 – Família Silva
Reside na Favela do Pavão em residência alugada – trocaram em 2013
de moradia, pois na casa anterior havia problemas de infiltrações e
umidade. A família é composta por dois adultos (casal - 32 e 33 anos)
e cinco crianças (com idades entre oito e 2 anos). A casa atual possui
somente um cômodo e um banheiro. A família encontra-se em situação de extrema pobreza e vive com o dinheiro do Programa do Bolsa
Família, de trabalhos informais do marido e de ajuda dos vizinhos e
ONGs. A mulher é dona de casa, pois as crianças pequenas e a falta
de vagas nas creches próximas não permitem que a mesma trabalhe.
O número das famílias
acompanhadas permaneceu o mesmo do relatório
parcial, pois, como foi mencionado anteriormente, a
pesquisa na favela priorizou a etnografia. Além disso, nos primeiros meses de
2014 houve vários episódios de violência no local
pesquisado, tornando a ida
e a circulação inviáveis por
questão de segurança. O
último episódio aconteceu
em abril de 2014, quando
um jovem filho de uma moradora do Pavão foi morto,
segundo moradores, por
policiais da Unidade de
Polícia Pacificadora. O fato
gerou manifestações, fechamento de ruas e atos de
violência em Copacabana.
O rapaz trabalhava no programa da Rede Globo “Esquenta” apresentado por
Regina Casé, o que tornou
o fato mais divulgado pela
mídia.
Todos os nomes e sobrenomes utilizados na descrição das famílias e dos seus
membros são fictícios.
Quando houve a mudança para a nova casa todos os móveis foram
trocados – (os móveis da antiga casa também eram de doações e foram descartados pelo estado que se encontravam, ou seja, seu uso
não era mais possível). Segunda a moradora “casa nova, tudo novo”.
Cabe frisar que todos os móveis foram doados por uma ONG e amigos da favela. Primeiramente entregaram um colchão de casal e dois
de solteiro, um fogão com somente duas bocas, dois armários
pequenos – um utilizado para guardar utensílios domésticos e ali-
Os móveis descartados na
rua eram um fogão enferrujado e um beliche, cuja
madeira estava com cupim
e dois colchões mofos.
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CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
Relatório final de pesquisa
mentos, outro para roupas. Posteriormente, ganharam uma pequena
mesa usada para colocar a televisão que foi presente da professora
do filho mais velho, uma vez que a televisão antiga estragou durante
a mudança. No cômodo (casa) ainda há uma pia que já estava na casa.
Na mudança para a nova casa foi levado uma geladeira que não funcionava e que apenas alguns dias depois foi colocada fora, pois seu
conserto “não valia a pena”. Segundo a moradora a geladeira (que
não funcionava) foi levada para “baixo” na entrada da favela pelo
marido e um amigo . A família ficou semanas sem geladeira até que
uma ONG (que auxilia famílias na favela) conseguiu uma através de
doação, como esta era muito grande para o pequeno espaço da casa
(uma geladeira duplex antiga) a moradora trocou por uma geladeira
menor com uma amiga (família Azevedo).
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
A moradora relata que
não sabe qual destino é
dado aos móveis e eletrodomésticos quando são
deixamos na rua de acesso à favela, mas acha que a
Comlurb deve levar o que
não é aproveitado pelo seu
Pedro.
Geladeiras trocadas entre
as famílias Silva e Azevedo
Um fato interessante é a rede de auxílio que esta família recebe; constantemente vizinhos realizam doações de roupas e brinquedos para
as crianças, alimentos como pão e biscoito, e uma amiga deixa que
a moradora utilize a sua máquina de lavar roupas e o computador. A
rede de ajuda para a família Silva tem origem tanto no “asfalto” (vertical) como da “favela” (horizontal). As trocas ou compartilhamento para esta família mostram-se importantes, seja materializado
através dos objetos (como móveis e eletrodomésticos), ou ainda elementos imateriais como afeto, informações, solidariedade, etc., algo
essencial para sobrevivência e permanência dos mesmos na favela.
Domicílio 2 – Família Azevedo
Residem na divisa entre as favelas do Pavão-Pavãozinho em casa própria. A família é composta por dois adultos (casal - 42 e 43 anos),
duas crianças (11 e 6 anos) e um adolescente (15 anos). A renda da
família vem do trabalho do casal, o homem é ajudante de cozinha em
uma pizzaria de Copacabana, a mulher começou a trabalhar recen-
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CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
temente como auxiliar de limpeza em uma academia no bairro de
Botafogo. Com o primeiro salário a mulher comprou um notebook
para os filhos, assim segundo ela “eles ficam mais em casa e cuidam
da pequena quando estou trabalhando”.
A casa possui uma sala, uma cozinha, um banheiro e um quarto dividido por uma cortina – de um lado um colchão de casal, um ventilador (achado na Rua Saint Roman – rua que dá acesso a favela) e do
outro lado um colchão de casal e um de solteiro, além de uma estante
de metal com roupas. A sala possui cadeiras de plástico, um tapete que ocupa parte da sala, uma mesa pequena com uma televisão
em cima, uma geladeira duplex antiga, um armário de cozinha com
as portas quebradas e cheio de roupas. Na parede um banner com
propaganda da academia em que a mulher trabalha e um calendário
de um escritório de Design, que segundo a própria moradora a irmã
trabalha como faxineira. A cozinha é pequena, mas possui um fogão
de quatro bocas, uma pia, uma máquina de lavar e prateleiras acima
da pia. Na cozinha ainda tem eletrodomésticos como liquidificador
e batedeira. Segundo a moradora o armário e a estante de metal foram doados por uma vizinha que iria jogar fora, o liquidificador ela
achou no lixo na Avenida Nossa Senhora de Copacabana e pegou. O
marido não gostou, mas como estava funcionando lavou bem e ficou.
A geladeira foi trocada com a amiga (da família Silva), mas o restante
eles compraram à prestação, como salienta a própria moradora. Embora a renda atual do casal permita que os mesmos comprem objetos
novos em prestação, há por parte da mulher o gosto por aceitar ou
pegar alguns objetos, da rua ou de doação, principalmente quando
um vizinho, conhecido (rede horizontal), comenta que não quer mais.
Ela atribui esse gosto a um passado muito pobre, no qual passou por
necessidades. Através desta moradora é possível evidenciar não somente a troca ou descarte dos bens, mas também o seu acumulo .
Durante a pesquisa frequentemente observamos na casa da família
os mais diversos objetos em um canto da sala, entre eles uma pequena estrutura de carroça para venda de alimentos, o vídeo de um computador antigo, uma cadeira quebrada, entre outros, os mesmos permaneciam até o marido reclamar, somente assim eram descartados.
O tema do acumulo de
bens e objetos não é o foco
desta pesquisa, porém é
um elemento que merece
ser mencionado e futuramente investigado na “favela e no asfalto”.
Domicílio 3 – Família Pereira
Residem na favela do Cantagalo em casa alugada, mas se inscreveram
no programa Minha casa minha vida, pois sonham com a casa própria.
A família é composta por três adultos (pai/avó 65 anos, filha 29 anos e
genro 32 anos) e uma criança (1 ano e meio). A renda da família vem
da aposentadoria do pai e do trabalho do casal (ela recepcionista em
um hotel em Copacabana e ele garçom em um bar no mesmo bairro).
Entre as famílias acompanhadas está é a que possui a maior renda e
uma casa melhor estruturada e mobiliada. A casa tem uma sala dividia em dois ambientes, uma cozinha, um banheiro e dois quartos. A
sala possui um sofá de três lugares na cor creme, uma poltrona marrom, uma estante com uma televisão de tela plana e um computador.
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CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
Relatório final de pesquisa
Mais ao canto da sala há uma mesa com quatro cadeiras criando um
segundo ambiente. Na cozinha há uma pia, um fogão de 4 bocas, uma
geladeira, um forno de micro-ondas, dois bancos e dois armários com
utensílios de cozinha. No quarto do casal há uma cama, um berço, um
guarda-roupa e um criado mudo com um pequeno abajur. Todos os
móveis são de madeira de cor clara. O quarto do pai/avó é menor e
tem uma cama de casal e um pequeno guarda-roupa.
Segundo o morador (pai/avó) a última compra maior (realizada a
prestação no cartão de crédito da filha) foi uma televisão de tela plana. A televisão antiga foi doada para uma moradora do alto da favela
(região conhecida como Vietnã). Questionado porque dou a televisão, este explicou que sempre tem gente precisando e que o melhor
é doar, pois recorda que em sua antiga casa, quando a filha era pequena, teve vários móveis de doação.
Na favela, foram pesquisadas famílias cuja estrutura mais comum é
a de famílias extensas compostas por casais ou mulheres com vários
filhos e parentes (como, avós, pais) residindo em uma mesma casa ou
no “puxadinho” que é construído na parte de cima da casa (conhecida como laje). Todas as famílias moram em casas próprias ou alugadas e possuem perfis socioeconômicos distintos. Cabe mencionar
que em função das características das favelas cariocas, ou seja, de
suas construções verticalizadas nas encostas dos morros, a carência
de espaços e o tamanho das casas revela-se um problema para algumas dessas famílias. A partir dos relatos dos moradores e observando a geografia da favela, fica evidente que as famílias mais pobres
possuem moradias de madeira, e estão na parte mais alta e de difícil
acesso. Além das construções mais precárias, a entrada pelas escadas estreitas e íngremes torna o acesso mais complexo, dificultando
a entrega e o descarte de móveis e eletrodomésticos.
Escadas no interior
da Favela
Uma das escadas
que dão acesso à
Favela (pela Rua Sá
Ferreira)
No que se refere a circulação de móveis e eletrodomésticos, foram observadas redes verticais e horizontais. Entretanto, a rede horizontal
faz parte do cotidiano desses moradores, porque esta envolve relações de reciprocidade. Ou seja, as ajudas e o apoio social envolvem
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CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
Relatório final de pesquisa
trocas, seja através de elementos materiais ou imateriais, pois as mesmas estão submetidas às conexões de reciprocidade .Claramente, as
trocas, na lógica da reciprocidade social, não ocorrem imediatamente
e nem sempre são similares, mas formam um processo que envolve
confiança, prestígio, dívida, amizade. Este processo foi observado na
favela, uma vez que o cotidiano e vida de parte destes moradores se
mostra repleto de dificuldades e carências de todos os tipos, inclusive
para adquirir ou descarta um móveis e eletrodomésticos.
Os mediares na favela
Durante a pesquisa com as famílias foram revelados “novos atores”
que intermediam e auxiliam na circulação dos móveis e eletrodomésticos, criando uma rede para e com os moradores da comunidade estudada. Entre eles dois se destacam no relato dos moradores da
favela, a ONG Solar Menino de Luz , que realiza eventualmente doações de móveis e eletrodomésticos para os moradores, objetos estes
provenientes do “asfalto”. A ONG foi a responsável, por exemplo, pelos móveis “novos” da casa da família Silva. Entre os objetos doados
estão uma geladeira, três colchões (solteiro e casal) e um fogão. A
ONG faz a solicitação de ajuda para os voluntários que trabalham na
organização, ou moradores do “asfalto” que costumam colaborar e
estes utilizam a sua rede para conseguir os objetos. Entretanto, esta
não é a principal função e foco da ONG. O envolvimento com a educação através da escola e da creche para comunidade são consideradas atribuições mais importantes, tornando essa “ponte” de
intermediação (dos móveis e eletrodomésticos) entre o asfalto e a
favela algo que acontece em situações especiais, como a situação de
extremas pobreza em que se encontrava a família Silva.
O outro “ator” que se tornou um informante importante para compreendermos melhor a dinâmica da circulação dos móveis e eletrodomésticos na favela chama-se Pedro. Seu Pedro , como é conhecido,
é um baiano de 53 anos que veio para a cidade do Rio de Janeiro com
a família aos 14 anos de idade. Sua família fixou residência na Favela
do Pavão, local em que casou, nasceram, cresceram e vivem seus três
filhos e onde sempre “tirou seu sustento”. Sua atividade consiste em
vender móveis e eletrodomésticos usados no acesso das Favelas Pavão-Pavãozinho. Este espaço utilizado por Pedro é o que denominamos de limiares, ou seja, um local em que os móveis e eletrodomésticos são depositados antes de ter um “novo destino”. A origem destes
objetos é em sua maioria do “asfalto”, através de doações oriundas
dos condomínios de Copacabana e Ipanema. Segundo relatos de seu
Pedro isso é possível, pois conhece a maioria dos porteiros e funcionários dos prédios, e estes residem na favela. A figura do porteiro
como um dos que auxiliam no descarte dos objetos no “asfalto” foi
confirmado em entrevistas e observações na pesquisa com moradores do “asfalto” . Assim, quando um morador quer se desfazer de
algo, Pedro é informado pelo porteiro. Então, o mesmo vai até o local,
realiza uma avaliação das condições e com seu carrinho acoplado
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Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
A reciprocidade aqui
no sentido estudado por
Marcel Mauss (2003), ou
seja, como a base dos laços sociais. Mauss em seus
estudos observou em sociedades do Pacífico e de
indígenas da América do
Norte que as relações sociais entre pessoas, assim
como entre grupos, envolvem, em primeiro lugar, a
circulação de bens e serviços sob a forma da dádiva.
Ou seja, dádivas e reciprocidades ocorrem entre sujeitos que agem de maneira
deliberada e se lançam nas
relações concretas, nas tríades dar, receber e retribuir.
O Solar Meninos de Luz
é uma organização civil,
filantrópica, em funcionamento desde agosto de
1991. Promove educação
formal e complementar em
regime integral, cultura, esportes e cuidados básicos
de saúde nas comunidades do Pavão-Pavãozinho
e Cantagalo, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de
Janeiro. O Solar localiza-se
na Rua Saint Roman, em Copacabana, acesso aos morros do Pavão-Pavãozinho e
Cantagalo.
O nome foi alterado a pedido do morador.
A atividade de Pedro é
denominada pelos moradores do asfalto como “burro
sem rabo”. A explicação é
relatada na parte da pesquisa sobre o “asfalto”.
CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
Relatório final de pesquisa
a uma bicicleta traz para a entrada da favela, local em que deixa
exposto para venda. Uma vez que, como o próprio salienta: “sempre
tem famílias chegando para morar na favela e não têm condições
de comprar tudo novo. Eu vendo e ainda entrego em casa, levo para
cima”. O mesmo processo é realizado por alguns moradores da favela, ou seja, para o descarte de móveis e eletrodomésticos utilizam o
espaço do seu Pedro, doando ou deixando para venda.
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
Quando o objeto é grande e pesado ele contrata
ajudantes, também moradores da favela. Em um dos
dias de observação, seu
Pedro buscou uma geladeira duplex (modelo antigo)
em um prédio na Rua Bolívar em Copacabana. Ele
e mais um ajudante amarraram a geladeira em um
carrinho grande e os dois
puxaram até o local onde
ficou exposta.
Rua Saint Roman, local em
que Pedro exerce sua atividade com móveis e eletrodomésticos.
Local também usado pelos
moradores para descarte
Além de realizar a intermediação dos objetivos usados, seu Pedro tem
um acordo com os entregadores de lojas de móveis e eletrodomésticos, como por exemplo, Casas Bahia. Sempre que algum morador compra um móvel ou eletrodoméstico nas lojas o caminhão
chega até a Rua Saint Roman, a partir daí paga para que Pedro leve até
a casa do morador, pois não há como ter acesso com o caminhão.
No que se refere ao descarte, principalmente de eletrodomésticos,
praticado no espaço “limiar” em que Pedro realiza seu trabalho, fomos
informadas que estes são desmanchados e parte das peças vendidas
por ele ou pelos funcionários da Comlurb para algum ferro velho. O
lugar em que Pedro vende os eletrodomésticos fica na rua, portanto,
não há proteção, assim os objetos podem estragar ou enferrujar. A
zona de coleta da Comlurb fica próximo ao local em que Pedro realiza
a exposição dos objetos o que facilita o desmanche e descarte.
Assim, a circulação desses objetos faz parte de redes tanto horizontais quanto verticais, ou ainda uma mescla das duas como o que
acontece com os móveis e eletrodomésticos que são vendidos na su-
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CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
bida da favela. Em sua maioria esses objetos vem do asfalto, algo já
descrito anteriormente, deste modo o que antes era descartado,
sem uso no asfalto, ganha na favela um “um novo lar” e passa a fazer
parte da vida de uma “nova” família.
Domicílios do “asfalto”
As famílias pesquisadas tinham diferentes estruturas e composições –
casal com filho, casal sem filhos, um homem e uma mulher que vivem
sozinhos (solteiro e viúva, respectivamente), avó e netas, mãe e filhos,
mas em termos socioeconômicos todas fazem parte da classe média
da zona sul do Rio de Janeiro . Essa intencional diversidade de estruturas familiares procurou dar conta do mosaico das variadas relações
sociais presentes nos domicílios, nas ruas e nos bairros da cidade.
A exceção seria Danilo, que,
além de não ser carioca, vive
em um conjugado em Copacabana, mas sua família
é de classe média (embora
pais e irmãos residam no
Rio Grande do Sul).
Domicílio 1 – Família Alves
Residência: Ipanema
Tipo de residência: apartamento de 3 quartos – imóvel próprio
Estrutura familiar: casal e uma filha de 5 anos
A família é composta por casal e uma filha de 5 anos. A esposa, de 39
anos, é designer e o marido, de 45 anos, músico. Ambos trabalham em
suas áreas de formação. De segunda a sexta-feira contam com o trabalho de uma empregada doméstica que dorme na residência três noites
na semana. Moram há mais de 10 anos no imóvel e antes residiam em
uma casa de vila no Rio Comprido, bairro da zona norte da cidade.
A planta do imóvel foi alterada e um dos quartos foi transformado em
estúdio para o marido; isto demandou, entre outras coisas, uma reforma para revestimento acústico. Com relação aos móveis, há aspectos que chamam atenção no apartamento. Grande parte dos móveis
foi recebida da irmã do marido (rede horizontal) – sofá da sala, puff,
mesa de jantar e cadeiras, que se desfez de vários móveis quando se
mudou para um novo apartamento. Há uma poltrona de estofamento
florido localizada na sala, que tem uma “vida social” bastante interessante: era originalmente do avô do marido, esteve na casa do Rio
Comprido, e, no apartamento de Ipanema, já esteve no quarto do casal (como poltrona de leitura), no quarto da filha (como poltrona de
amamentação) e atualmente está na sala, próxima ao sofá. Durante sua
trajetória, a poltrona foi reformada por duas vezes para receber
novo estofamento. No apartamento há muitos objetos relacionados
à atividade profissional do marido; além daqueles instalados no estúdio, há equipamentos de som na sala, como um amplificador e uma
vitrola, e várias guitarras no quarto de empregada. Durante o tempo
de pesquisa, uma estante foi incorporada aos demais móveis da sala.
Projetada por uma arquiteta e confeccionada por um marceneiro, a
estante é o móvel onde livros, LPs e home theater são alocados.
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CENTRO DE ALTOS
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
Poltrona da família Alves
(à esquerda)
Nova estante da família Alves (à direita)
Domicílio 2 – Família Barbosa
Residência: Ipanema
Tipo de residência: apartamento de 3 quartos – imóvel próprio
Estrutura familiar: casal sem filhos
A família é composta por um casal de aproximadamente 55 anos. A
esposa é psicóloga aposentada e o marido, engenheiro. O casal não
tem filhos em comum, mas o marido tem um filho de 27 anos, fruto de
um relacionamento anterior, que não mora com o casal.
Luiza, a esposa, mora na mesma rua desde a infância, tendo residido
em outros três apartamentos antes de se mudar para o atual, onde
mora há 15 anos. Não há empregadas domésticas, sejam mensalistas,
diaristas ou faxineiras, trabalhando na residência e, por isso, todo o
serviço doméstico é realizado por ela, que afirma ser uma tarefa simples e rápida, pois a própria decoração da casa, com poucos objetos,
facilita a arrumação, a limpeza e a manutenção.
Um aspecto importante observado na residência foi a preferência
por móveis fabricados na cidade de Gramado , uma vez que o casal gosta muito daquela cidade e do estilo dos móveis de madeira
lá fabricados. Há 15 anos, quando se mudaram para o apartamento,
a cozinha foi toda projetada, fabricada e instalada por uma loja de
Gramado, tornando-se o cômodo da casa mais apreciado pelo casal.
Cozinha com móveis de
Gramado
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
O sofá da sala, também um móvel de Gramado, composto de uma estrutura de madeira e almofadas no assento e no encosto, teve as
almofadas reformadas (recebeu novas capas) por Luiza, que possui
uma máquina de costura em um dos quartos, que foi transformado
em uma espécie de ateliê de costura. Desse ateliê já saíram outros
elementos para a casa, como, por exemplo, as atuais cortinas da sala
e o estofamento da cadeira de balanço que fica na sala.
Quanto aos descartes, que são poucos, o último (durante o período da pesquisa) foi o do ar condicionado que quebrou. Luiza pediu
ajuda ao porteiro para que ele a avisasse quando passasse pela rua
o carro de ferro velho, pois sua intenção era vendê-lo como sucata,
mas o porteiro quis o aparelho e, então, ela entregou a ele (rede vertical). Já tendo sido síndica do prédio onde mora, ela relatou
sobre o problema que enfrentava com frequência durante aquele
período: o descarte de móveis, de eletrodomésticos e de objetos de
decoração variados que os moradores não queriam mais e que os
porteiros do prédio, muitas vezes a pedido dos moradores, levavam
para uma área da garagem, onde esses objetos eram amontoados,
prejudicando a circulação dos carros e gerando reclamações de alguns moradores. De um lado, os porteiros diziam estar ajudando os
moradores ou diziam querer os objetos, mas, de outro, havia a dificuldade de transportar esses objetos doados para suas residências, o
que acarretava a demora em retirá-los da garagem.
Domicílio 3 – Carmen
Residência: Ipanema
Tipo de residência: apartamento de 3 quartos – imóvel próprio
Estrutura familiar: viúva, mora sozinha
Viúva de 84 anos, Carmen mora sozinha desde a morte do marido,
há 12 anos. Vive no mesmo apartamento há 18 anos, mas antes de
comprar esse imóvel, ela e o marido residiram por pouco tempo em
Copacabana, depois de se mudarem do Grajaú, bairro na zona norte
do Rio de Janeiro. Carmen tem uma filha que mora no bairro da Lagoa, também na zona sul da cidade, e uma neta, que vive no bairro da
Barra, na zona oeste, com marido e filho, bisneto de Carmen. Embora ela os visite com regularidade, não se imagina vivendo com eles
numa mesma casa. Há uma diarista que ali trabalha apenas dois dias
na semana, pois Carmen atualmente não vê necessidade de uma empregada por mais dias ou que durma na residência – embora imagine que daqui a alguns anos poderá precisar de uma acompanhante.
Pensando nisso, ela já tem planos claros, e definiu que essa acompanhante dormirá em um dos quartos, que já está mobiliado com armários embutidos e uma cama de solteiro.
O apartamento tem três quartos, sendo que um foi transformado em
sala para TV e computador (um notebook), local onde Carmen mais
costuma ficar quando está em casa. Como recebe uma excelente
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CENTRO DE ALTOS
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
pensão do marido falecido e gosta de ter a casa bem decorada e arrumada, já fez várias reformas no apartamento – nos quartos, no banheiro e na cozinha. Uma vizinha relatou que são frequentes as obras
no apartamento e que “ela sempre está inventando alguma coisa [em
relação à casa e a obras]”. Carmen, logo no início da entrevista afirmou: “Eu amo a minha casa. Se tiver que comprar [referindo-se a objetos para casa] ... compro mesmo”. Enquanto estava vivo, o marido
costumava decidir sobre os móveis e a decoração, então, depois de
enviuvar, passou a se sentir bem por poder tomar todas as decisões
sobre a casa e sobre seus objetos.
Além das obras no apartamento, Carmen renova constantemente os
móveis, seja comprando novos, mandando fazê-los sob medida ou reformando os antigos. Quanto aos eletrodomésticos, ela revela não
ter tanto interesse quanto tem por móveis, mas troca sempre que é
preciso, ou seja, quando funcionam mal ou quando param de funcionar.
Quanto aos descartes, ela afirma se sentir uma pessoa “contemplada”
e por isso não acha correto vender aquilo que não quer mais; em vez
disso ela doa “para quem precisa” (rede vertical). Essas doações podem ser tanto para pessoas conhecidas, como para desconhecidos –
como, por exemplo, para asilos que pessoas amigas indicam.
Quando a primeira entrevista foi feita, estava no apartamento o Leonardo, um dos porteiros do prédio e que costuma fazer pequenos
serviços para ela, como pinturas e acabamentos de paredes e
móveis, consertos de móveis e eletrodomésticos. Naquele dia, ele
estava consertando armários da cozinha e havia, dias antes, pintado
de azul um móvel que atualmente fica no quarto em que Carmen dorme, mas antes esse móvel ficava na sala e em seguida foi deslocado
para o quarto, ganhando uma nova cor.
Domicílio 4 – Danilo
Residência: Copacabana
Tipo de residência: apartamento conjugado – imóvel alugado
Estrutura familiar: mora sozinho
Solteiro, Danilo tem 22 anos e é estudante universitário. Mora sozinho
e está na cidade há relativamente pouco tempo, desde 2011, vindo
de Porto Alegre. Os pais e os dois irmãos continuam vivendo no Rio
Grande do Sul. A mãe, que o orientou e o ajudou (inclusive financeiramente) na escolha e na compra dos móveis e dos objetos de decoração do conjugado, o visita com certa regularidade. A mãe interfere
bastante nesse aspecto, o que faz com que Danilo sinta que o apartamento não reflete muito a sua personalidade.
O apartamento está localizado em prédio onde todos os apartamentos são conjugados e Danilo o alugou há aproximadamente dois anos.
À época já havia um armário embutido, deixado pelo antigo inquilino, e, devido ao contrato que assinou com a imobiliária, não pôde tirá
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CENTRO DE ALTOS
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Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
-lo, mas gostaria de se desfazer do objeto, pois não o utiliza. Já havia
também outros pequenos móveis, como uma estante que serve como
divisória entre a cozinha e o restante do apartamento. Alguns móveis
e eletrodomésticos, como o sofá-cama, o ventilador, a TV e uma mesa
– que teve que ser cortada por ele para caber no espaço do conjugado – foram “emprestados” (leia-se doados) por uma família de amigos (rede horizontal) que estava reformando a casa quando Danilo se
mudou para o apartamento. Muito ligado à música, Danilo tem uma
bateria eletrônica, um violão e um teclado (emprestado) que ocupam
um canto perto da janela do apartamento. Quanto a descarte, não se
lembra de ter se desfeito de nenhum móvel, eletrodoméstico ou outro objeto do apartamento desde que passou a morar ali.
Sofá-cama “emprestado”
por família de amigos
Domicílio 5 – Família Esteves
Residência: Ipanema
Tipo de residência: apartamento de três quartos – imóvel alugado
Estrutura familiar: mãe, um filho e uma filha
A família reside há quatro anos no imóvel alugado em Ipanema, mas
possui um imóvel próprio em um bairro próximo, também na zona sul
da cidade, que encontra-se alugado. A mãe, Ana, é médica homeopata
e os filhos, que têm em torno de 20 anos, são estudantes universitários.
Uma empregada doméstica trabalha há muitos anos com a família.
A maioria dos móveis do apartamento veio da residência anterior e
alguns outros foram herdados do pai de Ana (esses possuem grande
valor sentimental) ou doados por um amigo de Ana. Há alguns móveis no quarto que Caio, o filho, que foram doados por esse amigo
da família (rede horizontal) queria se desfazer de móveis que eram
do quarto da filha que passou por uma reforma.
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
Cadeira que era do pai de
Ana (à esquerda)
Móvel do quarto de Caio
doado por amigo da família (à direita)
Em 2013, uma profissional especializada em Feng Shui reorganizou
o apartamento, especialmente a sala, seguindo as orientações dessa técnica chinesa de harmonização de ambientes. É possível observar no apartamento vários elementos decorativos e móveis de
origem ou de inspiração oriental.
Com relação aos descartes, estes ocorrem com pouca frequência,
quando um objeto quebra ou um eletrodoméstico perde sua utilidade no contexto familiar, como foi o caso de uma televisão antiga que
foi trocada por uma nova televisão mais moderna, de LCD. Ainda sobre descarte, Caio revelou que existe no último andar do prédio – um
prédio de três andares, sem elevador – um quarto que originalmente seria uma moradia para o porteiro, mas que serve de depósito para objetos, especialmente móveis, que os moradores não querem mais ou não sabem como descartar definitivamente. Esse quarto
permite que os moradores se desfaçam dos objetos indesejados sem
ocupar espaço em seus apartamentos.
Domicílio 6 – Família Fraga
Residência: Copacabana
Tipo de residência: apartamento de 4 quartos (originalmente 4 quartos, mas 1 deles transformado em sala de televisão) – imóvel próprio
Estrutura familiar: avó e duas netas
Viúva há dez anos, Helena vive no apartamento há mais de quarenta anos
e de cinco anos para cá duas netas, na faixa dos 20 anos, saíram da casa
dos pais em Vargem Grande e passaram a morar com ela, a fim de ficarem mais próximas à faculdade e ao trabalho. No apartamento também
mora uma empregada doméstica que trabalha há 20 anos para Helena.
O espaçoso apartamento de quatro quartos, em um prédio de apenas
um apartamento por andar, que sempre foi bastante movimentado
pela presença dos familiares (Helena teve três filhos e cinco netas), passou a ficar ainda mais movimentado com a vinda das duas netas, pois há
sempre a presença de seus namorados e amigos nos finais de semana.
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
O quarto que foi transformado em sala de televisão é o cômodo mais
utilizado por Helena no dia a dia, já as duas salas – de estar e de
jantar – são pouco utilizadas durante a semana, mas, nos finais de
semana, são os espaços para receber a família e os amigos das netas.
Todas as obras de modificação do apartamento foram feitas por um
arquiteto contratado logo após a compra do imóvel, antes da família
se mudar para lá. Uma decoradora também foi contratada para organizar o apartamento. No apartamento há dois quartos de empregada,
ambos utilizados pela empregada doméstica que trabalha na casa,
embora um desses quartos também sirva para acomodar um freezer
e um espaço para roupas para passar.
Uma característica marcante do domicílio é que há anos nenhum
objeto é retirado da casa, uma vez que sua proprietária está satisfeita como seus móveis e com sua decoração, ambas de estilo mais
clássico, ou como diz Helena, “um estilo mais antigo”. Alguns móveis e objetos de decoração acompanham a família há realmente
muitos anos e foram trazidos de outros apartamentos em que o casal morou antes de se mudar para o atual. Novos objetos não são
adquiridos há muito tempo e, portanto, o descarte de móveis é inexistente. Helena afirmou que nunca se desfez de nenhum móvel do
apartamento (alguns já foram reformados, reestofados ou consertados), já em relação aos eletrodomésticos, o descarte existe, embora
também seja pequeno, uma vez que só são descartados quando já
tiveram muitos anos de uso. Quando ainda estão funcionando são
doados, como a antiga geladeira que foi doada à manicure de Helena (rede vertical), e quando não funcionam e são pequenos, como
um liquidificador, são jogados fora.
Ao longo dos meses da pesquisa poucas mudanças ocorreram nos
domicílios pesquisados no “asfalto”, em relação aos móveis e eletrodomésticos: alguns sofás receberam novos estofados, uma estante
foi introduzida na sala, mas, no geral, nenhuma grande mudança foi
observada ou relatada pelos entrevistados. Como poucas mudanças ocorreram, poucos descartes foram realizados; apenas pequenos
objetos, especialmente eletrodomésticos, como liquidificadores e
micro-ondas que deixaram de funcionar foram descartados. Nesses casos, esses eletrodomésticos foram colocados nas lixeiras dos
prédios ou doados a pessoas interessadas (que sabiam que o objeto
não funcionava mais). Na família Alves, uma estante em estrutura de
ferro, que deu lugar a uma nova estante na sala, foi descartada e a
solução encontrada foi levá-lo para a casa do pai de um dos cônjuges
(rede horizontal), ainda que o pai não tivesse demonstrado interesse pela estante. Outro pequeno móvel, que também ficava do lugar
onde hoje encontra-se a estante, foi colocado na varanda do apartamento até que um destino final seja dado a ele.
Um ponto interessante sobre os imóveis, à exceção do conjugado,
sempre bastante espaçosos , é que quatro deles tiveram um dos
quartos adaptados para outra função: em dois casos um quarto foi
adaptado como uma sala para televisão e, em outros casos, o quar-
É interessante notar que
em dois dos apartamentos
de 3 quartos cujas famílias foram pesquisadas, as
esposas não descreveram
seus imóveis como apartamentos espaçosos; ao
contrário, uma descreveu
como um “apartamento
pequeno de três quartos”
e a outra “um bom apartamento, nem grande e nem
pequeno”. No primeiro
caso, segundo a entrevistada, a falta de um corredor
ligando a sala aos quartos
era o que dava a ela a sensação de ser um imóvel pequeno.
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
to foi transformado a fim de comportar uma função relaciona à
atividade de um morador (como por exemplo, o estúdio de música
e o ateliê de costura).
Além das visitas e entrevistas em profundidade com os membros das
famílias, fez parte do trabalho de campo a circulação periódica por
uma rua que se tornou a base a partir da qual o trabalho de campo se
estruturou. Trata-se de uma tranquila e arborizada rua residencial, situada na “divisa” entre os bairros de Copacabana e Ipanema, que está
localizada a duas quadras da praia de Ipanema e a quatro quadras da
praia de Copacabana. Alguns dos entrevistados residem em prédios
localizados nesta rua que, não obstante ser caracteristicamente uma
rua de classe média alta da zona sul do Rio de Janeiro, fica relativamente próxima a outra rua que dá acesso à favela do Pavão/Pavãozinho, proximidade comum na cidade do Rio, na qual favela e asfalto
compõem e integram o cenário urbano. A rua foi estrategicamente
escolhida por estar na divisa dos dois bairros e por estar próxima à
favela, o que permite analisar elementos do cotidiano de uma região
de classes média e média alta, mas que tem nos arredores um agrupamento residencial de baixa renda. Assim, nessa rua e no seu entorno não é incomum, por exemplo, avistar pessoas puxando carroças
com móveis e objetos descartados em direção ao acesso à favela.
Rua na “divisa” dos bairros
de Copacabana e Ipanema
Bem próxima a esta rua, encontra-se também uma loja de móveis
usados , que foi visitada algumas vezes durante a pesquisa e, além
da observação da loja e dos objetos (majoritariamente móveis, mas
também alguns objetos de decoração, como abajures, lustres e vasos), foi possível conversar com uma das vendedoras e manter um
breve contato com o proprietário da loja. Todos esses elementos
que caracterizam a rua a tornam um ponto de observação importante para a pesquisa que pretendeu analisar a circulação e a vida
social de móveis e eletrodomésticos.
25
A loja está localizada
em uma das principais
ruas do bairro, de intensa
vida comercial e trânsito
de pessoas durante a semana e também nos finais
de semana.
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
Rua de Ipanema / Loja de
móveis usados
Nos primeiros meses já se revelava a importância de contar e entrevistar profissionais que de alguma maneira estão implicados na
circulação dos bens, especialmente no que tange aos descartes que
as famílias necessitam realizar. De um lado, porteiros, pois são destinatários e/ou intermediários dos móveis e eletrodomésticos descartados, e, de outro lado, arquitetos, que são contratados para reformar
e redecorar imóveis e que, portanto, se envolvem não só na compra,
mas também no descarte dos objetos presentes nos domicílios.
Foi entrevistado um porteiro, Leonardo , que trabalha há mais de
dez anos em um dos prédios da rua tomada como base para a observação. Foi também entrevistada uma arquiteta que reside e mantém
um escritório de arquitetura em Copacabana, e que possui muitos
clientes residentes naquele bairro e em bairros próximos.
Esses contatos e essas entrevistas com porteiros e com a arquiteta
reforçaram e deixaram mais evidentes as percepções no contato
com as famílias. Em primeiro lugar, ficou claro que os porteiros dos
prédios residenciais são as pessoas a quem os moradores comumente recorrem para auxiliá-las na tarefa de descarte de objetos
que não são mais desejados ou úteis nas residências. São eles, portanto, não só os destinatários dos descartes na forma de doação
como também intermediários entre as famílias e as pessoas que
recebem esses objetos descartados/doados. Esses receptores podem ser amigos, vizinhos, parentes dos porteiros ou mesmo pessoas com as quais os porteiros não têm uma relação próxima, como,
por exemplo, aquelas pessoas, homens prioritariamente, que passam pelas ruas dos bairros recolhendo materiais diversos descartados que ainda podem ser aproveitados e revendidos – alguns popularmente conhecidos como “burro sem rabo” (coletores que
puxam carroças manuais) ou pessoas que dirigem carros de “ferro
velho”. Os porteiros intermediam as relações entre esses dois polos – doadores e receptores, pois são eles a quem os donos de carros de “ferro velho” e os “burros sem rabo” recorrem para saber se
há materiais e objetos a serem descartados. Do outro lado, os mo-
26
Leonardo é o porteiro
que estava na casa de Carmen, durante a primeira
visita, consertando móveis
da cozinha. Ele se tornou
um importante informante,
pois, pelo fato de trabalhar
há muitos anos no mesmo
prédio, conhece bem a
dinâmica da rua e do entorno. Conhece também
as estratégias de descarte
das famílias do “asfalto” e,
por morar em uma favela
próxima, é muitas vezes
um mediador privilegiado
desses descartes.
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
radores costumam avisar aos porteiros que em seus apartamentos
há objetos que precisam e estão à disposição para serem retirados.
A outra questão que se tornou mais clara após realização da entrevista
com a arquiteta foi que, em caso de obras e reformas, que implicam
a troca de uma só vez de vários móveis e eletrodomésticos da casa,
o descarte desses bens não é simples e muitas vezes o contratante
do serviço de arquitetura/decoração acredita que esses profissionais
são também responsáveis pelo destino que é dado aos itens a serem
retirados do imóvel. Um elemento complicador é que, na maioria das
vezes, esse descarte implica pagamento – é necessário alugar uma
caçamba ou pagar alguém ou uma empresa que retire todos os itens.
A reação mais comum é a de não querer pagar por esse serviço de retirada dos objetos; reação que pode ser interpretada como uma recusa
resultante da subversão da lógica que diz que paga-se pela compra de
um bem, mas não pelo seu descarte. Pagar pelo descarte de objetos é
algo que não faz parte da lógica que envolve as etapas do consumo .
A partir das entrevistas e da observação participante realizadas, revelou-se também importante investigar instituições através das quais é
possível descartar e doar móveis e eletrodomésticos, principalmente a Comlurb, Companhia Municipal de Limpeza Urbana da Cidade
do Rio de Janeiro, e o Exército da Salvação, fundação de caráter filantrópico que, entre outras ações, recebe doações de objetos (móveis,
eletrodomésticos, roupas, livros, etc.). A Comlurb possui um Serviço
de remoção gratuita de entulho de obras e bens inservíveis. Como
primeiro passo, foi realizado um levantamento no site da Comlurb,
a fim de que fossem obtidas as informações mais gerais sobre esse
serviço. Num segundo momento, no mês de agosto de 2013 feito contato com o setor de Comunicação para agendamento de entrevista com responsável pelo setor. A partir da entrevista esperava-se
obter informações detalhadas sobre a questão dos chamados “bens
inservíveis”, que, de acordo com o site da Comlurb, podem ser geladeiras, freezeres, cofres, sofás, armários, cadeiras, colchões, espelhos, luminárias, tapetes, computadores, etc. Uma das questões
centrais que a entrevista poderia esclarecer seria quanto ao destino
dos objetos recolhidos nos domicílios. Apesar dos esforços de contato e das diversas tentativas, a entrevista não pode ser realizada em
função das negativas e do rompimento da comunicação por parte da
Assessoria de Comunicação da Comlurb.
Esta é uma questão para
a qual as empresas poderiam atentar, pois trata-se
realmente de uma dificuldade para certos consumidores. Como exemplo, a
loja de móveis online Oppa
mantém um serviço que
garante a retirada do móvel antigo quando o consumidor compra um novo
móvel (sofá, poltrona, cadeira ou mesa) na loja. De
acordo com informações
disponíveis no site da empresa
(http://www.oppa.
com.br/doe-o-seu-movel),
esses móveis são doados
a entidades filantrópicas
que, por sua vez, doam a famílias carentes ou vendem
esses objetos para gerar
receita para custear projetos sociais. O serviço de
retirada dos objetos está
disponível apenas para a
grande São Paulo.
A outra instituição, o Exército da Salvação, uma fundação que atua no
Brasil, desde 1922, tem com uma de suas atividades principais a coleta
de doações em domicílio e a venda esses objetos em lojas beneficentes. O site do Exército da Salvação esclarece o tipo de objetos
aceitos em doação: utensílios domésticos, móveis em bom estado
de conservação, eletrodomésticos, eletrônicos, computadores, além
de roupas, calçados, roupas de cama, brinquedos e livros de literatura.
Ainda de acordo com o site, o dinheiro obtido com a venda dos objetos
é revertido para programas assistenciais mantidos ou apoiados pela
fundação, tais como centros comunitários, creches, centros integrados,
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CENTRO DE ALTOS
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Relatório final de pesquisa
clínicas médicas e lares para idosos. Como é uma instituição bastante
conhecida entre os cariocas, a inclusão do Exército da Salvação entre
os elementos pesquisados permitiu descortinar relevantes aspectos
sobre a doação e a circulação de móveis e eletrodomésticos .
Mediações entre a “favela” e o “asfalto”
As duas questões que nortearam a pesquisa – O que leva os móveis
ou os eletrodomésticos a serem descartados? e Como descartar esses
móveis e eletrodomésticos? – devem ser compreendidas, na favela, a
partir das dificuldades geográficas enfrentadas pelos seus moradores, além dos seus aspectos socioeconômicos, uma vez que algumas
famílias estão em situação de pobreza. Entretanto, essas dificuldades
não impedem que haja uma vida social de móveis e eletrodomésticos
na comunidade. Portanto, percebemos que o descarte dos móveis e
eletrodomésticos acontece quase sempre quando o objeto estraga e
seu conserto “não vale a pena”, ou ainda quando sucede uma compra
ou o ganho de “algo melhor, mais novo”. Há também moradores que
reaproveitam eletrodomésticos descartados no lixo e que estão funcionando, mas poucos admitem que o fazem. Por outro lado, o ganho
de móveis e eletrodomésticos vem de moradores da favela que trocam
seus objetos ou de doações vindas do “asfalto”, mas que são “intermediadas”, quase sempre, por esses moradores.
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
A pesquisa específica sobre o Exército da Salvação
ficou a cargo da bolsista
do Programa de Iniciação
Científica da ESPM Rio, Larissa Franklin. Neste relatório são apresentadas apenas as principais questão
referentes ao trabalho de
recolhimento e venda de
objetos doados via Exército da Salvação.
Com relação ao descarte, este passa a ser um problema, pois se o objeto estiver quebrado é necessário levá-lo para “baixo”, o que significa depositá-lo na rua principal que dá acesso à favela, ao lado do
local no qual a Comlurb faz o recolhimento do lixo da comunidade.
Este deslocamento gera gastos, uma vez que é preciso pagar alguém
que realize (moradores da favela) este tipo de transporte. Por isso,
em alguns casos os eletrodomésticos e móveis ficam por um tempo
em um canto da casa dividindo o espaço com o “novo”. Outro destino dado aos móveis e eletrodomésticos, mas estes em bom estado
de conservação, é a doação para membros de famílias consideradas
mais pobres. É comum perguntar aos vizinhos, amigos e familiares se
conhecem alguém que possa querer/precisar do objeto, porém o beneficiário é que deve providenciar o transporte até sua residência.
No asfalto, duas pergunta de base são respondidas de maneira diferente do que acontece na favela. As respostas à pergunta relativa à
motivação para o descarte giram em torno de questões como: o objeto deixou de funcionar ou foi danificado; o objeto foi considerado
“velho”; o objeto deixou de combinar com o restante dos objetos da
casa (quando outros objetos são introduzidos, quando há reforma ou
redecoração de um cômodo ou de toda casa); “cansou-se” do objeto;
mudança de fase da vida dos filhos (nesses casos berços e pequenos
armários precisam dar espaço a outros e maiores móveis). Já com relação à segunda pergunta – Como descartar esses móveis e eletrodomésticos? – esquematicamente, podem ser apontadas algumas possibilidades: doação (para empregados, parentes ou mesmo pessoas
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Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
Relatório final de pesquisa
desconhecidas); lixo (simplesmente colocando os objetos na lixeira
do prédio ou fazendo uso dos serviços de recolhimento da Comlurb);
venda (para lojas de móveis usados, em sites específicos de venda e
troca de objetos ou em redes sociais, por exemplo). O que fica claro é
que o descarte de um móvel ou eletrodoméstico pode ser uma tarefa
difícil para as famílias, pois muitas vezes não há para quem doar o bem
e não se tem ou não se sabe sobre alternativas de destino para objetos
de grandes dimensões, como são alguns móveis e eletrodomésticos.
Algumas vezes, embora as pessoas conheçam, por exemplo, o Exército da Salvação ou o serviço de retirada de entulhos e bens inservíveis
da Comlurb, consideram essas alternativas difíceis de serem concretizadas. Especificamente em relação às doações, foram verificadas duas
posições diferentes em relação ao ato de doar móveis e eletrodomésticos. Se, por um lado, pode ser expressado o desejo de procurar doar
um objeto para uma pessoa que se considere que “precise” e “mereça” o item, de outro lado, pode ser expressado claramente que as
doações são formas mais simples e baratas de “se livrar dos objetos”,
não se importando realmente com o destino ou com quem receberá
esses objetos. Porteiros e empregadas domésticas são destinatários
principais de móveis e eletrodomésticos descartados pelas famílias
de classe média pesquisadas. Além de receberem esses bens em doação, porteiros e domésticas podem atuar como mediadores das doações, ou seja, os objetos não lhes interessam, mas eles conhecem
alguém que “precisa” e/ou que gostaria de receber esses objetos dos
quais as famílias querem se desfazer, um familiar, um amigo, um conhecido, um vizinho. Em outros casos as famílias apenas sabem que os
porteiros “dão um jeito”, “dão um destino”, “dão um fim” aos objetos
que elas não mais desejam manter em casa. Esse destino ignorado
pelas famílias pode ser, inclusive, o lixo.
O fluxograma abaixo ilustra as possibilidades de descarte de móveis e eletrodomésticos.
Parentes e
Amigos
Doação
Empregados
Desconhecidos
Sites (ex. Bom
Negócio.com;
Facebook)
Venda
Legenda de cores:
Azul, válido para asfalto e favela.
Verde, exclusivo do asfalto.
Rosa, exclusivo para favela.
Lojas de móveis
usados
Descarte
Vizinhos e
Intermediários
Prédio
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Lixo
Rua
Segunda casa
Agência de
recolhimento
(Comlurb)
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
A pesquisa com as famílias mostrou, no que tange às dinâmicas socioculturais que permeiam a circulação e a trajetória de móveis e
eletrodomésticos entre lares de diferentes classes sociais, que há
tanto redes verticais como redes horizontais na circulação de bens.
Explicando melhor aquilo que estamos nomeando como redes horizontais e redes verticais, ouvimos e registramos nas casas de classe média do asfalto, histórias de móveis e de eletrodomésticos que
foram doados a pessoas de classe mais baixa (rede vertical), mas
também objetos que foram doados a amigos ou parentes também de
classe média (rede horizontal). Além disso, observamos objetos que
foram recebidos via doação de amigos ou parentes (rede horizontal).
Nas famílias de classe baixa nas comunidades, observamos não só os
móveis e eletrodomésticos que foram doados por pessoas de classe
média do asfalto (rede vertical), mas também um movimento de doação e de troca desses objetos entre as famílias da favela (rede horizontal). A existência dessas redes horizontais e verticais mostra que
móveis e eletrodomésticos circulam entre e intra classes sociais.
Essa circulação expõe relações de sociabilidade, que podem ser
de caráter familiar, de amizade, de vizinhança ou de trabalho, presentes especialmente na doação e, em menor medida, na venda ou
na troca dos objetos. Cabe lembrar as considerações feitas diversas
vezes por Miller (2002, 2007, 2010, 2012) de que, ao estudarem-se as
relações entre pessoas e coisas, estudam-se, na verdade, as relações
entre pessoas. Assim, mediados por objetos, os relacionamento humanos se afirmam e reafirmam, relações sociais são estabelecidas,
mantidas, reforçadas ou, em certos casos, rompidas.
Outro aspecto que a pesquisa trouxe à luz foi a relativa dificuldade
que, por vezes, as famílias estudadas, independente da classe social, enfrentam no processo de descarte de um móvel ou eletrodoméstico. Quando a doação, em geral a primeira opção pensada para
se desfazer de um desses objetos, ou a venda não são possíveis,
passa-se a alternativas que via de regra não mais morosas ou
complexas/complicadas, como, por exemplo, o acionamento da
Comlurb para a retirada do objeto.
Por fim, com relação à vida social dos móveis e eletrodomésticos, a
pesquisa conclui que ao longo de suas trajetórias de vida, alguns
desses objetos são deslocados para “espaços limiares”, espaços da
casa ou da rua que são utilizados pelas famílias para “encostar”, a
princípio em caráter provisório, os objetos que não são mais úteis ou
desejados. Exemplos claros de “espaços limiares” no asfalto são as
garagens e os pequenos apartamentos que existem em alguns prédios, em geral destinados à residência de porteiros, mas que podem
ser transformados em verdadeiros depósitos de objetos de todo tipo
descartados pelos moradores. São também “espaços limiares” os
quartos de empregada, cômodo que muitas famílias utilizam como
espaços para guardar objetos que ainda não têm um destino definido. Na favela, na falta de um quarto de empregada ou de uma garagem, o “espaço limiar” mais comumente visto é um canto da rua,
onde os moradores depositam os objetos que não querem mais, ou
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
esses objetos permanecem dentro de casa, misturados e disputando espaço com os demais, até que seu destino seja decidido. Após
passarem por esses “espaços limiares”, o destino desses objetos é
incerto: alguns podem ganhar uma sobrevida, retornando a algum
cômodo da casa ou indo para uma nova residência, enquanto outros vão para o lixo ou são destruídos, concluindo seu ciclo de vida.
Produção no período
Por ocasião do relatório parcial foram entregues os dois produtos previstos na Planilha de Entregas estabelecida pelo CAEPM: o Relatório
Parcial e a Bibliografia Comentada das 10 obras mais relevantes para
a pesquisa. Adicionalmente àquilo que estava previsto, foi produzido
o artigo intitulado Do “asfalto para a favela” e da “favela para o asfalto”: notas de uma pesquisa em andamento, a ser publicado na edição
de dezembro da Revista Marketing, na seção Estudos ESPM (ainda
sem notícias sobre aprovação e/ou data de publicação). Foi também
realizado, no dia 26 de novembro, o encontro de pesquisadores da
ESPM Rio que têm projetos de pesquisa financiados pelo CAEPM. Na
ocasião foram apresentados os resultados parciais desta pesquisa.
No dia 25 de abril, em São Paulo, participamos do II Seminário Integrado de Pesquisa Pensamento ESPM. A pesquisa foi apresentada no grupo temático “Consumo em múltiplas perspectivas”. Neste
mês de maio, conforme previsto na Planilha de Entregas, está sendo entregue este Relatório Final, único produto previsto. No entanto,
antecipando as entregas do período que vai até dezembro de 2014,
tivemos os seguintes trabalhos submetidos, aceitos para publicação
ou aceitos para apresentação em congressos:
Artigo publicado:
• A “vida social” de móveis e eletrodomésticos: consumo e descarte
na favela e no asfalto. Revista ADM.MADE, Rio de Janeiro, ano 13,
v.17, n.3, p.70-88, setembro/dezembro, 2013.
- Trabalhos aprovados em congressos:
• From “middle class neighborhood” to “slam”, from “slam” to “middle class neighborhood”: an ethnographic research about the circulation and the social life of furniture and appliances. Conference
of the Research Network of Sociology of Consumption, da European Sociological Association, que será realizado entre 3 e 6 de
setembro, na cidade do Porto, Portugal.
• Do “asfalto para a favela”, da “favela para o asfalto”: uma pesquisa
etnográfica sobre a circulação e a vida social de móveis e eletrodomésticos. 29ª Reunião Brasileira de Antropologia-RBA, que será
realizado entre 3 e 6 de agosto, em Natal, RN.
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
- Trabalho submetido a congresso (ainda sem resultado de
aprovação):
• Do “asfalto para a favela”, da “favela para o asfalto: uma pesquisa
etnográfica sobre a circulação e a vida social de móveis e eletrodomésticos. 7º ENEC-Encontro Nacional de Estudos do Consumo,
que será realizado de 24 a 26 de setembro, no Rio de Janeiro, RJ.
Previsão da data de divulgação dos resultados: 30 de junho.
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
ORGANIZAÇÃO DAS REFERÊNCIAS
Referências
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CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
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Bibliografia comentada das 10 obras mais relevantes
para a pesquisa
Entre as dez obras selecionadas, procuramos contemplar as que primeiramente nos ajudam a analisar e a atingir nosso objetivo de pesquisa. Portanto, são obras que abarcam a temática do consumo e da
cultura material, outras duas obras que refletem sobre as camadas
mais pobres a partir do tema das redes, sociabilidades e favela.
Por fim, uma obra que permite pensar sobre as questões metodológicas e mais especificamente sobre a etnografia.
1- MILLER, Daniel. (ed.) Home possessions: material culture
behind closed doors. Oxford: Berg, 2001
Na coletânea intitulada “Home possessions”, organizada por Miller
(2001), encontram-se dez artigos de diferentes autores que apresentam textos resultantes de suas pesquisas – muitas delas pesquisas de
doutoramento – sobre a cultura material da casa. Os artigos são divididos em três partes, a saber: Mobile Homes; Estate Agency; Building
Relationship. Além dos aspectos conceituais de cada capítulo, Miller
apresenta também questões relacionadas ao trabalho de campo de
pesquisas sobre a casa em contextos de sociedades complexas. Diferente do que acontece quando se realizam etnografias em pequenas
comunidades ou tribos (etnografias “clássicas”), o antropólogo que
faz seu trabalho de campo em contextos urbanos de sociedades complexas contemporâneas muitas vezes não se muda para a casa de seu
informante ou de outra pessoa/família do grupo pesquisado, mas ele
visita essas casas e famílias. Isso de maneira nenhuma significa que
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CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
a pesquisa não seja uma etnografia. Cabe também ressaltar que em
contextos de etnografias “clássicas”, muitas vezes as casas podem
ser consideradas como espaços públicos e não espaços privados, tal
como os concebemos nas sociedades complexas ocidentais.
2- MILLER, Daniel. The comfort of things. Polity Press: Cambridge, 2012
No trabalho intitulado “The comfort of things”, Miller (2012) reitera a ideia central presente em seus trabalhos – a ideia de que as
pessoas se expressam através das suas posses e que, por extensão,
essas posses “falam” sobre as vidas das pessoas – e deixa claro como
a cultura material ajuda as pessoas a lidarem com perdas e mudanças ao longo de suas vidas. Inicialmente uma pesquisa sobre como
as pessoas lidam com as perdas e as mudanças em suas vidas, o livro
é estruturado na forma de “portraits” (retratos) das pessoas que residem nos lares pesquisados. Cada um dos trinta retratos representa
um domicílio localizado em uma rua do sul de Londres e reflete
questões específicas, mas que podem ser sintetizadas na questão do
papel dos objetos nos nossos relacionamentos. O livro, segundo seu
autor, é sobre como as pessoas se expressam através de suas posses,
e o que essas posses dizem sobre as vidas das pessoas. Esse livro
também traz importantes contribuições no que tange à metodologia
de pesquisa, uma vez que levanta e esclarece questões sobre o trabalho de campo realizado. Talvez o aspecto mais importante relativo
aspecto do campo é quanto à seleção de uma rua como base para o
estudo. Miller reconhece que uma rua não é e não pode ser considerada uma sociedade, uma cultura ou uma comunidade, mas que vê
a rua como microcosmos, um campo que deve ser respeitadocomo
uma ordemcosmológicaem seu próprio direito.
3- MILLER, Daniel. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Rio de Janeiro: Zahar, 2013
Composto por cinco capítulos, o livro “Trecos, troços e coisas” trata
de temas como indumentária/vestuário, mídia e moradia/casa, e
seu autor traz à tona questões importantes relativas à cultura material na contemporaneidade. No terceiro capítulo, intitulado Casas:
teorias da acomodação, Miller (2013) analisa profundamente
a relação entre as pessoas e seus lares no contexto londrino. Em
que pese tratar-se de uma realidade social, econômica e cultural
diferente da brasileira, as análises de Miller lançam bases para
pesquisas em outros contextos. Nesse capítulo são apresentados
vários exemplos, que vão da ocupação de imóveis governamentais
por famílias da classe trabalhadora londrina até a decoração dos
quartos das babás que residem nos lares onde trabalham. Alternando questões presentes em suas pesquisas e pesquisas de seus
orientados na UCL, Miller trabalha algumas temáticas e ideias interessantes, como a de que existe um “processo de acomodação” (p.
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CENTRO DE ALTOS
ESTUDOS DA ESPM
Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
144), isto é, que há uma apropriação da casa por seus ocupantes, e
a ideia de que mudar de casa é uma “forma de reescrever a própria
biografia inscrita nas coisas (p. 145).
4- APPADURAI, Arjun (org.). A vida social das coisas: as mercadorias sob uma perspectiva cultural. Niterói: Editora da UFF, 2008.
No campo da cultura material, particularmente no que tange às questões referentes às relações entre consumidores e mercadorias, o trabalho de Appadurai (2008) é referência importante, considerando-se
sua discussão sobre a construção do valor e o próprio conceito de
mercadoria. Partindo da ideia de valor, em uma clara referência ao
trabalho de Georg Simmel, Appadurai afirma que “o valor jamais é
uma propriedade inerente aos objetos, mas um julgamento que sujeitos fazem sobre ele” (APPADURAI, 2008, p. 15). Para o autor, não se
trata exatamente de definir a priori o que é mercadoria, mas sim de
saber que tipo de troca é a troca de mercadorias. Com esse deslocamento da questão é possível perceber que mercadorias são coisas
em determinado situação, ou seja, ser mercadoria é circunstancial e não uma característica intrínseca ou que se determina
na produção. Mercadoria não é um tipo de coisa, mas uma fase – a
fase mercantil – na vida de algumas coisas.Deriva dessa definição
de mercadoria o destaque que o autor confere ao entendimento
da circulação e das trajetórias dos objetos; nas suas palavras:
Somente pela análise destas trajetórias [dos objetos] podemos interpretar as transações e os cálculos humanos que dão vida às coisas. Assim, embora de um ponto de vista teórico atores humanos codifiquem
as coisas por meio de significações, de um ponto de vista metodológico
são as coisas em movimento que elucidam seu contexto humano e
social. (APPADURAI, 2008, p. 17).
5- KOPYTOFF, Igor. A biografia cultural das coisas: a mercantilização como processo. In: APPADURAI, Arjun (org.). A vida social
das coisas: as mercadorias sob uma perspectiva cultural. Niterói: Editora da UFF, 2008.
Presente no livro organizado por Arjun Appadurai, o capítulo de
autoria de Igor Kopytoffapresenta a ideia de biografia cultural dos
objetos, a partir da qual sejam percebidas e analisadas as fases de
vida e as gradações dos objetos, as sobreposições e recorrências
das classificações que os vulgarizam ou singularizam em determinada sociedade, acentuando assim a sua circulação e as ambiguidades
das variações de seus status sociais. O autor sugere que através da
análise das fases de vida de um objeto é possível observar e não só a
interação do objeto na sociedade na qual está inserido, mas também
é possível a explicitação de algumas regras sociais do(s) grupo(s)
estudado(s), seja através da afirmação da singularidade das práticas
culturais do(s) grupo(s), seja pela troca com outros grupos e suas
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
da “favela para o asfalto”
formas de classificação e singularização de objetos. A perspectiva
de biografia cultural, proposta por Kopytoff, é bastante apropriada
ao estudo de coisas específicas que passam por mãos e contextos, e
que adquirem usos diferentes. Ao fazer uma biografia de um objeto,
interroga-se sobre questões que vão desde de onde vem esse objeto, quem o fabricou, até como mudam os usos desse objeto à medida
que vai ficando velho e que destino tem quando sua utilidade
chega ao fim. Desta maneira é possível compreender sua trajetória de vida, suas etapas de mercantilização e de singularização.
Kopytoff (2008) chama a atenção para o fato de que a singularização
de objetos é um processo que se dá muitas vezes dentro de pequenos grupos e de pequenas redes sociais, e que grande parte da singularização é alcançada pela referência à passagem do tempo.
6- DOUGLAS, Mary; ISHERWOOD, Baron. O mundo dos bens: para
uma antropologia do consumo. Rio de Janeiro: Editora: UFRJ, 2004.
A obra de Douglas & Isherwood fornece uma crítica à teoria econômica do consumo ao explicitar que não é possível entender o
comportamento do consumidor através apenas de duas variáveis –
preço (das mercadorias) e renda (das famílias ou dos indivíduos).
Na perspectiva antropológica do consumo os bens apresentam um
duplo papel: de um lado, sem dúvida, provém subsistência, mas, de
outro, promovem relações sociais. É neste sentido que torna-se possível afirmar que o consumo pode ser entendido como uma forma de
comunicação entre as pessoas, na qual os objetos atuam como mediadores ou indexadores desse processo interativo: os bens são comunicadores. A frase, “as mercadorias são boas para pensar” (DOUGLAS & ISHERWOOD, 2004, p. 108), resume de maneira clara a ideia
de que os objetos que nos circundam servem para produzir sistemas
classificatórios a partir dos quais os grupos sociais estabelecem
relacionamentos, e demarcam fronteiras e diferenças entre si.
7- CAMPBELL, Colin. A ética romântica e o espírito do consumismo moderno. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
Nesta obra o autor inicia mencionando que as análises da Revolução
Industrial tenderam a se concentrar mais nas mudanças das técnicas
de produção, deixando de lado as análises das mudanças na natureza da procura. Portanto, houve uma tendência a deixar o tema
do consumo exclusivamente para a Economia e sua predominante
tradição de pensamento utilitário. A compreensão da Revolução
Industrial (transformação dramática das formas de abastecimento)
pressupõe uma compreensão análoga sobre as forças que provocaram uma mudança dramática nos hábitos de procura do consumidor,
a chamada “revolução do consumidor”. Para Campbell a “revolução
do consumidor” - crescimento da propensão ao consumo – seria o
complemento essencial da Revolução Industrial, pois “a procura do
consumidor foi a chave decisiva para a Revolução Industrial”. Mas,
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Relatório final de pesquisa
Do “asfalto para a favela”,
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como explicar a mudança da visão do consumo como algo moralmente inaceitável para algo virtuoso? Para o autor a resposta deve
ser encontrada numa revolução cultural nos valores e atitudes morais
com relação à aquisição, levando o debate para fora da teoria econômica tradicional e colocando-o no contexto mais amplo das Ciências
Sociais. Paralelamente à revolução do consumidor houve uma série
de fenômenos culturais que aparecem primeiro na Inglaterra do século XVIII e parecem se relacionar com esta revolução. Assim, o consumo pensado como um fator cultural e a nova propensão a consumir
tiveram origem numa mudança de valores e atitudes.
8- MARQUES, Eduardo. Redes Sociais, Segregação e Pobreza.
São Paulo: Editora UNESP; Centro de Estudos da Metrópole, 2010.
A obra de Marques é o resultado da sua tese de livre-docência defendida na FFLCH/USP em 2007. No livro, que tem como pano de fundo a
cidade de São Paulo, o autor sustenta a importância da sociabilidade
para a compreensão das condições da pobreza urbana no que tange
ao acesso a bens e serviços (obtidos via mercado) e no “provimento”
aos indivíduos de elementos oriundos de trocas e apoio social. Assim, o autor explora as características das redes e sua variabilidade
mapeando os mecanismos relacionais que explicam tanto diferenças
entre redes quanto a sua mobilização diversificada pelos indivíduos.
Ao constatar a heterogeneidade das redes, Marques em termos metodológicos opta por “duas tipologias distintas” – uma para redes em
si, em que busca classificá-las pelas suas características, e outra para
os “padrões de sociabilidade dos indivíduos” (p.122). Este estudo
sobre as redes e suas diversidades ajuda a compreender a heterogeneidade das situações sociais, mesmo entre a população mais pobre,
que segundo o autor é produzida pelos efeitos complexos dos “diversos atributos e processos, como escolaridade, idade, sexo”, além
das decisões e estratégias ao longo da vida que influenciam eventos
e dinâmicas que estão acima do controle dos indivíduos.
9– VALLADARES, Lícia do Prado. A invenção da favela: do mito
de origem a favela.com. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.
Neste livro a autora analisa a construção da categoria favela enquanto problema social, entretanto salienta a sua dimensão histórica. Assim, Valladares apresenta como no decorrer dos séculos XIX (a
partir dos cortiços) os discursos, imagens, representações e análises
da favela carioca foram sendo estabelecidas. A autora discorre ainda
como ao longo do século XX foi sendo percebido e construído um saber sobre a favela, além de uma imagem negativa associando o local
e seus moradores a pobreza, sujeira, malandragem, etc. E chega ao
século XXI, o qual descreve a partir da Rocinha a inclusão virtual de
parte dos moradores, que consiste em conexões na internet, tv a cabo
e telefones celulares. Por outro lado critica uma visão excessivamente homogeneizadora das favelas e salienta que em estudo realizado,
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Do “asfalto para a favela”,
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a partir dos dados do senso, há uma heterogeneidade das favelas e
de seus moradores que poucas vezes é visualizada pela sociedade
carioca. Por fim, cabe informar que o livro torna-se uma referência
importante para os estudos sobre favela, pois além da construção
histórica, já mencionada, da experiência de mais de 30 anos nos estudos sobre favela da autora, esta faz um levantamento comentado de
outras obras na área das Ciências Socais sobre a temática.
10- PEIRANO, Mariza. A favor da etnografia. Rio de Janeiro:
Relume- Dumará, 1995.
A autora reflete sobre a pesquisa de campo na Antropologia e suas
implicações. Embora o livro seja de 1995, este discute e analisa a etnografia e expõe discussões presente ainda hoje sobre a forma como
os antropólogos realizam suas pesquisas. O livro está dividido em
quatro capítulos e um posfácio em que, primeiramente, Peirano dialoga com Fábio Wanderley Reis (cientista político) e busca esclarecer
porque é infundado seu temor de que a influência da antropologia,
com sua inclinação para a observação desarmada, possa diminuir o
rigor teórico das demais ciências sociais. Posteriormente no capítulo
`A favor da etnografia’, que dá nome ao livro, a autora expande as colocações iniciais, focalizando especificamente a prática de pesquisa
etnográfica da antropologia. Para a autora não há como ensinar a fazer
pesquisa de campo, pois esta depende da “biografia do pesquisador,
opções teóricas dentro da disciplina, do contexto sociohistórico mais
amplo e, das imprevisíveis situações no dia- a-dia no próprio local
da pesquisa e entre pesquisador e pesquisado” (p.22). No terceiro e
quarto capítulo, a autora reafirmando a importância de se ter acesso
às informações etnográficas, e se utiliza do “banco etnográfico” de
Victor Turner e se propõe a uma releitura a partir de indícios que
o próprio Turner forneceu. E, por último, explora as versões nativas
dos próprios antropólogos quando estes se utilizam do acaso para
explicar suas trajetórias individuais, e assim desafiar as barreiras da
disciplinares e reforçar o terreno “seguro da tradição antropológica”.
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