estudos semióticos
www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es
issn 1980-4016
semestral
vol. 7, no 2
novembro de 2011
p. 102 –109
Analise semiótica da imagem de uma cadeira
Julio Monteiro Teixeira*
Luana Marinho Matos**
Richard Perassi***
Resumo: Este artigo toma por base a teoria semiótica de Charles Sanders Peirce, considerando o signo como
qualquer coisa que representa outra entidade, além de si mesmo. A teoria é aqui adotada para estudar e
apresentar parte da significação proposta pela observação de uma imagem de cadeira Thonet – modelo 209. O
estudo desenvolvido considerou a cadeira sob seus aspectos materiais e formais, que são possíveis de serem
percebidos pela observação visual do objeto. Isso se deve à intenção de salientar o design do mobiliário, como
campo de interação dos valores visuais da forma, que são aqui apresentados como signos ou elementos de
significação. Diante do exposto, os dados histórico-contextuais não são primeiramente considerados neste
estudo, que, mais especificamente, trata dos elementos visuais do objeto. Em particular ou em conjunto,
esses elementos são considerados signos capazes de configurar a significação do objeto, dentro do contexto
cultural da atualidade. Todavia, comparada com outras manifestações, essa significação insere o objeto no
contexto histórico-evolutivo do mobiliário. Pois, as formas, os materiais e os processos de estruturação são
historicamente referenciados em outros exemplares, permitindo a comparação da aparência do objeto em estudo
com outras peças do mobiliário, as quais foram produzidas em outros momentos ou lugares específicos, ao
longo da História.
Palavras-chave: imagem, design, significação Charles Sanders Peirce
Introdução
A Semiótica, como campo de estudos dos signos, propõe o signo como qualquer coisa que é percebida e se
apresenta no lugar de outra coisa material ou imaginária, para representá-la (Peirce, 1977). As palavras
e imagens aqui apresentadas representam conceitos
e objetos, como a cadeira em estudo (ver Figura 1),
propondo interpretantes ou ideias relacionadas a esses mesmos conceitos e objetos, na mente de leitores
ou observadores. Isso compõe um conjunto de signos,
os quais são propostos, ordenados e sobrepostos, por
meio de processos de informação e comunicação. Esse
conjunto significante visa promover, na mente do leitor
ou observador, ideias referentes à cadeira, que está
ausente.
*
**
***
Figura 1
Cadeira Thonet - modelo 209
(Fonte: acervo do autor)
Além dos limites da leitura deste artigo, entretanto,
a visão e a utilização de uma cadeira no cotidiano promove sensações, sentimentos e ideias no observador
ou usuário. Assim, estabelece uma série de significações decorrentes da percepção deste tipo de objeto
no mundo. Assim, além de se expressar como objeto
utilitário, uma cadeira pode, representar conceitos
como “descanso”, “conforto” e “poder”, entre outros.
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Endereço para correspondência: h [email protected] i.
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Endereço para correspondência: h [email protected] i.
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Julio M. Teixeira, Luana M. Matos e Richard Perassi
Uma cadeira, de acordo com os materiais utilizados em
sua fabricação e de acordo com a composição de sua
forma pode gerar diferentes impressões e representar
diferentes conceitos (Pignatari, 2004).
Neste artigo, não é possível oferecer experiências diretas de utilização e observação da cadeira em estudo.
Porém, por meio de imagens, da descrição textual do
objeto e do estudo realizado com base na teoria semiótica de Charles Sanders Peirce (1839-1914), parte da
significação proposta pelo modelo de cadeira apresentado é aqui evidenciada. A ideia que se propõe defender
considera que, de acordo com seus materiais e sua
forma, além de indicar sua função prática, o modelo
de cadeira em estudo é também símbolo de elegância,
leveza e formalidade (ou solenidade).
1. Descrição do objeto
A imagem1 a ser descrita (Figura 1) faz referência a
uma cadeira, como peça de mobiliário. A imagem sugere que a cadeira é composta, principalmente, por
dois tipos de material: madeira e palha.
Figura 3
Braços
(Elaborada pelos autores, 2008)
Os braços da cadeira, portanto, são formados por
esta segunda haste de madeira, que contribui na definição do encosto e desce até a peça circular que
emoldura o assento de palha (ver Figura 4).
A imagem indica que o encosto, os braços, os pés e a
estrutura que circula o assento da cadeira foram feitos
com madeira sólida e vergada. O encosto apresenta
uma forma que serve de apoio para a parte lombar do
corpo. Os braços da cadeira são as partes do móvel
que servem de apoio para os braços e antebraços do
usuário. Os pés são as partes da peça que o apóiam
diretamente sobre o chão. O assento da cadeira deve
receber o peso do usuário que se sentará nela e, por
isso, é contornado por peça circular que o emoldura e
lhe oferece sustentação.
Figura 2
Pernas e pés posteriores
(Elaborada pelos autores, 2008)
O encosto da cadeira é composto por duas hastes
arqueadas: uma que aparece na imagem como linha
sinuosa que vai até ao chão, servindo também como
pernas e pés posteriores da cadeira (ver Figura 2), e
outra que tangencia a primeira e demarca o limite
superior da imagem, descendo para compor os braços
da cadeira (ver Figura 3).
Figura 4
Assento
(Elaborada pelos autores, 2008)
O percurso linear composto pela haste que forma
os braços da cadeira (Figura 3) apresenta três curvas
aproximadas, uma horizontal, que delimita a parte
superior do objeto, e duas verticais paralelas entre si,
que determinam o desenho de apoio dos braços e os limites laterais da cadeira. O semicírculo, formado pela
curva horizontal na parte de cima do móvel, serve para
acolher as costas do usuário. E as curvas verticais em
paralelo oferecem sustentação aos braços e antebraços
do usuário.
Na parte da frente, sob a estrutura circular que
sustenta o assento, aparecem as duas pernas e pés
anteriores da cadeira que se repetem (ver Figura 5),
simetricamente, em direção oposta à curvatura do
desenho das pernas posteriores.
1
Neste texto, o termo “imagem” é utilizado no sentido de representação visual do objeto que não está presente, cuja aparência é aqui
apresentada por meio de representação fotográfica.
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Significado
Interpretante
Figura 5
Pernas e pés anteriores
(Elaborada pelos autores, 2008)
Representamen
Significante
Objeto
Referente
Figura 7
Abaixo do assento as pernas e os pés da cadeira aparecem visualmente como quatro elementos verticais,
sendo que todos aparecem com o mesmo tamanho
e são simétricos entre si. Contudo, salienta-se que
as hastes que formam as pernas posteriores prosseguem para cima, indo além do assento, para compor
o encosto da cadeira (Figura 2). Um pouco abaixo do
assento, há outra estrutura circular de madeira que
tangencia e fixa por dentro as quatro pernas da cadeira
(ver Figura 6).
Figura 6
Estrutura circular
(Elaborada pelos autores, 2008)
2. A teoria semiótica
A imagem da cadeira descrita no item anterior será
estudada como objeto simbólico2 , tomando-se por base
a teoria semiótica, que é indicada por Santaella (1983,
p. 2) como sendo “a ciência que tem por objeto de
investigação todas as linguagens possíveis”, cujo objetivo é o exame de modos de constituição de todo e
qualquer fenômeno como campo de significação. Assim, semiótica é proposta como ciência que estuda e
busca explicar os signos.
Composição da tríade de um signo
(Adaptada de Joly, 1996, p. 33)
O signo é uma coisa que, mesmo falsamente, representa outra coisa para uma mente qualquer (Santaella,
1983). Portanto, o signo está no lugar de alguma outra
coisa que é diferente dele mesmo. Essa outra coisa representada pelo signo é seu objeto. O signo é composto
por uma tríade solidária de elementos (ver Figura 7) e
apresenta, pelo menos, um representamen, um objeto
e um interpretante. No caso da comunicação visual,
por exemplo, o primeiro elemento ou representamen é
aquilo que é percebido pela visão, como as palavras e
as imagens deste artigo. O segundo elemento ou objeto
do signo é aquilo que está ausente e é representado
pelo signo. Por exemplo, a imagem apresentada anteriormente (Figura 1) representa todas as cadeiras e,
especialmente as cadeiras Thonet – 209, os objetos
mais específicos do signo. O terceiro elemento ou interpretante é a ideia que surge na mente do observador
que percebe o signo. Assim, os observadores que não
sabiam da existência desse tipo de cadeira são informados indiretamente dessa existência, por meio dos
signos que lhe fazem referência. Os observadores que
sabiam da existência desse tipo de cadeira a recuperam na memória ao serem estimulados pela presença
do signo.
O produto das sensações e das interpretações são
ideias que acontecem e passam a habitar a mente do
observador. De acordo com Santaella (1983), Peirce
considera os fenômenos3 como eventos mentais; isso
distingue esse teórico de outros pensadores que indicaram os fenômenos como eventos do mundo externo
à mente.
Na parte mais superficial da consciência, atua a
razão, como o campo em que ocorrem os fenômenos.
A razão é influenciada pelo mundo interno e externo
a todo instante. Por isso, deve ser auxiliada e ampli-
2
A semiótica de Charles S. Peirce aponta o símbolo como um tipo especial de signo (Perassi, 2008a).
Fenômeno é tudo aquilo, seja sensação, sentimento ou ideia, que está presente na mente, seja registro da realidade ou da imaginação
(Santaella, 1983).
3
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Julio M. Teixeira, Luana M. Matos e Richard Perassi
ada por meio da estruturação lógica dos elementos
estabelecidos na composição da tríade.
A fenomenologia proposta por Peirce apresenta três
categorias e cada um dos elementos do signo é predominantemente relacionado a uma dessas categorias.
Assim, percebe-se que todos os elementos estão necessariamente interligados às categorias denominadas
de: (1) qualidade ou primeiridade; (2) reação ou secundidade; (3) mediação ou terceiridade (Santaella,
1983).
Na primeiridade, as sensações percebidas são denominadas quali-signos e relacionam-se com seus referentes como ícones; nessa condição, o percebido é um
fenômeno fundamentalmente interno à mente.
A secundidade é marcada pela consciência dos estímulos que propiciaram as sensações, implicando no
reconhecimento de elementos da realidade externa,
cuja existência resiste à vontade da mente, sendo denominados como sin-signos, apresentando-se como
índices da realidade dos referentes.
A terceiridade abriga os fenômenos tipicamente simbólicos, nos quais as sensações são interpretadas como
legi-signos e relacionadas como símbolo de seus referentes. Há uma interposição interpretativa entre a
consciência e a coisa que foi percebida, promovendo a
mediação entre essa consciência e os fenômenos. Os
símbolos são mediadores com os quais representamos
e interpretamos o mundo (Perassi, 2008a).
Ao considerar a imagem da cadeira em estudo como
fenômeno no contexto das categorias de Peirce, deve-se
entender que, na primeiridade, acontecem as sensações visuais, tipicamente icônicas. Primeiramente, há
sensações de cores e formas que, muito rapidamente,
serão percebidas, na secundidade, como estímulos
externos à mente. Ao mesmo tempo, são também estabelecidas as mediações conceituais associando, na
terceiridade, as sensações de cores e formas ao conceito de cadeira e também a outros conceitos propostos
pelo processo de significação ou semiose 4 . De maneira
mais específica e denotativa, as sensações serão diretamente associadas ao conceito de imagem fotográfica
de uma cadeira.
3. A significação da cadeira de
acordo com a teoria
A imagem configura o objeto5 cadeira como um conjunto de linhas6 e plano7 , porque as hastes de madeira
maciça do objeto material podem ser interpretadas
visualmente como linhas e o assento da cadeira pode
ser percebido como plano.
Considerando-se, portanto, a composição dos elementos visuais, como linhas e plano, observa-se que os
traçados das linhas compõem curvas e a configuração
do plano estabelece um círculo. Elementos sinuosos
são tradicionalmente percebidos e associados a elementos orgânicos e dinâmicos, porque linhas retas
e figuras geométricas angulares, como quadrados e
triângulos, não são comuns nas formas orgânicas. As
formas orgânicas são mais associadas às curvas e aos
movimentos curvilíneos do que aos quadrados e aos
movimentos retilíneos. Além disso, as rodas e outros
objetos dinâmicos são circulares e se movimentam
com facilidade, enquanto os objetos quadrangulares
são mais estáticos (Perassi, 2008b).
A imagem da cadeira apresenta sinuosidade em todas as suas linhas ou hastes, mesmo as pernas e os
pés da cadeira são compostos por linhas levemente
curvadas que discretamente se afastam do seu eixo
central-vertical. As linhas do encosto são curvas e a
linha que compõe os braços desenham três curvas,
sendo uma horizontal e duas verticais. Além disso,
o plano que expressa o assento da cadeira é circular.
Assim, as curvas dominam toda a composição, que se
mostra predominantemente orgânica. O sentido orgânico é reforçado no uso dos materiais: madeira e palha,
que são materiais orgânicos e que foram utilizados na
construção da cadeira representada pela imagem.
Os movimentos curvos e circulares dos elementos
e a estrutura vazada da cadeira relacionam a imagem
da peça com as sensações de dinamismo e de leveza.
Um objeto que mostra uma estrutura sinuosa e vazada será percebido como leve e dinâmico, mesmo que
esteja imóvel e apoiado no solo sobre quatro pés.
A leveza e o dinamismo associados ao conceito de
orgânico poderiam também propor temas ou significações de liberdade e desordem. Contudo, a imagem
apresenta uma figura ordenada por eixos virtuais,
verticais e horizontes, que se estruturam em plena
ortogonalidade. Há um eixo vertical-central, que é
determinado pelos centros das duas circunferências,
sendo que uma dessas emoldura o assento e a outra
tangencia as pernas da cadeira. O eixo virtual vertical
é perfeitamente perpendicular ao solo e, também, é
perpendicular aos eixos horizontais das duas peças
circulares, que são paralelas entre si.
4
Semiose é a ação do signo na interação do representamen, do objeto e do interpretante, produzindo seqüências infinitas de significações
(Santaella, 1995).
5
Objeto é qualquer coisa, material ou mental, que está sob a atenção do sujeito (Japiassu; Marcondes, 1990); contudo, no caso
da representação, a observação do objeto é mediada por tal representação, compondo assim dois objetos: (1) o objeto observado (objeto
imediato) e o objeto representado (objeto dinâmico), que é o objeto do signo.
6
Por definição, a linha é um elemento abstrato expresso por traços gráficos, cujas funções são: (1) delimitar as formas; (2) ordenar os
espaços e (3) expressar texturas visuais. Sua forma é visual,mente percebida como um conjunto seqüencial de pontos ou como o registro de
um ponto em movimento (Dondis, 1991).
7
Plano é uma forma laminar, na qual se considera prioritariamente as duas dimensões da superfície, que são altura e largura (Dondis,
1991).
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Além disso, as extremidades dos pés anteriores estabelecem retas8 virtuais, que são perpendiculares ao
solo e que tocam as extremidades anteriores da moldura do assento e as extremidades dos braços (ver
Figura 8). As extremidades dos pés posteriores também estabelecem linhas virtuais perpendiculares ao
solo que tocam as extremidades posteriores da moldura do assento e tangenciam a parte superior do
encosto. Essas linhas virtuais estabelecem ângulos retos ou de 90o com a direção do assento, indicando que
o usuário, quando sentado, deverá manter a coluna
ereta, ou seja, perpendicular à direção horizontal do
assento.
foi dito anteriormente, a imagem em estudo simboliza
uma cadeira específica e, também, a ideia de cadeira
e, ainda, o conjunto de elementos que apresentam
formas semelhantes e cumprem a mesma função de
servir de assento ao usuário.
Na terceiridade, entretanto, o sentido de relaxamento
é negado pela imagem da cadeira em estudo. A negação é devida à sensação decorrente da observação da
imagem, porque sua aparência suscita a sensação de
cadeira, sem promover o sentimento de relaxamento.
Portanto, a partir das impressões sensíveis da primeiridade, já no âmbito da terceiridade, são promovidas
associações com experiências da secundidade que negam a relação com o tipo de conforto decorrente de
modelos de cadeiras projetados para o relaxamento
como, por exemplo, as cadeiras de praia.
A imagem em estudo representa cadeira, mas não
simboliza relaxamento ou descanso descomprometido,
porque as formas da cadeira representada pela imagem
não indicam que o corpo do usuário poderá assumir posição de relaxamento, que é relacionada às inclinações
que tendem progressivamente à direção horizontal.
Figura 8
Composição dos eixos virtuais dos
elementos da cadeira
(Elaborada pelos autores, 2008)
Considerando a teoria peirceana, a fotografia de uma
cadeira é um signo que representa um objeto específico. Esse objeto, entretanto, representa a ideia de
cadeira e, também, o conjunto de objetos que apresentam configurações semelhantes e servem de assento.
Portanto, a ideia cadeira, todas as outras cadeiras, o
ato de assentar e a ideia de descansar são igualmente
representados por este signo e compõem parte da semiose possível, como decorrência da percepção de uma
imagem de cadeira.
Com relação à cadeira específica que foi fotografada,
a imagem é considerada um signo indicial ou índice,
porque a luz refletida diretamente pelo objeto material
cadeira impressionou e foi registrada pelo aparelho
fotográfico. A imagem da cadeira na mente do observador, como interpretante formado a partir do índice
fotográfico é percebida como signo icônico ou ícone que
pode ser associado e comparado por analogia a outros
diferentes exemplares de cadeira.
A imagem estabelece ainda uma associação convencional com a palavra cadeira, aparecendo como um
símbolo visual da palavra que é seu símbolo verbal ou
linguístico. Habitualmente, devido às suas formas e ao
uso recorrente, a ideia de cadeira também simboliza o
ato de assentar e o estado de descanso, podendo ainda
representar conforto e relaxamento de acordo com a
configuração da cadeira observada. Além disso, como
No âmbito das relações rememorativas de secundidade, a imagem fotográfica, cujo caráter é indicial,
informa que a estrutura da cadeira representada propõe que o corpo do usuário deverá permanecer com a
coluna ereta, enquanto o mesmo estiver sentado. Essa
posição é convencionada como símbolo de formalidade
ou solenidade, porque propõe um tipo de descanso condicionado. O termo “conforto” deve ser compreendido
de maneira diferenciada com relação à formalidade
e em oposição ao relaxamento. Uma pessoa pode se
sentir confortável estando sentada com a coluna ereta
em posição formal. Porém, esse tipo de conforto não é
relacionado com a sensação de relaxamento que, por
exemplo, é vivenciada em uma cadeira de praia. Portanto, há um conforto possível em situações formais
e outro que é plenamente vivenciado em situações de
relaxamento.
No âmbito da primeiridade, a imagem expressa ainda
sensações que, na terceiridade, são relacionadas à elegância e à leveza. Pois, o rigor geométrico implícito,
quando é relacionado com as formas orgânicas, determina esteticamente, no âmbito da primeiridade, as
sensações e o sentimento, cujo conjunto é denominado, no âmbito da terceiridade, como elegância. Isso
propõe e justifica a imagem da cadeira como símbolo
de elegância. A delicadeza da estrutura vazada, aliada
à dinâmica das linhas sinuosas e orgânicas, promove
esteticamente, na primeiridade, as sensações e o sentimento, cujo conjunto é denominado, no âmbito da
terceiridade, como leveza. Isso propõe a imagem da
cadeira como símbolo de leveza.
8
Reta é um conjunto infinito de pontos alinhados de tal forma que os segmentos com extremidades em dois quaisquer desses pontos
têm sempre a mesma inclinação (Dondis, 1991).
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Ao concordar que a imagem da cadeira simboliza
elegância, leveza e formalidade ou solenidade, é possível e coerente supor que a cadeira material, cuja
imagem está sendo estudada, atende à situação social
de acomodar um visitante, durante um breve período,
mantendo-o em postura formal. A imagem indica que
a cadeira propõe um tipo de conforto, mas não permite
relaxamento. É um objeto de precisão e ambiguidade,
estabelecendo a mediação entre o repouso e a atenção
necessária em situações sociais, as quais requerem
um grau de solenidade.
Sabe-se que a imagem em estudo representa uma cadeira Thonet – 209 e, também, que as famosas cadeiras
Thonet compõem um marco histórico, representando
o design de formas orgânicas do final do século XIX e
começo do século XX. Mas, sem o acompanhamento
de um texto explicativo ou de prévio conhecimento histórico, a percepção da imagem fotográfica não permite
determinar o momento específico no qual a cadeira foi
produzida.
Por outro lado, observando-se os materiais usados
na sua produção, percebe-se que os mesmos são próximos ao artesanato. Além disso, devido às formas
orgânicas, o design é indicativo estilístico do período
de transição entre a manufatura e a indústria. Portanto, independentemente do momento em que tenha
sido produzida a cadeira material, sua imagem sugere
um estilo de transição entre a estética artesanal e a
estética propriamente industrial.
Considerações finais
Tomando por base os conceitos da teoria semiótica de
Charles Peirce, procurou-se descrever parte do processo de significação ou semiose decorrente da percepção da imagem fotográfica da Cadeira Thonet – 209,
de acordo com valores simbólicos da cultura ocidental
contemporânea.
Foram considerados especificamente os aspectos
formais ou morfológicos perceptíveis na imagem da
cadeira, de acordo com as categorias fenomenológicas
propostas pela teoria adotada.
As sensações e os sentimentos originados na categoria fenomenológica de primeiridade foram devidamente
descritos.
Foi, também, descrita a experiência visual diante do
signo, como constatação da existência de um índice
fotográfico externo à mente do observador, produto decorrente da luz refletida pelo objeto original e registrada
pelo processo fotográfico. Isso definiu o caráter indicial do signo diretamente observado, caracterizando a
categoria fenomenológica de secundidade.
As lembranças de outras experiências relacionadas
ao convívio sócio-cultural com cadeiras, também, foram consideradas, estabelecendo-se as relações simbólicas ou metafóricas propostas pela categoria fenomenológica de terceiridade.
Ao fim do processo de descrição e de interpretação, a
imagem foi considerada um signo indicativo de cadeira,
cujo ícone permite sensações e sentimentos que podem ser simbolizados por termos como: (1) “elegância”,
(2) “leveza” e (3) “formalidade” ou “solenidade”, sugerindo um objeto simbólico-funcional projetado para
acomodar o usuário em situação protocolar, prevendo
conforto e repouso sem relaxamento.
De acordo com a morfologia e com a natureza dos
materiais sugeridos pela imagem, é possível, ainda, indicar que o estilo proposto pela cadeira, que expressa
a interação entre formas orgânicas e estruturação geométrica, indica interação entre os modos artesanal e
industrial de produção.
Acredita-se que essas indicações sobre o objeto podem ser confirmadas por dados históricos e por outras
informações coletadas em textos diversos, uma vez
que as cadeiras Thonet foram amplamente estudadas.
Todavia, o objetivo proposto e contemplado neste texto
foi a indicação semiótica desses sentidos na própria
estrutura visual do objeto, dispensando outras fontes
de dados de pesquisa que fossem diferentes da imagem
da cadeira.
O exercício aqui proposto e desenvolvido assinala
a teoria semiótica como recurso para a compreensão dos processos sensíveis da percepção, afetivos da
apreciação e intelectivos da cognição, descrevendo e
justificando o processo de julgamento de um produto
estabelecido a partir da relação entre seus aspectos
formais e funcionais.
Acredita-se que, em sua maioria, as pessoas inseridas no contexto histórico-cultural da cadeira em
estudo são capazes de perceber e avaliar o modelo estudado, detalhando aspectos estético-funcionais para
o uso social a partir de sua função básica, que é servir
de assento. Todavia, não é comum às pessoas a possibilidade de descrever o processo perceptivo-cognitivo,
que permite a apreciação estética, o julgamento avaliativo e a decisão prática sobre os valores simbólicos e
as possibilidades sócio-funcionais do objeto. Mesmo
obtendo informações relacionadas à história e às características da cadeira e concordando com o que foi
informado, também, não é comum que as pessoas
saibam especificar, de maneira sistemática, porque
concordam com essas informações.
A teoria semiótica peirceana não assinala predileção por estudos de cadeiras ou de quaisquer objetos
particulares. Pois, como teoria, não foi elaborada para
ser especialmente aplicada ao estudo de objetos ou
processos específicos externos à mente ou consciência.
O interesse teórico recai sobre os processos mentais
que constroem a base lógica de apreensão e compreensão dos fenômenos internos à mente. A diversidade de
processos na configuração do conhecimento encontra
um ponto comum no conceito de “signo”, porque a
mente ou consciência pensa os fenômenos por meio de
107
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semioses (pensamentos) que são desenvolvidas através
dos signos.
Para a teoria, as coisas e os fatos externos à mente só
podem ter sua existência percebida se, primeiramente,
aparecerem como fenômenos mentais. Assim, em primeira instância, esses fenômenos são considerados
como sensações perceptivas; em segunda instância,
como estímulos externos percebidos e, em terceira instância, como símbolos culturais. Por ser uma teoria
geral sobre os fenômenos mentais e sua ordenação
lógico-cognitiva, sua abrangência permite o estudo de
todos os objetos, fatos ou processos percebidos.
Os símbolos culturais genuínos são convenções lógicas descritas na linguagem comum, portanto, essas
convenções e suas aplicações podem ser explicitadas
em: livros acadêmicos, catálogos técnicos, revistas
de informação ou entretenimento e peças publicitárias, entre outros veículos de comunicação. Assim,
todos que acessam livros, catálogos ou revistas com
algum texto ou notícia sobre a cadeira em estudo acessam informações sobre suas características e seu valor
como símbolo cultural. Dessa forma, todos os que foram informados podem reproduzir as ideias que foram
convencionadas e expressas com relação a um objeto
cultural.
Esses símbolos, entretanto, são constituídos a partir de diferentes origens semânticas. Por exemplo, o
nome e a numeração, que identificam tecnicamente
a cadeira Thonet – 209, são símbolos genuínos, puramente convencionais, porque foram arbitrados ou
determinados por uma lógica intrinsecamente cultural.
Todavia, há outras convenções, que definem características simbólicas, cuja origem e desenvolvimento foram
determinados por relações de semelhança, por hábito
ou por características materiais do próprio objeto.
Em livros, revistas ou peças publicitárias, os símbolos culturais de diferentes origens e processos de desenvolvimento são reafirmados pelos textos e confirmados
por leitores, porque estes últimos encontram razões
lógicas ou motivações afetivas para concordarem com
as convenções informadas. Por isso, as pessoas informadas sabem argumentar convencionalmente sobre
os significados de objetos, fatos e processos. Contudo, apesar de concordarem com as simbolizações
indicadas, de modo geral, as pessoas não costumam
distinguir e explicar no fenômeno apreciado pontos e
processos significativos, como os responsáveis pelas
determinações simbólicas dos objetos descritos nos
veículos de comunicação.
Este estudo é mais um texto sobre os valores simbólicos de um objeto cultural bastante conhecido e, mais
uma vez, confirmam-se valores já reconhecidos e apreciados. Porém, além de repetir o que é praticamente
consensual, procurou-se descrever, com o auxílio de
conceitos semióticos, o processo de origem e desenvolvimento dos valores simbólicos do objeto, com base nas
relações semióticas entre os elementos percebidos na
imagem em estudo e os processos afetivo-significativos
determinados por relações materiais, relações intersubjetivas ou relações convencionalmente determinadas.
Pois, a cultura é campo de determinação e preservação
de símbolos, mas esses são decorrentes de diversas
origens e são desenvolvidos por processos semióticos
diferenciados.
Referências
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Martins Fontes.
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1983. O que é semiótica? São Paulo: Brasiliense.
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Dados para indexação em língua estrangeira
Teixeira, Julio Monteiro; Matos, Luana Marinho; Perassi, Richard
Semiotic Analysis of the Image of a Chair
Estudos Semióticos, vol. 7, n. 2 (2011), p. 102-109
issn 1980-4016
Abstract: This paper is based on Charles Sanders Peirce’s semiotic theory, where the sign is considered to be
anything that represents another entity other than itself. The theory adopted in this paper is used to study and
present part of the significance proposed by the observation of Thonet’s chair image – model 209. The study
analyzed the chair in its formal and material aspects which are recognized by visual observation of the object. The
intention is to emphasize furniture design as a field of interaction of visual values associated to shapes, which are
presented here as signs or elements of signification. Historical and contextual data are not considered at first in
this study, which more specifically describes the visual elements of the object. These elements are considered to
be signs that take part on the configuration of the object’s signification within current cultural context. However,
when compared to other manifestations, this signification places the object in historical-evolutionary context of
furniture. The shapes, materials and processes of structuring are historically referenced in other pieces, allowing
for the comparison of the object’s appearance with other furniture pieces, which were produced at other times or
places throughout history.
Keywords: image, design, signification, Charles Sanders Peirce
Como citar este artigo
Teixeira, Julio Monteiro; Matos, Luana Marinho; Perassi, Richard. Analise semiótica da imagem de uma
cadeira. Estudos Semióticos. [on-line] Disponível em:
h http://www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es i. Editores Responsáveis: Francisco E. S. Merçon e Mariana Luz P. de
Barros. Volume 7, Número 2, São Paulo, novembro de
2011, p. 102–109. Acesso em “dia/mês/ano”.
Data de recebimento do artigo: 14/11/2010
Data de sua aprovação: 06/05/2011
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Análise semiótica da imagem de uma cadeira