PATRIMÔNIO CULTURAL E TURISMO: NOVAS TERRITORIALIDADES NO DISTRITO
DE RINCÃO DA CRUZ EM PELOTAS/RS
Marcelo Panis1
Resumo
O presente trabalho tem como proposta contribuir no debate e aprofundamento dos
estudos a respeito da relação entre patrimônio cultural e turismo. Para tanto o foco das
discussões direcionam-se para o Distrito de Rincão da Cruz, no município de Pelotas/RS,
no qual se verifica a marcante presença de descendentes de imigrantes europeus. Em se
tratando do espaço rural e de uma região de ocupação colonial se estará abordando o
patrimônio cultural rural sob a condição material, imaterial e natural, no sentido de discutir
a totalidade do espaço. No aprofundamento das questões relacionadas ao turismo se
discutirá o processo de refuncionalização do espaço para a demanda turística e de como
esta relação pode constituir propostas de desenvolvimento local, a partir da perspectiva
dos habitantes do lugar. No tocante a produção teórica, pretende-se realizar uma reflexão
sobre patrimônio cultural e turismo em comunidades rurais, buscando contribuir estudos
da ciência geográfica em relação à temática.
Palavras-chaves
Espaço rural, Patrimônio cultual rural, Turismo, Refuncionalização.
Resumen
El actual trabajo tiene como oferta a contribuir en la discusión y profundizar de los estudios
con respecto a la relación entre el patrimonio cultural y el turismo. Para de tal manera el
foco de las peleas dirigen para el Districto de Rincão da Cruz, en la ciudad de Pelotas/RS,
en el cual es verificada la presencia marcante de los descendientes de inmigrantes
1
Mestrando da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP e Bolsista do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. E-mail: [email protected]
europeos. En sí mismo que trata al espacio rural y a una región de la ocupación colonial
se será en el acercarse el patrimonio cultural rural bajo condición material, inmaterial y
natural, en la dirección para discutir la totalidad del espacio. En profundizar de las
preguntas se relacionó con el turismo que el proceso del refuncionalização del espacio
para la demanda turística será discutido y de como esta relación puede constituir ofertas
del desarrollo local, de la perspectiva de los habitantes del lugar. En respeto a la
producción teórica, se piensa para llevar con una reflexión en patrimonio cultural y el
turismo en las comunidades rurales, el buscar para contribuir estudios de la ciencia
geográfica en lo referente el temático.
Palabras clave
Espacio rural, Patrimonio cultual rural, Turismo, Refuncionalización.
Introdução
Inicialmente, tendo presente o conjunto do conteúdo e do objeto de estudo que
estará sendo abordado neste trabalho, o espaço colonial do município de Pelotas, em
especial o Distrito de Rincão da Cruz, torna-se importante e necessário delimitar o que
será considerando como rural, de forma a estabelecer os parâmetros de abordagem que
dêem conta de se chegar aos objetivos firmados pra este estudo.
O espaço é uma categoria importante na análise geográfica. Santos (1999, p. 63),
dentre suas diversas publicações, afirma que o espaço é formado por um “conjunto
indissociável, solidário e contraditório, de sistema de objetos e sistema de ações, não
considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá”. Mas, esta
é uma definição genérica do espaço, que se aplica ao urbano ou rural, ou seja, varia
segundo a escala de análise.
Assim, num esforço de delimitar o foca da discussão, será considerado espaço rural
levando-se em conta uma série de elementos. Inicialmente, pela presença de funções
produtivas específicas, como agricultura e agroindústria, que são atividades que se
mantém mesmo com a inserção de outras atividades econômicas nestes lugares; uma
menor densidade demográfica, ou seja, menor ocupação humana da totalidade territorial;
uma delimitação político administrativa, o que significa que não diz respeito apenas à
atividade produtiva, mas, também, a questão dos impostos e políticas municipais; é, ainda,
o espaço que conta com a menor artificialização dos ecossistemas locais; e, finalmente, a
marca da cultura local, como sendo um elemento de distinção do grupo social em relação
a outros grupos, com suas representações simbólicas e do patrimônio cultural que
identificam e são identificados, histórica e socialmente, como pertencentes a um
ruralidade. Neste caso, uma região de colonização européia, em especial descendentes
de italianos e alemães, de economia produtiva familiar e que mantém elementos
simbólicos da cultura material e imaterial.
Assim, com base neste conjunto de elementos, entende-se que o espaço rural
representa o conjunto das formas construídas entre a paisagem social e natural, em uma
única paisagem culturalmente produzida, por meio da marcante presença da cultura e da
técnica, no qual se pode evidenciar a presença de elementos materiais e simbólicos, que
denotam traços identitários ao lugar (FROHLICH, 2004).
É necessário ressaltar, no entanto, que por meio da ação da cultura
contemporânea, muitos são os elementos culturais urbanos que se disseminam no lugar,
sendo absorvidos e incorporados à cultura local formando o que Canclini (1995)
denominou como uma “identidade multicultural”, ou tornando-se o que Santos (1999)
designou como sendo um “espaço híbrido”.
Outro elemento que está relacionado ao debate é o aspecto a respeito do
movimento e da ação do capitalismo contemporâneo. Neste período o espaço rural tende
à tecnificação da produção agrícola, por imposição dos padrões do mercado, sobretudo,
na perspectiva da comercialização com o mercado externo. Nesta medida, muitos
agricultores e habitantes do espaço rural, que não conseguem acompanhar as exigências
e mudanças dos padrões produtivos do mercado, tendem a buscar outras atividades
produtivas ou promover novas funções as propriedade, no que diz respeito a geração de
ganhos, o que indica que o rural vem adquirindo novos contornos produtivos,
multifuncionais (PANIS, 2007). Significa, também, que um novo fenômeno passa a ocorrer
no espaço rural, o que Sacco dos Anjos e Caldas (2004) analisaram como sendo o êxodo
agrícola e não mais um êxodo rural, no qual muitas vezes abandona-se a atividade
agrícola, mas não se abandona o campo.
Estes elementos até o momento abordados, somados com a oferta da paisagem
natural, que é abundante no rural, à presença de patrimônio material construído, como
elementos constitutivos da paisagem, e à necessidade de gerar ganhos ao grupo familiar,
engendram na refuncionalização do espaço ingredientes necessários para a promoção de
atividades de turismo e lazer no espaço rural. Esta afirmação se sustenta uma vez que as
atividades turísticas tornaram-se, segundo apontam o Ministério do Turismo (2006) e
pesquisadores como Cruz (2001) e Ouriques (2005), um dos maiores mercados em
movimentação de capital nas últimas décadas.
Não se pode deixar de citar o que Paes-Luchiari (2006, p. 49) assinala quando
afirma que “turismo, patrimônio cultural e qualidade ambiental seriam os novos
ingredientes na atribuição de novos sentidos à paisagem urbana”, o que indica que há um
movimento das pessoas, do campo e da cidade, de reencantamento com a natureza.
Entretanto, o espaço rural, tem sido destino de muitos viajantes, ou mesmo de pessoas de
regiões próximas, que buscam lugares para descanso e lazer, o que indica que a estes
lugares, cada vez mais, esta busca pela natureza se aplica a estes lugares, que, como já
foi dito, possuem potenciais turísticos e de lazer, que, inclusive, algumas vezes, são
explorados apenas individualmente por seus detentores. Contudo, não há, em muitos
casos, uma organização no sentido de planejar e pensar a gestão destes recursos de
forma a potencializar o turismo como um circuito na região.
Nesta perspectiva, observa-se que o espaço rural vem adquirindo novas funções,
ou, refuncionalizando suas formas-conteúdos e paisagem cultural.
Cabe ressaltar que as comunidades rurais, como no caso da região colonial2 do
município de Pelotas/RS, de maneira especial o Distrito de Rincão da Cruz, ocupadas por
imigrantes europeus não-portugueses e seus descendentes3, possuem a marcante
presença de patrimônio cultural, aqui entendido como sendo: patrimônio material,
representando as formas construídas e perpetuadas na paisagem, constituindo uma
herança no arranjo espacial do lugar; patrimônio imaterial, como sendo o produto
2
Está-se usando o termo região colonial para distinguir que nem todo o espaço rural do município teve sua
ocupação por imigrantes, apenas uma parcela dele, que representa a área de transição entre a Planície
Litorânea e a Serra dos Tapes, área caracteristicamente de morfologia acidentada.
3
Está-se fazendo esta ressalva uma vez que o município de Pelotas, bem como a região sul do estado do
Rio Grande do Sul, possui como característica a presença marcante de imigrantes portugueses, açorianos e
espanhóis.
intelectual, as técnicas, a religiosidade, o conhecimento acumulado e reproduzido,
elementos da cultura que são reproduzidos pelos habitantes locais, representando um
conjunto simbólico e identitário; e, patrimônio natural, representado por elementos da
natureza socializada e transformada por meio da aplicação técnica das comunidades
locais, que alteram o arranjo espacial segunda às necessidades de sua reprodução. Nesta
medida, estes componentes do patrimônio cultural representam a memória e a paisagem,
impregnada de elementos simbólicos e identitários da cultura local.
Para se chegar, entretanto, à relação entre a presença do patrimônio cultural e a
criação de novas territorialidades turísticas no espaço rural, torna-se necessário fazer um
breve apanhado a respeito do próprio entendimento, neste trabalho, sobre o patrimônio.
O patrimônio cultural como representação da cultura e do lugar
Os bens materiais e imateriais que hoje representam e constituem uma longa lista
do patrimônio cultural simbolizam a expressão de momentos e eventos históricos que
ocorreram, no campo e na cidade. Entretanto, muito mais do que a antiguidade dos bens é
necessário que sejam reconhecidos pelo seu valor singular pela sociedade para que se
torne oficialmente um patrimônio e se justifique sua conservação e preservação como
representante cultural4. Cabe, reforçar estas idéias com que Maria Cecília Londres
Fonseca (1997, p. 11) destacou a respeito da constituição de bens em patrimônio, quando
afirma que
A constituição de patrimônios históricos e artísticos é uma prática característica dos Estados
modernos que, através de determinados agentes, e com base em instrumentos jurídicos
específicos, delimitam um conjunto de bens no espaço público. Pelo valor que lhes é
atribuído, enquanto manifestações culturais e enquanto símbolos de nação, esses bens
passam a ser merecedores de proteção, visando a sua transmissão para gerações futuras.
(FONSECA, 1997, p. 11)
Assim, a transformação de um bem em patrimônio representa uma proposição
normativa em transformar este valor que é atribuído sob a forma de proteção específica,
4
Cabe salientar aqui que entendemos que o conceito de patrimônio cultural engloba todas as adjetivações
comumente usadas para designar o patrimônio tais como histórico, arquitetônico, arqueológico, natural,
entre outros. No entanto, apesar de todas essas adjetivações, ele continua a nos remeter à idéia de uma
construção social e de herança, ou seja, algo do passado que permanece até a atualidade.
de forma a preservar estes fragmentos de cultura. Evidentemente sendo um produto
histórico, socialmente produzido, o patrimônio representa a acumulação dos tempos e
eventos que se consolidaram no espaço, por tanto, além de um reconhecimento oficial,
muitas vezes, o patrimônio também recebe um reconhecimento social, não possuindo uma
norma para sua salvaguarda.
Neste sentido, Canclini (1994, p. 96) contribui com este conjunto de idéias quando
afirma que o patrimônio cultural “expressa a solidariedade que une os que compartilham
um conjunto de bens e práticas que os identifica, mas também costuma ser um lugar de
cumplicidade social”.
Em se tratando da abordagem da identidade e do simbólico, que une as pessoas
em torno da proteção do patrimônio cultural e o que este pode representar, Bortoncello
(2000, p. 2) referencia o patrimônio como sendo o acervo de uma sociedade, “el conjunto
de bienes acumulados por tradición o herencia, común al conjunto de los individuos que
constituyen esa sociedad”. Isto significa, da mesma forma, que as pessoas se identificam
com este “conjunto de bens”, de forma que estes representam e reforçam a identidade da
sociedade local e um sentimento de pertença ao lugar.
Entretanto, cabe ressaltar, que a proteção oficial do patrimônio cultural no espaço
rural ainda é bastante deficitária. Na zona rural de Pelotas, por exemplo, existe apenas um
levantamento de alguns bens materiais por conta dos trabalhos do Terceiro Plano Diretor
no município, de um grupo de trabalho que se debruçou sobre o território rural para uma
série de levantamentos, sendo assim, apenas de uma parcela do patrimônio existente no
espaço rural é conhecida, mas não há nenhuma política específica de salvaguarda deste
patrimônio.
Compete lembra que enquanto patrimônio cultural rural, também, existem poucos
trabalhos. André Argollo Ferrão (2007, p. 94) referencia sobre este assunto que
Os antigos casarões e senzalas, colônias e casas de trabalhadores dispersas construídas
com técnicas tradicionais da arquitetura rural ou com materiais e técnicas alternativas de
construção, toda arquitetura vernacular, antigas capelas rurais, antigos engenhos e casas de
máquinas, o próprio maquinário desativado, antigos equipamentos de produção e energia
(monjolo, rodas d’água, etc), elementos e sistemas estruturais antigos (pontes, diques,
barragens, etc.), o espaço físico destinado às manifestações culturais locais (praças,
terreiros, largos, vilarejos, etc). (FERRÃO, 2007, p. 94)
Nesta medida, também baseado na afirmação de Argollo Ferrão, pode-se delimitar
que o patrimônio cultural rural, como no caso dos imigrantes no Distrito de Rincão da
Cruz, é representado pelos elementos construídos e naturais, pelo uso da técnica, dos
costumes, das crenças e o saber dos habitantes destes lugares, dentre outros elementos.
Assim, para fins deste trabalho, o patrimônio cultural rural, constituído pela
presença dos imigrantes italianos e alemães da região colonial de Pelotas, é representado
pela arquitetura e a paisagem rural, os costumes e tradições italianas e alemãs, que
representam o conjunto do arranjo espacial, como casas de pedra, moinhos, cantinas de
vinho, ferramentas de trabalho, dentre outros; e da reprodução social cotidiana como a
religiosidade, técnicas de trabalho, a produção do vinho, práticas de lazer a festas
religiosas, entre outros elementos de destaque.
O turismo e a refuncionalização do espaço rural
Aprofundar a relação das atividades de turismo com o patrimônio cultural é um
elemento cada vez mais importante nas pesquisas das ciências humanas, neste caso, em
especial, a partir da ciência geográfica.
No
que
diz
respeito
ao
patrimônio
cultural
porque
este
tem recebido
crescentemente programas de valorização, seja por iniciativa e interesse dos investidores
privados que vêem nele potencial de uso, seja por conta do turismo, seja por conta de
publicidade por investimentos na área cultural.
No que concerne ao turismo alguns elementos são importantes de destacar no
porquê esta atividade passa a ganhar importância tanto no cenário dos mais variados
estudos no meio acadêmico quanto para o próprio mercado.
Num primeiro momento isso se deve ao fato de que o turismo se tornou, nas últimas
décadas, uma das atividades com maior fluxo de capital, serviços, informação (marketing)
e mercadorias (OURIQUES, 2005; MTUR, 2006). Sendo esta uma atividade em plena
ascensão no mercado mundial tende a se expandir e chegar aos mais longínquos lugares,
não importa se uma pequena cidade ou uma comunidade rural, desde que possuam
algum atrativo cultural ou natural que passe a ser divulgado ou vendido como destino
turístico ou se torne um destino de viajantes individuais que passaram a divulgar estes
lugares.
Não se pode deixar de destacar que este processo deveu-se, em muito, ao
aumento e a melhoria das condições dos sistemas logísticos como transporte e
comunicação, possibilitando um melhor acesso aos lugares, virtualmente por meio do
marketing, e fisicamente pela melhoria e ampliação de todo um conjunto técnico, o que
Santos (1999) nomeou como “tecnosfera”, entendido como todo um conjunto técnico
disponibilizado para atender às demandas das atividades turísticas: estradas, infraestrutura, hotéis e todo tipo de serviços que são investimentos públicos para as demandas
das empresas privadas, como é o caso dos recursos do Programa de Desenvolvimento do
Turismo – PRODETUR5.
Um segundo aspecto é devido às transformações ocorridas no espaço rural
ocorrido nas últimas décadas, por meio da tecnificação da produção e o direcionamento
do mercado às exportação inserindo-se em um mercado mais competitivo, no qual a
agricultura convencional, a agricultura familiar e camponesa não tem capacidade de
investimentos e de resposta ao mercado globalizado com a agricultura intensiva. Nesta
medida, ampliados pelo processo de globalização e pelas melhorias técnicas nos sistemas
de transporte e comunicação, os fluxos de capital, mercadorias, pessoas e informações,
antes um fenômeno tradicionalmente urbano, passam a exigir do espaço rural uma
dinâmica compatível à velocidade dos fluxos urbanos, alterando a forma como os
habitantes do rural compreendem seu próprio espaço.
Finalmente, um terceiro aspecto que se deve destacar, é a crescente busca, por
parte dos habitantes do espaço urbanos, de um maior contato com o “verde”, um
movimento de reencantamento pela natureza6, abrindo precedente, de um lado, a
possibilidade das famílias rurais ampliarem a renda familiar com a ocupação dos membros
da família com atividades de turismo e lazer, e, de outro lado, a busca por espaços de
5
Cruz (2001) analisa o alto grau de investimento de dinheiro público, por meio do PRODETUR/NE para
criação de infra-estrutura turística nas praias do nordeste brasileiro nas quais, à posteriori, acabam sendo de
uso privativo pelos grupos empreendedores do turismo que constroem resorts de alto luxo, passando a ser
inacessíveis à população local.
6
Este processo é fruto de todo um movimento ambientalista, principalmente a partir da década de 1970,
fortalecido por discursos, campanhas e o marketing global de organizações da sociedade civil, governos e
empresas sobre preservação, reciclagem, desenvolvimento sustentável, dentre outros aspectos.
turismo e lazer, junto às comunidades rurais, que pode, da mesma forma, representar uma
estratégia de “mercantilização das paisagens naturais” (PAES-LUCHIARI, 2002, p. 25)
pelo capital. Evidentemente não se pode deixar de destacar, também, que o campo tem
sido o destino de muitos habitantes da cidade como lugar de segunda residência, ou seja,
um espaço para descanso de finais de semana ou férias.
Este processo de mercantilização se dá pela seleção e valorização das paisagens
naturais, por meio do argumento da conservação e preservação dos ecossistemas
naturais na construção do desenvolvimento (sustentável) local e qualidade de vida, mas
na realidade servem, em muitos casos, para serem reservas de mercado, transformados
em novas territorialidades turísticas, ou outras funções comerciais, podendo tornarem-se
espaços de segregação sócio-espacial. Reforçando este aspecto, em outro trabalho,
Paes-Luchiari (2002, p. 509) analisa que a seletividade é “a dinamização do turismo no
território brasileiro, positiva em muitos aspectos, acentuou, contudo, um desenvolvimento
socioeconômico seletivo, tanto na escala local como na escala regional”.
Este se torna um aspecto relevante para a análise, porque esta relativa
preocupação dos representantes e reprodutores das idéias capitalistas com relação à
natureza e sua preservação representada por campanhas governamentais, pelo marketing
de empresas ecologicamente corretas e socialmente responsáveis e pela influência dos
meios de comunicação, permite produzir uma relação imagética da natureza, tornada em
belas paisagens, muitas vezes apenas cenários que escondem uma realidade nas quais
estes elementos naturais tornam-se recurso, mercadorias, no qual o espaço passa a ser a
vitrine onde se demonstram produtos naturais, lugares para a (re)produção da mercadoria
natureza e onde os grupos sociais acabam por se tornar os consumidores destes recursos
mercantilizáveis. Em alguns casos, apesar de serem vendidos como paisagens e destinos
turísticos, são lugares de beleza ímpar, mas que não são acessíveis aos habitantes locais
pelos altos custos de uso do espaço por conta do turismo.
Quando estes espaços, com oferta de natureza exuberante, passam a compor um
recurso do capital para exploração do mercado significa que desencadeia-se um processo
que Paes-Luchiari (2000) nomeou como “mitificação dos lugares”, no qual estes espaços
tendem a ser comercializados, vendidos como mercadoria turística, em alguns casos,
fazendo com que as territorialidades dos lugares deixem de pertencer às populações
locais, ou tenham seu acesso restrito, até mesmo, aos ecossistemas que outrora
destinavam-se ao convívio cotidiano dos habitantes locais7. Além desse elemento, estes
lugares estão destinados à receberem a visita de pessoas estranhas à cultura local,
processo que além de constituir uma nova territorialidade turística pode interferir na
dinâmica e na cultura local, fazendo com que os habitantes locais não sintam mais o lugar
como seu, mas apenas como destino para os turistas e visitantes.
Não se pode deixar de fazer uma ressalva de que, em se tratando da abordagem
que está-se fazendo referência, nem todos os lugares são turísticos. Cruz (2001) analisa
que os lugares tornam-se turísticos à medida que recebem visitantes eventuais, solitários
ou não. Soma-se a esta idéia a consideração de Knafou (1996) de que o turista é a
primeira fonte de turistificação dos lugares. Neste sentido, mesmo que se verifiquem
atrativos paisagísticos culturais e naturais, que possam ser considerados como atrativos
turísticos, é necessário que haja o reconhecimento destes lugares pelos viajantes e
turistas.
Percebe-se, entre outros, que este reconhecimento dos lugares turísticos (no
espaço rural) por conta daqueles que buscam estes espaços, se dá, de um lado, por conta
do que Almeida e Riedl (2000) descreveram como sendo um “fenômeno social”, no sentido
de que as pessoas buscam uma fuga do urbano, para ter um maior contato com o “verde”,
com a natureza e os espaços abertos, lugares de recreação, descanso físico e mental e,
ainda, contato com outras culturas. De outro lado, Vieira e Oliveira (2000) analisam que o
turismo também é um “fenômeno psicológico”, porque a é da natureza humana a
necessidade de saídas temporárias de forma a fugir da monotonia.
Esta busca do diferente vai ao encontro com o que Urry (1996) ponderava quando
argumenta que o olhar do turista, das pessoas em viagem, é direcionado para os aspectos
da paisagem, no campo ou na cidade, separando-o da realidade de todos os dias, em
busca de novas paisagens como forma de fazer novas experiências que este não encontra
no seu cotidiano.
7
No território brasileiro são inúmeros os exemplos em que se verifica esta realidade como: Canela e
Gramado/RS, Bonito/MS, Florianópolis/SC, as praia do norte e sudeste, onde as populações ribeirinhas e
caiçaras foram sendo expulsas de seus lugares para dar espaço a empreendimentos turísticos, dentre
outros, no qual se pode visualizar esta realidade.
No entendimento destes argumentos leva-se a pensar que a região colonial do
município de Pelotas, localizada na metade sul do Estado do Rio Grande do Sul, figura 01,
região com marcante presença de imigrantes italianos e alemães 8, há potencial para a
refuncionalização do patrimônio material construído e natural, para a promoção de
atividades de turismo e lazer.
Figura 01: Representação do Estado do Rio Grande do Sul localizando o município de Pelotas.
Fonte: Prefeitura Municipal de Pelotas
Evidentemente, compreende-se que o turismo é uma atividade complexa, ou seja,
influência todos os aspectos que compõem a totalidade do espaço, tais como cultura,
política, ambiente natural, social, econômico, dentre outros. Entretanto, verifica-se, em
geral, que tanto para àqueles que buscam destinos turísticos como àqueles que
promovem atividades relacionadas, têm em vista apenas o aspecto econômico, uma
relação de ganho apenas sem haver a preocupação com o aspecto cultural, da
importância do patrimônio, da cultura ou da realidade que este espaço encerra.
8
O livro tombo da Paróquia de Sant’Anna, da Colônia Maciel – Distrito de Rincão da Cruz, registra a
fundação da igreja, e o início da instalação da colônia dos imigrantes italianos, em 1884. Entretanto, nesta
comunidade não há registro dos imigrantes alemães.
Nesta medida, verifica-se a necessidade de discutir a relação entre o patrimônio,
presente nos lugares, resultado da acumulação histórico-social e a promoção das
atividades de turismo e lazer, compreendendo as características e conseqüências deste
processo, neste caso, acontecendo numa região colonial do espaço rural de Pelotas.
O patrimônio cultural rural e as novas territorialidades turísticas
A presença do patrimônio cultural no espaço rural, conforme dito anteriormente,
torna-se um potencial para a promoção das atividades de turismo, inclusive, tem se
tornado uma realidade cada vez mais presente a estes espaços.
No que tange à relação entre turismo e patrimônio Bortoncello (2004, p. 2) analisa
que “los lugares que cuentan con un acervo patrimonial se convierten, por esta
característica, en potenciales lugares turísticos. Queda definida así una ‘vocación turística’
del lugar, que solo requiere ser activada por procesos de gestión turística para su
desarrollo” (grifo do autor).
Assim, a refuncionalização do patrimônio cultural para o turismo em comunidades
rurais é um aspecto que merece atenção aos estudos e pesquisas. Um primeiro elemento
porque o conjunto dos objetos, as formas constitutivas da paisagem material que perdem
sua funcionalidade original tendem a ser substituídas por novas “formas-conteúdos”
(SANTOS, 1999). Quer dizer que estas formas não são apenas elementos da paisagem,
mas são formas com funções sócias específicas.
Nesta medida, o patrimônio material construído nas comunidades rurais tende a
adquirir novas funcionalidades, novos conteúdos, que possibilitará continuar existindo no
espaço, do contrário, se estas velhas formas não adquirirem novas funções, serão
substituídas para dar lugar a novas formas-conteúdos, para suprir demandas específicas
do lugar, especialmente demandas econômicas.
No tocante ao patrimônio cultural rural existente na região colonial de Pelotas,
verifica-se sua presença sob a forma de patrimônio material construído, representado por
casas de pedra, moinhos, pontes antigas, o túnel do trem da antiga linha férrea,
instrumentos de trabalho e de lazer, dentre outros, todos construídos pelos primeiros
imigrantes e seus descendentes. Destaque, também, para os elementos do patrimônio
imaterial, dos quais pode-se destacar a culinária, as técnicas de trabalho, a prática
religiosa, a produção do vinho, dentre outros traços da cultura, que ainda são reproduzidos
pelos descendentes destes imigrantes. E, da mesma forma, destacam-se os elementos da
exuberante natureza, do patrimônio natural da região, na qual verifica-se a existência de
cachoeiras e inúmeros cursos d’água, florestas, uma considerável diversidade flora e
fauna, dentre outros elementos9.
Este conjunto de elementos referenciados, componentes do patrimônio cultural rural
identificados no distrito de Rincão da Cruz, representam lugares propensos à
refuncionalização para a atividade turística, marcadamente entre o patrimônio material e
natural. Da mesma forma, aspectos da cultura imaterial, reproduzida pelos imigrantes
denotam traços identitários do lugar, os quais podem representar atrativos àqueles que
buscam conhecer elementos culturais representativos dos imigrantes na prática cotidiana
do trabalho, religião, festas e culinária. Isto não significa que estes traços identitários estão
intocados, ao contrário, representam uma herança que se alterou com o tempo, que se
fundiu com elementos modernos criando uma nova identidade social, mas que guardam
aspectos os quais possibilitam visualizar as práticas dos antepassados.
A figura 02 permite visualizar a localização do Distrito de Rincão da Cruz, bem
como permite um panorama geral da organização político-espacial, na forma como o
município está dividido. Ainda, é possível perceber que o distrito dispõe de uma
acessibilidade por meio de estrada pavimentada, BR 392, o que facilita aos visitantes
condições propícias para visitação aos lugares divulgados.
9
Cabe ressaltar que na perspectiva do desenvolvimento do turismo na região é que a comunidade
organizada, por meio de projetos de pesquisa e extensão da Universidade Federal de Pelotas – UFPEL,
implantou, em 2006, o Museu Etnográfico da Colônia Maciel – MECOM, com objetivos de preservar a
memória histórica da comunidade italiana pelotense; desenvolver de atividades culturais e educativas por
meio de projetos de educação patrimonial e ambiental; e, colaborar com o desenvolvimento econômico, ao
estimular o turismo cultural.
Figura 02: Representação do Município e localização do Distrito de Rincão da Cruz
Fonte: Autor, 2007
A representação da localização de diversos destes elementos do patrimônio
cultural, os quais estão sendo tratados neste trabalho como pontos potenciais de
refuncionalização para uso das atividades turísticas, podem ser visualizados na figura 03.
Figura 03: Representação do Distrito De Rincão da Cruz com pontos localizados com GPS
Fonte: Autor, 2007
A possibilidade de refuncionalização do patrimônio material construído, o uso
racional dos recursos naturais existentes, bem como, o uso do patrimônio imaterial como
atrativo à região, colocam-se, de um lado, como uma proposta de desenvolvimento das
atividades de cunho turístico e de lazer, de forma a divulgar e preservar o patrimônio
cultural da região. De outro lado, acordando com a afirmação de Campanhola e Graziano
da Silva (2000), coloca-se como uma alternativa de ganhos complementares às
comunidades rurais que podem combinar o desenvolvimento de atividades agrícolas com
o turismo ou, mesmo, serem abastecedoras de produtos coloniais para consumo dos
visitantes, pois muitas pessoas visitam o espaço rural, não apenas, pela oferta de
elementos naturais, mas, também, pela para consumir e adquirir produtos rurais na
origem.
Não há como deixar de ressaltar e concordar com Cifelli (2005) quando afirma que
as referências materiais, ou seja, o patrimônio material construído, de um lado, são
historicamente constituídos e, de outro lado, culturalmente valorizadas, fazendo com que
os atributos do patrimônio cultural rural denotem a singularidade ao lugar, por meio de
relações, nem sempre, harmônicas. Isto porque a territorialidade do lugar passa a sofrer
influência de uma nova territorialidade, que é turística, que também, representam a
construção de relações de poder, sendo que algumas vezes são territorialidades que se
contrapõe, não se buscando o consenso, mas sim o poder hegemônico.
Este debate é importante, uma vez que se está analisando uma possibilidade da
promoção do turismo de forma que este represente uma atividade desenvolvida pelos
habitantes do próprio lugar, neste caso na perspectiva do rural, a partir das
horizontalidades, nas quais os agentes envolvidos sejam locais. Esta perspectiva supõe
que os habitantes do espaço rural sejam os promotores das atividades em suas
propriedades, na sua região, organizada e planejadamente, de maneira que possam gerir
os resultados, ao âmbito da organização local.
O turismo, como abordado anteriormente, é uma atividade complexa, pois envolve
todos os elementos do lugar. Entretanto, analiticamente, sob o viés econômico, tende a
ser uma atividade de investimentos e lucros privados, restando à esfera pública, em geral,
fornecer obras de infra-estrutura e manutenção de equipamentos que, na maioria dos
casos, os habitantes do lugar são excluídos da possibilidade de uso ou têm seu acesso
restrito a estes (CRUZ, 2001). Ainda, a instalação de um complexo turístico em
determinado local, segundo nos alerta Moretti e Rodrigues (2001), sempre vem
acompanhada
dos
discursos
da
geração
de
trabalho
e
renda,
um discurso
desenvolvimentista, mas nos quais os ganhos ficam com o capital privado.
Assim, percebe-se que propostas de promover o turismo a partir dos habitantes do
lugar é uma realidade pouco comum, visto que a tendência é sempre que os lucros
permaneçam nas mãos do menor número de pessoas. Apesar disso, verifica-se que é
possível organizar outra matriz para a promoção das atividades de turismo e lazer, na qual
um maior número de pessoas participe dos resultados, e não apenas sejam prestadores
de serviço às empresas de turismo, ou mesmo apenas promotores, mas que também
possam usufruir dos espaços.
Na região colonial de Pelotas, por exemplo, alguns habitantes que possuem pontos
potenciais de turismo organizaram-se em um grupo para pensar e planejar ações no
sentido de desenvolver o turismo e melhorar a divulgação de seus atrativos na região. O
grupo denomina-se GASSETUR - Grupo Associativo de Empreendedores em Turismo
Rural, que reúne atualmente 13 empreendedores que atuam nas áreas de hospedagem,
alimentação, cultura, lazer, arte e educação ambiental10. Organizaram-se no objetivo de
promover e incrementar o turismo sustentável na zona rural de Pelotas, propiciando
melhoria na qualidade de vida dos residentes da Colônia, movimentando a economia e
diversificando o lazer oferecido para o município de Pelotas e Região11.
Esta diferenciação em promover atividades de turismo a partir dos próprios
habitantes do lugar, não estando diretamente ligadas às empresas ou que a atividade não
venha a ser de domínio exclusivo destas, direciona ao entendimento para que, apesar de
ser vista como uma atividade econômica, o turismo não desencadeie um processo de
segregação sócio-espacial, segundo o que Paes-Luchiari (2006) analisa quando, em
alguns casos, é visto como uma possibilidade de desenvolvimento econômico aos
territórios de diversas escalas e, muitas vezes, submete a população local às ordens
externas, até mesmo, desarticulando as culturas tradicionais.
10
www.pelotascolonial.com.br acesso em 30/04/2008.
Importante colocar que este grupo não se organiza por distrito, não pertence a um distrito
especificamente, mas, sim, por empreendimentos vinculados a atividades turísticas, dessa forma, o grupo
está presente em vários distritos, inclusive no Distrito de Rincão da Cruz.
11
Há que se ressaltar que não se está afirmando aqui que a cultura e os lugares não
devam se modificar no tempo e no espaço, pois se estaria negando um princípio dialético
da condição espaço-temporal das sociedades. O que se está afirmando é o cuidado que
as culturas locais devem ter na incorporação de novos elementos culturais ou, mesmo, em
não abrir mão de seus elementos identitários e simbólicos por conta de um marketing do
mercado global que pressupõe a lucratividade e a homogeneidade de padrões culturais.
A abordagem da identidade e do simbólico são debates importantes quando o
assunto tratado é o patrimônio cultural. Sendo o patrimônio, conforme já analisado em
Bortoncello (2002), um conjunto de bens que identifica o conjunto dos indivíduos que
compõe uma sociedade, significa que as pessoas se identificam com este conjunto de
bens, de forma que estes representam e reforçam a identidade da sociedade local e um
sentimento de pertença ao lugar.
Não se pode deixar de ressaltar que as empresas, considerando o turismo apenas
como uma atividade econômica e apropriando-se do patrimônio, procuraram inferir custo de
consumo a este, diferente do valor cultural-simbólico que possui para os habitantes do lugar.
Este é outro elemento que justifica as tentativas de promover o turismo a partir dos próprios
habitantes das comunidades, o que, de certa forma, parece ser uma tarefa menos
dispendiosa no espaço rural, onde as relações de identificação entre as pessoas, a cultura e
os símbolos locais compreendem um maior conhecimento mútuo.
Assim, a possibilidade de criar um circuito cultural e turístico no Distrito de Rincão
da Cruz, podendo se expandir para outros espaços da região colonial de Pelotas, teria
importância no sentido de permitir que os habitantes do lugar sejam diretamente
beneficiados pelos ganhos desta atividade e, ainda, podendo divulgar sua herança
cultural, sendo este um elemento a mais no sentido da preservação do patrimônio e da
memória colonial.
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