Museu, um patrimônio do turismo? José Henrique de Castilho Junior (FAP) [email protected] Resumo: Este trabalho tem por finalidade debater o potencial que há entre turismo e museu, onde a atividade turística, se bem planejada, poderia oferecer um crescimento significativo nas visitas pela demanda dos turistas nacionais e estrangeiros. De todas as segmentações turísticas, a que melhor se associa a esta relação é o turismo cultural, onde se tem por objetivo, entre outros fins, o conhecimento de monumentos e sítios histórico-artístico, como também a forma na qual se pode obter conhecimento e estudo sobre outras culturas, pois se há um contato direto com a cultura local do destino visitado e vice-versa, composto pelos patrimônios artístico e histórico nacionais. Turismo, cultura e patrimônio são atividades que interagem entre si através das quais os turistas podem reconhecer-se em outra cultura, já que toda cultura é dinâmica e está sempre em restauração. Espera-se, através deste artigo, demonstrar que museu não é sinônimo de coisas velhas, e sim coleções expostas de obras de arte, objetos e documentos de interesse artístico, histórico, técnico e científico. Palavras-chave: Turismo; Museu; Patrimônio Cultural. 1. Introdução De acordo com o ICOM1, o museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberto ao público, voltado à pesquisa dos testemunhos materiais do homem e de seu entorno, que os adquire, conserva, comunica e, notoriamente, expõe, visando a estudos, à educação e ao lazer. Segundo Ignarra (2003, p. 11), a OMT2 define o turismo como o englobamento as atividades das pessoas que viajam e permanecem em lugares fora de seu ambiente usual durante não mais do que um ano consecutivo, quer por prazer, quer negócios ou outros fins. Pretende-se discutir que a relação necessária que há entre turismo e museu que segue em caminhos similares, onde um depende do outro, pois há atividade turística nos museus e em patrimônios culturais através do turismo cultural. A potencialidade turística que leva milhões de pessoas aos lugares pode passar a ser também um destino bastante procurado pelos turistas nacionais e estrangeiros, isto é, tornar os museus pontos atrativos e culturais, no qual se possa fugir do cotidiano sol, praia e floresta. Para isso, é necessária a parceria entre turismo e museus, onde se pode inserir a visitação a pelo menos um museu ou centro cultural nos roteiros das viagens, independente do destino a ser visitado, para que se possa obter conhecimento e submergir com a cultura local. 1 2 Conselho Internacional dos Museus / Comitê brasileiro. Organização Mundial do Turismo. 1 No Brasil, a “exploração” do turismo cultural vem obtendo um crescimento significativo nos últimos anos, pois os números já comprovam que o pensamento de que “museu é lugar de coisas velhas e de mofo” já está sendo abandonando por aqueles que realmente buscam cultura e lazer concomitantemente. Em outras palavras, está crescendo o número de visitações aos acervos dos museus. Porém mesmo com este crescimento, sua demanda ainda é pequena, principalmente no Rio de Janeiro, por falta de incentivo do poder público e privado, os quais poderiam desenvolver projetos para que as instituições museológicas passem a se tornar auto-sustentáveis, incluindo-os às visitações públicas. 2. História De acordo com a mitologia e a história da Grécia Antiga, da união de Zeus (deus supremo) com Mnemósine (deusa da memória) nasceram nove musas, cuja missão era proteger as artes. As musas possuíam criatividade e grande memória, tinham seus próprios templos, os Templos das Musas ou mouseion e neles eram feitas as reuniões culturais, onde as diversas modalidades das artes, como danças, poesias e narrações, eram ensinadas e preservadas. O conceito de museu se originou durante a civilização grega, quando foi construído o primeiro mouseion do qual se tem notícia, em Alexandria, por volta de século II antes de Cristo. Era o local de reuniões dos sábios, poetas, artistas e seus discípulos. Continha uma biblioteca que armazenava cerca de 700.000 manuscritos com todo conhecimento humano em diversas áreas, como filosofia, astronomia, medicina, zoologia, história etc. Também havia salas de reuniões, observatórios, laboratórios, jardins zoológicos e uma sala que se armazenavam os objetos de estudos. Enfim, um local para conservação, estudo e guarda de objetos - origem mais distante do conceito de museu. Alguns autores afirmam que o hábito colecionista é tão antigo quanto o homem, dependendo do contexto em que é inserido e de acordo com os seus diversos significados e motivos. Então, pode-se dizer que há ligação entre museu e coleção3, pois é a prática desse ato que se dá início a criação de um museu, com suas diversas obras e objetivos. Como exemplo, tivemos os romanos que foram grandes colecionadores e todas as regiões ocupadas por eles, eram pilhadas pelos soldados e seus objetos de valores recolhidos para decorar os palácios dos imperadores, generais e familiares, ao longo dos séculos. Diz Hernández (1994, p. 13) que, na cultura romana a palavra mouseion designa uma edificação particular onde eram realizadas reuniões filosóficas sem, contudo, se referirem às coleções. 3. Museus no Brasil Acredita-se que o primeiro museu aberto ao público no mundo, surgiu em 1784 no Rio de Janeiro, nomeado Casa Histórica Nacional, conhecida como Casa dos Pássaros, pelo vicerei Dom Luís de Vasconcelos. Tinha por objetivo expor ao público exemplar de pássaros e animais vivos ou taxidermizados, os quais regularmente eram enviados para a Corte, em Portugal. Estas coleções serviam para enriquecer o governo português, seus museus ou seus palácios. Seu funcionamento foi por pouco mais de 20 anos e ao seu término as coleções foram transferidas para a Academia Militar, inaugurada em 1810. Porém há um conflito de 3 Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Novo Aurélio, coleção é o conjunto ou reunião de objetos da mesma natureza ou que têm qualquer relação entre si. 2 informações, pois para alguns pesquisadores a Família Real Portuguesa, quando chegou ao Brasil, em 1808, trouxe consigo parte da Biblioteca Real e sua coleção de pinturas, como também objetos de propriedade do Rei Dom João VI e, surgi então o primeiro museu público no Brasil no século XIX, criado em 06 de junho 1818, no Rio de Janeiro. O Museu Real, atual Museu Nacional, tinha por objetivo atender aos interesses de promover o progresso cultural e econômico no país, com a iniciativa cultural do Rei Regente, e reunia coleções de História Natural, transferidas da Escola Militar, da Coleção Wern4 e doações feitas também pelo Rei regente. No ano subseqüente, foi agrupado ao Museu Real o Jardim Botânico. Já como nomenclatura de Museu Imperial, recebeu doações de museus, como da Dinamarca, Gênova, Roma, Ilhas Sandwich, Berlim, entre outros. Ampliando então o seu acervo, também com doações feitas pelo Imperador Dom Pedro II de “presentes culturais”. Torna-se então a instituição pioneira no estudo das ciências naturais do Brasil Império. Em 1816, com a chegada da Missão Artística francesa, surge a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios a fim de qualificar a mão-de-obra local. Em 1820 houve um desmembramento e é criada a Academia de Belas Artes, com o objetivo somente de ensino artístico. Após um ano, com a volta de Dom João VI a Portugal, sua coleção de pinturas foi incorporada à Academia de Belas Artes, dando início à Pinacoteca daquela instituição. Em 1889, o ano da Proclamação da República, ocorreu um movimento para separar o Museu da Academia, desde então nomeada Escola Nacional de Belas Artes, porém concretizada somente em 1937, com a criação do Museu Nacional de Belas Artes. Ainda com incentivo Real foram criados no século XIX, pelo Imperador Dom Pedro II, o Museu Paulista, em 1855, na cidade de São Paulo e o Museu Emílio Goeldi, em 1866, em Belém do Pará. A Semana de Arte Moderna, conhecida popularmente por Semana de 22 se deu em São Paulo, objetivando comemorar o Centenário da Independência e a Pinacoteca Estadual da cidade, visando ocupar seu espaço no cenário cultural brasileiro. Liderada por um grupo de intelectuais e artistas de São Paulo, a exposição promoveu pinturas e esculturas, recitais de poesias, apresentações teatrais e musicais. Ficou então conhecido nos meio artístico e intelectual, que buscava arejar a austeridade acadêmica das instituições e, ao mesmo tempo, resgatar valores que nos fizessem olhar para o Brasil como um todo, com as suas diversas formas de expressões e manifestações culturais. Com a criação do SPHAN em 1937, que passou posteriormente a ser IPHAN5, foram implantados gradualmente pelo Governo Federal, novos museus com temáticas diferentes em diversas cidades do Brasil, devido à importância que o patrimônio histórico e artístico nacional passou a adquirir pelos vários artistas, pensadores e uma parcela da população da época. Logo, então, começa a criação de museus particulares por conta da iniciativa privada, surgindo assim novas e famosas instituições museológicas no país. 4. Turismo e Patrimônio Cultural 4 5 Na qual pertencia ao Museu da Ajuda, em Portugal. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 3 Em 13 de janeiro de 1937 pela Lei nº 378, surge o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para a preservação do patrimônio cultural brasileiro, no qual foi elaborado um anteprojeto de Lei para a salvaguarda desses bens. Com a criação do artigo 1° do Decreto-Lei nº 25, assinado pelo Presidente Getúlio Vargas, em 30 de novembro de 1937, definiu-se o patrimônio histórico e artístico nacional como um conjunto de bens móveis e imóveis, cuja conservação fosse de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. Desde então vem sendo realizado um trabalho permanente de identificação, documentação, proteção e promoção do patrimônio cultural brasileiro. Hoje o Ministério da Cultura está perpetuado ao Instituto. Os museus então inseridos no conjunto de patrimônio material, que segundo o IPHAN, com base em legislações específicas é composto por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza, nos quatro Livros do Tombo: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; de belas artes; e das artes aplicadas. Com bases nessas palavras, podese observar que os bens brasileiros, como acervo arquitetônico e urbanístico; documental e etnográfico estão sendo tombados, restaurados e revitalizados para a permanência destes acervos. Vale ressaltar que vem sendo constituída através da instituição a proteção de paisagens e acidentes geográficos notáveis nos quais são constituídos pelo homem. A instituição museu como um todo se enquadra perfeitamente na definição de patrimônio histórico e artístico nacional, pois geralmente os prédios que abrigam estas instituições foram testemunhas de fatos memoráveis da história do país ou de uma região, bem como o seu acervo composto geralmente por obras raras nacionais e internacionais. Na atividade turística o patrimônio cultural encontra-se inserido dentro dos atrativos histórico-culturais. Para Beni, (2003, p.308), atrativos histórico-culturais: São manifestações sustentadas por elementos materiais que se apresentam sob forma de bens imóveis ou móveis. Para os bens imóveis deverão ser considerados apenas aqueles ditos fixos, entendendo-se por bens móveis fixos aqueles pertencentes ou não a coleções ou acervos, que estejam em exposições permanentes no mesmo local. A relação entre turismo e patrimônio é importante no que diz respeito à valorização e divulgação da cultura de um país ou de uma determinada região. A atividade turística desenvolvida de forma planejada pode inclusive contribuir para a sustentabilidade dos bens culturais. São cada vez mais comuns às ações de depredação e vandalismo junto aos patrimônios histórico e cultural sendo um agravante no desenvolvimento do turismo cultural. Entende-se que quando turismo e patrimônio conseguirem caminhar de forma harmoniosa é provável, inclusive, que a degradação ao patrimônio histórico-cultural possa ser controlada. Sabe-se que a medida mais concreta para proteger o patrimônio é o tombamento, ou seja, o registro deste bem num “livro de tombos”, em cujas páginas ficam registrados os bens considerados valiosos e sujeitos às leis de preservação, o que implica em “não poderem ser demolidos” além de não poderem ter suas características modificadas. No entanto, não basta apenas tombar o patrimônio, é necessário criar ações que o tornem auto-sustentável, como por 4 exemplo, no caso de bens públicos, a criação de centros culturais, instituições museológicas e até mesmo a cessão do espaço para abrigar outros tipos de repartições. Acredita-se que a atividade turística planejada possa servir como ferramenta de dinamização e conscientização no que diz respeito à preservação e conservação dos patrimônios histórico-culturais. Segundo Barreto (2000, p. 20), preservar significa proteger, resguardar, evitar que alguma coisa seja atingida por alguma outra que lhe possa ocasionar dano. Conservar significa manter, guardar para que haja uma permanência no tempo. Baseando-se na afirmação da autora, é possível dizer que o aproveitamento econômico dos bens culturais, incluindo o uso para atividades turísticas, pode ser um importante fator para preservação e conservação desses bens, o que poderia inclusive, torná-los auto-sustentáveis. Considera-se como desenvolvimento sustentável do turismo “aquele que atende às necessidades dos turistas atuais, sem comprometer a possibilidade do usufruto dos recursos pelas gerações futuras” (RUSCHMANN, 1997, p. 10). Este conceito de turismo sustentável está diretamente ligado à preservação e sustentabilidade dos meios naturais e culturais, considerados como atrativos básicos para o turismo de uma região. Carolina Juliani de Campos, consultora do Ministério do Turismo (Mtur), também acrescenta que o turismo cultural é uma via de valorização do patrimônio: “Além de proporcionar o conhecimento e o respeito ao patrimônio, já que só preservamos aquilo que conhecemos, cria-se a possibilidade de uma sustentabilidade econômica para a preservação dos bens em questão, por meio de taxas pagas pelos turistas visitantes”, afirma6. 5. Turismo nos Museus O hábito de viajar é antigo, mas atualmente o turismo se tornou uma atividade que move milhões de pessoas em todo o mundo de acordo com seus motivos diversos. Há algumas cidades que têm como grande potencial econômico o turismo, e alguns autores chegam a afirmar que atualmente é a atividade número um, detendo aproximadamente 6% do conjunto dos Produtos Nacionais Brutos (PNB) do mundo, pois caminha em um ritmo mais avançado que os demais setores da economia mundial. Até o consideram um fenômeno social contemporâneo por atingir quase todos os países e comunidades, além de promover a imagem dessas localidades em nível internacional. Em algumas cidades quando se pensa em turismo logo se associa a museu, como em Nova York, o Metropolitan Museum ou o Museu de Arte Moderna, na Espanha, o Museu do Prado ou o Reina Sofia, em Paris, o Louvre ou o Museu D’Orsay, e em Londres, o Britsh Museum. Em alguns destinos turísticos há visitação a pelo menos um museu, onde se encontra inclusa nos pacotes comercializados pelas agências de viagem e no receptivo local. Porém o Brasil, famoso por suas praias e natureza, ainda há um número reduzido de empresas do trade que incluem em seus pacotes turísticos a visitação aos museus. Dentre os países latino-americanos, somente o México ocupa atualmente o posto de sétimo país mais visitado do mundo [...]. Enquanto isso, o Brasil, com toda sua potencialidade em todos os segmentos, e que ultrapassa o circuito sol e praia, continua amargando a 30ª posição, apesar de ter havido 6 Revista Patrimônio nº 3 Jan/Fev 2003 - IPHAN 5 um incremento bastante grande de turistas no país nos últimos três anos. (Vasconcellos, 2006, p. 33) Pelas palavras do autor, se pode observar que a Cidade do México é um bom exemplo para o fenômeno turístico em relação aos países da América Latina. O País preserva sua identidade nacional, como seus sítios arqueológicos monumentais – museus a céu aberto, onde são os maiores atrativos turísticos, além de ser “obrigatório” nos pacotes turísticos visitação ao Museu Nacional de Antropologia, ao Museu do Templo Maior e as Ruínas de Teotihuacán. Porém para chegar a este padrão, segundo alguns autores, foi necessário a formação e capacitação de diversos profissionais onde foram oferecidos treinamentos aos técnicos em conservação e restauração, educadores e museólogos para o desenvolvimento moderno e interativo de exposições, de acordo com sua linguagem e significado. Alguns autores dizem que, no Brasil o turismo e a cultura seguem em caminhos distintos, pelos museus serem um patrimônio histórico cultural e o turismo uma atividade de iniciativa privada, porém eles estão diretamente interligados, pois como o próprio nome já diz, é uma instituição que preserva a cultura e então juntamente com o turismo, busca a dinamização desta por meio das comunidades receptoras, na qual recebem os turistas. Existem instituições museológicas de vários aspectos no país, tais como histórica, da arte, arqueológica e da ciência com qualidade, no qual suas coleções atraem turistas nacionais e estrangeiros, além do paisagismo encontrado no entorno dessas instituições, como jardins ou parques. Para uma boa apresentação dessas locais ao seu público alvo, é necessária a parceria com o turismo que pode se tornar uma das principais estratégias para atrair os visitantes. Acredita-se que o museu pode representar um papel importante na construção do projeto turístico, pois ele tem como uma de suas funções preservar e proteger o patrimônio para garantir uma análise do desenvolvimento e qualidade de vida das pessoas, e não deve ser visto apenas pelo público escolar, mas também pela comunidade local, turistas nacionais e estrangeiros. Atualmente as instituições museológicas, mesmo sendo ainda uma prática tímida, vêm perdendo o preconceito e se abrindo ao marketing para que se tornem também um fenômeno de massa, como é esta atividade em outros países, pois devem atender a demanda proveniente do turismo para que haja um caminho onde se ligue estas instituições ao desenvolvimento econômico. Para uma perfeita integração e um real aproveitamento das instituições museológicas pelo turismo é necessário que haja investimento em infra-estrutura adequada para o recebimento de turistas e visitantes, como por exemplo, monitores bem treinados, acesso adaptado a deficientes físicos, exposições itinerantes, biblioteca atualizada e com funcionamento hábil, banheiros e bebedouros higiênicos, loja de souvenirs, lanchonete ou restaurante, entre outros itens. Os serviços como restaurantes, cafés e lojas de souvenirs integrados no espaço museal, podem inclusive, contribuir junto à venda de ingressos para manutenção da instituição uma vez que a verba pública destinada aos museus tem valores baixos mediantes aos altos custos de manutenção de um acervo ou de uma reserva técnica, por exemplo. Atualmente, é cada vez mais crescente o número de museus que encontram no turismo uma fonte de sustentação7. Ao falar da atividade turística que move milhões de pessoas e de capitais, torna-se interessante mencionar a diversificação cultural proposta por esta atividade. O turista ao viajar 7 Uma das primeiras instituições a aderir a essa tendência no Brasil foi o Museu de Arte de São Paulo (MASP), com seu restaurante no subsolo. 6 se propõe a estar em contato com outras culturas o que proporciona uma dinamização e a apropriação de alguns hábitos e costumes. Uma cultura está sempre interagindo com outra, o que cria uma harmonia entre os indivíduos, e que pode ao longo do tempo proporcionar uma reconstrução com novos olhares onde cada indivíduo acaba por agregar algumas de suas experiências interculturais a sua vida diária. A seguir Vasconcellos (2006, p. 32) diz que do ponto de vista antropológico, o turismo é considerado uma atividade transcultural vinculada aos mecanismos sociais de consumo próprio de um mundo globalizado, e que vem experimentando um desenvolvimento extraordinário. Baseando-se no autor se pode concluir que cultura é algo dinâmico e encontra-se sempre em restauração, e o museu pode converterse em um instrumento para fortalecer e problematizar as identidades e integrações das comunidades, promovendo a tolerância, o respeito e a aceitação da diversidade cultural. O museu se apresenta como um lugar de convivência que abre suas portas para que toda e qualquer categoria de público possa usufruir de um espaço não só de lazer, mas fundamentalmente de reflexão a respeito da memória histórica e de um simbolismo transcendente. (Vasconcellos, 2006, p. 37) Pelas palavras do autor, se pode observar a relação do turismo com o lazer, do lazer com os museus e dos museus com o turismo. Alguns autores afirmam que, ao atrair a atenção para o patrimônio natural ou cultural, o turismo promove sua conservação e valorização. No Brasil, no caso do Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, dentre os muitos museus, os mais procurados e que em alguns casos já estão inseridos em roteiros históricos cultural são: Museu Imperial, em Petrópolis e o Museu de Arte Contemporânea – MAC, em Niterói. Acredita-se que o museu com perspectiva de aprendizado e busca de conhecimento possa tornar-se uma ferramenta de apoio não só ao aprendizado, mas também ao desenvolvimento de atividades turísticas. No caso dos museus a segmentação turística aplicada seria o Turismo cultural. Segundo, Beni (2003, p.431): Turismo cultural refere-se a influência de turistas a núcleos receptores que oferecem como produto essencial o legado histórico do homem em distintas épocas, representado a partir do patrimônio e do acervo cultural, encontrado nas ruínas, nos monumentos, nos museus e nas obras de arte. O Turismo cultural praticado em instituições museológicas é uma das segmentações da atividade turística que se encontra presente praticamente em todos os destinos turísticos do mundo, por menor ou mais simples que seja um destino, quase sempre haverá um museu. Segundo Vasconcellos, (2006, p.51), [...] o turismo cultural já é considerado no Brasil a terceira opção de viagem dos turistas internacionais, depois da consagrada e tradicional opção praia e sol e do ecoturismo. Turismo, cultura e patrimônio interagem entre si, onde buscam produtividade na abrangência do conhecimento, pois são responsáveis também pela proposta turística. Como diz Azevedo (1998, p. 149): 7 O turismo, por natureza e essência, implica a busca de diferenças. Diferenças traçadas pela cultura e pelo patrimônio. Ao representar um dos veículos mais importantes de divulgação cultural, o turismo emerge, ele próprio, como instrumento de reafirmação de cultura(s) e de patrimônios singulares. A atividade turística tem na cultura e no patrimônio dois contrapés insubstituíveis que permitem usufruir o encontro de singulares, visto como ambos possuem acervo acumulado e cumulativo. Por mais que a relação entre turismo e museu seja ainda rudimentar, se deve ser repensado no que diz respeito a turismo cultural onde o mercado deve obter um maior desenvolvimento e são necessários alguns investimentos pelos museus, comunidades envolvidas e das empresas ligadas direta e indiretamente ao turismo. Vale ressaltar a importância fundamental do potencial turístico dos museus. Como exemplo, se pode citar duas famosas cidades do Estado do Rio de Janeiro por sua história e seu patrimônio histórico e cultural: Parati, por seu centro histórico e Petrópolis, nomeada cidade imperial. 6. Considerações Finais Sabe-se que este estudo, que se propôs analisar a relação existente entre museu, patrimônio cultural e turismo, não se encerra aqui. Contudo, para efeito de considerações finais, espera-se salientar alguns dos aspectos relevantes ao logo da pesquisa. Durante este estudo foi possível observar a inter-relação entre turismo e museus, onde pode vir a se tornar um atrativo de grande potencial de for bem planejado, pois se acredita que a atividade turística desenvolvida de forma integrada com patrimônios material e imaterial pode, inclusive, servir de agente propagador e quem dinamiza culturas. Os museus devem promover meios para salvaguardar e garantir a conservação, realce e apreciação dos monumentos e sítios que constituem uma parte privilegiada do patrimônio da humanidade. Outro aspecto foi quando se discutiu a “nova” concepção das instituições museológicas que deixaram de ser apenas depósitos de coisas velhas para mostrar seus objetos e fazer chegar sua mensagem ao público de uma forma dinâmica, assim como recursos de multimídia e outros recursos tecnológicos. Através deste processo de inovação o museu passou a ser complemento necessário do turismo, superando preconceitos de ambas as partes. Durante este estudo, também se buscaram alguns exemplos de interação entre atividade turística e patrimônio cultural, onde encontramos em alguns museus, tais como: MASP - SP e Museu Imperial – Petrópolis – RJ, a integração do espaço museal e turismo através de atividades comerciais agregadas, como por exemplo, livrarias, cafés, bistrôs e lojas de souvenirs. Junto à venda de ingressos estas atividades um tanto diversificadas têm contribuído para manutenção do patrimônio cultural. O reconhecimento da importância do papel educativo dos museus acabou gerando inúmeras reflexões que estão ampliando a importância da atuação destas instituições não só junto ao público escolar, muito comum nos museus, mas também para outros segmentos de visitantes nacionais e estrangeiros. No entanto, é necessário deixar claro que o patrimônio deve ser valorizado por sua importância na história ou na identidade local e não pelo valor que ele possa vir a ser “vendido” como atrativo turístico. Para que patrimônio e turismo possam ter uma convivência saudável, é necessário que haja planejamento, o que inclui controle permanente a fim de 8 amenizar o máximo possível os impactos gerados pela atividade turística. Preservar o Patrimônio é preservar a memória e a identidade de um povo e de uma Nação. Referências Bibliográficas AZEVEDO, Cristiane. V. Um Engenho de Memórias: Turismo, memória e patrimônio movendo a Fazenda Engenho Novo. Monografia (Graduação em Turismo) – Faculdade Paraíso – São Gonçalo, Rio de Janeiro, 2008. BARRETO, Margarita. Turismo e Legado Cultural: as possibilidades do planejamento. 5 ed. Campinas, São Paulo: Papirus, 2000. BENI, Mário Carlos. Análise Estrutural do Turismo. 9 ed. São Paulo: Editora Senac, 2003. FUNARI, Pedro Paulo & PINSKY, Jaime (orgs). Turismo e Patrimônio Cultural. São Paulo: Contexto, 2001. HOLANDA FERREIRA, Aurélio Buarque de. Novo Aurélio do século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3 ed. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1999. 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