III SIMPÓSIO NACIONAL DE GEOGRAFIA POLÍTICA
A MULTITERRITORIALIDADE DO MIGRANTE FRENTE AO ESTADO
COMO GESTOR DO ESPAÇO
Thiago Romeu de Souza – UFPE/UFCG
[email protected]
RESUMO
O presente texto tem como objetivo discutir a condição do migrante frente às lógicas
que presidem as ações dos Estados em todos os seus níveis. A discussão se
fundamenta na leitura e análise de textos e na experiência migrante vivenciada no
cotidiano urbano do Brasil e do mundo. Portanto, desde já se esclarece que aqui não
serão tratadas questões outras do cotidiano dos estudos migratórios, como a
migração rural-urbana e o papel dos migrantes no processo produtivo das
sociedades, entre outros temas. Nosso interesse se volta exclusivamente a esta
relação migrantes, Estado e as diferenças culturais, além das possíveis discussões
consequentes deste inicial trabalho.
INTRODUÇÃO
Torna-se cada vez mais nítido nos dias atuais a ascensão e, ou resistência,
de espacialidades que se diferenciam daquelas historicamente abordadas pela
geografia política, e também pela geopolítica clássica, a saber: o território dos
estados-nação e suas territorialidades, comumente chamadas de nacionalidades.
Neste contexto de questionamentos, sempre percebemos como elemento central o
papel dos “novos sujeitos sociais”, construindo/desfazendo/refazendo territórios.
Entre estes sujeitos, destacam-se os migrantes. Em suas mobilidades, ora em busca
de trabalhos, ora em busca de expressão, ora fugindo de perseguições e catástrofes
e ora retornando ao lugar de origem, reconstroem não só a eles próprios, mas a
sociedade em que eles se inserem. Neste processo configura-se a reconstrução de
territorialidades.
As territorialidades “híbridas” oriundas dos processos de ir e vir migratórios e
da construção dos seus territórios-rede (HAESBAERT, 1999, 2004) tem interferido
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no modo como se tem produzido a geografia política, e por consequência, a
geopolítica. A reconstrução promovida pelos migrantes nas sociedades de imigração
é tão significativa que são alguns dos sujeitos sociais de maior importância nos dias
de “modernidade líquida”, e não porque tenham assumido status mais elevado nas
sociedades
contemporâneas,
mas
sim
porque
têm
promovido
intensos
questionamentos e debates em diversos âmbitos, tais como a produção cultural, a
ciência, a política entre outros aspectos. E não há nisso interesse prévio de
categoria organizada, mas, exatamente por não se encontrarem como categoria,
suscitam questionamentos que burilam os alicerces jurídicos, epistêmicos,
linguísticos, culturais e políticos, obrigando os Estados, como agentes públicos
institucionais por excelência da civilização moderna/ocidental, a estabelecerem
políticas públicas que dêem conta dos múltiplos fenômenos que estes indivíduos
outsiders, constituídos de uma cultura diferente, expõem muitas das chagas destas
sociedades.
Na intenção de questionar como estes sujeitos inseridos neste processo
interferem na produção de um conhecimento geográfico, ou como os migrantes em
suas constantes reconstruções espaciais promovem mudanças no modo de se
perceber a geografia, estabelecemos um convite à reflexão, pautando a discussão
em torno das mudanças que vem ocorrendo no espaço a partir da vivência dos
migrantes nas sociedades para onde migram.
Neste contexto de fluxo de transporte cada vez mais abrangente e veloz, a
mobilidade humana sofre uma revolução que leva à reconstrução dos espaços: os
territórios em escalas globais e locais são transformados quase na mesma
velocidade em que as imagens veiculadas sobre eles são produzidas. Mas não se
trata apenas de uma mobilidade qualquer, como o turismo, por exemplo, em que se
consome o lugar, trata-se de uma reconstrução de vidas pautadas pelo movimento.
Motivado grandemente pelas conveniências do capitalismo global, suscita encontros
entre interesses diversos que tem como arena de disputas o espaço. Surgem,
portanto, os territórios, recortes espaciais políticos por definição que servem não só
de base espacial para a realização da história, mas suas construções são motivos
de disputas por tudo o que o espaço promove de significação na realidade objetiva e
subjetiva na trajetória destes sujeitos.
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Mignolo (2003), por meio da sua abordagem acerca da ascensão do
pensamento liminar no contexto da colonialidade do saber, ajuda-nos aperceber a
intensidade e o modo como se apresenta o poder dos migrantes nas sociedades
contemporâneas, na medida em que suas práticas questionam os saberes
hegemônicosascende saberes subalternos, tal como Foucault (1979) já apontava.
Portanto, mais do que considerar a natureza das migraçõescomopromotoras de
rearranjos espaciais,cabe considerar que elas questionam, antes de tudo, por meio
do impacto, lógicas espaciais muito diferentes: ruralidades Xcosmopolitismo urbano,
vida familiar X vida individual, consumo por necessidade X consumo capitalista,
noção de tempo natural X ritmo de vida urbano. Lógicas fundadas em cosmovisões
distintas capazes de alicerçar significativos conflitos entre grupos no seio das
sociedades, autoproclamadas, modernas.
A GEOGRAFIA POLÍTICA E A ASCENSÃO DOS MIGRANTES
Há alguns anos, especialmente a partir do início dos anos 90, destacou-se a
crítica ao posicionamento tradicional da geografia política frente às questões que
envolviam as relações e a partilha de poder no plano global. O declínio do poderio
soviético e o fim da guerra fria trouxeram a ideia de um “presente eterno”, (o “fim da
História” evocado por Fukuyama, 1989) a partir do fim das ideologias, onde o
capitalismo tornava-se a cosmovisão hegemônica. Como consequência, um
relevante grupo de pensadores seguiu esta tendência, e algumas áreas acadêmicas
ampliadas e desenvolvidas durante as disputas ideológicas do século XX
declinaram, ou foram obrigadas a se reconfigurarem. Este foi o caso da Geopolítica.
Paralelamente, o reconhecimento de um novo período na humanidade
chamado por muitos de pós-modernidade culminou com a emergência de novos
sujeitos sociais. Na verdade, o clamor de grande parte da humanidade que não mais
se identificava com o tradicional sujeito moderno (homem, branco, adulto,
heterossexual, trabalhador e, muitas vezes, cristão), ou que historicamente fora
subordinada a este modelo de sujeito burguês, desembocou em diversos
movimentos de questionamento do estabilishment, que por sua vez se relacionaram
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com novos paradigmas social, econômico e político que começaram a tomar vulto no
mundo a partir de fins dos anos 1960.
Desde então se testemunha uma espécie de metamorfose paradigmática
com a crise da modernidade e uma aparente ascensão do que se convencionou
chamar pós-modernidade. Neste turbilhão de mudanças que se refletiram em todas
as
esferas
da
experiência
humana,
ascendem
diversos
agentes
sociais
negligenciados desde a aurora do pensamento iluminista. Tais agentes, até então
nunca considerados como sujeitos, atingem este estatuto à medida que conquistam
o direito a uma maior participação social, sendo percebidos à medida que angariam
paulatinamente novos espaços nas esferas política, social e econômica.
Há, portanto, neste contexto de questionamentos dos parâmetros sociais
uma dupla reconfiguração, uma que se apresenta numa necessidade de revisão das
ciências e das suas esferas de investigação, em especial da geografia política e da
geopolítica. E outra que abarca a transformação dos objetos destas ciências, os
agentes sociais agora vistos como sujeitos.
Falemos primeiro sobre o primeiro
questionamento, a revisão da geografia política e da geopolítica.
A CRÍTICA DA GEOGRAFIA POLÍTICA E DA GEOPOLÍTICA
Costa (2008) faz talvez a mais contundente e significativa crítica no Brasil
acerca da indefinição de campos da geografia política e da geopolítica, mostrando
que as definições mais tradicionais destas duas áreas satisfazem apenas “os menos
exigentes” (p.18), já que o que tem predominado até agora, na verdade, é a
indefinição quanto ao que é de uma ou outra área. Esta indefinição se visualiza na
confusão conceitual, sobretudo quanto ao uso do conceito de Estado – mas também
em relação ao de território, população, federação, nação, fronteira etc. – e tem
servido
como
“elemento
de
dissimulação”
(p.20),
enigma
que
necessita
permanentemente decifração. Isto inviabiliza o status científico de ambas as áreas,
pois deixam de produzir conhecimento para se prestarem a produzir ideologia, no
sentido marxista do falso-conhecimento. O autor aponta para um declínio da
geopolítica enquanto saber acadêmico/institucional focado nos conflitos ao passo
que as relações internacionais caminham cada vez mais para a ampliação e
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valorização da diplomacia. Ao mesmo tempo indica uma desestatização da
geografia política, que passa agora a se aproximar dos temas sociais na mesma
medida em que aborda “a distribuição do poder no interior da sociedade, cada vez
mais territorializada em suas práticas sociais cotidianas” (p.25).
Seguindo uma tendência aproximada, Castro (2005) mostra que há uma
nova agenda temática da geografia política, que abarca os temas tradicionais e mais
os “novos problemas que se impõem nas relações entre sociedade e seus espaços
políticos” (p.30). Entre estes temas encontram-se os que se relacionam à cidadania
e às novas formas de incivilidade, às diásporas e à exclusão.
Com base nesta crítica, abordar o tema do poder no interior da sociedade,
assim como suas manifestações no espaço, passa a ser uma atribuição da geografia
política. O fato de o “poder” não mais ser visto como de posse e uso exclusivo do
Estado, leva a promoção de novos atores sociais que repartem/compartilham as
esferas de poder na sociedade, construindo e desfazendo territórios, redefinindo
fronteiras que vão além da percepção das esferas governamentais, ampliando assim
o leque temático da geografia política e seus horizontes de investigação.
Compreender esta geografia política de um modo renovado implica delimitar
também o campo de investigação da geopolítica, de modo que se evitem os erros
apontados nas críticas quanto ao que pertence a um ou outro campo (se é que há
esta delimitação!). Ainda na crítica de Costa é apresentada uma definição clássica
de geopolítica que seria
(...) antes de tudo um subproduto e um reducionismo técnico e pragmático
da geografia política, na medida em que se apropria de parte de seus
postulados gerais para aplicá-los na análise de situações concretas
interessando ao jogo de forças estatais projetado no espaço (p. 55).
A crítica mostra ainda que para a geopolítica este reducionismo
(...) representa um inquestionável empobrecimento teórico em relação a
análise
geográfico-política
de
Ratzel,
Vallaux,
Bowman,
Gottmann,
Hartshorne, Whittlesley, Weigert, e tantos outros. Essa é uma questão
essencial, desde logo, que deve sobrepor-se às demais, a começar dos
artifícios notoriamente simplórios como o de tentar situá-la como “ciência de
contato” entre a geografia política e a ciência política, a ciência jurídica etc.,
bastante comum nas introduções de inúmeros
generais-geógrafos-
geopolíticos, a começar por Haushofer (Ibid. p. 55).
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Além do autor, convém ressaltar ainda que a própria Bertha Becker, ainda
na década de 80 antes da queda do muro de Berlim, já apontava o fracasso da
Geografia e da Geopolítica em tentar desenvolver uma teoria que explicitasse a
dimensão política do espaço (BECKER, 1988).
Com base nestas críticas, o uso do termo “geopolítica” requer muitíssimo
cuidado, ou até mesmo, talvez, o seu desuso, de modo que se evite incorrer em
erros conceituais. Entretanto, Castilho (2010) percebe as dimensões da ação e da
teoria como capazes de ser abarcada por um único termo: a geopolítica, apontando
assim para um novo uso. O aspecto inovador reside no fato de que é possível agir e
refletir acerca das relações de poderes – macro e micro – na produção e uso dos
seus territórios, em qualquer que seja a escala. À revelia do debate quanto à
validade do conceito, sua abordagem tem a importância de mostrar, entre outros
aspectos relevantes – e que coadunam com nossa intenção, que é do âmbito da
geografia como saber, a análise das disputas territoriais em escalas geográficas
menores, como a do espaço urbano, que é seu interesse particular de investigação.
Outra percepção interessante é a de Moïsi (2009) que, embora fundamentado numa
perspectiva excessivamente liberal, nota que as emoções disseminadas numa
sociedade podem determinar as ações de um ou outro Estado, sugerindo que a Ásia
tem sido um exemplo de disseminação de emoções positivas que poderão pautar
uma nova ordem mundial nos próximos anos. Neste sentido, o autor contribui para a
percepção de que a geopolítica pode ser vista, mesmo em escala macro, sob um
prisma menos pragmático e mesmo assim continuar calcada em pressupostos
científicos.
Concordando com o fato de que nas escalas micro residem grandes
questões que põem em xeque os parâmetros tradicionais de análise política, como o
Estado e sua autoridade territorial, percebe-se aqui uma necessidade latente de
investigação da importância destas novas escalas e dos novos atores que tem posto
a prova o “Poder”, quase sempre confundido com Estado (RAFFESTIN, 2011, p.52),
em benefício de uma enorme gama de “poderes” que se apresentam na
identificação das múltiplas territorialidades cotidianas.
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As
categorias
“poder”
e
“território”
parecem
assumir
posições
predominantes, ao menos no que diz respeito à definição das esferas que a
geografia política e a geopolítica estarão abarcadas neste trabalho.
O PAPEL DOS MIGRANTES COMO SUJEITOS SOCIAIS
O fenômeno migratório é processo promotor de multiterritorialidade
(HAESBAERT, 2004) e o encaramos numa perspectiva positiva, para além de uma
visão meramente economicista, que aponta o fenômeno migratório apenas como
fluxo, numa perspectiva positiva de não-criminalização – visão antagônica a que é
disseminada atualmente em muitas sociedades (PÓVOA NETO, 2005, 2010). Muito
além de um processo unicamente causador de desterritorialização, as migrações
seriam promotoras de multiterritorialidades, pondo em contato os diferentes, em prol
de uma co-existência benéfica tanto para os que chegam, quanto para os naturais
do local ou dos migrantes já estabelecidos. Entretanto, não se deve incorrer na
ingenuidade de crer que é isto o que ocorre atualmente, compreendemos que se
trata de um universo de conflitos. Mas entende-se aqui que os migrantes são
sujeitos
do
processo,
vivendo
frequentemente
situações
de
intensa
desterritorialização, capazes não só de se adaptar a um território novo e de reagir às
territorialidades locais, mas de produzir novas territorialidades híbridas a partir deste
contato com outras. Compreendemos, entretanto, que a sociedade de imigração é
um universo de conflitos, mas os migrantes são atualmente sujeitos de um processo
que historicamente foram postos de lado. Portanto, sujeitos sociais que devem ser
vistos nestes tempos de modernidade líquida (BAUMAN, 2003), sobretudo, como
atores que apontam para a necessidade de reformas nas relações entre os clássicos
gestores territoriais (o Estado em seus diversos níveis) e a sociedade de imigração,
mas que potencialmente podem também apontar para um questionamento acerca
do próprio Estado-Nação como produtor e gestor por excelência, e único, do
território.
A precarização do trabalho e do trabalhador é uma das marcas da pósmodernidade e o migrante como um elemento essencial nesta nova etapa da
sociedade capitalista, assume o formato ideal do trabalho precário que se
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movimenta. Contudo, os migrantes trazem consigo as suas territorialidades que
inevitavelmente entram em choque com as territorialidades “estabilizadas”,
promovendo o choque de territorialidades apontado por Goettert e Mondardo (2009)
como “transterritorialidades”, definida pelos autores como
Choques e conflitos causadores de mal-estares agudos a ponto de fazer
migrantes e não migrantes se “esconderem” uns dos outros como se a
invisibilidade pudesse dar fim à angústia do estranhamento ou à falsidade
de uma pretensa harmonia local, regional, nacional e até internacional (p.
103).
As transterritorialidades, comuns na pós-modernidade, são talvez o
fenômeno social mais significativo que apontam novos loci de poder dissolvidos no
seio das sociedades modernas e “multiculturais”, exigindo novas reflexões acerca do
papel dos Estados e por consequência impondo mudanças às ciências. Nisto reside
a importância de uma geografia política ancorada em novos pressupostos,
especialmente os que reconsiderem o papel dos estados-nacionais frente ao
estímulo ou cerceamento de mobilidade humana, especialmente no que diz respeito
às migrações, que tendem a aumentar, de acordo com o que apontam Font e Rufí
(2006), especialmente as migrações ilegais.
De qualquer maneira, no que concordam analistas e especialistas do
fenômeno migratório, é no fato palpável de que a emigração continuará
aumentando, e não apenas a legal, mas também a ilegal. As condições para
o desenvolvimento desta última estão presentes: pressão migratória muito
forte proveniente de um Terceiro Mundo que não consegue equilibrar-se;
demanda nos países ricos de mão-de-obra barata disposta a desempenhar
determinadas tarefas que a população autóctone nega a se realizar; e,
finalmente, a promulgação de leis de emigração bem mais restritivas
(p.170).
O quadro apontado pelos autores apresenta uma situação que tende a um
cerceamento das mobilidades humanas (embora os autores citem a emigração é
difícil para os Estados diferenciarem um movimento migratório por causas
econômicas de um pedido de asilo político ou de outra natureza de refugiado),
levando a um recrudescimento das migrações ilegais. Este fato só amplia as ações
de cerceamento da mobilidade humana por parte dos Estados, ao passo que
estimula os atos de violência e xenofobia contra imigrantes.
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Os fatos que confirmam o apelo xenofóbico se multiplicam nos noticiários e
eles são apenas demonstrações recentes da urgência de se refletir acerca da
importância dos migrantes na redefinição do poder do Estado enquanto único gestor
territorial, o que suscita, por consequência, uma renovação do corpus da geografia
política, identificando-se qual é o peso dos migrantes neste processo. Também urge
que se questione a importância das experiências migratórias na configuração de
novas territorialidades que muitas vezes se apresentam como resistência ou
insurgência às territorialidades tradicionais. Portanto, qual é o peso político dos
migrantes, e também dos refugiados, dentro dos países e regiões de imigração no
questionamento das formas “estáveis” de poder?
Entendemos que para uma adequada consideração da questão dos
“poderes” espacialmente localizados e distribuídos é importante considerar a
reflexão proposta pela geografia cultural. Paul Claval (2001) mostra como a
geografia cultural ultrapassa o status de campo de estudo geográfico, focado na
variedade de paisagens humanas, para assumir um caráter metodológico a partir
dos anos 70.
A transformação que começa a afetar os estudos culturais conduzidos pelos
geógrafos a partir do início da década de 1970 repousa sobre uma mudança
completa de atitudes e nasceu da constatação de que as realidades que
refletem a organização social do mundo, a vida dos grupos humanos e suas
atividades jamais são puramente materiais. São expressão de processos
cognitivos, de atividades mentais, de trocas de informação e de ideias. As
relações dos homens com o meio ambiente e com o espaço têm uma
dimensão psicológica e sociopsicológica (p.39).
As observações do autor mostram que as preocupações da geografia sofrem
uma sutil transformação em função das profundas modificações sociais que o
mundo vem passando neste período. A dimensão humana assume um caráter
central na perspectiva da geografia cultural e esta assume um caráter metodológico.
Questões como “Por que os lugares diferem?” são acrescidas de outras como
Por que os indivíduos e os grupos não vivem os lugares do mesmo modo,
não percebem da mesma maneira, não recortam o real segundo as mesmas
perspectivas e em função dos mesmos critérios, não descobrem nele as
vantagens e os mesmos riscos, não associam a ele os mesmos sonhos e as
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mesmas aspirações, não investem nele os mesmos sentimentos e a mesma
afetividade? (p.40).
As questões postas pela geografia cultural remetem a percepção que é
impossível construir uma abordagem científica livre de determinação da cultura na
qual é produzida. A predominância do econômico em detrimento de outras esferas
da vida humana passa a ser questionada, lembrando que os homens são
constituídos de identidades que são acionadas em momentos específicos do
cotidiano, ninguém é inteiramente “operário”, é também “chefe de família”,
“brasileiro”,
“católico”,
“negro”,
“homossexual”,
“imigrante”
e
tantas
outras
identidades possíveis, de modo que é impossível saber qual destes papéis é o mais
significativo para os indivíduos em questão, sem analisar suas formas particulares
de conduzirem suas vidas na sociedade.
Fica evidente, portanto, que as questões que envolvem as territorialidades e
a ascensão de novas formas de poder territorial, são mais facilmente compreendidas
através das concepções da geografia cultural, visto que tentam dar conta da
concepção atual de estudos que envolvem a participação dos diferentes.
O MIGRANTE E O ESTADO, NOVAS LÓGICAS TERRITORIAIS
Neste sentido, cabe argumentar que as práticas territoriais dos migrantes
levam as sociedades de imigração a constantes transformações que são percebidas
negadas ou absorvidas pelos planejadores e gestores territoriais sempre a posteriori.
Muitas destas práticas acabam questionando a lógica vigente de gestão do espaço,
sobretudo aquelas que envolvem a ocupação de novas áreas nas cidades ou
mudança de função de alguns locais. As atividades de comércio ambulante ou
pequenas manufaturas com uso de trabalho semiescravo são alguns dos muitos
exemplos.
O migrante, por sua vez, em muitas ocasiões, embalado pela chamada
“circularidade de migração” (CUNHA, 2000) e pelo ideal do retorno (SAYAD, 2000)
age muitas vezes no lugar de imigração sem o compromisso com os
comportamentos territoriais locais, uma vez que o retorno faz parte do projeto
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migratório. Mas é nas grandes cidades, especialmente às dos países centrais, onde
as lógicas territoriais estatais são mais marcantes no cotidiano urbano que se
percebe com mais vigor as diferenças entre as lógicas discordantes dos migrantes e
dos Estados de imigração. Sem embargo, são nestes locais que o migrante reproduz
suas práticas culturais, recriando, reconstruindo e simulando os espaços de origem,
com vistas a manter os laços territoriais de outrora que lhe dá sentido à vida.
Percebemos que são estas práticas que muitas vezes se conflitam com as
práticas das sociedades de imigração, são as transterritorialidades dos migrantes e
da população autóctone, o que leva aos atos xenofóbicos e as posturas cada vez
mais autoritárias dos Estados. Entretanto, os migrantes caminham nas fissuras,
contornam as barreiras e rompem os bloqueios impostos. Além disso, criam novos
modos de se pensar e agir sobre o espaço apresentando novos modos de se
territorializar nos locais de imigração. Semeiam seus idiomas maternos nestes
lugares, fazendo deles uma reconstrução dos seus lugares de origem. Isto nos
remete a algo que Walter Mignolo (2003) chamou de diferença colonial, uma espécie
de submissão ao conhecimento das colônias em relação aos oriundos das potências
e que promoveu uma “geopolítica do conhecimento”. Atualmente, os migrantes
representam o questionamento, quando não, a própria negação desta geopolítica,
na medida em que introduzem nos países centrais o produto da intensa
miscigenação cultural nas colônias. Paquistaneses e indianos em Londres,
peruanos, colombianos e bolivianos em Barcelona, brasileiros em Lisboa e também,
em uma escala menos abrangente, nordestinos em São Paulo, estes são alguns dos
exemplos que mostram que os migrantes rompem as barreiras culturais locais e
criam em seus lugares de imigração novas lógicas espaciais que questionam as
centralidade da cultura colonizadora e questiona a “geopolítica do conhecimento”
imposta por estes lugares centrais. Esta emergência de uma nova forma de pensar,
a partir da presença migrante é o que o autor chama de “pensamento liminar”, um
pensamento a partir das margens. Híbrido por natureza e questionador por vocação
da colonialidade do poder (Quijano, 2005).
Há que se considerar, entretanto, que o fato de os migrantes não comporem
um movimento social organizado faz com que suas ações sejam isoladas umas das
outras (embora componham um mosaico como um todo que permite enxergar o
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questionamento às lógicas estatais que aqui se apresentam). O isolamento das
ações mostra que para muitos migrantes não há interesse deliberado em se
questionar as lógicas que regem os Estados. Na verdade, a grande maioria nem
sequer se dá conta disso, mas é evidente que no seio das sociedades fulguram
movimentos inspirados nas ações isoladas dos migrantes. Novos movimentos
sociais de apelo a garantia de direitos como moradia, saúde e transporte parecem
ser reforçados pela constante necessidade das pessoas mais necessitadas destes
serviços, entre eles estão os migrantes.
CONCLUSÃO
A presente discussão visou avançar sobre um debate ainda pouco discutido
no Brasil que é o questionamento do Estado como gestor territorial por excelência e
a ascensão dos migrantes como agentes de mudanças territoriais que, mesmo longe
de formarem uma alternativa ao Estado como gestores, assumem o papel de
questionadores da lógica estatal e do modelo econômico e social, por meio de suas
“insistentes” territorializações nos locais de destino.
Tentamos argumentar que a multiterritorialidade migrante promove ações
novas que acabam por sugerir mudanças espaciais aos gestores territoriais ditos
“legais”. Isto é, algumas práticas espaciais consideradas ilegais são afrontas ao
poder estatal, mas servem também para instituir novas padrões sociais que podem
acabar sendo assimilados pela população “autóctone” e que passam a fazer parte
do cotidiano das metrópoles no Brasil e no mundo.
As práticas migrantes instituem novas lógicas que acabam por se colocarem
como novos pensamentos, pensamentos liminares, pois surgem das margens, mas
que seduzem e se instalam nos lugares centrais, reconfigurando as antigas
geopolíticas dos saberes e das culturas. Entretanto, tais mudanças, ainda difíceis de
serem avaliadas, não são fruto de um debate ou de ações coordenadas, são
derivadas das práticas cotidianas, muitas delas reativas aos ditames declarados e
legalizados ou de condutas consolidadas nos lugares de imigração. O fato é que as
práticas migrantes tem contribuído para alterar de modo significativo o cotidiano das
metrópoles e cidades médias do Brasil e do mundo, o que tem servido de alerta a
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governos e partidos conservadores, ou de satisfação para os partidários de práticas
inovadoras e garantidoras do direitos humano de migrar.
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