Sex and the City: Uma Análise da Tradução para Legendas sob as Perspectivas Logocêntrica e Desconstrutivista Sex and the City: A Translation for Subititles Analyse from Logocentric and Deconstructive Perspectives Vivian Marques Viccino Centro de Comunicação e Letras – Universidade Presbiteriana Mackenzie Rua Piauí, 143 – 01241-001 – São Paulo – SP xkxkcp0octswgu4Bvgttc0eqo0dt" Resumo. Embora objeto de estudo de muitos pesquisadores, a teoria da tradução permaneceu praticamente logocêntrica através do tempo. A ela pouco foi acrescentado ou modificado para melhor defini-la. Por esse motivo, estabeleceu-se a idéia de tradução como um simples ato de transferir significados equivalentes de uma língua para outra. Em contrapartida, a teoria da desconstrução surge para desmistificar os conceitos dessa teoria logocêntrica considerando a palavra do original como única verdade absoluta. Essa pesquisa visa analisar o ato de traduzir sob as duas perspectivas, logocêntrica e desconstrutivista a partir da tradução de textos audiovisuais. Palavras-Chave: Tradução. Teoria Tradicional/Logocêntrica. Desconstrução. Abstract. Though an object of a lot of researchers´ study, the theory of translation has remained practically logocentric throughout time. Very little was included or modified to logocentric theory. For it was established a tradition that translation was merely an art of transferring equivalent meanings from one language into another and that was the only definition of translation pervaded all minds. In contrast, the deconstruction theory appears to demystify the concepts of the logocentric theory that considers the original words unique and the absolute truth. This paper aims at analyzing the translation act from these two perspectives when dealing with audiovisual texts. Keywords: Translation. Traditional/Logocentric Theory. Deconstruction. 1. Introdução Durante muito tempo, o conceito de tradução foi considerado como uma simples transferência de significado de uma língua de partida para uma determinada língua de chegada. Por conta disso, o papel do tradutor era considerado secundário por ser apenas um reprodutor de significados, enquanto o do autor era elitizado. Em contrapartida ao logocentrismo surge a desconstrução promovida por Jacques Derrida, que descaracteriza o papel submisso do ofício do tradutor e confere a ele uma posição autoral, já que passa a ser visto como um produtor de texto tal como o autor do texto dito “original”. Essa nova proposta também sugere que não existe relação de equivalência absoluta entre duas línguas distintas. Tendo em vista essas duas correntes de pensamentos, a presente pesquisa toma como exemplo a tradução para legendas. Algumas traduções de legendas causam um certo incômodo aos telespectadores por não conterem expressões muito utilizadas em sua língua materna ou até mesmo por trazerem evidentes perdas de informação. Assim, é comum as pessoas julgarem se uma legenda está “certa” ou “errada”, “boa” ou “ruim”. Tais críticas são feitas na maioria das vezes, por leigos, sem nenhum embasamento em teorias da tradução ou até mesmo em técnicas de legendagem. É em decorrência desse fato que esse trabalho tem o objetivo de refletir sobre os estudos da tradução sob as perspectivas logocêntrica e desconstrutivista a partir da análise da tradução para legendas do seriado norte-americano Sex and the City, levando também em consideração os parâmetros da legendagem. 2. O papel do tradutor na prática da legendagem As expressões que mais causam essa reação no público são provérbios, citações ou frases típicas da oralidade. Essas geralmente têm que ser adaptadas por motivos variados como a sincronia da fala com a legenda, aspectos técnicos que envolvem essa prática, ou várias outras regras que o legendista tem que seguir para proporcionar uma boa legenda para o telespectador. Um fator crucial que também faz com que as legendas sejam julgadas como “ruins” ou “erradas” é que do legendista muitas vezes é cobrado uma “fidelidade” ao texto “original”, ou seja, às falas das personagens. A diferença entre o volume do texto falado e o do escrito também é mal vista pelos leigos nessa área. Como o tempo de permanência da legenda na tela é bem escasso, o lengendista tem que reduzir as falas máximo, mas conseguindo transmitir a mensagem. Evidentemente, esses fatores não anulam o fato de não existirem traduções equivocadas. O que está sendo tratado aqui é o fato de o tradutor ser constantemente julgado por suas escolhas feitas em determinado trabalho sem que tal crítico leve em conta todas as normas que esse processo implica. 2.1. Técnicas de tradução Para apresentar as principais regras que um legendista precisa seguir, será utilizada a autora Hercília Maria Hough (1998). De acordo com ela: A legenda deve possuir no máximo duas linhas com até trinta toques onde espaçamentos e pontuação também contam. O tempo de permanência da legenda na tela é de no mínimo um segundo e no máximo seis segundos. Apenas o essencial tem que ser dito. Palavrões geralmente são traduzidos de forma mais amena. 3. A teoria tradicional através do tempo O ofício do tradutor é reconhecido desde o mito bíblico da Torre de Babel, onde foi semeada a multiplicidade das línguas e os povos passaram a não se entender mais. Há muito tempo diversos autores tentam solucionar a questão da tradução livre em oposição à tradução literal. Em conseqüência disso, foram gerados os procedimentos técnicos da tradução. Entre os autores que propõem modelos de tradução estão Vinay e Darbelnet, Nida, Catford, Vázquez-Ayora e Newmark. Os modelos de tradução surgem para tentar explicitar como um texto deve ser traduzido já que a forma literal não era a mais apropriada. Vinay e Darbelnet são os autores em que essa pesquisa será embasada por serem os pioneiros em procedimentos técnicos da tradução e definem tradução como “… um texto idêntico ao que sairia espontaneamente de um cérebro monolíngüe, em resposta a uma situação comparável sob todos os pontos de vista…” (1977 apud BARBOSA, 1990, p. 23). 3.1. Procedimentos técnicos de Vinay e Darbelnet O modelo de tradução de Vinay e Darbelnet é dividido em duas partes: tradução direta e tradução oblíqua. A primeira é dividida em empréstimo, decalque e tradução literal. A segunda por é dividida em transposição, modulação, equivalência e adaptação. O empréstimo trata da reprodução idêntica de um determinado termo da LO, devido ao fato de não existir um correspondente deste na LT. No decalque, a palavra é adaptada à escrita ortográfica da LT. A tradução literal refere-se à tradução palavra-por-palavra. Traduz-se então, exatamente o que foi dito na LO para a LT. A transposição é a tradução de um determinado termo pertencente a uma certa classe gramatical por outro de uma classe gramatical distinta daquela do texto na língua original (TLO). A modulação é a mudança de foco entre o TLO e o TLT. A idéia da mensagem é transmitida com elementos opostos. A equivalência consiste em fazer uso de correspondentes, lançando mão de recursos lingüísticos e estruturais totalmente diferentes entre as duas línguas em questão. A adaptação é utilizada quando o tradutor não dispõe de um termo existente aplicável ao contexto da LT e se vê obrigado a solucionar este impasse, algumas vezes criando termos, outras vezes empregando termos equivalentes acessíveis na LT. 4. Desconstrução Em oposição a toda teoria logocêntrica surge a teoria derridariana denominada desconstrução. A intenção da desconstrução é “desmontar” um texto, uma teoria, um raciocínio. Os problemas centrais da tradução, vistos por uma perspectiva desconstrutivista, seriam a noção tradicional de tradução, como uma simples equivalência de significados e a hierarquia estabelecida entre o texto original e tradução. As noções de equivalência propostas pelos estudiosos da tradução remetem à idéia de que pode haver um equilíbrio perfeito entre duas línguas, de que há termos com os mesmos valores lingüísticos entre uma língua e outra. No entanto, ao considerar o mito da Torre de Babel, pode-se chegar à conclusão que tal idealização somente seria alcançada caso a tribo dos Shem tivesse conseguido impor sua língua ao mundo. Além disso, toda tradução reflete as características da língua e da cultura da língua de chegada do tradutor. Desse modo, a noção logocêntrica de que o texto traduzido é inferior ao texto dito “original” é desmistificada, pois existe uma contaminação cultural entre as duas línguas que impede que um desses dois lados permaneça intacto. A questão da fidelidade que as teorias logocêntricas pregam também pode ser questionada por não levar em conta que cada indivíduo fará uma leitura diferente de um texto. Dessa maneira, nenhuma tradução pode ser fiel ao texto dito “original”, pois seus significados não são estáveis, mas são interpretados de maneiras diferentes de acordo com cada indivíduo. A desconstrução também entende a tradução como uma produção de texto, pois a tradução nada mais é do que uma leitura de um determinado texto e toda leitura é vista como uma produção textual. Ao buscar explicar o ato tradutório através da perspectiva pós-moderna que o francês Derrida proporciona, é possível constatar que algumas noções sobre o ofício da tradução que a teoria logocêntrica apresenta encobertam implicações muito mais profundas que o ato de traduzir acarreta. Da mesma maneira, a teoria da desconstrução alivia o peso das críticas mal fundamentadas das quais o tradutor foi alvo por tanto tempo e coloca autor e tradutor, texto “original” e traduzido em um mesmo patamar. 5. Análise O seriado foi escolhido como objeto de análise por apresentar em seus diálogos muitas expressões que exigem do tradutor um raciocínio maior, um conhecimento mais profundo tanto da língua de partida quanto da língua de chegada, pelo fato de não existir um correspondente na língua de chegada. 5º episódio: 2 minutos e 30 segundos Samantha: So, how´s Friday at 9:00? Jerry: I can´t do Friday. Samantha: But we always do Friday. It´s “TGI Fuckday”. TRADUÇÃO Samantha: Que tal sexta as 21:00? Jerry: Não posso na sexta. Samantha: Mas nós sempre transamos na sexta. Comentário: A princípio, na primeira fala da personagem Samantha, o tradutor optou por omitir a tradução do termo So (que em português seria algo como então) muito utilizado na língua inglesa para introduzir uma fala. Em seguida, nota-se que na fala (tanto da personagem Samantha quanto da personagem Jerry) em inglês, Friday está escrito com letra maiúscula (transcrição retirada da legenda em inglês disponível no dvd da série) enquanto na tradução para a legenda em português, sexta aparece com letra minúscula. Isso se dá pelo fato de que a norma da língua inglesa indica que os dias da semana devem ter a letra inicial maiúscula, enquanto a norma da língua portuguesa não o faz. A tradução que talvez chame mais atenção nas falas desse caso é a segunda fala da personagem Samantha, pois é evidente que a tradução sofreu muitas modificações quando comparada ao original. Para introduzir a questão dessa fala, é importante dizer que a expressão TGI Fuckday é um trocadilho feito pela personagem da expressão comum para os falantes da língua inglesa TGI Fridays, que é uma contração da frase Thank God It’s Friday, ou seja Graças a Deus é sexta-feira em português. Nesse caso, a expressão já é irreverente, pois God é uma contração de Godness. Essa expressão remete a idéia de alegria, pois demonstra entusiasmo por ser sexta-feira que para muitas pessoas é o ultimo dia de trabalho da semana. A expressão Fuckday, utilizada como parte do trocadilho, pode ser desmembrada em Fuck, que significa algo como foda, transa e a outra parte day, dia em português. Assim, ao juntar as expressões, a personagem criou uma nova expressão TGI Fuckday que, traduzida literalmente para o português seria algo como Graças a Deus é dia de transa ou Graças a Deus é dia de foda. Ao ser traduzida para o português como Mas nós sempre transamos na sexta, a expressão perdeu o trocadilho presente na fala em inglês. Isso pode ser explicado pelo fato de que os falantes da língua portuguesa no Brasil não utilizam essa expressão, ainda que alguns a conheçam, pois o restaurante citado acima possui uma filial no Brasil e tem uma considerável fama no país. Outro motivo seria que a expressão fuck tem uma carga de significado um tanto forte e que não poderia ser traduzida com uma expressão que possui carga semelhante por conta da comunidade interpretativa em que a série está inserida. Em outras palavras, uma expressão com um significado de baixo calão não poderia ser utilizada na tradução para legendas em português, pois o público-alvo, ou seja, as famílias brasileiras possuem certa rejeição a tais expressões de baixo calão como já foi visto anteriormente na análise do primeiro caso. Ao analisar a tradução dessa expressão sob uma perspectiva logocêntrica, podese dizer que houve aqui uma adaptação, ou seja, o tradutor optou por procurar uma expressão diferente da língua de partida na língua de chegada por não haver uma expressão “correspondente” na segunda. Já ao analisar essa tradução sob uma perspectiva desconstrutivista, conclui-se que a expressão foi traduzida de forma amena levando em consideração o público que receberá essa legenda. 6. Conclusão Ao realizar essa pesquisa, percebe-se que há realmente questões na teoria tradicional que não dão conta de todo processo tradutório, ou seja, é impossível seguir à risca tudo que essa teoria preconiza. Para isso a desconstrução vem como uma teoria mais realista do processo tradutório, dando mais valor a tradução e ao tradutor que são quase que marginalizados na visão logocêntrica. No entanto, é necessário ter em mente que a desconstrução não visa admitir cegamente tudo em uma tradução, pois pode haver sim o erro da parte do tradutor. O que a desconstrução proporciona é uma desmontagem do processo tradutório para que seja possível analisar mais precisamente o que esse processo implica. Dessa maneira, fica explicitado o que é possível e o que é utópico na produção de uma tradução. Referências ARAÚJO, Vera Lúcia Santiago. Por que não são naturais algumas traduções de clichês produzidas para o meio audiovisual? Revista Tradução & Comunicação, São Paulo, n.10. 2001 ARROJO, Rosemary. Tradução, desconstrução e psicanálise. Rio de janeiro: Imago, 1993. BARBOSA, Heloisa Gonçalves. Procedimentos Técnicos da Tradução: uma nova proposta. Campinas: Pontes, 1990. HOUGH, Ercília Maria. Apostila do curso técnicas de tradução para legendar filmes. São Paulo, 1998. RODRIGUES, Cristina Carneiro. Tradução: a questão da equivalência. Alfa. São Paulo. v. 44, 2000.