UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ
DANIEL ROGERS DE SOUZA FERREIRA
PRAZER COM SEGURANÇA?
AS RELAÇÕES ENTRE MICHÊS E POLÍCIA NUM PONTO DE PROSTITUIÇÃO
DO CENTRO DE FORTALEZA
FORTALEZA – CEARÁ
2011
DANIEL ROGERS DE SOUZA FERREIRA
PRAZER COM SEGURANÇA?
AS RELAÇÕES ENTRE MICHÊS E POLÍCIA NUM PONTO DE PROSTITUIÇÃO DO
CENTRO DE FORTALEZA
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado
Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade do
Centro de Estudos Sociais Aplicados da
Universidade Estadual do Ceará, como requisito
parcial para a obtenção do grau de Mestre em
Políticas Públicas.
Área de concentração: Políticas Publicas
Orientador: Prof. Dr. Geovani Jacó de Freitas
FORTALEZA – CEARÁ
2011
F383p
Ferreira, Daniel Rogers de Souza
Prazer com segurança? – As relações entre
michês e polícia num ponto de prostituição do
centro de Fortaleza/ Daniel Rogers de Souza
Ferreira. — Fortaleza, 2011.
108 p.
Orientador: Prof. Drª. Geovani Jacó de
Freitas.
Dissertação
(Mestrado
Acadêmico
em
Políticas Públicas e Sociedade) – Universidade
Estadual do Ceará. Centro de Estudos Sociais
Aplicados. Área de concentração: Sociologia
1. Sexualidades. 2. Prostituição Viril. 3.
Territórios Marginais. 4. Policiamento. I.
Universidade Estadual do Ceará, Centro de
Estudos Sociais Aplicados.
CDD: 306.74
DANIEL ROGERS DE SOUZA FERREIRA
PRAZER COM SEGURANÇA?
AS RELAÇÕES ENTRE MICHÊS E POLÍCIA NUM PONTO DE PROSTITUIÇÃO DO
CENTRO DE FORTALEZA
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado
Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade do
Centro de Estudos Sociais Aplicados da
Universidade Estadual do Ceará, como requisito
parcial para a obtenção do grau de Mestre em
Políticas Públicas.
Área de concentração: Sociologia.
Aprovada em: 22/02/2011.
BANCA EXAMINADORA
________________________________________________
Prof. Dr. Geovani Jacó de Freitas
Universidade Estadual do Ceará – UECE
________________________________________________
Prof. Dr. Antonio Crístian Saraiva Paiva
Universidade Federal do Ceará - UFC
________________________________________________
Profª. Drª. Maria Glaucíria Mota Brasil
Universidade Estadual do Ceará – UECE
Aos putos.
AGRADECIMENTOS
Aos meus pais.
Aos meus amigos e aliados.
Agradeço ao Carlos Chaym pelo incentivo, torcida e livros emprestados para que eu
pudesse estudar para a prova de seleção do Mestrado.
À Erivaldo Teixeira, pela infinidade de coisas e momentos que dividimos juntos nas
noites e madrugadas do Centro de Fortaleza entre uma e outra escavacação.
À torcida pró-dissertação organizada nas redes sociais da internet, liderados pela
querida Cinthia Fonseca.
Aos grandes incentivadores Mércia Cardoso e Fernando Brito.
Aos meus professores e colegas do Mestrado em Políticas Públicas e Sociedade.
Aos funcionários e bolsistas do MAPPS. Meu carinho especial às Secretárias Fátima
e Cristina.
Aos pesquisadores e bolsistas do Laboratório de Estudo e Pesquisa em Direitos
Humanos, Cidadania e Ética (LabVida) e do Núcleo de Pesquisas sobre
Sexualidade, Gênero e Subjetividade (NUSS).
Ao Capitão da Polícia Militar Alex Ferreira, Supervisor do Núcleo de Policiamento
Comunitário pela disponibilidade em recebermos e pelos encaminhamentos que
possibilitaram a realização desta pesquisa.
À Bruno Lopes que nos auxiliou na condução das entrevistas com os policias do
Programa Ronda do Quarteirão.
Aos policiais que participaram da entrevista coletiva.
Aos michês que estiveram conosco em campo dividindo experiências e garantindo
nossa segurança no ponto de prostituição.
Agradeço especialmente ao meu professor orientador Geovani Jacó de Freitas.
Ao professor Crístian Paiva que contribuiu valiosamente neste processo.
À professora Glaucíria Mota componente da banca de avaliação e que me
acompanha desde a elaboração do meu trabalho de conclusão de curso.
Por fim, agradeço à Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (FUNCAP) pela bolsa a mim concedida durante a realização do meu
Mestrado.
O MICHÊ BICHADO
SONETO 505
Mais serve ao cavalheiro do que à dama.
Mais jovem aparenta que o cliente.
Mais másculo se diz do que se sente.
Quer ser mais que um garoto de programa.
Nem tudo que combina faz na cama.
Se dá não quer. Se come não é quente.
Se chupa não engole. Se o diz, mente.
No par sempre é mamado. No bar, mama.
Seu pênis é mais canto que instrumento.
Seu tênis é maior do que seu pé.
Seu riso é menos gozo que lamento.
Aluga o que não tem e o que não é.
Mas cobra a fantasia e, ciumento,
"Amor!" espera ouvir, pago ao café.
Glauco Mattoso
RESUMO
Esta pesquisa é resultado de um esforço na tentativa de descrever como michês e
policiais se relacionam num ponto de prostituição situado no Centro da Cidade de
Fortaleza. Nossa investigação partiu de uma experiência envolvente no campo de
pesquisa, considerando a existência de um circuito homoerótico que agrega
estabelecimentos comerciais, espaços públicos e resevados, frequentado por
indivíduos praticantes do homoerotismo que circulam pela malha urbana da capital
do Ceará. Nestes locais, as interações afetivo-sexuais abrangem uma gama de
sujeitos dentre os quais homens trabalhadores do sexo. No universo da prostituição
viril, os michês de rua formam o grupo mais exposto à riscos cotidianos em função
da sua exposição na rua. Por entre prédios e quarteirões mal iluminados os
personagens da cena noturna estabelecem entre si relações de poder tensas e
complexas, regidas pelo paradigma do segredo, silêncio e confiança. Nestas
circunstâncias, as situações de conflitos são constantes. A polícia enquanto
instituição pública responsável pela manutenção da paz e segurança atua tanto na
prevenção destes conflitos como na resolução dos mesmos. Por meio da fala destes
agentes e dos garotos de programa é possível desenhar uma teia relacional que se
fundamenta nos princípios da confiança nas sociedades modernas, e é partir delas
que construímos uma narrativa baseada nas experiências de ambos os grupos que
se revelaram através de entrevistas, conversas informais, observação local e
anotações em nosso diário de campo.
Palavras-chave:
Policiamento.
Sexualidades.
Prostituição
Viril.
Territórios
Marginais.
ABSTRACT
This research is result of an effort to describe the way male prostitutes and police
officers relate to each other in prostitution areas located in downtown Fortaleza. This
investigation originated from an involving experience in the field of research,
considering the existence of a homoerotic network that entails business places,
public and reserved spaces, usually by individuals that practice homoerotism and
circulate in the urban areas of Ceará’s capital. On these places, sexual interactions
involve a great variety of individuals, among which it is possible to find sex
professionals. In the universe of male prostitution, the street male prostitutes form the
most exposed group to daily risks due to their exposure in the streets. Between
buildings and poorly lit blocks the characters of the night scene establish among
themselves tense and complex power relations, ruled by the paradigm of secret,
silence and trust. Under the circumstances, the conflict situations are constant. The
police, as a public institution responsible for peacekeeping and safety, act both in the
prevention of these conflicts as well as solving them. Based on testimonies from
these agents and from the male prostitutes it is possible to draw a relational web
based on the principles of trust of modern societies, and it is from these webs that
the narrative is built; based on the experiences of both groups revealed through
interviews, informal conversations, local observation and annotations in the field
diary.
Keywords: Sexualities. Male Prostitution. Marginal Territories. Police Action.
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1
Detalhe da programação da sauna Califórnia.........................................
39
FIGURA 2
Porta do banheiro do Cine Betão..............................................................
40
Contato 3C Contato com garoto de programa via MSN..................................................
FIGURA
41
FIGURA 4
Anúncios de garotos de programa em jornal...............................................
42
FIGURA 5
Site de acompanhantes...............................................................................
42
FIGURASala
6
Sala de Bate-papo do site UOL...................................................................
43
FIGURA 7
Ponto de prostituição masculina de rua no Centro......................................
44
FIGURA 8
Circuito homoerótico do Centro...................................................................
51
FIGURA 9
Praça do BNB..............................................................................................
52
FIGURA 10
Entrada de um “cinemão”............................................................................
53
FIGURA 11
Parte interior de um cine pornô.................................................................... 54
FIGURA 12
Cabine.......................................................................................................... 55
FIGURA 13
Rua Assunção, onde localiza-se o “complexo de cinemas”........................
56
FIGURA 14
Visão geral do “complexo de cinemas”........................................................
57
FIGURA 15
Entrada do Motel Plaza, na esquina o Charm Motel...................................
58
FIGURA 16
Calçada do Mega Lanches, próximo aos Táxis fica o Disney Lanches......
59
FIGURA 17
Esquina do ponto de prostituição pela manhã.............................................
61
FIGURA 18
Ponto à noite................................................................................................
61
FIGURA 19
Entrada do Cine Secret pela manhã............................................................
62
FIGURA 20
Entrada do Cine Secret ao lado do templo evangélico................................
63
FIGURA 21
Fachada do templo......................................................................................
63
FIGURA 22
Mega Lanches pela manhã.........................................................................
64
FIGURA 23
Disney Lanches...........................................................................................
64
FIGURA 24
Visão aérea do ponto de prostituição destacado em vermelho...................
65
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS
ABGLT
BNB
CBO
CIOPS
CEJA
GLBTT
GLTB
GRAB
ILGA
INAMPS
LABVIDA
LGBT
MEC
NUSS
ONG
ONU
PLC
PNDH II
PNPCDH
SEDH
UECE
Associação Brasileira de Gays Lésbicas e Travestis
Banco do Nordeste do Brasil
Classificação Brasileira de Ocupações
Centro Integrado de Operações de Segurança
Centro de Educação de Jovens e Adultos
Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais
Gays, Lésbicas, Transgêneros e Bissexuais
Grupo de Resistência Asa Branca
International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex Association
Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social
Laboratório de Estudo e Pesquisa em Direitos Humanos, Cidadania e
Ética
Lésbicas, Gays, Bissexuais Travestis e Transgêneros
Ministério da Educação
Núcleo de Pesquisas sobre Sexualidade, Gênero e Subjetividade
Organização Não-Governamental
Organização das Nações Unidas
Projeto de Lei da Câmara
Programa Nacional dos Direitos Humanos II
Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos
Secretaria Especial dos Direitos Humanos
Universidade Estadual do Ceará
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO..............................................................................................
Cidadania sexual e a questão das sexualidades dissidentes: entre
deslocamentos para o centro e permanência nas margens..........................
Transgredir para desconstruir: a movimentação homossexual no
Brasil..............................................................................................................
O momento da cidadania..............................................................................
Políticas de visibilidade internacional versus práticas de invisibilidade
regional..........................................................................................................
11
2
2.1
2.2
2.3
POR ENTRE PRÉDIOS E ESQUINAS: OS PERCURSOS DA PESQUISA
Centro da cidade: identificação e descobertas.............................................
Chegando junto no pedaço...........................................................................
Homens de aluguel: considerações sobre prostitutos e prostituições..........
23
23
27
33
3
3.1
3.2
3.3
3.4
3.5
3.6
3.7
O SEXO E A CIDADE: CONHECENDO O TERRITÓRIO
HOMOERÓTICO DO CENTRO DE FORTALEZA........................................
Fazendo pista: quando campo é o asfalto.....................................................
Das praças
No escurinho do cines pornôs: onde o sexo é a melhor diversão ...............
Dos motéis.....................................................................................................
Dos Bares: Boêmia e prazer no Centro.........................................................
A esquina dos doces prazeres......................................................................
À noite todos os gatos são pardos?..............................................................
47
47
51
53
58
58
60
65
4
SEGURANÇA, SEGREDO E SIGILO...........................................................
74
4.1
4.2
4.3
4.4
4.5
Pactos de lealdade: o silêncio como proteção..............................................
Se essa rua fosse minha: ordem e conflito nas esquinas.............................
Governo, território e polícia: espaço urbano e gestão das populações........
Atividade policial em questão: entre recusas e reconsiderações..................
Uma questão de confiança: populações marginais e abordagem policial no
centro.............................................................................................................
74
77
82
84
5
CONSIDERAÇÕES FINAIS..........................................................................
97
ANEXOS.......................................................................................................
109
1
1.1
1.2
1.3
1.4
13
13
16
19
88
11
1 INTRODUÇÃO
1.1 Cidadania sexual e a questão das sexualidades dissidentes: entre
deslocamentos para o centro e permanência nas margens
O debate em torno das políticas em relação às questões da esfera sexual
tem reverberado de forma contundente na atualidade. Alguns acontecimentos em
torno da questão no cenário internacional têm repercutido em nosso país, seja por
conta da proximidade geográfica e/ou política. Portugal e Argentina aprovaram o
casamento entre pessoas do mesmo sexo foi este ano; outro caso relevante é o
papel de destaque que o Brasil está desempenhando para salvar a iraniana Sakineh
Ashtiani condenada à pena de morte em virtude da acusação de adultério1.
A “hipervisibilidade” do sexo na política se dá num movimento em que
dissidentes sexuais se locomovem para os espaços de enfrentamento às práticas de
preconceito e discriminação. Dissidência sexual, neste contexto, refere-se a
atividades, preferências, identidades ou orientação sexual que se contrapõem à
ordem heterossexual. Estes, quando organizados, trazem as reivindicações a partir
das demandas dos sujeitos e entidades relacionados ao movimento de Lésbicas,
Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros – LGBT, para as arenas de disputa
frente ao Estado.
Hoje estamos abertamente engajados/as com representação política, a
visibilidade pública e a produção de novas leis do sexo. Como estamos
muito mais próximos/as dos poderes constituídos (e visíveis), cabe, sem
dúvida, analisar essas dinâmicas com instrumentos convencionais da
ciência política, os quais privilegiam o exame das forças visíveis, interesses
e barganhas. (CÔRREA, 2007, p.20)
Weeks (1998) ao tratar da questão da constituição do cidadão sexual na
sociedade contemporânea, destaca que este processo conta com a contribuição
No Irã, a lei estabelece que a homossexualidade seja punida com chibatadas, e até mesmo com a
pena de morte por meio do enforcamento ou apedrejamento. Segundo relatório da International
Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex Association (ILGA), outros países também condenam o
comportamento homossexual com medidas que vão da prisão à pena capital. De acordo com o
documento “Homofobia de Estado” (2010) elaborado por esta organização, 76 países possuem
legislação anti-homossexual.
1
12
significativa dos movimentos feminista e de gays e lésbicas. Ambos possuem dois
momentos característicos distintos: o momento da transgressão, e o momento da
cidadania.
The moment of transgression is characterized by the constant invention and
reinvention of news senses of the self, and new challenges to the inherited
institutions and traditions that hitherto had excluded these new subjects […]
the moment of citizenship: the claim to equal protection of the law to equal
rights in employment, parenting, social status, access to welfare provision,
and partnership rights, or even marriage, for same-sex couples. (WEEKS,
2
1998, p. 37)
Fazendo jus a esta consideração, constatamos que os primeiros grupos
de defesa de direitos dos homossexuais da Europa organizavam-se em torno de
uma contraposição ao saber científico construído em torno da ideia da personagem
homossexual e do homossexualismo no século XIX3.
Estas
homossexual
um
organizações,
caráter
mesmo
patológico,
creditando
utilizavam-se
do
ao
comportamento
argumento
que
o
homossexualismo se tratava de uma anomalia incurável e inofensiva. Por este
motivo, reivindicavam que os homossexuais fossem deixados em paz e que a
população fosse esclarecida a respeito. A luta de muitos destes grupos era contra a
criminalização da homossexualidade, punida em vários países europeus4.
Posteriormente, em virtude da ascensão dos regimes totalitários (tais
como o Nazismo5, Fascismo e Stalinismo na Europa), os grupos de defesa dos
direitos homossexuais foram perseguidos e extintos. No caso russo, foi reintroduzida
a punição à homossexualidade que havia sido extinta no governo bolchevique, após
a Revolução de 1917.
Estes eventos vão caracterizar o que classificamos como o primeiro
momento de ascensão e declínio do movimento homossexual no mundo. Este, que
2
O momento da transgressão é caracterizado pela constante invenção e reinvenção de novos
sentidos sobre si, e os novos desafios para as instituições herdeiras e tradições que até então haviam
excluído esses novos sujeitos (...) o momento da cidadania: a reivindicação pela igual proteção da lei
e por direitos iguais no trabalho, no parentesco, status social, acesso aos benefícios previdenciários e
direitos dos parceiros, ou ainda, para casais do mesmo sexo. (WEEKS, 1998, tradução nossa).
3
Foucault (1993) faz uma análise do que ele denomina de scientia sexualis e descreve como
esta produz verdades sobre o sexo por intermédio do discurso médico científico.
4
Uma destas mobilizações foi a campanha contra o artigo 175 do Código Penal alemão, que punia
as práticas homoeróticas Fry; Mac Rae (1985).
5
Durante o Nazismo, houve um aumento das condenações relativas à infração do artigo 175. Os
homossexuais condenados eram enviados aos campos de concentração, e identificados com um
triângulo rosa, que é atualmente um dos símbolos do movimento LGBTT.
13
se inicia no final do século XIX, e vai até o seu desmantelamento nas primeiras
décadas do século XX.
Outro momento de ascensão e visibilidade da causa homossexual, e
provavelmente, o mais significativo para o movimento LGBT no século passado, foi o
“Levante de Stonewall”. Ocorrido em de junho de 1969, na cidade de Nova Iorque,
foi uma reação contra as investidas policiais nos bares de Greenwich Village. Na
noite do dia 28, os frequentadores do bar Stonewall Inn enfrentaram os policiais, e
assim continuaram por quatro dias seguidos.
No ano seguinte, na mesma data, grupos de homossexuais de diversos
locais dos Estados Unidos dirigiram-se a Nova Iorque, e lá realizaram uma marcha
pelas ruas da cidade a fim de lutar pela defesa de seus direitos. Após o episódio, o
dia 28 foi instituído como o Dia do Orgulho Gay, sendo lembrados todos os anos ao
redor do mundo nas atuais paradas realizadas por grupos LGBTs.
Importante marco neste momento de transgressão (WEEKS, 1998), foi
quando
a
Associação
Americana
de
Psiquiatria,
em
1973,
removeu
a
homossexualidade do seu Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais;
ação semelhante foi tomada pela Associação Americana de Psicologia em 1975.
Abriam-se, desta forma, nos Estados Unidos, terreno propício para que
fossem abertos espaços para as reivindicações de segunda ordem, as do momento
de cidadania. No caso do Brasil, uma conjuntura diferenciada faz com que essas
conquistas se deem num ritmo menos avançado. Estávamos imersos em regime
ditatorial desde 1964, o que dificultava qualquer tentativa de organização social
naquele momento.
1.2 Transgredir para desconstruir: a movimentação homossexual no Brasil
Em nosso País, a luta pelos direitos homossexuais também passou pelo
momento de tentativa de desconstrução das ideias difundidas na sociedade sobre a
figura do homossexual segundo o discurso médico. Vale lembrar, que nas primeiras
décadas do século XIX, o Brasil foi palco de uma crescente intervenção dos
médicos, juristas e criminologistas em questões sociais que abrangiam desde a
14
fundação “higiênica” da mulher na família até a relação entre raça e crime6 (GREEN,
2000).
De uma perspectiva bastante ampla, podemos considerar os modernos
movimentos LGBT produtos de um processo complexo de reapropriação de
reelaboração da noção de “homossexual” estabelecida primordialmente, no
campo das teorias biomédicas do século XIX. (SIMÕES; FACCHINI, 2009,
p. 37)
O fim da ditadura no Brasil contribuiu para que os primeiros grupos de
homossexuais, influenciados pelos ideais disseminados nos Estados Unidos e na
Europa, por conta da ebulição política e cultural da década de 1960 e pelas
experiências vivenciadas por alguns exilados pelo regime, pudessem dar início a sua
organização7.
Aberto este campo de possibilidade, um grupo de intelectuais do Rio de
Janeiro e São Paulo passou a se reunir com o objetivo de constituir um espaço de
discussão sobre a questão da homossexualidade.
Dois acontecimentos são considerados como o marcos do surgimento do
Movimento Homossexual no Brasil neste período: O lançamento do número 0 do
Jornal O Lampião da Esquina (1978), no Rio de Janeiro e a organização do Somos8
– Grupo de Afirmação Homossexual (1979), em São Paulo, em meio o processo de
abertura democrática.
Importante salientar o caráter “afirmativo” inserido na dinâmica da
organização. Como já preconizava Hocquenghen9 (1980), segundo o qual existe
uma cumplicidade relativa ao objeto a partir do momento em que a “bicha”
pressionada se reconhece homossexual e passa a ocupar seu lugar. No
entendimento de Foucault,
GREEN (2000), TREVISAN (2000) Descrevem a perseguição sofrida pelos homossexuais nos
principais centros urbanos do Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo) pelos institutos de medicina
criminal que buscavam criar um método eficiente de identificação destes desviantes, a fim de
garantir o controle e repressão de suas atividades sexuais consideradas impróprias e antissociais.
Sob o pressuposto da degeneração física/mental, homossexuais foram submetidos à tratamentos
médicos e internação diversos, dentre os quais a consulvoterapia, o eletrochoque e a internação.
7
Isso não quer dizer que anteriormente a este processo, os homossexuais brasileiros não se
organizassem entre si, exemplo disso foi a publicação do Jornal o Snob na cidade do Rio de
Janeiro, que mesmo afirmando não possuir pretensões políticas, divulgou em seus editorias
notícias sobre a Guerra do Vietnã, as manifestações em Paris, o movimento hippie, e as
manifestações estudantis Green (2000).
8
Homenagem à publicação de vida curta editada pela Frente de Liberação Homossexual Argentina,
extinta em 1976, pela ditadura de seu país Green (2000).
9
Militante na década da Frente de Ação Homossexual Revolucionária da França, durante os anos 60.
6
15
Os movimentos ditos de liberação sexual devem ser compreendidos como
movimentos de afirmação da sexualidade. Isso significa duas coisas: são
movimentos que partem da sexualidade, do dispositivo da sexualidade no
interior do qual estamos, que o fazem funcionar até o limite, mas ao mesmo
tempo, se deslocam nele, em relação a ele, dele se libertam e ultrapassam.
(apud ERIBON, 1996, p. 166).
Das primeiras mobilizações destes grupos, inseridas na ideia do momento de
transgressão descrito por Weeks, destacamos a campanha contra a repressão
policial em São Paulo10, e a retirada da homossexualidade do Código de
Classificação de Doenças do Instituto Nacional de Assistência Médica da
Previdência Social (INAMPS)11.
Na década de 1980, sob o impacto do advento da Aids, abre-se um novo
patamar nas relações entre as organizações do movimento homossexual brasileiro e
o poder público. Num primeiro momento, a vinculação entre a infecção por HIV e o
comportamento homoerótico deu forças a manifestações de intolerância e
preconceito.
Os primeiros grupos homossexuais haviam passado por momentos de
crise interna, alguns foram aos poucos se desarticulando e outros se extinguiram por
conta de divergências políticas Green (2000), Trevisan (2000). A epidemia foi
veiculada na mídia como peste gay, devido à incidência dos primeiros casos nas
comunidades gays norte-americanas.
Segundo Spencer (1999), as respostas governamentais não respondiam
à altura às demandas dos principais atingidos pela doença, o que impulsionou a
auto-organização dos grupos nos Estados Unidos.
O Grupo Terrence Higgins, fundado no final de 1982, em memória do
primeiro britânico a morrer de Aids, organizou a primeira conferência
nacional sobre o assunto em 1984. Um ano depois, obtiveram os primeiros
recursos públicos para a causa (WEEKS apud SPENCER, 1999, p. 359).
No Brasil, aconteceu de forma semelhante: em São Paulo, a pensão da
travesti Brenda Lee passou a abrigar travestis infectados e doentes de Aids. No
Ceará, o Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) promoveu ações de
Resposta do movimento a operação de “limpeza” do centro da cidade promovida pelo delegado de
polícia José Wilson Richetti FRY; MACRAE (1983).
11
Desde 1993, a Organização Mundial de Saúde que desconsidera a homossexualidade como
doença. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina teve a mesma iniciativa antes, em 1985. Já
em 1999, o Conselho Federal de Psicologia em sua resolução de 01/99 proibiu os psicólogos de
colaborar em eventos ou prestar serviços com intuito de tratar e/ou curar homossexuais.
10
16
solidariedade para portadores de HIV e internos do Hospital São José12, conforme
analisa Rogers (2003). De acordo com Santos (2007, p. 126), no inicio, “as ações
desses grupos visavam a um trabalho assistencialista – a doação de cestas básicas,
roupas e remédios e organização de eventos para angariar fundos para o socorro às
vítimas da doença”.
Paralelamente, os grupos pressionavam os órgãos governamentais em
virtude das suas demandas. O momento da cidadania vai se constituindo durante
este processo, que se fortalece nos anos 1990 com a proximidade mais efetiva das
organizações do movimento homossexual e os governos13. De acordo com Teixeira
(2003), abria-se espaço para a participação da sociedade civil na atuação conjunta
de cogestão e proposição de políticas públicas. A exemplo disso, no Estado de São
Paulo, a Secretaria de Saúde organizou um Programa de DST/Aids a partir de uma
reunião com lideranças homossexuais, no ano de 1983.
1.3 O momento da cidadania
O processo de construção da cidadania homossexual no Brasil atinge
outro patamar com o advento dos anos 1990 devido ao movimento de
institucionalização dos grupos. Ao assumir o formato de Organizações NãoGovernamentais (ONGs), proporcionou-se uma relação diferenciada com as
entidades do governo, o que permitiu que fossem destinadas verbas públicas às
ONGs para que estas desenvolvessem projetos destinados às populações LGBTs.
Trevisan (2002) afirma que os anos 1990 presenciaram um verdadeiro
“boom guei”. Devido a um aumento da visibilidade destas instituições por conta da
ascensão do mercado GLS e crescimento do número de paradas alusivas ao dia 28
de junho.
A Associação Brasileira de Gays Lésbicas e Travestis (ABGLT) é criada
em 1995, com objetivo de buscar implementar políticas públicas e coordenar ações
em todo País. Neste mesmo ano, a Deputada Federal Marta Suplicy apresentou ao
Unidade de saúde referência no tratamento de Aids.
FACCHINI (2005) classifica este momento como a terceira onda do movimento homossexual no
Brasil, sendo a primeira caracterizada pelo fim do regime militar, e surgimento dos primeiros grupos
organizados, e a segunda se dá no período de enfrentamento da epidemia de Aids que abre caminho
para o processo de institucionalização do movimento.
12
13
17
Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 1.151-A/199514, que “Disciplina a união civil
entre pessoas do mesmo sexo e dá outras providências”, que desde então sofre
forte resistência de setores mais conservadores da sociedade, por conta dos
pânicos morais que suscita (MISKOLCI, 2007).
Já em 1999, no Estado de São Paulo, foi criado o Fórum Paulista de
Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros, e no Rio de Janeiro, a Secretaria de
Segurança Pública, inaugurou o Disque-Denúncia Homossexual, e o Centro de
Acompanhamento de Crimes e Discriminação contra Homossexual. Também no
mesmo ano, foi realizado o Seminário Nacional de Cidadania Homossexual, no
Auditório da Câmara Federal, em Brasília.
Em maio de 2002, a segunda edição do Programa Nacional dos Direitos
Humanos (PNDH II), incluiu dentre suas propostas medidas de proteção aos direitos
humanos de gays e lésbicas. Em junho de 2003, é realizado o Seminário Nacional
de Políticas Afirmativas e Direitos da Comunidade GLBTT, que deliberou, dentre
outras coisas, a criação da Frente Parlamentar de Livre Expressão Sexual, lançada
no dia oito de outubro do mesmo ano, no salão nobre da Câmara dos Deputados.
Uma das ações propostas pelo PNDH II foi a elaboração de um Plano de
Combate à Discriminação contra Homossexuais. Em cumprimento a esta ação, o
Governo Federal, em articulação com a Sociedade Civil Organizada, lançou, em
2004, o Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB (Gays,
Lésbicas, Transgêneros e Bissexuais) e de Promoção da Cidadania de
Homossexuais “Brasil Sem Homofobia”, através da Secretaria Especial dos Direitos
Humanos (SEDH), com o objetivo de promover a cidadania de gays, lésbicas,
travestis, transgêneros e bissexuais, a partir da equiparação de direitos e do
combate à violência e discriminação homofóbicas, respeitando a especificidade de
cada um desses grupos populacionais.
Outro projeto lei de relevância para o movimento LGBTT organizado foi
apresentado na Câmara Federal, em 2001: o Projeto 5001/01, de autoria da
Deputada Iara Bernardi, equipara a discriminação às pessoas que vivenciam a
14
Em tramitação desde 1995 na Câmara dos Deputados, teve relatoria do Deputado Roberto
Jefferson, que apresentou um substitutivo, alterando alguns pontos do projeto, instituindo
a parceria civil registrada entre pessoas do mesmo sexo. As discussões resultaram na proposição
do projeto de lei nº 5.252, de 2001, instituindo o Pacto de Solidariedade, este último, foi arquivado
em 2003.
18
homossexualidade ao racismo. Ao chegar ao Senado, recebeu outra identificação,
sendo atualmente conhecido como Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/06.
Em junho de 2008, na cidade de Brasília, foi realizada I Conferência
GLBT do País, com o tema “Direitos Humanos e políticas públicas: o caminho para
garantir a cidadania de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais”. Como
resultado das discussões, foi elaborado o Plano Nacional de Promoção da
Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transexuais (PNPCDH-LGBT). O mesmo tem por objetivo orientar a construção de
políticas públicas de inclusão social e de combate às desigualdades para a
população LGBT, primando pela intersetorialidade e transversalidade na proposição
e implementação dessas políticas.
No dia 13 de outubro de 2009, por meio de decreto n° 6.980, foi criada a
Coordenação Geral de Promoção dos Direitos de LGBT (vinculada à SEDH do
Governo Federal), responsável, entre outras ações, pela articulação junto aos 18
Ministérios cujas pastas possuem ações previstas para execução no âmbito do
PNPCDH-LGBT.
Ainda neste mesmo ano, o (PNDH-3) estabeleceu em suas diretrizes e
objetivos o apoio aos projetos de lei de União Civil entre pessoas do mesmo sexo e
do direito à adoção por homoafetivos e prevê a inclusão no sistema de informações
do serviço público de todas as configurações familiares.
Contudo, as últimas eleições para Presidente foram palco para polêmicas
em torno do plano, no que diz respeito, principalmente, às questões relacionadas
aos direitos sexuais e reprodutivos que contemplam demandas do movimento de
mulheres e LGBT, tais como o aborto e os apresentados acima. No decorrer da
campanha, as principais candidaturas se organizaram em tranquilizar seus eleitores
firmando pactos e acordos com setores conservadores.
O primeiro ano de governo da Presidenta Dilma Rousseff começou
bastante conturbado na relação com as questões da causa LGBT. Em maio de
2011, convocou a II Conferência Nacional LGBT a ser realizada em Brasília no mês
de dezembro. Logo após, em menos de uma semana, vetou o kit anti-homofobia
que seria que seria distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) a 6 mil escolas do
Ensino Médio cujo objetivo era o de contribuir na discussão sobre diversidade sexual
e o combate ao preconceito. Em sua fala, a Presidenta justificou a decisão
afirmando que em seu governo não faria “propaganda de opções sexuais”.
19
Por outro lado, no início do mês de maio do mesmo ano, o Supremo
Tribunal Federal havia decidido, por unanimidade, reconhecer as uniões
homoafetivas no Brasil. Recentemente, a atual relatora da PLC 122, a Senadora
Marta Suplicy, publicizou em nota oficial que, apesar da notícia de que o Projeto
teria sido arquivado, que o mesmo continua em tramitação no Senado. No mesmo
texto, informou que está trabalhando novo projeto com o acompanhamento do
presidente da ABGLT, Toni Reis, por considerar que dificilmente o projeto original,
que visa criminalizar a homofobia, seja aprovado, em virtude do processo de
“demonização” que sofreu. A estratégia é que o novo projeto seja escrito com a
colaboração de senadores que representam as bancadas evangélica e da família, a
fim de construir um texto que possa ser encaminhado à aprovação.
1.4 Políticas de visibilidade internacional versus práticas de invisibilidade
regional
Os avanços no campo da cidadania homossexual perpassa um plano
mais amplo, uma conjuntura internacional na qual o Brasil está inserido e se alinha.
Diversos fóruns de discussão política colocaram em pauta a questão dos direitos
humanos das populações LGBTs, dos quais podemos elencar alguns marcos.
A Conferência Mundial de Beijing (1995) desponta como o primeiro
momento em que o debate sobre a discriminação por conta da orientação sexual foi
realizado formalmente em um fórum das Nações Unidas15. A discussão foi retomada
na Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e
Formas Conexas de Intolerância, em Durban, na África do Sul (2001).
Durante a organização, na sua etapa preparatória, a Conferência
Regional das Américas (2000), o Brasil levou o tema para ser debatido, onde foi
elaborada a Declaração de Santiago. Neste documento, a discriminação por
orientação sexual é mencionada e exorta os Estados a preveni-la e combatê-la. Na
Conferência Mundial, a inclusão de um parágrafo sobre a discriminação sexual
proposta pelo Brasil não foi aprovada.
15
Anterior a esta ocasião, em 1993, iniciou-se o debate sobre sexualidade e direitos humanos nos
preparativos da Conferência de População e Desenvolvimento no Cairo (1994), os termos saúde
sexual e direitos sexuais foram incorporados na proposição inicial, sendo que os direito sexuais
foram retirados no texto final (CORRÊA,2007).
20
O processo de discussão dos direitos sexuais apresenta três aspectos
cruciais, em consonância com Corrêa (2009): a evolução vertiginosa; a participação
política de representantes das populações LGBT; e a capilaridade do debate em
outros fóruns, menos visíveis, tais como os comitês de vigilância em direitos
humanos.
Por outro lado, um movimento de contraposição às mudanças na
legislação internacional tem sido encabeçado por países de orientação religiosa
fundamentalista. Este cenário possibilitou a aproximação e o diálogo entre o
Vaticano e organizações islâmicas.
Apesar da resistência ainda ressoante nas esferas de decisão política
internacional, a elaboração e divulgação dos Princípios de Yogyakarta (2006)
representam um avanço na busca de garantia dos direitos das populações LGBT.
Fruto do trabalho de organizações do movimento organizado e uma comissão
internacional de juristas.
Os Princípios de Yogyakarta não são uma declaração de aspirações ou
uma carta de aspirações de direitos. O documento compila e reinterpreta
definições de direitos humanos fundamentais consagrados em tratados,
convenções, resoluções e outros textos internacionais sobre os direitos
humanos, no sentido de aplicá-los a situações de discriminação, estigma e
violência experimentadas por grupos e grupos em razão de sua orientação
sexual e identidade de gênero. A ideia central é que não precisamos
produzir definições específicas para coibir violações e proteger os direitos
humanos dessas pessoas ou grupos. Basta aplicar os princípios gerais da
lei internacional existente que já foi debatida, adotada e ratificada pela
maioria dos países membros da ONU. (CORRÊA, 2007, p.29).
O princípio geral do documento é o direito ao gozo universal dos direitos
humanos. Segundo o texto (2006), todos os seres humanos nascem livres e iguais
em dignidade e direitos. Os seres humanos de todas as orientações sexuais e
identidades de gênero têm o direito de desfrutar plenamente de todos os direitos
humanos.
Recentemente, em Genebra, na Suíça (2011), o Conselho de Direitos Humanos da
ONU aprovou uma resolução que condena a discriminação por conta da orientação
sexual. A votação foi acirrada, contou com 23 votos a favor, 19 votos contra e 3
abstenções. O texto foi apresentado pela África do Sul e sofreu forte oposição de
outros países africanos e de origem islâmica. O Brasil esteve entre o grupo dos que
foram favoráveis à aprovação do texto.
21
Distantes destes espaços de disputa e interlocução há um contingente
significativo de dissidentes sexuais que não reivindica identidade e tampouco
visibilidade política, sujeitos que ocupam os patamares mais inferiores de um
sistema de hierarquia baseado em valores sexuais (RUBIN, 1984). Neste sistema
classificatório, o sexo heterossexual monogâmico, entre marido e mulher, ocupa o
topo da escala. Nos degraus mais inferiores, estão localizados transexuais, travestis,
fetichistas, sadomasoquistas, os que fazem sexo por dinheiro e aqueles que cruzam
as barreiras intergeracionais.
Deste último grupo, lançamos nosso olhar sobre os trabalhadores sexuais
masculinos, especificamente, os prostitutos de rua, também conhecidos como
michês. A partir de nossa pesquisa, buscamos identificar seus locais de atuação e
as dinâmicas relacionais internas e exteriores ao grupo, enfatizando as relações com
a polícia no centro da cidade de Fortaleza.
O grande desafio de nossa pesquisa foi deslocar nosso olhar dos espaços
de visibilidade, disputa e construção de uma agenda política para nos aventurar num
ambiente até então desconhecido como locus de investigação. Este trabalho que
agora apresentamos retrata justamente esse movimento de saída de uma posição
confortável, de um campo familiar rumo ao um espaço onde não se deseja ser visto,
do qual poucos desejam falar.
No capítulo “Por entre prédios e esquinas: o percurso da pesquisa”
descrevemos como a escolha do objeto se relaciona com a biografia do pesquisador
e com as suas escolhas no decorrer da sua trajetória acadêmica. Discorremos sobre
o processo de aproximação no campo e interação com os sujeitos investigados a
partir de um entendimento que estávamos adentrando num jogo relacional.
Classificamos as diversas modalidades de prostituição encontradas no município de
Fortaleza seja em ambientes reais ou virtuais. Relatamos as dificuldades de entrada
no espaço pesquisador, como se deu o contato com a polícia, e por fim
demonstramos como os michês interpretam a questão das relações homoeróticas a
partir de uma reflexão sobre as masculinidades.
No capítulo seguinte “Sexo e a cidade: conhecendo o território
homoerótico de Fortaleza”, aprofundamos a ideia de mercado sexual e construímos
um mapa do desejo homoerótico no Centro da capital cearense. Trabalhamos na
descrição de cada espaço em que se dão encontros de natureza sexual entre
22
homens até chegarmos propriamente no “ponto” de prostituição masculina que
serviu de base para investigação do nosso estudo.
Em “Segurança, segredo e sigilo” discutimos sobre a questão da
organização interna do grupo de michês e suas relações com outros sujeitos e
agrupamentos da cena local. Neste capítulo, evidenciamos a importância que o
segredo tem como forma de proteção do grupo de michês, e como estes buscam
conviver e resolver seus conflitos, sejam eles, internos e externos. Posteriormente,
comentamos sobre como se constituem as relações de poder no campo.
Finalizamos observando o papel da confiança nas relações do mundo moderno, o
que vai influenciar diretamente nos movimentos de interação entre os garotos de
programa com a Polícia Militar, representada pelos agentes do Programa Ronda do
Quarteirão.
Por fim, nas considerações finais resgatamos toda a trajetória da
pesquisa articulando com nossas análises de caráter conclusivo a fim de obter
respostas às indagações que inspiraram este tudo. Ao mesmo tempo em que nos
fazemos atentos as possibilidades de percorrer novos horizontes de investigação.
23
2
POR ENTRE PRÉDIOS E ESQUINAS: OS PERCURSOS DA PESQUISA
2.1 Centro da cidade: identificação e descobertas
Primeiramente, destacamos que o interesse por temas que giram em
torno das sexualidades é algo que se apresenta desde as nossas primeiras
pesquisas na graduação, e está atrelado a um componente, sobretudo biográfico.
Este elemento, de certo, nos serviu como suporte para a realização do trabalho, que
se fundamenta, também, a partir de relatos pessoais e fragmentos da minha história
de vida, conforme anuncia Josso, (1999).
Ao tomar o Centro da cidade de Fortaleza como espaço de referência
para nossa investigação, vale destacar que, desde minha adolescência tenho
percorrido o local pesquisado. O fato de “andar pelo Centro” naquele período, teve
influência significativa no processo de descoberta e interação com outros indivíduos
homossexuais. Entre ruas e encontros anônimos, fui constituindo uma identificação
com lugares e pessoas que por ali passavam.
Minhas idas ao bairro aumentaram significativamente em 1997, quando
comecei a cursar o Supletivo de Segundo Grau, no Centro de Educação de Jovens e
Adultos (CEJA) Gilmar Maia de Sousa, situado na travessa Estefânia Salgado.
Foi a partir dessa presença mais constante que fiz minhas amizades com
outros gays que por ali encontrava. Destaco aqueles que conheci na Locadora
Gurgel Vídeo, que funcionava na Rua Pedro I. Um dos atendentes do
estabelecimento era gay e reunia em torno de si muitos outros, dentre clientes e
amigos. Também pude conhecer o Anistia16, primeiro bar GLS que passei a
frequentar, logo após o horário das aulas do supletivo.
Outro espaço a que costumava ir era a Praça do Banco do Nordeste do
Brasil, ou simplesmente “BNB”. Quando a locadora fechava, por volta das 18h,
íamos até lá, onde juntamente com outros gays, muitos que tinham acabado de sair
O Anistia Bar era um barzinho localizada na Rua 24 de maio, a um quarteirão da Avenida Duque de
Caxias. Aberto de segunda a sábado, aglutinava o público GLS como local de concentração, anterior
a ida para as boates. Posteriormente, ofereceu o mesmo serviço, dispondo de pista de dança e
cobrando pela entrada. A boate Divine, aberta tempo depois, contribuiu para que o público do Centro
migrasse para a nova casa, que até hoje é uma das boates mais conhecidas de Fortaleza,
estigmatizada pela localidade e pelos frequentadores identificados como homossexuais de menor
poder aquisitivo.
16
24
do Cine Majestick17. Lá, conversávamos sobre os acontecimentos do nosso
cotidiano, tendo como um dos principais assuntos como a movimentação no cinema
pornô e como tinha sido os programas realizados pelas travestis que ali também
costumavam passar após um dia de trabalho.
A praça do BNB funciona até hoje como um ambiente de convergência,
aglomeração e passagem para outros recantos que constituem a rede de serviços
presentes nas suas redondezas (leia-se: bares, motéis, “cinemões”, saunas, salões
de beleza, lojas, supermercados etc.). A circulação na praça independe do horário.
Segundo Isabele, uma travesti que faz programas no Cine Majestick, “algumas
bichas chegavam aqui bem mais cedo, até mesmo pela manhã”.
O clima de harmonia presente no ambiente por vezes era rompido por
conta de conflitos internos aos grupos ali presentes. Presenciamos algumas
discussões entre gays, michês, travestis e seus respectivos clientes. Recordo que
sentia medo das travestis, pois ouvia falar que provocavam brigas e jogavam ácido
nas pessoas; dos michês, também, porque conhecidos por roubar seus clientes, e
às vezes, quem passasse na rua.
Com o passar do tempo, no cotidiano das relações, pude desconstruir
essa ideia, acabando por chegar junto das travestis e estabelecer relações mais
próximas. A partir de então, recebia o cuidado do grupo que se manifestava com a
recomendação das mesmas em evitar o contato com determinados sujeitos, e o
trânsito por alguns pontos e estabelecimentos considerados perigosos.
Vale ressaltar que, anterior a este período, em 1995, já havia
perambulado pelo Centro, mas sob outras circunstâncias. Tratava-se do meu
primeiro emprego na filial do Mc Donald’s situada à Rua Barão do Rio Branco. Meu
horário de saída era às 23h. Por conta disso, me deparei por diversas vezes com
sujeitos que transitavam à noite pelas ruas.
No trajeto até o ponto de ônibus, costumava andar rápido, mesmo assim,
não deixava de observar a movimentação dos vigilantes, flanelinhas, catadores de
lixo, e outros personagens noturnos. Foi a partir dessa experiência que tive pela
primeira vez contato com os michês.
Os cines, também denominados de “cinemões”, são salas de exibição de filmes pornográficos
diversificados, em telões e/ou televisores. Alguns funcionam em galpões e casas adaptadas no
Centro. Frequentados geralmente por gays, travestis, e até mesmo mulheres.
17
25
Eu os identificava como aqueles sujeitos que ficavam estacionados nas
esquinas, ou mesmo andando pelas calçadas, exibindo-se aos que passavam de
carro. Usavam roupas curtas e apertadas na tentativa de evidenciar seus corpos, e
assim chamar a atenção de possíveis clientes.
Ao mesmo tempo em que evitava qualquer aproximação com os mesmos,
sentia-me curioso em saber como seria o cotidiano de um garoto de programa. Em
duas ocasiões que considero emblemáticas, pude ter uma ideia mais próxima de
como se dava essa dinâmica.
Certa vez, lembro-me de ter conversado com um homem que saía com
michês. Ele havia conversado comigo e me dado uma carona. Enquanto batíamos
um papo, o mesmo me dizia que os garotos de programa possuem algumas
características bem distintas, tal como modo de falar e um comportamento
masculino bem acentuado.
Numa segunda circunstância, fui junto com um colega observarmos a
movimentação de travestis e michês próximos ao antigo Colégio Marista Cearense.
O que mais me chamou a atenção nessa experiência foi observar a posição que os
garotos de programa buscavam ocupar ao longo dos quarteirões e a forma como se
movimentavam ao perceber que algum veículo se aproximava e estacionava
próximo.
O comportamento dos clientes me passou a impressão de que ao mesmo
momento que os michês eram tidos como objetos de desejo, também eram
considerados elementos perigosos, por conta disso justificava-se o cuidado no
trânsito naquele espaço e na abordagem. Os carros que pude observar davam
muitas voltas em torno dos quarteirões até que parassem afastados dos grupos.
Assim, os michês andavam na direção dos mesmos e por inúmeras vezes
observamos esse vai e vem constante.
Paralelamente a estas incursões no centro da Cidade, estava me
preparando para prestar vestibular na Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Após ser aprovado no curso de Serviço Social, no segundo semestre de 1998, me
afastei do cotidiano do “BNB”, que ainda visitava nos finais de semana, mas de
forma bem pontual.
Na Universidade, por conta do acúmulo de discussões e decorrente do
envolvimento com a política estudantil, passei a estudar questões ligadas ao gênero
e à sexualidade para além da experiência particular. Tanto por meio dos debates no
26
seio do movimento estudantil no Centro Acadêmico Livre de Serviço Social e do
Diretório Central dos Estudantes, estive próximo de vários segmentos organizados
socialmente, dentre os quais o movimento homossexual.
Fruto dessa aproximação e constituição de laços identitários, redigi meu
Trabalho de Conclusão de Curso tendo como objeto de investigação o Grupo de
Resistência Asa Branca, entidade onde prestei serviços como técnico, então já
formado, além de participar de fóruns de participação e organização política do
movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT).
Como ingresso do Mestrado de Políticas Públicas e Sociedade,
apresentei projeto de pesquisa que tinha por objetivo investigar as políticas públicas
de combate à homofobia, na primeira gestão do governo da prefeita Luizianne Lins,
por meio da Coordenadoria de Diversidade Sexual.
No decorrer das orientações em torno do projeto inicial, decidimos por
enfatizar a questão da segurança pública, como também não nos deteríamos mais
às ações do Município. A ideia, a partir de então, era investigar a relação das
polícias no cotidiano das populações LGBTs. No desenvolvimento da pesquisa,
delimitamos nosso foco no que denominamos de homossexualidades marginais:
gays pauperizados, travestis e michês que circulam pelo centro da Cidade.
Fator relevante que influenciou na redefinição dos rumos da investigação
foi a nossa participação no Laboratório de Estudo e Pesquisa em Direitos Humanos,
Cidadania e Ética (LabVida) da UECE, desde a época da graduação, e no Núcleo de
Pesquisas sobre Sexualidade, Gênero e Subjetividade (NUSS), da Universidade
Federal do Ceará (UFC). Neste último, tivemos a oportunidade de participar da
supervisão das pesquisas da X Parada pela Diversidade Sexual: Indicativos sobre
Perfil, Direitos e Contextos de Vulnerabilidade da População LGBTT no Ceará
(2009) e da XI Parada pela Diversidade Sexual: Percepções de Policiais sobre a
Parada e populações LGBTTs (2010) 18.
Mais à frente, por conta da viabilidade da pesquisa, e da possibilidade de
uma inserção mais próxima no território da prostituição masculina, optamos em
subtrair do público investigado as travestis e outros grupos pauperizados. A partir
Ambas as atividades vinculadas ao projeto de pesquisa novos atores, novas demandas: avanços e
recuos na Segurança Pública no Ceará, coordenada pelo Prof. Dr. César Barreira do Laboratório de
Estudos da Violência (LEV) - UFC.
18
27
desta escolha, nos lançamos no universo das pistas, esquinas, paisagens obscuras
do Centro de Fortaleza.
A fim de organizar nossos estudos em torno do objeto a ser investigado,
partimos de uma discussão em torno da ocupação e uso dos espaços da cidade
para, posteriormente, identificar as populações que compõem a cena, destacando o
personagem do michê, seus modos e práticas cotidianas em interação com os
agentes da segurança pública no local.
2.2 Chegando junto no pedaço
No que diz respeito à nossa pesquisa, fica evidente que já existia uma
ideia preliminar em torno do local de concentração dos personagens que
desejávamos investigar. Cabia, por conta da necessidade de tornar possível a
realização do trabalho, definir quais seriam nossas estratégias de inserção no
campo. O conhecimento prévio da área foi um dos fatores que facilitou neste
processo, além da possibilidade de transitar pelo espaço sem chamar tanto a
atenção de quem me visse ou passasse por lá.
Inicialmente, elegemos como local de investigação uma esquina do
quarteirão que provavelmente reúne a maior concentração de cines pornôs da
cidade. Precisamente, o cruzamento das ruas Assunção e Clarindo de Queiroz.
Definido o campo de pesquisa, nos lançamos in loco a fim de realizar uma
observação inicial da cena (CRAPANZANO, 2005). Partimos da observação feita por
Perlongher (2008) de que “não há melhor maneira de estudar o trottoir do que
fazendo o trottoir”.
Esta etapa da pesquisa é o que denominamos de “estudo piloto” ou
“estudo exploratório”, considerada como preparatória do trabalho principal
(HUGHES, 2007). Num primeiro momento, nossa intenção era conhecer o pedaço
(MAGNANI, 1996) e nos aproximar dos michês.
Para além do que se poderia ver e se ouvir, queríamos fazer uso dos
demais sentidos naquele espaço, buscamos ser afetados pelos sujeitos e pelo
campo por meio de uma experiência envolvente, seja pela escuta do que dizem as
pessoas que passavam em seus veículos, pelas luzes dos carros, pelo frio das ruas
à noite, a secura da boca, cheiro de urina nos postes, o medo de estar ali, e o
cansaço das horas em pé. Como já nos era advertido:
28
[...] o estudioso deve passar pelo menos por algum tempo observando-os
em seu hábitat, enquanto desempenham suas atividades comuns. Mas isso
significa que deve, por algum tempo, adotar horários inusitados e penetrar
no que são para eles áreas desconhecidas e possivelmente perigosas da
sociedade. Pode ter de passar a noite acordado e dormir durante o dia,
porque assim fazem as pessoas que estuda, e isso pode ser difícil em razão
de seus compromissos com família e trabalho. (BECKER, 2008, p. 173).
Nestas circunstâncias, os estabelecimentos e serviços que se encontram
ao redor da esquina acabavam funcionando como pontos de apoio que utilizava para
descansar um pouco, lanchar, fazer uso do banheiro, tomar um transporte seguro
para casa, dentre outras coisas.
Consideramos que toda pesquisa de campo se assenta num jogo de
relações (MELUCCI, 2005) entre pesquisador e atores sociais e é permeado por
negociações e acordos que nos interpela a exercitar a capacidade de estabelecer
com nossos informantes vínculos de confiança, valendo-se, sobretudo da empatia.
Como posteriormente foi reforçado: “Você tinha que fazer amizade”. (Edson, em
entrevista concedida no dia 27/01/2011).
Desde a primeira incursão, estava posto o desafio de romper com
resistências, que já esperávamos enfrentar, pois tínhamos noção de que nossa
presença em si não se limitava à observação apenas, pois cada observação é uma
intervenção (IDEM). Da mesma forma que estávamos ali para observar, também
interagimos com a cena. Enquanto buscávamos catalogar sujeitos a partir de suas
práticas, sofríamos o mesmo processo por parte daqueles que se faziam ali
presentes.
Tarde da noite, por volta das 23h, me dirigi à esquina da Rua Assunção com
Clarindo de Queiroz. Antes, disso passei em frente aos “cinemões”,
dispostos enfileirados no quarteirão. (...) Andando de uma esquina a outra,
resolvi parar encostado numa placa de trânsito. Costas e pé direito apoiado
no poste, assim como eu imaginava que os michês faziam. Fui vestido de
maneira simples: bermudas, camiseta e chinelos. Um rapaz se aproximou
de mim e perguntou se eu estava fazendo programa, e caso estivesse
fazendo, não poderia ficar ali, pois o dono do “cinemões” não permitia.
(Trecho de Diário de Campo).
Para justificar minha presença no local, quando “Beto” (nosso primeiro
interlocutor) me perguntou o que fazia ali, respondi simplesmente que gostava da
noite e de conhecer pessoas e lugares diferentes. Ainda acrescentei que tinha
intenção de saber como era o cotidiano dos michês devido a uma experiência
anterior no trabalho de prevenção de DSTs/Aids numa ONG. Planejávamos, por
29
meio desses primeiros contatos, eleger aqueles que poderiam nos conceder
entrevistas na próxima etapa da pesquisa.
A facilidade de me fazer presente ali tinha o seu revés. Ainda acerca de
minha identidade em campo, não pude escapar dos questionamentos sobre quem
eu era e o que estava buscando. Vez ou outra, surgia novamente a necessidade de
responder a respeito e me posicionar diante alguém ou “ser posicionado”, isso logo
na primeira noite:
Enquanto conversávamos, um rapaz passou e puxou papo, percebi que
Beto não estava à vontade com aquilo, e pediu que o outro fosse embora.
Quando questionou quem eu era, disse ao passante que eu “fazia de vez
em quando”, que contra-argumentou que eu “não tinha cara”. (Trecho de
Diário de Campo).
Mesmo sem “cara” de michê, em algumas ocasiões havia quem
perguntasse sobre programas, em outras havia quem me encarasse como potencial
cliente.
O motorista desligou o motor, baixou os vidros e me chamou. Fui até lá. De
dentro do carro, o homem perguntou onde eu morava, se eu trabalhava ali.
Eu disse que estava dando uma volta e não fazia programas. (...) Num dos
retornos à outra esquina, fui novamente abordado por um cliente potencial,
na ocasião, um casal numa moto. O homem que dirigia acompanhado de
uma mulher na garupa, perguntou se eu fazia programa. Respondi que não
e apontei para o Edson e disse que ele fazia. (...) Na volta para o “ponto”,
passei pelo senhor e percebi que me olhava, na ocasião, levantou-se
novamente, com uma mão entre as pernas. Trocamos um “tudo bem” ele
disse que estava “vendo o que rola”. (Trechos de Diário de Campo).
A condição para que eu estivesse no campo estava garantida, até então,
no ato de “fazer amizade”, mesmo assim, como pude descobrir, a posteriori, a minha
permanência segura dependia de outras circunstâncias também. Não se tratava de
uma garantia com qual eu poderia contar sem que tomasse devidas posturas.
Fora este problema, outro fator implicou numa dificuldade para que eu
realizasse as entrevistas com aqueles com que eu me propús. A revelação de que
estava fazendo uma pesquisa fez com que um dos interlocutores com o qual eu tive
um contato mais próximo, de uma hora para outra mudasse o tom comigo. Às vezes
que tentei ligar para marcar uma conversa com Beto, recebi alegativas inúmeras que
impossibilitariam a sua realização e por mais que apontasse alternativas de horário,
a resistência se repetia.
Até mesmo em relação a Edson (21 anos, branco, “homem”,
desempregado, começou a fazer programas aos 19 anos por indicação de uma
30
amiga travesti que o apresentou a um homem que pagou para passar a noite com
ele); o primeiro michê que consegui entrevistar, houve um período de “sumiço” que
me fez repensar meu trabalho e retornar ao campo a fim de tentar convencer outros
de falarem comigo em outro momento. O “sumiço” caracterizava-se pela dificuldade
de reestabelecer contato em função das chamadas que não eram atendidas, pelo
celular desligado, e até mesmo na ausência constante no ponto.
Em um destes retornos, entrei em contato com mais dois michês. Desta
vez, já expunha a condição de pesquisador. Na ocasião, peguei o contato telefônico
de ambos, dos quais, um me passou um número de celular que não recebia
ligações. Eu mesmo já desconfiava que isso pudesse acontecer, pois já havia
conversado com o rapaz em questão e ele me passou informações desencontradas.
Havia modificado o nome e bairro onde morava em relação à primeira vez que
conversamos. O outro era conhecido meu, Herlon (45 anos, negro, bissexual,
trabalhava num supermercado, começou a fazer programa entre os 17 e 18 anos,
desde a época que namorou uma travesti), se dispôs a contribuir com a pesquisa,
como de fato fez.
Já havíamos entrevistado Edson em sua casa por duas vezes, ele me
relatou que tinha tentado convencer que outros colegas conversassem comigo, mas
todos resistiram, tal como Beto que fora apontado por ele como chefe do grupo, e
outro que no caminho para sua residência pediu que me fosse avisado que um
parente havia falecido. Já Herlon foi entrevistado na ONG em que presta serviços
Diferentemente do contato com os michês, o diálogo com a polícia deu-se
através
de
aproximação
por
intermédio
de
mecanismos
formais.
Este
encaminhamento partiu em virtude da dificuldade de interpelar os agentes da
segurança pública in loco, no horário de suas atividades de trabalho, como pelo
estranhamento que a presença dos mesmos desperta nos outros personagens da
cena.
Primeiramente, definimos que iríamos concentrar nossa investigação ao
agrupamento de policiais pertencentes ao Programa Ronda do Quarteirão, tendo em
vista que uma de suas características é a permanência na mesma área de atuação.
Portanto, acreditamos que teriam mais elementos para descrever as relações que
estabeleciam com os garotos de programa que trabalhavam no nosso locus de
pesquisa.
31
Encaminhamos um ofício ao Comandante do Batalhão de Polícia
Comunitária através do LabVida, Laboratório vinculado ao Mestrado Acadêmico de
Políticas Públicas e Sociedade, solicitando que nos fosse permitido identificar e
entrevistar
policiais
responsáveis
pelo
patrulhamento
que
cobre
a
área
correspondente ao ponto de prostituição. Depois de mais ou menos um mês,
recebemos uma resposta positiva, e a requisição de que fosse encaminhado ao
Supervisor do Núcleo de Policiamento Comunitário o tema da pesquisa e as
perguntas que seriam realizadas.
A partir do encaminhamento da solicitação feita pelo Comando, passamos
a nos comunicar com o policial Capitão responsável, por meio de telefonemas.
Marcamos uma conversa no 5º Batalhão da Polícia Militar do Estado do Ceará
mediante a qual esclareci os objetivos da pesquisa e definimos os detalhes da
entrevista.
Ficou acertado que os policiais dos turnos B e C (correspondente ao
intervalo de tempo que vai das 14 às 6h00 da manhã) que atuam na área fossem
entrevistados coletivamente numa data a ser agendada pelo Capitão. Nesse
processo, convidei outro pesquisador do LabVida para que me auxiliasse na
condução da conversa, já que este havia realizado um trabalho junto aos policiais do
Programa. No dia marcado, entrevistamos seis homens numa das salas do 5º
Batalhão. Na ocasião, foi esclarecido ao grupo o teor da pesquisa e nossa
preocupação em resguardar o sigilo dos mesmos, tanto que reforçamos a ideia ao
não pedir aos policiais quaisquer dados que pudessem identificá-los.
Essa estratégia foi eleita porque a outra sugestão colocada pelo Capitão
foi que eu tomasse nota dos telefones dos policiais, e individualmente tentasse
marcar com cada um deles um dia e horário específico para entrevista, o que nos
demandaria um trabalho maior. Da forma como encaminhamos, os entrevistados em
questão foram convocados pelo Comando, o que nos poupou de trabalhar com eles
um processo de convencimento.
Para ambos os grupos, michês e policiais, tanto na elaboração dos
instrumentais quanto na condução das perguntas aos nossos entrevistados,
buscamos enfatizar não o porquê das coisas e acontecimentos, mas o como se
davam os processos e fatos por eles relatados (BECKER, 2008).
32
Reconhecemos o risco de tender adotar um dos pontos de vista
(BECKER, 2010). Portanto, em determinado momento, buscamos dar ouvidos á
outras vozes, visto que atividade engloba a ação de outras pessoas.
É da natureza do fenômeno do desvio que a dificuldade que qualquer
pessoa encontra para estudar os dois lados do processo e captar
precisamente as perspectivas de ambas as classes de participantes,
infratores e impositores de regras. (BECKER, 2008, p.175).
No decorrer do trabalho em campo, tivemos contato com outros sujeitos
da cena noturna que interferiam diretamente na dinâmica local. Destes, destacamos
o dono dos “cinemões”, elemento que aparece na fala dos interlocutores como
protagonista de situações de conflito.
Numa de nossas incursões, aproveitei para conversar com um dos
funcionários dos cines a fim de verificar a possibilidade de entrevistar o dono.
Segundo Dante, seu patrão era bastante reticente e não aceitaria falar comigo. No
entanto, disse que ele, sim, poderia me conceder uma entrevista. De pronto, anotei o
seu contato telefônico para que agendássemos um horário.
No sábado próximo, voltei à rua com intuito de rever Dante e acordar com
ele os detalhes da conversa.
Ao chegar ao quarteirão, contei uns 10 carros. Avistei Dante e outra
funcionária falando com o dono do cinema. Parei encostado num carro,
passei por ele e vi que me reconheceu, virou o rosto e seguiu em frente.
Fiquei desconfiado da atitude, mas imaginei que agiu daquela forma por
conta da presença do “dono” (...) Perguntei se nossa conversa daria certo.
O mesmo acenou negativamente com a cabeça. Senti que o clima não
estava bom. Falei que ninguém era obrigado a falar. Me despedi e ele
sequer respondeu. (Trecho de Diário de Campo).
Neste mesmo dia, recebi um tratamento um tanto ríspido de outra
funcionária dos cines. Quando me dirigi à entrada de um dos cinemões para
comprar um lanche, minha presença na recepção foi interditada, mesmo alegando
que havia lanchado naquele local semana passada. Pedi um refrigerante e a mesma
respondeu que não poderia me vender, pediu que eu comprasse em outro local, e
que não permanecesse na entrada.
Como já havia me advertido Edson, os funcionários obedeciam
diretamente ao dono do cinema. Liguei para ele na mesma noite contando que como
ele havia previsto, não obtive êxito na concessão das entrevistas com o dono e/ou
33
funcionários. Fiz um pequeno relato do que tinha acontecido há pouco, e recebi a
recomendação de que fosse embora, pois não seria bom que eu permanecesse por
mais tempo ali.
As resistências e desconfianças vinham à tona mais uma vez, sendo que
nesta ocasião acompanhadas de uma atitude mais agressiva. A dificuldade em
conquistar a confiança dos interlocutores, neste caso específico, acreditamos estar
relacionada com o temor de possíveis consequências de suas ações.
1.3 Homens de aluguel: considerações sobre prostitutos e prostituições
Antes mesmo de discutirmos as especificidades da prostituição viril em
Fortaleza, vale ressaltar a que no universo do mercado sexual existe uma variedade
de espaços, sujeitos e mecanismos de interação entre trabalhadores sexuais e seus
respectivos clientes. De tal forma, que hoje não podemos falar de prostituição, e sim
“prostituições” (ARAÚJO, 2006).
Num âmbito mais geral, a Organização das Nações Unidas (na reunião do
seu Conselho Econômico e Social em Tóquio, no ano de 1957) sancionou o
neologismo prostituto. Definiu-se como prostituto todo indivíduo, de um ou outro
sexo, que mediante remuneração, de maneira habitual, sob qualquer forma, se
entrega em relações sexuais, normais ou não, com diversas pessoas do mesmo
sexo ou de sexo oposto.
Segundo Perlongher (2008), a prostituição viril está associada à
prostituição homossexual, diferenciando-se das travestis, que trazem consigo a
feminilidade oposta à masculinidade exigida dos michês, estes, geralmente, são
jovens que se prostituem sem abdicar mão dos protótipos gestuais e discursivos da
masculinidade.
O termo michê tem dois sentidos. Um alude o ato mesmo de se prostituir [...]
fazer michê alude mesmo de se prostituir. [...] Numa segunda acepção, o
termo michê é usado para denominar uma espécie sui generis de cultores
da prostituição: varões geralmente jovens que se prostituem sem abdicar
dos protótipos gestuais e discursivos da masculinidade em sua
apresentação perante o cliente. (PERLONGHER, 2008, p. 43).
“Outra expressão para se referir ao profissional do sexo masculino é
‘garoto de programa’. Esse termo está associado mais ao indivíduo do sexo
34
masculino que usa como forma de exposição os anúncios de jornais”. (ARAÚJO,
2006, p.23). O termo “programa” refere-se à atividade desenvolvida pelos garotos.
Tanto faz, garoto e michê é uma coisa só. É a mesma coisa, todos eles
estão sendo pagos. Pode inventar esse nome de michê pra ser mais
escondido. [...] É porque garoto já vai ser uma barra pra população, garoto
de programa. [...] as pessoas, a maioria das pessoas, os michês, não
entendem (o que é). (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro
de 2011).
Para Martínez (2000) categorizar a prostituição viril como prostituição
homossexual é uma operação simplista, pois não se encontra facilmente uma
identidade homossexual quando mergulhamos mais na temática. O que se encontra
é “uma flutuação dos sujeitos por diferentes categorias sexuais que dependem do
contexto em que se encontram a cada momento” (IDEM, p.63). Para Perlongher
(1987), “a homossexualidade é um terreno propício para as crises de identidade”. Já
segundo Martinez,
Entre os homens que se prostituem encontramos a incorporação tímida dos
termos homo, hetero e bissexual que empregam para qualificar as relações
sexuais que mantêm. Entretanto, estas categorias não são utilizadas como
rótulo que definem sua identidade sexual. Esta continua sendo regida pelo
comportamento masculino. (2000, p.67).
Quando
questionamos
nossos
interlocutores
a
respeito
da
orientação/identidade sexual deles e de seus clientes, em nenhum momento fizeram
menção a termos como gay ou homossexual: “Sou homem”, “sou bissexual”, quanto
aos clientes, estes foram classificados como “homens normais”, “homem que gosta
de transar com outro homem também”.
Hoje em dia eu não classifico quase nada. De nada! Não vou dizer que ele é
um enrustido, um gay, aquela coisa. Eu acho que ele está buscando a
fantasia que ele está querendo ter com essa pessoa e acabou! Ele está
querendo uma relação diferente. [...] A maioria é curioso. Quer ter um
relacionamento, ter uma curiosidade, quer ver como é que é. (Herlon, em
entrevista no dia 17 de maio de 2011).
De acordo com Pontes (1998, p.73), “as noções de homo/bissexualidade
não necessariamente fazem parte do cotidiano popular”. No mercado da prostituição
masculina, a recusa da homossexualidade vai ao encontro da demanda dos clientes
(PERLONGHER, 2008).
35
No campo das relações homoeróticas, discrição e virilidade são atributos
que agregam valor aos sujeitos, neste sentido os indivíduos deste campo estão
submetidos à “ética da reserva e discrição” (PAIVA, 2007). Outro elemento que
agrega valor aos sujeitos é o exercício do papel “ativo” nas relações sexuais. Assim,
como já nos adverte Fry (1985), ao descrever o caráter hierárquico presente na
dicotomia “bicha x bofe”.
O homem que se envolve em um relacionamento sexual com outro homem,
então, não sacrifica necessariamente sua masculinidade culturalmente
construída – pelo menos desde que ele desempenhe um papel masculino
culturalmente percebido como ativo durante o ato sexual e se comporte
como um homem na sociedade. O homem que adota uma atitude passiva,
de fêmea, contundo, seja no ato sexual ou na interação social, quase
inevitavelmente desvaloriza sua própria masculinidade. (PARKER, 1999, p.
58).
[...] a masculinidade é construída através das práticas, constituindo uma
gramática generativa da acção. A masculinidade, ou melhor, as
masculinidades, no plural, constroem-se em relação, uma relação que é,
antes de mais, de dupla dominação: a da masculinidade sobre a
feminilidade e a de determinado tipo de masculinidade (hegemónica) sobre
os outros. (...) Uma forma dominante, heterossexual, patriarcal, compulsiva,
tem ascendente sobre as outras: subordinadas (como é o caso da
homossexualidade) cúmplices ou mesmo marginalizadas (como acontece
com minorias étnicas ou grupos sócio-economicamente excluídos). (ABOIM,
2008, p. 274).
Esta característica não seria diferente quando nos reportamos à questão
da prostituição viril. Numa de nossas conversas com Beto, nos foi informados alguns
esclarecimentos em torno desta questão em seu trabalho:
[...] sempre que for questionado dizer que é ativo, pois a maioria dos
clientes procura por ativos. E mesmo que digam que são ativos e procuram
por um parceiro passivo, reafirme a informação, porque assim o fazem para
testar se o outro é ativo mesmo, pois se afirmasse que era passivo o cliente
desistiria do programa (Trecho de Diário de Campo).
[...] o homossexual masculino chamado de “ativo” não é tão estigmatizado
quanto o chamado “passivo”. A identificação de “viado” é de “quem dá pra
outro homem”. O que “come” não é necessariamente identificado como
“viado”, não é homossexual, não entra diretamente na classificação, não
“trai” tanto assim seu papel sexual original, sua “condição natural”
determinada. (MISSE, 1979, p. 62-63).
A preocupação com a discrição pode ser percebida em situações diversas
no trato com a clientela, constituída boa parte por homens casados, não assumidos,
e/ou de “boa reputação”. Homens atentos a qualquer indício que possa denunciá-
36
los, dar visibilidade à sua “vida dupla”, expô-los para fora do “armário” Sedgwick
(2007).
Uma pessoa me ligou, quer dizer, mandou recado pra mim, que tinha
gostado do meu perfil e tudo. Eu deixei meu telefone e a pessoa me
retornou, retornou a ligação. Quer dizer, nós saímos para o apartamento
dele, ele contou toda a história dele, não sei se é verdade. Ele falou que ele
foi casado duas vezes. Teve dois casamentos. Me levou para o
apartamento dele, todo escondido. Entrei no prédio agachado dentro do
carro, saí do mesmo jeito. (Herlon, em entrevista concedida no dia 17 de
maio de 2011).
Mesmo afirmando que a maior parte dos clientes paga para que os
michês façam o papel de “ativo” nos programas, em nossas entrevistas um dos
interlocutores revelou que era versátil, assim como encontramos em anúncios de
jornais garotos de programa que se definem dentro da categoria nativa “másculo
passivo”. Este último exemplo vem reforçar a ideia de que no final das contas,
independente do papel sexual exercido, o desempenho viril, o “jeito de macho” deve
ser preservado. Nesta dinâmica, dissocia-se a penetração do corpo de sua
“feminização”:
[...] a rejeição aqui é de quaisquer atributos – corporais, gestuais,
comportamentais relativos a sentimentos, sensações ou expectativas – que
possam ser relacionados ao estereótipo “afeminado”. A valorização do
‘macho’, os discursos que constituem o macho como objeto de desejo, não
se opõe nesse sistema à feminilidade, mas à “bichice”. (BRAZ, 2009, p.
230).
[Nós] somos homens, nunca vamos ser mulher. O gay quer ser mulher e
nuca vai conseguir. Porque o gay hoje, que ser mulher. É homem, tu
entende? Homem, a diferença é essa. O homem... o gay quer sempre ser
mulher. Ele luta, mas ele não vai conseguir. Melhor palavra pra ele, melhor
ser homem também. (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro
de 2011).
Sob esta perspectiva, é a masculinidade ostentada pelos michês que os
tornam
atraentes
para
seus
clientes,
revestidos
de
uma
superioridade
socioeconômica que pode aparecer até certo ponto, “compensada” pela valorização
do michê másculo em detrimento do cliente “bicha”. (PERLONGHER, 2008).
Conforme também anuncia Miskolci,
[...] O paradoxo do negócio do sexo entre homens se desfaz quando se
entende que o que se compra e o que se vende não é apenas o corpo, mas
um corpo marcado pela masculinidade nos moldes hegemônicos. (2008,
p.18).
37
No rol das relações homoeróticas hierarquizadas sobre o fundamento da
superioridade do “homem de verdade”, o dinheiro opera como instrumento que
viabiliza o contato sexual entre sujeitos que, provavelmente, em outras
circunstâncias não ocorreria. O dinheiro “a partir do contexto de interação em que é
acionado, expressando o reconhecimento do status masculino que o um homem
ostenta” (OLIVEIRA, 2009, p. 135). Esta perspectiva também é afirmada por Lenoni,
para quem
[O] poder que o dinheiro proporciona de escolher e dominar o outro, de não
ser rejeitado, de não correr riscos expondo-se, de não ter que seduzir e
atrair, já que o poder de sedução e de atração é transferido e objetivado no
dinheiro, na exígua cifra necessária para um serviço breve, fugaz, em geral,
frio e mecânico. (....) fazem com que o cliente se sinta no domínio da
situação e que possa escolher entre vários produtos à disposição. (...) As
fantasias dos clientes são fantasias de poder e domínio que refletem uma
percepção do outro ou da outra como objeto, como instrumento para a
satisfação de uma necessidade própria à qual se tem acesso por meio do
dinheiro. (2004, p. 83).
Além das questões que dizem respeito às relações sexuais entre homens
e o sistema de hierarquias que se constituem em torno das mesmas, a prostituição
masculina é percebida e tratada de maneira distinta quando comparada ao trabalho
sexual exercido pelas mulheres.
O saber médico do século XIX já os diferenciava ao situar a prostituição
masculina, também denominada de sodomia, no grupo de segunda classe da
prostituição clandestina (patamar mais baixo de um mapa classificativo), que
agregava pederastas, ativos, passivos, mistos e praticantes do onanismo (RAGO,
1997).
Tal comportamento se contrapunha ao modelo médico do homem-pai da
família higiênica. Neste período, os que fugiam do padrão eram considerados antihomens: libertinos, celibatários e homossexuais (COSTA, 2004)
A prostituição feminina, mesmo condenada moralmente, pode ser
considerada como um “mal necessário”. A atividade possui certa legitimidade por
servir como mecanismo de satisfação dos desejos masculinos. Já a ocorrência da
prostituição masculina estava associada à degeneração.
Ela existe porque existem homens anormais, psíquica ou fisiologicamente.
O homem normal nunca será um prostituto. [...] Já na prostituição feminina,
a mulher é sempre, ou quase sempre, uma normal, do ponto de vista
38
sexual, pelo menos. O homem é tangido pela tara, a mulher apenas pelo
dinheiro. (PEREIRA, 1967, p. 111)
Em ambos os casos, a prática não se caracteriza como crime, apesar da
condenação moral que os que se prostituem estão sujeitos. A diferença no trato é
evidenciada quando verificamos a existência de uma “tolerância” em torno da
prostituição quando praticada por mulheres, pois não chega a ferir expectativas
sociais a respeito da masculinidade e das relações entre os sexos. No âmbito do
discurso jurídico, essa diferenciação se manifesta da seguinte forma:
Efetivamente, enquanto a prostituição feminina é permitida, o “trottoir” de
homens e travestis, assumido pelas decisões transcritas como dirigidos à
pederastia e à homossexualidade, é enquadrado como delito de vadiagem.
(RIOS, 2000, p.91).
Também, no âmbito legal, em 2002, a Classificação Brasileira de
Ocupações incluiu a ocupação de “profissional do sexo” como também as
denominações “garota de programa, garoto de programa, meretriz, messalina,
michê, mulher da vida, prostituta, quenga, rapariga, trabalhador do sexo, transexual
(“profissionais do sexo”), travesti (“profissionais do sexo”) fazendo parte da família de
Prestado de Serviço.
Assim como nas outras modalidades de prostituição a oferta deste serviço
sexual oferecido por homens pode ser encontrado tanto nas ruas, como em casas
voltadas para o exercício da atividade, nas páginas de classificados de jornais e no
espaço virtual (a “ciberprostituição”) via internet (ARAÚJO, 2006).
A prostituição masculina de rua em Fortaleza, de acordo com nossos
interlocutores, acontece preferencialmente no Centro e próximo a pontos turísticos
da Cidade. Em comparação a travestis e prostitutas, “os michês são mais discretos.
A gente passa, estão bem vestidos, de calça, de tênis. A pessoa para perceber, nem
percebe talvez que é um michê” (policial 2, em entrevista concedida no dia 17 de
maio de 2011). Esta imagem foi corroborada por um de nossos informantes michês:
Fui vestido de maneira simples: bermudas, camiseta e chinelos. [...] Beto
estava mais bem vestido que eu, trajava uma camisa pólo com um brasão
bordado, daquelas que estão na moda, calça jeans e tênis branco. [...]
comentou que não pegava bem usar chinelos. (Trecho de Diário de
Campo).
39
No que diz respeito aos ambientes fechados, destacamos as saunas
gays. Lá os programas são oferecidos sob a denominação de “massagem”. Os
“massagistas”, no caso, são também chamados de boys e portam alguma peça de
vestuário que os identifica dentre os outros sujeitos que circulam pelo
estabelecimento. Dos estabelecimentos desta natureza em Fortaleza, a California
Thermas Club19 é a única que faz menção ao termo boy na sua homepage.
As saunas, assim como outros aparelhos de consumo e lazer voltados para
as sociabilidades homoeróticas (explicitamente ou não relacionadas com o
mercado afetivo e sexual) podem ser tomadas como “zonas morais” de
espacialização das homossexualidades nas cenários urbanos, constituindo
“geografias sexuais” majoritariamente associadas ao centro da cidade.
(PAIVA, 2009, p.7).
FIGURA 1 - Detalhe da programação da sauna Califórnia
Fonte: www.californiathermas.com.br
19
Para uma descrição mais detalhada sobre as práticas de homossociabilidade no interior do referido
estabelecimento, ver Paiva (2009).
40
Há também ocorrência de prostituição no interior dos cines pornôs,
mesmo que proibidos. Além disso, as paredes e portas, principalmente as dos
banheiros, servem como “mural” de divulgação de números de telefone, e-mails e
endereços de MSN de garotos de programa.
FIGURA 2 – Porta do banheiro do Cine Betão
Fonte: Daniel Rogers, em novembro de 2010
41
Em ambientes fechados, a prostituição se caracteriza como já havia
assinalado Vale (2000), em sua pesquisa sobre o prostituição travesti no cine
Jangada, pela abordagem dos que se prostituem em direção aos clientes, não ao
contrário como acontece nas ruas.
Nos principais jornais da Cidade também encontramos diversos anúncios
onde são ofertados programas por indivíduos que se identificam por meios de
adjetivos e das atividades que oferecem, dentre os quais: “másculos”, “sarados”,
“vips", “de alto nível”, “para casais”. Em seus textos, curtos e diretos, deixam como
contato o número de celular, e em boa parte, já disponibilizam links com páginas de
internet referentes a sites e blogs.
FIGURA 3 – Contato com garoto de programa via MSN
Fonte: Daniel Rogers, em dezembro de 2010
42
FIGURA 4 – Anúncios de garotos de programa em jornal
Disponível em:
http://diariodonordeste.globo.com/classif/default.asp
Acesso em 03/12/2010
Este mecanismo de comunicação permite que os clientes visualizem de
forma mais detalhada as informações contidas nos classificados, através de fotos e
vídeos que são disponibilizados nas homepages. Cabe ressaltar que os blogs,
geralmente, fazem propaganda de apenas um garoto de programa; ao mesmo
tempo em que existem sites de acompanhantes em que são exibidos diversos perfis
dentre os quais de “garotos”, mulheres, travestis e “transex”.
FIGURA 5 – Site de acompanhantes
Disponível em: www.desejocapital.com.br/galeria.asp?id=120. Acesso em 03/12/2010
43
No ciberespaço ainda é possível encontrar garotos de programa que
oferecem seus serviços em salas de bate papo e site de relacionamentos.
Geralmente, identificam-se com nicknames com sufixos que indicam a atividade tais
como: GP (sigla para garoto de programa), “de aluguel”, $$, etc. Da mesma forma,
nestes ambientes virtuais, há aqueles que se apresentam como potenciais clientes,
divulgando a intenção de pagar pelo sexo, através de apelidos do tipo: keroboypagobem, mamo&pagoHxH$$$, ajudo caras hetero, dentre outros.
FIGURA 6 – Sala de Bate-papo do site UOL
Disponível em: www.bps.uol.com.br/room.html/t=1290990711254. Acesso em: 28/11/2010
Das modalidades de prostituição elencadas, a de rua (o trottoir, “fazer a
pista”) é aquela de maior visibilidade e exposição.
[...] ali na sauna você não corre o perigo que você corre na rua. Porque ali,
você tá seguro. O que acontecer ali, a sauna vai responder ou vocês
estando errado. (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de
2011).
44
FIGURA 7 - Ponto de prostituição masculina de rua no Centro
Fonte: Daniel Rogers, em abril de 2011
A prostituição no espaço virtual, diferentemente das outras, estaria
acessível a um público com maior poder aquisitivo em virtude do valor cobrado por
programa de acordo com os anúncios. Assim como Benítez (2010) encontrou nos
bastidores da indústria de filmes pornôs gays, pudemos perceber a persistência de
uma “branquidade”. “De fato, os michês loiros (gaúchos, argentinos, paulistas, etc)
são altamente valorizados na praça, especialmente pelos clientes de classe média”
(PERLONGHER, 2008, p. 153).
Lá no site, tem o pessoal casado, o que não é casado. Quer um negócio
mais restrito [...] A pessoa que está no site é meio, não sei, tem mais poder
aquisitivo. Ele lá [...] conhece pessoas mais bonitas e tudo mais. (Herlon,
em entrevistada concedida no dia 17 de maio de 2011).
O que pudemos averiguar em nossa pesquisa, é que os michês,
sabedores desses inúmeros espaços e mecanismos de contato com a clientela,
buscam se utilizar destes de acordo com suas conveniências e possibilidades.
45
Eu faço rua e faço cinema. Sauna é muito difícil eu frequentar, mas eu não
faço sauna, não. Site, internet, eu tenho sim. Sou cadastrado em um site de
relacionamentos, que é o disponível.com. Eu tenho uma foto minha, e já saí
com duas pessoas do site.[...] Na sauna, assim, eles penam muito. No meu
ponto de vista, eles estão ali querendo conquistar a pessoa, e não a pessoa
querendo conquistar ele, não. Na rua é diferente. (Herlon, em entrevista
concedida no dia 17 de maio de 2011).
[Q]uando eu vou fazer uma sauna, eu faço.(...) Já faço escondido. Já na
“máfia”. Não posso dizer que eu sou de lá fixamente, porque lá dentro já
tem os fixamente. A gente tem amigos lá dentro. Que trabalham lá dentro.
Algumas pessoas vão pra entrar, fazer o programa ali, escondido. Porque
não pode fazer dentro da sauna. Na própria sauna porque já tem. (Edson,
em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
Independente do local onde em que se é ofertado o programa, os michês
quando questionados sobre o que eles têm para oferecer em seus serviços e aquilo
que os clientes esperam deles, para além da postura máscula, estes afirmam que
vendem fantasias: realizam desejos. Segundo Edson, os clientes procuram
satisfazer a “sensação da carne”.
A gente tá vendendo... a gente é pago para fazer o desejo deles. A fantasia,
que eu digo assim, entre aspas. Que ele quer sair de casa com um cara que
dê na cara dele. A maioria gosta de apanhar, que bata... Coisas absurdas.
[...] Eles querem realizar uma fantasia, que eu diga assim, que eu penso:
um cara vagabundo. Sei lá! Sacana, que goste de fazer a fantasia dele.
Vende, vende a fantasia que ele quer. (Herlon, em entrevista concedida no
dia 17 de maio de 2011).
Independente de quem seja o cliente: “Vou porque eu sou garoto. Garoto
não tem que botar banca. Tem que ir. Vou lá e pronto”. (Edson, em entrevista
concedida no dia 27 de janeiro de 2011). “Às vezes, [...] a gente não quer sair com
aquela pessoa, mas, pela grana a gente sai”. (Herlon, em entrevista concedida no
dia 17 de maio de 2011). Tal como as prostitutas, o gozo no exercício da atividade
não é algo que se busque, pelo contrário, a ideia é evitá-lo.
Das que tive contato, nenhuma afirmou sentir prazer com sua clientela. Pelo
contrário, “torciam” para o gozo rápido do cliente, haja vista a possibilidade
de existência de outro na fila. Contudo, o orgasmo com o desconhecido é
entendido como “acidente de trabalho”, e raramente acontece. As mulheres
afirmam que não estão ali para isso. (BARROS, 2005, p. 2).
Eles não gozam, não. Ele faz a outra pessoa gozar. Faz, mas não goza. Ele
quer fazer o cliente sentir o prazer da carne. Só isso. Ele está naquele
momento ali, só pra fazer isso. O cliente terminou, fez o que queria ter feito,
e pronto! (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
46
Nesta dinâmica michê x cliente, além do pagamento imediato, coloca-se,
ainda como recompensa financeira, a possibilidade de ascensão social por parte dos
garotos de programa através de “relações de ajuda” (PAIVA, 2009) com seus
clientes.
Porque todo objetivo da pessoa que faz isso, é por causa disso. Querem
conhecer uma pessoa bacana que ajude tanto financeiramente, e que esta
pessoa dê esse rumo. Que todos os pontos das pessoas, são isso. Todos, o
mesmo ponto. Se você perguntar a qualquer garoto ou garota. Todo
objetivo é este. Se você perguntar por que está fazendo aquilo. É pra subir
na vida. Todos eles, é o mesmo objetivo, por isso é que muitas vezes há
briga, desavença, naquela esquina, é por causa disso. (Edson, em
entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
Em torno desta busca e oferta de gozos e fantasias existe toda uma teia
de relações que envolve pessoas e estabelecimentos que vão constituir um mercado
de natureza sexual. A fim de realizarmos esta pesquisa, percorremos pelo Centro de
Fortaleza procurando por pistas e que nos possibilitasse a construir um mapa do
desejo homoerótico.
47
3 O SEXO E A CIDADE: CONHECENDO O TERRITÓRIO HOMOERÓTICO DO
CENTRO DE FORTALEZA
3. 1 Fazendo pista: quando campo é o asfalto
Em nossa investida de tomar conhecimento acerca da prostituição viril,
percorremos por trilhas que nos permitiram vislumbrar o cenário em que nossos
personagens estão inseridos. Podemos afirmar que o trabalho sexual faz parte de
uma rede, de um mercado que gira em torno do sexo (BENITEZ 2010) envolvendo
uma cadeia de serviços e sujeitos diversos. Esta Noção de rede nos remete a
apreender não o sujeito isolado, mas ações que são realizadas de forma articulada e
na pluralidade de seus agentes, conforme enunciado Becker:
Se quisermos representar de modo adequado as atividades de um pequeno
grupo, não podemos apenas focalizar as pessoas envolvidas.Cada
atividade, por pequena que seja, engloba pessoas que agem juntas, e em
princípio queremos representar a variedade de pessoas nessa atividade.
Assim, deveríamos olhar para suas conexões com outros grupos e
organizações. (2010, p.203).
Estes elementos vão estar presentes naquilo que denominamos de
território homoerótico do Centro de Fortaleza. Território, que, segundo Perlongher
(2005) não se caracteriza apenas pelo viés geográfico, mas que, também, se
materializa conforme o comportamento daqueles que nele se encontram, impondo e
propondo aos seus habitantes perfis definitivamente, perfis psicossociais.
[A] dimensão espacial concreta é básica, ela não se sustenta por si própria,
não sem o necessário recurso a uma outra territorialidade, no nível dos
códigos. (...) A expressão “código-território” se refere à relação entre o
código e o território definido por seu funcionamento. (p. 276).
Semelhante a outras cidades, o espaço urbano da capital cearense se
organiza frente a uma dinâmica em que vários agrupamentos se distribuem entre
locais interagindo entre si para fins diversos.
[...] estes sujeitos, através de suas práticas, se apropriam de determinados
espaços do urbano por um período de tempo. No momento em que impõe a
este espaço uma dinâmica própria do grupo, espacializando suas posturas
corporais e suas atividades, instituem seus territórios. Estes são vistos como
campos de força que delimitam um grupo interno com identidades coesas
em relação a grupos externos. (ORNAT, 2008, p 44).
48
No contexto mais amplo, estamos nos referindo a um território marginal
(PERLONGHER, 2005), caracterizado pela frequência de sujeitos desviantes e pelo
exercício de atividades moralmente condenáveis. No âmbito das relações entre
pessoas do mesmo sexo, os centros urbanos tendem a assegurar um relativo
anonimato daqueles que prezam pela discrição e buscam pela impessoalidade
nestes contatos. Nesta dinâmica, qualquer espaço pode servir como locus de
interação. Estes lugares são caracterizados pela hiper-saturação de desejo
homossocial (PAIVA, 2007).
Os ‘locais de pegação’ compreendem, além de espaços comerciais
planejados ou adaptados para esse fim (tais como saunas gays, cinemas
pornôs e dark rooms de bares e boates GLBT), uma série de espaços
públicos e privados que são informalmente apropriados para encontros
sexuais furtivos (tais como parques, praças, banheiros e vias públicas, além
de salas de cinema e saunas heterossexuais, denominadas como ‘caretas’).
(TEIXEIRA, 2009, p. 264).
Vale salientar, que quando nos referimos a estes locais, em específico, o campo no
qual mergulhamos, não fazemos alusão aos estabelecimentos voltados ao público
GLS. Não se trata de um gueto gay, pois esta caracterização do espaço colocaria
em xeque o anonimato que seus frequentadores buscam e valorizam, além de
diminuir as possibilidades de encontro com “homens de verdade”.
Nessas interações, os homens que por ali transitam constituem tramas
relacionais polissêmicas, engendrando distribuição de afeições nebulosas
ou imperceptíveis, fortuitas e sem expressão identitária demarcada, sem
publicização das práticas, códigos de pertença e valores/afetos vivenciados.
(TEIXEIRA, 2009, p. 2).
Para fins de compreensão do fenômeno, lançamos mão das seguintes
categorias trabalhadas por Magnani (1996): pedaço, mancha, trajeto e circuito, a
partir das quais analisamos de perto e de dentro o processo de ocupação e o uso do
espaço urbano no Centro de Fortaleza, tendo em vista a dinâmica das interações de
cunho homoerótico.
Inicialmente, o termo pedaço vai se referir a um “ponto de referência para
distinguir determinado grupo de frequentadores como pertencente a uma rede de
relações” (MAGNANI, 1996, p. 13). Espaço de relações entre “chegados” que se
49
conhecem e/ou se reconhecem como tal, estabelecendo vínculos e acordos de
covivência que funcionam dentre outras coisas, como proteção. Podemos pensar
por meio desta categoria a demarcação espacial indicada pela ideia de “ponto”, em
nosso caso, um dos pontos de prostituição dos michês, das travestis, dos
mototaxistas etc.
Dentre os dez grupos identificados por Vasconcelos (2008), cada qual
com espaços e símbolos característicos, foram localizados, no período noturno, o
grupo dos “homossexuais” e do “comércio sexual” (prostitutas travestis e garotos de
programa). Segundo a fala de um policial: “a gente pensa que o Centro é quase
vazio, quem dorme cedo... há uma população por aí que saí para o Centro. Só anda
à noite mesmo” (P2, em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
O Centro tem uma peculiaridade [...] que é a população flutuante. No dia,
como tem mais pessoas, gente que vão ao Centro para trabalhar, estudar, ir
ao banco [...] os moradores de rua à noite [...], aí vem os profissionais do
sexo, as boates também começam a funcionar [...] o público das boates. As
mulheres também. Os cinemas, muitos homens casados que buscam esses
locais, parceiros. (P1, em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
As manchas vão se referir a uma base geográfica mais ampla (MAGNANI,
2002), o que permite o trânsito de pessoas vindas de localidades diversas, sem que
estabeleçam relações de maior proximidade entre elas, encontrando-se para realizar
uma atividade ou prática predominante no espaço.
Existe uma forma de apropriação quando se trata de lugares que funcionam
como ponto de referência para um número mais diversificado de
frequentadores. Sua base física é mais ampla, permitindo a circulação de
gente oriunda de várias procedências e sem o estabelecimento de laços
mais estreitos entre eles. São as machas, áreas contíguas do espaço
urbano dotadas de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam –
cada qual com sua especificidade, competindo ou complementando – uma
atividade ou prática predominante (MAGNANI, 1996, p. 19).
No interior de uma mancha é possível que se aglutine uma variedade de
estabelecimentos referenciados como espaços para o exercício de determinadas
atividades. Na mancha homoerótica do Centro de Fortaleza é possível elencar
banheiros, praças, bares, boates, “cinemões”, sex-shops, motéis, saunas, pousadas,
lan houses, casas de massagem etc.
Ao conceito de mancha podemos relacionar com o que Park (apud
PERLONGHER) denomina de “região moral” “para referir-se às zonas de perdição e
50
vício das grandes cidades (espécie de esgoto libidinal das megalópoles, condição
residual que ecoa em alguns topônimos, como a ‘Boca do Lixo’)” (IDEM, 2008, p.
50).
Ambas as categorias, pedaço e mancha, fazem referência a espaços
físicos e localidades estáticas. A fim de possibilitar a compreensão do trânsito interno
a estas unidades de espaço, Magnani (2002) faz uso da terminologia trajeto, que
permite imaginar possibilidades de escolhas no interior de uma mancha.
O termo trajeto surgiu da necessidade de se categorizar uma forma de uso
do espaço que se diferencia, em primeiro lugar, daquele descrito pela
categoria pedaço. Enquanto esta última, como foi visto, remete a um
território que funciona como ponto de referência (...) trajeto aplica-se a
fluxos recorrentes no espaço mais abrangente da cidade e do interior das
manchas urbanas. (MAGNANI, 2002, p. 23).
Já o termo circuito, para finalizar, vai se remeter à reunião de espaços
distribuídos de forma descontínua na paisagem urbana, caracterizados pela oferta
de bens e serviços voltados para exercício de atividades específicas de
determinados grupos.
[A] noção de circuito,
caracterizados pelo
determinado serviço,
reconhecidos em sua
p. 23).
que une estabelecimentos, espaços e equipamentos
exercício de determinada prática ou oferta de
porém não contíguos na paisagem urbana, sendo
totalidade apenas pelos usuários. (MAGNANI, 2002,
51
FIGURA 8 – Circuito homoerótico do Centro
Fonte: extraído do Google Earth
É sob esta perspectiva que podemos falar de uma mancha homoerótica
no Centro da cidade de Fortaleza, que dentre outras atores sociais vai aglutinar
garotos de programa em torno dos seus espaços de encontro e trabalho, nos quais
podemos vislumbrar os pontos de prostituição.
3.2 Das Praças
Semelhante à Praça do Ferreira, considerada como o coração da Cidade,
a Praça do BNB é um espaço de frequência e passagem de indivíduos
homoeróticos, ao longo do dia. Porém, ao cair da noite, é possível observarmos
presença mais significativa deste grupo. Na Praça do Ferreira, particularmente, um
dos bancos concentra um maior número de sujeitos, classificados no linguajar nativo
de “mariconas” que se juntam naquele pedaço tanto para rever amigos, como para
paquerar algum homem que porventura passe ali, e até mesmo esperar por alguém
com quem marcou um encontro.
52
FIGURA 9 – Praça do BNB
Fonte: Daniel Rogers, em novembro de 2010
A Praça do BNB fica mais próxima dos motéis, bares e cinemões, e acaba
por aglutinar sujeitos que transitam pelo que já denominamos circuito homoerótico.
Logo em frente, funciona o “Cine Betão”, ao descermos pela Rua Floriano Peixoto
em direção à Avenida Duque de Caxias, vamos passar pelo Motel Charm, em
seguida, pelo Cine Star, um pouco mais a frente pelo Plaza Motel, e já na esquina da
avenida encontramos o bar Mega Lanches, que fica a poucos metros de outro
estabelecimento similar, o Disney Lanches.
Em uma de nossas incursões em campo, as noções de circuito e trajeto
se materializaram quando observamos num mesmo dia, uma dupla de amigos que
por coincidência, cruzamos em situações diversas. Cedo, vimos os dois entrando em
um dos cines pornôs das imediações da praça, depois, bebendo em um dos bares
anteriormente relacionados, e por fim saindo da Boate Divine já alta madrugada.
53
3.3 No escurinho do cines pornôs: onde o sexo é a melhor diversão
FIGURA 10 – Entrada de um “cinemão”
Fonte: Daniel Rogers, em novembro de 2010
Os cines pornôs, ou cinemões do Centro, geralmente funcionam em
casas antigas adaptadas para exibição de filmes em seus vários compartimentos ou
em prédios em que os espaços são divididos por compensados de madeira. Dessa
forma, são improvisados num mesmo estabelecimento filmes diversos: hetero, bi,
gay e transexual.
Logo na entrada, existe um guichê onde se paga pela entrada (os valores
variam de acordo com o dia e horário). Cada pessoa que acessa o ambiente
equivale a uma volta na catraca. Som que denota aos que já estão dentro a chegada
de outras pessoas, e por consequência, novas possibilidades de enlace
homoerótico. Caso haja necessidade, é permitido que se deixe bolsas e outros
objetos de mão na entrada.
Como numa sala de cinema convencional, a iluminação das salas
improvisadas fica por conta das telas de televisão e das áreas comuns: corredores
(isso quando ainda há luz do sol) ou algum serviço de bar interno, no caso daqueles
54
que o oferecem, como também nas cabines que são utilizadas para encontros mais
privativos.
Além das tevês, as salas possuem cadeiras plásticas distribuídas de
frente ao aparelho a fim de acomodar a clientela que por vezes passa maior parte do
tempo transitando pelo espaço a fim de encontrar algum parceiro sexual. Outras,
além dos televisores, possuem ventiladores que fazem a refrigeração do espaço.
FIGURA 11 – Parte interior de um cine pornô
Fonte: Daniel Rogers, em outubro de 2010
Em alguns cinemões, as salas podem ser fechadas por dentro através de
ferrolhos na parte interna das portas, assim, acabam funcionando como cabines
improvisadas. Da mesma forma, os banheiros são usados para o mesmo propósito.
Desta forma, não é raro encontrar pelo chão destes recintos embalagens de
camisinhas rasgadas, preservativos usados e pedaços de papel higiênico. Outra
característica são as manchas nas paredes e o cheiro de esperma, fora os recados e
desenhos pornográficos.
55
FIGURA 12 – Cabine
Fonte Daniel Rogers, em novembro de 2010
Além das características gerais semelhantes entre os cines, cada um
deles acaba apresentando uma ou outra qualidade que os diferencia dos demais:
- Cine Betão: é frequentado por mulheres que se oferecem para
programas sexuais. Vez ou outra o espaço é alugado para realização de festas.
- Cine Majestick: sua estrutura é que mais lembra uma sala de cinema
convencional. Além disso, se diferencia pela presença de travestis que se prostituem
nas suas dependências.
- Cine Encontro: nos dias de sexta e sábado fica aberto até às 6h00 da
manhã. Oferece, também, aos clientes, a modalidade de ingresso que possibilita a
entrada e saída do estabelecimento até a hora que encerre suas atividades.
- Cine Privê: funciona até 6h00 da manhã, de terça à domingo. Tem uma
área com cabines em seu interior e um pequeno labirinto de compensados que
possui glory holes (buracos por onde é possível que as pessoas se toquem). As
divisórias de algumas cabines e salas têm pequenos furos que funcionam como olho
mágico para um público chegado ao voyeurismo.
- “Complexo de cinemas”: se caracteriza por congregar no intervalo de
duas esquinas da Rua Assunção (esquina com a Av. Duque de Caxias numa ponta,
56
e esquina com a Clarindo de Queiroz em outra) o total de 5 cines: Secret, Lipstick,
Love Night House, Eros e Erótico. Destes, alguns funcionam em regime de plantão
também.
FIGURA 13 – Rua Assunção, onde localiza-se o “Complexo de cinemas”
Fonte Daniel Rogers, em novembro de 2010
Os cinemas 24 horas, que abrem às 9h00 da manhã e fecham apenas às
6h00 do outro dia possuem dinâmica bastante diferenciada dos demais, em todos os
casos, há uma diversidade de público relacionada aos horários do dia. Durante o
dia, uma frequência maior daqueles que vão ao Centro para resolver alguma coisa,
ou até mesmo, apenas para tentar encontrar algum parceiro.
57
Figura 14 – Visão geral do “complexo de cinemas”
Fonte: Daniel Rogers, em abril de 2011
Pela madrugada, a quantidade de carros estacionados ao longo do
quarteirão e o fluxo intenso de clientes que estão indo ou voltando de festas, bares,
boates e casas de shows da cidade, vestidos com “roupas de marca”, abadás,
camisas de festas, chaves de automóvel nos cós das calças são indicativos da
presença de gays de classe média no pedaço, apesar do discurso vigente de
desaprovação, tal como em relação aos que frequentavam o extinto Cine Jangada,
de acordo com o que analisa Vale (1996, p.104):
Segundo as opiniões coletadas em boates e bares gays da Aldeota (bairro
de classe média e alta de Fortaleza), o cinema era marginalizado tido como
signo de “vulgaridade”, “perigo”, “sujeira”, “ralé”, e a frequência àquela sala
de exibição vista como inviabilizadora de uma relação estável. A hipocrisia
florescia no depoimento de alguns que publicamente menosprezavam o
cinema, mas não prescindiam de uma visita mensal ao escurinho urbano do
Jangada.
Da mesma forma, há muitos outros clientes que pernoitam até o horário
de fechamento dos estabelecimentos, a fim de pegar o primeiro ônibus ou a topic do
58
dia que os levem para casa. Noite adentro, é possível encontrar alguns que dormem
sentados com os pés em outra cadeira. Numa das conversas com um bilheteiro dos
cines, foi relatado ainda que outros permanecem dormindo nas salas, mesmo
quando os cine cerram suas portas para poder emendar um dia no outro.
FIGURA 15 – Entrada do Motel Plaza. Na esquina,
o Charm Motel
Fonte: Daniel Rogers, em novembro de 2010
No Centro, os motéis são conhecidos por oferecer seus serviços por
preços mais acessíveis em comparação com os estabelecimentos mais sofisticados,
além de facilitar o acesso aos clientes que não possuem veiculo próprio, que entram
no motel a pés. O pernoite costuma ser pago adiantado, indo até às 7h da manhã,
independente do horário que se entre. Logo no raiar do dia, (os que ainda o fazem)
servem um desjejum simples composto por biscoitos club social e achocolatado de
caixinha.
2.1.3 Dos Bares: Boêmia e prazer no Centro
Dos bares que compõem o circuito homoerótico destacam-se o Mega e o
Disney Lanches, ambos situados na Avenida Duque de Caxias, distantes a poucos
metros um do outro. Frequentado por um público que não reivindica para categorias
identitárias atreladas ao discurso da militância LGBT (TEIXEIRA, 2009).
59
FIGURA 16 – Calçada do Mega Lanches, próximo aos Táxis fica o Disney Lanches
Fonte: Daniel Rogers, em novembro de 2010
O tráfego de uma esquina a outra pela noite é marcado pela paquera entre boêmios
e transeuntes, são olhares, acenos, um discreto levantar de copo que funciona como
convite para sentar à mesa e tomar um drink, dentre tantos outros códigos que
sinalizam o desejo de chegar junto e, quem sabe dali, um papo, seguido de uma
volta demorada pelo quarteirão.
Em ambos os estabelecimentos, as mesas e cadeiras postas na calçada
são ocupadas por homoeróticos, dentre os quais discretos, insuspeitos, curiosos,
outros afeminados, travestis e até mesmos casais heterossexuais que mal percebem
o fluxo de desejos que se opera no local. Segundo Teixeira (2009), além da estrutura
física dos bares, algo que os diferencia é a presença das travestis no Mega
Lanches, enquanto no Disney, o número de mulheres é bem mais significativo. De
acordo ainda com Teixeira, na área interna do bar, o binômio homem/mulher se
apresenta de maneira mais evidente.
60
Ao elegermos um ponto de prostituição masculina como locus privilegiado
de nossa investigação, reforçamos possuir a dimensão de que esta escolha trata-se
apenas de uma mera convenção metodológica. A prostituição viril de rua é parte de
todo um complexo de relações entre indivíduos, instituições e estabelecimentos que
configuram o mercado sexual no Centro de Fortaleza. A partir desta perspectiva, é
que chegamos junto ao pedaço dos michês, pelas pistas que nos foram colocadas
em conversas informais com sujeitos que fazem partícipes da cena homoerótica
fortalezense.
3.4 A esquina dos doces prazeres
Antes de falarmos do ponto de prostituição em si, lançamos nosso olhar
sobre todo o quarteirão a fim de situá-lo dentro de uma estrutura mais abrangente.
Nesta experiência de conhecimento junto ao campo, tivemos a oportunidade de
observar a configuração e o uso do espaço em diferentes horários. Assim, traçamos
um paralelo entre atividades e práticas do dia e da noite.
Era por volta das nove horas da manhã quando fui informado que minha
conversa como Capitão Alan (responsável pelo Programa Ronda do Quarteirão na
área) havia sido remarcada para depois do almoço. A distância do 5° Batalhão da
Polícia Militar para o ponto de prostituição é de apenas dois quarteirões. Sendo
assim, desci e fui registrando o que via.
Logo na esquina, existe uma bomboniere, Casa do Chocolate. O muro do
estabelecimento é todo decorado com pinturas de inspiração infantil e cores
vibrantes: uma casa de doces, crianças, balas, pirulitos, flores e borboletas. No
período noturno, essa decoração passa despercebida. Assim como o slogan da casa
“um doce prazer” tende a assumir outro significado.
61
FIGURA 17 – Esquina
prostituição pela manhã
do
ponto
de
Fonte: Daniel Rogers, em de abril de 2011
FIGURA 18 – Ponto à noite.
Fonte: Daniel Rogers, em novembro de 2010
A quantidade de carros pela manhã era bastante inferior (três apenas),
pouco lembrava a fileira de veículos estacionados em ambos os lados da rua. O
silêncio quase absoluto da noite faz contraste com o barulho intenso das buzinas em
meio ao transito de carros, ônibus e topics que passam pelo cruzamento.
Era por volta das 10h da manhã, o “complexo de cinemas” não estava
aberto, apenas uma parte funcionava. Alguns funcionários pareciam fazer a faxina
dos cines e organizar o caixa e a estocagem de produtos para o dia que estava
começando.
62
Quase chegando à esquina com a Avenida Duque de Caxias, fica o Cine
Secret, bem em frente existe um ponto de ônibus intermunicipal e topics. Por conta
disso, foi construído um corredor metálico que permite a entrada no cinema de forma
mais discreta, mesmo em meio à multidão de passageiros.
FIGURA 19 – Entrada do Cine Secret pela manhã
Fonte: Daniel Rogers, em abril de 2011
Neste horário, os que passam pela rua são abordados por cobradores e
camelôs (vendedores de lanches e DVDs pirata) que se situam próximos ao local em
que os mototaxistas estacionam suas motos à noite.
Uma característica bastante inusitada é que logo ao lado do Cine Secret
há uma entrada que dá acesso a um templo evangélico – a Comunidade Cristã Paz
e Vida. O portão principal do templo fica na avenida, tanto na esquina como na
entrada maior se observa acima uma placa que anuncia: “Jesus está voltando, volte
para Ele antes”.
63
FIGURA 20 – Entrada do Cine Secret ao
lado do acesso ao templo evangélico
Fonte: Daniel Rogers, em outubro de 2010
FIGURA 21 – Fachada do templo
Fonte: Daniel Rogers, em outubro de
2010
Nessa volta em torno do quarteirão, avistamos ainda algumas casas de
lanches, uma lotérica e, na esquina, o Hotel Chevalier. Bem de frente, do outro lado
da avenida, assim como o Disney, o Mega Lanches quase não tem movimento,
assim como não há cadeiras e mesas nas calçadas. O público da manhã aparenta
ser “mais família”, são pessoas que vão ali para fazer um lanche, almoçar, dentre
outras coisas.
64
FIGURA 22 – Mega Lanches pela manhã
Fonte: Daniel Rogers, em abril de 2011
FIGURA 23 – Disney Lanches
Fonte: Daniel Rogers, em abril de 2011
Descendo pela Rua Floriano Peixoto, há uma presença significativa de salões
de beleza e estacionamentos. Chegando já na esquina, encontramos outro cinemão,
o Cine Órion. Tomando a esquerda na Rua Clarindo de Queiroz, contamos mais
lojas de doce, umas três ou quatro no total. Quase que bem no meio, entre as
esquinas do quarteirão, um portão que serve de entrada para um prédio residencial.
A dinâmica que se dá no jogo entre claro versus escuro pode ser comparada
ao desenrolar uma sessão teatral, em que o apagar e acender das luzes no intervalo
entre dois atos de uma peça traz novas situações, troca de figurinos, cenários e
personagens. O período da noite é como se fosse o último ato das 24h do dia. A
iluminação se modifica, outros atores entram em cena atuando de um modo diverso,
apenas o mobiliário do palco continua o mesmo.
65
3.7 À noite todos os gatos são pardos?
Quando falta menos de duas horas para a meia-noite, é chegado o
momento em que o cruzamento das ruas Assunção com Clarindo de Queiroz tornese vitrine de exibição de corpos masculinos dispostos nas calçadas. Atentos ao
movimento dos carros que circulam pelo quarteirão, que desaceleram, buzinam e
acenam, os michês ocupam o seu pedaço a esperar pelos seus clientes. “O horário
mesmo é depois que passa o movimento, é depois de dez horas. Porque assim,
começa o movimento de clientes. Não tem muito movimento de transeuntes, de
pessoas passando”. (Herlon, em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
FIGURA 24 - Visão aérea do ponto de prostituição destacado em vermelho
Fonte: Extraído do Google Earth
Além dos garotos de programa, outros sujeitos noturnos tomam conta da
paisagem urbana, segundo um policial entrevistado: são travestis, prostitutas,
pequenos traficantes, catadores de recicláveis, assaltantes, arrombadores, e
vigilantes que fazem segurança particular.
66
Quando nos referimos ao ponto que escolhemos como locus privilegiado
de nossa investigação, acrescentamos a esta trama os moradores da rua, e de rua,
os usuários dos serviços sexuais (prostituição e cines pornôs), funcionários, o
proprietário dos estabelecimentos e a própria polícia.
Neste espaço, marcado pelo fluxo constante de pessoas de interesses
diversificados, as relações que se estabelecem são marcadas por tensionamentos,
momentos de aproximação, acordos, incertezas, e uma insegurança constante em
função da sua exposição nas ruas que os tornam mais vulneráveis à ataques de
criminosos.
Como quaisquer uns dos grupos listados, os michês fecham pactos
internamente na busca de garantir alguma espécie de organização coletiva da
atividade que exercem. Fora do seu círculo, são constituídas outras modalidades de
interação que visam, dentre outras coisas, a proteção dos seus membros. Neste
sentido, a discussão da categoria conflito, na perspectiva traçada por Simmel (1983),
nos possibilita analisar a constituição dessas relações em nosso campo de
pesquisa.
Ao chegar ao pedaço, logo no primeiro contato, foi questionado o motivo
da minha presença no local. Em seguida, Beto me advertiu que onde eu estava não
era “permitido” ficar a fim de evitar problemas com o dono do “complexo de
cinemas”. Ao longo da madrugada, foi me explicado que o ponto costumava
funcionar nos dias de sexta e sábado, pois na semana era melhor ficar na Beira-Mar.
As informações e orientações a mim repassadas eram indicadores de um
grau de organicidade espacial e das atividades do agrupamento de michês que ali
trabalhavam.
Silva (2006) chega a afirmar não haver rivalidade entre michês por se
tratar de uma categoria flutuante, do mesmo modo que inexiste a constituição de
vínculos de amizade no grupo devido à ausência de confiança entre eles.
Perguntei pela ocupação dos espaços, se havia alguma espécie de disputa
pelos locais entre os michês: Segundo Beto, isso não existia. Lembrou
ainda, que outro garoto um tentou ser o dono do pedaço, mas foi rechaçado
pelos demais. Me confirmou que existem sim, as ruas em que as travestis
se prostituem, e que não tem amizades com a maioria porque são
perigosas, como há alguns quarteirões e em que não podem ficar. (Trecho
de Diário de Campo).
67
A demarcação territorial das ruas e esquinas é algo que se faz
necessário, tal como resulta de um acordo entre os atores locais. Assim, nos
informou um policial ao comentar sobre a existência de atritos envolvendo o grupo
de michês e travestis: “Não tem, cada um com seu território, se você “bulir” com o
território deles... até porque eles têm os problemas, eles querem resolver por eles
próprios”. (Policial 1, em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
Com elas, Algumas são boas, algumas são ruins. Que elas estão
concorrendo com a gente. Elas querem ganhar a mesma coisa que a gente.
O que é difícil. É que elas estão vestidas como mulher. Elas querem ser
mulher. A gente, que é homem, e está vestido de homem, mas a
concorrência é a mesma. O cliente é o mesmo, é o mesmo. Tem quem faz
com garoto, quem fica com travestis. Não tem diferença. Ele mesmo que vai
lá, é o mesmo que vai... com travestis. Tem o espaço delas, tem o nosso
espaço. Nem a gente pode ir pro espaço delas, nem elas podem ir pro lado
da gente. , porque muitas vezes dá briga. Porque chega um cliente, vai e
quer uma travesti, um garoto, uma menina, que é mulher mesmo. Quem ele
vai escolher? Pode ser a mulher, pode ser o garoto. E daí, continuam as
brigas é melhor cada um na sua região. Não pode mesmo, pro lado delas,
mesmo. A gente pode ate ir pro lado dela, pra poder conversar com ela,
voltar novamente. Porque a gente, assim, não pode ir pro lado delas porque
vai atrapalhar. O que a pessoa vai fazer, vai ficar meio chato. Você vai
perder o que tem que fazer no teu canto, vai ficar, outra pessoa, te
atrapalhar. Pra conversar, tudo bem. Pra trabalhar, não. Você vai
atrapalhar, totalmente o que a pessoa tá fazendo ali. (Edson, em entrevista
concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
Na busca pela resolução destes conflitos intergrupais e externos,
configura-se um regime de convivência funcionando como uma espécie de sociação,
uma forma de conseguir algum tipo de unidade. Neste sentido, a própria existência
do conflito contribui para no processo de elaboração de soluções (SIMMEL, 1986).
Designamos por “unidade” o consenso e a concordância dos indivíduos que
interagem, em contraposição a suas discordâncias, separações e
desarmonias. Mas também, chamamos de “unidade”, a síntese total do
grupo de pessoas, de energias e de formas, isto é, a totalidade suprema
daquele grupo, uma totalidade que abrange tanto as relações estritamente
unitárias, quanto as relações duais. (SIMMEL, 1983, p.125).
Recomendações aos que se aproximam do grupo, tais como, “fazer
amizade”, não usar chinelos (porque os clientes gostam de rapazes bem
apresentados), não se agrupar em três ou mais pessoas na esquina (a fim de não
afastar quem possa vir a se aproximar), não roubar para evitar “má fama”, e mesmo
que se cometa alguma ilegalidade não denunciar o colega, podem ser interpretadas
como pertencentes a alguma forma de regulamentação interna ao grupo. Esta
68
estaria associada a um desejo de apoiar-se uns nos outros com intuito de protegerse das ameaças externas.
O conflito acaba por contribuir nos processos de formulação de
resoluções como força integradora. “as hostilidades não só preservam os limites, no
interior
do
grupo,
do
desparecimento
gradual,
como
são
muitas
vezes
conscientemente cultivadas, para garantir condições de sobrevivência”. (SIMMEL,
1983, p. 126).
Mesmo com a declaração de que "No meio da rua, é só você por você
mesmo" (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011), em outras
circunstâncias, práticas de solidariedade se faziam presentes no cotidiano: a
esquina onde ficava era o ponto mais visado tanto pelos michês como pela clientela,
sendo que em algumas circunstâncias, alguns se revezavam no local, de acordo
com o grau de proximidade do ponto, a fim de possibilitar que ambos fizessem uma
quantidade razoável de programas. De forma semelhante, havia a indicação de um
pelos outros segundo as atividades sexuais que estavam dispostos a realizar com os
clientes, os que não “fazem casal” indicam os que aceitam fazê-lo. Ao mesmo
tempo, outro agenciava novatos para que fizesse programas com um ex-michê que
possuía duas lanchonetes nas redondezas.
Numa de nossas incursões em campo, pudemos vivenciar uma situação
conflituosa. Neste dia, presenciamos o desdobramento de um conflito que resultou
num ato de violência física, e fez com que redimensionássemos nossas relações no
pedaço:
[...] Quando me aproximo da esquina, avisto apenas um rapaz sentado de
camisa, bermudas e chinelos, quase que em frente ao prédio residencial
que se localiza no mesmo quarteirão, de frente à rua que faz esquina com a
dos cinemões. De imediato, imaginei que fosse um morador que esperava
por algum parente ou amigo, e estava ali, meio que parecia “vigiar” a rua a
fim de proteger alguém que estava para chegar. Olhei, e voltei a perambular
de uma esquina a outra.
Numa dessas idas e voltas, escuto um barulho, som de passos apressados,
em seguida, percebo uma correria nas proximidades. Me assustei um
pouco, tentava entender o que se passou ao longe, logo me dirijo à esquina
e avisto o mesmo rapaz sentado e logo mais à frente um homem caído na
calçada, numa altura próxima: pedaços de concreto partido no asfalto.
Ao me aproximar, vi que aparentava estar bêbado, estava de chinelos, boné
e andava com um saco plástico. Quando perguntei: ele falou que morava no
Bairro Dias Macêdo. Disse que estava bem, e tentou se levantar, mas tinha
um dos pés ferido e sangrando. Então, supús que havia torcido o tornozelo
na queda.
O rapaz, que já não me parecia mais morador, falou que outros dois haviam
atingido o homem com uma pedrada na cabeça. Os viu correndo para
agredir o senhor que estava caído porque o mesmo havia passado por eles
69
e dito alguma coisa que os provocou. Acima de minha cabeça, avistei os
moradores do prédio residencial que fica bem a frente se posicionando nas
janelas curiosos, e pedindo por informações. Alguns desceram as escadas
e se puseram no portão. Perguntavam o que havia ocorrido. Na ocasião, os
informei ligeiramente do caso. Sugeriram chamar uma ambulância e o
“Ronda”.
Já havia abordado o agredido, ele nem queria que chamasse porque seu
desejo era ir para casa, mas não tinha nem condições de ficar em pé e
muito menos andar até um ponto de ônibus e visto a hora, acredito que não
haveria transporte.
Nesse movimento, pude conversar com alguns moradores, os que haviam
descido. Uma senhora estava preocupada com um parente que havia ficado
de chegar. Próximo a ela, outra moradora comentava “ainda bem que não
foi como morador, viado que mexe com morador é viado morto”! As mesmas
reforçavam a ideia de que se ligasse para a polícia.
Ainda, nesse intervalo de tempo, por sugestão do rapaz que já havia
percebido não ser morador mesmo, em outro momento me disse que
morava próximo (na Av. João Pessoa); pediu que eu fosse ao cinema pedir
água gelada para oferecer ao ferido e socorrê-lo.
Lá, falei pedi a água, mas não me deram. Comprei, mas fui advertido por
um homem que ali estava que não deveria me importar porque era coisa de
“drogado”. Mesmo assim, quando levei a água, o mesmo me acompanhou.
Liguei para o CIOPS, falei do ocorrido, e repassei informações que me
pediram.
Eu, o rapaz da rua e o senhor que me acompanhou ficamos lá enquanto a
ambulância não chegava. Ficamos nós três próximos como forma de
garantir nossa segurança e da vítima da agressão. Foi nesse intervalo que
pude sentir o quanto aquele espaço poderia se configurar como perigoso. O
rapaz de chinelos percebeu que eu portava celulares e ouviu o som do meu
mp4 que eu havia deixado ligado. Aconselhou que eu guardasse na
recepção do cinemão onde comprei a água.
De onde estávamos, o homem de uniforme disse que avistava os dois
rapazes que supostamente haviam agredido o senhor, mas não precisava
ter pois medo, pois estávamos em maior numero. “Eles não vão vir até aqui.
São uns vagabundos do Pio XII, descem pra cá para fazer assaltos. Já dei
uma mãozada em um deles”. Ainda, acrescentou que, se não estivéssemos
ali, eles voltariam para “terminar o serviço”. (Trecho de Diário de Campo).
Desta forma, apesar da ameaça iminente de uma resposta violenta por
parte dos agressores em função do nosso socorro ao homem que havia sido
atacado, o confronto físico foi evitado. Nossa segurança foi assegurada pelo fato de
que éramos em maioria naquele momento. Sendo assim, deduzimos que o outro
grupo não se arriscaria realizando um ataque contra nós. Segundo Simmel,
O desejo de possuir ou subjugar ou mesmo aniquilar o inimigo, pode ser
satisfeito por meio de outras combinações e eventos além da luta. Quando
o conflito é simplesmente um meio, determinado por um propósito superior,
não há motivo para não restringi-lo ou mesmo evitá-lo, desde que possa ser
substituído por outras medidas que tenham a mesma promessa de sucesso.
(1983, p. 134).
Quando falei do que havia acontecido ao telefone para o Edson, o mesmo
70
recomendou que eu não voltasse mais ao campo, a não ser que fosse com alguém
que eu pudesse confiar: ele próprio ou o Beto. Em sua opinião, eu não deveria ter
ajudado no socorro ao agredido, pois mesmo não conhecendo a natureza do
conflito, tomei partido por um lado. Como consequência, poderia ser alvo de uma
possível revanche do grupo de agressores.
Outras situações revelaram um clima de desconfiança presente mesmo
entre os sujeitos mais próximos do ponto, de quem se aproximava do local. No caso,
fui capaz de identificar declarações desencontradas nas entrevistas e bate papos,
como o conflito de informações a respeito dos outro e sobre eles mesmos. Paulo,
que agenciava outros garotos, certa noite, questionava aos que estavam no ponto se
tinham interesse em fazer programa com o seu contato.
Paulo pediu o número de telefone celular de Edson, o mesmo respondeu
que estava sem. (...) Por volta das 3h da madrugada, resolvemos ir até à
boate Divine, fomos eu, Edson, Paulo e o “mais antigo”. No caminho, vi
quando o Edson tirou pela bermuda um celular que estava escondendo.
(Trecho de Diário de Campo).
Em outra oportunidade, tive a oportunidade de reencontrar o rapaz que
esteve presente no dia da agressão outra vez, sentado do mesmo modo, no outro
lado da esquina. Tinha voltado ao campo justamente no período de “sumiço” dos
dois principais interlocutores, Beto e Edson. Me aproximei, desta vez revelando
minha condição de pesquisador, falei que o havia reconhecido. Na ocasião, revelou
que era michê. Aproveitei e perguntei-lhe se poderia me conceder uma entrevista.
Ao questionar se ele morava pelas redondezas, respondeu que era da Maraponga (a
informação não batia com à do primeiro dia que nos vimos). No final da conversa,
anotei seu contato de telefone (celular), quando liguei, ouvi a mensagem da
operadora informando que número estava impossibilitado de receber chamadas.
Tal dificuldade de interlocução já era esperada. Goffman (1988) já
apontava a questão a respeito do controle de informações por parte de sujeitos
estigmatizados. Assim como Becker (2008), ao falar de atividades desviantes, afirma
que elas tendem a ser mantidas sobre um manto de ocultamento, sendo reveladas
desde que os sujeitos envolvidos sejam convencidos de que não haverá risco de
que sofram algum tipo de consequência.
Provavelmente, por conta do temor dos desdobramentos de uma possível
publicização das identidades e práticas do grupo, o “sumiço” e os dribles de
71
potenciais interlocutores chegaram a ocorrer e por certo frustraram algumas das
expectativas em relação à pesquisa. Uma das questões que mais nos instigavam
permaneceu incógnita
Edson nos informou que havia um total que variava de seis a oito michês
que faziam ponto naquele pedaço. Ao observar, pelos depoimentos, um determinado
grau de organicidade interna, questionamos se existiria alguém que exercesse o
papel de liderança. Beto afirmou que alguém já havia tentado algo nesse sentido,
mas foi rechaçado pelo grupo.
Da mesma forma, Herlon nos informou que houve um michê que havia se
reivindicado como o “dono do pedaço”, um “michê-ladrão” que gostava de cobrar
pedágio das pessoas. Em outro período, uma dupla, conhecida como “irmãosmetralha” agiu da mesma forma, encontrando o fim com o assassinato de um e
prisão do outro.
Quando entrevistamos Edson, indagamos como se dava o processo de
integração de novatos no ponto, caso eu fosse um:
Se fosse novo, você tinha que chegar e fazer amizade com o dono da
turma. Que chama cafetão. [...] para você fazer ali, você teria que ter a
autoridade dele para todos te aceitarem. Não adianta você ficar ali, senão
levava peia. Se acontecer (algo), ele responde e vai atrás, pra saber o que
foi, que não foi. Tipo assim, roubo. Se a pessoa rouba, se a gente nem
conhecer, nunca viu. Ele vai atrás de saber quem foi. (Edson, em entrevista
concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
Quando questionei se eu já teríamos visto este “cafetão” na rua,
obtivemos uma resposta afirmativa. Beto foi identificado como o líder.
[É] o Beto. Ele é o mais velho. Quem sempre é mais velho porque é quem
tem mais tempo. Por isso que todo mundo conhece o Beto. Porque o Beto
tem fama. Porque conhece todos eles. Ele responde, ele responde sobre o
que acontecer. Um exemplo, se acontecer com o Edson, tu roubar o Edson.
“Eu conheço o Edson, não é pra roubar não. Ele é a maior limpeza, ele
anda aqui, tal, tal. Ninguém pode roubar ele aqui, não. Por isso que todo
mundo conhece o Beto. por que o Beto tem fama. Porque conhece todos
eles. Ele responde, ele responde sobre o que acontecer. Um exemplo, se
acontecer com o Edson, tu roubar o Edson. “Eu conheço o Edson, não é pra
roubar não. Ele é a maior limpeza, ele anda aqui, tal, tal. Ninguém pode
roubar ele aqui, não. [...] Ele já perguntou por ti, só para saber quem era
você. Se estava na área... Porque o medo dele, a preocupação, ao mesmo
tempo em você e nos outros. Os outros pegar. “Oh, lá! Tá fazendo
programa! Vamos meter peia”! (Edson, em entrevista concedida no dia 27
de janeiro de 2011).
72
Independente da veracidade ou não de uma versão em detrimento de
outra, percebemos que mesmo entre os mais próximos (segundo Edson, ele e Beto
são bastante amigos, e chegaram a namorar um com o outro) os regimes de
confiança oscilam em função de interesses diversos. O “sumiço” e os “dribles” de
Beto, para não nos conceder uma entrevista, podem ser compreendidos como uma
atitude que se espera de um líder (e demais membros) frente a um agrupamento
desviante: o de mantenedor do segredo e dos pactos de lealdade que os protege.
No caso de um roubo/assalto cometido por um michê:
A gente não entrega, porque a gente também não vai entregar, porque a
gente também confia neles. Eles não mexem com a gente, eles também são
nossa segurança, a gente é segurança deles. A gente não vai cabuetar. Se
a polícia chegar, perguntar, a gente: “não sei, não sei”. (Edson, em
entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
Fora as demandas internas, o contato com outros personagens da noite
urbana do Centro estão permeadas por uma tensão contínua. Um dos mecanismos
de preservação da integridade individual, além da capacidade de autoproteção, é
uma atitude de indiferença frente aos conflitos que não os envolva diretamente,
evitando problemas com terceiros.
A travesti mandou matar um garoto porque o garoto cabuetou ela, que ela
tinha roubado o cliente. Era conhecido meu. O Beto também conhece.
Porque o garoto, ele, quando vem fazer o programa. Se ele quiser roubar ou
não, ele rouba, mas depois vem o dele. Ele tem que guardar pra ele. Não
deve contar pra nenhum outro, não. Porque se você contar, vai ficar se
espalhando. Por ali, na hora de acontecer, pra acontecer, se acontecer
alguma coisa... Uma noite como essa, vai bater a policia pra saber quem é.
(Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
Beto já havia afirmado o fato de não fazer amizades com as travestis,
porque, segundo ele, seriam pessoas perigosas. Agindo da mesma forma, no trato
com os moradores de rua e outros sujeitos que circulavam pela esquina (poderiam
ser ladrões), evitando algum confronto, que por vezes pode vir a acontecer.
Não têm brigas, não. Às vezes, tem não. Algumas vezes, tem, porque eles
querem roubar a gente, muitas vezes não. Acontece se você não conhecer.
Quando você vai pela primeira vez, que você não conhece. Você tá ali,
qualquer coisa pode acontecer com você. Você não conhece quem é, quem
não é. (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
73
Essa atitude de suspeição perante outros indivíduos e grupos não era
comportamento exclusivo dos michês. Na noite em que testemunhamos a agressão
contra um homem na rua, ouvimos uma recomendação de que não deveríamos nos
envolver com o conflito porque se tratava de “coisa de drogado”, também,
percebemos um ar desconfiado do atendente do cinemão quando pedi para deixar
meus objetos de valor guardados com ele na recepção. Mesmo no retorno, ao tomar
um mototaxi para casa, ao relatar o ocorrido, o motoqueiro advertiu que “todo
carroceiro é ladrão”.
Os vigias de rua também fazem parte da cena noturna, atuando na
segurança particular de alguns estabelecimentos, no exercício de suas atividades
acabam por demarcar limites territoriais, inibindo a prática da prostituição em alguns
pontos das ruas. Fazem parte do grupo dos quais “se confia desconfiando”.
A gente confia, mas não confia. A gente não pode dizer que confia. Nem lá,
nem cá.[...] eles deixam a parte, eles mesmos, não querem que a gente
fique totalmente em frente deles, nas outras partes, pode ficar. (Edson, em
entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
A problemática em torno da ocupação das esquinas e do trânsito pelas
ruas à noite articulado com a questão da segurança local vão configurar aquele que
se mostrou como um dos principais motivos de conflito no pedaço. Assim, como os
michês tratam com desconfiança outros grupos e sujeitos, muito são os que não
confiam neles também. Associa-se à imagem dos prostitutos viris de rua os signos
da criminalidade. Em situações em que as disputas se acirram para além das
possibilidades do estabelecimento de acordos, os agentes de segurança pública são
acionados com os quais outras modalidades de relações são constituídas.
74
4 SEGURANÇA, SEGREDO E SIGILO
4.1 Pactos de lealdade: o silêncio como proteção
Devido, talvez, à baixa cotação do trabalho prostitucional masculino é que
tantos invertidos investem pelos becos escusos do crime, crime sempre
ligado ao terreno sexual. Os nossos pederastas das mais baixas classes,
vivendo no meio prostitucional, se dele sacar os recursos necessários à sua
sobrevivência, apelam paras as modalidades criminosas de furtos com
20
atrativo sexual, entre eles o conhecido e já por nós descrito suadouro .
(PEREIRA, 1967, p. 102).
Sob a figura do michê, assim como em outros trabalhadores sexuais,
paira um estigma (GOFFMAN, 1988) que o aproxima das figuras do vagabundo e do
criminoso. Nas conversas nos bancos da Praça do BNB não era raro ouvir relatos
sobre assaltos e furtos praticados por michês contra algum conhecido, sempre
seguidos de recomendações do tipo: “evite sair com o baiano”, “aquele cara que
chegou dia desses” e, alguns outros, que por acaso passavam pelo local naquele
momento, era prontamente identificado.
Este processo social de construção de identidades atreladas ao que
representamos como “mundo do crime” denomina-se sujeição criminal “Há sujeição
criminal quando há reprodução social de ‘tipos sociais’ representados como
criminais ou potencialmente criminais” (MISSE, 1999).
Segundo o autor, certas variáveis sociais e atributos contribuem para o
enquadramento dos indivíduos no rol dos personagens com tendências criminosas,
tais como o vocabulário, o modo de vestir, a classe social, cor da pele, instrução,
filiação a um grupo etc. Elementos que socialmente existem como diferenciadores e
definidores de identidades são utilizados, desta forma, para distinguir indivíduos
suspeitos.
A suspeição é um mecanismo ativado por signos que quebram a
expectativa de confiança e que ativam uma atenção seletiva culturalmente
acumulativa. Regras de experiências são acumuladas e orientadas para
definir uma situação de ameaça ou perigo ou para sinalizar traços
significantes num indivíduo, de sua possível carga de suspeição. (IDEM, p.
74).
20
Crime comum entre prostitutas: roubar a carteira do homem com quem se relaciona exatamente no
momento em que o cara chega ao orgasmo.
75
A “má fama” reconhecida pelos próprios michês os mobiliza no sentido de
amenizá-la a fim de não prejudicar seus negócios por conta do afastamento dos
clientes. O “michê-ladrão”, segundo os demais garotos de programa, mancha a
imagem de todos do grupo e traz o risco de contribuir pelo fim às atividades no ponto
por conta da sensação de insegurança daqueles que buscam pelo serviço.
Tem uns garotos lá na rua, que sai mesmo, às vezes, ele rouba. Queima o
filme da gente. (...) Tem gangues lá no Disney Lanches e no Bar do
Zequinha (Mega Lanches). Pessoas que eu conheço e fazem esse tipo de
maldade. Eles primeiro, eles como se diz? Conversam com a criatura. A
pessoa que quer sair com ele, combina lá o que é, não sei o quê, e sai. A
criatura leva para casa dele. Chegando lá, já é combinado com outra
pessoa, que às vezes está ali numa mesa vendo a saída deles. Lá, eles só
fazem brigar, dizendo que a pessoa está no “Boa noite, Cinderela”. É só
roubo mesmo (...) ele se passa por michê. Para mim, não existe um cara
que é michê e vai lá para roubar a criatura, não. Ele faz ali, só uma vez, e a
criatura vai dizer: “Não saia com aquele rapaz ali, é ladrão”. (Herlon, em
entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
Ao mesmo tempo em que essa preocupação com a imagem do grupo é
notória na fala dos interlocutores, existe uma elaboração discursiva acompanhada
de práticas de solidariedade que visam proteger os colegas que porventura
cometam algum delito.
Por volta das 3h da madrugada, resolvemos ir até à boate Divine, fomos eu,
Edson, Paulo e o “mais antigo”. “O mais antigo” comentava que ainda
voltaria para o ponto mais tarde, no horário de retorno das boates, quando
as bichas já estivessem a fim de fazer programas e bêbadas, daria para
pegar os celulares delas. Nisso, dizia ele não ver problema algum porque
para ele, elas tinham dinheiro. (Trecho de Diário de Campo).
Os assaltos/furtos podem ser justificados mediante a necessidade de
quem os comete. Em alguns depoimentos, funcionam como uma espécie de defesa
frente a uma ameaça circunstancial.
No meio da conversa, Edson me relatou que um cliente havia tentado
aplicar o golpe “Boa noite Cinderela” contra ele, mas no fim das contas o
mesmo conseguiu reverter a situação. Disse que pelo espelho do banheiro
do motel viu quando o cliente colocou algo no copo em que ele iria beber,
quando saiu de lá, trocou os copos, e o outro quem acabou dormindo.
Aproveitando-se da situação, Edson tirou 200 reais da carteira do cliente e
foi embora. (Trecho de Diário de Campo).
Na ocasião da entrevista, o fato foi relembrado. Desta vez, a versão
contou com outros detalhes diferentes do primeiro relato.
76
Mas assim, ele quis me roubar, e eu o roubei, mas isso aí não é um roubo
como eu digo. Isso não é um roubo como os garotos estão fazendo. Eu
acho assim, quando uma pessoa vem pra curtir uma noite, tudo bem, mas
quando a intenção é roubar o garoto, a garota. Não acho errado roubar, dar
o troco, não. Porque eu senti que ele ia roubar meu celular. Aí, pediu pra
dar uma ligada, que ia ali, dar uma volta, voltava já. Demorou, deixou tudo
dele lá em cima. Voltou: vou sair, venho já. Queria ir embora pra me deixar
dentro do motel. Eu pedi pra gente beber, e bebi, eu tava com dois
remédios no meu bolso. Eu pedi pra gente beber, e bebi, eu tava com dois
remédios no meu bolso. Eu já ando preparado pra acontecer. Todo garoto
anda, a maioria, com remédio, mas só faz realmente quando for pra ser. (...)
Dei “Boa noite Cinderela” em alguém. Só dessa vez... Quando eu vou, eu
vou limpo, quando as pessoas vêm fazer sacanagem comigo, eu não vou
deixar fazer. (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
Ainda que, reforçando a desaprovação de atos desta natureza pelos
membros do grupo, outros depoimentos revelam casos em que estas atividades
acontecem em função de uma ação coordenada a partir de pequenos acordos.
Falei que não me envolvo, mas não aqui na Clarindo, mas assim, eu já fui
no “Passeio”, e (...) onde ela estava lá. Já me envolvi em um negócio. Não
aqui... Foi assim, eu dei tipo assim, uma cobertura. Eu estava com ela, a
pessoa parou: “Ei, vai para o outro lado e fica olhando”. Aí, passei para o
outro lado da avenida. Quando ela entrou no carro, começou a bagaceira, o
assalto. Aí, quando ela parou (...) pegou o mototáxi. Aí, eu fui lá falar com o
rapaz. “Rapaz, que foi que aconteceu”? Aquela coisa toda, “fui assaltado”
tal, tal, tal... (Herlon, em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
Tem, tem também, mas assim é diferente. A criatura vai ter que marcar com
alguém, quando chegar na frente do motel abordar, tem essa também, mas
assim, como eu vou pro motel e tudo. Vou com o cliente, quando eu tô
saindo com ele no carro, aí digo para meu amigo: ei, vou roubar aquele
cara. Telefono do motel, e os dois caras abordam na hora que nós dois
estamos saindo, e ele não vai suspeitar que foi eu quem mandou. (Edson,
em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
Estas ações, individuais ou coletivas, fazem parte do repertório de
segredos que deve ser mantido em prol da unidade e estabilidade do grupo. Quando
cometidos apenas por um é algo que se evita contar, como, também, que não se
deve acusar o outro a fim de garantir sua própria integridade.
[Q]uando a pessoa volta, a pessoa que fez, já não mais tá ali, e também
não vai poder acusar os outros. Os outros não saíram com ele. E ninguém
vai dizer quem é porque cada um guarda o segredo do outro. Porque se
abrir o bico, todos vão saber. (...) Entre nós, a gente não acusa. A gente
acha que ele pode ter roubado porque ele tá... A pessoa fez alguma coisa
com ele. Aí foi preciso. Também não sei. Nós, a gente não acusa nada não.
(Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
77
Segundo Misse (1999), nesta situação, a atitude de acusar o outro
representa uma traição, uma deslealdade. O fato de partilharem a mesma condição
de segregação e discriminação favorece o desenvolvimento de um sentimento de
pertença entre os membros do grupo, propiciando que a denúncia seja interpretada
pelo viés da delação.
O deslizamento de significado da denúncia para a delação se beneficia
dessa cumplicidade objetiva e favorece a legitimação da “lei do silêncio”,
mas para isso depende, em algum grau, da “neutralização da moral” das
práticas acusáveis ou da imposição generalizada do medo. (MISSE, 1999,
p.64).
No cotidiano das relações em torno do pedaço dos michês, as acusações
costumam partir de sujeitos exteriores ao seu círculo. Por vezes, são os clientes os
agentes das denúncias, mesmo que em situações raras. Por outro lado, o conflito
entre prostitutos e o dono dos cinemões se apresenta de maneira constante,
deflagrando uma série de tentativas de acordo entre as partes. Quando esgotadas
as possibilidades de acerto, a polícia é chamada para intervir.
4.2 Se essa rua fosse minha: ordem e conflito nas esquinas
Das recomendações recebidas em campo, desde o primeiro momento até
os últimos dias em que lá estivemos, a mais recorrente foi em relação a não
ocupação da esquina da calçada no final do quarteirão do “complexo de cinemas”.
Segundo os michês, a ordem partia do dono dos estabelecimentos, pois para o
mesmo os que ali se encontravam eram todos elementos suspeitos. “Ele não quer
que ninguém faça programa ali” (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de
janeiro de 2011).
Tal atitude ancora-se num raciocínio em que sujeito transgressor e
transgressão se confundem e a norma dita a lei, elementos característicos da
racionalidade moderna. Nestes termos, a acusação vai repousar no indivíduo.
Na modernidade, com a ênfase posta na racionalidade da ação e no
autocontrole, as nuances apontam principalmente para um sujeito fazendo
dele e de sua subjetividade, o ponto de ancoramento último da acusação.
(...) quando transgressão e transgressor tornam-se uma só coisa, e a
separação entre o fato e a lei torna-se maior, o que passa a ocorrer na
modernidade, busca-se através da razão identificar no transgressor motivos
e razões que o levaram à transgressão. (...) é a culpabilidade do agente que
78
está em julgamento, e não apenas a transgressão. É um sujeito quem é
racionalmente perseguido pela acusação, e não apenas sua transgressão.
Sua subjetividade, sua razão e motivos deverão responder pela
necessidade ou não de estabelecer suas “tendências”, logo, de estabelecêlo como acusado ou culpado. (...) Quando é a lei que impera sobre a norma,
não se pune o sujeito mas, nele, a sua transgressão; quando, ao contrário,
é a norma que dita (e reforma) a lei, é o sujeito da transgressão quem está
em questão. (MISSE, 1999, p. 57).
Além da interdição do ponto da esquina dos cinemões, parte considerável
de outros estabelecimentos de mesma natureza expõe nas suas entradas cartazes
proibindo a ingresso de garotos de programa. O que de fato acaba acontecendo,
discretamente. Mesmo no antigo Cine Jangada, onde a prática da prostituição
travesti era permitida/tolerada, a relação “com funcionários e gerência era marcada
por ambiguidades, cumplicidades veladas, advertências, suspensões e expulsões”.
(VALE, 1996, p.107).
As principais justificativas contra a presença dos michês próximos aos
cines faziam referência à concorrência que se dava entre os dois serviços, ao risco
de assaltos e à ameaça ao sigilo dos clientes. Segundo as queixas feitas pelo dono,
os clientes reclamavam da quantidade de pessoas na esquina que estariam vendo
quem entrava e quem saía.
Ele conversa (...), o cliente que tá lá pra dentro. Que tem pessoas casadas.
Que também vão “prali”. Eles querem segurar para as mulheres deles não
saber. (...) Ele não quer que fique na porta do cinema. (Edson, em
entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).
Segundo Parker (1999) os estabelecimentos de circulação gay oferecem
uma segurança limitada àqueles que não desejam ser identificados publicamente
como gays, ou mesmo aos que preferem transitar em ambientes mistos onde há
também a presença de heterossexuais. O sigilo e a discrição dos espaços para
estes clientes são elementos fundamentais que vão influenciar a sua frequência.
[S]er apanhado e marcado como desviante tem importantes conseqüências
para a participação social mais ampla e a auto-imagem do indivíduo. A mais
importante é uma mudança drástica em sua identidade pública. (BECKER,
2008, p.173).
Como acontecia no antigo Jangada, a ambiguidade das relações entre
michês, dono dos cines pornôs e seus funcionários, se materializava em acordos
79
que tentavam estabelecer e no tratamento diferenciado que os últimos mantinham
com alguns garotos de programa.
Quando conversávamos com um funcionário de um dos cinemões,
percebemos o trânsito livre de dois homens que circulavam pelo ponto e por lá
ficavam tranquilamente. Dante, um de nossos entrevistados, estava comigo na
recepção, quando um dos sujeitos deixou o capacete de sua moto para que ele
guardasse. Segundo o funcionário, era o único em que ele depositava alguma
confiança, com o outro era diferente, por conta dos roubos, porque atrapalhava a
movimentação dos clientes, além de entrar no cinema para fazer programa. Apesar
da tensão local, Dante dizia que não era perigoso para ele.
Entre um e outro atendimento aos clientes que chegavam, concluí a
conversa com o funcionário e me desloquei para esquina onde estava o “michê de
confiança”. Jeová falou para mim que não é o único com que o dono não
“embaçava", pois sabia que era o único que não roubava. Sobre essa questão, só
podia falar por ele mesmo, mas não chegou a acusar os outros, tais como Beto e
Edson, mantendo assim o pacto de não acusar seus colegas.
De qualquer forma, não era permitido que “novatos” e desconhecidos do
dono do cinema fizessem ponto no local, os que chegassem no pedaço, seriam
convidados a se retirar. Para garantir que isso acontecesse, havia sido contratado
um segurança particular. Nesta mesma noite, pude presenciar o novo funcionário em
ação, vestido com uma jaqueta preta, dava voltas pelo quarteirão com sua moto
orientando aos que porventura estavam na esquina, que saíssem do local.
Observei que o segurança abordava os que ali estavam e os mandava sair.
Mesmo estando lá, ele não chegou a falar comigo. Vi quando pediu que um
rapaz saísse dali, este tinha porte de cliente, e logo quando ele chegou até
Vieira (michê) e fez a mesma solicitação. (Trecho de Diário de Campo).
A contratação de seguranças particulares é uma prática recorrente por
parte de donos de pontos comerciais e estabelecimentos do Centro de Fortaleza que
funcionam madrugada adentro, tais como bares e boates. No caso específico dos
cines pornôs, não seria a primeira vez que algo semelhante acontecia.
Assim, houve o caso lá de uma pessoa que chegou. Na época, o Márcio
não queria nenhum garoto de programa ali na rua. O “Márcio” dos cinemas,
ali. Ele não queria nenhum menino ali na rua, não. Então, ele contratou uns
caras lá para por todo mundo para ir embora. Na época estava havendo
80
assaltos, e ele achava que todo mundo que ficava ali estava assaltando os
clientes dele do cinema. (Herlon, em entrevista concedida no dia 17 de maio
de 2011).
Deste modo, num primeiro momento, a denúncia pública é substituída
pela solução privada por intermédio da ação dos homens contratados e pelo uso da
força para impedir a permanência dos garotos de programa no espaço.
A acusação social que paira sob o agrupamento de michês, em boa parte
das vezes, não ganha a dimensão de denúncia pública, pois de certa forma buscase resolver os conflitos diretamente entre as partes por diversas razões, dentre as
quais a preocupação com o sigilo (quando a situação envolve diretamente um
cliente). Teme-se o escândalo, a exposição. “A maioria dos clientes não quer a
polícia, não. Porque são casados, não querem se envolver com isso”. (Herlon, em
entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
Segundo Vale (2010), entre as travestis que se prostituíam no Cine
Jangada, a ameaça do escândalo pesava no processo de resolução dos conflitos a
favor das prostitutas por conta do temor da exposição dos clientes. “O travesti
esculacha, ele mesmo, dizendo tudo que o cara fez e não quer pagar”. (P1, em
entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
Outro motivo fica evidente quando o conflito está relacionado ao dono dos
cines e os michês: é a ideia de que “chamar a polícia não resolve”. Jeová, o “michê
de confiança”, afirmou que não seria interessante questionar a presença do
segurança particular, chamar a polícia só traria transtorno, ir à delegacia etc.,
quando no cotidiano das relações as coisas se resolviam entre eles.
A polícia é chamada em situações em que as tentativas de acordo se
esgotam. A sua presença inibe a circulação dos clientes, dos cinemões e dos
michês. “Até porque eles têm os problemas, eles querem resolver por eles próprios.
Até pela questão: quem é que vai parar o cara tendo a viatura do Ronda com eles”?
(P5, em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
De acordo com os policiais, eles têm noção da grande quantidade de
vigias nas ruas, mas os consideram importantes por conta da grande extensão de
área que cobrem. Como “não dá para fazer tudo sozinho”, estes acabam servindo
como segurança complementar, trazendo demandas aos policiais: “Qualquer
problema, chamam a polícia”. (P3, em entrevista concedida no dia 17de maio de
2011).
81
O que à primeira vista poderia parecer uma “terra de ninguém21”
(FREITAS, 2003), revela-se como um território demarcado em função da dinâmica
das relações estabelecidas entre sujeitos e instituições que operam no espaço.
Mesmo não estando presente por todo o tempo no ponto de prostituição e seus
arredores mais próximos, havia a clareza da existência da polícia e de sua
autoridade na mediação dos conflitos.
Os michês como “donos do pedaço” agem a partir de táticas empregadas
no cotidiano que se contrapõem ao que diz respeito à norma, buscando assegurar
sua independência e aproveitando-se das ocasiões e possibilidades de ganho. Por
tática, define-se:
[U]m cálculo que nada pode contar com um próprio, nem portanto com uma
fronteira que distingue o outro como totalidade visível. A tática só tem por
lugar o do outro. Ela aí se insinua, fragmentariamente, sem apreendê-lo por
inteiro, sem poder retê-lo à distância. Ela não dispõe de base onde
capitalizar os seus proveitos, preparar suas expansões e assegurar uma
independência em face das circunstâncias. O “próprio” é uma vitória do
lugar sobre o tempo. Ao contrário, pelo fato de seu não-lugar, a tática
depende do tempo, vigiando para “captar no voo” possibilidades de ganho.
Tem constantemente que jogar com os acontecimentos para os transformar
em “ocasiões”. (CERTEAU, 1990, p. 46-7).
De forma diferenciada, a polícia intervém no local estrategicamente.
Quando intervém no território, o faz por intermédio de um conhecimento anterior,
através de técnicas e tecnologias. Para além disso, possui o exercício da
força/violência legitimado pelo Estado (WEBER, 2004).
Chamo de “estratégia” o cálculo das relações de forças que se torna
possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder é
isolável de um “ambiente”. Ela postula um lugar capaz de ser circunscrito
como um próprio e portanto capaz de servir de base à uma gestão de suas
relações com uma exterioridade distinta. (CERTEAU, 1990, p.46).
As relações de poder (FOUCAULT, 2010) constituídas no espaço da rua
revelam um movimento de forças que se deslocam entre personagens através de
jogos e negociações cotidianas. Neste fluxo, se identificam momentos de
21
Refere-se a uma região marcada pela impunidade e insegurança “representada por valores que lhe
são fundantes: pela inimputabilidade de seus agentes violentadores; pela conivência e ou omissão
das instituições responsáveis pela garantia da ordem e da segurança públicas; pela ausência de
um estado jurídico co-institucional dos direitos sociais e da cidadania, e pelo domínio do
desconhecido, expresso pelo valor do ninguém sabe, ninguém viu”. (FREITAS, 2003, p.118).
82
aproximação, distanciamentos, pactos e conflitos que envolvem dois ou mais grupos
e instituições.
4.3 Governo, território e polícia: espaço urbano e gestão das populações
Na condição de agentes de segurança pública legitimados pelo Estado, o
trabalho da polícia é reconhecido como uma instância superior na resolução de
conflitos. Seu trabalho está vinculado ao exercício de poder fundamentado na
autoridade de um governante na gestão de uma população circunscrita a um
território específico (FOUCAULT, 2010). Quando nos referirmos ao poder, tomamos
como questão fundamental percebê-lo como relação, e a partir disso,
[C]aptar o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações, lá
onde ele se torna capilar; captar o poder nas suas formas e instituições
mais regionais e locais, principalmente no ponto em que, ultrapassando as
regras de direito que o organizam e delimitam, ele se prolonga, penetra em
instituições, corporifica-se em técnicas e se mune de instrumentos de
intervenção material, eventualmente, violento. (FOUCAULT, 2010, p. 182).
A atividade policial é executada a partir de uma racionalidade estratégica.
O programa Ronda do Quarteirão foi pensado para oferecer uma nova modalidade
de policiamento que, dentre suas características se destaca a presença ostensiva
em uma determinada região da Cidade, com grupos de policiais equipados com
equipamentos de ponta.
O Programa foi lançado em novembro de 2007 pelo Govero Cid Gomes
(2007-2010), inicialmente em quatro bairros da cidade de Fortaleza, sendo
expandido na seqüência para os demais bairros da Região Metropolitana e
do Estado. Somente na capital cearense, originalmente, foram dispostos
mais de 1500 policiais divididos em 122 equipes cada uma composta por 12
policiais, que se revezavam nos três turnos por meio de patrulhamento
preventivo e ostensivo 24horas. (BRASIL, 2010, p. 98).
A idéia foi colocar viaturas (carros do tipo Hylux) em áreas limites, de 1,5 a 3
quilômetros de extensão, patrulhadas por 12 policiais que permanecem
sempre na mesma área de atuação. (...) As viaturas são acompanhadas por
uma moto e equipadas com rádio de comunicação com o Centro Integrado
de Operações de Segurança (CIOPs); computador de bordo. (FREITAS,
2009, p. 64).
83
Na sociedade moderna, constituiu-se uma nova governamentalidade
(razão de Estado22) centrada nos elementos: sociedade território e segurança. Neste
patamar de organização, os governos encarregam-se das relações entre os homens,
costumes, hábitos, formas de agir e pensar, na gestão de suas vidas.
Quer dizer, que as coisas das quais o governo deve encarregar-se são os
homens, mas em suas relações, em seus laços, seus emaranhamentos com
essas coisas que são as riquezas, os recursos, as substâncias, o território,
com certeza, em suas fronteiras, com suas qualidades, seu clima, sua
aridez, sua fertilidade; são os homens com as relações com essas outras
coisas que são os costumes, os hábitos, as maneiras de fazer ou de pensar
e, enfim, são os homens me suas com outras coisas ainda, que podem ser
os acidentes ou as desgraças, como a fome, as epidemias, a morte.
(FOUCAULT, 2006, p. 290).
Esta arte de governo vale-se da estatística como matriz (ou aritmética
política), enquanto ciência do Estado, que permite quantificar os fenômenos da
população possibilitando que se governe de forma racional e refletida, sendo a
soberania exercida sobre os sujeitos que habitam um território. (FOUCAULT, 2006).
Trata-se, nesse sentido, da gestão da vida dos indivíduos, de um poder
que vai incidir no modo como as pessoas vivem, dos fenômenos biológicos:
nascimentos, mortes, enfermidades, envelhecimento, sexualidade, das relações com
o meio ambiente e o espaço, busca-se racionalizá-los e regular as populações.
[O] Estado deve antes de tudo cuidar dos homens como população. Ele
exerce seu poder sobre os seres vivos como seres viventes, e sua política
é, em consequência, necessariamente, uma biopolítica. Sendo a população
apenas, aquilo que o Estado cuida, visando, é claro, ao seu próprio
benefício, o Estado pode, ao seu bel-prazer, massacrá-la. (Id. Ibdem, p.
316).
“Uma sociedade normalizadora é o efeito histórico de uma tecnologia de
poder centrada na vida” (FOUCAULT, 1999, p. 135). O Estado, nessa sociedade
conta com mecanismos reguladores dos processos biológicos, como a polícia. Esta
é, ao mesmo tempo, um aparelho de disciplina e um aparelho de Estado que opera
a mecânica do poder de soberania (FOUCAULT, 2005).
A polícia no século XVIII é compreendida como um tipo de tecnologia das
ações estatais que visava garantir meios que fizessem crescer as forças no interior
22
Segundo Foucault (2006): Razão de Estado entendida como uma racionalidade própria à arte de
governar os Estados.
84
de um Estado (FOUCAULT, 1997). Seu papel se diferencia na época daquele que é
atribuído à instituição policial, hoje. Dos seus objetivos passados, podemos atribuir à
polícia atual a garantia da ordem interna pelo “bem-estar” dos indivíduos.
A polícia garante competência e se destaca ao utilizar a força física
autorizada para atingir pessoas “desviantes” do comportamento social
consentido. Essa força é de uso interno, delimitada só para pessoas
autorizadas para manter a ordem dentro da sociedade, o que legalmente
não compete ao exército e aos grupamentos militares. (ALMEIDA, 2004, p.
117).
No universo das interações com as populações do território homoerótico,
verifica-se uma resistência à presença de policiais, muito em função da questão do
sigilo, tanto quanto do questionamento do real poder de mediação e resolução dos
conflitos locais.
4.4 Atividade policial em questão: entre recusas e reconsiderações
A figura do policial num território marginal como os pontos de prostituição
e outros espaços constituintes da mancha homoerótica do Centro de Fortaleza
suscita desconforto e apreensão nos indivíduos envolvidos na situação estudada. De
um modo geral, não se confia na polícia, nem mesmo para garantir a segurança de
quem se prostitui na rua.
É o seguinte, em relação à polícia, a gente nunca se sente seguro. Que a
gente nunca sabe quem está dentro da viatura. A gente nunca sabe como
são os policiais que estão ali dentro, naquela noite. Então, a gente tem
que... no meu caso, eu tenho a certeza e a confiança, que eu não posso, e
não devo nada. Mas sei lá, pode haver uma abordagem deles, dizer que
roubaram uma pessoa, de querer jogar a culpa para cima de mim. Aquela
coisa toda, de querer me fazer medo, alguma coisa assim. Pode acontecer
várias coisas, não confio, não. (Herlon, em entrevista concedida no dia 17
de maio de 2011).
Os próprios policiais tem noção de que geralmente, busca-se resolver os
problemas internos aos grupos entre os próprios michês e outros grupos
marginalizados. “Até porque eles têm os problemas. Eles querem resolver por eles
próprios”. (P5, em entrevista coletiva no dia 17 de maio de 2011). As populações
noturnas do Centro, segundo os policiais, são constituídas, sobretudo de:
85
uma miscigenação maior de pessoas de várias classes sociais e pessoas
que querem se aproveitar também dessa grande confluência de pessoas
para efetuar pequenos furtos, roubos e, a questão dos programas sexuais...
É, tem as boates. Traficantes, pequenos traficantes, os travestis, os michês
e esses catadores de reciclados e pessoas que se aproveitam do período
noturno para efetuar furtos e arrombamentos (...). No Centro é mais michê e
travesti. Mulheres, elas ficam mais na parte litorânea, Dragão do Mar,
imediações... Tanto que eles não se misturam. (P1, em entrevista concedida
no dia 17 de maio de 2011).
Quando acionados de pronto, a denúncia costuma partir de indivíduos
estranhos à cena marginal. Como por exemplo, moradores se queixando do barulho
e da nudez dos que se prostituem, ou mesmo quando testemunham situações de
conflitos e buscam interferir. No dia em que um homem foi alvejado com pedras na
cabeça, os moradores sugeriram que se chamasse uma ambulância e o “Ronda”, o
que contrariava o desejo de quem fora a vítima da violência.
O primeiro contato que tivemos com um policial dentro do circuito
homoerótico do Centro de Fortaleza foi num dos cines pornôs próximos à Igreja da
Praça do Carmo. Ainda estávamos fazendo as primeiras incursões a fim de mapear
os espaços de concentração de prostitutos. Logo que adentrou pelos corredores do
cinemão, aquela figura chamou a atenção, gerando certo desconforto também. O
homem estava portando uma mochila cheia de DVDs que colocava à venda para os
clientes, além de oferecer-se para fazer programas. Antes mesmo de conversamos
sobre sua presença no local, meu companheiro de campo já havia iniciado um batepapo com ele.
[C]hama minha atenção para a cena e adianta-se no início de uma
conversa, partindo do questionamento a respeito da presença do mesmo
naquele local. Comenta de forma provocativa que imaginava que o policial
estaria ali para censurar e coibir as práticas dos frequentadores do cine.
Como resposta, obteve a alegativa de que o agente estava ali enquanto
“cidadão comum”. (Trecho de diário de campo).
A resposta ao questionamento coloca a seguinte indagação: como
“cidadão comum” poderíamos ficar tranquilos com a sua presença no cine, e se
estivesse ali “como policial”? É como se o “estar como policial” o colocasse num
papel que o faria recriminar os homoeróticos presentes. Na realidade, tratava-se de
um “policial-michê”, e como outros que havíamos contactado para entrevistas
futuras, nos deu alguns dribles e sumiu.
Esta expectativa negativa em torno da figura do policial suspeitamos estar
associada a um histórico de relações marcado por situações de conflitos, violência e
86
repressão. A prostituição e a homossexualidade, mesmo não sendo consideradas
crime no Brasil, sofrem a condenação moral por parte da sociedade, e foi alvo de
operações de higienização nas ruas de cidades brasileiras.
A prostituição em si não era considerada crime no Brasil. Contudo a polícia
podia acusar seus praticantes de vadiagem, perturbação da ordem pública
ou prática de atos obscenos em público. A acusação mais comum era de
vadiagem. Os travestis detidos deviam provar que tinham emprego
remunerado. Se não pudessem apresentar documentos devidamente
assinados por alguma empresa, estabelecimento comercial ou empregador
legítimo, tinham trinta dias para conseguir um emprego. Se fossem presos
novamente sem ter preenchido esse requisito, ficavam sujeitos até três
meses de prisão de acordo com o Artigo 59 do Código Penal. Os travestis
que estivessem legalmente registrados e empregados, mas aqui ainda
assim atuassem na prostituição em meio período, também poderiam ser
acusados de atentado ao pudor ou de perturbação da ordem pública.
(GREEN, 2000, p. 404).
No final da década de 1970, em São Paulo, o Delegado Wilson Richetti
promoveu uma campanha que visava limpar o centro das prostitutas e dos
homossexuais. Os métodos empregados por ele eram batidas relâmpagos nos
locais de frequência homossexual, prisões ilegais e uso da violência. (PARKER,
1985) Em resposta à repressão, organizou-se uma das primeiras manifestações de
rua do movimento homossexual do Brasil.
Em Fortaleza, no ano de 1988, aconteceram fatos semelhantes que se
tornaram alvo de reportagem de um dos principais jornais da Cidade (ANEXO A).
A matéria com o título “PM decreta guerra a homossexuais”, do dia 23 de
novembro de 1988, inicia-se fazendo referência à campanha do Governo do Estado
que tinha como intuito melhorar a imagem da Polícia perante a opinião pública no
primeiro
mandato
do
então
Governador
do
Ceará,
Tasso
Jereissati.
Contraditoriamente, os homossexuais estavam sofrendo uma “verdadeira caçada”
no Centro da Cidade, principalmente por conta da Polícia Militar.
Segundo os entrevistados, os gays e travestis nunca tinham sofrido
preconceito e perseguição tamanha. No trecho conhecido como “Passarela”, entre
as ruas General Sampaio e Barão de Aratanha, o terror entre os homossexuais era
grande. As travestis tinham medo de frequentar as ruas porque a polícia as
recolhiam indiscriminadamente.
Um dos episódios de abuso policial descritos no jornal foi a invasão de
uma boate de nome “Feitiço”, há duas semanas passadas, no momento em que se
realizava um concurso de beleza, o desfile em que seria escolhida a “Miss Playboy
87
Gay”. A casa de show havia sido alvo de uma blitz ilegal, os frequentadores foram
agredidos e as travestis e transformistas postas para fora na calçada. Em fila, os
policiais as guiaram até a boate “Casablanca”, lá fizeram o mesmo e prenderam no
total de 48 pessoas. Segundo as agredidas, a documentação das mesmas sequer
foi solicitada, como também não apresentaram ordem de prisão.
A reportagem ainda retratava uma série de agressões, torturas, extorsões
e abusos sexuais sofridos nas mãos de policiais militares e civis, ocorridas até
mesmo em prédios e viaturas da polícia. Denunciava-se ainda o recebimento de
propina que era paga por “travestis marginais” para que fossem liberadas em caso
de prisão.
Em resposta às denúncias apresentadas no jornal Diário do Nordeste, o
comandante do policiamento da Capital na época, Evandro Ferreira, afirmou que
desconhecia ação e pediu que se formalizassem as acusações para que fossem
apuradas. Ainda afirmou que reuniria a tropa a fim de proibi-los de toda a espécie de
abusos passados e futuros.
O coronel falou ainda dos excessos dos homossexuais que atentavam
contra o pudor, mostrando-se em via pública e, em algumas ocasiões, tendo
relações sexuais nas ruas do Centro.
O então Secretário de Segurança Pública do Ceará, Moroni Torgan, ao
ser entrevistado, comentou que só havia tomado conhecimento da operação policial
por meio do jornal, pediu que as denúncias fossem encaminhadas para sua pasta.
Ainda declarou “Eu não tenho nada contra a pessoa do homossexual, agora não
vamos permitir a pederastia no Centro da cidade”.
Parker (2002), ao discorrer sobre a cultura gay nas cidades brasileiras, ao
visitar a Cidade de Fortaleza, descreveu em seu diário de campo uma batida da
polícia realizada na antiga boate Medhuza.
Por volta de 2h30min da manhã houve uma blitz da polícia, com três
policiais mulheres e quatro homens. Eles tinham algum documento, e
aparentemente uma ordem para fechar o estabelecimento caso houvesse
algum menor lá dentro. (...) Os policiais as observavam e faziam, entre eles,
comentários sobre as drags (nós não conseguimos ouvir o que diziam, mas
os comentários eram claramente depreciativos a respeito de todo mundo
que estava ali). Após verificarem as identidades de alguns, eles finalmente
ficaram satisfeitos e deixaram o local sem nenhum problema. (IDEM, p.2256).
88
Situações como as que foram descritas povoam as memórias dos michês
que estão no ponto há mais tempo. Quando questionado sobre o convívio com os
policiais no ponto, Beto falou que antigamente os policiais incentivavam que os
mesmos se exibissem na rua, mostrassem suas partes íntimas a fim de chamar a
atenção de clientes. Quando estes se aproximavam para fazer programas, eram
vítimas de chantagem e extorsão. Sendo que hoje ainda acontece: “a maioria dos
policiais que entra nesse rolo, eles querem grana também da pessoa”. (Herlon, em
entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
4.5 Uma questão de confiança: populações marginais e abordagem policial no
centro
A gente não pode confiar, a gente tem que confiar na gente mesmo,
naquela hora. Meio difícil. Ela não é a segurança da gente (A polícia). A
segurança da gente é a gente mesmo. É porque muitas vezes eles não
querem entender o nosso lado. Só querem entender o lado dos outros.
(Edson, em entrevista concedida no dia 24 de fevereiro de 2011).
Se por um lado os michês não confiam na polícia, e cuidam eles mesmos
de sua segurança nas ruas, os policiais, também, não têm uma visão positiva dos
garotos de programa: “Como eu disse, geralmente é uma pessoa desacreditada,
uma pessoa drogada sem (...) faz aquilo, às vezes, só para fumar pedra (...) sem
perspectivas de ter emprego” (P3, em entrevista concedida no dia 17 de maio de
2011).
Em comparação com as travestis, os michês eram vistos como pessoas
mais discretas: “Os michês são discretos. Não é só nesse tipo de ocorrência, não,
que ninguém quer problema, não. Quer tudo voltar bonito, entendeu?” (P5, em
entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
. As travestis usam do “escândalo” como forma de ameaçar os clientes e
se proteger de situações de conflito23. “Já houve uma ocorrência que a pessoa lá [...]
partiu pra cima da polícia, tentou entrar em conflito com os policiais. Um já tentou
furar o policial com uma seringa se dizendo portador do HIV”. (P3, em entrevista
concedida no dia 17 de maio de 2011).
23
Em algumas situações os clientes também são algozes no trato com prostitutas, travestis e garotos
de programa, segundo os mesmos alguns tentam e chegam a agredi-los.
89
O travesti esculacha, ele mesmo, dizendo tudo que o cara fez e não quer
pagar. É a questão desse pessoal da área, faz roubos, muitos furtos e
roubos quando as pessoas vêm aí fazer os programas se aproveitam da
situação para roubar o celular, o toca-fitas, a carteira. Porque são homens,
não são mulheres. Muitos deles até mais fortes do que a gente. (P4, em
entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
Os policiais fazem referência ao fato de que a maioria das pessoas deseja
resolver seus problemas sem precisar passar pelo desgaste de comparecer a uma
delegacia e seguir todos os protocolos formais de uma denúncia e da apuração dos
fatos. Por exemplo, quando alguém é vítima de assalto, deseja ter seu bem de volta.
Caso consiga recuperá-lo, a situação está resolvida.
Você chega: “Eu fui roubado, eu quero o celular, não quero fazer o
procedimento, não. Leva ele lá e deixa preso”. É tudo nas suas costas. “Eu
quero ir embora”, ninguém quer fazer o procedimento, ninguém quer ir ao
IML, só quer seu bem. (P5, em entrevista concedida no dia 17 de maio de
2011).
Mais uma vez, a importância da preservação do sigilo e da discrição
influencia o comportamento dos envolvidos. “A maioria gritante não quer a
exposição. Muito difícil a vítima querer ir para a delegacia, muito difícil, a questão da
exposição”. (P3, em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).
A respeito da desconfiança na relação com os policiais por parte dos
michês, faz-se ainda uma diferenciação entre as “as polícias”. Neste comparativo,
“os de farda azul” (policiais do Programa Ronda do Quarteirão) eram tidos como
aqueles com os quais tinham uma convivência mais tranquila.
Quando questionei sobre a atuação da polícia em relação à
presença/trabalho deles na rua, respondeu que era tranquilo, a “polícia
comum” e o “Ronda” não mexia com eles. Por outro lado, as forças policiais,
não soube especificar se o Gate ou COTAM, pressionavam para que
saíssem das ruas e relatou o caso de um colega que disse ter sido tratado
como um marginal pelos policiais, que estes foram muito rudes na
abordagem, e mesmo assim não saiu do “ponto” porque sabia, segundo ele,
que não havia problema em estar ali. (...) A polícia só mexia com “de
menor”. Ainda, afirmou que alguns fazem programa com travestis e michês,
“os de farda azul”. (Trecho de Diário de Campo).
A relação de ambiguidade entre polícia e populações marginais
materializava-se em situações em que apesar das tensões entre os grupos, alguma
cooperação era possível entre seus membros. “Já teve a ocorrência que chegou,
90
que os travestis ali da Duque de Caxias, acabaram ajudando, dizendo o que tinha
ocorrido, para onde tinha ido”. (P3, em entrevista concedida no dia 17 de maio de
2011).
Como um das características do Programa Ronda do Quarteirão é a
permanência constante numa mesma área, os garotos de programa acabam por
conhecê-los e vice-versa. “Eles sabem do trabalho da gente, eles veem a gente toda
a noite. Eles passam pela gente”... (Edson, em entrevista concedida no dia 17 de
maio de 2011). Desta relação mais próxima, segundo as falas dos michês, alguns
policiais assumiam, também, o papel de usuários dos serviços sexuais de prostitutos
e prostitutas. Em certos casos, os programas eram feitos em nome dos laços que se
desenvolviam entre eles. “Um deles é pago e o outro é na camaradagem mesmo.
Sem cobrar. Na maioria deles, é com garotas, mais com garotas. Com garotos
também”. (Edson, em entrevista concedia no dia 27 de janeiro de 2011). No seu
trabalho sobre prostituição e policiamento em Brasília, Rodrigues (2009) registra
situações semelhantes,
Em algumas ocasiões, a relação entre policiais e prostitutas assumia
características de colaboração, e então juntos, buscavam evidenciar a
existência e ação do (a) explorador (a). Havia ocasiões em que eram eles,
os próprios agentes da lei, que se colocavam como exploradores.
Utilizando-se de seu poder e autoridade, negociavam proteção ou
simplesmente a não fiscalização do “negócio” em troca do recebimento de
favores sexuais das prostitutas sem, entretanto, se submeter-se à relação
contratual estabelecida normalmente com os clientes. (IDEM, p. 33).
Segundo a fala de nossos interlocutores, apesar da desconfiança que
ainda paira sob as relações entre michês e polícia, o sentimento de mudança em
torno das práticas policiais se faz presente nas falas dos mais antigos prostitutos em
campo. Pelo menos, em relação ao que chamam de “polícia comum” e o “Ronda”.
Ao longo da minha experiência, desde o começo, assim. Hoje mudou, está
muito bom, muito bom mesmo. Porque naquela época que nós fazíamos na
rua ali na Assunção. Entre a rua Assunção e Praça do Carmo; eles
abordavam mesmo, antigamente. Não queria saber o que estava fazendo
ali, não. Mas hoje, não. Hoje, eles já sabem o limite da demarcação das
pessoas que estão fazendo o programa. Passam devagarzinho, porque eles
passam bem assim, devagarzinho, no meu caso, eles assim, não pararam,
ainda não. Nunca parou, ainda não. A abordagem deles era saber o que a
gente estava fazendo ali. O que é que a gente estava procurando A gente já
levou, eu já levei: “Tu tá atrás de transa é com homem, seu viado”! Já ouvi
casos de bater, de mandar embora. A pessoa resistir, e eles mandarem
embora. E se voltasse ali, eles agrediam. Hoje em dia, não acontece mais
isso, não. A não ser que eles flagrem a pessoa roubando ou fazendo
91
alguma outra delinqüência. Naquela época, era a cavalaria. Hoje, já
melhorou bastante (Herlon, em entrevista concedida no dia 17 de maio de
2011).
Enquanto estávamos em campo, numa das noites com um grupo de mais
ou menos quatro michês, observamos quando uma viatura do Ronda do Quarteirão
se aproximou da esquina. Não foi esboçada nenhuma reação que pudesse
expressar uma preocupação ou receio. O veículo apenas diminuiu de velocidade,
quase que parando, lançou luz alta em nossa direção, como quem buscava observar
melhor a cena, num intervalo de segundos, simplesmente, partiu. “É muito normal a
reação: O que tu ta fazendo? Tô fazendo programa. Não falam nada. Passam na
deles”. (Edson, em entrevista concedida em17 de maio de 2011).
Segundo os policiais, por vezes, a abordagem se limita a uma
advertência verbal.
Hoje, pelo menos, a composição, a gente tem prendido muito pouco estas
pessoas. Tanto que aqueles mais problemáticos ou já foram presos, ou já
morreram Ou eles próprios procuram tirar porque sujam para eles. Agora, o
que acontece muito é que os clientes fazem o serviço lá e depois não
querem pagar o combinado. Aí, que surge o problema. (P1, em entrevista
concedida em 17 de maio de 2011).
Este diferencial pode estar relacionado à proposta do Programa Ronda do
Quarteirão que pretende atuar a partir de uma nova forma de tratar a população,
presente de forma mais frequente nos espaços, dialogando mais antes de agir.
Segundo os policiais, no processo de formação, apesar de não tratarem do tema das
sexualidades especificamente, viram “uma coisa bem geral” em Direitos Humanos.
A preocupação de quem está na rua é não saber que tipo de policial está
dentro da viatura, e no que ele pode fazer. “Na rua, a gente fica exposto a tudo.
Pode passar uns policiais, podem mandar a gente sair”. (Herlon, em entrevista
concedida no dia 17 de maio de 2011).
A sensação de insegurança permanece, mesmo afirmando que de certa
forma a repressão diminuiu. A polícia atrapalha, inspira suspeita, impede que os
clientes sintam-se à vontade para abordar os michês de rua, e mesmo “não
resolvendo” os conflitos, é chamada para fazer mediações.
O principal dele gira em torno da permanência dos michês na esquina do
quarteirão do “complexo de cinemas”, o que contraria o interesse do dono dos
estabelecimentos. Com a justificativa de que pretende proteger o sigilo de seus
clientes e dos assaltos supostamente praticados pelos garotos de programa.
92
Esgotadas as tentativas de acordo entre as partes, foi chamada a polícia. Segundo
os michês, o dono dos cinemas os havia acusado de roubo. “Ali, a gente já conhece,
a gente briga é muito. Ele quer acabar com a gente. Quis mandar a polícia bater na
gente” (Edson, em entrevista realizada no dia 27 de janeiro de 2011).
Começaram chegando na gente logo falando um monte de coisas.
Perguntando que estava acontecendo, não sei o quê mais lá. A gente
chegou e disse assim: Não, apenas está rolando um problema porque o
dono do cinema não quer que a gente faça mais programa (...). “Não, mas
ele deu parte de vocês. Vocês tem que ir à delegacia. Chegaram logo
falando, bem alto com a gente, mas não bateram nada. Aí, foi todo mundo
pra delegacia. Os quatro, eu, o Beto, Júlio. Todo mundo, os quatro. A gente
foi à Delegacia das Mulheres, fez o B.O. O dono também foi. Ele fez um
B.O. contra a gente. Aí, depois, a gente entrou num acordo porque estava
acontecendo uns problemas. (Edson, em entrevista realizada no dia 17 de
maio de 2011).
Na hora da abordagem, os policiais chamavam os michês de “garoto de
programa paia”. Levados à presença do delegado, os michês e o “dono da rua24”
discutiram a situação, expondo seus motivos. Na ocasião, o suposto chefe do grupo,
Beto, estava presente na mesa de negociações.
Foi muito bom. Não foi agressivo com a gente. Foi muito bom. Ele disse
assim: cara a cara, “É, não tem nenhum problema, mas vocês também têm
que entender o lado do dono do cinema porque também tem que preservar
os clientes dele”. Mas ele, a acusação que ele fez foi muito grave. Acusou a
gente de está fazendo ponto em frente do cinema, perto do cinema. (Edson,
em entrevista realizada no dia 17 de maio de 2011).
O acertado seria que os michês não ficariam em frente aos cinemas. Ele
conversa (...), o cliente que tá lá pra dentro. Que tem pessoas casadas. Que
também vão pra ali. Eles querem segurar pra as mulheres deles não saber. “Essas
coisas a gente respeitou”. (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de
2011).
Voltando à cena, no espaço onde os conflitos “nem a polícia resolve”,
permanece a mesma tensão entre michês e proprietário. Desta vez um novo
personagem se faz presente: o segurança particular dos cines pornôs. Sua função:
não permitir que os garotos de programa fiquem na esquina. Neste dia, avistamos
apenas um, daqueles que tinha nos driblado. Falamos por alguns instantes, vi
24
O termo faz referência a como um dos entrevistados se reportava ao falar do proprietário dos cines
pornôs.
93
quando o mesmo foi interceptado pelo segurança, conversamos mais algumas
coisas, e ele me disse que não ia ficar por lá.
Naquelas circunstâncias, era arriscado permancer no local, incitar alguma
espécie de conflito em meio a dinâmica permeada pela desconfiança mútua entre o
garoto de programa e o segurança. Esta mesma sensação, de ausência de
confiança entre sujeitos e instituições se apresentava cotidianamente em meio as
relações que se constituíam no pedaço.
Giddens (1991) em sua análise institucional da modernidade, ao abordar
a questão da segurança, perigo/risco e confiança, destaca que o desenvolvimento
das instituições sociais propiciaram maiores oportunidades de criação de uma
existência segura e gratificante para a humanidade como nunca antes.
Em contrapartida, a modernidade trouxe consigo um lado sombrio, que
não havia sido previsto pelos fundadores clássicos da Sociologia (Durkheim, Weber
e Marx). Esta consideração se dá em virtude de acontecimentos tais como a
degradação ambiental em decorrência do desenvolvimento das forças de produção,
do uso arbitrário do poder político, e das guerras que eclodiram no século XX.
Segundo o autor, “O mundo em que vivemos hoje é um mundo carregado e
perigoso” (p.15). Numa analogia próxima, ao remeter-se aos problemas das grandes
cidades, Bauman afirma:
A aguda e crônica experiência da insegurança é um efeito colateral da
convicção de que, com as capacidades adequadas e os esforços
necessários, é possível obter uma segurança completa. Ao mesmo tempo,
percebemos que não iremos alcançá-la. (2009, p.15).
A insegurança moderna fundamenta-se no pensamento de que o perigo
está presente em toda lugar, caracteriza-se pelo medo do crime e dos criminosos.
Suspeita-se dos outros e das suas intenções. Culpa atribuída ao individualismo
moderno “pelo dever individual de cuidar de si próprio e de fazer por si mesmo”
(IDEM, p.16) que substituiu as comunidades solidamente unidas e as corporações.
Tal reflexão vai de encontro com o que nossos informantes nos alertavam: da
necessidade de “responder por sim mesmo” na rua.
De acordo com Bauman (2009), como consequência da ascensão do
individualismo na sociedade moderna, gera-se uma estressante sensação de
insegurança, em virtude da transformação que não teria ocorrido sem que houvesse
existido simultaneamente duas “reviravoltas”: a supervalorização do indivíduo,
94
seguida da fragilidade e vulnerabilidade sem precedentes do mesmo. Sobe este
paradigma, verifica-se a produção de um sujeito desprotegido, desprovido da
proteção de antigos laços.
Mesmo nesta conjuntura, característica das sociedades modernas, em
que os riscos se fazem presentes, e em tempos de dissolução da solidariedade. “A
solidariedade sucedeu a irmandade como melhor defesa para um destino cada vez
mais incerto” (IDEM, p. 19). Neste sentido, foi verificado que em grupo, os michês
tendem a garantir a segurança de seus pares. Com os quais é possível estabelecer
relações de confiança definida por Giddens:
como crença na credibilidade de uma pessoa ou sistema, tendo em vista um
dado conjunto de resultados ou eventos, em que essa crença expressa uma
fé na probidade ou amor de um outro, ou na correção de princípios
abstratos (conhecimento técnico). (1991, p.36).
Ao tratar da confiança na modernidade, o autor distingue dois tipos de
compromisso: os compromissos com rosto e os compromisso sem rosto.
Os primeiros se referem a relações verdadeiras que são mantidas por, ou
expressas em conexões sociais estabelecidas em circunstâncias de copresença. Os segundos dizem respeito ao desenvolvimento de fé em fichas
simbólicas ou sistemas peritos, os quais, tomamos em conjunto, devo
chamar de sistemas abstratos. (IDEM, p. 73-4).
No limiar das interações na noite urbana do Centro de Fortaleza, o
contato entre sujeitos mais próximos e que partilham de uma experiência
semelhante nas ruas pode ser enquadrado na esfera dos compromissos com rosto.
Quando nos reportamos ao contato que se dá entre Polícia e michês, é possível
relacioná-lo ao contexto dos compromisso sem rosto, já que a instituição policial
pode ser considerada dentro dos moldes de um sistema perito. “Por sistemas peritos
quero me referir a sistemas de excelência técnica ou competência profissional que
organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos”. (IDEM,
p.30).
Quando levamos em conta que o envolvimento fundamental da confiança
com as instituições de modernidade, e que a mesma se baseia tendo em vista um
conjunto de resultados e eventos, concluímos a falta de credibilidade da instituição
frente ao grupo de prostitutos de rua. A ideia de que a “polícia não resolve”
(resultados), e o relato de experiências que tratam de episódios de truculência no
95
trato com a população de michês (eventos) incidem diretamente na constituição de
um sentimento de desconfiança declarado pelos “garotos”.
Essa desconfiança é relatada por outros segmentos sociais (FREITAS,
2009). “Se de um lado a polícia é necessária, por outro, é cada vez mais
desacreditada (IDEM, p. 90). Existe o desejo de ser protegido por ela, ao mesmo
tempo que há o temor de ser vítima dela.
Aliás o medo, foi possível identificar um “sistema de medos” em campo
(IDEM, 2003). Desde o medo de alguns clientes dos cinemas e michês que temem
ser identificados como homossexuais, ou de ser assaltados pelo garotos de
programa, o temor do dono dos cines com a segurança e exposição de seus
clientes. O medo dos michês frente às ameaças do dono dos cinemões em chamar
a polícia, que também é temida por conta de experiências de violência vivenciadas.
Apesar das declarações que afirmam uma mudança de caráter positivo na
relação entre agentes de segurança pública, no caso os policiais do Ronda do
Quarteirão, persiste uma desconfiança que se manifesta quando se denuncia que a
polícia só leva em consideração “o outro lado”.
Giddens (1991) nos alerta que os “contatos com peritos ou seus
representantes ou delegados, na forma de encontros em pontos de acesso, são
peculiarmente consequentes nas sociedades modernas.” (p.77). Tomando como
exemplo a viagem aérea, o ar casual estudado e a calma animação do pessoal de
bordo são provavelmente tão importantes na renovação da confiança dos
passageiros
quanto
qualquer
quantidade
de
anúncios
demonstrando
estatisticamente o quão segura é a viagem aérea.
Neste sentido, levamos em consideração que o Programa Ronda do
Quarteirão é objeto de propaganda da segurança pública, e afirmamos que “Os
compromissos com rosto tendem a ser imensamente dependentes do que pode ser
chamado de postura dos representantes ou operadores do sistema”. (IDEM, p. 78).
Sendo assim, é no contato efetivo, na materialização, na prática cotidiana dos
agentes de segurança é que uma instituição se legitima ou não perante à sociedade.
Por fim, depois de algumas semanas, retornamos à rua Assunção. Não
avistei mais o segurança particular. De onde estávamos, caminhei até o ponto para
ver se encontrava algum michê conhecido. Do outro lado da esquina, havia dois
rapazes que não reconheci. Aquela imagem nos informava que a tática dos michês
para garantir sua permanência no ponto era alternar momentos de ocupação e recuo
96
no local. Era como se alguém os dissesse: havia chegado o momento de voltar ao
pedaço.
97
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Enfim, é chegada a hora de “fechar a questão”. Oportunidade de trazer à
tona o substrato de um esforço que nos consumiu meses de leitura, reflexões,
momentos de insights, inseguranças, acertos e dúvidas; além de um esforço
intelectual, e porque não dizer físico. Longe de afirmar trazer uma verdade sobre os
fatos investigados, queremos discorrer a respeito de uma interpretação: uma
narrativa pautada naquilo que nos foi possível apreender em campo.
De maneira alguma reivindico autoridade para falar como representante
dos sujeitos pesquisados, visto que reconhecemos os limites que qualquer pesquisa
está sujeita. Falamos de uma realidade recortada e interpretada. Desafiante no
sentido em que nos retirou de uma “zona de conforto”, das leituras de gabinete, dos
“campos sossegados” e à luz do dia, onde os interlocutores buscam expor
tranquilamente suas histórias, opiniões e pautas de reivindicação: o campo da
militância e visibilidade política.
Os sujeitos do nosso estudo em questão, por muitas vezes, sequer
desejavam falar, pois esta atitude traria risco aos valores que tanto prezam: o sigilo
e a discrição. Valores que se contrapõem ao cenário de efervescência das
discussões em torno das sexualidades.
Vivemos num tempo de hipervisibilidade do sexo, em que o que se
acreditava pertencer ao campo da intimidade de cada indivíduo é posto em
discussão como assunto corriqueiro nas conversas ao pé do batente, nos diálogos
entre passageiros do ônibus (falas do que classificamos pertencentes ao senso
comum) e nas esferas mais elevadas do conhecimento e da disputa política. Quando
tratamos dos comportamentos e práticas sexuais considerados desviantes, vemos o
debate tomar fôlego, pois desafiam os limites daquilo que é compreendido como
normal.
Em nosso país, em que os acontecimentos da novela das oito costumam
causar comoção nacional e pautar o debate nos quatro cantos da nação, a questão
do beijo gay entre os personagens homossexuais do folhetim televisivo e a
aceitação popular dos mesmos é motivo de discussões acirradas. Assim como a
proposição da criação do Dia do Orgulho Hétero na Cidade de São Paulo e,
semanas depois em Fortaleza; a utilização do “kit-gay” nas escolas públicas
brasileiras dentre vários outros assuntos que permeiam esta problemática.
98
A passagem das margens para o centro das disputas políticas das
questões que dizem respeito à cidadania sexual de populações até então
silenciadas e reclusas é resultado de um acúmulo de lutas e resistências no decorrer
da história moderna que não se encerra. A construção desta força política na
sociedade tem como um dos seus fundamentos a autoafirmação de uma identidade
e a valorização da mesma.
Num primeiro momento, caracterizado pela transgressão, assume-se esta
identidade desviante, ao mesmo tempo em que se busca reinventar novos sentidos
sobre a mesma. A partir daí, e posteriormente a este momento, reivindica-se um
tratamento igualitário perante o Estado e sociedade. E assim, podemos considerar
alguns avanços no campo da cidadania sexual no mundo e no Brasil, verificado por
iniciativas como o reconhecimento da União Civil homoafetiva e a organização das
Paradas do Orgulho Gay, fora os diversos fóruns de discussão política organizados
ora pela militância, ora pelos governos.
Ao mesmo tempo em que testemunhamos toda essa movimentação, o
“levantar de bandeiras”, a reivindicação por visibilidade por certa parcela desta
população de outsiders, encontramos grupos que rejeitam esta postura. Mais que
uma aparente covardia diante da possibilidade de serem “descobertos” como gays
ou bissexuais, há os que reivindicam o direito de permanecer “no armário”. São
indivíduos que não querem, nem se veem representados nas letrinhas da sopa
LGBT.
Para estes sujeitos, a discrição e o sigilo são antes de tudo elementos
indispensáveis nos processos de interação com outros homoeróticos. No caso da
prostituição masculina autoproclamação da identidade homossexual é algo raro até
porque as subdivisões das sexualidades em homo/bi/heterossexual pouco, ou nada
dizem neste universo de homens “que curtem”, “hetéros curiosos”, e etc. O que
importa é ser viril, ter “jeito de homem”.
A fim de realizar nossa investigação que envolveu prostitutos de ruas e
policiais que atuam no Centro de Fortaleza, foi necessário que construíssemos num
primeiro momento um mapa da atividade homoerótica da metrópole cearense.
Destacamos que a prostituição viril de rua é apenas uma das modalidades do
comércio sexual. Neste sentido, recorremos às experiências pessoais anteriores a
nossa constituição como sujeito pesquisador para definir o espaço em que a
inserção em campo seria menos complicada e, sobretudo, onde seria possível obter
99
informações sobre a atividade policial. As prostituições em ambientes virtuais e
espaços fechados, desde já, não permitiriam uma análise neste sentido. Mesmo
assim, consideramos importante situar o trabalho do michê como parte integrante de
um ramo de atividade que inserido num mercado sexual amplo e complexo.
Semelhante a outras metrópoles, o Centro da Cidade de Fortaleza possui
em seu tecido urbano porções territoriais que abrigam e congregam indivíduos
praticantes do homoerotismo dentre outros personagens marginais que povoam
suas ruas. São prédios comerciais, espaços públicos, locais estratégicos,
distribuídos ao longo de uma faixa invisível que se intercala formando o que
classificamos de circuito homoerótico.
Para além da delimitação geográfica, o uso destes territórios são
(re)definidos e ressignificados em virtudes dos horários, dos dias das semanas e dos
códigos identitários que possibilitam a interação despercebida entre indivíduos por
parte daqueles que não dominam o arsenal de gestos e vocabulários particulares
dos grupos que por ali transitam.
Tão importante quanto a propaganda e divulgação dos estabelecimentos
GLS para o público gay assumido, o caráter insuspeito de alguns locais são cruciais
para permanência e trânsito daqueles que prezam pela discrição. No centro de
Fortaleza há espaço para todos, tanto os que preferem as luzes na entrada, quanto
os que não abrem mão de acessos poucos visíveis, acobertados pela escuridão da
noite, escondidos por detrás dos toldos e corredores improvisados.
A prostituição de rua tende a se concentrar em locais e horários menos
visibilizados. O principal “ponto” de michês do Centro de Fortaleza só começa a
funcionar tarde da noite, e localiza-se numa rua detrás de uma avenida que mesmo
no período noturno apresenta uma movimentação intensa, justamente num trecho
que intercala bares, cines-pornôs, praças, motéis de frequência homoerótica.
Justamente, a esquina do quarteirão que concentra o maior número de
“cinemões” numa mesma faixa rua é o espaço de referência onde garotos de
programas e outros personagens noturnos interagem entre si, dentre os quais os
policiais responsáveis pela segurança pública local.
De acordo com os michês, independente da presença de policiais na rua,
um dos principais requisitos para poder encarar a noite no ponto de prostituição é a
capacidade de garantir a sua própria segurança, mesmo que sozinho. Inicialmente, é
necessário que aquele que se pretende garoto de programa seja capaz de suprir sua
100
defesa diante dos riscos cotidianos. Para assegurar sua permanência no local se
pressupõe que o mesmo seja capaz de “fazer amizades”.
Organizados em grupos, os michês estabelecem alianças que visam
garantir a proteção entre seus semelhantes frente às ameaças e conflitos externos.
Internamente, são estabelecidas práticas de solidariedade e pactos de silêncio. O
michê pouco fala sobre si mesmo e seus companheiros, isso quando se pronuncia, e
mesmo assim, algumas de suas histórias se contradizem em algum ponto.
Para o garoto de programa que está na rua, manter-se calado é uma
forma de proteger o seu segredo e de seus colegas. O falar pode colocar em xeque
sua confiabilidade perante o grupo, e a sua integridade física. Recomenda-se que
cada um fique “na sua” a fim de evitar retaliações. A mesma ideia está presente no
conselho de não se meter em conflitos que não o envolvam diretamente, nem o seu
grupo.
Ficar no seu lugar é também algo muito importante, já que os territórios
de prostituição são definidos e delimitados por linhas imaginárias que dividem o
espaço de cada grupo. As travestis tem seu pedaço, os vigilantes noturnos tomam
conta de alguns trechos da rua onde não é permitido que se prostituem. De todo
modo, é recomendado que não se invada o local do outro. Outro conselho é que não
se deve roubar para não trazer uma “má fama” ao grupo. Mesmo assim, se algo
nesse sentido ocorrer é importante que se guarde em segredo, como se espera que
um não denuncie o outro.
Qualquer estranho que se aproxime é visto com suspeita. A sensação de
desconfiança é uma constante, pois a não se sabe o momento em que alguém pode
se aproximar. Os que já estão enturmados com o local reconhecem as figuras que
podem representar algum perigo e já estabeleceram os acordos necessários para
que permaneçam ali menos preocupados, pois a incerteza de que retornarão para
suas casas seguros não desaparece.
Este sentimento de insegurança não é atributo exclusivo dos michês que
fazem programa no Centro, ele atravessa a sociedade como um todo de uma
maneira ou outra. Os próprios garotos de programa são alvo da desconfiança de
outros sujeitos que compõem a cena noturna, desde seus clientes como aqueles
que apenas passam pelo ponto.
No processo de inserção em campo e elegibilidade daqueles que nos
concederiam entrevista, a questão relativa ao segredo que a ser mantido, nos
101
pareceu elemento que veio dificultar o trabalho: recusas, “sumiços” e justificativas
para não atender nossa solicitação foram constantes, tal como o repasse de
informações desencontradas. Para todos os efeitos, eu era um estranho. Por mais
que se explicasse o caráter da pesquisa, a desconfiança era perceptível nas falas
que buscavam alegar não ter disponibilidade para conversar. Enquanto eu poderia
apenas ser mais um “novato” no pedaço, a conversa fluía facilmente, os convites
para lanchar e sair juntos também.
Outro fator que pesou neste processo foi a preocupação com a
segurança, que fez com que fôssemos mais cautelosos em campo a partir do
momento em que tomamos noção dos riscos no ambiente em que estávamos nos
familiarizando. O testemunho de um incidente de agressão física mudou nossa
percepção do lugar e por consequência, nosso comportamento quando voltamos por
lá outras vezes.
Por estas e outras circunstância é que afirmamos que o campo ditou o
ritmo desta pesquisa. Assim como, a partir dele, outras categorias se apresentaram
num movimento que nos fez redefinir leituras, repensar estratégias de inserção e
refletir sobre os limites e possibilidades de nossa empreitada. Quanto mais nos
aproximávamos do nosso objeto mais elementos desafiadores surgiam, ao mesmo
tempo em que, novas possibilidades também se apresentavam.
As relações de poder imbricadas no entorno do ponto eram tensas e
instáveis. A rua em si, é um ambiente desprotegido, pois trata-se de um espaço
aberto, acessível a todo aquele que deseje e possa estar ali. O trânsito é livre e
arriscado. Em algum momento, todos somos estrangeiros um dos outros e até que
se construam pontes de confiança, qualquer um é suspeito. Nas sociedades
modernas, essas pontes são cada vez mais frágeis.
A partir deste paradigma da desconfiança e do descrédito entre indivíduos
e grupos é que podemos tentar desenhar a dinâmica das relações das noites
urbanas do Centro de Fortaleza. Para fins de análise, a terminologia grupo engloba
também os representantes da corporação policial.
Nosso estudo permitiu identificar além da existência de uma rede de
relações de poder, um ciclo de desconfianças ou de “confianças líquidas” que
envolve a todos que de uma maneira ou de outra interagem no ponto de prostituição.
Os conflitos partem justamente desta falta de confiança por parte
daqueles que se sentem ameaçados em virtudes das experiências anteriores e dos
102
resultados dos contatos: um deles é o dono dos cines-pornôs que desconfia da
atuação dos michês na rua, que podem praticar crimes contra seus clientes e
ameaçar o sigilo das suas identidades.
Esta dinâmica de desconfianças e incertezas não é impeditivo para que
se tente construir acordos entre os sujeitos envolvidos. Acertos em torno da
ocupação da esquina onde funciona o “ponto” parecem se repetir da mesma forma
como costumam ser descumpridos. No que diz respeito a esta questão, a ausência
da fala do dos “cinemões” interferiu em nossa análise que se restringiu a uma rápida
conversa com um de seus funcionários. Extrapolando os limites de acordo entre as
partes, a polícia é chamada para intervir, pois entende-se que a instituição possui
legitimidade para solucionar o problema, mesmo que de forma pontual.
O exemplo acima citado não quer dizer que os policiais só se fazem
presente quando chamados. O grupo da Polícia Militar que investigamos, o Ronda
do Quarteirão, tem seu trabalho caracterizado pela presença ostensiva nas suas
áreas de atuação. Segundo os próprios michês os mesmo convivem de forma mais
tranquila ao comparar com as práticas das “outras polícias”, e com as experiências
de anos atrás. Na opinião dos policiais, os garotos de programas são mais discretos
e causam menos problemas se comparados às travestis.
Há um entendimento por parte dos policiais, que os conflitos que possam
surgir internamente no grupo de michês e com outros sujeitos que fazem parte da
dinâmica do local, tendem a ser resolvidos entre as partes. Compreende-se que a
presença de uma viatura haveria de inibir o pleno exercício das atividades do
“ponto”, visto que parcela significativa dos clientes, seja dos michês, seja dos cinespornôs buscam garantir o segredo de suas ações.
Apesar de das experiências negativas com outros contingentes policiais, e
em épocas distintas, a falta de confiança na polícia, em nosso caso, está muito mais
atrelada à ideia de que ela “não resolve”. Chamar a polícia, registrar um boletim de
ocorrência seria apenas uma perda de tempo. São os resultados da atuação policial
que não correspondem aos anseios daqueles que cobram a sua atuação. Fato
reconhecido pelos policiais que confirma que por muitas vezes, as soluções que as
população busca ferem o estatuto legal.
A ideia de que não adianta chamar a polícia é reforçada pelos michês que
afirmam que quando a polícia vai embora são eles que ficam no local e tem que dar
respostas aos seus problemas. De maneira semelhante, na falta de uma solução de
103
acordo com os anseios do dono dos cinemões sobre a problemática da ocupação da
esquina, o mesmo vai se valer da contratação de um segurança particular.
Podemos concluir então, que as relações entre michês e policiais do
Ronda do Quarteirão no são permeadas pelo reconhecimento de que ambos os
grupos possuem suas dinâmicas próprias e que o último só interfere de forma mais
incisiva no pedaço do outro quando acionados. De modo geral, as demandas não
chegam até a polícia, pois a instituição é desacreditada pelos michês que não
confiam na sua capacidade de resolução dos conflitos, e apesar do modo
diferenciado de atuação dos policiais “de farda azul”, algumas experiências
passadas influenciam para que a desconfiança em relação aos representantes da
segurança pública resista.
Acreditamos que mais que encontrar respostas para as nossas
indagações iniciais, este estudo abre a possibilidade de refletirmos sobre novos
questionamentos. Os resultados nos interessam tanto quanto as interrogações que
surgiram ao longo do processo, pois a partir delas é que podemos imaginar outros
desdobramentos. Por fim, para cada questão que parece se fechar, outras
desabrocham como flores no jardim das ideias, ao qual desejo retornar para colhêlas em buscas das respostas que as mesmas suscitam.
104
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ANEXOS
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ANEXO A – Reportagem do Diário do Nordeste do dia 23 de novembro de 1988
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as relações entre michês e polícia num ponto de prostituição